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O FEMININO: MODERNIDADE E

SUBJETIVIDADE
Conteudista
Prof.ª Esp. Susana Zaniolo Scotton
O tema dessa unidade, “O feminino: modernidade e subjetividade”, ao
que nos parece, merece atenção especial. Falar, por exemplo, sobre o
feminino, engloba uma série de considerações, principalmente, dentro dos
discursos da psicanálise e mesmo da psicologia.
Não nos parece possível atrelar espontaneamente o feminino aos
conceitos de modernidade e subjetividade, sem antes nos valermos de
algumas considerações. Isto é, a definição ou delimitação do feminino reclama
a presença da ideia de feminilidade, feminino, enquanto adjetivo. A
feminilidade, sim, percorre os discursos presentes na modernidade e,
juntamente com o feminino, participa do processo de subjetivação. Assim, ao
feminino acrescentamos a feminilidade para que possamos apenas iniciar uma
discussão, que não tem a pretensão de abarcar todos os inúmeros elementos
presentes a respeito do feminino e da feminilidade, principalmente, no que se
refere a sua presença no pensamento moderno e contemporâneo.

Os conceitos de feminino e feminilidade


Ao falar em constituição do feminino,
estamos, antes de tudo,
falando na constituição
do sujeito psíquico.
(WOLFF)
Mesmo que o termo “feminino” e “feminilidade” sejam comumente usados
como sinônimos em muitos discursos, mesmo que haja um deslizamento e até
um tangenciamento entre seus conceitos, precisamos tentar defini-los para que
possamos operacionalizá-los da melhor forma, principalmente por estarmos no
âmbito da psicanálise e psicologia, disciplinas que trabalham tais conceitos
amplamente. Longe de esgotarmos o tema ou encerrar quaisquer discussões a
esse respeito, nossos esforços se voltam para finalidades didáticas e
posicionamentos teóricos necessários.
O termo feminino, por exemplo, em psicanálise, envolve uma carga
polissêmica1 que nos remete a inúmeras abordagens:

1
O termo polissemia significa que uma palavra, um termo, possui vários significados.

2
Quando dizemos feminino, ao que nos referimos? Ao
desenvolvimento da psicossexualidade da mulher como
proposto por Freud?; ao elemento feminino puro em homens e
mulheres como momento originário do Ser? (Winnicott); aos
processos identificatórios do materno primário, germe da
descoberta da alteridade e ao feminino primário matriz da
descoberta inicial da diferença entre os sexos? (Guignard,
1999); às perversões femininas (Welldon, 1988); a uma
posição feminina presente nos dois sexos e alicerce da
subjetividade?; ou será que estamos nos referindo ao estudo
dos papéis de gênero, condicionados pelos determinantes
sócio-culturais-ideológicos de época, que incidem em nossa
compreensão do que é masculino e feminino e que tem forte
impacto na construção das teorias e na prática psicanalíticas?
Estaríamos incluindo as diferenças entre os conceitos de
feminino e feminilidade? (HOLOVKO, 2008, p.13).

Frente a essa polissemia do termo, aqui, o feminino será entendido


como um aspecto da vida psíquica de todo ser, independente de sexo ou
gênero; diferente do conceito de feminilidade, que está relacionado ao tornar-
se feminina, mulher, resultado do entrelaçamento entre o biológico e o cultural
e cuja configuração varia conforme a época. Feminilidade, portanto, relaciona-
se também às características e comportamentos considerados por uma
determinada cultura por ser associados ou apropriados às mulheres.
Já o feminino, substantivo, distinto e separado do feminino como
adjetivo, de feminilidade e de identificação feminina, não é uma qualidade; é,
antes, um sentimento de ser, envolve a capacidade e o desejo de continência e
se estabelece tanto em mulheres quanto em homens:
Penso que o feminino se refere a esta dimensão do que é
arcaico e não representado. Um registro que se encontra em
busca de uma simbolização. A meu ver, esse feminino
constitui-se a partir do sexual, não do gênero sexual, que, na
tessitura das relações objetais, constrói uma dimensão
psíquica do que é subjetivo, qualquer que seja o gênero de
cada um, e vai se tornando simbolizável e simbolizado na

3
medida em que se constitui a mente (WOLFF, 2009, p.161,
grifos da autora).

