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Georges Bataille

O erotismo
filobataille

Georges Bataille
O erotismo

Inclui inéditos de G. Bataille:


Debate sobre O erotismo, Dossiê O erotismo

Tradução, apresentação e organização


Fernando Scheibe

Prefácio
Raúl Antelo

Posfácio
Eliane Robert Moraes
Copyright © 1957 by Les Éditions de Minuit
Textos inéditos extraídos de Oeuvres Complètes X, by Georges Bataille © Paris: Gallimard, 1987
Copyright da tradução © 2013 Autêntica Editora

título original editoração eletrônica


L’Érotisme Conrado Esteves
coordenador da coleção filô tradução
Gilson Iannini Fernando Scheibe
conselho editorial revisão técnica
Gilson Iannini (UFOP); Barbara Cassin (Paris); Cláudio Gilson Iannini
Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUC-Rio); Ernani revisão
Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); Dila Bragança de Mendonça
João Carlos Salles (UFBA); Monique David-Ménard
leitura final
(Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind
Jean D. Soares
(UFF); Rogério Lopes (UFMG); Rodrigo Duarte
(UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek editora responsável

(Liubliana); Vladimir Safatle (USP) Rejane Dias


projeto gráfico
Diogo Droschi
(Imagens de sobrecapa: Body/Sculpture, Hans
Breder, 1972, Walker Art Center. Tauromachi,
André Masson, 1937, Galerie Jacques Bailly)

Revisado conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,


em vigor no Brasil desde janeiro de 2009.

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publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos,
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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bataille, Georges, 1897-1962.


O erotismo / Georges Bataille ; tradução Fernando Scheibe. -- Belo
Horizonte : Autêntica Editora, 2013. -- (FILÔ/Bataille)

Título original: L’Érotisme


ISBN 978-85-8217-050-2

1. Erotismo 2. Erotismo na literatura 3. Morte 4. Sexo (Psicologia)


5. Sexo - Aspectos religiosos 6. Tabus I. Scheibe, Fernando . II. Título.

13-00857 CDD-840.93538

Índices para catálogo sistemático:


1. Erotismo : Literatura francesa : História e crítica 840.93538
A Michel Leiris
9. Apresentação do tradutor

19. Prefácio: O lugar do erotismo – Raúl Antelo

O EROTISMO

27. Prólogo
33. Introdução
51. Primeira parte – O interdito e a transgressão

Capítulo I – O erotismo na experiência interior p. 53


Capítulo II – O interdito ligado à morte p. 63
Capítulo III – O interdito ligado à reprodução p. 73
Capítulo IV – A afinidade da reprodução e da morte p. 79
Capítulo V – A transgressão p. 87
Capítulo VI – O assassinato, a caça e a guerra p. 94
Capítulo VII – O assassinato e o sacrifício p. 105
Capítulo VIII – Do sacrifício religioso ao erotismo p. 113
Capítulo IX – A pletora sexual e a morte p. 118
Capítulo X – A transgressão no casamento e na orgia p. 133
Capítulo XI – O cristianismo p. 142
Capítulo XII – O objeto do desejo: a prostituição p. 153
Capítulo XIII – A beleza p. 164

173. Segunda parte – Estudos diversos sobre o erotismo

Estudo I – Kinsey, a escória e o trabalho p. 175


Estudo II – O homem soberano de Sade p. 191
Estudo III – Sade e o homem normal p. 204
Estudo IV – O enigma do incesto p. 224
Estudo V – Mística e sensualidade p. 248
Estudo VI – A santidade, o erotismo e a solidão p. 278
Estudo VII – Prefácio de “Madame Edwarda” p. 292
299. Conclusão

