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Capa

Coleen McCullough
António e Cleópatra
O Primeiro Homem de Roma
VII
Difel

Badana da Capa

Coleen McCullough

Nasceu na Austrália.
Neurofisióloga, criou o departamento de Neurofisiologia do Royal Noth Shore
Hospital, em Sydney, trabalhou posteriormente em investigação e ensinou na Yale
Medical School durante dez anos.
A sua carreira literária começou com a publicação de Tim, seguido de Pássaros
Feridos, um best-seller internacional que bateu todos os recordes. A história
de Roma antiga é retratada de uma forma excepcional ao longo dos sete volumes
que compõem a série O Primeiro Homem de Roma. Todas as suas obras estão
editadas em Portugal pela Difel. Para além de romances, escreveu também a letra
das canções de um musical para teatro.
Em 2000 recebeu o Scanno, o mais importante prémio literário italiano, pela
obra A Canção de Tróia, e é hoje uma das 100 pessoas designadas como Tesouros
Nacionais Vivos da Austrália. Actualmente vive com o marido na Ilha de Norfolk,
no Pacífico Sul.

Bana da Contracapa

A Casa dos Anjos


O Toque de Midas
Tim
A Viagem de Morgan
Pássaros Feridos
Uma Obsessão Indecente
O Terceiro Milénio
Um Passo à Frente
A Canção de Tróia
O PRIMEIRO HOMEM DE ROMA
1 - Amor e o Poder
2 - Coroa de erva
3 - Os favoritos de Fortuna
4 - As mulheres de César
5 - César
6 - O Cavalo de Outubro

Contracapa

McCullough continua a sua série sobre os Senhores de Roma com a crónica de uma
das mais famosas histórias de amor da História. Após a morte de Júlio César,
Marco António, o seu ambicioso e impetuoso primo e Octaviano, o filho adoptivo
de César e seu herdeiro, concordam em administrar conjuntamente o extenso
império : António no Oriente e Octaviano no Ocidente. Este não é contudo um
acordo feliz e a rivalidade de ambos na tentativa de se tornarem os senhores de
Roma é o tema que prevalece durante toda esta saga fascinante. Após uma
desastrosa campanha para submeter os Partos, vira-se para Cleópatra, a
enigmática e fabulosamente rica rainha do Egipto, com o objectivo de angariar
fundos para a sua arca de guerra. Determinada a fazer de Cesarião, o seu filho
com Júlio César, o senhor de Roma, Cleópatra seduz António e consegue
rapidamente torná-lo tão moldável como barro macio. Entretanto, com a ajuda da
mulher e de Marco Agripa, Octaviano solidifica a sua posição em Roma e na
Itália. Instigado por Cleópatra, António reúne as forças na Grécia para invadir
a Itália.

Ficha Técnica

Título original: Anthony and Cleopatra


(c) 2007, Colleen McCullough
Todos os direitos de publicação em Portugal reservados por:
Difel
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Capa: Design de José Manuel Reis
Paginação: Henrique Pereira
Revisão: Luís Milheiro
Impressão e acabamento: Tipografia Guerra - Viseu
Depósito Legal n.° 277 873/08
ISBN 978-972-29-0902-0/Julho de 2008
Proibida a reprodução total ou parcial sem a prévia autorização do Editor

Para o indestrutível Anthony Cheetham


com amor e imenso respeito

Página de Rosto

Coleen McCullough

ANTÓNIO E CLEÓPATRA

Tradução de Rute Rosa da Silva

Ddifel

Índice
Lista de Mapas 10
Parte 1 - António no Oriente 41 a. C. a 40 a. C. 11
Parte 2 - Octaviano no Ocidente 40 a. C. a 39 a. C. 97
Parte 3 - Vitórias e Derrotas 39 a. C. a 37 a. C. 199
Parte 4 - A Rainha das Bestas 36 a. C. a 33 a. C. 279
Parte 5 - Guerra 32 a. C. a 30 a. C. 435
Parte 6 - Metamorfoses 29 a. C. a 27 a. C. 561
Glossário 575

LISTA DE MAPAS
O Oriente de António 15
Alexandria depois da Guerra de Alexandria 38
O Ocidente de Octaviano 109
A Marcha de António para Fraaspa 294
As Províncias Continentais 317
O Egipto de Cleópatra 405
A Campanha de Ácio 482

I
António no Oriente
41 a. C. A 40 a. C.
Quinto Délio não era um homem agressivo nem um guerreiro nas batalhas. Sempre
que podia concentrava-se naquilo que melhor sabia fazer, nomeadamente
aconselhar os seus superiores de forma tão subtil que estes acabavam por
acreditar que as ideias eram genuinamente suas.
Assim, após Filipos, conflito em que nem se distinguiu nem ficou malvisto aos
olhos dos seus comandantes, Délio decidiu ligar a sua humilde pessoa a Marco
António e seguir para leste.
Nunca era possível, pensou Délio, escolher Roma; acabava sempre por se resumir
tudo à escolha de uma facção no meio das tremendas e conturbadas lutas dos
homens que estavam determinados a controlar - não, sê honesto, Quinto Délio! -
determinados a reinar sobre Roma. Depois do assassínio de César por Bruto,
Cássio e os outros, toda a gente partira do princípio de que o primo chegado de
César, Marco António, herdaria o seu nome, a sua fortuna e a sua clientela de,
literalmente, milhões de clientes. Mas o que fizera César? Um testamento e
últimas vontades em que deixava tudo ao seu sobrinho-neto de dezoito anos, Gaio
Octávio! Nem sequer mencionara António no testamento, um golpe de que este
nunca recuperara totalmente, tão certo que estivera de vir a herdar as botas
altas de cabedal vermelho de César e de tomar o lugar deste. E, como era típico
de António, não fizera quaisquer planos para ficar em segundo lugar. A
princípio o jovem, a quem toda a gente chamava agora Octaviano, não o
preocupara; António era um homem no seu apogeu, um general famoso e detentor de
uma grande facção de seguidores no Senado, enquanto que Octaviano era um
adolescente enfermiço, tão fácil de esmagar como a carapaça de um escaravelho.
Só que as coisas não tinham corrido dessa maneira e António não soubera como
lidar com o rapaz manhoso de rosto doce e o intelecto e a sabedoria de um
septuagenário. A maior parte de Roma partira do princípio de que António, um
gastador célebre que precisava desesperadamente da fortuna de César para pagar
as dívidas, tinha feito parte da conspiração para eliminar César, e a sua
conduta após o evento só reforçara essa ideia.

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Não fez qualquer tentativa para punir os assassinos; pelo contrário, concedeu-
lhes virtualmente toda a protecção da lei. Mas Octaviano, que estava
apaixonadamente ligado a César, desgastara gradualmente a autoridade de António
e forçara-o a condenar os assassinos. Como conseguira fazê-lo? Subornando uma
boa percentagem das legiões de António e ganhando-as para a sua causa,
conquistando o povo de Roma e roubando os trinta mil talentos da arca de guerra
de César de uma forma tão brilhante que ninguém, nem mesmo António, conseguira
provar que fora Octaviano o ladrão. Assim que Octaviano dispôs de soldados e de
dinheiro, não deu a António alternativa senão reconhecer-lhe o poder como a um
igual. Depois disso, Bruto e Cássio fizeram a sua própria tentativa de
conquistar o poder. Aliados contrafeitos, António e Octaviano conduziram as
suas legiões para a Macedónia e defrontaram as forças de Bruto e de Cássio em
Filipos. Uma grande vitória para António e Octaviano que não resolvera contudo
a irritante questão de quem governaria como Primeiro Homem em Roma; um rei sem
coroa, respeitando apenas formalmente a ilusão vazia de que Roma era uma
república governada por uma câmara alta, o Senado, e por várias Assembleias do
Povo. Juntos, o Senado e o Povo de Roma: senatus populusque Romanus, SPQR.
Tipicamente, continuaram a vaguear os pensamentos de Délio, a vitória em
Filipos encontrara Marco António sem qualquer estratégia para expulsar
Octaviano da equação do poder, pois António era uma força da natureza, lascivo,
impulsivo, com mau génio e sem qualquer capacidade de planeamento. O seu
magnetismo pessoal era grande, do tipo que atrai homens através das qualidades
mais másculas: coragem, um físico hercúleo, uma merecida reputação de amante de
mulheres e inteligência suficiente para o tornarem um orador formidável no
Senado. As suas fraquezas tendiam a ser desculpadas, pois eram igualmente
masculinas: os prazeres da carne e uma generosidade impetuosa.
A sua solução para o problema com Octaviano foi dividir entre os dois o mundo
romano, com um pedaço atirado a Marco Lépido, sumo sacerdote e senhor de uma
grande facção no Senado. Sessenta anos de guerras civis intermitentes tinham
acabado por levar Roma à falência e o seu povo - e o povo de Itália - gemia sob
o peso de rendimentos apertados, escassez de trigo para o pão e uma crescente
convicção de que os seus superiores, quem os governava, eram incompetentes e
venais. Sem querer reconhecer o seu estatuto enfraquecido de herói popular,
António resolveu ficar com a parte de leão e deixar a carcaça apodrecida ao
chacal do Octaviano.
Fora assim que, após Filipos, os vencedores tinham despedaçado as províncias
para agradar a António e não a Octaviano, que herdou as partes menos
invejáveis: Roma, Itália e as grandes ilhas da Sicília, Sardenha e Córsega,
onde era cultivado o trigo para alimentar os povos de Itália que, desde há
muito tempo, eram incapazes de se alimentar a si próprios. Era uma táctica que
estava de acordo com a personalidade de António, que garantia assim que o único
rosto a ser visto por Roma e por Itália seria o de Octaviano enquanto que os
relatos dos seus feitos gloriosos, alcançados lá longe, eram diligentemente
postos a circular através de Roma e da Itália.

<Mapa - omitido>

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Octaviano receberia o ódio, enquanto que ele próprio, o corajoso conquistador


de louros, se distanciava do governo central. Quanto a Lépido, ficara com a
outra província cerealífera, África, uma terra verdadeiramente atrasada.
Ah, mas Marco António ficara mesmo com a parte de leão! Não apenas das
províncias, mas também das legiões. A única coisa que lhe faltava era dinheiro,
que esperava conseguir espremer da eterna galinha dos ovos de ouro que era o
Oriente. Evidentemente que ficara para si com as três Gálias. Apesar de serem
no Ocidente, tinham sido completamente pacificadas por César e eram
suficientemente ricas para poderem contribuir com fundos para as campanhas que
se avizinhavam. Os seus marechais de confiança comandavam as legiões gaulesas,
que eram muitas; a Gália conseguia sobreviver sem a sua presença.
César fora assassinado três dias antes de partir para o Oriente, onde
tencionara conquistar o fabulosamente rico e formidável reino dos Partos e usar
o saque ali conseguido para pôr Roma novamente de pé. António estudara os
planos de César e concluíra que estes transpareciam todo o brilhantismo do
velhote, mas que ele próprio conseguiria melhorá-los. Uma das razões por que
chegara a essa conclusão era a da natureza dos homens que iriam com ele para o
Oriente. Todos e cada um deles eram uns vermes, uns aduladores que sabiam
exactamente como manipular aquele tubarão, Marco António, que era muitíssimo
permeável aos elogios e à lisonja.
Infelizmente, Quinto Délio ainda não tinha acesso a Marco António. No entanto,
se tivesse, teria dado conselhos igualmente lisonjeadores, um bálsamo para o
ego de António. E assim, cavalgando Via Egnácia abaixo, num cavalo esfolado e
nodoso, com os tomates doridos e as pernas penduradas e magoadas, Quinto Délio
aguardava a sua oportunidade que ainda não se apresentara quando António
atravessou para a Ásia e se deteve em Nicomédia, a capital da província da
Bitínia.
Todos os potentados e reis-clientes que Roma tinha no Oriente tinham sabido, de
uma forma ou de outra, que o grande Marco António se dirigiria para Nicomédia e
tinham acorrido ali às dúzias, apossando-se das melhores pousadas ou acampando
em grande estilo nos arredores da cidade. Era um local lindo, com a sua baía
plácida e sonhadora, um local que a maioria das pessoas esquecera ser muito
querido do falecido César. Mas devido a esse facto, Nicomédia continuava a ter
um ar próspero, pois César isentara-a de impostos e Bruto e Cássio, ao
apressarem-se para ocidente na direcção da Macedónia, não se tinham aventurado
suficientemente para norte para a saquearem, como tinham feito a uma centena de
cidades da Judeia até à Trácia. Por isso o palácio de mármore rosado e púrpura
em que António se instalou podia oferecer aos legados como Délio um pequeno
quarto para arrumar a bagagem e o seu criado mais importante, o seu liberto
Ícaro.
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Depois de tratar desse assunto, Délio saiu para ver o que se passava e arranjar
uma maneira de conseguir um lugar num divã suficientemente próximo de António
para poder participar na conversa do Grande Homem durante o jantar.
Inúmeros reis enchiam os salões públicos, pálidos e com os corações palpitantes
por terem apoiado Bruto e Cássio. Até mesmo o velho rei Deiotaro da Galácia,
antigo em idade e anos de serviço, fizera um esforço para vir, escoltado por
dois dos seus filhos que Délio deduziu serem os seus preferidos. O amigo do
peito de António, Publícola, apontara-lho, mas depois disso, o próprio
Publícola admitira sentir-se perdido - demasiados rostos e um tempo demasiado
curto de serviço no Oriente para ser capaz de os reconhecer.
Sorrindo timidamente, Délio movia-se por entre os grupos de gente
espalhafatosamente vestida, com os olhos brilhantes perante a dimensão das
esmeraldas ou o peso do ouro em determinado penteado. O seu grego era,
evidentemente, bom e Délio pôde conversar com aqueles detentores de poder
absoluto sobre terras e povos, abrindo mais o sorriso ao pensar que, não
obstante as esmeraldas e o ouro, todos eles estavam ali para prestar uma
homenagem obsequiosa a Roma, o seu verdadeiro senhor. Roma, que não tinha rei e
cujos magistrados mais importantes envergavam uma simples toga branca debruada
a púrpura e que valorizava o anel de ferro de alguns senadores acima de uma
tonelada de anéis de ouro; um anel de ferro significava que uma família romana
detivera cargos públicos, de forma mais ou menos constante, ao longo de
quinhentos anos. Uma ideia que fez com que o pobre Délio escondesse
automaticamente o seu anel senatorial de ouro nas pregas da toga. Nenhum Délio
tinha conseguido ainda um consulado, nenhum Délio fora proeminente cem anos
antes, quanto mais quinhentos. César usara um anel de ferro, mas António não;
os Antónios não eram ainda suficientemente antigos. E o anel de ferro de César
passara para Octaviano.
Oh, ar, ar! Precisava de ar fresco!
O palácio fora erguido em torno de um enorme jardim com peristilo e tinha uma
fonte ao centro, oposta a um lago comprido e baixo. Este fora construído com
puro mármore branco de Paros e temas ligados à pesca - sereias, tritões,
golfinhos -, sendo excepcional o facto de nunca ter sido pintado para imitar as
cores da vida real. Quem quer que tivesse sido o escultor daquelas criaturas
gloriosas, fora um mestre; um conhecedor das belas-artes, Délio foi atraído
para a fonte com uma rapidez tal que nem reparou que alguém chegara lá antes
dele e se sentara, com um ar miserável, no muro largo. Quando Délio se
aproximou, o homem ergueu a cabeça; agora não havia hipótese de evitar o
encontro.
Era estrangeiro e tratava-se de um nobre, pois envergava um manto dispendioso
de brocado de púrpura de Tiro, artisticamente entretecido a fio de ouro e, na
cabeça coberta com caracóis negros e oleosos como cobras, assentava um solidéu
feito de tecido dourado. Délio já vira um número suficiente de orientais para
perceber que os caracóis não eram oleosos por estarem sujos; os orientais
oleavam os cabelos com cremes perfumados.

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A maioria dos suplicantes no interior do edifício eram gregos cujos


antepassados viviam no Oriente há séculos, mas aquele homem era um asiático
genuíno, de um género que Délio reconheceu por haver muitos como ele a viver em
Roma. Oh, não vestidos com púrpura de Tiro e com ouro! Sujeitos discretos que
preferiam tecidos caseiros de cores vulgares e escuras. Ainda assim o aspecto
era inconfundível; o homem sentado no muro da fonte era judeu.
- Posso fazer-te companhia? - perguntou Délio em grego com um sorriso
encantador.
Um sorriso igualmente encantador apareceu no rosto de maxilares pesados do
desconhecido; fez um gesto com a mão perfeitamente tratada e carregada de
anéis.
- Faz o favor. Sou Herodes da Judeia.
- E eu sou Quinto Délio, legado romano.
- Não conseguia aguentar a multidão lá dentro - disse Herodes torcendo os
lábios grossos. - Pffff! Alguns daqueles ingratos não tomam banho desde que a
parteira os limpou com um trapo sujo.
- Disseste que te chamas Herodes. Não usas rei nem príncipe antes do nome?
- Devia usar! O meu pai era Antípatro, um príncipe da Idumeia que era o braço
direito do rei Hircano dos Judeus. Depois os lacaios de um dos pretendentes ao
trono mataram-no. Era demasiado querido dos Romanos, incluindo César. Mas eu
tratei do seu assassino - disse Herodes com a voz repleta de satisfação. -Vi-o
morrer debatendo-se no meio dos cadáveres fedorentos dos moluscos de Tiro.
- Não é morte para um judeu - disse Délio que tinha conhecimentos suficientes
para estar ciente desse facto. Observou Herodes mais atentamente, fascinado
pela feiura do homem. Apesar de os seus antepassados estarem nos antípodas uns
dos outros, Herodes tinha uma estranha semelhança com o amigo íntimo de
Octaviano, Mecenas - ambos tinham ar de sapo. Os olhos protuberantes de
Herodes, contudo, não eram azuis como os de Mecenas; eram do negro brilhante e
duro da obsidiana. - Tanto quanto me recordo - continuou Délio -, todo o Sul da
Síria tomou o partido de Cássio.
- Incluindo os Judeus. E eu pessoalmente estou em dívida para com o homem, por
mais que a Roma de António lhe chame traidor. Foi ele que me deu permissão para
matar o assassino do meu pai.
- Cássio era um guerreiro - disse Délio pensativamente. - Se Bruto também o
tivesse sido, o resultado em Filipos poderia ter sido diferente.
- Um passarinho disse-me que António também sofreu o embaraço de um companheiro
inapto.
- Mas que estranhas, as coisas que os passarinhos dizem - respondeu Délio com
um sorriso. - Que te traz então ao encontro de Marco António, Herodes?
- Terás reparado em cinco pardais sem graça no meio dos bandos de faisões
vistosos que lá estão dentro?

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- Não, não posso dizer que tenha. Todos me pareceram faisões vistosos.
- Oh, eles estão lá, os meus pardais do Sinédrio! Preservando a sua
singularidade e afastando-se o mais que podem de todos os outros.
- Isso, ali dentro, significa que devem estar escondidos atrás de uma coluna.
- Verdade - disse Herodes. - Mas quando António aparecer, abrirão caminho até à
frente, uivando e batendo no peito.
- Não me disseste porque estás aqui.
- Na verdade é mais por os cinco pardais aqui estarem. Vigio-os como um falcão.
Tencionam falar com o triúnviro Marco António para lhe exporem o seu caso.
- E qual é o caso deles?
- Dizem que ando a intrigar contra a sucessão legítima e que eu, um gentio,
consegui aproximar-me o suficiente do rei Hircano e da sua família para ser
aceite como pretendente à filha da rainha Alexandra. Esta é uma versão
abreviada, mas contar a história toda levaria anos.
Délio fixou nele os perspicazes olhos castanhos e pestanejou.
- Um gentio? Mas pensei que tinhas dito que eras judeu.
- Não de acordo com a lei mosaica. O meu pai casou-se com a princesa Cypros da
Nabateia. Uma árabe. E como para os Judeus a descendência é matrilinear, os
filhos do meu pai são gentios.
- Então... então o que esperas conseguir aqui, Herodes?
- Tudo, se me deixarem fazer o que é preciso. Os Judeus precisam de uma bota
pesada em cima dos pescoços... podes perguntar a qualquer governador romano da
Síria desde que Pompeu Magno fez daquela terra uma província. Tenciono ser rei
dos Judeus quer eles gostem quer não. E consigo-o. Se me casar com uma princesa
dos Asmoneus, descendente directa de Judas Macabeu. Os nossos filhos serão
judeus e eu tenciono ter muitos filhos.
- Estás então aqui para te defenderes? - perguntou Délio.
- Estou. A delegação do Sinédrio vai exigir que eu e os membros da minha
família sejamos exilados sob pena de morte. Não conseguirão fazê-lo sem a
permissão de Roma.
- Bem, não terão tido grande vantagem em ter apoiado Cássio, o derrotado -
disse Délio alegremente. - António terá que escolher entre duas facções que
apoiaram o homem errado.
- Mas o meu pai apoiou Júlio César - disse Herodes. - O que eu tenho que
conseguir é convencer Marco António de que, se me permitirem viver na Judeia e
melhorar o meu estatuto, tomarei sempre o partido de Roma. Ele esteve na Síria
há anos, quando Gabínio era governador, portanto deve ter consciência de como
os Judeus são rebeldes. Mas lembrar-se-á ele de que o meu pai ajudou César?
- Hum - ronronou Délio semicerrando os olhos na direcção do arco-íris que se
formara no reflexo das gotas de água que jorravam da boca de um golfinho. -

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Porque haveria Marco António de se lembrar de tal coisa quando, mais


recentemente, foste apoiante de Cássio? Tal como, segundo sei, o teu pai também
foi antes de morrer.
- Eu não sou um mau advogado, conseguirei defender o meu caso.
- Desde que te dêem essa oportunidade. - Délio levantou-se e estendeu a mão
apertando calorosamente a de Herodes. - Desejo-te felicidades, Herodes da
Judeia. Se conseguir ajudar-te, fá-lo-ei.
- Verás que te ficarei muito grato.
- Disparates! - riu-se Délio enquanto se afastava. - Trazes vestida toda a tua
riqueza.
Marco António tinha-se mantido espantosamente sóbrio desde que iniciara a
marcha para o Oriente, mas os sessenta homens da sua comitiva estavam à espera
que Nicomédia assistisse à erupção de António, o Sibarita, Opinião que era
partilhada por uma trupe de músicos e bailarinos que tinham vindo
apressadamente de Bizâncio ao terem notícias da sua chegada à região; da
Hispânia à Babilónia, todos os membros da Liga dos Artistas Dionisíacos
conhecia o nome de Marco António. Depois, para espanto geral, António despedira
a trupe com um saco de ouro e mantivera-se sóbrio, apesar de no seu rosto feio-
belo a expressão ser de melancolia e tristeza.
- Não é possível, Publícola - disse ao seu melhor amigo com um suspiro. -Viste
quantos potentados estavam de ambos os lados da estrada quando chegámos? E que
encheram os salões assim que o criado abriu as portas? Bem, estão todos aqui
para verem se conseguem marchar sobre Roma... e sobre mim. Bem, não tenciono
permitir que tal aconteça. Não escolhi o Oriente para meu território para me
sugarem as riquezas em que o Oriente é tão abonado. Portanto vou fazer justiça
em nome de Roma com a cabeça limpa e o estômago calmo. - Deu uma risada. - Oh,
Lúcio, lembras-te de como Cícero ficou agoniado quando lhe vomitei a toga, na
rostra? - Outra risada e um encolher de ombros. - Negócios, António, negócios!
- Repreendeu-se a si próprio. - Aclamam-me como o novo Dioniso, mas por agora
serei o velho Saturno sensaborão. - Os olhos castanho-avermelhados, demasiado
juntos para agradarem aos escultores de esfinges, brilharam. - O novo Dioniso!
Deus do vinho e do prazer... devo dizer que a comparação me agrada. O melhor
que fizeram por César foi chamar-lhe simplesmente Deus.
Conhecendo António desde os tempos da infância de ambos, Publícola não disse
que achava que Deus era superior a deus Disto ou Daquilo; a sua principal
missão era manter António a governar, pelo que recebeu com alívio aquele
discurso. Aquela era uma característica de António; conseguia parar
repentinamente com as bebedeiras - por vezes durante meses a fio -,
especialmente quando o seu instinto de sobrevivência entrava em acção. Como era
evidentemente o caso naquele momento.

21

E ele tinha razão; a invasão dos potentados era sinónimo de problemas e de


trabalho árduo, exigia que António os conhecesse individualmente, ficasse a
saber quais os governantes que se deveriam manter no trono e quais os que
deveriam perder. Por outras palavras, quais os governantes melhores para Roma.
Tudo aquilo significava que Délio alimentava poucas esperanças de conseguir
alcançar o seu objectivo de chegar mais perto de António na Nicomédia. Depois a
Fortuna entrou em acção, começando com a ordem de António para que o jantar não
fosse servido à tarde mas só depois. E quando o olhar de António se passeava
pelos sessenta romanos que entravam na sala de jantar, por uma qualquer razão
obscura, iluminou-se quando pousou em Quinto Délio. Havia algo nele que
agradava ao Grande Homem, apesar de não ter a certeza do que era; talvez a
sensação de calma com que Délio conseguia envolver até mesmo os assuntos mais
desagradáveis, como se usasse um bálsamo.
- Ei, Délio! - rugiu. - Junta-te a mim e a Publícola!
Os irmãos Decídio Saxa ficaram irritados, assim como Barbácio e mais uns
quantos, mas ninguém disse nada quando o maravilhado Délio deixou cair a toga
no chão e se sentou nas costas do divã que formava a base do U. Enquanto um
criado apanhava a toga e a dobrava - uma tarefa difícil -, um outro descalçava
os sapatos de Délio e lavava-lhe os pés. Délio não cometeu o erro de ocupar o
locus consularis; esse seria ocupado por António com Publícola ao meio. A sua
posição era na extremidade mais afastada do divã, o lugar menos desejável em
termos sociais, mas para Délio... que promoção! Sentia os olhos ferrados nele,
os cérebros por trás desses olhos ocupadíssimos a tentar descobrir o que fizera
ele para merecer tal promoção.
A refeição foi boa ainda que não suficientemente romana - demasiado borrego,
peixe sensaborão, temperos bizarros, molhos estranhos. No entanto estava
presente um escravo pimenteiro com o seu almofariz e pilão e se o comensal
romano podia, com um estalar de dedos, obter uma pitada de pimenta acabada de
moer, tudo se tornava comestível, até mesmo a carne cozida dos Germanos. O
vinho samnita corria em abundância apesar de bastante aguado; assim que viu que
António bebia o vinho misturado com água, Délio imitou-o.
A princípio não disse nada, mas quando começaram a retirar os pratos principais
e a trazer os doces, António arrotou sonoramente, deu uma palmadinha no
estômago plano e suspirou com satisfação.
- Então, Délio, que achaste da enorme variedade de reis e de príncipes? -
perguntou afavelmente.
- Uma gente muito estranha, Marco António, especialmente para quem nunca esteve
no Oriente.
- Estranha? Sim, são mesmo estranhos! Manhosos como ratazanas dos esgotos, com
mais caras do que Jano e punhais tão aguçados que nem os sentimos entrar por
entre as costelas. É estranho, mas apoiaram Bruto e Cássio contra mim.

22

- Não é assim tão estranho - disse Publícola que era guloso e estava a devorar
uma mistura de sementes de sésamo com mel. - Cometeram o mesmo erro com César:
apoiaram Pompeu Magno. Tu fizeste campanhas no Ocidente, tal como César. Não
conheciam aquilo de que eras feito. Bruto não era ninguém, mas para eles Gaio
Cássio tinha uma certa magia. Escapou à aniquilação com Crasso, em Carras, e
depois governou a Síria com enorme competência com a provecta idade de trinta
anos. Cássio era do género de material com que as lendas são feitas.
- Concordo - disse Délio. - O mundo deles está limitado à extremidade oriental
do Nosso Mar. O que se passa na Hispânia e nas Gálias, na extremidade
ocidental, é o desconhecido.
- Verdade. - António fez uma careta na direcção dos pratos açucarados que
estavam sobre a mesa baixa na frente do divã. - Publícola limpa a cara! Não sei
como consegues comer essas papas meladas.
Publícola chegou-se para trás no divã e António olhou para Délio com uma
expressão que transmitia a compreensão de muito daquilo que Délio esperava
ocultar: a penúria, o estatuto de Homem Novo, a ambição evidente.
- Houve alguma das ratazanas dos esgotos que te tivesse agradado, Délio?
- Uma, Marco António. Um judeu chamado Herodes.
- Ah! A rosa entre as cinco ervas daninhas.
- A metáfora dele foi aviária: o falcão entre os pardais. António riu-se com
uma gargalhada sonora e rouca.
- Bem, com Deiotaro, Ariobarzanes e Farnaces aqui, não me parece que vá ter
muito tempo para dedicar a meia dúzia de judeus quezilentos. No entanto não é
para admirar que as cinco ervas daninhas detestem a nossa rosa Herodes.
- Porquê? - perguntou Délio assumindo uma expressão de espanto interessado.
- Para começar por causa dos atavios. Os Judeus não se enfarpelam com ouro e
púrpura de Tiro, é contra as suas leis. Nada de ornamentos reais, nem de
imagens e o ouro que possuem é guardado no Grande Templo em nome de todo o
povo. Crasso saqueou dois mil talentos de ouro do Grande Templo antes de partir
à conquista do reino dos Partos. Os Judeus amaldiçoaram-no e ele morreu
ignominiosamente. Depois veio Pompeu Magno a pedir ouro e depois César e depois
Cássio. Eles esperam que eu não faça o mesmo, mas sabem que o farei. Tal como
César, pedir-lhes-ei uma soma igual à que Cássio pediu.
Délio franziu o sobrolho. -Eu não... ah...
- César pediu uma soma igual à que eles tinham dado ao Magno.
- Oh, estou a ver! Perdoa-me a ignorância.
- Todos nós estamos aqui para aprender, Quinto Délio, e tu pareces-me ser capaz
de aprender depressa. Fala-me lá então desses judeus. O que querem as ervas
daninhas e o que quer Herodes, a rosa?

23

- As ervas daninhas querem Herodes exilado sob pena de morte - disse Délio
abandonando a metáfora aviária. Se António preferia a sua própria metáfora,
então Délio também a preferia. - Herodes quer um decreto romano que lhe permita
viver livremente na Judeia.
- E qual das duas opções trará mais benefícios a Roma?
- Herodes - respondeu Délio sem hesitar. - Ele pode não ser judeu de acordo com
os conceitos deles, mas quer reinar sobre eles casando-se com uma princesa
qualquer com o sangue indicado. Se ele for bem-sucedido, creio que Roma ficará
com um aliado fiel.
- Délio, Délio! Certamente que não achas que o Herodes é fiel?
O rosto com alguns traços de fauno franziu-se num sorriso malicioso.
- Certamente, desde que isso seja do seu interesse. E como ele sabe que o povo
que quer governar o odeia o suficiente para o matar à mínima oportunidade, Roma
ser-lhe-á sempre mais útil do que o seu próprio povo. Enquanto Roma for sua
aliada, ele estará a salvo de tudo excepto de um envenenamento ou de uma
emboscada e não estou a vê-lo a beber ou a comer o que quer que seja que não
tenha sido exaustivamente provado, nem a sair sem a escolta de homens não
judeus a que paga extraordinariamente bem.
- Obrigado, Délio!
Publícola interpôs o corpo entre os dois.
- Resolveste um problema, hei, António?
- Com alguma ajuda de Délio, sim. Mordomo, desimpede a sala! - gritou António.
- Onde está Lucílio? Preciso do Lucílio!
Na manhã seguinte os cinco membros do Sinédrio judaico descobriram que eram os
primeiros da lista de suplicantes que o arauto de Marco António chamou. António
envergava a túnica branca debruada a púrpura e tinha na mão o simples bastão de
marfim que simbolizava o seu alto imperium, tinha um ar imponente. Ao seu lado
estava o seu querido secretário, Lucílio, que pertencera a Bruto. Doze lictores
com vestes carmins estavam alinhados de ambos os lados da sua cadeira curul,
com os feixes de varas com o machado equilibrados junto aos pés. Uma plataforma
elevava-os acima da sala apinhada.
O chefe do Sinédrio começou a falar em bom grego, mas num estilo de tal forma
floreado e retorcido, que levou uma eternidade entediante para os identificar
aos cinco e a razão de terem sido enviados como delegados a um local tão
distante para falar com o triúnviro Marco António.
- Oh! Cala-te! - ladrou António sem pré-aviso. - Cala-te e vai para casa! -
Tirou um rolo de pergaminho das mãos de Lucílio, desenrolou-o e brandiu-o
ferozmente. - Este documento foi encontrado no meio dos papéis de Gaio Cássio
em Filipos. Afirma que Antípatro, tesoureiro do, à época, intitulado rei
Hircano, e os seus filhos Fasael e Herodes, conseguiram angariar algum ouro
para a causa de Cássio.

24

Os Judeus não pagaram nada, com excepção da taça de veneno para Antípatro.
Pondo de parte o facto de o ouro ter ido para o partido errado, não deixa de
estar claro aos meus olhos que os Judeus têm muito mais amor ao ouro do que a
Roma. Quando eu chegar à Judeia, o que irá mudar a esse respeito? Ora, nada!
Nesse homem, no Herodes, vejo alguém que está disposto a entregar a Roma os
tributos e impostos que lhe são devidos... e que servem, recordo-vos, para
preservar a paz e o bem-estar dos vossos reinos! Quando deram dinheiro a
Cássio, limitaram-se a financiar o seu exército e as suas frotas! Cássio era um
traidor sacrílego que se apropriou daquilo que pertencia a Roma de direito! Ah,
estás a tremer Deiotaro? Pois tens boas razões para isso!
Tinha-me esquecido, pensou Délio, que assistira à cena, como ele consegue ser
cáustico. Está a usar os Judeus para os informar a todos de que não será
misericordioso.
António voltou ao assunto.
- Em nome do Senado e do Povo de Roma, ordeno que Herodes, o seu irmão Fasael e
toda a sua família, sejam livres de viver em qualquer parte dos territórios
romanos, incluindo a Judeia. Não posso evitar que Hircano se intitule rei do
seu povo, mas aos olhos de Roma ele não é mais nem menos do que um etnarca. A
Judeia deixou de ser um só território. São cinco pequenas regiões salpicadas à
volta do Sul da Síria e assim continuará a ser. Hircano pode ficar com
Jerusalém, Gazara e Jericó. Fasael, o filho de Antípatro, será o tetrarca de
Séfora. Herodes, o filho de Antípatro, será o tetrarca de Amatunte. E ficam
avisados! Se houver algum problema no Sul da Síria, esmagarei os Judeus como se
fossem cascas de ovo!
Consegui, consegui!, gritou Délio para consigo, rebentando de felicidade.
António ouviu-me!
Herodes estava junto à fonte, mas o seu rosto estava contraído e pálido e não
repleto da alegria que Délio esperara ver. O que se passava? Qual poderia ser o
problema? Chegara ali um pobre sem reino e partiria um tetrarca.
- Não estás satisfeito? - perguntou Délio. - Ganhaste sem sequer teres que
defender a tua posição, Herodes.
- Porque é que António tinha que promover também o meu irmão? - perguntou
Herodes bruscamente, embora se dirigisse a alguém que não estava presente. -
Ele pôs-nos em pé de igualdade! Como poderei casar com Mariana sendo Fasael não
só meu igual em estatuto, como meu irmão mais velho? Será Fasael que a
desposará!
- Vamos, vamos - disse Délio suavemente. - Nada disso aconteceu ainda, Herodes.
Por agora aceita a decisão de António como algo mais do que aquilo que
esperavas obter. Ele tomou o teu partido... os cinco pardais ficaram com as
asas cortadas.

25

- Sim, sim, compreendo tudo isso, Délio, mas este Marco António é esperto! Ele
quer aquilo que todos os romanos com visão querem: equilíbrio. E deixar-me a
mim sozinho em pé de igualdade com Hircano não é uma solução suficientemente
romana. Fasael e eu num dos pratos da balança e Hircano no outro. Oh, Marco
António, como és esperto! César era um génio, mas pensava que tu eras burro.
Agora descubro que és outro César.
Délio ficou a ver Herodes afastar-se com a cabeça à roda. Entre a breve
conversa do jantar e a audiência daquele dia, Marco António fizera algumas
investigações. Fora por isso que gritara por Lucílio! E que fraude que eles
eram, ele e Octaviano! Tinham queimado todos os papéis de Bruto e de Cássio uma
ova! Mas, tal como Herodes, eu pensava que o António era um burro educado. E
não é! E não é! Vai meter a colher em tudo no Oriente, elevando um homem e
despromovendo outro, até todos os reinos-clientes e satrapias serem
completamente seus. Não de Roma. Seus. Mandou Octaviano de regresso a Itália
com uma tarefa suficientemente pesada para dar cabo de um jovem tão fraco e
enfermiço mas, para o caso de Octaviano não quebrar, António estará preparado.
Quando António deixou a capital da Bitínia todos os potentados, com excepção de
Herodes e dos cinco membros do Sinédrio, o acompanharam, insistindo em
proclamar a sua lealdade aos novos governantes de Roma, continuando a afirmar
que Bruto e Cássio os tinham enganado, mentido - ai, ai, ai, os tinham forçado!
Tendo pouca paciência para as lamentações e choros orientais, António não fez o
mesmo que Pompeu, o Grande, César e todos os outros tinham feito: convidar o
mais importante dentre eles para jantar e para viajar na sua comitiva. Não,
Marco António fez de conta que os seus reais companheiros de acampamento não
existiam durante todo o caminho de Nicomédia a Ancira, a única cidade com um
tamanho razoável em toda a Galácia.
Ali, na vastidão das planícies da mais fértil região de pastagens a leste da
Gália, viu-se forçado a fixar residência no palácio de Deiotaro e a esforçar-se
por ser amistoso. A estada durou quatro dias e três deles já foram um
sacrifício, mas nesse período António informou Deiotaro de que este manteria o
seu reino... de momento. Ao seu segundo filho preferido, Deiotaro Filadelfo,
foi atribuído um domínio selvagem e montanhoso na Paflagónia (que não tinha
utilidade para ninguém) enquanto que o seu filho preferido, Castor, não recebeu
nada e o que o velho rei deveria ter concluído desse facto estava fora do
alcance das suas faculdades mentais, em declínio. Para todos os romanos que
acompanhavam António, aquilo significava que, a seu tempo, seriam feitas
mudanças drásticas na Galácia e que estas não favoreceriam nenhum dos
Deiotaros.

26

Para obter informações acerca da Galácia, António conversou com o secretário do


velho rei, um nobre gaiata chamado Amintas, que era jovem, educado, eficiente e
com visão.
- Pelo menos - disse António jovialmente quando a coluna romana partiu para a
Capadócia -, perdemos uma percentagem significativa dos penduras! Aquele idiota
chapado do Castor até trouxe o tipo que lhe corta as unhas dos pés. É
espantoso, como um guerreiro como o Deiotaro, produziu um maricas daqueles.
Dirigia-se a Délio, que cavalgava agora uma égua castanha e branca com uma
passada suave e passara o cavalo rabugento a ícaro, que antes se vira forçado a
caminhar.
- Perdeste também Farnaces e a sua corte - disse Délio.
- Pff! Ele nem devia ter vindo. - Os lábios de António franziram-se com
desprezo. - O pai dele era um homem melhor e o avô muito melhor ainda.
- Referes-te ao grande Mitrídates?
- E há outro? Aquele sim, era um homem, Délio, um homem que quase derrotou
Roma. Formidável.
- Pompeu Magno derrotou-o com facilidade.
- Disparate! Foi Lúculo quem o derrotou. Pompeu Magno limitou-se a colher os
frutos dos esforços de Lúculo. Tinha esse hábito, o Magno. Mas a sua vanglória
acabou por ser o seu fim. Começou a acreditar na sua própria publicidade.
Imagina haver quem, romano ou não, pudesse imaginar que ele poderia derrotar
César!
- Tu terias derrotado César sem problemas, António - disse Délio sem qualquer
vestígio de lisonja na voz.
-Eu? Nem que todos os deuses que existem combatessem do meu lado! César era
absolutamente único e não é vergonha nenhuma admiti-lo. Comandou cinquenta
batalhas e não perdeu uma única. Oh, poderia bater Magno se ele ainda fosse
vivo... ou Lúculo ou até mesmo Gaio Mário. Mas César? Alexandre, o Grande,
teria sido derrotado por ele.
A voz, um tenor agudo surpreendente num homem tão corpulento, não transparecia
qualquer ressentimento. Nem sequer, pensou Délio, culpa. António subscreve
totalmente a forma romana de encarar as coisas: como não ergueu um dedo sequer
contra César, pode dormir tranquilo durante a noite. Conspirar e planear não é
um crime, mesmo que o crime seja cometido devido a esses planeamentos e
conspirações.
Cantando as canções de marcha com gosto, as duas legiões e a cavalaria que
António levava consigo entraram na região de desfiladeiros do grande rio
vermelho, o Hális, belo para lá de toda a imaginação romana, de tal forma as
rochas eram vermelhas e brilhantes, retorcidas as escarpas dos penhascos e os
promontórios. De ambos os lados do leito largo do rio as margens eram largas e
planas e a corrente corria lamacenta devido ao facto de as neves dos picos mais
altos ainda não terem derretido. Razão pela qual António marchava para a Síria
por terra. Os ventos marinhos eram demasiado perigosos para a navegação e
António preferia ficar com os seus homens até ter a certeza de que eles
gostavam mais dele do que tinham gostado de Cássio, a quem tinham pertencido.

27

O tempo estava frio, mas só ficava gelado quando se levantava vento e nas
profundezas das gargantas o vento era pouco. Apesar da cor, a água era potável
para os homens e para os cavalos; a Anatólia Central não era uma região muito
populosa.
Eusebeia Mazaca estava situada na base do grande vulcão Argaeus, que estava
branco de neve, pois não havia memória de ter entrado em erupção. Uma cidade
azul, pequena e empobrecida; todos a tinham saqueado desde tempos imemoriais,
pois os seus reis eram demasiado sovinas para manterem um exército.
Foi ali que António se apercebeu de como iria ser difícil espremer ainda mais
ouro e tesouros do Oriente; Bruto e Cássio tinham levado tudo aquilo que o rei
Mitrídates, o Grande, amealhara. Uma constatação que o deixou bastante
consternado e que o levou a inspeccionar com Publícola, os irmãos Decídio Saxa
e Délio, o reino dos sacerdotes de Ma em Comana, não muito longe de Eusebeia
Mazaca. Que o rei senil da Capadócia e o seu filho ridiculamente incompetente
ficassem à espera no seu palácio despojado! Talvez em Comana encontrasse um
monte de ouro sob as lajes de aspecto inofensivo. Os sacerdotes não queriam
saber dos reis quando se tratava de proteger o seu dinheiro.
Ma era uma encarnação de Kubaba Cibele, a Grande Mãe Terra que governara todos
os deuses, masculinos e femininos, quando a humanidade aprendera a contar a sua
história em volta das fogueiras. Através dos séculos fora perdendo poder
excepto em locais como as duas Comanas, uma ali na Capadócia e outra mais a
norte, no Ponto e em Pessinunte, não longe do local onde Alexandre, o Grande,
cortou o nó górdio com a sua espada. Cada um daqueles templos era governado por
um reino independente, com o rei a servir também de sumo sacerdote e cada um
deles estava delimitado por fronteiras naturais como cerejas do Ponto dentro de
uma taça.
Dispensando uma escolta de soldados, António, os quatro amigos e uma quantidade
de criados, entraram na encantadora aldeiazinha da Comana capodiciana,
reparando com agrado nas casas dispendiosas, nos jardins que prometiam florir
profusamente na Primavera seguinte, no imponente templo de Ma que se erguia
sobre uma pequena colina, rodeado por um bosque de bétulas, com uma avenida
pavimentada ladeada por choupos e que conduzia à casa terrena da deusa. De um
dos lados ficava o palácio. Tal como no templo, as suas colunas dóricas eram
azuis com as bases escarlates; as paredes por detrás eram de um azul muito mais
escuro e as telhas da cobertura debruadas a ouro.
Um jovem, que aparentava ter pouco menos de vinte anos, aguardava-os na frente
do palácio, vestido com vestes vaporosas de gaze verde e com a cabeça rapada
coberta por um chapéu redondo e dourado.
- Marco António - disse António desmontando o seu cavalo público cinzento
mosqueado e atirando as rédeas a um dos três criados de que se fizera
acompanhar.

28

- Bem-vindo, senhor António - disse o jovem fazendo uma grande vénia.


- Só António chega. Não temos senhores em Roma. Como é que te chamas,
rapadinho?
- Arquelau Sisenes. Sou o rei-sacerdote de Ma.
- És um bocado novo para seres rei, não és?
- É melhor ser demasiado novo do que demasiado velho, Marco António. Entra na
minha casa.
A visita teve início com uma conversa cheia de rodeios desconfiados durante a
qual o rei Arquelau Sisenes, ainda mais novo do que Octaviano, provou estar à
altura de António que, devido à sua personalidade afável, se sentia inclinado a
admirar os mestres naquela arte. Na realidade, tal teria provavelmente feito
com que tolerasse alegremente Octaviano, não fosse ele o herdeiro de César.
Mas apesar de os edifícios serem encantadores e os jardins suficientemente bem
arranjados para agradar a um coração romano, uma hora marcada pelo relógio de
água foi o suficiente para concluir que quaisquer riquezas que a Ma de Comana
tivesse possuído, já haviam desaparecido. Tendo pela frente uma viagem de
apenas oitenta quilómetros até à capital da Capadócia, os amigos de António
estavam totalmente preparados para partir de madrugada para se reunirem às
legiões e continuar a marcha.
- Ofender-te-ia que a minha mãe jantasse connosco? - perguntou o rei-sacerdote
com deferência. - E os meus irmãos mais novos?
- Quantos mais melhor - disse António com boas maneiras. Já obtivera resposta
para muitas questões intrigantes, mas seria prudente ver com os seus próprios
olhos o tipo de família que produzira aquele sujeito inteligente, precoce e
destemido.
Arquelau Sisenes e os irmãos formavam um belo trio de rapazes espertos, com um
profundo conhecimento da literatura e filosofia gregas e até mesmo alguns
rudimentos de matemática.
Tudo isso deixou de ter qualquer importância assim que Glafira entrou na sala.
Como todas as acólitas da Grande Mãe, entrara para o serviço da Deusa aos treze
anos, mas não como as restantes virgens púberes da colheita desse ano, para
estender o tapete no interior do templo e oferecer a virgindade ao primeiro que
aparecesse e a quem agradasse. Glafira tinha sangue real e escolheu o seu
parceiro como quis. O seu olhar tinha caído sobre um senador romano que estava
de visita e que fora o pai de Arquelau Sisenes, sem que alguma vez tivesse tido
conhecimento desse facto. Ela tinha catorze anos acabados de fazer quando teve
o filho. O pai do filho seguinte fora o rei de Olba, descendente do arqueiro
Teucro que combatera ao lado do irmão Ajax em Tróia. E o pai do terceiro fora
um zé-ninguém bem-parecido, um condutor de uma junta de bois numa caravana
vinda da Média. Depois disso, Glafira arrumara as botas e devotara as suas
energias a educar os filhos.

29

Naquele momento, tinha trinta e quatro anos e parecia ter vinte e quatro.
Apesar de Publícola ter ficado a pensar nas razões que a teriam levado a
aparecer no jantar quando o convidado de honra era um mulherengo famoso,
Glafira conhecia perfeitamente os seus motivos. A lascívia não era um deles.
Ela, que pertencia à Grande Mãe, havia muito que abdicara da lascívia por a
considerar humilhante. Não, ela desejava mais para os filhos do que um
pequeníssimo reino sacerdotal! Ambicionava a maior parte da Anatólia que
conseguisse obter e, se Marco António fosse o tipo de homem que os rumores
afirmavam ser, então aquela era a sua oportunidade.
António susteve sonoramente a respiração - mas que beleza! Alta e esbelta, com
pernas longas, seios magníficos e um rosto que rivalizava em beleza com o de
Helena: lábios carnudos e vermelhos, pele perfeita como a pétala de uma rosa,
olhos azuis brilhantes cobertos por espessas pestanas negras e cabelos loiros
como o linho que caíam, totalmente lisos, pelas suas costas como uma folha de
prata batida. Não ostentava quaisquer jóias, provavelmente por não as possuir.
A túnica azul ao estilo grego era de lã vulgar.
Publícola e Délio foram empurrados do divã com tal rapidez que quase não
conseguiram manter o equilíbrio; uma mão enorme já estava a dar pancadinhas no
espaço onde antes tinham estado sentados.
- Senta-te aqui ao pé de mim, bela criatura! Como te chamas?
- Glafira - disse ela descalçando os chinelos de feltro e esperando que um
criado lhe calçasse meias quentes. Depois reclinou-se no divã, mas a uma
distância de António que o impedia de a abraçar, algo que ele parecia prestes a
fazer. Os rumores estavam certos quando diziam que ele não era um amante
subtil, se aquele acolhimento servia de indicativo. Bela criatura, realmente!
Ele encara as mulheres como uma conveniência mas eu, decidiu Glafira, tenho que
me aplicar para ser uma conveniência mais conveniente do que o seu cavalo, o
seu secretário ou o seu penico. E se ele me engravidar, farei sacrifícios à
Deusa para que me dê uma rapariga. Uma filha de António poderia casar-se com o
rei dos Partos - mas que aliança! Ainda bem que nos ensinaram a chupar melhor
com as nossas vaginas do que uma fellatrix com a boca! Vou escravizá-lo.
E foi assim que António se demorou em Comana o resto do Inverno e quando, no
início de Março, partiu finalmente para a Cilícia e para Tarso, levou Glafira
com ele. Os seus dez mil soldados de infantaria não tinham ficado nada ralados
com aquela licença inesperada; a Capadócia era uma terra cheia de mulheres
cujos homens tinham sido massacrados num qualquer campo de batalha ou levados
como escravos. Como aqueles legionários eram tão bons agricultores como eram
soldados, apreciaram as férias.

30

Originalmente, César tinha-os recrutado do outro lado do rio Padus na Gália


Italiana e, com excepção da altitude, a Capadócia não era muito diferente nos
cultivos e pastagens. Deixaram atrás de si vários híbridos romanos no útero,
terras devidamente preparadas e plantadas e muitos milhares de mulheres
agradecidas.
Desceram por uma boa estrada romana entre duas cordilheiras gigantescas,
mergulhando em vastas florestas de pinheiros aromáticos, lariços, cedros e
abetos, com o som dos rápidos a ecoar-lhes permanentemente nos ouvidos até
chegarem ao desfiladeiro das Portas Cilicianas, onde a estrada era de tal forma
íngreme que tinha degraus com intervalos de cinco passos. A descer, a viagem
fazia-se com a doçura de um favo de mel; caso fosse a subir, o ar ficaria
poluído por magníficas obscenidades latinas. Com a neve a derreter rapidamente,
as águas do rio Cidno fervilhavam e rodopiavam como se estivessem no interior
de um enorme caldeirão, mas logo após as Portas Cilicianas, a estrada tornava-
se mais fácil e as noites mais amenas. Desciam rapidamente na direcção da costa
do Nosso Mar.
Tarso, que ficava nas margens do Cidno a cerca de trinta quilómetros da costa,
foi um choque. Tal como Atenas, Éfeso, Pérgamo e Antioquia, era uma cidade
conhecida da maior parte dos nobres romanos, nem que fosse de uma breve visita.
Era uma autêntica jóia, extremamente rica. Mas deixara de o ser. Cássio
aplicara a Tarso uma multa de tal forma pesada que, tendo derretido todas as
peças e obras de arte em ouro e prata, por mais valiosas que fossem, os Tarsos
se tinham visto forçados a vender gradualmente a populaça para a escravatura,
começando com os de mais baixo nascimento e indo subindo inexoravelmente.
Quando Cássio se cansou finalmente de esperar e se fez ao mar levando consigo
os quinhentos talentos de ouro que a cidade tinha conseguido reunir até à
altura, restavam apenas uns poucos milhares de pessoas livres do meio milhão
original. Mas não ficaram para gozar as suas riquezas; estas tinham sido
perdidas sem esperança de recuperação.
- Por todos os deuses como eu odeio Cássio! - gritou António, cada vez mais
longe das riquezas que esperava alcançar. - Se ele fez isto a Tarso, que terá
feito na Síria?
- Alegra-te António - disse Délio. - Nem tudo está perdido. - Por esta altura
já ultrapassara Publícola como principal fonte de informação de António que era
aquilo que desejara. Deixassem Publícola ter a satisfação de ser o íntimo de
António! Ele, Quinto Délio, ficava satisfeito por ser o homem cujos conselhos
António estimava e, até mesmo naquele momento terrível, ele tinha conselhos
úteis para dar. - Tarso é uma cidade grande, o centro de todo o comércio
ciliciano, mas assim que Cássio irrompeu na paisagem, toda a Cilicia Pedia se
manteve afastada de Tarso. Ora a Cilicia Pedia é rica e fértil, mas nunca
nenhum governador romano conseguiu aí cobrar impostos. A região está nas mãos
de bandidos e de renegados árabes que conseguem ficar com muito mais riquezas
do que aquelas que Cássio alguma vez levou daqui.

31

Porque não envias as tuas tropas à Cilicia Pedia e não vês o que por lá há?
Podes ficar aqui... entrega o comando a Barbácio.
Era um bom conselho e António sabia-o. Seria muito melhor fazer com que os
Cilícios suportassem o custo dos abastecimentos das suas tropas do que a pobre
Tarso, especialmente se havia fortalezas de bandidos para serem saqueadas.
- Esse é um conselho sensato que tenciono seguir - disse António -, mas isso
não vai chegar, nem de perto nem de longe. Compreendo finalmente porque é que
César estava determinado a conquistar os Partos: - Não há verdadeira riqueza
deste lado da Mesopotâmia. Oh, amaldiçoado seja Octaviano! Roubou a arca de
guerra de César, aquele vermezinho! Enquanto eu estava na Bitínia todas as
cartas que recebi de Itália me diziam que ele estava à morte em Brundísio e que
não conseguiria percorrer nem quinze quilómetros na Via Ápia. E que me dizem as
cartas dos que ficaram em casa e que recebo aqui em Tarso? Ora, que tossiu e
cuspiu o caminho todo até Roma onde anda muito ocupado a dar graxa aos
representantes das legiões. A requisitar as terras públicas de todos os locais
que aclamaram Bruto e Cássio, quando não está de rabo para o ar para ser comido
por macacos como o Agripa!
Desvia a conversa de Octaviano, pensou Délio, ou ele esquece a sobriedade e
começa a berrar por vinho sem água. Aquela cabra manhosa da Glafira também não
ajuda - está demasiado ocupada a trabalhar em prol dos filhos. Por isso emitiu
sons compreensivos com a língua e encaminhou António para a discussão de como
obter dinheiro no Oriente falido.
- Há uma alternativa aos Partos, António.
- Antioquia? Tiro? Sídon? Cássio chegou lá primeiro.
- Sim, mas não avançou até ao Egipto. - Deixou cair dos lábios a palavra
"Egipto" como se fosse mel. - O Egipto pode comprar e vender Roma; todos
quantos já ouviram Marco Crasso sabem disso. Cássio ia a caminho de invadir o
Egipto quando Bruto o chamou a Sardes. Ficou com as quatro legiões egípcias de
Alieno, sim, mas, lamentavelmente, na Síria. A rainha Cleópatra não pode ser
acusada disso, mas ela também não te enviou nenhuma ajuda a ti e a Octaviano.
Penso que a inactividade dela poderá ser avaliada numa multa de dez mil
talentos.
António grunhiu.
-Ah! Sonhas acordado, Délio.
- Não, de certeza que não! O Egipto é fabulosamente rico.
A ouvi-lo sem prestar muita atenção, António analisava uma carta da sua
aguerrida esposa Fúlvia. Na carta ela queixava-se das perfídias de Octaviano e
descrevia a precariedade da posição deste de forma directa e grosseira. Aquele
era o momento, escrevia ela com o seu próprio punho, para levantar a Itália e
Roma contra ele! E Lúcio pensava da mesma maneira: Lúcio iniciara o alistamento
de legiões. Disparate, pensou António, que conhecia o seu irmão Lúcio demasiado
bem para o achar capaz de contar sequer dez contas num ábaco. Lúcio a encabeçar
uma revolução?

32

Não, ele limitava-se a recrutar homens para o irmão mais velho Marco. Sim, na
verdade Lúcio era cônsul naquele ano, mas o seu colega era Vácia, que devia ser
quem estava a comandar as operações. Oh, as mulheres! Porque não podia Fúlvia
dedicar--se a disciplinar os filhos? A prole que dera a Clódio já crescera e
tornara-se independente, mas ainda tinha em casa o filho Curião e os dois
filhos de António.
Evidentemente que, por esta altura, António já concluíra que teria que adiar a
expedição contra os Partos pelo menos mais um ano. Não apenas por a falta de
fundos a tornar impossível, como também por precisar de vigiar Octaviano de
perto. Os seus marechais mais competentes, Polião, Caleno e o velho e fiel
Ventídio, teriam que ser colocados no Ocidente, com o grosso das suas legiões,
só para manter Octaviano debaixo de olho. Que lhe enviara uma carta implorando-
lhe que usasse a sua influência para deter Sexto Pompeu, que andava
atarefadíssimo a atacar as rotas marítimas para roubar o trigo romano como um
vulgar pirata. Tolerar Sexto Pompeu não fazia parte do acordo entre ambos,
lamuriava-se Octaviano - estaria Marco António lembrado de como se tinham
sentado os dois, após Filipos, para dividir os deveres entre os três
triúnviros?
Se me lembro, pensou António sombriamente. Foi depois de ter vencido em Filipos
que me apercebi, com uma certeza cristalina, de que não havia local no Ocidente
onde eu pudesse ir colher a glória necessária para eclipsar César. Para
ultrapassar César, terei que esmagar os Partos.
O pergaminho com a carta de Fúlvia tombou sobre o tampo da mesa e enrolou-se
sobre si próprio.
-Acreditas mesmo que o Egipto conseguirá arranjar uma soma dessas? - perguntou
erguendo os olhos para Délio.
- Certamente! - disse Délio com entusiasmo. - Pensa nisso, António! Ouro da
Núbia, pérolas oceânicas da Taprobana, pedras preciosas do Sinus Arabicus,
marfim do Corno de África, especiarias da índia e da Etiópia, o monopólio
mundial do papel e trigo que sobra ainda depois de alimentar todas as bocas do
mundo. O rendimento público do Egipto é de seis mil talentos de ouro por ano e
os rendimentos privados da soberana são outros seis mil!
- Tens andado a fazer os trabalhos de casa - disse António com um sorriso.
- De muito melhor vontade do que quando andava na escola.
António levantou-se e foi até à janela que dava para a agora onde, entre as
árvores, os mastros dos barcos trespassavam o céu sem nuvens. Não que visse
alguma coisa, os seus olhos estavam virados para dentro, recordando a
criaturinha magricela que César instalara numa villa de mármore na margem menos
favorecida do Pai Tibre. O que Cleópatra reclamara por ter sido excluída do
interior de Roma! Não na frente de César, que não suportava birras, mas nas
suas costas a história tinha sido outra. Todos os amigos de César tentaram, à
vez, explicar-lhe que ela, como rainha coroada, estava proibida, por razões
religiosas, de entrar em Roma. O que não acabara com os seus queixumes!

33

Era magra como uma vara e não havia razões para pensar que tivesse engordado
desde que regressara a casa após a morte de César. Oh como Cícero ficara feliz
quando se espalhara o boato de que o navio dela naufragara no Nosso Mar! E como
ficara desapontado quando o boato se revelara falso. Essa deveria ter sido a
última das preocupações de Cícero, pela forma como as coisas vieram depois a
desenrolar-se... ele nunca deveria ter vociferado contra mim no Senado! É o
equivalente a um suicídio. Depois de ele ter sido executado, Fúlvia espetara-
lhe uma caneta na língua antes de expor a sua cabeça na rostra. Fúlvia! Aquilo
é que era uma mulher! Nunca gostei de Cleópatra, nunca me dei ao trabalho de ir
aos seus saraus ou aos seus jantares famosos... demasiado intelectuais, com
imensos eruditos, poetas e historiadores. E aqueles deuses todos com cabeças de
bicho na sala onde ela rezava! Reconheço que nunca compreendi César, mas a
paixão que ele tinha por Cleópatra era o maior mistério de todos.
- Muito bem, Quinto Délio - disse António em voz alta. - Vou ordenar à rainha
do Egipto que venha à minha presença em Tarso para responder à acusação de ter
auxiliado Cássio. Tu próprio podes entregar a convocatória.
Que maravilhoso, pensou Délio ao partir no dia seguinte pela estrada que levava
primeiro a Antioquia e continuava para sul, ao longo da costa, até Pelúsio.
Pedira para lhe darem um equipamento condigno e António acedera, concedendo-lhe
um pequeno exército de criados e dois esquadrões de cavalaria como escolta.
Todavia, não viajaria de liteira! Isso seria muito demorado e não agradaria ao
impaciente António que lhe dera um mês para chegar a Alexandria, que ficava a
mil e seiscentos quilómetros de Tarso. O que significava que Délio teria que se
apressar. Afinal não sabia quanto tempo seria necessário para convencer a
rainha de que teria que obedecer à convocatória de António e comparecer perante
o seu tribunal em Tarso.
Com o queixo apoiado na mão, Cleópatra observava Cesarião debruçado sobre as
tabuinhas de cera, com Sosígenes sentado à sua direita a supervisioná-lo. Não
que o filho precisasse dele; Cesarião raramente se enganava e nunca cometia
erros. O peso plúmbeo do desgosto esmagou-lhe o peito e fê-la engolir com
dificuldade. Olhar para o filho de César era como olhar para o próprio César,
que com aquela idade devia ter sido igual a Cesarião: alto, gracioso, com
cabelos dourados, nariz comprido e aquilino, lábios cheios e bem-humorados
delicadamente pregueados aos cantos. Oh, César, César! Como posso viver sem ti?
E eles queimaram-te, aqueles romanos bárbaros! Quando chegar a minha hora não
terei um César a meu lado no túmulo para se erguer comigo e caminhar no Reino
dos Mortos. Puseram as tuas cinzas num vaso e construíram uma monstruosidade de
mármore para instalar o vaso.

34

O teu amigo Gaio Macio escolheu o epitáfio: VENIVIDIVICI gravado a ouro numa
pedra negra e polida. Mas eu nunca vi o teu túmulo nem quero ver. Só o que me
resta é este enorme peso do desgosto que nunca desaparece. Mesmo quando consigo
dormir está ali para me atormentar os sonhos. Mesmo quando olho para o nosso
filho, está presente para fazer pouco das minhas aspirações. Porque será que
nunca penso nos tempos felizes? Será esse um padrão da perda, ficar a remoer no
vazio do presente? Desde que aqueles romanos hipócritas te assassinaram, o meu
mundo é feito de cinzas condenadas a nunca se misturarem com as tuas. Cleópatra
pensa nisso e chora.
As mágoas eram muitas. A primeira e pior de todas era o facto de o rio Nilo não
encher. Durante três anos seguidos a água, mãe de toda a vida, não se espalhara
pelos campos para os molhar, ensopar e amolecer as sementes. O povo passava
fome. Depois viera a praga, rastejando lentamente pelas margens do rio Nilo
desde as cataratas de Mênfis e a boca do Delta, espalhando-se depois pelos
canais e ramais do Delta e atingindo finalmente Alexandria.
E de todas as vezes, pensou ela, tomei as decisões erradas, uma autêntica
rainha Midas num trono de ouro que não compreendeu, até ser demasiado tarde,
que as pessoas não podem comer ouro. Não houve ouro nenhum que conseguisse
persuadir os Sírios e os Árabes a aventurarem-se Nilo abaixo para vir buscar os
potes de cereais que os aguardavam em cada cais. Ficaram ali até apodrecerem e
depois não havia gente suficiente para regar os campos à mão e não houve
quaisquer colheitas. Olhei para os três milhões de habitantes de Alexandria e
decidi que apenas um milhão de entre eles poderia comer e publiquei um édito em
que retirava a cidadania aos metecos e aos judeus. Um édito que os proibia de
comprar cereais nos celeiros, direito que ficava reservado apenas aos cidadãos.
Oh, os motins! E tudo para nada. A praga entrou em Alexandria e matou dois
milhões de pessoas sem distinguir cidadãos de não cidadãos. Morreram gregos e
macedónios, gente pela qual eu abandonara os judeus e os metecos. No fim havia
cereais com abundância para os que não sucumbiram à praga, judeus e metecos e
gregos e macedónios. Devolvi-lhes a cidadania, mas agora odeiam-me. Tomei só
decisões erradas. Sem César para me guiar, revelei ser uma má rainha.
Dentro de menos de dois meses o meu filho fará seis anos e eu não tenho mais
filhos, estou estéril. Não lhe dei uma irmã com quem casar nem um irmão para
tomar o seu lugar, caso alguma coisa lhe aconteça. Tantas noites de amor com
César em Roma e ainda assim não engravidei. ísis amaldiçoou-me.
Apolodoro entrou apressado, com a corrente de ouro do seu cargo a tilintar.
- Minha senhora, chegou uma carta urgente de Pitodoro de Trales. A mão caiu e o
queixo ergueu-se. Cleópatra franziu o sobrolho.
- Pitodoro? Que é que ele quer?
35

- Ouro não é - disse Cesarião erguendo os olhos das tabuinhas com um sorriso. -
Ele é o homem mais rico da província da Ásia.
- Presta atenção às contas, rapaz! - disse Sosígenes.
Cleópatra levantou-se da cadeira e foi até junto de uma abertura na parede onde
tinha uma boa luz. Um exame minucioso do selo verde mostrou-lhe um pequeno
templo no meio e as palavras PYTHO. TRALLES em torno do bordo. Sim, parecia
autêntico. Quebrou o selo e desenrolou o pergaminho escrito numa letra que
revelava que nenhum escriba tivera contacto com ele. Era demasiado irregular.
Faraó e Rainha, Filha de Ámon-Rá,
Escrevo-vos como alguém que amou o Deus Júlio César durante muitos anos e
alguém que respeita a devoção que ele tinha por vós. Apesar de saber que
devereis ter informadores que vos mantêm a par de tudo o que se passa em Roma e
no Mundo Romano, duvido que qualquer um deles seja confidente de Marco António.
Com certeza que sabeis que António viajou de Filipos para a Nicomédia no último
Novembro e que muitos reis, príncipes e etnarcas se encontraram lá com ele. Ele
não fez praticamente nada para alterar o estado de coisas no Oriente, mas
ordenou que lhe fossem pagos vinte mil talentos de prata imediatamente. A
dimensão do tributo foi um choque para todos nós.
Após visitar a Galácia e a Capadócia, chegou a Tarso. Segui-o com os dois mil
talentos de prata que nós, os etnarcas da província da Ásia, tínhamos
conseguido juntar. Onde estavam os outros dezoito mil talentos?, perguntou ele.
Penso ter conseguido convencê-lo de que não conseguíramos arranjar nada de
parecido com isso, mas a sua resposta foi aquela a que já nos habituámos:
pagávamos-lhe mais nove anos de tributo adiantados e seríamos absolvidos. Como
se tivéssemos posto de reserva dez anos de tributo! Mas eles não nos dão
ouvidos, estes governadores romanos.
Imploro o vosso perdão, grande rainha, por vos estar a aborrecer com os nossos
problemas, mas não são esses problemas que me levam a escrever-vos em segredo.
Esta carta serve para vos avisar de que dentro de muito poucos dias ireis
receber a visita de um tal Quinto Délio, um homenzinho avarento e matreiro que
conseguiu ficar bem-visto aos olhos de Marco António. Os seus murmúrios ao
ouvido de António têm o objectivo de lhe encher a arca de guerra, pois António
está desejoso de fazer aquilo que César não viveu o suficiente para alcançar -
conquistar os Partos. A Cilicia Pedia está a ser limpa de uma ponta à outra, os
bandidos expulsos dos seus refúgios e os assaltantes árabes repelidos para lá
do Amano. Uma empreitada proveitosa, mas não suficiente, por isso Délio sugeriu
que António vos convocasse para Tarso para vos multar em dez mil talentos de
ouro por terdes apoiado Gaio Cássio.

36

Não há nada que eu possa fazer para vos ajudar, minha boa Rainha, para além de
vos avisar que Délio já está neste momento a caminho do Sul. Talvez com este
pré-aviso tenhais tempo para encontrar uma forma de o frustrar a ele e ao seu
amo.
Cleópatra devolveu o rolo a Apolodoro e ficou a morder o lábio de olhos
fechados. Quinto Délio? Não reconhecia o nome, não se tratava portanto de
ninguém com importância suficiente em Roma para ter sido convidado para as suas
recepções, nem mesmo para as mais alargadas; Cleópatra nunca se esquecia de um
nome ou do rosto a que pertencia. Devia ser outro Vétio, um qualquer cavaleiro
ignóbil com encanto e lisonja, exactamente o género que agradava a um labrego
como Marco António. Desse recordava-se! Grande e forte, com músculos de
Hércules, ombros largos como montanhas, uma cara feia com um nariz que se
esforçava por tocar o queixo revirado para cima sobre uma boca pequena de
lábios finos. As mulheres desfaleciam à volta dele porque tinha fama de ter um
pénis gigantesco - que bela razão para desfalecer! Os homens gostavam dele por
causa das suas maneiras seguras e calorosas e a confiança em si próprio. Mas
César, de quem era primo chegado, desencantara-se dele - esta fora a principal
razão das visitas de António a sua casa terem sido tão poucas. Quando ficara a
governar a Itália massacrara oitocentos cidadãos no Fórum romano, crime que
César não lhe perdoara. Depois tentara conquistar os soldados de César e
acabara por instigar um motim que quebrara o coração de César.
É claro que os seus agentes lhe tinham relatado que muitos pensavam que António
fizera parte da conspiração para assassinar César, mas ela própria não tinha a
certeza. António escrevera-lhe cartas nessa época explicando que não lhe
restara alternativa senão ignorar o assassínio, desistir de se vingar dos
assassinos e até aprovar a sua conduta. E nessas cartas António assegurara-lhe
que, assim que Roma acalmasse, ele recomendaria Cesarião para o Senado por ser
um dos principais herdeiros de César. Para uma mulher devastada pelo desgosto,
aquelas palavras tinham sido um bálsamo. Ela quisera acreditar nelas! Oh, não,
ele não dissera que Cesarião deveria ser reconhecido, pela lei romana, como o
herdeiro romano de César! Mas apenas que o direito de Cesarião ao trono do
Egipto seria ratificado pelo Senado. Se assim não fosse, o seu filho ver-se-ia
confrontado com os mesmos problemas que tinham atormentado o pai dela, que
nunca se sentira seguro no trono por causa das pretensões de Roma de que o
Egipto lhe pertencia. Assim como ela não se sentira segura até César ter
entrado na sua vida. Agora César partira e o sobrinho dele, Gaio Octávio,
usurpara mais poder do que qualquer rapaz de dezoito anos alguma vez
conseguira. Calmamente, astutamente, rapidamente. De início pensara no jovem
Octaviano como num possível pai para filhos seus, mas ele recusara-a numa breve
carta que ainda sabia de cor.

37

Marco António, o dos olhos avermelhados e cabelo ruivo encaracolado, tão


diferente de César como Hércules era diferente de Apolo. Agora virara os olhos
para o Egipto: mas não para cortejar a Faraó. O seu único desejo era encher a
arca de guerra com a riqueza do Egipto. Bem, isso nunca aconteceria... nunca!
- Cesarião, está na altura de ires apanhar ar - disse em tom decidido. -
Sosígenes preciso de falar contigo. Apolodoro encontra Cha'em e trá-lo contigo.
Temos que reunir o conselho.
Quando Cleópatra falava naquele tom ninguém discutia, muito menos o filho, que
se foi imediatamente embora assobiando a chamar o cão, um animal pequeno e bom
caçador de ratos chamado Fido.
- Lê isto - disse bruscamente quando o conselho se reuniu, atirando o rolo na
direcção de Cha'em. - Leiam todos.
- Se António trouxer as suas legiões conseguirá saquear Alexandria e Mênfis -
disse Sosígenes passando o rolo a Apolodoro. - Desde a praga que ninguém tem
ânimo para oferecer resistência. Nem temos gente suficiente para resistir.
Temos muito boas estátuas de ouro que podem ser derretidas.
Cha'em era o sumo sacerdote de Ptah, o deus criador, e fora um elemento muito
querido da vida de Cleópatra desde os dez anos. O seu corpo castanho e firme
estava enrolado em vestes brancas e brilhantes desde o peito, logo abaixo dos
mamilos, até meio das pernas, e, em torno do pescoço, trazia um emaranhado de
correntes, cruzes, discos e ostentava ainda um peitoral que proclamava a sua
posição.
-António não vai derreter nada - disse ele com firmeza. - Ireis a Tarso,
Cleópatra, encontrá-lo-eis lá.
- Como uma escrava? Como um rato? Como um rafeiro com o rabo entre as pernas?
- Não, como uma soberana poderosa. Como a Faraó Hatshepsut, que foi tão
grandiosa que o seu sucessor mandou destruir todas as suas cartelas. Armada com
os ardis e a astúcia dos vossos antepassados. Como Ptolomeu Sóter era irmão
natural de Alexandre, o Grande, vós tendes nas veias o sangue de muitos deuses.
Não apenas de Ísis, de Hathor e Mut, mas também de Ámon-Rá, de dois lados...
pela linha dos faraós e pela de Alexandre, o Grande, que era filho de Ámon-Rá e
também ele um deus.
- Compreendo onde Cha'em quer chegar - disse Sosígenes pensativamente. - Este
Marco António não é nenhum César e portanto pode ser enganado. Deveis atordoá-
lo de tal forma que ele vos perdoe. Afinal vós não ajudastes Cássio e ele não
conseguirá provar que o fizestes. Quando esse Quinto Délio chegar vai tentar
intimidar-vos. Mas vós sois a Faraó e nenhum lacaio tem o poder de vos
intimidar.
- É uma pena que a frota que enviaste em auxílio de António e de Octaviano
tenha sido obrigada a voltar para trás - disse Apolodoro.

<Mapa - omitido>

39

- Oh, o que está feito, feito está! - disse Cleópatra impaciente. Recostou-se
na cadeira subitamente pensativa. - Ninguém consegue intimidar a Faraó, mas...
Cha'em, pede a Tach'a que consulte as pétalas de lótus na taça. António poderá
vir a ser útil.
Sosígenes ficou sobressaltado.
- Majestade!
- Oh, vamos Sosígenes, o Egipto é mais importante do que qualquer ser vivo!
Tenho sido uma má governante, repetidamente privada de Osíris! Interessa-me o
tipo de homem que Marco António é? Não, não me interessa. António tem sangue
juliano. Se a taça de Ísis proclamar que ele tem uma quantidade suficiente de
sangue juliano nas suas veias, então talvez eu consiga tirar mais dele do que
ele de mim.
- Fá-lo-ei - disse Cha'em pondo-se de pé.
- Apolodoro, a barca fluvial Filopator aguentará a travessia marítima até Tarso
nesta época do ano?
O senhor alto-camareiro franziu o sobrolho.
- Não tenho a certeza, Majestade.
- Então tira-a do abrigo e põe-na no mar.
- Filha de Amon-Rá, tendes muitos navios!
- Mas Filopator construiu apenas dois navios e aquele que ele fez para navegar
no mar apodreceu há cem anos. Se tenho que atordoar António, tenho que chegar a
Tarso com uma pompa que nenhum romano tenha alguma vez testemunhado, nem mesmo
César.
Para Quinto Délio, Alexandria era a cidade mais maravilhosa do mundo. Tinham
passado sete anos desde os tempos em que César quase a destruíra e Cleópatra
reconstruíra-a ainda com maior glória. Todas as mansões que ladeavam a Avenida
Real tinham sido restauradas, a colina de Pã erguia-se sobre uma cidade plana e
verdejante, o consagrado templo de Serápio fora reconstruído segundo o estilo
coríntio e, no local onde em tempos as torres de cerco tinham gemido e subido e
descido a Avenida Canópica, templos e instituições públicas espantosos
contrariavam a praga e a fome. Na verdade, pensou Délio erradamente, ao
contemplar Alexandria do cimo da colina de Pã, por uma vez na sua vida, o
grande César exagerara no grau de destruição que provocara.
E no entanto ainda não conseguira ver a rainha que estava, segundo lhe disse
altivamente um sujeito majestoso chamado Apolodoro, de visita ao Delta para ver
as fábricas de papel. Tinha sido então conduzido aos seus aposentos -
muitíssimo sumptuosos - e deixado entregue a si próprio. Para Délio tal não se
resumia simplesmente a ver a paisagem; com ele levava um escriba que ia tomando
notas com um estilete largo e tabuinhas de cera.
Na Sema, Délio riu-se alegremente.
- Escreve, Lasthenes! O túmulo de Alexandre, o Grande, mais os túmulos de
trinta e tal Ptolomeus num recinto pavimentado com mármore azul, com reflexos
verdes, de qualidade excepcional...