E é a partir desse feminino que a identificação vai se tecendo, uma


identificação que pode ser feminina, e também de um senso de feminilidade. A
feminilidade se organiza nesse arranjo entre o feminino, o arcaico pulsional 2,
que encontra um objeto (mãe) que permite que o sentimento de ser vá se
organizando, e, ao mesmo tempo, vão formando modelos identificatórios,
postos em ação desde o nascimento, juntamente com a percepção do corpo
(ter ou não uma vagina). Quando nasce um bebê, menino ou menina, a mãe
trata da mesma maneira, pois são as mesmas necessidades. Os cuidados, os
afetos, próprios da função materna (da pessoa que desempenhará esse papel
de mãe) irão ser os instrumentos objetivos e subjetivos necessários para a
sobrevivência humana. Uma construção sensorial, intuitiva, atemporal, ou seja,
o tempo orgânico das necessidades básicas constituintes da essência, a
construção do self.
Essa concepção de feminino encontra respaldo em Melanie Klein (1990),
para quem a forte vinculação dos bebês, desde muito cedo, com a mãe
estrutura uma fase de desenvolvimento “feminina” e isso é independente do
sexo. Há, nesse momento, uma atitude de continência por parte do bebê
considerada tipicamente feminina.
Winnicott (2005) também parte da ideia de que a mãe é parte
fundamental desde o início da constituição psíquica. Em sua concepção, o
bebê constrói seu sentimento de ser na relação inicial com o seio, e esse
sentimento representa um elemento feminino puro, que precisa ser constituído
na relação primitiva com o seio e com a mãe. Nessa relação, há a experiência
de onipotência, em que o bebê sente que o seio e a mãe são criações suas,
conferindo-lhe um senso de continuidade. Para Winnicott, é o elemento
feminino puro que prepara o caminho para o sujeito objetivo, que possui um
self, e o senso do real, que possui um sentido de identidade. Esse elemento

2
Ou seja, o impulso mais primitivo que leva ao desejo de aderir ao seio materno.

4
feminino é essencial para a constituição psíquica, uma vez que possibilita a
noção de si mesmo3.
Para Wolff (2009), é esse feminino primordial que possibilitará o processo
de subjetivação. Claro que, nessa experiência primária corporal que o feminino
aparece como constituinte, não podemos esquecer que as diferenças
anatômicas proporcionam marcas de experiências corporais diferentes; e estas
vão constituir representações específicas nas quais o tempo, o espaço e a
sensorialidade constroem a imagem de corpo, que vai estabelecer a
identidade, incluindo a identidade sexual.

I. Subjetividade
Dentro de todos esses processos, atrelado a eles e resultado,
desencadeia-se a subjetivação, relacionada também ao meio que rodeia todo
indivíduo. Isto é, quando falamos em processo de subjetivação, subjetividade,
referimo-nos a:
[...] um terreno interno que se opõe ao mundo externo,
mas que só pode surgir deste [...]. Tal subjetividade se
desenvolve pela interiorização da cultura, que permite
expressar os anseios individuais e criticar a própria cultura que
permitiu a sua formação. A subjetividade implica a adaptação
para poder ir além dela, o que significa que pela própria
mediação da cultura o indivíduo pode pensá-la (CROCHÍK,
1998, p.1-2).

Assim, as “leis psicológicas” relacionam-se de modo profundo às leis da


sociedade e cultura, de modo que umas não se reduzem às outras, pois o
resultado desse processo é um indivíduo que se diferencia e passa a se
distinguir da cultura, embora essa continue a exigir a sua adaptação.
A feminilidade, por exemplo, completa-se a partir desse dinamismo: é, por
um lado, uma apreensão individual que dependerá da forma como o indivíduo
se constituiu (como ele “experimentou” o feminino primordial em sua relação
com a mãe, o processo de identificação e às especificidades sexuais) e, ao

3
Há outros autores que partem dessa concepção de feminino como, por exemplo, Fiorini (1994),
Cosnier (1987), Montrelay (1979).
5
mesmo tempo, a relação estabelecida com a cultura. O processo de
subjetivação, que institui a feminilidade, pode ser bem sintetizado na famosa
frase de Simone de Beauvoir (2009, p. 361): “Ninguém nasce mulher, torna-se
mulher”.
O conceito de feminilidade, portanto, também faz parte de uma
construção social, histórica e cultural, a priori, associada às mulheres. As
desordens alimentares, por exemplo, pertenceriam também a gama de
elementos que correspondem à feminilidade4.
Sendo a feminilidade também um produto da cultura, podemos perceber
como foi construída por meio dos discursos de pensadores e cientistas ao
longo dos tempos.
Aquilo que nos foi herdado por meio do discurso, de acordo com as leis
da linguagem, revela uma estrutura de pensamento. A forma de concepção da
feminilidade, em nossa cultura, por exemplo, remonta o pensamento moderno 5,
pois esse é a base do pensamento contemporâneo; ou seja, para entendermos
a feminilidade hoje é preciso rastreá-la no momento em que a sociedade
começou a discutir os papéis e os lugares dos homens e das mulheres no
mundo; momento em que as mulheres iniciaram sua participação na esfera
pública.