303. Posfácio: Traços de Eros – Eliane Robert Moraes

317. Textos inéditos

Debate sobre o erotismo p. 319


Dossiê O erotismo:
A significação do erotismo p. 328
Adição a O erotismo p. 332
Projeto de uma conclusão para O erotismo p. 335
Apresentação do tradutor
Fernando Scheibe

a língua se parte; debaixo da minha pele,


no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos não veem; zumbem
meus ouvidos;
_______

um frio suor me recobre, um frêmito se apodera


do corpo todo, mais verde que as ervas
eu fico; e que já estou morta,
parece1

Em 1970, oito anos após a morte de Georges Bataille (1897-


1962), Michel Foucault apresentava o primeiro tomo de suas obras
completas com a seguinte profecia:

1
FONTES, Joaquim Brasil. Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos. São Pau-
lo: Estação Liberdade, 1991, p. 303. Quando Rejane Dias, diretora da Autêntica
Editora, me ofereceu a possibilidade de publicar uma nova tradução brasileira de
L’Érotisme, senti algo parecido com o que descreve esse poema de Safo. É que se
trata, a meu ver, de um dos livros mais importantes já escritos, e ter a chance de
traduzi-lo e publicá-lo numa edição caprichada como esta, constituiu para mim
uma experiência de pura felicidade.

9
Sabe-se hoje: Bataille é um dos escritores mais importantes de seu
século. A História do olho, Madame Edwarda romperam o fio dos relatos
para contar o que jamais o tinha sido; A Suma ateológica fez entrar o
pensamento no jogo – no jogo arriscado – do limite, do extremo, do
topo, do transgressivo; O Erotismo tornou Sade mais próximo de nós,
e mais difícil. Devemos a Bataille uma grande parte do momento em
que estamos; mas o que resta a fazer, a pensar e a dizer, isso sem dúvida
lhe é devido ainda, e o será por muito tempo. Sua obra crescerá.2

A obra de Bataille cresceu e continua crescendo,3 na medida


mesma de seu des-obra-mento, de sua inoperância. Ou seja, na me-
dida mesma em que seu texto coloca em xeque a obra, a vontade de
obra, o produtivismo catastrófico da sociedade contemporânea que,
como Walter Benjamin também já diagnosticara,4 resulta sempre no
horror tacanho da guerra.
A economia deve se fundar no gasto. A energia deve ser dissi-
pada, e não acumulada. Eis o princípio da (anti)filosofia bataillana,
qualificada por Jacques Derrida de “hegelianismo sem reserva”.
Contemporâneo do surrealismo – André Breton é de 1896 -,
Bataille fez sua a exigência do movimento: “A beleza será convulsiva
ou não será”. Desde a História do olho (1927), passando pelos artigos
redigidos para as revistas Documents (1929-1930), La Critique Sociale
(1932-1933), Acéphale (1936-1939), Critique (1946-1961), entre outras,
pela Suma ateológica (O culpado; A experiência interior; Sobre Nietzsche
– vontade de chance) escrita durante a Segunda Guerra, por A Parte

2
FOUCAULT, Michel. Présentation. In: BATAILLE, Georges. Œuvres complètes I.
Paris: Gallimard, 1970, p. 5.
3
Através, por exemplo, das leituras de Michel Foucault, Roland Barthes, Jacques
Derrida, Philippe Sollers, Denis Hollier, Jean-Luc Nancy, Rosalind Krauss, Georges
Didi-Huberman, Giorgio Agamben, Enrique Leff, Franco Rella, Roberto Esposito,
Eliane Robert Moraes, Raúl Antelo...
4
“A guerra, e somente a guerra, permite dar um objetivo aos grandes movimentos
de massa, preservando as relações de produção existentes. Eis como o fenômeno
pode ser formulado do ponto de vista político. Do ponto de vista técnico, sua
formulação é a seguinte: somente a guerra permite mobilizar em sua totalidade
os meios técnicos do presente, preservando as atuais relações de produção.” BEN-
JAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e
técnica, arte e política. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
(Obras Escolhidas, 1).

