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Sociocoreologia e Processos de Transformação Sociocultural


Regina Miranda, MSc, CMA

Chegou o tempo de se construir um novo paradigma coerente.


Este seria um em que os diferentes atores sociais, em conjunto,
moldassem caminhos de desenvolvimento humano, que fossem sensíveis
a todas as questões culturais e totalmente as reconhecessem como tal.
Nossa Diversidade Criativa - UNESCO, 1996

Sociocoreologia é um novo campo de estudo transdisciplinar, proposto por Miranda


(2009), como expansão da pesquisa em Artes Cênicas e Laban Análise de Movimento (LMA),
que resultou em sua abordagem pessoal - Conexões Corpo-Espaço℠ (CCE). Após focar-se
principalmente em processos individuais de transformação e processos coletivos de criação, a
Sociocoreologia reflete o interesse da pesquisadora em processos socioculturais de mudança e
apresenta a sua contribuição para a compreensão e análise das interações sociais, desde suas
práticas mais comuns até os eventos sociais e rituais mais codificados, todos observados /
experienciados enquanto Performance.

Nutrida pela Sociologia, Geografia e Estudos de Performance, a Sociocoreologia funde o


Sistema Laban/Bartenieff de Análise do Movimento (LMA) com Conexões Corpo-Espaço (CCE), -
abordagem desenvolvida por Miranda - , tem suas raízes mais profundas na Coreologia,
conhecimento identificado pelo teórico de movimento Rudolf Laban (1879 -1958) e
posteriormente desenvolvido por Valerie Preston-Dunlop (1925-presente) em seus Estudos
Coreológicos. Entendendo que a plasticidade do pensamento coreológico permitisse a extensão
de sua prática para a arena cultural e compreendendo que a complexidade do Sistema
Laban/Bartenieff de Análise do Movimento associado à abordagem topológica dos processos de
transformação de Corpo-Espaço poderiam trazer insights sobre a observação do
comportamento cultural, Miranda (2009) imbricou, reinterpretou e cruzou estas fronteiras
disciplinares, para vir a propor – a Sociocoreologia.

A metodologia transdisciplinar, bem como a utilização de pensamento sistêmico, são


fundamentais para a abordagem Sociocoreológica. Como Pohl e Hirsch Hadorn (2007) indicam,
ao se considerar a complexidade do comportamento humano, a diversidade de percepção e de
relações entre as pessoas e entre estas e lugares, bem como as incertezas e rupturas que
caracterizam o viver em sociedade, há necessidade de que a pesquisa seja transdisciplinar.

Ao contrário da observação tradicional, que se concentra em dividir o evento em seus


elementos, busca uma forma que expresse a totalidade e o equilíbrio e separa observador do
observado, a Sociocoreologia usa o pensamento sistêmico e a teoria da complexidade para
perceber eventos como uma "dinâmica-em-construção": delineia suas inter-relações, seus
padrões de mudança e suas emergências, se foca nas interações daquilo que está sendo
estudado com o maior número de componentes do sistema do qual faz parte, inclui o
observador e, ao levar em conta um número cada vez maior de interações, produz mais
territórios de investigação e de discursos criativos.

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Vida cotidiana como Performance

Mesmo que não se tenha conhecimento disso, as relações humanas são estruturadas em forma teatral. O
uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de
ideias e paixões, tudo que fazemos no palco, vivemos em nossas vidas. Nós somos o teatro! Casamentos e
funerais são "espetáculos", mas também os rituais diários, tão familiares que nem somos conscientes
deles. Ocasiões de pompa e circunstância, mas também o café da manhã, os bons-dias trocados, tímidos
namoros e paixões tempestuosas, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro!
(Boal, 2009) 1

