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A população ribeirinha de Januária MG:

Estudando a dinâmica vazanteira dos ribeirinhos da colônia Z-2

2-Introdução:
Desde os primórdios da sua formação territorial e colonização, o Brasil, que
antes de ter as suas terras ocupadas e exploradas pelos portugueses, já
haviam seres que habitavam e residiam em suas terras (como os
Indígenas), sendo que, em sua maior parte localizavam-se em terras situada
as margens do Oceano Atlântico, ou seja, no litoral do mencionado país.

Durante o período da colonização, aqui merecendo destaque a presença


lusitana que deu início a expansão do território brasileiro, pela sua vasta
exploração a procura de recursos econômicos, vários povos se - destacaram
por viver numa política escravista de exploração feita pelos donos de terras
daquela época. E que posteriormente vieram a desencadear uma série de
fugas para viverem longe desta política de escravidão, dando origem aí a
novos grupos étnicos no país como os geraizeiros, os quilombolas, os
cerradeiros, os ribeirinhos, os mangazeiros, e outros grupos que se
destacaram principalmente por viverem e continuam vivendo as margens
de algum rio, no caso aqui cito principalmente o Rio São Francisco. São as
consideradas populações tradicionais que passaram a desenvolver
atividades que garantissem a extração dos recursos necessários a sua
sobrevivência como: o desenvolvimento de culturas agrícolas, caça, pesca,
coleta e além de promover a existência de sua própria cultura, religião,
rituais, mitos e festas que os caracterizavam como tais povos mencionados
acima.

Como nos remediar a este passado e não relembrar dos quilombos que
viviam refugiados dos seus cativeiros, onde eram forçados a trabalhar nos
engenhos dos senhores donos de terras, sem contar que estes mesmos
quilombos eram negros trazidos da África para o Brasil, os povos que vivem
nos mangues em busca do seu alimento através da coleta e caça dos
caranguejos e alem é claro da pesca, os geraizeiros que cultivam o seu
alimento em seu próprio quintal e que às vezes são vendidos em ruas e
feiras das cidades.

Mas dentre esses povos, vamos conhecer ao longo deste processo a vida do
povo ribeirinho e suas estruturas organizacionais para o desenvolvimento
da cultura de sobrevivência na cidade de Januária / MG, e os problemas que
hoje afetam as suas relações de trabalho por causa da introdução de
animais em seus territórios de vazante e a sua conseqüente
desterritorialização.

O objetivo é compreender como este problema vem ocorrendo nestes


últimos anos e acompanhar como tem sido as suas vidas após esse
problema.

Para o desenvolvimento deste trabalho utilizaremos de uma metodologia de


elaboração de questionário, pesquisa a campo, entrevistas com moradores
do bairro, assim como, o uso de ferramentas de registro como maquinas
digitais e outros.
3-Objetivos:

Objetivo geral:

Compreender e conhecer as conseqüências surgidas a partir da introdução


de animais nas vazantes.

Objetivos específicos:

Caracterizar quem são e como são as famílias ribeirinhas da colônia

Z-2;

Analisar e acompanhar como se deu o desenvolvimento das técnicas


agrícolas e como é feito o cultivo de seus alimentos;

Problema:

O presente projeto foi elaborado como meio de saber o porquê que tantos
vazanteiros estavam deixando de plantar em suas vazantes de origem para
cultivá-los em locais mais longínquos. E que atinge também diretamente e
indiretamente na atividade pesqueira da comunidade.

Justificativa:

O presente trabalho de Pesquisa, busca conhecer quem são essas pessoas


ditas ribeirinhas e conhecidas como populações tradicionais e caracterizar
todo esse meio em que estão inseridos, na busca de uma compreensão da
realidade vivida por essas pessoas levando ao conhecimento da
comunidade a importância da preservação e valorização do conhecimento
tradicional por eles adquiridos.

É um meio de relacionar o conhecimento teórico à prática do dia-a-dia


dessas pessoas.

4-Hipótese

Impactos sofridos a partir da degradação do Meio Ambiente;

Introdução de animais nas vazantes.

Metodologia

Para a realização do presente projeto foram utilizados:

Pesquisa a campo;

Leituras de livros;

Entrevistas com moradores da Colônia Z-2;

Participação de palestra na AVARSFJAN;

Uso de objetos tecnológicos como: Câmera Digital e MP3.


