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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

ESCOLA DE MÚSICA
Graduação em Música
DISCIPLINA: Análise Musical 2 PROFESSOR: Marcus Varela

A MISSA: UMA INTRODUÇÃO

O gênero mais importante do Renascimento foi a música feita acerca da missa


católica. A Missa foi para o compositor renascentista o que a sinfonia foi para os
compositores do século 18 e a ópera para os do século 19. Os maiores compositores
do Renascimento foram também grandes criadores de Missas. Seu maior desafio foi
organizar musicalmente este ritual religioso. Havia problemas importantes a resolver,
entre eles, decidir quais as seções da missa deveriam ser musicadas.

O termo “missa” é derivado da última seção do ritual, chamada Ite missa est,
ou seja, A congregação está desfeita. Há outros nomes para a missa, como Eucaristia,
Liturgia, Santa Comunhão ou Ceia do Senhor. A missa é o principal dentre os
serviços religiosos diários da Igreja católica. O principal ato da missa é a celebração
da última ceia de Cristo, quando ele compartilhou seu corpo e sangue com os
apóstolos simbolicamente, através do pão e do vinho. Embora existam versões
reduzidas da missa, a chamada Missa Solemnis é a celebração completa, cuja estrutura
já estava definida por volta do ano 600 d.C. São mais de 20 partes, dependendo de
como as separamos, algumas faladas e outras tradicionalmente cantadas.

A missa possui 2 grandes seções principais: Ritos de Entrada seguidos pela


Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística. Existem duas categorias de atividades
dentre as cerca de 20 seções da missa: o Próprio e o Ordinário. Na primeira estão
representadas todas as seções cujo texto muda a cada dia, de acordo com o ano
litúrgico. A segunda compreende as seções de texto fixo, invariáveis durante todo o
ano: Senhor, Glória, Credo, Santo, Cordeiro de Deus (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus,
Agnus Dei).

Foram as seções do Ordinário que os compositores decidiram musicar. Isto é


fácil de compreender se lembrarmos que seu texto é fixo e presente em toda e
qualquer missa (exceção feita à Missa de Réquiem, um caso inteiramente à parte). A
música poderia deste modo ser executada em qualquer missa.
A primeira Missa importante na música foi composta antes do Renascimento,
em 1350, por Machaut, e foi denominada Missa de Notre Dame. Ele musicou
isorritmicamente todas as partes do ordinário e as unificou melodicamente. A obra foi
escrita em textura polifônica a quatro partes, técnica muito rara na época da Alta
Idade Média. Este tipo de textura a 4 vozes só foi sistematizada no Renascimento, no
qual o sistema harmônico permitia o controle e a junção das partes organicamente.
Esta obra foi considerada extremamente ousada e dissonante para seu tempo, um
tempo anterior ao emprego sistemático da tríade.

Outro problema enfrentado pelos compositores em relação à missa era a


natureza de cada seção do ordinário. Elas eram diferentes quanto à extensão e aos
propósitos litúrgicos e ocorriam em momentos separados no decorrer do ritual. Como
poderiam os compositores unificar estas seções tão distintas em uma única
composição que soasse de modo coerente como um todo? A solução encontrada foi
usar o mesmo cantochão como base para cada seção. Isto promovia a união entre as
melodias antigas e a nova técnica, além de simbolicamente representar a presença de
um elemento “sagrado” que de outro modo não se faria notar.

Os compositores também aproveitavam a popularidade de certas melodias não


religiosas, utilizando-as como base para os movimentos da Missa, em substituição ao
cantochão.

Havia 3 tipos de missa no Renascimento, classificados de acordo com o uso


desta melodia de base:
1) Missa cantus firmus – o mais arcaico dos três, trazia a melodia de base
geralmente no tenor. As demais vozes preenchiam a textura.

2) Missa de paráfrase – a melodia de base era alterada ritmica e melodicamente


ao gosto do compositor, e podia ser encontrada em várias vozes ao mesmo
tempo. Recebia ornamentos melódicos, algumas novas notas, um contorno
rítmico mais movido e um maior sentido métrico. Realçar o cantochão original
não é o objetivo deste tipo de missa, mas ele está presente intelectualmente na
obra, mesmo que não se consiga reconhecê-lo por causa das alterações.

3) Missa de imitação – tomava-se como base não apenas a melodia, mas um


trecho polifônico de outra composição, com ou sem textura imitativa.

A Reforma Protestante de Martinho Lutero, desencadeada por volta de 1516,


gerou uma posterior reação da Igreja católica. Criou-se o Concílio de Trento, entre
1545 e 1563. Sua missão era identificar e eliminar as influências profanas e
abusos em tudo que estivesse relacionado ao catolicismo. Naturalmente a música
foi afetada. O concílio criou fortes objeções à natureza secular e expressivamente
pessoal da música da própria igreja. Foram criticados o uso de instrumentos
“barulhentos”, a polifonia que não permitia a compreensão do texto, o uso de
melodias profanas e a má pronúncia dos cantores.

O compositor Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594) conseguiu


conciliar a técnica polifônica com as exigências da igreja, provando que era
possível cantar em muitas vozes e assim mesmo entender as palavras do texto. Seu
estilo tornou-se o ideal da escrita polifônica. Escreveu entre outras obras 104
missas. Era religioso mas não era padre. Casou-se duas vezes e por causa disso
teve que abdicar de seu posto como cantor do coro da Capela Sistina.