40

Vinte e oito estátuas de ouro da altura de um homem... Um Apolo da autoria de


Praxíteles, mármores pintados... Quatro estátuas de mármore pintado da autoria
de um mestre desconhecido, tamanho natural... Uma pintura da autoria de Zêuxis
representando Alexandre, o Grande, em Issus... Uma pintura representando
Ptolomeu Sóter da autoria de Nícias. Pára de escrever. O resto não é tão bom.
No Serapeum, Délio uivou de prazer.
- Escreve, Lasthenes! "Uma estátua de Serápio com cerca de trinta pés de altura
da autoria de Briáxis e pintado por Nícias... Um conjunto de estátuas de marfim
das nove Musas da autoria de Fídias... Quarenta e duas estátuas de ouro do
tamanho de homens... - Calou-se para raspar uma Afrodite de ouro e fez uma
careta. - Algumas, se não todas, têm banho de ouro, não são de ouro maciço. Uma
carruagem e cavalos em bronze da autoria de Míron..." Pára de escrever! Não,
acrescenta simplesmente "et cetera, et cetera..." Há aqui demasiadas peças
medíocres para catalogar.
Na agora, Délio deteve-se na frente de uma escultura enorme de quatro cavalos
empinados a puxar um carro conduzido por uma mulher... e que mulher!
- Escreve Lasthenes! "Quadriga em bronze que se supõe representar uma condutora
de carros chamada Bilistiche..." Pára! Aqui não há mais nada senão coisas
modernas, excelentes em si próprias mas sem valor para os coleccionadores. Ora,
Lasthenes, vamos!
E assim continuaram enquanto cruzavam a cidade, o escriba deixando atrás de si
um rastro de cera como uma traça deixa caganitas. Esplêndido, esplêndido! O
Egipto tem riquezas para lá do imaginável se aquilo que vejo em Alexandria é um
bom indicador. Mas como irei persuadir Marco António de que conseguiremos mais
dinheiro vendendo-as como peças de arte do que fundindo-as? O túmulo de
Alexandre, o Grande!, pensou ele... um único bloco de rocha cristalina quase
tão transparente como a água... que bem ficaria no interior do templo de Diana
em Roma! Mas que criaturinha engraçada fora Alexandre! Com pés e mãos do
tamanho dos de uma criança e aquilo que parecia ser um barrete de lã amarela na
cabeça. Era uma efígie de cera, claro, não o verdadeiro Alexandre... mas seria
de pensar que, sendo ele um deus, lhe teriam feito uma efígie pelo menos do
tamanho de António! Devia haver mosaicos suficientes na Sema para pavimentar o
chão de domus de um magnata em Roma - valia bem cem talentos, talvez mais. Os
marfins de Fídias... facilmente mil talentos.
Os Domínios Reais eram um tal labirinto de palácios que ele desistiu de os
tentar distinguir uns dos outros e os jardins pareciam estender-se até ao
infinito. Pequenas e belas enseadas salpicavam a costa para lá do porto e, à
distância, via-se a ponte de mármore branco do Heptastadion que ligava a ilha
de Faros ao continente.

41

E oh, o farol! O edifício mais alto do mundo, muitíssimo mais alto do que o
Colosso de Rodes alguma vez fora. Pensava que Roma era linda, disse Délio para
consigo, depois vi Pérgamo e achei-a maravilhosa, mas agora que vi Alexandria,
estou atordoado, simplesmente atordoado. António esteve aqui há cerca de vinte
anos mas nunca o ouvi falar da cidade. A farra deve ter sido tal que ele nem se
lembra, suponho.
A convocatória para a audiência com a rainha Cleópatra chegou no dia seguinte,
o que lhe convinha; já concluíra a sua avaliação do valor da cidade e Lasthenes
passara tudo a limpo em bom papel e em duplicado.
A primeira coisa de que teve consciência foi do ar perfumado, pesado com
incensos odoríferos e uma substância que nunca cheirara antes; depois a sua
visão sobrepôs-se ao olfacto e ele ficou de boca aberta a olhar para as paredes
de ouro, o pavimento de ouro, as estátuas de ouro, as mesas e cadeiras de ouro.
Um olhar mais atento revelou-lhe que o ouro era apenas uma camada fina e
superficial, mas a sala brilhava como um sol. Duas das paredes estavam cobertas
com estranhas pinturas de pessoas e plantas a duas dimensões, ricamente
coloridas em todos os tons inimagináveis. Com excepção da púrpura de Tiro.
Dessa cor não havia vestígios.
- Saúdem todos os dois Faraós, Senhores das Duas Senhoras do Alto e Baixo
Egipto, Senhores do Papiro e da Abelha, Filhos de Amon-Rá, Ísis e Ptah! - rugiu
o Senhor Alto-Camareiro batendo com o bastão dourado no solo, emitindo um som
cavo que fez com que Délio repensasse as suas conclusões quanto ao revestimento
com uma camada de ouro fino. O pavimento tinha um som maciço.
Sentaram-se em dois tronos sofisticados, a mulher no topo da plataforma dourada
e o rapaz um degrau abaixo dela. Estavam os dois vestidos com roupas estranhas
feitas com linho branco finamente tratado e ambos usavam enormes toucados de
esmalte vermelho em torno de um tubo de esmalte branco. Em volta do pescoço
traziam colares de ouro encastoados com jóias magníficas, os braços estavam
envoltos por braceletes de ouro, à cintura tinham cintos cravados de pedras
preciosas e nos pés calçavam sandálias de ouro. Tinham os rostos muito
pintados, o dela de branco e o do rapaz de um vermelho-ferrugem e os olhos
estavam de tal forma pintados com várias cores e contornados a preto, que
deslizavam, sinistros, como peixes com presas, de uma forma completamente
estranha aos olhos humanos.
- Quinto Délio - disse a rainha (Délio não fazia ideia do que quereria dizer o
título de Faraó) -, damos-te as boas-vindas ao Egipto.
- Venho como embaixador oficial do imperator Marco António - disse Délio
apanhando o jeito à coisa - e trago saudações cordiais para os tronos gémeos do
Egipto.
- Mas que impressionante - disse a rainha com os olhos a deslizarem de forma
estranha.
- É tudo? - perguntou o rapaz cujos olhos eram mais brilhantes.

42

- Humm... infelizmente não, Majestade. O triúnviro Marco António requer a vossa


presença em Tarso para responder a acusações.
- Acusações? - perguntou o rapaz.
- A alegação de que o Egipto auxiliou Gaio Cássio, violando dessa forma o seu
estatuto de Amigo e Aliado do Povo Romano.
- E isso é uma acusação? - perguntou Cleópatra.
- Uma acusação muito grave, Majestade.
- Iremos então a Tarso para responder pessoalmente. Podes retirar-te da nossa
presença, Quinto Délio. Quando estivermos prontos para partir serás notificado.
E pronto! Nada de convites para jantar, nenhuma recepção para o apresentar à
corte... com certeza que havia uma corte! Nenhum monarca oriental conseguia
funcionar sem várias centenas de bajuladores a dizerem-lhe como era maravilhoso
(ou maravilhosa). Mas ali estava Apolodoro escoltando-o firmemente para fora da
sala onde, aparentemente, seria deixado entregue a si próprio!
- A Faraó irá de barco para Tarso - disse Apolodoro -, tens portanto uma
alternativa, Quinto Délio. Podes mandar embora a tua gente por terra e ir com
eles ou podes mandar a tua gente para casa por terra e viajar a bordo de um dos
navios reais.
Ah!, pensou Délio. Alguém os avisou de que eu vinha a caminho. Há um espião em
Tarso. Esta audiência foi uma farsa concebida para me pôr a mim, e a António,
no nosso lugar.
- Irei de barco - respondeu ele com altivez.
- Uma sábia decisão. -Apolodoro fez uma vénia e afastou-se, deixando a sós
Délio que começou a caminhar vigorosamente para se acalmar, pois ficara
muitíssimo irritado. Como se atreviam? A audiência não lhe dera qualquer
oportunidade de avaliar os encantos femininos da Faraó nem de descobrir por si
próprio se o rapaz era realmente filho de César. Pareciam um par de bonecas
pintadas, ainda mais estranhos do que aquela coisa de madeira que a sua própria
filha arrastava pela casa como se fosse humana.
O sol estava quente; talvez, pensou Délio, me fizesse bem banhar-me nas ondas
frescas daquela enseada deliciosa junto ao meu palácio. Délio não sabia nadar -
o que era estranho num romano - mas um passeio com água pelo tornozelo seria
inofensivo. Desceu uma série de degraus de pedra e depois sentou-se numa rocha
para desapertar os seus sapatos senatoriais de cor púrpura.
- Gostas de nadar? Eu também - disse uma voz alegre... infantil mas grave. -E a
maneira mais divertida de me livrar destas porcarias.
Sobressaltado, Délio virou-se e viu o rapaz rei vestido só com uma tanga e o
rosto ainda pintado.
- Tu nadas, eu molho os pés - disse Délio.
Cesarião entrou no mar até ter água pela cintura e depois lançou-se para a
frente a nadar, avançando destemidamente nas águas profundas.

43

Mergulhou e veio à superfície com o rosto coberto por uma mistura de preto e
vermelho-ferrugem; depois mergulhou repetidamente.
- A tinta é solúvel em água, mesmo salgada - disse o rapaz, com água pela
cintura e esfregando vigorosamente a cara com ambas as mãos.
E ali estava César. Ninguém poderia duvidar da identidade do pai ao ver o
filho. Será por isso que António o quer apresentar ao Senado e propor que este
o confirme rei do Egipto? Assim que o rapaz fosse visto em Roma por todos
quantos tinham conhecido César, arranjaria clientes mais depressa do que o
casco de um navio apanha crustáceos. Marco António quer desequilibrar
Octaviano, que só consegue imitar César com botas com solas espessas e imitando
os gestos de César. Cesarião é o artigo genuíno, Octaviano é uma imitação
barata. Oh, como Marco António é esperto! Provocar a queda de Octaviano
exibindo César em Roma. Os soldados veteranos derreter-se-ão como neve ao sol e
eles têm muito poder.
Cleópatra, já limpa da maquilhagem real através do método mais ortodoxo da taça
de água quente, começou a rir às gargalhadas.
-Apolodoro, isto é maravilhoso! - gritou entregando a Sosígenes os papéis que
acabara de ler. - Onde foste arranjá-los? - perguntou enquanto Sosígenes os
examinava soltando risadinhas.
- O escriba dele gosta mais de dinheiro do que de estátuas, Filha de Ámon-Rá. O
escriba fez uma cópia extra e vendeu-ma.
- Será que Délio agiu seguindo ordens? Ou será apenas a forma que tem de
demonstrar ao seu amo que lhe pode ser valioso?
- Inclino-me para a segunda hipótese, Majestade - disse Sosígenes limpando os
olhos. - Que tolice! A estátua de Serápio pintada por Meias? Esse já estava
morto há muito tempo quando Briáxis deitou bronze num molde pela primeira vez.
E não deu pela estátua de Apolo de Praxíteles no Ginásio: "uma escultura sem
grande valor artístico" chamou-lhe ele! Oh, Quinto Délio, és um idiota!
- Não subestimemos um homem só por não conseguir distinguir um Fídias de uma
cópia napolitana em gesso - disse Cleópatra. - O que esta listagem me diz é que
António está desesperado por dinheiro. Dinheiro esse que eu, para começar, não
estou disposta a dar-lhe.
Cha'em entrou acompanhado pela mulher.
- Tach'a, finalmente! Que nos diz a taça a respeito de António?
O rosto belo e suave permaneceu impassível. Tach'a era uma sacerdotisa de Ptah,
treinada quase desde o berço para não deixar transparecer as emoções.
- As pétalas de lótus formaram um padrão que eu nunca tinha visto, Filha de Rá.
Por mais vezes que eu as lançasse à água, aparecia sempre o mesmo padrão. Sim,
ísis aprova Marco António para pai dos vossos filhos, mas isso não será fácil e
não acontecerá em Tarso. No Egipto, só no Egipto. A semente dele é demasiado
fraca, terá que ser alimentado com os sumos e os frutos que fortalecem a
semente dos homens.

44

- Se o padrão é tão único, Tach'a minha mãe, como podes ter tanta certeza do
que as pétalas nos dizem?
- Porque pesquisei nos arquivos sagrados, Faraó. Este padrão que me apareceu
foi apenas o último a aparecer nos últimos três mil anos.
- Deverei recusar-me a ir a Tarso? - perguntou Cleópatra a Cha'em.
- Não, Faraó. As minhas próprias visões dizem-me que a ida a Tarso é
necessária. António não é um Deus fora do Ocidente, mas tem algum desse sangue.
O suficiente para os nossos objectivos, que não são arranjar um rival a
Cesarião! Daquilo que ele precisa é de uma irmã com quem se casar e de alguns
irmãos que sejam seus subordinados leais.
Cesarião entrou a pingar.
- Mamã, acabei de falar com Quinto Délio - disse ele, deixando-se cair num sofá
fazendo com que Charmian corresse, sorridente, em busca de toalhas.
- Falaste? Onde foi isso? - perguntou Cleópatra a sorrir.
Os olhos grandes, mais verdes que os de César e sem a natureza penetrante
daqueles, franziram-se de diversão.
- Quando fui nadar. Ele andava a chapinhar. Imaginas uma coisa assim? A
chapinhar! Disse-me que não sabia nadar e, através dessa confissão, concluí que
ele nunca foi contubernalis em nenhum exército com alguma importância. É um
soldado de sofá.
- A conversa foi interessante, meu filho?
- Eu confundi-o, se é isso que queres dizer. Suspeitou de que tínhamos sido
avisados da sua chegada mas, quando me separei dele, já ele estava certo de nos
ter apanhado de surpresa. Foi a notícia de que iríamos de barco para Tarso que
lhe levantou as suspeitas. Por isso deixei escapar que o fim de Abril é a
altura do ano em que tiramos os navios dos seus abrigos e os inspeccionamos em
busca de algum rombo e fazemos exercícios com as tripulações. Foi um feliz
acaso, disse eu, estarmos prontos para zarpar e não termos que passar imenso
tempo a remendar os barcos.
E ele ainda não tem seis anos, pensou Sosígenes. Esta criança foi abençoada por
todos os deuses do Egipto.
- Não estou a gostar desse "nós" - disse a mãe franzindo o cenho. O rosto
animado e ansioso ensombrou-se.
- Mamã! Não podes estar a falar a sério! Eu vou contigo... Tenho que ir
contigo!
- Alguém tem que reinar na minha ausência, Cesarião.
- Eu não! Sou demasiado novo!
- Tens idade suficiente e isso chega. Nada de Tarso para ti.

45

Um veredicto que atingiu a vulnerabilidade essencial da criança de cinco anos;


tristeza inconsolável cresceu dentro de Cesarião, a dor que só uma criança
consegue sentir quando é privada de uma qualquer experiência nova
apaixonadamente desejada. Rebentou num pranto ruidoso mas, quando a mãe tentou
consolá-lo, empurrou-a com tal violência que a fez tropeçar e ele saiu da sala
a correr.
- Isto passa-lhe - disse Cleópatra tranquilamente. - Viram como tem força?
Será que lhe passará?, pensou Tach'a que via um Cesarião diferente: compulsivo,
dividido, dolorosamente solitário. Ele é César, não é Cleópatra, e ela não o
compreende. Não era a oportunidade de se pavonear como um rapazinho rei que o
fazia ansiar por ir a Tarso, mas sim a oportunidade de conhecer locais novos e
aliviar a sua insatisfação neste pequeno mundo em que habita.
Dois dias mais tarde a frota real reuniu-se no Grande Porto, com o gigantesco
navio Filopator, amarrado ao cais no pequeno porto ali ao lado e denominado
Porto
Real.
- Bons deuses! - disse Délio vendo aquilo de boca aberta. - Será que tudo no
Egipto é maior do que no resto do mundo?
- Gostamos de pensar que assim é - disse Cesarião que por razões conhecidas
apenas dele próprio criara o hábito de seguir Délio por toda a parte.
- É uma barca! Vai adornar e afundar-se!
- É um navio e não uma barca - disse Cesarião. - Os navios têm quilhas, as
barcas não - continuou ele como se fosse um mestre-escola -, e a quilha do
Filopator foi esculpida num enorme cedro abatido no Líbano... nessa altura a
Síria era nossa. O Filopator foi construído como deve ser, com uma sobrequilha
e reforços e um casco chato. Tem imenso espaço no porão e estás a ver? Ambos os
bancos de remadores são projectados sobre a água. Não é muito pesado na parte
de cima, mesmo contando com as plataformas para os remadores. O mastro tem
trinta metros de altura e o capitão Agátocles decidiu manter a vela latina a
bordo, para o caso de os ventos estarem muito favoráveis. Estás a ver figura de
proa? É o próprio Filopator que nos abre caminho.
- Sabes muitas coisas - disse Délio que não percebia muito de navios e
continuava a não perceber, mesmo depois daquela lição.
- As nossas frotas navegam até à índia e à Taprobana. A mamã prometeu-me que
quando eu for mais velho me leva ao Sinus Arabicus para as ver partir. Como
gostaria de viajar nelas! - Subitamente, o rapaz entesou-se e preparou-se para
fugir. - Vem ali a minha ama! É completamente nojento ter uma ama! - E
desapareceu a correr, decidido a iludir a pobre criatura que não estava à
altura de tal pupilo.
Passado pouco tempo apareceu um criado à procura de Quinto Délio; chegara a
hora de entrar a bordo do seu navio que não era o Filopator.

46

Não soube se deveria ficar triste ou contente; o navio da rainha sem dúvida que
ficaria muito para trás dos restantes, mesmo sendo cómodo e luxuoso.
Apesar de Délio não o saber, os seus mestres navais tinham feito alterações ao
navio, que aguentara surpreendentemente bem as experiências no mar. Da popa à
proa, o navio media cento e seis metros e tinha doze metros de largo. Ao
transferir ambos os bancos de remadores para plataformas exteriores, tinha-se
conseguido aumentar o espaço disponível no porão, mas a Faraó não podia ficar
perto dos trabalhadores, pelo que o porão ficou para as cento e cinquenta
pessoas que viajavam no Filopator, a maioria das quais estava louca de terror
só com a ideia de viajar no mar.
A antiga sala de recepções à popa foi transformada no domínio da Faraó, com
espaço suficiente para um quarto, outro para Charmian e Iras, e uma sala de
jantar que acomodava vinte e um divãs. A arcada de colunas com capitéis de
lótus ficou no mesmo sítio, erguendo-se na frente do mastro com uma plataforma
elevada, protegida por uma cobertura de telhas e suportada por uma coluna nova
em cada canto. Mais à frente ficava a sala de recepções, agora um pouco mais
pequena do que a antiga, para que Sosígenes e Cha'em pudessem ter os seus
próprios quartos. E ainda mais à frente, ardilosamente escondida na proa, fora
construída uma cozinha aberta. Nas viagens fluviais a maior parte da comida era
preparada em terra; o fogo era sempre um risco num navio de madeira. Mas no mar
não havia margens onde se pudesse cozinhar.
Cleópatra fazia-se acompanhar de Charmian e de Iras, duas mulheres de cabelos
claros e pura linhagem macedónia que eram suas companheiras desde a infância.
Tinham sido elas a ficar com a tarefa de seleccionar trinta jovens raparigas
para viajarem com a Faraó até Tarso. Tinham que ter rostos belos e corpos
voluptuosos, mas nenhuma delas podia ser prostituta. O soldo era de dez dracmas
de ouro, uma pequena fortuna, mas não era o dinheiro que as dispunha a
enfrentar o desconhecido, mas antes as roupas que lhes tinham dado para usar em
Tarso - tecidos vaporosos de ouro e prata, brocados reluzentes de contas de
metal, linhos transparentes em todas as cores do arco-íris, lãs tão finas que
se agarravam aos corpos como se estivessem molhadas. Uma dúzia de rapazinhos
muitíssimo belos tinha sido comprada nos mercados de escravos de Pelúsio e
quinze homens bárbaros muito altos e bem constituídos. Todos os homens em
exibição estavam equipados com saiotes bordados de forma a se assemelharem a
caudas de pavão. O pavão, decidira Cleópatra, seria o tema do Filopator e tinha
sido gasta uma boa maquia em ouro a comprar penas de pavão, uma soma que
levaria António às lágrimas.
A frota zarpou no primeiro dia de Maio e, impulsionada pela vela, o Filopator
mostrou desdenhosamente aos outros navios o enfeite da popa. Os únicos ventos
que poderiam ter soprado contrários à sua rota para norte, os ventos etésios,
não sopravam naquela época do ano. Uma brisa forte de sudoeste inchava as velas
da frota e facilitava em muito a vida dos remadores.

47

Não apareceu nenhuma tempestade que os obrigasse a procurar um porto no caminho


e o piloto, que ia a bordo do Filopator, na frente, reconhecia cada cabo da
costa síria sem qualquer hesitação. Junto ao cabo Heracleia, em frente à
extremidade de Chipre, veio ter com Cleópatra.
- Majestade, temos duas hipóteses - disse ele de joelhos.
- Que são quais, Palamedes?
- Continuarmos ao longo da costa da Síria até ao promontório Rhosicum e depois
atravessar a parte superior de Sinus Issicus até ao estuário dos grandes rios
da Cilicia Pedia. Isso significa que encontraremos bancos de areia e baixios...
avançaremos lentamente.
- E qual é a alternativa?
- Entrarmos aqui em águas mais profundas e navegar para noroeste, o que é
possível com este vento, até chegarmos mais acima da costa da Cilicia perto do
estuário do rio Cidno.
- Qual será a diferença no tempo passado no mar, Palamedes?
- É difícil de dizer, Majestade, mas talvez uns dez dias. Os rios da Cilícia
Pedia devem estar inundados, o que será uma dificuldade acrescida se formos
junto à costa. Mas deveis compreender que a alternativa tem os seus perigos.
Uma tempestade ou uma mudança na direcção dos ventos pode levar-nos a qualquer
local desde a Líbia à Grécia.
- Vamos correr o risco e atravessar o mar aberto.
E os deuses dos rios do Egipto, talvez por a sua aparição na vastidão do seu
reino ser inesperada para Neptuno, revelaram-se suficientemente fortes para
manter a frota na rota certa até ao estuário do rio Cidno. Ou talvez o Pai
Neptuno, um deus caracteristicamente romano, tivesse feito um contrato com os
seus irmãos egípcios. Qualquer que fosse a razão, no décimo dia de Maio, a
frota juntou-se ao largo da barra de Cidno. Não era uma boa altura para a
atravessar, com a forte corrente contrária; os remadores teriam agora a
oportunidade de justificar o seu salário! A passagem estava claramente
delimitada por pilares pintados; entre estes labutavam infatigavelmente várias
barcaças dragando a areia e a lama. Nenhum dos navios tinha um grande calado;
em particular Filopator que fora concebido para a navegação fluvial. Ainda
assim Cleópatra mandou a frota avançar na sua frente, pois queria que Délio
tivesse tempo de anunciar a sua chegada a António.
Este foi encontrar António entediado e inquieto, mas ainda sóbrio.
- Então? - perguntou António, olhando animosamente para Délio. Uma das grandes
mãos acenou para o topo da secretária coberta de papéis e de rolos. - Olha para
isto! E são tudo ou contas ou más notícias! Conseguiste? A Cleópatra vem?
- Cleópatra está aqui, António. Viajei a bordo de um dos navios da sua frota
que está neste momento a atracar no rio. Vinte trirremes, todas elas de
guerra... receio que não haja aí nenhuma oportunidade de negócio.

48

A cadeira arrastou no chão; António levantou-se e foi até à janela, os seus


movimentos fazendo com que Délio pensasse mais uma vez na elegância que alguns
homens grandes conseguiam ter.
- Onde está ela? Espero que tenhas dito ao chefe do porto para lhe dar o melhor
cais.
- Disse, mas isso vai levar algum tempo. O navio dela é tão comprido como três
galeras de guerra gregas dos velhos tempos, portanto não é propriamente
possível encaixá-lo entre dois navios mercantes já atracados. O chefe do porto
tem que mudar sete navios de lugar... não está satisfeito, mas fá-lo-á. Falei
em teu nome.
- Um navio suficientemente grande para transportar um titã, hem? Quando é que
irei vê-lo? - perguntou António de cenho franzido.
- Amanhã de manhã, cerca de uma hora após o nascer do sol. - Délio soltou um
suspiro de contentamento. - Ela veio sem um queixume e veio em grande estilo.
Acho que te quer impressionar.
- Certificar-me-ei então que não consegue. Porca presunçosa!
Razão pela qual António, quando o sol surgia por detrás das árvores a leste de
Tarso, foi num cavalo de aspecto banal até à margem mais distante do Cidno,
envolto numa capa parda e absolutamente sozinho. Ver o inimigo primeiro é uma
vantagem; os tempos que passara ao lado de César no exército, tinham-lho
ensinado. Oh, como é doce o cheiro do ar! Que estou eu a fazer numa cidade
saqueada quando tenho marchas para fazer e batalhas para travar?, perguntou a
si próprio apesar de conhecer a resposta. Ainda estou aqui porque queria saber
se a rainha do Egipto iria responder à minha convocatória. E aquela outra porca
presunçosa, a Glafira, começou a pressionar-me de uma maneira que foi
aperfeiçoada pelas mulheres orientais: com doçura, lágrimas, tudo carregado de
suspiros e lamentos. Oh, Fúlvia! Quando ela pressiona um homem este sabe que
está a ser pressionado: rosnidos, resmungos e rugidos! E também não se rala de
levar um estalo nas orelhas, desde que o homem também não se rale de, na
retaliação, ficar com as unhas dela marcadas no peito.
Ah, estava ali um bom sítio! Virou-se de lado e deslizou de cima do cavalo,
dirigindo-se a uma pedra plana que se erguia alguns metros acima da margem.
Sentado nela teria uma vista perfeita da subida do navio de Cleópatra pelo rio
até ao cais onde ficaria atracado. Não estava a mais de cinquenta passos do
canal do rio; estava tão próximo, que conseguia distinguir um passarinho de
penas brilhantes no ninho no beirado de um armazém junto ao cais.
O Filopator subiu lentamente o rio, à velocidade de um homem caminhando a bom
ritmo, fazendo António ficar de boca aberta muito antes de estar na sua frente.
Só conseguia discernir uma figura de proa envolta numa névoa dourada: um homem
de pele castanha e tanga branca, um colar e cinto de ouro com jóias engastadas
e um enorme toucado vermelho e branco. Os seus pés nus rasavam as pequenas
ondas se formavam dos dois lados da quilha e na mão direita brandia uma lança
dourada.

49

Já vira outras figuras de proa, mas nenhuma tão grande nem que estivesse tão
integrada na própria proa. Aquele homem - talvez um rei antigo? - era o navio e
usava-o como se fosse uma capa adejante.
Tudo parecia feito de ouro; o navio era dourado desde a linha de água até ao
topo do mastro e o que não estava pintado a ouro estava coberto de azul e
verde--pavão, brilhando com o brilho do ouro. Os telhados dos abrigos
construídos no convés eram de telhas de faiança em azul e verde-vivo e uma
arcada completa de colunas com capitéis em forma de lótus ladeava o convés. Até
os remos eram dourados! E as pedras preciosas brilhavam por todo o lado! Só
aquele navio valia dez mil talentos de ouro!
Os perfumes pairavam no ar, ecoavam flautas e liras, ouviam-se os cânticos de
um coro, todos eles invisíveis; belíssimas raparigas com vestes vaporosas
atiravam flores retiradas de cestos dourados e vários rapazinhos lindos com
tangas decoradas com penas de pavão penduravam-se, rindo, dos cordames brancos
como neve. A vela enfunada, içada para ajudar os remadores a vencer a corrente,
era mais alva do que branca, com duas cabeças de animais bordadas - uma cobra-
de-capelo e um abutre - e um olho estranho a verter uma lágrima negra.
Havia penas de pavão por toda a parte, mas principalmente em torno de uma
plataforma dourada que se elevava na frente do mastro. Num trono estava sentada
uma mulher com vestes cobertas por penas de pavão e, na cabeça, o mesmo toucado
branco e vermelho usado pelo homem da figura de proa. Os seus ombros brilhavam
com as jóias cravadas num largo colar de ouro e um cinto largo do mesmo tipo
envolvia-lhe a cintura. Empunhava, cruzado sobre o peito, um bastão curvo de
pastor e um mangual de ouro trabalhado com lápis-lazúli. Tinha o rosto de tal
forma maquilhado que era impossível saber qual o seu verdadeiro aspecto; a
expressão era de total impassibilidade.
O navio passou suficientemente perto dele para que pudesse ver que o convés
estava pavimentado com mosaicos verdes e azuis que condiziam com as telhas. Um
navio pavão, uma rainha pavoa. Bem, pensou António inexplicavelmente irritado,
ela verá quem é o galo que está no poleiro em Tarso!
Passou a galope pela ponte que levava à cidade, saltou do cavalo à porta do
palácio do governador e entrou aos gritos pelos criados.
- Toga e lictores, já!
E quando a rainha enviou o seu camareiro, o eunuco Filo, para informar Marco
António da sua chegada, foi-lhe dito que Marco António estava na ágora a julgar
casos fiscais e que só poderia receber Sua Majestade na manhã seguinte.
Na realidade essa fora a intenção de Marco António havia vários dias; tal tinha
sido formalmente anunciado no tribunal da ágora e quando tomou o seu lugar no
tribunal, viu aquilo que esperara encontrar: uma centena de litigantes, pelo
menos igual número de advogados, várias centenas de espectadores e várias
dezenas de vendedores de bebidas, comida, petiscos, sombrinhas e leques.

50

Mesmo em Maio, Tarso era quente. Razão pela qual o tribunal estava protegido
por um toldo carmim com a inscrição SPQR em pedaços de pano dependurados da sua
orla a intervalos de poucos metros. No cimo do tribunal de pedra sentava-se o
próprio António na sua cadeira curul de marfim, com doze lictores vestidos de
púrpura de cada um dos lados e com Lucílio sentado a uma mesa repleta de rolos
de pergaminhos. O mais recente actor naquele drama era um centurião grisalho,
de pé a um dos cantos do tribunal; envergava uma camisa de malha dourada,
caneleiras douradas, ostentava o peito carregado de phalerae, armillae, torques
e um capacete dourado cuja crina vermelha se abria em arco como um leque. Mas o
peito carregado de medalhas por actos de bravura não era o que intimidava
aquela audiência. Isso ficava a cargo da comprida espada gaulesa que o
centurião segurava com a ponta assente no solo. Tal era um lembrete para os
cidadãos de Tarso de que Marco António possuía imperium maius e podia mandar
executar quem quer que fosse por qualquer razão. Se se lhe metesse na cabeça
proferir uma sentença de morte, então aquele centurião executá-la-ia ali mesmo.
Não que António tivesse qualquer intenção de executar uma mosca ou uma aranha,
mas se os orientais estavam habituados a ser governados por gente que executava
tais caprichos regularmente, para quê desapontá-los?
Alguns dos casos eram interessantes e outros divertidos. António tratou de
todos eles com a eficiência e o distanciamento que parecia ser característica
de todos os Romanos, fossem eles membros do proletariado ou da aristocracia.
Era um povo que percebia a lei, tinha método, rotina, disciplina, embora
António fosse menos dotado destas qualidades essencialmente romanas do que a
maioria. Mesmo assim atacou a tarefa com vigor e, por vezes, com veneno. Um
movimento repentino da multidão provocou o desequilíbrio de um dos litigantes,
justamente no momento em que passaria a defesa do seu caso ao advogado
principescamente pago que estava a seu lado. Marco António virou a cabeça de
cenho franzido.
A multidão afastava-se, zumbindo de espanto, para dar passagem a uma pequena
procissão encabeçada por um homem castanho e de cabeça rapada, de vestes
brancas e uma fortuna em correntes de ouro à volta do pescoço. Atrás dele vinha
Filo, o camareiro, envolto em linhos azuis e verdes, o rosto delicadamente
maquilhado, o corpo brilhante de pedras preciosas. Mas eles não eram nada
quando comparados com aquilo que os seguia: uma espaçosa liteira dourada, a
cobertura de telhas de faiança, os cantos adornados por adejantes penas de
pavão. Era transportada por oito homens enormes, negros como passas, todos com
o mesmo tom de pele. Usavam tangas com motivos de penas de pavão e braceletes
de ouro e brilhantes toucados dourados nemes.

51

A rainha Cleópatra aguardou que os carregadores pousassem suavemente a liteira


e depois, sem esperar que a ajudassem a descer, saiu agilmente da liteira e
aproximou-se dos degraus do tribunal romano.
- Marco António, convocaste-me para Tarso. Aqui estou - disse ela numa voz
clara e sonora.
- O vosso nome não consta da minha lista de casos de hoje, senhora! Tereis que
falar com o meu secretário, mas asseguro-vos que o vosso nome será o primeiro
da lista da manhã - disse António com a cortesia devida a uma monarca mas sem
deferência.
Interiormente ela fervia. Como se atrevia aquele campónio romano a tratá-la
como a todos os outros?! Viera à ágora para que todos vissem o labrego que ele
era e para exibir o seu enorme poder e autoridade aos Tarsos, que
compreenderiam a sua posição e não ficariam com muito boa opinião de António
depois de este lhe cuspir metaforicamente em cima. Ele ali não estava no Fórum
romano, aqueles não eram homens de negócio romanos - todos tinham desistido dos
negócios por não serem lucrativos. Esta era uma gente parecida com o seu povo
de Alexandria, sensível às prerrogativas e direitos dos monarcas. Importavam-se
de ser empurrados pela rainha do Egipto? Não, sentir-se-iam gratos pela
distinção! Todos tinham ido até ao cais para se maravilhar com o Filopator e
tinham vindo à agora com a expectativa de ver os seus casos adiados. Sem dúvida
que António calculava que eles apreciariam os seus princípios democráticos ao
recebê-los em primeiro lugar, mas o aparelho cerebral dos orientais não
funcionava dessa maneira. Ficaram chocados e perturbados e reprovadores. O que
ela fazia ao apresentar-se humildemente ao fundo dos degraus do tribunal dele,
era demonstrar aos Tarsos como os Romanos eram arrogantes.
- Obrigada, Marco António - disse. - E se não tiveres planos para o jantar
talvez queiras juntar-te a mim esta noite no meu barco? Digamos que ao
crepúsculo? É mais confortável jantar depois de o ar ficar mais fresco.
Ele ficou a olhar para ela com um brilho irado nos olhos. Ela conseguira, não
sabia como, deixá-lo malvisto, podia vê-lo nos rostos da multidão, que se
curvava e fazia vénias e mantinha a distância da personagem real. Em Roma teria
sido linchada, mas ali? Nunca, ao que parecia. Amaldiçoada fosse a mulher!
- Não tenho planos para o jantar - disse bruscamente. - Podeis esperar-me ao
crepúsculo.
- Enviar-te-ei a minha liteira, imperator António. Por favor traz também Quinto
Délio, Lúcio Publícola, os irmãos Saxa, Marco Barbácio e mais cinquenta e cinco
dos teus amigos.
Cleópatra subiu agilmente para a liteira; os carregadores pegaram nas varas e
viraram-se, pois aquela não era uma liteira qualquer, tinha uma frente e uma
traseira para permitir que o ocupante fosse devidamente admirado.

52

- Continua, Melanthus - disse António ao litigante que a chegada da rainha


interrompera a meio de uma frase.
O perturbado Melanthus virou-se, impotente, para o seu advogado
principescamente pago com os braços abertos de espanto. Oportunidade que o
homem aproveitou para demonstrar a sua competência retomando a apresentação do
caso como se não tivesse havido qualquer interrupção.
Os criados levaram algum tempo a encontrar uma túnica suficientemente limpa
para António usar no jantar no navio; as togas eram demasiado volumosas para
serem usadas ao jantar e tinham que ser despidas. E as botas - o calçado que
ele preferia - também não eram adequadas. Tinham que ser atacadas e
desatacadas. Oh, como desejaria ter uma coroa de bravura para levar na cabeça!
César usara as folhas de carvalho em todas as ocasiões públicas, mas só uma
bravura extraordinária no campo de batalha, quando era jovem, lhe granjeara
esse privilégio. Tal como Pompeu, o Grande, António nunca conquistara uma
coroa, apesar de ter sido sempre corajoso. A liteira aguardava-o. Fingindo que
tudo aquilo era muito divertido, António trepou lá para dentro e ordenou ao
bando dos seus amigos, rindo e dizendo piadas, que caminhassem à volta da
liteira. A liteira foi motivo de admiração, mas não tanto como os carregadores
que eram de uma raridade fascinante; mesmo nos mercados de escravos mais bem
fornecidos e dinâmicos, não apareciam à venda homens negros. Em Itália os
negros eram de tal forma raros que os escultores os açambarcavam, mas ainda
assim eram normalmente mulheres e crianças e raramente de sangue puro, como os
carregadores de Cleópatra. A beleza das suas peles, a perfeição dos seus
rostos, a dignidade do seu porte, a todos deixavam maravilhados. O impacto que
teriam em Roma! Embora, pensa António, sem dúvida que ela já os tinha quando
vivera em Roma. Só que nunca os vi.
A prancha de embarque, reparou, era toda em ouro com excepção dos corrimãos,
que eram de uma raríssima madeira de limoeiro, e o convés pavimentado com
mosaicos de faiança estava coberto com pétalas de rosa que libertavam um
perfume suave quando eram pisadas. Todos os pedestais que suportavam uma jarra
de ouro com penas de pavão ou uma obra de arte de valor incalculável eram de
ouro e marfim - o ouro delicadamente embutido no marfim. Lindas raparigas,
cujos membros graciosos eram visíveis através do tecido vaporoso das suas
vestes, conduziram-nos pelo convés, por entre as colunas, até a um par de
grandes portas de ouro esculpidas em baixo-relevo pela mão de um mestre
desconhecido; para lá destas havia um enorme salão com as persianas abertas
para deixarem entrar todas as brisas, as paredes em belos e complexos padrões
de madeira de limoeiro com embutidos, o chão coberto por uma camada espessa de
pétalas de rosa.
Ela está a provocar-me!, pensou António. A provocar-me!

53

Cleópatra aguardava-os, vestida com túnicas vaporosas que iam do âmbar mais
escuro junto à pele até à cor de palha clara na camada exterior. O estilo não
era grego, nem romano, nem asiático, mas algo de muito próprio, cintado, com
saias amplas e o corpete justo ao corpo realçando os seios pequenos. Os braços
muito magros eram suavizados por mangas em balão que terminavam nos cotovelos
para deixar espaço para as braceletes que lhe envolviam os antebraços. Em volta
do pescoço tinha uma corrente de ouro da qual pendia, montada numa belíssima
base de ouro, uma única pérola cor de morango. Os olhos de António foram
imediatamente atraídos por ela; susteve a respiração, desviando os olhos com
espanto para o seu rosto.
- Conheço essa pérola - disse.
- Sim, suponho que sua. César deu-a a Servília há muitos anos, para a subornar
quando desfez o noivado de Bruto com a filha. Mas Júlia morreu e depois Bruto
morreu e Servília perdeu todo o seu dinheiro na guerra civil. O velho Fabério
Margarita avaliou-a em seis milhões de sestércios, mas quando ela a pôs à venda
pediu dez milhões. Mulher idiota! Eu teria pago vinte milhões para ficar com
ela. Mas os dez milhões não chegavam para pagar as suas dívidas, segundo ouvi.
Bruto e Cássio perderam a guerra, o que lhe levou uma parte da fortuna e Vácia
e Lépido sugaram-na até ao tutano e levaram-lhe o resto. - Cleópatra falou em
tom divertido.
- É verdade que ela actualmente é pensionista de Ático.
- E a mulher de César suicidou-se, segundo sei.
- Calpúrnia? Bem, o pai dela, Pisão, queria casá-la com um traste qualquer
disposto a pagar uma fortuna pelo privilégio de se deitar com a viúva de César,
mas ela recusou-se. Pisão e a sua nova esposa fizeram-lhe a vida num inferno e
ela detestou ter que sair da Domus Publica. Cortou os pulsos.
- Pobre mulher. Sempre gostei dela. Também gostava de Servília, por acaso. As
que eu odiava eram as mulheres dos Homens Novos.
- A Terência de Cícero, a Valéria Messala de Pédio, a Fábia de Hírcio.
Compreendo a razão - disse António com um sorriso.
Enquanto conversavam, as raparigas conduziam aos respectivos divãs o grupo
fascinado que António trouxera consigo. Depois de elas terminarem, a própria
Cleópatra lhe pegou no braço e levou-o até ao divã na base do U, instalando-o
no locus consularis.
- Importas-te que não tenhamos um terceiro companheiro no divã? - perguntou.
- De maneira nenhuma.
Assim que se instalou foi servido o primeiro prato, um tal sortido de iguarias
que vários apreciadores que faziam parte do seu grupo aplaudiram com
entusiasmo. Passarinhos que eram comidos com ossos e tudo, ovos recheados com
pastas variadas, camarões grelhados, camarões cozidos ao vapor, camarões
abertos e grelhados com alcaparras gigantes e cogumelos. Ostras e vieiras
trazidas a galope da costa e mais uma centena de outros pratos, igualmente
deliciosos, destinados a serem comidos com os dedos.
54

Depois foi servido o prato principal, borregos assados inteiros no espeto,


capões, carne de crocodilo bebé - era soberba, aplaudiram os apreciadores -,
guisados e estufados condimentados de forma original e pavões inteiros assados,
dispostos em travessas de ouro com todas as penas repostas no local exacto e as
caudas abertas.
- Hortênsio foi o primeiro a servir pavão assado num banquete em Roma - disse
António e riu-se. - César disse que sabia ao mesmo que uma bota da tropa velha,
só que a bota era mais macia.
Cleópatra riu-se.
- É mesmo dele! Dessem a César uma papa de ervilhas ou grão-de-bico ou
lentilhas cozinhadas com um pedaço de porco salgado e ele ficava feliz. Não era
um apreciador de comida!
- Uma vez molhou o pão em azeite rançoso e nem reparou.
- Mas tu, Marco António, tu aprecias a boa comida.
- Sim, às vezes.
- O vinho é de Quios. Não devias bebê-lo aguado.
- Tenciono manter-me sóbrio, senhora.
- E porquê?
- Porque um homem precisa de ter a cabeça no lugar quando lida convosco.
- Vou tomar isso como um elogio.
- A idade não vos acrescentou a beleza - disse ele quando a sobremesa foi
servida, aparentemente indiferente à forma como qualquer mulher reagiria a um
comentário assim ao seu aspecto.
- O meu encanto nunca esteve na minha beleza - disse ela imperturbável. - Para
César o que era atraente era a minha voz, a minha inteligência e o meu estatuto
real. Em particular agradava-lhe o facto de eu conseguir aprender uma língua
com a mesma facilidade que ele. Ensinou-me o latim e eu ensinei-lhe demótico e
egípcio clássico.
- O vosso latim é impecável.
- O de César também o era. É essa a razão de o meu o ser.
- Não trouxestes o filho dele.
- Cesarião é Faraó. Deixei-o a governar. - Aos cinco anos?
- Quase seis e a caminho dos sessenta. Um rapaz maravilhoso. Suponho que
tencionas manter a promessa de o apresentar ao Senado como herdeiro de César no
Egipto? O direito dele ao trono deve ser incontestável, o que significa que
terá que ser demonstrado a Octaviano que ele não é uma ameaça para Roma. Apenas
um bom rei-cliente, meio romano, o que não lhe trará qualquer beneficio em
Roma. O destino de Cesarião está no Egipto e Octaviano tem que perceber isso.

55

- Concordo, mas esta não é a altura ideal para levar Cesarião a Roma para
ratificar os nossos tratados com o Egipto. Temos problemas na Itália e não
posso interferir, faça Octaviano o que fizer para resolver esses problemas. Ele
herdou a Itália como parte do nosso acordo em Filipos... dali a única coisa que
eu quero são tropas.
- Como romano não sentes uma certa responsabilidade pelo que está a acontecer
na Itália, António? - perguntou ela de cenho franzido. - Será prudente e boa
política deixar a Itália sofrer tanto com a escassez e os conflitos económicos
entre comerciantes, proprietários de terras e soldados veteranos? Não deverias
tu, Octaviano e Lépido terem ficado em Itália para resolver em primeiro lugar
os seus problemas? Octaviano não passa de um rapaz, não é possível que tenha a
sensatez nem a experiência necessárias paia ser bem-sucedido. Porque não o
ajudas em vez de lhe criares problemas? - Soltou uma gargalhada áspera e bateu
na almofada. - Nada disto é vantajoso para mim, mas não paro de pensar na
confusão que César deixou atrás de si em Alexandria e de como eu tive que
conseguir que todos os cidadãos cooperassem e as classes não se virassem umas
contra as outras. Falhei porque não compreendi como todas as guerras sociais
são desastrosas. César deixou-me os conselhos, mas não fui suficientemente
inteligente para os aproveitar. Mas se acontecesse de novo, eu já saberia como
lidar com isso. E o que vejo acontecer em Itália é uma variante dos meus
próprios problemas. Esquece os problemas que tens com Octaviano e com Lépido,
trabalhem em conjunto!
- Preferia morrer - disse António por entre dentes -, a dar qualquer ajuda que
seja àquele rapaz arrogante!
- O povo é mais importante do que um rapaz arrogante.
- Não, não é! Eu espero que a Itália morra de fome e farei tudo o que estiver
ao meu alcance para acelerar o processo. É por isso que tolero Sexto Pompeu e
os seus almirantes. Eles tornam impossível a Octaviano alimentar a Itália e
quanto menos impostos os comerciantes pagarem, menos dinheiro Octaviano terá
para comprar terras para entregar aos veteranos. Com os proprietários de terras
a mexer o caldeirão, Octaviano ficará frito.
- Roma construiu um império com o povo de Itália a norte do rio Padus até lá
abaixo à ponta de Brútio. Não te ocorreu que, ao insistires em recrutar tropas
em Itália, estás na verdade a admitir que nenhum outro local consegue produzir
soldados com tanta excelência? Mas se o país morrer de fome, eles também
morrerão.
- Não, não morrerão - disse António imediatamente. - A fome só os empurra para
se realistarem. É uma ajuda.
- Não para as mulheres que estão grávidas dos rapazes que crescerão para ser
esses excelentes soldados.
- Eles são pagos. Enviam dinheiro para casa. Os que morrem de fome são
inúteis... libertos gregos e velhas.

56

Mentalmente exausta, Cleópatra recostou-se e fechou os olhos. Conhecia bem as


emoções que levavam ao assassínio; o seu pai tinha estrangulado a sua própria
filha mais velha para garantir o trono e tê-la-ia morto a ela, se Cha'em e
Tach'a não a tivessem escondido em Mênfis enquanto crescia. Mas só a ideia de
atrair voluntariamente a fome e a doença sobre o seu próprio povo era-lhe
totalmente estranha. Estes homens apaixonados e desavindos eram de uma
crueldade que parecia não ter limites - não era de admirar que César tivesse
morrido às suas mãos. O seu prestígio pessoal e familiar era mais importante
para eles do que nações inteiras e, nisso, eram mais parecidos com Mitrídates,
o Grande, do que estavam dispostos a admitir. Se fosse para garantir a morte de
um inimigo da família, caminhariam sobre um mar de cadáveres. Continuavam a
praticar a política de uma pequena cidade-estado não compreendendo, parecia-
lhe, que a cidade-estado se tinha transformado na mais poderosa máquina militar
e comercial da História. Alexandre, o Grande, conquistara mais, mas quando
morrera tudo se desfizera como fumo em campo aberto; os Romanos conquistavam um
pedaço aqui, um pedaço ali, mas davam às suas conquistas uma ideia chamada Roma
para maior glória dessa ideia. E ainda assim não conseguiam ver que a Itália
era mais importante do que as suas desavenças pessoais. César costumava dizer-
lhe isso a toda a hora: Itália e Roma eram a mesma entidade. Mas Marco António
não teria concordado.
Contudo, estava um pouco mais próxima de compreender o tipo de homem que era
Marco António. Ah, mas sentia-se demasiado fatigada para prolongar o serão!
Haveria mais jantares e se os seus cozinheiros ficassem loucos a inventar novos
pratos, paciência.
- Por favor desculpa-me, Marco António. Vou para a cama. Fica o tempo que
quiseres. Filo cuida de ti.
Passados instantes, desaparecera. Franzindo o sobrolho, António pensou se
deveria ir ou ficar e decidiu ir-se embora. Na noite do dia seguinte oferecer-
lhe-ia um banquete. Coisinha estranha! Parecia uma daquelas raparigas que se
matavam à fome na idade em que deviam comer mais. Embora essas fossem criaturas
anémicas e débeis e Cleópatra fosse muito resistente. Pergunto-me, pensou
subitamente divertido, como estará Octaviano a dar-se com a filha de Fúlvia e
de Clódio? Ora aí está uma rapariga morta de fome! Não tinha mais carne do que
um mosquito!
O convite de Cleópatra para outro jantar nessa noite, chegou quando António
estava a sair na manhã seguinte para o tribunal onde sabia que a rainha não
voltaria a aparecer. Os seus amigos não paravam de falar nas maravilhas do
jantar, de tal maneira que ele abreviou o pequeno-almoço de pão com mel e
chegou à agora antes daquilo que os litigantes esperavam. Uma parte dele ainda
fervia ao pensar na direcção em que ela levara a parte mais séria da conversa e
não tinham sequer tocado no facto de ela ter tomado o partido de Cássio.

57

Isso, parecia-lhe bem, levaria um ou dois dias, mas não se lhe afigurava um bom
augúrio ela não se sentir intimidada. Quando regressou ao palácio do governador
para tomar banho, barbear-se e preparar-se para as festividades da noite a
bordo do Filopator, encontrou Glafira à sua espera.
- Não fui convidada ontem à noite? - perguntou numa voz tímida.
- Não, não foste.
- E fui convidada esta noite?
- Não.
- Deverei talvez enviar uma mensagem à rainha informando-a de que sou de sangue
real e tua hóspede aqui em Tarso? Se o fizesse certamente que ela me
convidaria.
- Podias fazer isso, Glafira - disse António sentindo-se subitamente bem-
disposto -, mas tal não te levaria a lado nenhum. Faz as malas. Vou mandar-te
de volta para Comana amanhã de madrugada.
As lágrimas correram como chuva silenciosa.
- Oh, pára com o dilúvio mulher! - gritou António. - Vais conseguir aquilo que
queres, mas ainda não. Continua com o dilúvio e és bem capaz de ficar sem nada.
Foi só na terceira noite a bordo do Filopator que António mencionou Cássio.
Como é que os cozinheiros dela conseguiam continuar a apresentar novidades, era
algo que lhe escapava, mas os seus amigos estavam perdidos num êxtase de
iguarias que não lhes deixava muito tempo para observar o que fazia o casal
instalado no lectus medius. Certamente que não estavam a fazer nenhuns avanços
amorosos e, sem esse género de especulação, a visão daquelas raparigas
lindíssimas era muito mais excitante - apesar de alguns dos convidados se
sentirem muito mais entusiasmados com os rapazinhos.
- Será melhor virdes jantar ao palácio do governador amanhã - disse António que
comera bem nos três jantares, mas não abusara. - Podereis dar aos vossos
cozinheiros um merecido descanso.
- Se quiseres - disse ela com indiferença. Debicava a comida e servia-se de
rações de pardal.
- Mas antes de honrardes a minha residência com a vossa presença real,
Majestade, será melhor resolvermos a questão do vosso auxílio a Gaio Cássio.
- Auxílio? Qual auxílio?
- Não considerais quatro boas legiões romanas um bom auxílio?
- Meu caro Marco António - disse ela fatigadamente -, essas quatro legiões
marcharam para norte sob o comando de Aulo Alieno, que fui induzida a pensar
ser um legado de Públio Dolabela que era, na altura, o governador legítimo da
Síria.

58

Como Alexandria estava ameaçada pela fome e pela praga, fiquei satisfeita por
entregar a Alieno as quatro legiões que César lá deixara. Se ele decidiu
passar-se para o outro lado depois de ter atravessado a fronteira da Síria, não
me podem culpar disso. A frota que te enviei e ao Octaviano foi destruída por
uma tempestade, mas não encontrarás registos de frotas enviadas a Gaio Cássio,
assim como ele não recebeu nenhum dinheiro meu nem cereais meus, nem tropas
enviadas por mim. Reconheço que o meu vice-rei em Chipre, Serapião, enviou
ajuda a Bruto e a Cássio, mas não me custa nada mandar executar Serapião. Ele
agiu sem ter ordens minhas o que o torna um traidor do Egipto. Se tu não o
executares, eu certamente que o farei no regresso a casa.
- Humm - grunhiu António de cenho franzido. Sabia que tudo quanto ela dissera
correspondia à verdade, mas esse não era o seu problema; o problema era como é
que havia de distorcer aquilo que ela dissera para que parecesse mentira. -
Posso arranjar escravos que testemunhem que Serapião agiu de acordo com as
vossas ordens.
- De livre vontade ou sob tortura? - perguntou ela calmamente.
- De livre vontade.
- Por uma pequena fracção do ouro pelo qual anseias mais do que Midas. Ora
António, sejamos francos! Eu estou aqui porque o teu Oriente fabuloso está
falido graças à guerra civil romana e, subitamente, o Egipto parece um ganso
enorme capaz de pôr ovos de ouro. Bem, desengana-te! - ladrou. - O ouro do
Egipto pertence ao Egipto, que goza do estatuto de Amigo e Aliado do Povo
Romano, estatuto que nunca violou. Se quiseres o ouro do Egipto terás que mo
arrancar pela força à frente de um exército. E mesmo então ficarás desapontado.
A listazinha patética que o Délio fez dos tesouros de Alexandria não passa de
um ovo de ouro de uma enorme pilha de ovos de ouro. E essa pilha está tão bem
escondida que tu nunca a encontrarás. Nem conseguirás que eu ou os meus
sacerdotes, que somos os únicos a conhecê-la, revelemos a sua localização sob
tortura.
Não eram as palavras de alguém que podia ser intimidado!
Procurando detectar o menor tremor na voz de Cleópatra ou o mínimo sinal de
tensão nas suas mãos ou corpo, António nada encontrou. Pior, ele sabia através
de várias coisas que César dissera, que o tesouro dos Ptolomeus estava de facto
tão ardilosamente escondido que ninguém que desconhecesse o segredo o
conseguiria encontrar. Sem dúvida que os objectos descritos na lista de Délio
alcançariam dez mil talentos, mas ele precisava de muito mais que isso. E fazer
o exército marchar até Alexandria, ou transportá-lo por mar, custar-lhe-ia
esses dez mil talentos. Oh, amaldiçoada fosse a mulher! Não consigo intimidá-la
nem forçá-la a pagar. Tenho portanto que encontrar uma outra forma. Cleópatra
não é nenhuma Glafira.

59

E assim foi entregue uma nota no Filopator, bem cedo na manhã seguinte,
comunicando que o banquete que António daria nessa noite seria uma festa de
fantasia.
"Mas forneço-vos uma pista" dizia a mensagem. "Se vierdes como Afrodite, eu
receber-vos-ei como o Novo Dioniso, o vosso parceiro natural na celebração da
vida."
E Cleópatra vestiu-se ao estilo grego, com camadas vaporosas de carmim e cor-
de-rosa. O seu cabelo fino castanho-rato estava penteado ao estilo habitual, em
pequenas tranças a partir da testa até à nuca, onde era preso num pequeno
carrapito. As pessoas riam-se e diziam que parecia a casca de um melão, o que
não andava longe da verdade. Uma mulher como Glafira poder-lhe-ia ter
explicado, se alguma vez tivesse visto Cleópatra no esplendor faraónico, que
aquele estilo pouco elegante lhe permitia usar a coroa dupla branca e vermelha
do Egipto com facilidade. Naquela noite, todavia, trazia um véu curto com
flores entretecidas e escolhera adornar-se com colares de flores ao pescoço, no
corpete e à cintura. Numa das mãos trazia uma maçã de ouro. O fato não era
especialmente atraente, mas isso não preocupou Marco António que não era grande
especialista em modas femininas. O objectivo da festa de fantasia era ele
próprio poder exibir-se no seu melhor.
No papel de Novo Dioniso, estava nu da cintura para cima e do meio das coxas
para baixo. As partes baixas estavam envoltas num pedaço de tecido vaporoso de
cor púrpura por baixo do qual uma tanga cuidadosamente concebida revelava uma
bolsa enorme, contendo os afamados genitais de António. Com quarenta e três
anos, continuava em grande forma, o físico hercúleo sem sinais dos excessos que
cometera e que a maioria dos homens só consegue acumular ao longo do dobro da
idade que ele tinha. As coxas e as pernas eram enormes, mas os tornozelos eram
elegantes e os peitorais sobressaíam por cima do ventre liso e musculado. Só a
cabeça tinha um ar estranho, pois o pescoço, grosso como o de um touro, fazia-a
parecer pequena demais. A tribo de raparigas que a rainha trouxera com ela
olharam para ele e sustiveram a respiração, quase morrendo de desejo.
- Credo, não tens um guarda-roupa lá muito variado - disse Cleópatra nada
impressionada.
- Dioniso não precisava de muita roupa. Tomai, comei uma uva - disse ele
estendendo-lhe o cacho que tinha na mão.
- Toma uma maçã - disse ela estendendo a mão.
- Eu sou Dioniso, não sou Paris. "Paris, seu menino lindo, seu mulherengo
sedutor" - citou. - Vedes? Também conheço Homero.
- Estou consumida de admiração. - Acomodou-se no divã; ele dera-lhe o locus
consularis, gesto nada apreciado pelos moralistas da sua comitiva. As mulheres
eram mulheres.
António tentou, mas aquele disfarce do género despido e pronto para a acção
parecia não afectar absolutamente nada Cleópatra. O que quer que fosse que a
motivava não era o lado físico do amor, disso estava certo.

60

Na realidade ela passou a maior parte da noite a brincar com a maçã de ouro que
mergulhou num copo de vidro com vinho rosado e maravilhou-se com a forma como o
azul do vidro dava ao ouro um sombreado subtil de cor púrpura, especialmente
quando a fazia girar com o dedo bem tratado.
Finalmente, desesperado, António jogou tudo numa única jogada: Vénus, os dados
tinham que dar Vénus!
- Estou a apaixonar-me por vós - disse ele acariciando-lhe o braço. Ela puxou o
braço como que para afastar um insecto indesejado.
- Gerrae - grunhiu.
- Não estou a dizer nenhum disparate! - disse ele com indignação sentando-se
muito direito. - Enfeitiçaste-me, Cleópatra.
- É a minha riqueza que te enfeitiça.
- Não, não! Não me importaria que fosses uma pedinte!
- Gerrae! Passar-me-ias por cima como se eu não existisse.
- Provarei que te amo! Diz-me o que tenho que fazer! A resposta dela foi
imediata.
- A minha irmã Arsínoe refugiou-se no templo de Ártemis em Éfeso. Foi condenada
à morte por uma sentença legalmente proferida em Alexandria. Executa-a,
António. Se ela estiver morta eu ficarei mais descansada, gostarei mais de ti.
- Eu tenho uma solução melhor - disse ele com a testa perlada de suor. - Deixa-
me fazer amor contigo.... Aqui, agora!
Ela inclinou a cabeça fazendo deslizar o véu florido. A Délio, que observava
atentamente a cena sentado no seu divã, ela parecia uma vendedora de flores
determinada a fazer negócio. Fechando um dos olhos dourados observou António
com o outro, especulativamente.
- Em Tarso, não - disse então -, não enquanto a minha irmã for viva. Vem ao
Egipto e traz-me a cabeça de Arsínoe e eu pensarei no assunto.
- Não posso! - gritou ele com a respiração entrecortada. - Tenho demasiadas
coisas para fazer! Porque é que achas que me mantenho sóbrio? Com uma guerra
prestes a rebentar em Itália e aquele malvado rapaz a sair-se melhor do que
alguém esperaria... não posso! E como podes pedir a cabeça da tua própria irmã?
- Com prazer. Ela anda atrás da minha cabeça há anos. Se os seus planos forem
bem-sucedidos, casará com o meu filho e tirar-me-á a cabeça dos ombros num
piscar de olhos. A linhagem dela é de puro-sangue ptolemaico e ainda será
suficientemente nova para ter filhos quando Cesarião atingir a idade necessária
para isso. Eu sou a neta de Mitrídates, o Grande... sou híbrida. E o meu sangue
ainda é mais híbrido. Para muita gente em Alexandria, Arsínoe representa um
regresso à linhagem mais adequada. Para eu viver ela terá que morrer.
Cleópatra deslizou do divã tirando o véu e arrancando colares de rosas e de
lilases do pescoço e da cintura.

61
- Obrigada pela festa excelente e também por uma viagem muito educativa ao
estrangeiro. O Filopator não se divertia tanto nos últimos cem anos. Amanhã
regressaremos ambos a casa, ao Egipto. Vem visitar-me. E visita mesmo a minha
irmã em Éfeso. Ela é uma grande anedota. Se gostares de harpias e górgones vais
adorá-la.
- Talvez - disse Délio quando António lhe contou um aparte da conversa na manhã
seguinte no momento em que o navio Filopator mergulhava os remos dourados na
água para iniciar o regresso a casa - a tenhas assustado, António.
- Assustado? Aquela víbora de sangue gelado? Impossível!
- Ela não pesa muito mais do que um talento e tu deves pesar cerca de quatro
talentos. Talvez tenha pensado que a matarias esmagada. - Riu-se. - Ou que a
possuirias até à morte! Até é bem possível que tal acontecesse.
- Cacat! Nunca pensei nisso!
- Corteja-a com cartas, António, e continua a desempenhar os teus deveres de
triúnviro da Itália para o Oriente.
- Estás a tentar pressionar-me, Délio? - perguntou António.
- Não, não, é claro que não! - respondeu Délio apressadamente. - Estou apenas a
recordar-te que a rainha do Egipto já não está no teu horizonte enquanto que há
outras pessoas e acontecimentos que estão.
António varreu os papéis que tinha em cima da secretária com um gesto selvagem
que fez com que Lucílio caísse imediatamente de joelhos e os começasse a
apanhar.
- Estou farto desta vida, Délio! O Oriente pode apodrecer... está na hora do
vinho e das mulheres.
Délio olhou para baixo e Lucílio para cima e trocaram um olhar explícito.
- Tenho uma ideia melhor António - disse Délio. - Porque não fazer montanhas de
trabalho este Verão e passar o Inverno na corte da rainha Cleópatra?
Pelo quarto ano consecutivo, o Nilo não provocou inundações. As únicas boas
notícias eram que aqueles que, nas margens do rio, tinham sobrevivido à peste,
pareciam ter ficado imunes, acontecendo o mesmo no Delta e em Alexandria. Essa
gente ficou mais resistente e mais saudável.
Sosígenes tinha tido uma ideia e emitiu um édito em nome da Faraó; ordenava que
nas margens mais baixas do Nilo estas fossem rebaixadas mais metro e meio. Se
alguma água passasse por essas aberturas artificiais, fluiria para enormes
lagos escavados com antecedência. Em torno das margens dos lagos erguiam-se
noras, a postos para abastecer de água os canais pouco profundos que
serpenteavam pelos campos ressequidos. E quando o meado de Julho trouxe uma
inundação que não ultrapassava os Cúbitos da Morte, o rio subiu apenas o
suficiente para encher os lagos.

62

Aquela era uma forma muito mais fácil de irrigar à mão do que o tradicional
shaduf, um único balde que tinha que ser mergulhado no próprio rio.
E as pessoas eram pessoas, mesmo no meio da morte; tinham nascido bebés e a
população estava a aumentar. Mas o Egipto teria o que comer.
A ameaça de Roma fora temporariamente adiada. Os agentes de Cleópatra em Tarso
comunicavam-lhe que dali, António tinha partido para Antioquia, visitar Tiro e
Sídon e depois embarcara para Efeso. E aí Arsínoe fora arrancada aos gritos do
santuário para ser passada a fio de espada. O sumo sacerdote de Ártemis parecia
estar prestes a ter a mesma sorte, mas António, que não gostava daquelas
vinganças orientais que terminavam em banhos de sangue, interviera a pedido do
etnarca e devolvera o homem ileso ao seu santuário. A cabeça não faria parte da
bagagem de António se e quando este visitasse o Egipto; Arsínoe fora queimada
inteira. Ela fora a última verdadeira Ptolomeu e, com a sua morte, essa ameaça
específica a Cleópatra desaparecera.
- António virá no Inverno - disse Tach'a sorrindo.
- António! Oh, minha mãe, ele não é nenhum César! Como conseguirei suportar as
suas mãos no meu corpo?
- César era único. Não o podes esquecer, isso compreendo, mas tens que parar de
o chorar e cuidar do Egipto. Que interessa o toque das suas mãos quando António
tem o sangue necessário para dar a Cesarião uma irmã com quem se casar? Os
monarcas não acasalam para seu prazer, acasalam para benefício dos seus reinos
e salvaguarda da dinastia. Habituar-te-ás a António.
Na verdade, a maior preocupação de Cleópatra durante esse Verão e Outono foi
com Cesarião, que não lhe perdoara tê-lo deixado em Alexandria. Era
irrepreensivelmente educado, trabalhava com afinco nos seus livros, lia de
livre vontade nos tempos livres, tinha lições de equitação, fazia exercícios
militares e desporto, se bem que não praticasse boxe nem luta livre.
- Tatá explicou-me que o órgão com que pensamos está localizado no interior das
nossas cabeças e que nunca devemos fazer desportos que o ponham em risco.
Portanto, aprenderei a usar o gladius e a espada comprida, dispararei setas e
pedras com fundas, praticarei o lançamento do pilum e da hasta, correrei,
saltarei e nadarei. Mas não andarei à pancada nem farei luta livre. Tatá não
aprovaria, digam os meus instrutores o que disserem. Já lhes disse para
desistirem e não virem a correr ter contigo.. . as minhas ordens valem menos do
que as tuas?
Ela estava demasiado maravilhada com a quantidade de coisas que ele recordava
de César para escutar a mensagem implícita nas suas últimas palavras. O pai
morrera ainda a criança não fizera quatro anos.

63

Mas não era a discussão sobre desportos de contacto ou outras pequenas


insatisfações que a perturbavam; o que a magoava era a sua frieza. Não podia
acusá-lo de não lhe prestar atenção quando lhe falava, especialmente quando lhe
dava uma ordem, mas ele expulsara-a do seu mundo privado. Era evidente que
sentia um ressentimento duradouro que ela não podia ignorar como
insignificante.
Oh, gritou interiormente, porque tomo sempre as decisões erradas? Se eu tivesse
sabido o efeito que provocaria ao excluí-lo da viagem a Tarso, tê-lo-ia levado
comigo. Mas isso teria significado pôr em risco a sucessão numa viagem por
mar... impossível!
Depois os seus agentes informaram-na de que a situação em Itália se deteriorara
e rebentara uma guerra aberta. Os instigadores do conflito eram a mulher
conflituosa de Marco António, Fúlvia, e o irmão de António, o cônsul Lúcio
António. Fúlvia encurralara o famoso equilibrista e vira-casacas Lúcio Munácio
Planco e enfeitiçara-o, convencendo-o a entregar ao seu exército os soldados
veteranos que estava a juntar em torno de Benevento: duas legiões completas.
Depois disso convencera aquele idiota aristocrata do Tibério Cláudio Nero, que
César tanto detestara, a fomentar uma revolta de escravos na Campânia - o que
não era uma tarefa muito adequada para alguém que nunca na vida conversara com
um escravo. Não que Nero não tivesse tentado, só que ele nem fazia ideia de
como havia de dar início à tarefa.
Não tendo nenhuma posição oficial a não ser o seu estatuto de triúnviro,
Octaviano descrevia cuidadosamente círculos fabianos no perímetro de Lúcio
António, enquanto as duas legiões que o próprio Lúcio conseguira recrutar
subiam a península Itálica na direcção de Roma. O terceiro triúnviro, Marco
Emílio Lépido, levou duas legiões para Roma para manter Lúcio à distância.
Depois, assim que Lépido viu o brilho das armaduras na Via Latina, abandonou
Roma e as suas tropas nas mãos de uma jubilante Fúlvia, e de Lúcio, de quem
todos tinham tendência de se esquecer.
O resultado de tudo aquilo dependia na realidade do anel de grandes exércitos
que cercavam Itália - exércitos comandados pelos melhores marechais de António,
homens que eram seus amigos para além de seguidores políticos. Gneu Asínio
Polião controlava a Gália Italiana com sete legiões; na Gália Ulterior, do
outro lado dos Alpes, estava Quinto Fúfio Caleno com onze legiões e Públio
Ventídio tinha as suas sete legiões estacionadas na Ligúria costeira.
Já chegara o Outono. António estava em Atenas, não muito longe, gozando as
diversões que a mais sofisticada das cidades tinha para oferecer. Polião
escreveu-lhe, Ventídio escreveu-lhe, Caleno escreveu-lhe, Planco escreveu-lhe,
Fúlvia escreveu-lhe, Lúcio escreveu-lhe, Sexto Pompeu escreveu-lhe e Octaviano
escrevia-lhe todos os dias. António nunca respondeu a uma única destas cartas -
tinha mais o que fazer.

64

E assim - como Octaviano se apercebeu imediatamente - António perdeu a


oportunidade de esmagar definitivamente o herdeiro de César. Os veteranos
estavam amotinados, ninguém pagava os impostos e Octaviano só conseguira reunir
oito legiões. Todas as estradas principais, da Bonónia no Norte, a Brundísio no
Sul, vibravam com as passadas ritmadas das caligae cardadas dos legionários, a
maioria dos quais pertencia aos inimigos ajuramentados de Octaviano. As frotas
de Sexto Pompeu controlavam tanto o mar da Toscana como o Ocidente da Itália e
o mar Adriático a leste da Itália, impedindo a passagem dos cereais da Sicília
e de África. Se António tivesse levantado o rabo do fofo divã ateniense e
liderado todos aqueles elementos numa guerra aberta para esmagar Octaviano,
teria vencido com facilidade. Mas António preferiu não responder às cartas e
não se mexer. Octaviano soltou um suspiro de alívio enquanto os seguidores de
António concluíam que este estava demasiado ocupado a divertir-se para se
preocupar com outra coisa que não o prazer.
Mas em Alexandria, lendo os relatórios, Cleópatra inquietava-se e bufava,
chegando a pensar em escrever a António para o incitar a intervir na guerra
italiana. Isso afastaria verdadeiramente a ameaça ao Egipto! No fim, acabou por
não escrever; teria sido um esforço vão.
Lúcio António marchou para norte pela Via Flamínia até Perúsia, uma cidade
magnífica, encavalitada sobre uma montanha de cume plano no meio dos Apeninos.
Ali instalou-se a si próprio e às suas seis legiões no interior das muralhas de
Perúsia e esperou para ver, não só o que Octaviano faria, mas também o que
Polião, Ventídio e Planco fariam. Nunca lhe ocorreu que os últimos três não
marchassem em seu auxílio - sendo homens de António teriam que o fazer!
Octaviano entregara o comando ao seu irmão espiritual, Agripa, uma sábia
decisão. Quando estes dois homens muito jovens concluíram que nem Polião e
Ventídio nem Planco iriam em auxílio de Lúcio, erigiram enormes fortificações
de cerco dispostas num anel em torno da montanha de Perúsia. Não chegavam à
cidade quaisquer alimentos e, com a aproximação do Inverno, os níveis de água
estavam baixos e continuavam a baixar.
Fúlvia ficou no acampamento de Planco a espumar de raiva com a perfídia de
Polião e de Ventídio, que estavam agrupados a milhas e distância e,
presencialmente, a arengar Planco que a aturava porque estava apaixonado por
ela. O seu estado de espírito era preocupantemente instável; num minuto estava
a fazer uma birra tremenda e no seguinte tinha um acesso de energia e estava a
recrutar mais homens. Mas o que a consumia principalmente era um novo ódio por
Octaviano. Aquele miúdo arrogante devolvera a mulher, a filha de Fúlvia,
Clódia, à mãe, virgo intacta.

65

Que havia ela de fazer com uma rapariga magricela que não fazia mais nada senão
chorar e se recusava a comer? Num acampamento de guerra? E, pior do que tudo,
Clódia insistia que estava loucamente apaixonada por Octaviano e culpava a mãe
pela rejeição do marido.
No fim de Outubro, António comparou-se a si próprio ao Etna imediatamente antes
de entrar em erupção. Os colegas sentiam-lhe os tremores e evitavam-no, mas tal
não era possível.
- Délio, vou passar o Inverno em Alexandria - anunciou. - Marco Saxa e Canínio
podem ficar com as tropas em Éfeso. Lúcio Saxa, podes vir comigo até Antioquia,
vou nomear-te governador da Síria. Há duas legiões de tropas de Cássio em
Antioquia, chegarão bem para as tuas necessidades. Podes começar por fazer
entender às cidades da Síria que eu quero que me paguem tributo. Agora ou mais
tarde! Qualquer cidade que tenha pago a Cássio vai-me pagar a mim. De momento
não vou mudar nada em mais sítio nenhum: a província da Ásia está calma, o
Censorinus está a controlar a Macedónia e não vejo necessidade de um governador
na Bitínia. - Esticou os braços por cima da cabeça, exultante. - Umas férias! O
Novo Dioniso vai ter umas férias como deve ser! E que melhor local do que a
corte de Afrodite no Egipto?
Também não escreveu a Cleópatra. Ela soube da sua vinda apenas através dos seus
agentes que conseguiram avisá-la com dois nundinae de antecedência. Nesses
dezasseis dias ela enviou navios em busca dos bens inexistentes no Egipto,
desde presuntos suculentos dos Pirenéus a enormes rodas de queijo. Apesar de
habitualmente este não fazer parte da ementa, as cozinhas do palácio lá
arranjaram garum para os condimentos dos molhos e vários criadores de leitões,
que serviam os romanos residentes na cidade, venderam todos os seus animais.
Galinhas, gansos, patos, perdizes e faisões foram arrebanhados, apesar de
naquela altura do ano não haver borregos. E o mais importante era que haveria
vinho em abundância e de boa qualidade; os cortesãos de Cleópatra mal lhe
tocavam e ela própria preferia a cerveja de cevada egípcia. Mas para os Romanos
tinha que haver vinho, vinho, vinho.
Corriam rumores em Pelúsio e no Delta de que a Síria estava irrequieta, apesar
de ninguém parecer saber ao certo qual era o problema. Parecia que os Judeus
estavam em ebulição; quando Herodes regressara da Bitínia como tetrarca,
ouviram-se uivos de ambos os lados do Sinédrio, tanto de Fariseus como de
Saduceus. O facto do irmão dele, Fasael, também ter sido nomeado tetrarca
parecia não assumir a mesma importância. Herodes era detestado, Fasael era
tolerado.

66

Alguns judeus andavam a conspirar para derrubar Hircano do trono para o


substituir pelo seu sobrinho, um príncipe asmoneu chamado Antígono; ou, se isso
não fosse possível, pelo menos tirar o sumo sacerdócio a Hircano para o
entregar a Antígono.
Mas com Marco António para chegar a qualquer momento, a Síria não recebeu de
Cleópatra a atenção que merecia. Era um assunto bastante importante pelo
simples facto de a Síria ficar logo ali ao lado.
O que a preocupava mais era a crise que ameaçava o seu filho. Cha'em e Tach'a
tinham recebido instruções para levarem Cesarião para Mênfis e mantê-lo lá até
à partida de António.
- Não vou - disse Cesarião calmamente erguendo o queixo.
Não estavam sequer sozinhos, o que a aborreceu. Por isso respondeu-lhe com
brusquidão:
- É a Faraó quem o ordena! Portanto, irás.
- Eu também sou Faraó. O mais prestigiado romano vivo depois do assassínio do
meu pai vem visitar-nos e recebê-lo-emos com toda a pompa. Tal significa que o
Faraó tem que estar presente em ambas as encarnações, macho e fêmea.
- Não discutas, Cesarião. Se for necessário mando-te para Mênfis sob escolta.
- Isso causará uma bela impressão nos nossos súbditos!
- Como te atreves a ser insolente comigo?!
- Sou Faraó, ungido e coroado. Sou filho de Ámon-Rá e filho de ísis. Sou Horus.
Sou o Senhor das Duas Senhoras e o Senhor do Papiro e da Abelha. O meu estatuto
está acima do teu. Sem me declarares guerra não tens o direito de me negares
assento no trono. O que farei quando receber Marco António.
A sala de estar ficou tão silenciosa que todas as palavras trocadas entre mãe e
filho ecoaram sob os barrotes dourados. Havia criados de serviço em todos os
recantos, Charmian e Iras estavam de serviço à rainha, Apolodoro estava no seu
lugar e Sosígenes sentado a uma mesa a estudar ementas. Só Cha'em e Tach'a se
encontravam ausentes, a planear alegremente os mimos com que iam presentear o
seu amado Cesarião quando este chegasse ao templo de Ptah.
O rosto da criança ostentava uma expressão teimosa, os olhos azul-esverdeados
duros como pedras polidas. Nunca a sua parecença com César fora tão vincada. No
entanto, a sua atitude era descontraída, sem punhos cerrados nem pés afastados.
Dissera o que queria; a jogada seguinte cabia a Cleópatra.
Que estava sentada na cadeira de repouso com a cabeça às voltas. Como poderia
explicar àquele desconhecido obstinado que agia para proteger os seus
interesses? Se ele ficasse nos Domínios Reais era inevitável que fosse exposto
a todo tipo de coisas que estavam para lá da sua compreensão - pragas e
obscenidades, vulgaridades e brutalidades, ao vómito de glutões, a gente
demasiado possuída pelo desejo para se preocupar com o local onde copulava,
fosse um divã ou contra uma parede - tudo coisas que traziam consigo o gérmen
da corrupção, vívidas ilustrações de um mundo que ela decidira que o filho não
iria ver até ter idade suficiente para lidar com ele.