5-Referencial teórico

Como mencionado anteriormente e citado sobre alguns povos que se


destacam por viverem às margens de rios, os povos ribeirinhos, tema deste
projeto, são populações típicas que vivem próximos ou até mesmos em
áreas de vazantes de rios como no caso do Rio São Francisco. Muitos destes
povos que sobrevivem tanto das águas dos rios como de suas vazantes
surgiram a partir da proliferação de gado que se estendia pelo nordeste
brasileiro na era da cana-de-açúcar durante o século XVIII, além da busca
incessante dos bandeirantes a procura de ouro e de escravos. Sendo nesta
época em que o São Francisco passou a ser conhecido como O rio dos
Currais , por ter sido o único meio de transportar gado para o Norte de
Minas Gerais, ou seja, via fluvial. Meio este que transformou o São Francisco
no mais importante rio do Brasil, não só por este motivo, mas também pelo
ponto de trocas de mercadorias entre os comerciantes de outros Estados
em décadas posteriores.

[.] teve seu povoamento realizado pela sanha de bandeirantes paulistas que
adentraram a região para prear índios e dizimar quilombos; e também, pela
expansão da atividade de criação de gado por fazendeiros vindos do
nordeste subindo as margens do rio São Francisco, motivo pelo qual este rio
também ficou conhecido como o rio dos currai [.] (RESENDE & FREDSON.
2006: 91:92).

Com o tempo Januária foi crescendo cada vez mais se tornava uma cidade
promissora ao desenvolvimento econômico do Norte de Minas, sendo o
único porto de encontro para trocas e vendas de mercadorias que eram
produzidas naquela época como rapadura, sal, cachaça, farinha, etc.,

Januária passava a acolher varias pessoas que viam do Estado do Nordeste,


principalmente da Bahia, que procuravam terras as margens do Rio São
Francisco, isso acontecia por causa do acesso aos recursos hídricos e a
facilidade que se encontrava para o desenvolvimento da agricultura e da
criação de animais além da pesca, além da própria adaptação ao clima
quente da região.

Todas essas características e atividades de sobrevivência como a pesca e o


cultivo eram desempenhadas sobre uma determinada vegetação o cerrado .
Denominado como um conjunto de sobrevivência desses povos que ao
longo do tempo foram remediados para este bioma e tiveram que se
adaptar para desenvolver as suas atividades alimentícias.

As chamadas populações tradicionais do Cerrado incluem não só os


indígenas, mas também povos negros ou miscigenados que, por muito
tempo, ficaram em relativo isolamento nas áreas deste bioma, e tiveram
que adaptar seus modos de vida aos recursos naturais disponíveis. São
quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, sertanejos, ribeirinhos, que
aprenderam, ao longo de séculos, a retirar do Cerrado recursos para
alimentação, utensílios e artesanato. (NOGUEIRA, & FLEISCHER, Acesso em
04/03/2008).
Crescia-se ali um laço forte para o desenvolvimento cultural de Januária, e
cada vez mais o povo ribeirinho ganhava espaço neste cenário, pois é com
eles que Januária cresce culturalmente e expandir a sua identidade de
cidade ribeirinha calcada no plantio de milho, mandioca, melancia, além de
exercerem atividade pesqueira e possuir um Porto, marco referencial da sua
crescente economia da época. Esta relação mostra como se deu o espaço
natural e o meio social de uma população que depende tanto deste meio
para a sua sobrevivência. Como diz Ana Rieper em relação ao baixo São
Francisco:

A história das atividades produtivas no baixo São Francisco é um espelho


das formas de relação entre sociedade e natureza ao longo do tempo não
um espelho simétrico, objetivo, mas um espelho de impressões, em que as
imagens se formam de maneira difusa, podendo ser reinterpretadas
repetidas vezes.A agricultura e a pesca, fundamentais para a economia da
região e para a sobrevivência da população, têm características que não
chegam a constituir uma exceção dentro do contexto brasileiro das
populações ribeirinhas tradicionais. No entanto, possuem especificidades
ligadas ao regime de cheias do rio São Francisco e à própria história de sua
ocupação. As formas particulares como a agricultura, a pesca e o transporte
fluvial se estruturaram na região, atuam na construção de um conjunto de
valores em que o rio tem um papel fundamental na elaboração da cultura
ribeirinha. (Rieper, p.1 Acesso em 19/02/2008).

