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BARBOSA, Raoni Borges.

Para além de uma Antropologia Sintética: breve abordagem do modelo analítico


wagneriano de cultura. Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia, v.2, n.4, p. 141-149,
março de 2018. ISSN 2526-4702.
Resenha
http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

Para além de uma Antropologia Sintética: breve abordagem do modelo


analítico wagneriano de cultura
Beyond a Synthetic Anthropology: a brief approach to the wagnerian analytic model of culture

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


No ato de inventar outra cultura, o antropólogo inventa
a sua própria e acaba por reinventar a própria noção
de cultura. (2012, p. 43).
A antropologia é o estudo do homem “como se”
houvesse cultura. (2012, p. 56).
Nesse clássico da teoria antropológica, Roy Wagner apresenta ao leitor o seu modelo
analítico de cultura, amadurecido ao longo de uma intensa experiência de campo entre os
Daribi, na Nova Guiné, cuja configuração cultural é posta em análise comparada com a
moderna cultura norte-americana de classe média. Publicado originalmente em 1975 como
The Invention of Culture, o estudo em tela discute a lógica interna de ação (e de reprodução)
social no âmbito de cosmologias e de mundos sociais a partir das classificações culturais do
inato, impassível de controle humano, e do contingente e humanamente construído.
Essa binarização cultural da realidade, para Wagner um elemento universal de
qualquer mundo social culturalmente edificado, constitui a pedra angular do seu modelo
analítico de cultura, cujos conceitos centrais são o de invenção, de controle, de obviação, de
convenção e de operação diferenciante e coletivizante. A dialética do jogo social, tensionado
no exercício individual de ação portadora de sentido para si e para o outro, ocorre, nessa linha
argumentativa, como operação diferenciante e coletivizante organizada em múltiplas camadas
de significação.
Por um lado, a ação individual configura uma operação diferenciante da personalidade
individual em relação à coletividade social, para a qual, a posteriori, deverá integrar-se através
de uma operação coletivizante; por outro lado, a operação diferenciante reafirma a fronteira
entre os domínios do inato e do controle humano, de modo que a ação social enquanto cultura
produz, por obviação, a própria natureza enquanto limite de classificação da própria cultura,
isto é, o inato se apresenta como a experiência limite do controle humano percebida em
processo de obviação reflexiva. A ação social, com efeito, para além de obviar o inato e de
tensionar a formação social da qual a personalidade individual busca diferenciar-se para, ato
contínuo, integrar-se inventivamente, revela, ainda, as formas possíveis de controle individual
e coletivo do que é culturalmente convencionalizado.
A invenção e a reinvenção cotidiana da cultura como processo dialético movido pela
ação reciprocamente orientada de personalidades individuais no âmbito de uma cosmologia
ou mundo social dado, - do que é classificado como convenção no domínio do controle
humano, em oposição ao domínio do inato, - consiste, portanto, no argumento e na
preocupação central de Wagner. Trata-se, com isso, de um modelo analítico do social e da
cultura que busca contemplar um dos dilemas centrais do pensamento social ocidental: o jogo
dialético entre indivíduo e sociedade, percebido na forma como sentidos sociais podem ser
individualmente construídos mediante uma reinvenção do culturalmente convencional que,
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em um primeiro momento, sofre um controle diferenciante e, logo em seguida, é transformado