Ao abordar a vida como performance, a Sociocoreologia compreende que há limites


para o que "é" uma performance. O fato de que "nossas vidas estão estruturadas de acordo
com repetições e comportamentos socialmente sancionados levanta a possibilidade de que
toda a atividade humana possa ser considerada como Performance" (CARLSON, 1996: 4), mas,
concordando com Schechner, a Sociocoreologia entende que certos eventos são, de fato,
performances, enquanto outros podem ser entendidos como tal. Estes últimos, que incluem os
hábitos, rituais e rotinas da vida, são o foco da Sociocoreologia. Como Schechner (2003)
observa:

Desempenhar papéis profissionais, papéis de gênero e raça e moldar a própria identidade não são ações
de faz-de-conta (como atuar em um papel no palco ou em um filme provavelmente o seja). As
performances da vida cotidiana "fazem crer" - criam as realidades sociais que apresentam (Schechner,
2003: 35).

Feixes da Performance
A Sociocoreologia entende Performance como a integração encorpada de cinco
interdependentes feixes da performance2: Atuante (ou agente)3, ação, som, tempo e espaço,
todos eles permeados pela ideia de movimento como sua expressão vital.

Atuante (ou agente)


Na abordagem sociocoreológica, cada atuante é observado em suas características físicas,
impregnações étnicas e culturais, eventual hibridismo, escolha de roupas, de vocabulário verbal,
escrito e de movimento, sexo, idade, etc. Inspirada pelos Estudos Coreológicos de Preston-
Dunlop (2002), a Sociocoreologia parte de uma posição de encorpação (ou encarnação) e
corporeidade, com o objetivo de observar / experimentar "a constituição múltipla do corpo
vivente, ou seja, o corpo como um fenômeno cultural e, mais importante, o corpo que não é

1 Esta citação é um trecho de um texto mais longo, enviado por Augusto Boal para a autora deste artigo da cama de hospital
onde viria a falecer alguns dias depois, em 2009. É uma variação de um texto maior que ele havia escrito para o Di Internacional
do Teatro da UNESCO, no dia 27 de Março de 2009.
2 Valerie Preston-Dunlop (2002) propõe quatro feixes (ou vertentes) coreológicos: performer, movimento, som e espaço. Para

os objetivos da sociocoreologia, que esperamos venham a ser compreendidos no texto, sentimos a necessidade de mudar
movimento para ação e incluir tempo.
3 Intérprete seria uma escolha problemática: as recentes pesquisas de movimento tem, alternadamente, usado corpo, mas este

uso pode informar sobre uma separação entre corpo e pessoa, ou agente, um termo mais caro à Sociologia, informando sobre
o indivíduo engajado na estrutura social. Ja que o presente texto articula o individuo em suas performances sociais, o uso de
atuante, ou mesmo performer, nos parece mais adequado.

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apenas um veículo de significado, mas uma identidade intersubjetiva em construção"


(PRESTON-DUNLOP e SANCHEZ-COLBERG, 2002: 11). O conceito de corporeidade apresenta o
corpo como um processo contínuo de redefinições que inclui seus numerosos aspectos: um
corpo plástico, que é ao mesmo tempo pessoal, social, emocional, sexual, biológico e
psicológico, entrelaçado com "um espaço, que é em si sócio-pessoal, político, nacional, abstrato,
consciente, inconsciente, etc."(PRESTON-DUNLOP e SANCHEZ-COLBERG, 2002: 9). Miranda
(2008) desdobra este conceito, sugerindo que ele aponta "o corpo do ser humano na arte de
viver e continuamente se reinventar" (MIRANDA, 2008: 83) através de constantes desvios e
transformações, alimentado pela imaginação e pelo desencadear de seu potencial criativo.
Já que Encorpação/Encarnação (Embodiment) indica o processo que funde ideias,
movimento e o atuante, em Sociocoreologia, inclui as formas em que o conhecimento coletivo
está impregnado no comportamento das pessoas e como histórias e circunstâncias pessoais e
coletivas são realizadas, p.ex, na escolha da roupa do atuante e em seu uso de vocabulários
verbais e não-verbais tempo/local-específicos. Em última análise, encorpar (ou encarnar) indica
dinâmicas de presença, como a rede de intensidades é atuada no/pelo performer, tornando-se
viva/visível em um corpo em constante processo de atualização e vir-a-ser. Este é um corpo que
clama tanto por processos de organização como para eventos desorganizadores, um corpo que
precisa tanto de organização quanto de desorganização para seu equilíbrio vital: "esse corpo
sempre artístico recria a sua possibilidade de sobrevivência, permanentemente. Como? Com a
imaginação de sua potência de criação" (MIRANDA, 2008: 83).