Esta população que migrava de outras áreas trazia consigo o espírito


cultural que contribuíram para a formação da cultura januarence. Pessoas
que nasceram, cresceram e viveram sob os aspectos culturais que lhes
originaram, e com eles vieram suas crendices, cantos, danças, festejos,
reisados e costumes além da típica cozinha mineira.

As populações ribeirinhas, são povos que vivem nas beiras dos rios e
geralmente são extremamente pobres e sofrem com as poluições dos
rios(esgoto)e com os assoreamentos e a erosão. As atividades
desempenhadas são o artesanato e a agricultura, sabendo que a maioria
das culturas e criações de animais são complementares à alimentação como
caça, pesca e algum extrativismo vegetal . (obtido em wikipedia, acesso em
27/03/2008).

A população ribeirinha de Januária teve sua formação calcada na imigração


de povos nordestinos vindo principalmente da Bahia, e muitos destes povos
centraram-se a margem esquerda do Rio São Francisco em busca de uma
rápida adaptação do espaço em que estavam habitualmente convivendo no
Nordeste. Esta população não encontrou muitas dificuldades para se
adaptar ao novo território, encontrando recursos para a sua habitação e
sustento.

A população ribeirinha que vive hoje na comunidade da colônia Z2 de


Januária, 50% delas têm heranças nordestinas, são de famílias que vieram
da Bahia pelas rotas fluviais do Rio São Francisco remetendo-nos ao
passado histórico da formação do Norte de Minas Gerais e que se
territotializaram na cidade para desenvolver suas atividades pesqueiras e
agrícolas.

Januária está localizada no Norte de Minas Gerais, as margens direita do Rio


São Francisco, e suas características geográficas predominantes são:

Clima É tropical com transição para semi-árido. A temperatura máxima


atinge 38º C, a mínima 12,6º C e a média anual é de 26, 30º C. As chuvas
são escassas e concentradas no verão. Elas acontecem de outubro a
fevereiro e às vezes vão até março.

Vegetação Graças à deficiência de água no solo e ao forte calor, a


vegetação de Januária é xeromorfa, ou seja, tem formas adaptadas à seca,
e é composta por cerrado, matas secas, caatinga e veredas cobertas de
buritis. A última é uma palmeira-leque cujo o fruto é uma noz amarela muito
usada na indústria de cosméticos.Outras espécies típicas da região estão
aroeira, tinguí, murici, pequizeiros, jatobá, araticum e a mais imponente
árvore da região é a embaré, também chamada de barriguda.

O relevo da cidade tem topografia plana com leves ondulações, uma


característica típica do norte e nordeste de Minas Gerais. O subsolo da
região é composto por rochas sedimentares do grupo bambuí, arcóseos,
siltitos, calcáreos e dolomitos, em partes revestido por sedimentos mais
recentes, arenitos, conglomerados, da formação urucuia e também por uma
cobertura de detrítico-laterífica. A área territorial de Januária é de 6.691,17
Km2. A altitude máxima é de 794 m, no Morro do Itapiraçaba, e mínima, 444
m, na Foz do Rio Peruaçu1.
Esta população está situada na colônia Z-2 de Januária e que esta localizada
na Região Sul de Januária, na Rua Anísio Jose da Rocha, conhecida como
Rua de Baixo . A colônia Z-2 é uma forma de associação onde o seu objetivo
é em ajudar os pescadores a manter um preço fixo sobre o pescado,
banindo assim os atravessadores, e tem por finalidade representar e
defender direitos e interesses dos seus associados e está subordinada à
FEDERAÇÃO DOS PESCADORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS e a
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS PESCADORES.

A atividade agrícola de vazante surgiu juntamente com a pesca como uma


das necessidades para aumentar tanto os recursos alimentares como
financeiros, esta atividade hoje é exercida na maioria das vezes pelas
mulheres, sendo que seus maridos são designados a exercer a atividade
pesqueira. As terras usadas para o plantio, são terras que se localizam as
margens do Rio São Francisco, sendo que estas terras fazem parte da União
e da Marinha, por ser uma área de preservação permanente. Mas, o que
pode definir como sendo propriedades de vazanteiros é o costume de uso e
a sua relação com o meio, ou seja, de uma área consolidada, sendo estas
terras passadas para os seus familiares mais próximos ou podendo ocorrer
à venda de alguns hectares. Cada família tem uma pequena porção de terra
onde eles produzem e colhem o seu próprio alimento.