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maldita, por “romances” e “novelas” como O azul do céu, Madame
Edwarda, Minha mãe, pelos livros sobre as pinturas de Lascaux, sobre
Manet, sobre Gilles de Rais, até seus últimos livros como A literatura
e o mal, O erotismo e As lágrimas de Eros, Bataille esteve sempre, se-
gundo Roland Barthes, a escrever um mesmo texto, a formular uma
mesma exigência, ainda que ela tenha recebido nomes tão diversos e
contraditórios como baixo materialismo e soberania.
Em O surrealismo no dia a dia, escrito no início da década de
1950, Bataille narra alguns de seus encontrões com o grupo surrealista
nos anos 1920. Após algumas frustradas tentativas de aproximação
através de Michel Leiris (amigo que Bataille “perde” para o grupo),
o “bibliotecário devasso” acaba se tornando uma espécie de inimigo
nº 1 do movimento.
Bataille acusa o surrealismo bretoniano de idealismo e utili-
zação hipócrita de Sade. Seja em “Le prefixe ‘sur’ en surréalisme et
surhome”, seja em “La valeur d’usage de D.A.F. de Sade”, a questão é
a mesma: se o surrealismo, se o homem surrealista, quer realmente se
entregar à totalidade da existência, logicamente ele não pode excluir
o que é baixo, o que é vil. Há no discurso surrealista um excesso de
metáforas de pureza, como se essa convulsão do real que é a beleza
pudesse se dar sem sangue, sem porra, sem merda. É necessário reco-
nhecer o dedão do pé e o ânus solar para se ter acesso à “totalidade
dos possíveis”. Mais do que isso: é preciso que esse reconhecimento
não tenha a forma de uma apropriação homogeneizadora. Toda uma
teoria do heterogêneo elaborada por Bataille a partir do final dos anos
1920 busca isto: incorporar o realmente outro sem torná-lo o mesmo.
Mas como fazer isso? Como ter acesso a uma força intensa sem
desvirtuá-la em poder? Aos poucos, essa pergunta vai se tornando:
como desviar a força do fascismo da estupidez nacionalista para uma
“profunda subversão” da existência?
São dessa época (1933) três textos fundamentais de Bataille:
A noção de dispêndio; O problema do estado; e A estrutura psicológica do
fascismo. No primeiro, são assentadas as bases de uma “economia à
medida do universo”, ou seja, em que o verdadeiro valor é atribuído
ao gasto livre, à despesa inútil, ao dom sem contrapartida; no segun-
do, frente à ascensão do estalinismo na União Soviética, pari passu
com a do fascismo na Itália e na Alemanha, constata-se que o ódio à

apresentação do tradutor 11
autoridade do Estado deve ser o fundamento da luta revolucionária; no
terceiro, Bataille aplica sua teoria da heterogeneidade à compreensão
do fenômeno fascista: este, embora extraia sua força do heterogêneo,
a reconduz ao homogêneo, à unidade do líder e da nação.
Segue-se então o período de maior engajamento político – e reli-
gioso – de Bataille. Inicialmente, com o movimento Contre-attaque, que
chega a congregar temporariamente surrealistas e “parassurrealistas” em
torno da proposta de utilizar as armas do fascismo contra o fascismo;
logo depois, com a comunidade Acéphale e com o Colégio de Sociologia.
Nas reuniões do Colégio, discutiam-se a importância do sagra-
do e as possibilidades de sua manifestação nas sociedades arcaicas e
contemporâneas; nas de Acéphale, buscava-se propiciá-lo através de
ritos que incluíam a leitura e a memorização de textos de Nietzsche,
incursões noturnas à floresta de Saint Nom la Bretèche, a proibição
de apertar a mão de antissemitas e o projeto não executado de um
sacrifício humano... Acéphale era também o nome de uma revista em
que, até o início da Segunda Guerra, Bataille publicou textos que
buscavam em grande parte proceder a uma reparação a Nietzsche da
apropriação nazifascista de sua obra.
O acéfalo é justamente a força incondicionada do heterogêneo.
A negação da cabeça é a negação da razão e do telos, do líder, de
Deus, do capital e, em última instância, do eu.
A vida humana está exausta de servir de cabeça e de razão ao universo.
Na medida em que se torna essa cabeça e essa razão, na medida em
que se torna necessária ao universo, ela aceita uma servidão. Se não é
livre, a existência torna-se vazia ou neutra e, se é livre, ela é um jogo.
A Terra, enquanto engendrava apenas cataclismos, árvores, pássaros,
era um universo livre: a fascinação da liberdade se enfraqueceu quando
a Terra produziu um ser que exige a necessidade como uma lei acima
do universo. O Homem, entretanto, permaneceu livre para não mais
responder a necessidade alguma: ele é livre para se assemelhar a tudo
aquilo que não é ele no universo. Pode descartar o pensamento de
que é ele ou Deus que impede o resto das coisas de ser absurdo. O
homem escapou à sua cabeça como o condenado à prisão. Encontrou,
para além dele mesmo, não Deus que é a proibição do crime, mas um
ser que ignora a proibição. Para além daquilo que sou, encontro um
ser que me faz rir porque é sem cabeça, que me enche de angústia
porque é feito de inocência e de crime: ele tem uma arma de ferro em

