Você está na página 1de 16

A SOCIOLOGIA MILITAR E A GUERRA PSICOLÓGICA: UM

ESBOÇO SOBRE A PARTICIPAÇÃO DE JANOWITZ

Paulo Henrique Montini dos Santos Ribeiro¹

RESUMO

Este estudo identifica a produção de guerra psicológica nos escritos de


sociologia militar de Morris Janowitz através da sua participação na
Office Of Strategic Services (OSS) e após o fim da Segunda Guerra, de
seus trabalhos realizados junto ao Staff do Departamento de Defesa dos
Estados Unidos (DoD). Tem como objetivo identificar a influência
dessas teorias na formação do discurso institucional adotado pelo
governo militar de 64. É pouco conhecida e explorada a participação de
Janowitz acerca das atividades de inteligência e contrainformação
realizadas pelo governo americano. Esse estudo abre novos paradigmas
sobre a ação das teorias usadas no Brasil durante o Regime Militar
instaurado a partir de 1964. A luta de contraguerrilha se torna a partir
dos anos 60 uma constante nos conflitos em todo o mundo, impelidos
por lutas de libertação nacionais, também desenvolv idas no âmbito das
lutas ideológicas. É nesse campo de batalha que as atividades de guerra
psicológica terão seu maior papel, que como veremos, influenciou o
próprio ethos militar brasileiro ao dar identidade ao discurso
institucional de lutas de toda uma geração: a luta contra o comunismo.

Palavras-chave: Sociologia Militar, Guerra Psicológica, Ethos Militar

¹ Mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba, Oficial de Magistério e


professor de Sociologia da Academia da Força Aérea – AFA.
ABSTRACT

T h i s s t u d y i d e n t i f i e s t h e p r o d u c t i o n o f p s yc h o l o g i c a l w a r f a r e i n t h e
writings of military sociology of Morris Janowitz through his
participation in the Office of Strategic Services (OSS), and after the
end of World War II of his work with the Unite d States Department of
Defense (DoD). It aims to identify the influence of these theories in the
formation of the institutional discourse adopted by the military
government of 64. It is little known and exploited the participation of
Janowitz about the activities of intelligence and counterinformation
carried out by the American government. This study opens new
paradigms about the action of the theories used in Brazil during the
Military Regime established since 1964. The counterguerrilla struggle
becomes from the 60s a constant in the conflicts around the world,
impelled by national liberation struggles, also developed in the context
o f i d e o l o g i c a l s t r u g g l e s . I t i s o n t h i s b a t t l e f i e l d t h a t p s yc h o l o g i c a l
warfare activities will play their greater role, which as we shall see,
influenced the Brazilian military ethos itself by giving identity to the
institutional discourse of struggles of an entire generation: the struggle
against communism.

K e y w o r d s : M i l i t a r y S o c i o l o g y, P s yc o l o g i c a l W a r f a r e , M i l i t a r y E t h o s .
INTRODUÇÃO

A doutrina de Guerra psicológica operou a partir dos anos 60 no


Brasil através da influência militar americana. Este fato é perceptível
pela disseminação dos manuais de campanha para uso dos militares
brasileiros e de diversas outras fontes consultadas que corroboram essa
informação (BRASIL, 1966, BRASIL, 1976, CASTELLO BRANCO,
1962). Nosso trabalho se tornou possível graças aos diversos textos
publicados de acesso ao meio civil que foi possível ter acesso. Não
temos ainda total acesso as informações, mas já se encontram
disponíveis documentos do arquivo pessoal de Janowitz sobre s eu
período de atividade na OSS (1942 a 1945). Estão ainda trancados
arquivos posteriores dos quais só poderão ser abertos em 80 anos. Esses
arquivos correspondem as suas anotações e trabalhos realizados durante
o período da guerra fria, assim como o de out ros acadêmicos
contemporâneos que realizaram o mesmo trabalho. Dentre seus
trabalhos, ainda menos estudos se encontram disponíveis sobre sua
influência na área da propaganda, guerra psicológica e contra
informação. A maioria dos estudos que costumam ser ci tados sobre suas
obras são sobre preconceito racial nos Estados Unidos, sociologia
urbana (aqui destacando o surgimento da escola de Chicago), e sua
contribuição a respeito da sociologia militar. Este último marca
fortemente boa parte dos seus sucessores t eóricos. Janowitz fez
próspera carreira como professor e consultor do governo americano.