67

Recordava-se muito bem dos anos da sua própria infância naquele mesmo local, o
seu pai dissoluto a apalpar os seus rapazinhos, a expor os genitais para serem
beijados e chupados, dançando ébrio a tocar as suas ridículas flautas à frente
de uma procissão de rapazes e raparigas nus. Enquanto ela própria se encolhia
fora das vistas, rezando para que ele não a encontrasse e mandasse violar para
seu próprio prazer. Ou a mandasse matar, até, como Berenice. Ele tinha uma nova
família com a sua meia-irmã mais nova; uma filha da sua esposa da linhagem de
Mitrídates era dispensável. Por isso os anos que passara em Mênfis com Cha'em e
Tach'a viviam na sua memória como os tempos mais maravilhosos de toda a sua
vida: seguros, estáveis, felizes.
As festas em Tarso tinham sido um belo exemplo do estilo de vida de Marco
António. Sim, ele próprio se mantivera sóbrio, mas apenas porque estivera em
contenda com uma mulher que era uma monarca. A conduta dos seus amigos era-lhe
indiferente e alguns deles tinham-se exibido desavergonhadamente.
Mas como podia dizer a Cesarião que não ficaria - que não podia ficar - ali? O
seu instinto dizia-lhe que António iria esquecer o comedimento e que
desempenharia activamente o papel de Novo Dioniso. Ele era também primo do seu
filho. Se Cesarião estivesse em Alexandria não poderia evitar que estivessem
juntos. E era óbvio que Cesarião sonhava conhecer o general herói, não
compreendendo que o grande guerreiro se apresentaria sob a forma de grande
folião.
E o silêncio prolongou-se até Sosígenes pigarrear, empurrar a cadeira para trás
e levantar-se.
- Majestades posso falar? - perguntou.
Cesarião respondeu:
- Fala - ordenou-lhe.
- O jovem Faraó já tem seis anos, mas continua sob os cuidados de um palácio
cheio de mulheres. É apenas no ginásio e no hipódromo que entra no mundo dos
homens e, mesmo esses, são seus súbditos. Antes de poderem falar-lhe têm que se
prostrar na sua frente. Ele não vê nisso nada de estranho: é o Faraó. Mas com a
visita de Marco António o jovem Faraó terá oportunidade de conhecer homens que
não são seus súbditos e que não se prostrarão na sua frente. Que lhe
despentearão os cabelos, lhe darão pequenas pancadas e brincarão com ele. De
homem para homem. Faraó Cleópatra, sei porque desejais enviar o jovem Faraó
para Mênfis, compreendo... Cleópatra interrompeu-o.
- Basta Sosígenes! Excedes-te! Terminaremos esta conversa depois de o jovem
Faraó sair da sala... o que ele fará imediatamente!
- Não saio - disse Cesarião.

68

Sosígenes continuou, a tremer visivelmente de terror. O seu lugar - bem como a


sua cabeça - estava em perigo, mas alguém tinha que o dizer.
- Majestade, não podeis mandar embora o jovem Faraó, seja agora para terminar
esta conversa, seja depois para o proteger dos Romanos. O vosso filho foi
coroado e ungido Faraó e rei. Em idade, pode ser uma criança, mas naquilo que
é, é um homem. Já é tempo de ele se dar livremente com homens que não se
prostram diante dele. O pai dele era romano. Já é tempo de ele aprender mais
sobre Roma e os Romanos e que não pôde aprender no tempo que passaram em Roma
por ainda ser um bebé.
Cleópatra sentiu o rosto afogueado e pensou quanto daquilo que sentia estaria
reflectido na sua expressão. Oh, mas porque é que o malvado rapaz tinha que
tomar posição de forma tão pública? Sabia como os criados murmuravam... dentro
de uma hora a notícia já se teria espalhado por todo o palácio e, no dia
seguinte, por toda a cidade.
E ela perdera. Todos os presentes o sabiam.
- Obrigada, Sosígenes - disse ela após uma longa pausa. - Agradeço o teu
conselho. É o conselho certo. O jovem Faraó deve ficar em Alexandria para
conviver com os Romanos.
O rapaz não gritou de alegria nem começou aos saltos. Assentiu com ar majestoso
e disse, fixando na mãe os olhos inexpressivos:
- Obrigado, mamã, por teres decidido não partir para a guerra. Apolodoro
expulsou toda a gente da sala, incluindo o jovem Faraó; assim que
ficou a sós com Charmian e Iras, Cleópatra rebentou em pranto.
- Tinha que acontecer - disse Iras que era a mais pragmática.
- Ele foi cruel - disse Charmian, que era mais sentimental.
- Sim - respondeu Cleópatra em lágrimas -, foi cruel. Todos os homens o são, é
da sua natureza. Não se contentam em viver com mulheres em pé de igualdade. -
Limpou o rosto. - Perdi uma fracção diminuta do meu poder... ele arrancou-ma.
Quando chegar aos vinte anos o poder será todo dele.
- Esperemos - disse Iras - que o Marco António seja bondoso.
- Viste-o em Tarso. Nessa altura achaste-o bondoso?
- Sim, quando o deixaste ser. Como se sentia inseguro, armou-se em fanfarrão.
- Ísis terá que o tomar por marido - disse Charmian suspirando com os olhos
marejados de lágrimas. - Que homem conseguiria ser pouco bondoso para Ísis?
- Tomá-lo como marido não significa ceder poder. Ísis acumulará prazer - disse
Cleópatra. - Mas o que dirá o meu filho quando se aperceber de que a mãe lhe
arranjou um padrasto?
- Aceitará isso muito naturalmente - disse Iras.

69

O navio almirante de António, uma quinquerreme gigantesca com o convés fechado


e eriçado de catapultas, foi convidado a atracar no Porto Real. E ali,
aguardando no cais sob um toldo dourado, estavam ambas as encarnações do Faraó,
embora sem os trajes faraónicos. Cleópatra envergava um simples manto de lã
cor-de-rosa e Cesarião uma túnica grega cor de aveia debruada a púrpura. Ele
quisera vestir uma toga, mas Cleópatra dissera-lhe que não havia ninguém em
Alexandria que soubesse ensinar às costureiras do palácio como se confeccionava
tal coisa. Pensou que essa seria a melhor forma de informar Cesarião de que não
lhe era permitido envergar a toga por não ser cidadão romano.
Se a intenção de Cesarião fora desviar as atenções da mãe, então conseguira-o;
quando António desceu a prancha de embarque para o cais, os seus olhos estavam
fixos em Cesarião.
- Deuses! - exclamou quando chegou junto dos dois. - É César outra vez! Rapaz,
tu és a imagem viva dele!
Sabendo que era alto para a sua idade, Cesarião sentiu-se subitamente
minúsculo; António era enorme! O que deixou de ter importância assim que
António se curvou e o ergueu sem esforço e o sentou sobre o braço esquerdo
cheio de músculos que apareciam por entre as pregas da toga. Atrás dele, Délio
resplandecia; cabia-lhe a ele saudar Cleópatra, caminhar a seu lado no caminho
que vinha do cais observando o par que ia já lá à frente, a cabeça dourada do
rapaz atirada para trás enquanto ria de uma piada qualquer de António.
- Gostaram um do outro - disse Délio.
- Gostaram, não gostaram? - As palavras foram proferidas sem qualquer
expressão. Depois endireitou os ombros. - Marco António não trouxe com ele
tantos amigos como eu esperava.
- Há trabalho para fazer, Majestade. Sei que António tem a esperança de
conhecer alguns alexandrinos.
- O intérprete, o contador, o juiz principal, o contabilista e o comandante da
noite estão todos ansiosos por o conhecer.
- O contabilista?
- São apenas títulos, Quinto Délio. Ser um desses cinco homens significa ter
uma linhagem puramente macedónia que recua até aos barões de Ptolomeu Sóter.
São os aristocratas de Alexandria - disse Cleópatra com ar divertido. - O que é
Ático senão um contabilista? E alguma família patrícia romana desdenharia de
Ático? Não planeámos uma recepção para esta noite - continuou Cleópatra. -
Apenas uma ceia calma só para Marco António.
- Tenho a certeza de que isso lhe agradará - disse Délio suavemente.

70

Quando Cesarião já não conseguia manter os olhos abertos, a mãe ordenou--lhe


firmemente que fosse para a cama e depois mandou embora os criados para ficar a
sós com Marco António.
Em Alexandria não havia propriamente Inverno, apenas uma certa frescura no ar
após o pôr do sol que fazia com que se fechassem as portadas. Depois de Atenas,
que tinha um clima mais severo, António achou esse facto muito agradável e
sentia-se a descontrair como não acontecia há meses. E a senhora tinha sido uma
agradável companhia ao jantar- quando conseguira dizer alguma coisa. Cesarião
bombardeara António com uma variedade atordoadora de perguntas. Como era a
Gália? Como era Filipos na realidade? Qual era a sensação de comandar um
exército? E mais e mais e mais.
- Ele cansou-te - disse-lhe ela a sorrir.
- Mais curioso que um vidente antes de nos ler o futuro. Mas ele é inteligente,
Cleópatra. - Uma careta de desagrado contorceu-lhe as feições. - É tão precoce
como o outro herdeiro de César.
- Que tu detestas.
- Isso é uma maneira simpática de o dizer. Que eu odeio.
- Espero que consigas gostar do meu filho.
- Muito mais do que esperava. - Os seus olhos passaram revista aos candeeiros
espalhados pela sala e franziram-se. - Está demasiada luz - disse.
Ela respondeu-lhe levantando-se do sofá e, pegando num apagador, extinguiu
todas as chamas excepto aquelas que não incidiam directamente no rosto de
António.
- Dói-te a cabeça? - perguntou regressando ao divã.
- Sim, dói.
- Queres ir descansar?
- Não, se puder ficar aqui calmamente deitado a falar contigo.
- Claro que podes.
- Não acreditaste em mim quando te disse que estava a ficar apaixonado por ti,
mas eu disse a verdade.
- Eu tenho espelhos de prata, António, e eles dizem-me que não sou o género de
mulher por quem tu te apaixonas. Fúlvia, por exemplo.
Ele sorriu mostrando os dentes pequenos e brilhantes.
- E Glafira, apesar de nunca a teres visto. Um exemplar delicioso.
- A quem evidentemente não amavas, se dizes uma coisa dessas acerca dela. Mas
tu amas a Fúlvia.
- Amava, mais provavelmente. De momento ela é um problema, com a guerra contra
Octaviano. Uma coisa fútil e mal conduzida.
- Uma mulher muito bela.
- Já passou o seu apogeu, tem quarenta e três anos. Somos da mesma idade.
- Ela deu-te filhos.

71

- Sim, mas ainda são demasiado novos para que se possa saber o que valem. O avô
dela foi Gaio Graco, um grande homem, por isso tenho a esperança de que eles se
venham a revelar bons rapazes. Antilo tem cinco e Mus ainda é bebé. Uma boa
égua, a Fúlvia. Quatro do Clódio - duas raparigas e dois rapazes - um rapaz do
Curião e os meus.
- Os Ptolomeus também são bons reprodutores.
- Podes dizer isso só com um pinto no teu ninho?
- Eu sou Faraó, Marco António, o que significa que não posso acasalar com
mortais. César era um deus, portanto um companheiro digno de mim. Tivemos
rapidamente o Cesarião, mas depois - suspirou - não tivemos mais nenhum. Não
foi por falta de tentar, garanto-te.
António riu-se.
- Não, percebo porque é que ele não te disse.
Retesando-se, ela ergueu a cabeça para o fitar, os olhos grandes e dourados
reflectindo a luz do candeeiro por trás dos caracóis curtos de António.
- Não me disse o quê? - perguntou.
- Que não seria pai de mais nenhum filho teu. - Mentes!
Surpreendido, ele ergueu também a cabeça.
- Minto? Porque haveria de mentir?
- Como posso saber quais os teus motivos? Sei simplesmente que mentes!
- Estou a dizer a verdade. Procura na memória, Cleópatra, e sabê-lo-ás. César,
ser pai de uma menina com quem o seu filho casaria? Ele era romano da cabeça
aos pés e os Romanos não aprovam o incesto. Nem sequer entre sobrinhas e tios
ou sobrinhos e tias, quanto mais entre irmãos e irmãs. Os primos direitos já
são considerados um risco.
A desilusão abateu-se sobre ela como uma onda gigante - César, de cujo amor
estivera tão segura, levara-a numa dança de puro engano! Todos aqueles meses em
Roma, rezando e esperando por uma gravidez que nunca acontecera... e ele
soubera, ele soubera! O Deus vindo do Ocidente enganara-a, tudo por causa de
uma qualquer superstição romana! Rangeu os dentes e soltou um rosnido no fundo
da garganta.
- Ele enganou-me - disse então inexpressivamente.
- Só porque achou que tu não compreenderias. Vejo que tinha razão - disse
António.
- Se fosses César ter-me-ias feito o mesmo?
- Oh, bem - disse António virando-se para ficar mais perto dela - os meus
sentimentos não são tão delicados.
- Estou devastada! Ele enganou-me e eu amava-o tanto!
- Tudo o que aconteceu pertence ao passado. César morreu.

72

- E eu tenho que ter contigo a mesma conversa que tive em tempos com ele -
disse Cleópatra limpando disfarçadamente os olhos.
- Que conversa é essa? - perguntou ele passando-lhe um dedo pelo braço. Desta
vez ela não o afastou.
- O Nilo não tem inundações há quatro anos, Marco António, porque a Faraó está
estéril. Para sarar o seu povo, a Faraó tem que conceber uma criança com sangue
divino nas suas veias. O teu sangue é o mesmo de César... és Juliano pelo lado
da tua mãe. Rezei a Ámon-Rá e a Ísis e eles disseram-me que um filho das tuas
entranhas lhes agradaria.
Não era exactamente uma declaração de amor! Como é que um homem reagia a uma
explicação tão desapaixonada? E quereria ele, Marco António, ter um caso com
uma mulher tão pequena e com sangue gelado nas veias? Uma mulher que acreditava
genuinamente no que dizia. Ainda assim, pensou, ser pai de deuses na terra
seria uma experiência nova: seria uma cuspidela na cara de César, o moralista
da família!
Pegou-lhe na mão, levou-a aos lábios e beijou-a.
- Ficaria honrado, minha rainha. E apesar de não poder falar em nome de César,
eu amo-te mesmo.
Mentiroso, mentiroso!, gritou ela interiormente. És romano e não amas mais nada
a não ser Roma. Mas usar-te-ei tal como César me usou a mim.
- Partilharás a minha cama enquanto estiveres em Alexandria?
- De bom grado - disse ele e beijou-a.
Era agradável e não a provação que ela imaginara; os lábios dele eram frescos e
macios e não lhe enfiou a língua na boca naquela primeira abordagem
exploratória e hesitante. Apenas lábios nos lábios, suaves e sensuais.
- Anda - disse ela pegando num candeeiro.
O quarto dela não ficava longe; aqueles eram os aposentos privados da Faraó e
eram pequenos. Ele tirou a túnica - não tinha tanga por baixo - e desatou as
fitas que lhe seguravam o vestido nos ombros. Este caiu à volta dela quando se
sentou na beira da cama.
- A pele é agradável - murmurou ele esticando-se a seu lado. - Não te vou
magoar, minha rainha. António é um bom amante, sabe o tipo de amor que deve dar
a uma criaturinha pequena e frágil como tu.
E de facto sabia. O acasalamento foi lento e espantosamente agradável, pois ele
afagou-lhe o corpo com mãos macias e deu uma atenção deliciosa aos seus seios.
Apesar das garantias de que não o faria, tê-la-ia magoado se não tivesse já
tido Cesarião, apesar de a ter provocado e atormentado antes de entrar nela e
ele sabia como usar o seu membro enorme de muitas maneiras. Deixou-a atingir o
clímax antes de ele próprio o fazer e ela ficou espantada com o seu próprio
orgasmo. Parecia-lhe uma traição a César, no entanto César traíra-a, portanto
que interessava isso?

73

E, o melhor de tudo, era o facto de ele não a fazer lembrar César em nenhum
aspecto. O que ela tinha com António pertencia a António. Também era diferente
o facto de, passados poucos momentos após cada orgasmo, ele já estar novamente
pronto para ela e era quase embaraçoso contar os seus próprios orgasmos. Estava
esfomeada? A resposta, obviamente, era sim. Cleópatra a monarca era novamente
uma mulher.
Cesarião ficou deliciado por ela ter tomado o grande Marco António como amante.
A esse respeito ele não era ingénuo.
- Vais casar com ele? - perguntou-lhe dançando de contentamento.
- A seu tempo, talvez - disse ela profundamente aliviada.
- Porque não já? Ele é o homem mais poderoso do mundo.
- Porque é demasiado cedo, meu filho. Deixa que eu e António percebamos se o
nosso amor suportará as responsabilidades do casamento.
Quanto a António, estava a rebentar de orgulho. Cleópatra não era a primeira
soberana com quem se deitara, mas era de longe a mais importante. E descobrira
que os seus favores sexuais ficavam a meio caminho de os de uma prostituta
profissional e os de uma esposa romana dedicada. O que lhe agradava. Quando um
homem embarcava numa relação destinada a durar mais do que uma noite, não
precisava nem de uma nem de outra, pelo que Cleópatra era perfeita.
Tudo isso poderia muito bem ser a razão do seu bom humor na primeira noite em
que a amante o recebeu com grande estilo; o vinho era soberbo e a água algo
amarga, portanto para quê adicionar água e estragar uma belíssima colheita?
António desistiu das suas boas intenções sem ter sequer dado por isso e
embebedou-se feliz e inexoravelmente.
Os convidados alexandrinos, todos macedónios da mais alta classe, olhavam
inicialmente espantados e, depois, pareceram decidir subitamente que a
devassidão tinha grandes vantagens. O contabilista, um homem espantoso e
imensamente convencido, saltou e riu enquanto bebia o primeiro jarro e depois
agarrou numa criada que ia a passar e começou a fazer amor com ela. Passados
instantes foi imitado por outros alexandrinos que provaram estar à altura de
qualquer romano quando se tratava de participar em orgias.
Para Cleópatra, que observava fascinada (e sóbria), foi o tipo de lição que
nunca esperara ter que aprender. Felizmente António pareceu não reparar no
facto de ela não se ter juntado à hilaridade geral, pois estava demasiado
ocupado a beber. Talvez por ingerir também quantidades enormes de alimentos, o
vinho não o transformava num idiota incapaz. Sosígenes, que era mais experiente
nestas questões do que a sua rainha, colocara discretamente bacios a um canto e
tigelas por trás de um biombo onde os convidados se podiam aliviar, fosse por
que orifício fosse, e também mandou servir jarros com poções que tornariam a
manhã seguinte menos dolorosa.

74
- Oh! Diverti-me imenso! - rugiu António na manhã seguinte, com a sua robusta
saúde incólume. - Façamo-lo novamente esta tarde!
E foi assim que começaram para Cleópatra mais de dois meses de farras
constantes e desbragadas. E quanto maior era a loucura, mais António gostava e
mais bem-disposto ficava. Sosígenes herdara a tarefa de inventar novidades para
variar as diversões daquelas festividades sibaríticas e o resultado foi o de os
navios que atracavam em Alexandria vomitarem músicos, bailarinos, acrobatas,
mimos, anões, monstros e mágicos provenientes de toda a extremidade oriental do
Nosso Mar. António adorava pregar partidas que, por vezes, eram quase cruéis;
adorava pescar; adorava nadar por entre raparigas nuas; adorava conduzir
carruagens, actividade vedada aos nobres em Roma; adorava caçar crocodilos e
hipopótamos; adorava judiarias; adorava poemas ordinários; adorava
representações históricas. O seu apetite era tal que gritava com fome uma dúzia
de vezes por dia; Sosígenes teve a brilhante ideia de ter sempre um jantar
completo pronto a ser servido bem como quantidades enormes dos melhores vinhos.
Foi um sucesso imediato e António, dando-lhe um grande beijo, proclamou o
pequeno filósofo como sendo o príncipe dos homens bons.
Não havia muita coisa que Alexandria pudesse fazer para protestar contra
cinquenta e tal sujeitos embriagados que percorriam as ruas dançando à luz dos
archotes, batendo sonoramente nas portas e fugindo com gargalhadas deliciadas.
Alguns desses indivíduos incómodos eram os principais dirigentes da cidade,
cujas mulheres estavam em casa a chorar e a interrogar-se como permitia a
rainha uma coisa assim. A rainha permitia-o porque não tinha alternativa,
apesar de a sua própria participação nas festas ser pouco estusiástica. Certa
vez António desafiou-a a deixar cair a pérola de seis milhões de sestércios de
Servília num copo de vinagre e a engoli-la; ele pertencia à escola que
acreditava que as pérolas se dissolviam em vinagre. Sabendo que tal não
correspondia à verdade, Cleópatra aceitou o desafio, apesar de não ser capaz de
beber o vinagre. A pérola, absolutamente intacta, estava novamente pendurada no
seu pescoço na manhã seguinte. E as partidas com peixes não tinham fim. Não
tendo qualquer sorte na pesca, António pagava a mergulhadores para que
descessem às profundezas e atassem peixes vivos à sua linha. Içava as criaturas
a espadanar e gabava-se das suas proezas de pescador até ao dia em que
Cleópatra, cansada das suas gabarolices, mandou um mergulhador atar um peixe
podre à sua linha. Mas ele aceitou a brincadeira com bom humor, pois era esse
tipo de pessoa.
Cesarião assistia divertido a todas aquelas diabruras apesar de nunca pedir
para assistir às festas.

75

Quando António estava nessa disposição, desapareciam os dois a cavalo para ir


caçar crocodilos ou hipopótamos, deixando Cleópatra angustiada com visões do
filho esmagado por patas gigantescas ou rasgado por longos dentes amarelos.
Mas, honra lhe seja feita, António protegia o rapaz dos perigos, limitando-se a
dar-lhe a oportunidade de se divertir imenso.
- Gostas de António - disse ela ao filho perto do fim de Janeiro.
- Sim, mamã, gosto muito. Ele intitula-se o Novo Dioniso, mas na realidade é
como Hércules. Consegue erguer-me só com uma mão, imaginas uma coisa assim? E
lança o disco a cem metros!
- Não me surpreende - disse ela secamente.
- Amanhã vamos ao hipódromo. Vou andar com ele no carro; aparelhado com quatro
cavalos lado a lado, o mais difícil de conduzir!
- Corridas de carro não são um passatempo adequado.
- Eu sei, mas é tão divertido!
E o que é que uma pessoa respondia a isto?
O filho crescera aos saltos e repelões durante os últimos dois meses; Sosígenes
tivera razão. A companhia dos homens libertara-o daquele toque delicado de que
ela não se apercebera até ter desaparecido. Agora bamboleava-se pela casa
tentando rugir como António, fazia imitações muito cómicas do contabilista com
os copos e enfrentava cada dia com um brilho e com um gosto nunca antes
exibido. E estava forte, seco, com uma aptidão natural para desportos marciais
- atirava o dardo com uma precisão mortífera, disparava setas que se alojavam,
certeiras, no centro do alvo, usava o gladius com a perícia de um legionário
veterano. Tal como o pai, conseguia montar um cavalo em pêlo e a galope com as
mãos atrás das costas.
No que lhe dizia respeito, Cleópatra perguntava-se durante quanto tempo
conseguiria tolerar António naquela disposição debochada; sentia-se
permanentemente cansada, tinha ataques de náuseas e não podia afastar-se muito
do bacio. Tudo sintomas de gravidez, embora ainda demasiado prematura para
provocar fadiga ou ser notória. Se António não parasse rapidamente com as suas
cabriolas, ela teria que lhe dizer para continuar sozinho. Por muito forte que
fosse para uma mulher pequena, a gravidez tinha os seus custos.
O seu dilema resolveu-se por si próprio, no início de Fevereiro, quando o rei
dos Partos invadiu a Síria.
Orodes estava velho, o tempo da sua participação directa pertencia ao passado e
as intrigas, naturais numa sucessão de tão grande importância, tinham-no
desgastado. Uma das formas que arranjara para lidar com os seus filhos
ambiciosos e as suas facções fora arranjar guerras para os mais agressivos de
entre eles e poderia haver guerra melhor que contra os Romanos, na Síria? O
mais forte dos seus filhos era Pácoro, portanto esta guerra tinha que ser
destinada a Pácoro.

76

E, por uma vez, o rei Orodes tinha uma mão de dados viciados; juntamente com
Pácoro vinha Quinto Labieno, que se atribuíra a alcunha de Parto. Era filho do
maior dos marechais de César, Tito Labieno, e preferira fugir para a corte de
Orodes a render-se ao conquistador do pai. Lutas intestinas na Selêucia do
Tigre também tinham provocado disputas quanto às formas possíveis de derrotar
os Romanos. Em confrontos anteriores, incluindo aquele que resultara na
aniquilação do exército de Marco Crasso em Carras, os Partos tinham dependido
em muito dos arqueiros a cavalo, camponeses sem armadura e treinados para
retirar a galope e disparar uma chuva mortífera de setas sobre a garupa do
cavalo ao virarem-se para trás: o famoso "tiro parto". Quando Crasso tombou em
Carras, o general comandante dos exércitos dos Partos fora um príncipe
maquilhado e efeminado chamado Surena, que concebera uma forma de os seus
arqueiros montados não ficarem sem setas: carregou comboios de camelos com
setas de reserva e fê-las chegar aos seus homens. Infelizmente, o seu sucesso
foi de tal forma marcante, que o rei Orodes suspeitou que o alvo seguinte de
Surena seria o trono e mandou-o executar.
Desde esse dia, havia mais de dez anos, que estalara a controvérsia
relativamente a quem vencera Carras, se os arqueiros montados, se os
catafractários. Os catafractários, cobertos com cotas de malha da cabeça aos
pés, montavam cavalos enormes, também eles protegidos por cotas de malha. Esta
discussão tinha, na sua origem, razões sociais: os arqueiros montados eram
camponeses, enquanto que os catafractários eram nobres.
Foi assim que, quando Pácoro e Labieno conduziram o seu exército até à Síria,
no início de Fevereiro do ano do consulado de Gneu Domício Calvino e de Gaio
Asínio Polião, a sua componente parta se resumia unicamente aos catafractários.
Os nobres tinham vencido a batalha.
Pácoro e Labieno atravessaram o rio Eufrates em Zeugma e aí separaram-se.
Enquanto Labieno e os seus mercenários partiam para ocidente, atravessando
Amano e entrando na Cilicia Pedia, Pácoro e os catafractários viraram para sul,
para a Síria. Ambos levaram tudo na sua frente, embora os agentes de Cleópatra
no Norte da Síria se concentrassem em Pácoro e não em Labieno. A notícia voou
até Alexandria. Assim que António soube o que se passava, partiu. Não houve
despedidas comovidas nem promessas de amor.
- Ele sabe? - perguntou Tach'a a Cleópatra.
Não era necessário ser mais específica, Cleópatra sabia ao que ela se referia.
- Não, não tive oportunidade... ele limitou-se a gritar pela armadura e a
espicaçar os homens como o Délio. - Suspirou. - Os barcos dele vão partir para
Berito, mas ele não confiou suficientemente nos ventos para arriscar uma viagem
por mar. Espera chegar a Antioquia antes da frota.
- O que é que António não sabe? - perguntou Cesarião que estava muito
desapontado com a súbita partida do seu herói.

77

- Que no mês de Sextilis vais ter um irmão ou uma irmã. O rosto da criança
iluminou-se e saltou, quase alegre.
- Um irmão ou uma irmã! Mamã, mamã, isso é óptimo!
- Bem, pelo menos a notícia fê-lo esquecer António - disse Iras a Charmian.
- Mas não a fará esquecer António - respondeu Charmian.
António avançou para Antioquia a uma velocidade demolidora, convocando este ou
aquele potentado do Sul da Síria à medida que ia passando pelos vários locais,
chegando mesmo a dar-lhes ordens de cima do cavalo.
Ficou alarmado ao descobrir, através de Herodes, que entre os Judeus as
opiniões se dividiam; havia um grande grupo de judeus dissidentes que pareciam
mesmo desejosos de ser governados pelos Partos. O líder do partido favorável
aos Partos era o príncipe asmoneu, Antígono, sobrinho de Hircano mas nada
adepto de Hircano nem dos Romanos. Herodes não informou Marco António de que
Antígono andava já a regatear com os enviados da Partia os objectos da sua
cobiça: o trono judaico e o sumo sacerdócio; ele não estava muito interessado
nesses negócios obscuros nem no estado de espírito do Sinédrio. Portanto,
António continuou para norte, mantendo-se na ignorância relativamente à
seriedade da situação judaica. Excepcionalmente, Herodes fora apanhado a dormir
por andar demasiado ocupado a tentar afastar o irmão Fasael da mão da princesa
Mariana e não reparara em mais nada.
Tiro era impossível de ser tomada a não ser a partir do seu interior. O seu
istmo fedorento, conspurcado por montes de restos apodrecidos de moluscos,
fornecia ao centro da indústria das tintas de púrpura a mesma protecção de que
gozava uma ilha, e ninguém no seu interior a trairia; nenhum habitante de Tiro
queria ser enviado, tingindo de púrpura, ao rei dos Partos em troca de uma soma
fixada por este.
Em Antioquia, António encontrou Lúcio Decídio Saxa andando nervosamente de um
lado para o outro e as torres de vigia, construídas sobre as enormes muralhas
da cidade, repletas de homens que se esforçavam por ver para norte; Pácoro
seguiria o rio Orontes e já não estava muito distante. O irmão de Saxa viera de
Éfeso para se lhe juntar e os refugiados acorriam à cidade. Expulso de Amano, o
rei bandido Tarcondimoto disse a António que Labieno se estava a sair
lindamente. Naquele momento já devia ter alcançado Tarso e a Capadócia. A
lealdade a Roma de Antíoco de Comagene, soberano de um reino-cliente que fazia
fronteira com as planícies de Amano a norte, estava bastante tremida, segundo
dizia Tarcondimoto. Como gostava do homem, António deu-lhe ouvidos; seria um
bandido, talvez, mas era esperto e competente.
Após inspeccionar as duas legiões de Saxa, António descontraiu um pouco. Estes
homens que, em tempos, tinham pertencido a Gaio Cássio, eram legionários em boa
forma e experientes em combate.

78

Muito mais perturbadoras eram as notícias que chegavam de Itália. O seu irmão
Lúcio estava preso em Perúsia, sob cerco e Polião tinha retirado para os
pântanos junto ao estuário do rio Padus! Não fazia sentido! Polião e Ventídio
tinham muitos mais homens do que Octaviano! Porque não estavam a ajudar Lúcio?,
perguntava António a si próprio, esquecendo completamente que ignorara os seus
pedidos de directrizes - a guerra de Lúcio fazia parte da estratégia de
António, ou não?
Bem, por muito grave que fosse a situação no Oriente, a Itália era mais
importante. António embarcou para Efeso, tencionando continuar para Atenas o
mais depressa possível. Tinha que se informar melhor.
A monotonia da primeira parte da viagem deu-lhe tempo para pensar em Cleópatra
e no Inverno fantástico que passara no Egipto. Sim, deuses, como ele estivera
necessitado de uma pausa! E que bem que a rainha lhe satisfizera todos os seus
desejos. Amava-a verdadeiramente, tal como amara todas as mulheres a quem se
ligara por mais do que um dia, e continuaria a amá-la até que ela fizesse
alguma coisa que o irritasse. Se bem que Fúlvia tivesse feito muito mais do que
o suficiente para o irritar, se os fragmentos de notícias que lhe chegavam de
Itália fossem verdadeiros. A única mulher por quem o seu amor resistira, mesmo
depois de milhares e milhares de provações, fora o amor pela sua mãe,
seguramente a mulher mais pateta da história do mundo.
Tal como acontecera com a maioria dos rapazes de famílias nobres, o pai de
António não passara muito tempo em Roma, portanto era Júlia Antónia quem
mantinha - ou deveria manter - a família unida. Os três filhos e duas filhas
que tivera não lhe tinham trazido o mínimo vestígio de maturidade; era
aterradoramente estúpida. O dinheiro, para ela, era algo que crescia nas
árvores e os criados eram pessoas muito mais espertas do que ela. E no amor
também não tivera sorte. O seu primeiro marido, o pai dos filhos, preferira
suicidar-se a regressar a Roma para enfrentar uma acusação de traição, devido
ao comando incompetente de uma guerra contra piratas cretenses e o seu segundo
marido fora executado no Fórum romano devido ao papel que desempenhara na
rebelião chefiada por Catilina. Tudo isso acontecera na altura em que Marco, o
mais velho dos seus filhos, fizera vinte anos. As duas raparigas eram de tal
modo enormes e com as feições feias e características dos Antónios, que foram
casadas com arrivistas endinheirados para trazer algum dinheiro para a família
e financiar as carreiras políticas dos rapazes, que tinham ficado fora de
controlo. Depois Marco acumulou uma dívida gigantesca e teve que se casar com
uma provinciana rica, chamada Fádia, cujo pai pagou um dote de duzentos
talentos. A deusa Fortuna parecia sorrir a António; Fádia e os filhos que esta
lhe dera morreram durante uma peste de Verão deixando-o livre para casar com
outra herdeira, a sua prima direita Antónia Híbrida.

79

Dessa união nascera uma filha que não era nem inteligente nem bonita. Quando
Curião foi morto e Fúlvia ficou disponível, António divorciou-se da prima para
casar com ela. Mais uma aliança proveitosa; Fúlvia era a mulher mais rica de
Roma.
António não tivera propriamente uma infância e juventude infelizes, mas nunca
ninguém o disciplinara. A única pessoa capaz de controlar Júlia Antónia e os
seus filhos fora César, que não era verdadeiramente o chefe da família juliana,
apenas o seu membro com mais personalidade. Ao longo dos anos, César
demonstrara que gostava deles, mas nunca fora um homem fácil, nem alguém que os
rapazes conseguissem entender. Aquela fatal falta de disciplina, combinada com
um incrível apetite pelo deboche, tinham feito com que, finalmente, já Marco
António era adulto, César se afastasse dele. António provara por duas vezes não
ser digno de confiança. Para César uma vez era o suficiente. César estalara o
chicote... violentamente.
Até àquele dia, encostado à amurada a ver a luz do sol brincar nos remos
molhados quando estes emergiam do mar, António não tinha a certeza se
tencionara participar na conspiração para assassinar César! Ao reflectir sobre
o assunto, sentia--se inclinado a pensar que não acreditara verdadeiramente que
sujeitos como Gaio Trebónio e Décimo Júnio Bruto tivessem a coragem ou o ódio
necessários para irem até ao fim. Marco Bruto e Cássio não tinham tanta
importância; eram figuras de proa e não os verdadeiros responsáveis. Sim, sem
dúvida que o plano pertencera a Trebónio e a Décimo Bruto. Ambos estavam
mortos. Dolabela torturara Trebónio até à morte e um chefe tribal gaulês
separara Décimo Bruto da sua cabeça, em troca de um saco de ouro fornecido pelo
próprio António. Certamente que isso, reflectiu António, era uma prova de que
ele não estivera realmente envolvido na conspiração para matar César!
Obviamente que havia muito que concluíra que uma Roma sem César seria um local
onde ele viveria com mais facilidade. E a maior tragédia de tudo aquilo era
que, provavelmente, teria sido, não fora a emergência de Gaio Octávio, o
herdeiro de César. Que, com dezoito anos de idade, se aprestara a reclamar a
sua herança, um empreendimento arriscado que o fizera marchar duas vezes sobre
Roma antes de ter celebrado o vigésimo aniversário. Na sua segunda marcha
conseguira que o elegessem como cônsul sénior, após o que tivera a temeridade
de forçar os seus oponentes, António e Lépido, a encontrarem-se com ele para
uma conferência. De que resultara o Segundo Triunvirato - Três Homens para
Reconstruir a República. Em vez de um ditador, três ditadores com
(teoricamente) poderes iguais. Encalhados numa ilha de um rio da Gália
Italiana, António e Lépido tinham-se apercebido gradualmente de que aquele
jovem, com metade da idade deles, lhes comia as papas na cabeça em astúcia e
implacabilidade.
O que António não conseguia admitir perante si próprio, nem mesmo nos seus
momentos mais sombrios, era que, até ao momento, Octaviano demonstrara como a
preferência de César por ele tinha sido certeira.

80

Enfermiço, menor, demasiado bonito, um verdadeiro menino da mamã e, ainda


assim, Octaviano conseguira manter-se à tona da água que o deveria ter afogado.
Talvez uma parte se devesse ao facto de ter o nome de César - ele explorava
esse facto à saciedade - e o resto devia-se à lealdade cega de jovens como
Marco Vipsânio Agripa - mas não podia negar-se o facto de a maior parte do
sucesso da sobrevivência de Octaviano ser responsabilidade dele e só dele.
António costumava brincar com os irmãos dizendo que César era um enigma, mas
comparado com Octaviano, César era tão transparente como a água na Aqua Mareia.
Quando António chegou a Atenas em Maio, o governador Censorinus andava muito
ocupado no extremo norte da Macedónia a rechaçar invasões bárbaras, não estando
portanto presente para receber o seu superior. António não estava de bom humor;
o seu amigo Barbácio tinha-se revelado muito pouco amigo. Assim que Barbácio
ouvira dizer que António estava a passar uns tempos maravilhosos no Egipto,
abandonara o seu posto junto das legiões em Éfeso e partira para Itália. Onde,
como António veio a descobrir, ainda turvara mais as águas que António,
negligentemente, não clarificara. O que Barbácio dissera a Polião e a Ventídio
fizera com que o primeiro retirasse para os pântanos do Padus e que o outro
pairasse, inofensivamente, fora do alcance de Octaviano, Agripa e Salvidieno.
A fonte destas notícias muitíssimo desagradáveis do que se passava em Itália
era Lúcio Munácio Planco, que António encontrou a viver no apartamento do
legado chefe na residência de Atenas.
- A iniciativa de Lúcio António foi um desastre completo - disse Planco
escolhendo as palavras. Tinha de arranjar maneira de conseguir fazer um
relatório exacto sem ficar malvisto, pois naquele momento não vislumbrava
qualquer oportunidade de se mudar para o lado de Octaviano que era a sua única
alternativa. - Na véspera de Ano Novo os Perusianos tentaram romper as muralhas
do cerco de Agripa... sem sucesso. Nem Polião nem Ventídio se mexeram para
defrontar os exércitos de Octaviano, apesar de este estar em inferioridade
numérica. Polião insistia que... humm... não tinha a certeza do que tu querias
que ele fizesse e Ventídio não aceitava seguir ninguém a não ser Polião. Depois
Barbácio andou a espalhar histórias dos teus... humm... deboches - expressão
dele e não minha! Polião ficou tão enojado que se recusou a empenhar-se a si e
às suas legiões para tirar o teu irmão de Perúsia. A cidade caiu ainda o ano ia
no início.
- E onde estavas tu e as tuas legiões, Planco? - perguntou António com um
brilho perigoso no olhar.

81
- Mais perto de Perúsia do que Polião ou Ventídio! Entrincheirei-me em Espoleto
para formar a asa direita numa estratégia de pinça que nunca chegou a realizar-
se. - Suspirou e encolheu os ombros. -Além disso tinha Fúlvia no meu
acampamento e ela começou a tornar-se muito difícil. - Ele amava-a, sim, mas
amava mais a sua própria pele. Afinal António não iria executar Fúlvia por
traição. - Agripa teve a lata de me roubar as minhas duas melhores legiões,
acreditas numa coisa assim? Tinha-as enviado para ajudarem Cláudio Nero na
Campânia e depois Agripa apareceu e ofereceu melhores condições aos homens.
Sim, Agripa derrotou Nero com as minhas duas legiões! Nero teve que fugir para
a Sicília para junto de Sexto Pompeu. Parece que havia gente em Roma que andava
a falar em matar as esposas e as famílias, porque a mulher de Nero, Lívia
Drusila, pegou no filho pequeno e foi ter com ele. - Aí Planco franziu o
sobrolho e pareceu não ter a certeza de como deveria prosseguir.
- Conta tudo, Planco, conta tudo!
-Ah... a tua respeitável mãe, Júlia, fugiu com Lívia para junto de Sexto
Pompeu.
- Se eu tivesse parado um momento para pensar nela, coisa que não fiz porque
tento evitar fazê-lo, teria concluído que esse seria precisamente o tipo de
coisa que ela faria. Oh, mas que mundo maravilhoso aquele em que vivemos!
-António cerrou os punhos. - Esposas e mães a viverem em acampamentos militares
e a comportarem-se como se distinguissem os copos da ponta de uma espada...
pff! - Fez um esforço visível para se acalmar. - O meu irmão... suponho que
esteja morto e tu não tenhas conseguido arranjar coragem para me dizer, Planco?
Finalmente iria dar uma boa notícia!
- Não, não meu caro Marco! Longe disso! Quando Perúsia abriu os seus portões,
houve um qualquer magnata local que se entusiasmou com o tamanho da sua própria
pira funerária e a cidade ardeu completamente. O que foi mais desastroso do que
o cerco. Octaviano executou vinte cidadãos proeminentes mas não se vingou nas
tropas de Lúcio. Foram incorporadas nas legiões de Agripa. Lúcio pediu um
perdão e este foi-lhe concedido sem contrapartidas. Octaviano entregou-lhe o
governo da Hispânia Ulterior e ele partiu para lá de imediato. Estava, ao que
me pareceu, um homem feliz.
- E essa foi uma nomeação ditatorial sancionada pelo Senado e Povo de Roma? -
perguntou António, em parte aliviado e em parte ultrajado. Maldito Lúcio!
Sempre a tentar ultrapassar o irmão Marco e sem nunca o conseguir.
- Foi - disse Planco. - Mas houve quem se opusesse.
- Tratamento de favor para o demagogo careca do Fórum?
- Hum... bem, sim, essa frase foi usada. Posso dar-te os nomes. Todavia Lúcio
foi cônsul no ano passado e o teu tio Híbrida é censor, portanto a maioria
achou que Lúcio merecia o perdão e a nomeação.

82

Deve conseguir travar uma bela guerra com os Lusitanos e terá um triunfo quando
regressar a casa. António grunhiu.
- Então conseguiu desenvencilhar-se melhor da situação do que merecia. Foi uma
completa idiotia do princípio ao fim! Apesar de eu estar disposto a apostar que
o Lúcio se limitou a seguir ordens. Esta foi uma guerra de Fúlvia. Onde está
ela?
Planco esbugalhou os olhos castanhos.
-Aqui, em Atenas. Ela e eu fugimos juntos. De início pensámos que Brundísio não
nos iria receber, pois é apaixonadamente partidária de Octaviano, mas acho que
ele deve ter mandado recado de que nós podíamos sair de Itália desde que não
levássemos tropas connosco.
- Já concluímos então que Fúlvia está em Atenas, mas onde?
- Ático emprestou-lhe a domus dele aqui, em Atenas.
- Que generoso da parte dele! Gosta sempre de ter um pé nos dois lados da
contenda, o nosso Ático. Mas o que o leva a pensar que eu ficarei satisfeito
por ver Fúlvia?
Planco ficou mudo, sem saber o que António gostaria de ouvir.
- E que mais aconteceu?
- Não achas que já é suficiente?
- Não, a não ser que o relatório tenha sido completo.
- Bem, Octaviano não conseguiu tirar nenhum dinheiro de Perúsia para financiar
as suas actividades, apesar de conseguir arranjar algures o dinheiro para pagar
às suas legiões; o suficiente para que os homens se mantenham do lado dele.
- A arca de guerra de César deve estar a esvaziar-se rapidamente.
- Achas mesmo que ele ficou com ela?
- É claro que ficou com ela! O que anda Sexto Pompeu a fazer?
-A bloquear as rotas marítimas e a piratear todos os cereais que vêm de África.
O almirante dele, Menodoro, invadiu a Sardenha e expulsou Lúrio, o que
significa que Octaviano ficou sem qualquer fornecedor de cereais e só consegue
aqueles que compra a Sexto a preços altamente inflacionados: chegam a vinte e
cinco ou a trinta sestércios o modius. - Planco emitiu um pequeno gemido de
inveja. - É aí que está o dinheiro todo: nos cofres de Sexto Pompeu. Que
tenciona fazer com ele, apossar--se de Roma e da Itália? Delírios! As legiões
adoram os prémios chorudos, mas não combaterão por um homem que lhes deixa os
celeiros morrer à fome. Razão pela qual, parece-me - continuou Planco em tom
pensativo -, ele teve que recrutar escravos e fazer almirantes de libertos.
Mesmo assim um dia vais ter que lhe arrancar o dinheiro, António. Se não o
fizeres talvez Octaviano o faça e tu precisas mais do que ele.
António fez um esgar.

83

- Octaviano ganhar uma batalha naval contra um homem tão experiente como Sexto
Pompeu? Com Marco e Aenobarbo como aliados? Tratarei de Sexto Pompeu nuando
chegar o momento, mas isso não é para já. Ele provocará o fracasso de
Octaviano.
Sabendo que estava no seu melhor, Fúlvia esperava ansiosa a chegada do marido.
Apesar de os seus cabelos brancos não se verem na cabeleira de cabelos
castanhos brilhantes, obrigara a criada a arrancá-los penosamente um por um
antes de a pentear de acordo com o último grito da moda. O vestido vermelho-
escuro colava-se-lhe às curvas dos seios caindo depois a direito e não
revelando qualquer sinal de barriga protuberante ou de cintura grossa. Sim,
pensou Fúlvia cheia de satisfação, estou muito bem para a minha idade. Continuo
a ser uma das mulheres mais belas de Roma.
Era evidente que sabia do Inverno muito divertido que António passara em
Alexandria; Barbácio onde não fora mandara. Mas isso eram coisas de homens e
não era nada que lhe dissesse respeito. Se ele andasse metido com uma romana de
estatuto elevado, aí a situação seria diferente. As suas garras ficariam
instantaneamente afiadas. Mas quando um homem estava longe durante meses, por
vezes durante anos seguidos, nenhuma mulher sensata em Roma levaria a mal ao
marido pela descarga dos seus humores. E o querido António tinha um fraco por
rainhas, princesas, mulheres da alta nobreza estrangeira. Levá-las para a cama
fazia-o sentir-se tão real quanto era tolerável para qualquer verdadeiro
republicano de Roma. Por ter conhecido Cleópatra durante a sua estada em Roma,
antes do assassinato de César, Fúlvia compreendia que tinham sido o título e o
seu poder o motivo da atracção de António. Fisicamente ela estava longe de ser
o tipo de mulher sensual e voluptuosa que ele preferia. Para além de que era
fabulosamente rica e Fúlvia conhecia bem o marido; ele devia ter andado atrás
do dinheiro dela.
Por isso, quando o mordomo de Ático veio dizer-lhe que Marco António estava no
átrio, Fúlvia abanou-se para fazer assentar melhor o vestido e apressou-se pelo
corredor comprido e austero que partia dos seus aposentos para ir ao encontro
de António.
-António! Oh, meum mel, que bom que é ver-te! - gritou junto à porta.
Ele estava a apreciar um magnífico quadro, representando Aquiles amuado junto
ao seu rebanho, e virou-se ao ouvir o som da voz dela.
Depois Fúlvia nem se apercebeu do que estava a acontecer, tão rápidos foram os
seus movimentos. O que sentiu foi uma pancada enorme de um dos lados da cara
que a lançou por terra. Depois ele debruçou-se sobre ela, agarrou-a pelos
cabelos e levantou-a. As pancadas de mão aberta choveram-lhe no rosto, não
menos fortes e dolorosas do que se fossem dadas com o punho de outro homem
qualquer; saltaram-lhe dentes e ficou com o nariz partido.

84

- Sua estúpida cunnus! - rugiu ele continuando a bater-lhe. - Sua estúpida,


estúpida cunnus! Quem é que pensas que és, Gaio César?
O sangue jorrava-lhe da boca e do nariz e ela, que enfrentara fogosamente todos
os desafios da sua vida movimentada, ficou impotente, desfeita. Alguém estava a
gritar e devia ser ela, pois apareceram criados a correr de todas as direcções;
olharam para o que se passava e fugiram.
- Idiota! Galdéria! Qual foi a tua ideia de declarares guerra ao Octaviano em
meu nome? A esbanjar o dinheiro que eu tinha deixado em Roma, em Bonónia e em
Mútina? A comprar legiões para serem perdidas por tipos como o Planco? A viver
num acampamento de guerra? Quem é que pensas que és, para partires do princípio
que homens como o Polião iriam aceitar ordens ruas? De uma mulher? A pressionar
e a enganar o meu irmão em meu nome? Ele é um idiota! Sempre foi um idiota! Se
precisasse de mais alguma prova disso, ele ter unido forças com uma mulher,
desta maneira, seria a prova que me faltava! És menos que desprezível!
Cuspindo de raiva, atirou-a com força para o chão. Ainda aos gritos, ela fugiu
a gatinhar como uma besta ferida, as lágrimas correndo agora com mais força do
que o sangue.
-António, António! Pensei que te agradaria! Mânio disse que te agradaria!
-gritou ela em voz rouca. - Eu estava a continuar a tua luta em Itália enquanto
estavas ocupado no Oriente! Foi o que Mânio disse!
As frases saíam-lhe de supetão. Ao ouvir "Mânio", a sua fúria acalmou de
imediato. O liberto grego dela, uma serpente. Na verdade não se apercebera, até
tê-la visto, do quão zangado estava, de como a fúria crescera dentro de si
durante a viagem de Éfeso. Talvez se tivesse feito o que planeara
originalmente, e tivesse viajado directamente de Antioquia para Atenas, talvez
não tivesse ficado tão enraivecido.
Em Éfeso não fora só Barbácio que andara a falar dele, e nem todos falavam
sobre o Inverno que passara com Cleópatra. Alguns diziam que na sua família era
ele quem usava as saias e a Fúlvia envergava a armadura. Outros escarneciam,
dizendo que ao menos um dos Antónios fizera a guerra, ainda que tivesse sido
uma mulher. Ele tivera que fingir que não ouvia aquele tipo de comentários, mas
a fúria acumulara-se. Ter sabido da história toda por Planco também não
ajudara, nem a dor que o consumira até ter ficado a saber que Lúcio estava são
e salvo. O irmão de ambos, Gaio, fora assassinado na Macedónia e apenas a
execução do assassino lhe acalmara a dor. Ele, o irmão mais velho, amava-os.
O amor por Fúlvia, pensou, olhando-a com desdém, desaparecera para sempre.
Estúpida, estúpida cunnus! Envergando a armadura e castrando-o publicamente.
- Quero que saias desta casa até amanhã - disse-lhe, agarrando-a pelo pulso.
-Deixa que Ático guarde a sua caridade para aqueles que são merecedores dela.
Vou escrever-lhe hoje mesmo para lho dizer e ele não pode ofender-me, por mais
dinheiro que tenha.

85

És uma desgraça como mulher e como esposa, Fúlvia! Não quero ter mais nada a
ver contigo. Vou mandar-te imediatamente os papéis do divórcio.
- Mas - disse ela a soluçar -, eu fugi sem dinheiro nem bens, Marco! Preciso de
dinheiro para viver!
- Pede aos teus banqueiros. És uma mulher rica e sui iuris. - Começou a gritar
pelos criados. - Limpem-na e ponham-na na rua! - disse ao mordomo que estava
quase a desmaiar de terror. Depois António deu meia-volta e foi-se embora.
Fúlvia ficou muito tempo sentada contra a parede, mal tomando consciência das
raparigas aterrorizada que lhe lavaram o rosto e tentaram estancar o sangue,
secar-lhe as lágrimas. Em tempos rira ao ouvir falar de uma mulher cujo coração
fora despedaçado, acreditando que os corações eram inquebráveis. Agora sabia
que isso não era verdade. Marco António partira-lhe o coração de tal forma que
não tinha remédio.
A notícia da forma como António tratara a mulher espalhou-se por Atenas, mas
poucos dos que a ouviram sentiram simpatia por Fúlvia, que fizera o
imperdoável: usurpara as prerrogativas masculinas. As histórias das suas
investidas no Fórum no tempo do seu casamento com Públio Clódio foram novamente
arejadas, juntamente com as histórias das cenas que fizera no exterior das
portas da Casa do Senado e da sua provável colaboração com Clódio, quando este
profanara os ritos da Bona Dea.
Não que António se ralasse com o que diziam os Atenienses. Ele, um homem
romano, sabia que os homens romanos da cidade o respeitariam.
Além disso estava muito ocupado a escrever cartas, uma tarefa árdua. A primeira
destas foi curta e brusca e era dirigida a Tito Pompónio Ático, informando-o de
que o imperator Marco António, triúnviro, lhe agradecia que não metesse o nariz
nos assuntos de Marco António e que não tivesse qualquer envolvimento com
Fúlvia. A segunda carta foi para Fúlvia, informando-a de que estava divorciada
devido a conduta indigna de uma mulher e que ficava proibida de ver os dois
filhos que tinha dele. A terceira foi para Gneu Asínio Polião, perguntando-lhe
o que raio se estava a passar em Itália e se faria o favor de ter as suas
legiões preparadas para marchar para sul no caso de ele, Marco António, ser
impedido de entrar no país pela populaça de Brundísio, fervorosa apoiante de
Octaviano. A quarta foi dirigida ao etnarca de Atenas agradecendo àquele
dignatário a bondade e lealdade da cidade aos romanos (implícito) certos. Assim
sendo, o imperator Marco António, triúnviro, tinha o prazer de oferecer a
Atenas a ilha de Egina e outras ilhas menores que lhe estavam associadas.
Aquilo devia fazer com que os Atenienses se sentissem satisfeitos, pensou.
Teria escrito mais cartas, não fora a chegada de Tibério Cláudio Nero, que lhe
fez uma visita formal assim que instalou a mulher numa boa casa das redondezas.

86

- Pff! - exclamou Nero com as narinas a tremer. - Sexto Pompeu é um bárbaro!


Mas também o que seria de esperar de um membro de um clã de arrivistas de
Piceno? Não podes fazer ideia de como é o quartel-general dele: ratazanas,
ratos, lixo podre. Não me atrevi a expor a minha família à porcaria e às
doenças, se bem que isso não fosse o pior que o Pompeu tinha para oferecer.
Ainda não tínhamos desfeito as malas e já havia alguns daqueles seus libertos
aperaltados e promovidos a "almirantes" a cheirar de volta da minha mulher.
Tive que cortar um bocado ao braço de um sujeito qualquer! E acreditas se te
disser que o Pompeu tomou o partido daquele rafeiro? Disse-lhe o que pensava e
depois enfiei Lívia Drusila e o meu filho no primeiro navio para Atenas.
António escutou tudo aquilo recordando, meio ensonado, a opinião que César
tivera de Nero - "inepte" era o termo mais simpático que César encontraria para
o descrever. Interpretando aquilo que Nero não dissera, António concluiu que
Nero chegara ao covil de Sexto Pompeu, andara por lá armado em galarote,
resmungara e criticara e acabara por se tornar de tal modo intolerável, que
Sexto correra com ele. Seria difícil encontrar um pedante mais insuportável do
que Nero, sendo os Pompeus muito sensíveis relativamente às suas origens
picentinas.
- Que tencionas então fazer agora, Nero? - perguntou.
-Viver dentro das minhas possibilidades, que não são ilimitadas - disse Nero
rigidamente, as feições morenas e saturninas assumindo uma expressão ainda mais
orgulhosa.
- E a tua mulher? - perguntou António maliciosamente.
- Lívia Drusila é uma boa esposa. Faz o que lhe mandam, que é mais do que tu
podes dizer da tua mulher!
Era uma frase tipicamente sua; ele parecia não ter incorporado nenhum sistema
que o avisasse de que havia coisas que era melhor não serem ditas. Eu devia,
pensou António selvaticamente, seduzi-la! Que vida ela deve ter, casada com
este inepte!
- Trá-la para jantar esta tarde, Nero - disse jovialmente. - Pensa nisso como
uma forma de poupança; não vais precisar de mandar o cozinheiro ao mercado até
amanhã.
- Agradeço-te - disse Nero desenrolando toda a sua estatura alta e magra. Com o
braço esquerdo a suportar as pregas da toga saiu, deixando António a rir
baixinho.
Planco entrou com o horror estampado no rosto.
- Oh, Edepol, António! Que está Nero a fazer aqui?
- Para além de insultar toda a gente que encontra? Suspeito que se tornou de
tal forma insuportável, no quartel-general de Sexto Pompeu, que foi convidado a
sair. Podes vir cá jantar hoje à tarde e partilhar o prazer da sua companhia.
Ele vai trazer a mulher que, para o aturar, deve ser uma tremenda maçadora. Mas
quem é ela?

87

- É prima dele... na verdade uma prima bastante próxima. O pai dela era Cláudio
Nero que foi adoptado pelo famoso tribuno das plebes, Lívio Druso, daí o nome
dela, Lívia Drusila. Nero é filho do irmão de sangue do Druso, o Tibério Nero.
É claro que ela é uma herdeira... há imenso dinheiro na família de Lívio Druso.
Em tempos Cícero teve a esperança de que Nero se casasse com a sua Túlia, mas
ela preferiu o Dolabela. Um marido pior em muitos aspectos, mas ao menos é um
sujeito alegre. Não frequentavas esses círculos quando Clódio era vivo,
António?
- Sim. E tens razão, Dolabela era uma boa companhia. Mas não é por causa de
Nero que estás com esse ar, Planco. O que se passa?
- Chegou uma carta de Éfeso. Eu também recebi uma, mas como a tua vem do teu
primo Canínio, deve dizer mais coisas. - Planco sentou-se com os olhos a
brilhar na cadeira do cliente, de frente para António, que estava sentado à
secretária.
António quebrou o selo, desenrolou a epístola do primo e foi-a lendo em
murmúrios, tarefa demorada e acompanhada com franzidos de cenho e por pragas.
- Quem me dera - queixou-se-, que mais homens tivessem seguido os conselhos de
César e pusessem um ponto sobre o início de uma nova palavra. Eu agora faço-o,
assim como Polião, Ventídio, apesar de odiar dizê-lo, Octaviano. Transforma uma
escrita contínua em algo que se consegue ler quase só de um relance. -
Regressou aos seus murmúrios e finalmente suspirou e pousou o pergaminho.
- Como posso estar em dois lugares ao mesmo tempo? - perguntou a Planco. -É
certo que deveria estar na província da Ásia, preparando-a para os ataques de
Labieno, em vez disso vejo-me forçado a ficar mais perto de Itália e a manter
as minhas legiões ao alcance. Pácoro invadiu a Síria e todos os pequenos
principados se juntaram aos Partos, até mesmo Amblichus. Canínio diz que as
legiões do Saxa desertaram para o Pácoro... Saxa viu-se forçado a fugir para
Apameia e depois apanhou um barco para a Cilicia. Nunca mais ninguém soube nada
dele, mas correm boatos de que o irmão foi morto na Síria. Labieno está muito
ocupado a invadir a Cilicia Pedia e o Leste da Capadócia.
- E é claro que não existem legiões a leste de Éfeso.
- Nem em Éfeso, receio bem. A província da Ásia terá que se defender sozinha
até eu conseguir resolver esta confusão na Itália. Já mandei dizer ao Canínio
para trazer as legiões para a Macedónia - disse António sombriamente.
- É essa a única opção? - perguntou Palanco empalidecendo.
- Definitivamente. Dei a mim próprio até ao fim do ano para tratar da questão
de Roma, de Itália e do Octaviano, portanto durante o resto do ano as legiões
estarão acampadas à volta de Apolónia. Se se souber que estão no Adriático,
Octaviano perceberá que o esmagarei como a um insecto.
- Marco - uivou Planco -, toda a gente está farta de guerras civis e é disso
que tu estás a falar, duma guerra civil! As legiões não combaterão!
- As minhas legiões combaterão por mim - disse António.

88
Lívia Drusila entrou na residência do governador com a sua habitual compostura
e as pálpebras cremosas baixas sobre os olhos que ela sabia serem o que tinha
de melhor. Esconde-os! Como sempre, caminhava um pouco atrás de Nero, pois era
isso o que as boas esposas faziam e Lívia Drusila jurara ser uma boa esposa.
Nunca, jurara ao ouvir contar o que António fizera a Fúlvia, se poria a si
própria em tal posição! Envergar uma armadura e andar por aí a brandir uma
espada, só Hortênsia, que o fizera para demonstrar aos líderes do Estado romano
que as mulheres de Roma, das de estatuto mais elevado às de estatuto mais
baixo, nunca consentiriam em pagar impostos sem terem o direito ao voto.
Hortênsia vencera o recontro, uma vitória sem derramamento de sangue,
provocando um embaraço considerável aos triúnviros António, Octaviano e Lépido.
Não que Lívia Drusila tencionasse ser um rato; limitava-se a disfarçar-se de
pequena e humilde e um pouco tímida. Lavrava nela uma imensa ambição, embora
esta tivesse uma forma incipiente, pois ela não fazia ideia de como iria agir
para a transformar em algo de produtivo. Certamente que, tendo sido formada num
molde absolutamente romano não acarretaria, consequentemente, nenhum tipo de
comportamento pouco feminino, nem a levaria a pôr-se em evidência nem a
manipulações pouco subtis. Não que quisesse ser uma nova Cornélia a Mãe dos
Gracos, adorada por algumas mulheres como uma verdadeira deusa romana por ter
sofrido, ter tido filhos, ter assistido à sua morte e nunca se ter queixado da
sua sorte. Não, Lívia Drusila pressentia que havia uma outra forma de alcançar
os píncaros.
O problema era que três anos de casamento tinham-lhe demonstrado, para lá de
qualquer dúvida, que tal não aconteceria através de Tibério Cláudio Nero. Tal
como a maioria das raparigas da sua elevadíssima posição social, não conhecera
muito bem o seu futuro marido antes do casamento, apesar de este ser um primo
chegado. Ele não lhe inspirara, nas poucas ocasiões em que se tinham
encontrado, nada a não ser desprezo pela sua estupidez e uma repulsa instintiva
pela sua pessoa. Sendo ela própria morena, admirava homens com cabelos dourados
e olhos claros. Sendo ela própria inteligente, admirava homens inteligentes.
Nero não tinha nenhuma dessas características. Tinha quinze anos quando o pai
Druso a casara com aquele primo em primeiro grau, Nero e, na casa onde
crescera, não houvera pinturas murais do deus Príapo nem candeeiros fálicos
através dos quais uma rapariga pudesse aprender alguma coisa sobre o amor
físico. Por isso a união com Nero enojara-a. Ele também preferia amantes de
cabelos loiros e olhos claros; o que lhe agradava na mulher era a linhagem
nobre e a sua fortuna.
Mas como poderia ver-se livre de Tibério Cláudio Nero se estava determinada a
ser uma boa esposa? Tal não lhe parecia exequível, a menos que alguém
oferecesse ao marido um casamento melhor, e isso era altamente improvável.

89

A sua inteligência permitira-lhe ver, logo nos primeiros tempos do casamento,


que as pessoas não gostavam de Nero e que o toleravam apenas devido ao seu
estatuto patrício e ao direito inerente a ocupar todos os cargos que Roma
oferecia à sua nobreza. E oh, ele entediava-a! Tinha ouvido muitas histórias
sobre Catão Uticense, o maior inimigo de César, e sobre a sua personalidade
tagarela e destituída de tacto mas, a Lívia Drusila, ele parecia-lhe um deus
arrebatador quando comparado com Nero. E também não conseguia gostar do filho
que dera a Nero dez meses após o casamento de ambos. O pequeno Tibério era
moreno, magricela, alto, solene e ligeiramente santarrão, mesmo aos dois anos
de idade. Adquirira o hábito de criticar a mãe, pois ouvia o pai fazê-lo e,
contrariamente ao que costumava acontecer com as crianças pequenas, passara a
maior parte da sua curta vida na companhia do pai. Lívia Drusila suspeitava que
Nero preferia mantê-la a ela e ao pequeno Tibério por perto, não fosse algum
sujeito bem-parecido e com encantos cesarianos tentar a virtude da mulher. Mas
que irritante que aquilo era! O idiota não percebia que ela não se rebaixaria
dessa forma?
O recolhimento doméstico em que vivera, até Nero ter embarcado naquela
desastrosa aventura na Campânia em defesa da causa de Lúcio António, não lhe
permitira um vislumbre sequer de nenhum dos famosos homens de que toda a Roma
falava; não pusera os olhos em Marco António, Lépido, Servílio Vácia, Gneu
Domí-cio Calvino, Octaviano nem mesmo César, que morrera no ano em que ela
fizera quinze anos. Consequentemente, aquele era um dia excitante, apesar de em
nada ela o deixar transparecer: ia jantar com Marco António, o homem mais
poderoso do mundo!
Um prazer que esteve quase para não acontecer quando Nero descobriu que António
era um daqueles homens desgraçadamente imorais, que permitiam que as mulheres
se reclinassem nos divãs dos homens.
- Se não arranjarem uma cadeira para a minha mulher eu vou-me embora! -disse
Nero com o seu tacto habitual.
Se António não tivesse já achado o pequeno rosto oval da mulher de Nero
encantador, a consequência de um tal comentário teria sido uma expulsão
ruidosa. Assim, António sorriu e ordenou que trouxessem uma cadeira para Lívia
Drusila. Quando a cadeira chegou, mandou colocá-la em frente à posição que ele
próprio ocupava no divã, mas como só havia três comensais do sexo masculino,
Nero não tinha forma de poder levantar objecções a esse facto. Não era como se
ela estivesse fora da sua vista, apesar de ter achado que era mais uma prova da
natureza grosseira de António, este tê-lo relegado para a extremidade do divã,
pondo no meio um zé-ninguém sobrevalorizado como Planco.
Ao retirar a capa, Lívia Drusila revelou um vestido castanho com mangas
compridas e gola subida, mas nada conseguia disfarçar os encantos da sua figura
ou a beleza imaculada da pele cor de marfim.

90

Tão espesso e negro como a noite, com o mesmo tom índigo do seu brilho, o
cabelo estava penteado de forma modesta, tapando-lhe as orelhas e preso na
nuca. E o rosto dela era magnífico! Uma boca pequena e vermelha, olhos enormes
debruados por pestanas compridas e negras abertas em leque, faces rosadas, um
nariz pequeno mas aquilino, tudo combinado na perfeição. No exacto momento em
que António começava a ficar aborrecido por não conseguir determinar a cor dos
seus olhos, ela mexeu a cadeira e um fino raio de sol iluminou-os. Oh,
espantoso! Eram de um azul muito escuro, mas raiados por mágicas estrias
castanho-esbranquiçadas. Nunca vira antes olhos semelhantes e... assustadores.
Lívia Drusila, seria capaz de te comer!, disse para consigo e empenhou-se em
fazer com que ela se apaixonasse por ele.
Mas tal não era possível. Ela não era envergonhada, respondia a todas as suas
perguntas com honestidade e modéstia e não temia acrescentar um pequeno
comentário quando tal era apropriado. No entanto não introduzia novos assuntos
nas conversas por sua própria iniciativa e não disse nem fez nada que Nero, que
a vigiava como um falcão, pudesse reprovar. Nada disso teria tido qualquer
importância para António se o mínimo sinal de interesse tivesse brilhado nos
seus olhos, mas tal não aconteceu. Se fosse um homem mais sensível teria
percebido que a pequena careta que, de tempos a tempos, lhe toldava a expressão
era um sintoma de desagrado. Sim, ele era capaz de dar uma sova a uma mulher
que se tivesse portado muito mal, concluiu ela, mas não da mesma forma que
Nero, que o fazia friamente e com total calculismo. António fá-lo-ia no meio de
um enorme descontrolo apesar de, depois, quando arrefecesse, não sentir
remorsos, pois o crime dela teria sido imperdoável. A maioria dos homens
gostava dele, sentia-se atraída por ele e a maior parte das mulheres desejava-
o. A vida durante aqueles breves dias no covil de Sexto Pompeu, em Agrigento,
pusera Lívia Drusila em contacto com mulheres de baixa condição e aprendera
muita coisa sobre o amor e sobre os homens e o acto sexual. Parecia que as
mulheres preferiam homens com pénis grandes por isso lhes facilitar o orgasmo,
o que quer que isso fosse - ela não descobrira, pois tivera medo de perguntar
não fossem rir-se dela. Mas o que descobriu foi que Marco António era famoso
pela enormidade do seu equipamento reprodutivo. Bem, podia ser que fosse
verdade, mas apercebera-se que não havia em António nada de que gostasse ou
admirasse. Em especial quando se apercebeu que ele estava a dar o seu melhor
para lhe provocar uma reacção. Deu-lhe uma satisfação tremenda negar-lhe essa
reacção, o que lhe ensinou um pouco acerca das formas através das quais uma
mulher poderia adquirir poder. Mas não envolvendo-se com António, cujos desejos
eram transitórios e até mesmo pouco importantes.
- Que achaste do Grande Homem? - perguntou Nero quando regressavam a casa
durante o breve pôr do sol avermelhado.
Lívia Drusila pestanejou; não era costume o marido pedir-lhe a opinião acerca
de alguém ou de alguma coisa.

91

- Alto em nascimento e baixo em carácter - disse ela. - Um vulgar labrego.


- Enfático - disse ele parecendo agradado.
Pela primeira vez na relação de ambos ela atreveu-se a fazer-lhe uma pergunta
política.
- Marido, porque te juntaste a um labrego vulgar como Marco António? Porque não
a César Octaviano que, de acordo com todos os relatos, não é nem labrego
nem vulgar?
Por um instante ele ficou completamente imóvel e depois virou-se para a
encarar, mais surpreendido do que irritado.
- O nascimento é mais importante que qualquer uma dessas coisas. António é mais
bem-nascido. Roma oertence a homens com a linhagem adequada. A eles e só a eles
deveria ser permitido o acesso aos altos cargos, ao governo das províncias e ao
comando das guerras.
- Mas Octaviano é sobrinho de César! O nascimento de César não é inatacável?
- Oh, César tinha tudo: nascimento, brilhantismo, beleza. O mais augusto dos
patrícios augustos. Até mesmo o seu sangue plebeu era da melhor qualidade: mãe
aureliana, avó marciana, bisavó popiliana. Octaviano é um impostor! Tem uns
vestígios de sangue juliano e o resto é lixo. Quem são os Octávios de Velitras?
Absolutamente ninguém! Alguns Octávios são mais ou menos respeitáveis, mas não
os de Velitras. Um dos bisavós de Octaviano era cordoeiro e outro era padeiro.
O avô dele era banqueiro. Baixo, baixo! O pai dele fez um segundo casamento
afortunado com a sobrinha de César. Apesar de ela estar manchada... o pai dela
era um zé-ninguém rico que comprou a irmã de César. Nesses tempos os Júlios não
tinham dinheiro e tinham que vender filhas.
- Um sobrinho não é um quarto juliano? - perguntou ela com atrevimento.
- Sobrinho-neto, o pequeno farsante! Um oitavo juliano. O resto é abominável! -
ladrou Nero, entusiasmando-se. - O que terá dado ao grande César para escolher
para herdeiro um rapaz de nascimento tão baixo é algo que me escapa, mas de uma
coisa podes estar certa, Lívia Drusila: nunca me ligarei a gente como
Octaviano!
Bem, bem, pensou Lívia Drusila não dizendo mais nada. É essa a razão por que
tantos dos aristocratas de Roma detestam Octaviano! Sendo alguém com uma
linhagem impecável, eu também o deveria detestar, mas ele intriga-me. Subiu tão
alto! Admiro isso nele porque o compreendo. Talvez de vez em quando Roma tenha
que criar novos aristocratas; até pode ser que o grande César se tenha
apercebido disso quando escreveu o seu testamento.
A interpretação das razões de Nero para a sua ligação a Marco António era uma
simplificação grosseira - mas também o era o raciocínio do próprio Nero. O seu
intelecto limitado estava pouco desenvolvido; a passagem dos anos não
conseguiria torná-lo melhor do que fora nos tempos da sua juventude, quando
servira sob as ordens de César.

92

Na realidade era tão burro que não fazia ideia de que César não gostara dele.
Agua correndo pelas costas de um pato, como diziam os Gauleses. Quando a nossa
linhagem é a melhor possível, que defeito poderá encontrar em nós um nobre
nosso igual?
A Marco António parecia que o seu primeiro mês em Atenas estava pejado de
mulheres, nenhuma das quais valia o seu precioso tempo. No entanto seria o seu
tempo mesmo valioso, quando nada do que fazia lhe dava frutos? As únicas boas
notícias chegaram de Apolónia juntamente com Quinto Délio, que o informou de
que as suas legiões tinham chegado à costa ocidental da Macedónia e se sentiam
satisfeitas por poderem montar o campo em climas mais amenos.
Em cima dos calcanhares de Délio chegou Lúcio Escribónio Libão, escoltando a
mulher mais capaz de alegrar António: a sua mãe.
Ela entrou apressada na sala, espalhando alfinetes de cabelo e sementes para o
pássaro, que a criada trazia numa gaiola, e os fios de uma longa franja que uma
qualquer costureira louca pregara na bainha da sua estola. O cabelo soltava-se
em madeixas que, por aqueles tempos, já eram mais cinzentas do que loiras, mas
os seus olhos eram exactamente como o filho os recordava: eternamente cheios de
lágrimas.
- Marco! Marco! - gritou atirando-se para os seus braços. - Oh meu querido
rapaz, pensei que não mais voltaria a ver-te! Passei tempos horríveis! Num
quartinho miserável que vibrava dia e noite com o barulho de actos não
mencionáveis, ruas cobertas de cuspo e do conteúdo dos bacios, uma cama cheia
de percevejos, nenhum sítio onde tomar um banho...
Com muitos murmúrios e outros sons tranquilizantes, António conseguiu
finalmente sentá-la numa cadeira e acalmá-la, tanto quanto era possível alguém
acalmar Júlia Antónia. Só então é que o fluxo das suas lágrimas se reduziu para
algo de semelhante ao habitual e ele teve oportunidade de ver quem entrara
depois dela. Ah, o maior velhaco de todos os velhacos, Lúcio Escribónio Libão.
Não andava colado a Sexto Pompeu... era mais como um enxerto posto num pé de
vinha azeda para as uvas ficarem mais doces.
Baixo e mal constituído, Libão tinha um rosto que sublinhava os defeitos do seu
tamanho e que traía a natureza da besta que habitava no seu íntimo: ávido,
tímido, ambicioso, inseguro, egoísta. O seu grande momento chegara quando o
filho mais velho de Pompeu, o Grande, se apaixonara pela sua filha e se
divorciara de Cláudia Pulcra para casar com ela, obrigando Pompeu, o Grande, a
promovê-lo a uma posição adequada para o sogro do seu filho. Depois, quando
Gneu Pompeu seguiu o pai na morte, Sexto, o filho mais novo, casara com a viúva
do irmão. Em consequência, Libão comandara frotas e servia agora como
embaixador não oficial do seu senhor, Sexto. As mulheres Escribónias tinham
servido bem a sua família; a irmã de Libão casara com dois homens ricos e
influentes, um deles um patrício, um Cornélio, de quem tivera uma filha.

93

Apesar de Escribónia, a irmã, já ter trinta e tal anos e fama de dar azar -
duas vezes viúva era demais - Libão não desistira de lhe arranjar um terceiro
marido. Com bom aspecto, com provas dadas de fertilidade e um dote de duzentos
talentos - sim, Escribónia, a irmã, casar-se-ia novamente.
Todavia António não estava interessado nas mulheres de Libão; era ele próprio
quem o incomodava.
- Porque havias de ma trazer? - perguntou.
Libão abriu muito os olhos castanhos e estendeu as mãos.
- Meu caro António, para onde haveria de a levar?
- Poderias tê-la enviado para a sua própria domus em Roma.
- Ela recusou-se num tal ataque de histeria que me vi forçado a empurrar o
Sexto Pompeu para fora sala... se não ele ainda a matava. Acredita em mim, ela
recusou-se a ir para Roma, não parava de guinchar que o Octaviano a iria
executar por traição.
- Executar uma prima de César? - perguntou António com incredulidade.
- Porque não? - perguntou Libão muito inocentemente. - Ele proscreveu o primo
Lúcio de César, o irmão da tua mãe.
- Octaviano e eu, ambos proscrevemos Lúcio! - ripostou António espicaçado. - No
entanto não o executámos! Precisávamos do dinheiro dele, tão simples como isso.
A minha mãe está falida, não corre qualquer perigo.
- Então tu explica-lhe isso! - disse Libão com um esgar; fora ele, afinal, quem
tivera que aturar Júlia Antónia numa viagem marítima bastante longa.
Se algum dos dois homens se tivesse lembrado de olhar para ela - o que não
aconteceu - ter-se-ia apercebido de que os olhos azuis encharcados em lágrimas
tinham um certo brilho ardiloso e que as orelhas profusamente ornamentadas não
deixavam escapar uma única palavra. Júlia Antónia podia ser monumentalmente
pateta, mas tinha uma preocupação muito saudável relativamente ao seu bem-estar
e estava convencida de que ficaria muito melhor com o seu filho mais velho, do
que encalhada em Roma sem quaisquer rendimentos.
Nessa altura chegaram o mordomo e os criados da família, com expressões que
deixavam transparecer alguma excitação. Sem se deixar comover por aquela prova
de receio serviçal, os criados temiam ir receber mais um fardo, António
entregou-lhes agradecido a sua mãe enquanto lhe garantia que não a iria enviar
para Roma. Finalmente o assunto resolvera-se e a paz desceu sobre o escritório;
António recostou-se na cadeira com um suspiro de alívio.
-Vinho! Preciso de vinho! - gritou saltando repentinamente da cadeira. -Tinto
ou branco, Libão?
- Um bom vinho forte; agradeço-te. Sem água. Vi água suficiente nos três
últimos nundinae que me chega para o resto da vida.
António sorriu.

94

- Compreendo perfeitamente. Servir de chaperon à minha mãe não é nenhum


piquenique. - Encheu um copo grande quase até aos bordos. - Toma, isto deve
diminuir a dor... De Quios, uma colheita com dez anos.
Fez-se silêncio durante algum tempo enquanto os dois beberrões enfiavam os
narizes nos copos soltando apropriados sons de contentamento.
- Que te traz então a Atenas, Libão? - perguntou António quebrando o silêncio.
- E não digas que foi a minha mãe.
- Tens razão. A tua mãe foi uma conveniência.
- Não para mim - grunhiu António.
- Adorava saber como consegues fazer isso - disse Libão alegremente. -A tua
voz, quando falas, é límpida e aguda mas, num ápice, consegues transformá-la
num rosnido ou rugido profundo.
- Ou num mugido. Não esqueças o mugido. E não me perguntes como o faço que eu
não sei. Limita-se a acontecer. E se me queres ouvir mugir, então continua a
evitar o assunto, não te acanhes.
- Humm... não é necessário. Embora se puder continuar a falar da tua mãe
durante mais alguns instantes, sugira que lhe dês bastante dinheiro e a mandes
fazer a volta das melhores lojas de Atenas. Faz o que digo e nunca a verás nem
ouvirás. - Libão sorriu para as gotinhas que perlavam a borda do seu copo. -
Quando ela soube que o teu irmão Lúcio tinha sido perdoado e enviado para a
Hispânia Ulterior com imperium proconsular, foi mais fácil lidar com ela.
- Porque estás aqui? - perguntou novamente António.
- Sexto Pompeu pensou que seria uma boa ideia eu falar contigo. -Verdade? E com
que objectivo?
- Formar uma aliança contra Octaviano. Vocês os dois, unidos, transformariam o
Octaviano em papas.
A pequena boca de lábios cheios franziu-se; António olhou-o de lado.
- Uma aliança contra Octaviano... Diz-me por favor, Libão, porque é que eu, um
dos três homens nomeados pelo Senado e Povo de Roma para reconstruir a
República, deveria formar uma aliança com um homem que não é melhor do que um
pirata?!
Libão estremeceu.
- Sexto Pompeu é o governador da Sicília com respeito total pela mos maiorum!
Não considera o triunvirato nem legal nem aceitável e deplora o édito de
proscrição que perfidamente o pôs fora da lei, para não mencionar o facto de o
ter expropriado dos seus bem e herança! As suas actividades no alto-mar servem
apenas para convencer o Senado e o Povo de Roma de que foi injustamente
condenado. Se anularem a sentença de hostis, retirarem as proibições, embargos
e interdições, Sexto Pompeu deixará de ser... hum... um pirata.

