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PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO CONSTITUCIONAL

MÓDULO CONSTITUCIONAL APLICADO

Professor: Nelson Rosenvald.

1. Material pré-aula

a. Tema

Direito Civil Constitucional

b. Noções Gerais

Após o advento da Constituição Federal de 1988, o Direito Privado,


em observância aos valores e aos princípios constitucionais, passou a
desempenhar uma função social priorizando a pessoa humana, sua
dignidade e o efetivo exercício da cidadania, transformando, assim,
as relações jurídicas travadas entre os particulares.

Neste passo, para Maria Celina Bodin de Moraes “o direito civil


constitucionalizado”, isto é, o direito civil, transformado pela
normativa constitucional, tem como fundamento a superação da
lógica patrimonial (proprietária, produtivista, empresarial) pelos
valores existenciais da pessoa humana que se tornam prioritários no
âmbito do direito civil, porque privilegiados pela Constituição”(1).

Conforme Flávio Tartuce: “o Código Civil de 2002 passou a tratar dos


direitos da personalidade entre os seus arts. 11 a 21. Destaque-se
que a proteção de direitos dessa natureza não é uma total novidade
no sistema jurídico nacional, eis que a Constituição Federal de 1988
enumerou os direitos fundamentais postos à disposição da pessoa
humana. Por isso, é preciso abordar a matéria em uma perspectiva
civil-constitucional, na linha doutrinária antes exposta” (2).

Para Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald: “ao reunificar o


sistema jurídico em seu eixo fundamental (vértice axiológico),

1
estabelecendo como princípios norteadores da República Federativa
do Brasil a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), a solidariedade
social (art. 3º) e a igualdade substancial (arts. 3º e 5º), além da
erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais,
promovendo o bem de todos (art. 3º, III e IV), a Lex Fundamentallis
de 1988 realizou uma interpenetração do direito público e do
direito privado, redefinindo os seus espaços, até então estanques e
isolados. Tanto o direito público quanto o privado devem obediência
aos princípios fundamentais constitucionais, que deixam de ser
neutros, visando ressaltar a prevalência do bem-estar da pessoa
humana” (3).

Neste contexto, importante destacar as normas correlatas dispostas


nos arts. 1º, 3º, 5º e 220 da Constituição Federal:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união


indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-
se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
(...)
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
(...)

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa


do Brasil:
(...)
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem,
raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes

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no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(...)
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento
desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o
anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao
agravo, além da indenização por dano material, moral ou à
imagem;
(...)
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo
dano material ou moral decorrente de sua violação;
XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos
direitos e liberdades fundamentais;
(...)
§ 1º As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm
aplicação imediata.
§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela
adotados, ou dos tratados internacionais em que a República
Federativa do Brasil seja parte.
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois
turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão
equivalentes às emendas constitucionais.
(...).

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão


e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não
sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à


plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de

3
comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e
XIV.

§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política,


ideológica e artística.
(....)”

E, ainda, importante trazer à baila os dispositivos dispostos no


Código Civil sobre os Direitos da Personalidade:

“Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da


personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o
seu exercício sofrer limitação voluntária.
Art. 12. Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da
personalidade, e reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras
sanções previstas em lei.
Parágrafo único. Em se tratando de morto, terá legitimação para
requerer a medida prevista neste artigo o cônjuge sobrevivente, ou
qualquer parente em linha reta, ou colateral até o quarto grau.
Art. 13. Salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do
próprio corpo, quando importar diminuição permanente da
integridade física, ou contrariar os bons costumes.
Parágrafo único. O ato previsto neste artigo será admitido para fins
de transplante, na forma estabelecida em lei especial.
Art. 14. É válida, com objetivo científico, ou altruístico, a disposição
gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte, para depois da
morte.
Parágrafo único. O ato de disposição pode ser livremente revogado a
qualquer tempo.
Art. 15. Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de
vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica.
Art. 16. Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o
prenome e o sobrenome.

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Art. 17. O nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em
publicações ou representações que a exponham ao desprezo público,
ainda quando não haja intenção difamatória.
Art. 18. Sem autorização, não se pode usar o nome alheio em
propaganda comercial.
Art. 19. O pseudônimo adotado para atividades lícitas goza da
proteção que se dá ao nome.
Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da
justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos,
a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização
da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento
e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra,
a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins
comerciais. ( ADIN 4815)
Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes
legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou
os descendentes.
Art. 21. A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a
requerimento do interessado, adotará as providências necessárias
para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma”.