através de um controle coletivizante em objeto cultural passível de comunicação.
Na tradição da Hermenêutica, do Interpretativismo e da Antropologia Simbólica, com
efeito, Wagner introduz a sua obra referindo-se dialogicamente a Kant e Sartre, a Geertz1, e a
Sperber, Barth e Castañeda2. Dialoga, ainda, em uma retórica estruturalista de tons fortemente
durkheimianos3, com Lévi-Strauss4 e com Dumont5; sem, contudo, deixar de explicitar a
influência da Ecologia Simbólica batesoniana6 na organização do seu modelo analítico de
cultura enquanto figuração simbólica de formas de controle para a mediação das situações
sociais dialeticamente tensionadas pelos domínios do inato e da responsabilidade humana.
Este amontoado de referências teórico-metodológicas, de acordo com o próprio autor,
diz muito sobre a incapacidade de a Antropologia de institucionalizar suas tensões
fundamentais: uma disciplina acadêmica impassível a revoluções paradigmáticas; antes uma
galeria museológica de fósseis teórico-metodológicos e de abordagens temáticas. O
pensamento antropológico, uma forma típica e pitorescamente ocidental de relativização da
alteridade a partir de si e de controle coletivizante das tensões inerentes à cultura em que
emerge como forma de representação, repete a inflexão ocidental de compreender a tensão da
dialética sócio-cultural como história, como teleologia e como escatologia.
A cultura ocidental, portanto, organiza simbolicamente o fenômeno da mudança a
partir de um modo de simbolização coletivizante da experiência, classificada como momento
individual de produção de sentidos e de situações culturais a ser coletivamente comunicado
através da invenção e da reinvenção da cultura. Este modo de simbolização não somente
mascara a dialética da cultura, experimentada cotidianamente nas tensões entre indivíduo e
sociedade, mas também registra os domínios do inato e da responsabilidade humana como
1
Em A interpretação das culturas, Geertz (1978) pontua a possibilidade de entendimento da cultura como uma
textualidade simbólica densa e pública, cujo uso comum revela os modos de ação (Ethos) e os modos de
realidade (Visão de Mundo) tacitamente aceitos por uma coletividade na condição de formas de controle
legítimos da conduta humana individual e coletiva. Nesse sentido, caberia ao antropólogo aprender a interpretar,
da perspectiva do nativo, o texto cultural com que se confronta em trabalho de campo.
2
Sperber (1975), Barth (1975) e Castañeda (1974), no entender de Wagner, desenvolveram importantes
contribuições no âmbito da Antropologia Simbólica e da Teoria dos Símbolos. Contudo, os três autores falham
em perceber a importância e os possíveis modos de simbolização das culturas humanas, uma vez que eles tratam
a própria noção de símbolo como elemento comunicacional de maneira dissociada do processo cotidiano de
invenção e de reinvenção da cultura.
3
Em As formas elementares da vida religiosa, Durkheim (1996) postula como a religião constitui a forma
fundamental e universal de classificação social, da qual emergem, em processos de efervescência e de coerção
social, as demais formas sociais de classificação que compõem e organizam a estrutura social que externa e
imperativamente transforma animais humanos em pessoas a partir do ato fundante da obrigatoriedade e da
objetividade do social sobre a subjetividade, socialmente construída, o ato da associação de espíritos para a
formação da hiperespiritualidade: o próprio social. Para Durkheim, a classificação fundamental e elementar
operada pela religião consiste na binarização do mundo entre o domínio do sagrado e o domínio do profano.
4
Em O pensamento selvagem, Lévi-Strauss (1989) discute os processos de universalização e de particularização
de estruturas semânticas, aludidas por Wagner como modelo de apoio ao que define como expressões
socializantes ou coletivas e expressões individuativas. Wagner, nesse sentido, desloca a discussão sobre os
processos cotidianos de invenção da cultura, e do social, do terreno estruturalista lévi-straussiano, para situá-lo
em uma dinâmica contextual-interativa entre atores sociais, ou personalidades individuais, cuja comunicação
mediada por símbolos e dialeticamente tensionada gera ad infinitum possibilidades de simbolização
diferenciante e coletivizante do experenciado enquanto individualidade social e enquanto unidade coletivizante.
5
Em Homo Hierarchichus e Homo Aequalis, Dumont (1993) faz uma análise antropológica da ideologia
moderna de individualismo e de ideologias tradicionais de holismo, não somente escavando a gênese destas
ideologias enquanto modos de constituição da ação dos atores e agentes sociais, mas também as situando como
elemento destacado na formação de tramas relacionais mais ou menos exigentes no sentido da conformação da
personalidade individual em relação ao grupo.
6
Em Naven, Bateson (2006) discute a cultura Iatmul a partir dos pressupostos social-estruturalistas da
Antropologia Britânica. O autor inova analiticamente, contudo, ao desenvolver uma abordagem interacional de
sócio-estruturas culturais em relação de tensão: os processos simétricos e complementares de cismogênese.