95
- E ele acha que eu proporei ao Senado que o estatuto dele de inimigo público,
e todas as proibições e embargos e interdições sejam levantados, se ele me
ajudar a livrar Roma de Octaviano?
- Pensa, sim.
- Deduzo que ele esteja a propor uma guerra aberta, amanhã já, se possível?
- Ora, ora, Marco António, toda a gente consegue ver que tu e o Octaviano
acabarão por chegar a vias de facto! Dado que entre os dois, estou a descontar
o Lépido, têm imperium maius sobre nove décimos do mundo romano e controlam as
respectivas legiões bem como os respectivos rendimentos, que mais poderá
acontecer quando entrarem em colisão senão uma guerra total? Durante cinquenta
anos a história da República romana foi uma guerra civil após a outra;
acreditas mesmo que Filipos foi o fim da última guerra civil? - Libão manteve
um tom ameno e uma expressão serena. - Sexto Pompeu está cansado de viver fora
da lei. Quer aquilo que lhe é devido: a restituição da cidadania, permissão
para herdar os bens do seu pai Magno, restituição desses bens, o consulado e
imperium proconsular perpétuo na Sicília. - Libão encolheu os ombros. - Há
mais, mas isto já chega para começar, acho eu.
- E em troca de tudo isso?
- Controlará e varrerá os mares como teu aliado. Inclui um perdão para o Murco
e terás também as frotas dele. Aenobarbo diz que é independente, apesar de ser
um... pirata igualmente importante. Sexto Pompeu também garantirá cereais à
borla para as tuas legiões.
- Ele está a fazer-me refém.
- Isso é um sim ou um não?
- Não faço tratados com piratas - disse António na sua voz habitualmente
descontraída. - No entanto podes dizer ao teu senhor que se ele e eu nos
encontrarmos sobre as águas espero que me dê passagem para o meu destino, seja
ele qual for. Se ele fizer isso então veremos.
- Mais sim do que não.
- Mais nada do que alguma coisa... por agora. Eu não preciso de Sexto Pompeu
para esmagar Octaviano. Se Sexto acha que preciso está enganado.
- Se decidires transportar as tuas tropas através do Adriático, da Macedónia
para Itália, não gostarás de ter frotas, no plural, a impedirem-te de o
fazeres.
- O Adriático é o quintal de Aenobarbo e ele não se meterá comigo. Não fiquei
impressionado.
- Então Sexto Pompeu não pode considerar-se teu aliado? Não te comprometerás a
defendê-lo no Senado?
- Não em absoluto, Libão. O mais que estou disposto a fazer é concordar em não
o perseguir. Se eu o perseguisse, seria ele a ser feito em papas.

96

Diz-lhe que pode ficar com os cereais à borla, mas que espero que me venda
cereais para as minhas legiões ao habitual preço da venda por grosso de cinco
sestércios o modius e nem mais um tostão.
- Tu és um negociador muito duro.
- Estou em posição de o ser. Sexto Pompeu não está.
E que parte desta obstinação se ficará a dever ao facto de ter a mãe pendurada
ao pescoço? Eu disse a Sexto que não era uma boa ideia, mas ele não me deu
ouvidos.
Quinto Délio entrou na sala de braço dado com mais outro velhaco, Sentius
Saturnino.
- Vê só quem acaba de chegar de Agrigento com o Libão! - exclamou Délio
deliciado. - António, tens algum daquele tinto de Quios?
- Pff! - cuspiu António. - Onde está Planco?
-Aqui, António! - disse Planco abraçando Libão e Sentius Saturnino. - Não é
óptimo?
Óptimo mesmo, pensou António amargamente. Quatro doses de xarope.
Mover o seu exército para a costa adriática da Macedónia começara apenas como
um exercício destinado a assustar Octaviano; tendo abandonado qualquer ideia de
se defrontar com os Partos até os seus rendimentos melhorarem, António
inicialmente quisera deixar as suas legiões em Éfeso, mas depois de visitar o
local mudara de ideias. Canínio era demasiado fraco para controlar tantos
legados importantes, a não ser que tivesse por perto o primo António. Para além
de que a ideia de assustar Octaviano era irresistível de tão deliciosa. Mas, de
alguma forma, parecia que todos achavam que a erupção de uma guerra entre os
dois triúnviros ia acontecer finalmente e António deu por si com um dilema.
Deveria esmagar Octaviano imediatamente? Dentro daquilo que eram as campanhas,
aquela seria barata e ele tinha transportes mais do que suficientes para levar
as suas legiões através do pequeno mar até à terra natal, onde poderia escolher
entre as legiões de Octaviano para completar as suas e libertar Polião e
Ventídio - catorze legiões extra só dessa fonte! Mais dez depois de Octaviano
ser derrotado. E o dinheiro que houvesse no Tesouro para pôr na sua arca de
guerra.
Mesmo assim não tinha a certeza... Quando se provou que o conselho de Libão
relativamente a Júlia Antónia estava certo e ele nunca mais a viu, António
descontraiu um pouco. O seu sofá ateniense era confortável e o exército estava
satisfeito em Apolónia - o tempo lhe diria o que fazer. Não lhe ocorreu que, ao
adiar a decisão, estava a comunicar ao seu mundo que estava indeciso quanto às
suas acções futuras.

II
Octaviano no Ocidente
40 a.C. a 39 a.C.

<gravura - omitida>

99

Estava com um ar tão velho e cansado, a sua amada Senhora Roma. Do local onde
se encontrava no topo da Vélia, Octaviano conseguia ver até lá abaixo, ao Fórum
romano e, para lá deste, até ao monte Capitolino; se se virasse para o outro
lado, podia ver para lá dos pântanos do Palus Ceroliae até lá ao fundo, à Via
Sacra e às Muralhas Sérvias.
Octaviano amava Roma com uma paixão feroz que era estranha à sua natureza, que
tendia a ser fria e distante. Mas a Deusa Roma, acreditava, não tinha rival à
face da Terra. Como detestava ouvir uns dizerem que Atenas a ofuscava como o
sol ofusca a lua, ouvir outros dizerem que Pérgamo, nas alturas, era muito mais
bela, ouvir outros dizerem que Alexandria a fazia parecer um oppidum gaulês!
Seria culpa dela os templos estarem em mau estado, os edifícios públicos sujos,
as praças e os jardins mal-amanhados? Não, a culpa era dos homens que
governavam em seu nome, pois importavam-se mais com as suas reputações do que
com a dela, e tinha sido à custa dela que tinham criado essas reputações. Ela
merecia melhor e, se estivesse ao seu alcance, receberia melhor. Claro que
havia excepções: a gloriosa Basílica Júlia de César, a obra de arte que era o
seu Fórum, a Basílica Amélia, o Tabularium de Sila. Mas, até mesmo no
Capitólio, templos tão grandiosos como o de Juno Moneta, estavam muito
necessitados de uma camada de tinta. Dos ovos e golfinhos do Circo Máximo, aos
santuários e fontes das encruzilhadas, a pobre Deusa Roma estava maltrapilha,
uma senhora da nobreza decadente.
Se ao menos tivéssemos um décimo do dinheiro que os Romanos esbanjaram a
guerrear uns contra os outros, Roma seria inigualável na sua beleza, pensou
Octaviano. Para onde irá o dinheiro todo? Era uma pergunta que lhe ocorrera já
por várias vezes e para a qual tinha apenas uma resposta aproximada, uma
adivinha baseada em alguma informação: para as bolsas dos soldados, para ser
gasto em coisas inúteis ou guardado, conforme a personalidade de cada um. Para
as bolsas dos fabricantes e comerciantes que tiravam os seus lucros das
actividades bélicas; para as bolsas dos estrangeiros; e para as bolsas dos
homens que faziam a guerra.

100
Mas se essa última parte era verdade, pensou, então porque não tinha ele nenhum
lucro?
Olhem para Marco António, continuou a pensar. Roubou centenas de milhões, mais
para manter o seu estilo de vida hedonista do que para pagar às legiões. E
quantos milhões terá ele dado aos seus pretensos amigos para parecer um grande
homem? Oh, eu também roubei... consegui ficar com a arca de guerra de César. Se
não o tivesse feito já estaria morto. Mas, ao contrário de António, nunca dei
um único tostão. Aquilo que gasto do meu tesouro oculto é para ser bem gasto,
como por exemplo para pagar ao meu exército de agentes. Não consigo sobreviver
sem os meus agentes. O trágico é eu não me atrever a gastar nada na própria
Roma. A maior parte do dinheiro vai para pagar os prémios astronómicos das
legiões. Um poço sem fundo que talvez tenha uma única verdadeira utilidade: a
distribuição da riqueza pessoal de uma forma mais igualitária do que nos velhos
tempos, em que os plutocratas podiam ser contados pelos dedos de ambas as mãos
e em que os soldados não ganhavam o suficiente sequer para pertencerem à quinta
classe. Isso já não acontece.
A vista do Fórum turvou-se quando os olhos se lhe encheram de água. César, oh
César! O que poderia eu ter aprendido se não tens morrido? Foi António quem
lhes possibilitou o teu assassinato - ele fazia parte da conspiração, sinto-o
nos ossos. Como acreditava ser o herdeiro de César e estava urgentemente
necessitado da enorme fortuna de César, sucumbiu às lisonjas de Trebónio e de
Décimo Bruto. O outro Bruto e Cássio não eram ninguém, não passavam de meras
figuras de proa. Tal como muitos antes dele, António está desejoso de ser o
Primeiro Homem em Roma. E se não fosse eu, seria. Mas eu estou aqui e ele tem
medo que eu usurpe esse título juntamente com o nome e a fortuna de César. E
tem razão para ter medo. César o Deus - Divus Julius - está do meu lado. Para
Roma prosperar, eu tenho que vencer esta luta! No entanto jurei nunca entrar em
guerra com António e cumprirei o juramento. A brisa suave do zéfiro do início
do Verão agitou-lhe a espessa cabeleira loira; as pessoas reparavam primeiro no
cabelo e só depois na identidade do dono. Olhavam-no fixamente, habitualmente
de cenho franzido. Sendo o triúnviro presente em Roma, era sobre ele que recaía
a maior parte das culpas pelos tempos difíceis - o pão caro, alimentação
monótona, rendas elevadas, bolsas vazias. Mas a cada cenho franzindo ele reagia
com o sorriso de César, algo tão poderoso que as carrancas se transformavam em
sorrisos.
Apesar de mesmo em Roma António gostar de se pavonear de armadura, Octaviano
usava sempre a sua toga orlada a púrpura; esta fazia-o parecer pequeno, magro,
gracioso. Os dias em que usara botas com plataformas pertenciam ao passado.
Roma já o reconhecia como herdeiro de César sem qualquer hesitação e muitos
chamavam-lhe aquilo que ele próprio se intitulava: Divi Filius, o filho de um
deus.

101

Essa era a sua grande vantagem mesmo face à impopularidade. Os homens podiam
ficar carrancudos e resmungar, mas as mamãs e as avós arrulhavam e sorriam;
Octaviano era um político demasiado esperto para não ligar ao impacto que tinha
nas mamãs e nas avozinhas.
Da Vélia passou através dos pilares antigos e cobertos de musgo da Porta Mu-
gónia e subiu ao monte Palatino pela parte menos agradável. A sua casa
pertencera em tempos ao famoso advogado Quinto Hortênsio Hórtalo, o rival de
Cícero nos tribunais. António culpara o seu filho pela morte do irmão Gaio e
proscrevera-o. O que não preocupara nada o jovem Hortênsio, morto na Macedónia,
o corpo atirado para o monumento de Gaio António. Tal como a maior parte de
Roma, Octaviano sabia muito bem que Gaio António fora de tal modo incompetente
que a sua morte tinha sido positivamente uma bênção.
A domus Hortênsia era uma casa muito grande e luxuosa, apesar de não ter as
dimensões do palácio de Pompeu, o Grande, nas Carinas. António ficara com esse;
quando César soube do facto obrigou o primo a pagar renda. Os pagamentos tinham
cessado com a morte de César. Mas Octaviano não quisera uma casa
suficientemente ostensiva para ser intitulada de palácio, apenas algo
suficientemente grande para servir de escritório e de residência. A domus
Hortênsia tinha ficado na sua posse por dois milhões de sestércios, uma fracção
do seu valor real, nos leilões das proscrições. Esse género de coisa acontecia
frequentemente nesse tipo de leilões, quando muitos bens de primeira classe
eram vendidos em simultâneo.
Na parte mais sofisticada do Palatino, as casas amontoavam-se, rivalizando
pelas melhores vistas do Fórum romano, mas Hortênsio não ligara à paisagem. O
que lhe interessava era o espaço. Um famoso apreciador de peixe, tinha lagos
enormes dedicados às carpas prateadas e douradas e campos e jardins que eram
mais comuns às villas, no exterior das Muralhas Sérvias, como o palácio que
César mandara construir para Cleópatra no sopé do monte Janículo. Os seus
jardins e terrenos envolventes eram lendários.
A domus Hortênsia erguia-se no topo de um penhasco com quinze metros,
sobranceiro ao Circo Máximo, onde em dias de paradas ou corridas de carros mais
de cento e cinquenta mil cidadãos romanos se amontoavam nas bancadas para se
maravilharem e aplaudirem. Não lançando sequer um olhar ao Circo, Octaviano
entrou na sua casa pelo jardim e passou pelos lagos nas traseiras, continuando
depois até uma vasta sala de recepções que Hortênsio nunca usara, de tão
enfermo que já estava quando a mandara construir.
Octaviano gostava da arquitectura da casa, pois a cozinha e os aposentos dos
criados ficavam de um dos lados numa estrutura separada que continha as
latrinas e salas de banho para uso dos servos. Os banhos e latrinas para o
proprietário, a sua família e convidados, ficavam no interior do edifício
principal e tinham sido construídos com mármores preciosos.

102

Como a maior parte das casas semelhantes do Palatino, as latrinas e banhos


estavam situados por cima de um ribeiro subterrâneo que desaguava nos esgotos
imensos da Cloaca Máxima. Para Octaviano, aquela fora a principal razão de ter
comprado aquela domus; era uma pessoa muitíssimo reservada, especialmente
quando tinha que esvaziar as tripas ou a bexiga. Ninguém podia ver e ninguém
podia ouvir! O mesmo se aplicava ao banho que tomava pelo menos uma vez por
dia. As campanhas militares tinham sido, por isso, um tormento só tornado
suportável devido a Agripa, que arranjava maneira de ele ter privacidade sempre
que possível. Porque é que aquilo era tão importante para ele, nem o próprio
Octaviano sabia, pois era perfeitamente normal; só que sem as roupas
adequadamente vestidas, os homens eram vulneráveis.
O criado veio ao seu encontro denotando ansiedade; Octaviano detestava a mais
pequena mancha na túnica ou na toga, o que tornava a vida do homem difícil e
perpetuamente ocupada com giz e vinagre.
- Sim, podes levar a toga - disse ele distraidamente, despiu-a e saiu para um
jardim com um peristilo que tinha a mais bela fonte de Roma, com cavalos
empinados com caudas de peixe: Anfitrião conduzindo um carro feito com uma
concha. A pintura era requintadíssima, tão realista que os cabelos de algas do
deus marinho brilhavam e reluziam em tons de verde e a pele era composta por
uma miríade de pequeníssimas escamas prateadas. A escultura erguia-se no meio
de um lago redondo, feito com mármore verde, que custara a Hortênsio dez
talentos nas novas pedreiras de Carrara.
Octaviano passou as portas de bronze, esculpidas com cenas de Lápitas e
centauros em baixo-relevo, e entrou num átrio que tinha o seu escritório de um
lado e a sala de jantar do outro. Daí passou para outro átrio enorme cujo lago
impluvium, sob o compluvium no telhado, brilhava como um espelho à luz do sol.
Passou finalmente mais um par de portas de bronze que davam para a loggia, uma
enorme varanda ao ar livre. Hortênsio gostara da ideia de ter uma trepadeira
para fazer uma sombra capaz de o abrigar da luz forte do sol e erigira uma
série de pilaretes numa parte da varanda e depois plantara videiras para formar
uma latada. Com o decorrer dos anos a vinha tinha-se desenvolvido em torno da
estrutura, formando um santuário em vários tons e, naquela época do ano, com
pendentes de bagos verde-claro.
Quatro homens estavam sentados em cadeiras grandes em volta de uma mesa baixa
com uma cadeira vaga a completar o círculo. Dois jarros e uma série de copos
estavam em cima da mesa, eram de vulgar faiança da Apúlia - nada de cálices
dourados nem de jarros de vidro alexandrino para Octaviano! O jarro da água era
maior do que o do vinho, que continha um vinho branco espumoso, muito leve, de
Alba Fucência.

103

Nenhum conhecedor com tendências enólogas teria torcido o nariz àquele vinho,
pois Octaviano gostava de servir tudo da melhor qualidade. Do que ele não
gostava era de extravagâncias nem de nada que fosse importado. Os produtos de
Itália, gostava ele de dizer a quem o quisesse ouvir, eram excelentes, portanto
para quê armar-se em pedante exibindo vinhos de Quios, tapetes de Mileto, lãs
tingidas em Hierápolis, tapeçarias de Córdova?
Silencioso como um gato, Octaviano não anunciou a sua chegada e ficou uns
momentos junto à porta a observá-los, o seu "conselho de anciãos", como Mecenas
lhes chamava, brincando com o facto de Quinto Salvidieno, com trinta e um anos,
ser o mais velho do grupo. Era àqueles quatro homens - e apenas a eles - que
Octaviano dizia o que pensava; apesar de não dizer tudo o que pensava. Esse
privilégio estava reservado a Agripa, seu contemporâneo e irmão espiritual.
Marco Vipsânio Agripa, de vinte e três anos, tinha exactamente o aspecto que um
nobre romano devia ter. Era tão alto como César fora, muito musculado mas seco
e possuía um rosto pouco habitual mas belo, com sobrancelhas espessas sob uma
testa alta e um queixo firme por baixo de uma boca austera. Descobrir que os
seus olhos cavos eram cor de avelã era uma tarefa difícil, graças às pestanas
espessas que os obscureciam. No entanto Agripa era de tão baixo nascimento que
Tibério Cláudio Nero desdenhara: quem já ouvira falar de uma família chamada
Vipsânio? Era samnita, se não fosse apúlio ou calabrês. Em qualquer dos casos,
era escumalha italiana. Só Octaviano apreciava verdadeiramente a profundidade e
alcance do seu intelecto, que ia do comando de exércitos, à construção de
pontes e aquedutos, à invenção de maquinetas e ferramentas para tornar o
trabalho mais fácil. Naquele ano era o pretor urbano de Roma, responsável pelos
casos cíveis e pela distribuição dos casos criminais pelos vários tribunais. Um
trabalho pesado, mas não suficientemente pesado para satisfazer Agripa, que
também ficara com algumas das tarefas dos edis. Eram esses distintos cidadãos
os responsáveis por cuidar dos edifícios e serviços em Roma; dizendo que não
passavam de um monte de inúteis mandriões, ele assumira a responsabilidade do
abastecimento de água e dos esgotos, para grande desalento das empresas que a
cidade contratara para gerir esses serviços. Falava muito a sério em fazer
obras para impedir que os esgotos refluíssem de cada vez que havia cheias no
Tibre, mas temia que isso não viesse a acontecer naquele ano, pois era
necessário o levantamento de muitas milhas de esgotos e de escoadouros.
Conseguira contudo fazer algumas obras na Aqua Mareia, o melhor dos aquedutos
existentes em Roma e estava a construir um novo, o Aqua Júlia. O abastecimento
de água de Roma era o melhor do mundo, mas a população da cidade estava a
aumentar e o tempo a esgotar-se.
Ele era um homem de Octaviano até à morte, não cegamente fiel, mas
inteligentemente leal; conhecia as fraquezas de Octaviano assim como os seus
pontos fortes e sofria por ele como Octaviano nunca sofria por si próprio. Não
se podia pôr a questão da ambição.

104

Ao contrário da maioria dos Homens Novos, Agripa compreendia verdadeiramente,


no mais íntimo de si, que era Octaviano que tinha a vantagem do nascimento,
quem devia manter a posição dominante. O seu papel era o de fides Achates e
estaria sempre presente para Octaviano. Que haveria de o elevar muito acima do
seu verdadeiro estatuto social: haveria melhor sina que a de ser o Segundo
Homem em Roma? Na opinião de Agripa, essa era uma sorte melhor do que a que
qualquer Homem Novo merecia.
Gaio Cílnio Mecenas, com trinta anos; era um etrusco da linhagem mais antiga;
pertencia à família dos senhores de Arécio, um porto marinho muito movimentado
numa curva do Arno onde se cruzavam as estradas Aniana, Cassiana e Clodiana no
seu percurso entre Roma e a Gália Italiana. Por razões só dele conhecidas,
deixara de usar o nome da família, Cilnio, e autodenominava-se simplesmente
Gaio Mecenas. O seu apetite pelas coisas boas da vida revelava-se no seu físico
rechonchudo, apesar de conseguir, em caso de necessidade, fazer viagens penosas
em nome de Octaviano. O seu rosto era ligeiramente parecido com um sapo; pois
os seus olhos azul-claros tinham tendência para ficarem protuberantes -
exoftalmia, chamavam-lhe os Gregos.
Famoso pelas suas capacidades narrativas e pela graça, tinha uma mente tão
aguda e capaz como a de Agripa, mas de uma forma diferente: Mecenas adorava a
literatura, a arte, a filosofia, a retórica e coleccionava, em vez de poetas
antigos, novos poetas. Como Agripa comentara jocosamente, não conseguiria
comandar uma luta de coelhos num bordel, mas sabia como pôr fim às contendas.
Nunca ninguém encontrara um orador mais suave e persuasivo do que Mecenas, nem
ninguém mais adequado para conspirar e conceber esquemas nas sombras, por trás
da cadeira curul. Tal como Agripa, reconciliara-se com a ascendência de
Octaviano, apesar de os seus motivos não serem tão puros como os do primeiro.
Mecenas era uma eminência parda, um diplomata; um negociador dos destinos dos
homens. Conseguia, num instante, distinguir uma falha útil e insinuar aí as
suas palavras doces, de forma indolor, até produzir uma ferida mais grave do
que a infligida por qualquer punhal. Era um perigo, o Mecenas.
Quinto Salvidieno, com trinta e um anos; era um homem de Piceno, o ninho dos
demagogos e políticos incómcodos que produzira luminárias como Pompeu, o
Grande, e Tito Labieno. Mas não conquistara os seus louros no Fórum romano; os
seus tinham sido ganhos no campo de batalha onde se notabilizara. Muito bem
parecido de rosto e de corpo, tinha uma cabeleira ruiva a que devia o cognome,
Rufo, e os olhos azuis perspicazes que a lançavam muito longe. Alimentava
grandes ambições no seu íntimo e ligara a sua carreira à cauda do cometa de
Octaviano como a forma mais rápida de alcançar o topo.

105

De tempos a tempos o vício picentino agitava-se dentro dele, ou seja,


considerar a possibilidade de mudar de campo se tal lhe parecesse prudente.
Salvidieno não tinha qualquer intenção de ficar do lado vencidos e por vezes
pensava se Octaviano teria mesmo o que era preciso para vencer a batalha que se
aproximava. De grato tinha pouco, de leal nada, mas tinha ocultado esses factos
com tal eficácia, que Octaviano, para começar, nem sequer sonhava que ele tinha
essas características. Disfarçava muito bem, mas por vezes pensava se Agripa
não teria as suas suspeitas e por isso, sempre que Agripa estava presente,
tomava muito cuidado com o que dizia. Quanto a Mecenas... quem poderia saber o
que sentia aquele aristocrata escorregadio?
Tito Estatílio Tauro, de vinte e sete anos, era o menos importante dos homens
do grupo e portanto era quem estava menos a par das ideias e dos planos de
Octaviano. Sendo mais um militar, tinha aspecto daquilo que era: alto, bem
constituído e com um rosto bastante mal tratado - uma orelha esquerda inchada,
uma cicatriz na sobrancelha e face do lado esquerdo do rosto, o nariz partido.
Era, de um modo geral, um homem bem-parecido, com cabelo da cor do trigo, olhos
cinzentos e um sorriso cativante que contrariava a sua reputação de comandante
severo de legiões. Tinha horror à homossexualidade e recusava ter sob o seu
comando quem quer que fosse com essas inclinações, por mais bem-nascido que
pudesse ser. Como soldado era inferior a Agripa e a Salvidieno, mas não muito;
o que lhe faltava era o génio que os outros dois tinham para o improviso. Da
sua lealdade não havia dúvida, sobretudo porque Octaviano o estonteava; os
inegáveis talentos de Agripa, Salvidieno e Mecenas não eram nada quando
comparados com a mente extraordinária do herdeiro de César.
- Saudações - disse Octaviano ocupando a cadeira vazia. Agripa sorriu.
- Onde estiveste? A fazer olhinhos à Senhora Roma? No Fórum ou no monte
Aventino?
- No Fórum. - Octaviano serviu-se de água, bebeu-a avidamente e depois
suspirou. - Estive a planear o que farei quando tiver dinheiro para pôr em
ordem a Senhora Roma.
- Não pode mesmo passar de planos - disse Mecenas ironicamente.
- E verdade. Ainda assim, Gaio, nada é um desperdício. Os planos que eu fizer
agora não terão que ser feitos mais tarde. Já sabemos o que anda o nosso cônsul
Polião a pensar fazer? Ventídio?
- Está emboscado na Gália Italiana - disse Mecenas. - Correm boatos de que
marchará em breve pela costa do Adriático abaixo para ajudar António a
desembarcar as suas legiões que estão agrupadas em torno de Apolónia. Com as
sete legues de Polião, as sete de Ventídio e as dez que António traz com ele,
vamos levar Urna grande sova.

106

- Eu não vou entrar em guerra com António! - gritou Octaviano.


- Não precisas - disse Agripa com um sorriso. - Os homens deles não lutarão com
os nossos, nisso sou capaz de apostar a minha vida.
- Concordo - disse Salvidieno. - Os homens estão fartos de guerras que não
compreendem. Que diferença há, para eles, entre o sobrinho de César e o primo
de César? Em tempos pertenceram ao próprio César, é só disso que se recordam.
Graças ao hábito de César trocar os homens de legião para reforçar esta ou
enfraquecer aquela, eles identificam-se com César e não com a sua unidade.
- Eles amotinaram-se - disse Mecenas com voz dura.
- Só da Nona se pode dizer que amotinou directamente contra César, graças a uma
dúzia de centuriões corruptos que estavam a ser pagos pelos apaniguados de
Pompeu Magno. Quanto ao resto, a culpa é de António. Foi ele quem os incentivou
e mais ninguém! Manteve os centuriões embebedados e comprou os representantes.
Manipulou-os! - disse Agripa com desprezo. - António é um arruaceiro, não é um
génio político. É totalmente desprovido de subtileza. Que outra razão pode ele
ter para sequer pensar em transportar os seus homens para Itália? Não faz
sentido! Declaraste-lhe guerra? Ou Lépido? Ele faz isto porque tem medo de ti.
- António não é um arruaceiro pior do que Sexto Pompeu Magno Pio, para o tratar
pelo nome completo - disse Mecenas e riu-se. - Ouvi dizer que Sexto enviou o
tatá da mulher, o Libão, a Atenas, para pedir a António que se juntasse a ele
para te esmagar.
- Como sabes disso? - perguntou Octaviano sentando-se muito direito.
- Tal como Ulisses, tenho espiões em toda a parte.
- Também eu, mas isso é novidade para mim. Qual foi a resposta de António?
- Uma espécie de não. Não haverá uma aliança oficial, mas ele não interferirá
com as actividades de Sexto desde que estas sejam dirigidas contra ti.
- Que atencioso da parte dele. - O rosto extraordinariamente belo franziu-se e
os olhos ficaram tensos. -Ainda bem então que eu decidi dar seis legiões ao
Lépido e o mandei governar a África. António já sabe disso? Os meus agentes
dizem que não.
- Os meus também - disse Mecenas. -António não vai ficar satisfeito, César,
disso podemos ter a certeza. Quando o Fango foi morto, António pensou que tinha
a África no sinus da sua toga. Quero dizer, quem é que pensa no Lépido? Mas
agora que o novo governador também já morreu, Lépido vai entrar em cena. Com as
quatro legiões de África mais as seis que levou daqui, Lépido tornou-se um
factor importante neste jogo.
- Estou consciente desse facto! - ripostou Octaviano, irritado. - No entanto o
Lépido detesta mais António do que me detesta a mim. Vai enviar cereais para
Itália neste Outono.

107

- Com a perda da Sardenha, bem que vamos precisar dele - disse Tauro. Octaviano
olhou para Agripa.
- Como não temos navios, temos que começar a construir alguns. Agripa, quero
que abandones as insígnias do teu cargo e partas num périplo pela península,
desde Tergeste até à Ligúria. Vais requisitar boas galés de guerra, robustas.
Para derrotar Sexto precisamos de frotas.
- Como as vamos pagar, César? - perguntou Agripa.
- Com a última das pranchas.
Uma resposta enigmática que nada significava para os restantes, mas que era
clara como água para Agripa, que assentiu. "Pranchas" era a palavra em código
que Octaviano e Agripa usavam quando se referiam à arca de guerra de César.
- Libão regressou para junto de Sexto de mãos a abanar e Sexto ficou ofendido.
Não o suficiente para atormentar António, mas mesmo assim ficou ali um
ressentimento - disse Mecenas. - Libão não ficou a gostar mais de António em
Atenas do que gostara noutros locais, portanto o Libão é agora um inimigo de
António a envenenar os ouvidos de Sexto.
- O que é que irritou Libão em especial? - perguntou Octaviano com curiosidade.
- Com a retirada de Fúlvia, acho que ele tinha a esperança de arranjar um
terceiro marido para a irmã. Haverá forma mais sagaz de cimentar uma aliança do
que com um casamento? Pobre Libão! Os meus espiões dizem-me que ele pôs no
anzol toda a variedade de isco. Mas o assunto nunca foi abordado e Libão
embarcou de regresso a Agrigento muito desapontado.
- Humm. - As sobrancelhas loiras juntaram-se e as espessas pestanas loiras
desceram sobre os olhos espantosos de Octaviano. Subitamente bateu com ambas as
mãos nos joelhos e pareceu determinado. - Mecenas faz as malas! Vais partir
para Agrigento para te encontrares com Sexto e Libão.
- Com que objectivo? - perguntou Mecenas desagradado com a missão.
- O teu objectivo é negociar umas tréguas com Sexto que permitam à Itália ter
cereais para o Outono a um preço razoável. Farás o que for necessário para
alcançar esse objectivo, compreendido?
- Mesmo que seja preciso um casamento?
- Mesmo nesse caso.
- Ela tem mais de trinta anos, César. E tem uma filha, Cornélia, quase
casadoira.
- Não me interessa a idade da irmã do Libão! Todas as mulheres são semelhantes,
portanto qual é a importância da idade? Pelo menos não estará manchada por uma
prostituta como a Fúlvia.
Ninguém fez comentários ao facto de, após dois anos de casamento, a filha de
Fúlvia ter sido devolvida à mãe virgo intacta. Octaviano casara com a rapariga
para apaziguar António, mas nunca dormira com ela. No entanto tal não poderia
acontecer com a irmã de Libão.

108

Octaviano teria que dormir com ela, de preferência gerando frutos. Em tudo o
que dizia respeito aos assuntos da carne, ele era tão pudico como Catão, o
Censor, portanto só lhes restava esperar que Escribónia não fosse nem feia nem
devassa. Toda a gente ficou a olhar para o pavimento de mosaicos poligonais e
fingiu ser cega, surda e muda.
- E se António tentar atracar em Brundísio? -perguntou Salvidieno para mudar um
pouco de assunto.
- Brundísio está fortificada até aos dentes e ele não vai conseguir fazer
passar um único transporte de tropas pela corrente do porto - disse Agripa. -
Eu próprio supervisionei as fortificações de Brundísio, sabes disso Salvidieno.
- Há outros sítios onde poderá desembarcar.
- O que sem dúvida fará, mas com todas aquelas tropas? - Octaviano parecia
tranquilo. - Ainda assim, Mecenas, quero-te de volta de Agrigento a toda a
brida.
- Os ventos são-nos contrários - disse Mecenas parecendo desolado. Quem é que
queria passar uma parte do Verão numa fossa como a cidade siciliana de
Agrigento de Sexto?
- O que é ainda melhor para te trazer de volta rapidamente. Quanto à maneira de
lá chegares... remai Leva um carro até Putéolos e contrata o navio mais rápido
e os melhores remadores que conseguires encontrar. Paga-lhes o dobro do que te
pedirem. Já, Mecenas, já!
O grupo desfez-se; só Agripa ficou.
- Qual é o teu último cálculo do número de legiões que tens para defrontares
António?
- Dez, César. Apesar de, mesmo que só tivéssemos três ou quatro, isso também
não ter importância. Nenhum dos lados combaterá. Não paro de o repetir, mas
toda a gente faz orelhas moucas às minhas palavras com excepção de ti e do
Salvidieno.
- Eu ouvi-te porque nesse facto reside a nossa salvação. Recuso-me a acreditar
que estou derrotado - disse Octaviano. Suspirou e sorriu pesarosamente. - Oh,
Agripa, espero que essa mulher do Libão seja suportável! Não tenho tido muita
sorte com as esposas.
- Elas têm sido sempre escolhas de terceiros e meros expedientes políticos. Um
dia, César, escolherás a tua mulher e essa mulher não será uma Servília Vácia
nem uma Clódia. Nem, suspeito, uma Escribónia Libónia, se é que o acordo com
Sexto vai ter sucesso. -Agripa pigarreou e ficou com um ar embaraçado. -
Mecenas sabia, mas deixou que fosse eu a dar-te as notícias que vieram de
Atenas.
- Notícias? Que notícias?
- Fúlvia cortou os pulsos.
Durante longos instantes Octaviano não disse nada, limitando-se a olhar o Circo
Máximo com o olhar tão fixo que a Agripa pareceu que tinha partido para um
local que não era deste mundo. Era um amontoado de contradições, aquele César.

<Mapa - omitido>

110

Mesmo em pensamentos, Agripa nunca pensava nele como Octaviano; fora a primeira
pessoa a tratá-lo pelo nome adoptivo, apesar de todos os seus seguidores
actualmente fazerem o mesmo. Ninguém conseguia ser mais frio, mais duro, mais
implacável. No entanto era evidente, ao vê-lo naquele momento, que chorava
Fúlvia, uma mulher que detestara.
- Ela fazia parte da história de Roma - disse Octaviano finalmente -, e merecia
um fim melhor. As cinzas dela vieram para casa? Tem um túmulo?
-A resposta a ambas as perguntas, tanto quanto sei, é não. Octaviano levantou-
se.
-Vou falar com Ático. Entre ambos far-lhe-emos um funeral decente adequado à
sua posição. Os filhos dela e de António não são bastante novos?
- Antilo tem cinco anos e Iulius dois.
- Então vou pedir à minha irmã que lhes deite um olho. Os três que tem não
chegam à Octávia, tem sempre os filhos de alguém ao seu cuidado.
Incluindo, pensou Agripa sombriamente, a tua meia-irmã Márcia. Nunca esquecerei
o dia, nos picos de Petra, quando íamos a caminho do encontro com Bruto e
Cássio - César sentado com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, chorando a
morte da sua mãe. Mas ela não morreu! É a esposa do filho do padrasto dele, o
Lúcio Márcio Filipe. Era mais uma das suas contradições, conseguia chorar
Fúlvia e conseguia também fingir que a mãe não existia. Oh, eu sei porquê. Ela
usava as vestes de viúva havia apenas um mês quando começou o caso com o
enteado. Isso poderia ter sido abafado se ela não tivesse ficado grávida. Ele
recebera uma carta da irmã nesse dia, em Petra, implorando-lhe que
compreendesse a situação da mãe. Mas ele não compreendera. Para ele, Ácia era
uma prostituta, uma mulher imoral, indigna de ser mãe da filha de um deus.
Obrigou então Ácia e Filipe a retirarem-se para a villa daquele em Miseno e
proibiu-os de entrarem em Roma. Um édito que nunca revogara, apesar de Ácia
estar doente e de a sua bebé estar permanentemente aos cuidados de Octávia. Um
dia tudo isto voltará para o atormentar, apesar de ele não o ver, assim como
nunca viu a sua meia-irmã. Uma criança linda, loira como todos os Julíanos,
apesar de o pai ser muito moreno.
Depois chegou uma carta da Gália Ulterior que expulsou todos os pensamentos
sobre António ou a sua mulher morta da cabeça de Octaviano e que provocou o
adiamento da data do casamento que Mecenas andava a arranjar-lhe,
atarefadamente, em Agrigento.
"Estimado César", dizia, "escrevo para te informar que o meu amado pai, Quinto
Fúfio Caleno, morreu em Narbona. Eleja tinha cinquenta e nove anos, eu sei, mas
estava bem de saúde. E depois caiu morto. Acabou-se num instante. Como seu
principal legado, sou agora responsável pelas onze legiões estacionadas em toda
a Gália Ulterior: quatro em Agêndico, quatro em Narbona e três em Glanum.

111

Neste momento os Gauleses estão calmos, depois de o meu pai ter esmagado uma
revolta entre os Aquitanenses no ano passado, mas tremo só de pensar que podem
descobrir que sou eu que tenho neste momento o comando e como sou inexperiente.
Senti que estava mais certo informar-te a ti do que ao Marco António, embora os
Gauleses lhe pertençam. Ele está muito longe. Envia-me por favor um novo
governador, alguém com as competências militares necessárias para manter a paz
na região. De preferência envia-mo rapidamente, pois gostaria de levar
pessoalmente as cinzas do meu pai para Roma."
Octaviano leu e releu a missiva bastante directa, o coração aos saltos no
peito. Para variar eram palpitações de felicidade. Finalmente um acaso do
destino favo-recia-o! Quem iria alguma vez pensar que Caleno iria morrer?
Mandou chamar Agripa que andava ocupado em terminar os seus afazeres de pretor
urbano de forma a poder ausentar-se por longos períodos; o pretor urbano não
podia ausentar-se de Roma por períodos superiores a dez dias.
- Esquece esses pormenores todos! - gritou Octaviano estendendo-lhe a carta.
-Lê isto e regozija-te!
- Onze legiões de veteranos! - arfou Agripa compreendendo imediatamente a
importância do sucedido. - Tens que chegar a Narbona antes que Polião e
Ventídio se antecipem. Eles têm menos milhas para percorrer, portanto reza para
que as notícias não cheguem depressa aos seus ouvidos. A julgar por esta carta,
o jovem Caleno não chega aos calcanhares do pai. -Agripa abanou o pedaço de
papel. - Imagina, César! A Gália Ulterior está prestes a cair-te no colo sem
que um único pilum se erguesse em combate.
- Levamos o Salvidieno connosco - disse Octaviano.
- Isso será sensato?
Os olhos cinzentos pareceram sobressaltar-se.
- O que te leva a questionar a minha opinião neste ponto?
- Nada que consiga dizer exactamente, a não ser que governar a Gália Ulterior é
um comando muito importante. É capaz de subir à cabeça do Salvidieno. Pelo
menos deduzo que tenciones dar-lhe este comando?
- Gostarias de ficar com ele? Se o quiseres é teu.
- Não, César, não quero. - Estaria demasiado longe de Itália e de ti. -
Suspirou e encolheu os ombros com uma expressão de desânimo. - Não me consigo
lembrar de mais ninguém. Tauro é demasiado novo e não podes confiar nos outros
para que tratem inteligentemente dos Belóvacos ou dos Suevos.
- Salvidieno vai sair-se bem - disse Octaviano confiante e deu uma palmadinha
no braço do seu melhor amigo. - Partimos amanhã de madrugada para a Gália
Ulterior e viajaremos da mesma maneira que o meu pai, o deus, o fazia:
cabriolés puxados por quatro mulas a galope.

112

O que significa que iremos pela Via Emília e pela Via Domícia. Para termos a
certeza de que não teremos problemas em requisitar mulas frescas com a
frequência necessária, levamos um esquadrão de cavalaria germânica.
- Devias ter um guarda-costas a tempo inteiro, César.
- Agora não, estou demasiado ocupado. Além disso não tenho dinheiro para essas
coisas.
Depois de Agripa sair, Octaviano atravessou o Palatino até ao Clivo Vitória e à
domus de Gaio Cláudio Marcelo Menor, que era seu cunhado. Tendo sido um cônsul
incompetente e indeciso no ano em que Júlio César atravessou o Rubicão, Marcelo
era irmão e primo direito de dois homens cujo ódio por César ultrapassara tudo
o que era razoável. Mantivera-se em Itália enquanto César travara a guerra
contra Pompeu, o Grande, e, depois da vitória de César, fora recompensado com a
mão de Octávia. Para Marcelo aquela união era uma mistura de amor e de
utilidade; uma ligação matrimonial à família de César significava protecção
para si próprio e para a enorme fortuna de Cláudio Marcelo que era, agora,
inteiramente sua. E ele amava verdadeiramente a noiva, uma jóia sem preço.
Octávia dera-lhe uma menina, Marcela Maior, um rapaz a quem toda a gente
chamava Marcelo e uma segunda menina, Marcela Menor, que era conhecida por
Celina.
A casa estava anormalmente silenciosa. Marcelo estava muito doente,
suficientemente doente para a sua mulher, habitualmente tão bondosa, ter
emitido instruções rígidas relativamente ao barulho e conversas dos criados.
- Como está ele? - perguntou Octaviano à irmã beijando-lhe a face.
- É uma questão de dias, segundo dizem os médicos. O tumor é muito maligno e
está a comer-lhe vorazmente as entranhas.
Os enormes olhos da cor de águas-marinhas encheram-se das lágrimas que só eram
vertidas para lhe encharcar a almofada quando se deitava. Ela amava
genuinamente aquele homem que o padrasto escolhera para si com a total
aprovação do irmão; os Cláudios Marcelos não eram patrícios, mas vinham de uma
linhagem antiga e nobre de plebeus, o que fizera de Marcelo Menor um marido
adequado para uma Juliana. Fora César quem não gostara dele, César quem
reprovara aquela união.
A beleza dela tinha-se tornado ainda maior, pensou o irmão, desejando poder
partilhar algum do seu desgosto. Pois apesar de ter consentido no casamento,
nunca simpatizara verdadeiramente com o homem que possuía a sua amada Octávia.
Para além disso fizera planos que a morte de Marcelo era capaz de favorecer.
Octávia recuperaria da perda. Quatro anos mais velha do que ele, tinha o ar dos
Julianos: cabelos dourados, olhos azulados, malares altos, uma boca adorável e
uma expressão de calma radiante que atraía as pessoas. E, mais importante,
tinha em toda a sua plenitude o dom concedido à maioria das mulheres julianas:
fazia os seus homens felizes.

113

Celina era recém-nascida e Octávia estava, ela própria, a amamentar o bebé, um


prazer que não cedia a uma ama-de-leite. Mas isso significava que raramente
saía e que tinha que se ausentar frequentemente da presença das visitas. Tal
como o irmão, Octávia era modesta ao ponto de ser pudica, e não desnudava o
seio para dar leite à criança na presença de nenhum homem com excepção do
marido. Mais uma razão para Octaviano a amar. Para ele, ela era a
personificação da Deusa Roma e, quando fosse o senhor incontestado de Roma,
tencionava erigir-lhe estátuas dela em locais públicos, uma honra que nunca
fora concedida às mulheres.
- Posso ver o Marcelo? - perguntou Octaviano.
- Ele não quer visitas, nem mesmo tuas. - O seu rosto contorceu-se. - É o
orgulho, César, o orgulho de um homem escrupuloso. O quarto dele cheira mal,
por mais que os criados o esfreguem ou por muitos paus de incenso que eu
queime. Os médicos dizem que é o cheiro da morte e que é impossível erradicar.
Ele tomou-a nos braços e beijou-lhe os cabelos.
- Minha querida irmã, há alguma coisa que eu possa fazer? - Nada, César.
Confortas-me, mas nada o conforta a ele. Não havia remédio; teria que ser
brutal.
- Tenho que me ausentar para longe durante pelo menos um mês - disse. Ela
arfou.
- Oh! Tens mesmo? Ele não vai durar nem meio mês!
- Sim, tenho.
- Quem tratará do funeral? Quem arranjará um cangalheiro? Quem encontrará o
homem certo para fazer a elegia? A nossa família ficou tão pequena! Guerras,
assassinatos... Mecenas, talvez?
- Ele está em Agrigento.
- Então quem poderá ser? Domício Calvino? Servílio Vácia?
Ele ergueu-lhe o queixo para a olhar directamente nos olhos, a boca severamente
cerrada e uma expressão de dor subtil.
- Penso que terá que ser o Lúcio Márcio Filipo - disse deliberadamente. - Não
seria a minha escolha mas, socialmente, será o único que não provocará
falatórios em Roma. Como ninguém acredita que a nossa mãe esteja morta, que
importância pode ter? Vou escrever-lhe a dizer que pode regressar a Roma e
estabelecer residência na casa do pai dele.
- Ele vai sentir-se tentado a atirar-te com o teu édito à cara.
- Hum! Não ele! Ele vai ceder. Seduziu a mãe do triúnviro César Divi Filius!
Foi ela quem lhe salvou a pele. Oh, eu adoraria cozinhar uma acusação de
traição e servi-/<z como um acepipe para o seu paladar epicuriano! Até mesmo a
minha paciência tem limites e ele sabe-o bem. Ele cederá - disse Octaviano
novamente.
- Queres ver a pequena Márcia? - perguntou Octávia com voz trémula. - Ela é tão
doce, César, de verdade!

114

- Não, não quero! - ripostou Octaviano.


- Mas ela é nossa irmã! O nosso sangue está ligado, César, mesmo do lado da
Márcia. A avó do Divus Julius era uma Márcia.
- Não me interessa que fosse Juno! - disse Octaviano ferozmente e saiu. Oh
deuses, deuses! Fora-se embora antes de ela ter oportunidade de lhe dizer
que, pelo menos de momento, os dois filhos do António estavam a viver na sua
casa. Quando os fora visitar, ficara chocada ao ver os dois rapazinhos sem
qualquer tipo de supervisão e que Curião, com dez anos, tornara-se selvagem.
Bem, não tinha autoridade para pôr Curião debaixo da sua asa e domá-lo, mas
podia levar Antilo e Iulius num acto de simples generosidade. Pobre, pobre
Fúlvia! O espírito de um demagogo do Fórum enjaulado no interior de uma concha
feminina. A amiga de Octávia, Pilia, insistia que António dera uma sova a
Fúlvia em Atenas, chegara a pontapeá-la, mas nisso Octávia não conseguia
acreditar. Afinal conhecia bem António e gostava muito dele. Uma parte desse
afecto provinha do facto de ele ser muito diferente dos outros homens na sua
vida; podia tornar-se cansativo conviver apenas com homens brilhantes, subtis e
astuciosos. Viver com António devia ser uma aventura, mas bater na mulher? Não,
ele nunca o faria! Nunca.
Regressou ao quarto das crianças a chorar baixinho, precavendo-se para que
Marcela, Marcelo e Antilo, com idade suficiente para darem por isso, não lhe
vissem as lágrimas. Ainda assim pensou, alegrando-se, seria maravilhoso ter a
mamã de volta à sua vida! A mamã sofria tanto com uma doença nos ossos que se
vira forçada a enviar a pequena Márcia para Roma, para junto de Octávia, mas no
futuro estaria ao virar da esquina e poderia ver as filhas. Mas o irmão César
compreenderia? Alguma vez compreenderia? Octávia achava que não. Aos olhos dele
a mamã fizera o imperdoável.
Depois o seu espírito regressou a Marcelo e foi imediatamente ao seu quarto.
Com quarenta e cinco anos no ano em que casara com Octávia, fora um homem no
seu apogeu, elegante, em boa forma, com uma educação erudita e bem-parecido de
uma forma semelhante à de César. A atitude implacável dos homens julianos
estava completamente ausente nele, apesar de possuir uma certa astúcia, uma
habilidade que lhe permitira escapar à captura quando a Itália enlouquecera por
César Divus Julius e lhe permitira fazer um casamento esplêndido que o levara,
incólume, para o campo de César. Algo que tinha que agradecer a António e que
nunca esquecera. Daí o conhecimento que Octávia tinha de António que era uma
visita frequente da casa. Agora, a bela esposa de vinte e sete anos olhava para
um homem esquelético, consumido até aos ossos por aquela coisa que mordia e
corroía as suas entranhas. O seu escravo favorito, Admeto, estava sentado junto
à cama com uma mão a agarrar na mão enclavinhada de Marcelo, mas quando Octávia
entrou, Admeto levantou-se rapidamente e deu-lhe a cadeira.
- Como está ele? - murmurou ela.

115

- A dormir devido ao xarope de papoilas, domina. Mais nada lhe faz passar as
dores, o que é uma pena. Embota-lhe tremendamente o espírito.
- Eu sei - disse Octávia sentando-se. - Vai comer e dormir, vai. Vais ter de
voltar a ficar de serviço não tarda. Gostava que ele deixasse mais alguém ficar
aqui, mas não deixa.
- Se eu estivesse a morrer tão lenta e tão dolorosamente, domina, também
gostava de ver o rosto certo por cima de mim quando abrisse os olhos.
- Exactamente, Admeto. Agora vai, por favor. Come e dorme. E ele emancipou-te
no testamento, disse-mo. Vais chamar-te Gaio Cláudio Admeto, mas espero que
fiques comigo.
Demasiado comovido para falar, o jovem grego beijou a mão de Octávia.
As horas passaram e o silêncio só foi quebrado quando uma ama trouxe Celina
para ser amamentada. Felizmente ela era um bebé bonzinho e não chorava alto nem
mesmo quando tinha fome. Marcelo continuou a dormir, inconsciente.
Depois mexeu-se, abriu os olhos escuros e desfocados que se tornaram
imediatamente mais límpidos quando a viram.
- Octávia, meu amor! - grasnou.
- Marcelo, meu amor - disse ela com um sorriso radioso levantando-se para lhe
ir buscar um copo com vinho aguado e açucarado. Ele bebeu por uma palhinha, não
muito. Depois ela trouxe uma bacia com água e um pano. Tirou o pano de linho
que lhe cobria a pele e os ossos, tirou-lhe a fralda suja e começou a lavá-lo
com mãos leves como penas, falando suavemente. Para onde quer que ela se
dirigisse no quarto, os olhos dele seguiam-na, brilhantes de amor.
- Os homens velhos não deviam casar com raparigas novas - disse.
- Discordo. Se as raparigas novas casassem com rapazes novos, nunca cresceriam
nem aprenderiam nada a não ser banalidades, pois seriam ambos igualmente
inexperientes. -Afastou a bacia. - Pronto! Sentes-te melhor?
- Sim - mentiu ele e depois, subitamente, foi acometido por um espasmo que o
esticou da cabeça aos pés, com o rito de agonia que lhe arreganhou os dentes. -
Oh, Júpiter, Júpiter! A dor, a dor! O meu xarope, onde está o meu xarope?
E ela deu-lhe o xarope de papoilas e sentou-se novamente para o ver dormir até
Admeto chegar para a substituir.
Mecenas descobriu que a sua tarefa estava facilitada por Sexto Pompeu ter
ficado ofendido com a reacção de Marco António à sua proposta. "Pirata",
realmente! Estava disposto a uma conspiração clandestina para atormentar
Octaviano, mas não a reconhecer publicamente uma aliança. "Pirata" não era a
forma como Sexto Pompeu se via a si próprio, alguma vez vira ou veria.

116

Tendo descoberto que adorava o mar e depois de ter comandado trezentos ou


quatrocentos navios de guerra, via-se a si próprio como um César naval, incapaz
de perder uma batalha. Sim, invencível sobre as ondas e um grande candidato a
Primeiro Homem em Roma. Nesse aspecto receava Octaviano e Marco António, que
eram candidatos ainda mais bem posicionados. Do que ele precisava era de uma
aliança com um dos dois contra o terceiro para reduzir o número de oponentes.
De três para dois. Na verdade ele nunca encontrara António, não conseguira
sequer fazer parte das multidões no exterior das portas do Senado, quando
António discursara contra os Republicanos, na época em que fora o tribuno da
plebe domesticado por César. Um rapaz de dezasseis anos tem coisas mais
importantes para fazer e Sexto não tinha inclinação para a política, nem nessa
altura nem agora. Mas tinha conhecido Octaviano, numa pequena enseada de um
porto italiano e este revelara-se um inimigo poderosíssimo sob o aspecto de
rapaz doce, com apenas vinte anos, tendo ele próprio vinte e cinco. A primeira
coisa de que se apercebera em Octaviano fora que estava na presença de um fora-
da-lei que nunca se deixaria cair numa posição em que o pudessem pôr mesmo fora
da lei. Tinham chegado a alguns acordos e depois Octaviano retomara a sua
marcha para Brundísio e Sexto embarcara para outras paragens. Desde então as
lealdades tinham mudado; Bruto e Cássio foram derrotados e mortos e o mundo
pertencia aos triúnviros.
Não pudera acreditar na estreiteza de vistas de António ao escolher o Oriente
como centro de operações; qualquer pessoa com um pouco de inteligência percebia
que o Oriente era uma armadilha com ouro preso no isco do seu anzol retorcido.
O domínio do mundo ficaria nas mãos do homem que controlasse a Itália e o
Ocidente e, esses, pertenciam a Octaviano. Claro que era o trabalho mais
difícil, o menos popular, razão pela qual Lépido, ao entregarem-lhe seis das
legiões de António, ter corrido para África onde poderia aguardar os
desenvolvimentos e acumular mais tropas. Outro idiota. Sim, Octaviano era
aquele que devia ser mais temido, pois não recusara a atribuição da tarefa mais
árdua.
Se tivesse consentido numa aliança com Sexto, António teria facilitado a
pretensão de Sexto ao estatuto de Primeiro Homem em Roma. Mas não, ele recusara
associar-se com um pirata!
- Portanto as coisas vão continuar como estão - disse Sexto a Libão com os
olhos azul-escuros duros como pedras. - Vai só levar mais tempo a desgastar o
Octaviano.
- Meu caro Sexto, nunca conseguirás levar Octaviano à exaustão - disse Mecenas
aparecendo em Agrigento poucos dias mais tarde. - Ele não tem fraquezas que tu
possas explorar.

117

- Gerrae! - berrou Sexto. - Para começar, ele não tem navios nem almirantes
dignos desse nome. Imagina, mandar um liberto grego efeminado como o Heleno
para me arrancar a Sardenha! Ah, por falar nisso, tenho cá o sujeito. Está são
e salvo. Navios e almirantes: duas fraquezas. Não tem dinheiro, terceira
fraqueza. Tem inimigos de todo o género; quarta. Queres que continue?
- Isso não são fraquezas, são deficiências - disse Mecenas saboreando uns
camarões minúsculos. - Oh, isto é delicioso! Porque "serão muito mais saborosos
do que os que como em Roma?
- As águas são mais lamacentas e mais nutritivas.
- Sabes muito sobre o mar.
- O suficiente para saber que o Octaviano não é capaz de me vencer no mar,
mesmo que arranje navios. Organizar uma batalha naval é uma arte muito especial
e acontece que sou eu quem melhor domina essa arte em toda a história de Roma.
O meu irmão, Gneu, era soberbo, mas nada que se parecesse comigo. - Sexto
recostou-se e pôs um ar complacente.
Que se passará com esta geração de jovens?, pensou Mecenas fascinado. Na escola
aprendemos que nunca haveria outro Cipião Africano nem outro Cipião Emiliano,
mas eles estavam separados por uma geração e cada um foi único na sua época.
Hoje não acontece o mesmo. Suponho que os jovens tiveram a oportunidade de
mostrar aquilo de que são capazes por causa de tantos homens de quarenta e
cinquenta anos terem morrido, ou partido para um exílio permanente. Este
espécime ainda nem tem trinta anos.
Sexto saiu da sua fantasia congratulatória.
- Devo dizer, Mecenas, que estou desapontado por o teu senhor não me ter vindo
ver pessoalmente. É demasiado importante, é?
- Não, garanto-te - disse Mecenas no seu tom mais untuoso. - Ele envia-te as
mais sinceras desculpas, mas aconteceu uma coisa inesperada na Gália Ulterior
que tornou a sua presença indispensável.
- Sim, ouvi dizer, provavelmente antes dele. A Gália Ulterior! E a cornucópia
de riquezas que daí advirá! As melhores entre as legiões de veteranos, cereais,
presuntos e carne de porco salgada, beterrabas... Para não mencionar o caminho
terrestre para as Hispânias, apesar de ele ainda não controlar a Gália
Italiana. Mas sem dúvida que a controlará quando o Polião decidir ostentar as
insígnias consulares, apesar de correrem boatos de que isso não acontecerá
ainda durante algum tempo. Ouvi dizer que o Polião está a marchar com as suas
sete legiões pela costa do Adriático abaixo para prestar assistência a António
quando ele desembarcar em Brundísio.
Mecenas pareceu surpreendido.
- Porque haveria António de precisar de assistência militar para desembarcar em
Itália? Como o mais importante dos triúnviros, pode ir e vir à vontade.

118

- Não, se Brundísio tiver uma palavra a dizer. Porque será que os habitantes de
Brundísio detestam tanto António? Eles até cuspiriam nas suas cinzas.
- Ele foi muito duro com eles quando o Divus Julius o deixou lá para atravessar
o resto das legiões para o outro lado do Adriático, no ano antes de Farsalo -
disse Mecenas ignorando a expressão sombria de Sexto ao ouvir mencionar a
batalha em que o seu pai fora esmagado e em que o mundo mudara. -António
consegue ser muito pouco razoável e nunca o foi tão pouco como nessa época, em
que Divus Julius andava em cima dele. Além de não impor convenientemente a
disciplina militar. Deixou os legionários à solta: violaram, roubaram. Depois,
quando Divus Julius fez dele mestre do cavalo, descarregou muito do seu
aborrecimento com Brundísio sobre a própria Brundísio.
- Isso seria o suficiente - disse Sexto a sorrir. - Contudo, quando um
triúnviro traz com ele todo o seu exército, a coisa parece-se bastante com uma
invasão.
- Uma demonstração de força, um sinal ao imperator César... - A quem?
- Imperator César. Não lhe chamamos Octaviano. E Roma também não. -Mecenas fez
um ar modesto. -Talvez seja essa a razão de Polião não ter vindo para Roma,
mesmo tendo sido eleito cônsul júnior.
- Aqui tens algumas notícias para o imperator César mais desagradáveis do que
as da Gália Ulterior - disse Sexto abespinhado. - Polião conseguiu virar o
Aenobarbo para o lado de António. O imperator César vai adorar saber disso!
- Oh, lado, lado - exclamou Mecenas mas sem paixão. - O único lado é o de Roma.
Aenobarbo é um excitado, Sexto, como tu muito bem sabes. -Não "pertence" a
ninguém a não ser a Aenobarbo e adora andar a rugir para cima e para baixo, no
seu pedacinho de mar, e a fingir que é o Pai Neptuno. Sem dúvida que isso
significa que tu próprio terás mais contactos com Aenobarbo no futuro?
- Não sei - disse Sexto com uma expressão inescrutável.
- E mais, esse abutre de muitos olhos e muitas línguas que é o Boato, diz que
ultimamente não andas a dar-te muito bem com Lúcio Estaio Murco - disse Mecenas
gastando a sua erudição naquela audiência pouco apreciadora.
- Murco quer ser co-comandante - disse Sexto antes de conseguir pôr tento na
língua. Aquele era o problema de Mecenas, ele embalava os seus ouvintes numa
conversa amistosa que, sem se perceber como, o transformava de criatura de
Octaviano num amigo de confiança. Aborrecido com a indiscrição que cometera,
Sexto tentou desvalorizar a questão com um encolher de ombros. - E claro que
tal não é possível, eu não acredito na partilha do comando. Tenho sucesso
porque sou em quem toma todas as decisões. Murco é um pastor de cabras da
Apúlia que pensa ser um nobre romano.

119

Olha quem fala, pensou Mecenas. É então adeus a Murco, hem? Por esta altura do
ano que vem, já ele estará morto, acusado de uma qualquer transgressão. Este
jovem bandido não tolera iguais, daí a sua predilecção por almirantes libertos.
O romance dele com Aenobarbo não vai durar mais do que o tempo necessário para
que este comece a chamar-lhe arrivista picentino.
Aquela era uma informação útil, mas não fora isso o que o levara ali. Largando
os camarões e pondo de lado a pesca das novidades, Mecenas preparou-se para
tratar do assunto que o trouxera: tornar claro aos olhos de Sexto Pompeu que
ele tinha que dar uma oportunidade de sobrevivência a Octaviano e à Itália.
Para a Itália tal significava as barrigas cheias; para Octaviano, significava
poder agarrar-se ao que já tinha.
- Sexto Pompeu - disse Mecenas com grande intensidade dois dias mais tarde -,
não me cabe a mim julgar-te, nem a ti nem a ninguém. Mas não podes negar que as
ratazanas da Sicília se alimentam melhor do que o povo de Itália, do teu
próprio país, de Piceno, de Úmbria e da Etrúria, de Brútio e da Calábria. Que é
onde fica a tua própria cidade que o teu pai embelezou durante tanto tempo. Nos
seis anos que decorreram desde Munda, ganhaste milhares de milhões de
sestércios a revender trigo, portanto não é o dinheiro o que te move. Mas se é,
como afirmas, uma forma de forçares o Senado e o Povo de Roma a restituírem-te
a cidadania e todos os direitos inerentes, então certamente que compreendes que
vais necessitar de ter em Roma aliados poderosos. Na realidade existem apenas
dois homens com o poder necessário para te ajudar: Marco António e o imperator
César. Porque estás tão determinado a que esse aliado seja António, um homem
menos racional e, atrevo-me a afirmá-lo, de menos confiança do que o imperator
César? António chamou-te pirata e não deu ouvidos a Lúcio Libão quando este o
abordou. Enquanto que agora é o imperator César quem te aborda. Não é esse
facto revelador da sua sinceridade, do respeito que tem por ti, do seu desejo
em ajudar-te? Não escutarás difamações de pirataria dos lábios do imperator
César! Toma o seu partido! António não está interessado em ti e isso é
indiscutível. Se tens que escolher um dos lados, então escolhe o lado certo.
- Muito bem - disse Sexto parecendo zangado. - Tomarei o partido de Octaviano.
Mas vou exigir garantias de que ele defenderá a minha causa no Senado e nas
Assembleias.
- O imperator César dar-te-á todas as garantias que quiseres. Qual seria a
prova de boa-fé que te satisfaria?
- O que é que ele acharia de se casar com alguém da minha família?
- Ficaria extasiado.
- Ele não tem mulher, segundo creio?
- Não. Nenhum dos seus casamentos foi consumado. Ele sentiu que as filhas de
prostitutas poderiam, elas próprias, tomar-se prostitutas.

120

- Espero que ele o consiga pôr em pé para esta. O meu sogro, o Lúcio Libão, tem
uma irmã, uma viúva respeitabilíssima. Podes tu próprio verificar.
Os olhos salientes esbugalharam-se ainda mais, como se a notícia da existência
da dita senhora fosse uma completa surpresa.
- Sexto Pompeu, o imperator César sentir-se-á honrado! Eu sei algumas coisas
sobre ela... é muitíssimo adequada.
- Se o casamento se realizar, darei passagem às frotas cerealíferas vindas de
África. E venderei a todos os comerciantes enviados por Octaviano, até ao mais
insignificante de entre eles, o meu trigo a treze sestércios o modius.
- Um número azarento. Sexto sorriu.
- Talvez seja, para Octaviano, para mim não é.
- Nunca se sabe - disse Mecenas suavemente.
Quando Octaviano pôs os olhos em Escribónia sentiu-se intimamente satisfeito,
apesar de as poucas pessoas presentes no casamento não o poderem adivinhar,
pois a sua atitude era sisuda e os olhos ocultavam cuidadosamente os seus
sentimentos. Sim, estava satisfeito. Escribónia não parecia ter trinta e três
anos, parecia ter a idade dele, que faria vinte e três anos no aniversário
seguinte. Os seus cabelos e os seus olhos eram castanho-escuros, a pele clara e
leitosa, a cara bonita, a figura excelente. Não envergava o açafrão flamejante
das noivas virgens, mas escolhera um vestido vaporoso sobre um corpete
vermelho-escuro. As poucas palavras que trocaram durante a cerimónia revelaram
que não era tímida mas que também não era tagarela e uma conversa mais
aprofundada demonstrou que era culta, que lera bastante e que falava grego
muito melhor do que ele próprio. Talvez a sua única característica que lhe
causava apreensão fosse a sua noção do ridículo. Não sendo senhor de um bom
sentido de humor, Octaviano temia aqueles que o possuíam, em particular quando
eram mulheres - como poderia ter a certeza de que não estavam a rir-se dele?
Ainda assim não era provável que Escribónia fosse achar ridículo, ou
particularmente risível, um marido tão superior a si própria, o filho de um
deus.
- Lamento afastar-te do teu pai - disse ele. Os olhos dela dançaram.
- Eu não, César. Ele é um velho aborrecido.
- Verdade? - perguntou ele sobressaltado. - Sempre pensei que a separação do
pai fosse um golpe para as mulheres.
- Esse foi um golpe que já recebi duas vezes antes de seres tu a desferi-lo,
César, e de cada vez que o recebo a dor é menor. Neste momento é mais uma
carícia do que uma pancada. Além disso nunca imaginei que o meu terceiro marido
fosse um belo jovem como tu. - Deu uma risadinha. - O melhor que eu esperava
era um vigoroso octogenário.

121

- Oh! - foi o melhor que ele, atrapalhado, conseguiu dizer.


- Ouvi dizer que o teu cunhado, o Gaio Marcelo Menor, morreu - disse ela
apiedando-se da sua confusão. - Quando achas que deva ir dar as minhas
condolências à tua irmã?
- Sim, Octávia teve pena de não poder vir ao meu casamento, mas está devastada
pelo desgosto, exactamente porquê não sei. Acho os excessos emocionais algo
inapropriados.
- Oh, não são inapropriados - disse ela gentilmente descobrindo, naquele
instante, algo de importante acerca dele e sentindo-se desalentada com o que
descobrira. Tinha, por uma qualquer razão, imaginado César como um homem
parecido a Sexto Pompeu: impetuoso, convencido, imaturo, muito másculo, algo
mal-cheiroso. Em vez disso encontrara a compostura de um velho consular num
corpo de uma beleza que, suspeitava, a viria a atormentar. Os seus olhos
luminosos e prateados davam-lhe uma beleza espectacular, mas não a tinham
olhado com qualquer desejo. Aquele era também o terceiro casamento dele e, se o
seu comportamento de devolver as noivas intocadas às mães servisse de
indicador, as noivas políticas eram aceites por conveniência e depois postas na
prateleira para serem devolvidas no mesmo estado em que tinham chegado. O pai
dela dissera-lhe que fizera uma aposta com Sexto Pompeu: Sexto Pompeu apostara
fortemente em como Octaviano não consumaria o casamento, enquanto que Libão
acreditava que ele o faria pelo bem do povo da Itália. Portanto, se o casamento
fosse consumado e os seus frutos o comprovassem, Libão iria arrecadar uma
fortuna. Ao saber da aposta ela rira às gargalhadas, mas já apreendera o
suficiente da personalidade de Octaviano para não se atrever a contar-lhe. O
que era estranho. O tio dele, Divus Julius, ter-se-ia rido com ela, a julgar
pelo que contavam dele. No entanto, no sobrinho, não havia centelha de humor.
- Podes visitar Octávia em qualquer altura - dizia ele -, mas vai preparada
para lágrimas e crianças.
Foi só o que conseguiu conversar com ele antes de as suas novas criadas de
quarto a meterem na sua cama.
A casa era muito grande e construída com maravilhosos mármores coloridos, mas o
seu novo proprietário não se dera ao trabalho de a mobilar devidamente nem de
pendurar quaisquer quadros nas paredes nos locais que, era evidente, tinham
sido concebidos para esse fim. A cama era muito pequena para um quarto tão
grande. Ela não fazia ideia de que Hortênsio detestara os cubículos minúsculos
em que os Romanos dormiam o que fizera com que o seu próprio quarto tivesse as
dimensões dos escritórios dos outros homens.
- Amanhã os teus criados instalar-te-ão nos teus próprios aposentos - disse ele
metendo-se na cama no meio de uma escuridão total, depois de apagar a vela que
estava junto aporta.

122

Foi essa a primeira prova da sua modéstia inata que ela acharia difícil de
ultrapassar. Tendo partilhado a cama de casada com dois outros homens, estava à
espera de gestos urgentes, apalpões e beliscões, investidas que, supunha, se
destinavam a despertar nela o mesmo grau de desejo, ainda que tal nunca tivesse
acontecido.
Mas essa não era a abordagem de César (tinha, tinha, tinha que se lembrar de
lhe chamar César!). A cama era tão estreita que se tornara inevitável sentir o
seu corpo nu ao lado do dela, no entanto não fez mais qualquer tentativa de a
tocar. Subitamente pôs-se em cima dela, usou os joelhos para lhe afastar as
pernas e inseriu o pénis num orifício tristemente seco, pois ela não estava
nada preparada. Contudo esse facto não pareceu desencorajá-lo; esforçou-se
diligentemente até atingir um clímax silencioso, retirou-se de dentro dela e da
cama, balbuciando que tinha que se lavar e saiu do quarto. Quando percebeu que
ele não regressaria, ficou ali deitada, espantada, e depois chamou uma criada
para que lhe trouxesse uma luz.
Ele estava no escritório, sentado a uma velha secretária carregada de rolos de
pergaminho e, debaixo da mão direita, tinha um monte de folhas soltas de papel
e segurava numa simples caneta de junco. A caneta do seu pai, Libão, era
revestida a ouro e tinha uma pérola na ponta. Mas era evidente que Octaviano -
César - não se ralava nada com esse género de aparências.
- Marido, sentes-te bem? - perguntou.
Ele erguera os olhos ao sentir a aproximação de outra luz; dirigiu-lhe então o
sorriso mais maravilhoso que ela alguma vez vira.
- Sim - disse.
- Desagradei-te? - perguntou ela.
- De maneira nenhuma. Foste muito agradável.
- Fazes isto muitas vezes?
- Faço o quê?
- Hum... ah... trabalhar em vez de dormir?
- Muitas vezes. Gosto de paz e sossego.
- E eu incomodei-te. Desculpa. Não voltarei a fazê-lo. Ele baixou a cabeça,
distraído.
- Boa noite, Escribónia.
Só levantou novamente a cabeça muitas horas depois, recordando aquele breve
encontro. E pensou, com uma enorme sensação de alívio, que gostava da sua nova
mulher. Ela compreendia os limites e, se conseguisse engravidá-la, o pacto com
Sexto Pompeu manter-se-ia.
Octávia não era nada do que ela esperara, descobriu Escribónia quando lhe fez a
visita de condolências. Para sua surpresa foi encontrar a cunhada de olhos
enxutos e bastante alegre. A surpresa deve ter-lhe transparecido nos olhos,
pois Octávia riu-se e sentou-a numa cadeira confortável.

123

- O Pequeno Gaio disse-te que eu estava prostrada de desgosto.


- O Pequeno Gaio?
- César. Não consigo perder o hábito de lhe chamar Pequeno Gaio porque é assim
que o vejo: como um rapazinho querido sempre atrás de mim e a portar-se muito
mal.
- Tu ama-lo muito.
- Até à obsessão. Mas actualmente ele é tão grandioso e tremendamente
importante que as irmãs mais velhas e os seus "Pequenos Gaios" não caem bem.
Todavia pareces ser uma mulher de bom senso e confio que não lhe vás dizer o
que digo dele.
- Muda e cega. Também surda.
- A grande pena é que ele nunca teve uma infância como deve ser. A asma
atormentou-o tão horrivelmente que ele não podia misturar-se com os outros
rapazes nem fazer os exercícios militares no Campo de Marte.
Escribónia ficou inexpressiva.
- Asma? O que é isso?
- Falta-lhe o ar até ficar azul. Por vezes quase morre. Oh, é horrível de se
ver! - Os olhos de Octávia pareceram ver um horror antigo e familiar. - É pior
quando há pó no ar ou em sítios com cavalos, por causa da palha. Foi por essa
razão que Marco António pôde dizer que o Pequeno Gaio se escondera nos pântanos
em Filipos e em nada contribuíra para a vitória. A verdade é que tinha havido
uma seca tremenda. O campo de batalha estava coberto por um nevoeiro espesso e
ervas secas: morte certa. O único local onde o Pequeno Gaio conseguiu encontrar
alívio foi nos pântanos entre a planície e o mar. O desgosto dele por ter
parecido que fugira ao combate é maior do que aquele que eu sinto pela perda de
Marcelo. E não o digo de ânimo leve, acredita.
- Mas as pessoas compreenderiam, se soubessem! - gritou Escribónia. - Eu também
ouvi essas calúnias e limitei-me a partir do princípio de que eram verdadeiras.
César não poderia ter publicado um panfleto, ou coisa do género?
- O seu orgulho não lho permitiu. E isso também não teria sido prudente. As
pessoas não querem magistrados importantes propensos a mortes precoces. Além
disso o António apareceu primeiro. - Octávia ficou com uma expressão miserável.
- Ele não é mau homem, mas é de tal forma saudável, que não tem paciência com
aqueles que são doentes ou delicados. Para António a asma é teatro, um pretexto
para encobrir a cobardia. Somos todos primos, mas somos todos muito diferentes
e o Pequeno Gaio é o mais diferente de todos. É extremamente compulsivo. A asma
é um sintoma disso mesmo, pelo menos foi o que o médico egípcio que tratava de
Divus Julius disse.
Escribónia estremeceu.
- O que é que eu faço se ele não conseguir respirar?

124

- Provavelmente nunca assistirás a uma crise - disse Octávia que não tinha
dificuldade nenhuma em perceber que a nova cunhada se estava a apaixonar pelo
Pequeno Gaio. Não era algo que pudesse evitar, mas era, compreensivelmente,
algo que a levaria inevitavelmente a um amargo sofrimento. Escribónia era uma
mulher adorável, mas não conseguiria fascinar nem o Pequeno Gaio nem o
imperator César. - Em Roma a sua respiração é habitualmente normal a não ser
que haja seca. Este ano tem sido tranquilo. Não me preocupo com ele enquanto
aqui está e tu também não devias preocupar-te. Ele sabe o que fazer se tiver um
ataque e há sempre o Agripa.
- O jovem austero que o acompanhou no nosso casamento.
- Sim. Eles não são como gémeos - disse Octávia com o ar de quem estudou um
enigma até encontrar uma solução. - Não há rivalidade entre eles. É mais como
se Agripa se encaixasse nos espaços vazios do Pequeno Gaio. Às vezes, quando as
crianças se estão a portar especialmente mal, eu queria poder dividir-me em
duas. Bem, o Pequeno Gaio conseguiu fazê-lo. Tem o Marco Agripa, a sua outra
metade.
Quando Escribónia saiu da casa de Octávia já conhecia as crianças, uma tribo
que Octávia tratava como se todos os seus membros tivessem nascido do seu
ventre e ficou a saber que, da próxima vez que a visitasse, Ácia estaria
presente. Ácia, a sua sogra. Também mergulhara mais profundamente nos segredos
daquela família extraordinária. Como podia César fingir que a mãe estava morta?
Qual a dimensão do seu orgulho e da sua altivez para não conseguir perdoar um
lapso de uma mulher que era, em todos os outros aspectos, irrepreensível?
Segundo Octávia, a mãe do imperator César Divi Filius não podia ter qualquer
defeito. A atitude dele dizia tudo relativamente ao que esperava de uma esposa.
Pobres Servília Vácia e Clódia, ambas virgens, mas prejudicadas por terem mães
consideradas moralmente pouco satisfatórias. Tal como a sua própria mãe e seria
melhor que Ácia estivesse morta do que ser a prova viva desse facto.
No entanto, ao regressar a casa, caminhando entre dois ferozes e gigantescos
guardas germânicos, o seu rosto reflectia os pensamentos. Conseguiria fazer com
que ele a amasse? Oh, como queria que ele a amasse! Amanhã, decidiu, vou fazer
um sacrifício a Juno Sospita para que ela me conceda uma gravidez e a Vénus
Eru-cina para lhe agradar na cama e à Bona Dea por harmonia uterina e a
Vediovis para o caso de o desapontamento estar à espreita. E a Spes, que é a
Esperança.
Octaviano estava em Roma quando recebeu a notícia, vinda de Brundísio, segundo
a qual Marco António, acompanhado por duas legiões, tentara entrar no porto mas
fora repelido. A corrente fora esticada e os bastiões equipados. Brundísio não
queria saber qual era o estatuto de que gozava o monstruoso António, dizia a
carta, como também não queria saber das ordens do Senado para que fosse
admitido na cidade.