II. Modernidade e discursos: a construção da feminilidade.


A cultura europeia dos séculos XVIII e XIX produziu discursos cujo
sentido geral era promover uma perfeita adequação entre as mulheres e o
conjunto de atributos, funções, predicados e restrições denominados
feminilidade. Isso tem que ver com a ideia de que as mulheres seriam um
conjunto de sujeitos definidos a partir de sua natureza, de seu corpo e de suas
particularidades. Nesse momento, imperava a ideia de que a natureza feminina

4
Claro que os homens também são acometidos pelos transtornos alimentares.

5
O pensamento moderno (séc. XVII / XVIII Iluminismo) se caracterizou por sua ruptura com o
pensamento medieval (séc.V até séc. XV). Os preceitos desse momento englobavam a: valorização o
indivíduo, a consciência, a subjetividade, a experiência e a atividade crítica, em oposição às instituições, à
hierarquia, ao sistema e à aceitação dos dogmas e verdades estabelecidas, características da ordem social
medieval.

6
precisaria ser domada pela sociedade e pela educação para que assim as
mulheres pudessem cumprir o seu destino como fêmeas na sociedade
patriarcal; isto é, deveriam ocupar um único lugar social: a família e o espaço
doméstico, continentes necessários para a maternidade. Para que
correspondessem ao que se esperava delas, elas deveriam ostentar as
virtudes próprias do que era considerado feminilidade: o recato, a docilidade,
uma receptividade em relação aos desejos e necessidades dos homens e,
depois, dos filhos.
A partir do século XVIII, Foucault aponta para o surgimento de grandes
dispositivos de saber e poder sobre o sexo, sendo um deles a histerização do
corpo da mulher, entendida como um conjunto de estratégias produtoras de
uma sexualidade feminina, ou seja, uma sexualidade que deveria ser adequada
ao lugar que deve ser ocupado pela mulher na família burguesa:
Histerização do corpo da mulher: tríplice processo pelo
qual o corpo da mulher foi analisado como corpo integralmente
saturado de sexualidade; pelo qual este corpo foi integrado,
sob o efeito de uma patologia que lhe seria intrínseca, no
campo das práticas médicas; pelo qual, enfim, foi posto em
comunicação orgânica com o corpo social (cuja fecundidade
regulada deve assegurar), com o espaço familiar (do qual deve
ser elemento substancial e funcional) e com a vida das
crianças (que produz e deve garantir, através de uma
responsabilidade biológico moral que dura todo o período da
educação): a Mãe, com sua imagem em negativo, que é a
‘mulher nervosa’, constitui a forma mais visível desta
histerização. A mãe, mulher ociosa nos limites do mundo –
onde sempre deveria figurar como valor – e da família, onde
lhe atribuíam novo rol de obrigações conjugais e parentais:
assim apareceu a mulher nervosa, sofrendo de ‘vapores’; foi aí
que a histerização do corpo da mulher encontrou seu ponto de
fixação. (FOUCAULT, 2005, 99-114).

A histerização do corpo feminino é produzida por um discurso consistente


cuja função é encerrar as mulheres num único lugar, a família. Nesse sentido,

7
como não pensar no caso Dora6 e sua psicose doméstica, encerrada nos
limites do mundo e da célula familiar?
Em verdade, de acordo com Maria Rita Khel (1998), essa proliferação de
afirmações filosóficas, científicas e médicas sobre a natureza feminina e o
verdadeiro lugar determinado para elas denunciam os acontecimentos na
Europa desde o século das luzes. Isso porque a insistência com que
pensadores e cientistas afirmaram que o único lugar digno para a mulher é o
lar e sua tarefa mais importante e para a qual sua natureza a preparou, a
maternidade, pode ser pensada como reação a desordem social que se
esboçou no início do século XVII e se tornou alarmante no século XVIII,
momento em que a Revolução Francesa destruiu as fronteiras que apartavam
a esfera pública da vida privada:
Durante a revolução, as fronteiras entre a vida pública e a
vida privada mostraram grande flutuação. A coisa pública, os
espíritos públicos invadiram os domínios habitualmente
privados da vida. Não resta dúvida de que o desenvolvimento
do espaço público e a politização da vida cotidiana foram
definitivamente responsáveis pela redefinição mais clara do
espaço privado no início do século XIX. O domínio da vida
pública, principalmente entre 1789 e 1794, ampliou-se de
maneira constante, preparando o movimento romântico do
fechamento do indivíduo sobre si mesmo e da dedicação à
família, num espaço doméstico determinado com uma maior
precisão. No entanto, antes de chegar a este termo, a vida
privada iria sofrer a mais violenta agressão já vista na história
ocidental. (LYNN HUNT apud KHEL,1998, p.60).