A contribuição de Morris Janowitz ao campo de estudos da


Sociologia Militar é inegável. Principalmente em relação aos avanços
nos estudos das relações civis -militares. Outra parte extremamente
importante de seus estudos, e ao que tudo indica, tem sido relevada a
um segundo plano, pelo menos no Brasil, vem a ser seus estudos sobre a
propaganda de guerra, que pode ser compreendida como um grande ciclo
da biografia de Jan owitz, compreendido de seu alistamento militar
durante a segunda grande guerra, e após o término do conflito, de suas
reflexões sobre o aprendizado desenvolvido nesse período, e posterior
esforço de pesquisa durante a guerra fria, como consultor expert do
departamento de defesa norte -americano, percebemos sua participação
no que poderia ser considerada a “ gênese” da guerra psicológica que
surge em sua época. Fruto de seus trabalhos interrogando oficiais
prisioneiros alemães, suas reflexões sobre a situação da guerra do lado
inimigo alimentaram o sistema de inteligência que operou antes,
durante e após a invasão da Normandia. Tran sferido para a Inglaterra, e
posteriormente para Copenhagen, Janowitz irá realizar uma série de
trabalhos, sendo inclusive ferido e m bombardeio enquanto trabalhava
num dos prédios da OSS em Londres. Recebera por isso uma
condecoração de coração púrpura.

Neste trabalho, devemos focar numa pesquisa de prospecção. As


explicações de conceitos de elementos da guerra psicológica não serão
abordados, por motivos instituciona is, mas sim, sobre os escritos
encontrados a respeito da propaganda e guerra psicológica que tiveram
origem na sociologia dos grandes nomes das ciências sociais. Iremos
trabalhar nesse sentido, na busca de levantar informações acerca da
participação da sociologia na formação da doutrina militar americana
que culminará nos procedimentos de luta contra as guerrilhas
comunistas no Brasil. Para isso, essa prospecção terá como fonte
manuais de campanha, que são “mapas” de procedimentos utilizados
pelos militares americanos e brasileiros para conduzirem a luta anti
revolucionária durante o regime mil itar, e pesquisas, artigos, livros e
citações de acadêmicos que trabalharam como desenvolvedores dessas
teorias. Perceberemos pela grande quantidade de acadêmicos de renome
que as doutrinas militares propagadas pelo governo americano no Brasil
tiveram origens nas ciências sociais, com particular foco sobre os
estudos de Morris Janowitz, e seus alunos.

1. DESENVOLVIMENTO

1.1 O que é sociologia militar

A sociologia militar, subárea da grande sociologia, compõe -se na


verdade de um punhado de raízes, tanto metodológicas como
epistemológicas. Esta variedade de assuntos correspondem a tentativa
de aprender um dos fenômenos mais importantes da história humana : a
guerra (COBRA, 2012).

Dito assim, os estudos da sociologia militar, ou sociologia da


defesa como muitos sociólogos têm começado a denominar (COBRA,
2012) podem parecer dispersos, e sem uma estruturação universal
relativa ao campo de subárea. Na verdade, a sutil presença dessa área
cria sim um conjunto de ferramentas, estruturas e percepções que
correspondem a tradições que remontam até mesmo as primeiras
gerações da sociologia (a exemplo, se tomamos Toqueville como um pré
sociólogo, podemos dizer o mesmo de Clausewitz para a sociologia
militar).

Portanto, não se trata de uma falta estrutural ao campo, mas antes


disso, de uma multiplicidade de interdiscipl inaridades, a saber das
demais sociologias e outros campos, como a história, a psicologia, a
antropologia, as ciências militares ( VALDEBENITO, 2012 ).

Nesse artigo optaremos por encurtar uma explicação prolongada


do tema, nos limitando a definir o campo qu e trabalhamos aqui como a
vertente americana da Sociologia Militar, inaugurada por Morris
Janowitz e desenvolvida no fórum forças armadas e Sociedade, da qual
Janowitz foi presidente fundador. Após sua gestão, diversos outros
nomes da área estiveram no car go, e prosseguiram seu trabalho.

Assim, podemos definir a curto espaço, a noção que trabalharemos aqui


como a conhecida pela vertente americana da sociologia militar, que
enquadra a definição já reconhecida de que a guerra seria a violência
organizada por um grupo de profissionais (COBRA, 2012, LANG, 1972,
JANOWITZ, 1967).