125

Ele que entrasse em Itália noutro ponto qualquer à sua escolha: mas não em
Brundísio. Dado o único outro porto naquela região com capacidade para receber
o desembarque de duas legiões ser Tarento, na extremidade do calcanhar da bota,
um António furioso e frustrado vira--se forçado a desembarcar os seus homens em
portos muito mais pequenos em torno de Brundísio, dispersando-os.
- Ele deveria ter ido para Ancona - disse Octaviano a Agripa. - Ter-se-ia
podido juntar a Polião e a Ventídio lá e, por esta altura, estaria a marchar
sobre Roma.
- Se se sentisse seguro de Polião, tê-lo-ia feito - respondeu Agripa -, mas não
se sente seguro relativamente a ele.
- Acreditas então na carta de Planco a dar conta de dúvidas e
descontentamentos? - Octaviano acenou-lhe com uma folha de papel solta.
- Sim, acredito.
- Eu também - disse Octaviano sorrindo. - O Planco está num dilema: preferiria
António, mas quer manter aberta uma via de comunicação comigo, não vá chegar o
momento em que tenha que saltar a cerca para o nosso lado.
- Tens demasiadas legiões em torno de Brundísio para que António junte os seus
homens antes de Polião chegar, o que, segundo me dizem os meus batedores, não
acontecerá antes de pelo menos um nundinum.
- Tempo suficiente para chegarmos a Brundísio, Agripa. As nossas legiões estão
estacionadas do outro lado da Via Minúcia?
- Optimamente dispostas. Se Polião quiser evitar um confronto terá que marchar
para Benevento pela Via Ápia.
Octaviano pousou a caneta no suporte e arrumou cuidadosamente os papéis em
pilhas; correspondência com organismos e com pessoas, propostas para leis e
mapas pormenorizados de Itália. Levantou-se.
- Vamos então para Brundísio - disse. - Espero que Mecenas e o meu Nerva
estejam prontos? E o que se passa com o Nerva neutral?
- Se não te enterrasses em papéis, César, sabê-lo-ias - disse Agripa num tom
que só ele se atrevia a usar com Octaviano. - Há já dias que estão preparados.
E Mecenas convenceu Nerva neutral a vir connosco.
-Excelente!
- Porque é que isso é tão importante, César?
- Bem, quando um dos irmãos elegeu António e o outro a mim, a neutralidade era
a única forma da facção de Coceio Nerva conseguir sobreviver se eu e António
entrássemos em guerra. O Nerva de António morreu na Síria, o que abriu uma vaga
desse lado. Uma vaga que deixou Lúcio Nerva banhado em suor... atrever-se-ia a
preenchê-la? No fim acabou por dizer que não, apesar de também não me ter
escolhido a mim. - Octaviano fez uma careta. - Com a mulher a segurar-lhe na
trela ele está preso a Roma, portanto... escolheu a neutralidade.

126

- Sei de tudo isso, mas tal suscita uma questão.


- Que obterá uma resposta se o meu esquema for bem-sucedido.
O que arrancara Marco António do seu confortável divã ateniense fora uma carta
de Octaviano.
"Meu muito caro Marco António", dizia, "causa-me um imenso pesar ter que te
comunicar a notícia que acabo de receber da Hispânia Ulterior. O teu irmão
Lúcio morreu em Córdova pouco tempo depois de ter tomado posse como governador.
Dos muitos relatos que li, caiu simplesmente morto. Não definhou nem sofreu. Os
médicos afirmam que foi uma catástrofe que se iniciou no cérebro que, na
autópsia, descobriram estar cheio de sangue em torno da base. Foi cremado em
Córdova e as cinzas foram-me enviadas, juntamente com a documentação suficiente
para que eu considere todas as questões devidamente esclarecidas. Tenho as
cinzas e os documentos em meu poder até ao teu regresso. Aceita por favor as
minhas sentidas condolências." Selou a carta com o anel de Divus Julius com a
esfinge.
Evidentemente que António não acreditou numa única palavra da carta a não ser
no que respeitava ao facto de Lúcio estar morto; no dia seguinte já se
apressava em direcção a Patras e já tinham sido enviadas ordens para a
Macedónia Ocidental para que duas legiões da Apolónia embarcassem
imediatamente. As restantes oito ficaram prontas a actuar, aguardando ordens
suas para embarcarem para Brundísio. Era intolerável que Octaviano tivesse
recebido a notícia em primeiro lugar! E porque não lhe chegara nenhuma mensagem
antes da carta? António entendeu a carta como um desafio: as cinzas do teu
irmão estão em Roma - vem cá buscá-las se te atreveres! Atrever-se-ia? Por
Júpiter Óptimo Máximo e todos os deuses, claro que se atrevia!
Foi rapidamente enviada uma carta de Planco para Octaviano dando conta da
situação, enquanto que um enraivecido António se via forçado a aguardar que lhe
confirmassem o embarque das suas duas legiões. A carta seguiu - se António
soubesse qual era o seu teor não teria seguido -juntamente com a ordem brusca
de António, dirigida a Polião, que este pusesse as suas legiões a descer a Via
Adriática; naquele momento encontravam-se em Fano, de onde Polião poderia
avançar sobre Roma pela Via Flamínia ou caminhar ao longo da costa do Adriático
até Brundísio. Um Planco temeroso pediu um lugar no barco de António, por
julgar ter mais possibilidades de conseguir escapulir-se facilmente através das
linhas para o campo de Octaviano em solo italiano. Naquela altura já desejava
ardentemente nunca ter enviado a carta - como poderia estar seguro de que
Octaviano não iria revelar o seu conteúdo a António? O sentimento de culpa
transformou Planco num companheiro de viagem inquieto e ansioso e, quando a
meio do Adriático, a frota de Gneu Domício Aenobarbo apareceu no horizonte,
Planco sujou a tanga e quase desmaiou.

127

- Oh António, somos homens mortos! - uivou.


- Às mãos de Aenobarbo? Nunca! - respondeu António com as narinas frementes. -
Planco, parece-me bem que te borraste!
Planco desapareceu, deixando António à espera do barco a remos que se dirigia
para o seu navio. O seu próprio pavilhão continuava a adejar no mastro, mas
Aenobarbo baixara o seu.
Atarracado, moreno e careca, Aenobarbo subiu pela escada de corda com toda a
limpeza e avançou para António com um sorriso de orelha a orelha.
- Finalmente! - gritou o homem irascível abraçando António. -Vais atacar aquele
odioso insectozinho do Octaviano, não vais? Por favor diz-me que sim!
- Vou - foi a resposta de António. - Que ele se afogue na sua própria merda!
Planco borrou-se todo só de te ver e eu diria que a coragem dele é maior do que
a de Octaviano. Sabes o que Octaviano fez, Aenobarbo? Assassinou Lúcio na
Hispânia Ulterior e depois teve o desplante de me escrever, informando-me de
que é o orgulhoso depositário das cinzas de Lúcio! E desafiou-me a ir buscá-
las! Terá enlouquecido?
- Eu estou completamente contigo - disse Aenobarbo com voz rouca. -A minha
frota é tua.
- Óptimo - disse António soltando-se do abraço muito forte. - Sou capaz de
precisar de um navio de guerra muito grande, com um forte esporão de bronze,
para quebrar a corrente do porto de Brundísio.
Mas nem uma galera seis, com um esporão de bronze de vinte talentos,
conseguiria rebentar a corrente esticada na entrada do porto. De qualquer forma
Aenobarbo também não tinha um navio dessas dimensões. A corrente estava presa a
dois cais de cimento, reforçados com ferro, e cada um dos elos de bronze fora
fundido com uma espessura mais de quinze centímetros. Nem Aenobarbo nem António
tinham alguma vez visto uma barreira tão monstruosa nem uma população tão
jubilante perante as tentativas frustradas de a rebentar. Enquanto as mulheres
e as crianças aplaudiam e apupavam, os homens de Brundísio submeteram a
quinquerreme de guerra de Aenobarbo a uma chuva mortífera de lanças e de setas
que acabou por empurrá-la para o largo.
- Não consigo! - gritou Aenobarbo chorando de raiva. - Oh, mas quando conseguir
eles vão sofrer! E de onde veio aquilo? A corrente antiga tinha um décimo
daquele tamanho!
- Foi aquele camponês da Apúlia, Agripa, quem instalou esta - soube Planco
dizer, seguro de que já não cheirava a merda. - Quando fugi para me ir refugiar
junto de ti, António, os habitantes de Brundísio gostavam muito de falar da sua
instalação. Agripa fortificou esta cidade melhor que ílio, incluindo do lado de
terra.

128

- Eles não terão uma morte rápida - rosnou António. - Vou empalar os
magistrados da cidade com estacas enfiadas no rabo e hei-de enfiá-las mais dois
centímetros todos os dias.
- Ai, ai! - disse Planco estremecendo só com a ideia. - Que vamos fazer?
- Esperar pelas minhas tropas e desembarcar onde pudermos a norte e a sul -
disse António. - Quando Polião chegar, está a levar imenso tempo!, atacaremos
esta terra desgraçada pelo lado de terra, com fortificações de Agripa ou sem
elas. Após um cerco, imagino. Eles sabem que eu não serei magnânimo...
resistirão até ao fim.
E foi assim que António se retirou para a ilha fronteira à barra do porto de
Brundísio, onde ficou a aguardar a chegada de Polião, e a tentar descobrir o
que acontecera a Ventídio que estava estranhamente silencioso.
Sextilis terminara e passaram as Nonas de Setembro, apesar de o tempo continuar
suficientemente quente para não tornar difícil a vida na ilha. António andava
de um lado para o outro; Planco observava-o a andar de um lado para o outro.
António grunhia; Planco reflectia. Os pensamentos de António nunca se afastavam
de Lúcio António; os de Planco debatiam-se longa e profundamente também com um
único assunto, mas um assunto muito mais fascinante: Marco António. Pois Planco
via agora novas facetas em António e não gostava do que via. A maravilhosa e
gloriosa Fúlvia ia e vinha nos seus pensamentos - tão corajosa e feroz, tão...
tão interessante. Como podia António ter batido numa mulher, ainda por cima sua
esposa? A neta de Gaio Graco!
Ele é como uma criança pequena com a mãe, pensou Planco enxugando as lágrimas.
Devia estar no Oriente a combater os Partos... é esse o seu dever. Em vez disso
está aqui, em solo italiano, como se não tivesse a coragem de o abandonar. Será
Octaviano que o mói ou será a insegurança? Lá no fundo, será que António
acredita que conseguirá conquistar louros no futuro? Oh, ele é corajoso, mas
comandar exércitos não exige valentia. É mais um exercício intelectual, uma
arte, um talento. Divus Julius era genial nesse aspecto e António é primo dele.
Mas, para António, parece que esse factor é mais um fardo do que um prazer. Ele
está tão aterrorizado com a hipótese de falhar que, tal como Pompeu Magno, não
avançará a não ser que tenha superioridade numérica. Que tem, aqui em Itália,
se contar com Polião, Ventídio e com as suas próprias legiões, que estão mesmo
do outro lado do pequeno mar. É o suficiente para esmagar Octaviano, mesmo
agora, que este tem as onze legiões de Caleno da Gália Ulterior. Suponho que
ainda lá estejam, sob o comando do Salvidieno, que escreve regularmente a
António numa tentativa de mudar de campo. Um pormenor que não contei a
Octaviano.

129

O que António teme em Octaviano é aquele génio que Divus Julius tinha em tanta
abundância. Oh, não como general de exércitos! Mas como homem de coragem
infinita, o tipo de coragem que António começa a perder. Sim, o seu receio de
falhar cresce, enquanto que Octaviano começa a atrever-se a tudo e a apostar em
resultados imprevisíveis. António está em desvantagem quando tem que se
defrontar com Octaviano, mas ainda o está mais quando confrontado com inimigos
tão desconhecidos como os Partos. Será que alguma vez fará essa guerra? Ele
lamenta--se da falta de dinheiro, mas será essa falta apenas o resultado da sua
relutância em travar a guerra que deveria travar? Se não a travar perderá a
confiança de Roma e dos Romanos e ele sabe-o. Portanto, Octaviano é o seu
pretexto para se demorar no Ocidente. Se ele expulsar Octaviano de cena ficará
com tantas legiões que poderia derrotar um quarto de milhão de homens. No
entanto, com sessenta mil homens, Divus Julius derrotou um exército de mais de
trezentos mil. Porque o fez com genialidade. António quer ser senhor do mundo e
o Primeiro Homem em Roma, mas não consegue arranjar uma forma de o conseguir.
Anda, anda, anda, para trás e para a frente. Sente-se inseguro. O tempo das
decisões aproxima-se e ele sente-se inseguro. E também não se pode lançar num
dos seus famosos ataques de "vida inimitável" - que piada, chamar aos seus
apaniguados de Alexandria a Sociedade da Vida Inimitável! E agora aqui está
ele, numa situação que não conseguirá esquecer entregando-se a excessos. Será
que os amigos dele ainda não perceberam, como eu percebi, que os deboches de
António são simplesmente uma demonstração da sua fraqueza inata?
Sim, concluiu Planco, é tempo de mudar de campo. Mas poderei fazê-lo neste
momento? Duvido disso da mesma forma que duvido de António. Tal como a ele,
falta-me a coragem.
Octaviano sabia de tudo isto com mais convicção do que Planco, no entanto não
conseguia ter a certeza do lado para que penderia a balança, agora que António
chegara junto a Brundísio; apostara tudo nos legionários. Foi então que os seus
representantes lhe vieram comunicar que estes não combateriam as tropas de
António, fossem elas suas, de Polião ou de Ventídio. Um anúncio que deixou
Octaviano tonto de alívio. Restava apenas saber se as tropas de António
combateriam por ele.
Dois nundinae mais tarde, obteve a sua resposta. Os soldados sob o comando de
Polião e de Ventídio tinham-se recusado a combater os seus irmãos de armas.
Sentou-se para escrever uma carta a António.
Meu caro António, estamos num impasse. Os meus legionários recusam-se a lutar
contra os teus e os teus recusam-se a combater os meus. Pertencem a Roma, dizem
eles, e não a um homem, mesmo que este seja um triúnviro.

130

Os dias dos prémios enormes, dizem eles, pertencem ao passado. Concordo com
eles. Desde Filipos que sabemos que não podemos resolver os nossos
desentendimentos entrando em guerra uns com os outros. Podemos ter imperium
maius, mas para o podermos fazer valer temos que ter sob o nosso comando
soldados dispostos a obedecer. E que não temos.
Venho por isso propor-te, Marco António, que cada um de nós escolha um homem
como seu representante para encontrar uma solução para este impasse. Poderei
propor-te um elemento neutral que ambos consideramos justo e imparcial, Lúcio
Coceio Neva? Ficas à vontade para recusar a minha escolha e nomeares outro
homem. O meu representante será Gaio Mecenas. Nem tu nem eu devemos estar
presentes nesta reunião. Participar nela resultaria em temperamentos alterados.
- A ratazana maliciosa! - gritou António amarrotando a carta. Planco apanhou o
papel, alisou-o e leu-o.
- Marco, é mesmo a solução lógica para o nosso problema - gaguejou. - Pensa
nisso um momento, por favor, pensa onde estás e aquilo com que estás
confrontado. O que Octaviano sugere pode revelar-se um bálsamo para sentimentos
feridos de ambos os lados. É, na realidade, a melhor alternativa.
Um veredicto ecoado por Gneu Asínio Polião, várias horas depois, quando chegou
a bordo de uma pinaça proveniente de Bário.
- Os meus homens recusam-se a combater e os teus também - disse num tom
inexpressivo. - Eu, por mim, não consigo fazê-los mudar de ideias e tu também
não conseguirás. E, pelo que se sabe, Octaviano está na mesma situação. As
legiões decidiram por nós, portanto cabe-nos encontrar uma saída honrosa. Eu
disse aos meus homens que arranjaria umas tréguas. Ventídio fez o mesmo.
Desiste, Marco, desiste! Não é uma derrota!
-Tudo aquilo que permitir a Octaviano escapar às mandíbulas da morte é uma
derrota - disse António teimosamente.
- Disparate! As tropas dele estão tão amotinadas como as nossas.
- Ele não está sequer à altura de se confrontar comigo! Tem que ser tudo feito
através de agentes como Mecenas... temperamentos alterados? Eu dou-lhe os
temperamentos alterados! E não quero saber do que ele diz, irei a essa
reuniãozinha para me representar a mim próprio!
- Ele não estará presente, António - disse Polião olhando fixamente para Planco
e depois revirando os olhos. -Tenho uma ideia muito melhor. Se concordares,
irei eu como teu representante.
- Tu? - perguntou António incrédulo. - Tu?

131

- Sim, eu! António, fui cônsul durante oito meses e meio e no entanto ainda não
consegui ir a Roma para receber as minhas insígnias de consular - disse Polião
exasperado. - Como cônsul, tenho um estatuto mais elevado do que Gaio Mecenas e
o insignificante do Nerva os dois juntos! Achas mesmo que eu deixaria aquela
doninha do Mecenas enganar-me? Achas?
-Acho que não - disse António começando a ceder. - Está bem, concordo. Com
algumas condições.
-Diz.
- Que poderei entrar em Itália por Brundísio e que te seja permitido ir a Roma
para assumires o teu consulado sem qualquer impedimento ou limitação. Que eu
mantenha o direito a recrutar tropas em Itália. E que seja permitido o regresso
imediato dos exilados.
- Não me parece que qualquer uma dessas condições constitua um problema - disse
Polião. - Senta-te e escreve, António.
Estranho, pensou Polião quando descia a Via Minúcia em direcção a Brundísio, eu
conseguir estar sempre presente quando são tomadas as grandes decisões. Estava
com César - Divus Julius, realmente! - quando ele atravessou o Rubicão e estava
naquela ilha fluvial da Gália Italiana quando António, Octaviano e Lépido
concordaram em dividir o mundo entre si. Agora presidirei à próxima ocasião
importante: Mecenas não é nenhum parvo, não se oporá a que eu assuma a
presidência. Mas que história extraordinária para um escritor da história
moderna!
Apesar de a sua família sabina não ter tido qualquer proeminência até ao seu
próprio advento, Polião era senhor de um intelecto suficientemente formidável
para o ter tornado num dos favoritos de César. Um bom soldado e melhor
comandante, subira com César depois de este se ter tornado Ditador e nunca
tivera qualquer dúvida quanto à sua lealdade, até César ter sido assassinado.
Demasiado pragmático e pouco romântico para tomar o partido do herdeiro de
César, restara-lhe apenas um homem a quem se agarrar: Marco António. Tal como
muitos dos seus pares, achava Gaio Octávio, com os seus dezoito anos, um
absurdo e não conseguia sequer entender o que um homem inigualável como César
vira num rapaz tão bonitinho. Acreditava também que César não esperara morrer
tão depressa - era rijo como uma velha bota da tropa - e que Octaviano fora um
herdeiro temporário, apenas uma manobra para excluir António até ser capaz de
perceber se este iria assentar. E também que teria tempo de ver no que daria o
menino da mamã que agora negava a existência da dita mamã. Depois o Destino e a
Fortuna tinham decretado a pena máxima para César e permitido que um grupo de
homens amargurados, invejosos e de vistas curtas, o assassinassem. Como Polião
o lamentava, apesar da sua capacidade para fazer a crónica dos acontecimentos
contemporâneos com distanciamento e imparcialidade.

132

O problema era que, naquela ocasião, Polião não fizera ideia do que César
Octaviano conseguiria fazer da sua inesperada subida à proeminência. Como
poderia qualquer homem prever o aço e o atrevimento que habitavam no interior
daquele jovem inexperiente? César, percebera havia muito, fora o único que vira
aquilo de que Gaio Octávio era feito. Mas mesmo quando Polião percebera o que
havia dentro de Octaviano, já era demasiado tarde para um homem honrado o
seguir. António não era o melhor dos dois homens, era simplesmente a
alternativa que o orgulho lhe permitia. Apesar dos seus defeitos - que eram
muitos - ao menos António era um homem. Assim como sabia muito pouca coisa de
Octaviano, Polião também não conhecia bem o seu principal embaixador, Gaio
Mecenas. Em todos os aspectos físicos Polião era um homem mediano: em altura,
envergadura, cor, encanto facial. Tal como a maior parte dos homens com essas
características, especialmente quando eram também muito inteligentes,
desconfiava daqueles que não eram homens medianos em nenhum aspecto. Se
Octaviano não fosse tão vaidoso (botas com solas de oito centímetros, por amor
dos deuses!) e tão bonito, teria merecido melhor opinião de Polião após o
assassinato de César. E o mesmo se passava relativamente a Mecenas, gorducho e
com um rosto vulgar, de olhos salientes, rico e mimado. Mecenas sorriu
timidamente, entrelaçou os dedos, franziu os lábios e fez um ar divertido,
quando não havia razão nenhuma para isso. Um farsante. Características
detestáveis ou irritantes. No entanto ele oferecera-se para negociar com o
farsante porque sabia que António, quando se acalmasse, escolheria Quinto Délio
para seu representante. E isso não podia permitir; Délio era demasiado venal e
esfomeado para negociações tão delicadas. Era possível que Mecenas fosse
igualmente venal e esfomeado mas, tanto quanto Polião conseguia perceber,
Octaviano não cometera muitos erros ao escolher o seu círculo mais íntimo. O
Salvidieno era um erro, mas esse tinha os dias contados. António sempre se
sentira repelido pela ganância e não sentiria qualquer problema em derrubar
Salvidieno quando a sua utilidade se esgotasse. Mas Mecenas não fizera qualquer
tipo de propostas e possuía uma qualidade que Polião admirava: adorava a
literatura e era o patrono entusiasta de vários poetas promissores, incluindo
Horácio e Virgílio, os melhores versejadores desde Catulo. Era esse o único
factor que inspirava em Polião a esperança de que pudesse ser alcançada uma
solução satisfatória para ambas as partes. Mas como iria ele, um simples
soldado, sobreviver ao tipo de comida e de bebidas que um conhecedor como
Mecenas certamente forneceria?
- Espero que não te importes de comer comida vulgar e de beber vinho aguado? -
perguntou Mecenas a Polião assim que este chegou à casa surpreendentemente
modesta nos arredores de Brundísio.
- Obrigado, prefiro assim - disse Polião.

133

- Não, eu é que te agradeço, Polião. Posso dizer-te, antes de começarmos a


tratar daquilo que nos traz aqui, como aprecio a tua prosa? Não o digo para te
elogiar, pois duvido que sejas susceptível a essa bela arte da lisonja, digo-te
por ser verdade.
Embaraçado, Polião deixou passar o cumprimento com tacto mas também com
ligeireza, virando-se para cumprimentar o terceiro elemento do grupo, Lúcio
Coceio Nerva. Neutro? Como poderia um homem tão neutro deixar de ser neutral?
Não era para admirar que a mulher mandasse nele.
Enquanto comiam um jantar de ovos, saladas, galinha e pão fresco e estaladiço,
Polião deu por si a gostar de Mecenas, que parecia ter lido toda a gente, de
Homero às luminárias latinas, como César e Fábio Pictor. Se havia coisa que
faltava em qualquer acampamento militar, pensou, era uma conversa profunda
sobre literatura.
- É claro que Virgílio é helenista no estilo, mas também o era Catulo... oh,
que poeta! - disse Mecenas com um suspiro. - Tenho uma teoria, sabes?
- Qual é?
- Que a maioria dos expoentes máximos da poesia e da prosa têm algum sangue
gaulês. Ou vêm da Gália Italiana ou têm um antepassado com essas origens. Os
Celtas são um povo lírico. E musical também.
- Concordo - disse Polião, aliviado por ver que não havia doces na ementa. -Se
não considerarmos Iter, um poema extraordinário, César é tipicamente pouco
poético. Senhor de um latim requintadíssimo, no entanto duro e sintético. Aulo
Hírcio passou com ele o tempo suficiente para conseguir uma boa imitação do seu
estilo, nos comentários que César não teve tempo de escrever, mas falta-lhe a
perícia do mestre. Contudo Hírcio revela factos que César nunca revelaria.
Como, por exemplo, o motivo que levou Tito Labieno a desertar para o lado de
Pompeu Magno depois do Rubicão.
- No entanto nunca é maçador. - Mecenas deu uma risada. - Deuses, que maçador
que é Catão, o Censor! É como ser-se obrigado a ouvir o discurso inaugural de
um político debutante que sobe pela primeira vez à rostra.
Riram os dois, sentindo-se mutuamente à vontade, enquanto Nerva Neutro, como
Mecenas o alcunhara, dormitava suavemente.
Na manhã seguinte iniciaram os trabalhos numa sala bastante sombria, mobilada
com uma grande mesa, duas cadeiras de madeira com costas, mas sem braços, e uma
cadeira curul de marfim. Ao vê-la, Polião pestanejou.
- É tua - disse Mecenas sentando-se numa das cadeiras de madeira e indicando a
outra, de frente para a sua, a Nerva. - Sei que ainda não tomaste posse dele,
mas o teu estatuto de cônsul júnior do ano exige que presidas às nossas
reuniões e que te sentes em marfim.
Um toque simpático e muito diplomático, pensou Polião, sentando-se à cabeceira
da mesa.

134

- Se quiseres a presença de um secretário para tirar apontamentos, tenho um


homem para isso - continuou Mecenas.
- Não, não, vamos fazer isto sozinhos - disse Polião. - Nerva servirá de
secretário e fará a acta. Sabes estenografia, Nerva?
- Graças a Cícero, sei. - Parecendo satisfeito por ter alguma coisa para fazer,
Nerva colocou uma resma de papel faniano em branco por baixo da mão direita,
escolheu uma caneta de entre a dúzia disponível e descobriu que alguém
preparara atenciosamente um tinteiro.
- Começarei por fazer uma síntese da situação - disse Polião vivamente. -
Primeiro: Marco António não está convencido de que Octaviano esteja a cumprir
os seus deveres de triúnviro. A, não garantiu que o povo de Itália se alimente
convenientemente. B, não eliminou as actividades de pirataria de Sexto Pompeu.
C, não instalou um número suficiente de veteranos nos seus lotes de terreno. D,
os mercadores de Itália estão a passar por tempos difíceis nos negócios. E, os
proprietários de terras italianos estão zangados com as medidas draconianas que
ele adoptou para lhes tirar terras de forma a conseguir dá-la aos veteranos. F,
mais de uma dúzia de cidades italianas foram ilegalmente despojadas das suas
terras públicas, mais uma vez para serem distribuídas aos veteranos. G,
aumentou os impostos para quantias insuportáveis. E H, está a encher o Senado
com os seus próprios apaniguados.
"Segundo: Marco António não está satisfeito com a forma como César Octaviano
usurpou a governação e as legiões de uma das suas províncias, a Gália Ulterior.
Tanto a governação como as legiões estão sob o comando de Marco António, que
deveria ter sido notificado da morte de Quinto Fúfio Caleno, para que fosse ele
a nomear o novo governador bem como a dispor da maneira que achasse mais
adequada das onze legiões de Caleno.
"Terceiro: Marco António não está satisfeito com o facto de estar a ser travada
uma guerra civil no interior de Itália. Porque é que, pergunta ele, César
Octaviano não resolveu as suas divergências com o falecido Lúcio António de uma
forma pacífica?
"Quarto: Marco António não está satisfeito com o facto de lhe ser recusada a
entrada em Itália por Brundísio, o principal porto do Adriático e duvida de que
Brundísio tenha desafiado a autoridade do triúnviro residente, César Octaviano.
Marco António acredita que César Octaviano enviou ordens para Brundísio para
impedir a entrada do seu colega que, não só tem o direito de entrar em Itália,
como também tem o direito de se fazer acompanhar de legiões. Como é que César
Octaviano sabe que essas legiões foram trazidas com o objectivo de fazer a
guerra? Também podem muito bem estar a regressar a casa para passarem à
reserva.
"Quinto: Marco António não tem a certeza de que César Octaviano lhe permita
recrutar novas tropas no interior de Itália e da Gália Italiana como é seu
direito legal.

135

"É tudo - concluiu Polião que fizera todo aquele discurso sem recorrer a
quaisquer notas.
Mecenas ouvira-o impassivelmente enquanto Nerva escrevinhava - pelo menos
parecia fazê-lo, pois Nerva não pediu a Polião que repetisse nada do que
dissera.
- César Octaviano enfrentou inúmeras dificuldades em Itália - disse Mecenas
numa voz calma e agradável. - Perdoar-me-ás se eu não enumerar todos os seus
problemas com a mesma forma organizada do teu estilo sintético, Gneu Polião. Eu
não sou governado por uma lógica tão impiedosa... o meu estilo inclina-se mais
para o do contador de histórias.
"Quando César Octaviano se tornou o triúnviro de Itália, das Ilhas e das His-
pânias, encontrou o Tesouro vazio. Teve que confiscar ou comprar terras
suficientes para instalar mais de cem mil soldados veteranos retirados. Dois
milhões de iugera! Por isso confiscou as terras públicas de dezoito municipia
que tinham apoiado os assassinos de Divus Julius... uma decisão justa e
correcta. E sempre que conseguiu arranjar dinheiro, comprou terras aos
proprietários dos latifundia, com o pressuposto de que esses indivíduos tinham
um comportamento especulativo ao utilizarem grandes áreas, anteriormente
cultivadas com cereais, para pastagens. Nenhum cultivador de cereais foi
abordado, pois César Octaviano planeou um grande aumento da produção local de
cereais assim que esses latifundia fossem parcelados em lotes para os
veteranos.
"As pilhagens impiedosas de Sexto Pompeu privaram Itália dos cereais cultivados
em Africa, na Sicília e na Sardenha. O Senado e o Povo de Roma têm sido
preguiçosos no que respeita à resolução dos problemas de fornecimento de
cereais, partindo do princípio de que a Itália poderia sempre ser alimentada a
partir do exterior. Ora, Sexto Pompeu, já provou que um país que depende da
importação de trigo é um país vulnerável e pode ser feito refém. César
Octaviano não dispõe nem do dinheiro nem dos navios para expulsar Sexto Pompeu
do alto-mar, nem para invadir a Sicília, que é a sua base. Por essa razão fez
um pacto com Sexto Pompeu, indo mesmo ao ponto de casar com a irmã de Libão. Se
cobrou impostos, foi porque não teve alternativa. O trigo deste ano está a
custar trinta sestércios o modius, vendido por Sexto Pompeu... trigo
anteriormente comprado e pago por Roma! César Octaviano tem que encontrar
nalgum sítio quarenta milhões de sestércios todos os meses... imagina! Quase
quinhentos milhões de sestércios por ano! Pagos a Sexto Pompeu, um vulgar
pirata! - gritou Mecenas com tal ênfase, que no seu rosto transpareceu uma
paixão muito rara.
- Mais de dezoito mil talentos - disse Polião pensativamente. - E claro que
aquilo que vais dizer a seguir é que as minas de prata das Hispânias tinham
começado a produzir quando o rei Boco invadiu, e que agora estão novamente
encerradas e o Tesouro empobrecido.

136

- Precisamente - disse Mecenas.


- Dito isso e registado, o que acontece a seguir na tua história?
- Roma tem parcelado terras para instalar, primeiro os pobres e depois os
veteranos, desde o tempo de Tibério Graco.
- Sempre achei - interrompeu-o Polião -, que o pior pecado por omissão que o
Senado e o Povo alguma vez cometeram foi recusarem-se a dar uma pensão aos
veteranos reformados de Roma, maior do que aquilo que estava depositado da sua
paga. Quando consulares como Catulo e Escauro negaram uma pensão aos soldados
de Gaio Mário, que não tinham bens e pertenciam ao Conto de Cabeças, Mário re-
compensou-os com terras em seu nome. Isso aconteceu há sessenta anos e desde
então que os veteranos esperam que sejam os seus comandantes a recompensá-los e
não a própria Roma. Foi um erro tremendo. Deu aos generais um poder que eles
nunca deveriam ter tido.
Mecenas sorriu.
- Estás a contar a minha história por mim, Polião.
- Peço desculpa, Mecenas. Continua por favor.
- César Octaviano não pode libertar a Itália de Sexto sem ajuda. Pediu essa
ajuda a Marco António muitas vezes, mas Marco António ou é surdo ou é
analfabeto, pois não dá resposta a essas cartas. Depois veio a guerra
intestina, uma guerra que não foi provocada de nenhuma maneira por César
Octaviano! Ele acredita que o verdadeiro instigador da rebelião de Lúcio
António, ou pelo menos foi o que nos pareceu em Roma, foi um liberto chamado
Mânio e que pertence à clientela de Fúlvia. Mânio convenceu Fúlvia de que César
Octaviano estava... hum.. .a roubar aquilo que era de Marco António por direito
de nascimento. Uma acusação muito estranha em que ela acreditou. Por sua vez,
ela persuadiu Lúcio António a usar as legiões que andava a recrutar em nome de
Marco António para marchar sobre Roma. Penso que não é necessário dar mais
explicações sobre esse assunto, a não ser para garantir a Marco António que o
irmão não foi julgado, mas antes lhe foi permitido assumir o seu estatuto
proconsular e respectivo imperium e partir para governar a Hispânia Ulterior.
Procurando no meio de uma série de rolos de pergaminho que tinha perto de si,
Mecenas encontrou o que procurava e agitou-o no ar.
-Tenho aqui a carta que o filho de Quinto Fúfio Caleno escreveu, não a Marco
António, como deveria ter feito, mas a César Octaviano. - Entregou-a a Polião
que a leu com a facilidade de um homem muito culto. - O que César Octaviano aí
viu foi alarmante, pois revelava a fraqueza de Caleno Júnior e a sua indecisão.
Sendo tu um veterano da Gália Ulterior, Polião, estou certo de que não tenho
que te explicar como são voláteis as Gálias dos Cabelos Compridos e a rapidez
com que pressentem um governador pouco seguro. Foi por essa razão, e apenas por
essa razão, que César Octaviano agiu rapidamente. Tinha que agir com rapidez.
Sabendo que Marco

137

António estava mil e seiscentos quilómetros mais distante, assumiu a


responsabilidade de viajar imediatamente para Narbona, onde instalou um
governador .provisório, Quinto Salvidieno. As onze legiões de Caleno estão
exactamente onde sempre estiveram: quatro em Narbona, quatro em Agêndico e três
em Glanum. Que fez de mal César Octaviano ao agir assim? Agiu como amigo, como
um dos triúnviros, o homem que estava presente.
Mecenas suspirou e adoptou uma expressão pesarosa.
- Diria que a acusação mais verdadeira que pode ser feita contra César
Octaviano é a de não ter conseguido controlar Brundísio, a quem foi ordenado
que permitisse a Marco António desembarcar com tantas legiões quantas quisesse
trazer para casa, fosse para umas boas férias, fosse para se retirarem.
Brundísio desafiou o Senado e o Povo de Roma, tão simples como isso. O que
César Octaviano espera é ser capaz de persuadir Brundísio a abandonar essa
posição de desafio. E é tudo -concluiu Mecenas sorrindo docemente.
Foi então que começaram as discussões, mas sem paixão nem rancor. Ambos os
homens sabiam qual era a verdade em cada questão levantada, mas ambos os homens
sabiam também que tinham que ser leais aos seus senhores e tinham decidido que
a melhor forma de o conseguirem era argumentar convincentemente. Octaviano,
para já, leria atentamente as actas de Nerva e, se Marco António não fizesse o
mesmo, pelo menos interrogaria Nerva sobre a reunião.
Finalmente, imediatamente antes das Nonas de Outubro, Polião decidiu que estava
farto.
- Olha - disse ele - para mim é claro que a maneira como as coisas foram
combinadas após Filipos foi muito atabalhoada e pouco eficaz. Marco António
estava muito cheio de si e desprezou Octaviano pela sua candura em Filipos. -
Virou-se para Nerva que já escrevinhava. - Nerva, não te atrevas a escrever uma
única palavra das que vou dizer! Chegou o momento de sermos francos e, como os
grandes homens não apreciam a fraqueza, o melhor é não lhes contarmos o que
vamos dizer. O que significa que não podes deixar que o António te pressione,
estás a ouvir-me? Dás com a língua nos dentes acerca disto e és um homem
morto... eu próprio te mato, compreendeste?
- Sim! - guinchou Nerva apressando-se a deixar cair a caneta.
- Estou a adorar! - disse Mecenas com um sorriso. - Continua, Polião.
- O triunvirato é ridículo, tal como existe de momento. Como é que o António
pensou que poderia estar em vários sítios ao mesmo tempo? Pois foi isso o que
aconteceu após Filipos. Ele quis a parte de leão de tudo, das províncias às
legiões. E o que é que resultou? Octaviano herdou o abastecimento de cereais e
Sexto Pompeu, mas não dispõe de frotas com as quais possa combater Sexto,
quanto mais para transportar um exército capaz de invadir e tomar a Sicília.

138

Se Octaviano fosse um soldado, o que não é nem nunca afirmou ser, teria
percebido que esse liberto, o Heleno, obviamente um sujeito persuasivo, não
conseguiria tomar a Sardenha. Em grande parte porque Octaviano não tem um
número suficiente de navios de transporte para as tropas. Não tem barcos. As
províncias foram distribuídas da forma mais atabalhoada que já se viu.
Octaviano fica com a Itália, a Sicília, a Sardenha, a Córsega, a Hispânia
Citerior e a Hispânia Ulterior. António fica com todo o Oriente, mas isso não
lhe chega. Por isso fica também com todas as Gálias e com a Ilíria. Porquê?
Porque as Gálias contam com imensas legiões sob o comando da Águia que não
querem retirar-se. Conheço muito bem o Marco António e ele é um bom homem,
valente e generoso. Quando está na sua máxima forma ninguém é mais competente
nem mais esperto. Mas é também um glutão incapaz de dominar o seu apetite, seja
o que for que lhe apeteça devorar. Os Partos e Quinto Labieno andam a semear o
caos por toda a Ásia e uma boa parte da Anatólia. Mas aqui estamos nós, nos
arredores de Brundísio.
Polião espreguiçou-se e depois encolheu os ombros.
- O nosso dever, Mecenas, é equilibrar as coisas. Como é que o vamos fazer?
Traçando uma linha entre o Ocidente e o Oriente e pondo Octaviano de um lado e
António do outro. Lépido pode ficar com a África, nem vale a pena falar nisso.
Tem dez legiões, está lá bem seguro e a salvo. Não vais ouvir-me contestar o
facto de Octaviano ter de longe a tarefa mais difícil por ter ficado com a
Itália, empobrecida, gasta e esfomeada. Nenhum dos nossos chefes tem dinheiro.
Roma está à beira da falência e o Oriente está tão exaurido que não consegue
pagar quaisquer tributos significativos. No entanto António não pode ter tudo à
sua maneira e vai ter que compreender isso mesmo. Proponho que a Octaviano seja
atribuída uma parte maior dos rendimentos por governar todo o Ocidente -
Hispânia Ulterior, Hispânia Citerior, todas as regiões da Gália Ulterior, a
Gália Italiana e a Ilíria, por forma a transformá-la na fronteira entre o
Ocidente e o Oriente. Nem vale a pena mencionar que António terá a mesma
liberdade de recrutar tropas na Itália e na Gália Italiana que Octaviano. E, já
agora, a Gália Italiana deverá tornar-se parte de Itália em todos os aspectos.
- Muito bem dito, Polião! - exclamou Mecenas sorrindo abertamente. - Não
conseguiria dizer isso tão bem como tu o fizeste. - Fez um simulacro de
tremeli-que. - Para começar, nunca me teria atrevido a ser tão duro para com
António. Sim, meu amigo, muito bem dito na verdade! Agora só nos resta
persuadir António a concordar. Não prevejo nenhumas reticências da parte de
César Octaviano. Ele tem passado imensas dificuldades e, como é evidente, a
viagem que fez de Roma provocou-lhe um ataque de asma.
Polião fez um ar de espanto.
- Asma?

139

- Sim. Quase morre com os ataques que tem. Foi por isso que se refugiou nos
pântanos em Filipos. Por causa de todo aquele pó e palha pelos ares!
- Compreendo - disse Polião lentamente. - Compreendo.
- É o segredo dele, Polião.
- António sabe?
- Claro que sabe. Eles são primos, ele sempre soube.
- O que pensa Octaviano de permitir o regresso a casa dos exilados?
- Não levantará objecções. - Mecenas pareceu reflectir em qualquer coisa e
depois disse: - Deves saber que Octaviano nunca declarará guerra a António,
apesar de eu não saber se conseguirás convencer António disso. Não haverá mais
guerras civis. Ele manter-se-á fiel a esse princípio, Polião. É essa a
verdadeira razão de aqui estarmos. Seja qual for a provocação, ele não entrará
em guerra com outro romano. A sua abordagem é a da diplomacia, a da mesa de
conferências, as negociações.
- Não tinha percebido que ele tinha sentimentos tão fortes relativamente a
isso.
- Tem, Polião, tem.
Persuadir António a aceitar os termos que Polião propusera a Mecenas, levou um
nundinum inteiro de fúrias, buracos nas paredes, lágrimas e gritos. Depois ele
começou a acalmar; as suas raivas eram de tal modo devastadoras, que mesmo um
homem tão forte como António, não conseguia manter esse nível de energia
durante mais do que um nundinum. Da raiva mergulhou na depressão e, finalmente,
no desespero. Assim que ele chegou ao fundo do poço, Polião atacou; era agora
ou nunca. Um Mecenas não teria conseguido lidar com António, mas um soldado
como Polião, um homem que António amava e respeitava, sabia exactamente o que
fazer. Tinha, para além disso, a confiança de alguns seguidores leais em Roma
que, caso fosse necessário, reforçariam os seus apoios.
- Está bem, está bem! - gritou António desesperado com as mãos nos cabelos. -
Fá-lo-ei! Tens a certeza em relação aos exilados?
- Absoluta.
- Insisto nalguns pontos que tu não mencionaste.
- Menciona-os agora.
- Quero que cinco das legiões de Caleno embarquem comigo.
- Não creio que isso seja um problema.
- E não concordarei em juntar as minhas forças com as de Octaviano para varrer
Sexto Pompeu dos mares.
- Isso não é sensato, António.
- Pergunta-me: e isso rala-me? Não me rala! - disse António selvaticamente. -
Tive que nomear Aenobarbo governador da Bitínia, de tão furioso que ficou com
as condições que negociaste, o que significa que não tenho frotas suficientes
para poder recuar sem Sexto Pompeu.

140

Ele fica, para o caso de eu precisar dele, isso tem que ser tornado claro.
- Octaviano concordará, mas não ficará satisfeito.
- Tudo o que tornar Octaviano infeliz far-me-á feliz a mim!
- Porque escondeste a asma de Octaviano?
- Pff! - cuspiu António. - Ele é uma menina! Só as meninas é que ficam doentes,
seja qual for a doença. A asma dele é uma desculpa.
- Não ceder em relação a Sexto Pompeu pode sair-te caro.
- Sair-me caro como?
- Não sei bem - disse Polião de cenho franzido. - Mas sairá.
A reacção de Octaviano às condições que Mecenas lhe apresentou foi muito
diferente. Interessante, pensou Mecenas, como o seu rosto se modificou durante
os últimos doze meses. Amadureceu e deixou de ser bonito, apesar de nunca ter
sido tão belo. A cabeleira está mais curta e já não se rala com as orelhas
proeminentes. Mas a maior transformação operou-se nos seus olhos, os mais belos
que alguma vez vi, tão grandes, luminosos e de um cinzento prateado. Sempre
foram opacos, nunca deixou transparecer no olhar o que está a pensar ou a
sentir, mas agora apareceu uma dureza de pedra por detrás do seu brilho. E a
boca que eu desejei beijar, sabendo bem que nunca me seria permitido beijá-la,
tornou-se mais firme, mais direita. Suponho que isso significa que ele cresceu.
Cresceu? Ele nunca foi um rapaz! Nove dias antes das Calendas de Outubro fez
vinte e três anos e Marco António tem agora quarenta e quatro. Uma verdadeira
maravilha.
- Se o António se recusar a ajudar-me contra Sexto Pompeu - disse Octaviano -,
terá que pagar um preço.
- Mas o quê? Não tens poder para o forçares a pagar.
- Sim, tenho e será Sexto Pompeu que me dará esse poder.
- E como?
- Um casamento - disse Octaviano tranquilamente.
- Octávia! - arfou Mecenas. - Octávia...
- Sim, a minha irmã. Ela é viúva, não há nenhum impedimento.
- Os seus dez meses de luto ainda não terminaram.
- Já passaram seis e toda a Roma sabe que ela não pode estar grávida... Marcelo
teve uma morte longa e agonizante. Não será difícil obter uma dispensa dos
colégios pontifícios e, das dezassete tribos, os votos necessários no comitium
religioso. - Octaviano sorriu com complacência. - Eles atropelar-se-ão para
fazer o que quer que seja que possa evitar uma guerra entre mim e António. Na
realidade, prevejo que nenhum casamento nos anais de Roma será alguma vez tão
popular.
- Ele não concordará.

141

- António? Ele até copularia com uma vaca.


- Não ouves o que dizes, César? Eu sei o quanto amas a tua irmã e, no entanto,
infligir-lhe-ias o António? Ele é um bêbado e bate nas mulheres! Imploro-te,
pensa melhor! Octávia é a mulher mais adorável, mais doce e mais simpática de
Roma. Até o Conto de Cabeças a adora, tal como adoravam a filha de Divus
Julius.
- Parece que tu próprio te queres casar com ela, Mecenas - disse Octaviano
maliciosamente.
Mecenas amofinou-se.
- Como podes brincar com algo tão... tão sério como isto? Gosto das mulheres,
mas também tenho pena delas. Levam vidas tão monótonas e a sua única
importância política está nos casamentos... o melhor que se pode dizer da
justiça romana é que, na sua maioria, são elas quem controla o seu próprio
dinheiro. Serem relegadas para a periferia dos negócios públicos pode irritar
as Hortênsias e as Fúlvias, mas não afecta Octávia. Se irritasse não estarias
aí tão satisfeito contigo próprio e convicto da sua obediência. Não é já tempo
de ela poder casar com um homem com quem deseje fazê-lo?
- Eu não a obrigarei a fazê-lo, se é isso que estás a insinuar - disse
Octaviano, impávido. - Não sou idiota, sabes, e já estive num número suficiente
de jantares de família depois de Farsalo para perceber que Octávia está meio
apaixonada pelo António. Ela irá voluntariamente ao encontro do seu destino...
irá feliz, até.
- Não acredito!
- É verdade. Estou longe de perceber o que as mulheres vêem nos homens, mas
acredita na minha palavra, Octávia gosta do António. Foi desse facto e da minha
própria união com Escribónia que me surgiu a ideia. Assim como não me restam
dúvidas relativamente a António no que respeita ao vinho e ao bater nas
mulheres. Ele pode ter atacado Fúlvia, mas a provocação deve ter sido muito
severa. Por baixo daquele alarido todo ele é um sentimental com as mulheres.
Octávia agradar-lhe-á. Tal como o Conto de Cabeças, ele adorá-la-á.
- Há a rainha egípcia... ele não lhe será fiel.
- Qual é o homem colocado no estrangeiro que o é? Octávia não lhe levará a mal
a infidelidade, é demasiado bem-educada para isso.
Erguendo as mãos no ar, Mecenas foi-se embora para remoer a sorte pouco
invejável dos diplomatas. Esperaria realmente Octaviano que ele, Mecenas,
conduzisse aquelas negociações? Bem, não o faria! Atirar uma pérola como
Octávia a um porco como o António? Nunca! Nunca, nunca, nunca!
Octaviano não fazia tenções de se privar daquelas particulares negociações;
iria apreciá-las. Por esta altura já António teria esquecido coisas como aquela
cena na sua tenda, depois de Filipos, em que exigira a cabeça de Bruto - e a
recebera.

142

O ódio de António desenvolvera-se de tal forma que obscurecera os episódios


individuais; era auto-suficiente e alimentava-se a si próprio. E Octaviano
também não esperava que o casamento com Octávia alterasse esse ódio. Talvez um
sujeito poético, como Mecenas, pensasse que fosse essa a motivação de
Octaviano, mas ele próprio era demasiado sensato para esperar milagres. Quando
Octávia se tornasse mulher de António, faria exactamente aquilo que ele
quisesse; a última coisa que ela tentaria seria influenciar o que António
sentia pelo irmão. Não, aquilo que esperava alcançar através daquela união era
o fortalecimento da esperança dos romanos vulgares - e dos legionários - de que
a ameaça de guerra desaparecera. Portanto, quando chegasse o dia em que
António, envolvido numa qualquer paixão por uma nova mulher, rejeitasse a
esposa, aquele cairia a pique na estima de milhões de cidadãos romanos em toda
a parte. Como Octaviano jurara que nunca se envolveria numa guerra civil, tinha
que destruir, não a auctoritas de António - a sua posição oficial e pública -
mas a sua dignitas - o estatuto público que obtivera devido às suas acções
pessoais e aos seus feitos. Quando César, o Deus, atravessara o Rubicão e
iniciara uma guerra civil, fizera-o para proteger a sua dignitas, que para ele
fora mais importante do que a própria vida. Ter os seus feitos apagados dos
registos oficiais das histórias da República e ser condenado ao exílio
perpétuo, era pior do que uma guerra civil. Bem, Octaviano não era feito do
mesmo material; para ele a guerra civil era pior do que a desgraça e o exílio.
Além disso, como era evidente, também não era um génio militar com a certeza da
vitória. A estratégia de Octaviano era corroer a dignitas de Marco António até
esta atingir um ponto tão baixo, que ele deixasse de constituir uma ameaça. A
partir daí, a estrela de Octaviano continuaria a subir até que ele, e não
António, se tornasse o Primeiro Homem em Roma. Tal não aconteceria de um dia
para o outro; levaria muitos anos. Mas eram anos que Octaviano tinha para
gastar; era vinte e um anos mais novo do que António. Oh, a perspectiva de anos
e anos de luta para alimentar a Itália, encontrar terra para as vagas
incessantes de veteranos!
Tirara as medidas a António. César, o Deus, teria estado, àquela hora, a bater
à porta do palácio do rei Orodes na Selêucia do Tigre, mas onde estava António?
A fazer um cerco a Brundísio, ainda no seu próprio país. Por mais que se
vangloriasse de estar ali para defender os seus direitos de triúnviro, a
verdade é que estava ali para evitar estar na Síria a combater os Partos. Por
mais que se vangloriasse de ter ganho Filipos sozinho, António sabia que não
teria conseguido ganhar sem as legiões de Octaviano, compostas por homens cuja
lealdade ele não detinha, pois esta pertencia a Octaviano.
Daria praticamente qualquer coisa, pensou Octaviano depois de ter escrito a
mensagem para António e a ter enviado por um mensageiro liberto, daria
praticamente qualquer coisa para que a Fortuna me deixasse cair algo no colo
que derrubasse António de uma vez por todas.

143

Não será Octávia, nem será provavelmente o seu divórcio dela, caso decida
abandoná-la quando se cansar da sua bondade. Sei que a Fortuna me sorri - já
escapei tantas vezes à justa que quase não tenho pele. E de todas as vezes foi
a sorte que me arrancou do abismo. Como a grande vontade de Libão de encontrar
um marido ilustre para a irmã. Como a morte de Caleno em Narbona e o facto de o
idiota do filho se ter dirigido a mim e não a António. Como a morte de Marcelo.
Como ter Agripa para comandar exércitos para mim. Como escapar à morte de todas
as vezes que a asma me tirou todo o ar do corpo. Como ter a arca de guerra do
meu pai, Divus Julius, para evitar a falência. Como Brundísio ter recusado a
entrada a Marco António, que possam Liber Mater, Sol Indiges e a Terra, dar a
Brundísio, no futuro, a paz c muita prosperidade. Não enviei qualquer ordem
para a cidade para que agisse da forma como agiu, assim como não provoquei a
futilidade da guerra de Fúlvia contra mim. Pobre Fúlvia!
Todos os dias sacrifico a uma dúzia de deuses, com a Fortuna à cabeça, para que
me concedam a arma de que necessito para derrubar António rapidamente, sem ter
que esperar pelos efeitos inelutáveis da idade. A arma existe, sei-o com tanta
certeza como sei que fui escolhido para levantar Roma para sempre, para
conseguir a paz duradoura no interior das fronteiras do seu império. Eu sou o
Escolhido sobre quem escreve Virgílio, o poeta de Mecenas, e que todos os
adivinhos de Roma insistem que anunciará uma idade de ouro. Divus Julius fez de
mim seu filho e eu não desmerecerei da confiança que depositou em mim para que
terminasse aquilo que ele começou. Oh, não será um mundo igual àquele que Divus
Julius teria feito, mas satisfá-lo-á e agradar-lhe-á. Fortuna, traz-me mais da
afamada sorte de César! Traz-me a arma e abre-me os olhos para que a reconheça
quando ela chegar!
A resposta de António veio pelo mesmo mensageiro. Sim, receberia César
Octaviano sob a bandeira das tréguas. Mas nós não estamos em guerra!, pensou
Octaviano faltando-lhe a respiração devido a qualquer coisa que não era um
ataque de asma. Como é que funciona a cabeça dele para achar que estamos em
guerra?
No dia seguinte Octaviano partiu no cavalo público juliano - era um cavalo
pequeno, mas muito belo, com a pelagem creme e a crina e a cauda mais escuras.
Montar significava que não poderia usar a toga, mas, como não queria ter uma
aparência bélica, vestiu uma túnica branca com a faixa senatorial, larga, de
cor púrpura, junto ao ombro direito.
Naturalmente que António envergava uma armadura completa, com peitoral de prata
e uma imagem de Hércules a matar o leão de Nemeia gravada na couraça. A sua
túnica era de cor púrpura como o era o paludamentum que lhe esvoaçava nos
ombros, apesar de, por direito, este dever ser escarlate. Como sempre parecia
estar de boa saúde e em forma.

144

- Não trazes botas altas, Octaviano? - perguntou ele a sorrir.


Apesar de António não o ter feito, Octaviano estendeu-lhe a mão direita de uma
forma tão óbvia que este foi obrigado a aceitá-la, apertando-a com uma força
tal que esmagou os ossos frágeis. Octaviano aguentou com o rosto inexpressivo.
- Entra - convidou António levantando a cortina da tenda. O facto de preferir
viver numa tenda a requisitar uma residência particular era uma prova da sua
confiança de que o cerco a Brundísio não seria muito demorado.
A sala de visitas da tenda era ampla, mas com a cortina fechada, muito escura.
O que, para Octaviano, era sinal da desconfiança de António; não tinha a
certeza de não deixar transparecer no rosto as suas emoções. O que não
preocupou Octaviano. Não eram os rostos mas os padrões de pensamento o que o
preocupava, pois era sobre eles que tinha que trabalhar.
- Fico muito satisfeito - disse ele sendo engolido por uma cadeira demasiado
grande para o seu corpo franzino -, por termos chegado ao ponto de fazer uma
proposta de acordo. Achei que seria melhor que tu e eu debatêssemos,
pessoalmente, os pontos em que ainda não foi possível chegar a um acordo.
- Estás a pôr a questão de uma forma muito delicada - disse António dando um
grande golo de um copo de vinho ostensivamente aguado.
- Um copo muito belo - comentou Octaviano virando o seu próprio copo entre os
dedos. - Onde é que foi feito? Aposto que não foi em Putéolos.
- Foi num vidraceiro qualquer de Alexandria. Gosto de beber por copos de vidro,
não absorvem o aroma dos vinhos envelhecidos da maneira que acontece até com a
melhor das cerâmicas. - Fez uma careta. - E o metal sabe a... metal.
Octaviano pestanejou.
- Edepol! Não tinha percebido que eras tão conhecedor de uma coisa que se
limita a conter vinho.
- O sarcasmo não te levará a lado nenhum - disse António sem se ofender. - A
rainha Cleópatra já me disse o mesmo.
- Oh, sim, isso faz sentido. Uma patriota alexandrina. O rosto de António
iluminou-se.
- E com razão! Alexandria é a cidade mais bela do mundo, deixa Pérgamo, e até
mesmo Atenas, a tremer na sua sombra. - Depois de dar um golo, Octaviano pousou
o cálice como se este o queimasse. Ali estava outro idiota! Para quê arengar
sobre a beleza de uma cidade quando a sua própria cidade se reduzia a pó por
falta de cuidados? - Podes ficar com as legiões de Caleno que quiseres, isso
não merece discussão - mentiu. - Na realidade nenhuma das tuas condições me
perturba, com excepção da tua recusa em me ajudares a livrar-me de Sexto
Pompeu.
Franzindo o sobrolho, António levantou-se e puxou a cortina da tenda para o
lado decidindo, aparentemente, que afinal precisava de ter uma boa visão do
rosto de Octaviano.

145

- A Itália é a tua província, Octaviano. Já te pedi a tua ajuda para governar a


minha?
- Não, não pediste, mas também não enviaste para Roma a sua parte dos tributos
orientais para depositar no Tesouro. Creio que não tenho que te explicar que,
mesmo sendo um triúnviro, é ao Tesouro que cabe recolher os tributos e
transferir fundos para os governadores provinciais para que estes paguem as
suas legiões e as obras públicas nas suas províncias - disse Octaviano
calmamente. - É evidente que sei que nenhum governador, muito menos um
triúnviro, cobra apenas aquilo que o Tesouro lhe exige... pede sempre mais e
guarda a diferença para si próprio. É uma tradição muito antiga e não estou a
pô-la em causa. Eu também sou triúnviro. No entanto tu não enviaste nada para
Roma nos dois anos em que foste governador. Se o tivesses feito eu teria podido
comprar os navios de que necessito para tratar do Sexto. Pode ser que te
convenha usar navios-pirata para as tuas frotas, já que todos os almirantes que
tomaram o partido de Bruto e de Cássio decidiram tornar-se piratas depois de
Filipos. Eu próprio não enjeitaria usá-los, não fosse eles estarem a debicar na
minha carcaça! O que eles andam a fazer é provar a Roma e a toda a Itália, a
fonte dos nossos melhores soldados, que um milhão de soldados não serve de nada
a dois triúnviros sem navios. Tu deverias ter cereais das províncias orientais
para alimentar abundantemente as tuas legiões! Não tenho culpa que tenhas
deixado os Partos invadir tudo excepto a Bitínia e a província da Ásia! O que
te salva é Sexto Pompeu. Enquanto te for conveniente continuares a tratá-lo
bem, ele vende-te os cereais de Itália a um bom preço... cereais esses, deixa
que te recorde, comprados e pagos pelo Tesouro de Roma! Sim, a Itália é a minha
província, mas as minhas únicas fontes de dinheiro são os impostos que tenho
que espremer de todos os cidadãos romanos a viver em Itália. E isso não chega
para pagar navios e para comprar o trigo roubado a Sexto Pompeu a trinta
sestércios o modius! Por isso vou perguntar novamente, onde estão os tributos
do Oriente?
António escutou-o com uma ira crescente.
- O Oriente está falido! - gritou. - Não há tributos para enviar!
- Isso não é verdade e até o mais insignificante romano, nos confins de Itália,
o sabe - ripostou Octaviano. - Pitodoro de Trales trouxe-te dois mil talentos
de prata de Tarso, por exemplo. Tiro e Sídon pagaram-te mais mil. E o saque da
Cilicia Pedia rendeu-te quatro mil. Um total de cento e setenta e cinco milhões
de sestércios! São factos, António! Factos bem conhecidos!
Porque teria ele consentido em encontrar-se com aquele mosquito desprezível?,
perguntou António a si próprio contorcendo-se. Para ficar em superioridade só
teve que me lembrar que tudo o que faço no Oriente acaba por chegar aos ouvidos
do mais insignificante cidadão de Itália. Sem o dizer, ele está a comunicar-me
que a minha reputação se encontra em queda. Que eu não estou acima da crítica,
que o Senado e o Povo de Roma me podem destituir dos meus cargos. E sim, posso
marchar sobre Roma, executar Octaviano e nomear-me ditador.

146
Mas fui eu quem fez um grande espectáculo da abolição da ditadura! Brundísio
foi a prova de que os meus legionários se recusam a lutar contra os de
Octaviano. Só esse facto faz com que o pequeno verpa possa estar aqui sentado a
desafiar-me, assumindo abertamente o seu antagonismo.
- Então não sou muito popular em Roma - disse ele amuado.
- Francamente, António, tu não és nada popular, especialmente depois de teres
montado o cerco a Brundísio. Sentiste-te à vontade para me acusar de ter sido
eu a convencer Brundísio a recusar-te a entrada, mas sabes muito bem que não o
fiz. Porque o faria? Não ganho nada com isso! Tudo o que na realidade
conseguiste foi lançar Roma num frenesim de medo, à espera de que marches sobre
ela. O que não conseguirás fazer! As tuas legiões não to permitirão. Se queres
mesmo reabilitar a tua reputação terás que o fazer perante Roma e não perante
mim.
- Não me unirei a ti contra Sexto Pompeu, se é isso que estás a querer
insinuar. Só tenho uma centena de navios em Atenas - mentiu António. - O que
não chega para essa missão, já que tu não tens nenhum. Tal como as coisas
estão, Sexto Pompeu prefere-me a ti e não farei nada para o provocar. De
momento ele deixa-me em paz.
- Eu não achei que me irias ajudar - disse Octaviano calmamente. - Não, estava
a pensar em algo visível para todos os Romanos, do topo da escala até lá ao
fundo.
- O quê?
- Um casamento com a minha irmã, Octávia.
Deixando cair o queixo, António ficou a olhar para o seu carrasco. -Deuses!
- O que tem isso de tão estranho? - perguntou Octaviano suavemente e com um
sorriso. - Eu próprio acabei de celebrar uma aliança conjugal do mesmo género,
como estou certo de que saberás. Escribónia é muito agradável; uma boa mulher,
bonita, fértil... Espero que a minha união com ela mantenha Sexto Pompeu à
distância, pelo menos durante algum tempo. Mas ela não tem comparação possível
com Octávia, pois não? Estou a oferecer-te a sobrinha-neta de Divus Julius,
conhecida e amada por todos os estratos da população de Roma, tal como Júlia o
foi, linda de se ver, imensamente bondosa e atenciosa, uma esposa obediente e
mãe de três filhos, incluindo um rapaz. Tal como Divus Julius esperava que
acontecesse com a sua própria esposa, está acima de qualquer suspeita. Casa com
ela e Roma concluirá que não desejas qualquer mal à cidade.
- Porque chegaria Roma a essa conclusão?
- Porque ser cruel para uma personagem tão pública como Octávia faria de ti um
monstro aos olhos de todos os Romanos. Nem o mais estúpido de entre eles
apoiaria um tratamento cruel para Octávia.
- Compreendo. Sim, compreendo - disse António lentamente.

147

- Temos então um acordo?


- Temos um acordo.
Desta vez António apertou suavemente a mão de Octaviano.
O Pacto de Brundísio foi selado no décimo segundo dia de Outubro, na praça
principal da cidade e na presença de uma multidão excitada, alegre que, aos
vivas, atirou flores aos pés de Octaviano e conseguiu controlar-se o suficiente
para não cuspir aos pés de António. A sua perfídia não fora esquecida nem
perdoada, mas aquele dia significava uma vitória para Octaviano e para Roma.
Não iria haver outra guerra civil. O que agradava ainda mais às legiões
espalhadas em torno da cidade do que à própria Brundísio.
- Que achas então disto ? - perguntou Polião a Mecenas enquanto viajavam pela
Via Ápia acima num cabriole puxado por quatro mulas.
- Penso que César Octaviano é um mestre da intriga e um negociador muito melhor
do que eu próprio.
- Pensaste em oferecer a António a querida e amada irmã?
- Não, não! A ideia foi dele. Suponho que achei que a possibilidade de ele
concordar com uma tal coisa era tão remota que a ideia nunca me ocorreu sequer.
Depois quando ele me falou nisso no dia anterior ao seu encontro com António,
deduzi que me enviaria para fazer essa proposta... brrr! Fiquei todo a tremer!
Mas não. Foi ele lá pessoalmente e sem escolta.
- Ele não te podia enviar porque tinha de tratar da questão de homem para
homem. O que disse, só ele poderia dizer. Imagino que deva ter feito notar a
António que perdera o amor e o respeito da maioria dos Romanos. De uma forma
tal que António acreditou nele. O pequeno mentula engenhoso... desculpa! A...
doninhazinha manhosa, que ofereceu a António a oportunidade de reabilitar a sua
reputação casando com Octávia. Brilhante!
- Concordo - disse Mecenas imaginando Octaviano no papel de mentula ou de
doninha e sorrindo.
- Uma vez partilhei um cabriole com Octaviano - disse Polião numa voz
pensativa. - Numa viagem da Gália Italiana até Roma, após a constituição do
triunvirato. Ele tinha vinte anos, mas falava como um venerável consular. Sobre
o abastecimento de cereais e como a cadeia montanhosa dos Apeninos fazia com
que fosse mais fácil para Roma ir buscar os cereais à África e à Sicília do que
à Gália Italiana. Debitou números e estatísticas como se fosse o funcionário
público mais preguiçoso de que alguma vez tenhas ouvido falar. Só que ele não
estava a tentar livrar-se do trabalho, estava a avaliar o trabalho que achava
que tinha que ser feito. Sim, foi uma viagem memorável. Quando César fez dele o
seu herdeiro, pensei que em poucos meses estaria morto. Aquela viagem
demonstrou-me que me enganara. Ninguém o matará.

148

Foi Ácia que levou a notícia do seu destino a Octávia e fê-lo banhada em
lágrimas.
- Minha querida menina! - gritou pendurando-se no pescoço de Octávia. - O
ingrato do meu filho traiu-te! A ti! À única pessoa no mundo que eu pensava
estar a salvo das suas maquinações e da sua frieza!
- Mamã sê explícita por favor! - disse Octávia ajudando Ácia a sentar-se. - O
que é que o Pequeno Gaio me fez?
- Prometeu-te a Marco António! A um bruto que pontapeou a mulher! Um monstro!
Atordoada, Octávia deixou-se cair numa cadeira e ficou a olhar para a mãe.
António? Ela iria casar com Marco António? Ao choque seguiu-se um calor
agradável que lhe envolveu o corpo todo. Imediatamente baixou as pestanas para
esconder os olhos de Ácia que parara de chorar e começara a ferver.
-António! - gritou Ácia com força suficiente para que os criados viessem a
correr só para serem expulsos com impaciência. - António! Um labrego, um
cavador, um.. .um... oh, não há palavras para o descrever!
Entretanto Octávia pensava: Será que vou ter sorte finalmente e ter um homem
que desejo para marido? Obrigada, obrigada Pequeno Gaio!
-António! - rugiu Ácia a espumar nos cantos da boca. - Minha querida menina,
tens que arranjar coragem para dizer que não! Não a ele e não ao desgraçado do
meu filho!
Entretanto Octávia pensava: Sonhei com ele tanto tempo, sem esperança,
desolada. Nos velhos tempos, quando ele estava em Itália e vinha visitar
Marcelo, costumava arranjar pretextos para estar presente.
- António! - uivou Ácia, batendo com os punhos nos braços da cadeira, pum, pum,
pum! - É pai de mais bastardos do que qualquer outro homem na história de Roma!
Não tem nele um único grama de fidelidade!
Entretanto Octávia pensava: Eu costumava sentar-me a lavar nele os meus olhos e
a fazer sacrifícios a Spes para que nos visitasse de novo em breve. No entanto
tive sempre cuidado para não trair os meus sentimentos. E agora isto?
- António! - gemeu Ácia com as lágrimas a surgirem de novo à medida que a sua
impotência se ia impondo. - Eu poderia implorar até ao Verão, que o traidor do
meu filho não me daria ouvidos!
Entretanto Octávia pensava: Vou ser uma boa esposa para ele, vou ser o que ele
quiser que eu seja, não me queixarei das suas amantes nem lhe pedirei para o
acompanhar quando regressar ao Oriente. Tantas mulheres, todas mais experientes
do que eu! Ele vai cansar-se de mim, sei-o no meu íntimo. Mas, quando tudo
tiver acabado, nada me poderá roubar as memórias dos tempos passados com ele.

149

O amor compreende e o amor perdoa. Fui uma boa esposa para Marcelo e chorei-o
como é adequado a uma boa esposa. Mas rezarei a todas as deusas das mulheres de
Roma para que tenha tempo suficiente com António para me compensar o resto da
vida. Pois ele é o meu verdadeiro amor. Depois dele não poderá haver outro.
Ninguém...
- Pronto, mamã - disse em voz alta com os olhos bem abertos e brilhantes. -
Farei o que o meu irmão quer e casarei com Marco António.
- Mas tu não estás nas mãos de Gaio, tu és sui iuris! - depois Ácia reconheceu
a expressão daqueles magníficos olhos da cor de águas-marinhas e ficou de boca
aberta. - Ecastorl - exclamou com voz fraca. - Estás apaixonada por ele!
- Se o amor é desejar o seu toque e a sua estima, então devo estar - disse
Octávia. - Sabes quando é que isso acontecerá?
- Segundo Filipe me disse, António e o cruel do teu irmão firmaram um pacto em
Brundísio para não haver uma guerra civil. O país inteiro está louco de alegria
e portanto os dois decidiram transformar a viagem para Roma num autêntico
espectáculo. Pela Via Ápia acima até Teano e depois pela Via Latina. Parece que
não chegarão cá antes do fim de Outubro. O casamento deverá ser celebrado pouco
depois. - O rosto da mãe contorceu-se. - Oh, por favor minha querida filha,
recusa! Tu és sui iuris, tens o teu destino nas mãos!
-Aceitarei de bom grado, mamã, digas o que disseres para me demover. Eu sei
como António é e isso não me faz qualquer diferença. Ele terá sempre amantes,
mas nunca teve uma mulher satisfatória. Olha para elas - continuou Octávia,
entusiasmando-se. - Primeiro foi Fádia, a filha analfabeta de um comerciante de
tudo, de escravos a cereais. Nunca a conheci, evidentemente, mas parece que era
pouco atraente para além de burra. Mas António não se divorciou dela, só não ia
muito a casa. Ela deu-lhe um filho e uma filha, uns meninos inteligentes,
segundo dizem. António não pode ser responsabilizado por Fádia e os filhos
terem morrido de uma peste de Verão. Depois foi Antónia Híbrida, filha de um
homem que torturava os seus escravos. Dizem que Antónia Híbrida também
torturava os escravos, mas António curou-a desse vício "à pancada"... podes
condenar António por curar a mulher de um vício tão horrível? Recordo-me
vagamente dela e da criança também. A pobre rapariga era tão gorda e feia...
mas, o pior, é que era ligeiramente atrasada.
- Isso é o que dá casar com parentes - disse Ácia sombriamente. - Antónia Menor
já tem dezasseis anos, mas nunca vai arranjar marido, nem mesmo um de baixo
nascimento. - Ácia fungou. - As mulheres são umas idiotas! Antónia Híbrida caiu
na depressão quando António se divorciou dela, o que ele fez com palavras
cruéis. No entanto ela amava-o. É esse o destino que desejas? É?
- Quer Antónia Híbrida amasse ou não António, mamã, o facto é que não era uma
esposa interessante. Já Fúlvia, apesar de todos os seus defeitos, era-o. Os
problemas dela atribuo-os ao facto de ter dinheiro em demasia, esse tal
estatuto sui iuris que não paras de me lançar à cara, e ao primeiro marido
dela, Públio Clódio.

150

Ele encorajou-a a andar à solta no Fórum e a ter o tipo de comportamento que


merece reprovação nas mulheres bem-nascidas. Mas ela só piorou depois de
Filipos, quando descobriu que António estaria permanentemente no Oriente
durante anos e que não planeava fazer nenhumas viagens a Roma. O liberto dela,
Mânio, afectou-a, trabalhou-a. E ao Lúcio António. Mas foi ela quem pagou por
isso e não Lúcio.
- Estás determinada a arranjar desculpas - disse Ácia, suspirando.
- Não são desculpas, mamã. Onde eu quero chegar é que nenhuma das mulheres de
António foi uma boa esposa. Tenciono ser uma mulher perfeita, do tipo que
Catão, o Censor, teria aprovado, esse velho horrendo e preconceituoso. Os
homens têm as prostitutas e as amantes para o prazer físico, o tipo de alívio
que não podem obter junto das esposas, pois estas não devem saber como agradar
fisicamente a um homem. As mulheres que sabem de mais sobre as formas de dar
prazer a um homem tornam-se suspeitas. Como esposa virtuosa não serei diferente
nem me darei melhor do que qualquer uma das outras. Mas certificar-me-ei de que
sempre que vir António serei uma confidente interessada para além de uma boa
companhia. Afinal cresci numa casa de políticos, ouvi homens como Divus Julius
e Cícero e sou muitíssimo bem-educada. Serei também uma mãe maravilhosa para os
filhos dele.
- Tu já és uma mãe maravilhosa para os filhos dele! - ripostou Ácia amargamente
depois de ouvir tudo aquilo com desespero. - Suponho que assim que te casares
vais exigir tomar conta daquele rapaz terrível, Gaio Curião? Ele vai dar-te
cabo da vida!
- Ainda não nasceu a criança que eu não consiga domar - disse Octávia. Ácia
levantou-se contorcendo as mãos nodosas e aleijadas.
- Vou dizer-te uma coisa, Octávia, não és tão ingénua como eu pensava. Talvez
haja em ti mais de Fúlvia do que aquilo que pensas.
- Não, sou bastante diferente - disse Octávia sorrindo -, embora perceba o que
estás a tentar dizer. Do que te esqueces, mamã, é que eu sou irmã do Pequeno
Gaio, o que significa que sou uma das mulheres mais inteligentes que Roma já
produziu. A qualidade da minha mente deu-me uma autoconfiança que a minha vida
até aqui não revelou a ninguém, nem a Marcelo nem a ti. Mas o Pequeno Gaio sabe
muito bem do que eu sou feita. Pensas que ele não sabe o que eu sinto por Marco
António? Não escapa nada ao Pequeno Gaio! Sobretudo se for alguma coisa que ele
possa usar para beneficiar a sua carreira. Ele ama-me, mamã. Isso devia
explicar-te tudo. O Pequeno Gaio forçar-me a um casamento que eu não quisesse?
Não, mamã, não.
Ácia suspirou.
- Bem, já que aqui estou, gostaria de ver os ocupantes do teu quarto das
crianças antes que o número aumente ainda mais. Como está a pequena Márcia?
- A começar a revelar a sua verdadeira natureza. Muito senhora de si. Ela não
será forçada a um casamento que lhe desagrade!

151

- Ouvi rumores de que Escribónia está grávida.


- Eu também. Que maravilha! A Cornélia dela é uma rapariga simpática, portanto
acho que esta criança também será bem-disposta.
- Bem, ainda é demasiado cedo para ela saber se está grávida de um rapaz ou de
uma rapariga - disse Ácia alegremente enquanto se encaminhava na direcção de
choros de bebés, risos de crianças muito pequenas e das discussões de crianças
um pouco maiores. - Se bem que eu deseje uma rapariga por causa do Pequeno
Gaio. Ele tem uma opinião tão elevada de si próprio que não gostará de ter um
herdeiro macho de uma mãe como Escribónia. Assim que puder divorciar-se-á dela.
Graças aos deuses pela proximidade do quarto das crianças! Estamos demasiado
próximas de terrenos perigosos, pensou Octávia. Pobre mamã, sempre na periferia
da vida do Pequeno Gaio, invisível e nunca mencionada.
Quando a comitiva chegou a Roma, já Marco António estava muito bem-disposto. A
recepção das multidões que enchiam as estradas ao longo de todo o caminho fora
extasiante: na verdade fora de tal forma extasiante que ele começava a pensar
se Octaviano não teria exagerado a sua impopularidade. Uma suspeita agravada
quando todos os senadores que se encontravam em Roma naquele momento
apareceram, com toda a pompa, não para receber Octaviano mas a ele. O problema
era que não conseguia ter a certeza; também havia muitos sinais do alívio de
Itália e de Roma pela diminuição da ameaça de guerra civil. Talvez fosse o
Pacto de Brundísio o que trazia todos aqueles simpatizantes confiantemente para
o seu lado. Se tivesse podido andar disfarçado por Itália e por Roma um mês
antes, talvez tivesse ouvido palavras desapontadas e insultos ao seu nome.
Assim, pairava entre a dúvida e a exultação, num equilíbrio perfeito,
amaldiçoando Octaviano em voz baixa por uma questão de hábito.
A perspectiva do casamento com a irmã de Octaviano não o preocupava; pelo
contrário, contribuía para o seu bom humor. Apesar de os seus olhos jamais, por
sua iniciativa, terem visto nela uma potencial esposa, sempre gostara dela e
achava-a fisicamente atraente e chegara mesmo a invejar o seu amigo Marcelo por
ter tido a sorte de se casar com ela. Soubera por Octaviano que ela recolhera
Antilo e Iulius após a morte de Fúlvia, o que reforçava a sua impressão de que
ela era tão boa pessoa como o seu irmão era má pessoa. Isso acontecia
frequentemente nas famílias - era só compará-lo a si próprio com Gaio e Lúcio.
Todos eles tinham o físico antoniano mas este era prejudicado, no caso de Gaio,
pelo arrastar dos pés e, no de Lúcio, pela careca; só ele recebera a esperteza
dos Julianos. Apesar de espalhar a sua semente incautamente, António gostava
dos filhos que conhecia e acabara de ter uma ideia brilhante relativamente a
Antónia Menor, de quem tinha pena de uma forma distante.