Isso quer dizer que, para os revolucionários, nenhum detalhe da vida


privada deveria escapar ao domínio público, citando Kehl (1998, p.61): “tudo é
público, tudo é político: a vida privada se politiza, o que era visto como
condição de liberdade dos homens da República”.

6
Dora foi uma das pacientes histéricas de Freud e era uma mulher com inteligência e energia
superiores aos de seus genitores. Assim uma das hipóteses de sua histeria teria que ver com esse
encerramento numa vida doméstica muito pouco interessante, com pais limitados, em oposição à sua
grande capacidade.
8
Entre esses intensos deslocamentos entre a vida pública e privada, as
mulheres deixaram seus antigos postos e saíram às ruas, nem sempre
organizadas, mas com muita sede de participação cívica e desobediência
revolucionária, de tal forma que o teórico monarquista De Bonald afirmou que a
revolução não teria sido tão revolucionária se as mulheres não tivessem
participado. Depois, o próprio Marx afirmará que não há revolução possível
sem a participação das mulheres.
Para Sledziewski, a revolução deu às mulheres a ideia de que não eram
mais crianças, reconhecendo-lhes um lugar cívico que o antigo regime lhes
negava e, assim, elas puderam se tornar seres humanos completos, capazes
de exercerem seus direitos. No entanto, é certo também que os homens não
estavam preparados para as consequências do que Maria Rita Kehl chamou de
“a fúria do retorno do recalcado”, que significa o furor com o qual as mulheres
vieram às ruas nos primeiros períodos da revolução. De acordo com Khel
(1998, p.62): “Incendiárias, indisciplinadas, buchas de canhão nas mais
violentas insurreições populares, as mulheres estiveram na linha de frente das
manifestações públicas no final do século 18”:
Ora, sabe-se que na Europa moderna as mulheres
desempenhavam tradicionalmente o papel de agitadoras. Não
é, portanto, de admirar encontrá-las à cabeça de certas
insurreições parisienses. Em 5 de outubro de 1789, foram elas
as primeiras a se agrupar e marchar sobre Versalhes, seguidas
nessa tarde pela guarda nacional. Os levantamentos da
Primavera de 1795 começaram pelas suas manifestações [...]
elas desempenhavam o papel de bota-fogo, escreverão mais
tarde as autoridades. (DOMINIQUE GODINEAU apud KHEL,
1998, p. 62-63).

Em verdade, a participação das mulheres na Revolução Francesa tem


suas origens nos ideais de emancipação feminina do Antigo Regime,
inspirados indiretamente pelas ideias filosóficas do Iluminismo, momento em
que a valorização da autonomia do sujeito, já livre dos grilhões da religião,
atingia também as mulheres. Por exemplo, na Inglaterra e depois, na
Alemanha, as mulheres repudiavam a submissão ao casamento, a prisão da
maternidade e procuravam cultivar o intelecto e a vida mundana:
9
As ideias dos Enciclopedistas a respeito da igualdade
entre os sexos eram bastante avançadas quanto ao estatuto da
mulher no casamento e na família. Diante da criança, por
exemplo, advogavam que pai e mãe tenham os mesmos
direitos e a mesma autoridade (KHEL, 1998, p.63).

Desde o Contrato Social, Rousseau já prescrevia que a mulher deveria


ser tão livre quanto o homem na escolha do cônjuge e que tal escolha deveria
ser baseada no amor, conforme os ideais românticos.
Montesquieu também denunciou a desigualdade entre homens e
mulheres, dizendo que “a natureza não submete as mulheres aos homens”. A
heroína de Voltaire, em Nanine (1794), diz: “Minha mãe julgou-me capaz de
pensar por mim mesma e escolher por mim mesma um esposo”. Num outro
texto, Voltaire criticou a falta de escolha das moças criadas em conventos, que,
para sair daquela prisão, consideraria qualquer pretendente um libertador.
No entanto, diz Maria Rita Kehl que o pensamento das Luzes, que
produziu o início de algumas ideias feministas na Europa, ao afirmar a
emancipação individual e recusar a ideia de um sujeito submetido à lógica
divina, quando se referia as mulheres, ainda conservava a crença numa
natureza única e universal para todas elas. A ideia de natureza feminina
exprimia a certeza de que o casamento, mesmo quando fruto de seu livre
arbítrio, selaria seu destino e mostraria o lugar onde ela deveria encontrar a
felicidade. Por exemplo, o tratado de Pierre Roussel, de 1975, tornou-se uma
referência nos discursos a respeito da mulher e a representava como o oposto
complementar do homem, “tendo seu comportamento emocional e moral
determinado pela presença deste órgão misterioso, o útero, que definia
também o lugar social da mulher: o lar, na posição de mães” (KEHL, 1998,
p.66). Esse texto de Roussel foi reeditado justamente em 1793 e restaurado
pelos revolucionários que, na opinião de Lynn Hunt, “Não conseguiam suportar
a tensão criada pela invasão do espaço público no privado, e se distanciaram
progressivamente de sua criação...” (apud KEHL, p.66).
Concorcet, na Revolução Fancesa, foi o único filósofo de concepções
feministas e que denunciou toda forma de opressão sobre a mulher. Ele
considerava essencial a simetria entre os sexos em relação a todos os