Os solos onde são produzidos os seus alimentos são altamente férteis. Estes
solos de vazantes são aluviais possuindo assim boas condições para o
cultivo.

Nesta agricultura destaca-se o cultivo de verduras, legumes e frutas, além


de plantas medicinais. Costuma-se plantar milho, feijão de arranca,
melancia, cana, abóbora, tempero verde, alface, tomate, melão, capim-
santo, erva cidreira. As formas e técnicas de cultivo usado pelo ribeirinho
ainda são tradicionais , se apropriando de ferramentas comuns como
enxada para arar o solo, foice, machado, plantadeira, etc. Segundo SIDIVAN
e FREDSON:

A agricultura de vazante no município de Januária ainda é uma atividade


que apesar de ser praticada em sistema de cultivo tradicional e possuir
baixo nível tecnológico, em alguns casos constatamos certa intensificação
da produção por meio da utilização de maquinas para o preparo da terra. No
entanto, as técnicas mais comuns são tradicionais, sendo que a limpeza do
terreno é feita manualmente e por meio de queimada. (2006, p. 94).
A máquina aqui citada por eles, geralmente o mais usado é o trator,
servindo para fazer toda a limpeza do terreno, mas, um fato tanto curioso,
pois para ter direito ao uso desta máquina é preciso pagar um valor de R$
2,00 a R$ 3,00 (dois a três reais) por hora do seu uso. Que é pago a
Associação dos Vazanteiros, sendo que existe somente um trator e que se
encontra hoje parado sem utilização.

A Associação dos Vazanteiros está localizada no Bairro Cerâmica no


município de Januária conhecida como AVARSFJAN (Associação dos
Vazanteiros e Ribeirinho do Rio São Francisco de Januária), onde todos são
associados e registrados como vazanteiros e que se utilizam das terras para
o cultivo. Associação serve de suporte e conta com o apoio do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Januária.

A Associação hoje é presidida por Ivanete Rufino Alves, sendo esta,


secretária do Sindicato dos Produtores Rurais de Januária.

Esta associação serve também como meio de obter alguns direitos como
arrumar empréstimos para aplicar na produção agrícola, auxílio
maternidade, auxílio a doenças, meios de transporte para ajudar na limpeza
do terreno e recebem sementes para o cultivo. Segundo Ivanete2 A
associação da suporte aos vazanteiros na distribuição de sementes e
equipamentos , sendo estas sementes doadas pela EMATER. A foto1 mostra
a AVARSFJAN.

Foto1, AVARSFJAN

Fonte: José Leonardo, 2008

Entender o povo ribeirinho é conhecer a sua própria história de vida, nós


que somos moradores desta comunidade sabemos muito bem o que é ser
um ribeirinho. Mas falar deste povo sem caracterizar as influências que o
Rio São Francisco conhecido pelos seus moradores de Velho Chico causa em
nossas vidas é desperdiçar metade deste conhecimento. Em uma palestra
realizada na Associação dos Vazanteiros, o senhor Santos3, um velho
pescador e vazanteiro conhecedor dessa nossa cultura, um dos líderes da
associação que ajuda a população ribeirinha a manter os seus costumes. Ao
Perguntá-lo sobre a importância da vazante para eles, assim relatou: é da
vazante que tiramos o nosso sustento para as nossas famílias, lá nóis
plantamos e pescamos por isso, ela é importante, grande importância , em
outro momento respondeu-me sobre o São Francisco, segundo Sr. Santos:
há! Esse é fundamental né, esse não tem, não tem, não tem nem historia
pra falar do São Francisco, esse é o pai da nossa Januária, criou os meus
fios, todos criados, fui criado nesse São Francisco, e tenho tristeza de vê a
altura que o São Francisco vevi hoje o que vem se passando é a minha
maior tristeza, é uma amizade fraterna pelo São Francisco .

Foto1, José dos Santos Neves Miranda (Sr. Santos).