Ação como Interação


Uma ação nunca é um movimento isolado: ela produz um efeito e é afetada pela
história, espaço, ambiente e outras ações, voluntariamente e/ou involuntariamente criando
conexões, - a rede social, - gerando emergências4, e a criação de conhecimento cultural. Assim,
em Sociocoreologia, a ação é abordada e percebida como interação, uma experiência coletiva
de movimento, que leva em consideração os comportamentos e reações dos atuantes
(performers, ou agentes) em relacionamentos longos ou ocasionais, transformando e sendo
transformados pela interação.

Um(a) atuante social encorpado adquire/cria conhecimento pela imersão no evento, ao


explorar e experienciar, criar e observar por dentro, compreendendo e ativamente
estabelecendo conexões(dentro/fora), oferecendo opções e novos caminhos de
experimentação, em outras palavras, tornando-se um construtor ativo e participante na vida de
sua comunidade. Afinal, como Boal (2009) indicou: "ser cidadão não é viver em sociedade, é
mudá-la" (bourgeonline). Este exercício diário cria relações, provoca complexidade, transforma
e indica a "diferença entre compreender e conhecer, atividade criativa complexa que inclui
decifrar, entender, (re)criar e encarnar" (MIRANDA, 2008: 39 - 40).

Em Sociocoreologia, as Interações, e mais ainda o que emerge a partir das redes criadas
por elas, são percebidas e avaliadas (e potencialmente experienciadas, melhoradas e/ou

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Emergência pode ser definida como o “nascimento de novas e coerentes estruturas, padrões e propriedades durante
processos de auto-organização em sistemas complexos” (Goldstein, 1999)

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transformadas) pelo entrelaçamento das categorias labanianas de Corpo-Esforço-Forma-Espaço


(BESS, de Body-Effort-Shape-Space5), um mapa dinâmico que indica padrões de encorpação,
com os processos de transformação, como experienciados/observados em Conexões Corpo-
Espaço℠ (CCE [BSC, Body-Space Connections, em Inglês]), um desdobramento sistêmico das
teorias de Laban, que se propõe à ampliação do campo labaniano pela inclusão de
representações topológicas de processos de mudança, já que estas tem como principal
característica transmitir processos qualitativos de transformação não vinculados a regras de
causalidade (MIRANDA, 2008). Interações e relações que acontecem em redes virtuais reúnem
presenças de várias geografias e geram emergências, que são diferentes de seus elementos e
não podem ser explicadas por relações causais, ou reduzidas à sua soma ou diferença
(GOLDSTEIN, 1999).

