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EDITORIAL Manoel Canuto

Predestinação
S
oube de certo jovem que frequentava uma Igreja Dr. Sproul disse: “O Espírito Santo atua com a Pala-
Pentecostal, após ter descoberto as doutrinas da vra... a Palavra e o Espírito andam juntos... O Espírito é
graça, passou a compartilhar com outros irmãos so- o revelador da verdade”. A verdade doutrinária nos traz
bre elas em sua congregação. A liderança ao tomar conhe- convicção e se dirige a nossa consciência.
cimento do fato eliminou o moço da igreja, especialmente Nunca vou esquecer o que disse Dr. Sproul: “Se meu
porque estava ensinando a doutrina da Predestinação. entendimento da predestinação não é correto, então meu
Por que esta palavra, predestinação, provoca tanto pecado é composto, uma vez que eu estava difamando os
ódio e incompreensão se ela é encontrada literalmente santos que, por se oporem ao meu ponto de vista, estão
na inspirada Palavra de Deus Bíblia e por isso mesmo defendendo os anjos”.
amada por Ele? Muitos afirmam que esta é uma doutrina Percebo que muitos que estão em igrejas supostamen-
diabólica, como se uma entidade maligna caprichosamen- te reformadas chegaram à convicção (quando muito) de
te a tivesse criado para anunciar um fatalismo descabido que a doutrina da predestinação é bíblica e por isso, cor-
no qual o homem teria sido jogado. reta. Mas neles ainda há um problema. A questão parou
Durante grande parte da minha vida vivi no meio pres- na mente, não desceu ao coração, não tocou a consciência.
biteriano onde eram citados seus símbolos de fé e neles Vou dizer em outras palavras: Não amam a predestinação,
explicitamente se via o ensino glorioso da predestinação. não gostam dela, mesmo que o Senhor a ame!
Mas, para ser sincero, eu não sabia com a devida proprie- Em certo sentido estas pessoas são coerentemente er-
dade qual o valor e o significado desta verdade bíblica e radas. Por não amarem esta doutrina que Deus revelou,
consoladora. Para mim era algo irrelevante, uma doutrina decidiram que nunca falariam dela e pastores concluíram
que, se não falsa, era no mínimo complexa e desprovida que nunca pregariam sobre a mesma. Que pena, privar o
de valor prático. Dizia: se você não crê na predestinação, rebanho daquilo que Deus revelou para edificar a Igreja e
amém, se você crê, amém também. Hoje concluo que eu consolá-la! É tirar o alimento do rebanho, é deixá-lo com
assim pensava porque em mim não havia conhecimento fome e sede de verdades tão confortadoras.
e sem conhecimento não se tem convicção. Um homem Mas falar de predestinação é falar dos decretos de
sem convicção não tem profundidade no que crer, não Deus, do seu amor pactual e eterno para com o Seu povo,
defende e nem vive segundo sua opinião, porque não a da Sua soberania, da Sua graça, do seu beneplácito; é falar
tem fundamentada e, quando necessário, jamais fará re- do Seu chamado eficaz, da Sua justiça imputada a nós, da
formas em sua vida. Não tem motivações fortes e jamais nossa justificação e glorificação. É falar da nossa rege-
sofreria por aquilo que acredita, pois tem apenas algo neração, da nossa fé, do nosso arrependimento, da nossa
que está no cérebro, mas não no coração, na consciên- salvação; é falar da nossa responsabilidade em sermos
cia. A consciência é normativa sobre nossos atos: nos santos e ganhar almas para Cristo, da nossa responsabi-
condena ou nos absolve. Uma consciência culpada pode lidade de evangelizar os povos. Enfim, é “deixar Deus ser
ser maligna ou benigna. Se nos condena levando-nos ao Deus” como disse Lutero ao humanista Erasmus.
arrependimento é uma bênção, mas se está insensível ou Que este número nos faça mais humildes e Deus mais
cauterizada, é uma maldição. grandioso; que sirva para tirar de nós o ceticismo e o
Para que nossa consciência funcione de forma posi- preconceito contra a soberania de Deus na salvação, algo
tiva ela deve ser influenciada por uma convicção pro- que cada vez mais tem sido banido do arraial cristão; que
funda aplicada pelo Espírito Santo. Essa é a posição de nos mostre que Deus salva eficazmente e unicamente
um pregador do evangelho, diz Paulo: “... porque o nosso aos seus eleitos, aos que escolheu pelo beneplácito de
evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, Sua vontade mediante o lavar regenerador do Espírito
mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena Santo; por eles Cristo veio ao mundo e naquela rude cruz
convicção” se fez maldito: “E lhe porás o nome de Jesus porque ele
Por terem profundas convicções, os pastores e os cren- salvará o seu povo dos pecados deles”, disse o anjo a
tes da igreja primitiva e muitos que lutaram pela fé refor- José (Mt 1:21). Aos eleitos Deus chama e por Ele somos
mada, foram mortos, jogados às feras, queimados vivos trazidos a Cristo.
cantando salmos de louvor ao Senhor Deus. Boa leitura!

Revisores Centro de Literatura Reformada


REVISTA OS PURITANOS Manoel Canuto R. São João, 473 - São José, Recife-PE, CEP 52020-120
Tradutores Fone/Fax: (81) 3223-3642
Recife, Ano XIX - Número 4 Linda Oliveira, Márcio Dória e Josafá Vasconcelos E-mail: ospuritanos@gmail.com
Projeto Gráfico Miolo e Capa DIRETORIA CLIRE: Ademir Silva, Adriano Gama, Waldemir
Editor Heraldo F. de Almeida Magalhães.
Manoel Canuto Impressão
mscanuto@uol.com.br Facioli Gráfica e Editora Ltda.
Conselho Editorial Fone: 11- 6957-5111 — São Paulo-SP
Josafá Vasconcelos e Manoel Canuto OS PURITANOS é uma publicação trimestral da CLIRE —

2 Revista Os Puritanos
Que São os Decretos
de Deus?
Deus, que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua própria vontade,
predestina os homens segundo o Seu próprio propósito.

Johannes G. Vos 3. Quais são os três adjetivos utilizados para des-


crever o caráter dos decretos de Deus?
Comentário do Catecismo Maior de Westminster Sábios, livres e santos.
4. Qual o sentido de se afirmar que os decretos de
OS DECRETOS DE DEUS Deus são “sábios”?
Pergunta 12. O que são os decretos de Deus? Isso que dizer que os decretos de Deus estão em per-
R. Os decretos de Deus são os atos sábios, livre e feita harmonia com a Sua perfeita sabedoria, que dirige
santos do conselho da Sua vontade, pelos quais, desde o uso dos meios corretos para atingir os fins corretos.
toda a eternidade, Ele, para a Sua própria glória, pre- 5. Qual o sentido de se afirmar que os decretos de
ordenou imutavelmente tudo o que acontece no tempo, Deus são “livres”?
especialmente o que diz respeito a anjos e homens. Isso quer dizer que os decretos de Deus não sofrem
a pressão nem a influência de nada alheio à própria
Referências bíblicas natureza de Deus.
• Ef 1.11. Deus, que faz todas as coisas segundo o con- 6. Qual o sentido de se afirmar que os decretos de
selho da Sua própria vontade, predestina os homens Deus são “santos”?
segundo o Seu próprio propósito. Significa que os decretos de Deus estão em perfeita
• Rm 11.33. Os planos e os propósitos de Deus não po- harmonia com a Sua perfeita santidade, e por essa cau-
dem ser explicados nem descobertos pelos homens. sa, totalmente isentos de pecado.
• Rm 9.14-15, 18. Os decretos de Deus não o tornam o 7. Podemos considerar os decretos de Deus como
autor do pecado, pois os Seus decretos são segundo o decisões arbitrárias, como as ideias pagãs de “destino”
conselho da Sua própria vontade e, portanto, livres de e “sorte”?
qualquer fonte de interferência exterior a Deus mesmo. Não. Os decretos de Deus não são “arbitrários” por-
• Ef 1.4. Os decretos de Deus, inclusive aqueles relativos que foram traçados segundo o conselho da Sua vontade.
ao destino eterno dos homens, foram estabelecidos na Por trás deles subjazem a mente e o coração do Deus
eternidade, antes da criação do mundo. infinito e pessoal. É por isso que os Seus decretos são
• Rm 9.22-23. Deus predestinou alguns homens para a completamente diferentes de “destino” ou “sorte”.
ira e outros para a glória. 8. Qual é o alvo ou propósito dos decretos de Deus?
• Sl 33.11. Os planos e os propósitos de Deus são imu- O alvo ou propósito dos decretos de Deus é a mani-
táveis. festação da Sua própria glória.
9. É egoísmo ou errado que Deus procure, acima de
Comentário tudo, a Sua própria glória?
1. Que grande verdade está declarada na resposta Não, pois Deus é o autor de todas as coisas e tudo
à pergunta 12? existe para a glória dEle. Egoísmo ou errado é os seres
A verdade de que Deus tem um plano abrangente e humanos buscarem, acima de tudo, a sua própria glória.
exato para o universo que Ele criou. No entanto, por ser Deus o mais sublime dos seres e por
2. De acordo com a Bíblia, quando foi feito o plano não existir nada mais elevado que Ele, é natural que
de Deus? busque a Sua própria glória.
Na eternidade, antes da criação do mundo. 10. Qual é a natureza dos decretos de Deus?

Revista Os Puritanos 3
Johannes G. Vos

Os decretos de Deus são imutáveis. 14. Qual é a diferença entre preor- Referências bíblicas
Não podem ser modificados e, por isso, denação e predestinação? • 1Tm 5.21. Anjos eleitos para a glória

serão cumpridos com toda certeza (Sl Preordenação é um termo que se eterna.

33.11). aplica a todos os decretos de Deus re- • Ef 1.4-6; 1Ts 2.13-14. Homens escolhi-

11. Qual a abrangência dos decre- ferentes a tudo o que acontece no uni- dos em Cristo para a vida eterna.

tos de Deus? verso criado; predestinação denota os • Rm 9.17-18, 21-22; Mt 11.25-26; 2Tm

Os decretos de Deus abrangem to- decretos de Deus referentes ao destino 2.20; Jd 4; 1Pe 2.8. A rejeição do restante

das as coisas, abrangem tudo o que eterno de anjos e homens. da humanidade.

acontece. 15. Por que as pessoas se opõem à


12. Prove pela Bíblia que os decre- doutrina dos decretos de Deus? Comentário
tos de Deus abarcam as ocorrências A maioria das objeções a essa dou- 1. Qual é o significado da palavra
que são vulgarmente chamadas de trina baseia-se não na Escritura, mas “imutável”?
acidentais ou “casuais”. no raciocínio humano ou na filosofia. Significa aquilo que não muda, que
Pv 16.33; Jn 1.7; At 1.24, 26; 1Rs É comum os que se opõem à doutrina não se pode modificar.
22.28, 34; Mc 4.30. fazerem uma caricatura absurda dele 2. Qual é a primeira razão por que
13. Prove pela Bíblia que os decre- para logo depois a demolirem com Deus elegeu alguns dos anjos para a
tos de Deus abrangem até mesmo os exagerada mostra de indignação. Ao glória?
atos pecaminosos dos homens. se tratar de uma questão desse tipo “Somente por causa do Seu amor”.
Gênesis 45.5, 8; 50.20; I Samuel nenhum argumento que não conside- 3. Por que se incluiu a palavra “so-
2.25; Atos 2.23. Ao afirmarmos que re detalhadamente as diversas passa- mente” nessa declaração?
a Bíblia ensina claramente que os de- gens da Escritura sobre as quais se as- Porque Deus não tinha nenhuma
cretos de Deus abrangem até mesmo senta essa doutrina não tem nenhum obrigação de eleger nenhum dos anjos
os atos pecaminosos dos homens, te- peso contra a doutrina dos decretos para a glória. Foi somente o amor de
mos que nos guardar cuidadosamen- de Deus. Opiniões humanas, arrazoa- Deus que O levou a eleger.
te de dois erros: (a) os decretos de dos e filosofia não têm o mínimo peso 4. Qual é a segunda razão por que
Deus não O tornam o autor do peca- contra as declarações da Palavra de Deus elegeu alguns dos anjos para a
do nem O fazem responsável por ele; Deus. Algumas objeções levantadas glória?
(b) o fato de que a preordenação de contra a predestinação, ou doutrina Para manifestar o louvor da Sua glo-
Deus não isenta o homem da respon- da eleição, serão consideradas na pró- riosa graça.
sabilidade de seus pecados. A Bíblia xima lição. 5. Que diferença há, da parte de
ensina tanto a preordenação de Deus Pergunta 13. O que decretou Deus Deus, entre a eleição dos homens e a
quando a responsabilidade do ho- especialmente quanto aos anjos e aos eleição dos anjos?
mem. Portanto, devemos crer e afir- homens? No caso dos homens Deus os ele-
mar a ambos com firmeza, embora R. Deus, por um decreto eterno e geu “em Cristo”, isto é, foram redimidos
reconheçamos sinceramente que não imutável, somente por causa do Seu através da expiação de Jesus Cristo, e
somos capazes de harmonizar os dois amor e para o louvor da Sua glorio- revestidos com a Sua justiça. A salvação,
completamente. Se deixarmos de crer sa graça a ser manifestada em tempo porém, nada tem a ver com os anjos, pois
na preordenação de Deus ou na res- oportuno, elegeu alguns anjos para a Deus simplesmente os elegeu para gló-
ponsabilidade do homem, caímos de glória e, em Cristo, escolheu alguns ho- ria e os guardou de caírem em pecado.
imediato em erros absolutos que con- mens para a vida eterna, e também os 6. Além de eleger os homens para
tradizem os ensinamentos da Bíblia meios disso. Da mesma forma, segundo a vida eterna, para que mais foi que
em muitos pontos. É melhor e mais o Seu poder soberano e o inescrutável Deus os elegeu?
sábio, através de uma fé singela, acei- conselho da Sua própria vontade (por Ele também os elegeu para “os meios
tar o que a Bíblia ensina e confessar meio dos quais concede ou nega favor disso”. Aqueles que foram escolhidos
uma “ignorância santa” dos segredos conforme Lhe apraz) preteriu e preor- por Ele para a vida eterna, também
dos mistérios que não foram revela- denou o restante deles à desonra e à ira, foram escolhidos para receberem os
dos, tais como a solução do problema que lhes serão infligidas por causa dos meios de obterem a vida eterna. Quer
da preordenação divina e da respon- seus próprios pecados, para o louvor da dizer, se Deus preordenou que alguém
sabilidade humana. glória da Sua justiça. receba a vida eterna, ele também pre-

4 Revista Os Puritanos
Que São os Decretos de Deus?

ordenou que ele ouça o evangelho, se 10. Suponha que alguém diga: “Se eu problema porque é um mistério. Só po-
arrependa dos seus pecados, creia em for predestinado para a vida eterna, eu demos afirmar que a Bíblia ensina clara-
Jesus etc., para que a pessoa possa re- a receberei não importa se eu creia ou mente os dois: a preordenação soberana
ceber, com certeza e sem falhar, a vida não em Cristo. Por isso, não preciso me de Deus e a responsabilidade humana.
eterna. preocupar em ser ‘cristão’”. Como é que Rejeitar qualquer uma dessas verdades
7. O que se quer dizer quando se se deveria responder a essa pessoa? bíblicas é rejeitar o claro ensinamento
fala no “poder soberano” de Deus? A objeção levantada baseia-se numa da Palavra de Deus e se envolver em difi-
Essa expressão refere-se à verdade compreensão equivocada da doutrina culdades teológicas até mesmo maiores.
de que Deus é supremo. Não há auto- da eleição. Deus não elege ninguém 13. Como deveríamos responder à
ridade nem lei mais alta do que Deus para a vida eterna sem o uso dos meios objeção: “não seria injusto da parte
a quem o próprio Deus tenha que res- para isso. Quando alguém é eleito para de Deus eleger alguém para a vida
ponder. Ninguém tem o direito de dizer a vida eterna, é também preordenado eterna e ao mesmo tempo preterir um
a Deus: “Que fazes?”. a crer em Cristo como o seu salvador. outro?”?
8. No caso daqueles a quem Deus 11. Suponha que alguém diga: “Se Essa objeção baseia-se na supo-
“preteriu”, qual a razão para que Ele os re- Deus, desde toda a eternidade, me sição de que Deus está obrigado a
jeite e não os escolha para a vida eterna? designou para a desonra e a ira por tratar a todos os homens com igual
A Bíblia descreve esse ato de “pre- causa dos meus pecados, então de favor, a fazer a todos tudo aquilo que
terir” como fundamentado na sobe- nada adianta eu acreditar em Cristo, fizer a um único. A resposta bíblica a
rania de Deus, isto é, não se baseia pois não serei salvo não importa quão essa objeção encontra-se em Roma-
em nada do caráter, das obras ou bom cristão eu possa me vir a ser. Não nos 9.20-21. Tal contestação envolve,
da vida da pessoa em questão, mas me adianta nada acreditar em Cristo”. na verdade, a negação da soberania
procede da autoridade suprema que Como é que se poderia responder a de Deus, pois assume que Deus deve
Deus possui. Isso não significa que essa réplica? satisfação das Suas decisões à raça hu-
Deus não tenha razões para “preterir” De nada nos serve um atalho para mana, ou ainda que existe alguma lei
àqueles a quem Ele rejeitou; significa tentar bisbilhotar o conselho secre- ou poder superiores aos quais Deus
apenas que essas razões são do con- to de Deus e descobrir se estamos ou deve satisfação e pelos quais deve ser
selho secreto de Deus, não reveladas não entre os eleitos. As coisas ocultas julgado. A verdade é que (a) Deus é
a nós, nem se baseia no caráter, obras são de Deus e as reveladas são para o soberano e não deve satisfação de
ou conduta humanas. Vide Romanos nosso conhecimento. Se alguém dese- Seus atos a ninguém, exceto a Ele
9.13, 15, 20-21. ja real e ardentemente crer em Cristo mesmo; (b) Deus não tem a obrigação
9. No caso daqueles a quem Deus sobe- para ser salvo, isso é um bom sinal de de eleger ninguém para a vida eterna;
ranamente “preteriu”, qual a razão para que Deus o escolheu para a vida eterna. ser-Lhe-ia perfeitamente justo deixar
também os ordenar à desonra e à ira? A única forma por meio da qual pode- toda a humanidade perecer em seus
A razão para os ordenar à desonra e mos descobrir os decretos de Deus é vir pecados; (c) embora Deus eleja a al-
à ira é o próprio pecado deles. Notem- realmente a Cristo e receber, no tempo guém para a vida eterna, Ele não tem
-se as palavras: “infligidas por causa dos oportuno, a certeza da nossa salvação. nenhuma obrigação de eleger a todos,
seus próprios pecados”. Portanto, Deus Depois, e só depois, é que poderemos pois a eleição de alguns decorre da
ao preordenar alguns homens para o dizer com confiança que sabemos que Sua graça, e, por isso, ninguém que
castigo eterno não leva em conta ape- estamos entre os eleitos. tenha sido “preterido” não a pode rei-
nas a Sua soberania (assim como faz 12. Que dificuldade particular a vindicar como direito. É verdade que
ao “preterir” essas mesmas pessoas), doutrina da eleição envolve? a Bíblia mostra Deus lidando com os
mas baseia-se no atributo da Sua per- A dificuldade é: Como que se pode homens de modo diferenciado, isso
feita justiça. Eles são castigados porque, harmonizar o decreto da eleição de é, dando a alguns aquilo Ele negou a
como pecadores, merecem ser castiga- Deus com a livre agência humana? Se outros. Isso, contudo, não é “injusto”,
dos, não porque Deus os rejeitou. No Deus preordenou tudo o que acontece, pois não envolve injustiça. Ninguém
inferno, os ímpios reconhecerão que inclusive o destino eterno de todos os tem razão nenhum para alegar que
estão sofrendo um castigo merecido e seres humanos, como é que podemos Deus o tratou com injustiça.
que Deus tratou com eles estritamente ser livre agentes responsáveis pelo que
Johannes Geerhardus Vos, Catecismo Maior de
segundo a justiça. fazemos? Não podemos solucionar esse Westminster Comentado., p.62,63. Ed. Os Puritanos

Revista Os Puritanos 5
Os Decretos
Eternos de Deus
Nada obriga a Deus; Ele é soberano absoluto; pode fazer o que quiser; nada
pode dizer-Lhe: Que fazes?

Por J. Greshan Machen algum querer dizer isto. Se tivéssemos querido dizê-Io,
seríamos obrigados a afirmar que Deus poderia violar

D
esejo começar a lhes falar do que Deus faz. Po- o pacto que fez com Seu povo ou fazer qualquer outra
rém, antes de falar do que Deus faz, primeiro vileza semelhante. Porém, se há algo certo é que Deus
deve- se perguntar se Deus pode realmente fa- nunca fará algo deste estilo. Parece-me que não é um
zer tudo. Há muitas maneiras de ver a Deus que na erro afirmar que não pode fazer nada semelhante.
realidade negam-Lhe por completo o poder de operar. Por que não pode fazer esse tipo de ação? Seria por-
Se, por exemplo, Deus não é mais que uma força cega, que há algo externo que O impede de fazê-Ia? Porque
ou um simples nome que damos ao Universo em sua se a fizer alguém em algum lugar discutirá Seus atos?
totalidade, ou se é tão-somente o nome que aplicamos Certamente que não! Nada obriga a Deus; Ele é sobera-
a uma parte do Universo, ou um simples símbolo que no absoluto; pode fazer o que quiser; nada pode dizer-
expressa as aspirações mais elevadas da humanidade, -Lhe: Que fazes?
então não se poderia dizer que opera mais que num Contudo, é absolutamente certo que, quando tem
sentido muito impreciso. Falando com precisão, so- que decidir entre uma obra boa e uma má, Ele esco-
mente as pessoas agem, e quando falamos de Deus lherá a boa e rejeitará a má. De fato, não há nada mais
como operando, fazemo-lo porque descartamos todas certo que isto. Nesta certeza se baseiam todas as de-
as concepções impessoais relacionadas a Ele e o consi- mais certezas. É absolutamente impossível que Deus
deramos, tal como a Bíblia faz, como pessoa. faça algo mau.
Como Deus é pessoa, é livre. A liberdade é uma carac- Por que é impossível? A resposta é fácil. É-Lhe im-
terística da personalidade. Uma máquina não é livre; a possível fazer algo mau porque seria contradizer Sua
água que flui por um canal construído para dirigi-la não própria natureza. “Deus é um Espírito infinito, eter-
é livre; uma planta não é livre. Porém, a pessoa é livre no, imutável em seu Ser, sabedoria, poder, santida-
para agir ou não, para agir de um modo ou de outro. de, justiça, bondade e verdade” (Breve Catecismo de
Como Deus é uma pessoa, também é livre. Na realidade, Westminster, pergunta 4). Estes são Seus atributos;
é livre num grau que nenhuma pessoa pode igualar. sem eles não seria Deus; estes atributos condicionam
Entretanto, quando dizemos que Deus é livre, é mui- todas as Suas ações.
to importante que entendamos exatamente o que que- Nunca, nem na mais insignificante ação que realize,
remos dizer e o que não queremos dizer. se apartará nem um milímetro dessa norma perfeita
Queremos dizer que Suas ações são muito incertas, que a perfeição de Sua própria natureza estabelece.
de tal modo que é sempre impossível estar seguro de Creio que isto é o que quis dizer um dos ministros
antemão se agirá ou não e de que forma o fará? Que- quando afirmou, se recordo bem suas palavras, que
remos dizer que Sua vontade é uma espécie de balança Deus é o Ser mais “constrangido” que existe. Sua pró-
que se inclina em direção a um lado ou outro sem razão pria natureza O constrange. É infinito em Sua sabedo-
alguma? Queremos dizer que não existe nada a que ria, portanto, nunca pode fazer algo que não seja sábio.
Suas ações tenham que se conformar ou que as enlace É infinito em Sua justiça; portanto, nunca pode fazer
em algum modo? algo injusto. É infinito em Sua bondade; portanto, nunca
Creio que não precisa muita reflexão para chegar- pode fazer algo que não seja bom. É infinito em Sua
mos a nos convencer de que não podemos de modo verdade; portanto, é impossível que minta.