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uma incessante busca de expansão da cultura como controle da natureza e, também, da cultura
como uma pluralidade de leituras individualistas, individualizantes e individuantes dos
produtos interacionais cotidianos a partir de repertórios simbólicos coletivos, mas
personalizados, para serem novamente coletivizados como invenção criativa.
Nessa figuração simbólica estaria a motivação ocidental intrínseca do fazer pelo fazer,
- do inventar e reinventar, do relativizar, diferenciar e coletivizar, - que se organiza a partir
das presunções básicas da cultura como criatividade e como invenção, movimentada na
dialética entre um Eu que se autopercebe como personalidade individual dotada de agência e
destacada volitivamente de sua coletividade referencial e de um grupo social que
metaforicamente representa a sociedade como soma de unidades actanciais em interação tensa
e conflitual orientada para projetos futuros de transformação social e cultural. A invenção
criativa da Cultura, do Eu e da Sociedade, nesse sentido, constituem a dinâmica cultural
própria da sociedade moderna ocidental funcionalmente diferenciada e segmentada em
subsistemas auto-referenciais de produção da realidade, em que cada subsistema social, ou
lógica actancial e gramática de sentidos, produz o mascaramento da tensão dialética que o
movimenta.
Este mascaramento da invenção de situações culturais Wagner define como uma
prática cultural ocidental cotidiana de cooptação da invenção. O processo de cooptação ou
mascaramento da invenção ocorre na medida em que a experiência singular da personalidade
individual, ao enquadrar-se nos modelos coletivos de comunicação (à própria convenção que
buscou diferenciar), acaba por reproduzir em um modo coletivizante, - ainda que não assuma
este fato, - a convenção que buscou anteriormente relativizar. Esta dinâmica de reprodução
sistêmica de novidades, a partir de códigos ou gramática culturais acionados por agentes
individuais em constante ânsia de reconhecimento público, responde à pergunta provocativa
de Wagner sobre o resultado da produção antropológica: mais Antropologia.
Esse argumento, com efeito, constitui a base da crítica wagneriana ao que entende
como Antropologia Sintética: o exercício da objetificação da alteridade postulada como
variação de um fenômeno humano universal, - mas concretamente vivido em uma das suas
possibilidades históricas e geográficas específicas de expressão de sentidos correlacionados.
Este fenômeno universal, visível em formatos singulares, seria passível de aprendizado, de
análise e de comparação relativizadora com base nas classificações do observador, isto é, do
antropólogo que comunica a tradução da cultura estrangeira, como cultura, em seus termos
nativos para a sua platéia também nativa.
O pesquisador em campo, desta forma, apreende a cultura estrangeira na medida em
que enquadra as situações sociais, os personagens individuais e coletivos, as paisagens
semânticas e as gramáticas comunicacionais destas nas suas possibilidades interpretativas e
nos parâmetros do seu olhar já social e culturalmente construído, mas, agora, relativizados
para a invenção da cultura estrangeira e para a reinvenção da sua própria cultura. De acordo
com Wagner (2012 p.51s):
Uma vez que a nova situação tenha sido objetificada como “cultura”, é possível
dizer que o pesquisador está “aprendendo” aquela cultura, assim como uma pessoa
aprende a jogar cartas. Por outro lado, visto que a objetificação ocorre ao mesmo
tempo em que o aprendizado, poder-se-ia dizer que o pesquisador de campo está
“inventando” a cultura. [...] A crença do pesquisador de que a nova situação com a
qual está lidando é uma entidade concreta – uma “coisa” que tem regras, “funciona”
de uma certa maneira e pode ser aprendida – o ajudará e encorajará em seus esforços
para enfrentá-la. [...] Desse modo, o que quer que ele “aprenda” com os sujeitos que
estuda irá assumir a forma de uma extensão ou superestrutura, construída sobre e
com aquilo que ele já sabe. Ele irá “participar” da cultura estudada não da maneira
como um nativo o faz, mas como alguém que está simultaneamente envolvido em
seu próprio mundo de significados, e esse significados também farão parte. [...] é o