Na verdade, Laban já indicava esta direção, quando apresentou em seu repertório a Fita
de Moebius, uma porta de entrada para espaços, cujos processos e regras não eram
compatíveis com representações anteriores. Assim, a Sociocoreologia, através de BESS/BSC, ao
abordar as relação sociais, percebe o corpo coletivo como suporte e agente de permutações e
correspondências simbólicas corpo-espaciais, reorganizações contínuas, fusões gesto-postura,
isolamentos-desvios-re-integrações e conexões interno-externo.
Esforço, que inter-relaciona os aspectos qualitativos de Peso, Tempo, Fluxo e Espaço, é
percebido nas configurações dos territórios de intensidades emocionais e ritmos dinâmicos, e
como estes estão inscritos nas frases interativas de movimentos adaptativos.
Forma refere-se à plasticidade do corpo coletivo, suas transformações, mudanças de
volume, e maneiras de esculpir o espaço, em um processo contínuo de aparecer, desaparecer,
reaparecer, que indica a adaptabilidade da coletividade às suas exigências internas/externas.
E Espaço (re)apresenta a arquitetura do corpo coletivo móvel em seus padrões de
organização/desorganização, associando as formas tridimensionais de Laban de cristal com os
processos topológicas propostas pelo BSC6, como o Reviramento do Toro, processo através do
qual um evento inverte o que, aparentemente, estava dentro, transformando-a em fora, e vice-
versa. A operação, aparentemente reconfigura a situação anterior, a qual torna-se, ao mesmo
tempo diferente e igual.

Na atuação cênica, por exemplo, o que apreciamos no ator que opera o corte, que revira e re-une
indivíduo e personagem, um-outro, cuja alma é trazida para fora7, e que altera e mantém a permanência
do mesmo, é presenciarmos este mecanismo de transformação agudo sem grande mudança aparente
(MIRANDA, 2008: 63).

Som
O som desempenha um grande papel na maioria das reuniões sociais: o tipo de música
(clássica ou popular, e que gênero) define diferentes atmosferas, a escolha de palavras

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Corpo/Esforço/Forma/Espaco são escritos em letra maiúscula no Sistema Laban/Bartenieff no sentido de diferenciar do uso
comum desses termos.
6 Uma das importantes mudanças de paradigma em pensamento sistêmico é a saida da mentalidade ou/ou (ou isto/ou aquilo),

para favorecer a visão de e (isto e aquilo).


7 O termo alma é aqui usado em seu sentido topológico.

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transmite maior ou menor formalidade, e a duração de silêncios é tão importante em eventos


musicais, teatrais, ou em diálogos comuns, potencialmente gerando tensão, maravilha,
serenidade, ou desconforto. Desde o silêncio até os sons audíveis, sejam eles vocais,
instrumentais, ruídos ambientais, ou música, cada som produz uma paisagem sonora, que
aporta informações sobre a fonte que o produz e sobre o ambiente onde a fonte e o
observador estão situados. O conceito de paisagem sonora, tal como definido pelo compositor
canadense R. Murray Schafer (1933- data), representa a maneira que um ambiente de som é
percebido, indicando a relação entre o indivíduo e seu entorno. Na verdade, a pesquisa sugere
que pessoas de culturas diferentes geram e percebem paisagens sonoras diferentes. Este
conceito é imensamente valioso para a Sociocoreologia porque enfatiza a ideia de expressão,
experiência e emoção, em outras palavras, a subjetividade e a marca cultural, como parte
integrante de como os indivíduos criam-avaliam-participam em espaços urbanos (KERN, 2007).

Tempo
O conceito de tempo sempre foi uma questão fundamental para a humanidade e não apenas
como uma questão filosófica. Há uma velha expressão que diz: "Se um homem não acompanha
os passos de seus companheiros, talvez seja porque ele está ouvindo um baterista diferente"
De fato, para uma sociedade ser constituída, seu ritmo particular deve ser entendido
intuitivamente dançado junto. Tempo também pode evocar circunstâncias históricas, políticas,
sociais, filosóficas e / ou econômicas, bem conhecidos para uma determinada coletividade.
Assim, para participar de uma determinada sociedade, é preciso entender e ser capaz de
encarnar sua concepção de ritmo: por exemplo, qualquer visitante de Nova York experimenta o
rápido movimento coletivo de seus cidadãos. A duração de um evento também varia
enormemente de uma cultura para a outra: se na Alemanha, ou nos EUA, uma recepção com
frequência dure de 18 às 20h, no Brasil, a menos que a ocasião seja muito formal, há um tempo
para começar, mas raramente uma hora para acabar. Assim, o anúncio de uma duração
específica irá imediatamente transmitir um nível desejado de formalidade.