De todo modo, para melhor compreender este tema, necessário


percorrer pelos seguintes pontos:

 Existência ou não da dicotomia entre o Direito Público e o Direito


Privado;
 Enquadramento do Código Civil nesta nova ordem jurídica;
 Influência da Constituição Federal no Direito Privado: valores,
princípios e direitos fundamentais constitucionais.

(1) MOARES, Maria Celina Bodin de. A caminho de um Direito Civil Constitucional. Revista de
Direito Civil. São Paulo, v. 17, n. 65, p. 28-9, jul./set. 1993.
(2) TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. São Paulo: Saraiva, 2016.
(3) ROSENVALD, Nelson; Chaves de Farias, Cristiano. Curso de Direito Civil - Parte Geral e
LINDB – 14ª Ed. 2016. Juspodivm.

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c. Legislação

Constituição Federal: arts. 1º, 3º, 5º e 220.

Código Civil: arts. 11 a 21.

Súmula: “É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que


seja a modalidade do depósito.” (Súmula Vinculante 25.)

d. Julgados/Informativos
(íntegra dos respectivos acórdãos em:
http://stf.jus.br/portal/inteiroTeor/pesquisarInteiroTeor.asp - informar apenas o
número do processo sem ponto ou dígito verificador e serão listadas as classes
relacionadas ao número)

“Direito civil e constitucional. Acão de investigacão de


paternidade cumulada com peticão de herança. Filho adulterino.
Paternidade não contestada pelo marido. Direito de ter o filho
reconhecido, a qualquer tempo, o seu pai biológico. Prevalência do
direito fundamental a busca da identidade genética como direito de
personalidade”. [AR 1.244 EI, rel. min. Cármen Lúcia, j. 22-9-
2016, P, DJE de 30-3-2017.]

“Considerando que é dever do Estado, imposto pelo sistema


normativo, manter em seus presídios os padrões mínimos de
humanidade previstos no ordenamento jurídico, é de sua
responsabilidade, nos termos do art. 37, § 6º, da Constituição, a
obrigação de ressarcir os danos, inclusive morais, comprovadamente
causados aos detentos em decorrência da falta ou insuficiência das
condições legais de encarceramento. Com essa orientação, o Tribunal
(...) deu provimento a recurso extraordinário para restabelecer o
juízo condenatório nos termos e limites do acórdão proferido no
julgamento da apelação, a qual fixara indenização no valor de dois
mil reais a favor de detento. Consoante o acórdão restabelecido,
estaria caracterizado o dano moral porque, após laudo de vigilância
sanitária no presídio e decorrido lapso temporal, não teriam sido

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sanados os problemas de superlotação e de falta de condições
mínimas de saúde e de higiene do estabelecimento penal. Além disso,
não sendo assegurado o mínimo existencial, seria inaplicável a teoria
da reserva do possível”. [RE 580.252, rel. p/ o ac. min. Gilmar
Mendes, j. 16-2-2017, P, Informativo 854, com repercussão geral.]

“Autorizar que se viabilize o cancelamento de registro civil por


inexistência de filiação, no caso em que o declarante foi o próprio pai,
falecido desde 2007, ofende, entre outros princípios, o da dignidade
da pessoa humana”. [RE 708.130 AgR, rel. min. Edson Fachin, j.
28-6-2016, 1ª T, DJE de 12-9-2016.]

“Não se pode permitir que a lei faça uso de expressões


pejorativas e discriminatórias, ante o reconhecimento do direito à
liberdade de orientação sexual como liberdade existencial do
indivíduo. Manifestação inadmissível de intolerância que atinge
grupos tradicionalmente marginalizados.” (ADPF 291, rel.
min. Roberto Barroso, julgamento em 28-10-2015, Plenário, DJE de
11-5-2016.)