1.2 OSS e o advento da guerra psicol ógica

A OSS inicia atividades durante a segunda Guerra de forma


desorganizada. Os Estados Unidos passam a se dar conta da importância
da contra propaganda muito tarde (SHY & COLLIER, 1992). Para tornar
possível uma frente de defesa contra a bem desenvolvida ideologia
nazista, as forças armadas America irão convocar uma grande
quantidade de acadêmicos de renome das universidades americanas, e
ingressa-los num novo departamento de espionagem, conhecido como
Office Of Strategic Services (OSS). Examinar este Período da história
pode nos abrir novos horizontes acerca do nascimento e evolução da
sociologia pós guerra fria. E é nesse contexto que passamos a e xaminar
obras da sociologia militar.

Infelizmente, muitos arquivos e pesquisas sociológicas realizadas


por grandes nomes das ciências sociais ainda estão guardadas nos
arquivos secretos do Department Of Defence (DoD ). Isso tem motivo. O
domínio de certas áreas de conhecimento são consideradas vitais para o
emprego militar. Dentre essas áreas, que são amplas e correlatas a
espionagem, encontra-se a guerra psicológica. No entanto, alguns
documentos já estão disponíveis para livre consulta, graças a lei de
liberdade de imprensa, ou por que já foram consideradas obsoletas.
Temos assim fragmentos. Estas p eças de um grande quebra -cabeça nos
apontam direções, mas nos impedem de tomarmos afirmações muito
concretas. O que sabemos hoje sobre a participação da sociologia
militar, ainda é incipiente. Sabemos no entanto que dentre os
sociólogos, o nome de Morris Janowitz se tornou lugar comum. Ele
realizou estudos sobre recrutamento militar nos Estados Unidos, sobre o
tipologias militares, valores institucionais, etc. Publicou diversos
artigos e livros sobre o tema e foi o prolífico divulgador da área.

A Sociologia Militar, ramo da sociologia que observa o fenômeno


da guerra como a violência organizada por grupos sociais como
elemento normalmente usado por instituições voltadas para esse fim
(LANG, 1972), tem ainda um grande muro a transpor junto a sociologia
conhecida nas universidades brasileiras. Esta ponte de conhecimento
poderia alterar muitos estudos, e abrir novos entendimento s para a
estruturação de relações entre instituições militares e a sociedade de
civil, colaborando para a construção de estados coesos e fortes. Obras
como o livro de Samuel P. Huntingoton, The Soldier and The State
(HUNTINGTON, 2016) e a obra intitulada The Professional Soldier
(J ANOWITZ, 1967), obra máxima dos escritos de Janowitz, abrem
caminho nessa direção. Decodificam do funcionamento das estruturas
militares e relativizam o uso da violência dentro de uma instituição
singular dos estados democráticos e civilizados.

Desvendar a história da guerra psicológica não é somente revelar


uma história ainda desconhecida das ciências sociais. É também ajudar
os pesquisadores de temas como repressão e governos militares na
América Latina a pensar o futuro dos atuais modelos políticos latino -
americanos. Estas construções remontam ao período da Segunda Grande
Guerra que concluiu seu período deixando um legado de profissionais
de volta as universidades de origem. Alguns deles se tornarão famosos
na Sociologia, e cont inuarão seus estudos do campo militar, seja por
conta de suas universidades, sejam ainda ligados a estrutura de defesa
americana.

Encontramos estudos que comprovam essa ligação. Elas deduzem


bem o espírito de luta antifascista, e no pós guerra, o esforço d e luta
contra a cortina de ferro. John Shy e Thomas W. Collier irão esboçar a
preocupação com a modificação que a guerra passa a ter no período
após a queda do Eixo. Essas novas modificações serão levadas a cabo
pelo conflito ideológico entre russos e amer icanos (SHY & COLLIER,
1992). Na atividade de guerra psicológica encontramos o apoio
sociológico ainda nos dias atuais (VILLAMARIN, 2017).
1.3 Os estudos de Guerra Psicológica

Na obra A Psycological Warfare Casebook (DAUGHERTY &


JANOWITZ, 1968) J anowitz se dedicará a escrever curtas biografias de
propagandistas de grande importância durante a segunda grande guerra.
E l e e W i l l i a m E . D a u g h e r t y, a n a l i s t a d e o p e r a ç õ e s e o f i c i a l d e
inteligência em linguagem japonesa, que trabalhou juntamente com
Janowitz no esforço de guerra, farão uma lista de biografias, dentre as
q u a i s J o s e p h G o e b b e l s , W i l i l a m J o yc e , M a r t i n F . H e r z , I l ya E h r e n b u r g
dentre outros (DAUGHERTY & JANOWITZ, 1968).