152

Na verdade os filhos ocuparam-lhe ainda mais o espírito do que era costume


quando chegou de Roma, pois aguardava-o uma carta de Cleópatra.
Caríssimo António, escrevo-te nos Idos de Sextilis, com um clima tão ameno que
desejaria ter-te aqui para o poderes desfrutar comigo - e com Cesarião que te
manda o seu amor e desejos de felicidades. Ele está a crescer imenso e muito
rapidamente e o seu contacto com homens romanos, especialmente contigo, foi-lhe
muito benéfico. Actualmente anda a ler Políbio e pôs de parte as cartas de
Cornélia a Mãe dos Gracos - não falavam de guerras nem de nada excitante. Claro
que sabe de cor os livros do pai.
Não sei bem onde é que esta carta te apanhará, mas acabará por te chegar às
mãos. Oiço dizer que estás em Atenas e, momentos depois, oiço que estás em
Éfeso ou até mesmo em Roma. Não interessa. Esta carta serve para te agradecer o
facto de teres dado a Cesarião um irmão e uma irmã. Sim, dei à luz gémeos! Há
gémeos na tua família? Na minha não há. Estou maravilhada, como é evidente. De
uma só vez asseguraste a sucessão e providenciaste uma esposa para o Cesarião.
Não espanta que o Nilo tenha subido bem alto nos Cúbitos da Abundância!
Como ela me conhece bem, pensou para consigo. Sabe que eu não leio cartas
compridas por isso a dela é curta. Bem, bem! Cumpri o meu dever
esplendidamente. Logo dois, um par de pombinhos. Mas para ela não passam de
complementos para valorizar Cesarião. A paixão dela pelo filho de César não
conhece limites.
Escreveu-lhe rapidamente uma carta.
Cara Cleópatra, que notícia magnífica! Não apenas um mas dois pequenos
Antonianos para andarem atrás do irmão mais velho, Cesarião, da mesma maneira
que os meus irmãos andavam atrás de mim. Vou casar com a irmã de Octaviano,
Octávia, muito em breve. É uma mulher muito simpática e também muito bonita.
Alguma vez estiveste com ela em Roma? Resolveu os meus problemas com Octaviano,
de momento, e pacificou o país que não suportaria mais uma guerra civil. E,
pelo que me disse Mecenas, o Octaviano também não. Isso deveria significar que
eu poderia marchar e esmagar Octaviano, mas os soldados fazem parte desta
conspiração nacional para ilegalizar a guerra civil. Os meus recusam-se a
combater os dele e os dele recusam-se a combater os meus. Sem tropas dispostas
a combater, o general é tão impotente como um eunuco num harém. Por falar em
potência, um dia destes temos que dar mais uma cambalhota entre os papiros. Se
eu ficar aborrecido sou capaz de aparecer em Alexandria para um pouco de vida
inimitável.

153

Pronto. Aquilo servia. António despejou um pouco de cera vermelha derretida no


fundo da folha única de papel faniano e encostou nela o seu anel de sinete:
Hércules Invicto no meio, IMP M. ANT. TRI. na cercadura. Mandara-o fazer após
aquela conferência na ilha fluvial na Gália Italiana. Aquilo por que ansiava
era uma oportunidade de transformar M. ANT. em DIV ANT. para Divus Antonius,
mas isso não era provável que acontecesse enquanto Octaviano fosse vivo.
É claro que tinha que aparecer na domus Hortênsia, para a festa dos seus
homens, antes do casamento e achou a complacência de Octaviano de tal forma
irritante que não conseguiu evitar e teve que atacá-lo com um veneno
revigorante. - Qual é a tua opinião de Salvidieno? - perguntou ao anfitrião.
Octaviano pareceu es^.tado ao ouvir o nome. Acho mesmo que ele é um maricas
secreto, pensou António.
- O melhor dos sujeitos! - exclamou Octaviano. - Está a sair-se muitíssimo bem
na Gália Ulterior. Assim que ele puder dispor delas, terás as tuas cinco
legiões. Os Belóvacos andam a causar muitos problemas.
- Oh, eu sei disso muito bem. Mas que idiota que tu és, Octaviano! - disse
António com desdém. - O melhor dos sujeitos anda em negociações comigo para
trocar de lado na nossa guerra inexistente e tem-no feito praticamente desde
que chegou à Gália Ulterior.
O rosto de Octaviano não deixou transparecer nada, nem espanto nem horror;
mesmo quando a sua expressão se iluminara de afecto por Salvidieno, os olhos
não tinham participado verdadeiramente. Alguma vez participariam?, pensou
António incapaz de se recordar de uma única vez em que tivesse testemunhado
esse facto. Os olhos nunca deixavam transparecer o que ele pensava realmente
acerca do que quer que fosse. Limitavam-se a... olhar. Observavam o
comportamento de toda a gente, incluindo dele próprio, como se estivessem,
juntamente com a mente que tinham por detrás, a vinte passos de distância do
corpo. Como podiam duas órbitas tão luminosas ser tão opacas?
Octaviano falou com facilidade, num tom que chegava mesmo a ser desafiador.
- Consideras então, António, que essa conduta é uma traição?
- Depende do ponto de vista: transferir a lealdade de um romano de boa posição
para outro romano de igual posição poderá ser... ah... traiçoeiro, mas não é
uma traição. No entanto, se esse género de conduta tiver por objectivo incitar
a uma guerra civil entre esses dois iguais, então estamos em definitivo perante
uma traição - disse António divertindo-se.
-Tens alguma prova palpável que sugira que Salvidieno deva ser levado a
julgamento por maiestas?
- Talentos de provas.

154

- Estarias disposto, se tal te fosse pedido, a entregar essas provas para


julgamento?
- Evidentemente - disse António com surpresa fingida. - É o meu dever para com
um colega triúnviro. E se ele for condenado, ficas com menos um belo comandante
de tropas... uma sorte para mim, hem? Se houvesse uma guerra civil, quero eu
obviamente dizer. Porque eu não o alistaria nas minhas fileiras, Octaviano,
muito menos o teria como meu legado. Foste tu quem disse que os traidores
podiam ser úteis mas nunca amados ou merecedores de confiança ou foi o teu
divino papá?
- Não interessa quem o disse. Salvidieno tem que desaparecer.
- Para a outra margem do Estige ou para o exílio perpétuo?
- Para a outra margem do Estige. Após um julgamento no Senado, creio. Não nas
comitia... seria demasiado público. No Senado e à porta fechada.
- Bem pensado! Mas difícil para ti, ainda assim. Vais ter que enviar Agripa
para a Gália Ulterior, agora que esta é oficialmente parte do teu triunvirato.
Se essa província fosse minha, poderia escolher entre vários: Polião, por
exemplo. Assim vou enviar Polião para substituir Censorino na Macedónia, enviar
Ventídio para manter Labieno e Pácoro controlados até eu poder tratar
pessoalmente dos Partos - disse António escarafunchando na ferida.
-Não há absolutamente nada que te impeça de tratar pessoalmente deles já!
-disse Octaviano causticamente. - O que te impede? O receio de te afastares
demasiado de mim, de Itália e de Sexto Pompeu por esta ordem?
- Tenho boas razões para me manter por perto dos três!
- Não tens razão nenhuma! - ripostou Octaviano. - Não te declararei guerra em
circunstância nenhuma, se bem que entrarei em guerra com Sexto Pompeu assim que
puder fazê-lo.
- O nosso pacto proíbe-o.
- Uma gaita é que proíbe! Sexto Pompeu foi declarado inimigo público, registado
nas tábuas como hostis... uma lei que tu também votaste, recordas-te? Não é o
governador da Sicília nem de nenhuma outra terra, é um pirata. Enquanto curator
annonae de Roma é meu dever persegui-lo. Ele impede a livre circulação dos
cereais.
Apanhado de surpresa pela temeridade de Octaviano, António decidiu terminar a
conversa, se é que se podia chamar conversa àquilo.
- Boa sorte - disse ironicamente e afastou-se na direcção de Paulo Lépido para
confirmar o boato de que Lépido, o irmão do triúnviro, estava prestes a casar
com a filha de Escribónia, Cornélia. Se tal for verdade ele deve achar-se um
sujeito muito matreiro, pensou António, mas isso em nada lhe aproveitará, a não
ser no que respeita o seu enorme dote. Octaviano divorciar-se-á de Escribónia
assim que tiver derrotado Sexto, o que significa que eu tenho que garantir que
esse dia nunca chegará. Dêem a Octaviano uma grande vitória e toda a Itália o
adorará.

155

Terá o vermezinho consciência de que a razão por que me mantenho perto de


Itália é para conservar o nome de Marco António vivo aos olhos dos Italianos? É
claro que tem. Octaviano gravitou para junto de Agripa.
- Estamos outra vez com problemas - disse pesarosamente. - António acaba de me
dizer que o nosso querido Salvidieno tem estado em contacto com ele desde há
meses com vista a trocar de lealdades. - Os seus olhos estavam de um cinzento--
escuro. - Confesso que a notícia foi um golpe para mim; Não pensei que
Salvidieno fosse tão idiota.
- É a jogada lógica para ele, César. Ele é um ruivo de Piceno... quando é que
homens desses foram merecedores de confiança? Morre de vontade de se tornar num
peixe maior num mar mai^ "isto.
- Isto significa que te vou enviar para governares a Gália Ulterior. Agripa
ficou chocado.
- César, não!
- Quem mais posso mandar? E isso também significa que não posso avançar contra
Sexto Pompeu tão depressa. A sorte está com António, como sempre.
- Posso ir aos estaleiros entre Cosa e Génova enquanto viajo, mas a partir de
Génova estarei na Via Emília Escaura para Placência... não terei tempo para ir
sempre pela costa. César, César, passarão dois anos antes que eu possa
regressar a casa, se quiser fazer o trabalho convenientemente!
- Tens que o fazer convenientemente. Não quero mais levantamentos entre os
Cabelos Compridos e acho que Divus Julius estava errado ao deixar que os
druidas continuassem como dantes. Parecia que não faziam outra coisa senão
semear o descontentamento.
- Concordo. - O rosto de Agripa animou-se. - Tenho uma ideia para manter os
Belgas na ordem.
- Qual é? - perguntou Octaviano com curiosidade.
- Instalar bandos de Germanos Úbios na margem gaulesa do Reno. Todas as tribos,
dos Nérvios aos Tréveros, andarão tão ocupadas a tentar empurrar os Germanos
para a margem deles que não terão tempo para se revoltar. - Ficou pensativo. -
Adoraria imitar Divus Julius e entrar na Germânia!
Octaviano começou a rir à gargalhada.
- Agripa, se queres dar uma lição aos Germanos Suevos, tenho a certeza de que o
conseguirás. Por outro lado, precisamos dos Úbios, portanto, porque não
oferecer-lhes melhores terras? Eles são as melhores tropas de cavalaria que
Roma já teve. Tudo o que te posso dizer, meu querido amigo, é que estou muito
contente por me teres escolhido. Posso suportar a perda de centenas de
Salvidienos, mas nunca poderia suportar a perda do meu absolutamente único
Marco Agripa.

156
Agripa resplandeceu de orgulho e estendeu impulsivamente a mão cerrando-a em
torno do braço de Octaviano. Ele sabia que seria leal a César até à morte, mas
adorava ver César reconhecê-lo por palavras ou actos.
- Mas o mais importante é quem irás usar enquanto eu estiver na Gália Ulterior?
- Estatílio Tauro, evidentemente. Sabino, suponho. Calvino, claro. Cornélio
Galo é esperto e de confiança, desde que não ande às voltas com um poema.
Carrinate vai para a Hispânia.
- Apoia-te mais em Calvino - foi o comentário de Agripa.
Tal como Escribónia, Octávia não achava certo usar cor de fogo e açafrão no
casamento. Sendo uma mulher de bom gosto, escolheu a cor que sabia ficar-lhe
melhor, um turquesa pálido e, com o vestido magnificamente drapejado, usava um
colar esplêndido e os brincos que António lhe oferecera quando fora a casa do
falecido Marcelo Menor para a visitar, no dia anterior à cerimónia.
- Oh, António, que lindos! - arfou ela admirando-os, extasiada. Feito de ouro
maciço, o colar assentava completamente sobre a pele, como se fosse uma gola
achatada com pendentes de turquesas lindas. - As pedras não têm quaisquer
manchas que lhe obscureçam o azul.
- Pensei nelas quando me lembrei da cor dos teus olhos - disse António
satisfeito com o agrado evidente dela. - Cleópatra ofereceu-mas para dar a
Fúlvia.
Ela não desviou o olhar nem deixou que o brilho esmorecesse naqueles olhos
muito admirados.
- São verdadeiramente belas - disse ela pondo-se em bicos de pés para o beijar
na face. - Usá-las-ei amanhã.
- Suspeito - continuou António descuidadamente -, que não estavam à altura dos
padrões de Cleópatra no que respeita a jóias... ela recebe muitos presentes.
Poder-se-ia por isso dizer que me deu as sobras. Eu não tenho o dinheiro que
ela tem - acrescentou com amargura. - Ela é... oh, desculpa.
Octávia sorriu da mesma maneira que sorria ao pequeno Marcelo quando este se
portava mal.
- Podes ser libertino à vontade, António. Eu não sou uma jovem donzela ingénua.
- Não te importas de casar comigo? - perguntou ele por achar que era seu dever
fazê-lo.
- Há muitos anos que te amo do fundo do coração - disse ela não fazendo
qualquer tentativa de dissimular as suas emoções. Havia um instinto que lhe
dizia que ele gostava de ser amado e que isso o predispunha a retribuir o amor
e era isso o que ela queria desesperadamente.
- Nunca pensei numa coisa dessas! - disse ele espantado.

157

- Claro que não. Eu era a esposa de Marcelo e fiel aos meus votos. Amar-te era
algo apenas meu, uma coisa independente e íntima.
Ele sentiu o aperto familiar na barriga, a reacção visceral que o avisava de
que estava a ficar apaixonado. E a Fortuna estava do seu lado, até mesmo nisto.
No dia seguinte Octávia seria sua. Não precisaria de se preocupar com a
possibilidade de ela olhar para outro homem se não tinha olhado para ele
durante os sete anos em que pertencera a Marcelo Menor. Não que alguma vez
tivesse tido esse tipo de preocupação relativamente a qualquer uma das suas
mulheres: as três tinham-lhe sido fiéis. Mas esta quarta era a cereja no topo
do bolo. Serena, polida e elegante, de sangue juliano, uma princesa
republicana. Um homem teria que estar morto para não ser tocado por ela.
Curvou a cabeça e beijou-a na boca com uma fome súbita por ela. O beijo foi
retribuído com uma sensação de desfalecimento, mas antes que ele a pudesse
incendiar, ela interrompeu o beijo e afastou-se.
- Amanhã - disse ela. - Agora vem ver os teus filhos.
O quarto das crianças não era muito grande e, à primeira vista, parecia estar a
transbordar de crianças pequenas. O seu olhar arguto de soldado contou seis que
andavam de um lado para o outro e um a baloiçar-se num berço. Uma menina loira
adorável, com cerca de dois anos, deu um pontapé violento na canela de um
rapazinho moreno e bonito com perto de cinco anos. Ele retribuiu imediatamente
com um estalo e um empurrão com a palma da mão que a fez cair de rabo no chão
com um baque audível a que se sucederam os gritos do pranto.
- Mamã. Mamã!
- Se distribuis dor, Márcia, só podes esperar recebê-la de volta - disse
Octávia sem qualquer sinal de simpatia. -Agora pára com a choradeira ou dou-te
um estalo por teres começado o que não consegues acabar.
Os outros quatro, três com mais ou menos a mesma idade do rapazinho e outro
ligeiramente mais novo do que a desordeira loira, tinham observado António e
estavam de boca aberta, tal como Márcia a pontapeadora e a sua vítima, que
Octávia apresentou como sendo Marcelo. Aos cinco anos Antilo tinha uma vaga
memória do pai, mas não tinha bem a certeza se aquele gigante era mesmo o pai,
até Octávia lhe ter garantido que era. Ele limitou-se então a ficar a olhar,
demasiado assustado para estender os braços para um abraço. lulius, que ainda
não completara os dois anos, rebentou em pranto quando o gigante avançou para
ele. Rindo, Octávia pegou-lhe ao colo e entregou-o a António que rapidamente o
fez sorrir. Assim que tal aconteceu, Antilo estendeu os braços para ser
abraçado e também foi pegado ao colo.
- São uns rapazinhos bem-parecidos, não são? - perguntou ela. - Vão ser tão
grandes como tu quando crescerem. Uma parte de mim mal pode esperar para ver
qual será o seu aspecto de couraça epteryges, mas outra parte de mim receia
esse momento, pois tal significará que já não estarão sob os meus cuidados.

158

António respondeu qualquer coisa de uma forma ausente; era Márcia que o
intrigava. Márcia? Márcia? De quem era ela e porque chamaria mamã a Octávia?
Apesar de ter reparado que Antilo e Iulius também lhe chamavam mamã. O bebé no
berço, tão loiro como Márcia, era a filha mais nova dela, Celina, segundo lhe
disseram. Mas a quem pertencia Márcia? Tinha o ar juliano e, não fora isso,
teria imaginado tratar-se de uma prima filipina resgatada a um qualquer destino
cruel por aquela mulher obcecada por crianças. Pois era evidente que aquilo era
uma obsessão.
- Por favor, António, posso ficar com o Curião? - perguntou Octávia com um
olhar implorante. - Achei que não poderia trazê-lo sem a tua autorização, mas
ele precisa muitíssimo de estabilidade e de supervisão. Tem quase onze anos e
está muito desencabrestado.
António pestanejou.
- Podes ficar com o fedelho, Octávia, mas porque haverias de te querer
sobrecarregar com mais uma criança?
- Porque ele é infeliz e nenhum rapaz da sua idade deveria ser infeliz. Tem
saudades da mamã dele, ignora o seu pedagogo, um homem muito tonto e
desadequado, e passa a maior parte do tempo no Fórum a meter-se em trabalhos.
Mais um ou dois anos e andará a roubar bolsas.
António sorriu.
- Bem, o pai dele e meu amigo fez muito disso no seu tempo! Curião, o Censor,
pai do pai dele, era um autocrata mesquinho e unhas-de-fome que costumava
prender Curião. Eu soltava-o e armávamos o caos. Talvez tu sejas aquilo de que
Curião precisa.
- Oh, obrigada! - Octávia fechou a porta do quarto das crianças sob um coro de
protestos; aparentemente ela costumava demorar-se mais quando lá ia e as
crianças culpavam o gigante pela sua partida, até mesmo Antilo e Iulius.
- Quem é exactamente a Márcia? - perguntou.
- É a minha meia-irmã. A mamã teve-me a mim, a sua primeira filha, aos dezoito
anos e a Márcia aos quarenta e quatro.
- Queres dizer que ela é da Ácia e do Filipe Júnior?
- Sim, claro. Veio viver comigo quando a mamã deixou de conseguir cuidar dela
convenientemente. As articulações da mamã estão inchadas e provocam-lhe dores
horríveis.
- Mas o Octaviano nunca mencionou a sua existência! Eu sei que ele faz de conta
que a mãe morreu, mas uma meia-irmã! Deuses! É ridículo!
- Duas meias-irmãs, na realidade. Não te esqueças de que o nosso pai teve uma
filha da primeira mulher. Tem agora quarenta e tal anos.
- Sim, mas...! - António não parava de abanar a cabeça como um boxeur que
recebesse demasiados golpes seguidos.

159

- Ora, António, tu conheces o meu irmão! Apesar de o amar muito, consigo ver os
seus defeitos. Ele tem demasiada consciência do seu estatuto para desejar uma
meia-irmã vinte anos mais nova... é muito pouco digno! Além disso acha que Roma
não o levará a sério se a sua juventude for sublinhada por uma irmã bebé do
conhecimento geral. E também não ajuda o facto de a Márcia ter sido concebida
tão pouco tempo depois da morte do nosso pobre padrasto. Roma há muito que
perdoou à mamã a sua indiscrição, mas César nunca o fará. Além disso a Márcia
veio viver comigo antes de saber andar e as pessoas perdem a conta. - Riu-se. -
Quem conhece os ocupantes do meu quarto de crianças parte do princípio de que
ela é minha porque é parecida comigo.
- Gostas assim tanto de crianças?
- Gostar é um termo demasiado fraco, demasiado usado e abusado. Eu daria,
literalmente, a minha vida por uma criança.
- Sem quereres saber de quem era a criança.
- Precisamente. Sempre acreditei que as crianças são uma oportunidade para as
pessoas fazerem algo de heróico com as suas vidas... para tentarem fazer com
que os seus erros sejam corrigidos e não repetidos.
Na manhã seguinte os criados do falecido Marcelo Menor levaram as crianças para
o palácio de mármore de Pompeu, o Grande, nas Carinas e aqueles, condenados a
ficar a cuidar da casa de Marcelo Menor, choravam por perderem a senhora
Octávia. A casa agora entregue aos seus cuidados pertencia ao pequeno Marcelo,
mas ele não poderia lá viver durante muitos anos. António, que era o executor
do testamento, decidira não a arrendar por enquanto, mas o seu secretário,
Lucílio, era um supervisor e encarregado muito severo. Não haveria
oportunidades para mandriar e deixar que a casa se degradasse.
Ao crepúsculo, António atravessou a soleira do palácio de Pompeu com a noiva
nos braços; aquela casa testemunhara o dia em que Pompeu entrara pela porta com
Júlia ao colo para seis anos paradisíacos que terminaram com a sua morte a dar
à luz. Que esse possa não ser o meu destino, pensou Octávia, sem fôlego,
perante a facilidade com que o marido a pegara ao colo e depois a pousara para
receber a água e o fogo, passar as mãos por ambos os elementos e assumir assim
o seu estatuto de senhora da casa. Aquilo que lhe parecia ser uma centena de
criados observava, suspirando e murmurando, e depois aplaudindo suavemente. A
reputação da senhora Octávia como sendo uma mulher muitíssimo bondosa e
compreensiva precedera-a. Os mais velhos entre eles, em especial o mordomo,
Egon, sonhava com a possibilidade de a casa voltar a florescer como acontecera
sob a égide de Júlia; para eles Fúlvia fora exigente mas desinteressada dos
assuntos domésticos.

160

Não escapara a Octávia o facto de o seu irmão ostentar uma expressão satisfeita
e complacente, embora a razão para tal lhe escapasse. Sim, ele esperava sanar a
disputa ao organizar aquele casamento, mas o que poderia ganhar se este
falhasse, tal como aqueles que assistiam à cerimónia pensavam, no seu íntimo,
que aconteceria? E mais assustador ainda era o pressentimento de Octávia de que
César estava a contar com o seu colapso. Bem, jurou ela, não falhará por minha
causa!
A sua primeira noite com António foi de prazer absoluto, um prazer muito maior
do que aquele que obtivera em todas as noites juntas passadas com Marcelo
Menor. Que o seu novo marido gostava de mulheres era uma evidência pela maneira
como a tocava e murmurava o seu próprio prazer por estar junto a ela.
Conseguiu, sem que ela soubesse como, despi-la dos preconceitos e inibições de
uma vida inteira, acolheu de bom grado as carícias dela e os pequenos gemidos
de prazer e espanto e deixou-a explorá-lo como se tal nunca lhe tivesse
acontecido. Para Octávia ele era o amante perfeito, sensual e voluptuoso e não,
como esperara, preocupado apenas com os seus próprios desejos. Palavras de amor
e gestos de amor fundiram--se num contínuo incendiário de um êxtase tão
maravilhoso que ela chorou. Quando adormeceu, num sono atordoado e enlevado,
ela já teria morrido por ele com a mesma alegria com que o faria por uma
criança.
E na manhã seguinte apercebeu-se de que António ficara igualmente afectado;
quando ela tentou levantar-se para ir tratar dos seus afazeres, recomeçou tudo
de novo, mas com uma beleza ainda maior, devido ao ligeiro sentimento de
familiaridade e de maneira mais satisfatória devido à maior consciência das
suas necessidades quê ele ficava satisfeito por satisfazer.
Oh, excelente!, pensou Octaviano quando viu o casal dois dias mais tarde num
jantar oferecido por Gneu Domício Calvino. Tinha razão, são tão diferentes que
se encantaram mutuamente. Agora só me resta aguardar que ele se canse dela. E
isso acontecerá. Acontecerá! Tenho que fazer um sacrifício a Quirino para que
ele a deixe por um amor estrangeiro e não por um amor romano e a Júpiter Máximo
Óptimo para que Roma lucre com o seu inevitável desencanto da minha irmã. Olhem
para ele, escorrendo amor, besuntado de amor! Tão cheio de sentimentalismo como
uma rapariga de quinze anos. Como desprezo as pessoas que sucumbem a uma doença
tão trivial e repelente! Tal nunca acontecerá comigo, disso estou certo. A
minha mente governa as minhas emoções, não sou vulnerável a esta coisa melada.
Como pode Octávia cair nas pantominas dele? Ela vai mantê-lo em êxtase durante
pelo menos dois anos, mas mais do que isso... é muito pouco provável. A sua
bondade e natureza doce são uma novidade para ele, mas como ele não é nem doce
nem tem bom feitio, o seu fascínio pela virtude empalidecerá e depois passará,
numa tempestade de repulsa tipicamente antoniana.

161

Trabalharei infatigavelmente para espalhar a notícia do seu casamento pelos


quatro cantos do mundo e ordenarei aos meus agentes que falem do assunto
incessantemente em todas as cidades, vilas e municipium de Itália e da Gália
Italiana. Até agora eles têm-se dedicado à defesa da minha posição, enumerando
as perfídias de Sexto Pompeu, descrevendo a indiferença de Marco António
relativamente às dificuldades por que passa a sua terra natal. Mas durante o
próximo Inverno eles deixarão de o fazer para entoarem louvores, não a este
casamento em si, mas à senhora Octávia, irmã de César e a personificação de
tudo aquilo que uma matrona romana deve ser. Erguer-lhe-ei estátuas, tantas
quantas puder pagar e continuarei a fazê-lo até a península gemer sob o seu
peso. Ah, já estou a imaginar! Octávia, casta e virtuosa como Lucrécia a
desonrada; Octávia, mais digna de respeito do que uma Virgem Vestal; Octávia,
domadora de Marco António, o arruaceiro irresponsável; Octávia, aquela que,
sozinha, salvou o seu país dos horrores de uma guerra civil. Sim, Octávia
Pudica terá que ficar com todo o crédito! Quando os meus agentes derem a tarefa
por terminada, Octávia Pudica estará tão próxima de ser uma deusa como Cornélia
a Mãe dos Gracos! E, quando António a abandonar, todos os Romanos e os
Italianos o condenarão como a um bruto, um monstro sem coração governado pela
lascívia.
Oh, se ao menos eu pudesse ver o futuro! Se ao menos eu conhecesse a identidade
da mulher por quem António renunciará a Octávia Pudica! Sacrificarei a todos os
deuses romanos para que seja alguém que os Romanos e os Italianos possam odiar,
odiar, odiar. Se possível, que permita transferir a culpa do comportamento de
António para a influência dela sobre ele. Fá-la-ei tão perversa como Circe, tão
vaidosa como Helena de Tróia, tão maligna como Medeia, tão cruel como
Clitemnestra, tão letal como Medusa. E, se ela não for como nenhuma delas, fá-
la-ei parecer-se com todas elas. Enviarei os meus agentes numa campanha de
rumores, criarei um demónio a partir dessa mulher desconhecida da mesma forma
que estou prestes a criar uma deusa a partir da minha irmã.
Há mais maneiras de derrubar um homem do que entrar em guerra com ele - isso é
um grande desperdício de vidas e de prosperidade! Custa demasiado dinheiro!
Dinheiro que deve ser empregue para maior glória de Roma.
Tem cuidado comigo, António! Mas não terás, pois achas-me incompetente e
efeminado. Não sou Divus Julius, mas sou um herdeiro digno do seu nome. Fecha
os olhos, António, sê cego. Vou apanhar-te, mesmo tendo que pagar o preço da
felicidade da minha irmã. Se Cornélia a Mãe dos Gracos não tivesse tido uma
vida cheia de sofrimentos e desapontamentos, as mulheres de Roma não iriam pôr
flores no seu túmulo. O mesmo acontecerá com Octávia Pudica.

162

Maravilhada pela visão dos triúnviros António e Octaviano a passearam juntos


como velhos e queridos amigos, Roma alegrou-se nesse Inverno, proclamando-o
como o início da Idade de Ouro que os videntes não paravam de insistir que
estava a bater à porta da humanidade. Com a ajuda do facto de tanto a mulher do
triúnviro António como a mulher do triúnviro Octaviano estarem grávidas. Tendo
subido tão alto no éter da transformação criativa que não sabia como havia de
voltar à terra, Virgílio escreveu a sua Quarta Écloga predizendo o nascimento
da criança que salvaria o mundo. Os mais cínicos andavam a fazer a aposta
relativamente a quem seria a Criança escolhida, o filho do triúnviro António ou
o filho do triúnviro Octaviano e ninguém se deteve para pensar na possibilidade
de serem filhas. A Décima Era não seria anunciada por uma rapariga, isso era
certo.
Não que tudo estivesse bem. O julgamento secreto de Quinto Salvidieno Rufo foi
muito falado, ainda que mais ninguém a não ser os membros do Senado conhecessem
as provas apresentadas e o que Salvidieno dissera e a forma como os seus
advogados tinham conduzido a defesa. O veredicto foi chocante; tinha decorrido
um período relativamente longo desde que o último romano fora executado por
traição. Imensas condenações ao exílio, sim, listas de proscrições, sim, mas
não um julgamento formal no Senado que tivesse decretado a pena de morte que
não podia ser aplicada a nenhum cidadão romano, daí a farsa de o despojar
primeiro da cidadania e só depois da cabeça. Tinha existido um tribunal para
julgar as traições e, apesar de não funcionar havia alguns anos, continuava a
existir oficialmente. Então para quê tanto segredo no Senado?
Mal o Senado se tinha livrado de Salvidieno, Herodes foi visto a exibir as suas
vestes douradas e de púrpura de Tiro pelas ruas de Roma. Instalou-se na
estalagem à esquina do Clivus Orbius, a hospedaria mais cara da cidade, de
onde, a partir da melhor suite de quartos, começou a distribuir a sua
generosidade por certos senadores necessitados. A sua petição para ser nomeado
rei dos Judeus foi devidamente apresentada no Senaculum, perante uma sessão
senatorial que ultrapassava ligeiramente o quórum apenas devido à sua
generosidade liberal e à presença de Marco António a seu lado. Tudo aquilo não
passava de uma mera hipótese, já que Antígono era o rei dos Judeus com o apoio
dos Partos e não era provável que fosse destronado no futuro mais próximo; com
Partos ou sem eles, a vasta maioria dos Judeus queria Antígono.
- Onde arranjaste todo este dinheiro? - perguntou António quando entraram no
Senaculum, um edifício pequeno adjacente ao templo da Concórdia no sopé do
monte Capitolino. Era ali que o Senado recebia os estrangeiros cuja entrada não
era permitida na Casa do Senado.
- De Cleópatra - disse Herodes. As mãos enormes cerraram-se.

163

- Cleópatra?
- Sim, e que tem isso de tão espantoso?
- Ela é demasiado forreta para dar dinheiro a quem quer que seja.
- Mas o filho dela não é e ele influencia-a. Além disso, tive que concordar em
entregar-lhe os lucros do bálsamo de Jericó quando for rei.
-Ah!
Herodes obteve o seu senatus consultum que o confirmava oficialmente como
rei dos Judeus.
-Agora só te resta conquistar o teu reino - disse Quinto Délio enquanto comiam
um jantar delicioso; os cozinheiros da estalagem eram famosos.
- Eu sei, eu sei! - ripostou Herodes.
- Não fui eu quem te roubou a Judeia - disse Délio em tom magoado -, porque
descarregas então sobre mim?
- Porque tu estás aqui na minha frente a enfiar maminha de porca na boca à taxa
de uma gota de bálsamo de Jericó por colherada! Achas que António alguma vez se
vai dar ao trabalho de combater Pácoro? Ele nem sequer mencionou a campanha
contra os Partos.
- Não pode. Tem que manter aquele doce rapazinho do Octaviano debaixo de olho.
- Oh, todo o mundo sabe disso! - disse Herodes com impaciência.
- Por falar em coisas doces, Herodes, que acontece às tuas esperanças
relativamente a Mariana? Antígono não a casou já?
- Ele não se pode casar com ela, é seu tio e tem demasiado medo dos outros
parentes para a dar a um deles. - Herodes sorriu e recostou-se agitando as mãos
rechonchudas. -Além disso não é ele quem a tem. Sou eu.
-Tu?
- Sim, levei-a e escondi-a, imediatamente antes da queda de Jerusalém.
- És mesmo esperto? - Délio reparou num novo acepipe. - Quantas gotas de
bálsamo de Jericó há naqueles passarinhos recheados?
Estes e vários outros incidentes perdiam importância perante o problema com que
Roma se debatia continuamente desde a morte de César: o fornecimento de
cereais. Tendo prometido solenemente que se portaria bem, Sexto Pompeu já
andava novamente a assaltar as rotas marítimas e a desaparecer com os
carregamentos de cereais, ainda a cera que selava o Pacto de Brundísio não
secara. Estava cada vez mais atrevido, chegando a enviar destacamentos a solo
italiano, onde quer que houvesse uma concentração de celeiros, e roubava
cereais que ninguém imaginara que pudessem estar em risco. Quando o preço dos
cereais subiu aos quarenta sestércios por ração de seis dias, rebentaram motins
em Roma e nas cidades italianas de todas as dimensões. Havia uma ração de
cereais grátis para os cidadãos mais pobres, mas Divus Julius reduzira para
metade, cento e cinquenta mil, o número dos beneficiários, introduzindo
critérios de aferição de rendimentos.

164

Mas isso, gritavam as multidões furibundas, era quando o trigo valia dez
sestércios o modius e não quarenta! As listas dos cereais gratuitos deveria ser
alargada para incluir as pessoas que não podiam pagar o quádruplo do preço
antigo. Quando o Senado se recusou a aceitar aquela exigência, os motins
tornaram-se nos mais violentos desde os tempos de Saturnino.
Uma situação difícil para António, que era obrigado a tomar conhecimento em
primeira mão de como se tornara crítica a situação dos abastecimentos de
cereais sabendo que ele próprio, e mais ninguém, permitira a Sexto Pompeu que
continuasse com as suas actividades.
Reprimindo um suspiro, António desistiu da ideia de usar os duzentos talentos
que tinha guardados, e que destinara ao seu próprio prazer, usando-os em vez
disso para comprar cereais suficientes para alimentar mais cento e cinquenta
mil cidadãos, colhendo assim a adulação imerecida do Conto de Cabeças. De onde
surgira aquela abundância? De nada menos que de Pitodoro de Trales. António
oferecera àquele plutocrata a sua filha Antónia Menor - feia, obesa e com um
ligeiro atraso mental -em troca de duzentos talentos em dinheiro. Pitodoro,
ainda no seu apogeu, aceitara imediatamente a oferta. Berrando como um potro
desmamado, Antónia Menor já ia a caminho de Trales e de uma coisa a que
chamavam marido. Urrando como uma vaca a quem tiram a filha, Antónia Híbrida
apressou-se a divulgar por toda a Roma o que acontecera à sua filha.
- Mas que coisa desprezível! - gritou Octaviano indo à procura do seu inimicus
António.
- Desprezível? Desprezível? Em primeiro lugar ela é minha filha e posso casá-la
com quem eu quiser! - rugiu António apanhado de surpresa por aquela nova
manifestação da temeridade de Octaviano. - Em segundo lugar, o preço que obtive
por ela alimentou o dobro dos cidadãos durante mês e meio! Mas que grande
ingratidão! Poderás criticar-me, Octaviano, quando tiveres produzido uma filha
capaz de fazer pelo Conto de Cabeças o que a minha fez!
- Gerrae - disse Octaviano desdenhosamente. - Até teres chegado a Roma e teres
visto o que se passa com os teus próprios olhos, tencionavas ficar com o
dinheiro para pagar as dívidas que não paras de acumular! A pobre rapariga não
tem uma réstia de juízo que lhe permita perceber o sue destino... podias ao
menos ter mandado a mãe com ela, em vez de teres deixado a mulher em Roma a
chorar a sua perda a todos os ouvidos dispostos a escutá-la!
- Desde quando é que tens sentimentos? Mentulam caco!
Deixando Octaviano agoniado com aquela obscenidade, António saiu numa fúria que
até Octávia sentiu dificuldades em aplacar.

165

Momento em que Gneu Asínio Polião, finalmente cônsul de pleno direito depois de
ter recebido as suas insígnias, ter feito os devidos sacrifícios e prestado o
juramento de aceitação do cargo, entrou em campo. Tinha andado a pensar no que
poderia fazer para enobrecer os dois meses que teria no cargo e agora
descobrira a resposta: meter juízo na cabeça de Sexto Pompeu. O seu sentido de
justiça dizia-lhe que aquele filho de pouca estatura de um grande homem, tinha
alguma razão do seu lado; tinha dezassete anos quando o seu pai fora
assassinado no Egipto, ainda não fizera vinte quando o irmão mais velho morrera
depois de Munda, tivera que assistir impotente enquanto um Senado vingativo o
forçava a uma vida de fora-da-lei ao recusar-lhe a oportunidade de recompor os
destinos da sua família. Para evitar a presente situação, só teria sido
necessário um decreto senatorial que lhe permitisse regressar a casa e herdar a
posição e fortuna do pai. Mas a primeira fora deliberadamente enxovalhada para
aumentar a reputação dos seus inimigos e a segunda havia muito que desaparecera
no poço do financiamento da guerra civil.
Mesmo assim, pensou Polião convocando António, Octaviano e Mecenas para uma
reunião na sua casa, posso tentar fazer com que os nossos triúnviros percebam
que tem que ser feito algo de positivo.
- Se ta! não acontecer - disse ele enquanto bebiam vinho aguado no seu
escritório -, não faltará muito para que todos os presentes nesta sala morram
às mãos da multidão. E como a multidão não faz ideia de como governar,
aparecerá um novo conjunto de governantes em Roma... homens cujos nomes não
consigo sequer adivinhar e que subirão altíssimo, oriundos das profundezas. Ora
essa não é a maneira que desejo para terminar a minha vida. O que eu quero é
retirar-me, com a testa enfeitada por louros, para escrever a história dos
nossos tempos turbulentos.
- Mas que bela frase - murmurou Mecenas quando os seus dois superiores nada
disseram.
- O que queres dizer exactamente, Polião? - perguntou Octaviano após uma longa
pausa. - Que nós, que aturámos esse ladrão irresponsável durante anos, que
vimos os cofres do Tesouro delapidados devido às suas actividades, deveríamos
fazer uma reviravolta e louvá-lo? Dizer-lhe que tudo está perdoado e que poderá
regressar a casa? Pff!
- Escuta, vamos lá - disse António com ares de estadista -, isso é um pouco
duro, não achas? A afirmação de Polião de que Sexto não é inteiramente mau
contém alguma justiça. Pessoalmente sempre achei que Sexto foi muito mal
tratado, daí a minha relutância, Octaviano, em esmagar o rapaz... o jovem,
quero eu dizer.
- Seu hipócrita! - gritou Octaviano mais zangado do que algum dos presentes
jamais o vira. - É fácil para ti seres bondoso e compreensivo, seu matacão
inerte, que passas os Invernos no deboche enquanto eu luto para alimentar
quatro milhões de pessoas!

166
E onde está o dinheiro de que necessito para o fazer? Ora, está nos cofres
desse rapaz patético, incrivelmente mal tratado e despojado de tudo! Pois ele
deve ter cofres, de tanto que já me roubou! E quando ele me rouba, António,
rouba Roma e a Itália!
Mecenas estendeu a mão e pousou-a no ombro de Octaviano; pareceu um gesto
suave, mas os seus dedos fincaram-se com tal ímpeto no braço de Octaviano que
este estremeceu e sacudiu a mão.
- Não vos pedi para virdes aqui hoje para ouvir aquilo que são, essencialmente,
disputas pessoais - disse Polião com firmeza. - Convidei-vos para vermos se,
entre todos, podemos encontrar uma forma de lidar com Sexto Pompeu que se
revele mais barata do que uma guerra naval. A solução é a negociação e não o
conflito! E espero que especialmente tu, Octaviano, o compreendas.
- Preferiria fazer um pacto com Pácoro que lhe entregasse todo o Oriente -
disse Octaviano.
- Começa a parecer-me que não queres uma solução - disse António.
- Eu quero uma solução! A única solução. Ou seja, queimar todos os seus barcos
até ao último, executar os seus almirantes, vender as tripulações e os soldados
como escravos e dar-lhe a oportunidade de emigrar para a Cítia! Pois até
concordarmos que é isso o que temos que fazer, Sexto Pompeu continuará a manter
Roma e Itália a passarem fome segundo os seus caprichos! O malvado não tem nem
carácter nem honra!
- Proponho, Polião, que enviemos uma embaixada a Sexto para lhe pedir uma
conferência connosco em... Putéolos? Sim, Putéolos parece-me bem - disse
António irradiando boa vontade.
- Concordo - disse Octaviano de imediato o que surpreendeu os outros, até mesmo
Mecenas. Teria então aquela explosão sido calculada e não espontânea? Qual
seria a ideia dele?
Passado pouco tempo Polião mudou de assunto, depois de Octaviano ter concordado
com uma conferência em Putéolos sem levantar dificuldades.
- Vais ter que ser tu a tratar disto, Mecenas - disse Polião. - Tenciono partir
imediatamente para o meu proconsulado na Macedónia. O Senado pode nomear um
cônsul sufecto para o que resta do ano. Um nundinum em Roma já me chega.
- Quantas legiões queres? - perguntou António, aliviado por poder discutir algo
que fazia indiscutivelmente parte dos seus domínios.
- Seis devem chegar.
- Óptimo! Isso significa que poderás dar a Ventídio onze para levar para o
Oriente. Ele vai ter que segurar Pácoro e Labieno onde estão agora. -António
sorriu. - Ventídio é um bom condutor de mulas.
-Talvez seja melhor do que pensas - disse Polião secamente.

167

-Ah! Acreditarei nisso quando o vir. Ele não foi propriamente brilhante quando
o meu irmão estava encurralado em Perúsia.
- E eu também não, António! - ripostou Polião. - Talvez a nossa inactividade se
tenha ficado a dever às cartas que ficaram sem resposta da parte de um certo
triúnviro.
Octaviano levantou-se.
- Vou-me embora, se não se importam. A mera menção de cartas recordou-me que
tenho centenas delas para escrever. É em alturas como esta que gostaria de ter
a capacidade de Divus Julius para manter quatro secretários ocupados em
simultâneo.
Depois de Octaviano e Mecenas saírem, Polião olhou furioso para António.
- O teu problema, Marco, é que és preguiçoso e abandalhado - disse mordazmente.
- Se não te levantares velozmente do teu podex e não fizeres alguma coisa
rapidamente, és capaz de descobrir que será demasiado tarde para fazeres o que
quer que seja.
- O teu problema, Polião, é que és um alarmista meticuloso.
- Planco anda a resmungar e ele lidera uma facção.
- Então ele que resmungue em Efeso. Pode ir governar a província da Ásia e
quanto mais cedo melhor.
- E Aenobarbo?
- Pode continuar a governar a Bitínia.
- E então os reinos-clientes? Deiotaro morreu e a Galácia está arruinada e ao
abandono.
- Oh, não te rales, eu tenho umas ideias - disse António confortavelmente.
Bocejou. - Deuses, como detesto Roma no Inverno!
O Pacto de Putéolos foi concluído com Sexto Pompeu no fim do Verão. António não
revelou aquilo que pensava do assunto, mas Octaviano sabia que Sexto não se
comportaria como um homem honrado; ele, no seu íntimo, era um senhor da guerra
picentino que degenerara em pirata e era incapaz de honrar a sua palavra. Em
troca da permissão da livre passagem dos cereais para Itália, Sexto recebeu o
reconhecimento oficial como governador da Sicília, Sardenha e Córsega. Recebeu
também o Peloponeso grego, mil talentos de prata e o direito de vir a ser
eleito cônsul daí a quatro anos e, no ano seguinte, Libão suceder-lhe-ia. Uma
farsa, como todos que tinham um cérebro maior do que uma ervilha puderam
perceber. Como deves estar a rir-te, Sexto Pompeu, pensou Octaviano acabado de
sair da contenda.
Em Maio, a mulher de Octaviano deu à luz uma menina a quem ele chamou Júlia. No
fim de Junho, Octávia deu à luz uma menina que se chamou Antónia.

168

Uma das cláusulas do contrato com Sexto Pompeu dizia que aqueles que ainda
permanecessem no exílio poderiam regressar a casa. Tal aplicava-se ao emproado
Tibério Cláudio Nero, que não se sentira suficientemente protegido pelo Pacto
de Brundísio. Fora por isso que ficara até então em Atenas, altura em que
considerara poder regressar a Roma com relativa impunidade. Tal era difícil,
dado a fortuna de Nero se ter reduzido a níveis alarmantes. Uma parte desse
facto era culpa sua, pois fizera investimentos insensatos em empresas de
publicani que cobravam impostos na província da Ásia e que tinham sido expulsas
depois de Quinto Labieno e os seus mercenários partos terem invadido a Caria, a
Pisídia e a Lícia - as regiões mais lucrativas. Mas outra parte não era culpa
sua, a não ser pelo facto de que um homem mais esperto teria permanecido em
Itália, a cuidar da sua riqueza, em vez de ter fugido e de a ter deixado à
mercê de um liberto grego pouco escrupuloso e de banqueiros inaptos.
Foi assim que Tibério Cláudio Nero que, regressou a casa no início do Outono,
estava de tal modo constrangido financeiramente que se tornou uma companhia
desagradável para a mulher. Os seus recursos financeiros esticaram apenas até
ao aluguer de uma liteira e de um carro para transporte da bagagem. Apesar de
ter dado a Lívia Drusila permissão para partilhar o meio de transporte, esta
declinou sem lhe dar nenhuma das razões que a levavam a fazê-lo: primeira, os
carregadores eram uns desgraçados escanzelados que mal conseguiam levantar a
liteira com ele e o filho lá dentro; segunda, detestava estar perto do marido e
do filho. Enquanto o grupo avançava a passo, Lívia Drusila caminhava ao lado. O
tempo estava idílico: um sol quente, uma brisa fresca, muitas sombras, um
perfume permanente a ervas ressequidas e às ervas aromáticas que os
agricultores cultivavam para prevenir as pestes durante o Inverno. Nero
preferia usar a estrada, Lívia Drusila preferia a berma, onde as margaridas
formavam um tapete branco para os seus pés e as primeiras maçãs e as últimas
peras podiam ser colhidas de ramos vergados pelo vento para fora dos muros dos
pomares. Desde que não se afastasse da vista de Nero, que seguia dentro da
liteira, o mundo era seu.
Em Teano Sidicino saíram da Via Ápia e entraram na estrada do interior, a Via
Latina; os viajantes que continuavam para Roma pela Via Ápia e atravessavam os
Pântanos Pontinos arriscavam a vida, pois a região estava infestada de
paludismo.
Nas imediações de Fregelas instalaram-se numa hospedaria modesta mas que podia
oferecer um banho em condições, algo que Nero pediu avidamente.
- Não despejem a água depois de eu e o meu filho termos terminado - ordenou. -
A minha mulher pode usá-la.
No quarto de ambos olhou-a de cenho franzido; com o coração a bater apressado,
ela pensou no que a sua expressão teria revelado, mas manteve-se modesta e
obediente, pronta para receber aquilo que a sua experiência lhe dizia iria ser
um sermão.

169

- Estamos a aproximarmo-nos de Roma, Lívia Drusila, exijo-te que faças todos os


esforços para não gastar dinheiro de mais - ordenou-lhe. - O pequeno Tibério
vai precisar de um pedagogo para o ano, uma despesa pouco oportuna, mas cabe-te
a ti economizar entretanto o suficiente para que tal se torne menos pesado.
Nada de vestidos novos, nem de jóias e, em definitivo, nada de criados
especiais como cabeleireiros ou maquilhadores. Está entendido?
- Sim, marido - respondeu obedientemente Lívia Drusila com um suspiro interior.
Não porque ansiasse por cabeleireiros ou coisas do género, mas porque ansiava
desesperadamente por paz, por uma vida segura e livre de críticas. Queria um
refúgio onde pudesse ler sempre que tivesse vontade ou escolher uma ementa sem
pensar no custo, nem ser responsabilizada pelos abusos dos criados. Queria ser
adorada, ver rostos vulgares iluminarem-se à menção do seu nome. Tal como Octá-
via, a muito elogiada esposa de Marco António, cujas estátuas se erguiam nas
praças dos mercados de Benevento, Cápua, Teano Sidicino. Que fizera ela afinal
para além de se ter casado com um triúnviro? No entanto as pessoas entoavam-lhe
louvores como se fosse uma deusa, rezavam para um dia a verem a viajar entre
Roma e Brundísio. As pessoas não paravam de falar dela, responsabilizando-a
pela paz. Oh, quem lhe dera ser Octávia! Mas quem queria saber da mulher de um
nobre patrício se o seu nome fosse Tibério Cláudio Nero?
Ele estava a olhar para ela, espantado; Lívia Drusila acordou da sua fantasia
com um sobressalto e humedeceu os lábios.
- Tens alguma coisa que queiras dizer? - perguntou-lhe ele friamente.
- Sim, marido.
- Então fala mulher!
- Estou à espera de outro bebé. De outro filho, acho. Os meus sintomas são
idênticos aos que senti quando estava grávida do Tibério.
Primeiro veio o choque e depois, seguindo-o de perto, a irritação. A boca dele
virou-se para baixo e rangeu os dentes.
- Oh, Lívia Drusila! Não podias ter feito melhor as coisas? Não tenho dinheiro
para outro bebé, especialmente outro filho! É melhor que vás à Bona Dea pedir
um remédio assim que chegarmos a Roma.
- Receio que seja demasiado tarde para isso, domine.
- Cacatl - disse ele furibundo. - Estás de quanto tempo?
- Quase dois meses, creio. O remédio tem que ser tomado nos primeiros seis
nundinae e eu já vou no sétimo.
- Mesmo assim vais tomá-lo.
- Com certeza.
- Mas que grande chatice! - gritou ele agitando no ar os punhos cerrados.
-Desaparece, mulher! Desaparece e deixa-me tomar banho em paz!
- Ainda queres que Tibério tome banho contigo?

170

- Tibério é a minha alegria e o meu consolo, é claro que quero!


- Posso então ir dar um passeio para ver a cidade antiga?
- Por mim, esposa, podes até atirar-te dum penhasco!
Fregelas fora uma cidade fantasma durante oitenta e cinco anos, saqueada por
Lúcio Opímio como castigo pela cidade se ter rebelado contra Roma, nos tempos
em que a península tinha sido um mosaico de Estados italianos salpicado por
"colónias" de cidadãos. A injustiça daquele tratamento arrogante acabara
finalmente por levar à união dos Estados italianos numa tentativa de se
livrarem do jugo romano. A guerra devastadora que se seguira tivera muitas
causas, mas começara com o assassinato do avô adoptivo de Lívia Drusila, o
tribuno das plebes Marco Lívio Druso. Talvez porque soubesse de tudo isto, com
o coração magoado e reprimindo as lágrimas, a sua neta vagueou por entre as
paredes a desmoronarem-se e velhos edifícios ainda de pé. Oh, como se atrevia
Nero a tratá-la daquela maneira! Como podia culpá-la pela gravidez, ele que, se
ela pudesse, nunca entraria na sua cama? A aversão, estava a descobri-lo,
crescera de forma avassaladora desde Atenas; a esposa devotada não deixava de o
ser, mas abominava a cada momento os seus deveres. Conhecia a história do avô,
mas o que ela não sabia era que cinquenta anos antes, Lúcio Cornélio Sila tinha
feito aquele mesmo passeio, pensando na utilidade do massacre, olhando para as
papoilas carmim fertilizadas por sangue italiano e romano, as superfícies lisas
dos crânios com margaridas amarelas espreitando das órbitas, como olhos
coquetes, e fizera a si próprio a mesma pergunta a que nenhum homem alguma vez
conseguira responder: porque fazemos a guerra aos nossos irmãos? E, tal como
ele, enquanto caminhava, Lívia Drusila viu aproximar-se um romano através do
nevoeiro das suas lágrimas e pensou se seria real ou irreal. Primeiro, olhou
furtivamente à volta, em busca de um local onde se esconder, mas quando ele se
aproximou, deixou-se cair sobre o mesmo pedaço de coluna que Gaio Mário usara
como assento e aguardou que o homem a alcançasse.
Este envergava uma toga debruada a púrpura e tinha uma cabeleira luxuriante e
loira; o seu passo era garboso e seguro de si, o corpo oculto pelas dobras da
toga seco e jovem. Depois, quando já estava a poucos passos dela, o seu rosto
tornou-se distinto. Muito suave, belo, severo e no entanto gentil, com olhos
cinzentos ponteados a ouro. Lívia Drusila olhou-o de boca aberta.
Também Octaviano precisara de se refugiar; por vezes as pessoas cansavam-no,
por mais bem-intencionadas que fossem as suas intenções e por mais indiscutível
que fosse a sua lealdade. E a velha Fregelas ficava perto da Frabateria Nova, a
cidade que fora construída para a substituir. Absorvendo o sol, ergueu o rosto
para o céu sem nuvens e deixou que a mente vagueasse sem destino, algo que não
fazia com muita frequência.

171

Aquele lugar arruinado exercia uma estranha sedução, talvez devido ao silêncio;
o zumbido das abelhas em vez da tagarelice humana do mercado, o canto abafado
de um qualquer pássaro lírico em vez das charangas da praça. Paz! Quão bela,
quão necessária!
Talvez tivesse sido por ter concedido ao seu espírito aquela graça da liberdade
que foi invadido pela solidão; por uma vez, na sua vida agitada, teve
consciência que não havia ninguém na sua vida só dele. Oh, sim, Agripa, mas não
era isso o que ele queria dizer. Alguém só dele da forma que uma mãe ou uma
esposa devem ser, aquela deliciosa combinação de feminilidade e devoção
altruísta que Octávia dava a António ou - maldita fosse! - a mamã dera a Filipe
Júnior. Mas não, não pensaria em Ácia e na sua imoralidade! Era melhor pensar
na irmã, a mulher romana mais doce que alguma vez existira. Porque haveria um
tão grande contentamento de ser concedido a um labrego como o António? Porque
não tinha ele a sua própria Octávia, apesar de certamente ter de ser alguém
muito diferente da sua irmã?
Teve consciência de que alguém percorria as mesmas ruas desoladas de Fregelas,
uma mulher que, ao vê-lo, pareceu pronta a fugir; depois deixou-se cair num
pedaço de coluna e ficou sentada, com as lágrimas no rosto a brilharem ao sol.
Primeiro pensou que fosse uma aparição e depois, detendo-se, percebeu que era
real. O rostinho mais encantador virou-se, primeiro para ele, e depois olhou
fixamente o chão. Um par de belas mãos agitou-se e depois cruzou-se no colo;
não estavam adornadas por quaisquer jóias, mas mais nada nela indicava origens
humildes. Aquela era uma grande senhora, percebeu-o intuitivamente. Houve um
qualquer instinto no seu interior que se soltou da sua gaiola e gritou tão
extasiado que percebeu, subitamente, a sua mensagem divina: ela fora-lhe
enviada, um dom divino que não podia - não iria - desdenhar. Quase gritou em
voz alta para o seu pai divino e depois abanou a cabeça. Fala com ela, quebra o
feitiço!
- Estou a incomodar-te? - perguntou ele dirigindo-lhe um sorriso maravilhoso.
- Não, não! - arfou ela secando as últimas lágrimas. - Não!
Ele sentou-se aos seus pés olhando-a com uma expressão interrogativa, aqueles
olhos espantosos subitamente ternos.
- Por instantes pensei que fosses uma deusa do mercado - disse ele -, agora
vejo uma dor que poderia ser de desgosto pelo destino de Fregelas. Mas não és
uma deusa... ainda. Um dia transformar-te-ei numa.
Conversa louca! Ela não compreendeu e achou-o ligeiramente doido. E no entanto,
num breve instante, em menos tempo do que leva a queda de um raio, ficou
apaixonada.
- Tive algum tempo livre - disse ela com voz rouca sentindo a garganta apertada
- e quis vir ver as ruínas. São tão cheias de paz... como eu desejo ter paz!
-As últimas palavras foram pronunciadas com paixão.

172

- Oh, sim, quando os homens acabam com um sítio, este fica despido de todos os
seus terrores. Emana a paz da morte, mas tu és demasiado nova para te estares a
preparar para a morte. O meu tio-bisavô, Gaio Mário, encontrou certa vez outro
dos meus tios-bisavós, Sila, aqui mesmo no meio da desolação. Foi uma espécie
de pausa. Ambos andavam muito ocupados a tornar outros locais tão mortos como
Fregelas, compreendes.
- E tu também já o fizeste? - perguntou ela.
- Não deliberadamente. Prefiro construir a destruir. Embora nunca vá
reconstruir Fregelas. É o meu monumento a ti.
Mais loucura!
- Brincas e eu não sou merecedora disso.
- Como poderia estar a brincar quando vi que choravas? Porque choras?
- Autocomiseração - respondeu ela com sinceridade.
- A resposta de uma boa esposa. És uma boa esposa, não és? Ela olhou para a
simples aliança de ouro de casada.
- Tento ser, mas por vezes é difícil.
- Não seria se fosse eu o teu marido. Quem é ele?
- Tibério Cláudio Nero.
A sua respiração assobiou. -Ah, esse! E tu és?
- Lívia Drusila.
- De uma bela família antiga. E herdeira também.
- Já não. O meu dote desapareceu.
- Nero gastou-o, é isso que queres dizer.
- Depois de fugirmos, sim. Eu na verdade sou uma Claudiana dos Neros.
- Então o teu marido é teu primo direito. Tens filhos?
- Tenho um, um rapaz de quatro anos. - Baixou as pestanas negras. - E um no
ventre. Tenho que tomar o remédio - disse ela. Ecastor, o que a faria contar
aquilo a um total desconhecido?
- Queres tomar o remédio?
- Sim e não.
- Porquê sim?
- Não gosto do meu marido nem do meu primogénito.
- E porquê não?
- Porque tenho a sensação de que não terei mais filhos do meu ventre. A Bona
Dea falou comigo quando lhe fiz um sacrifício em Cápua.
- Acabo de chegar de Cápua mas não te vi por lá.
- Nem eu a ti.

173

Fez-se silêncio, sereno e doce, os sons periféricos do canto dos passarinhos e


dos pequenos insectos a mordiscarem as ervas, uma sua parte integrante, como se
até o silêncio tivesse várias camadas.
Fui apanhada no laço do encantamento, pensou Lívia Drusila.
- Podia ficar aqui sentada para sempre - disse ela com voz rouca.
- Também eu, mas só se tu ficasses comigo.
Receando que ele acabasse por lhe tocar e não ter força suficiente para o
rechaçar, ela quebrou o encanto numa voz brusca.
- Envergas a toga praetexta, mas és demasiado novo. Significa isso que és um
dos apaniguados de Octaviano?
- Não sou um apaniguado. Sou César. Ela pôs-se de pé de um salto.
- Octaviano? Tu és Octaviano?
- Recuso-me a responder por esse nome - disse ele mas sem ira. - Sou César,
Divi Filius. Um dia serei César Rómulo por decreto do Senado ratificado pelo
Povo. Quando tiver vencido os meus inimigos e não tiver iguais.
- O meu marido é teu inimigo ajuramentado.
- Nero? - deu uma gargalhada, genuinamente divertido. - Nero é nada.
- É o meu marido e preside ao meu destino.
- Queres dizer que és propriedade dele, é mais isso. Eu conheço-o! Há
demasiados homens que contabilizam as esposas juntamente com os animais e os
escravos. Uma grande pena, Lívia Drusila. Acho que a mulher deve ser a
companheira mais estimada de um homem e não sua escrava.
- É dessa forma que consideras a tua mulher? - perguntou, pondo-se de pé. -Como
tua companheira?
- A minha actual mulher não. Ela não tem inteligência para isso, pobre mulher.
- Tinha a toga um pouco desalinhada; ajeitou-a para que as pregas caíssem
apropriadamente. -Tenho que ir, Lívia Drusila.
- Eu também, César.
Viraram-se e caminharam juntos na direcção da estalagem.
- Estou a caminho da Gália Ulterior - disse ele na bifurcação do caminho. -Ia
ser uma estada prolongada, mas depois de te ter conhecido já não poderá sê-lo.
Regressarei antes do fim do Inverno. - Os seus dentes brancos contrastavam com
a pele bronzeada quando sorriu. - E quando voltar, Lívia Drusila, caso-me
contigo.
- Já sou casada e leal aos meus votos. - Endireitou-se com uma dignidade
comovente. - Eu não sou nenhuma Servília, César. Não quebrarei os meus votos
nem mesmo contigo.
- É por isso que me casarei contigo! - Seguiu pelo caminho da esquerda sem
olhar para trás apesar de a sua voz ser claramente audível. - Sim, e Nero nunca
se divorciaria de ti para que te casasses com alguém como eu, não é?

174

Mas que situação terrível! Como poderá ser resolvida?


Lívia Drusila ficou a olhar para ele até desaparecer. Só então recuperou o
domínio dos pés e começou a andar. César Octaviano! Claro que tudo aquilo não
passava de um monte de disparates; tanto quanto sabia, ele era capaz de dizer
as mesmas coisas a todas as jovens bonitas que encontrava. O poder dava aos
homens ideias inflacionadas sobre os seus atractivos - era só ver como Marco
António tentara seduzi-la. O único problema com aquela linha de pensamento era
que ela se sentira enojada por António mas apaixonara-se pelo seu rival. Um
olhar e ficara perdida. Quando oferecera ovos e leite à cobra sagrada que
habitava o santuário da Bona Dea em Cápua, esta saíra da sua fenda com um
brilho de escamas que o sol transformara em ouro brilhante, cheirara o leite,
engolira ambos os ovos e depois erguera a cabeça achatada para a mirar com
olhos frios e imóveis. E ela devolvera-lhe o olhar sem medo, ouvindo-a falar
dentro de si numa linguagem desconhecida e estendera a mão para a afagar. Ela
apoiara a mandíbula na sua mão e lançara e recolhera repetidamente a língua e
dissera-lhe - que é que ela lhe dissera? Tentou recordar-se, como se
atravessasse um nevoeiro denso e cinzento e imaginou que ela tivera uma
mensagem da Bona Dea para lhe entregar: se estivesse preparada para fazer o
sacrifício, a deusa oferecer-lhe-ia o mundo. Fora no dia em que tivera a
certeza da sua gravidez. Nunca ninguém via a cobra sagrada. Esta esperava pela
noite antes de sair para vir beber o leite e comer os ovos. Mas a cobra
manifestara-se à luz brilhante do sol, uma serpente comprida e dourada, da
grossura do seu braço. Bona Dea, Bona Dea, dá-me o mundo e eu restaurarei o teu
culto àquilo que ele era antes de os homens se terem intrometido!
Nero estava a ler uma pilha de pergaminhos. Quando ela entrou olhou-a,
franzindo ferozmente o cenho.
- Um passeio muito comprido, Lívia Drusila, para alguém que anda pela estrada o
dia inteiro.
- Estive a conversar com um homem nas ruínas de Fregelas. Nero ficou tenso.
-As mulheres casadas não conversam com desconhecidos!
- Não era um desconhecido. Era César Divi Filius.
Aquilo provocou uma diatribe que Lívia Drusila já ouvira muitas vezes antes,o
que fez com que se sentisse à vontade para deixar o marido com um comentário
trivial sobre o banho e a necessidade de usar a água antes que ficasse
completamente fria. O que fez, se bem que fosse preciso ter coragem, depois de
ter visto a camada de pele morta e de gordura que flutuava à superfície e de
ter sentido o fedor a suor. Conhecendo Nero, ele provavelmente urinara lá
dentro; de certeza que o pequeno Tibério o fizera. Usando um pano, tirou o lixo
que pôde antes de mergulhar na água pouco mais que fria.

175

Pensando para consigo própria que, de bom grado, trocaria a virtude de esposa
por qualquer homem que lhe oferecesse um banho quente e perfumado numa banheira
de mármore que fosse ela a única a usar. Depois de ter conseguido expulsar da
sua mente coisas como lixo e urina, sonhou que esse homem seria César Octaviano
e que ele falara a sério.
Ele falara a sério, apesar de ter passado a caminhada de regresso à casa do
duumvir em Fabrateria a repreender-se pelos galanteios mais desajeitados que
alguma vez fizera.
Vês o que acontece quando tentas os deuses?, perguntou-se sorrindo
ironicamente. Desprezei o sentimentalismo enjoativo, julgava fracos os homens
que afirmavam que um só olhar os enfeitiçara com a seta de Cupido. No entanto
aqui estou eu, com a seta espetada no peito, completamente apaixonado por uma
rapariga que nem sequer conheço. Como pode isto ser? Como poderei eu, tão
racional e desapaixonado, ter sucumbido a uma emoção que contradiz tudo aquilo
em que acredito? Foi uma visitação de um deus, teve que ser! Caso contrário não
faz qualquer sentido! Eu sou racional e desapaixonado! Portanto porque sentirei
esta incrível sensação de... de ... amor? Oh, ela comoveu-me insuportavelmente!
Queria tomar sobre os meus ombros todos os seus problemas, queria afogá-la em
beijos, queria ficar com ela para o resto da minha vida! Lívia Drusila. A
mulher de um pedante pretensioso como Tibério Cláudio Nero. Mais um Claudiano
saído da mesma ninhada. O ramo dos Cláudios cognominados Pulcros, produzem
homens excêntricos, independentes, cônsules e censores pouco ortodoxos,
enquanto que o ramo cognominado Nero é famoso por produzir homens
insignificantes. E Nero não é ninguém: um homem mesquinho, orgulhoso e teimoso
que nunca concordará em divorciar-se da mulher por ordem de César Octaviano.
O rosto dela dançava perante os seus olhos, enlouquecendo-o. Olhos raiados,
cabelos pretos, pele como leite cremoso, lábios voluptuosamente vermelhos.
Poderia aquilo ser simplesmente desejo sexual? Estaria ele a sofrer do mesmo
mal que metia, permanentemente, Marco António em maus lençóis? Não, nisso não
acreditava! O que quer que aquela emoção estranha fosse, teria que ser por uma
melhor razão do que comichão no pénis. Talvez, pensava Octaviano enquanto o
cabriole o levava de regresso a Roma, cada um de nós tenha um parceiro natural
e eu tenha encontrado a minha. Como dois pombos. A mulher de outro homem e
grávida de um filho dele. O que não faz qualquer diferença. Ela pertence-me...
a mim!
Acarinhando o seu segredo, rapidamente se deu conta de que não havia ninguém em
quem pudesse confiar ou a quem quisesse fazê-lo. Com os navios cerealíferos a
atracarem em segurança em Putéolos e em Óstia e o preço dos cereais a descer,
finalmente, para os níveis adequados àquele ano, António decidira regressar a
Atenas levando consigo Octávia e a sua prole.

176
Octávia teria sido a única pessoa a quem ele poderia confiar aquele terrível
dilema emocional, mas ela estava evidentemente feliz com António e mergulhada
nos preparativos para a viagem. Ambos os factores faziam com que corresse o
risco de ela deixar escapar uma indiscrição aos ouvidos do marido que não
pararia de o provocar insuportavelmente. Ah, ah, ah, Octaviano também tu podes
ser governado pela tua pila! Octaviano já podia imaginá-lo. Despediu-se
portanto da família de António sem ter divulgado o seu segredo e começou a
pensar se Agripa teria alguns conselhos sábios para lhe dar quando chegasse a
Narbona, perto da fronteira com Hispânia e a um mês de viagem de Roma. O seu
estado de espírito atormentava-o, pois a paixão assentava com dificuldade em
alguém cujos hábitos intelectuais eram friamente lógicos e as emoções
resolutamente reprimidas. Confuso, agitado, desejoso, Octaviano perdeu o
apetite pelos alimentos e estava prestes a enlouquecer. Perdia peso a olhos
vistos, como se se evaporasse numa fornalha quente e não conseguia sequer
pensar em grego. Pensar em grego era estranho, algo que ele fazia recorrendo a
uma determinação férrea por ser tão difícil. E, no entanto, ali estava ele, com
meia centena de cartas para ditar em grego e obrigado a fazê-lo em latim dando
ordens breves aos secretários para que procedessem eles próprios à tradução.
Mecenas não estava em Roma, o que talvez até fosse bom, o que significava que
era Escribónia que, todas as noites, antes da partida de Octaviano para a Gália
Ulterior, se enchia de coragem para dizer qualquer coisa.
Ela sentira-se muito feliz durante a gravidez tranquila e dera à luz com
rapidez e facilidade a bebé Júlia. A pequenita era inegavelmente bonita, das
madeixas de cabelo dourado aos grandes olhos azuis, demasiado claros para
ficarem castanhos com a passagem dos meses. Nunca tendo encarado Cornélia como
uma alegria, Escribónia preparou-se para criar o bebé, mais apaixonada do que
nunca pelo seu marido distante e meticuloso. O facto de ele não a amar não era
um grande desgosto, pois tratava-a com bondade, sempre com cortesia e respeito
e prometera-lhe que, assim que ela estivesse recuperada do parto, voltaria a
visitar a sua cama. Que da próxima vez viesse um filho! Rezava ela fazendo
sacrifícios a Juno Sospita, Magna Mater e Spes.
Mas algo acontecera a Octaviano no regresso a Roma depois da visita aos campos
de treino das legiões espalhados em torno da velha cidade militar de Cápua.
Escribónia tinha os seus próprios olhos e ouvidos para se aperceber disso, mas
tinha também vários criados, incluindo Gaio Júlio Burgúndio, que era o mordomo
de Octaviano e neto do amado liberto germânico de Divus Julius, Burgundo.
Apesar de permanecer sempre em Roma como mordomo da domus Hortênsia, tinha
tantos irmãos, irmãs, primos, tias e tios na clientela de Octaviano, que havia
sempre algum deles ao serviço do patrono quando este viajava.

177

E, dissera Burgúndio, cheio de novidades, que Octaviano fora dar um passeio em


Fregelas e que regressara com uma disposição que nunca ninguém lhe vira antes.
Fora uma aparição de um deus, era a teoria pessoal de Burgúndio, mas essa era
simplesmente uma de muitas teorias. Escribónia receava uma doença mental, pois
o calmo e controlado Octaviano andava susceptível, irascível e criticava coisas
que habitualmente ignorava. Se ela o conhecesse tão bem como Agripa, teria
reconhecido todos os sinais de ódio por si próprio e teria acertado. Neste caso
tentava recordá-lo de que precisava de conservar as forças e que portanto tinha
de comer.
- Precisas das tuas forças, meu querido, portanto tens que comer - disse-lhe
durante um jantar particularmente delicioso que escolhera. - Partes amanhã para
Narbona e não te vão servir nenhum dos teus pratos preferidos. Por favor,
César, come!
- Tacel - berrou ele e levantou-se do divã. - Vê se te emendas, Escribónia!
Estás a ficar uma megera! - Parou com um pé no ar enquanto um criado tentava
afivelar-lhe o sapato. - Hum! Essa é uma boa expressão! Uma verdadeira megera,
uma megera chatíssima, uma nova megera!
A partir desse momento e até ouvir os sons da sua partida na manhã seguinte,
não voltou a vê-lo. Chorando, com as lágrimas a correrem-lhe pela face, foi
mesmo a tempo de vislumbrar o brilho do seu cabelo dourado quando ele entrava
para o cabriole, com o capuz puxado por causa da chuva que caía a cântaros.
César deixava Roma e Roma chorava.
- Ele foi-se embora sem se despedir! - gritou para Burgúndio que estava mesmo
atrás ela e com uma expressão pesarosa.
Ele estendeu-lhe um pergaminho desviando os olhos.
- Domina, César ordenou que te entregasse isto.
Por este meio venho divorciar-me de ti.
Estas são as minhas razões: mau feitio, idade avançada, falta de maneiras,
incompatibilidade e extravagância.
Dei instruções ao meu mordomo para te mudar para a minha antiga domus em
Cabeças de Touro perto de Cúria Veteres, onde residirás e educarás a minha
filha como é adequado à sua elevada condição. Ela deverá ser muitíssimo bem
educada e não deverá ser posta a fiar nem a tecer. Os meus banqueiros pagar-te-
ão uma mesada adequada e tens completo controlo sobre o teu dote. Nunca
esqueças que, a qualquer momento, poderei pôr fim aos termos generosos deste
acordo e fá-lo-ei se ouvir quaisquer rumores de comportamento imoral da tua
parte. Caso isso aconteça, devolver-te-ei ao teu pai e ficarei eu próprio com a
custódia de Júlia e não te será permitido vê-la.

178

A carta estava selada com a esfinge. Escribónia deixou-a cair por entre os
dedos que tinham ficado subitamente dormentes e tombou sobre o banco de
mármore, pondo a cabeça entre os joelhos para evitar desmaiar.
- Está tudo acabado - disse a Burgúndio que estava junto a ela.
- Sim, domina - disse ele suavemente; gostara dela.
- Mas eu não fiz nada! Não sou uma megera! Não sou nenhuma dessas coisas
horríveis que ele diz! Idade avançada! Ainda não fiz trinta e cinco anos!
- As ordens de César são que te mudes hoje, domina.
- Mas eu não fiz nada! Não mereço isto! Pobre senhora, irritaste-o, pensou
Burgúndio emudecido pelos seus deveres de
cliente. Ele dirá a toda a gente que tu és uma megera para poder sair-se bem
desta história. Pobre senhora! E pobrezinha da bebé Júlia.
Marco Vipsânio Agripa estava em Narbona porque os Aquitanenses andavam a causar
problemas, obrigando-o a demonstrar-lhes que Roma continuava a produzir tropas
soberbas e generais muitíssimo competentes.
- Saqueei Burdígala, mas não a incendiei - disse a Octaviano quando este
chegou, após uma viagem dificílima durante a qual sucumbira a um ataque de asma
pela primeira vez nos últimos dois anos. - Não havia ouro nem prata, mas uma
montanha de boas rodas de carroça reforçadas a ferro, quatro mil barricas
excelentemente construídas e quinze mil homens robustos para vender como
escravos em Massília. Os comerciantes estão a esfregar as mãos de contentes: há
já bastante tempo que os mercados não viam mercadoria de primeira classe como
esta. Achei que não era politicamente conveniente escravizar mulheres nem
crianças, mas posso sempre fazê-lo se o desejares.
- Não, se tu o desejares. Os lucros dos escravos são teus, Agripa.
- Durante esta campanha não, César. Os machos vão atingir os dois mil talentos
e tenho melhor uso para esse dinheiro do que metê-lo ao bolso. As minhas
necessidades são simples e tu olharás sempre por mim.
Octaviano sentou-se mais direito com os olhos a brilhar.
- Um esquema! Tu tens um esquema! Conta-me!
Em resposta Agripa foi buscar um mapa e abriu-o sobre a secretária simples.
Debruçando-se sobre ele, Octaviano viu que este representava com pormenor
considerável a área em torno de Putéolos, o principal porto da Campânia a uns
cento e sessenta quilómetros a sudoeste de Roma.
- Chegará o dia em que terás navios de guerra suficientes para derrotar Sexto
Pompeu - disse Agripa mantendo um tom de voz cuidadosamente neutro. - Estimo
que serão necessários uns quatrocentos navios. Mas onde existe um porto com
dimensão suficiente para acolher metade deles? Em Brundísio. Em Tarento.
Contudo, estes dois portos estão separados da costa toscana pelo estreito de
Messina onde Sexto Pompeu está permanentemente emboscado.

179

Não poderemos portanto ancorar as nossas frotas nem em Brundísio nem em


Tarento. Pensa nos portos do mar da Toscana: Putéolos está demasiado
congestionado pelo tráfego comercial, Óstia está rodeada por baixios, Sorrento
está sobrelotado com barcos de pesca e Cosa tem que ficar reservada para os
roubos das porcas de ferro da Uva. Para além de que são vulneráveis aos ataques
de Sexto, mesmo que pudessem acomodar quatrocentos navios de grandes dimensões.
- Sei tudo isso - disse Octaviano fatigado; a asma enfraquecera-o. Bateu com o
punho cerrado no mapa. - Inútil, inútil!
- Há uma alternativa, César. Tenho andado a pensar nela desde que comecei a
visitar os estaleiros. - A mão grande e bem feita de Agripa sobrevoou o mapa e
o dedo indicador pousou em dois pequenos lagos perto de Putéolos. -Aqui está a
nossa resposta, César. O lago Lucrino e o lago Averno. O primeiro é muito baixo
e a sua água é aquecida pelos Campos de Fogo. O segundo não tem fundo e a água
é tão fria que deve ir dar ao Mundo Subterrâneo.
- Bem, pelo menos é muito escuro e sombrio - disse Octaviano que era algo
céptico nos assuntos religiosos. - Nenhum agricultor se atreve a abater as
árvores nas suas margens, receando ofender os lemures.
- A floresta terá que ser abatida - disse Agripa bruscamente. - Tenciono unir o
Lucrino ao Averno através da construção de vários canais. Depois rebentarei o
dique que impede o mar de entrar no lago Lucrino para inundá-lo. A água do mar
passará pelos canais e transformará gradualmente o lago Averno num lago de água
salgada.
A expressão de Octaviano era o epítome do espanto e da incredulidade.
- Mas... mas o dique foi construído sobre o cabo que separa o lago Lucrino do
mar para garantir que as águas conservam o grau exacto de salinidade e a
temperatura ideal para a criação de ostras - disse ele com o espírito
concentrado no fisco. - Deixar entrar o mar destruirá por completo os viveiros
de ostras... Agripa, terias centenas de criadores de ostras a exigir a tua
cidadania, o teu sangue e a tua cabeça!
- Eles poderão ter novamente as suas ostras quando derrotarmos definitivamente
Sexto - disse Agripa bruscamente, nada preocupado por ir arruinar uma indústria
que existia há gerações. - Aquilo que eu vou derrubar, eles poderão reconstruir
depois. Se fizermos isto como eu imagino, César, disporemos de uma vasta área
de águas calmas e abrigadas onde poderemos ancorar todas as nossas frotas. E
não só, poderemos treinar as tripulações e os soldados na arte das batalhas
navais, sem termos que nos preocupar com um ataque de Sexto. A entrada será
demasiado estreita para que ele consiga penetrar com mais de dois navios de
cada vez. E para garantir que ele não pode ficar de tocaia ao largo à espera
que nós saiamos dois de cada vez, vou construir dois grandes canais entre o
Averno e a praia, em Cumas.