6 Revista Os Puritanos
Os Decretos Eternos de Deus

Também as ações do homem estão numa encruzilhada importante da vida,


de certo modo definidas. Nascem de sua levanta os prós e contras, e logo a luz
natureza. A experiência não deixa de Deus é infinito, deste exame, das vantagens de uma de-
ensiná-los. Porém, a Bíblia ensina com cisão ou da outra, ele age. Esta atuação
a maior clareza. “Não pode uma árvore eterno e imutável. dos motivos em determinar a ação do
boa dar maus frutos, nem a árvore má homem é precisamente o que faz que
dar frutos bons.” O homem é livre para Nunca, nunca, tal atuação seja verdadeiramente pes-
decidir no sentido de que não há nada soal e por isso a faz no verdadeiro sen-
externo que o force. Porém, seus atos nunca, portanto — tido da palavra “livre”.
não são livres, se por liberdade enten- Se, pois, a pessoa finita, o homem,
demos livre daquilo que seu próprio nunca, nem pela em suas ações verdadeiramente pes-
caráter determina. soais, se vê determinado por motivos,
Assim, ocorre também no caso do mais inverossímil algo semelhante é também verdade da
Ser Supremo, da Pessoa Suprema, Deus, Pessoa infinita de Deus. Deus também
Seus atos são livres no sentido de que das possibilidades, busca certos fins quando age. Não há
nada exterior a Ele os determina. Po- como pensar que Sua vontade esteve
rém, sim, os determina Sua própria pode realizar oscilando às cegas como numa espécie
natureza. Sempre serão santos, justos de vazio, sem relação nenhuma com
e bons, porque Ele é santo, justo e bom. uma ação que não Seu conhecimento e sabedoria infinitos.
Na realidade, os atos de Deus depen- Não, as decisões da vontade de Deus
dem muito mais de Sua própria nature- seja santa, sábia, estão sempre - não às vezes, mas sem-
za que os homens das suas. As ações pre - determinadas pelos fins que Seu
dos homens nascem de sua natureza. poderosa, justa, conhecimento infinito e Sua sabedoria
Sim, porém, a natureza do homem pode infinita colocam frente a Ele.
mudar; Deus pode mudá-Ia. Contudo,
boa e verdadeira. Negar esta ideia da vontade - isto
no caso de Deus esta possibilidade está é, a ideia de que as ações verdadeira-
excluída; Deus é infinito, eterno e imu- mente pessoais não são as ações de
tável. Nunca, nunca, nunca, portanto - uma vontade sem freio, mas as de uma
nunca, nem pela mais inverossímil das fica os atos de Deus serem livres. Não vontade determinada por motivos ou
possibilidades, pode realizar uma ação quer dizer que Seus atos não tenham fins - parecem às vezes como se fosse
que não seja santa, sábia, poderosa, jus- um propósito; não quer dizer que não benefício para a liberdade. Como pode
ta, boa e verdadeira. dependam dos fins que Deus busca. ser uma pessoa verdadeiramente livre,
Seus atos, portanto, são mais livres Também nisto encontramos uma dizem, se suas ações dependem de algo
do que das pessoas finitas porque nun- analogia verdadeira entre a liberdade que não seja sua vontade no momento
ca, nem direta nem indiretamente, nada de Deus e a das pessoas finitas. To- de tomar uma decisão? Como pode ser
exterior a Sua pessoa pode determiná- memos a criatura finita que melhor livre a pessoa se não pode operar sem
-los, o qual, sim, é possível no caso das conhecemos — o homem. Que o ho- levar em conta os fins que busca?
pessoas finitas; e estão mais diretamen- mem seja livre quer dizer que ele age Umas breves reflexões nos mostra-
te determinados que os das pessoas fi- independente dos motivos? Quer dizer rão que o certo é precisamente o con-
nitas porque nunca, por nenhuma pos- que quando um homem escolhe fazer trário. Se a escolha que um homem faz
sibilidade, pode mudar-se a natureza da alguma coisa em vez de outra, nada o não depende dos fins que busca, mas
Pessoa de Deus. determina? Bem, alguns, ao que parece, tão-somente de flutuações sem senti-
Assim, pois, é muito importante que têm crido que é assim. Porém, não há do de sua vontade, então não depende
levemos em conta que a liberdade dos dúvida de que estão equivocados. Não mais que do azar, e o homem se conver-
atos de Deus não quer dizer que pode há dúvida de que as ações de uma pes- te no simples joguete de algo exterior a
existir alguma possibilidade de que não soa, precisamente porque são livres, e si mesmo.
se harmonizem com a Sua natureza. não são desejos sem sentido ou fruto Isto é sobretudo evidente no caso da
Porém, há outra coisa que é impor- da sorte cega, estão determinadas por Pessoa Suprema, Deus. Se as eleições
tante advertirmos quanto ao que signi- motivos. Quando alguém se encontra de Deus não dependeram sempre dos

Revista Os Puritanos 7
J. Greshan Machen

fins santos que busca, se Sua vontade contrário, em inúmeros casos, somente pósito ou plano. Não são independentes
quisesse hoje uma coisa, amanhã outra podemos descobrir que é Sua vontade um do outro, mas formam uma unidade
sem relação com nada que não fosse e isto deveria bastar-nos. Tenhamos a íntima igual, como Deus é um.
Sua vontade mesma, visto como se fos- segurança de que tudo o que Ele faz é Vejam que o Catecismo Menor fala
se independente de Seu conhecimento com um propósito santo. Este propósito desse propósito como de um propósito
e sabedoria, então Suas ações somente em detalhes está oculto no mistério da eterno. “Os decretos de Deus”, diz, “são
poderiam se considerar como depen- sabedoria divina. Negar-se a se inclinar Seu propósito eterno”. O que quer dizer
dentes de um azar cego e sem sentido; ante a vontade de Deus somente por ig- com isto? Bem, quer dizer algo que per-
e neste caso deixariam de ser ações ver- norar o propósito que O guia é o cúmulo tence ao coração do que a Bíblia ensina.
dadeiramente pessoais e Deus deixaria da impiedade. É o pecado dos pecados; e A Bíblia fala minuciosamente dos
de ser Deus. comparar nossa ignorância com a sabe- decretos de Deus como se sucedendo
Não. Quando pensamos na vontade doria e conhecimento infinitos de Deus um após o outro em ordem temporal.
devemos realmente basear-nos num é rebelião, orgulho e loucura. Que Deus Na realidade, a Bíblia às vezes emprega
determinismo sadio. A vontade do ho- nos livre de pecado semelhante! expressões audazes quando fala deste
mem não é livre o sentido de que aja Contudo, se bem que não tenhamos assunto. Inclusive fala de Deus que se
independente dos sentimentos e do direito de conhecer quais são os propó- arrepende do que tem feito. Por exem-
entendimento. Na realidade, se consi- sitos de Deus, Ele em Sua maravilhosa plo, diz que “se arrependeu o Senhor de
derarmos a vontade como algo separa- bondade tem querido, vez por outra, haver feito o homem” - Gênesis 6:6; e que
do do que está dentro do homem, que levantar o véu que oculta seus planos “o Senhor se arrependeu de haver consti-
venha a si, que se deixa aconselhar por a nós outros. Com que reverência deve- tuído Saul rei sobre Israel” - 1 Samuel
outras partes da sua natureza apesar ríamos contemplar os mistérios que nos 15: 35. Estas passagens podem parecer
de que também aja com completa in- revela atrás do véu! Com que reverência ao leitor superficial, se tomá-las isola-
dependência quando assim o deseja-se deveríamos apegar-nos ao Livro Santo das, como que querendo dizer que Deus
vemos a vontade nesta forma, estamos em que se nos revelam tais mistérios! decreta muitas coisas em momentos
muito, mas muito longe da realidade. Temos falado do propósito de Deus. diferentes e que os decretos são muito
Fazemos, na realidade, da vontade algo Os teólogos os chamam Seus decretos. diferentes uns dos outros.
que chamamos uma pequena persona- São muitos estes decretos! Um nú- Porém, esta interpretação seria mui-
lidade separada; rompemos a unidade mero infinito — estaríamos tentados a to superficial. Quando examinamos
da personalidade do homem. De fato, afirmar quantas são as manifestações estas passagens e outras semelhantes
não existe isso que se chama vontade da bondade de Deus em nós mesmos! E vemos com clareza o que quer dizer a
como algo isolado dos demais aspectos quando pensamos na vastidão do Uni- Bíblia. Quando fala de Deus que se arre-
da pessoa. O que chamamos vontade é verso e no infinito, não podemos dizer pende de algo que fez, considera a coisa
a pessoa toda enquanto toma decisões. nada menos que os decretos de Deus do ponto de vista dos homens que vivem
Com relação à Pessoa infinita de não se podem de modo algum contar. nesta terra em uma sequência tempo-
Deus, em certos aspectos importantes Essa afirmação contém uma grande ral. Deus, ora faz uma coisa e depois
não podemos falar da mesma forma verdade; e, contudo, quando considera- outra. Fez ao homem, e logo, quando
com que o fazemos das pessoas finitas. mos este assunto, algo além e com mais o homem pecou, o destruiu, à exceção
Contudo, em Seu caso igualmente ao profundidade, em um sentido igualmen- dos que deixou com vida. Fez rei a Saul,
das pessoas finitas que Ele tem criado, te verdadeiro podemos dizer que os e logo lhe tirou a realeza. Visto desta
é sempre certo que quando quer fazer propósitos de Deus, por infinito que nos perspectiva da execução dos decretos
algo, o quer fazer porque busca certos pareça seu número, não são mais que de Deus, é como se os decretos ou pro-
fins. Suas ações não são o movimento um único propósito, não são mais que pósitos de Deus houvessem mudado; e
casual de algo dentro dEle que se pode partes ou aspectos de um grande plano. a Bíblia assim o expressa com lingua-
chamar Sua vontade, mas que são ações Isto é o que o Catecismo Menor quer gem simples tomada da vida ordinária
da unidade soberana de Seu Ser e estão dizer quando afirma que os decretos de dos homens. Porém, é igualmente claro
determinadas por fins elevados e santos. Deus são “Seu propósito eterno”. Não que a Bíblia não quer indicar que esta
Não quero dizer que quando Deus é por acaso que se emprega a palavra forma de falar deva ser tomada ao pé da
quer fazer algo, nós possamos sempre “propósito” no singular. Os inúmeros de- letra como se quisesse dizer que Deus se
ver qual é o fim que busca. Antes, ao cretos se constituem em um único pro- surpreendera da mesma forma em que

8 Revista Os Puritanos
Os Decretos Eternos de Deus

se surpreende um homem, ou como se ações levam em conta o valor em nossas


quisesse dizer que os planos de Deus ações e circunstâncias. A Bíblia o procla-
variam como variam os do homem para Para Deus não tem ma com o emprego da linguagem a qual
adaptarem-se às circunstâncias sobre temos falado.
as quais não tem controle. nem antes nem Porém, a Bíblia também nos ensina
É possível que se objete: Lá vêm de forma bem clara que quando contem-
vocês com essa de novo, pobres depois. Ele criou o plamos a parte central deste assunto de-
crentes na inspiração da Bíblia. Quando vemos ver que o propósito de Deus, que
encontram nela algo que lhes satisfaz, tempo, na realidade, se cumpre em seu trato infinitamente
insistem em aceita-lo na forma mais variado com o gênero humano e com o
angustiosamente literal; porém, quan- quando criou os universo em sucessão temporal, se en-
do encontram algo que não lhes vá tão contra completamente fora de qualquer
bem, evitam- no, como neste caso, di- seres finitos, e o sequência temporal. Para Deus não tem
zendo que a Bíblia fala em linguagem nem antes nem depois. Ele criou o tem-
metafórica. tempo, assim como po, na realidade, quando criou os seres
Esta é a objeção. Mas, saibam, ami- finitos e o tempo, assim como o resto
gos meus, que isso não me faz mal. Creio o resto do Universo do Universo que Deus criou, não é uma
que tenho uma resposta muito boa para simples aparência, mas existe realmen-
a mesma. «Sim», diria ao que objeta, que Deus criou, te. Porém, para Deus todas as coisas são
«sim, tomo algumas coisas da Bíblia em eternamente presentes.
sentido literal e outras em metáforas. não é uma simples Por isso, o Catecismo Menor tem
Porém, tenho motivos para isso. Tenho razão quando diz que os decretos de
uma forma perfeitamente aceitável de aparência, mas Deus são seu propósito eterno. Parece-
decidir o que tomo em sentido metafó- -me que este pensamento penetra toda
rico e o que em sentido literal. Não é que
existe realmente. a Bíblia. Não fica em nada turvo devido
tome no literal o que me agrada e no às linguagens simples e antropomórfi-
metafórico o que não; mas que tomo em
Porém, para Deus ca que acabamos de falar. Às vezes, apa-
sentido literal o que a Bíblia mostra em rece com toda clareza, como quando a
forma literal e em sentido metafórico o
todas as coisas Bíblia diz no capítulo primeiro de Efé-
que mostra em forma metafórica». sios que Deus nos escolheu em Cristo
Sustento que a Bíblia é essencial-
são eternamente antes da criação do mundo. Porém, o
mente um livro fácil. Para lê-lo, o senti- que se deve destacar de todo é que a
do ordinário é uma ajuda maravilhosa.
presentes. doutrina do propósito eterno de Deus
Não olvido que a iluminação do enten- é o fundamento sobre o qual se baseia
dimento que o Espírito Santo comunica todo o ensinamento da Bíblia. Na ori-
em um novo nascimento é necessária gem de todos os acontecimentos da his-
para que o homem pecador possa re- ficuldade nenhuma em ver que não terá tória humana, na origem de todos as
almente compreender a mensagem que ser interpretar estas passagens de variações que têm lugar na vastidão in-
central da Bíblia; porém, às vezes, sinto modo algum em sentido literal e que a comensurável do Universo, na origem
a tentação de dizer que um dos efeitos interpretação literal dos mesmos é uma do espaço mesmo e do tempo, está o
mais óbvios do novo nascimento seria a manifestação gravíssima de incompre- propósito misterioso e único dAquele
renovação do sentido ordinário na com- ensão e mau gosto. para quem não há antes nem depois,
preensão das afirmações perfeitamente Essa linguagem antropomórfica aqui nem ali, para quem todas as coi-
simples da Sagrada Escritura. Por isso ― se me permitem empregar uma pa- sas estão presentes e diante de quem
opino que se alguém realmente lê com lavra tão longa ― proclama uma ver- tudo está desnudo e manifesto: o Deus
sentido comum e boa vontade essas dade importante. Ensina-nos que Deus vivo e Santo.
afirmações da Bíblia nas quais se diz nos trata como nos trataria uma outra
que Deus se arrependeu do que fez e pessoa. Segue nossas ações e circuns- J. Gresham Machen foi um destacado professor
de Novo Testamento e fundador do Seminário de
coisas parecidas, não experimentará di- tâncias variantes de nossas vidas, e Suas Westminster na Filadélfia (USA).

Revista Os Puritanos 9
A Bíblia e a
Predestinação
““Que diremos, pois, há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum”(Rm. 9:14)

Gresham Machen Não há dúvida de que nos encontramos diante de um


erro de linguagem. Não se pode dizer que algo está pre-

E
sta doutrina não é mais do que uma aplicação con- destinado – no sentido de determinado de antemão – se
creta da doutrina dos decretos divinos. Se Deus pré- de fato não está determinado para nada, mas que segue
-ordena tudo que vai acontecer, e se entre o que sendo algo incerto enquanto não se põe em movimento
acontece está a salvação de alguns e a perdição de outros, por meio de um ato da vontade humana.
então se segue logicamente que Ele pré-ordena ambas A razão para que se use esta linguagem de forma
as coisas. Este decreto antecipado de Deus de ambas as equivocada é óbvia. Muitos creem desde cedo na Bíblia.
coisas veio a chamar-se de predestinação. A doutrina da A Bíblia usa a palavra “predestinação”; portanto, têm
predestinação é precisamente a doutrina dos decretos de usar esta palavra, mesmo que a repudiem no seu
divinos aplicada à esfera específica da salvação. sentido mais óbvio.
Porém, esta doutrina não é tão só uma dedução da Não insistamos, contudo, na palavra, mas fixemo-nos
doutrina geral dos decretos divinos; também se encon- no que constitui o substrato da mesma. Tratemos do
tra de forma explícita na Bíblia de forma claríssima. âmago do problema. Na verdade, o que é a discussão?
Por que, segundo a Bíblia, alguns homens se salvam Deus predestinaria o homem para salvação porque ele
e entram na vida eterna, enquanto outros recebem o crê em Cristo ou este crê em Cristo porque está pre-
justo castigo de seus pecados? Exatamente porque al- destinado?
guns creem em Jesus Cristo e outros não? Não estamos diante de um problema sem importân-
Bem, é bom dizer que aqueles que creem em Jesus cia ou puramente acadêmico. Não se trata de uma suti-
serão salvos e todos os que não creem serão conde- leza teológica. Pelo contrário, é um problema de grande
nados. Isto é evidente. Porém, por que alguns homens importância para as almas dos homens.
creem em Jesus e outros não creem nEle? É tão somente É claro que algumas pessoas pensam de forma equi-
porque alguns, por decisão própria, decidem crer em vocada; erram quanto a esta questão, contudo aceitam
Cristo, enquanto outros, por decisão semelhante, esco- o que é suficiente da Bíblia, de modo que são cristãos.
lhem não crer? No entanto, seria um grande equívoco deduzir por isto
Ou, por acaso, alguns homens creem, e outros não, que estamos diante de uma questão sem importância.
porque Deus os tem destinado de antemão, em Seus Pelo contrário, quanto mais me fixo no estado atual
eternos propósitos, a um destes dois cursos de ação? da igreja, quanto mais considero a História recente da
Se o primeiro é o certo, a doutrina da predestinação é Igreja, mais me convenço de que se equivocar neste
errônea. Se a vontade humana é o fator final na decisão problema que aqui tratamos nos conduzirá de forma
de crer ou não crer, de ser salvo ou não, então o resulta- inevitável a mais e mais erros e com frequência vem a
do é um absurdo continuar-se falando de predestinação. ser algo que abre brechas e deteriora o testemunho de
Alguns, na verdade, defendem tal absurdo. A todos os cristãos e da Igreja.
predestinação, dizem, significa tão somente que os que Bem, se o problema é tão importante, que solução
creem estão predestinados a salvar-se. Os que creem tem? Soluciona-se através de preferências e argumen-
dependem deles mesmos, porém, uma vez tendo crido tos pessoais a respeito do que se crê ser justo e ade-
por decisão própria, então estão predestinados a rece- quado? Dirão os que opinam de uma maneira: “Não
ber a vida eterna. gosto deste conceito de predestinação absoluta; não

10 Revista Os Puritanos
A Bíblia e a Predestinação

gosto desta ideia de que desde toda a antemão qual vai ser a decisão da von-
eternidade tudo está determinado no tade do homem.
propósito de Deus quem e quantos se Alguns dizem que “Deus não sabe de
salvarão e quem e quantos se perde- antemão qual vai ser a decisão da von-
rão; eu gosto mais da ideia de que o tade do homem. Ele se limita a esperar
salvar-se ou perder-se dependa do que para ver o que fará esta vontade do ho-
se escolhe.” Dirão os que pensam de mem e então, quando o homem decide,
forma contrária em resposta ao pen- Por que, segundo Deus atua como consequência disso
samento anterior: “Em troca, a mim é dando a salvação aos que escolheram
bom o que a ti não agrada; eu gosto da a Bíblia, alguns crer e envia à morte os que escolheram
ideia de uma predestinação absoluta; não crer”.
agrada-me crer que quando alguém homens se salvam Segundo esta opinião, a única
se salva, isto depende por completo predestinação de que se pode falar é
de Deus e não do homem; prefiro re- e entram na vida a predestinação condicional. É uma
troceder ante o mistério que isto traz, predestinação com um grande “SE”.
ante o inescrutável conselho da vonta- eterna, enquanto Deus não predestina nada para a vida
de de Deus”. eterna ou para a morte definitiva senão
É assim que devemos debater o outros recebem que se limita a deixar estabelecido de
problema? Deve depender do que nos antemão que se alguém crê em Cristo
agrada ou desagrada? Creio que não! o justo castigo entrará na vida eterna e se alguém não
Se fosse depender disto, não valeria a crê em Cristo entrará na morte eterna.
pena discutir a questão. Se estamos de seus pecados? A decisão referente ao grupo ao qual
diante de um problema de simples cada pessoa chegará a formar parte de-
preferência, então eu diria que me-
Exatamente porque pende de cada um, e Deus nem sequer
rece ser colocado na lista que figura sabe qual vai ser a decisão.
sob o antigo refrão: “Sobre gostos e
alguns creem A outra forma que assume esta te-
cores não se tem posto de acordo os oria afirma que Deus conhece de ante-
autores.” Talvez, seria melhor acabar
em Jesus Cristo mão, porém não preordena. Deus sabe
com as discussões. Não, amigos! Só há de antemão, dizem, qual vai ser a deci-
uma maneira de solucionar a questão.
e outros não? são de cada um dos homens quanto a
É examinar o que diz a Bíblia acerca crer ou não em Cristo, porém não deter-
dele. Nunca demos por findo o proble- mina tal decisão.
ma dizendo que gostamos mais de uma Esta forma de teoria, quando são re-
resposta do que de outra, senão que há lembrados os decretos divinos em geral,
necessidade de uma solução depois de é um pobre fruto híbrido. Permanece
ouvir o que tem dito, quanto ao mesmo, no meio do caminho; se depara com to-
a santa Palavra de Deus. chamado fé ou é esse ato da vontade das as dificuldades reais ou imaginárias
Então, o que diz a Palavra acerca do humana conhecido como fé o resultado que acompanham a predeterminação
problema da predestinação? da predestinação? completa de tudo que sucede da parte
Antes de vermos a resposta bíblica Este é o problema formulado de de Deus e se vê também rodeado de di-
para este problema é importante que te- maneira sintética. Porém, é importante ficuldades próprias.
nhamos uma ideia bem clara do mesmo. dar-se conta de que a primeira das duas Porém, já é hora de voltarmos à Bí-
Já temos formulado a questão an- respostas ao problema tem adotado blia. Ela se expressa com absoluta clare-
tes. Deus predestina a alguns homens duas formas diferentes. za quanto a este problema e se coloca de
para salvação porque creem em Cris- Se considera-se que a predestinação forma radical contra este tipo de pensa-
to, ou podem alguns homens crer em para a salvação depende da decisão da mento que acabamos de expor. A Bíblia
Cristo porque foram predestinados? vontade humana entre crer e não crer, é totalmente oposta à ideia de que Deus
Em outras palavras, a predestinação então se expõe o problema anterior re- não sabe o que o homem vai decidir e
depende do ato da vontade humana ferente a se Deus conhece ou não de se opõe da mesma forma à ideia de que

Revista Os Puritanos 11
J. Greshan Machen

Deus não preordena o que conhece de rejeitaram. Por quê? Só porque assim na Antioquia da Psídia lembramos que
antemão. Frente a tais ideias, diz-nos, da decidiram independentes dos decretos alguns gentios que ouviram a mensa-
forma mais clara que se possa imaginar, de Deus? Jesus mesmo dá a resposta: gem creram. Bem, quais foram os gen-
não só o conselho de Sua vontade, mas tios que os ouviram e creram? Teriam
também de forma concreta que Deus “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Gra- sido os que por vontade própria decidi-
tem predeterminado a salvação de al- ças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, ram crer? Em absoluto! O texto nos diz
guns e a perdição de outros. porque ocultaste estas coisas aos sábios e exatamente o contrário: “... e creram to-
Isto achamos, na realidade, presen- instruídos e as revelaste aos pequeninos. dos os que haviam sido destinados para
te no Velho Testamento. Nada poderia Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agra- a vida eterna” Atos 13:48). Não vejo
repugnar mais a revelação do VT acer- do” (Mt.11:25-26). como poderíamos propor a doutrina
ca de Deus do que esta ideia de que as da predestinação de forma mais clara e
decisões do homem constituem uma es- “Porque assim foi do teu agrado.” com menos palavras que neste texto. Só
pécie de exceção à soberania de Deus. Esta é, segundo Jesus, a razão definitiva creem em Cristo os que de antemão têm
Se há algo que pareça mais claro que o porque alguns receberam um conheci- sido determinados a isto pelos decretos
restante no VT é que Deus é o Senhor mento salvífico e outros não. de Deus. Não estão predestinados por-
absoluto do coração do homem. Ele Acha-se com clareza no ensino de que creem, mas só podem crer porque
pode mudar o coração do homem de nosso Senhor referido no evangelho estão predestinados.
velho em novo. Isto não é mais do que de João17:9: “É por eles que eu rogo; Nas cartas de Paulo, a grande dou-
dizer que as ações que nascem no cora- não rogo pelo mundo, mas por aqueles trina da predestinação se ensina repeti-
ção do homem não ficam fora do plano que me deste, porque são teus...”. “Eram das vezes. De fato, não seria exagerado
de Deus, mas que constituem uma parte teus...”, disse Jesus um pouco antes, “... dizer que constitui a base de tudo que
integral do mesmo. Deus, segundo o VT, tu mos confiaste, e eles têm guardado Paulo ensina. O apóstolo se preocupa
é Rei e o é com soberania absoluta que a tua palavra (v.6)”. Não vejo como po- também em aclarar qualquer possível
não admite exceções nem restrições de deria ensinar a predestinação com mais consequência que seus leitores tenham
nenhuma espécie. clareza do que no conjunto da oração a respeito desta grande doutrina; com
No exercício da dita soberania abso- sacerdotal de Jesus neste capítulo 17 uma lógica absolutamente intrépida
luta, segundo a Bíblia, Deus escolheu de João. Um pensamento básico — po- encurrala nosso orgulho humano e o
Israel. Esta eleição de Israel não se deria quase dizer que o pensamento bá- enfrenta com o fato definitivo da von-
deveu a algum mérito ou virtudes que sico do mesmo — é que a predestinação tade misteriosa de Deus.
Israel possuísse. O VT reitera este gran- precede a fé. Os discípulos pertenciam “E ainda não eram os gêmeos nasci-
de pensamento. Não, deveu-se à graça a Deus — isto é, a Seu plano eterno — dos”, disse Paulo de Jacó e Esaú, “...nem
misteriosa de Deus. Israel foi o povo de antes de crer; não chegaram a perten- tinham praticado o bem ou o mal (para
Deus não porque houvesse decidido ser cer a Deus porque creram, mas creram que o propósito de Deus, quanto à elei-
o povo de Deus, mas porque foi predes- porque já pertenciam a Deus e porque, ção prevalecesse, não por obras, mas
tinado a ser o povo de Deus. Quem não em cumprimento do Seu plano, Deus os por aquele que chama), já lhe fora dito
capta isso não está captando o “miolo” chamou para Si. a ela: O mais velho será servo do mais
da revelação do Velho Testamento. A mesma doutrina se ensina no li- moço. Como está escrito: Amei a Jacó,
Porém, quando passamos ao Novo vro de Atos. Este é o livro, lembre-se, porém me aborreci de Esaú” (Rm 9:11-
Testamento, o que parecia já claro no que contém a famosa pergunta do car- 13). Como poderíamos dizer de forma
VT se torna mais evidente e maravilho- cereiro de Filipos: “Que farei para ser mais clara do que nesta passagem, que
so. Se os homens se salvam, segundo o salvo”? A resposta de Paulo e Silas foi: a predestinação de Jacó para salvação e
Novo Testamento, se salvam pela pre- “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e a de Esaú para a rejeição não se deveu a
determinação misteriosa de Deus. Só tua casa” (Atos 16:30-31). A salvação se nada que eles fizeram ou que se houves-
posso mencionar umas poucas passa- oferece com a condição de se crer em se previsto que fariam — nem sequer
gens que ensinam isto. Jesus Cristo. Porém, como explicar, se- a fé prevista de um e a incredulidade
Encontram-se nos ensinos do Senhor gundo a Bíblia, que alguns creem e ou- e desobediência previstas do outro —
Jesus que são referidos nos Evangelhos tros não? O livro de Atos oferece a res- mas a eleição misteriosa de Deus?
Sinópticos. Quando Jesus ofereceu a posta da forma mais clara possível. Ao Então, o apóstolo se depara com uma
salvação, alguns a aceitaram e outros a falar da pregação de Paulo e Barnabé objeção. Uma objeção que até hoje con-