Também são de autoria de Morris Janowitz textos como: The


Emancipation Proclamatio n as na Instrument os Psycological Warfare,
do qual irá demonstrar o papel da guerra psicológica nas diversos
grupos sociais dos quais foi possível perceber esses efeitos ; Written
Directives, onde Janowitz discute o grau de eficácia na avaliação das
operações de guerra psicológica, dentro de um contexto de casos e
experiências americanas sobre o assunto, inclusive em tempos de paz;
Propaganda of Strategc Deception, texto cujo estudos até as atuais
publicações da CIA ainda se baseia para a realização de suas políticas
de inteligência; Language Idiom and Accent in Psycological Warfare,
onde poderá ser entendido o papel da linguagem para a comunicação ou
a maior penetração da mensagem que se deseja inserir nas massas,
utilizando-se assim o nível de entendi mento do grupo em foco. O Uso
da gramática e da linguagem correta foi testado por exemplo, nas
mensagens de rádio das quais Janowitz ajudou a montar com o intuito
de difundir a imagem aliada na Europa e desgastar a moral alemã;
Coordinating Psycological Wa rfare Output to Future Events, onde
Janowitz discutirá o papel do uso do tempo certo e do ordenamento das
mensagens, assim como de sua utilização através de meios não
convencionais; Auditing International Radio Broadcasting Output,
trabalho onde Janowitz d iscute a coordenação de programas de rádio, e
suas influências que devem ser observadas, de acordo com o público
alvo. Esses programas eram editados e transmitidos simultaneamente em
varias línguas, e visavam cada um, público de interesse militar.
Janowitz deixa transparecer que conhecia o trabalho das transmissões
de rádio não só da propaganda antinazista, como também as teria
acompanhado no período da guerra da Coréia, o que demonstra
claramente que mesmo após sua baixa do serviço militar, ele ainda
continuou ligado ao serviço de informação do DoD; Survey os
Comunications Patterns in Jordan, Texto do qual Janowitz debate o uso
da rádio sobre a população Jodaniana, e a utilização desse fim para a
construção da imagem americana sobre o povo, inclusive beduín os;
Inferences about Propaganda Impact from Textual and Documentary
Analisys, análise da qual Janowitz tenta mostrar técnicas que permitir
medir a evolução da propaganda psicológica através de interceptações
de rádios inimigas, documentos e outros meios envolvendo observações
indiretas. Documentos são assim, valiosos meios para se perceber quais
os efeitos foram conseguidos através do trabalho de guerra psicológica
americana; Trends in Wermacht Morale, texto provavelmente
proveniente de seus interrogatórios com militares alemães prisioneiros
de guerra, dos quais seus arquivos ainda constituem forte fonte de
pesquisa. Janowitz percebe claramente como os militares presos já
percebiam que a guerra estava perdida. As tropas alemãs lutavam no
entanto para mover a estrutura militar da qual pertenciam, sem no
entanto, acreditarem na vitória após o desembarque da Normandia
(DAUGHERTY & JANOWITZ, 1968).

Nestes textos encontramos influência das pesquisas sociais


realizadas durante o período da guerra interrogando as t ropas alemãs.
Dalí sairá seu conhecimento sobre ethos e valores militares, sobre a
disseminação de informação sobre tropas inimigas, sobre a propaganda
nazista e seus propagadores, assim como de quais formas podem ser
medidas essas categorias de valores. P osteriormente a guerra, seus
esforços parecem estar mais concentrados nas problemáticas políticas.
Estes textos publicados em 1968 parecem ter sido escritos ou pelo
meios anotados nos anos 50. No período dos anos 70 sua produção
começará a ser marcada muit o mais pela descrição da estrutura militar
americana e sobre as políticas pú blicas adotadas sobre a política
externa americana do que sobre os detalhes e os métodos da propaganda
na política com fins de guerra. É muito provável que isso não tenha
acontecido de fato. O desenvolvimento da guerra psicológica atual
alcançou níveis ainda mais elevados. Não temos por enquanto acesso
total a essa parte dos estudos que Janowitz pode ter continuado, mas
sabemos que ele manteve estreito laço com as atividades de cont ra
inteligência norte-americana. Num manual desclassificado de Setembro
de 2010, podemos perceber que o grau de pureza teórica está muito
maior. Vários conceitos já passaram a ser abordados para entender os
novos conceitos de radicalização, tais como: inte racionismo simbólico,
teoria da identidade, teoria da identidade social, teoria dos movimentos
sociais, teoria antisocial, etc (US ARMY, 2010). As novas teorias da
Guerra Híbrida, que teriam sido desenvolvidas pelo moderno Exército
Russo foi acompanhada de perto pelos modernos cientistas sociais que
estão a serviço do governo americano (IDEM, 2010). As diversas
investidas das mídias sociais ofereceram com relativa certeza um
trabalho de atualização das teorias da guerra psicológica que estão
citadas aqui. Janowitz conhecia o rádio como forma de propaganda, mas
não as mídias da internet como o facebook, e o uso da fake news. Mais
manuais atualizados poderiam ajudar a reconstruir esta lacuna teórica
entre as primeiras tradições da guerra psicológica, e os a tuais
desenvolvedores. Por este motivo que se optou por reconstruir a
doutrina e sua influência no Brasil ao invés de se buscar um estudo
atual dessa relação. Espera -se que este estudo tenha algum tipo de
contribuição para se traçar descobertas dos atuais modelos, ou pelo
menos indicar direções que elas possam ter tomado nesses anos.