Fonte: José Leonardo, 2008

É uma população tipicamente tradicional que depende dos recursos da


natureza para o sustento da família e tem uma íntima ligação com a
mesma.

Esta população é considerada tradicional porque tem íntima ligação com a


natureza e a conhece profundamente e depende do seu ciclo, noção de
território e espaço, ocupação de território por várias gerações, pelas
atividades de subsistências, pelo reduzido acúmulo de capital, importância
às simbologias, mitos, rituais, pesca e extrativismo, pelos recursos
utilizados na atividade, sobressaindo ferramentas artesanais, pelo fraco
poder político.

O Rio São Francisco faz parte desta história de vida de cada morador, não
somente daqueles que vivem em suas margens, mas também, de quem
vive ao longe do teu olhar. Este tema mostra como se dá a relação entre o
homem e a natureza e uma constante harmonia de tristeza e solidão.
Segundo Frei Luiz Flávio Cappio, Bispo Diocesano em Barra (BA): O rio é o
pai e a mãe de todo povo brasileiro e diz:

É do rio que o povo tira a água que bebe; é o rio que dá possibilidades à
cultura de vazante, quando os pequenos produtores plantam na beira do rio,
nas ilhas. É o rio que fornece o peixe, já em extinção, para que eles possam
comer.
Então, a população ribeirinha vai depender fundamentalmente do rio para
tirar os recursos para sua própria sobrevivência, e principalmente da
ocorrência do seu ciclo de cheia e vazante.

A população ribeirinha depende deste ciclo porque é através da cheia que


os peixes desovam e procriam suas espécies é o fenômeno chamado de
Piracema4. Neste período é proibida a pesca e é através da vazante que o
solo se fertiliza com as matérias orgânicas deixadas pela seca formando o
lameiro nas suas margens dando assim maiores possibilidades para o
cultivo dos seus alimentos. De acordo com Frei Luiz Flávio Cappio ele diz:

Toda vida do povo ribeirinho é marcada profundamente pelo ciclo do rio. O


povo vive em função do rio. Percebemos que rio e povo são a mesma coisa.
Se o rio estiver saudável, o povo estará saudável. Se o rio estiver doente, o
povo estará doente. Se o rio morrer, o povo morrerá com seu rio.

O rio São Francisco é fundamental para a sobrevivência de todo o povo


ribeirinho. (Acessado em 27/02/2008).

Aqui Frei Luiz Flavio Cappio coloca exatamente a importância do ciclo do rio
para a população ribeirinha e realmente se não houver este ciclo não
haverá produtividade na agricultura tão somente na pesca que ficará
escassa e diminuíra o pescado, trazendo um grande desconforto para esta
população que usa destas atividades para sobreviver.

Infelizmente o que se vê hoje é uma grande desestruturação no palco da


pesca e da agricultura ribeirinha, além de ocorrer uma desterritorialidade do
local de origem onde eles costumavam a plantar e pescar para locais mais
distantes, tendo ai que deixar mulheres e filhos na cidade para poder
plantar e pescar para garantir o sustento da família e às vezes acabam por
decidirem em ate morar nestes locais.

Os motivos que estão levando os ribeirinhos a fazerem isto são claros: o


ciclo do rio já não ocorre como nas décadas de 50 até 60, pois com a
criação da represa de Três Marias que tem como objetivo, regularizar e
represar as águas para gerar energia elétrica as cheias e as vazantes não
foram mais constantes como antes e principalmente pela introdução de
animais que vem ocorrendo há mais de quatro anos, isso acaba destruindo
plantações e podendo ocorrer à compactação do solo, ou seja, o
endurecimento do solo a partir do pisoteamento dos animais.