12 Revista Os Puritanos
A Bíblia e a Predestinação

tinua sendo feita contra a doutrina da deve a lamentáveis mal-entendidos a


predestinação: “Por acaso esta doutrina respeito do seu significado.
não faz de Deus um ser injusto e parcial?” Bom é tomar a Bíblia e ler o que ela
Como o apóstolo resolve este pro- “Que diremos, pois, diz sobre o assunto. Quem fizer isso
blema? Ele resolve da forma habitual, se convencerá de que a doutrina da
que vemos hoje, de se fugir da ques- há injustiça da parte predestinação, tão desagradável para o
tão por ser ela polêmica e difícil? Ele orgulho humano, é na realidade o único
elimina a doutrina da predestinação de Deus? De modo fundamento sólido de esperança para
dizendo que o que queria dizer era que este mundo e para o vindouro. Pouca
a predestinação era condicional, depen- nenhum”, diz Paulo esperança teremos se nossa salvação
dente de eleições e escolhas futuras do depende de nós mesmos; porém, a sal-
homem ou algo parecido? em Romanos 9:14. vação da qual fala a Bíblia se baseia no
De modo algum. Não há nada disto. conselho eterno de Deus. Na realização
Paulo não abandona sua posição nem poderosa do plano eterno de Deus não
um centímetro; não elimina esta doutri- cabe fissuras. “E aos que predestinou, a
na. Pelo contrário, volta a recorrer em dentre os judeus, mas também dentre esses também chamou; e aos que cha-
apoio à doutrina, ao puro mistério da os gentios?” (vs.15-24). mou, a esses também justificou; e aos
soberania de Deus: “Que diremos, pois, Não vejo como a doutrina da que justificou, a esses também glorifi-
há injustiça da parte de Deus? De modo predestinação ser proclamada com cou” (Rm 8:30). “Todas as coisas contri-
nenhum”, diz Paulo em Romanos 9:14. mais clareza do que nesta passagem. Po- buem para o bem daqueles que amam a
“Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia rém, o que há de se notar em especial é Deus”. Que pouco consoladoras seriam
de quem me aprouver ter misericórdia e que esta passagem não é algo isolado e estas palavras se parássemos aqui; se
compadecer-me-ei de quem me aprouver único nas cartas de Paulo nem na Bíblia. nos houvessem dito apenas que todas
ter compaixão. Assim, pois, não depende Pelo contrário, aqui é apenas colocada as coisas contribuem para o bem dos
de quem quer ou de quem corre, mas de de forma mais explícita do que em ou- que amam a Deus e logo nos deixassem
usar Deus a sua misericórdia. Porque a tros locais. Na verdade, é o mesmo que que nos prendêssemos por nós mesmos
Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te a Bíblia revela em toda a Sua Palavra. à chama deste amor de Deus em nos-
levantei, para mostrar em ti o meu poder Todos os homens merecem a ira e sos corações frios e moribundos. Porém,
e para que o meu nome seja anunciado maldição de Deus; alguns, não mais me- graças a Deus, o versículo não termina
por toda a terra. Logo, tem ele misericór- recedores do favor de Deus que os de- aí. O versículo não se limita a dizer: “To-
dia de quem quer e também endurece mais, são salvos pela misteriosa graça das as coisas contribuem para o bem
a quem lhe apraz. Tu, porém, me dirás: de Deus — estas coisas constituem na daqueles que amam a Deus...” Não! Mas
De que se queixa ele ainda? Pois quem realidade o centro da Bíblia. Confundi- completa: “...daqueles que são chamados
jamais resistiu à sua vontade? Quem és -las em favor do mérito e orgulho hu- segundo o seu propósito (decreto)” (Rm
tu, ó homem, para discutires com Deus?! manos resultará na substituição da Pa- 8:28). Aqui está o verdadeiro fundamen-
Porventura, pode o objeto perguntar a lavra de Deus pela sabedoria humana. to do nosso consolo — não em nosso
quem o fez: Por que me fizeste assim? A doutrina da predestinação não amor, não em nossa fé, em nada que
Ou não tem o oleiro direito sobre a quer dizer que Deus elege alguns ho- exista em nós, mas neste decreto, nes-
massa, para do mesmo barro fazer um mens para a salvação de forma arbitrá- te conselho, nesta vontade misteriosa e
vaso para honra e outro para desonra? ria e sem uma razão boa e suficiente eterna de Deus da qual procedem toda a
Que diremos, pois, se Deus, querendo - por mais misteriosa que esta razão seja. fé, todo amor, tudo o que temos e o que
mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu Não quer dizer que Deus se compraz na somos e podemos ser neste mundo e no
poder, suportou com muita longanimi- morte do pecador; não quer dizer que a mundo vindouro.
dade os vasos de ira, preparados para a porta da salvação está fechada àquele
Esta foi uma das palestras radiofônicas proferidas
perdição, a fim de que também desse a que quer entrar; não quer dizer que o por J. Gresham Machen. Greshan Machen foi um
conhecer as riquezas da sua glória em homem vive desesperado por pensar grande teólogo, especialista no Novo Testamen-
to do Seminário de Princeton (fundado pelos
vasos de misericórdia, que para glória que a graça de Deus não lhe será conce- Puritanos) antes do “desvio” para o liberalismo
teológico”. Quando Princeton estava sofrendo esta
preparou de antemão, os quais somos dida. O horror com que frequentemente forte influência liberal, Machen fundou o Seminário
nós, a quem também chamou, não só se vê esta grande doutrina da Bíblia se Teológico de Westminster na Filadélfia, USA.

Revista Os Puritanos 13
Os Cinco Pontos do Calvinismo
O acróstico TULIP representa os assim chamados cinco pontos do Calvinismo, os quais são, em resumo,
como seguem:

1. Depravação Total. Tanto por causa do pecado original, como pelos seus próprios atos pecaminosos,
toda a humanidade, exceto Cristo, em seu estado natural é inteiramente corrupta e completamente má,
ela é restringida de manifestar a sua corrupção em plenitude por causa da instrumentalidade da graça co-
mum de Deus. Em conformidade com a sua natureza, ela é completamente incapaz de salvar a si mesma.

2. Eleição Incondicional. Antes da criação do mundo, em sua simples e livre graça e amor, Deus elegeu
a muitos pecadores para uma completa e final salvação, contudo, sem prever a fé ou as boas obras, ou
qualquer outra coisa que lhes servisse de condição ou causa, que movesse Deus a escolhe-los. Que seja
afirmado, a base da eleição não estava neles, mas em Si mesmo.

3. Expiação Limitada. Cristo morreu eficazmente, o que é verdadeira salvação somente para o eleito, ape-
sar da infinita suficiência de sua expiação e o divino chamamento a todos ao arrependimento e confiança
em Cristo, prover a garantia para a proclamação do evangelho a todos os homens. Eu pessoalmente,
prefiro os termos “expiação definitiva”, “expiação particular”, ou “expiação eficaz”, em vez de “expiação
limitada”, tanto por causa de uma possível confusão da palavra “limitada”, como também, por causa de
todo “limite” evangélico que a expiação possa ter em seu desígnio (o Calvinista), ou em seu poder de
aplicar o seu propósito (o Arminiano).

4. Graça Irresistível. Esta doutrina não significa que o não-eleito encontrará a graça irresistível de Deus, mas
sim, que a graça salvadora de Deus não se estende igualmente a ele. Nem mesmo significa que o eleito
encontrará a irresistível graça salvadora de Deus, desde o início se estendendo a ele, como se o eleito
pudesse resistir a sua oferta por um período. O que ela significa é que o eleito é incapaz de resistir con-
tinuamente a graciosa oferta de Deus. No tempo designado, Deus atrai o eleito, um por um, a si mesmo,
removendo a sua hostilidade e oposição a Ele e seu Cristo, produzindo o desejo de receber o seu Filho.

5. Perseverança dos Santos. O eleito está eternamente seguro em Cristo, que preserva para Si mesmo,
capacitando-lhe a perseverar nEle até o fim. Aqueles que professam ser cristãos, e se apostatam da fé (1
Tm 4:1), são como João disse: “eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois se
fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era
dos nossos” (1 Jo 2:19).

Fonte: Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Nashville, Thomas Nelson Publishers, 1998), pp. 1125-1126.
Tradução livre 04/08/2004: Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído: http://www.ipportovelho.org/index.php?option=com_content&view=article&id=239:os-cinco-pontos-do-calvinismo-&catid=39:biblioteca
&Itemid=207

14 Revista Os Puritanos
Eleição por Graça
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o
ressuscitarei no último dia” (João 6.44)

Roger L. Smalling Aqueles que assistiram, se deram conta do que o


mestre lhes comunicava. A verdade é que ele era sen-

U
m conto: “Em uma cidade remota, vivia um ho- sível e doce, porém, também era forte. Era melhor ser
mem de raros dons. Era um famoso escultor e seu amigo”.
praticava também as artes marciais. É preciso Jeová é como este artista. Alguns o vêem como um
mencionar que tanto em uma como em outra era um Pai amoroso que não faria dano a ninguém; outros o
verdadeiro mestre. percebem como um Deus que estabelece justiça, casti-
Lamentavelmente vários de seus amigos não o en- ga e repreende. No entanto, nenhum dos grupos pensa
tendiam. Alguns criam que para ser escultor era neces- corretamente. O apóstolo Paulo tinha a ideia correta
sário um caráter doce e manso. O resto pensava que de Deus: “Considerai, pois, a bondade e a severidade
um praticante de karatê devia ser um homem duro, de Deus” (Rm 11:22). No conto mencionado, o barro
violento e de quem todos tivessem medo. moldado representa os eleitos e o bloco sem forma os
Convidou, então, a todos seus amigos. Queria lhes reprovados.
observassem suas habilidades. Se bem que a misericórdia de Deus não poderia ma-
Antes que os amigos chegassem à reunião, o homem nifestar-se sem a existência de pecadores, tão pouco o
tomou uma massa de barro e a dividiu em duas partes. justo juízo de Deus poderia igualmente se evidenciar
Com o primeiro pedaço moldou uma formosa escultura. sem a existência de condenados. Devemos amar e te-
Se tratava de um conjunto de pessoas, animais e flores mer a nosso Deus. A misericórdia e a justiça divinas se
num grande bosque. Pintou a obra de arte e a endure- completam; não se contradizem e dependem uma da
ceu no forno. Com o outro pedaço de barro construiu outra. São como os dois lados de uma mesma moeda; a
um bloco sem forma e também o cozeu. moeda se chama “predestinação” e os dois lados, “elei-
Os amigos chegaram no dia marcado e ele decidiu ção” e “reprovação”.
retirar primeiro a escultura.
A Controvérsia da Eleição
– Que sensível e doce és! Tua obra é mui fina! Excla- Se um dia o leitor desejar uma viva disputa entre cris-
maram maravilhados os presentes. tãos, permita-me oferecer-lhe uma sugestão: Pronuncie
Respondeu o mestre: uma só palavra: PREDESTINAÇÃO!
– Obrigado pelo elogio! Porém, na realidade não so- Para alguns esta palavra é um tesouro consolador
mente me dedico à escultura. que lhes ajuda a entender melhor a graça de Deus.
A resposta do artista deixou muitos de seus amigos Para outros é a pior das calúnias contra o caráter justo
perplexos. Se dirigiu a seu ateliê e trouxe até o lugar de Deus.
onde as pessoas estavam reunidas, o grande pedaço de A controvérsia que existe quanto à Predestinação
barro cozido. não se encontra na falta de evidências bíblicas. É inevi-
– Existem outras artes que não requerem sensibilida- tável que seja controversa qualquer coisa que desafie
de, disse com voz grave. a independência humana, seu orgulho e a supremacia
Depois de alguns segundos, lançou um grito e com da sua vontade.
sua mão estendida rompeu de um só golpe todo o bloco Muitos eruditos em teologia bíblica têm obser-
solidificado. vado que:

Revista Os Puritanos 15
Roger L. Smalling

“As dificuldades que sentimos com res- Mesmo que os conceitos de da Eleição: o conceito da justiça e o con-
peito à Predestinação não são derivadas predestinação e eleição sejam seme- ceito da presciência. No entanto, este
da Palavra. A Palavra está cheia dela, lhantes, não são exatamente iguais. A se convertem nas evid6encias mais
porque está cheia de Deus. E quando di- eleição encerra a decisão divina de sal- fortes para comprovar a certeza da
zemos: ‘Deus’, temos dito Predestinação” var a alguns; em troca, a predestinação predestinação. São as chamadas “pro-
se refere ao poder de Deus para arran- vas paradoxicas”.
Na realidade, a Predestinação é jar as circunstâncias a fim de cumprir
quatro vezes mais fácil de ser compro- seus decretos. 1. Argumento da justiça
vada do que a divindade de Jesus. No Eis aqui uma ilustração: Os que são contra a Predestinação
Novo Testamento há mais ou menos 10 Suponhamos que desejemos que um dizem: “A Predestinação não pode ser
versículos que expressam diretamente cavalo corra em círculos perfeitos. Pri- verdade porque Deus seria injusto em
a Deidade de Jesus. Porém, mais de 40 meiro, escolheríamos o cavalo (Isto é a escolher a uns e não a outros. E se a von-
expressam a Predestinação. eleição). Logo, construiríamos um cur- tade de Deus é irresistível como pode
No entanto, os mesmos cristãos dis- ral circular para que ele aprenda a cor- Ele fazer-se responsável pelo pecado?”.
postos a defender até a morte a Deidade rer em círculos (Isto é a Predestinação). Paulo antecipou esta objeção em Ro-
de Jesus, lutarão com igual fúria para O curral representa as circunstâncias manos 9.14-16:
refutar a doutrina da Predestinação. da vida em que pomos ao cavalo e é “Que diremos pois? Há injustiça da
Por quê? Como expressou o erudito exatamente como Deus arruma as cir- parte de Deus? De modo nenhum! Pois
evangélico, J.I. Packer, “...a mente car- cunstâncias de nossas vidas para asse- ele diz a Moisés: Terei misericórdia de
nal do homem, incluída entre os salvos, gurar que cumpramos com Seu decreto quem me aprouver ter misericórdia e
não suporta abandonar a ilusão de que desde a eternidade. compadecer-me-ei de quem me aprou-
ela mesma é capitã de seu próprio des- ver ter compaixão. Assim, pois, não de-
tino e dona de sua própria alma”. Importância da Doutrina da pende de quem quer ou de quem corre,
Eleição mas de usar Deus a sua misericórdia”.
Definição da Palavra A Eleição é como uma luz que ilumina Notemos que no texto anterior, Pau-
“Predestinação” quer dizer “destinado o significado da palavra “GRAÇA”. Sem lo não se desculpa de nenhuma maneira
antes”. Se refere ao concerto divino das ela, a graça é entendida como a recom- ante a objeção. Tão pouco a contesta.
circunstâncias do fato de cumprir com pensa por alguma atividade ou disposi- Porém afirma outra vez o direito de
seus decretos feitos antes da fundação ção humana e não como a causa desta Deus a ter ou não misericórdia, segun-
do mundo. disposição. do seu critério. Também destaca que a
A Eleição se refere ao decreto di- Se a definição correta da palavra Eleição não depende, nem da vontade
vino de criar, de entre a humanidade “graça” é “um favor imerecido”, então, humana, nem de seus esforços: “...não
condenada, certos indivíduos para se- a graça tem que ser independente de depende de quem quer ou de quem cor-
rem beneficiários do Dom gratuito da qualquer atividade humana. O mo- re...” (v. 16).
salvação. Deus fez isto sem referência mento em que aceitamos este concei- Paulo antecipa aqui uma objeção
aos méritos, ao estado da vontade, ou to, entendemos porque a graça e a baseada no livre arbítrio neutro. Curio-
a fé prevista dos eleitos. Deus não fez eleição são inseparáveis. Não é lógico samente, esta antecipação indica que a
arbitrariamente, mas baseado na Sua proclamar a doutrina da salvação pela predestinação soberana é precisamen-
graça. graça enquanto negamos que a Eleição te o que está afirmado. Sua resposta,
A Reprovação tem tudo a ver com o o seja. Paulo expressou esta unidade portanto, soa mais como uma crítica.
decreto de divino mediante o qual Deus com estas palavras: “Assim, pois, tam- “Tu, porém, me dirás: De que se quei-
deixa uma parte da humanidade peca- bém agora, no tempo de hoje, sobrevive xa ele ainda? Pois quem jamais resistiu
dora, seguir seu caminho até a conde- um remanescente segundo a eleição da à sua vontade? Quem és tu, ó homem,
nação eterna, servindo desta maneira graça” (Rm 11:5). para discutires com Deus?! Porventura,
de objeto da ira de Deus. pode o objeto perguntar a quem o fez:
Deus não os obriga a pecar. Tão pou- As Evidências Bíblicas Por que me fizeste assim?”.
co é o autor do pecado deles. Simples- A) Provas Paradoxicas Dizer que a Eleição é injusta, é discu-
mente os deixa continuar seu caminho Existem dois argumentos que apre- tir com Deus. Paulo entendeu a impos-
como castigo por seus pecados. sentam para tentar refutar a doutrina sibilidade de satisfazer o orgulho dos

16 Revista Os Puritanos
Eleição por Graça

que se crêem capazes de encarregar-se A palavra grega traduzida “presci-


de seu próprio destino e Paulo se con- ência” é prognosko, e significa também
tenta em reprová-los com “Quem és tu, ..a mente carnal do “pré-ordenado”. Nos versículos citados, a
ó homem, para discutires com Deus?”. obediência é mencionada como resul-
Existe também outra resposta lógica homem, incluída tado da presciência e não a causa dela.
para contestar a objeção anterior. To- Disse Pedro: “... para obediência” e não
dos merecemos a condenação. Se Deus entre os salvos, não “... por obediência”. Paulo também ex-
nos condenasse a todos, não haveria pressa em Romanos 8:29 “para serem”
injustiça para com ninguém. Por que suporta abandonar e não “porque viu que eram”. Estes dois
culpar a Deus de injustiça por salvar a versículos, então, servem como apoio à
alguns? Vários recebem de Deus mise- a ilusão de que ela Predestinação em lugar de refutá-la.
ricórdia. Outros recebem justiça. Nin- É interessante que em I Pedro 1, o
guém recebe injustiça da parte de Deus. mesma é capitã apóstolo usa esta mesma palavra prog-
Deus se reserva para Si mesmo o nosko relacionado com a vinda de Jesus
direito de fazer com Sua criação o que de seu próprio e se traduz como “conhecido... antes”, v.
bem lhe parece. Deus não se sujeita a 20: “...conhecido com efeito, antes da
outro critério que não Sua própria von- destino e dona de fundação do mundo, porém manifesta-
tade. Suas ações não são susceptíveis do no fim dos tempos...”. Seria absurdo
às avaliações humanas. A única manei- sua própria alma dizer que Deus o Pai simplesmente “pre-
ra correta de responder à questão da viu” que Jesus viria. Da mesma forma se
Predestinação é agradecer a Deus, fe- vê em Atos 2.23: “... sendo este entregue
char a boca e descansar. pelo determinado desígnio e presciên-
viam crido” (Atos 18:27). Sobre isto cia de Deus...”. É a mesma palavra en-
2. Argumento da Presciência comenta Agostinho: contrada em I Pe 1:2 – prognosko.
Segundo este ponto de vista, Deus “O homem não é convertido porque deseja, Fica claro que a palavra “presciên-
escolheu a uns porque via de antemão mas só deseja porque é ordenado pela cia” significa “pré-ordenação” quando
quem seriam as pessoas que iam obede- eleição”.2 se usa no sentido da atividade divi-
cer e crer. Os que sustentam este ponto na. Essa palavra apoia, e não refuta a
de vista se baseiam em dois versículos: 2. Não podem ser as boas obras. Em Predestinação.
“... eleitos, segundo a presciência de Efésios 2:10 lemos que as boas obras É interessante que nas Escrituras
Deus Pai, em santificação do Espírito foram predestinadas do mesmo modo não existe nenhuma concordância en-
para a obediência...” (I Pe 1:2). que as pessoas que as executam. As tre eleição e o conhecimento prévio que
“Porquanto aos que de antemão conheceu, boas obras se baseiam na fé e a fé na Deus tem da reação da pessoa.
também os predestinou para serem con- predestinação. Por exemplo, Jesus disse: “Ai de ti Co-
formes à imagem de seu Filho...” (Rm 8:29). 3. Não pode ser a boa vontade por- razin! Ai de ti Betsaida! Porque se em
que a vontade do pecador não é boa: Tiro e em Sidom se tivessem operado
Estes versículos poderiam defen- “Não há quem entenda. Não há quem os milagres que em vós se fizeram, há
der, numa primeira análise, a posição busque a Deus” (Rm 3:11). muito que elas se teriam arrependido
oposta à predestinação, porém contra- Em vista da depravação e rebelião do com pano de saco e cinza” (Mt 11:21).
riamente a defende. É necessária uma homem, não existe nenhuma qualidade Se Deus previu que aquele povo po-
pergunta para resgatar o sentido real boa no pecador para ser prevista. A pa- dia se arrepender, por que não enviou
dos textos bíblicos: O que Deus previu lavra “presciência” significa o mesmo um profeta para pregar-lhes? Simples-
nos homens? que “pré-ordenação”. Isto é, Deus sabia mente porque não eram escolhidos.
1. Não pode ser a fé porque ela se de antemão a quem havia escolhido Deus escolheu a Israel como povo
baseia na predestinação: “... e creram para planejar as circunstâncias de suas Seu embora conhecesse muito antes
todos os que haviam sido destinados vidas, a fim de confirmá-los à imagem sua rebeldia: “Todo dia estendi as mi-
para a vida eterna” (Atos 13:48). A fé de Seu Filho. nhas mãos a um povo rebelde e con-
é, além disso, fruto da graça de Deus: Que significa a palavra “presciência” tradizente” (Rm 10:21). Deus escolheu
“... aqueles que mediante a graça ha- nos versículos citados? Israel apesar de sua prevista reação ne-

Revista Os Puritanos 17
Roger L. Smalling

gativa: “Deus não rejeitou o seu povo a Romanos capítulo nove contém as Se Deus houvesse escolhido a Jacó
quem de antemão conheceu” (Rm 11:2). evidências mais dinâmicas sobre elei- porque viu de antemão que tinha um
Deus escolhe a Ezequiel e o envia aos ção porque está dedicado exclusiva- coração sensível às coisas espirituais, o
judeus embora lhe diga que eles rejeita- mente a este tema. Por isso o veremos versículo deveria dizer: “...(para que o
rão sua mensagem (Ez 3:6-7). Por que cuidadosamente. propósito de Deus quanto à eleição pre-
atua desta maneira? Porque os judeus Paulo expõe suas razões por meio valecesse, segundo um bom coração e
dessa época foram escolhidos como de três exemplos gráficos: (1)Jacó, Esaú, não segundo aquele que chama)...”. Está
povo nacional de Deus, não tendo como (2) Faraó e o (3) Oleiro. claro que a base da eleição não foi ne-
base suas reações ou atitudes, mas com 1. Primeira Ilustração: Jacó e Esaú, nhuma qualidade prevista em Jacó pois
base na vontade divina. v. 6-13 seria meritória.
Em I Co 2:7-10, Paulo assegura que Paulo insiste em dois conceitos: a No versículo 11 Paulo ressalta o vín-
Deus tem predestinado para nós uma eleição nacional e a eleição pessoal. Uti- culo entre o amor divino e a Eleição:
sabedoria especial, porém oculta para liza a primeira para explicar a segunda. “Amei a Jacó, porém me aborreci de
os príncipes deste mundo Deus sabia É importante deixar claro que Paulo Esaú” (v.11).
que o houvesse revelado aos príncipes não se refere unicamente a eleição na- Deus ama por livre eleição, não
da época de Cristo, não haveriam cruci- cional. Os versos 6 a 8 evidenciam que por mérito algum dos que foram elei-
ficado a Seu Filho. Por que, então, Deus o Apóstolo centraliza sua mensagem na tos. Seu amor é uma força poderosa e
não revelou sua verdade aos podero- eleição individual: pessoal que O faz buscar, salvar e pre-
sos? Simplesmente porque tinha essa “...nem todos os de Israel são de fato servar aos eleitos. É o Pastor que busca
sabedoria predestinada para nós e não israelitas; nem por serem descendência a ovelha perdida. Seu amor é ativo, não
para aqueles. de Abraão são todos seus filhos, mas: passivo; pessoal e não geral; voluntário
Deus não fundamenta Suas decisões Em saque será chamada a tua descen- e não forçado.
na reação prevista do homem porque dência. Isto é, estes filhos de Deus não Jacó e Esaú são símbolos dos eleitos
ninguém busca a Deus. Em Rm 10:20 são propriamente os da carne, mas de- e dos reprovados. Ele ama aos eleitos,
lemos: “Fui achado pelos que não me vem ser considerados como descendên- porém aborrece aos reprovados.
procuravam, revelei-me aos que não cia os filhos da promessa”. Esta interpretação representa um
perguntavam por mim”. Se destaca o mesmo no v. 27 por ha- dos três pontos de vista básicos com
Inclusive a lógica nos ajuda a enten- ver uma distinção entre judeus salvos e respeito ao tema delicado e complexo
der porque a presciência não explica judeus perdidos: do amor de Deus. Estes três tratam al-
a eleição. Todos sabemos que Deus é “Ainda que o número dos filhos de Is- gumas perguntas chave: A quem Deus
Todo Poderoso e Onisciente. É óbvio, rael seja como a areia do mar, o remanes- ama? Que distinções existem relativas
pois, que qualquer coisa que Deus vê cente é que será salvo”. às diferentes classes de indivíduos?
de antemão é também predestinada. Se Estas duas perguntas podem ser resu-
Deus é Todo Poderoso, pode impedir No versículo 11 do capítulo 9 de midas em dois elementos: extensão do
que aconteça qualquer coisa que con- Romanos, Paulo toma como ilustração amor, e tipo de amor. Os três pontos de
trarie Sua vontade soberana. uma história do Antigo estamento para vista se desenvolvem como base a estes
Exemplo: Suponhamos que Deus explicar a eleição divina: dois elementos.
prevê que Sr Fulano de tal nasceria “E ainda não eram os gêmeos nascidos,
em circunstâncias que o provocariam nem tinham praticado o bem ou o mal Amor Ódio
rejeitar a Cristo. Se Deus quisesse que (para que o propósito de Deus, quanto à
fosse salvo, poderia trocar essas cir- eleição prevalecesse, não por obras, mas
cunstâncias de modo que tivesse outra por aquele que chama)...”. Eleitos Reprovados

influência. Não se pode escapar desta


conclusão. Se Deus não troca essas cir- Jacó e Esaú eram gêmeos. No en-
cunstâncias, é porque o Sr Fulano não tanto, antes de que nascessem, Deus Deus ama a todos igualmente? Ama
é um eleito. Assim, a única maneira de já havia escolhido a Jacó em lugar de tanto a Adolfo Hitler no inferno como o
usar a objeção baseada na presciência, Esaú, sem tomar em consideração as apóstolo João no céu? Ama a Faraó tan-
é negar que Deus seja Todo Poderoso. características previstas neles. to quanto a Moisés? É o amor de Deus
B) As Três Ilustrações de Romanos 9. tanto universal como equivalente?

