Você está na página 1de 3

Sergio de Souza — Você concluiu seu “A Aridez das Horas” e irá lançá-los em

2019. Você publicou o poema que dá título ao volume na sua página do Facebook e
disse que é uma espécie de poema-síntese, que resume o espírito do livro.
Sabemos que você, caro poeta, é um “exilado” no sertão. Segundo o seu belíssimo
poema: “Tão somente no Sertão / Eu sinto profundamente / O peso desconcertante /
Dessa aridez que há nas horas.”

Por que você escolheu o sertão para viver? Você é um poeta sertanejo? E que relação
“mística” é essa que há entre o sertão e sua poesia?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade de colaborar com o


excelente site O Camponês, que há anos é referência para os católicos de todo o
Brasil.

Moro no sertão devido a um capricho do destino, embora eu sempre tenha nutrido


muito carinho pelo interior do Brasil. Por questões político-ideológicas, as portas
foram se fechando para mim no Recife – cidade em que nasci e onde morei até o início
de 2015 –. Então, há quatro anos, prestei um concurso para ensinar numa faculdade
de Araripina, cidade localizada no sertão pernambucano, e passei. No início, a
adaptação foi difícil, sobretudo devido ao isolamento. Mas hoje já me sinto mais
aclimatado à cidade sertaneja em que vivo, embora sinta saudades do Recife (muito
mais das pessoas do que da cidade per se). Ainda que a oferta de serviços na capital
seja infinitamente maior, uma coisa que me encanta no sertão é a solidariedade do
povo. Aqui, por incrível que pareça, o cristianismo ainda é muito forte.

Creio que o sertão, por ser uma espécie de ilha que nutre a solidão e por possuir tudo
que é “sinônimo de míngua”, pra usar as palavras de João Cabral de Neto, fez-me
enxergar com maior clareza o que é essencial na vida. Como bem disse o grande
Bento XVI, "o homem só se torna maduro quando enfrenta a própria solidão".

Igor Barbosa — Você experimenta alguma tensão entre o impulso criador e suas
convicções pessoais? Como as resolve?

Sim, meu caro confrade. Experimento, sim. Para mim, que no fundo sou um filho
tardio do Romantismo, a criação poética está diretamente ligada à ‘verdade
sentimental’. E nem sempre a ‘verdade sentimental’ anda de mãos dadas com a
‘verdade racional’, por assim dizer. Como as resolvo? Em verdade, não as resolvo
por completo. Mas, quando escrevo poemas, sempre deixo a dimensão estética
falar mais alto, ainda que alguma ideia expressada no poema incomode um pouco
a minha consciência. Então, a fim de me consolar, sempre me lembro do que disse
o Oscar Wilde, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray: “Não há livros morais e
livros imorais. Há livros bem escritos e livros mal escritos, e isto é tudo”.

Sergio de Souza — Quais são as suas grandes influências como poeta?

Comecei a gostar de poesia lendo Augusto dos Anjos e Alphonsus de


Guimaraens, com doze ou treze anos de idade. Mas minha primeira grande
influência foi Manuel Bandeira, que me ensinou que o poema deve sempre
nos comover. Com Rilke aprendi que as melhores poesias, de uma maneira
geral, focam-se nas coisas grandes e graves – coisa que Aristóteles, aliás,
já havia percebido –. E também fui muito influenciado pelo Ângelo Monteiro,
com quem confirmei e aprofundei a ideia de que o mistério é um dos fatores
mais importantes na poesia lírica.

Igor Barbosa — Para onde você espera que a poesia aponte suas armas no futuro
próximo?

O que eu espero é que os poetas saibam enxergar o que há de intemporal,


de perene no nosso tempo, seja no uso da linguagem, seja na escolha dos
temas. Que os poetas saibam enxergar o que há de vivo e de significativo
no passado, sem que com isso precisem fechar os olhos à nossa época.
Creio que a nossa geração está tentando, e talvez conseguindo, realizar
esse difícil amálgama.

Sergio de Souza — Há uma nova geração de poetas, especialmente entre os


nascidos no ambiente conservador e de direita, que se assumem como adeptos das
formas fixas, especialmente dos sonetos. Não é segredo para ninguém, que,
embora você passeie com tranquilidade também pelas formas fixas, de maneira
geral, escolhe o verso livre. Ainda assim, você se sente parte desta geração? Acha
que há uma similaridade de espírito entre esses poetas? E o que acha quando essa
aderência às formas transforma-se numa fixação, numa espécie de fetiche?