Mas, além destes problemas, o São Francisco vem sofrendo com os


problemas ambientais que afetam o nosso mundo atual e uma das suas
principais degradação é o assoreamento do seu leito, causado pela retirada
da mata ciliar. Em relação a mata ciliar o senhor Santos tem um projeto em
mente de reflorestamento desta mata ciliar. Ele propõe que cada vazanteiro
plante em suas terras pelo menos 02 mudas de plantas típicas de
resistência e de preservação da mata ciliar, mas para isso é preciso buscar
ajuda nas instituições como: o IEF, horto Florestal, IBAMA para a realização
deste projeto. Existem plantas como: o sabão, pau jaú, ingazeira, pois eles
têm a consciência dos efeitos e os problemas que o São Francisco vem
passando. Destaca-se também, a poluição das suas águas e o secamento de
alguns afluentes. Um outro problema que ocorreu no ano anterior, foi em
relação às enchentes que noano de 2007 não depositou matérias orgânicas
para a fertilização do solo, o que se viu foram depósitos de areias e ao
mesmo tempo ocasionando uma baixa na produtividade dos seus alimentos.
Segundo dona Ana5 uma moradora do bairro, ela diz que: O problema da
ultima cheia causou uma baixa na produção e pode continuar mais pra
frente. , mas deixo claro que, nem todos os problemas da degradação
ambiental são de causas naturais, pois na relação sociedade e natureza
onde o homem atua e sempre atuou apropriando-se dos seus recursos, vem
causando a destruição dos nossos patrimônios naturais de forma
injustificada.

Mas esta problemática ribeirinha passou a se destacar as classes


diferenciadas de pescadores e vazanteiros, buscando uma melhor
estabilidade financeira para ajudar na renda da família. Tornaram-se ao
mesmo tempo pescador-agricultor, são aqueles que associam a pesca à
atividade agrícola em pequenos lotes de terra, pescador-artesão é aquele
que dispõem de conhecimento e produz barcos, remos, redes, tarrafas,
agulhas, e passam a revender os seus produtos e existe aquele pescador
autônomo que não depende somente desta atividade, mas de qualquer
outra atividade que venha a surgir, para ajudar na renda da família.

Hoje a população ribeirinha da colônia Z2, vem sofrendo com o processo de


desterritorialização, e vem causando muitas modificações na sua produção
e na própria vida pessoal e familiar.

Para entendermos este processo, primeiro passaremos ao contexto do


território, e que são várias as suas abordagens e conceitos, basta entender
este território como posse de uso para produção agrícola, ou seja, entender
o território como espaço geográfico e natural onde se encontram todos os
recursos apropriados para o sustento de todas as famílias ribeirinhas.
Segundo Bernardo Mançano Fernandes: O território como espaço geográfico
contém os elementos da natureza e os espaços produzidos pelas relações
sociais .
Isto demonstra que o território tem duas vertentes: uma sobre forma de
objeto que é o próprio território e a outra sobre forma de ação, ou seja, o
ato de utilização para a produção dos vazanteiros no território.

Mas, este ato de produzir no seu próprio território está sendo alterado pela
falta de consciência de alguns criadores de gado que vem acontecendo
progressivamente durante os anos e por uma parcela dos efeitos do
aquecimento global que vem degradando o meio ambiente, mas em
pequenas escalas. Isso até agora? Em outra parte do seu artigo Bernardo
Mançano Fernandes cita território como:

Um espaço apropriado por uma determinada relação social que o produz e o


mantém a partir de uma forma de poder . Já em outra fala ele diz que: O
território é, ao mesmo tempo, uma convenção e uma confrontação.
Exatamente porque o território possui limites, possui fronteiras, é um
espaço de conflitualidades. (Acesso em 07/03/2008)

Ligando estas duas outras definições de território citado acima, com os


problemas que vem acontecendo, me remeto ao que diz Milton Santos
(1996), sobre o território, assim definido por ele de território usado , ou seja,
a partir do momento que os vazanteiros deixam de plantar neste
determinado território e os criadores de gado começam a adentrar neste
espaço, o que prevalece é sua ação de uso, fazendo com que os vazanteiros
percam espaço diante deste território, tornando as coisas mais conflituosas.

Este problema vem acontecendo principalmente pelo fator social. Existem


muitos criadores de gados e Eqüinos em nossa região, sendo que, alguns
possuem pequenas propriedades onde os seus animais podem pastar e
alimentar-se o ano todo. O que vem ocorrendo é que muitos destes
criadores de animais vêm trazendo os seus gados para as margens do rio
para fazer as mesmas atividades dos seus currais, ou seja, pasta e se
alimentar. E esquecem que ali existem propriedades onde seus donos
passam o ano plantando para obter os seus recursos para sua
sobrevivência. Com este efeito os gados além de destruírem as plantações
comendo e pisoteando destroem o solo tornando-o impermeável e pouco
fértil. Segundo Ana este problema já vem ocorrendo a mais de 04 anos . Os
motivos que estão levando os criadores de gado a fazerem isto ainda são
desconhecidos por parte de alguns, mas tem um criador que diz que não
possui terras para criá-los e por isso que faz isso. A foto 3 mostra a invasão
de gado nas vazantes do Rio São Francisco.
Foto3, gados nas vazantes.