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aspectos da vida social, familiar ou política. Fora esse filósofo, os
revolucionários não mostravam qualquer simpatia pelas pretensões das
mulheres.
O conceito de natureza relacionado às mulheres, que estava presente
desde o século XVIII e perdurou nas Luzes, assumiu um valor de explicador
universal, transcendente para o valor de imanência7 próprio do pensamento
científico oitocentista. Se a ideia de natureza, de algum modo, deslocou o
homem do centro do universo e eliminou toda causa metafísica e divina para o
comportamento humano, por outro lado, no que concerne à mulher, tornou-se
um argumento poderoso para escravizá-la às particularidades de sua biologia.
Diz Maria Rita Khel (1998, p.67): “Poucos homens, mesmo entre os intelectuais
mais revolucionários, aceitaram o estado de abandono que parecia ameaçar
seus lares, seus filhos e a vida conjugal como um todo em decorrência da fúria
que as mulheres se atiraram para fora de casa nas Revoluções (1789-1848)”.
Porém, nesse mesmo período, Olympe de Gouges, completando a
declaração dos Direitos dos Homens, escreveu a Declaração dos Direitos da
mulher e da cidadã, no qual se engajava na campanha por uma militância
feminina contra a tirania dos homens. Um pouco depois na Inglaterra, 1792,
Mary Wollostonecraft publicou uma reivindicação pelos direitos da mulher, no
qual afirmava que, para as mulheres, a aquisição dos direitos sociais
inexistentes ainda representava o desejo de modificações significativas em seu
destino. Dois anos antes, Condorcet já havia publicado um texto sobre a
admissão dos direitos de cidadania das mulheres, em que questionava a
exclusão das mulheres do direito de cidadania. Para ele, isso representava
equivalência a qualquer outra forma de discriminação ao espírito emancipador
da Revolução. A advertência do filósofo foi algo surpreendente, pois essa era
a primeira vez que uma voz masculina se opunha à vasta argumentação sobre
as razões naturais para a discriminação das mulheres.
No entanto, o próprio Condorcet pecou por certa leviandade masculina ao
afirmar que menstruação e gravidez poderiam ser equiparadas aos ataques de
gota e constipação sofridos por alguns homens. Na verdade, ele tinha como
7
O conceito de imanência tem que ver com aquilo que é indissociável, inseparável. Nesse
sentido, a ideia de que a natureza feminina explicava o comportamento e o caráter das mulheres esteve
profundamente atrelado ao pensamento científico durante muito tempo na história da humanidade.
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base um sentimento que mulheres como Wollostonecraft tentavam chamar
atenção e que teria que ver com o fato de uma mulher passar a maior parte da
vida sentindo-se igual aos homens, uma vez que sua experiência de vida não
tenha sido apartada da experiência masculina pela educação e convenções
sociais. Wollostonecraft afirmou ainda que as qualidades humanas independem
do sexo: “não existe sexo nas almas”, disse ela, debatendo as ideias de
Rousseau. Mais tarde (1822), a feminista francesa Frances Wright escreveu a
um amigo que a mente não teria sexo, a não ser aquele que o hábito e a
educação lhe dão. Em 1837, a escritora francesa Aurore Dupin (George Sand),
também, numa carta a um amigo, referiu-se ao seu imenso orgulho, que
poderia levá-la a um destino heróico não tivesse ela a infelicidade de nascer
mulher.
Mas as contemporâneas de Wollostonecraft e Olympe de Gouges e as
mulheres de gerações seguintes pouco compartilharam com suas ideias e
reivindicações. Peter Gay, por exemplo, citando as cartas de leitoras feministas
na Revista L’Athénée dês Dames, advertiu as mulheres quanto ao ridículo de
se questionar a superioridade masculina sobre as mulheres. Ou seja, mesmo
no período revolucionário, o entusiasmo de um grande grupo de mulheres não
correspondia à formação de um novo senso comum questionando as
diferenças naturais entre os sexos.
Geneviève Fraisse, no volume 4 da História das Mulheres, dedicou um
capítulo à história do pensamento filosófico sobre a diferença entre os sexos.
Ela citou autores, como Fitche, Kant e Hegel, que divergiram sobre o estatuto
moral e jurídico do casamento e da família, mas que concordaram inteiramente
com aquilo que Kant considerava como a incapacidade civil e a dependência
natural das mulheres. Mesmo que Kant considerasse que a mulher também era
um ser racional e que, portanto, deveria ser livre em suas escolhas, seria essa
mesma razão que destinaria a mulher a seu papel de reprodutora da espécie e
à submissão de seus interesses particulares aos da espécie, representada pela
família.
Hegel, por sua vez, reconhecia um estatuto de sujeito do lar às mulheres,
excluindo as mesmas de qualquer participação na construção das civilizações.
Para ele, a dialética entre a família e a comunidade só poderia funcionar com
base numa repressão positiva da feminilidade, a qual, entretanto, não
12
desapareceria inteiramente – como tudo que é reprimido – transformando-se,
então, na eterna ironia da comunidade.
De todos os escritores que se manifestaram a favor da volta das mulheres
ao seu estado de natureza, o mais dedicado e influente foi Rousseau, que
desenvolveu no Contrato Social o ideal de casamento baseado no amor, na
liberdade dos cônjuges e na busca da felicidade compartilhada. Esse autor se
transformou no grande propagandista das virtudes do amor materno com a
publicação de Émile (1762). Nessa obra, o capítulo V é dedicado à descrição
da esposa perfeita ao seu herói, Sofia, paradigma do ideal de feminilidade
baseado na dedicação, na doçura e na submissão. Assim, ele demonstrou ao
leitor por que a diferença sexual faz toda diferença entre os sexos. Afinal, para
a época, tal diferença determinaria a posição da mulher na espécie como
procriadora e responsável pela manutenção da prole:
Mas se Émile trata da educação, é importante
observarmos que a natureza aqui é somente o fundamento
irredutível sobre o qual se constituem homem e mulher. De
resto, os ideais de gênero para os personagens estão
claramente construídos, não mais como características naturais
e sim como desejáveis para que cada um cumpra seu papel
em sociedade – a partir de suas predisposições naturais. [...] só
existe uma mulher, esta mulher. Trata-se de aconselhar os pais
sobre como educar sua jovem filha para ser uma Sofia, isto é:
para ser Mulher (KHEL, 1998, p.72-73).

