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Recensão crítica do texto «The image as anthropological

document. Photographic “Types”: The pursuit of method»

Departamento de Antropologia
Disciplina: Antropologia Visual
Pedro Manuel Rodrigues Linhares
17 de Março de 201
A humanidade tem tido ao longo da sua rica, ainda que curta, história momentos de
genialidade por inúmeras pessoas. Alguns desses momentos geraram invenções que
alteraram para sempre a história do mundo. Este texto dá especial ênfase a um desses
inventos, a fotografia. A fotografia tem como bases uma outra invenção, a câmara
escura. Um invento do século XVI, idealizado por Giovanni Baptista Della Porta. Este
invento foi utilizado, por inúmeros pintores da época, incluindo Leonardo da Vinci. A
fotografia tal como na actualidade a conhecemos não foi um produto de uma pessoa. Foi
o resultado de ideias, conceitos, processos que a originaram.
Na antropologia a fotografia foi largamente usada durante o século XIX e XX. Mas
o tipo de utilização, bem como a percepção tem vindo a redefinir e a mutar-se ao longo
dos tempos. Elizabeth Edwards neste texto tenta mostrar o modo como os antropólogos
durante 1860 e 1870 utilizaram a fotografia e o diferentes “tipos”. E analisa o modo
como essa utilização contribui para a formação do método antropológico. Para tal, ela
aborda as muitas praticas onde a fotografia era utilizada neste período. Além disso
expõem-nos duas abordagens para recolha de dados, protagonizadas por dois projectos
mais ou menos distintos.
A fotografia, no século XIX tinha diversas aplicações, uma muito usual, mas porém
aos olhos de alguém nos dias de hoje, macabra. Esta prática prendia-se com o fotografar
os mortos em situações, mais ou menos familiares. Exemplo disso é a foto em baixo.

Imagem 1 – “A brother and sister


with their dead sibling” – Irmão e irmá com o seu irmão morto.

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A fotografia, também era utilizada como meio de recolha de dados. É esta prática que a
antropologia adoptou, e que Elizabeth Edwards esmiuçou em certa medida.
A fotografia como novo invento, foi massificada como método de recolha de dados
pela antropologia. Devido a esta massificarão, foi natural, anos mais tarde, o surgimento
de uma sub-disciplina nova no seio da antropologia, a antropologia visual. O impacto
inicial que a fotografia causou na antropologia, como método de recolha, foi-se diluindo
ao longo dos anos. As principais utilizações que Elizabeth Edwards vê neste período,
por parte da antropologia são: a classificação dos humanos em raças; confirmar ou não,
as relações evolutivas entre os símios e os humanos.
A fotografia alterou o modo como a realidade é percepcionada. Isto é, durante
séculos os únicos meios de retratar a realidade através de imagens eram: a pintura e o
desenho. Antes os artistas eram a fonte que reproduzia a realidade, agora estavam ao
alcance de qualquer pessoa. A capacidade de retratar a realidade passou de um domínio
restrito, e em certa medida privado, para um domínio abrangente, onde toda a gente
teria acesso. Na antropologia isto também teve repercussões. O maior desassossego por
parte dos antropólogos residia do facto de estes quererem aprimorar e consolidar o
método. Para Lamprey e Huxley a grande quantidade de material recolhido constituía
para muitos, evidencias científicas inequívocas que provavam muitas questões que até
então seriam difíceis de provar. Por outro lado, devido à grande quantidade de dados, o
rigor científico ia-se esfumando. Aqui a visão europeia contribuiu bastante para esta
situação, tendo nos seus antropólogos os principais produtores de visões sobre o que
eram os outros povos. Os povos que mais eram retratados residiam na África e Ásia,
devido às implementações coloniais que os países europeus possuíam. Estas visões
quase sempre eram pontuadas pelo mesmo denominador, a falta de rigor científico e
objectividade, muito marcadas pelo eurocentrismo. Face a isto, e influenciados pelas
ditas ciências naturais e pelas questões da cultura e linguagem, alguns antropólogos
motivaram o aparecimento do método, influenciado pelas ideias evolucionistas.
Utilizando os conceitos provenientes da biologia devido às ideias evolucionista, e tendo
o “tipo” fotográfico uma poderosa ferramenta de análise, as ideias de raça começaram
por se desenvolver, resultando em implicações profundas tanto na antropologia
biológica como na cultura e social. Daí resultou outro tipo, o “tipo racial” (conceito
abstracto). Este “tipo” era o representativo de numa fotografia representar determinado
grupo ou grupos, que tinham um conjunto de características exclusivas, que definiam o
que era aquele grupo. A ideia evolucionista de que os indivíduos e grupos a que

