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O CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL BRASILEIRO EM PERSPECTIVA

METODOLÓGICA: UM DIÁLOGO ENTRE AS SOLUÇ ÕES


CONSENSUAIS E O MODELO DE PRECE DENTES

Sumário: Introdução. Objetivos e Metodologia.


A aposta nas soluções consensuais. O modelo de
precedentes. Discussões. Conclusões.
Referências.

MARCELO PEREIRA DE ALMEIDA


Doutor em Direito. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade
Católica de Petrópolis. Pós-Doutorando em Direito Processual pela UERJ.
mpalmeida04@yahoo.com.br .
Endereço para o Lattes: http://lattes.cnpq.br/0245213114864531

KLEVER PAULO LEAL FILPO


Doutor em Direito. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade
Católica de Petrópolis. Pesquisador do INCT/InEAC/UFF.
klever.filpo@yahoo.com.br
Endereço para o Lattes: http://lattes.cnpq.br/1619725989694017

THIAGO RODRIGUES PEREIRA


Doutor em Direito. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade
Católica de Petrópolis. Professor Adjunto do Centro Universitário La Salle do Rio de Janeiro.
Endereço para o Lattes: http://lattes.cnpq.br/1871086943719121

PALAVRAS-CHAVE: Metodologia. Processo Civil. Métodos Consensuais. Precedentes.

INTRODUÇÃO
O movimento para a criação de um Novo Código de Processo Civil foi incentivado, sobretudo,
pelos vários fatores identificados como aqueles que, sob a égide do Código de 1973 (MOREIRA, 2013),
pareciam proporcionar o afastamento do jurisdicionado do acesso à tutela pretendida. Dentre estes se
encontram a morosidade, a ineficiência e a falta de instrumentos capazes de possibilitar confiança e
uniformidade no tratamento das causas (GRECO, 2012). Tais problemas foram potencializados pelo
número crescente de processos que tramitam nas várias esferas do Poder Judiciário e aos quais as
inúmeras reformas efetivadas na legislação processual nas últimas décadas não conseguiram dar
respostas satisfatórias (NUNES, 2011).
Diante desse cenário, a elaboração do Código de Processo Civil de 2015 adotou vetores que
fossem capazes de atingir com precisão esses problemas e, para tanto, algumas apostas foram feitas.
Dentre essas apostas, podem ser destacadas as normas que visam a incentivar o emprego de métodos
consensuais de solução de controvérsias, principalmente a conciliação e mediação (FILPO, 2016), bem
como todo o instrumental voltado a padronizar o tratamento das causas, que se convencionou denominar
de “modelo de precedentes” ou “microssistema de precedentes judiciais” (ALMEIDA, 2014).
Nesta proposta, assumimos essas técnicas processuais como metodologias de administração de
conflitos que necessitam ser articuladas e funcionar bem, para que o sistema processual possa atingir os
objetivos colimados pelo legislador. Há, porém, aspectos culturais e também sistêmicos que necessitam
ser considerados, os quais colocaremos sob discussão neste trabalho.

OBJETIVOS E METODOLOGIA
O trabalho ora submetido ao II Seminário Internacional de Metodologia da Pesquisa
Jurídica tem o objetivo de relacionar e colocar sob discussão duas metodologias de solução de
conflitos adotadas pelo Código de Processo Civil Brasileiro (Lei 13.105/2015), a saber: o
modelo de precedentes e o emprego de métodos consensuais de administração de conflitos, os
quais são, aqui, considerados alicerces fundamentais desse Código. Vistos pela doutrina
especializada como técnicas processuais, são enxergadas neste texto como metodologias de
solução de conflitos cujo sucesso demanda adequada articulação, como buscaremos demonstrar
nas linhas seguintes. Trata-se de uma revisão bibliográfica conjugada com a análise e
interpretação de textos legislativos, sobretudo o Código de Processo Civil Brasileiro.