Em compensação, a educação de Emílio tinha como objetivo o


desempenho da força, do caráter, do intelecto, dos talentos, do conhecimento.
Já a educação de Sofia deveria ser restritiva: ela deveria receber somente o
essencial do mundo da cultura e desenvolver em sua personalidade apenas o
necessário para não interferir em sua virtude essencial, a modéstia. Até mesmo
os ensinamentos religiosos deveriam ser ministrados com economia.
O texto de Rousseau, ainda atual por sua enorme habilidade
argumentativa, descreveu com clareza os fundamentos do modelo de
feminilidade que dominou a Europa, principalmente nos países católicos,
durante o século seguinte. O filósofo considerou a necessidade de se aprimorar
a harmonia entre o homem e a mulher. A mulher deveria, portanto, estar sujeita
13
ao seu estado de natureza, especialmente domesticada para que seus desejos
ilimitados não destruam a ordem social e familiar. Diz Kehl (1998, p.74):
“Assim, valores como recato, pudor, vergonha são inatos à mulher, mas devem
ser cuidadosamente cultivados para servirem de freio a seus desejos que, à
diferença das fêmeas animais, não se reduzem ao ciclo biológico”.
Para Rousseau, era essencial que as mulheres fossem educadas na
vergonha e no pudor, em nome do equilíbrio das relações conjugais. E, aqui,
mais uma vez a razão foi convocada para dominar os excessos próprios da
natureza, que dotou as mulheres de uma voracidade sexual que os homens
não são capazes de satisfazer. Em verdade, a vergonha e o pudor
preservariam o casamento e a fidelidade.
Kehl afirma que a mulher aparece no discurso de Rousseau como um ser
a meio caminho entre a natureza e cultura, dotada de desejos ilimitados, mas
também de um pudor capaz de contê-los e ao mesmo tempo muito pouco
dotada de razão, ficando, por isso, a revelia dos mandos e desmandos
masculinos. Ao mesmo tempo, era essa mesma fragilidade e submissão ao
homem, atributo da educação feminina, que constituiriam os homens certos
para se formar uma família, podendo assim garantir a espécie: “as mulheres
devem se tornar, portanto, recatadas e resistentes (ao sexo) para sustentar
com seu negaceio a virilidade do parceiro; frágeis e desprotegidas para
mobilizar nele força, potência, desejo de proteção; submissas e modestas para
melhor governar a casa e a família” (KEHL, 1998, p. 76).