18 Revista Os Puritanos
Eleição por Graça

A existência de textos como Romanos celestial que nunca faria nenhum mal a um amor especial e eterno! Um autor
9:13 faz este conceito problemático. In- ninguém; que tem um amor passivo e Cristão se expressa assim:
clusive se aceitamos que a universalida- frustrado; amando a todos em geral sem “Nenhum Cristão verdadeiro duvida que
de do amor de Divino é claro que não é amar a ninguém em particular.; um Deus Deus o ama. Porém a quantidade de amor
equivalente. Não existem formas de to- impotente e frustrado que espera em vão que ele sente estará principalmente de-
mar a frase “Amei a Jacó, porém me abor- que o homem responda aos seus rogos. terminada por seu conceito de como e
reci de Esaú” e interpretá-la como Deus Tal conceito agrada bem ao homem mo- quando chegou-lhe o amor de Deus. Se
amou a Esaú tanto quanto a Jacó. Mesmo derno porque não representa nenhum ele sente que a decisão divina foi con-
que a palavra “aborreci” significasse um perigo. Não é sem razão que vivemos dicional, dependente da sua aceitação a
amor inferior (como alguns têm dito), em uma geração que não teme a Deus. Deus, então ele pode imaginar que o amor
isto não alivia a distinção. Pior, o profeta No Novo Testamento, os apóstolos de Deus também é condicional. O amor
Malaquias indicou que o aborrecimento pregaram o arrependimento a Deus e significará que é o resultado de um con-
divino para com Saú resultou em uma a fé no Senhor Jesus Cristo, porém re- trato oferecido por Deus: “Eu te amarei
aniquilação total de sua descendência. É servaram a mensagem do amor princi- primeiro”, diz Deus, “e se me amas a mim
um pouco difícil imaginar a aniquilação palmente para os crentes. Alguns textos também, então te amarei mais ainda”.
total como uma expressão de amor. sobre este ponto são: Sl 5:5 e 11:28; II
Mesmo o versículo famoso de João Ts 2:13; Hebreus 12:5-6; Tiago 2:5. “Porém se ele crê que Deus o tem
3:16 (“Amou o mundo de tal maneira...”) Um terceiro ponto de vista argu- amado com amor eterno, e portanto o
não apoie o ponto de vista universalista. menta que Deus ama o mundo inteiro tem escolhido e o tem chamado, o sen-
Inclusive se fosse possível mostrar que em Sua capacidade de Criador, porém tido do amor é mais profundo. Porque
a palavra ambígua “mundo” significas- a Seus filhos em Sua capacidade como já teremos um amor que já floresceu
se “todo ser humano”, nada indica que o Pai. Seu amor como Criador se estende antes de que tomasse lugar a reconci-
amor de Deus é equivalente para todos. a todos porque seus filhos também são liação. Temos amor que não foi depen-
De igual forma, nós podemos verifi- parte se Sua criação. dente de um “acordo”. Temos um amor
car por meio de uma concordância que idôneo, incondicional e irresistível. É
a Bíblia NUNCA fala do amor de Deus inexaurível em suas dimensões”.3
exceto em referência ao povo de Deus. Voltando ao tema principal, precise-
Tão pouco se pode evitar os textos que mos sobre Romanos 9.16: “Assim, pois,
indicam um amor particular para os não depende de quem quer ou de quem
eleitos. (“Revesti-vos, pois, como elei- corre, mas de usar Deus a sua miseri-
tos de Deus, santos e amados...” — Cl córdia”.
312; “...reconhecendo, irmãos, amados Este versículo talvez seja o mais im-
de Deus, a vossa eleição” —I Ts 1:4). portante em todo o capítulo. Com a ex-
Uma mulher veio uma vez se encon- Este conceito se baseia principal- pressão “Assim, pois...”, Paulo introduz
trar com Charles Spurgeon e disse-lhe mente em que Deus tem certas bênçãos uma conclusão devastadora. A eleição
que esta afirmação a molestava: “porém para todos indistintamente. Estas bên- não tem nenhuma base na vontade
me aborreci de Esaú”, porque pensava çãos incluem a preservação da raça (I humana. Al versículo põe em vão todo
que Deus amava a todos igualmente. Tm 4:10), chuva e sol para todos (Mt intento de argumentar em favor do po-
A resposta de Spurgeon foi esta: “Isso 5:45), e provisão de habitação para der da vontade humana como base da
não é o que me molesta, minha senhora. vários povos (Atos 17:26). Em teologia, eleição. No entanto, Paulo nunca nega
O que me molesta é como podia Deus chamamos estas bênçãos de “graça a existência da vontade humana, nem
amar a Jacó”... pois Jacó não o merecia. comum”, para distingui-las da “graça comenta sobre suas habilidades. Ele
É muito valioso proclamar o amor de especial”, isto é, a salvação. passa por alto a questão, e indica que
Deus como um dos seus atributos prin- Estas bênçãos comuns, comparadas a vontade humana não tem nada a ver
cipais, enquanto está em consonância com o amor particular divino para com com o assunto. Para Paulo, tal discussão
com a Sua santidade e o Senhorio de os eleitos, tem levado alguns teólogos seria como disputar sobre a qualidade do
Cristo. De outra sorte, tal proclamação a criar esta distinção no amor de Deus. alicerce colocado para uma casa embora
pode produzir na mente do ouvinte um Que consolo profundo para os Elei- a casa nunca seja construída sobre este
conceito de Deus como um grande “vovô” tos o conhecer que Deus os ama com fundamento.

Revista Os Puritanos 19
Roger L. Smalling

2. Segunda Ilustração: Faraó v.17-18 superiores às que possui um simples O primeiro argumento diz: A Eleição
Paulo apresenta aqui a difícil doutri- vaso de barro. mencionada aqui se refere ao plano di-
na da Reprovação, segundo a qual Deus No entanto, Paulo não nega que os vino de incluir os gentios na oferta da
tem passado por alto por alguns no Seu homens tenham vontade; simplesmen- salvação, e não a eleição de indivíduos
decreto da Eleição. Se Deus elege a al- te rejeita a ideia de que a vontade hu- específicos. O problema com tal inter-
guns para a salvação, é evidente que mana seja a base da eleição. pretação é que Paulo não era gentio. Era
existem outros que não são escolhidos. Deus, o oleiro, “prepara” vasos para judeu. Porém persistiu em usar “nós” e
Conquanto a Eleição e a Reprovação desonra (os Reprovados), como uma “nos” e o plural de verbos como “feitos
são as duas faces da Predestinação, não demonstração do justo juízo de Deus; e herança” e “dando-nos”. Ele se inclui a
funcionam igualmente. Na Eleição, Deus vasos para honra (Eleitos), para expres- si mesmo no “plano” da predestinação.
troca a mente para dispô-las a aceitar a sar a glória de Sua graça. Mas, no v. 13 ele diz “tendo nele crido,
salvação em Cristo. Na Reprovação, Deus Os contrastes são óbvios. O amor fostes...”. Isso mostra que não estava
não necessita a atuar no homem porque e a misericórdia de Deus para com os pensando nos gentios especificamente
este já está disposto a pecar sem ne- Eleitos são eternos. Sua ira para com até o v. 13. Entre os versículos 1-12,
nhuma ajuda. No livro de Êxodo, alguns os Reprovados também. Estes dois gru- estava pensando nos crentes em geral,
versículos dizem que Deus endureceu o pos estão nos extremos da eternidade e não nos gentios somente.
coração de Faraó; outros, que Faraó en- nunca se reconciliam. Todo ser humano O segundo argumento assegura que
dureceu seu próprio coração. Qual das é um destes dois vasos. as frases “em Cristo” e “escolheu nele”
duas afirmações está correta? As duas. Uma vez que o orgulho humano é quer dizer que Deus sabia que estarí-
Deus endurece o coração do Reprovado derrotado, e a verdade triunfa: Nós exis- amos em Cristo e que com base nEle
ao confrontá-lo com a verdade e Faraó timos para Deus (para Sua glória) e não fomos escolhidos.
reagiu de acordo com a sua natureza Ele para nós. Porém a fé salvadora é em si mesma
pecaminosa endurecendo seu próprio C. Efésios Um: Causas e Efeitos, v. 3-11 uma obra da graça de Deus baseada na
coração. Deus não faz nenhuma injustiça Todas as bênçãos espirituais que nos predestinação (Atos 13:48) e é, também
as Reprovados. Ele faz com que tenham chegam têm sua causa em que Deus nos uma bênção espiritual. Logicamente, a
o que mais desejam: o pecado. Eles dese- escolheu antes da fundação do mundo. frase “em Cristo” tem que ser um resul-
jam que Deus se afaste e não os moleste. Assim, a Eleição é a causa, e a bênçãos tado da eleição e não a causa dela. Se
É um aparente paradoxo que alguns re- espirituais são o efeito. Uma destas fosse de outro modo, o texto deveria
cebam de Deus o que mais desejam e o la- bênçãos é a santidade. “... para que fôs- ler-se: “...escolhidos POR SER em Cristo”
mentarão por toda a eternidade. Outros semos santos e irrepreensíveis perante e não “escolhidos em Cristo”.
recebem de Deus o que menos deseja- ele...” (v.4). Paulo não nos deixa ao luxo A ordem correta que estabelece
vam (até que Deus lhes dá novos desejos), e por ao contrário a ordem das coisas e Efésios cap.1 é: A Vontade de Deus pro-
e serão agradecidos para sempre. Não é imaginar que a santidade prevista em duz a Graça. A Graça produz a Eleição.
uma injustiça, é uma justiça poética. nós é a causa de nossa Eleição. Se fosse A Eleição produz fé, santidade, reden-
Lembramos que cada um de nós me- assim, teríamos que dizer que Deus nos ção e todas as outras bênçãos espiritu-
recia o mesmo destino de Faraó. Antes pôs em Cristo porque viu que éramos ais. Nossa salvação é como um anel de
de nos aproximarmos de Cristo todos santos, e não porque viu que éramos pe- diamante com muitas facetas. A base
tínhamos um coração duro. A diferença cadores. Teríamos assim um Evangelho do anel é a eleição que sustenta todo o
está na misericórdia de Deus e não na de Eleição por méritos e não por graça. diamante. A base tem que ser bem pre-
superioridade dos eleitos —“Logo, tem Quais são estes benefícios, segun- parada antes de que a joia seja montada.
ele misericórdia de quem quer, e tam- do o contexto? Santidade (v. 4); Amor Da mesma forma, era necessário que o
bém endurece a quem lhe apraz” (v.18). a Deus (v. 5); Adoção (v. 5); Aceitação decreto da eleição precedesse todos os
3. Terceira Ilustração: O Oleiro, v. completa (v. 6); Redenção pelo sangue outros aspectos de nossa salvação.
19-22 (v. 7); Sabedoria e Inteligência Espiri- Vejamos outras facetas da salvação
Os que são contra a o doutrina da tual (v.8); Conhecimento da vontade de fora de Efésios cap. 1, que falam da pre-
Predestinação crêem que a ilustração Deus (v. 9); Herança no céu (v. 11); Sela- cedência da Eleição.
de Paulo não pode ser aplicada à situa- dos com o Espírito Santo (v. 13). A Eleição precede a Fé Salvadora:
ção humana. Pensam que o homem tem Vários são os argumentos que ten- “Creram todos os que estavam destina-
vontade e pensamento, características tam refutar a clara explicação de Paulo: dos para a vida eterna” (Atos 13:48).

20 Revista Os Puritanos
Eleição por Graça

A Eleição precede as Boas Obras: a dizer frente a esta realidade: Deus é


“... criados em Cristo Jesus para boas Soberano na salvação.
obras, as quais Deus de antemão pre-
parou para que andássemos nelas”
Nossa salvação Embora seja uma doutrina difícil de
aceitar à princípio, logo se transforma
(Efésios 2:10).
A Eleição precede os Pactos: “Fiz
é como um anel em profundo consolo. Da força das
provas, perseverança na perseguição,
aliança com o meu escolhido...” (Salmo
89:3).
de diamante com confiança na oração e segurança em
sua relação com o Pai. Esta doutrina
A Eleição precede a Chamada Eficaz:
“E aos que predestinou a estes também
muitas facetas. A nos anuncia que Deus nos amou antes
da fundação do mundo, e nos preser-
chamou...” (Rm 8:30).
E conhecimento da nossa eleição é
base do anel é a va para sempre. Chega a ser para os
crentes mais que uma mera doutrina. É
uma fonte inesgotável de gozo. Seus
benefícios práticos e profundos nos
eleição que sustenta como entrar em outra dimensão, onde
experimentam algo profundo e escon-
conduzem ao “louvor de sua graça” e
produz estabilidade como nenhum ou-
todo o diamante. dido. Sentem a eternidade na alma.
D. Outras Evidências
tro ensino pode fazer (Ef 1:6; II Pe 1:10). Embora a Bíblia seja a história dos
Como saber se somos eleitos? decretos eletivos de Deus, as limitações
“... da operosidade da vossa fé, da ab- gresso espiritual para a glória de Deus deste estudo impedem a análise de to-
negação do vosso amor e da firmeza da é a confirmação do decreto divino. dos os textos que evidenciam a eleição.
vossa esperança em nosso Senhor Je- Recomendamos ao estudante evitar
sus Cristo, reconhecendo, irmãos, ama- RESUMO um erro comum no estudo deste tema:
dos de Deus, a vossa eleição” (I Ts 1:3-4). A doutrina da Predestinação expõe a perder-se nos detalhes e esquecer o pa-
Paulo sabia que esses irmãos eram questão central da salvação: “Com que drão da Bíblia em sua totalidade. Este
eleitos porque reconhecia neles estas três contribui o homem para sua salvação?”. padrão bíblico é simples: Deus, por Sua
virtudes principais: Fé, amor e esperança. A natureza humana pressupõe que a vontade Soberana, escolheu a um povo
Reconhecia que o desenvolvimento des- salvação é uma obra mútua e cooperati- para a salvação, sem tomar em conta
tas qualidades caracteriza os eleitos. va entre Deus e o homem. O homem faz seus méritos. Com este povo Deus ins-
Se bem que a vontade de Deus é que sua parte e Deus responde com a graça, tituiu um pacto de graça, proveio um
tenhamos segurança de nossa eleição, de modo que a graça não é soberana. sacrifício de sangue para confirmar
esta confiança não vem facilmente. Há Muitas opiniões diferem acerca do que o pacto e os preservou. A ordem e o
necessidade de diligência para se prati- o homem deve contribuir. Uns querem padrão ficam assim: Eleição, Sacrifício,
car as virtudes acima mencionadas. Re- contribuir com boas obras, penitências, Preservação. Qualquer outra tentativa
ferente a estas virtudes, Pedro exorta: “... etc. Outros insistem em que tal evange- é apostasia.
irmãos, procurai com diligência cada vez lho de obras é anti-bíblico porque nossa É positivo para o estudante inves-
maior, confirmar a vossa vocação e elei- contribuição deve consistir em boa von- tigar os pactos, o sacrifício eficaz de
ção, porquanto, procedendo assim, não tade para que Deus receba maior glória. Cristo, os conselhos divinos e a inca-
tropeçareis em tempo algum” (II Pe 1:10). Porém, um auto engano sutil se es- pacidade total do homem, para saber
Alguns incrédulos, por meio de sua conde aqui. O ponto central não é o que como se relacionam estas doutrinas
vontade, alcançam certo progresso no contribuem, mas que não podem con- com a eleição.
desenvolvimento de tais virtudes. Ape- tribuir com nada em absoluto. Alguns outros textos individuais a es-
sar de seu esforço, seu interesse tem A Predestinação nos leva a uma tudar sobre a Eleição são: João 13;18;
um fim e voltam à sua natureza pecami- confrontação com nossa natureza cor- Marcos 13:20; Romanos 11:5; I Co 1:27-
nosa. Um processo de perfeição à longo rupta, com nossa incapacidade total e 28; Tito 1:1; I Ts 1:4; II Ts 2:13; II tm 1:9
prazo é só possível pelo poder do Espí- com um Deus realmente Soberano. É
Roger L. Smalling é Mestre em Teologia e Missio-
rito Santo. É neste processo longo que um assalto sem trégua contra o orgu- nário na América Latina (Equador). 1Citação de
se distinguem os eleitos. lho e auto suficiência humanas, que a Benjamin B. Warfield em “Gathered Gold” por John
Blanchard; Evangelical Press 1989, p. 247.
Os textos de Paulo e Pedro nos aju- mente carnal não pode tolerar. A elei- 2
Citado em “Gathered Gold”, John Blanchard, Evan-
gelical Press 1989, p. 74. 3 John Kenneth, Election:
dam a reafirmar nossa eleição. O pro- ção nos agarra pela nuca e nos obriga Love before time. P&R Publishing Co., p.86.

Revista Os Puritanos 21
A Atitude de Calvino
Diante da Predestinação
Calvino escreveu que, ao tratar da predestinação, deveríamos evitar duas atitudes: curiosidade excessiva quanto ao
que Deus não nos tem revelado e uma timidez exagerada em ensinar o que está revelado.

No primeiro caso, “a curiosidade humana faz com que a discussão sobre Predestinação, que já é por si algo difícil,
resulte mais confusa e inclusive perigosa. Não há proibições que possam impedir se caminhar por veredas proibidas
nem remontar-se até às alturas. Se fosse permitido, não deixariam nenhum segredo de Deus a ser averiguado ou de-
cifrado. Como por toda parte há tantos que utilizam essa audácia e atrevimento, alguns dos homens que por demais
não são maus, a eles se deveria lembrar a seu tempo qual é o dever a este respeito”.

“Primeiro, pois, que recordem que quando estudam Predestinação estão penetrando nos recintos sagrados da sabe-
doria divina. Se alguém irrompe com segurança despreocupada neste lugar, não chegará a satisfazer a curiosidade e
entrará num labirinto do qual não achará saída. Porque o homem não tem direito a averiguar sem restrições coisas que
o Senhor tem decidido que permaneçam escondidas nEle; nem tão pouco têm direito a investigar desde a eternidade
esta sublime sabedoria, que Deus quis que reverenciássemos porém que não entendêssemos, a fim de que por meio
dEle, nos enchêssemos de temor. Com Sua palavra tem declarado os segredos da Sua vontade que tem decidido nos
revelar. Tem decidido revelar-nos enquanto previu que nos dizia respeito e nos beneficiaria”.1

Para Calvino, ao ocupar-nos da Predestinação a Palavra de Deus é a única norma. “Se prevalece este pensamento que
a Palavra de Deus é o único caminho que nos pode guiar à busca de tudo que é justo a respeito dEle, a única luz para
iluminar nossa visão de tudo que deveríamos ver dEle, nos preservará facilmente e nos livrará de toda temeridade.
Porque sabemos que enquanto excedemos os limites da Palavra, nosso curso andará desviado e na escuridão, e que
erraremos, resvalaremos e tropeçaremos repetidas vezes. Tenhamos pois isto mui presente acima de tudo: buscar
qualquer outro conhecimento da Predestinação que o que a Palavra de Deus manifesta não é menos insano do que
querer caminhar no deserto sem trilhas ou querer ver no escuro. E não nos envergonhemos de ser algo ignorantes
neste terreno, já que existe uma certa ignorância sábia. Antes bem, abstenhamo-nos voluntariamente de indagar em
uma classe de conhecimento, cujo desejo ardente é tanto néscio como perigoso, e ainda mortal, inclusive. Porém se
nos agita uma curiosidade atrevida, faremos bem em contrapor-lhe este pensamento moderador: assim como não é
bom comer demasiadamente mel, tão pouco no caso do curioso a investigação da glória não se transforma em glória.
Porque há boa razão para que nos dissuadamos desta insolência que nos pode jogar na perdição”.2

A segunda atitude que deveríamos evitar, diz Calvino, é a dos que “quase exigem que se oculte toda menção da
Predestinação; de fato, nos ensinam que há que se evitar qualquer pergunta a respeito dela do mesmo modo que
evitaríamos um arrecife”. Também esta atitude está equivocada. Porque a Escritura é a escola do Espírito Santo, na
qual, igualmente, não se omite nada que seja necessário e útil conhecer e tão pouco nada se ensina que não seja
conveniente saber. Portanto, devemos cuidar de não privar aos crentes de qualquer coisa revelada na Escritura com
respeito a Predestinação, para não parecer, ou que os privamos maliciosamente da bênção de Deus, ou que acusamos
o Espírito Santo e zombamos dEle por haver publicado o que não é proveitoso suprimir. Afirmo que devemos permitir
que o cristão abra os olhos e ouvidos a toda manifestação que Deus lhe dirija, contanto que o faça com tal moderação
que quando o Senhor fechar os Seus Santos lábios, também feche de imediato o caminho das investigações.3
Calvino conclui suas observações dizendo que deseja que os que querem ocultar a predestinação “admitam que não
deveríamos investigar o que Deus tem deixado em secreto, que não deveríamos negligenciar o que tem sido posto
em descoberto, de modo que não se possa acusar de excessiva curiosidade por um lado nem de excessiva ingratidão
por outro...Assim pois, todo o que acumula ódio sobre a doutrina da Predestinação censura a Deus, como se Deus
houvesse imprudentemente deixado passar algo daninho para a igreja”.4

Deste modo Calvino ensinou o princípio da Sola Scriptura, toda a Escritura e somente a Escritura. O homem deve
ensinar tudo o que Deus tem revelado, incluindo a predestinação. Porém não deve ir além das Escrituras, especulando
no que Deus não tem revelado. Não se pode adotar uma atitude mais bela que esta que Calvino expressou.

Edwin H. Palmer
1 João Calvino, Institutas da Religião Cristã, III xxi, 1; 2 Calvino, III, xxi, 2.; 3 Calvino, III, xxi, 3.; 4 Calvino, III, xxi, 4

22 Revista Os Puritanos
Eleição, Motivo para
a Santificação
“Porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação
do Espírito e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13)

John Owen dos para sermos conformes à imagem do filho de Deus


(Rm.8:29; 2Ts.2:13); fomos eleitos para a salvação por

O
eterno e imutável propósito de Deus é que todo meio da livre e soberana graça de Deus. Mas como é
aquele que Lhe pertence de forma especial, que se pode possuir de fato essa salvação? Através da
todo aquele a quem pretende trazer ao Seu santificação do espírito, e de nenhum outro modo. Deus,
bem-aventurado gozo eterno, tem, antes de tudo, que desde o princípio, jamais elegeu aqueles a quem não
ser santificado. santificou pelo Seu Espírito. O conselho e o decreto de
Se em tudo o que formos — nossas inclinações, Cristo a nosso favor não depende da nossa santidade,
profissão de fé, honestidade moral, utilidade para os no entanto da nossa santidade depende a nossa felici-
outros, reputação na igreja — não formos santos indi- dade futura no conselho e decreto de Deus.
vidualmente, espiritualmente e evangelicamente, não
estamos entre aqueles que, pelo eterno propósito de A Santificação É Indispensável
Deus, foram escolhidos para a salvação e glória eternas. Segundo o imutável decreto de Deus ninguém pode
Não fomos escolhidos em Cristo antes da fundação alcançar a glória e a felicidade eternas sem graça e
do mundo para sermos primeiramente santos e inculpá- santificação. Os que foram ordenados para a salvação,
veis diante de Deus em amor (Ef.1:4)? Não, fomos, antes foram também ordenados para a santificação. A mais
de mais nada, “ordenados para a vida eterna” (At.13:48 tenra criança trazida à luz nesse mundo, não alcançará
– ACF; 2Ts.2:13). A intenção de Deus no decreto da elei- o descanso eternal se não for santificada e portanto, de
ção é a nossa salvação eterna, para “o louvor da glória modo consistente e radical, tornada santa.
de Sua graça” (Ef.1:5, 6, 11).
Que significa, então, quando se diz que fomos “eleitos A santificação é prova de eleição
em Cristo para que sejamos santos”? Em que sentido é a A única prova da nossa eleição para a vida e a glória é a
nossa santidade o propósito para o qual Deus nos elegeu? santificação operada em cada fibra do nosso ser. Assim
A santidade é o meio indispensável para se obter como a nossa vida, a nossa consolação depende tam-
salvação e glória. “Escolhi aqueles pobres pecadores bém da santificação (2Tm.2:19). O decreto da eleição é
perdidos para serem meus de forma especial”, diz Deus. o bastante para dar segurança contra a apostasia nas
“Escolhi salvá-los trazendo-os através de meu Filho, por tentações e provações (Mt.24:24).
intermédio da Sua mediação, para a glória eterna. Mas Como é que posso saber da minha eleição e que não
faço-o segundo meu propósito e decreto para que se- cairei em apostasia? Diz Paulo, “Aparte-se da injustiça
jam santos e inculpáveis diante de mim em amor. Sem todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm.2:19).
a santificação que procede da obediência em amor a Diz-nos Pedro, “procurai, com diligência cada vez maior,
mim, ninguém jamais entrará na minha glória eterna”. confirmar a vossa vocação e eleição” (2Pe.1:10). Mas,
Pensar que se pode chegar ao céu sem santificação como é que fazemos isso? Pelo acréscimo de todas as
é esperar que Deus mude Seus decretos e propósitos virtudes arroladas por Pedro (2Pe.1:5~9). Assim, se
eternos; é esperar que Deus deixe de ser Deus e acate pretendemos estar na glória eterna, temos que nos es-
o desejo de pecadores de permanecem pecaminosos. forçar totalmente para “sermos santos e irrepreensíveis
Paulo, no entanto, nos mostra que fomos predestina- perante Ele”.