"A Constituição reservou à imprensa todo um bloco normativo, com


o apropriado nome ‘Da Comunicação Social’ (capítulo V do título
VIII). A imprensa como plexo ou conjunto de ‘atividades’ ganha a
dimensão de instituição-ideia, de modo a poder influenciar cada
pessoa de per se e até mesmo formar o que se convencionou chamar
de opinião pública. Pelo que ela, Constituição, destinou à imprensa o
direito de controlar e revelar as coisas respeitantes à vida do Estado
e da própria sociedade. A imprensa como alternativa à explicação ou
versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade e
como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em
qualquer situação ou contingência. Entendendo-se por pensamento
crítico o que, plenamente comprometido com a verdade ou essência
das coisas, se dota de potencial emancipatório de mentes e espíritos.
O corpo normativo da Constituição brasileira sinonimiza liberdade de
informação jornalística e liberdade de imprensa, rechaçante de
qualquer censura prévia a um direito que é signo e penhor da mais

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encarecida dignidade da pessoa humana, assim como do mais
evoluído estado de civilização. (...) O art. 220 da Constituição
radicaliza e alarga o regime de plena liberdade de atuação da
imprensa, porquanto fala: a) que os mencionados direitos de
personalidade (liberdade de pensamento, criação, expressão e
informação) estão a salvo de qualquer restrição em seu exercício,
seja qual for o suporte físico ou tecnológico de sua veiculação; b) que
tal exercício não se sujeita a outras disposições que não sejam as
figurantes dela própria, Constituição. A liberdade de informação
jornalística é versada pela CF como expressão sinônima de liberdade
de imprensa. Os direitos que dão conteúdo à liberdade de imprensa
são bens de personalidade que se qualificam como sobredireitos. Daí
que, no limite, as relações de imprensa e as relações de intimidade,
vida privada, imagem e honra são de mútua excludência, no sentido
de que as primeiras se antecipam, no tempo, às segundas; ou seja,
antes de tudo prevalecem as relações de imprensa como superiores
bens jurídicos e natural forma de controle social sobre o poder do
Estado, sobrevindo as demais relações como eventual
responsabilização ou consequência do pleno gozo das primeiras. A
expressão constitucional ‘observado o disposto nesta Constituição’
(parte final do art. 220) traduz a incidência dos dispositivos tutelares
de outros bens de personalidade, é certo, mas como consequência ou
responsabilização pelo desfrute da ‘plena liberdade de informação
jornalística’ (§ 1º do mesmo art. 220 da CF). Não há liberdade de
imprensa pela metade ou sob as tenazes da censura prévia, inclusive
a procedente do Poder Judiciário, pena de se resvalar para o espaço
inconstitucional da prestidigitação jurídica. Silenciando a Constituição
quanto ao regime da internet (rede mundial de computadores), não
há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente
veiculador de ideias e opiniões, debates, notícias e tudo o mais que
signifique plenitude de comunicação." (ADPF 130, rel. min. Ayres
Britto, julgamento em 30-4-2009, Plenário, DJE de 6-11-2009.) No
mesmo sentido: Rcl 18.566-MC, rel. min. Celso de Mello, decisão
monocrática, julgamento em 12-9-2014, DJE de 17-9-2014.

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“Ação direta de inconstitucionalidade. §1º do art. 28 da Lei
12.663/2012 (‘Lei Geral da Copa’). Violação da liberdade de
expressão. Inexistência. Aplicação do princípio da proporcionalidade.
Juízo de ponderação do legislador para limitar manifestações que
tenderiam a gerar maiores conflitos e atentar contra a segurança dos
participantes de evento de grande porte.” (ADI 5.136-MC, rel.
min. Gilmar Mendes, julgamento em 1º-7-2014, Plenário, DJE de
30-10-2014.)