Na literatura, pode-se falar de "autores do tempo", como Marcel Proust, que utiliza o
tempo como substância de suas narrativas, e também do sentido de tempo como destino –
como tempo inevitável – que define as tragédias gregas. Alguns países são identificados com o
tempo, como a Suíça e Alemanha, sendo este último famoso pela precisão horária de seus trens,
enquanto, em outros lugares, o tempo parece não ter passado, como em certas cidades
medievais da Europa, ou na bela ilha de Paquetá, não muito longe do Rio de Janeiro, cuja
população vive, aparentemente, nos anos 50. O tempo cronológico, tende a conferir um peso
semelhante a eventos diferentes, embora algumas datas adquiram significado simbólico para
muitos, como por exemplo 25 de dezembro (Natal), enquanto outras têm um significado
cultural comum para a nação, como o 4 de julho, para os Americanos, o 7 de setembro, para os
Brasileiros, ou o 14 de julho, para a França, este último também estendido seu "significado" de
liberdade para a maioria do mundo ocidental.

A Sociocoreologia procura usar o tempo em todas as suas acepções, mas o tempo


histórico, que usa as formas que a sociedade se organiza para transmitir que um determinado
tempo é diferente do outro, - "guerra fria", ou "os anos 20" -, e a elaboração conceitual de

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tempo de Fernand Braudel (1902-1985), que percebe o tempo como fenômeno social, ao
assumir que estabelecer o simbólico é também instituir o social, portanto, transmitindo um
sentido de tempo para além das sensações e percepções individuais, são de particular interesse
(BRAUDEL, 1993).

Espaço
O conceito de espaço inclui, mas não se limita aos espaços labanianos. Espaço é aqui
estudado em suas características geográficas (enquanto ciência e filosofia), desde o estudo da
superfície e da distribuição espacial de fenômenos significativos na paisagem, até e,
especialmente, a relação recíproca entre o homem e o meio ambiente. Entre as diversas
geografias, algumas são de especial interesse para Sociocoreologia, já que imprimem
complexidade na leitura crítica das percepções humanas e nas transformações por/em/no
espaço. São elas: a Geografia Humanista, que valoriza a construção subjetiva do espaço,
incluindo a percepção humana e as relações com o espaço, e a Geografia Humana, que estuda
e descreve os padrões de interação entre sociedade e espaço e mapeia os padrões sociais que
moldam as sociedades humanas.

O impacto mútuo da sociedade no espaço e do espaço na sociedade, cria o que Lefebvre,


um dos principais teóricos do espaço da sociedade no século XX chamou de - espacialidade
social (SOJA, 2001). O autor propõe que a espacialização da vida social é simultaneamente
percebida, concebida e vivida, como realidade e imaginação.

Ela funciona como forma, configurada materialmente como coisas no espaço, bem como mentalmente
como pensamentos sobre espaço; mas também como processo, como uma força dinâmica que está
sempre sendo ativamente produzida e reproduzida. Neste sentido, a forma e formação de espacialidade
social é inseparável da sociedade, parte do que uma vez descrevi como uma dialética sócio-espacial em
que as relações sociais (formas e processos) formam e são simultaneamente moldadas por relações
espaciais (formas e processos) . (SOJA, 2001, S 1.5)