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sua mão esquerda, chamas semelhantes a um sacré-cœur em sua mão
direita. Reúne numa mesma erupção o Nascimento e a Morte. Não
é um homem. Não é tampouco um Deus. Não é eu, mas é mais eu
do que eu: seu ventre é o dédalo em que se desgarrou a si mesmo, me
desgarra com ele e no qual me encontro sendo ele, ou seja, monstro.5

Com a guerra – e a doença – vem um período de recolhimento


em que Bataille escreve, além dos três livros que compõem a Suma
ateológica, o seu récit mais conhecido: Madame Edwarda. Vale a pena citar
a leitura proposta por Georges Didi-Huberman para este momento:
Seria necessário um livro inteiro para compreender exatamente o
que determinou em Georges Bataille, no momento da guerra, essa
mistura de recolhimento na obscuridade e essa “vontade de chance”,
como ele dizia, a saber, a vontade soberana, ansiosa, frenética que o
fez lançar tantos sinais na noite, como uma lucíola querendo escapar
ao fogo dos projetores para melhor emitir suas luminosidades de
pensamentos, de poesias, de desejos, de relatos a transmitir custe o
que custar... sem mesmo saber para onde iriam, onde seriam lidos.
O texto que decidiu empreender, desde o início da guerra, se inti-
tulava O Culpado. Seu primeiro capítulo, “A noite”, começa assim:
“A data em que começo a escrever (5 de setembro de 1939) não é uma
coincidência. Começo em razão dos acontecimentos, mas não é para
falar deles”. Paradoxo, fenda do não-saber, soberania longe de todo
reino: não falar dos acontecimentos para melhor responder a eles, para
melhor opor a eles seu desejo (sua luminosidade na noite), sabendo
muito bem que esse desejo não é mais do que brechas, fragilidades,
intermitências do moribundo, entre a “queda” e aquilo que ele quer
loucamente ainda nomear uma “glória”. [...] Nesse ínterim, Bataille
publicava sob pseudônimo, nas bem nomeadas Éditions du Solitaire, seu
relato escandaloso Madame Edwarda, em que compreendemos que a
experiência erótica poderia oferecer uma primeira resposta do “cul-
pado” aos acontecimentos de morte que reinavam por toda a parte na
Europa. É uma dança do desejo na noite parisiense, um contratema aos
movimentos dos aviões e aos ferozes projetores da guerra em curso.6

5
Acéphale I [1936]. Paris: Jean-Michel Place, 1995.
6
DIDI-HUBERMAN, Georges. La communauté des lucioles. Disponível em:
<http://pt.scribd.com/doc/33427403/Communaute-Des-Lucioles>. Texto
retomado no livro Sobrevivência dos vagalumes.Tradução de Vera Casa Nova e Márcia
Arbex. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

apresentação do tradutor 13
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