“Cabível o pedido de ‘interpretação conforme à Constituição’ de


preceito legal portador de mais de um sentido, dando-se que ao
menos um deles é contrário à CF. A utilização do § 3º do art. 33 da
Lei 11.343/2006 como fundamento para a proibição judicial de
eventos públicos de defesa da legalização ou da descriminalização do
uso de entorpecentes ofende o direito fundamental de reunião,
expressamente outorgado pelo inciso XVI do art. 5º da Carta Magna.
Regular exercício das liberdades constitucionais de manifestação de
pensamento e expressão, em sentido lato, além do direito de acesso
à informação (...). Nenhuma lei, seja ela civil ou penal, pode blindar-
se contra a discussão do seu próprio conteúdo. Nem mesmo a
Constituição está a salvo da ampla, livre e aberta discussão dos seus
defeitos e das suas virtudes, desde que sejam obedecidas as
condicionantes ao direito constitucional de reunião, tal como a prévia
comunicação às autoridades competentes. (...) Ação direta julgada
procedente para dar ao § 2º do art. 33 da Lei 11.343/2006
‘interpretação conforme à Constituição’ e dele excluir qualquer
significado que enseje a proibição de manifestações e debates
públicos acerca da descriminalização ou legalização do uso de drogas
ou de qualquer substância que leve o ser humano ao entorpecimento
episódico, ou então viciado, das suas faculdades psicofísicas.” (ADI
4.274, rel. min.Ayres Britto, julgamento em 23-11-2011,
Plenário, DJE de 2-5-2012.) Vide: ADPF 187, rel. min. Celso de
Mello, julgamento em 15-6-2011, Plenário, DJE de 29-5-2014.

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"Eficácia dos direitos fundamentais nas relações privadas. As
violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito
das relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações
travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os
direitos fundamentais assegurados pela Constituição vinculam
diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados
também à proteção dos particulares em face dos poderes privados.
Os princípios constitucionais como limites à autonomia privada das
associações. A ordem jurídico-constitucional brasileira não conferiu a
qualquer associação civil a possibilidade de agir à revelia dos
princípios inscritos nas leis e, em especial, dos postulados que têm
por fundamento direto o próprio texto da Constituição da República,
notadamente em tema de proteção às liberdades e garantias
fundamentais. O espaço de autonomia privada garantido pela
Constituição às associações não está imune à incidência dos
princípios constitucionais que asseguram o respeito aos direitos
fundamentais de seus associados. A autonomia privada, que encontra
claras limitações de ordem jurídica, não pode ser exercida em
detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros,
especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a
autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de
sua incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as
restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e
força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de
suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais." (RE
201.819, Rel. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 11-10-
2005, Segunda Turma, DJ de 27-10-2006.)

"Sociedade civil sem fins lucrativos. Entidade que integra espaço


público, ainda que não estatal. Atividade de caráter público. Exclusão
de sócio sem garantia do devido processo legal. Aplicação direta dos
direitos fundamentais à ampla defesa e ao contraditório. As
associações privadas que exercem função predominante em
determinado âmbito econômico e/ou social, mantendo seus
associados em relações de dependência econômica e/ou social,
integram o que se pode denominar de espaço público, ainda que não

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estatal. A União Brasileira de Compositores (UBC), sociedade civil
sem fins lucrativos, integra a estrutura do Ecad e, portanto, assume
posição privilegiada para determinar a extensão do gozo e fruição dos
direitos autorais de seus associados. A exclusão de sócio do quadro
social da UBC, sem qualquer garantia de ampla defesa, do
contraditório ou do devido processo constitucional, onera
consideravelmente o recorrido, o qual fica impossibilitado de perceber
os direitos autorais relativos à execução de suas obras. A vedação
das garantias constitucionais do devido processo legal acaba por
restringir a própria liberdade de exercício profissional do sócio. O
caráter público da atividade exercida pela sociedade e a dependência
do vínculo associativo para o exercício profissional de seus sócios
legitimam, no caso concreto, a aplicação direta dos direitos
fundamentais concernentes ao devido processo legal, ao contraditório
e à ampla defesa (art. 5º, LIV e LV, CF/1988)." (RE 201.819, Rel. p/
o ac. Min.Gilmar Mendes, julgamento em 11-10-2005, Segunda
Turma, DJ de 27-10-2006.)