III. Feminilidade, processo em contínua transformação.


O modelo de Rousseau foi tão bem composto que até hoje percebemos
suas ressonâncias. Por exemplo, no século XIX, ele dominou toda produção de
saberes sobre as mulheres. Tanto isso é verdade que, na segunda metade do
século XIX, o historiador Michelet escreveu, numa pequena obra, uma reflexão
a respeito da mulher moderna e que descreve justamente a situação das
pobres mulheres das grandes cidades vítimas do egoísmo dos homens que já
não se sentem mais na obrigação de protegê-las. A mulher descrita pelo
historiador teria que ver com alguém que trabalha para seu sustento e seria
assediada pelos homens, que não tem a intenção de tomá-las em casamento.
Ou seja, não é ainda uma mulher independente e emancipada; é antes uma
14
mulher desamparada. E o autor, em seu intuito, conclamava os homens a não
deixarem as mulheres, vítimas, abandonadas; afinal, elas que haviam sido
preparadas para a tutela e obediência não saberiam cuidar sozinhas de sua
própria existência:
A fragilidade física das mulheres é argumento contra a
profissionalização, contra a exposição das mulheres ao tumulto
das ruas e à vida noturna, contra quase todos os esforços
físicos, contra o abuso nos estudos, contra os excessos
sexuais [...] a opinião pública e numerosos médicos incriminam
a fraqueza da natureza feminina: causa biológica eterna e
universal, que se arriscava a alimentar um fatalismo
insuperável (KHEL, 1998, p.77).

Yvone Knibiehler falou sobre a mortalidade das meninas, a partir dos


cinco anos, em todos os países ocidentais oitocentistas, relacionada às
próprias precauções justificada pela suposta fragilidade feminina, isto é, uma
vida menos sadia, alimentação insuficiente, falta de exercícios físicos e ar puro,
além de uma negligencia maior nos cuidados maternos e uma acolhida bem
menos calorosa desde o nascimento. O resultado disso tudo foi uma
mortalidade bem mais expressiva entre as meninas.
Mais ainda: no que concerne à sexualidade, a educação da repressão dos
“instintos” femininos resultou num estado de frigidez e histeria considerado
normal entre as moças e senhoras casadas. Uma sexualidade que só poderia
estar plenamente realizada com a maternidade. As intensidades do parto e os
prazeres do aleitamento materno seriam o auge da vida sexual das mulheres e
também de sua autoestima.
Muito se fala de violência sexual explícita como o estupro, por exemplo,
no entanto pouco se falou do abuso sexual implícito na educação, que feriu a
dignidade, a honra e violentou o direito de expressão da sexualidade,
principalmente da sexualidade feminina. Nesse sentido, é também uma
violência a discriminação da feminilidade, tida como inferior, “aliás, uma
agressão muito mais frequente que o estupro e muito mais danosa do que se
tem percebido e manifestado – aliás possivelmente uma das causas do
estupro.” (BOTTURA, 2009, p.25).

15
Porém, depois de tantas lutas ao longo do percurso histórico, as
mulheres, as mães das famílias burguesas do século XIX, não eram mais
obrigadas a ocupar o lugar de Rainhas do Lar, conquistaram direitos e
participaram e participam ativamente da sociedade; no entanto, havia - e ainda
há - um gozo nessa posição (maternidade, casamento, etc.) designada
socialmente como feminina.
De qualquer forma, no último século, o avanço das mulheres sobre todos
os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita
“natural”, entre os sexos8. O resultado disso para os homens teve o efeito de
uma perda ou mesmo de uma “feminização”. A masculinidade, construção
discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente
desconstruída. Hoje, de acordo com Khel (2007), a questão freudiana, “o que
quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: “o que é um homem?”
ou “O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?”.
Se na vida pública os lugares ocupados por homens e mulheres já se
embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece
banal, diz Khel (2007): um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher? O
resultado disso é o poder sexual das mulheres se tornar quase intolerável, com
efeitos de aumento da violência doméstica.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga
uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz.
Mesmo o casamento, que na modernidade inspirou-se na ideia de que homem
e mulher poderiam se tornar dois em um, já não é o que prometia ser.
Entretanto, esses movimentos de conquista e liberdade fluem de forma
diferente nas diferentes culturas. Há culturas em que essas questões são
discutidas de forma aberta e democrática e onde há a participação ativa de
ambos os sexos e culturas em que há a predominância da subserviência da
mulher.
Mesmo que grandes mudanças tenham acontecido, fica claro como a
questão da feminilidade ainda está atrelada à noção de natureza, de
sexualidade, de corpo e como o corpo feminino ainda é objeto de especulações