A perspectiva triádica de Lefebvre (in GOORNEWARDENA, KIPFER, MILGROM, e SCHMID,


2008) - conceber, viver, perceber – e a perspectiva triádica de Preston-Dunlop - criação, atuação
e recepção (PRESTON-DUNLOP & SANCHEZ-Colberg, 2002) examinam essas relações como
processos sobrepostos e oferecem alternativas à teorias que associam cada um desses aspectos
a um papel, frequentemente colocando um em posição privilegiada em relação a outro. Ao
associar as perspectivas triádica de Lefebvre e Preston-Dunlop, a Sociocoreologia propõe
observar os processos envolvidos na concepção-criação, vivência-atuação, percepção-recepção
de uma performance social. Entendemos que a criação de um ritual social envolve processos de
exploração, descoberta, auto-apreciação, avaliações constantes e escolhas, que são realizadas
por todos os envolvidos na criação. Sua atuação incorpora tanto o fazer como o pensar,
explorar, criar, resolver problemas, imaginar e pré-apreciar o impacto desejado. E sua
percepção é uma forma de receber, que inclui criar, atuar e decifrar, uma vez que envolve
reinterpretações e processos criativos de descoberta e construção de sentido, que são
imbricados com a memória, experiência, expectativas e cultura de cada um.

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A compreensão e encorpação da perspectiva triádica tende a provocar uma re-


conceituação das relações coletivas entre pessoas e grupos sociais entre esses e o entorno
espacial. Parece também encorajar um tipo de engajamento, que entrelaça a participação,
avaliação e construção de um evento social. Este engajamento traz para a cena social a marca
do "cidadão-bailarino-coreógrafo", como alguém capaz de evocar e ser movido por interações
desdobradas, e criativamente interligar seus feixes para gerar novas estruturas, que sustentem
e avancem de forma inovadora os objetivos de organizações, bairros, comunidades , e/ou
cidades.

Sociocoreologia e Processos de Transformação Sociocultural


A Sociocoreologia enfatiza a diversidade, a criatividade e o compartilhamento, e sugere
que, para promover transformações socioculturais significativas, é necessário que estes valores
sejam incorporados como – competência sociocultural.

Fomento da criatividade
Além de participar e observar comportamentos cotidianos e rituais sociais como
performance, a prática sociocoreológica é um processo criativo em si. A experiência com os
feixes sociocoreológicos parece ter o poder de ampliar a criatividade social e promover
inovação. Sua perspectiva sistêmica aborda as complexidades individuais e interativas das
pessoas, desenvolvendo sua percepção e habilidades criativas e aumentando seu compromisso
com a sociedade (MIRANDA, 2009). Ela também oferece a experiência de caminhos que possam
gerar conexões, assim criando uma multiplicidade de "pontos de alavancagem", que
potencialmente podem criar resultados significativos a nível individual e coletivo. Ao abraçar a
visão sistêmica, ela promove a necessária compreensão do “mapa geral” da coletividade, com
suas conexões interno-externas, e este entendimento facilita o acesso e engajamento com os
aspectos sociais, ritualísticos, científicos, banais, artísticos e educacionais da vida cotidiana.
Mais ainda, a inclusiva e complexa visão da Sociocoreologia apresenta um quadro eficaz e
emocionante para lidar com as questões sociais da atualidade, tão marcadas pela complexidade
e grande número de interações, como as que caracterizam as comunidades e organizações
"glocais".

Valorização e Alavancagem da Diversidade


Abordar rituais sociais como performance ajuda a perceber diferenças, que podem
escapar à percepção quando a visão de mundo restringe a capacidade de ver. Para alavancar a
diversidade como um ativo sociocultural, sociocoreologistas se empenham para que todos os
participantes de uma coletividade aprendam a perceber, compreender e valorizar a diversidade
e para que todos se tornem conscientes que algumas diferenças podem não ser imediatamente
percebidas por todos que participam de um evento. Enquanto diferenças, como sexo ou raça,
são mais fáceis de serem percebidas, outras, como os estilos de tomada de decisão, as formas
de gerenciar ambiguidades, as diferentes percepções de tempo ou de uso de espaço, são muito
menos evidentes.

Estratégias Sociocoreológicas para o entendimento das diferenças incluem discussões,


improvisações, teatralizações, informações sobre elas na forma de livros, filmes, revistas, bem

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como recolhimento de data através da contribuição de pessoas de diversas formações e origens,


na forma de narrativas de vida, práticas encorpadas e divulgação confiável de problemas de
diversidade: "A escuta cria dados. Da mesma forma, fazer perguntas também produz
informações relevantes para a compreensão crítica da diferença"(DAVIDSON, 2002: 8).