Sempre gostei muito de sonetos. Mesmo nos dias de hoje, temos poetas que honram
o molde petrarquiano: Igor Barbosa, Emmanuel Santiago, João Filho, Wladimir
Saldanha, Marra Signoreli, Wagner Schadeck, Silvério Duque, Carlos Heinig,
Pedro Mohallem, Ivanes Freitas, José Lima e mais cinco ou seis, cujos nomes
desgraçadamente não vou lembrar.

Uma coisa que nunca aprovei, no entanto, é o fetichismo do soneto, espécie de cacoete
que nasce de uma visão completamente equivocada do que é tradição. Em geral, os
fetichistas não compreendem que a tradição é sempre dinâmica, e, por isso mesmo,
não conseguem perceber a verdade profunda das palavras do Apóstolo: "A letra
mata, mas o espírito vivifica". E, agindo assim, se apegam demasiadamente à forma,
como se a Poesia, que vem do grego ποίησις, não fosse sobretudo CRIAÇÃO
IMAGINATIVA, como bem percebeu Platão, no 'Fedro'.

Quando tal erro chega ao paroxismo, os fetichistas chegam mesmo a valorizar mais
poetas menores, tais como Gonçalves Crespo ou Martins Fontes – pelo simples fato
de terem sido sonetistas – do que gigantes da poesia ocidental que escreveram versos
livres muito mais ligados ao espírito da verdadeira Tradição, tal como o T. S. Eliot,
por exemplo. Em suma, acabam valorizando mais a 'letra' (que seria a forma) do
que o espírito (que equivale às camadas mais profundas de significação do poema).

No fundo, como eu já disse várias vezes, trata-se de uma noção rasa e mal assimilada
do que significa Tradição. “Tradição não é o culto às cinzas, mas a preservação do
fogo”, como certa vez disse o compositor checo-austríaco Gustav Mahler.

Igor Barbosa — O artista tem alguma obrigação com a sociedade ou com seu
público? Quais seriam?
Creio que as únicas obrigações do artista são estudar muito e ser
profundamente sincero. O artista jamais deve produzir arte com o objetivo
de agradar o público ou a crítica, sob pena de estar traindo suas convicções
mais íntimas em nome da fama.

Sergio de Souza — Esta pergunta tem um link com a anterior. O alimento do


artista - A Beleza, os Mitos, os Símbolos, o Sagrado, os Sonhos, a Fantasia, a
Imaginação, a própria Arte? - é o mesmo alimento de que o povo necessita?

Sim. A arte é uma das maneiras mais eficientes de facilitar o acesso à


transcendência: não é à toa que todas as grandes religiões fazem uso dela.
Em meio a uma época tão materialista, tão utilitarista, tão presa ao
imanentismo político e ao pragmatismo, a arte devolve às pessoa o direito
de sonhar.

Sérgio de Souza — Você acha que com a eleição de Bolsonaro e a suposta


ascensão de um cultura que guarda valores mais tradicionais e conservadores,
acontecerá algo com a poesia (mais concretamente, com os autores e publicações)
no Brasil ou você é um grande cético sobre estas questões?

Creio que a tendência é que esses valores mais tradicionais ganhem força,
sim. Mas o problema é que, como disse o Ângelo Monteiro, “a poesia não faz
parte da cultura brasileira”. Talvez o grande poeta, a fim de dar maior ênfase
à ideia, tenha sido um pouco hiperbólico. Mesmo assim, é bastante notório
que ler poemas não é um hábito nem mesmo entre as pessoas mais cultas.
Neste sentido, é bastante elucidativo o comentário feito pelo poeta Alberto
da Cunha Melo: “Conversando com meu amigo, o sociólogo Pedro Vicente
Costa Sobrinho, que dirige editoras desde a juventude, ele me informou que
‘a poesia tem-se tornado uma arte marginal no mercado editor: os livros de
poesia, ou são publicados por iniciativa do próprio poeta ou com o apoio de
órgãos públicos’. Cada vez mais me convenço de que estou certo quando
digo, nas entrevistas, que a poesia é uma antimercadoria”. Para quem
escreve poemas, essa realidade causa uma tristeza imensa.