Revista Os Puritanos 23
John Owen

Problema. Se, desde a eternidade, eleição fosse cumprido e levado à sua mente proclamada no evangelho; mas
Deus escolheu livremente um certo nú- concretização. Ao pregar o evangelho, quanto à sua própria eleição, não se exi-
mero de pessoas para a salvação, que Paulo diz que tudo suportou “por causa ge que ninguém creia nela até que, pe-
necessidade têm elas de serem santas? dos eleitos, para que também eles ob- los seus próprios frutos, Deus lha revele.
Podem pecar o tanto que quiserem e tenham a salvação que está em Cristo Assim, ninguém pode dizer que não é
jamais perderão o céu, pois os decretos Jesus, com eterna glória” (2Tm.2:10). eleito até que sua condição prove que
de Deus não podem ser frustrados. A Deus ordena que Paulo permaneça e não o seja porque os frutos da eleição
Sua vontade não pode ser negada. E se pregue o evangelho em Corinto porque jamais podem operar nele. Esse frutos
não forem eleitas, sejam santas como Ele tinha naquela cidade “muito povo” são a fé, a obediência e a santificação
forem, ainda permanecerão perdidos, (At.18:10), isto é, aqueles a quem Ele (Ef.1:4; 2Ts.2:13; Tt.1:1; At.13:48).
porque jamais podem ter a salvação. havia graciosamente escolhido para a Aquele em quem se operam essas
Resposta. Tal modo de argumentar salvação. Veja também Atos 2:47; 13:48. coisas tem a obrigação, segundo o mé-
não é ensinado na Escritura, nem dela (iii)  Em todo o lugar que chega, o todo de Deus e o evangelho, de crer na
pode ser aprendido. A doutrina da li- evangelho proclama a vida e a salva- sua própria eleição. Todo crente pode
vre eleição de Deus em amor e graça ção por Jesus Cristo a todo o que vai ter tanta certeza da sua eleição quanto
é plenamente ensinada na Escritura, crer, se arrepender e se render em obe- o tem da sua chamada, justificação e
onde é proclamada como a fonte de, e diência a Ele. O evangelho faz com que santificação. Pelo exercício da graça,
o grande motivo para a santificação. É os homens saibam plenamente qual é asseguramos a nossa vocação e eleição
mais seguro apegar-se aos claros tes- o dever e a recompensa deles. Nessas (1Pe.1:5~10).
temunhos da Escritura, confirmado na circunstâncias somente a arrogância e Mas os incrédulos e os ímpios não
maioria dos crentes, do que dar ouvi- a incredulidade podem usar o desígnio podem concluir que não são eleitos, se
dos a essas objeções perversas e vis que secreto de Deus como desculpa para não conseguirem provar que lhes seja
podem nos levar a odiar a Deus e aos continuarem pecado. impossível receber graça e santificação.
Seus desígnios. É melhor que o nosso Objeção. “Eu não me arrependerei, Noutras palavras, eles têm que provar
entendimento seja cativo da obediência nem crerei, nem obedecerei, se primei- que cometeram o pecado imperdoável
da fé, do que do questionamento de ho- ro não souber se sou ou não um eleito; contra o Espírito Santo.
mens néscios. afinal tudo depende disso”. A doutrina da eleição de Deus é en-
Especificamente, não somos apenas Resposta. Se é assim que pensa, o sinada em toda parte da Escritura para
obrigados a acreditar em todas as reve- evangelho nada tem a lhe dizer nem a o encorajamento e a consolação dos
lações divinas, mas temos também que lhe oferecer, pois você está opondo sua crentes e para motivá-los a serem mais
crer nelas conforme nos são apresenta- vontade própria à vontade de Deus. obedientes e santificados (Ef.1:3~12;
das pela vontade de Deus. O evangelho A forma que Deus estabeleceu para Rm.8:28~34).
requer que se creia na vida eterna, mas sabermos se somos ou não eleitos é pe-
ninguém, que ainda vive em seus peca- los frutos da eleição em nossas próprias Como É que a Eleição Motiva os
dos, precisa acreditar na sua salvação almas. Crentes à Santidade
eterna. Eis uma ilustração. Cristo morreu A graça e o amor de Deus na eleição, so-
Os parágrafos a seguir destroem por pecadores. Não se exige que certa beranos e para sempre reverenciados,
essas objeções: pessoa creia que Cristo morreu por ela são fortes motivos para a santificação,
(i)  O decreto da eleição em si mesma, de modo particular, mas apenas que e a única maneira de demonstramos
absoluta, sem a consideração de seus Cristo morreu para salvar pecadores. gratidão a Deus é agradar-lhe com a
resultados, não faz parte da vontade Assim sendo, o evangelho exige de nós santidade de vida. Será que um crente
revelada de Deus. Não está revelado se fé e obediência, e somos obrigados a re- verdadeiro diria: “Deus me elegeu para
esta ou aquela pessoa é ou não eleita agir favoravelmente. Contudo, até que a vida eterna, portanto vou pecar o
(Dt.29:29). Portanto, isso não pode ser obedeça ao evangelho, ninguém tem tanto que quiser, pois jamais perecerei
utilizado como argumento ou objeção nenhuma obrigação de crer que Cristo nem serei condenando”?
sobre nada que envolva a fé e a obe- morreu por si em particular. Deus usa a eleição como um
diência. A mesma coisa acontece com a elei- motivador para o seu povo antigo
(ii)  Deus enviou o Seu evangelho ção. Exige-se que se creia na doutrina (Dt.7:6~8, 11). Do mesmo modo o faz
aos homens para que o Seu decreto de porque ela está na Escritura e é clara- Paulo com os cristãos (Cl.3:12, 13). A

24 Revista Os Puritanos
Eleição, Motivo para a Santificação

eleição nos ensina humildade. Deus nos que seja proclamado: “Assim se fará ao mento o tornará relapso e negligente?
escolheu quando, por causa do pecado, homem a quem o rei [do Céu] deseja Não seria isso mais provável a alguém
éramos imprestáveis; não porque hou- honrar”? Escolheu-nos Deus para nos perdido e sem saber para onde ir? Não
vesse algum bem em nós. A eleição nos guardar de dificuldades, perseguições, seria isso mais provável a alguém sem a
ensina submissão à soberana vontade, pobreza, vergonha e reprovações no certeza de que alcançaria o seu destino?
arbítrio e domínio de Deus sobre tudo mundo? Paulo nos ensina bem o con- Problema.  A eleição é desanima­
o que nos concerne nesse mundo. Se trário (1Co.1:26~29). dora para o incrédulo.
Deus me escolheu desde a eternidade, Tiago nos mostra como deve viver Resposta.  Podem ocorrer duas coi-
e no devido tempo trouxe-me à fé, não um eleito de Deus (Tg.1:9~11). O amor sas quando a eleição é proclamada aos
iria Ele também cuidar de todas as coi- na eleição é motivo e encorajamento incrédulos. Primeiro, eles poderão se
sas que me afetam? para a santidade por causa da graça esforçar ao máximo para provarem que
A eleição também nos ensina o amor, que podemos e devemos esperar de são eleitos respondendo com fé, obedi-
a benevolência, a compaixão e a tolerân- Jesus Cristo (2Co.12:9). A eleição de ência e santidade, ou, segundo, podem
cia para com todos os crentes, que são Deus nos dá a certeza de que a despei- não fazer nada e dizer que tudo isso
os santos de Deus (Cl.3:12, 13). Como to de todas as oposições e dificuldades depende de Deus.
ousaremos alimentar pensamentos que enfrentarmos, não seremos total e Agora, qual dessas duas atitudes é
grosseiros e severos, e alimentar ani- finalmente condenados (Rm.8:28~39; mais racional e notável? Qual delas evi-
mosidade e inimizade contra qualquer 2Tm.2:19; Hb.6:10~20). dencia que amamos verdadeiramente
um daqueles a quem Deus escolheu Problema. Com certeza alguém que a nós mesmos e estamos interessados
para a graça e glória? (Veja Rm.14:1, sabe que é eleito tem maior possibili- por nossas almas imortais?
3; Paulo tudo fez por causa dos eleitos). dade de ser preguiçoso e negligente na Nada é mais infalivelmente certo
A eleição nos ensina o desprezo pelo sua vida espiritual. do que isso: “todo aquele que nEle crê
mundo e por tudo o que lhe pertence. Resposta.  Alguém segue numa jor- não [perecerá], mas [tem] a vida eterna”
Escolheu-nos Deus para constituir-nos nada, sabe que está no caminho certo (Jo.3:15 - ACF).
reis e imperadores do mundo? Levan- e sabe que se se mantiver no caminho
Extraído e traduzido do livro “O Espírito Santo” do
tou Deus o Seu eleito para ser rico, no- chegará certa e infalivelmente ao fim grande teólogo puritano inglês John Owen e que
bre e honorável entre os homens para da sua jornada. Será que esse conheci- será publicado pela Editora Os Puritanos

Confissão de Fé de Westminster
Capítulo III → DOS ETERNOS DECRETOS DE DEUS

VIII. A doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada


com especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo
à vontade revelada em sua palavra e prestando obediência a ela, pos-
sam, pela evidência da sua vocação eficaz, certificar-se da sua eterna
eleição. Assim, a todos os que sinceramente obedecem ao Evange-
lho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e admiração
de Deus, bem como de humildade diligência e abundante consolação.
Ref. Rm. 9:20 e 11:23; Dt. 29:29; II Pe 1:10; Ef. 1:6; Lc. 10:20; Rm. 5:33, e 11:5-6, 10.

Revista Os Puritanos 25
Doutrina da Eleição — Fonte de
Encorajamento Para a Pregação
do Evangelho a Pecadores?
“Teve Paulo durante a noite um visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; por-
quanto eu estou contigo e ninguém ousará te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18.9-10)

Os fatos aqui relatados ocorreram em Corinto, cidade grega destacada pela sua riqueza e magnificência, e não me-
nos pela luxúria e licenciosidade. Paulo parece ter sido a primeira pessoa a pregar O Evangelho naquela cidade. Sua
pregação, embora tenha obtido algum sucesso imediato, encontrou violenta oposição e ele parece ter ficado por um
tempo grandemente desencorajado. Ciente da sua completa insuficiência para acalmar a inimizade dos judeus, ou
para conter a torrente de impiedade que prevalecia entre os gentios, ele estava quase pronto a desistir, e a procurar
algum outro campo de trabalho mais promissor.
Mas Deus, que conforta os abatidos, apareceu-lhe em uma visão e prometeu estar com ele e protegê-lo. Também
assegurou-lhe que, embora a situação parecesse tenebrosa e desencorajadora, os seus esforços ainda seriam coro-
ados com significativo sucesso, pois disse-lhe: “Tenho muito povo nesta cidade”. Encorajado por essa declaração,
permaneceu lá por um ano e seis meses, e teve um papel decisivo na formação de uma grande e florescente igreja.
Em que sentido era verdade que Deus tinha muito povo em Corinto? Não em que eles fossem verdadeiros crentes,
pois quando essa declaração foi feita muito poucos haviam abraçado a fé cristã. A massa do povo continuava idólatra
e entregue aos mais grosseiros vícios. Mas havia muitas pessoas naquela cidade cujos nomes estavam no livro da
vida, das quais Deus tinha proposto fazer troféus da Sua graça — pessoas que Deus havia dado a Cristo no pacto da
redenção e que tinham sido predestinadas para a adoção de filhos.
Mas, se elas tinham sido dadas a Cristo e sido predestinadas para a vida eterna, que necessidade havia de que Paulo
lhes pregasse o Evangelho, ou que algum meio fosse usado para efetivar sua conversão e salvação? Não serão salvos
aqueles que Deus escolheu para a salvação? Sem dúvida que sim; mas eles não serão salvos sem a instrumentalidade
dos meios, porque é parte do Seu divino propósito que eles sejam salvos desta forma. A razão pela qual Deus deter-
minara que Paulo continuasse a pregar o Evangelho em Corinto era porque Ele tinha muitas pessoas naquela cidade.
Isso foi dito para o seu encorajamento, e foi a principal fonte de encorajamento que ele teve para perseverar em seus
labores. Ele sabia que essas pessoas estavam mortas no pecado. Ele sabia que todos os seus esforços para despertá-
-las para a vida espiritual eram totalmente impotentes; e que, por consequência, elas iriam inevitavelmente perecer,
a menos que Deus se interpusesse pela Sua graça. Quão animadora portanto deve ter sido para ele a compreensão
de que Deus não tinha destinado todos os habitantes daquela grande cidade para uma completa destruição, mas
havia determinado, através da sua instrumentalidade, trazer multidões das trevas para a Sua maravilhosa luz! E essa
consideração susteve Paulo não só em Corinto mas em todos os lugares onde era chamado para pregar o Evangelho,
“Tudo suporto”, desse ele, “por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo
Jesus com eterna glória” (II Tm 2.10). A mesma consideração deveria nos suster e encorajar em nossos esforços para
promover os interesses do reino de Cristo na terra. Eu retiro do texto, portanto, a seguinte doutrina:

Dr. Bennet Tyler (1783-1858)


Tradução: Ronaldo Pernambuco
“O fato de Deus ter um povo escolhido na terra provê o encorajamento para a pregação do Evangelho, ou para se empregar os meios para a salvação
de pecadores”
Ronaldo Pernambuco é membro da Igreja Presbiteriana Central do Pará

26 Revista Os Puritanos
A Eleição Condicional
Contrastada com a
Eleição Incondicional
Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que ele escolheu
para sua herança”

Por David Steele e Curtis Thomas ELEIÇÃO INCONDICIONAL


Devido ao pecado de Adão, seus descendentes entram

A
rminianismo: A escolha divina de certos indi- no mundo como pecadores culpados e perdidos. Como
víduos para a salvação, antes da fundação do criaturas caídas, eles não têm desejo de ter comunhão
mundo, foi baseada na Sua previsão (presci- com o seu Criador. Ele é santo, justo e bom, ao passo que
ência) de que eles responderiam à Sua chamada (fé eles são pecaminosos, perversos e corruptos- Deixados
prevista). Deus selecionou apenas aqueles que Ele à sua própria escolha, eles inevitavelmente seguem o
sabia que iriam, livremente e por si mesmos, crer no deus deste século e fazem a vontade do seu pai, o dia-
Evangelho. A eleição, portanto, foi determinada ou bo. Consequentemente, os homens têm se desligado do
condicionada pelo que o homem iria fazer. A fé que Senhor dos céus e têm perdido todos os direitos de Seu
Deus previu e sobre a qual Ele baseou a Sua escolha amor e favor. Teria sido perfeitamente justo para Deus
não foi dada ao pecador por Deus (não foi criada ter deixado todos os homens em seus pecados e miséria
pelo poder regenerador do Espírito Santo), mas re- e não ter demonstrado misericórdia a quem quer que
sultou tão somente da vontade do homem. Foi dei- seja. É neste contexto que a Bíblia apresenta a doutrina
xado inteiramente ao arbítrio do homem o decidir da eleição.
quem creria e, por conseguinte, quem seria eleito A doutrina da eleição declara que Deus, antes da
para a salvação. Deus escolheu aqueles que Ele sabia fundação do mundo, escolheu certos indivíduos dentre
que iriam, de sua livre vontade, escolher a Cristo. As- todos os membros decaídos da raça de Adão para ser o
sim, a causa última da salvação não é a escolha que objeto de Seu imerecido amor. Esses, e somente esses,
Deus faz do pecador, mas a escolha que o pecador Ele propôs salvar. Deus poderia ter escolhido salvar to-
faz de Cristo. dos os homens (pois Ele tinha o poder e a autoridade
para fazer isso), ou Ele poderia ter escolhido não salvar
Calvinismo: A escolha divina de certos indivíduos ninguém (pois Ele não tem a obrigação de mostrar mi-
para a salvação, antes da fundação do mundo, repousou sericórdia a quem quer que seja), porém não fez nem
tão somente na Sua soberana vontade. A escolha de uma coisa nem outra. Ao invés disso, Ele escolheu salvar
determinados pecadores feita por Deus não foi baseada alguns e excluir (preterir) outros. Sua eterna escolha
em qualquer resposta ou obediência prevista da parte de determinados pecadores para a salvação não foi
destes, tal como fé ou arrependimento. Pelo contrário, baseada em qualquer ato ou resposta prevista da par-
é Deus quem dá a fé e o arrependimento a cada pessoa te daqueles escolhidos, mas foi baseada tão somente
a quem Ele escolheu. Esses atos são o resultado e não no Seu beneplácito e na Sua soberana vontade. Desta
a causa da escolha divina. A eleição, portanto, não foi forma, a eleição não foi condicionada nem determina-
determinada nem condicionada por qualquer qualida- da por qualquer coisa que os homens iriam fazer, mas
de ou ato previsto no homem. Aqueles a quem Deus resultou inteiramente do propósito determinado pelo
soberanamente elegeu, Ele os traz, através do poder próprio Deus.
do Espírito, a uma voluntária aceitação de Cristo. Desta Os que não foram escolhidos foram preteridos e
forma, a causa última da salvação não é a escolha que deixados às suas próprias inclinações e escolhas más.
o pecador faz de Cristo, mas a escolha que Deus faz do Não cabe à criatura questionar a justiça do Criador por
pecador. não escolher todos para a salvação. É suficiente saber

Revista Os Puritanos 27
David Steele e Curtis Thomas

que o Juiz de toda a terra tem agido A) Declarações gerais mostrando que Porque os que dantes conheceu, tam-
bem e justamente. Deve-se, contudo, ter Deus tem um povo eleito, que Ele predes- bém os predestinou para serem confor-
em mente que se Deus não tivesse gra- tinou esse povo para a salvação e, desta mes à imagem de seu Filho, a fim de
ciosamente escolhido um povo para Si forma, para a vida eterna: que ele seja o primogênito entre muitos
mesmo, e soberanamente determinado DT 10.14 “Eis que do Senhor teu irmãos; e aos que predestinou, a estes
prover-lhe e aplicar-lhe a salvação, nin- Deus são o céu e o céu dos céus, a ter- também chamou; e aos que chamou, a
guém seria salvo. O fato de Ele ter feito ra e tudo o que nela há. Entretanto o estes também justificou; e aos que justi-
isto para alguns, à exclusão dos outros, Senhor se afeiçoou a teus pais para os ficou, a estes também glorificou”.
não é de forma alguma injusto para os amar; e escolheu a sua descendência RM 8.33 “Quem intentará acusação
excluídos, a menos que se mantenha depois deles, isto é, a vós, dentre todos contra os escolhidos de Deus? É Deus
que Deus estava na obrigação de prover os povos, como hoje se vê”. quem os justifica”.
salvação a todos os pecadores - o que a SL 33.12 “Bem-aventurada é a nação RM 11.28 “Quanto ao evangelho,
Bíblia rejeita cabalmente. cujo Deus é o Senhor, o povo que ele eles na verdade, são inimigos por causa
A doutrina da eleição deve ser vis- escolheu para sua herança”. de vós; mas, quanto à eleição, amados
ta não apenas contra o pano de fundo SL 65.4 “Bem-aventurado aquele a por causa dos pais”.
da depravação e culpa do homem, mas quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, CL 3.12 “Revesti-vos, pois, como
também deve ser estudada em conexão para habitar em teus átrios! Nós sere- eleitos de Deus, santos e amados, de
com o Eterno Pacto ou acordo feito en- mos satisfeitos com a bondade da tua coração compassivo, de benignidade,
tre os membros da Trindade. Pois foi casa, do teu santo templo”. humildade, mansidão, longanimidade.”
na execução deste pacto que o Pai esco- AG 2.23 “Naquele dia, diz o Senhor I TS 5.9 “...porque Deus não nos desti-
lheu desse mundo de pecadores perdi- dos exércitos, tomar-te-ei, ó Zorobabel, nou para a ira, mas para alcançarmos a
dos um número definido de indivíduos servo meu, filho de Sealtiel, diz o Senhor, salvação por nosso Senhor Jesus Cristo,
e deu-os ao Filho para serem o Seu povo. e te farei como um anel de selar; porque TM 1.1 “Paulo, servo de Deus, e após-
O Filho, nos termos desse pacto, con- te escolhi, diz o Senhor dos exércitos”. tolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos
cordou em fazer tudo quanto era neces- MT 11.27 “Todas as coisas me foram eleitos de Deus, e o pleno conhecimento
sário para salvar esse povo escolhido e entregues por meu Pai; e ninguém co- da verdade que é segundo a piedade”.
que lhe foi concedido pelo Pai. A parte nhece plenamente o Filho, senão o Pai; I PE 1.1 “Pedro, apóstolo de Jesus
do Espírito na execução desse pacto foi e ninguém conhece plenamente o Pai, Cristo, aos peregrinos da Dispersão no
e é a de aplicar aos eleitos a salvação senão o Filho, e aquele a quem o Filho Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”.
adquirida para eles pelo Filho. o quiser revelar”. I PE 1.2 “...eleitos segundo a presci-
A eleição, portanto, é apenas um MT 22.14 “Porque muitos são cha- ência de Deus Pai, na santificação do
aspecto (embora muito importante) do mados, mas poucos escolhidos”. Espírito, para a obediência e aspersão
propósito salvador do Deus Triúno, e MT 24.22 “E se aqueles dias não do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz
dessa forma não deve ser vista como sal- fossem abreviados, ninguém se salva- vos sejam multiplicadas”.
vação. O ato da eleição em si mesmo não ria; mas por causa dos escolhidos serão I PE 2.8 “Como uma pedra de tropeço
salvou ninguém. O que ele fez foi des- abreviados aqueles dias”. e rocha de escândalo; porque tropeçam
tacar (marcar) alguns indivíduos para MT 24.31 “E ele enviará os seus an- na palavra, sendo desobedientes; para
a salvação. Desta forma, a doutrina da jos com grande clangor de trombeta, os o que também foram destinados. Mas
eleição não deve ser divorciada das dou- quais lhe ajuntarão os escolhidos desde vós sois a geração eleita, o sacerdócio
trinas da culpa do homem, da redenção os quatro ventos, de uma à outra extre- real, a nação santa, o povo adquirido,
e da regeneração, pois de outra forma midade dos céus”. para que anuncieis as grandezas daque-
ela será distorcida e deturpada. Em ou- LC 18.7 “E não fará Deus justiça le que vos chamou das trevas para a sua
tras palavras, se quisermos manter em aos seus escolhidos, que dia e noite maravilhosa luz”.
sua perspectiva bíblica, e corretamente clamam a ele, já que é longânimo para AP 17.14 “Estes combaterão contra
entendido, o ato da eleição do Pai deve com eles?”. o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá,
ser relacionado com a obra redentora do RM 8.28-30 “E sabemos que todas porque é o Senhor dos senhores e o Rei
Filho, que Se deu a Si mesmo para salvar as coisas concorrem para o bem da- dos reis; vencerão também os que estão
os eleitos e com a obra renovadora do queles que amam a Deus, daqueles que com ele, os chamados, e eleitos, e fiéis”.
Espírito, que traz o eleito à fé em Cristo. são chamados segundo o seu propósito.

28 Revista Os Puritanos
A Eleição Condicional Contrastada com a Eleição Incondicional

B) Antes da fundação do mundo, Deus segundo a eleição permanecesse


Deus escolheu determinados indivíduos firme, não por causa das obras, mas
para a salvação. Sua escolha não foi base- A eleição, portanto, por aquele que chama) foi-lhe dito: O
ada em qualquer resposta ou ato previsto, maior servirá o menor. Como está es-
a ser cumprido pelos escolhidos. A fé e as é apenas um aspecto crito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú”.
boas obras são o resultado e não a causa RM 9.16 “Assim, pois, isto não de-
da escolha divina. (embora muito pende do que quer, nem do que corre,
1. Deus fez a escolha: mas de Deus que usa de misericórdia”.
MC 13.20 “Se o Senhor não abre-
importante) do RM 10.20 “E Isaías ousou dizer: Fui
viasse aqueles dias, ninguém se salva- achado pelos que não me buscavam,
ria mas ele, por causa dos eleitos que
propósito salvador manifestei-me aos que por mim não
escolheu, abreviou aqueles dias”. perguntavam”.
I TS 1.4 “...conhecendo, irmãos, ama-
do Deus Triúno, e I CO 1.27-29 “Pelo contrário, Deus
dos de Deus, a vossa eleição”. escolheu as coisas loucas do mundo
II TS 2.13 “Mas nós devemos sem-
dessa forma não para confundir os sábios; e Deus esco-
pre dar graças a Deus por vós, irmãos, lheu as coisas fracas do mundo para
amados do Senhor, porque Deus vos
deve ser vista confundir as fortes e Deus escolheu as
escolheu desde o princípio para a coisas ignóbeis do mundo, e as despre-
santificação do espírito e a fé na ver-
como salvação. zadas, e as que não são, para reduzir
dade”. a nada as que são; para que nenhum
2. A escolha divina foi feita antes da mortal se glorie na presença de Deus”.
fundação do mundo: quando virem a besta que era e já não II TM 1.9 “...que nos salvou, e cha-
EF 1.4 “...como também nos elegeu é, e que tornará a vir”. mou com uma santa vocação, não se-
nele antes da fundação do mundo, para gundo as nossas obras, mas segundo
sermos santos e irrepreensíveis diante 3. Deus escolheu determinados in- o seu próprio propósito e a graça que
dele em amor”. divíduos para a salvação - seus nomes nos foi dada em Cristo Jesus antes dos
II TS 2.13 “Mas nós devemos sem- foram escritos no livro da vida antes da tempos eternos”
pre dar graças a Deus por vós, irmãos, fundação do mundo: 5. As boas obras são o resultado e
amados do Senhor, porque Deus vos AP 13.8 “E adorá-la-ão todos os que não a base da predestinação:
escolheu desde o princípio para a habitam sobre a terra, esses cujos no- EF 1.12 “...com o fim de sermos para
santificação do espírito e a fé na ver- mes não estão escritos no livro do Cor- o louvor da sua glória, nós, os que antes
dade”. deiro que foi morto desde a fundação havíamos esperado em Cristo”.
II TM 1.9 “...que nos salvou, e cha- do mundo”. EF 2.10 “Porque somos feitura sua,
mou com uma santa vocação, não se- AP 17.8 “A besta que viste era e já criados em Cristo Jesus para boas obras,
gundo as nossas obras, mas segundo não é; todavia está para subir do abis- as quais Deus antes preparou para que
o seu próprio propósito e a graça que mo, e vai-se para a perdição; e os que andássemos nelas”.
nos foi dada em Cristo Jesus antes dos habitam sobre a terra e cujos nomes JO 15.16 “Vós não me escolhestes
tempos eternos”. não estão escritos no livro da vida des- a mim mas eu vos escolhi a vós, e vos
AP 13.8 “E adorá-la-ão todos os que de a fundação do mundo se admirarão, designei, para que vades e deis frutos, e
habitam sobre a terra, esses cujos no- quando virem a besta que era e já não o vosso fruto permaneça, a fim de que
mes não estão escritos no livro do Cor- é, e que tornará a vir”. tudo quanto pedirdes ao Pai em meu
deiro que foi morto desde a fundação 4. A escolha divina não foi baseada nome, ele vo-lo conceda”.
do mundo”. em qualquer mérito previsto naqueles 6. A escolha divina não foi baseada
AP 17.8 “A besta que viste era e já a quem Ele escolheu, nem foi baseada na fé prevista. A fé é o resultado e, por-
não é; todavia está para subir do abis- em quaisquer obras previstas, realiza- tanto, a evidência da eleição divina, não
mo, e vai-se para a perdição; e os que das por eles: a causa ou base de Sua escolha:
habitam sobre a terra e cujos nomes RM 9.11-13 “...(pois não tendo os gê- AT 13.48 “Os gentios, ouvindo
não estão escritos no livro da vida des- meos ainda nascido, nem tendo pratica- isto, alegravam-se e glorificavam a
de a fundação do mundo se admirarão, do bem ou mal, para que o propósito de palavra do Senhor; e creram todos