“Após a Constituição do Brasil de 1988, é nula a contratação para a


investidura em cargo ou emprego público sem prévia aprovação em
concurso público. Tal contratação não gera efeitos trabalhistas, salvo
o pagamento do saldo de salários dos dias efetivamente trabalhados,
sob pena de enriquecimento sem causa do Poder Público.
Precedentes. A regra constitucional que submete as empresas
públicas e sociedades de economia mista ao regime jurídico próprio
das empresas privadas (...) não elide a aplicação, a esses entes, do
preceituado no art. 37, II, da CF/1988, que se refere à investidura
em cargo ou emprego público." (AI 680.939-AgR, Rel. Min. Eros
Grau, julgamento em 27-11-2007, Segunda Turma, DJE de 1º-2-
2008.) No mesmo sentido: AI 612.687-AgR, Rel. Min. Dias
Toffoli, julgamento em 9-11-2010, Primeira Turma, DJE de 9-3-
2011; AI 751.870-AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgamento em
25-8-2009, Primeira Turma, DJE de 29-10-2009;AI 668.430-AgR,
Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 25-8-
2009, Primeira Turma, DJE de 25-9-2009; AI 743.712-AgR, Rel.

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Min.Celso de Mello, julgamento em 2-6-2009, Segunda
Turma, DJE de 1º-7-2009.

"Programa Universidade para Todos (PROUNI). Ações afirmativas do


Estado. Cumprimento do princípio constitucional da isonomia. (...) A
educação, notadamente a escolar ou formal, é direito social que a
todos deve alcançar. Por isso mesmo, dever do Estado e uma de suas
políticas públicas de primeiríssima prioridade. A Lei 11.096/2005 não
laborou no campo material reservado à lei complementar. Tratou, tão
somente, de erigir um critério objetivo de contabilidade
compensatória da aplicação financeira em gratuidade por parte das
instituições educacionais. Critério que, se atendido, possibilita o gozo
integral da isenção quanto aos impostos e contribuições mencionados
no art. 8º do texto impugnado. Não há outro modo de concretizar o
valor constitucional da igualdade senão pelo decidido combate aos
fatores reais de desigualdade. O desvalor da desigualdade a proceder
e justificar a imposição do valor da igualdade. A imperiosa luta contra
as relações desigualitárias muito raro se dá pela via do descenso ou
do rebaixamento puro e simples dos sujeitos favorecidos. Geralmente
se verifica é pela ascensão das pessoas até então sob a hegemonia
de outras. Que para tal viagem de verticalidade são compensadas
com esse ou aquele fator de supremacia formal. Não é toda
superioridade juridicamente conferida que implica negação ao
princípio da igualdade. O típico da lei é fazer distinções.
Diferenciações. Desigualações. E fazer desigualações para
contrabater renitentes desigualações. A lei existe para, diante dessa
ou daquela desigualação que se revele densamente perturbadora da
harmonia ou do equilíbrio social, impor uma outra desigualação
compensatória. A lei como instrumento de reequilíbrio social. Toda a
axiologia constitucional é tutelar de segmentos sociais brasileiros
historicamente desfavorecidos, culturalmente sacrificados e até
perseguidos, como, verbi gratia, o segmento dos negros e dos índios.
Não por coincidência os que mais se alocam nos patamares
patrimonialmente inferiores da pirâmide social. A desigualação em
favor dos estudantes que cursaram o ensino médio em escolas
públicas e os egressos de escolas privadas que hajam sido

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contemplados com bolsa integral não ofende a Constituição pátria,
porquanto se trata de um descrímen que acompanha a toada da
compensação de uma anterior e factual inferioridade (‘ciclos
cumulativos de desvantagens competitivas’). Com o que se
homenageia a insuperável máxima aristotélica de que a verdadeira
igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os
desiguais, máxima que Ruy Barbosa interpretou como o ideal de
tratar igualmente os iguais, porém na medida em que se igualem; e
tratar desigualmente os desiguais, também na medida em que se
desigualem." (ADI 3.330, rel. min. Ayres Britto, julgamento em 3-
5-2012, Plenário, DJE de 22-3-2013.)

“Liberdade de imprensa. Decisão liminar. Proibição de reprodução de


dados relativos ao autor de ação inibitória ajuizada contra empresa
jornalística. Ato decisório fundado na expressa invocação da
inviolabilidade constitucional de direitos da personalidade,
notadamente o da privacidade, mediante proteção de sigilo legal de
dados cobertos por segredo de justiça. Contraste teórico entre a
liberdade de imprensa e os direitos previstos nos arts. 5º, X e XII, e
220, caput, da CF. Ofensa à autoridade do acórdão proferido
na ADPF 130, que deu por não recebida a Lei de Imprensa. Não
ocorrência. Matéria não decidida na ADPF. Processo de reclamação
extinto, sem julgamento de mérito. Votos vencidos. Não ofende a
autoridade do acórdão proferido na ADPF 130, a decisão que,
proibindo a jornal a publicação de fatos relativos ao autor de ação
inibitória, se fundou, de maneira expressa, na inviolabilidade
constitucional de direitos da personalidade, notadamente o da
privacidade, mediante proteção de sigilo legal de dados cobertos por
segredo de justiça.” (Rcl 9.428, Rel. Min. Cezar Peluso, julgamento
em 10-12-2009, Plenário, DJE de 25-6-2010.)