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conjunto de predisposições culturais que um forasteiro traz consigo que faz toda a
diferença em sua compreensão daquilo que está “lá”.
O pesquisador de campo, conclui Wagner, seria um inventor de analogias, de
representações comunicáveis, sobre práticas e discursos sociais estranhos e distantes. O seu
esforço de tradução (como não poderia ser diferente) redundaria na invenção do outro que se
quer compreender e na reinvenção do si mesmo tornado visível no espelhamento reflexivo do
jogo comunicacional. O antropólogo, portanto, participaria de dois sistemas de significado e
ação distintos como um estranho profissional que compulsivamente busca inventar modos e
estilos de vida como culturas, uma vez que diferencia e coletiviza o modo ocidental de
simbolização do mundo como dialética mascarada da oposição entre natureza e cultural e
entre indivíduo e sociedade.
O modo de simbolização da cultura Daribi, estudada por Wagner ao longo de seu
amadurecimento como antropólogo, por seu turno, organiza a dialética cultural pela afirmação
ritual, e não pelo mascaramento enquanto história teleológica e escatológica em eterno porvir,
das tensões cotidianas inerentes à binarização fundamental do mundo social nas dimensões do
inato e das responsabilidades humanas, e do individual e do coletivo. De forma bastante
esquemática, portanto, o modelo analítico wagneriano inventa a cultura ocidental como
inflexão linear, sistemática e racional de um mundo de sentidos que nega o paradoxo, a
contradição e a oposição como fenômenos inerentes à interação.
As sociedades tribais, por sua vez, seriam organizadas em regimes de oposição de
metades, - de segmentação agonística, e não, a modo ocidental, de diferenciação universal a
ser coletivizada, - e caracterizar-se-iam pela mediação (a aplicação metafórica de um contexto
semântico a outro) da convenção cultural de modo dialético, isto é, como um contexto cultural
convencional auto-referente não universalizável, mas, e justamente por isso, regido por uma
lógica actancial que não busca colonizar outras lógicas actanciais contextuais. A invenção do
eu, como alma, e da sociedade, como totalidade interacional cosmológica, ocorre na sucessão
episódica de rituais, de papéis e de hierarquias alternantes, devidamente demarcadas e
protegidas por práticas de isolamento e de evitação de contaminação, profanação e poluição.
Este modo de mediação do convencional pela dialética, identificado entre os Daribi,
por Wagner, e entre os Iatmul, por Bateson, - em seu clássico estudo de ecologias simbólicas
tribais modeladas por padrões complementares e assimétricos de ação e representação
cosmológica, - é de impossível digestão no modo cultural ocidental de mediação da dialética
pela convenção. A civilização ocidental, em síntese, exercita o enquadramento do controle
diferenciante no controle coletivizante, isto é, inventa o do diverso, o paradoxal, o
contraditório e o singular em esquemas mais amplos de linearidade e sistematicidade
ontológica e teleológica, nos quais estes fenômenos dialéticos são resíduos ou incógnitas
semânticas em um processo de devir. Trata-se, portanto, de uma invenção sintagmática da
cultura, do eu, da sociedade e do próprio processo de criatividade inventiva, cuja constituição
motivacional coletiva e individual abomina a própria concepção de interação dialética entre
princípios ou fontes energéticas e criadoras.
Nas palavras de Wagner (2012, p. 22s):
[...] meu argumento sugere que o modo de simbolização diferenciante provê o único
regime ideológico capaz de lidar com a mudança. Povos descentralizados, não
estratificados, acomodam os lados coletivizante e diferenciante de sua dialética
cultural mediante uma alternância episódica entre estados rituais e seculares;
civilizações altamente desenvolvidas asseguram o equilíbrio entre essas necessárias
metades da expressão simbólica por meio da interação dialética de classes sociais
complementares. Em ambos os casos, são atos de diferenciação incisivos,
contundentes – entre sagrado e secular, entre propriedades e prerrogativas de classe
–, que servem para regular o todo. Mas a moderna sociedade ocidental, que Louis
Dumont acusa de “estratificação envergonhada”, é criticamente desequilibrada:
sofre (ou celebra) a diferenciação como sua “história” e contrabalança o coletivismo