Todos os textos de Janowitz citados acima são encontrados nos


conteúdos dos manuais de campanha editados pelo Exército brasileiro,
mas de forma simplificada. Percebemos aqui q ue os manuais de
campanha editados no Brasil portanto não foram desenvolvidos ou
pensados pelas forças armadas brasileiras, mas sim, replicados de
manuais de campanha americanos, desenvolvidos a partir dos estudos da
OSS e posteriormente pela CIA, e que re montam ainda aos estudos
desses sociólogos, que trabalhavam nos bastidores. A maioria das
semelhanças encontram -se na prática de realização da propaganda, ou
da contra propaganda, mas muito pouco sobre os métodos de avaliação
da eficácia da guerra psicológ ica aplicada. Isso nos indica duas
possibilidades observáveis sobre os manuais brasileiros sendo: a) os
especialistas norte-americanos teriam tomado cuidado na formação do
pessoal brasileiro, lhes dando uma formação mais tecnicista sobre o uso
da doutrina de guerra psicológica, ou b) os manuais e escritos
encontrados não correspondem a todo o conhecimento empregado na
formação militar brasileira, sendo que boa parte desses especialistas
teriam aprendido esses meios por outros modelos que não os do uso de
manuais de campanha. Existe a possibilidade de que os cursos
presenciais pudessem ter essa característica, mas a princípio é crível
que os americanos teriam tomado o cuidado de manter resguardado a
parte mais importante da doutrina, cabendo aos brasileiros u m papel
secundário nesse campo.

De qualquer forma, além de Janowitz, outros colegas com quem


conviveu também influenciaram o formato da guerra psicológica.
Howard S. Becker, outro sociólogo que trabalhou no esforço de guerra
antinazista como operações de contra propaganda da OSS, terá, por
exemplo, estudos acerca da propaganda negra (BECKER, 1968, p. 672).
A mesma descrita nos manuais de guerra psicológi ca brasileiros
(BRASIL, 1966 ). No manual, além de curto e conceitual, poderemos
tirar apenas aplicações práticas e suas implicações nas atividades
militares. No texto de Becker, poderemos nos debruçar com muito
cuidado sobre as características que culminaram na elaboração do
conceitos de propaganda branca, (Becker, idem). A mesma afirmação
encontramos nos manuais de guerra revolucionária do Exército
Brasileiro (BRASIL, 1966, p. 130) (BRASIL, 1976). As conceituações
das propagandas e das formas de sua utilização estão ricamente
impregnadas de conceitos sociológicos como grupo social (Brasil, 1976,
p. 59), símbolos ou ambientes simbólicos (p. 60), subversão (BRASIL,
1966, p. 14), massa s (BRASIL, 1966, p.17) Forças Sociais (SHY &
COLLIER, 1992) dentre muitas outras. Estas teorias tem forte ligação
com a teoria marxista, e sabe-se hoje que estas conrrentes marcaram
fortemente a OSS através da Escola de Frankfurt ( CAVIN, 2004 ).
Nomes conhecidos como Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Theodor
Adorno, Eric Fromm, Paul Lazarsfeld, Otto Kirchheimer , Leo
Lowenthal, Friedrich Pollock, Franz Neumann, além de cientistas de
várias áreas como da psicologia, história e economia trabalharam e
fundaram o conhecimento da OSS. Posteriormente estes cientistas
sociais serão movidos para trabalharem para a CIA a partir de 1947
(CAVIN, 2004 ). É difícil dizer se J anowitz dedicou estudos aos
Frankfurtianos ou qual o nível de contato em que eles operaram durante
esse período. No entanto, é perceptível que a teoria das massas e o
conceito de ideologia vai ser levado como primordial aos manuais de
guerra psicológica graças a essas influências importantes. Sabemos hoje
que o trabalho que formará as teorias frankfurtian as sobre os estados
totalitários, os mecanismos da indústria cultural foram financiados pela
OSS, e posteriormente, pela CIA (IDEM, 2004). Basicamente, o
trabalho desses acadêmicos era de levantamento de informações sobre o
inimigo através de pesquisa soci al, com o intuito de prover dados ao
serviço de inteligência aliado.