Fonte: José Leonardo, 2008

Por conta desses fatores alguns ribeirinhos vêm se desterritorializando e


deslocando-se a cada ano que passa para lugares mais distantes para
garantir os seus recursos e principalmente manter as suas relações de
trabalho como um bom vazanteiro.

O ato de desterritorializar acontece pelo seu impedimento de agir sobre um


determinado objeto, e aqui falamos do terreno como objeto de uso para
produção dos vazanteiros e como forma de abandono, sendo que estes
vazanteiros estão em constante movimento de desterritorialização por
conta das cheias que fazem territórios desaparecerem como surgirem.
Segundo Bernardo Mançano Fernandes:

A desterritorialidade acontece com o impedimento da realização das ações


sobre um determinado espaço. Da mesma forma que a reterritorialidade
acontece com o retorno da mesma. (Acesso em 07/03/2008)

Ainda há quem resista a esses fatores e plantam normalmente em seus


terrenos, mas são poucos. Propor soluções para este problema tanto para os
vazanteiros quanto aos criadores de animais, seria uma tarefa um tanto
difícil, mas, proponho que aja ao menos um dialogo entre as partes, para
que se chegue a uma posição e quem sabe a uma solução, em relação ao
problema do uso de um mesmo território para produção de alimentos
quanto para criação de animais, sem esquecer que este problema de
criação de animais no mesmo espaço de uma plantação, foi que deu origem
a colonização da região Norte de Minas Gerais, por não haver outra solução
em relação à proliferação de gado que crescia naquela época e atrapalhava
o cultivo da cana-de-açúcar, os fazendeiros viram-se obrigados a retirar-se
do nordeste para o Norte de Minas, fazendo com que, voltem à criar seus
animais nas áreas antigas, dependendo de como estas áreas se encontram
hoje ou delimitar áreas nas vazantes que não são usadas para a agricultura
de vazante fazendo com que aja uma nova reterritorialização tanto da
produção agrícola de vazante como a criação de animais nos seus
respectivos territórios de origens.
Ainda teremos outra solução para análise futura com a plantação de
mamona, espécie esta usada para a produção do combustível do momento,
o biodiesel , e também servirá para reter os gados das vazantes, pois a sua
espécie vegetal contém uma proteína chamada ricína de grande toxidade e
de difícil digestão para animais ruminantes como é o caso do gado, isso
trará preocupações aos donos e quem sabe passaram a retirar seus gados
destes locais.

6.Referências:

HAESBAERT, Rogério. 2004. O Mito da Desterritorialização: Do Fim dos


Territórios à Multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
400p.

RESENDE, Sidivan; CABRAL, Fredson. Agricultura de Vazante no Vale do Rio


São Francisco Januária (Minas Gerais). Revista Contexto, Filosofia e Ciências
Humanas, Januária, vol.1, 2006.

Santos, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Editora Hucitec, 1996.

SOUZA FILHO, Hildo; OTÀVIO BATALHA, Mário. Gestão Integrada da


Agricultura Familiar.

http://osal.clacso.org/espanol/html/documentos/Fernandez.doc. Acesso em
07/03/2008

EM Ecologia Estado de Minas Edição Especial do Rio São Francisco.


http://www.amda.org.br/assets/files/conteudo 04 05.doc. Acesso em
19/02/2008

http://coloniapesca.sites.uol.com.br/. Acessado em 27/02/2008


http://www.canoadetolda.org.br/MemoriaBSF/A%20economia%20ribeirinha
%20e%20os%20tempos%20da%20natureza.pdf. Acesso em 04/03/2008

Sônia Maria Ribeiro de Oliveira - Minas Gerais. http://www.recid.org.br

Acessado em 21/02/2008

"http://pt.wikipedia.org/wiki/Popula%C3%A7%C3%A3o ribeirinha"

Acesso em 27/03/2008