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intensivo de seus empreendimentos públicos com estratagemas competitivos


semiformais e envergonhados em todos os tons de cinza e com a bufonaria
desesperada da propaganda e do entretenimento.
Nesse sentido profundo da organização das gramáticas morais e emocionais de uma
formação cultural específica, - o de suas classificações elementares, - é que Wagner se
preocupa com a análise da mediação simbólica de situações culturais posta em jogo interativo
pelos atores sociais. Trata-se, com efeito, de observar e compreender a constituição da
motivação dos atores sociais para além da superficialidade dos interesses e cálculos imediatos
de cada jogador e interactante do social; pois a proposta wagneriana é o estudo da constituição
cultural dos fenômenos sociais: da personalidade individual e do grupo, reciprocamente
direcionados, e em processo de interação.
Ainda nas palavras do autor (2012, p. 367ss):
[...] o argumento de A invenção da cultura se baseia na articulação entre dois
domínios universalmente reconhecidos da experiência: o reino do inato, ou “dado”,
daquilo que é inerente à natureza das coisas, e o reino dos assuntos sobre os quais os
seres humanos podem exercer controle ou assumir responsabilidade. Estes não são
necessariamente os mesmos de uma cultura para a outra, nem são necessariamente
verdadeiros tal como representados, mas são as maneiras como eles são
representados – no indivíduo como personalidade e na ordem social enquanto classe
ou unidade coletivizante – e as maneiras pelas quais são transcendidos ou
subvertidos, que constituem o que chamei de “invenção da cultura”. Assim, todos os
fenômenos sociais ou culturais podem ser vistos como uma série de interações
dialéticas entre esses dois domínios ou categorias. [...] o contraste entre os dois
domínios – o do inato e o do controle humano – pode ser reimaginado de várias
formas. Em certo sentido, a invenção não é absolutamente um processo inventivo,
mas um processo de obviação [...] Os dois domínios não “interagem” simplesmente
– antes, obviam um ao outro de maneira dialética.
Nesse sentido, Wagner argumenta que no modo de simbolização da cultura ocidental,
a antropologia, - não somente enquanto disciplina acadêmica, mas também como interesses
administrativos e político-econômicos mascarados, - desempenha o papel de contenção
semântica da relatividade inventada de seus próprios códigos. Esta seria uma estratégia de
controle diferenciante de si e do outro para, em um ato supostamente conclusivo de captura
moral e emocional do diferente, coletivizar as classificações de reificação do mundo nos
símbolos geradores fundamentais da cultura ocidental.
Na crítica de Wagner:
Quando usamos esses controles no estudo de outros povos, inventamos suas culturas
como análogas não de todo o nosso esquema cultural e conceitual, mas apenas de
parte dele. Nós as inventamos como análogas da Cultura (como “regras”, “normas”,
“gramáticas”, “tecnologias”), a parte consciente, coletiva e “artificial” do nosso
mundo, em relação a uma realidade única, universal e natural. Assim, mais do que
oferecer um contraste com a nossa cultura, ou contraexemplos para ela, como um
sistema total de conceitualização, elas convidam a uma comparação com “outros
modos” de lidar com nossa própria realidade. Nós as incorporamos no interior da
nossa realidade, e dessa forma incorporamos seus modos de vida no interior da
nossa própria autoinvenção. O que podemos perceber das realidades que eles
aprenderam a inventar e viver é relegado ao “sobrenatural” ou descartado como
“meramente simbólico”. (2012, p. 328).
A cultura, portanto, mais do que um conceito ou paradigma científico, é mascarada
como uma ordem moral pública, de gênese utilitarista que aponta para o desenvolvimento, o
progresso e a complexificação das formas e conteúdos sociais em uma representação
axiomática da evolução universal. A convencionalização da dialética como um devir que,
apesar de natural e universal, aponta para o auto-aperfeiçoamento de si como ruptura moral