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pertencem atravessavam vários estádios de desenvolvimento, tinha um papel
fundamental, quando estes produziam os resultados dos diversos estudos. Assim os
dados eram manietados de modo a defender a ideia dos cavalheiros vitorianos. Isto é,
tentavam dar a ideia de que as sociedades primitivas, ou seja, os nativos, estavam a
diminuir, logo o mundo seria mais civilizado, se todos se assemelhassem cultural e
fisicamente do cavalheiro vitoriano do século XIX.
Com esta problemática surge então a questão, como é a fotografia tem que ser
tirada? Se o antropólogo quer servir ideologicamente um certo tipo de resultado para o
seu trabalho, então como é que fará isso de um modo a ilustrar quase inequivocamente
os seus pressupostos. É neste contexto que Elizabeth Edwards no expõem os dois
projectos. Um por parte do Império Britânico e o outro da Alemanha e Áustria. Dentro
dos países as sedes foram estabelecidas respectivamente em Londres e em Berlim. Em
1868, apesar da sua morte, o trabalho de John Lamprey, é publicado pela Ethnological
Society of London. O seu trabalho incidia em propor um método de como se obter
fotografias objectivas, afim de estas serem analisadas sistematicamente. Ambos os
projectos são duas visões diferentes, mas com o mesmo propósito, a análise sistemática.
O projecto Britânico encabeçado por Huxley, pretendia documentar com exactidão as
“raças” do Império. O tipo de fotografia que ele pretendia para dar coesão aos dados
científicos, passava por fotografar os indivíduos nus; de perfil; em altura; e de frente. As
suas directrizes nem sempre eram seguidas com rigor, temendo-se a revolta dos nativos.
Já o projecto Alemão pretendia datar todas as “raças” africanas. O modo idealizado
pelos alemães passava por fotografar os indivíduos com roupas apropriadas para o
estudo, além disso eram anotadas as informações pessoais do indivíduo.
Em relação aos projectos, o texto diz-nos que o britânico não passou para o público
em geral. Por oposição o projecto alemão revelou-se mais ambivalente, conseguindo
alcançar todas as esferas públicas e privadas. Mas apesar de tudo, ambos falharam em
relação aos seus principais objectivos. Contudo, apesar de terem fracassado no
essencial, estes cunharam a fotografia como algo de era o verdadeiro, como algo que
transmitia o real, sem que existissem interferências. A fotografia era vista como uma
prova irrefutável e incontestável, sendo que seria cientificamente fiável. O problema
que aqui aparece é de grande dimensão. As fotografias eram retratos manipulados e
retirados de todas a envolvente. O contexto em que os indivíduos se inseriam não podia
ser observado, logo qualquer tentativa que visa-se um método à partida estaria
condenada. Era retirada toda a envolvência ao indivíduo, ou seja, o indivíduo era

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desprovido da cultura, quando fotografado. Isto era o que o “tipo fotográfico” fazia com
os indivíduos.
Actualmente, existem na antropologia, mais propriamente na antropologia visual
bastantes questões ligadas ao problema da fotografia. Tal como Elizabeth Edwards nos
tenta mostrar as implicações da fotografia no século XIX, como meio de recolha de
dados, e as propostas que surgiram na época para o problema, também actualmente há
autores a debruçarem-se sobre o problema. Os problemas que tentam solucionar, são
essencialmente como não alterar a fotografia, quer no momento em que é tirada, quer
posteriormente, tentando não despir culturalmente o indivíduo. E também o de
fotografar o individuo sem não estereotipar determinada classe, grupo, género, etc.

Bibliografia:

Edwards, E. 1990. The image as anthropological document. Photographic “Types”:


The pursuit of method, in Visual Anthropology Review vol.3.pag: 235-258.

http://community.livejournal.com/design_history/18783.html