A APOSTA NAS SOLUÇÕES CONSENSUAIS


Quanto aos métodos consensuais, a ampliação significativa do número de processos nos período
pós-Constituição de 1988 chama a atenção de todos os seguimentos do sistema de justiça que buscam
encontrar caminhos para racionalizar o tratamento da massificação das causas, elaborando e
implementando políticas de gestão judiciária. Algumas políticas de incentivo a desjudicialização vêm
sendo adotadas no intuito de se instituir uma cultura de consenso na solução de controvérsias. Um dos
propósitos parece ser diminuir a tensão no seguimento jurisdicional, com a criação de ambientes
considerados mais adequados para a acomodação das controvérsias.
Nessa linha, o Conselho Nacional de Justiça editou no ano de 2010 a Resolução 125, que
objetivou instituir uma política nacional de solução adequada de conflitos por meio de métodos
consensuais, dispondo sobre a criação de núcleos de conciliação e mediação nos vários ambientes
jurisdicionais. Posteriormente, a Lei nº 13.105/15e a Lei nº 13.140/15, denominada Lei de Mediação,
fortaleceram essa política, dispondo sobre toda a principiologia que norteia esses métodos, indicando a
necessidade de criar espaços adequados para esse fim e, trançando indicativos para a formação e atuação
dos conciliadores e mediadores. O objetivo de se implantar uma política de fortalecimento desses
métodos é muito visível nas diretrizes do CPC de 2015, ao dispor nas normas fundamentais a exortação
de todos os atores do sistema de justiça para que incentivem constantemente o emprego dos métodos
consensuais (ZANETI JUNIOR, 2017).
Com essa postura, o legislador brasileiro buscou implantar uma cultura que, para ser
sedimentada, necessita de longo percurso de amadurecimento. Medida bem vinda, uma vez que o perfil
da sociedade brasileira em relação aos métodos utilizados para o tratamento dos conflitos, por vários
aspectos culturais e históricos, estava sedimentado na judicialização.

O MODELO DE PRECEDENTES
Paralelamente, outra aposta do legislador do CPC de 2015 foi a implementação de um
instrumental destinado a provocar a observância obrigatória de pronunciamentos judiciais editados em
circunstâncias específicas: o denominado modelo de precedentes judiciais. Tudo sob justificativa de que
a atividade jurisdicional deve proporcionar resultados que privilegiem a isonomia, a confiança e a
segurança jurídica (TARUFO, 2003).
A falta de uniformidade no tratamento das causas perante o sistema de justiça é um problema
que sempre preocupou os profissionais que atuam nesse seguimento, o que gerou algumas posturas para
tentar amenizar esses males. Neste contexto, pode-se destacar a criação de Súmula do STF ainda na
década de 1960. Porém, só após a promulgação da Emenda Constitucional nº 45/04, foi possível
perceber um intento mais incisivo do legislador para se buscar a observância obrigatória de
pronunciamentos judiciais com a criação da súmula com efeito vinculante oriunda de julgamentos
perante o STF, a repercussão geral em recursos extraordinário e o processamento de recursos repetitivos,
pelas Leis nº 11.418/06 e 11.672/08. O CPC de 2015 foi mais contundente nessa proposta.
Não há dúvida que os órgãos judicantes de um país devem manter seus entendimentos
uniformes, estáveis, íntegros e coerentes, conforme sinaliza o artigo 926 do CPC/2015, mas há de se
pensar a forma como esse objetivo será alcançado e, nessas breves reflexões, optou-se por não se
enfrentar os aspectos concernentes a duvidosa constitucionalidade deste sistema. No CPC de 2015 o
principal indicativo para levar a compreensão da escolha do legislador por uma verticalização de
pronunciamentos judiciais, está no artigo 927, que dispõe sobre a necessidade dos órgãos do Poder
Judiciário observarem os “padrões decisórios” (BAHIA, 2010) lá elencados.
A leitura isolada do artigo 927 e incisos não permite uma compreensão segura sobre esse intento
do legislador, ainda mais se for levado em consideração que o sistema jurídico brasileiro é de matriz
romano-germânica que, como se sabe, tem suas bases na norma editada por órgão de representação,
tendo a jurisprudência conotação apenas persuasiva. Porém, a análise de todo o instrumental que serve
de apoio a esses dispositivos permite constatar que, efetivamente, o objetivo é instituir a força
obrigatória dos pronunciamentos elencados neste artigo.
O comando constante no artigo 332 do CPC, que trata das hipóteses que determinam a postura
do julgador de proferir sentença liminar ao se deparar com petições iniciais que veiculam teses contrárias
aos pronunciamentos elencados no artigo 927 do mesmo diploma é o primeiro sinal. O dispositivo indica
que o juiz deverá julgar liminarmente improcedente os pedidos contrários aos “precedentes” indicados
no artigo 927 do CPC. Caso o autor se sinta prejudicado e queira conduzir a discussão ao tribunal por
intermédio do recurso de apelação, o relator do recurso deverá adotar a postura de se negar provimento,
monocraticamente, conforme estabelece o artigo 932, IV do CPC.
Além dessas incisivas disposições, o legislador do CPC de 2015 criou instrumentos destinados
a gerar esses pronunciamentos de força obrigatória, que além dessa finalidade, ainda proporcionam a
resolução de causas consideradas repetitivas. Isso significa dizer que o precedente gerado por intermédio
dos mecanismos de solução de causas repetitivas, resolve casos pendentes e futuros, se apresentando
como um poderoso instrumental de gestão judiciária, de sorte a se alcançar um dos objetivos do
movimento reformista de proporcionar eficiência na atividade jurisdicional.