180

Os nossos navios poderão passar impunes por esses túneis e aparecerem para
atacar o flanco de Sexto.
A consciência do facto surpreendeu Octaviano com o mesmo choque de uma imersão
em água gelada.
- Tu estás ao mesmo nível de César - disse lentamente, tão atordoado que se
esqueceu de chamar Divus Julius ao pai adoptivo. - Isso é um plano cesariano,
uma obra-prima de engenharia.
- Eu, ao mesmo nível de Divus Julius? - Agripa ficou espantado. - Não, César, a
ideia é uma questão de senso comum e a execução uma questão de trabalho duro, e
não de engenharia genial. Andando de um estaleiro para o outro tive imenso
tempo para pensar. E um facto a que não prestei a devida atenção foi ao de os
navios não se moverem sozinhos. Certamente que teremos alguns barcos
devidamente tripulados, mas talvez aí uns dois terços serão navios novos que
não terão tripulações. A maior parte das galés que encomendei são "cincos",
apesar de ter adquirido algumas "três", em estaleiros que não estão equipados
para construir nada com cerca de sessenta metros de comprimento e oito metros
de largo.
- As quinquerremes são muito pesadonas - disse Octaviano revelando que não era
totalmente ignorante no que respeitava a navios de guerra.
- Sim, mas as "cincos" têm a vantagem do tamanho e de poderem ser equipadas com
dois esporões terríveis de bronze maciço. Escolhi as "cincos" modificadas, não
mais de dois homens por remo em três bancos, dois, dois e um. Muito espaço no
convés para uma centena de soldados, catapultas e balistas. Com uma média de
trinta bancos por amurada, dá trezentos remadores por navio. Mais trinta
marinheiros.
- Começo a perceber o teu problema. Mas é claro que já o resolveste. Trezentas
vezes trezentos remadores: dá um total de noventa mil. Além de quarenta e cinco
mil soldados e vinte mil marinheiros. - Octaviano espreguiçou-se como um gato
satisfeito. - Eu não sou nenhum general de exércitos nem almirante de frota,
mas sou um mestre na bela arte romana da logística.
- Preferirias então ter cento e cinquenta soldados por navio em vez de cem?
- Oh, acho que sim. Cairíamos sobre o inimigo como se fôssemos formigas.
- Vinte mil homens já darão para começar - disse Agripa. - Tenciono começar
pela construção do porto e, para isso, alguém pode recrutar antigos escravos
que andem a vaguear pela Itália em busca de latifúndio que os teus comissários
agrários não tenham desmantelado para entregar aos veteranos. Pagar-lhes-ei com
os lucros que obterei da venda dos escravos, alimentá-los-ei e dar-lhes-ei
também alojamento. Se forem bons, poderão treinar depois para se tornarem
remadores.
- Um incentivo ao emprego - disse Octaviano com um sorriso. - Isso é
inteligente. Os pobres desgraçados não têm dinheiro para regressar a casa,
portanto porque não oferecer-lhes abrigo e barrigas cheias? Mais tarde ou mais
cedo acabam por ir parar à Lucânia e tornam-se bandidos. Assim é melhor. -
Estalou a língua.

181

- Vai ser um processo lento, muito mais lento do que eu desejava. Quanto tempo
vai levar, Agripa?
- Quatro anos, César, incluindo o ano que vem, mas não o que está a acabar.
- Sexto não cumprirá o pacto nem sequer durante um terço desse período. -As
espessas pestanas loiras baixaram-se ocultando-lhe os olhos. - Especialmente
agora, que me divorciei de Escribónia.
- Cacat! Porquê?
- Ela é uma megera tal que não suporto viver com ela. Se eu quero uma coisa ela
quer outra. E mói-me. Mói, mói, mói.
O olhar arguto de Agripa nunca se desviou do rosto de Octaviano. Então o vento
mudara de direcção, era? Agora sopra de um ponto que não reconheço. César está
a maquinar alguma, os smais são inconfundíveis. Mas o que será que ele planeia
que requer o divórcio de Escribónia? Uma megera? Nem pensar, César. Não
consegues enganar-me.
-Vou precisar de vários homens para supervisionar os trabalhos nos lagos
-disse. - Importas-te que os escolha? Provavelmente serão engenheiros militares
das minhas próprias legiões. Mas vão necessitar da protecção de alguém com
peso. De um propretor, se puderes dispensar algum.
- Não, mas tenho um procônsul que posso dispensar-te.
- Um procônsul? Infelizmente não será Calvino. Foi uma pena tê-lo enviado para
a Hispânia. Ele seria o ideal.
- Ele é necessário na Hispânia. As tropas amotinaram-se.
- Eu sei. Os problemas lá começaram com Sertório.
- Sertório foi há mais de trinta anos! Como é que pode ser ele o culpado?
- Recrutou os nativos e ensinou-os a combater como romanos. Por isso agora as
legiões da Hispânia são essencialmente isso mesmo: Hispânicas. Uma gente feroz,
mas não bebem a disciplina romana do seio das mães. Uma das razões por que não
farei a mesma experiência nas Gálias, César. Mas voltando ao assunto, quem?
- Sabino. Mesmo que houvesse uma província a necessitar muito de um novo
governador, que não há, Sabino não o quereria. Quer ficar em Itália e
participar nas manobras navais quando estas vierem. - Sorriu ligeiramente. -
Não será animador ouvi-lo quando ele descobrir que isso só acontecerá daqui a
quatro anos. Não lhe confiaria legiões, mas acho que dará um excelente
supervisor de engenheiros para porto Júlio. É assim que chamaremos ao teu
porto.
Agripa deu uma gargalhada.
- Pobre Sabino! Nunca conseguirá ultrapassá-la, àquela batalha falhada quando
César andava a conquistar a Gália Ulterior.
- Ele era convencido, na altura, e continua a ser convencido agora. Vou mandá-
lo vir para que receba instruções completas relativamente ao que há a fazer.
Vais estar aqui em Narbona?

182

- Não, a não ser que ele seja muito rápido, César. Parto para a Germânia.
- Agripa! Estás a falar a sério?
- Muito a sério. Os Suevos andam a fervilhar e já se acostumaram a ver o que
resta da ponte de César sobre o Reno. Não que tencione usá-la. Vou construir a
minha própria ponte mais a montante. Os Ubios vêm comer-me à mão, por isso não
os quero assustar, nem a eles nem aos Queruscos. Por isso vou mergulhar em
regiões puramente suevas.
- E vais pela floresta?
- Não. Podia fazê-lo, mas as tropas têm medo da floresta Bacenis, que é
demasiado escura e lúgubre. Acham que há um germano por trás de cada árvore,
para não mencionar os ursos, lobos e auroques.
- E há? Há lá isso tudo?
- Por trás de algumas há, certamente. Não temas, César, terei cuidado.
Como era politicamente conveniente que o herdeiro de César se mostrasse às
legiões gaulesas, Octaviano demorou-se o suficiente para visitar todas as seis
legiões acampadas em torno de Narbona, caminhando entre os soldados e
brindando-os com o velho sorriso de César; muitos deles eram veteranos das
guerras gaulesas, que se tinham voltado a alistar por se entediarem de morte
com a vida civil.
Isto tem que ter um fim, pensou Octaviano enquanto os visitava, a mão direita
feita em papas depois de tantos apertos de mão sinceros. Alguns destes homens
tornaram-se proprietários de áreas consideráveis de terras depois de doze
alistamentos no exército; são desmobilizados, recebem as suas dez iugera cada
um e, um ano mais tarde, estão de regresso para mais uma campanha. Entram e
saem, entram e saem, acumulando mais terra de cada vez. Roma precisa de ter um
exército permanente, com homens alistados por períodos de vinte anos sem
desmobilização. Depois, no fim desse tempo, receberão uma pensão monetária e
não terras. A Itália tem limites e instalá-los nas Gálias, nas Hispânias ou na
Bitínia, ou noutro sítio qualquer, não lhes agradaria; são romanos e anseiam
pela velhice em casa. O meu divino pai instalou a Décima à volta de Narbona
porque a legião se amotinara, mas onde estão esses homens agora? Ora, nas
legiões de Agripa.
Um exército deve estar onde está o perigo, pronto para combater num nundinum.
Temos que acabar com estes envios de pretores para tratar do recrutamento,
equipamento e treino das tropas numa pressa tremenda em volta de Cápua,
enviando-os depois em marchas de mil e seiscentos quilómetros para enfrentar
imediatamente o inimigo. Cápua continuará a servir para o treino das tropas,
sim, mas assim que um soldado atingir um estado satisfatório, deverá partir de
imediato para uma qualquer fronteira e juntar-se à legião que já lá estiver.
Gaio Mário abriu a porta das legiões ao alistamento dos pobres do Conto de
Cabeças - oh, como os boni o detestaram por isso! Para os boni, os homens-bons,
os pobres do Conto de Cabeças não tinham nada para defender: nem terras, nem
bens.
183

Mas os soldados do Conto de Cabeças revelaram-se ainda mais valentes do que os


antigos soldados proprietários e agora as legiões de Roma são exclusivamente
compostas por soldados do Conto de Cabeças. Em tempos, os proletarii não tinham
nada para oferecer a Roma a não ser os filhos; a partir de então, passaram a
dar-lhe a sua bravura e as suas vidas. Uma jogada brilhante, Gaio Mário!
Divus Julius fora um homem estranho. Os seus legionários adoravam-no muito
antes de ter sido deificado, mas ele nunca se dera ao trabalho de iniciar as
mudanças de que o exército necessitava urgentemente. Nem sequer o encarava como
um exército, pensava nele como um conjunto de legiões. E era um homem
constitucional, não gostava de alterar a constituição, a mos maiorum, apesar de
os boni afirmarem o contrário. Mas Divus Julius estivera errado em relação à
mos maiorum.
Havia muito que era necessária uma nova mos maiorum. A frase podia significar a
forma como as coisas sempre tinham sido feitas, mas a memória das pessoas era
curta e uma nova mos maiorum rapidamente se transformaria numa relíquia
venerada. Já é tempo de ser criada uma nova estrutura política, uma estrutura
mais adequada ao governo de um império tão extenso. Poderei eu, César Divi
Filius, deixar-me ficar refém de uma mão-cheia de homens determinados a
despojar-me do meu poder político? Divus Julius permitiu que lho fizessem, teve
que atravessar o Rubicão, em rebelião, para se salvar. Mas uma boa mos maiorum
nunca teria permitido a Catão Uticense, aos Marcelos e a Pompeu Magno, terem
empurrado o meu divino pai para a clandestinidade. Uma boa mos maiorum tê-lo-ia
protegido, pois ele não fez nada que aquele sapo inchado do Pompeu Magno não
tenha feito uma dúzia de vezes. Foi um caso clássico de uma lei para um homem,
Magno, mas outra lei para outro homem, César. O coração de César despedaçara-se
com a nódoa na sua honra, tal como se quebrara quando a Nona e a Décima se
amotinaram. Nada disso teria acontecido se ele os tivesse mantido debaixo de
olho e tivesse exercido maior controlo de tudo, desde os loucos dos seus
adversários políticos aos seus parentes inconstantes. Bem, tal não acontecerá
comigo! Vou mudar a mos maiorum e a forma de governo de Roma adaptando-as a mim
e às minhas necessidades. Não serei proscrito. Não farei uma guerra civil. O
que tenho que fazer será feito de forma legal.
Discutiu tudo isto com Agripa durante o jantar do seu último dia em Narbona,
mas não falou do divórcio nem de Lívia Drusila, nem do dilema que enfrentava.
Pois conseguia ver, como se estivesse sob a luz brilhante do sol de Verão, que
Agripa devia ser mantido afastado dos seus problemas emocionais. Eram um fardo
que não se adequava a Agripa, que não era seu gémeo nem o seu pai divino, mas
sim um executivo civil e militar que ele próprio criara. O seu braço direito
invencível.
Por isso beijou Agripa em ambas as faces e subiu para o seu cabriole para fazer
a longa viagem até casa, tornada ainda mais longa devido à sua resolução de
visitar todas as outras legiões da Gália Ulterior.

184

Todas tinham que ver e conhecer o herdeiro de César, todas tinham que ficar
ligadas a ele pessoalmente. Pois quem sabia onde e quando ele necessitaria da
sua lealdade?
Mesmo com prazos muito exigentes, já estava novamente em casa muito antes do
fim do ano e com as prioridades mentalmente definidas numa ordem definitiva
sendo algumas delas extremamente urgentes. Mas a primeira da lista era Lívia
Drusila. Só com esse assunto arrumado conseguiria concentrar-se em assuntos
mais importantes. Pois este, em si próprio, não era nada de importante; o seu
poder derivava apenas de uma fraqueza em si próprio, uma deficiência que não
conseguia compreender e que desistira de tentar compreender. Portanto tinha que
tratar do assunto de uma vez por todas.
Mecenas estava de regresso a Roma, muito bem casado com a sua Terência, com a
total aprovação da sua tia-avó, a tremendamente feia viúva do augusto Cícero,
que o apreciava pelo seu encanto e por pertencer a tão boas famílias. Alguns
anos mais velha do que Cícero, tinha agora mais de setenta anos, mas continuava
a controlar a sua imensa fortuna com mão de ferro e um conhecimento
enciclopédico das leis religiosas que lhe permitia escapar-se ao pagamento de
impostos. A guerra civil de César contra Pompeu, o Grande, provocara a
dispersão e ruína da sua família; o único sobrevivente era o seu filho, um
bêbado irascível que ela desprezava. Havia portanto espaço para um homem no seu
peito idoso e duro e Mecenas encaixava-se lá muito confortavelmente. Quem sabe?
Talvez um dia ele viesse a herdar o dinheiro. Embora em privado tivesse
confidenciado a Octaviano que estava convencido de que ela lhes sobreviveria a
todos e arranjaria forma de levar o dinheiro quando finalmente morresse.
Mecenas estava, pois, disponível para negociar com Nero; o único problema
residia no facto de Octaviano ainda não ter dito uma única palavra sobre a sua
paixão por Lívia Drusila a uma alma que fosse, nem mesmo a Mecenas. Que o
escutaria gravemente e depois tentaria persuadi-lo a desistir daquela união
bizarra. Além disso, dada a personalidade intratável de Nero e a sua estupidez,
Mecenas também não teria as vantagens do costume. No seu espírito, Octaviano
estabelecera um paralelo entre aquele seu caso putativo com a privacidade das
funções corporais; ninguém podia ver nem ouvir nada. Os deuses não defecavam e
ele era o filho de um deus e, um dia, ele próprio seria um deus também. Havia
muitos aspectos da religião oficial que considerava um chorrilho de disparates,
mas o seu cepticismo não se estendia a Divus Julius nem ao seu próprio
estatuto, algo em que não pensava à maneira grega. Não havia nenhum Divus
Julius sentado no cimo de uma montanha, nem a viver no templo que Octaviano
estava a construir para Divus Julius no Fórum; não, Divus Julius era uma força
incorpórea cuja adição ao panteão das forças aumentara o poder romano a força
romana e a excelência militar romana.

185

Alguma dessa força infiltrara-se em Agripa, estava certo disso. E muita dela
permeava-o a si; sentia-a a correr-lhe nas as veias e aprendera ajuntar os
dedos de maneira a que esta aumentasse ainda mais.
Um homem assim confessa a outro homem as suas fraquezas? Não, não confessa.
Poderia confessar-lhe as sus frustrações, os seus desafios, os seus acessos de
depressão relativamente às coisas práticas. Mas nunca as fraquezas ou defeitos
do seu carácter. A utilização de Mecenas estava portanto fora de questão. Teria
que ser ele próprio a dirigir aquelas negociações.
Todos os anos, no vigésimo terceiro dia de Setembro, celebrava o aniversário e
já celebrara vinte e quatro. Um nevoeiro abatera-se sobre os anos imediatamente
após o assassínio do seu pai Jivino; não se recordava de como conseguira reunir
forças para embarcar na sua nova carreira, consciente que alguns dos seus actos
se tinham devido à temeridade da juventude. Mas tinha corrido tudo bem e era
disso que se lembrava. Filipos fora como um ponto de viragem, porque depois
disso lembrava-se de tudo com perfeita clareza. Sabia porquê. Após Filipos
enfrentara António e vencera. Uma simples exigência: a cabeça de Bruto. Fora
então que o seu futuro se desenrolara perante os olhos do seu espírito e
encontrara o seu caminho. António cedera após uma representação teatral, que
fora da raiva aterrorizadora às lágrimas patéticas. Sim, ele cedera.
Os seus encontros com António tinham sido inúmeros depois disso, mas a cada um
deles ficara mais forte até que, no último desses encontros, dissera o que
pensava sem a mínima perturbação da respiração. Já não era mais um igual de
António; era o seu superior. Talvez devido ao facto de Divus Julius nunca o ter
conseguido quebrar, veio-lhe à mente Catão Uticense e percebeu finalmente
aquilo que Divus Julius sempre soubera: ninguém consegue quebrar um homem que
não faz ideia de que há nele uma imperfeição. Se não considerássemos Catão
Uticense, então ficávamos com... Tibério Cláudio Nero. Outro Catão, mas um
Catão sem intelecto.
Foi visitar Nero a uma hora do fim da manhã que garantiria que chegaria após a
partida do seu último cliente, mas antes que o próprio Nero tivesse tempo de
sair para ir cheirar o ar húmido de Inverno e ver o que se passava no Fórum. Se
Nero fosse um advogado famoso, poderia estar a defender um qualquer nobre vilão
de acusações de peculato ou fraude, mas a sua advocacia não era conceituada;
fazia parte da defesa dos amigos, se estes lho pedissem, mas apenas na quarta
ou quinta posição, mas ninguém lhe pedira nada ultimamente. O seu círculo de
amigos era pequeno, composto por aristocratas incapazes, como ele próprio, e a
maioria deles seguira António para Atenas, preferindo viver por lá a ficar na
Roma de Octaviano, uma cidade de impostos e motins.

186

Teria dado a Nero uma satisfação imensa recusar-se a receber a visita


inoportuna, mas a boa educação ditava-lhe o contrário e a meticulosidade
obrigava-o a recebê-lo.
- César Octaviano - disse ele rigidamente pondo-se de pé mas sem sair de trás
da secretária nem estender a mão. - Senta-te por favor. - Não lhe ofereceu água
nem vinho, limitou-se a cair novamente na cadeira e a olhar aquele rosto
detestado, tão macio e espantosamente jovem. Fazia-o lembrar-se de que estava
agora a meio dos quarenta e que ainda não fora cônsul; fora pretor no ano de
Filipos, o que não ajudara a carreira de ninguém, muito menos a sua. Se não
conseguisse recuperar a fortuna nunca seria cônsul, pois para conseguir ser
eleito teria que pagar subornos enormes. Havia quase uma centena de homens a
concorrer para pretores no ano seguinte e o Senado andava a falar em permitir
que sessenta ou mais assumam o cargo; o que resultaria numa maré de ex-pretores
que concorreriam a todos os consulados durante a geração seguinte.
- Que desejas, Octaviano? - perguntou. Iria direito ao assunto, era melhor.
- Quero a tua mulher.
Uma resposta que deixou Nero sem palavras; com os olhos escuros muito abertos,
ficou de boca aberta e a gaguejar, engasgou-se, teve que se pôr de pé a toda a
pressa e correr, cambaleante, para o jarro da água.
- Estás a brincar - disse ele, arfante.
- Não estou.
- Mas... mas isso é ridículo! - depois as implicações da exigência começaram a
clarificar-se. Com os lábios cerrados regressou à secretária e sentou-se
novamente com as mãos cerradas em torno do copo de faiança vulgar; o seu
conjunto de copos e garrafas dourados desaparecera. - Queres a minha mulher?
- Quero.
- Ela ser-me infiel já é suficientemente mau, mas contigo....!
- Ela não te foi infiel. Só a vi uma vez nas ruínas de Fregelas. Concluindo que
a exigência de Octaviano não tinha motivações carnais mas perfeitamente
misteriosas, Nero perguntou:
- Para que a queres?
- Para me casar.
- Ela foi infiel! A criança é tua! Amaldiçoo-a, a cunnus! Bem, não vais ficar
com ela facilmente, seu filho da mãe sujo! Vou expulsá-la da minha casa e
espalharei esta história desgraçada aos quatro ventos! - O copo entornou-se,
pois as mãos que o seguravam estavam a tremer.
- Ela é inocente de qualquer transgressão, Nero. Tal como te disse, só a vi uma
vez e, do princípio ao fim desse encontro, ela comportou-se com total decoro...
que maneiras tão requintadas!

187

Escolheste bem a tua mulher. Razão pela qual eu a quero para minha mulher.
Algo nos olhos habitualmente opacos de Octaviano dizia que ele falava a
verdade. Com as suas capacidades cerebrais já esticadas ao limite, Nero
recorreu à
lógica.
- Mas as pessoas não andam por aí a pedir as esposas aos maridos! Não podes
estar a falar a sério! Este tipo de coisa não se faz! Tu tens um pouco de
sangue nobre, Octaviano, deverias saber que isto não se faz!
Octaviano sorriu.
- Tanto quanto sei - disse em tom calmo -, Quinto Hortênsio, já idoso, foi ter
certa ocasião com Catão Uticense e perguntou-lhe se podia casar com a filha de
Catão, que na altura era uma criança. Catão recusou e ele então pediu-lhe uma
das sobrinhas. Catão recusou e ele pediu a mulher de Catão. E Catão disse que
sim. As esposas, compreendes, não são do mesmo sangue, apesar de reconhecer que
a tua é do teu sangue. Essa esposa era Márcia que foi minha irmã, filha do meu
padrasto. Hortênsio pagou um preço elevadíssimo por ela, mas Catão não recebeu
um tostão. O dinheiro foi todo para o meu padrasto, Filipe, que sorria de falta
de dinheiro crónica. Um epicurista do tipo mais dispendioso. Talvez que se tu
encarasses o meu pedido à mesma luz que Catão encarou o de Hortênsio, este se
tornasse mais credível. Se preferires, acredita que, tal como Hortênsio, fui
visitado em sonhos por Júpiter que me disse que eu tinha que casar com a tua
esposa. Catão achou que essa era uma razão aceitável. Porque não haverias tu de
achar o mesmo?
Uma nova ideia ocorrera a Nero enquanto o ouvia: recebera um louco em sua casa!
Naquele momento estava bastante calmo, mas quem poderia adivinhar quando teria
um ataque maníaco?
-Vou chamar os meus criados e mandar-te pôr na rua - disse ele pensando que,
dita daquela maneira, a frase não seria demasiado incendiária nem provocaria
violência.
Mas antes que pudesse abrir a boca a gritar por ajuda, o visitante inclinou-se
sobre a secretária e apertou-lhe o braço. Nero ficou imóvel como um rato
hipnotizado pelo olhar de um basilisco.
- Não faças isso, Nero. Ou, pelo menos, deixa-me acabar primeiro. Não estou
louco, dou-te a minha palavra. Estou a comportar-me como um louco? Quero
simplesmente casar com a tua mulher e para isso é necessário que te divorcies
dela. Mas não com desonra. Invoca razões religiosas, toda a gente as aceita e a
honra fica preservada para ambas as partes. Em troca de me cederes essa pérola
sem preço, empenhar-me-ei em aliviar as tuas actuais dificuldades financeiras.
Na verdade, fá-las-ei desaparecer melhor do que um mágico de Samos. Ora, Nero,
não gostarias que isso acontecesse?

188

Os olhos desviaram-se subitamente fixando-se num ponto por cima do ombro


direito de Octaviano e o rosto, magro e saturnino, adoptou uma expressão
matreira.
- Como é que sabes que eu estou com embaraços financeiros? -Toda a Roma o sabe
- disse Octaviano friamente. - Devias ter confiado o teu
dinheiro a Ópio ou aos Balbos, devias mesmo. Os herdeiros de Flávio Hemicilo
são uns trapaceiros, só um idiota não o veria. Infelizmente tu és um idiota,
Nero. Ouvi o meu divino pai dizê-lo em várias ocasiões.
- O que se passa? - gritou Nero limpando a água entornada com um guardanapo,
como se essa tarefa insignificante pudesse fazer desaparecer as confusões do
último quarto de hora. - Estás a gozar comigo? Estás?
- Nada disso, garanto-te. Só te estou a pedir que te divorcies da tua mulher
imediatamente invocando razões religiosas. - Enfiou a mão no sinus da sua toga
e tirou de lá um pedaço de papel dobrado. - Estão aqui pormenorizadas para te
evitar a dor de cabeça de teres que inventar algumas. Entretanto eu farei as
minhas próprias combinações com o Colégio de Pontífices e o Quindecênviros no
que respeita ao meu casamento, que tenciono celebrar o mais depressa que me for
possível. - Levantou--se. - É claro que não preciso de te dizer que terás a
custódia dos teus dois filhos. Quando o segundo nascer enviar-to-ei
imediatamente. É uma pena não conhecerem a mãe, mas longe de mim levantar
impedimentos ao direito de um homem aos seus filhos.
- Ah... ah... ah - disse Nero, incapaz de assimilar a habilidade com que fora
conduzido àquele ponto.
- Imagino que o dote dela tenha desaparecido para lá de qualquer hipótese de
recuperação - disse Octaviano com um toque de desdém na voz. - Pagarei as tuas
dívidas anonimamente, atribuir-te-ei um rendimento de cem talentos anuais e
aju-dar-te-ei nos subornos, se te candidatares a cônsul. Embora não esteja em
posição de garantir a tua eleição. Nem mesmo os filhos dos deuses conseguem
conter eficazmente a enxurrada da opinião pública. - Dirigiu-se à porta e
virou-se para olhar para trás. - Enviarás Lívia Drusila para a Casa das Vestais
logo que te divorcies dela. No momento em que o fizeres, o nosso negócio estará
fechado. Os teus primeiros cem talentos já estão depositados nos Balbos. Uma
boa firma.
E saiu fechando silenciosamente a porta atrás de si.
Muito do que fora dito já estava a desvanecer-se rapidamente, mas Nero ficou
sentado a tentar perceber aquilo que lhe era possível e que tinha sobretudo a
ver com o alívio das suas dificuldades financeiras. Apesar de Octaviano não o
ter mencionado, um saudável instinto de sobrevivência dizia a Nero que tinha
duas alternativas: contar a toda a gente ou calar-se para sempre. Se falasse,
as dívidas continuariam por pagar e os rendimentos prometidos desapareceriam.
Se ficasse de boca fechada, poderia ocupar a posição que era sua por direito
nos estratos mais altos de Roma, algo que ele valorizava mais do que qualquer
esposa. Ficaria portanto em silêncio.

189

Abriu o pedaço de papel que Octaviano pousara na sua frente e decifrou as


poucas linhas da sua única coluna com uma lentidão dolorosa. Sim, sim, isto
salvaria o seu orgulho! Religiosamente impecável. Pois começava a aperceber-se
de que se Lívia Drusila fosse condenada por infidelidade conjugal, ele
ostentaria os cornos do marido enganado e seria alvo de chacota. Homem velho
com mulher jovem e sensual, aparece um homem novo e... Oh, isso não podia ser!
Que o mundo pensasse o que quisesse daquele fiasco; ele, por seu lado, iria
comportar-se como se não tivesse acontecido nada de mais impróprio do que um
impedimento religioso. Pegou numa folha de papel e começou a escrever a
notificação do divórcio e depois, com a tarefa terminada, chamou Lívia Drusila.
Ninguém se lembrara de lhe dizer que Octaviano estivera lá em casa, portanto
apareceu com o mesmo aspecto que tinha sempre: submissa e composta, o protótipo
da boa esposa. Linda, decidiu ele enquanto a observava. Sim ela era linda. Mas
por que razão teria Octaviano gostado dela? Apesar de ser um arrivista, podia
escolher à vontade. O poder atraía as mulheres como a chama atraía as
borboletas e Octaviano tinha poder. O que poderia ele ter detectado num único
encontro que, não obstante, seis anos de casamento não tivessem revelado ao
marido? Seria ele, Nero, cego ou estaria Octaviano iludido? A segunda hipótese;
tinha que ser a segunda hipótese.
- Sim, domine?
Ele entregou-lhe a notificação do divórcio.
- Estou a divorciar-me de ti imediatamente, Lívia Drusila, com fundamentos
religiosos. Aparentemente um versículo da nova emenda dos Livros Sibilinos foi
interpretado pelo Quindecênviros como aplicável ao nosso casamento que terá que
ser dissolvido. Deves fazer as malas e ir imediatamente para a Casa das
Vestais.
O choque deixou-a muda, atordoou-lhe as sensações e embotou-lhe a mente. Mas
conseguiu aguentar-se sem vacilar; o único sinal do choque foi a palidez
súbita.
- Posso ver as crianças? - perguntou quando conseguiu falar.
- Não. Isso faria de ti nefas.
- Então tenho que entregar aquele que ainda trago no ventre.
- Sim, assim que nascer.
- E que me acontecerá a mim? Vais devolver-me o meu dote?
- Não, não te devolverei o dote nem parcial nem totalmente.
- Como irei então viver?
- Como irás viver deixou de ser um problema meu. Fui instruído para te enviar
para a Casa das Vestais, é tudo.
Girou nos calcanhares e regressou aos seus domínios minúsculos, atafulhados de
coisas que ela detestava, do fuso ao tear, usados para fiar tecidos que ninguém
usava, pois não era exímia em nenhuma das artes e não tinha vontade de vir a
sê-lo.
190

A casa era malcheirosa naquela época do ano; toda a gente esperava que ela
fizesse feixes de ervas aromáticas secas para afastar as pestes, mas estava
atrasada um nundinae porque detestava esse trabalho. Oh, que saudades dos
tempos em que Nero lhe dera alguns sestércios para alugar livros na biblioteca
pública de Ático! Agora via-se reduzida a fiar, tecer e atar molhos de ervas.
O bebé começou a pontapeá-la cruelmente - era exactamente como fora o irmão.
Podia passar uma hora até ele parar com os pontapés, exercitando-se à sua
custa. Em breve as suas tripas se revoltariam fazendo-a correr para a latrina
rezando que não houvesse ninguém por perto que a pudesse ouvir. Os criados
consideravam-na indigna da sua atenção, sendo suficientemente espertos para
perceber que Nero a considerava indigna da dele. Com a cabeça à volta sentou-se
no banco do tear e olhou pela janela para as colunas e peristilo delapidado do
jardim do outro lado. - Pára quieto, sua... sua coisa! - gritou ao bebé.
Como que por magia os pontapés cessaram - porque não se teria lembrado daquilo
antes? Agora podia começar a pensar.
Liberdade, vinda de uma fonte com a qual ninguém sonharia e, muito menos, ela
própria. Um versículo no mais recente Livro Sibilino! Ela sabia que, cinquenta
anos antes, Lúcio Cornélio Sila tinha encomendado ao Quindecênviros a tarefa de
procurar os fragmentos dos Livros Sibilinos parcialmente queimados - que
estavam os fragmentos a fazer fora de Roma? Mas sempre pensara naquela colecção
de coplas e quadras abstrusas como absolutamente etéreas, sem qualquer relação
com as pessoas normais nem com os acontecimentos normais. Tremores de Terra,
guerras, invasões, incêndios, a morte de homens poderosos, o nascimento de
crianças destinadas a salvar o mundo: era sobre isso que versavam os livros
proféticos.
Apesar de ter perguntado a Nero do que iria viver, Lívia Drusila não estava
preocupada com isso. Se os deuses se tinham dignado a reparar nela - como era
evidente que acontecera - e a libertá-la daquele casamento horrendo, então não
permitiriam que descesse ao ponto de convidar homens no exterior de Vénus
Erucina ou de morrer à fome. O exílio na Casa das Vestais deveria ser uma coisa
temporária; as vestais eram escolhidas aos seis ou sete anos de idade e tinham
que permanecer virgens durante os trinta anos de serviço, pois a sua virgindade
representava a sorte de Roma. E as vestais não recebiam mulheres - ela devia
ser mesmo especial! Não conseguia sequer imaginar o que lhe reservaria o futuro
e não tentou fazê-lo. Chegava-lhe ser livre e, finalmente, a sua vida parecer
encaminhar-se.
Tinha uma pequena arca onde guardava as poucas roupas quando viajava; quando o
mordomo chegou, apenas uma hora depois, para lhe perguntar se estava pronta
para a curta caminhada do Gérmalo do Palatino até lá a baixo ao Fórum romano, o
baú já estava fechado e trancado e ela envolta numa capa quente para se
proteger do frio e da neve que ameaçava cair. Calçando sapatos com espessas
solas de cortiça para que os pés não se sujassem na porcaria, caminhou o mais
rapidamente que os sapatos lhe permitiam atrás do criado que lhe transportava o
baú e que se ia queixando em voz alta da sua falta de sorte para quem o
quisesse ouvir.

191

Descer as Escadas das Vestais foi uma tarefa demorada, mas depois disso o
caminho era curto e plano, dava a volta à Aedes de Vesta e ia até à entrada
lateral da metade da Domus Publica, que pertencia às vestais. Ali uma criada
entregou o baú a uma gaulesa musculosa e levou-a para um quarto onde havia uma
cama, uma mesa e uma cadeira.
- As latrinas e os banhos são ao fundo do corredor - disse a governanta, pois
era isso o que ela era. - Não deverás jantar com as senhoras sagradas, mas ser-
te-á trazida aqui comida e bebida. A vestal-chefe diz que podes fazer exercício
no jardim delas, mas não às horas em que elas próprias o usam. Disseram-me que
te perguntasse se gostas de ler.
- Sim, adoro ler.
- De que livros gostas?
- Qualquer coisa em latim ou grego que as senhoras sagradas achem adequado -
disse Lívia Drusila que fora bem treinada.
-Tens alguma pergunta que queiras fazer, domina?
- Apenas uma. Tenho que partilhar a água do banho?
Passaram-se três nundinae numa paz sonhadora emplumada com flocos de neve;
compreendendo que a sua presença, grávida, deveria contrariar todos os
preceitos das vestais, Lívia Drusila não fez qualquer tentativa de ver as suas
anfitriãs e nenhuma delas, nem mesmo a vestal-chefe, a veio visitar. Passava o
tempo a ler, a andar para cima e para baixo no jardim e a banhar-se extasiada
em água limpa e quente. As instalações das vestais eram melhores do que as que
a domus de Nero lhe tinha proporcionado; os assentos nas latrinas eram de
mármore, as banheiras de granito egípcio e a comida deliciosa. O vinho,
descobriu, fazia parte da ementa.
- Foi Aenobarbo Pontífice Máximo quem recuperou o Átrio de Vesta há sessenta
anos - explicou-lhe a governanta - e depois César Pontífice Máximo instalou o
hipocausto para o aquecimento de todas as áreas residenciais e salas dos
arquivos. - Estalou a língua. -A nossa cave é dedicada ao depósito de
testamentos, mas César Pontífice Máximo trabalhou para conseguir que a sua
maior parte fosse reservada ao melhor hipocausto de Roma. Oh, como temos
saudades dele!
Um nundinum depois do Ano Novo, a governanta trouxe-lhe uma carta.
Desenrolando-a e prendendo-a com duas rochas de cristal, Lívia Drusila começou
a lê-la, o que era facilitado pelo ponto sobre cada nova palavra. Porque seria
que os copistas do Ático não usavam aquele método?
Para Lívia Drusila, amor da minha vida, saudações. Como esta carta te deixa
perceber, eu, César Divi Filius, nunca mais te esqueci depois de nos termos
encontrado em Fregelas. Foi necessário algum tempo para descobrir uma maneira
de te libertar de Tibério Cláudio Nero sem escândalo nem ódio

192

Instruí o meu liberto, Heleno, para pesquisar o novo Livro Sibilino até
encontrar um versículo que pudesse aplicar-se a ti e a Nero. Em si, tal era
insuficiente. Ele também tinha que encontrar um versículo que se aplicasse a ti
e a mim, o que era mais difícil. O excelente sujeito - fiquei satisfeitíssimo
por o ter de volta ao meu rebanho após um ano de prisão com Sexto Pompeu - é um
académico muitíssimo melhor do que é general ou almirante. Estou tão feliz ao
escrever estas palavras que me sinto como Ícaro, erguendo-me velozmente pelo
éter. Por favor, minha Lívia Drusila, não me deites ao chão! O desapontamento
matar-me-ia, se a queda não o fizesse. Aqui vão os versos que se aplicam a ti e
a Nero:
Marido e Mulher, negros como a noite Juntos são a praga de Roma Separados têm
que ser, rapidamente Ou Roma vagueará perdida para sempre.
Os meus versos e os teus são, em comparação, rosas na Campânia:
O filho de um deus, claro e de cabelo dourado Tem que receber por esposa a mãe
de dois Negra como a noite, de um par separado Juntos construirão para sempre
Roma depois.
Gostas? Eu gostei quando os li. Heleno é um sujeito muito esperto e um perito
em manuscritos. Promovi-o ao cargo de secretário-chefe.
No décimo sétimo dia deste mês, Janeiro, eu e tu seremos unidos pelo
matrimónio. Quando levei os versos ao Quindecênviros - sou um dos Quinze Homens
- eles concordaram que a minha interpretação era a correcta. Todos os
impedimentos e obstáculos foram eliminados e uma lex curiata foi passada
sancionando o teu divórcio de Nero e a nossa união.
A vestal-chefe, Apuleia, é minha prima e concordou em dar-te abrigo até nos
podermos casar. Eu concordei que, assim que Roma estiver novamente de pé,
separarei as vestais do Pontífice Máximo na sua própria casa. Amo-te.
Ela tirou os pesa-papéis e deixou que o pergaminho se enrolasse e depois pôs-se
de pé e saiu a porta. A escada de pedra até à cave não ficava longe; apressou-
se ao longo do corredor, até aos degraus, e desceu-os antes que alguém a visse.
No Átrio de Vesta todas as criadas eram mulheres livres, incluindo as que
cortavam a madeira e a enfiavam nos fornos que transformavam a madeira em
carvão. Sim, tinha sorte!

193

Os fornos já tinham sido abastecidos, mas ainda não chegara o momento de


retirar os carvões ardentes e de os enfiar no hipocausto para aquecer os
andares superiores. Como uma sombra, aproximou-se do forno mais próximo e
atirou o pergaminho para as chamas.
E porque fizera tal coisa?, perguntou-se a si própria quando já estava
novamente a salvo no seu quarto, arfando devido ao esforço. Ora, Lívia Drusila,
sabes bem porquê! Porque ele te escolheu e ninguém deverá alguma vez suspeitar
que te fez confidências tão rapidamente. Esta é uma casa de mulheres e toda a
gente se mete nos assuntos de toda a gente. Não se teriam atrevido a quebrar o
seu selo, mas assim que eu virasse as costas, iriam ler a minha carta.
Poder! Ele dar-me-á poder! Ele quer-me, precisa de mim, vai casar comigo!
Juntos reconstruiremos Roma. O Livro Sibilino diz a verdade, seja qual for a
pena que tenha escrito os versos. Se os meus dois versos são um bom indicador,
todos aqueles milhares de versos devem ser muito disparatados. Mas nunca
ninguém exigiu a um profeta em êxtase que fosse um Catulo ou uma Safo. Uma
mente bem treinada consegue inventar disparates daqueles em menos de nada.
Hoje são as Nonas. Dentro de doze dias serei a noiva de César Divi Filius; não
poderei subir mais alto. O que me obriga a trabalhar para ele com todas as
minhas forças, pois se ele tombar eu também tombarei.
No dia do seu casamento viu finalmente a vestal-chefe, Apuleia. Aquela senhora
espantosa ainda não tinha vinte e cinco anos, mas isso acontecia por vezes na
Casa das Vestais; muitas mulheres atingiam a idade de se retirarem, aos trinta
e cinco anos, mais ou menos em simultâneo, deixando como sucessoras mulheres
bastante mais novas. Apuleia podia prever pelo menos dez anos como vestal-chefe
e estava a moldar-se cuidadosamente para se transformar numa tirana suave.
Nenhuma bela e jovem vestal iria ser acusada de falta de castidade durante o
seu reinado! O castigo, se se provasse verdadeira tal acusação, era ser-se
enterrada viva com um jarro de água e um pão, mas já passara muito tempo desde
que tal acontecera, pois as vestais prezavam o seu estatuto e consideravam os
homens como seres mais estranhos do que os cavalos africanos às riscas.
Lívia Drusila ergueu os olhos; Apuleia era muito alta.
- Espero que tenhas consciência - disse a vestal-chefe com uma expressão
sombria -, que nós, as seis vestais, pusemos Roma em perigo ao receber uma
mulher grávida na nossa casa.
-Tenho consciência disso e agradeço-te.
- Os agradecimentos são irrelevantes. Fizemos sacrifícios e está tudo bem, mas
não teríamos concordado em dar-te abrigo por ninguém a não ser pelo filho de
Divus Julius. É sinal da tua extrema virtude que nada de mal nos tenha
acontecido a nós, ou a Roma, mas tudo ficará mais fácil quando te casares e
saíres daqui.

194

Se Lépido Pontífice Máximo aqui estivesse a residir, era capaz de ter recusado
que te socorrêssemos, mas a Vesta da Terra diz que és necessária a Roma. Os
nossos próprios livros o dizem também. - Entregou-lhe um manto direito castanho
e malcheiroso de um deprimente castanho-claro. - Veste-te. As pequenas vestais
teceram-te este manto com lã que nunca foi cardada nem tingida.
- Para onde vou?
- Não vais para longe. Irás apenas para o templo na Domus Publica que
partilhamos com o Pontífice Máximo. Não foi usado para nenhuma cerimónia
pública desde que César Pontífice Máximo foi ali velado após a sua morte cruel.
Marco Valério Messala Corvino, o sacerdote mais importante de Roma na
actualidade, presidirá, mas os Flâmines estarão presentes, bem como o Rex
Sacrorum.
Com a apele a arder desconfortavelmente devido à horrível camisa peluda, Lívia
Drusila seguiu a forma branca de Apuleia através das enormes salas onde as
vestais labutavam, zelando pelos seus deveres testamentários, pois eram a
guardiãs de milhões de testamentos pertencentes a cidadãos romanos de todo o
mundo e conseguiam localizar qualquer um deles no espaço de uma hora.
Uma pequena vestal risonha, de cerca de dez anos, penteara os cabelos de Lívia
Drusila em seis madeixas encaracoladas e colocara-lhe uma coroa de sete rolos
de lã sobre a cabeça. Sobre esta pôs um véu que a deixava quase cega, de tão
espesso e grosseiro que era. Para aquela noiva não haveria tecidos cor de fogo
e açafrão tão finos que podiam passar pelo olho de uma agulha de costura!
Estava vestida para casar com Rómulo e não com César Divi Filius.
Sem quaisquer janelas, o templo era um poço de escuridão salpicado por manchas
de luz amarela, aterrorizadoramente sagrado e, foi o que Lívia Drusila
imaginou, assombrado pelas sombras de todos os homens que tinham moldado a
religião romana durante um milhar de anos, desde o tempo de Eneias. Numa
Pompílio e Tarquínio Prisco andavam por ali, a pairar, de braço dado com
Aenobarbo Pontífice Máximo e com César Pontífice Máximo, observando um silêncio
tão profundo como a tumba de escuridão impenetrável em cada recanto.
Ele esperava-a sem quaisquer amigos a acompanhá-lo. Só o reconheceu devido ao
brilho dos seus cabelos, um ponto de referência tremeluzente por baixo de um
enorme candelabro de ouro que devia ter uma centena de velas. Vários homens com
togas multicoloridas estavam mais ao fundo, alguns vestindo a laena e o apex e
calçados com sapatos sem atacadores nem fivelas. Ficou sem respiração quando
percebeu finalmente: aquele era um casamento que seria celebrado à maneira
antiga, confarreatio. Ele casava-se com ela para toda a vida; a união de ambos
jamais poderia ser dissolvida, ao contrário das uniões normais. As mãos de
Apuleia fizeram-na sentar num cadeirão duplo forrado com uma pele de cordeiro
enquanto o Rex Sacrorum fazia o mesmo a Octaviano.

195

Havia mais gente nas sombras, mas não conseguia distinguir quem eram. Depois
Apuleia, no papel depronuba, lançou um enorme véu sobre os dois. Envolto numa
gloriosa toga com faixas púrpura e carmim, Messala Corvino juntou-lhes as mãos
e disse umas quantas palavras numa língua arcaica que Lívia Drusila nunca
ouvira antes. Depois Apuleia partiu ao meio um bolo de mola salsa e deu-lhes
para que o comessem - uma coisa desagradável feita com sal e farinha grosseira.
A pior parte da cerimónia foi o sacrifício que se seguiu, uma batalha confusa
entre Messala Corvino e um porco aos gritos e urros que não fora devidamente
drogado - de quem seria a culpa, quem não desejava aquele casamento? O porco
teria fugido, não fora o noivo ter "aliado debaixo do véu e tê-lo agarrado por
uma das patas de trás rindo baixinho. Ele estava jubilante.
Acabou por ser feito. As testemunhas que atestavam o acto de conferratio -
cinco membros dos Lívios e cinco membros dos Octávios - afastaram-se quando
tudo terminou. Um grito fraco de "Feliciter!" ecoou no ar pesado e a tresandar
a sangue.
Aguardava-os uma liteira na Via Sacra; ela foi instalada no seu interior por
homens empunhando tochas, pois a cerimónia arrastara-se noite dentro. Lívia
Drusila pousou a cabeça numa almofada macia e fechou os olhos. Fora um dia
muito longo para alguém que estava a entrar no oitavo mês de gravidez! Alguma
outra mulher fora alguma vez sujeita a algo de semelhante? Certamente que
aquilo fora único nos anais de Roma.
Por isso dormitou enquanto a liteira gemia e estremecia durante a viagem pelo
monte acima, até ao Palatino, e estava profundamente adormecida quando as
cortinas se afastaram para deixar entrar a luz das tochas.
- O quê? Onde? - perguntou ela confusa quando sentiu mãos a ajudarem-na a sair.
- Estás em casa, domina - disse uma voz feminina. - Anda, vem comigo. Tens um
banho à espera. César irá ter contigo depois disso. Sou a chefe das tuas
criadas e chamo-me Sofonisba.
- Tenho tanta fome!
- Haverá comida, domina. Mas primeiro um banho - disse Sofonisba ajudando-a a
despir o fato nupcial malcheiroso.
É um sonho, pensou enquanto a levavam para uma sala enorme mobilada com um
mesa, duas cadeiras e, empurrados para os cantos, três divãs velhos e pouco
confortáveis. Octaviano entrou quando ela se sentava numa das cadeiras; vinha
seguido de vários criados carregados com pratos e travessas, guardanapos, lava-
mãos e colheres.

196

- Pensei que seria melhor comermos ao estilo rural, sentados à mesa - disse ele
ocupando a outra cadeira. - Se usarmos um divã não poderei olhar-te nos olhos.
- Os seus próprios olhos, dourados à luz do candeeiro, brilhavam estranhamente.
São azul-escuros com pequenas riscas acastanhadas. Que espantoso, pensou.
-Agarrou-lhe na mão e beijou-a. - Deves estar esfomeada, come - disse. - Oh,
este é um dos melhores dias da minha vida! Casei contigo, Lívia Drusila,
confarreatio. Não há escapatória.
- Eu não quero escapar - disse ela mordendo um ovo cozido a que se seguiu um
pedaço de pão estaladiço e molhado em azeite. - Estou mesmo esfomeada.
- Come um pinto. O cozinheiro tratou-o com mel e água.
Fez-se silêncio enquanto ela comia e ele tentava comer, muito ocupado em
observá-la e reparando que ela era uma comensal exigente e com maneiras
impecáveis. E, ao contrário dos seus próprios membros que eram feios, as mãos
dela eram perfeitamente formadas, com os dedos a terminar em unhas
cuidadosamente manicuradas; flutuavam quando se mexiam. Mãos perfeitamente
adoráveis! Anéis; teria que usar anéis magníficos.
- Que noite de núpcias tão estranha - disse ela quando já não conseguia comer
mais nada. - Tencionas deitar-te comigo, César?
Ele ficou horrorizado.
- Não, claro que não! Não consigo pensar em nada de mais repelente, quer para
mim quer para ti. Teremos muito tempo para isso, pequenina. Anos e anos.
Primeiro terás que ter o filho de Nero e recuperar do parto. Que idade tens?
Que idade tinhas quando te casaste com Nero?
- Tenho vinte e um anos, César. Casei com Nero quando tinha quinze.
- Isso é revoltante! Nenhuma rapariga se devia casar aos quinze anos... não é
romano. Dezoito anos é a idade apropriada. Não é para admirar que fosses tão
infeliz. Juro que não serás infeliz comigo. Terás lazer e amor.
A expressão dela alterou-se e ficou frustrada.
- Tenho tido demasiado descanso, César, esse foi o meu maior problema. Ler e
escrever cartas, fiar, tecer... nada que importasse! Quero ter um trabalho
qualquer, um trabalho de verdade! Nero não tinha muitas criadas, mas o Átrio de
Vesta pululava de carpinteiras, estucadoras, ladrilhadoras, pedreiras, médicas,
dentistas... havia até uma veterinária que vinha tratar de cãozinho da Apuleia.
Invejava-as!
- Espero que o cãozinho fosse uma cadela - disse ele a sorrir.
- Sem dúvida. Gatas e cadelas. Elas levam uma vida maravilhosa no Átrio de
Vesta, segundo creio. Pacífica. Mas as vestais têm trabalho e, pelo que a
governanta me disse, são obcecadas por ele. Toda a gente de valor deve ter um
trabalho e, como eu não tenho nenhum, não tenho valor. Amo-te, César, mas que
vou fazer quando aqui não estiveres?

197

-Não vais ficar sem fazer nada, prometo-te. Porque pensas que, de entre todas
as mulheres, me casei contigo? Porque te olhei nos olhos e vi aí o espírito de
uma verdadeira colega de trabalho. Eu preciso de uma verdadeira ajudante a meu
lado, alguém a quem possa confiar, literalmente, a minha vida. Há tantas coisas
para as quais não tenho tempo, coisas que se adequam melhor a uma mulher e,
quando estivermos os dois deitados na nossa cama, vou pedir os conselhos de uma
mulher: os teus. As mulheres vêem as coisas de uma maneira-diferente e isso é
importante. Tu és educada e muitíssimo inteligente, Lívia Drusila. Podes
acreditar na minha palavra, tenciono pôr-te a trabalhar.
Agora era a vez dela sorrir.
- Como sabes que tenho todas essas qualidades? Uma olhadela aos meus olhos pode
levar a conclusões infundadas.
- Estive em contacto com o teu espírito.
- Sim, compreendo.
Octaviano levantou-se apressadamente e depois sentou-se de novo.
- Ia levar-te para te deitares naquele divã... deves estar exausta - disse. -
Mas os teus ossos não ficariam confortáveis, ficariam doridos. Por isso essa
será a tua primeira tarefa, Lívia Drusila. Mobilar esta basílica para que seja
condigna do Primeiro Homem em Roma.
- Mas não é trabalho de mulher comprar mobília! Esse é um privilégio masculino.
- Não me interessa de quem é o privilégio, eu não tenho tempo.
Já havia visões de estilos e de combinações de cores a povoar-lhe o espírito;
estava radiante.
- Quanto dinheiro tenho para gastar?
- O que for preciso. Roma está pobre e gastei uma grande parte da minha herança
a aliviar-lhe os sofrimentos, mas ainda não sou pobre. Madeira de citrinos,
marfim e ouro, ébano, esmalte, mármores de Carrara... aquilo de que gostares. -
Pareceu recordar-se subitamente de algo e pôs-se mesmo de pé. -Volto já -
disse.
Quando regressou trazia qualquer coisa embrulhada num pano vermelho e pousou o
embrulho em cima da mesa.
- Abre-o, minha amada esposa. É o teu presente de casamento.
Dentro do pano estava um conjunto de colar e brincos, com tons da cor da lua,
sete fiadas ligadas entre si por peças de ouro que se juntavam na parte de trás
do pescoço para fechar a jóia. Os brincos tinham, cada um, pendentes com sete
fiadas de pérolas ligadas por um fecho de ouro que assentava sobre o lóbulo da
orelha, com o gancho soldado na parte de trás.
- Oh, César! - arfou ela em transe. - São lindos! Ele sorriu, deleitado com o
deleite dela.

198

- Como tenho fama de ser unhas-de-fome, não te direi quanto custaram, mas tive
sorte. O Fabério Margarita tinha acabado de os receber. As pérolas são tão
parecidas umas com as outras que ele acha que as jóias foram feitas para uma
rainha... do Egipto ou da Nabateia, provavelmente, já que as pérolas vêem da
Taprobana. Mas nunca adornaram nenhum pescoço nem orelhas reais, pois foram
roubadas. Provavelmente há já bastante tempo. O Fabério encontrou-as no Chipre
e comprou-as por... bem, não exactamente pelo preço que lhe paguei mas, de
qualquer maneira, não as comprou baratas. Dei-tas porque tanto eu como o velho
Fabério estamos em crer que nunca foram usadas por ninguém nem apreciadas por
ninguém. Assim poderás usá-las como primeira proprietária, meum mel.
Ela deixou que ele lhe prendesse as pérolas em volta do pescoço e depois
levantou-se para que a admirasse, tão cheia de alegria que nem conseguia falar.
A pérola cor de morango de Servília empalidecia até à insignificância quando
comparada com estas... sete fiadas inteiras! A velha Clódia tinha um colar com
duas fiadas, mas nem mesmo Semprónia Atratina se podia gabar de ter mais do que
três fiadas.
- Hora de deitar- disse ele então bruscamente e pegou-lhe no cotovelo. -Tens os
teus próprios aposentos, mas se preferires outros, não sei qual é o tipo de
vista que mais gostas, diz a Burgúndio, o nosso mordomo. Gostaste da Sofonisba?
Achas que serve?
-Ando perdida nos Campos Elísios - disse ela deixando que ele a guiasse. -Tanto
trabalho e despesa por causa de mim! César, eu vi-te e amei-te, mas sei que
todos os dias que estiver contigo farão com que te ame mais.

III
Vitórias e Derrotas
39 a.C. a 37 a.C.

<Gravuras - omitidas>

201

Públio Ventídio era um picentino de Ásculo Piceno, uma grande cidade amuralhada
na Via Salária, a velha estrada do sal que ligava Firmo Piceno a Roma.
Seiscentos anos antes, as populações da planície Latina tinham aprendido a
extrair o sal dos baixios de Ostia; o sal era uma mercadoria escassa e muito
valiosa. Muito rapidamente o seu comércio passou para as mãos de mercadores que
viviam em Roma, uma pequena cidade nas margens do Tibre, vinte e cinco
quilómetros a montante de Óstia. Os historiadores, como Fábio Pictor, afirmavam
categoricamente que fora o sal que fizera de Roma a maior cidade de Itália e o
seu povo o mais poderoso.
Fosse como fosse, quando Ventídio nasceu numa família rica e aristocrática de
Ásculo no ano anterior ao assassínio de Marco Lívio Druso, a cidade
transformara-se no centro do Sul de Piceno. Situada num vale entre o sopé das
montanhas e os altos picos dos Apeninos, bem protegida dos ataques dos
Marrucinos e dos Pelignos pelas suas muralhas enormes, as tribos italianas suas
vizinhas, Asculo era o centro de uma região rica em pomares de maçãs, peras e
amêndoas, o que significava que também tinha um mel e compotas excelentes,
feitas com os frutos que não eram suficientemente bons para serem enviados
frescos para o Fórum Holitório em Roma. As mulheres faziam um magnífico
artesanato de tecidos finos de um tom de azul particularmente belo, obtido a
partir de uma flor típica da região.
Mas Ásculo tornou-se famosa por uma razão muito diferente: foi ali que foi
cometida a primeira atrocidade da Guerra Italiana, quando os habitantes, fartos
de serem discriminados por um punhado de cidadãos romanos ali residentes,
massacraram duzentos habitantes romanos e um pretor romano, que estava de
visita, durante uma representação de uma peça de Plauto. Quando chegaram duas
legiões sob o comando do tio de Divus Julius, Sexto César, para uma acção
punitiva, a cidade fechou os portões e suportou um cerco de dois anos. Sexto
César morreu de uma doença pulmonar durante um Inverno particularmente rigoroso
e foi sucedido no cargo por Gneu Pompeu Estrabão Carnifex.

202

Aquele guerreiro picentino estrábico tinha muito orgulho nos feitos que lhe
tinham granjeado o cognome de Carniceiro, mas viria a ser eclipsado pelo seu
filho, Pompeu, o Grande. Acompanhado pelo filho de dezassete anos e pelo amigo
do filho, Marco Túlio Cícero, Pompeu Estrabão apressou-se a demonstrar que não
tinha qualquer misericórdia. Imaginou uma forma de desviar o abastecimento de
água da cidade, que era obtido de um lençol subterrâneo por baixo do leito do
rio Truêncio. Mas a rendição não chegava, nem de longe, para Pompeu Estrabão,
que estava decidido a ensinar ao povo de Ásculo que não podia assassinar um
pretor romano desfazendo-o, literalmente, em pedaços. Chicoteou e decapitou
todos os asculanos do sexo masculino com idades entre os quinze e os setenta
anos, um exercício de logística difícil de organizar para um homem que estava
com pressa. Depois de deixar cinco mil corpos sem cabeça na praça do mercado,
Pompeu Estrabão expulsou treze mil mulheres, crianças e homens velhos da
cidade, deixando-os à mercê de um Inverno rigoroso sem comida nem roupas
quentes. Foi após esta orgia sanguinolenta que Cícero, insuportavelmente
agoniado com tudo aquilo, se transferiu para o serviço de Sila, no teatro de
guerra mais a sul.
O pequeno Ventídio tinha quatro anos na altura e foi poupado ao destino da sua
mãe, avó, tias e irmãs, que pereceram todas nas neves dos Apeninos. Estava
entre um pequeno número de rapazes que Pompeu Estrabão salvou para que
desfilassem durante o seu triunfo - um triunfo que escandalizou os homens
decentes de Roma. Os triunfos deviam ser organizados para celebrar vitórias
sobre inimigos estrangeiros e não italianos. Magro, esfomeado e coberto de
feridas, o pequeno Ventídio foi empurrado e espicaçado ao longo da caminhada de
mais de três quilómetros, entre o Campo de Marte e o Fórum romano e depois foi
expulso de Roma e deixado à sua sorte. Tinha então cinco anos de idade.
Mas os Italianos, fossem eles Picenos ou Marsos, Marrucinos ou Frentanos,
Samnitas ou Lucanos, eram da mesma raça dos Romanos e igualmente difíceis de
matar. Roubando comida quando não conseguia mendigá-la, Ventídio conseguiu
chegar a Reate que ficava em território sabino. Aí, um criador de mulas,
chamado Consídio, deu-lhe trabalho a limpar os estábulos das éguas de cobrição.
Aquelas éguas robustas, de linhagens seleccionadas, eram acasaladas com burros
machos para produzir mulas soberbas que valiam bom dinheiro para as legiões
romanas, que não conseguiam funcionar sem mulas de alta qualidade; seiscentas
por cada legião. O motivo de Reate se ter tornado o centro daquela actividade
devia-se ao facto de estar situada na Rósea Rura, uma planície com óptimas
pastagens; fosse verdade ou mera superstição, toda a gente acreditava que as
mulas criadas na Rósea Rura eram melhores do que as outras.
Ele era um bom rapazinho, seco e forte e trabalhava até à exaustão. Com a
cabeleira loira encaracolada e os olhos azuis e brilhantes, Ventídio
rapidamente descobriu que se olhasse para as mulheres da casa com uma mistura
de ânsia e admiração, receberia rações reforçadas e cobertores para se tapar
quando dormia no seu ninho de palha bem cheirosa.

203

Aos vinte anos era um jovem corpulento e muito musculado devido ao trabalho
duro e um grande conhecedor da criação de mulas. Amaldiçoado com um filho que
era um inútil, Consídio promoveu Ventídio a gerente da propriedade, deixando
que o filho partisse para Roma, onde bebeu, jogou e se estafou até à morte. O
que deixava Consídio reduzido a um único descendente, uma filha que havia muito
gostava de Públio Ventídio e que acabou por ganhar a coragem suficiente para
pedir ao pai para casar com ele. Consídio disse que sim; quando morreu deixou a
Ventídio em testamento as suas quinhentas iugera da Rósea Rura.
Como Ventídio era tão inteligente quanto trabalhador, conseguiu ter mais
sucesso na sua criação de mulas do que muitos sabinos que havia séculos que
andavam envolvidos naquela indústria; conseguiu até sobreviver àqueles
terríveis dez anos em que o lago que alimentava a Rósea Rura foi desviado para
um canal para irrigar as plantações de morangos de Amiterno. Felizmente que o
Senado e o Povo de Roma consideravam as mulas como sendo mais importantes do
que os morangos e o canal foi tapado e a Rósea Rura recuperou a sua
fertilidade.
Mas ele não queria verdadeiramente passar toda a sua vida a criar mulas. Quando
o banqueiro gaditano, Lúcio Cornélio Balbo, se tornou no praefectus fabrum de
César, responsável pelo abastecimento das suas legiões, Ventídio cultivou a sua
relação com Balbo e conseguiu uma audiência com César. A quem confiou a sua
ambição secreta: queria entrar para a política romana, ser pretor e comandar
exércitos.
- Serei um político medíocre - disse a César -, mas sei que conseguirei
comandar legiões.
César acreditou nele. Deixando a criação de mulas entregue ao filho mais velho
e a Consídia, tornou-se num dos legados de César e, após a morte deste,
transferiu a sua lealdade para Marco António. E agora ali estava, finalmente, o
grande comando com que sonhara.
- Polião tem onze legiões e não precisa de mais do que de sete - disse-lhe
António antes de partir de Roma. - Posso dar-te onze e Polião dar-te-á quatro
das dele. Quinze legiões e a cavalaria que conseguires reunir na Galácia devem
bastar para que te saias bem contra Labieno e Pácoro. Escolhe os teus próprios
legados, Ventídio, e lembra-te das tuas limitações. A tua missão é levar a cabo
acções de controlo contra os Partos até que eu finalmente consiga entrar
pessoalmente em campo. Deixa a sova para mim.
- Então António, com a tua permissão, levarei o Quinto Popédio Silo como meu
principal legado. - Ventídio sorriu tentando disfarçar o seu deleite. - Ele é
um bom homem, herdou as competências militares do pai.
204

- Esplêndido. Embarca em Brundísio assim que os ventos do equinócio tenham


enfraquecido... não podes marchar pela Via Egnácia, leva demasiado tempo.
Embarca para Éfeso e começa a campanha com a expulsão de Quinto Labieno da
Anatólia. Se chegares a Éfeso em Maio, terás muito tempo.
Brundísio não levantou quaisquer objecções a recolher a poderosa corrente do
porto para que Ventídio e Silo embarcassem os seus 66 000 homens, 6000 mulas,
600 carroças e 600 peças de campanha nos 500 navios de transporte que tinham
aparecido como que por magia junto ao porto vindos de uma qualquer origem
desconhecida. Uma parte dos recursos secretos de António, provavelmente.
- Os homens vão ficar apertados como sardinhas dentro de um pote, mas não vão
ter muita oportunidade de se queixar o tempo todo por irem de barco - disse
Silo a Ventídio. - Podem remar. Vamos conseguir meter tudo nos barcos, até
mesmo a artilharia.
- Óptimo. Assim que dobrarmos o cabo Ténaro o pior já terá passado. Silo
parecia ansioso.
- E então Sexto Pompeu, que agora domina o Peloponeso e o cabo Ténaro?
- António assegurou-me que ele não tentará deter-nos.
- Ouvi dizer que ele anda outra vez muito activo no mar da Toscana.
- Não me interessa o que ele faça no mar da Toscana desde que deixe o mar
Jónico em paz.
- Onde é que o António foi arranjar tantos transportes? Há aqui mais navios do
que aqueles que Pompeu Magno, ou César, conseguiram juntar.
- Apanhou-os depois de Filipos e manteve-os em seu poder, tirou-os da água e
guardou-os ao longo da costa adriática da Macedónia e do Épiro. Uma boa parte
deles estavam nas praias em torno do golfo da Ambrácia onde ele também tem uma
centena de navios de guerra. Na verdade António tem mais barcos do que Sexto.
Infelizmente estão a chegar ao fim da sua vida útil, apesar dos abrigos onde
foram guardados. Ele tem uma frota enorme em Tassos e outra em Atenas. Faz de
conta que a frota de Atenas é a única que possui, mas agora sabemos que tal não
é verdade. Estou a confiar em ti, Silo. Não me desapontes.
- Os meus lábios estão selados, dou-te a minha palavra. Mas porque é que
António se agarra assim aos barcos, para quê o segredo?
Ventídio pareceu surpreendido.
- Para o dia em que entrar em guerra com Octaviano.
- Rezo para que esse dia nunca chegue - disse Silo estremecendo. - O segredo
significa que ele não tem qualquer intenção de derrotar Sexto. - Pareceu
confuso e zangado. - Quando o meu pai comandou os Marsos e, depois, todos os
povos italianos contra Roma, os transportes e as frotas de guerra pertenciam ao
Estado e não a comandantes individuais.

205

Agora que a Itália e Roma são iguais em direitos, o Estado fica sentado nas
bancadas de trás enquanto os comandantes ocupam os lugares da frente. Passa-se
qualquer coisa de errado quando homens como António encaram a propriedade do
Estado como se fosse sua. Sou leal a António e continuarei a sê-lo, mas não
posso aprovar a forma como as coisas estão.
- Nem eu - disse Ventídio em tom rabugento.
- Serão os inocentes quem sofrerá se chegarmos à guerra civil. Ventídio pensou
na sua infância e fez uma careta.
- Suponho que os deuses se inclinam mais para proteger os suficientemente ricos
para lhes fazerem sacrifícios melhores. O que é uma pomba ou uma galinha quando
comparadas com um boi imaculadamente alvo? Além disso é melhor ser-se um romano
genuíno, Silo, ambos o sabemos.
Silo, um homem bem-parecido, com os perturbantes olhos verdes e amarelados do
pai, assentiu.
- Bem, com os Marsos nas tuas legiões, Ventídio, venceremos no Oriente. Uma
campanha de contenção? É isso o que tu queres?
- Não. - Ventídio pôs um ar desdenhoso. - Esta é a minha melhor oportunidade de
ter uma campanha decente, portanto tenciono ir tão longe quando me for possível
e tão depressa quanto puder. Se António quer a glória, devia estar aqui no meu
lugar e não a manter Octaviano debaixo de um olho e Sexto debaixo do outro.
Será que ele pensa que nós, de Polião a mim, não o sabemos?
- Achas mesmo que conseguimos vencer os Partos?
- Podemos tentar, Silo. Já vi António a comandar tropas e ele não é melhor do
que eu, se é que é tão bom como eu. Certamente que não é nenhum César! - O
barco deslizou sobre a corrente submersa do porto e apanhou o vento de
nordeste. -Ah, gosto do mar! Adeus Brundísio, adeus Itália! - gritou Ventídio.
Em Éfeso, as suas quinze legiões instalaram-se em vários acampamentos enormes
em torno da cidade portuária, uma das mais belas do mundo. As suas casas tinham
fachadas de mármore, dispunha de um teatro enorme, tinha dúzias de templos
magníficos e um deles era dedicado a Ártemis na sua forma de deusa da
fertilidade, razão pela qual as estátuas a mostravam com grinaldas de
testículos de boi que a cobriam do pescoço à cintura.
Enquanto Silo fazia as rondas pelas quinze legiões e as mantinha sob um olhar
severo nos treinos e exercícios, Ventídio encontrou uma rocha que formava um
assento natural e instalou-se aí para pensar em paz e sossego. Reparara num
destacamento de quinhentos homens com fundas, enviados por Polémon, o filho de
Zenão, que estava a tentar governar o Ponto sem a aprovação oficial de António.
Quando se deteve para assistir aos seus exercícios, os homens das fundas
fascinaram Ventídio. Incrível, a distância a que um homem, com um pedaço de
sola e uma tira de cabedal, conseguia atirar um míssil de pedra!

206

Mais do que isso, o míssil atravessava o ar a uma velocidade espantosa. Com


potência suficiente para expulsar um arqueiro parto do campo de batalha? Agora
essa é que era a questão!
Desde o primeiro dia de planeamento da sua campanha que Ventídio decidira não
se contentar com nada menos do que um triunfo. Por isso preocupava-se com os
lendários arqueiros montados dos Partos que, fingindo fugir do campo de
batalha, se viravam para trás e disparavam sobre a garupa dos cavalos. Com
perfeita lógica, Ventídio partira do princípio de que o grosso das tropas seria
constituído por arqueiros montados que nunca chegavam suficientemente perto da
infantaria para serem golpeados. Mas talvez aqueles soldados com as fundas....
Ninguém lhe dissera que Pácoro tinha apostado o seu sucesso nos catafractários,
guerreiros cobertos por cotas de malha, dos pés à cabeça, montados em cavalos
enormes, também eles protegidos por cotas de malha da cabeça aos joelhos.
Pácoro não tinha sequer arqueiros a cavalo. Aquela chocante falta de informação
sobre o inimigo devia-se a Marco António que não pedira qualquer relatório
sobre as forças partas. E mais nenhum romano o fizera. Tal como Ventídio, todos
os que rodeavam António tinham-se limitado a presumir que o exército parto era
composto por mais arqueiros montados do que por catafractários. Os exércitos
partos sempre tinham sido assim, porque haveria aquele de ser diferente?
E era por isso que Ventídio estava ali sentado a pensar em homens com fundas
enquanto planeava uma acção dirigida, principalmente, contra arqueiros montados
que já não ficavam sem setas, nem mesmo nas batalhas mais longas.
E se, pensou Ventídio, ele conseguisse reunir todos os guerreiros com fundas do
Oriente e os treinasse para atingir os arqueiros montados com os seus mísseis?
Não valia a pena dar uma funda a um legionário; este preferiria ser chicoteado
e decapitado a tirar a cota de malha e a empunhar uma funda em vez de um
gladius. Todavia, a pedra não era um míssil satisfatório. Para já, os homens
não lançavam qualquer tipo de pedra; passavam imenso tempo a revistar os leitos
dos rios em busca das pedras adequadas - lisas, redondas, com cerca de
quatrocentos gramas de peso. E, a não ser que a pedra atingisse uma parte
frágil do corpo, particularmente o crânio, provocava feridas terríveis mas nada
de letal. Um inimigo era assim posto fora do campo de batalha, mas conseguiria
recuperar para regressar alguns dias depois. Era esse o problema das pedras e
das setas; eram armas limpas e as armas limpas raramente matavam. A espada era
uma arma suja, coberta com o sangue de todos aqueles que já encontrara antes e
os legionários veteranos limpavam as suas espadas mas nunca as lavavam. As suas
lâminas eram mantidas suficientemente afiadas para cortar um cabelo; quando
entravam na carne levavam consigo os venenos que fariam a ferida infectar e,
talvez, matar.

207

Bem, não conseguiria arranjar um míssil venenoso para a funda, pensou Públio
Ventídio, mas poderia arranjar um mais letal. Pela sua experiência com
artilharia de campo, sabia que eram os pedregulhos maiores aqueles que causavam
mais estragos, não tanto devido ao seu tamanho, mas pela capacidade que tinham
de desfazer tudo em quanto batiam enviando os pedaços pelos ares. Se a
catapulta ou balista era verdadeiramente eficiente, lançava os mísseis a uma
velocidade maior do que um instrumento cuja corda estivesse húmida ou não
tivesse sido apertada com força suficiente. Chumbo. Meio quilo de chumbo
ocupava muito menos espaço do que meio quilo da pedra mais dura. Ganharia por
isso mais velocidade dentro da funda, que poderia ser girada com mais força, e
voaria mais longe do que uma pedra devido à velocidade. E quando batesse,
mudaria de forma, achatar-se-ia ou poderia mesmo ganhar uma ponta. Os mísseis
de chumbo não eram inéditos, mas concebidos para serem lançados por pequenas
peças de artilharia por cima das muralhas das cidades, como acontecera em
Perúsia e esse era um exercício cego e com resultados pouco fiáveis. Uma bola
de chumbo, lançada por um perito no manejo de fundas, na direcção de um alvo
específico, digamos que a uma distância de sessenta metros, era capaz de se
revelar extremamente útil.
Mandou os artesãos da legião fabricarem um pequeno número de bolas de chumbo
com meio quilo avisando-o de que, se a ideia se revelasse prometedora, teriam
que fabricar milhares e milhares de bolas. O artesão-chefe argumentou
inteligentemente, sugerindo que seria melhor contratar a um privado o
fornecimento de milhares e milhares de bolas de chumbo.
- Um privado vai esfolar-nos - disse Ventídio conseguindo manter uma expressão
neutra.
- Não se eu designasse uma dúzia de artesãos da legião para pesar cada bola e
verificar que não tem altos nem imperfeições, general.
Concordando com a proposta, desde que o artesão-chefe fornecesse o chumbo e
garantisse que este não era adulterado pela adição de metais mais baratos como
o ferro, Ventídio levou um saco com bolas de chumbo para o campo de treino dos
homens das fundas, rindo sozinho. Nunca se conseguia levar a melhor sobre um
legionário esperto e cheio de recursos, por mais que se tentasse e por mais
elevada que fosse a nossa patente. Eles tinham crescido mais ou menos como ele
próprio, da mão para a boca, e não tinham medo de nada, nem sequer de cães com
três cabeças.
Xenão, o chefe do destacamento de fundibulários, estava no seu posto.
- Experimenta uma destas - disse Ventídio entregando-lhe as bolas.
Xenão equilibrou a bolinha no couro da funda e fez girar a arma até esta
assobiar. Uma torção ágil e a bola de chumbo uivou pelos ares, indo embater a
meio de um alvo. Juntos foram inspeccionar os estragos; Xenão guinchou, pois
estava demasiado espantado para gritar.

208

- General, olha! - disse quando recuperou a fala.


- Já estou a olhar.
O míssil não fizera um buraco no cabedal macio, rasgara uma abertura irregular
e escancarada e aninhara-se no recheio de terra e gravilha.
- O problema dos vossos alvos - disse Ventídio - é não terem um esqueleto.
Suspeito que estas bolas de chumbo se comportarão de forma diversa quando
atingirem algo com um esqueleto verdadeiro. Por isso vamos experimentar um
destes mísseis numa mula condenada.
Quando encontraram a mula já os quinhentos fundibulários se tinham juntado o
mais perto possível do campo de treinos; espalhara-se a notícia de que o
comandante romano inventara um novo projéctil.
- A garupa virada para a trajectória da bola - ordenou Ventídio. - Vamos usá-
las para atingir cavalos com mais ou menos o mesmo tamanho desta mula. Um
cavalo por terra é um arqueiro fora de combate. Os Partos podem conseguir
substituir o fornecimento de setas, mas de cavalos? Duvido que tenham assim
tantos de reserva.
A mula ficou tão mutilada que teve que ser imediatamente abatida para acabar
com o seu sofrimento; ficara com o couro rasgado e as entranhas mutiladas.
Quando foi retirado do cadáver, o míssil já não era uma bola, parecendo-se mais
com um prato achatado com os bordos irregulares, resultado, ao que parecia, de
ter embatido em osso ao entrar no corpo.
- Fundibulários! - gritou Ventídio. - Tendes uma nova arma! Ouviram-se vivas de
todos os lados.
- Manda recado a Polémon de que preciso de mais mil e quinhentos fundibulários
e mil talentos do chumbo das sobras das suas minas de prata - disse a Xenão. -
O Ponto acaba de se tornar num aliado muito importante.
É claro que as coisas não eram assim tão simples. Alguns dos fundibulários
tinham mais dificuldade em lançar o projéctil mais pequeno e outros, mais
rígidos, recusavam-se a ver a sua excelência. Mas gradualmente até os
fundibulários mais renitentes se tornaram peritos em lançar as bolas de chumbo
e teciam rasgados elogios à sua nova arma. As modificações feitas na própria
funda também ajudaram, pois a utilização veio demonstrar que a bola de chumbo
desgastava mais rapidamente as fundas mais frágeis do que as pedras.
Mais ao menos quando o contentamento se espalhara entre os fundibulários,
chegaram mais mil e quinhentos de Amasia e de Sinope e esperava-se a chegada de
mais, vindos de Amiso, que ficava mais distante. Não sendo parvo, Polémon
contava que a sua generosidade e rapidez lhe rendessem dividendos mais tarde.
Ventídio não estava ocioso enquanto os fundibulários continuavam com os seus
treinos e também não estava completamente satisfeito.

209

O novo governador da província da Ásia, Lúcio Munácio Planco, tinha-se


instalado em Pérgamo, bem a norte do alcance das incursões de Labieno, que
atingiam a Lícia e a Caria. Mas um natural de Pérgamo a soldo de Labieno
procurou Planco e convenceu-o de que Éfeso caíra e que Pérgamo seria o alvo
seguinte dos Partos. Assustado e não sendo muito corajoso, atreito a dar
ouvidos a conselhos falsos, Planco tinha feito as malas à pressa e fugira para
a ilha de Quios, mandando uma mensagem a António, que ainda se encontrava em
Roma, dizendo que nada conseguiria parar Labieno.
"E tudo isso", disse Ventídio numa carta enviada a António, "enquanto eu estava
atarefado a desembarcar quinze legiões em Éfeso! O homem é um imbecil e um
cobarde e não pode ficar no comando de tropas. Não me dei ao trabalho de o
contactar por achar que tal seria uma perda de tempo."
"Agiste bem, Ventídio", dizia a carta de António que chegou quando Ventídio e o
seu exército se aprestavam para iniciar a marcha. "Reconheço que nomeei Planco
governador para ele deixar de me incomodar - um pouco como Aenobarbo na
Bitínia, só que Aenobarbo não é cobarde. Deixa Planco ficar em Quios, o vinho
de lá é excelente."
Quando viu aquela resposta, Silo riu-se.
- Excelente, Ventídio, só que vamos deixar a província da Ásia sem governador.
- Pensei nisso - disse Ventídio complacentemente. - Como o Pitodoro de Trales é
agora genro de António, chamei-o a Éfeso. Ele poderá receber os tributos e os
impostos em nome do seu querido sogro António e enviá-los para o Tesouro de
Roma.
- Oooh - disse Silo com os olhos estranhos muito abertos. - Duvido que isso
agrade a António! As ordens dele são para o dinheiro lhe ser enviado
directamente.
- Essa ordem não me foi dada a mim, Silo. Sou leal a Marco António, mas sou
mais leal a Roma. Os tributos e impostos cobrados em nome de Roma devem ir para
o Tesouro. O mesmo deverá acontecer com qualquer saque que consigamos. Se
António quiser queixar-se pode fazê-lo... mas só depois de termos derrotado os
Partos.
Ventídio estava muito animado, pois os homens livres da Galácia, que não tinham
chefe, juntaram todos os guerreiros montados que poderiam encontrar e tinham
vindo para Éfeso, desejosos de mostrar àquele general romano desconhecido o que
os bons cavaleiros eram capazes de fazer. Eram dez mil, todos demasiado novos
para terem morrido em Filipos e ansiosos por preservar as suas planícies
verdejantes das depredações de Quinto Labieno, que estava demasiado próximo
para que se sentissem seguros.
- Vou cavalgar com eles, mas não na frente - disse Ventídio a Silo. - Cabe-te a
ti pôr a infantaria na estrada e depressa. Não quero que as minhas legiões
façam menos do que cinquenta quilómetros por dia e quero que vão pelo caminho
mais directo às Portas Cilicianas. Ou seja, pelo Maeander e através do Norte da
Pisídia até Icónio.