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Para saber mais, ver Maria Rita Khel, O que pode uma mulher (2007).

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diversas. O corpo reprimido das histéricas, o corpo moldado para o olhar do
outro ainda hoje, a submissão do corpo aos anseios dos outros e de si próprio,
etc. ainda é uma questão que perdura e que está profundamente ligada como
vimos a questões políticas e sociais, à expressão da liberdade. Há tanto um
retrocesso das mulheres ao casamento e suas formas arcaicas, como comenta
Kehl num outro texto de 2002, como também uma impossibilidade de viver a
maternidade de forma plena. Um dos maiores problemas das mulheres hoje é
engravidar e poder vivenciar da melhor forma seu período gestacional.
Obviamente todas essas questões influenciarão na vida social como um todo,
coibindo progressos e retrocessos.

IV. Feminilidade e transtornos alimentares.


As mudanças sofridas no âmbito da feminilidade modificam os processos
de subjetivação, pois esses processos também se moldam ao modo como à
feminilidade se constitui, como é produzida pela cultura ao longo dos tempos. A
feminilidade, enquanto expressão cultural, está relacionada à forma com a qual
a mulher lida com seu corpo, com sua vida. A feminilidade até então foi mais
uma construção dos homens do que propriamente das mulheres. Por meio dos
discursos masculinos, houve a exaltação da vida da mulher ligada
exclusivamente à maternidade e aos cuidados do lar, a exaltação dos atributos
de delicadeza, pureza, bondade e ingenuidade.
No entanto, o feminino, enquanto formação psíquica fundante, não
corresponde a essa feminilidade, porém participa de forma essencial no
processo de subjetivação. A constituição do feminino, enquanto substantivo
masculino, tem que ver com as primeiras relações do bebê, independente do
sexo, com a mãe. Como a mãe recebe, alimenta e conforta esse ser será
fundamental para as primeiras sensações de conforto e proteção. A relação da
mãe com o corpo do filho influenciará - mais tarde ao longo do seu
desenvolvimento - a forma como esta criança se relacionará com o seu próprio
corpo.
Os transtornos alimentares têm sua origem nessas primeiras relações
com a mãe, com a identificação e com o processo de subjetivação e dialogam
também, em alguma instância, com a feminilidade, isto é, com os valores
sociais atribuídos ao corpo feminino. Mesmo que haja um determinado apelo
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social de beleza (como no caso das anoréxicas e bulímicas) é preciso que
tenha algo nessa primeira relação com a mãe para que os transtornos se
estabeleçam. Os transtornos englobam, portanto, o feminino primordial, o
processo de subjetivação e, assim, como a feminilidade é construída /
absorvida por essas pessoas.

18
REFERÊNCIAS:

BOTTURA, W. Agressões silenciosas, o contágio pela comunicação.


República Literária: João Monlevade (MG), 2009.

CROCHIK, J.L. Os desafios atuais do estudo da subjetividade na


Psicologia. Psicol. USP [online]. vol.9, n.2, pp. 69-85, 1998. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
65641998000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 20 dez.2012.

FOUCAULT, M. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de


Janeiro: Edições Graal, 2005.

HOLOKOVO, C.S. O feminino. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 42, n.


4, pp. 13-14, São Paulo, dez.2008.
KHEL, M. R. O que pode uma mulher? (2007). Disponível em:
<http://www.mariaritakehl.psc.br/conteudo.php?id=166>. Acesso em: 13.
dez.2012.

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KLEIN, M. Los efectos de las situaciones tempranas de ansiedad sobre el


desarrollo sexual de la niña. In KLEIN, M. El psicoanalisis de niños. Buenos
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WINICOTT, D. W. Sobre os elementos femininos e masculinos ex-


cindidos. In: WINICOTT, D. W. Explorações psicanalíticas. Porto Alegre:
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WOLFF, M. P. Reflexões sobre o feminino. Jornal de Psicanálise, v.42


n.77, pp. 157-165, São Paulo, dez. 2009.

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