Revista Os Puritanos 29
David Steele e Curtis Thomas

quantos haviam sido destinados para infrutíferos no pleno conhecimento de EF 1.4 “...como também nos elegeu
a vida eterna”. nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele nele antes da fundação do mundo, para
AT 18.27 “Querendo ele passar à em quem não há estas coisas é cego, ven- sermos santos e irrepreensíveis diante
Acáia, os irmãos o animaram e escreve- do somente o que está perto, havendo-se dele em amor”
ram aos discípulos que o recebessem; e esquecido da purificação dos seus anti- RM 16.7 “Saudai a Andrônico e a
tendo ele chegado, auxiliou muito aos gos pecados. Portanto, irmãos, procurai Júnias, meus parentes e meus compa-
que pela graça haviam crido”. mais diligentemente fazer firme a vossa nheiros de prisão, os quais são bem
FP 1.29 “...pois vos foi concedido, por vocação e eleição; porque, fazendo isto, conceituados entre os apóstolos, e que
amor de Cristo, não somente o crer nele, nunca jamais tropeçareis. Porque assim estavam em Cristo antes de mim”.
mas também o padecer por ele”. vos será amplamente concedida a entra- D) A eleição foi baseada na misericór-
FP 2.12-13 “De sorte que, meus da no reino eterno do nosso Senhor e dia soberana e especial de Deus. Não foi
amados, do modo como sempre obe- Salvador Jesus Cristo”. a vontade do homem, mas a vontade de
decestes, não como na minha presença C) A eleição não é a salvação, mas é Deus que determinou que pecadores iriam
somente, mas muito mais agora na mi- para a salvação. Assim como o presidente ser alvos da misericórdia e ser salvos:
nha ausência, efetuai a vossa salvação eleito não se torna o presidente de fato EX 33.19 “Respondeu-lhe o Senhor:
com temor e tremor; porque Deus é o até o dia da sua posse (instalação), assim Eu farei passar toda a minha bondade
que opera em vós tanto o querer como aqueles que são eleitos para a salvação diante de ti, e te proclamarei o meu
o efetuar, segundo a sua boa vontade”. não são salvos até que sejam regenera- nome Jeová; e terei misericórdia de
I TS 1.4-5 “...conhecendo, irmãos, dos pelo Espírito e justificados pela fé em quem eu tiver misericórdia, e me com-
amados de Deus, a vossa eleição por- Cristo: (Em Efésios 1:4 Paulo mostra que padecerei de quem me compadecer”.
que o nosso evangelho não foi a vós os homens foram eleitos “em Cristo” an- DT 7.6-7 “Porque tu és povo santo
somente em palavras, mas também em tes que o mundo existisse. Em Rm 16:7 ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus
poder, e no Espírito Santo e em plena ele mostra que os homens não estão real- te escolheu, a fim de lhe seres o seu
convicção, como bem sabeis quais fo- mente “em Cristo” até que se convertam). próprio povo, acima de todos os povos
mos entre vós por amor de vós”. RM 11.7 “Pois quê? O que Israel bus- que há sobre a terra. O Senhor não to-
II TS 2.13-14 “Mas nós devemos ca, isso não o alcançou; mas os eleitos mou prazer em vós nem vos escolheu
sempre dar graças a Deus por vós, ir- alcançaram; e os outros foram endure- porque fôsseis mais numerosos do que
mãos, amados do Senhor, porque Deus cidos”. todos os outros povos, pois éreis menos
vos escolheu desde o princípio para a II TM 2.10 “Por isso, tudo suporto em número do que qualquer povo”.
santificação do espírito e a fé na verda- por amor dos eleitos, para que também MT 20.15 “Não me é lícito fazer o
de, e para isso vos chamou pelo nosso eles alcancem a salvação que há em que quero do que é meu? Ou é mau o
evangelho, para alcançardes a glória de Cristo Jesus com glória eterna”. teu olho porque eu sou bom?
nosso Senhor Jesus Cristo”. AT 13.48 “Os gentios, ouvindo isto, RM 9.10-24 “E não somente isso, mas
TG 2.5 “Ouvi, meus amados irmãos. alegravam-se e glorificavam a palavra também a Rebeca, que havia concebido
Não escolheu Deus os que são pobres do Senhor; e creram todos quantos ha- de um, de Isaque, nosso pai (pois não
quanto ao mundo para fazê-los ricos na viam sido destinados para a vida eterna.” tendo os gêmeos ainda nascido, nem
fé e herdeiros do reino que prometeu ITS 2.13-14 “Por isso nós também, tendo praticado bem ou mal, para que
aos que o amam?”. sem cessar, damos graças a Deus, por- o propósito de Deus segundo a eleição
7. É através da fé e das boas obras que quanto vós, havendo recebido a pala- permanecesse firme, não por causa das
alguém confirma sua chamada e eleição: vra de Deus que de nós ouvistes, a re- obras, mas por aquele que chama), foi-
II PE 1.5-11 “E por isso mesmo vós, cebestes, não como palavra de homens, -lhe dito: O maior servirá o menor. Como
empregando toda a diligência, acrescen- mas (segundo ela é na verdade) como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a
tai à vossa fé a virtude, e à virtude a ci- palavra de Deus, a qual também ope- Esaú. Que diremos, pois? Há injustiça da
ência, e à ciência o domínio próprio, e ao ra em vós que credes. Pois vós, irmãos, parte de Deus? De modo nenhum. Por-
domínio próprio a perseverança, e à per- vos haveis feito imitadores das igrejas que diz a Moisés: Terei misericórdia de
severança a piedade, e à piedade a frater- de Deus em Cristo Jesus que estão na quem me aprouver ter misericórdia, e te-
nidade, e à fraternidade o amor. Porque, Judeia; porque também padecestes de rei compaixão de quem me aprouver ter
se em vós houver e abundarem estas coi- vossos próprios concidadãos o mesmo compaixão. Assim, pois, isto não depen-
sas, elas não vos deixarão ociosos nem que elas padeceram dos judeus”. de do que quer, nem do que corre, mas

30 Revista Os Puritanos
A Eleição Condicional Contrastada com a Eleição Incondicional

de Deus que usa de misericórdia. Pois JÓ42.1-2Então respondeu Jó ao Se-


diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo nhor: Bem sei eu que tudo podes, e que
te levantei: para em ti mostrar o meu A eleição foi baseada nenhum dos teus propósitos pode ser
poder, e para que seja anunciado o meu impedido.
nome em toda a terra. Portanto, tem mi- na misericórdia SA115.3 Mas o nosso Deus está nos
sericórdia de quem quer, e a quem quer céus; ele faz tudo o que lhe apraz.
endurece. Dir-me-ás então. Por que se soberana e especial SAL135.6 Tudo o que o Senhor dese-
queixa ele ainda? Pois, quem resiste à ja ele o faz, no céu e na terra, nos mares
sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, de Deus. Não foi e em todos os abismos.
que a Deus replicas? Porventura a coisa IS14.24 O Senhor dos exércitos jurou,
formada dirá ao que a formou: Por que a vontade do dizendo: Como pensei, assim sucederá,
me fizeste assim? Ou não tem o oleiro e como determinei, assim se efetuará.
poder sobre o barro, para da mesma homem, mas a IS14.27 Pois o Senhor dos exércitos
massa fazer um vaso para uso honroso o determinou, e quem o invalidará? A
e outro para uso desonroso? E que direis, vontade de Deus sua mão estendida está, e quem a fará
se Deus, querendo mostrar a sua ira, e voltar atrás?
dar a conhecer o seu poder, suportou que determinou que IS46.9 Lembrai-vos das coisas pas-
com muita paciência os vasos da ira, sadas desde a antiguidade; que eu sou
preparados para a perdição; para que pecadores iriam ser Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não
também desse a conhecer as riquezas há outro semelhante a mim;
da sua glória nos vasos de misericórdia, alvos da misericórdia ISA46.10 que anuncio o fim desde
que de antemão preparou para a glória, o princípio, e desde a antiguidade as
os quais somos nós, a quem também e ser salvos coisas que ainda não sucederam; que
chamou, não só dentre os judeus, mas digo: O meu conselho subsistirá, e farei
também dentre os gentios?”. toda a minha vontade;
RM 11.4 “Mas que lhe diz a respos- E) A doutrina da eleição é apenas uma IS46.11 chamando do oriente uma
ta divina? Reservei para mim sete mil parte da doutrina bíblica mais ampla da ave de rapina, e dum país remoto o ho-
varões que não dobraram os joelhos soberania de Deus. As Escrituras não mem do meu conselho; sim, eu o disse,
diante de Baal.” apenas ensinam que Deus predestinou e eu o cumprirei; formei esse propósito,
RM 11.5-6 “Assim, pois, também no certos indivíduos para a vida eterna, e também o executarei.
tempo presente ficou um remanescen- mas que todos os eventos, grandes ou IS55.11 assim será a palavra que
te segundo a eleição da graça. Mas se pequenos, acontecem como o resultado sair da minha boca: ela não voltará para
é pela graça, já não é pelas obras; de do eterno decreto de Deus. O Senhor mim vazia, antes fará o que me apraz,
outra maneira, a graça já não é graça”. Deus reina sobre os céus e a terra com e prosperará naquilo para que a enviei.
RM 11.33-36 “Ó profundidade das absoluto controle. Nada acontece fora do JR32.17 Ah! Senhor Deus! És tu que
riquezas, tanto da sabedoria, como da Seu eterno propósito: fizeste os céus e a terra com o teu gran-
ciência de Deus! Quão insondáveis são I CR 29.10-12 “Pelo que Davi ben- de poder, e com o teu braço estendido!
os seus juízos, e quão inescrutáveis os disse ao Senhor na presença de toda a Nada há que te seja demasiado difícil!
seus caminhos! Pois, quem jamais co- congregação, dizendo: Bendito és tu, ó DN4.35 E todos os moradores da ter-
nheceu a mente do Senhor? ou quem se Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eter- ra são reputados em nada; e segundo a
fez seu conselheiro? Ou quem lhe deu nidade em eternidade. Tua é, ó Senhor, a sua vontade ele opera no exército do
primeiro a ele, para que lhe seja recom- grandeza, e o poder, e a glória, e a vitória, céu e entre os moradores da terra; não
pensado? Porque dele, e por ele, e para e a majestade, porque teu é tudo quanto há quem lhe possa deter a mão, nem lhe
ele, são todas as coisas; glória, pois, a há no céu e na terra; teu é, ó Senhor, o dizer: Que fazes?
ele eternamente. Amém”. reino, e tu te exaltaste como chefe sobre MT19.26 Jesus, fixando neles o
EF 1.5 “...e nos predestinou para ser- todos. Tanto riquezas como honra vêm olhar, respondeu: Aos homens é isso
mos filhos de adoção por Jesus Cristo, de ti, tu dominas sobre tudo, e na tua impossível, mas a Deus tudo é possível.
para si mesmo, segundo o beneplácito mão há força e poder; na tua mão está o
de sua vontade”. engrandecer e o dar força a tudo”.

Revista Os Puritanos 31
Objeção à Eleição
Soberana de Deus
Todos os predestinados, e apenas os predestinados, são chamados, e eles
são chamados somente porque Deus primeiramente os pré-conheceu (amou
de antemão) e os predestinou.

John G. Reisinger pessoas que decidirão, por seus livres-arbítrios, acei-


tar a Cristo. Esta visão é muito simpática às ingênuas

E
sta edição de Sound of Grace lida com alguns dos ideias humanas sobre sua total autonomia e à força
argumentos usados por aqueles que discordam todo-poderosa de seu “livre-arbítrio”. Entretanto, é uma
com a visão histórica de que a Bíblia fala sobre distorção grosseira do que a Bíblia ensina claramente
“eleição”. Uma das objeções mais comuns é algo pare- sobre o assunto da eleição.
cido com isso: Pela visão acima, a “presciência” de Deus é uma
“Eu concordo de coração que Deus ‘escolhe algumas grande coberta usada pelos homens para “limpar” e
pessoas para serem salvas’. Entretanto, Sua escolha é esconder a verdade da soberana graça eletiva de Deus.
baseada inteiramente em Sua presciência. Como Deus Entretanto, isto deixa um grande e terrível buraco na co-
vê o futuro e ‘prevê’ todas as coisas que acontecerão, Ele berta. Como esta edição de Sound of Grace nos mostra
claramente pré-conhece aqueles que desejarão aceitar em diferentes artigos, a “presciência de Deus” é um ato
Jesus quando a oportunidade for apresentada.. Deus, divino e não apenas um mero atributo. É algo que Deus
com base nessa ‘presciência’ (conhecimento prévio), faz, não algo que ele “sabe de antemão”. Presciência de
escolhe aqueles que Ele ‘prevê’ que aceitarão a Cristo Deus é realmente Seu prévio amor ou prévia escolha de
por seu próprio livre-arbítrio”. Seu povo. No entanto, é melhor definido com “a prévia
Não é necessário pensar muito para ver que esta ideia escolha de Deus, baseada em seu amor prévio”.
nega completamente que Deus, no sentido que for, so- Não iremos repetir aqui o que foi claramente ex-
beranamente escolhe homens para salvação. De forma posto na edição impressa. Entretanto, eu gostaria de
simples, uma visão como esta, na verdade, diz o seguinte: discutir diversas passagens-chaves que falam da “pres-
(1) O homem precisa estar desejando, por si próprio, ciência” de Deus. Um dos textos que são usados em
aceitar a Cristo. tentativas inúteis de provar que a escolha de Deus é
(2) Deus observa o futuro e vê quais pessoas deseja- fundamentada em seu pré-conhecimento da inclinação
rão que “Cristo as salve” do homem é Romanos 8:29. No entanto, esse texto não
(3) Deus decide escolher todos estes que primeiro está falando sobre o que Deus sabe (informação pré-
O escolheram. via) mas quem (indivíduos) Ele conheceu de antemão. O
(4) A graça eletiva de Deus é totalmente “condicio- texto em nenhum lugar sugere que Deus “conheceu de
nada” pelo desejo humano de ser salvo. antemão aqueles que desejariam crer”. Uma ideia como
(5) Nossa eleição para a salvação não é baseada na esta não pode ser encontrada em qualquer lugar neste
soberania de Deus mas na soberania e poder do “livre- versículo. O texto diz “aqueles que [Deus] de antemão
-arbítrio” do homem. conheceu” e nunca menciona ou implica alguma coisa
sobre um suposto desejo do homem de ser escolhido.
Em nenhum sentido podemos dizer que Deus “es- Observe a passagem:
colheu” alguém se seguirmos este esquema. No final, “Pois AQUELES que de antemão conheceu, também
Deus meramente ratifica a escolha do homem. Deus não os predestinou para serem conformes à imagem de seu
pode ou é capaz de escolher “quem Ele desejar”. Deus Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos
só pode esperar que Ele “preveja” no futuro algumas irmãos.” (Romanos 8:29)

32 Revista Os Puritanos
Objeção à Eleição Soberana de Deus

O contexto inteiro deste trecho de para cada indivíduo deste grupo de pes- tas “chamados” no verso 28. Somos cha-
Romanos 8 está defendendo a posição soas. Todos os crentes foram: mados “segundo Seu propósito” e este
teológica que dá ao crente a segurança (1) “conhecidos” por Deus (vs. 29) propósito é nos conformar à imagem de
de que Deus ao mesmo tempo deseja (2) “predestinados” por Deus (vs. 29) Cristo. O primeiro passo que Deus toma
e é capaz de cumprir a grande pro- (3) “chamados” por Deus (vs. 30) para alcançar este propósito é chamar-
messa dada em Romanos 8:28. Como (4) “justificados” por Deus (vs. 30) -nos da morte para a vida, ao regenerar
nós podemos ter certeza que todas as (5) “glorificados” por Deus (vs. 30) nossos corações mortos e nos conceder
coisas, sem a mínima exceção, irão po- fé para crer no evangelho. “Chamado”
sitivamente “cooperar para o bem” do De acordo com a Bíblia, todos aque- nestes versículos não pode ser nada
povo de Deus? O verso 29 até o final do les que Deus de antemão conheceu (vs. menos que um chamado ou regenera-
capítulo são a resposta a esta questão. 29), também foram predestinados por ção eficazes.
Rm 8:29 continua com a palavra “por- Ele (vs. 29) para serem conformes à QUATRO: A promessa do versículo
que”, seguindo a verdade descrita no imagem de Cristo. Todos aqueles que 28 é para todos os que “amam a Deus”,
versículo 28. O argumento prossegue Ele predestinou, a estes Deus também ou aqueles “chamados segundo Seu
provando porque tudo prometido no chamou (vs. 30). Note que todos aqueles, propósito”. Paulo está descrevendo
versículo 28 deve trabalhar para o bem sem exceção, que foram predestinados as mesmas pessoas de duas maneiras
de todos os filhos de Deus. Paulo men- também são, sem exceção, chamados diferentes. Quem ousaria dizer que a
ciona cinco pontos que caminham jun- assim como todos, sem exceção, que razão pela qual somos predestinados
tos como elos em uma corrente. Cada foram conhecidos de antemão também para sermos conformes a imagem de
um dos cinco elos são integralmente foram predestinados. Todos os elos for- Jesus é porque “amamos a Deus”? Não,
conectados ao elo que o precede e ao mam uma corrente do singelo propósito meu amigo, nós amamos a Deus somen-
que se segue. Observe esses elos nos divino de graça para Seu rebanho. De- te porque nós fomos amados primeiro
seguintes versículos: veria ser óbvio que os versículos clara- por Ele na graça eletiva. Nós fomos
“Porque OS QUE dantes mente estabelecem os seguintes fatos: então predestinados por causa deste
(1) conheceu, também OS UM: É impossível fazer os versos di- amor. Olhe cuidadosamente ao argu-
(2) predestinou para serem confor- zerem que Deus primeiro chama todos mento nos textos. Aqueles que foram
mes à imagem de seu Filho, a fim de os homens e então predestina aquelas predestinados são aqueles que foram
que ele seja o primogênito entre mui- que Ele “prevê” que estão desejando ter previamente conhecidos ou amados
tos irmãos; e AOS QUE predestinou, a fé. O texto diz que nosso chamado nas- por Deus. Aqueles que “amam a Deus”
ESTES também ce da predestinação. Nós fomos predes- são aqueles que primeiro foram ama-
(3) chamou; e AOS QUE chamou, a tinados antes de ser chamados, e nós fo- dos e escolhidos por Ele em sua sobera-
ESTES também mos chamados somente porque fomos na graça. “Livre-arbítrio” não pode ser
(4) justificou; e AOS QUE justificou, a primeiramente predestinados. O texto enfiado no contexto com um martelo.
ESTES também é claro. Nós somos chamados primei- Todos os elos nesta corrente foram
(5) glorificou.” (Rm 8:29,30)    ramente porque fomos conhecidos de ligados durante a eternidade na força
antemão e predestinados. O arminiano da graça soberana. Nada nesta corrente
É fácil perceber que estes cinco pon- inverte a ordem clara do texto. Ele faz o depende de elos fracos feitos pelo de-
tos mencionados nos versículos são efeito ser a causa, distorce e confunde sejo errático e pecaminoso do homem.
verdades para todos os crentes, sem ex- o que Paulo está dizendo. Vamos continuar com o argumento de
ceção. Porém, é essencial para nós ver DOIS: Todos os predestinados, e ape- Paulo neste texto de Romanos 8. Nós
que esses cinco elos são somente para nas os predestinados, são chamados, e estamos no terceiro elo, chamados, da
crentes, e somente verdades porque eles são chamados somente porque corrente. Todos aqueles, sem exceção,
eles são os eleitos. A causa de nenhu- Deus primeiramente os pré-conheceu que são “chamados” também são, sem
ma dessas coisas pode ser atribuída ao (amou de antemão) e os predestinou. exceção, “justificados”. A Bíblia é clara.
livre-arbítrio do homem. O “AOS QUE”, Eu repito – a Bíblia é clara como cristal
em todos os casos, é sinônimo de “ES- se nós apenas deixamos a Escritura sig- Aqueles (as pessoas previamente ama-
TES” no próximo elo da corrente. Há um nificar o que ela diz. das e predestinadas por Deus) que Ele
povo (os eleitos) em questão e todos os TRÊS: Os “chamados” no verso 30 chamou, a estes (somente a estes e to-
cinco elos da corrente são verdadeiros são as mesmas pessoas que foram di- dos estes) também justificou. Agora, se

Revista Os Puritanos 33
John G. Reisinger

as palavras significarem o que elas di- é dado como o novo Mestre para cada certeza que o Cristo viria e morreria na
zem, então todos que foram “chamados chamado. A graça realmente reina em cruz; da mesma forma Deus “conheceu
por Deus” devem também ser “justifica- todo crente porque o pecado foi morto de antemão” que os eleitos seriam sal-
dos por Deus”. Você não pode separar e todos os requisitos da lei são cumpri- vos. É interessante notar que algumas
estes dois elos. É impossível encontrar dos. versões utilizam a palavra “conhecido”
o conceito arminiano de livre-arbítrio enquanto outras traduzem como “escol-
dentro do texto. Nós não podemos crer Uma das melhores formas de entender hido”. O contexto está falando sobre a
que Deus “chama” (no sentido dado à todos os cinco elos de Romanos 8:29- morte de Cristo:
palavra por Paulo aqui) todos os ho- 31 e o argumento que Paulo sustenta é “o qual [Cristo], na verdade, foi conheci-
mens, e então justifica apenas aqueles observá-lo ao contrário. do ainda antes da fundação do mundo...”
que desejam responder a este chamado. (1) “Quem é o homem que será defini- (1 Pedro 1:20 NVI)
Uma ideia como esta força o texto a tivamente glorificado no Paraíso?” R.: “Ele [Cristo] foi escolhido por Deus antes
dizer exatamente o oposto do que ele Todos aqueles que têm sido justificados da criação do mundo...” (1 Pedro 1:20
está dizendo. Os seguintes pontos estão pela graça de Deus. NTLH)
explícitos no texto: (2) “Quem são aqueles que certamente Seria ridículo dizer que Deus decidiu
Nosso chamado nasce, ou é causado por serão justificados pela graça de Deus?”. enviar Cristo ao mundo porque Ele
nossa predestinação, e não por outro R.: Todos aqueles que foram soberana- “previu” que Cristo viria ao mundo e
meio. mente e de forma eficaz chamados pelo morreria. Deus não “escolheu” enviar
Todo aquele que é chamado é segura- Espírito Santo através do Evangelho. Cristo porque Ele “previu” que peca-
mente justificado, e todo aquele que é (3) “Quem são aqueles que temos a dores O condenariam à morte. Deus
predestinado é seguramente chamado. certeza de serem chamados de forma soberanamente propôs enviar Cristo e
Aqui, Paulo está falando sobre o Chama- eficaz?” R.: Todos aqueles predestina- o próprio Deus foi o autor da morte de
do Eficaz de Deus e não o chamado uni- dos por Deus. Cristo. No mesmo sentido, Deus sober-
versal. (4) “Quem são aqueles que foram pre- anamente propôs a salvação individual
CINCO: O quinto e último elo da corrente destinados por Deus?” Todos aqueles dos eleitos e somente Ele é o único au-
é “glorificação”. Novamente, todos, sem escolhidos (previamente amados ou tor e consumador de nossa salvação
exceção, que foram justificados tam- pré-conhecidos) pela soberana e eletiva individual. Deus preordenou minha
bém são todos, sem exceção, que nos graça de Deus. salvação exatamente da mesma forma
Paraíso serão glorificados definitiva- Vamos comparar alguns outros versos como Ele preordenou a morte de Cristo.
mente. É interessante que o Apóstolo que falam da “presciência” de Deus e No Pentecostes, Pedro estava explican-
usa os verbos no passado. Na mente ver o que realmente significa. 1 Pedro do o significado e a causa dos eventos
e propósito dos decretos imutáveis 1:1,2 é uma passagem paralela à Ro- daquele dia. Note que Pedro usa a mes-
de Deus, todos os cincos atos estão manos 8:29. Fala dos “eleitos” serem ma palavra quando se refere à morte
selados e seguros. Nós sempre fomos escolhidos por Deus “de acordo com a de Jesus:
“glorificados” na mente e no propósito presciência”. “Este homem lhes foi entregue por
de Deus. Este último ponto ajuda-nos propósito determinado e pré-conheci-
a entender porque este é o único lugar “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos per- mento de Deus...” (Atos 2:23 NVI)
no Novo Testamento em que Paulo pula egrinos da Dispersão no Ponto, Galácia, “a este, que foi entregue pelo determi-
da justificação para a glorificação, sem Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos segun- nado conselho e presciência de Deus...”
mencionar santificação. Paulo não está do a presciência de Deus Pai, na santi- (Atos 2:23 RA)
rejeitando a verdade da necessidade ficação do Espírito, para a obediência Era “propósito determinado e pré-
da Perseverança dos Santos, mas no e aspersão do sangue de Jesus Cristo: conhecimento de Deus” ter Cristo cru-
contexto o Apóstolo está lidando com Graça e paz vos sejam multiplicadas.“ (1 cificado no mesmo sentido que nós so-
as obras de Deus baseadas em Seus so- Pedro 1:1,2) mos “pré-conhecidos” para ser salvos.
beranos propósitos da graça eletiva. O Nós somos destinados à salvação pelo
poder de Deus irá cumprir tudo que Ele Em vários versos seguintes Pedro usa a “determinado conselho e presciência de
propõe. Santificação é garantida na cor- mesma palavra e nos conta que a morte Deus” no exato sentido de que Cristo
rente porque a lei está escrita em todo de Cristo foi “pré-conhecida” por Deus. foi destinado à cruz. Isto é exatamente
coração justificado e o Espírito Santo Em qualquer sentido Deus sabia com o que a Bíblia está dizendo. Nenhuma

34 Revista Os Puritanos
Objeção à Eleição Soberana de Deus

manipulação pode mudar o significado crerá é inteiramente fundamentado


da Palavra de Deus. em Seus planos e propósitos e não
num conhecimento prévio da vontade
Nós poderíamos demonstrar os mesmos Todo aquele do homem.
fatos com a nação de Israel. Da mesma Uma comparação entre dois versículos
forma que Deus “escolheu” a nação de que é chamado da Escritura irá comprovar claramente
Israel para privilégios especiais, Ele o que já foi dito. Ambos os versos usam
nos escolheu para a salvação pessoal. é seguramente a palavra “escolheu”. No primeiro ver-
Quem ousaria sugerir que Deus “escol- sículo, Davi “escolhe” algumas pedras
heu” Israel porque Ele “previu” que eles justificado, e e no segundo versículo, Deus “escolhe”
“desejariam ser escolhidos”? Uma ideia algumas pessoas. Aqui estão os dois
assim é totalmente contrária à toda a todo aquele que textos:
Escritura. Se aceitarmos as palavras do “e em seguida [Davi] pegou seu cajado,
Espírito Santo sem tentar distorcê-las é predestinado ESCOLHEU no riacho cinco pedras lisas,
para significar algo diferente do que colocou-as na bolsa, isto é, no seu alforje
elas realmente dizem, então nós de- é seguramente de pastor...“ (1 Samuel 17:40)
vemos rejeitar a noção arminiana sobre
pré-conhecimento quando falamos de chamado. Aqui, “Porque Deus nos ESCOLHEU nele antes
nossa eleição para a salvação. da criação do mundo, para sermos san-

Paulo está falando tos e irrepreensíveis em sua presença.”


