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GRUPO II

Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.


Lê o texto.

Um dia, na aula de Mecânica, parti um ponteiro. O professor ainda não tinha chegado e nós aproveitávamos o tempo para
armar o arraial do costume, uns a contar anedotas, outros a atirar aviões ou bolas de papel, outros a jogar às palmadas (magnífico
exercício para estimular os reflexos, porquanto o jogador que tem as palmas das mãos para baixo terá de tentar escapar à
palmada que o jogador que tem as palmas das mãos para cima vai tentar dar-lhe), e eu, para exemplificar o uso da lança, já
não sei a que propósito, talvez por causa de algum filme que tivesse visto, empunhei o ponteiro como se lança fosse e corri para
o quadro negro, supostamente o inimigo que teria de ser deitado do cavalo abaixo. Calculei mal a distância e o choque foi tal
que o ponteiro se partiu em três pedaços na minha mão. O feito foi celebrado com aplausos por alguns, outros calaram-se e
olharam-me com aquela expressão única que significa, em todas as línguas do mundo, «Estás bem arranjado», enquanto eu,
como se acreditasse na possibilidade de um milagre, procurava ajustar um ao outro os pontos de fratura de dois dos bocados de
pau. Como o milagre não se produziu, fui depor os destroços em cima do estrado e nesta operação estava quando o professor
entrou. «Que aconteceu?», perguntou. Dei uma explicação atabalhoada («O ponteiro estava no chão e pus-lhe, sem querer, um
pé em cima, senhor engenheiro») que ele fez de conta que aceitava. «Já sabes, terás de trazer outro», disse. Assim era e assim
teve de ser. O pior é que em casa ninguém pensou em ir a uma loja de artigos escolares e perguntar quanto custava um ponteiro.
Partiu-se logo do princípio de que seria demasiado caro e que a melhor solução seria comprar numa serração de madeiras um
pau redondo, do mesmo tamanho, em bruto, e trabalhar eu em torná-lo o mais parecido possível com um ponteiro autêntico. E
assim foi. Para bem ou para mal, nem meu pai nem minha mãe se meteram no assunto. Durante talvez duas semanas, tardes
de sábado e domingos incluídos, de navalha em punho, como um condenado, desbastei, raspei, afilei, lixei e encerei o maldito
pau. Valeu-me a experiência ganha na Azinhaga no manejo da ferramenta. A obra não ficou o que se chama uma perfeição, mas
foi tomar dignamente o lugar do ponteiro partido, com aprovação administrativa e um sorriso compreensivo do professor. Havia
que tomar em consideração que a minha especialidade profissional era a serralharia mecânica, e não a carpintaria...
O José Dinis morreu novo. Os anos dourados da infância tinham acabado, cada um de nós teve de ir à sua vida, e um dia,
passado tempo, estando eu na Azinhaga, perguntei à tia Maria Elvira: «Que é feito do José Dinis?» E ela, sem mais palavras,
respondeu: «O José Dinis morreu.» Éramos assim, feridos por dentro, mas duros por fora. As coisas são o que são, agora se
nasce, logo se vive, por fim se morre, não vale a pena dar-lhe mais voltas, o José Dinis veio e passou, choraram-se umas lágrimas
na ocasião, mas o certo é que a gente não pode levar a vida a chorar os mortos. Quero crer que hoje ninguém se lembraria do
José Dinis se estas páginas não tivessem sido escritas. Sou eu o único que pode recordar quando subíamos para a grade da
ceifeira e, mal equilibrados, percorríamos a seara de ponta a ponta, vendo como as espigas eram cortadas, e cobrindo-nos de
pó. Sou eu o único que pode recordar aquela soberba melancia de casca verde-escura que comemos na borda do Tejo, o meloal
dentro do próprio rio, numa daquelas línguas de terra arenosa, às vezes extensas, que o verão deixava a descoberto com a
diminuição do caudal. Sou eu o único que pode recordar o ranger da navalha, as talhadas vermelhas com as pevides negras, o
castelo (noutros sítios chamam-lhe coração) que se ia formando no meio com os sucessivos cortes (a navalha não alcançava o
eixo longitudinal do fruto), o sumo que nos escorria pelo pescoço abaixo, até ao peito. E também sou eu o único que pode
recordar aquela vez em que fui desleal com o José Dinis. Andávamos com a tia Maria Elvira no rabisco do milho, cada qual no
seu eito, de sacola ao pescoço, a recolher as maçarocas que por desatenção tivessem ficado nas canoilas1 quando da apanha
geral, e eis que vejo uma maçaroca enorme no eito2 do José Dinis e me calo para ver se ele passava sem dar por ela. Quando,
vítima da sua pequena estatura, seguiu adiante, fui eu lá e arranquei-a. A fúria do pobre espoliado era digna de ver-se, mas a
tia Maria Elvira e outros mais velhos que estavam perto deram-me razão, ele que a tivesse visto, eu não lha tinha tirado. Estavam
enganados. Se eu fosse generoso ter-lhe-ia dado a maçaroca ou então tinha-lhe dito simplesmente: «José Dinis, olha o que está
aí à tua frente.»
José Saramago, As pequenas memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, pp. 145 a 148.
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1 hastes do milho; 2 «no eito» – na direção

1. O primeiro parágrafo do texto constitui uma sequência


(A) argumentativa.
(B) descritiva.
(C) narrativa.
(D) explicativa.