Outro detalhe importante sobre Janowitz é o fato de que as


transformações na América Latina também foram alvo de suas
observações. A instabilidade das políticas militares latinas foram
analisadas sobre a ótica de sua teoria, assim como de seus
correligionários. Tanto o caso dos países que encontravam -se em guerra
civil como os que entraram em processo de intervenção militar. Vale
ressaltar por exemplo que não somente Janowitz tinha grande influência
no pensamento brasileiro, como também Samuel Huntington, em
passagem pelo Brasil,segundo Luís de Alencar Araripe, foi chamado
pelo General Golbery do Couto e Silva, com quem: “ discutiu o tema,
preocupação maior do General e do Governo do presid ente Geisel: a
volta do Brasil à plenitude democrática ” (HUNTINGTON, 2016, p.13).

Sobre o Brasil, dirá Janowitz que o golpe de março de 1964


desempenha bem o modelo estrutural de uma cúpula de oficiais de
carreira que tomam o poder político, segundo os modelos conhecidos de
teorias da sociologia militar. Notará inclusive, que diferentemente do
caso da Argentina, é possível perceber a ruptura com a estrutura civil
no controle do poder político, e o papel orq uestrado pelos militares
brasileiros na tentativa de um projeto desenvolvimentista. Esse fato não
é comum em todos os casos latino -americanos. Janowitz irá perceber a
influência do crescimento populacional, e irá indicar que o Brasil
apresenta característi cas típicas onde se desenvolvem grupos
paramilitares. Ele não demonstra interesse específico sobre a guerra
revolucionária no país, mas atenta para o detalhe da escalada de
violência durante o governo militar para reprimir movimentos políticos.
O Brasil ainda segundo ele irá influenciar o programa chileno
(J ANOWITZ, 1977).

O General Humberto de Alencar Castello Branco, realizando uma


palestra no 2º semestre do ciclo de conferências do Estado Maior do
Exército, em 1962, irá colocar a necessidade dos estudos da guerra
revolucionária e na luta ideológica como uma necessidade no currículo
militar da época. Em sua palestra, é impressionante perceber a clara
influência sociológica sobre os estudos da guerra revolucionária, dos
estudos sobre ideologia e da necessi dade do combate a guerra
psicológica, afirmando que estes são os elementos dos quais todos os
militares deverão ter um cuidado especial (CASTELLO BRANCO,
1962). O general cita uma gama de pensadores conhecidos das ciências
sociais, tais como Saint Simon, Proudhon, Fuerbach, além de nomes do
marxismo clássico. Ele dedicará atenção a propaganda soviética, ao
efeito da guerra psicológica e a outros campos com clara influência das
teorias encontradas nos escritos de Janowitz e seus colegas. Nos
capítulos seguintes irá explicar sobre a guerrilha e outros meios de luta
de caráter mais prático. É interessante notar que não encontramos
material de Janowitz acerca da estruturas de guerrilha ou sobre as lutas
desenvolvidas por este meio de guerra irregular. As obras d este autor
parecem ter focado mais as estruturas dos exércitos profissionais, e
seus meios de funcionamento do que sobre as estruturas irregulares
adotadas por povos do terceiro mundo. Janowitz tem preocupação com a
formação de grupos paramilitares na Amér ica Latina e quais seus
elementos de relação com a incapacidade do estado sobre o controle
social do país. Janowitz demonstra que as ações militares externas que
vão eclodir na América Latina trazem consigo uma série de problemas
em relação a manutenção das democracias.