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com a natureza mediante a invenção da cultura, situa a noção ocidental de uma suposta lei da
evolução pelo fazer reflexivo humano.
Nesse diapasão, Wagner revela a constituição histórica do fazer antropológico, -
apoiando-se em Geertz (2008), - no âmbito dos modelos de ação (Ethos) e de realidade (Visão
de Mundo) ocidentais: uma prática e um discurso de controle coletivizante da cultura pela
natureza e da natureza pela cultura. Este modo de fazer antropológico, que Wagner denuncia
como “sintesismo” ou como Antropologia Sintética, repousa em uma alegoria da humanidade
ou no mito do “homem natural”.
Nas palavras do autor:
[...] nossa tradição de pensamento enfatiza o “mascaramento” das relações dialéticas
por meio da ação coletivizante que nossa autoimagem da Cultura veio a ser aplicada
indiscriminadamente aos modos de vida dos outros. Há uma certa necessidade
motivada em nossa tendência a amontoar todas as culturas humanas como um único
esforço evolutivo. Trata-se de um ato de justificação para nossa própria invenção da
sociedade como relação do homem com a natureza. Enquanto a antropologia se
empenhar em mediar sua relação com os povos que são seu objeto como parte de
alguma outra coisa, como parte de sua invenção cultural da “realidade”, e não
dialeticamente, terá necessidade do “primitivo”. Permanecerá fascinada com o que
considera como “natural” e elementar e interpretará equivocadamente as intenções e
expressões de outras formas de existência humana nos termos de seus próprios
valores, como uma “alegoria” do homem. (2012, p. 307s).
A ambiguidade estratégica inerente ao conceito de humanidade consiste no fato de
designar tanto uma espécie biológica pura de sentidos culturalmente construídos, mas
regulada por uma carga instintiva de fome, sexo e agressividade; quanto um ideal de
redenção, - pela técnica e pela moral, isto é, pelo domínio da natureza mediante o trabalho de
transformação do mundo externo e interior ao sujeito humano, - da humanidade de sua
condição de necessidade e de impulsividade instintiva. A ciência, a técnica, a indústria, o
Estado burocrático e o Mercado inesgotável de objetos, assim, são representantes de uma
cultura relativizante que obvia seus interesses e atividades na produção autorreferente de
objetos de consumo.
A natureza humana, com efeito, é deslocada de uma categoria ontológica fixa para a
de um devir de progresso e perfectibilidade. A natureza, então, se apresenta como a fronteira
mascarada da cultura; e a cultura passa a ser entendida como o domínio das responsabilidades
humanas, a ser continuamente expandido pela reinvenção de seus próprios códigos segundo
seu modo inerente de simbolização coletivizante do mundo.
O controle coletivizante da natureza pela cultura e da cultura pela natureza, -
identificado por Wagner como também exercitado pela Antropologia Sintética, - gera a
reinvenção cotidiana da cosmologia ocidental. Esta cosmologia seria, então, pautada nos
postulados de sociedade como luta do homem contra a natureza e da cultura como produção
individualista de interesses e sentidos pressionados contra a coletividade.
No exercício de controle da cultura pela natureza foram desenvolvidas as abordagens
ecológicas e funcionalistas da Antropologia, que definem a cultura como fenômeno derivado
dos imperativos de administração das necessidades humanas inatas e naturais: a cultura,
portanto, emergiria como controle humano de energias naturais na relação da humanidade
com o mundo natural, de modo que, enquanto controle do domínio das responsabilidades
humanas pela definição de suas fronteiras em relação ao inato, a cultura deveria ser entendida
como uma totalidade lógica e coerente de sentidos coletivos. No exercício de controle da
natureza pela cultura, - esclarece Wagner, - a etnossemântica ocidental define a realidade
natural, o mundo fenomênico do inato, a partir da captura moral, - e, portanto, cultural, - desta
natureza no âmbito de um projeto universalizante de perfectibilidade humana.