“Cabe observar, bem por isso, que a responsabilização a posteriori,


em regular processo judicial, daquele que comete abuso no exercício
da liberdade de informação não traduz ofensa ao que dispõem os §
1º e § 2º do art. 220 da CF, pois é o próprio estatuto constitucional
que estabelece, em favor da pessoa injustamente lesada, a

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possibilidade de receber indenização ‘por dano material, moral ou à
imagem’ (CF, art. 5º, incisos V e X). Se é certo que o direito de
informar, considerado o que prescreve o art. 220 da Carta Política,
tem fundamento constitucional (HC 85.629/RS, Rel. Min. Ellen
Gracie), não é menos exato que o exercício abusivo da liberdade de
informação, que deriva do desrespeito aos vetores subordinantes
referidos no § 1º do art. 220 da própria Constituição, ‘caracteriza ato
ilícito e, como tal, gera o dever de indenizar’, (...), tal como pude
decidir em julgamento proferido no STF: ‘(...) A CF, embora garanta
o exercício da liberdade de informação jornalística, impõe-lhe, no
entanto, como requisito legitimador de sua prática, a necessária
observância de parâmetros – entre os quais avultam, por seu relevo,
os direitos da personalidade – expressamente referidos no próprio
texto constitucional (CF, art. 220, § 1º), cabendo ao Poder Judiciário,
mediante ponderada avaliação das prerrogativas constitucionais em
conflito (direito de informar, de um lado, e direitos da personalidade,
de outro), definir, em cada situação ocorrente, uma vez configurado
esse contexto de tensão dialética, a liberdade que deve prevalecer no
caso concreto.’ (AI 595.395/SP, Rel. Min. Celso de Mello).” (ADPF
130, Rel. Min. Ayres Britto, voto do Min. Celso de Mello,
julgamento em 30-4-2009, Plenário, DJE de 6-11-2009.) No mesmo
sentido:AC 2.695-MC, Rel. Min. Celso de Mello, decisão
monocrática, julgamento em 25-11-2010, DJE de 1º-12-
2010. Vide: Rcl 9.428, Rel. Min. Cezar Peluso, julgamento em 10-
12-2009, Plenário, DJE de 25-6-2010.

“Não ofende a autoridade do acórdão proferido na ADPF 130, a


decisão que, proibindo a jornal a publicação de fatos relativos ao
autor de ação inibitória, se fundou, de maneira expressa, na
inviolabilidade constitucional de direitos da personalidade,
notadamente o da privacidade, mediante proteção de sigilo legal de
dados cobertos por segredo de justiça.” (Rcl 9.428, rel. min. Cezar
Peluso, julgamento em 10-12-2009, Plenário, DJE de 25-6-2010.)

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e. Leitura sugerida

- CONRADO, Rômulo Moreira. Direitos da personalidade na


Constituição. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 18, n.
3617, 27 maio 2013. Disponível
em: <http://jus.com.br/artigos/24537>.

- COSTA FILHO, Venceslau Tavares. Constitucionalização do Direito


Civil e eficácia dos direitos fundamentais nas relações entre
particulares. Disponível em:
http://www.oab.org.br/editora/revista/users/revista/1235066798174
218181901.pdf

- ROSENVALD, Nelson; Chaves de Farias, Cristiano. Curso de Direito


Civil - Parte Geral e LINDB – 15ª Ed. 2017. Juspodivm

f. Leitura complementar

- AMARAL, Francisco. Direito civil: introdução. Rio de Janeiro:


Renovar, 2008.

- AZEVEDO, Álvaro Villaça. Teoria geral das obrigações e


responsabilidade civil. São Paulo: Atlas, 2011.

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