2. A frase que se inicia com a palavra «porquanto» (linha 3) exprime uma


(A) justificação relativa à informação anterior.
(B) causa da informação anterior.
(C) alternativa à informação anterior.
(D) consequência da informação anterior.

3. A frase «desbastei, raspei, afilei, lixei e encerei o maldito pau.» (linhas 21 e 22), concretiza um exemplo de
(A) gradação.
(B) alegoria.
(C) personificação.
(D) metáfora.

4. A coesão temporal revela-se bem presente na frase


(A) «O pior é que em casa ninguém pensou em ir a uma loja de artigos escolares» (linha 16).
(B) «Partiu-se logo do princípio de que seria demasiado caro» (linha 17).
(C) «nem meu pai nem minha mãe se meteram no assunto» (linha 20).
(D) «desbastei, raspei, afilei, lixei e encerei o maldito pau» (linhas 21 e 22).

5. O sinal de pontuação – ponto final – presente em «e um sorriso compreensivo do professor.» (linha 24)
poderia ser substituído, no contexto em que ocorre por
(A) dois pontos.
(B) ponto de exclamação.
(C) ponto e vírgula.
(D) ponto de interrogação.

6. O recurso expressivo utilizado pelo memorialista para vincar o completo desaparecimento da lembrança de todos do seu
amigo José Dinis é a
(A) anáfora.
(B) metáfora.
(C) antítese.
(D) enumeração.

7. A lembrança do seu amigo é feita através de uma sequência de sensações de natureza, respetivamente,
(A) visuais / auditivas / táteis / gustativas / auditivas.
(B) auditivas / auditivas / visuais / táteis / gustativas.
(C) táteis / visuais / olfativas / auditivas / gustativas.
(D) visuais / gustativas / auditivas / visuais / táteis.

8. Refere o valor temporal do verbo no presente do indicativo, na frase «por fim se morre» (linhas 29
e 30).
9. Indica a função sintática da palavra destacada em «empunhei o ponteiro como se lança fosse»
(linhas 6 e 7).
10. Refere a função sintática da oração subordinada presente em «Quero crer que hoje ninguém se lembraria do José Dinis»
(linhas 31 e 32).

GRUPO II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Lê o texto.

Dotar dispositivos quotidianos da capacidade de saber como o utilizador se sente é um desafio científico em
que os avanços não cessam. Num futuro próximo, o computador poderá mesmo tornar-se um dos nossos melhores
amigos.