Um detalhe importante sobre esta pesquisa vem da possibilidade


de que esses cientistas sociais poderiam na verdade terem sido
treinados pelo governo, e assim disseminado esse recurso de
conhecimento. Não acreditamos nisso por vários motivo s. Em primeiro
lugar, as estruturas dos textos apresentam um claro desenvolvimento de
pesquisas, e não a atividade técnica de um funcionário treinado. Os
dados coletados, a quantidade de autores e a quantidade de informações
demonstram que não somente esse s autores citados foram os criadores
intelectuais desse campo, como também que a guerra psicológica possui
uma longa e destacada base sociológica em suas gênese. Outro motivo
importante vem do fato de que não existe uma ruptura entre os
trabalhos realizado s antes da incorporação desses acadêmicos ao
esforço de guerra e suas produções após a guerra. Há ao contrário uma
forte ligação na linha de pensamento desses autores, cu lminando
inclusive em trabalhos clássicos da sociologia (CAVIN, 2004). É
necessário registrar também a participação de antropólogos, psicólogos
e economistas que se destacaram igualmente nos trabalhos de formação
do pensamento do DoD. Em 1941, Wild Bill Donovan, o grande
idealizador da coleta e seleção desses acadêmicos, e figurar basilar d a
criação da OSS operou recolhendo cientistas imigrante europeus para a
causa americana, encontrando assim acadêmicos como Paul e Mary
Mellon,Allen Dules, Carl Jung, Erik Ericson etc. (CAVIN 2004).

Outro ponto importante é perceber a forma de relação entre o mundo


acadêmico americano e o modelo brasileiro. Através de diversas
bibliografias, assim como os diversos projetos desenvolvidos pelas
forças armadas americanas (Minerva Project, Rand Corporatio n, etc.)
percebemos uma permeabilidade entre o conhecimento das
universidades alimentando a estrutura de defesa do DoD. Este fato não
parece ocorrer no Brasil. Pelo menos, não durante o período do regime
militar. A presença das teorias marxistas foram plen amente difundidas,
não se encontrando uma conexão muito clara das ciências sociais com o
governo militar. Muito pelo contrário, a academia se posicionou de
forma contrária ao governo. Somente no período posterior, encontramos
cientistas sociais realizando pesquisas no meio militar (CASTRO, 2004)

Leirner mostrará como é difícil a atividade de pesquisa no meio


militar, que ainda se encontra muito fechado ao mundo acadêmico civil
(CASTRO & LEIRNER, 2009). A divisão entre o mundo interno e
externo ainda é muito forte. Os cientistas sociais como um todo são
vistos como sinônimo de comunistas (IDEM, 2009). Provável fruto
desse choque político ideológico do qual se passou no período do
governo militar. Ainda é preciso lembrar que mesmo assim, a academia
passou por diversos esforços de estudos no meio militar brasileiro. Os
estudos na área de sociologia militar se tornaram tão escassos no Brasil
que praticamente os estudantes de ciências sociais brasileiros
desconhecem a área e a bibliografia. Esse esforço de estudo foi
realizado de forma pontual e sobre muito custo por alguns nomes como :
Eurico de Lima Figueiredo, Alexandre Barros, Eliézer Rizzo de
Oliveira, Manuel Domingos Neto, Héctor SaintPierre, João Roberto
Martins Filho e Samuel Alves Soares (CASTRO, 2016).

Essa ruptura institucional com o meio acadêmico brasileiro


demonstra que o modelo americano não é nem um pouco parecido com o
modelo de estrutura americana. Janowitz mesmo assim também
perceberá que a tensão entre sociedade civil e forças armadas
igualmente existe nos Estados Unidos, principalmente na construção da
sociedade dos militares de carreira (JANOWITZ, 1967). Essa ruptura no
entanto, não teria as mesmas características descritas no Brasil, cuja
ruptura teórica é um empecilho para o pleno desenvolvi mento de um
modelo mais acessível as massas. Esta característica “isolacionista”
segundo a teoria da guerra psicológica, é um elemento perigoso para as
forças armadas brasileiras, que precisa preocupar -se com a opinião
pública como fator de decisão da ação militar.

2. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pouco podemos afirmar sobre os trabalhos que de fato realizou


durante seu serviço junto ao DoD dos EUA. Não por acaso, Janowitz
está no Hall de grandes nomes do batalhão de operações psicológicas do
exército americano, pela grande contribuição e pesquisa no esforço de
guerra do qual esteve evolvido. O que podemos perceber é que daqueles
escritos, rascunhos, folhas datilografadas e livros espaça damente
editados, além de seus sucessores e alunos, surgiu boa part e das teorias
e métodos que passam a se desenvolver durante os anos 60, estão por
mais que nas notas de rodapé, ligadas aos trabalhos dessas equipes,
pioneiras durante o grande conflito mundial, e posteriormente experts
na área. Enfrentarão grandes provaçõ es, formarão grande cadeia de
pensamento, mas infelizmente, serão pouco conhecidos por parte da
sociedade acadêmica fora do círculo de trabalho. Estes esforços no
entanto, irão ecoar como um furacão por toda a America latina.
Esperamos que mais documentos de época sejam desclassificados, e que
mais dessa incomum história sociológica possa ser, finalmente
descoberta. Como nos avisa Kurt Lang em sua carta sobre o assunto: “
Also, Much material relevant to the field is under security restrictions
a n d , e v e n w h e n r e l e a s e d , e n j o ys o n l y l i m i t e d c i r c u l a t i o n ” ( L A N G ,
1972).

REFERÊNCIAS

BECKER, Howard S. Nature and Consequences of Black Propaganda.


I N : D A U G H E R Y , W i l l i a m E . J A N O W I T Z , M o r r i s ( O r g ) . P s yc o l o g i c a l
Warfare Casebook. Johns Hopkins Press, Baltimore, 1968.

BRASIL. Ministério da Guerra. Guerra Psicológica. Manual de


Campanha C 33 -05, Impresso no Estabelecimento General Gustavo
Cordeiro de Farias (circulação restrita, vedado a imprensa), 1966.

BRASIL. Ministério do Exér cito. Escola de Comunicações. Guerra


Revolucionária. Departamento de Ensino e Pesquisa. Deodoro, RJ,
1976.

BRASIL. Ministério do Exército . Guerra Revolucionária . Manual de


Campanha C 100 -20, Impresso no Estabelecimento General Gustavo
Cordeiro de Farias (circulação restrita, vedado a inprensa), 1970.

CASTELLO BRANCO. Humberto de Alencar. O Dever do Militar em


face da Luta Armada . IN: Noções Básicas de Guerra Rev olucionária.
Coletânea. ITDM, 1962.
CASTRO, Celso. O Espírito Militar: Um Antropólogo na Caserna.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 2004.

CASTRO, Celso; LEIRNER, Piero (Org.). Antropologia dos militares:


reflexões sobre pesquisas de campo . Rio de Janeiro: FGV, 2009.

CASTRO, Celso. Pesquisando os Militares: Experiências de


Cientistas Sociais. Rio de Janeiro, Editora Prismas, 2016.

CAVIN, Susan. OSS & The Frankfurt School: Recycling the “Damage
lives of Cultural Outsiders”. Meeting of American Sociological
Association. 2004. Paper.

DAUGHERY, William E. JANOWITZ, Morris. Psycological Warfare


Casebook. Johns Hopkins Press, Baltimore, 1968.

HUNTINGTON, Samuel P. O Soldado e o Estado : teoria e política das


relações entre civis e militares . Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 2016.

JANOWITZ Morris. Military Institutions And Coercion In Developing


Nations. University of Chicago Press, Chicago, 1977.

JANOWITZ Morris. O Soldado Profissional . Editora GRD, Rio de


Janeiro, 1967.

LANG, Kurt. Military Institutions and the Sociology of War: A


review of the literature with annotated bibliography . Sage
Publications. Beverly Hills, California, 1972.
SHY, J ohn & COLLIER, Thomas W. Guerra Revolucionária . IN:
Idéias em Destaque nº 10. Tradução e adaptação do Coronel José de
Carvalho,Instituto Histórico -Cultural da Aeronáutica, Rio de Janeiro,
1992.

SILVA, Murilo Vaso do Vale. Guerra Psicológica . IN: Noções Básicas


de Guerra Revolucionária. Coletânea. ITDM, 1962.

US ARMY. Radicalization: Relevant Psycological and Sociological


C o n c e p t s . A s ym e t r i c W a r f a r e G r o u p , J o h n H o p k i n s P r e s s , 2 0 1 0 .

VALDEBENITO, Omar Gutierrez. Sociología Militar: La Profesión


Militar en la sociedad democrática . Santiago de Chile, Editora
Universitária, 2002.

VILAMARIN, Luis Alberto. Guerra Sicológica: Victoria de la mente


sobre la espada . TOMO I. Colección Sociologia Militar, Nº 1, Bogotá,
Vilamarin Ediciones, 2017.

Sites consultados:

Hall da fama do batalhão de Guerra Psicológica dos EUA :

http://www.soc.mil/SWCS/RegimentalHonors/_pdf/po_janowitz.pdf
(acessado em 01/01/2018)