Não estamos sugerindo que presciên- (Efésios 1:4)
cia não inclui conhecimento de an- sobre o Chamado Alguém seria capaz de acreditar que
temão e até pode, em alguns casos, sig- as cinco pedras foram escolhidas por
nificar isso. Estamos dizendo que nos
Eficaz de Deus e não Davi porque elas tinham de alguma
versos discutidos, a palavra só pode forma comunicado a Davi que elas
significar preordenação. Esses versos
o chamado universal. “desejavam ser escolhidas”? É claro
das Escrituras devem ser tomados que não! Toda pessoa, sem exceção,
como um ato de Deus e não apenas a leria 1 Sm 17:40 e entenderia que
habilidade de ver o futuro. Talvez uma Davi, por razões conhecidas somente
ilustração possa ajudar. Um arquiteto planos. O mesmo acontece com o res- por ele, escolheu pedras específicas
tem perfeito “pré-conhecimento” de to do prédio. Como a “presciência” do que queria usar. Por que as pessoas
todo prédio que ele desenha. Ele “pré- arquiteto inclui tudo no prédio, ele é não permitem que a palavra “escolheu”
conhece” exatamente quão grande será, capaz de incorporar na planta todas as tenha o mesmo significado quando se
quantas janelas e portas terá e todos coisas que ele “prevê” que vários en- refere a Deus escolhendo pecadores?
os outros detalhes. Ele vê o tipo de genheiros “escolherão” fazer. Nossos corações eram tão duros e
trancas que será usado, e até mesmo Qualquer ser pensante riria ao ouvir mortos quanto as pedras no riacho.
sabe a cor do piso dos andares. Agora, isso e diria: “John, essa ideia é com- Deus soberanamente nos escolheu in-
como o arquiteto “pré-conhece” tudo pletamente sem sentido”. É claro que dividualmente de acordo com Seu bom
isso com certeza antes ainda do trab- é. Entretanto, não é mais sem sentido propósito da mesma forma que Davi
alho começar? De acordo com nossos que a tentativa arminiana de refutar a escolheu estas cinco pedras. Deus não
amigos arminianos, o arquiteto tem a eleição bíblica ao dizer que Deus nos viu um “desejo” em nós como Davi viu
habilidade de ver o futuro. Ele “prevê” escolhe porque ele previu que nós um “desejo” naquelas pedras. É impres-
que engenheiro receberá o trabalho de creríamos. Todos nós sabemos que sionante o quanto a Bíblia é clara em
construir o prédio. O arquiteto também o pré-conhecimento do arquiteto de ensinar sobre a Eleição se nós simples-
prevê que tipo de janela este engenhei- como será um prédio é baseado em mente deixarmos o texto significar o
ro em particular usará quando forem seus planos e propósitos. Se nós for- que ele realmente diz.
apresentadas várias opções. Com base mos verdadeiramente honestos com as
Fonte: Objeção à Eleição Soberana de Deus - http://
neste “pré-conhecimento”, o arquiteto Escrituras, nós saberemos que o pré- www.monergismo.com/textos/eleicao/objecoese-
“escolhe” este tipo de janela em seus conhecimento de Deus sobre quem leicao.htm

Revista Os Puritanos 35
Os Benefícios de Não Ignorar
a Eleição em Sua Bíblia
A Eleição enriquecerá nossa adoração. Quem pode admirar um Deus que é
frustrado pela vontade rebelde dos seres humanos?

James Montgomery Boice 3. A Eleição enriquecerá nossa adoração. Quem


pode admirar um Deus que é frustrado pela vontade

M
uitas pessoas acham que a doutrina da elei- rebelde dos seres humanos? Martinho Lutero escreveu,
ção é inútil e talvez até mesmo perniciosa. "não é irreligioso, ocioso, ou supérfluo, e sim saudável
Não é nada disso. Faz parte do ensino inspi- e necessário no mais alto grau para um Cristão saber
rado da Bíblia e é, portanto, "útil," como Paulo insistiu se a sua vontade tem ou não qualquer coisa a ver com
que toda a Bíblia é (2 Tm 3:16-17). Eis aqui uma rápi- assuntos que pertencem à salvação... Porque se eu for
da visão sobre como a eleição impacta coisas como o ignorante quanto à natureza, extensão e limites do que
evangelismo e a adoração: eu posso e tenho que fazer com relação a Deus, eu tam-
1. A Eleição nos torna humildes. Aqueles que não bém serei igualmente ignorante e inseguro quanto à
entendem a eleição frequentemente supõem o oposto, natureza, extensão e limites do que Deus pode e deseja
e é verdade que aqueles que acreditam na eleição às fazer em mim – ainda que Deus, na realidade, faça tudo
vezes parecem ser orgulhosos ou presunçosos. Mas em todos. Agora, se eu sou ignorante quanto às obras e
isso é uma aberração. Deus nos diz que ele escolheu o poder de Deus, eu sou ignorante do próprio Deus; e se
alguns completamente pela graça e completamente à eu não conheço a Deus, eu não posso adorá-lO, louvá-lO,
parte do mérito ou até mesmo de alguma habilidade dar-Lhe graças, ou servi-lO, porque eu não sei o quanto
de receber a graça. Ele fez assim precisamente para eu deveria atribuir a mim e o quanto a Ele. Portanto, nós
que orgulho fosse eliminado: "Porque pela graça sois precisamos ter em mente uma distinção clara entre o
salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de poder de Deus e o nosso, entre a obra de Deus e a nossa,
Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." (Ef se quisermos viver uma vida santa."
2:8-9). 4. A Eleição nos encoraja em nosso evangelismo. As
2. A Eleição encoraja nosso amor a Deus. Se nós pessoas costumam supor que se Deus vai salvar certos
temos uma parte em nossa salvação, mesmo que peque- indivíduos, então Ele os salvará, e não há nenhum sen-
na, então nosso amor a Deus é diminuído exatamente tido em nós termos qualquer coisa a ver com isso. Mas
daquela quantia. Se, por outro lado, tudo vem de Deus, não é assim que funciona. A Eleição não exclui o uso
então nosso amor a Ele deve ser ilimitado. Tristemente, dos meios pelos quais Deus trabalha, e a proclamação
a igreja de hoje frequentemente considera o amor de do Evangelho é um desses meios (1 Co 1:21).
Deus como algo garantido. "É claro que Deus me ama”, Além disso, é só a verdade da eleição que nos dá algu-
nós dizemos. "Eu me amo; por que Deus também não ma esperança de sucesso quando proclamamos o Evan-
me amaria?". É como a pequena menina que adorava gelho a homens e mulheres não-salvos. Se o coração de
o tema do dinossauro Barney na televisão ("eu te amo, um pecador é tão oposto a Deus quanto a Bíblia declara
você me ama; nós somos uma família feliz"). Mas ela ser, e se Deus não elege as pessoas para a salvação,
acabou cantando assim: "Eu me amo, você me ama; nós então que esperança de sucesso poderíamos ter com
somos uma família feliz." É assim que nós tendemos a o nosso testemunho? Se Deus não chama eficazmente
pensar a respeito do amor de Deus. Nós achamos que pecadores a Cristo, é certo que nós também não temos
merecemos o Seu amor. Entender que somos eleitos só condições de fazê-lo. Ainda mais, se o agente efetivo
pela graça arruína o nosso modo egocêntrico e presun- da salvação não é a escolha e o chamado de Deus - se a
çoso de pensar. escolha depende do indivíduo ou de nós, por causa de

36 Revista Os Puritanos
Os Benefícios de Não Ignorar a Eleição em Sua Bíblia

nossa capacidade de persuadir outros qualquer cristão que pensa e sente, vi- sua graça e, melhor de tudo, que todos
para aceitar a Cristo - como nós pode- ver com algo assim? aqueles que Deus escolheu para a sal-
ríamos sequer ousar testemunhar? E se Mas por outro lado, se Deus elegeu vação serão salvos. Nós podemos ser
nós cometermos um erro? E se dermos alguns para a salvação e se ele está destemidos, sabendo que todos os que
uma resposta errada? E se nós formos chamando esses indivíduos eleitos a são chamados por Deus certamente vi-
insensíveis às reais perguntas da pes- Cristo, então nós podemos ir em frente rão a Ele.
soa? Se isso acontecer, as pessoas não corajosamente, sabendo que o nosso Fonte: Extraído do site www.bomcaminho.com -
Extraído do blog OldTruth.comFonte original:
crerão. Elas podem no fim ir para o testemunho não precisa ser perfeito, The Doctrines of Grace: Rediscovering the Essen-
inferno, e o destino eterno delas será que Deus usa até mesmo testemunhos tials of Evangelicalism (As Doutrinas da Graça:
Redescobrindo os Princípios Básicos do Evangeli-
em parte culpa nossa, e como poderá fracos e gaguejantes para derramar a calismo).

Deus é Insincero?
Alguém objeta: A doutrina da eleição faz Deus parecer insincero. Ele convida a todos os
homens para que participem das bênçãos do evangelho, e, no entanto, se esta doutrina
é verdadeira, as bênçãos do evangelho não são designadas para todos.

Resposta: Se é a Palavra de Deus que ensina a doutrina da eleição, e se ela contém o


mandamento e o convite a todos os homens que busquem salvação através de Cristo, é
grande arrogância de nossa parte acusar a Deus de insinceridade somente porque não
podemos conciliar essas coisas uma com a outra. Devemos lembrar que somos vermes
do pó da terra e que é uma arrogância criminosa de nossa parte julgar e condenar o
Deus infinito. Além disso, na verdade não há nenhum fundamento para a acusação de
insinceridade. Deus requer de todos os homens que creiam em Cristo, e este é o dever
de todos, mesmo que não desejem fazê-lo. O fato de os homens não estarem dispostos
a crer, e também o fato de Deus saber que não mudarão de atitude a menos que lhes
transforme os corações, em nada diminui a sinceridade do requerimento de Deus. Deus
prova a Sua sinceridade por não isentar os homens da obrigação de crer, e por conde-
nar a incredulidade. Ele promete salvação a todos os que crerem em Cristo; e prova Sua
sinceridade pelo cumprimento de Sua promessa, sem qualquer discriminação.

A concessão da graça especial, para mudar o coração do homem, a fim de que possa
crer em Cristo, não é de maneira nenhuma inconsistente com qualquer mandamento
ou promessa que Deus já tem feito. Enquanto os homens consideram a chamada do
evangelho como um convite que eles podem aceitar ou rejeitar a seu bel prazer, concor-
da com o seu estado presente inquirir se Deus é sincero ou não ao fazer aquele convite.
Porém, quando a chamada do evangelho é vista como um solene requerimento de
dever, do qual os homens terão de prestar contas, então nem se cogita em duvidar da
sinceridade de Deus.

Por John L. Dagg

Revista Os Puritanos 37
Eleição e Humildade
Antes de mais nada, penso que a eleição para um santo é uma das doutrinas mais desnudadoras
de todo este mundo, porquanto isenta-o de toda a confiança na carne, de toda a dependência a
qualquer coisa, excetuando Jesus Cristo. Quão frequentemente nos revestimos de nossa própria
retidão, adornando-nos com as pérolas e gemas falsas dos nossos próprios feitos e das nossas
obras. E, então, começamos a dizer: “Agora serei salvo, porque tenho esta ou aquela evidência
da minha salvação!” Entretanto, bem ao invés disso, aquilo que salva a um pecador é a fé pura,
despida de qualquer outro fator. Esta fé singular une o indivíduo crente ao Cordeiro, indepen-
dentemente de obras, embora a fé venha a produzir obras.

Quão frequentemente apoiamo-nos em alguma boa obra, ao invés de nos sustentarmos no


Amado de nossas almas, ou confiamos em algum poder, ao invés de confiarmos somente naque-
le poder que vem lá do alto. Ora, se quisermos nos despir de todo e qualquer poder que não seja
o celestial, então, forçosamente, teremos de considerar a eleição como um fator imprescindível.
Faz uma pausa, ó minha alma, e considera esta verdade: Deus te amou antes mesmo de vires à
existência. Ele te amou quando ainda estavas morta nos teus delitos e pecados; e Ele enviou Seu
Filho para morrer em teu lugar. Ele te resgatou com o Seu precioso sangue, antes que pudesses
sussurrar o Seu nome.

Em vista desses fatos, poderás sentir-te orgulhosa e auto-suficiente?

Novamente, afirmo que desconheço qualquer outra coisa que nos possa humilhar tão profun-
damente quanto a doutrina bíblica da eleição. Algumas vezes tenho-me deixado cair no chão e
tenho ficado prostrado, diante dessa verdade, quando procuro compreendê-la até às suas raízes.
Nessas ocasiões, tenho distendido as minhas asas, e, à semelhança de uma águia, tenho alçado
vôo na direção do sol. E assim o meu olhar se tem fixado no alvo, e as minhas asas não me têm
decepcionado, pelo menos durante algum tempo. Entretanto, quando já fui me avizinhando da-
quele alvo, e quando aquele pensamento tomou conta de minha mente — “Deus vos escolheu
desde o princípio para a salvação” — então senti-me ofuscado diante do seu resplendor, fiquei
pasmo diante da grandiosidade desse pensamento; e, desde aquelas alturas imensas, desci a
minha alma estonteada, prostrada e quebrantada, dizendo: “Senhor, eu nada represento. Eu sou
menos do que nada. Por que eu? Por que eu?”.

Amigos, se vocês desejam adquirir uma mais profunda humildade, então estudem a doutrina
bíblica da eleição, pois ela humilhará a vocês, sob as influências do Espírito Santo. Aquele que
se sente orgulhoso de sua eleição, é porque não é um dos eleitos do Senhor. Mas aquele que
se sente apequenado, debaixo do senso de haver sido escolhido, pode acreditar que é um dos
eleitos. Tal indivíduo tem toda a razão para acreditar que é um dos escolhidos de Deus, porquan-
to esse é um dos mais benditos efeitos da eleição, ou seja, ela ajuda-nos a nos humilharmos na
presença de Deus.

Extraído do livro “Eleição” de Charles H. Spurgeon – Editora FIEL, pp. 29-30

38 Revista Os Puritanos
Apreciando o Caráter
do Puritanismo
“Assim como as sequoias são atraentes aos olhos, porque sobrepujam o
topo das outras árvores, assim também a santidade e a firmeza dos grandes
puritanos resplandecem como um farol,”

Mark Johnston a esses homens foi “os precisos” ou “os precisionistas”.


Quando um nobre perguntou a Richard Rogers (um mi-

E
xaminando grande parte dos livros e afirmações nistro em Wetherfield, Essex) o que o tornava tão preci-
a respeito dos puritanos — até pelos evangélicos so, ele respondeu: “Senhor, eu sirvo a um Deus preciso”.
— percebemos que seus autores tendem a ser cri- Veja o que está errado em muitas igrejas hoje: os
ticados pela imprensa. De fato, o título “puritano” foi crentes aceitam um ponto de vista sobre Deus que tem
criado originalmente como um pejorativo, e muitos sido distorcido em nome do cristianismo popular. Nos
ainda o vêem assim em nossos dias. Em um sentido, anos 1950, J. B. Phillips expressou isso em um livrete
não é difícil identificar erros, falhas e incoerências na- intitulado Your God is Too Small (Seu Deus é Pequeno
queles que levavam este nome, nos séculos XVI e XVII, Demais). A restauração de saúde e vigor às igrejas está
bem como naqueles que são os descendentes espiri- vinculada à necessidade de resgatarmos uma opinião
tuais deles. No entanto, focalizar-se nisso equivaleria elevada a respeito de Deus.
a ignorar as realizações incríveis destes homens em
muitos aspectos da vida. 2. A ESTIMA DAS ESCRITURAS
J. I. Packer entendeu o significado e a relevância dos Essa consideração das Escrituras é expressa com conci-
puritanos, ao compará-los com as sequoias do Norte da são na Pergunta 2, do Breve Catecismo de Westminster:
Califórnia: Que norma Deus nos tem dado a respeito de como po-
“Assim como as sequoias são atraentes aos olhos, porque demos glorificá-Lo e desfrutar dEle? Resposta: a Pala-
sobrepujam o topo das outras árvores, assim também a vra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e Novo
santidade e a firmeza dos grandes puritanos resplandecem testamento, é uma norma verdadeira para nos guiar em
como um farol, sobrepujando a estatura da maioria dos como podemos glorificá-Lo e desfrutar dEle.
crentes, em muitas épocas e, especialmente, nesta época de Ao fazer esta afirmação e colocá-la em seu catecismo,
coletivismo urbano angustiante, quando os crentes do Oci- estes homens estavam apenas reiterando o princípio
dente sentem-se e, às vezes, assemelham-se a formigas em Sola Scriptura, que estava no âmago da Reforma Protes-
um formigueiro e marionetes em atividade... Nesta situação, tante, e protegendo a essência tanto do evangelho como
o ensino e o exemplo dos puritanos têm muito a dizer-nos”. da igreja. O problema de nossos dias não é somente que
Isso nos deixa admirados. Qual era, então, o caráter do as Escrituras são rivalizadas com muitas outras formas
puritanismo, que lhe deu tão amplo alcance e importância de revelação, mas também que, muito frequentemente,
duradoura? Podemos selecionar cinco das principais carac- elas estão subordinadas à razão. Se o espírito do não-
terísticas dignas de consideração: -conformismo tem de sobreviver, ele não deve prostrar-
-se nem à nova revelação, nem à erudição, mas somente
1. A OPINIÃO DELES A RESPEITO DE DEUS à Palavra de Deus.
Tudo em que os puritanos criam originava-se de sua
opinião a respeito de Deus. (Isso também é verdade no 3. O ENTENDIMENTO DA SALVAÇÃO
que concerne aos seus precursores na Reforma, tanto É comum na teologia contemporânea — pelo menos
na Europa como na Inglaterra.) Isto é ilustrado pelo na teologia popular — imaginar a salvação como “o
fato de que o primeiro apelido depreciativo vinculado ponto de conversão”. Mas isso significa perder de vista

Revista Os Puritanos 39
Apreciando o Caráter do Puritanismo

os horizontes mais amplos da salvação. com a reforma da igreja. Eles tinham um como um todo, um papel que ia além
Thomas Manton nos dá um vislumbre conceito elevado da igreja. Isto come- da necessidade de evangelismo.
do entendimento bem estruturado da çou a se tornar evidente no criticismo A reação contra as aberrações do
doutrina da salvação, um entendimento deles em relação aos decretos religio- que se tornou conhecido como o Evan-
que era característico de seus colegas sos de Elizabeth. Muitos dos puritanos gelho Social, na primeira metade do
puritanos e moldava a opinião deles so- jovens eram graduados de Cambridge e século XX, levou, em muitos casos, à
bre o evangelho: entraram no ministério da Igreja Angli- negligência de uma responsabilidade
“O resumo do evangelho é isto: todos cana a fim de pressionar por uma refor- social mais ampla, em muitas igrejas
aqueles que, por meio de arrependimen- ma permanente que afetaria cada igreja não-conformistas. Contudo, parte sig-
to e fé, abandonarem a carne, o mundo local. O individualismo pós-iluminista nificativa da herança puritana ainda se
e o diabo, entregando-se ao Pai, ao Filho que se tornou a característica peculiar mantém preocupada em que a verdade
e ao Espírito Santo, como seu Criador, da igreja do século XXI nos roubou este de Deus seja aplicada aos interesses po-
Redentor e Santificador, encontrarão a conceito dos puritanos, os quais viam a líticos e sociais, capacitando os crentes
Deus como o Pai que os recebe como igreja como o corpo glorioso e a noiva a agirem como sal e luz em um mundo
filhos reconciliados, que perdoa os seus radiante de Cristo — a doutrina da igre- de trevas e deterioração.
pecados, por amor a Jesus, e lhes dá ja é a Cinderela da teologia. O problema de grande parte do res-
graça, por meio de seu Espírito. E, se surgimento do interesse pelos purita-
perseverarem neste caminho, Ele os 5. A PREOCUPAÇÃO PELO MUNDO nos, ressurgimento esse que varreu a
glorificará no final e lhes outorgará a COMO UM TODO Inglaterra na metade do século passa-
felicidade eterna”. O quinto distintivo digno de ser ressal- do, é que ele aceitou apenas a soterio-
Este entendimento amplo da salvação tado a respeito dos puritanos é o ponto logia puritano-reformada — uma sote-
explica o uso que os puritanos faziam de vista deles sobre a vida e a comu- riologia que não assimila a grandeza e a
do termo “regeneração” e sua riquíssima nidade como uma unidade integrada. integridade do ponto de vista de nossos
compreensão do evangelismo. Também Os puritanos criam que Deus havia antepassados espirituais, que conside-
explica a disparidade entre as expecta- sancionado a vida solidária na socie- ram o mundo como parte da vida. (Ad-
tivas referentes à conversão em nossos dade. Isso se refletiu nos ousados (mas miravelmente, isto se contrasta com o
dias e a maneira como elas se cumprem, imperfeitos) esforços deles na esfera ressurgimento correspondente que
uma disparidade que resulta de nosso política, alcançando seu zênite na Revo- aconteceu nas igrejas dos Estados Uni-
entendimento restrito da salvação. lução Gloriosa e no estabelecimento do dos.) Se tem de haver um futuro para
Commonwealth. Embora os puritanos o não-conformismo, na misericórdia de
4. A APRECIAÇÃO DA IGREJA diferissem quanto à natureza do rela- Deus, precisamos apreciar novamente
Se existe um elemento que pode ser cionamento entre a Igreja e o Estado, o caráter deste movimento, desde os
identificado como o principal cataliza- eles sustentavam a convicção de que a seus primeiros dias.
dor para o surgimento dos puritanos, igreja tinha um papel, dado por Deus, Apreciando o Caráter do Puritanismo - Pr. Mark Jo-
hnston. Pastor da Proclamation Presbyterian Chur-
esse elemento era a preocupação deles em referência à vida da comunidade ch (PCA), Bryn Mawr, Pennsylvania, USA

Catecismo Maior de Westminster


Pergunta 13 → Que decretou Deus especialmente com referência aos anjos e aos homens?
Deus, por um decreto eterno e imutável, unicamente do seu amor e para patentear a sua gloriosa graça,
que tinha de ser manifestada em tempo devido, elegeu alguns anjos para a glória, e, em Cristo, escolheu
alguns homens para a vida eterna e os meios para consegui-la; e também, segundo o seu soberano poder
e o conselho inescrutável da sua própria vontade (pela qual Ele concede, ou não, os seus favores confor-
me lhe apraz), deixou e predestinou os mais à desonra e à ira, que lhes serão infligidas por causa dos seus
pecados, para patentear a glória da sua justiça.

Ref. Rm. 9:20 e 11:23; Dt. 29:29; II Pe 1:10; Ef. 1:6; Lc. 10:20; Rm. 5:33, e 11:5-6, 10.