Passamos mais horas sozinhos com o telemóvel e o computador do que com qualquer outro ser humano. A esta altura dos
acontecimentos, muito poucos estarão em condições de negar este facto. Dormimos com o telemóvel ao lado da cama: olhar
para o ecrã é a última coisa que fazemos antes de adormecer e a primeira ao acordar. A companhia norte-americana de
investigação tecnológica Unisys assegura que uma pessoa demora, em média, vinte e seis horas para fazer queixa do roubo de
uma carteira. Porém, se o objeto perdido for um telemóvel, a denúncia produz-se passados 68 minutos.
Portáteis e telemóveis são os nossos companheiros constantes. Perante eles, tiramos a máscara, não fingimos, somos o
que somos. É pena que não nos possam corresponder (por enquanto). Por muitas horas que se passe com eles, são incapazes
de adivinhar se estamos tristes e agir em função disso. A sua inteligência cognitiva é espantosa, mas a capacidade emocional é
nula. Quer a pessoa esteja eufórica, nervosa ou melancólica, terá sempre diante dos olhos a mesma máquina, inteligente e fria.
Apesar disso, o dispositivo consegue mantê-la absorta e isolada dos amigos e familiares: de facto, grande parte das suas relações
desenvolve-se através das redes sociais.
Cansados de alertar para a relativa desumanização que está implícita nas amizades e nos amores digitais, os especialistas
procuraram uma via inesperada: devolver as emoções ao mundo das interações digitais. A única forma de consegui-lo é ensinar
as máquinas a interpretar as emoções e a reagir de modo semelhante ao ser humano. O sinal definitivo de que algo se prepara
é o destino dado às suas fortunas, ultimamente, por alguns capitalistas de Sand Hill Road, na colina próxima da Universidade de
Stanford (Estados Unidos), onde se concentram pessoas que investem num futuro que nem sequer imaginamos: esses magnatas
decidiram, pela primeira vez, investir em start-ups de nomes enternecedores, como Affectiva, eMotion, Realeyes, Sension,
Emotient...
O tema foi introduzido, em 1995, por Rosalind Picard, professora do Instituto Tecnológico do Massachusetts (MIT), que foi,
na altura, tratada com sarcasmo por sugerir que, para conseguir que uma máquina fosse verdadeiramente inteligente, teria de
incorporar algum tipo de resposta emocional. «Os programadores deviam considerar a perspetiva do afeto ao criar um programa
destinado a interagir com seres humanos», escreveu. Depois, desenvolveu a sua teoria no livro Affective Computing.
Sem querer, tinha dado nome a um novo campo nas ciências da computação. [...]
Segundo Rana el Kaliouby, conseguir que uma máquina leia tais alterações é difícil, pois surgem de forma rápida e em
combinação. Para ensinar um computador a distinguir um sorriso genuíno de um falso, são introduzidas no programa dezenas
de milhares de rostos com sorrisos reais, de diferentes faixas etárias, etnias e géneros, e a mesma quantidade de sorrisos sociais.
Através da aprendizagem automática, o algoritmo identifica as linhas, as pregas e as alterações musculares faciais características
de ambas as maneiras de sorrir.
«As máquinas são muito boas a obter pormenores das imagens. Uma mudança quase impercetível é imediatamente
detetada, mesmo que seja uma variação num único píxel. O desafio é conseguir que a máquina identifique, por exemplo, a
tristeza na vastíssima variedade de rostos da espécie humana», explica Jay Turcot, investigador da Affectiva. Para poder
aprender, tem de ignorar as pequenas características individuais de cada rosto que não são substanciais. «Para uma máquina se
aproximar da capacidade da nossa espécie para detetar as emoções terá de ter processado milhares e milhares de rostos
diferentes», diz Turcot.
O investigador assegura que treinar computadores é tão difícil e emocionante como ensinar uma aula cheia de estudantes:
alguns surpreendem, outros desiludem, chegam alunos novos, experimentam-se novas metodologias, os melhores são
submetidos a testes mais complexos... A Affectiva conseguiu reunir 12 mil milhões de indicadores emocionais a partir do estudo
de 2,9 milhões de rostos de indivíduos de 75 países. É já a maior base de dados emocionais do mundo.

in Superinteressante, Nº 223, novembro 2016, pp. 36 e 38 (texto adaptado).

1. O conector «Porém» (linha 9) tem como função iniciar a expressão de


(A) uma eventualidade seguida de um contraste.
(B) uma comparação seguida de uma explicação.
(C) uma consequência antecedida por uma causa.
(D) um contraste seguido de uma eventualidade.

2. Os adjetivos presentes na expressão «inteligente e fria» (linhas 15 e 16) sintetizam, respetivamente,


o facto de os telemóveis serem máquinas
(A) muito capazes cognitivamente e pouco capazes emotivamente.
(B) cognitivamente ainda com muito potencial mas emotivamente perfeitos.
(C) incapazes emotivamente, mas com grande poder cognitivo.
(D) de grande capacidade cognitiva e de nenhuma capacidade emocional.

3. O pronome pessoal presente em «A única forma de consegui-lo…» (linha 20) refere-se a um facto
(A) possível.
(B) desejado.
(C) passado.
(D) improvável.

4. O determinante possessivo presente em «o destino dado às suas fortunas» (linhas 21 e 22) é uma
marca da presença no texto da coesão
(A) frásica. (C) referencial.
(B) interfrásica. (D) lexical.

5. Não será fácil desenvolver máquinas com comportamentos afetivos na interação com os humanos
porque nestes
(A) as emoções podem surgir repentinamente e não isoladas umas das outras.
(B) as emoções detetam-se com dificuldade, pois estão sempre associadas a outras.
(C) o campo das emoções é demasiado vasto e elas ocorrem frequentemente associadas a outras.
(D) o campo das emoções é uma rede na qual se associam umas às outras.

6. O «desafio» referido na linha 39.


(A) é de natureza exclusivamente cognitiva.
(B) combina aspetos cognitivos e afetivos.
(C) é de natureza exclusivamente emotiva.
(D) combina aspetos racionais e irracionais.

7. No último parágrafo do texto, um «investigador» (linha 45).


(A) serve-se de uma metáfora para explicar o seu ponto de vista.
(B) combina comparações e metáforas para explicar o seu ponto de vista.
(C) serve-se de uma série de comparações para explicar o seu ponto de vista.
(D) serve-se de uma comparação para explicar o seu ponto de vista.

8. Indica a função sintática da expressão «nas amizades e nos amores digitais» (linhas 18 e 19).
Complemento do adjetivo
9. Identifica a função sintática da oração subordinada «mesmo que seja uma variação num único píxel.» (linha 39).
Modificador de frase
10. Refere o valor modal do verbo dever na frase «Os programadores deviam considerar a perspetiva do afeto ao criar um
programa destinado a interagir com seres humanos» (linhas 29 e 30).
Valor de obrigação