DISCUSSÕES
Verifica-se, assim, que o sistema de “precedentes obrigatórios” implantado pelo CPC de 2015
se afasta de maneira muito clara do modelo de precedentes dos países de matriz common Law (BAHIA,
2010), por várias razões. Uma dessas razões é o fato de que no sistema brasileiro o precedente nasce
como precedente e não naturalmente pela sua aplicação se torna um precedente. Outro ponto relevante
nessa discussão, se refere a forma de aplicação do “precedente obrigatório” do sistema previsto no CPC
de 2015 que afeta toda a atividade jurisdicional.
Para se enxergar uma possível aproximação desse sistema ao devido processo legal, o julgador
deverá observar, invariavelmente, os elementos que permitem amenizar o déficit de legitimação que este
sistema carrega. Primeiramente deve submeter a questão ao contraditório valorizado e, em segundo
lugar, fundamentar de forma analítica a decisão judicial que foi escorada no precedente de força
obrigatória, na forma do artigo 489, § 1º do CPC. A valoração do contraditório deve ser ainda mais
intensa nos procedimentos destinados a gerar precedentes com esse perfil e solucionar causas seriais,
em virtude da potencialidade de afetar interessados que não terão oportunidade de participar da
construção deste precedente.
Por outro lado, a lógica do sistema de precedentes pressupõe uma litigiosidade menos intensa
nos processos judiciais de sorte a permitir que o julgador possa avaliar os elementos que compõem a
ratio decidendi, aplicando-os no caso posto. Essa atividade implica uma intensidade cognitiva que exige
uma valoração de suportes fáticos e jurídicos de aproximação e exclusão, incompatíveis com um volume
muito acentuado de processos, como ocorre no sistema de justiça brasileiro.
Essa menor intensidade de casos que exigem um pronunciamento judicial substitutivo,
característico dos países de matriz common law, é resultado, ao menos em parte, da cultura arraigada do
emprego de métodos consensuais antes e no curso do processo, conforme apontado por Michelle
Taruffo, ao afirmar que no sistema norte americano mais de 95% dos casos judicializados são resolvidos
na fase de pre trial, com um acordo, o que significa dizer que os julgamentos propriamente ditos, ficam
na faixa aproximada de 5%.
CONCLUSÕES:
É possível constatar, assim, que o modelo brasileiro, embora tenha se estruturado nesses dois
pilares, parece estar divorciado da lógica que foi sedimentada durante séculos na formação da cultura
dos países que adotam esse modelo, uma vez que foram implantados num mesmo momento sem a devida
compatibilização. Pretendemos demonstrar que uma cultura de utilização de métodos consensuais
bastante consolidada e eficiente parece ser necessária para diminuir a tensão do volume de processos no
âmbito jurisdicional. Somente depois de constatada essa diminuição seria possível implantar uma
metodologia de precedentes obrigatórios. A implantação de métodos de precedentes obrigatórios sem a
valorização da participação dos interessados e a resistência em se fundamentar adequadamente as
decisões que formarão o precedente, somados a ausência de uma política eficaz de desjudicialização é
algo que demanda atenção e discussão, também acadêmica, sob pena de frustrar algumas das propostas
mais relevantes do Código de Processo Civil em vigor.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Marcelo Pereira de. Precedentes Judiciais: Análise crítica dos métodos empregados no
Brasil para a solução de demandas de massa. Curitiba: Juruá, 2014.

BAHIA, Alexandre; NUNES, Dierle. Tendências de padronização decisória no PLS nº 166/10: o Brasil
entre o civil law e common law e os problemas na utilização do “marco zero interpretativo”. In:
BARROS, Flaviane de Magalhães; BOLZAN DE MORAIS, José Luis (coord.) Reforma do processo
civil; perspectivas constitucionais. Belo Horizonte: Fórum, 2010.

CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. v. 1 São Paulo: Atlas, 2014.

DIDIER JÚNIOR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil: teoria geral do processo e processo de
conhecimento. v. 1 . Salvador: Jus Podivm. 2015.

FILPO, Klever Paulo Leal. Mediação Judicial: Discursos e Práticas. MAUAD X/FAPERJ, 2016.

________; ALMEIDA, Marcelo Pereira de. Ações de família no Novo CPC: Lógica do consenso x
lógica do contraditório. Revista Brasileira de Direito Processual. Aceito para publicação.

GRECO, Leonardo. Novas perspectivas da efetividade e do garantismo processual. In: MITIDIERO,


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Doutor Calos Alberto Alvaro de Oliveira. São Paulo: Atlas, 2012

MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do
procedimento. Rio de Janeiro: Forense, 2013.

NUNES, Dierle José Coelho. Processo Jurisdicional Democrático: Uma análise crítica das reformas
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TARUFFO, Michele. Observações sobre os modelos processuais de civil law e de common law. Revista
de Processo. nº 110. Ano 28. abr/jun. 2003. p. 140-158.

ZANETI JUNIOR, Hermes; CABRAL, Trícia Navarro Xavier. Justiça Multiportas. Salvador: Jus
Podium. 2017.