Essas práticas reconhecem o problema de que "na ausência de compreensão da


natureza da diferença, só se pode engajar em estereótipos ... e este estereótipo é muitas vezes
impreciso, em virtude de uma excessiva simplificação" (DAVIDSON, 2002: 8). Valorizar a
diferença, como a capacidade de apreciar a diversidade e ser transformado por ela, é uma
premissa sociocoreológica, que integra todos os outros esforços.

Compartilhamento Horizontal
Mesmo pessoas que teoricamente valorizam a diferença podem falhar em colaborar e
compartilhar conhecimento. Percebe-se tendência a abordar e valorizar semelhantes (mesmo
país ou região, mesma idade, mesma formação acadêmica, mesma classe social, etc.) e a
formação de subgrupos e coligações ao longo de atributos similares. Cada um desses grupos
tende a se ver como o grupo “in", enquanto outros são vistos como "de fora" - e seus
interesses percebidos como diferentes e possivelmente em competição com os interesses
compartilhados pelo "grupo in" ( DAVIDSON, 2002). A fim de valorizar e integrar a diferença em
todos os níveis da vida da cidade, um princípio de compartilhamento precisa governar os
processos organizacionais, e isso só pode acontecer quando as lideranças das cidades e
coletividades adquirem competência sociocultural.

Competência Sociocultural
A Sociocoreologia propõe competência sociocultural, como a habilidade multidimensional
necessária para promover e sustentar mecanismos de mudança e entende que esta
competência pode ser alcançada através da sensibilidade, conscientização, comunicação e
compreensão das características socioculturais de uma coletividade.

Sensibilidade sociocultural, significa saber que existem diferenças sociais, econômicas, étnicas e
culturais, bem como semelhanças, saber criar um discurso positivo, curioso e aberto em relação
às diferenças, promover um esforço consciente de não reproduzir observações preconceituosas
sobre comportamentos diferentes e tornar-se disponível para interações sociais em conjuntos
culturais múltiplos.

Consciência sociocultural refere-se à percepção e habilidade de articulação entre regras,


preconceitos e valores socioculturais plurais. Assume a encarnação da sensibilidade
sociocultural para melhor entender, respeitar, apreciar e articular diferenças.

Comunicação sociocultural engloba a capacidade de iniciar e desenvolver interações sociais


multiculturais, perceber padrões de interação enquanto acontecem, transitar com fluência em
ambientes pluriculturais.

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Conhecimento sociocultural se refere a uma compreensão sofisticada das características sociais


e culturais (história, valores, crenças e comportamentos) e complexidades de diferentes
coletividades. Uma pessoa socioculturalmente competente está pronta para negociar com
sensibilidade e habilidade, para compartilhar e entender as diferenças e semelhanças
socioculturais e para operar efetivamente em diferentes contextos socioculturais (CRUZ,
BAZRON, Dennis & Isaacs, 1989).

Alcançar competência sociocultural é um processo de aprendizagem de vida que exige


profundo e renovado entendimento teórico, aliado à experiência imersiva pessoal na complexa
trama de relacionamentos dos feixes sociocoreológicos. Ainda em processo de se estabelecer
como campo de estudo, a Sociocoreologia tem sido o referencial prático-teórico do projeto
[Rio] Cidade Criativa, 2010-2020, onde tem se provado uma abordagem dinâmica e produtiva
para a compreensão corpo-espacial das interações sociais, cuja performance incorpora a
inteligência, o conhecimento e a criatividade humana, para a identificação de capital cultural
informal, para a alavancagem da apreciação da riqueza que emerge da diversidade social e para
a descoberta de caminhos interessantes para a realização dos objetivos coletivos e simultânea
transformação sociocultural das coletividades.

Bibliografia

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