40 Revista Os Puritanos
Deus O Autor do Pecado?
“A avidez de conhecimento é uma espécie de loucura” (Calvino)

Por Fred H. Klooster de antemão a queda do primeiro homem, e nela viu também
a ruína de sua posteridade, mas também as determinou por

A
firme insistência de Calvino sobre a soberania Seu arbítrio. Pois, como pertence à sabedoria de Deus ser
da vontade de Deus, na reprovação, levou seus presciente de todas as coisas que hão de ocorrer, assim
objetores a sugerir que Deus, nesse caso, é o cabe ao Seu poder reger e regular tudo por Sua mão.2
autor do pecado. Os opositores de Calvino chegaram a
dizer que a doutrina de Calvino, a respeito da reprova- Não só a queda de Adão, mas também a de toda a
ção, livra o pecador da responsabilidade e torna Deus sua posteridade, estão incluídas na vontade de Deus:
autor do pecado. Calvino considerou também esta ob- “Naturalmente, eu admito que nesta condição miserável em
jeção. Ele admitiu prontamente que Deus quis a queda que agora os homens estão envencilhados, todos os filhos
de Adão,1 mas negou que Deus seja o autor do pecado, de A,dão caíram pela vontade de Deus. E foi is to que eu dis-
ou que o decreto de Deus livra o pecador de sua res- se no princípio: E preciso recorrer unicamente ao arbítrio
ponsabilidade. Com relação ao fato de desejar a queda da vontade divina, cuja causa está escondida
de Adão, Calvino disse: em Deus.”3

“Proclama a Escritura que todos os mortais foram sujeitos Calvino reconhecia, então, que Deus quis a queda
à morte eterna na pessoa de um só homem (Rm 5.12-18). de Adão, mas não entendia nem compreendia isto ple-
Como isto não podia ser imputado à natureza, não pode- namente:
mos considerar ser obscuro ter procedido do admirável “O primeiro homem caiu, pois, porque assim o Senhor julgou
conselho de Deus. E extremamente absurdo que os bons conveniente. No entanto, a razão porque Ele julgou assim,
patronos da justiça de Deus se mostrem perplexos diante nos é oculta”.4
de uma varinha e, contudo, saltem por cima de altas vigas.
De novo, pergunto: De onde vem que a queda de E Calvino acrescentou: “Entretanto, é certo não haver
A dão lançasse à morte eterna, sem remédio, a tantas gen- Ele julgado de outro modo senão porque via, por esse
tes com seus filhos infantes, senão porque assim pareceu meio, devidamente iluminada a glória do Seu nome”.5
bem a Deus? Importa que aqui emudeçam suas línguas que, Calvino não foi além disto. A causa evidente da conde-
de outro modo, são tão loquazes. O decreto, certamente, nação, assegurou ele, “é a corrupta natureza da huma-
é horrível, confesso-o. Entretanto, ninguém poderá negar nidade”, porém, “a causa oculta e absolutamente incom-
que Deus haja preconhecido o fim que o homem haveria preensível” está na predestinação de Deus. Aí Calvino
de ter, mesmo antes de o criar e, por isso, haja conhecido conclui: “E não nos envergonhemos de submeter nosso
de antemão, porque assim ordenou por Seu decreto. Se entendimento à imensa sabedoria de Deus, nem tema-
alguém investir aqui contra a presciência de Deus, trope- mos que ela seja impotente diante dos muitos arcanos
çará temerária e irrefletidamente. Ora, pergunto: Por que da sabedoria divina, pois é douta a ignorância dessas
considerar culposo o Juiz Celeste pela fato de não haver ig- coisas que não nos é dado nem lícito saber, já que a
norado aquilo que deveria acontecer? Por isso, se há razão avidez de conhecimento é uma espécie de loucura”.6
para queixa - justa ou especiosa - compete à predestinação. Em conexão com a queda de Adão e com o decreto
E não deve parecer absurdo o que digo: Que Deus não só viu divino, alguns dos opositores de Calvino fizeram dis-

Revista Os Puritanos 41
Fred H. Klooster

tinção entre a vontade de Deus e Sua cado. Calvino considerou esta atitude introduziu certas distinções. Por exem-
permissão. “Deste modo, eles (meus como “ofensa atroz”. 12
Ele exigiu que plo, Calvino sugeriu que se aceitarmos
opositores) sustentam que os ímpios seus opositores fossem mais cuidado- a ideia de que Deus é a autor do peca-
perecem porque Deus permite, e não sos com as palavras que em- prega- do, porque decretou a queda de Adão,
porque Deus quer”.7 Calvino rejeitou vam e com as acusações que faziam; podemos dizer também, forçosamente,
esta distinção. (A referência aqui à per- tais acusações injustificadas poderiam que Deus é o autor daquele ato iníquo
missão não deve ser confundi- da com levar os cristãos mais simples e mais pelo qual os judeus crucificaram a Je-
a expressão decreto permissivo, empre- inexperientes a “chocar-se contra a me- sus Cristo. Os judeus fizeram “aquilo
gada por alguns teólogos reformados. O donha e abominável rocha que faz de que Tua mão e Teu conselho determina-
decreto permissivo relaciona-se com o Deus o autor do pecado” (59). Calvino ram, de antemão, que deveria ser feito”.
decreto de Deus e Sua vontade. Calvino admitiu que nenhuma destas palavras E lembrai-vos, disse Calvino, que “estas
se referia à distinção entre vontade e pode desenredar o mistério do decreto não são as palavras de Calvino, mas do
permissão). Ele reconhecia que, quando da reprovação. Porém, convencido de Espírito Santo, de Pedro e toda a Igreja
os homens pecam, “toda transgressão que a Escritura ensina que a vontade de Primitiva”.16
é deles mesmos... Porém, transformar Deus é a causa última de todas as coisas, Uma distinção que Calvino con-
todas aquelas passagens da Escritura desejou deixar o mistério aí. siderava de grande auxílio, aqui, é a
(onde a disposição da mente, no ato, é Pode-se sentir com que desgosto que existe entre a vontade de Deus e
distintamente descrita) em mera per- Calvino ouvia as críticas que exigiam a vontade de Satanás: “Há uma pode-
missão da parte de Deus, é um frívolo explicações. “Como se fosse minha a rosa diferença, porque ainda que Deus
subterfúgio e uma vã tentativa de es- obrigação de explicar a razão dos se- e Diabo queiram a mesma coisa, eles
capar da poderosa verdade”.8 Alguns cretos conselhos de Deus”, escreveu a querem de maneira inteiramente
dos Pais da Igreja, mesmo Agostinho, a ele retoricamente, “como se fosse mi- diferente... o homem quer para o mal
princípio, estavam muito ansiosos em nha a obrigação de fazer os mortais aquilo que Deus quer para o bem”.17
evitar ofensas; pelo emprego do termo entenderem o ponto crucial da sabe- Calvino insistiu em que “Deus está, e
permissão, “relaxaram um tanto aque- doria divina, cuja altura e profundi- deve estar sempre, inteiramente longe
la precisão de atenção devida à grande dade eles são ordenados a olhar e a do pecado”.18 De acordo com Calvino, o
verdade, em si”. Calvino contendeu em
9
adorar”. 13
Em outro lugar, ele sugeriu piedoso” confessará, na verdade, que a
relação àquelas passagens que falam que os perturbados por estes proble- queda de Adão não ocorreu sem o go-
de Deus cegando e endurecendo aos ré- mas deveriam observar a advertência verno e direção da secreta providência
probos, bem como com relação àquelas de Agostinho: “Vós, homens, esperais de Deus (arcana Dei providentia), mas
que se referem a José, a Jó, a Davi e a de mim um resposta; eu também sou também nunca duvidará de que o fim
Paulo, e mostrou que (nesses casos) o homem. Portanto, vamos nós (vós e e o objetivo do Seu secreto conselho
termo permissão é inadequado. O pe- eu) ouvir alguém que disse: Ó homem, são retos e justos. Porém, como a ra-
cador é sempre responsável por seus quem és tu? (Rm 9.20). A ignorância zão (desse conselho) está escondida na
pecados, porém, de algum modo, esses que crê é melhor do que o conheci- mente de Deus, os piedosos, sóbria e re-
pecados estão incluídos na incompre- mento temerário... Paulo descansou verentemente, esperam a sua revelação
ensível vontade de Deus, que não sim- porque reconheceu maravilha. Ele que será feita no dia em que veremos a
plesmente permite, “mas governa e chamou insondáveis os juízos de Deus Deus “face a face”, a quem vemos agora
sujeita todas as ações do mundo com e tu, ó homem, te aventuras a perquiri- por espelho, e obscuramente”.19
perfeita e divina retidão”.10 Em outras -los? Paulo fala dos caminhos de Deus Outra distinção que Calvino consi-
palavras, o “homem cai como ordena como inescrutáveis (Rm 11.33), e derou útil levar em conta, nesta ques-
a providência de Deus, mas cai por sua tu tens a pretensão de esquadrinhá- tão, é a que existe entre causa última e
própria iniquidade”.11 -los?”.14 Seguindo ele mesmo a adver- causa remota. No juízo de Calvino, esta
A insistência de Calvino sobre a von- tência de Agostinho, Calvino simples- distinção muito simples é de grande
tade de Deus como causa do decreto mente conclui: “Nada progrediremos, importância. Ele não se surpreendeu
da reprovação, e sua objeção ao termo querendo ir mais longe... “. 15
de que seu opositor Pighius “confun-
permissão, com relação ao pecado hu- Nos lugares onde Calvino discutiu disse tudo indiscriminadamente no
mano, levaram seus opositores a fazer estas questões com mais detalhes, ele discernimento de Deus, quando deixa
carga contra Deus, como autor do pe- apenas ampliou a mesma resposta e de distinguir entre causa próxima e

42 Revista Os Puritanos
Deus, o autor do Pecado

causa remota”.20 Calvino considerou claro e compreensível — a culpa pessoal mistérios do seu juízo, que a curiosida-
“ímpia e caluniosa” a acusação que Pi- do homem —, e não tentar escrutinizar de de saber qualquer coisa além, não
ghius fez contra ele, quando disse que indevidamente aquilo que, segundo o me atrai; e nenhuma suspeita funesta,
o Reformador transformou a “ queda do ensino da Escritura, isto é, a vontade de em relação à sua justiça, consegue afas-
homem em obra de Deus”, uma vez que Deus como causa última, não podemos tar a minha confiança e nenhum desejo
Calvino “retirou de Deus toda acusação compreender. A clara explicação da de lamuriar me seduz”.25
próxima do agir... ao mesmo tempo em condenação do descrente é sua própria
que remove dEle toda culpa e deixa o culpa. Calvino repetia isso com ênfase:
Extraído do excelente livro A Doutrina da
homem responsável sozinho”.21 Con- “Por sua própria má intenção o homem, Predestinação em Calvino, Editora SOCEP, pp. 64-69.
tudo, esta útil distinção não resolve o pois, corrompeu a pura natureza que NOTAS: 1 Ver cap. 2, nota 15, sobre a questão in-
fralapsariana e supralapsariana. Calvino não citou
mistério, para Calvino: “... porém, a ma- recebeu do Senhor e, por sua queda, ar- passagens específicas para o seu ponto de vista;
veja-se, porém, 3.23.7.
neira como foi ordenado pela presciên- rastou com ele toda a sua posteridade 2 Ibid., 3.23.7 (OS, 4.401 e seg); 3 Ibid., 3.23.4 (OS,
cia e decreto de Deus, que no futuro do à destruição. Consequentemente, deve- 4.397).; 4 Ibid., 3.23.8 (OS, 4.402).; 5 Ibid.;;6 Ibid.;;7
Ibid.; 8 BriejReplay in Theological Treatiscs, p.201
homem Deus não estivesse implicado mos considerar, como causa evidente (oe, 9.263). (55) Ibid. 9 Ibid.; 10 Ibid., p.203 roc. 9.264).
11 Inslilules 3.23.8 (oC, 4.402 e seg.). “Cadit igtitur
como associado no seu pecado, como da condenação, a corrupta natureza da homo, Dei providentia sic ordinante: sed suo vitio
autor ou aprovador da transgressão, é humanidade — causa que está próxima cadit”.; 12 BriefReplay in Theological Treatises, p.191
(Oe, 9.258). (59) Brief Replay ín Theological Treati-
claramente um segredo que excede, em de nós —, ao invés de procurarmos a ses, p.191 (oe, 9.258).;13 Ibid., p. 194 roc, 9,260).; 14
Institutes 3.23.5 (OS, 4.399).; 15 Ibid.; 16 BriefReplay
muito, a capacidade de compreender causa oculta e totalmente incompreen- in Theologica! Treatises, p.191 (oC, 9.258).; 17 Ibid.,
da mente humana, e eu não tenho ver- sível, na predestinação de Deus”.23 Nisto p.196 (OC, 9.261). Calvino estava citando Agostinho
na última parte.; 18 Ibid., p. 195 (OC, 9.261).
gonha de confessar ignorância” (69).22 “a ignorância é douta” e o “desejo de sa- 19 Ibid., p. 197 (OC, 9.261).; 20 Eternal Predestination
of God, p.l00 (OC, 8.296). Cf. Comentário de Calvino
Para Calvino, pois, a soberana vonta- ber é uma espécie de loucura”.24 Calvino sobre Rm 9.11 (OC, 49.177-79) e na Carta aos Mi-
de de Deus é a causa última da queda e seguiu seu próprio conselho, como o nistros da Suíça (1551), in Letters, 2.310. Note que
T.F. Torrance, entre outros, não fez esta distinção
reprovação de Adão, enquanto o pecado indica a seguinte rara confissão pesso- entre causa próxima e causa última e, por isso, não
reproduziu precisamente o pensamento de Calvino
humano é a causa próxima. Nesta últi- al: “Nada prescrevo aos outros que não neste ponto. Ca/vin’s Doctrine of Man, p. 106. Ver
ma — o pecado humano —, está toda re- proceda da experiência do meu cora- também nota 96 retro.
21 Eternal Predestination of God, pp. 123-28 (OC,
provação e culpa. Ao procurar entender ção. Pois o Senhor é minha testemunha 8.316).; 22 Ibid., 124.
23 Institutes 3.23.8 (OS, 4.403).
estas questões difíceis, Calvino insistiu e minha consciência o atesta, que eu, 24 Ibid.
em que devemos enfatizar aquilo que é diariamente, medito tanto sobre estes 25 Eternal Predestination of God, p. 124 (OS, 8.316).

Cânones de Dort
Artigo 6 → DECRETO ETERNO DE DEUS
Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno
decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “...faz estas cousas conhecidas des-
de séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade...” (Atos
15:18; Ef 1:11). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações
dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto,
segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E
aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa
distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto
da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos,
impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível con-
forto para as pessoas santas e tementes a Deus.

Revista Os Puritanos 43
Culto Pactual
A melhor, a mais bíblica classificação para a adoração seria “o culto pactual”. A
razão disso é que a estrutura-cerne da Escritura é o Pacto. A palavra pacto tem
significado multifacetado, mas em termos simples, é um relacionamento formal
entre duas partes envolvendo promessas e consequências. Quando começamos
a entender esse conceito, começamos a ver que a Bíblia toda é um documento
pactual.

A história da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, é acerca de um desdobramento


do pacto de Deus com seu povo. A Escritura revela que Deus é um Deus sobera-
no, um Deus pactual. Quando Ele criou o homem, criou-o num relacionamento
pactual com Ele. Depois que Adão quebrou o pacto original, Deus não abando-
nou o que havia feito, mas veio para salvar em misericórdia e graça, fazendo um
novo pacto — que chamamos “pacto da graça”. Este pacto da graça, que teve
início no princípio em Genesis 3:15, continuou com Noé, alcançou um status for-
mal com Abraão em Gênesis 15 e se desenvolveu através da história da redenção
até seu clímax em Jesus Cristo. A Igreja da Nova Aliança em Jesus Cristo, então, é
a continuação do pacto da graça de Deus desde o princípio da história redentiva.
Vemos isso no fato de que os títulos que o Senhor deu a Israel no pé do monte
Sinal quanto renovou seu pacto com eles, são os mesmos que Ele aplica a nós:
“Mas vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, um povo de propriedade
exclusiva...” (1Pd 2:9; Ex 19:6).

A teologia do Pacto, não somente define o agir de Deus com o Seu povo através
da história e une toda a Bíblia como o desdobramento de um único plano re-
dentivo de Deus, mas também dita nossa piedade, que é nossa resposta a Deus.
Porque o pacto é entre duas partes, sua estrutura também influi no nosso culto.

Culto pactual, então, é um dialogo entre Deus e o Seu povo. Isto significa que
Deus fala conosco e nós lhe respondemos. Deus nos diz: “Eu serei o seu Deus” e
nós respondemos: “Nós seremos o seu povo”. Deus nos chama à adoração e nós
respondemos em cântico. Deus nos fala a Sua Lei, nós lhe respondemos com a
confissão dos nossos pecados, Ele nos absolve dos nossos pecados, nós respon-
demos em oração. Ele nos fala pela Palavra e nos sacramentos e nós respondemos
com dádivas de gratidão e doxologia. Isto é o coração do que significa dizer que
o nosso culto é um culto pactual.

Rev. Pr. Daniel Hyde é pastor da Oceanside United Reformed, Carlsbad, CA, USA

44 Revista Os Puritanos
João Calvino e a Doutrina da
Soberana e Justa Reprovação
“A avidez de conhecimento é uma espécie de loucura” (Calvino)

Fred H. Klooster tolo apenas se limita a advertir que não é lícito ao barro
querelar com o oleiro” (Rm 9.20).

P
rovavelmente, ninguém mais do que Calvino Ao sumariar a doutrina da reprovação, de Calvino
sabia que a doutrina da dupla predestinação podemos empregar as mesmas divisões usadas ao su-
é impopular “Agora, quando o homem na sua mariarmos a sua doutrina da eleição - com uma exceção.
compreensão humana, ouve estas coisas”, escreveu ele, Nossa discussão da doutrina de Calvino a respeito da
“sua insolência é tão irreprimível que ele prorrompe a “soberana e justa reprovação” tratará do decreto divino
esmo e em imoderado tumulto, como despertado por da reprovação - a causa, porém, não o fundamento da
som de trombeta na batalha”. Calvino estava pensando reprovação - seu propósito e seus meios. A reprovação
nos que aceitavam a eleição e negam a reprovação.“Na é tão soberana quanto a eleição; contudo, Calvino deu
verdade, muitos, como se quisessem evitar o opróbrio ênfase à soberania da justiça de Deus na reprovação,
de Deus, aceitavam a eleição em tais termos, que aca- em contraste com a soberania da livre graça, na eleição.
bavam negando a condenação de qualquer um,” obser-
vou; “na verdade, não existiria eleição se não houvesse O DECRETO DIVINO DA REPROVAÇÃO
reprovação”. Calvino entendeu o eterno conselho de Deus como
Calvino não queria significar que a reprovação fosse expressão de Sua soberana vontade e propósito para
uma dedução lógica da eleição; ele fez a asserção acima toda a história do mundo. A história é o desdobramen-
plenamente convicto de que a Escritura a exige. “Se não to deste imutável conselho de Deus. A presciência de
nos envergonhamos do Evangelho, devemos confessar Deus, bem como a Sua providência, estão enraizadas
que a eleição está aí plenamente declarada. Deus, por no Seu eterno conselho. O decreto da eleição é parte do
sua eterna boa vontade, que não tem causa fora de si eterno conselho de Deus. Agora seguiremos a Calvino
mesma, destinou à salvação àqueles de quem se agrada, na discussão da reprovação. A reprovação bem como a
rejeitando o resto. Aqueles a quem achou dignos da eleição dizem respeito ao decreto eterno ou ao conselho
eleição gratuita. Ele iluminou por Seu Espírito, de modo soberano de Deus. Aqui é onde começa a discussão do
que recebessem a vida oferecida por Cristo, ao passo assunto por Calvino.
que os outros descrêem voluntariamente, de modo que a) A reprovação envolve a obra decretiva de Deus.
permanecem nas trevas, destituídos da luz da Fé”. A revisão das definições de Calvino a respeito da
Calvino, falou abertamente do “plano incompre- predestinação demonstra que Calvino ligava a re-
ensível” de Deus e admitiu que a reprovação levanta provação ao eterno decreto de Deus: “Chamamos
questões que não podem ser respondidas. Considerou- predestinação ao eterno decreto pelo qual Deus deter-
-se compelidos a defender a doutrina da reprovação, minou, em si mesmo aquilo que deve ocorrer a cada
contudo, porque a Escritura o exige. Com referência a homem, pois os homens não são criados todos em igual
Romanos 9, ele disse “que está na mão e na vontade de condição; ao contrário, uns são preordenados à vida
Deus tanto o endurecer quanto o usar de misericórdia... eterna, e outros são preordenados à eterna danação.”
Nem tão pouco o próprio apóstolo Paulo se empenha “Estamos dizendo que a Escritura mostra claramente
em desculpar a Deus - como o fazem muitos aos quais que Deus, por seu eterno e imutável desígnio, deter-
me tenho referido - com falsidades e mentiras; o Após- minou, de uma vez por todas, aqueles a quem queria

Revista Os Puritanos 45
Frede H. Klooster

receber para sempre à salvação e, por esta referência especifica quando men- e maledicências, reconhece soberania
outro lado, aqueles a quem queria en- cionou os que rejeitam esta doutrina suprema à ira e ao poder de Deus, uma
tregar à perdição”. Logo Esaú, que não difícil: Tais pessoas não se opunham vez que é iníquo sujeitar, à nossa opi-
diferia em mérito de Jacó, foi repudia- apenas a ele, mas também a Paulo e ao nião, os profundos juízos de Deus, que
do, enquanto Jacó foi distinguido pela Espírito Santo”. absorvem todos os recursos da nossa
predestinação de Deus.” Calvino sustentou também que esta mente”.
Estes sumários do ponto de vista de doutrina da reprovação foi claramente Calvino estava se referindo as pa-
Calvino são claros. A reprovação rela- ensinada pelo próprio Cristo. Calvino lavras de Paulo: “Que diremos, pois,
ciona-se com o decreto divino. Contu- pergunta: “Toda árvore que meu Pai seDeus, querendo mostrara sua ira, e
do, devemos observar que Calvino não não plantou será arrancada” (Mt 15.13) dar a conhecer o seu poder suportou
fez referência especifica às distintas - paráfrase?” E Calvino acrescenta: “Isto com muita longanimidade os vasos da
pessoas da Trindade em conexão com significa plenamente que todos aque- ira, preparados para a perdição a afim
a reprovação, como fez em relação à les a quem o Pai não condescendeu em de que também desse a conhecer as ri-
eleição. A obra de Deus, naturalmente, plantar como árvores sagradas no seu quezas de sua glória em vasos de mise-
é operação do Deus Triúno, como foi an- campo, estão marcados e votados à des- ricórdia, que para a glória preparou de
tes observado. Calvino não repetiu isto truição. E se (meus adversários) dizem antemão?”. Ao argumento de que a frase
especificamente ao discutir a reprova- que isto não é sinal de reprovação, nada nas frases - “preparados para a perdi-
ção. Conquanto Calvino tenha dito que mais pode ser provado a eles, por mais ção” e “preparou de antemão” - parece
o Filho e o Pai são o autor do decreto claro que seja” excluir a reprovação do decreto, Calvino
da eleição, não fez a mesma referência Contudo, Calvino sabia que um ape- respondeu: “Mas, ainda que eu concor-
com relação à reprovação. lo a uma passagem clara da Escritura de que Paulo, com o seu modo diferente
Que o Espírito Santo é o atual mestre não fechava a boca de seus opositores. de falar, abranda a aspereza da primeira
desta doutrina da reprovação deduz-se Por isso apelou outra vez para a Carta frase, está muito longe de concordar em
do ponto de vista de Calvino a respei- aos Romanos: “Observem os leitores transferir, a outro fator, a preparação
to da inspiração da Escritura. Ele fez que Paulo, para por fim aos murmúrios para a perdição, senão atribui-lo ao se-

Confissão de Fé Batista de 1689


Capítulo III/2-5 → O DECRETO DE DEUS
2. Embora Deus saiba tudo quanto pode ou poderá acontecer,5 em todas as condições possíveis, Ele
nada decretou por causa do seu conhecimento prévio do futuro ou daquilo que viria a acontecer em
determinada situação.6
3. Pelo decreto, e para manifestação da glória de Deus, alguns homens e alguns anjos são predestina-
dos (ou preordenados) para a vida eterna através de Jesus Cristo,7 para louvor da sua graça gloriosa.8 Os
demais são deixados em seu pecado, agindo para sua própria e justa condenação; e isto para louvor da
justiça gloriosa de Deus.9
4. Os anjos e homens predestinados (ou preordenados) estão designados de forma particular e imutável,
e o seu número é tão certo e definido que não pode ser aumentado ou diminuído.10
5. Dentre a humanidade, aqueles que são predestinados para a vida, Deus os escolheu em Cristo para
glória eterna; e isto de acordo com o seu propósito eterno e imutável, pelo conselho secreto e pelo bene-
plácito da sua vontade, antes da fundação do mundo, apenas por sua livre graça e amor,11 nada havendo
em suas criaturas que servisse como causa ou condição para essa escolha.12

5 Atos 15:18; 6 Romanos 9:11,13,16,18; 7 I Timóteo 5:21; Mateus 25:34; 8 Efésios 1:5-6; 9 Romanos 9:22-23; Judas 4; 10 II Timóteo 2:19; João 13:18; 11
Efésios 1:4,9,11; Romanos 8:30; II Timóteo 1:9; I Tessalonicenses 5:9; 12 Romanos 9:13,16; Efésios 2:5,12.

46 Revista Os Puritanos
João Calvino e a Doutrina da Soberana e Justa Reprovação

creto conselho de Deus, visto que ainda ficamente com indivíduos; eleição e re- provados. Isto só Deus sabe. Por isso, no
há pouco, no contexto, ele afirmou que provação são especificas e particulares. curso da história não podemos tratar
Deus “instigou a Faraó” (Rm 9.17) e, em O decreto da reprovação não traduz a com qualquer indivíduo como se ele ou
seguida. acrescentou: “Logo, tem ele intenção geral de Deus, e não é limita- ela fosse claramente um reprovado. Te-
misericórdia de quem quer, e, também, do em sua referência a uma classe de mos obrigação de pregar o Evangelho
endurece a quem lhe apraz (Rm 9.18). pessoas, como contendiam os Arminia- a todos e podemos também desejar a
Conclui-se dai que a causa do endureci- nos posteriores. As definições gerais de salvação de todos aqueles a quem pre-
mento está no secreto conselho de Deus”. predestinação, citadas atrás, tornam gamos, e nunca temer, por agir assim,
Calvino endossa a interpretação de isso claro; assim também as referências que estejamos indo contra a vontade
Agostinho, que disse: “Quando Deus especificas a Esaú, diferentemente de de Deus, pela qual Ele, “soberanamente,
transforma lobos em ovelhas, usa de Jacó. Só à luz da reprovação individual decretou a reprovação de alguns”.
graça mais poderosa para domar a sua ou particular poderia surgir o proble- Mesmo quando a Igreja, obediente à
dureza; logo, Deus não converte aos obs- ma que Calvino considerou. O proble- ordem do seu Senhor, se vê na necessi-
tinados, porque não emprega essa graça ma origina-se da alegada inconsistên- dade de excomungar um de seus mem-
mais poderosa, que Ele poderia propi- cia do fato de dizer-se que Deus, “desde bros, nem mesmo nesse caso a pessoa
ciar se quisesse, pois não é destituído toda a eternidade, ordenou, segundo a excomungada deve ser mantida como
dela”. Ainda que Calvino não empregue sua vontade, àqueles que Ele quis que claramente reprovada, porque tal pes-
tais distinções como preterição e conde- recebessem o seu amor e àqueles sobre soa “está na mão e sob o juízo de Deus
nação - que teólogos reformados poste- os quais Ele quis manifestar o Seu juízo”, somente”. “Um dos objetivos da disci-
riores empregaram na discussão da re- e o fato de Deus “anunciar salvação a plina da excomunhão é levar o pecador
provação, nós encontramos estas ideias todos os homens indiscriminadamente”. ao arrependimento; para isto, a Igreja
distintas na sua discussão. Referir-nos- Os opositores desafiam a justiça de deve continuar a orar”. Aqui também
-emos a isto quando considerarmos o Deus precisamente porque o decreto está o ensino e o exemplo do apóstolo
pecado em relação ao decreto de Deus. de Deus se relaciona com os indivíduos. Paulo, que Calvino repete.
Ainda que o decreto de Deus, a respeito
A REPROVAÇÃO É PARTICULAR da reprovação se refira claramente aos
Transcrito do livro “A doutrina da Predestinação
Para Calvino, a reprovação, como o indivíduos, Calvino insistiu em dizer em Calvino” Fred H. Klooster, página 53-58, Editora
decreto da eleição relaciona-se especi- que nos não sabemos quem são os re- SOCEP, com permissão. Fonte: Revista Os Puritanos,
Ano VIII, No 1, Janeiro, Fevereiro, Março de 2000.

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