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Wagner reconhece o controle e de invenção da natureza pela cultura na prática da


Antropologia Semântica, cujo postulado máximo é o de uma realidade natural universal
(sejam estruturas da mente ou da linguagem) cognoscível por uma epistemologia científica, -
racionalista cartesiana, - de validade absoluta. Este postulado mascararia a sua própria
objetificação, o conceito de natureza, como dado externo inato, e não como invenção cultural.
O exemplo mais evidente de invenção e controle da natureza pela cultura seria o estudo do
parentesco como natureza ou fato natural universal definidor do domínio das
responsabilidades humanas mediante a definição de uma fronteira pré-social das relações
humanas: a cultura, com efeito, passa a ser definida como uma totalidade funcional e eficiente
de mecanismos de controle e direcionamento da conduta humana.
Com base nesta argumentação, Wagner conclui que a constituição da Antropologia,
em seus paradigmas diacrônicos e sincrônicos, tem sido um modo de racionalização da
dialética como história ou como níveis fenomênicos do mundo natural, de modo a mascarar-
se como abordagem fenomênica do social e da cultura e não perceber-se como uma etapa da
relativização cultural que o ocidente imprime sobre si mesmo como condição de reinvenção
do seu mundo convencional de negação da dialética e de afirmação de um princípio único de
realidade. Esta postura ideológica, travestida de cientificidade, Wagner define como
“sintesismo”.
O “sintesismo” ou Antropologia Sintética abarcaria um conjunto de operações
discursivas em que o movimento e o evento são subsumidos em categorias lógicas abstratas
reificadoras do fenômeno; e em que os valores culturais implícitos na constituição
motivacional de agentes humanos concretos são reduzidos a interações explícitas
compreensíveis nas gramáticas ocidentais de cognição e ação. A Antropologia Sintética,
assim, compreenderia tanto os esforços de teorização diacrônica quanto sincrônica da cultura,
da sociedade e do eu.
Passando por Tylor, Morgan e seus representantes evolucionistas e difusionistas, a
Antropologia Diacrônica produzia um discurso de obviação da cultura mediante a
convencionalização da dialética como relação espaço-temporal, histórico-geográfica, de
sujeitos com o mundo, isto é, da relação homem-natureza. Esta invenção ou controle da
natureza pela cultura refletia as exigências colonialistas e imperialistas do capitalismo euro-
americano, que tinham como empresa pública de Estado o difusionismo de suas culturas,
ideologicamente definidas como estágio evolucionário superior da organização social
humana. A Antropologia Sincrônica, por oposição, buscava a convencionalização da dialética
como relação sistêmica autorreferente entre os elementos de estrutura e superestrutura, de
código e de expressão. Esta forma de controle e invenção da cultura pela natureza refletia as
exigências modernizadoras da administração burocrático-racional e impessoal do Estado-
Nação.
Nas palavras de Wagner, logo abaixo, a Antropologia Sintética teria se cristalizado em
uma tradição centenária de invenção da cultura ocidental mediante sua própria relativização
reflexiva no ato de perceber a alteridade:
A era que a antropologia está agora ultrapassando é a do “sintesismo”, em sua
manifestação diacrônica ou histórico-difusionista (1871-1922) e em sua
manifestação sincrônico-sistêmica (1922-72). A base da antropologia sintética era a
ideia de que “níveis” fenomênicos correspondem aos ramos de estudo acadêmico
(ciências físicas, biológicas e sociais). [...] Desse modo, a antropologia e seu
conceito-mote – a “cultura” – não consistem tanto numa investigação sobre o mundo
fenomênico quanto numa etapa da nossa própria relativização Cultural e do
despertar da compreensão que essa relativização supõe e nos traz. (2012, p. 356s).
A Antropologia Sintética constitui, - assim como a Antropologia Semântica, - no
modelo analítico wagneriano de cultura, uma narrativa acadêmica da autoimagem do ocidente
refletida no contato com a alteridade radical. Esta autoimagem, sempre mascarada, vem a ser

