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Fecha a conta e passa a régua

Enfim não foi tão mal assim... Quatro anos representam um “bom tempo” para alguém rever
conceitos e a própria visão de mundo. Um projeto de vida que termina ou é terminado deve
ser substituído por outro ou sua vida era só um projeto. Um novo desafio nos dá a
oportunidade de compreender que os limites são horizontes e que não somos tão limitados.

Dei-me conta do significado e da significância de Tempo, o que parece óbvio, mas pode não
ser se tomarmos um tempo para pensá-lo. Comecei perceber o tempo como a quarta
dimensão do universo onde as três dimensões espaciais se modificam e que a vida é em “4D” e
não em “3D”, como a nossa frágil onipotência tenta nos preservar.

Amigos ficaram, amigos se perderam no espaço, amigos se perderam no tempo e novos


amigos chegaram, num deslocamento comum às pessoas que se movimentam. Foi gratificante
saber que tais deslocamentos são harmônicos com minhas memórias e que foram
internalizados como experiências enriquecedoras e indolores.

Mudanças nos permitem ver de fora o ambiente limitado que vivíamos como única forma de
conceber o mundo. Se colocarmos a cabeça fora desta moldura que nos identifica para os
outros, perceberemos que os limites só existem em nossa cabeça e que às vezes os chamamos
de especialização. Um especialista corre um sério risco de se alienar no próprio objeto da sua
especialização, ou seja, saber cada vez mais de cada vez menos até um dia em que saberá tudo
de nada. Parei de identificar as pessoas por suas membranas eritrocitárias, que apesar de
complexas, não são suficientemente abrangentes.
Sou, de certa maneira, grato aos que ao tentarem destruir minha identidade, ao invés,
romperam o “frame” que me impedia de ver vida inteligente fora dele. Por esta razão, na
dança dos amigos não ficaram inimigos, mas memórias que fazem parte da minha
personalidade.

Ocupo agora grande parte do “meu tempo” com atividades livres; penso mais que antes e já
não preciso vender o que penso; uma espécie de hedonismo de linguagem. Um tema especial
me fascina: o tempo. E como acho que o fascínio é uma expressão de ignorância, decidi não
mais ignorar o tempo. É interessante observar como as pessoas se dão conta, ou não se dão
conta, desta quarta dimensão do universo no cotidiano de suas vidas.
Nossos sentidos não percebem diretamente esta dimensão chamada tempo e por isso nos
apropriamos dela como conceito. Como espaço e tempo são dimensões do universo,
percebemos o tempo através das mudanças espaciais, através das variações de formas e
aparências. Assim percebido, o tempo angustia criando um sentimento de possibilidade de um
vir a ser que não podemos controlar.

Jovens vivem aqui e agora e a vida não se desenrola como se fosse um filme, mas como uma
sucessão de instantâneos fotográficos. Em algum momento na história de vida de cada um
começamos considerar o tempo e não mais viver aqui e agora, mas aqui e até quando. Em uma
analogia, viver é como atravessar um túnel; depois que passamos do meio não estamos mais
entrando e sim saindo; o que varia é o tamanho do túnel de cada um. Ao que parece, a
segunda metade do túnel é vivida como envelhecimento ao invés de crescimento, por isso com
mais resistências do que estímulos às mudanças, como um desejo de parar o tempo e
perpetuar as formas.

A premissa de que parar o tempo significa perpetuar formas permite outra premissa como
resgatar formas é voltar no tempo. Talvez por esta razão, algumas pessoas tentem se tornar
mais jovens através de cirurgias plásticas que possam resgatar-lhes imagens corporais
anteriores, mesmo que isso não mude em nada os efeitos do tempo vivido. A busca de formas
passadas pode ser a busca da felicidade perdida não mais viável, mas que pode ser revivida em
sessões de psicoterapia ou mesmo, imediata e momentaneamente, por uma inundação
cerebral de serotonina, propiciada pela bem sucedida indústria farmacêutica. A maior parte
das pessoas, entretanto, é formada pelos que, resignadamente, aceitam as vicissitudes do
tempo, amenizando-as pela crença em uma possibilidade de transcendência metafísica.
Divindades eternas, projetadas como amortecedores das angustias pessoais, são ofertadas sob
medida em configurações personalizadas, nos templos, na internet e “smartphones”.
Pessoalmente, não me identifico com qualquer forma de resistência ao tempo.

A angustia de finitude inerente aos homens e vivenciada cotidianamente como possibilidades


de perdas, não produz apenas sofrimentos, mas dirige o espaço-tempo de cada homem.
Contra a angustia de perda do outro, que talvez seja a mais humana das dores, a tomada de
posse extingue a dor, mas ao mesmo tempo, o parâmetro que dizia da importância deste
outro. Preservar a individualidade nos relacionamentos é garantir um espaço para a angústia
de perda que nos dá a exata medida do significado destes relacionamentos ao longo do
tempo.

A unidade tempo-espaço, produto de uma explosão do “nada” que já dura alguns bilhões de
anos e que, certamente, durará trilhões de anos, cresce em velocidade acelerada afastando as
galáxias e apagando estrelas, até o inevitável retorno ao “nada”.
No micro-cosmo das nossas vidas o tempo-espaço se estica separando pessoas de pessoas e
pessoas delas mesmas, mas também, promove encontros, colisões espetaculares e “super
novas” que ampliam os horizontes nos espaços interpessoais.

J. Alisson dos Santos


jalisson@uol.com.br