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refletida e reflexionada de forma mais problemática e tensa a partir do segundo deslocamento


da Antropologia, nos anos de 1970, quando a hegemonia do pensamento etnocêntrico
ocidental é posto em xeque.
Os anos de 1970 marcaram o fim dos grandes projetos teóricos sistêmicos e
estruturalistas, de modo que as então novas tendências analíticas emergentes refutavam a
Antropologia como exercício de apropriação do exótico e da relatividade cultural como
estratégias de mascaramento da dialética inerente à invenção de uma cultura do
empreendimento coletivo, em que cada operação diferenciante de individualização da
convenção deve ser a posteriori coletivizada. Urgia, portanto, desenvolver uma Antropologia
que rompesse com o imperativo cultural ocidental de vivência da dialética pela repressão, seja
esta repressão mascarada na promessa do devir histórico ou em outras formas de
racionalização próprias de uma lógica cultural linear e sintagmática de organização do
cotidiano.
Wagner, nesse sentido, propunha uma nova postura moral como proto-símbolo
gerador de formas de controle e de invenção da cultura por parte da Antropologia. A
moralidade, entendida como constructo cultural operador de sentidos nas situações culturais, é
o elemento do social e da cultura que faz a mediação da convenção, de modo que perfaz um
significado fundamental com direção, propósito e motivação para além de quaisquer
substratos sistêmicos.
Esta postura moral reflexiva da Antropologia resumia-se no imperativo de tornar
transparentes as invenções do antropólogo e do nativo em jogo comunicacional, e não de
esvaziar a invenção e a criatividade nativa na própria invenção ocidental. Com este objetivo,
cabia ao antropólogo a tarefa de construir uma consciência da invenção ocidental da cultura,
da sociedade e do eu, de modo que as formas sociais geradas nos processos tensos de sociação
não fossem meramente classificadas como sociabilidades derivadas de crises internas
possivelmente resolvidas por um devir inalcançável.
Na prática antropológica de exorcizar a diferença e de relativizar o próximo estaria, no
entender de Wagner, a possibilidade de revelar a narrativa ocidental de história linear, - teleo-
e escatológica, - como invenção situada “fora da consciência”. Seria possível, então, superar a
noção ocidental de cultura como relação humana de ruptura moral e reflexiva com a natureza,
direcionada evolutivamente para o progresso técnico-científico e para o aperfeiçoamento
social; e de narrativa cultural como uma sucessão escalonada de sucessos e fracassos no
domínio da natureza, isto é, na expansão do limite da cultura, entendida como controle
humano do seu próprio contexto interacional, do qual a natureza aparece como fronteira
mascarada da ação. Isto significaria a invenção de modelos analíticos de cultura para além da
Antropologia Sintética.
Raoni Borges Barbosa (GREM-UFPB / PPGA-UFPE)

Referências
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Rocco, 1993.

Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia v2 n4 março de 2017 ISSN 2526-4702


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