210

Segue pela rota das caravanas daí para o Sul da Capadócia, onde apanharás a
estrada romana que leva às Portas Cilicianas. É uma marcha de oitocentos
quilómetros e tens vinte dias para a fazer. Entendido?
- Perfeitamente, Públio Ventídio - respondeu Silo.
Não era costume dos comandantes romanos viajarem a cavalo; a maioria preferia
caminhar por várias razões. A primeira era o conforto; um homem a cavalo não
tinha onde apoiar o peso das pernas que ficavam penduradas. Outra razão era a
infantaria gostar que os seus comandantes marchassem; isso punha-os ao mesmo
nível deles, literal e metaforicamente. A terceira razão era a cavalaria ser
mantida no seu lugar; os exércitos romanos compunham-se em larga medida por
tropas de infantaria, mais valorizadas do que as tropas a cavalo que, ao longo
dos séculos, se tinham tornado não romanas, forças auxiliares compostas por
gauleses, germanos e gálatas. Todavia, Ventídio estava mais habituado a montar
do que a maioria dos soldados devido à sua carreira de criador de mulas.
Divertia-o recordar aos seus colegas mais arrogantes que o grande Sila andara
sempre numa mula e que obrigara César, o Deus, a montar uma mula na juventude.
O seu objectivo era manter um controlo severo sobre as tropas de cavalaria,
comandadas por um gaiata chamado Amintas que fora secretário do velho rei
Deiotaro. Se Ventídio estivesse certo, Labieno retiraria na frente de uma força
de cavalaria tão grande até encontrar um local onde os seus dez mil soldados de
infantaria, com treino romano, conseguissem vencer dez mil cavaleiros. Isso não
seria em parte nenhuma da Caria nem da Anatólia Central; poderia fazê-lo na
Lícia ou no Sul da Pisídia, mas retirar nessa direcção tornaria muito difíceis
as suas comunicações com o exército parto. Os seus instintos, que estavam
correctos, levá-lo-iam pelas mesmas regiões que Ventídio mencionara ao traçar o
percurso das suas legiões a Silo, mas levar-lhes-ia dias de avanço. Dez mil
cavaleiros nos calcanhares forçá-lo-iam a fugir demasiado depressa para poder
conservar o comboio dos abastecimentos, sobrecarregado com saques que só eram
transportáveis por carros de bois. Esse ficaria para Silo; a tarefa de Ventídio
era manter Labieno numa retirada apressada para a Cilicia Pedia e o exército
parto do lado mais distante da cordilheira de Amano, a barreira geográfica
entre a Cilicia Pedia e o Norte da Síria.
Só havia uma maneira de Labieno conseguir passar da Capadócia para a Cilicia,
pois os imensamente altos e agrestes montes Tauro isolavam a Anatólia Central
de todas as regiões para leste. As neves dos montes Tauro eram eternas e os
poucos caminhos que existiam ficavam a três mil e a três mil e quinhentos
metros de altitude, especialmente num dos segmentos da cordilheira. Com
excepção das Portas Cilicianas. Era nas Portas Cilicianas que Ventídio esperava
apanhar Quinto Labieno.

211
Os jovens soldados gálatas eram exactamente da idade que produz os melhores e
mais bravos guerreiros: não tinham idade suficiente para terem esposas nem
família, não tinham idade suficiente para achar que travar uma batalha com o
inimigo fosse algo de meter medo. Apenas Roma conseguira transformar homens com
mais de vinte anos em soldados excelentes e essa era uma marca da superioridade
romana. Disciplina, treino, profissionalismo, um conhecimento seguro e
inabalável de que cada homem era uma parte de uma máquina enorme e imbatível.
Sem as suas legiões, Ventídio sabia que não conseguiria derrotar Labieno; o que
tinha que fazer era fixar o renegado num local e tornar-lhe impossível a
passagem pelas Portas Cilicianas e, depois, esperar pela chegada das suas
legiões. Ao confiar em Silo, estava a entregar-lhe a batalha que se aproximava.
Labieno agiu da forma esperada. A sua rede de informadores tinha-lhe feito
saber da enorme força que estava em Éfeso e, ao ouvir o nome do seu comandante,
soube que tinha que retirar rapidamente para a Anatólia. O seu saque era
considerável, pois alcançara locais onde Bruto e Cássio não tinham chegado. A
Pisídia estava cheia de santuários de Kubaba Cibele e do seu consorte Átis; a
Licaónia estava repleta de santuários de divindades esquecidas pelo resto do
mundo desde que Agamémnon governara a Grécia; e Icónio era uma cidade onde
havia templos de deuses médios e arménios. Por isso tentou desesperadamente
arrastar o comboio das bagagens atrás de si - exercício que se revelou
completamente fútil. Abandonou-o a oitenta quilómetros a ocidente de Icónio,
com os condutores dos carros demasiado assustados pela horda romana que os
perseguia para pensarem sequer em roubar o seu conteúdo. Fugiram, abandonando
um comboio de carros de bois esfomeados, sequiosos e aos berros, que se
estendia por três quilómetros. Ventídio deteve-se apenas para libertar os
animais, para que estes pudessem encontrar água, e continuou em frente. Quando,
a devido tempo, o saque chegasse até ao Tesouro, este seria avaliado em cinco
mil talentos de prata. Não havia obras de arte de valor incalculável, mas havia
uma grande quantidade de ouro, prata e pedras preciosas. Seria, pensou enquanto
o seu rabo subia e descia com os movimentos da mula, um adorno adequado ao seu
triunfo.
A região em torno das Portas Cilicianas não era boa para os cavalos; as suas
florestas de vários tipos de pinheiro eram demasiado cerradas para que a erva
crescesse e nenhum cavalo comeria uma folhagem tão aromática. Cada soldado
transportava consigo o máximo de palha que lhe era possível, uma das razões
pela qual Ventídio não se pudera apressar. Mas os soldados eram engenhosos,
colhiam cada rebento verdejante que encontravam; aos olhos de Ventídio pareciam
as lituus de um augure, encimadas por uma cornucópia. Contando com a palha que
ainda tinha e com os rebentos de fetos que iam encontrando, calculou que
conseguiriam sobreviver durante dez dias. O bastante se Silo fosse
suficientemente duro para empurrar as suas legiões para marchas de cinquenta
quilómetros por dia.

212

César conseguira sempre que os legionários fizessem caminhadas mais longas do


que isso, mas César era único. Oh, aquela marcha de Placência para socorrer
Trebónio e o resto de Agêndico! Ah que grande gratidão, matar o homem que os
salvara. Ventídio curvou-se e cuspiu num Gaio Trebónio imaginário.
Labieno alcançara o topo da passagem dois dias antes e conseguira derrubar
árvores suficientes para construir um acampamento romano em grande estilo,
usando os toros para construir altas paliçadas, escavando valas em torno do
perímetro e erguendo torres a intervalos no topo da paliçada. Contudo, as suas
tropas eram treinadas por romanos mas não eram romanas, o que significava que o
acampamento não era perfeito - tinham ido por atalhos, como Ventídio dizia. À
sua chegada, Labieno não fez menção de sair de trás das suas fortificações para
lhe dar batalha, mas Ventídio também não esperara que ele o fizesse. Ele
aguardava que Pácoro e os seus partos chegassem da Síria; era essa a atitude
prudente. Mas também era um arriscado jogo de espera. Os batedores dele já
deviam ter visto Silo e as suas legiões, tal como os batedores de Ventídio já
se tinham assegurado de que não havia partos num raio de vários dias de viagem
até às Portas Cilicianas. Mais para leste do que isso, Ventídio não se atrevia
a enviar batedores. O facto mais animador era que Silo não podia estar muito
longe, a julgar pela velocidade com que Labieno construíra o seu acampamento.
Três dias mais tarde, Silo e as quinze legiões desceram as encostas do Tauro;
tinham chegado antes dos reforços partos, que ainda estavam a alguma distância
e seriam obrigados a subir desde a costa, em Tarso, uma tarefa desgastante para
cavalos e homens.
- Ali - disse Ventídio a Silo quando se encontraram e apontando com o dedo; não
tinha tempo a perder. - Construiremos o nosso acampamento por cima do de
Labieno e em terrenos elevados. - Mordeu o lábio e tomou uma decisão. - Envia o
jovem Ápio Pulcro com cinco das legiões para norte de Eusebeia Mazaca... dez
serão suficientes para combater neste terreno, é demasiado irregular para que
se possam dispor tropas em números muito elevados e eu não tenho espaço para
construir um acampamento com quilómetros quadrados de área. Diz a Pulcro para
ocupar a cidade e estar preparado para marchar assim que receber ordens. Poderá
também enviar-nos um relatório sobre o estado das coisas na Capadócia...
António está ansioso por saber se há lá um Ariárates capaz de governar.
As tropas de cavalaria não eram usadas na construção de um acampamento; não
eram romanos e não faziam ideia de como se trabalhava com as mãos. Agora que
Silo chegara, já poderia construir algo que servisse de abrigo aos soldados mas
que não lhes desse a ideia de que a estada seria prolongada. Labieno estava
suficientemente preocupado para se refugiar no interior da sua paliçada a olhar
para cima, para a encosta rugosa onde crescia rapidamente o acampamento de
Ventídio; o seu único consolo era que, ao ficar em terrenos mais elevados,
Ventídio lhe deixara uma via de fuga para a Cilicia, em Tarso.

213

Facto de que Ventídio também tinha consciência embora tal não o preocupasse.
Preferia correr com Labieno da Anatólia naquele momento; um local tão íngreme e
irregular não era sítio para travar uma batalha decisiva. Apenas uma boa
batalha.
Quatro dias após a chegada de Silo, veio um batedor avisar os comandantes
romanos de que os Partos tinham contornado Tarso e entrado na estrada que subia
para as Portas Cilicianas.
- Quantos são? - perguntou Ventídio.
- Cinco mil, mais ou menos, general.
- Todos arqueiros?
O homem fitou-o, inexpressivo.
- Não há arqueiros. São todos catafractários, todos sem excepção, general. Não
sabia?
Os olhos azuis de Ventídio encontraram os olhos verdes de Silo, ambos
sobressaltados.
- Mas que trapalhada! - gritou Ventídio quando o batedor se foi embora. - Não,
não sabíamos! Aquele trabalho todo com os fundibulários e para nada! -
recompôs--se e conseguiu pôr um ar determinado. - Bem, teremos que apostar no
terreno. Tenho a certeza de que Labieno acha que somos idiotas por lhe termos
dado uma oportunidade de fuga, mas agora estou mais empenhado em abater
catafractários do que em matar os mercenários dele. Convoca uma reunião de
centuriões para amanhã de madrugada, Silo.
O plano foi estudado cuidadosa e meticulosamente.
- Não fui capaz de descobrir se Pácoro comanda pessoalmente o exército -disse
Ventídio aos seus seiscentos centuriões na reunião -, mas o que temos que
fazer, rapazes, é atrair os Partos para que carreguem colina acima sem apoio da
infantaria de Labieno. Isso significa que nos vamos pôr nas paliçadas a gritar
insultos terríveis aos Partos... na língua deles. Tenho um sujeito que escreveu
umas quantas palavras que cinco mil homens terão que aprender de cor. Porcos,
idiotas, filhos-da-puta, selvagens, cães, comedores de merda, labregos.
Cinquenta centuriões com vozes grossas terão que aprender a dizer "O teu pai é
um chulo!" e "A tua mãe chupa pilas!" e "Pácoro é um guardador de porcos!" Os
Partos não comem porco e acham que os porcos são impuros. A ideia é fazê-los
ficar de tal forma raivosos que se esqueçam das tácticas e carreguem.
Entretanto, Quinto Silo terá aberto os portões do acampamento e quebrado as
paliçadas laterais para que nove legiões possam sair rapidamente. A vossa
missão, rapazes, é dizerem aos vossos homens para não terem medo daqueles
grandes mentulae nem dos seus grandes cavalos. Os vossos homens devem avançar
como soldados úbios de infantaria, por baixo e à volta dos cavalos e atacar as
pernas dos animais.

214

Quando o cavalo cair atirem a espada à cara do cavaleiro ou a qualquer parte do


corpo que não esteja protegida pela cota de malha. Vou usar na mesma os meus
fundibulários, embora não tenha a certeza de que sejam grande ajuda. E é só,
rapazes. Os Partos vão cá estar amanhã bem cedo, portanto o dia de hoje tem que
ser passado a aprender insultos na língua deles e a falar, falar, falar. Estão
dispensados e que Marte e Hércules Invicto vos acompanhem. Foi mais do que uma
boa batalha; foi uma doce batalha, um baptismo ideal para os legionários que
nunca tinham posto os olhos num catafractário antes. Os cavaleiros de armadura
pareciam mais temíveis do que a experiência demonstrara que realmente eram e
reagiram à barragem de insultos com uma raiva que ultrapassava todo o bom
senso. Lá carregaram pela colina íngreme eriçada de cepos de árvore, fazendo
tremer o solo, soltando os seus gritos de guerra, fazendo alguns cavalos tombar
desnecessariamente porque os cavaleiros iam de encontro aos cepos ao tentarem
saltar-lhes por cima. Os seus oponentes de cota de malha, muito pequenos em
comparação, saíram da floresta dos dois lados do acampamento e dançaram,
ligeiros, por entre uma floresta de patas equinas, batendo, espetando,
cortando, transformando a carga dos Partos num frenesim de cavalos a relinchar
e de cavaleiros atirados pelos ares, impotentes perante a chuva de golpes que
lhes caía sobre o rosto e os golpes que os atingiam por baixo dos braços. Uma
boa estocada com um gladius conseguia penetrar a cota de malha sobre o ventre,
apesar de não ser muito bom para a lâmina.
E, para seu grande deleite, Ventídio descobriu que os mísseis de chumbo
disparados pelos seus fundibulários penetravam as protecções dos Partos e
provocavam baixas.
Sacrificando mil soldados de infantaria que ficaram a combater na retaguarda,
Labieno fugiu pela estrada romana abaixo na direcção da Cilicia, grato por
estar vivo. Que era mais do que os Partos podiam dizer, pois tinham sido feitos
em pedaços. Talvez um milhar deles tivesse ido com Labieno, os restantes ou
estavam mortos ou a morrer no campo de batalha das Portas Cilicianas.
- Mas que banho de sangue - disse Silo exultante a Ventídio quando, seis horas
após o seu início, a batalha terminou.
- Como é que nos saímos, Silo?
- Oh, de forma excelente. Umas quantas cabeças rachadas que foram apanhadas por
coices, várias esmagadas debaixo das patas dos cavalos, mas no total... diria
que umas duzentas baixas. E vê só aquelas glandes de chumbo! Nem a cota de
malha as consegue deter.
De cenho franzido, Ventídio percorreu o campo de batalha sem se comover com
aqueles que sofriam à sua volta; desafiaram o poder de Roma e descobriram que
isso era fatal. Uns quantos legionários andavam por entre as pilhas de mortos e
moribundos, dando o golpe de misericórdia aos cavalos e homens que não poderiam
sobreviver.

215

Poucos dos que ficaram tinham ferimentos ligeiros, mas esses seriam reunidos e
seria pedido um resgate por eles, pois os guerreiros catafractários eram nobres
cujas famílias tinham dinheiro para os resgatar. Se o resgate não viesse, os
homens seriam vendidos como escravos.
- Que vamos fazer com estas montanhas de mortos? - perguntou Silo e suspirou. -
Nesta região, a camada de terra no solo não tem mais que trinta ou sessenta
centímetros de espessura e não vai ser fácil cavar sepulturas para os enterrar
e a madeira é demasiado verde para construir piras.
- Arrastamo-los para o acampamento do Labieno e deixamo-los lá a apodrecer -
disse Ventídio. - Quando aqui voltarmos, se é que voltaremos, não passarão de
ossos descarnados. Não há qualquer habitação em quilómetros em redor e as
disposições sanitárias do Labieno são suficientemente boas para garantir que o
Cidno não será poluído. - Bufou. - Mas primeiro procuramos o saque. Quero que a
minha parada triunfal seja boa... nada de imitações do triunfo macedónio para
Públio Ventídio!
E aquele comentário, pensou Silo sorrindo interiormente, era uma chapada em
Polião que andava a travar a mesma guerra de sempre na Macedónia.
Em Tarso, Ventídio descobriu que Pácoro não estivera presente na batalha,
talvez uma das razões porque fora tão fácil fazer os Partos enfurecerem-se.
Labieno continuava em fuga através da Cilicia Pedia, com a coluna em convulsão
devido à presença dos catafractários sem chefe e de uns quantos mercenários
rabugentos com influência suficiente para criar problemas entre os soldados de
infantaria mais plácidos.
- Temos que nos manter nos calcanhares dele - disse Ventídio -, mas desta vez
serás tu quem acompanhará a cavalaria, Silo. Eu comandarei pessoalmente as
legiões.
- Levei demasiado tempo a chegar às Portas Cilicianas?
- Edepol, não! Aqui entre nós, Silo, estou a ficar velho de mais para grandes
cavalgadas. Tenho os tomates doridos e uma fistula. Tu dar-te-ás melhor, és
muito mais novo. Um homem com quase cinquenta e cinco anos está condenado a
usar os pés.
Apareceu um criado junto à porta.
-Domine, Quinto Délio está aqui para vos ver e pede para lhe darmos alojamento.
Os olhos azuis e os verdes cruzaram-se novamente, num daqueles olhares que só a
amizade e os gostos semelhantes permitem; disseram imensas coisas apesar de não
ter sido trocada uma única palavra.
- Manda-o entrar mas não te preocupes com o alojamento.

216

- Caríssimo Públio Ventídio! E Quinto Silo também! Que bom que é ver-vos. -
Délio instalou-se numa cadeira antes de esta lhe ter sido oferecida e olhou
intencionalmente para o jarro de vinho. - Uma gota de qualquer coisa leve,
branca e brilhante seria bem-vinda.
Silo serviu o vinho e estendeu-lhe o copo enquanto dizia a Ventídio:
- Se não houver mais nada vou tratar dos meus assuntos.
- Amanhã de madrugada para ambos.
- Credo, credo, tanta urgência! - disse Délio bebericando e depois fazendo uma
careta. - Brrr! Que mijo é este? É de terceira escolha?
- Não te sei dizer porque não o provei - disse Ventídio bruscamente. - Que é
que queres, Quinto Délio? E terás que dormir esta noite numa pousada, pois o
palácio está cheio. Poderás mudar-te para cá amanhã e ficar com ele todo para
ti. Nós vamos embora.
Ficando muito indignado, Délio endireitou-se na cadeira e olhou-o irado. Desde
aquele jantar memorável em que partilhara o divã de António, dois anos antes,
habituara-se de tal modo à deferência que esperava, mesmo da parte de soldados
endurecidos como Públio Ventídio. E agora ele não o tratava com nenhuma! Os
seus olhos castanhos encontraram os de Ventídio e corou; o que vira fora
desprezo.
- Bem, realmente! - gritou. - Já basta! Tenho imperium de propretor e insisto
em ser instalado imediatamente! Manda Silo embora, se não tens mais ninguém a
quem possas fazê-lo.
- Não vou mandar embora nem o mais insignificante contubernalis por causa de um
verme como tu, Délio. O meu imperium é proconsular. O que é que queres?
- Trago uma mensagem do triúnviro Marco António - disse Délio friamente -, e
esperava poder entregá-la em Éfeso, não num ninho de ratos como Tarso.
- Então devias ter andado mais depressa - disse Ventídio sem qualquer simpatia.
- Enquanto andaste a baloiçar num barco, eu travei batalha com os Partos. Podes
levar uma mensagem minha a António: diz-lhe que derrotámos um exército parto de
catafractários nas Portas Cilicianas e que pus Labieno em fuga. Qual é a tua
mensagem? Alguma coisa tão excitante como esta?
- Não é sensato antagonizares-me - disse Délio num murmúrio.
- Isso não me rala nada. A mensagem? Tenho trabalho para fazer.
- Tenho instruções para te lembrar que Marco António está muito ansioso por ver
o rei Herodes dos Judeus sentado no trono o mais depressa possível.
A incredulidade estava estampada na cara grande de Ventídio.
- Queres dizer que António te mandou a esta distância toda só para me dizeres
isso? Diz-lhe que ficarei muito satisfeito por sentar o rabo gordo do Herodes
num trono, mas primeiro tenho que expulsar da Síria Pácoro e o seu exército o
que é capaz de levar algum tempo. Podes todavia garantir ao triúnviro Marco
António que não esquecerei as suas instruções. É tudo?

217

Inchado como um balão, Délio arreganhou o lábio num esgar. -Vais arrepender-te
deste comportamento, Ventídio! - sibilou.
- Lamento uma Roma que encoraja lambe-botas como tu, Délio. Podes ir andando.
Ventídio saiu deixando Délio a ferver. Como se atrevia o velho criador de mulas
a tratá-lo assim! De momento, no entanto, decidiu ele largando o vinho e
pondo--se de pé, o velho insuportável teria que ser tolerado. Tinha derrotado
um exército parto e correra com Labieno da Anatólia - notícias de que António
gostaria tanto como gostava de Ventídio. Não esperas pela demora, pensou Délio
para consigo; quando tiver oportunidade, atacarei. Mas ainda não. Não, ainda
não.
Comandando os soldados gálatas com coragem e astúcia, Quinto Popédio Silo
encurralou Labieno a meio da passagem pelo monte Amano, a que chamavam Portas
Sírias, e esperou que Ventídio chegasse com as legiões. Era Novembro mas não
estava muito frio; as chuvas de Outono ainda não tinham vindo, o que
significava que o solo estava duro e em condições de nele se travar uma
batalha. Um qualquer comandante parto tinha trazido dois mil catafractários da
Síria em auxílio de Labieno, mas de nada serviu. Pela segunda vez, aqueles
guerreiros montados foram feitos em pedaços, mas agora a infantaria de Labieno
também pereceu.
Detendo-se apenas para escrever uma carta jubilante a António, Ventídio
continuou na direcção da Síria onde não encontrou quaisquer partos. Pácoro
também não estivera na batalha de Amano; corriam rumores de que regressara a
casa na Selêucia do Tigre havia meses, levando consigo Hircano dos Judeus.
Labieno fugira e embarcara para o Chipre em Apameia.
- Isso não lhe servirá de nada - disse Ventídio a Silo. - Creio que António
colocou um dos libertos de César em Chipre para governar em seu nome... Gaio
Júlio... hum... Demétrio, é isso. - Pegou num papel. - Manda-lhe isto
imediatamente, Silo. Se ele é quem eu acho que é, a minha memória fica
confundida com estes libertos gregos, revistará muito eficientemente a ilha de
Pafos a Salamina. Diligentemente, até.
Tratado esse assunto, Ventídio espalhou as legiões por vários acampamentos de
Inverno para aguardarem pelo que lhes traria o novo ano. Confortavelmente
entrincheirado em Antioquia e com Silo em Damasco, passou os dias de lazer a
sonhar com o seu triunfo, cuja perspectiva se tornava cada vez mais atraente. A
batalha do monte Amano rendera dois mil talentos de prata e algumas belas obras
de arte para decorar os carros na parada. Podes comer o teu próprio rabo,
Polião! O meu triunfo deixará o teu a milhas de distância.

218

A pausa de Inverno não durou tanto como Ventídio esperara; Pácoro regressou da
Mesopotâmia com todos os catafractários que conseguiu arranjar - mas nenhum
arqueiro a cavalo. Herodes apareceu em Antioquia com novidades, aparentemente
recolhidas junto de um dos apaniguados de Antígono que se sentira amargurado
com a perspectiva de um prolongado domínio dos Partos.
- Estabeleci uma excelente relação com o sujeito... um saduceu chamado Ananeel
que deseja tornar-se sumo sacerdote. Como não tenciono ser eu próprio sumo
sacerdote, ele serve tão bem como qualquer outro e prometi-lhe o lugar em troca
de informações exactas sobre os Partos. Fi-lo murmurar aos seus contactos
partos que, depois de teres ocupado a Síria do Norte, tencionas montar uma
cilada a Pácoro em Nicefório, no rio Eufrates, porque estás à espera que ele o
atravesse em Zeugma. Pácoro agora acredita nisso e ignorará Zeugma e continuará
pela margem oriental, sempre para norte, até Samósata. Suponho que tomará o
atalho de Crasso pelo rio Bilechas acima; não é irónico?
Apesar de não conseguir simpatizar com Herodes, Ventídio era suficientemente
esperto para perceber que aquele sapo ganancioso não tinha nada a ganhar
mentindo; quaisquer que fossem as informações que Herodes lhe desse seriam
verdadeiras.
- Agradeço-te, rei Herodes - disse ele sem sentir o tipo de asco que Délio lhe
inspirava. Herodes não era um sicofanta, apesar da sua atitude subserviente;
estava simplesmente determinado a destronar Antígono, o usurpador, e ser rei
dos Judeus. - Podes ficar descansado que assim que a ameaça dos Partos deixar
de existir, eu ajudar-te-ei a livrares-te de Antígono.
- Espero não ter que aguardar muito tempo - disse Herodes com um suspiro. -As
mulheres da minha família e a minha noiva estão encalhadas no cimo da rocha
mais detestável do mundo. O meu irmão José mandou-me uma mensagem, dizendo que
estão com as reservas de comida muito em baixo. Receio não os poder ajudar.
- Algum dinheiro seria uma ajuda? Posso dar-te o suficiente para viajares até
ao Egipto, comprares mantimentos e pagar o transporte da comida para a tua
família. Conseguirás fazer chegar os mantimentos a esse rochedo detestável sem
seres apanhado à saída do Egipto?
Herodes sentou-se, cheio de animação.
- Consigo escapar facilmente à detecção, Públio Ventídio. O rochedo tem um nome
- Massada - e fica lá muito em baixo, no Palus Asfaltite. Uma caravana de
camelos que viesse por terra de Pelúsio evitaria judeus, idumeus, nabateus e
partos.
- Uma lista temível - disse Ventídio com um sorriso. - Então enquanto trato de
Pácoro sugiro que faças isso. Anima-te, Herodes! Por esta altura do próximo ano
estarás em Jerusalém.
Herodes conseguiu parecer humilde e desafiador em simultâneo, o que não era
pouco.
- Eu... hum... como é que... ah... me candidato a esse dinheiro?

219

- Limitas-te a ir ter com o meu questor, rei Herodes. Dir-lhe-ei para te dar o
que pedires... dentro do razoável, claro. - Os olhos azuis brilhantes
tremeluziram. - Os camelos são caros, eu sei, mas eu sou criador de mulas de
profissão. Faço uma ideia razoável do custo de tudo o que tenha quatro patas.
Trata comigo com honestidade e mantém o fluxo de informações.
Oito mil catafractários apareceram do Nordeste, em Samósata, e atravessaram o
Eufrates quando este estava no seu ponto mais baixo do Inverno. Assumindo
pessoalmente o comando desta vez, Pácoro avançou para ocidente, para Caleis,
pela estrada que levava a Antioquia, através de campos verdejantes que não lhe
punham qualquer dificuldade e que ele conhecia bem das suas incursões
anteriores. Havia erva e água com fartura e, à parte uma serra baixa chamada
Gindarus, o terreno era fácil e relativamente plano. Sentindo-se confortável
por saber que todos os pequenos príncipes da região estavam do seu lado,
aproximou-se por um dos flancos de Gindarus com os cavaleiros estendendo-se por
quilómetros atrás de si, pastando a caminho de Antioquia que eles sabiam estar
novamente nas mãos dos Romanos. Os agentes de Herodes tinham feito bem o seu
trabalho e Antígono dos Judeus, que se previa mantivesse abertos os seus canais
de comunicação com Pácoro, andava demasiado ocupado a subjugar os Judeus que
ainda sentiam o domínio romano como sendo menos estranho.
Um batedor chegou a galope para o informar de que havia um exército romano
entrincheirado em Gindarus, protegido por boas fortificações. Foi um alívio
para Pácoro que chamou os seus catafractários para as linhas de batalha; não
gostara de não saber onde estava o exército romano.
Repetiu todos os erros cometidos pelos seus subordinados nas Portas Cilicianas
e no monte Amano, ainda imbuído de desprezo pelos soldados apeados,
confrontados com gigantes de armadura em cima de cavalos couraçados. O grosso
dos catafractários carregou colina acima, de encontro a uma chuva de mísseis de
chumbo, que lhes perfuraram as armaduras a uma distância muito maior do que a
das setas; no meio da maior desordem, com os cavalos relinchando devido às
bolas que lhes acertavam entre os olhos, a vanguarda partia tropeçou. Foi então
que os legionários se lançaram sem medo na batalha, esquivando-se por entre os
cavalos esmagadores para lhes atacar os joelhos e atirar os cavaleiros por
terra, onde morriam com as espadas cravadas na cara. As suas lanças compridas
eram inúteis no meio daquela confusão e a maioria ainda tinha as espadas
embainhadas. Sem qualquer esperança de conseguir que a sua retaguarda passasse
pela confusão na sua frente, e sem maneira de encontrar o flanco dos Romanos,
Pácoro observou horrorizado os legionários a aproximarem-se da sua própria
posição no topo de uma pequena colina. Mas lutou, tal como lutaram os homens à
sua volta, defendendo-o até ao último homem.

220

Quando Pácoro caiu, aqueles que ainda podiam fazê-lo, desmontaram e rodearam o
seu corpo, tentando bater-se com genuínos soldados de infantaria. Ao cair da
noite a maior parte dos oito mil cavaleiros estava morta, os poucos
sobreviventes galopavam a toda a velocidade em direcção do Eufrates e da sua
terra, levando o cavalo de Pácoro como prova de que este morrera.
Na verdade ele ainda não estava morto quando a batalha terminou, apesar de ter
um ferimento fatal na barriga. Um legionário deu-lhe o golpe de misericórdia,
tirou-lhe a armadura e entregou-a a Ventídio.
"O terreno era o ideal", escreveu Ventídio a António, que estava em Atenas com
a mulher e a sua prole de crianças. "Terei a armadura dourada de Pácoro para
exibir no meu triunfo; os meus homens proclamaram-me imperator no campo por
três vezes, como poderei comprovar se o exigires. Não fazia sentido fazer
acções de contenção neste momento da campanha, que progrediu com naturalidade
para uma série de três batalhas. Claro que compreendo que o facto de a minha
campanha ter sido decisiva não é razão de queixa para ti. Deu-te simplesmente
uma Síria mais segura para onde poderás conduzir os teus exércitos - incluindo
o meu, que estacionarei em acampamentos de Inverno junto a Antioquia, Damasco e
Caleis - para a tua grande campanha contra a Mesopotâmia.
"Chegou contudo aos meus ouvidos que Antíoco de Comagena concluiu um tratado
com Pácoro que entregava Comagena ao domínio parto. Também ofereceu comida e
rações a Pácoro, que foi o que permitiu a este entrar na Síria sem os problemas
que afligem habitualmente as grandes forças de cavalaria. Por isso em Março
tenciono levar sete legiões para norte, até Samósata, e ver o que o rei Antíoco
tem para dizer sobre a sua traição. Silo prosseguirá para Jerusalém com duas
legiões para instalar o rei Herodes no seu trono.
"0 rei Herodes foi uma grande ajuda para mim. Os agentes dele espalharam
informações erradas entre os espiões partos, o que me permitiu encontrar o
terreno ideal enquanto os Partos permaneciam completamente ignorantes quanto à
minha localização. Creio que Roma terá nele um aliado valoroso. Dei-lhe cem
talentos para que fosse comprar provisões ao Egipto para a sua família e a
família do rei Hírcano, que estão refugiados numa montanha qualquer que não
pode ser assaltada. Ainda assim a minha campanha rendeu dez mil talentos de
prata em despojos, que vão a caminho do Tesouro em Roma, no momento em que
escrevo esta carta. Depois de eu ter o meu triunfo e de os despojos serem
libertados, os teus lucros serão consideráveis. A minha parte, da venda dos
escravos, não será grande pois os Partos lutaram até ao fim. Apanhei cerca de
mil homens do exército de Labieno e vendi-os.
"Quando a Quinto Labieno, acabo de receber uma carta de Gaio Júlio Demétrio, do
Chipre, que me informa que capturou Labieno e o matou.

221

Deploro este facto, pois não me parece que um mero liberto grego, mesmo que
tenha pertencido ao falecido César, tenha autoridade suficiente para mandar
executar homens. Mas deixo-te a decisão final relativamente a esse assunto,
como é minha obrigação.
"Garanto-te que quando chegar a Samósata tratarei com dureza Antíoco que
renegou o seu estatuto de Amigo e Aliado. Espero que esta carta te encontre bem
a ti e aos teus."
A vida em Atenas era agradável, especialmente desde que Marco António resolvera
as suas divergências com Tito Pompónio Ático, o romano mais apreciado de
Atenas, como o testemunhava o seu cognomen Ático, que significava ateniense de
coração. Amante de rapazinhos atenienses teria sido uma discrição mais
adequada, mas esse facto era discretamente ignorado por todos os Romanos, até
mesmo por alguém tão homofóbico como António. Em tempos mais recuados, Ático
conseguira disciplinar-se para não se dedicar ao seu gosto por rapazinhos a não
ser na Atenas tolerante da homossexualidade, onde construíra uma mansão e
fizera muitas benfeitorias à cidade ao longo dos anos. Homem de vasta cultura e
literato reconhecido, Ático tinha um passatempo que acabava por lhe render bom
dinheiro; publicava os trabalhos de autores romanos famosos, de Catulo a Cícero
e a César. Cada novo volume era copiado em edições que iam das várias dúzias
aos vários milhares. Uma centena de escribas, escolhidos pela fiabilidade e
legibilidade, estavam confortavelmente instalados num edifício próximo do
Argileto perto do Senado, e andavam muito ocupados naquela altura com os
trabalhos de Virgílio e de Horácio. Anexas àquele scriptorium havia instalações
que funcionavam como biblioteca pública, um conceito que fora na verdade
inventado pelos Irmãos Sósio, os editores seus rivais da porta ao lado. A sua
carreira de editores era anterior à de Ático, mas faltava-lhes a imensa riqueza
deste e tinham que trabalhar com mais lentidão; recentemente os Irmãos Sósio
tinham produzido obras de aspirantes políticos, um dos quais estava ligado a
António como seu legado sénior.
Na meia-idade, Ático casara com uma prima, Cecília Pília, que lhe dera uma
menina, Cecília Ática, a sua única filha e herdeira da sua fortuna. Uma crise
de paralisia estival deixara Pília inválida; morrera pouco após a batalha de
Filipos, deixando Ático sozinho a criar Ática. Nascida dois anos antes de César
ter atravessado o Rubicão, a menina tinha agora treze anos, educada ternamente
por um homem sofisticado que nunca lhe escondia nenhuma das suas actividades,
acreditando que a ignorância só a tornaria vulnerável às bisbilhotices
maldosas. Apesar disso, Ático preocupava-se com a sua única cria que estava a
chegar à maturidade - quem poderia escolher para seu marido dentro de cinco
anos?

222

Uma espantosa habilidade e uma invulgar capacidade para manter boas relações
com todas as facções da classe dominante de Roma tinham garantido, até então, a
sobrevivência de Ático, mas após a morte de César o mundo mudara de uma forma
tão radical que ele temia tanto pela sua própria sobrevivência como pelo bem-
estar da sua filha. A sua única fraqueza tinha sido a simpatia pelas mais
duvidosas das matronas romanas; esta levara-o a socorrer Servília, a mãe de
Bruto e amante de César; Clódia, a irmã de Públio Clódio e famosa devoradora de
homens e Fúlvia, que fora mulher de nada menos do que três demagogos: Clódio,
Curião e António. Ter dado abrigo a Fúlvia quase originara a sua ruína, apesar
do seu poder no mundo comercial de Roma governado por cavaleiros; por um
instante horrível parecera que tudo, das suas importações de cereais aos seus
vastos latifundia no Epiro, seria amalgamado num único lote e levado a leilão
para benefício de António, mas ao receber a breve missiva daquele ordenando-lhe
que abandonasse Fúlvia, obedecera. Apesar de ter chorado amargamente em privado
ao saber que ela cortara os pulsos, o destino de Ática e da sua fortuna era
mais importante.
Por isso quando António chegou a Atenas com Octávia e o seu cortejo de
crianças, Ático dedicou-se a ficar nas boas graças de marido e mulher. Foi
encontrar o triúnviro muito mais calmo e apaziguado e atribuiu, correctamente,
o crédito a Octávia. Era evidente que estavam felizes juntos, mas não da forma
habitual nos recém-casados, que nunca queriam a companhia de mais ninguém a não
ser um do outro. António e Octávia estavam desejosos de companhia e assistiam a
todas as palestras, simpósios e eventos que a Capital da Cultura tinha para
oferecer e recebiam frequentemente em casa. Sim, um ano de casamento melhorara
António, da mesma forma que aquele labrego famoso do Pompeu, o Grande, tinha
melhorado depois de casar com a encantadora filha de César, Júlia.
Evidentemente que o velho António continuava a habitar o invólucro hercúleo:
impetuoso, com mau feitio, agressivo, hedonista e preguiçoso.
Era a última característica, a preguiça de António, que ocupava principalmente
os pensamentos de Ático enquanto este percorria uma estreita viela ateniense a
caminho de um jantar com ele na residência do governador. Corria o mês de Abril
do ano de consulado de Ápio Cláudio Pulcro e Gaio Norbano Flaco e -juntamente
com o resto de Atenas - Ático sabia que os Partos tinham sido expulsos para as
suas próprias terras. Não por António mas por Públio Ventídio. Em Roma as
pessoas diziam que as incursões dos Partos tinham-se simplesmente desmoronado,
desfeitas tão rapidamente que António não tivera tempo de se juntar a Ventídio
na Cilicia ou na Síria. Mas Ático sabia que não fora assim; nada impedira
António de estar onde estava a acção militar. Isto é, nada a não ser a fraqueza
mais fatal de António: uma preguiça que o levava a adiamentos perpétuos.
Parecia cego ao ritmo dos acontecimentos, dizendo confortavelmente a si próprio
que tudo aconteceria quando ele o desejasse.

223

Enquanto Júlio César fora vivo para o pressionar, aquele defeito não parecera
tão fatal e, após a morte de César, fora Octaviano quem o pressionara. Mas
Filipos fora uma vitória tão grande para António que as suas fraquezas tinham-
se multiplicado subitamente. Tal como acontecera quando Júlio César o deixara
encarregue de toda a Itália enquanto ele próprio partia para esmagar os últimos
dos seus inimigos. E o que fizera António com essa imensa responsabilidade?
Atrelara quatro leões a um carro, juntara uma comitiva de mágicos, bailarinas e
palhaços e festejara sem fim. Trabalho? O que era isso? Roma geria-se a si
própria; sendo o homem no poder, podia fazer exactamente o que queria, que era
divertir-se. Apesar de tal não ter por base qualquer realidade, parecia
acreditar que, por ser Marco António, tudo acabaria por correr da forma como
ele achava que devia. E quando as coisas não lhe corriam de feição, António
culpava toda a gente excepto a si próprio.
Sob a influência calmante de Octávia, ele não mudara verdadeiramente. O prazer
antes do trabalho, sempre. Polião e Mecenas tinham reorganizado as fronteiras
triunvirais com mais sensatez, algo que deveria ter libertado António
completamente para a liderança dos seus exércitos. Mas, aparentemente, ele
ainda não estava pronto para o fazer e as suas desculpas eram ocas. Octaviano
não representava nenhuma ameaça genuína e, apesar dos seus protestos, tinha
dinheiro suficiente para entrar em guerra. As suas legiões já existiam, estavam
devidamente equipadas e abastecidas com o cereal barato de Sexto Pompeu. Então
o que o detinha?
Quando chegou à residência do governador Ático já atingira um estado de
amargura típico dos homens velhos e descobriu, com desalento, que ele e António
iriam jantar sozinhos; invocando uma qualquer doença infantil Octávia
desculpara--se. Tal significava que teria que levar António e elogiá-lo até ele
ficar bem-disposto. Com pesar, Ático apercebeu-se de que a refeição iria ser
desagradável.
- Se o Ventídio aqui estivesse, julgá-lo-ia por traição! - foi a primeira frase
de António.
Ático riu-se.
- Disparate! - disse.
António pareceu sobressaltado e depois pesaroso.
- Sim, sim, compreendo porque dizes que é um disparate, mas a guerra contra os
Partos era minha! Ventídio ultrapassou as ordens que tinha.
- Devias estar tu na tenda de comando, meu caro António! - disse Ático
bruscamente. - Como não estavas, como te podes queixar se o teu substituto se
saiu tão bem que nem sequer teve baixas muito pesadas? Devias estar a oferecer-
lhe Marte Invicto.
- Ele devia ter esperado por mim - disse António com teimosia.
- Disparate! O teu problema é quereres sempre dois tipos de vida em simultâneo.

224

O rosto carnudo de António deixou transparecer a irritação pelas palavras


duras, mas nos olhos não se vislumbrava o brilho vermelho da fúria iminente.
- Dois tipos de vida? - perguntou.
- Sim. O mais famoso homem dos nossos tempos pavoneando-se pelo palco ateniense
perante um coro de aplausos admirativos... esse é um tipo de vida. O mais
famoso homem dos nossos tempos comandando as suas legiões e levando-as à
vitória... esse é outro tipo de vida.
- Há muito a fazer em Atenas! - disse António com indignação. - Não sou eu que
ajo fora de tempo, Ático, é o Ventídio. Ele parece um pedregulho a rolar
encosta abaixo! Mesmo agora não se contenta em gozar os louros. Em vez disso
levou sete legiões pelo Eufrates acima para dar uma canelada ao rei Antíoco!
- Eu sei. Mostraste-me a carta dele, lembras-te? O que Ventídio faz ou não, não
é o que interessa. O que interessa é que estás em Atenas e não na Síria. Porque
não o admites, António? Tu és um procrastinador.
Em resposta, António desatou à gargalhada.
- Oh, Ático! - arfou quando conseguiu. - És insuportável! - subitamente
acalmou-se e franziu o cenho. - No Senado teria que aturar os generais de divã
a criticarem-me, mas isto não é o Senado e estás a irritar-me.
- Eu não sou membro do Senado - disse Ático suficientemente irritado para ter
perdido o medo daquele homem perigoso. - As carreiras públicas estão sujeitas a
críticas vindas de todos os lados, incluindo de meros homens de negócios como
eu. Repito-o, Marco António, és um procrastinador.
- Bem, talvez seja, mas tenho um programa. Como posso ir mais para oriente do
que Atenas quando Octaviano e Sexto Pompeu ainda andam a fazer das suas?
- Podias esmagar esses dois rapazes e sabe-lo bem. Na verdade, deverias ter
esmagado Sexto há anos e deixado Octaviano a tratar da sua vida, na Itália.
Octaviano não representa uma verdadeira ameaça para ti, mas Sexto é um abcesso
a precisar de ser lancetado.
- Sexto mantém Octaviano ocupado.
Perdeu a cabeça. Ático levantou-se do divã com um salto e deu a volta, para
confrontar o anfitrião por cima da mesa baixa e estreita carregada de comida,
com o rosto habitualmente amável distorcido pela fúria.
- Estou farto de te ouvir dizer isso! Cresce, António! Não podes ser
virtualmente o senhor de metade do mundo e pensar como um miúdo da escola! -
cerrou os punhos e agitou-os. - Passei uma grande parte do meu tempo precioso a
tentar perceber o que se passa contigo, porque não consegues agir como um
estadista. Agora já sei. És obstinado, preguiçoso e nem de perto tão
inteligente como pensas que és! Um mundo melhor organizado nunca teria feito de
ti o seu senhor!

225

De boca aberta, demasiado atordoado para conseguir falar, António ficou a vê-lo
pegar na toga e nos sapatos e dirigir-se à porta. Depois também ele saltou do
divã e alcançou Ático a tempo de o impedir de sair.
-Tito Ático, por favor! Deita-te novamente por favor! - O rito do sorriso
afastou-lhe os lábios dos dentes, mas conseguiu manter suave o aperto no braço
de Ático.
A ira desvaneceu-se; Ático pareceu encolher e depois deixou-se ser puxado
novamente para o divã e instalou-se novamente no locus consularis.
- Desculpa - murmurou.
- Não, não, tens direito à tua opinião - disse António em tom bastante jovial.
-Ao menos fico a saber o que pensas de mim.
- Estavas a pedi-las, sabes. Sempre que começas a usar Octaviano como um
pretexto para te demorares no Ocidente, em vez de ires para onde devias, fico
sem paciência - disse Ático partindo um pedaço de pão.
- Mas Ático, o rapaz é um completo idiota! Eu preocupo-me com a Itália, de
verdade.
- Então ajuda Octaviano em vez de lhe criares dificuldades.
- Nem num milhar de anos!
- Ele está com grandes dificuldades, António. Parece que os cereais da próxima
colheita nunca chegarão ao destino, graças a Sexto Pompeu.
- Então Octaviano devia ficar em Roma a enfiar os dedos por baixo das saias da
Lívia Drusila em vez de andar a organizar invasões da Sicília com sessenta
navios. Sessenta navios! Não é para admirar que tenha sido derrotado. - Uma mão
enorme mas bem feita estendeu-se para um franguinho. A comida pareceu acalmá-
lo; olhou de soslaio para Ático com um sorriso. - Deixa-me só ter uma campanha
bem--sucedida contra os Partos no próximo ano e, depois disso, darei a
Octaviano toda a ajuda de que precisar. - Pareceu ficar desconfiado. - Tu não
gostas do Octaviano, pois não?
- É-me indiferente - disse Ático num tom distante. -Tem ideias estranhas sobre
a forma como Roma deve funcionar... ideias que não me beneficiarão a mim nem a
qualquer outro plutocrata. Tal como o Divus Julius, acho que ele tenciona
enfraquecer a primeira classe e a parte superior da segunda classe para
reforçar as classes mais baixas. Oh, não o Conto de Cabeças, reconheço. Ele não
é nenhum demagogo. Se fosse simplesmente um explorador cínico da credulidade
popular eu não estaria preocupado. Mas acho que ele acredita firmemente que
César é um deus e que ele próprio é filho de um deus.
- A insistência dele na deificação de César é sinal de insanidade - disse
António sentindo-se melhor.
- Não, Octaviano não é doido. Na verdade acho que nunca conheci um homem mais
são de espírito do que ele.

226

- Eu posso ser um procrastinador, mas ele tem ilusões de grandeza.


-Talvez tenha, mas espero que tenhas conservado a imparcialidade suficiente
para conseguires ver que Octaviano é algo de novo em Roma. Tenho razões para
acreditar que contratou um pequeno exército de agentes por toda a Itália que
trabalham arduamente para perpetuar a ficção de que ele e César são
iguaizinhos. Tal como César, ele é um orador brilhante com grande carisma para
as multidões. A sua ambição não tem limites, razão pela qual dentro de poucos
anos vai enfrentar uma situação muito séria - disse Ático sobriamente.
- O que queres dizer? - perguntou António completamente perdido.
- Quando o filho egípcio de César for mais velho é inevitável que venha a Roma.
Os meus contactos egípcios afirmam que o rapaz é igualzinho a César e não só na
aparência. É um prodígio. A mamã dele afirma que a única coisa que deseja para
ele é garantir-lhe o trono e o estatuto de Amigo e Aliado do Povo Romano e pode
ser que seja verdade. Mas se ele é a cara chapada de César e Roma o vir, pode
muito bem apropriar-se de Roma, da Itália e das legiões de Octaviano que, na
melhor das hipóteses, é uma imitação de César. Tu não serás afectado porque,
por essa altura, já terás sido obrigado a reformares-te... Cesarião ainda nem
tem nove anos. Mas dentro de treze ou catorze anos será um homem feito. Os
problemas de Octaviano contigo e com Sexto Pompeu empalidecerão até à
insignificância quando comparados com Cesarião.
- Hum - disse António e mudou de assunto.
Um jantar perturbante mas, apesar disso, a digestão de António foi saudável
como sempre. Alguma reflexão permitiu-lhe descartar as críticas de Ático
relativamente à sua própria conduta - como poderia ele saber os problemas com
que António se debatia relativamente a Octaviano? Afinal ele tinha setenta e
quatro anos; apesar da sua figura esbelta e ágil e da sua grande sagacidade
para os negócios, a senilidade devia estar a começar a atacá-lo.
Tinham sido os comentários de Ático relativamente a Cesarião que lhe
permaneceram no espírito. De cenho franzido começou a pensar na sua estada de
três meses em Alexandria, havia já mais de dois anos. Teria realmente Cesarião
quase nove anos? Do que ele se recordava era de um rapazinho valente, desejoso
de participar em todas as aventuras, da caça ao hipopótamo à caça ao crocodilo.
Destemido. Bem, César também o fora. Cleópatra tendia a apoiar-se nele, apesar
da sua idade, e tal não constituíra uma surpresa para António. Ela era muito
emotiva e nem sempre sensata, enquanto que o filho era... era o quê? Mais duro,
certamente. Mas que mais? Não sabia.
Oh, porque não teria ele mais paciência para a bela arte da correspondência?
Cleópatra escrevia-lhe de tempos a tempos e não passara despercebido a António
o facto de as suas cartas serem sobretudo sobre Cesarião, a sua esperteza e
autoridade natural. Mas não prestara verdadeiramente atenção, considerando
aqueles comentários como sendo normais numa mãe babada.

227

Sendo casado com Octávia, sabia tudo o que havia para saber sobre mães babadas.
Sentiu um impulso vago de visitar Alexandria e ver, por si próprio, no que
Cesarião se estava a transformar, mas de momento tal era impossível. Apesar de
que, pensou, descobrir que Octaviano tinha um primo rival mais perigoso do que
Marco António, lhe daria imenso prazer. Sentou-se para escrever a Cleópatra.

Minha querida rapariga, tenho andado a pensar em ti enquanto estou aqui em


Atenas metaforicamente impotente. Esse estado ainda não me aconteceu
literalmente, apresso-me a acrescentar e sinto o grande amigo que tenho nas
virilhas começar a estremecer quando penso em ti e nos teus beijos. Atenas,
como já deves ter reparado, melhorou o meu estilo literário - pouco há aqui
para fazer a não ser ler, frequentar a Academia e outros locais filosóficos e
falar com homens como Tito Pompónio Ático que vem jantar comigo.
Será que o nono aniversário do Cesarião está mesmo próximo? Suponho que deve
estar, mas entristece-me pensar que perdi esses dois preciosos anos da sua
infância. Acredita que irei ter contigo assim que me for possível. Os meus
gémeos devem estar quase com dois anos - como o tempo passa! Nunca os vi
sequer. Sei que chamaste Ptolomeu ao meu filho e Cleópatra à minha filha, mas
eu penso neles como Sol e Lua, por isso talvez pudesses, quando tiveres aí o
Cha'em, chamar oficialmente ao meu filho Ptolomeu Alexandre Hélio e a minha
filha Cleópatra Selene? Ele é o décimo sexto Ptolomeu e ela a oitava Cleópatra,
portanto seria bom que tivessem os seus nomes pessoais, não achas?
No próximo ano estarei de certeza em Antioquia, apesar de poder não ter tempo
de ir a Alexandria. Sem dúvida que ouviste dizer que o Públio Ventídio
exorbitou o mandato que recebeu de mim ao entrar em guerra e expulsar os Partos
da Síria? Isso não me agradou, pois tresanda a húbris. Em vez de instalar
Herodes no seu trono, foi para Samósata que, segundo acabo de saber, fechou os
portões e se prepara para suportar um cerco. Mesmo assim aquilo não deve ser
maior do que uma aldeia, pelo que não deverá levar mais de um nundinum a
subjugar.
Octávia é maravilhosa, apesar de por vezes dar comigo a desejar que ela tivesse
alguns dos defeitos do irmão. Há algo de intimidante numa mulher que não tem
defeitos, e ela não os tem, podes acreditar no que te digo. Se se queixasse
ocasionalmente eu teria melhor opinião dela, pois sei que acha que não passo
tempo suficiente com as crianças, das quais apenas três são minhas. Então
porque não o diz? Mas ela fá-lo? Octávia não! Limita-se a pôr um ar pesaroso.
Ainda
assim devo dar-me por feliz.

228
Não há em Roma nenhuma mulher mais desejável do que ela; sou muito invejado,
mesmo pelos meus inimigos.
Escreve a dizer como estás e como está o Cesarião. Ático fez alguns comentários
pertinentes sobre ele e a sua relação com Octaviano. Sugeriu que aí poderia
haver perigos futuros para ele. Faças o que fizeres, não o mandes a Roma até
que eu o possa acompanhar. É uma ordem e não te armes em Ventídio. O teu rapaz
é demasiado parecido com César para ser bem recebido por Octaviano. Precisará
de aliados em Roma e de um forte apoio.
No fim de Maio António recebeu uma carta de Octaviano sobre o tema do costume -
as suas dificuldades com Sexto Pompeu e com o abastecimento de cereais - mas
nesta ele implorava a António que se encontrasse imediatamente com ele em
Brundísio. Acompanhado apenas por um esquadrão de guardas germanos a cavalo,
António deixou Atenas maldisposto e partiu para Corinto, para apanhar o barco
para Patras. Mas antes de partir repetiu com exaspero as suas razões de queixas
a Délio, começando pelo seu ressentimento relativamente a Ventídio.
- Ele continua sentado à frente de Samósata a dirigir aquele cerco ridículo a
passo de caracol! Quer dizer, isto põe-no na mesma categoria de Cícero! Roma
inteira sabia que Cícero não seria capaz de comandar uma raposa num galinheiro,
mesmo com Pontino a travar as batalhas.
- Cícero? - perguntou Délio com incredulidade sentindo-se perdido. Era
demasiado novo para se lembrar de grande coisa sobre as aventuras militares de
Cícero. - Mas quando é que o Grande Advogado comandou um cerco? É a primeira
vez que oiço dizer o que quer que seja sobre actividades militares da parte
dele.
- Foi governador da Cilicia dez anos depois de ter sido cônsul e atascou-se num
cerco no Leste da Capadócia... numa aldeia chamada Pindenisso. Ele e o Pontino
levaram séculos para a conseguir submeter.
- Estou a ver - disse Délio que via realmente, mas não cercos liderados pelo
cônsul menos marcial que Roma alguma vez produzira. - Tinha a convicção de que
Cícero fora um bom governador.
- Oh e foi... se aprovares o tipo de homem que torna impossível aos homens de
negócios romanos terem lucros nas províncias. Mas Cícero não é a questão,
Délio. E Ventídio. Espero bem que, quando eu regressar do encontro com
Octaviano, ele já tenha reduzido a pó os portões de Samósata e que esteja muito
ocupado a contabilizar o saque.
António não esteve fora nem metade do tempo com que Délio contara, mas já tinha
a história pronta quando o triúnviro do Oriente entrou de rompante na sua
residência ateniense a queixar-se de Octaviano que não aparecera nem enviara
qualquer explicação para a sua ausência. Para tornar a coisa ainda mais
insultuosa,

229

Brundísio recusara-se novamente a baixar a corrente que protegia o porto para


receber o visitante. Em vez de ir para outro porto para desembarcar, António
dera a volta e regressara a Atenas a rebentar de indignação.
Délio ouviu a sua diatribe sem lhe prestar grande atenção, demasiado habituado
ao ódio de António por Octaviano para lhe dar muita importância. Aquela era uma
explosão normal de mau feitio e não um daqueles ataques que duravam um nundi-
num inteiro e que aterrorizariam até um Heitor, portanto Délio esperou pelo
período de acalmia que se seguia aos gritos e às ameaças. Assim que esta se
dava, António deitava-se novamente ao trabalho como se a explosão lhe tivesse
feito bem.
A maior parte do trabalho dele, naquela altura, tinha a ver com as decisões
vitais que tinham de tomar sobre os homens que governariam cada um dos muitos
reinos e principados espalhados pelo Oriente - locais que Roma não administrava
directamente como fazia nas províncias. António, pessoalmente, convencera-se de
que a solução estava nos reis-clientes e não na criação de mais províncias. Era
uma política astuta, que fazia com que o odioso da cobrança de impostos e de
tributos recaísse sobre os governantes locais.
Tinha a secretária repleta de pilhas de relatórios sobre todos os candidatos
para cada um dos lugares. Um processo para cada homem, o qual tinha que ser
exaustivamente estudado; António pedia frequentemente informações
complementares e, por vezes, ordenava a este ou àquele candidato que fosse a
Atenas.
No entanto não se passou muito tempo até voltar ao assunto de Samósata e do
cerco sem que a sua irritação tivesse diminuído.
- Estamos no fim de Junho e continuo sem notícias - disse António franzindo o
sobrolho. - E ali estão Ventídio e sete legiões, sentados na frente de uma
cidade do tamanho de Tibur! É escandaloso!
Tinha agora a oportunidade de pagar a Ventídio aquela entrevista humilhante em
Tarso! Délio atacou.
-Tens razão, António. É escandaloso. Pelo menos pelo que tenho ouvido.
Interessado, António fixou os olhos na cara pesarosa de Délio, a curiosidade
substituindo a irritação.
- Que queres dizer, Délio?
- Que o cerco de Ventídio em Samósata é um escândalo. Ou, pelo menos, foi o que
um correspondente que tenho na Sexta Legião me disse na sua última carta.
Chegou ontem, com uma rapidez surpreendente.
- E qual é o nome desse legado?
- Lamento, António. Não te posso dizer. Dei-lhe a minha palavra de que não
divulgaria a minha fonte de informação. - Délio falava suavemente com as
pálpebras baixas. - Contaram-me na mais estrita confidência.
- E será que és livre de me dizer de que tipo de escândalo se trata?

230

- Certamente. Que o cerco de Samósata não vai a lado nenhum porque o Ventídio
aceitou um suborno de mil talentos de Antíoco de Comagena. Se o cerco se
arrastar durante tempo suficiente, Antíoco tem esperança de que tu ordenes a
Ventídio e às suas legiões que arrumem a trouxa e se vão embora.
Atordoado, António não disse nada por longos instantes. Depois a sua respiração
começou a assobiar por entre os dentes e cerrou os punhos.
- Ventídio aceitar um suborno? Ventídio? Não! O teu informador está enganado. A
cabeça pequena meneou-se de um lado para o outro para transmitir uma tristeza
céptica.
- Compreendo a tua relutância em acreditar numa coisa assim vinda de um velho
camarada de armas, António, mas diz-me: porque haveria o meu amigo da Sexta de
mentir? Que proveito lhe traria? Mais do que isso, parece que o suborno é do
conhecimento geral entre os legados das sete legiões. Ventídio não fez disso
qualquer segredo. Está farto do Oriente e desejoso de regressar a casa para
celebrar o seu triunfo. Também correm rumores de que ele falsificou os livros
da contabilidade que enviou para o aerarium juntamente com o saque da sua
campanha. Que, na realidade, ficou com mais mil talentos do saque. Samósata é
um sítio tão insignificante que ele sabe que não lhe renderá grande coisa,
portanto porque haveria de tentar tomá-la?
António pôs-se de pé de um salto e gritou pelo mordomo. -António! Que tencionas
fazer? - perguntou Délio, empalidecendo.
- O que qualquer comandante-chefe faz quando o seu segundo-comandante trai a
sua confiança! - disse António bruscamente.
O mordomo entrou com ar apreensivo.
- Sim, domine?
-Arranja a minha arca, incluindo armadura e armas. E onde é que anda o Lucílio?
Preciso dele.
E lá foi o mordomo todo apressado; António começou a andar de um lado para o
outro.
- Que vais fazer? - repetiu Délio começando a suar.
- Vou a Samósata, evidentemente. Podes vir comigo, Délio. Podes estar
descansado que irei até ao fundo desta questão.
Délio viu toda a sua vida passar-lhe diante dos olhos; vacilou, gorgolejou,
caiu por terra e foi acometido por convulsões. António caiu de joelhos a seu
lado gritando por um médico. Que levou uma hora a chegar, já Délio fora metido
na cama, aparentemente a dar as últimas.
Não que António tivesse ficado junto dele; assim que Délio foi levado, começou
a berrar ordens a Lucílio certificando-se de que os criados sabiam como
arranjar as bagagens para uma campanha - fora uma decisão idiota, não ter
trazido consigo a sua ordenança ou o seu questor!

231

Octávia entrou com o médico e uma expressão alarmada.


- Meu querido António, o que se passa? - perguntou.
- Vou partir para Samósata dentro de menos de uma hora. O Lucílio encontrou um
navio que posso alugar para me levar para Porta Alexandria. Fica no Sinus
Issicus, que é o mais perto que consigo chegar. - Fez uma careta e lembrou-se
de lhe beijar a mão. - De lá ainda tenho que fazer uma viagem de quinhentos
quilómetros, meum mel. Se os ventos soprarem de sul, a viagem levará quase um
mês, mas se não soprarem, provavelmente levará quase dois. Acrescenta-lhe a
viagem por terra e levarei três meses só para lá chegar. Oh, maldito Ventídio!
Ele traiu-me.
- Recuso-me a acreditar nisso - disse ela pondo-se em bicos de pés para o
beijar na face. - Ventídio é um homem honrado.
Os olhos de António passaram por cima da cabeça dela e olharam para o médico
que fez uma grande vénia com os joelhos a tremer.
- Oh, este é o Temistófanes - disse Octávia. - É o médico que esteve a ver o
Quinto Délio.
António, que já se esquecera completamente de Délio, pestanejou.
- Oh! Oh sim. Como está ele? Ainda está vivo?
- Sim, senhor António, está vivo. Creio que foi uma crise de fígado. Conseguiu
dizer-me que deverá partir hoje contigo para a Síria, mas não pode... estou
seguro disso. Precisa de cataplasmas de carvão, óxido de cobre, pez e azeite
aplicados no peito várias vezes por dia, purgantes regulares e sangrias - disse
o médico, parecendo aterrorizado. - Um tratamento dispendioso.
- Oh, bem, o melhor é ele ficar aqui - disse António irritado por não poder
contar com Délio para identificar o legado denunciante. - Pede ao meu
secretário, Lucílio, que te pague os honorários.
Mais um abraço e um beijo a Octávia e António foi-se. Ela ficou pensativa, mas
depois endireitou os ombros, encolheu-os e sorriu.
- Bem, não o verei mais até ao Inverno - disse. - Tenho que ir dar a notícia às
crianças.
No andar de cima, a salvo na cama, Délio agradeceu a todos os deuses por lhe
terem dado a presença de espírito para sucumbir. Pelo que Temistófanes dissera,
ia sofrer um desconforto considerável, provavelmente teria mesmo dores - um
preço baixo pela salvação. Que António partisse de imediato para Samósata fora
algo que não previra; por que razão o faria, quando não tinha mexido um único
músculo para expulsar os Partos? Talvez, decidiu Délio, fosse uma boa ideia ter
uma recuperação milagrosa e passar alguns meses em Roma a ser simpático para
Octaviano.
Os ventos de sul sopraram mesmo e o navio, sem mais carga nenhuma a não ser o
próprio António e a respectiva bagagem, podia transportar duas equipas de
remadores.
232

Mas o vento do sul não era o ideal e o comandante do barco não gostava
do alto-mar e navegou junto à costa durante o caminho todo, desde que avistaram
terra na Lícia até Porta Alexandria. Ainda bem, pensou António sentindo-se
impaciente, que Pompeu, o Grande, tinha exterminado os piratas em todas aquelas
enseadas e refúgios tão convenientes ao longo da Panfília e da Cilicia
Traqueia. Caso contrário já teria sido capturado para ser trocado por um
resgate, como acontecera a muitos romanos, incluindo Divus Julius.
Até mesmo ler se tornava difícil, pois o navio tinha tendência para baloiçar;
apesar do Nosso Mar não ter a ondulação dos oceanos e as marés não serem muito
fortes, era agitado e podia ser perigoso durante as tempestades. Pelo menos a
essas fora poupado por estar em plena época estival, a melhor altura do ano
para viajar de barco. A única forma que tinha de aplacar a sua impaciência era
jogar dados com a tripulação em apostas de poucos sestércios e, mesmo assim,
tinha o cuidado de perder. Também dava voltas e voltas ao convés e mantinha os
músculos em forma, erguendo barricas com água e fazendo outras exibições de
força em benefício da tripulação. Era raro passar uma noite em que o capitão
não insistisse em entrar num porto ou ancorar em frente a uma qualquer praia
deserta. Uma viagem de mais de setecentas milhas feita a trinta milhas por dia,
nos dias bons. Por vezes António sentia que nunca chegaria ao seu destino.
Quando já não havia mais nada que pudesse fazer encostava-se à amurada do navio
e ficava a olhar para a água, na esperança de ver um qualquer monstro marinho
gigante, mas o mais próximo que esteve disso foi quando golfinhos grandes
saltaram e brincaram em torno do barco, brincando entre os lemes e saltando por
cima deles como se fossem lebres marinhas. Depois descobriu que ficar de olhar
fixo durante muito tempo lhe provocava uma onda de solidão, uma sensação de
abandono, de cansaço e desencanto, e pensou no que lhe estaria a acontecer.
Por fim concluiu que a deserção de Ventídio lhe destruíra uma parte do seu eu
mais íntimo, que lhe provocara, não a sua habitual raiva, que era uma espécie
de espírito lutador, mas sim um desespero profundo. Sim, pensou, receio
encontrar-me com ele. Temo encontrar a prova da sua perfídia ali mesmo debaixo
do meu nariz. Que posso fazer? Despedi-lo, evidentemente. Bani-lo de Roma e não
lhe dar a porcaria do triunfo que ele está tão determinado a ter. Mas
substituí-lo-ei por quem? Por um rafeiro choroso como Sósio? Quem mais há para
além de Sósio? Canídio é um bom homem. E o meu primo Canínio também. Mas ainda
assim... se Ventídio aceitou um suborno, porque não o aceitaria qualquer um
deles, que não estiveram anos comigo na Gália Ulterior e nas campanhas da
guerra civil de César? Tenho quarenta e cinco anos, mas os outros são dez e
quinze anos mais novos. Calvino e Vácia estão do lado de Octaviano e também,
pelo que me dizem, Ápio Cláudio Pulcro, o cônsul mais importante desde Calvino.
Talvez seja esse o cerne da questão? Infidelidade. Deslealdade.

233

Passado exactamente um mês, o barco aportou em Porta Alexandria e teve que ir à


procura de mulas para os seus criados. Trouxera com ele Clemente, o cavalo
público malhado que era suficientemente alto e forte para suportar o seu peso.
Ainda num estado de espírito sombrio e negativo partiu para Samósata.
Que, à medida que ia subindo o Eufrates, começou a pairar na sua frente como um
monte negro. Chocado, António descobriu que Samósata era uma grande cidade, com
o mesmo tipo de muralhas de Amida, pois pertencera aos Assírios quando estes
tinham dominado toda aquela parte do mundo. Eram de basalto negro e do tipo a
que os Gregos chamavam ciclópico: lisas, imensamente altas e impenetráveis por
aríetes ou torres de cerco. A partir daquele momento percebeu que Délio o tinha
enganado; o que não sabia era se ele o fizera deliberadamente ou se fora
simplesmente enganado pelo seu contacto na Sexta Legião. Aquilo não era nenhuma
aldeia da Capadócia num penhasco vulcânico, aquela era uma tarefa hercúlea, até
mesmo para um César, cuja experiência com cercos fora muito diferente. Nada do
que Ventídio vira em qualquer uma das guerras de César o poderia ter preparado
para aquilo.
Ainda assim continuava a haver a possibilidade de Ventídio ter recebido um
suborno na mesma; rígido e dorido, António deslizou de cima de Clemente na
parada do acampamento, mesmo junto aos alojamentos do general.
Ventídio saiu para ver a que se devia a agitação, um homem sólido, aparentando
a sua idade, com os caracóis grisalhos a darem-lhe à cabeça o aspecto de lã de
astracã. O seu rosto iluminou-se.
-António! - gritou correndo a abraçar António. - O que é que, em nome de
Júpiter, te traz a Samósata?
- Queria ver como está a correr o cerco.
- Oh, isso! -Ventídio riu-se com júbilo. - Samósata pediu as nossas condições
há dois dias. Os portões estão abertos e Antíoco foi-se embora, o irrumator
manhoso.
- Ah, então ele é dos que faz o serviço, é?
- Só nesse aspecto, nos outros todos é dos que recebe.
Ventídio deu a António uma cadeira de campanha para se sentar e foi buscar os
jarros.
- Um tinto horrível, um branco pior ou uma boa água do Eufrates?
- Metade do tinto com metade de água do Eufrates. É boa, a água?
- Para água é saborosa. A cidade não tem nem aqueduto nem quaisquer esgotos.
Preferem fazer poços a beber a água do rio, mas depois escavam as fossas mesmo
ao lado dos poços. - Fez uma careta. - Os idiotas! As febres intestinais
campeiam no Verão e no Inverno. Construí um aqueduto para os meus homens e
proibi-os de entrarem em contacto com os habitantes da cidade. O rio é tão
profundo e largo que me limitei a ligar-lhes os esgotos do acampamento. Os
locais onde tomamos banho ficam mais a montante, apesar de a corrente ser
perigosa.

234

- Tendo tratado da hospitalidade, Ventídio deixou-se cair sobre a cadeira curul


e ficou a olhar para António, com astúcia. - Há mais nisto do que simples
curiosidade pelo meu cerco, António. O que se passa?
- Alguém em Atenas me disse que tinhas recebido um suborno de mil talentos do
Antíoco para manter o cerco num impasse.
- Cacat! - Ventídio endireitou-se e o prazer desapareceu-lhe dos olhos.
Grunhiu: - Bem, o facto de teres vindo significa que acreditaste no verme...
quem é ele? Acho que tenho o direito de saber.
- Primeiro responde-me a uma pergunta. Tens algum problema com a cadeia de
comando da Sexta?
Os olhos de Ventídio ficaram esbugalhados.
- Da Sexta?
- Sim, da Sexta.
-António, a Sexta não está aqui desde Abril. Silo está com dificuldades para
instalar Herodes no trono e pediu-me mais uma legião. Enviei-lhe a Sexta.
Sentindo-se subitamente nauseado, António levantou-se e atravessou a sala até à
janela na parede construída com tijolos de barro. Aquilo explicava tudo,
excepto a razão por que Délio inventara aquela história. Como o teria Ventídio
ofendido?
- O meu informador foi Quinto Délio que me disse que se correspondia com um
legado da Sexta. O legado contou-lhe do suborno e insistiu que este era do
conhecimento do exército inteiro.
Ventídio ficara pálido.
- Oh, António, isso magoa-me! Estou profundamente ferido! Como pudeste
acreditar na palavra de uma alcoviteiro insignificante e miserável como o
Délio, sem sequer me teres escrito a perguntar o que se passava? Em vez disso
vens aqui pessoalmente! O que significa que acreditaste nele implicitamente.
Contra mim! Que tipo de provas é que ele te deu?
António obrigou-se a desviar-se da janela.
- Não deu nenhumas. Disse que o informador queria permanecer anónimo.
Mas foi mais longe do que isso... do que o suborno, quero dizer. Também foste
acusado de ter falsificado os livros da contabilidade que apresentaste ao
Tesouro.
Com as lágrimas a correrem pelo rosto marcado, Ventídio virou-se contra
António.
- Quinto Délio! Um sicofanta, um lambe-botas, um verme desprezível! E com base
apenas na palavra dele fizeste esta viagem? Apetece-me cuspir-te em cima! Devia
cuspir-te em cima!
- Não tenho desculpa - disse António miseravelmente, desejando ter um sítio
onde se pudesse esconder; queria estar em qualquer lado menos ali! - É da vida
em Atenas, acho. Estou tão distante da acção, a debater-me com infindáveis
montanhas de papel, que perdi completamente a noção da realidade.

235

Ventídio, peço-te perdão do fundo do meu coração.


- Podes pedir perdão daqui à tua pira e voltar, António. Isso não fará qualquer
diferença. -Ventídio enxugou as lágrimas com as costas da mão. -Acabámos, tu e
eu. Acabou-se. Conquistei Samósata e mostrarei os meus livros a qualquer um que
queiras nomear como auditor. Não encontrarás quaisquer discrepâncias, nem numa
única oferenda de bronze. Peço-te dispensa, meu comandante, para regressar a
Roma. Insisto na realização do meu triunfo, mas fiz a minha última campanha por
Roma. Assim que depositar os meus louros aos pés de Júpiter Óptimo Máximo,
volto para casa, para Reate, para criar mulas. Quase parti as costas a travar
por ti as tuas batalhas, e o único agradecimento que recebo da tua parte é uma
acusação feita por gentalha como Délio. - Levantou-se e dirigiu-se à porta. -
Por aqui chega-se aos meus aposentos, mas esta noite já lá não estarei. Podes
instalar-te e tratares dos arranjos que entenderes. Confiaste em mim! E agora
isto.
- Públio, por favor! Por favor! Não podemos separar-nos como inimigos!
- Tu não és meu inimigo, António. O teu pior inimigo és tu próprio e não um
criador de mulas picentino, que foi exibido no triunfo de Estrabão há mais de
cinquenta anos. Tu és a razão por que nós, Italianos, continuamos a ficar com a
pior parte... afinal de contas Délio é romano. Isso faz com que a palavra dele
valha mais do que a minha, isso faz dele melhor do que eu. Estou farto de Roma,
estou farto de guerra, de acampamentos, de só ter a companhia de homens. E não
confies no Silo... esse é outro italiano, pode muito bem aceitar subornos. Ele
vai para casa comigo. -Ventídio encheu o peito de ar. - Boa sorte no Oriente,
António. Diz bem contigo, diz mesmo. Cheio de potentados orientais sebosos,
lambe-cus corruptos e punheteiros que mentem até mesmo a si próprios... - O seu
rosto contorceu-se de dor. - O que me lembra... Herodes está aqui. Assim como
Polémon do Ponto e o Amintas da Galácia. Não te faltará companhia, apesar de
Délio ter sido demasiado cobarde para vir.
Depois de Ventídio ter fechado a porta atrás de si, António atirou com a bebida
aguada pela janela e serviu-se de um copo cheio de vinho tinto forte e
ligeiramente tóxico.
Não poderia ter corrido pior nem poderia ter conduzido a entrevista de forma
mais inábil. Ventídio tinha razão, pensou António enquanto engolia o líquido
até este desaparecer. Quando se levantou para encher novamente o copo de
faiança barata, levou o jarro para o pé de si. Sim, Ventídio tem razão. Algures
pelo caminho perdi-me a mim próprio, perdi a direcção e a auto-estima. Nem
sequer consegui espicaçar-me até me enraivecer! O que ele disse é verdade.
Porque é que acreditei em Délio? Parece ter sido há muito tempo, aquele dia em
Atenas quando Délio injectou o seu veneno nas minhas orelhas ávidas. Quem é
Délio? Como é que é possível eu ter acreditado numa história que não se baseava
em quaisquer factos, quanto mais em provas?

236

Eu queria acreditar, só posso pensar nessa razão. Queria ver o meu velho amigo
desonrado, estava desejoso que isso acontecesse. E porquê? Porque ele travou
uma guerra que me pertencia a mim, uma guerra que não me dei ao trabalho de
travar. Isso poderia ter dado muito trabalho. Tornou-se uma tradição romana o
comandante-chefe ficar com o crédito todo. Foi Gaio Mário quem iniciou essa
tradição, quando ficou com o crédito pela captura de Jugurta. Não o devia ter
feito. Foi Síla quem o conseguiu fazer com perícia e brilhantismo. Mas Mário
não suportava ter que partilhar os louros, por isso nem sequer o menciona nas
suas comunicações. Se Sila não tivesse publicado as suas memórias nunca ninguém
teria descoberto a verdade. Queria embalar a campanha contra os Partos em neve,
preservar o confronto final para mim, depois de um homem melhor do que eu os
ter amaciado. Depois o Ventídio roubou-me o facho. Um titã suficientemente
atrevido para perceber como fazê-lo - traz, bum! E lá desapareceu o meu facho.
Como eu estava zangado, como estava frustrado! Subestimei-os, a ele e a Silo -
nunca me ocorreu sequer como eram bons. E foi por essa razão que acreditei em
Délio. Não pode haver outra razão. Queria destruir os feitos de Ventídio,
queria vê-lo desonrado, talvez até passado pela espada como Salvidieno. Essa
também foi obra minha, apesar de Salvidieno não ter sido um homem tão bom nem
um comandante tão competente. Estava tão obcecado por Octaviano que deixei o
Oriente escapar-me por entre os dedos e entreguei as rédeas a Ventídio, o meu
criador de mulas de confiança.
Começou a chorar, baloiçando-se para trás e para a frente sobre o banco frágil
de pés cruzados e assento de couro, vendo as lágrimas tombarem no vinho,
bebendo o seu próprio desgosto da mesma maneira que um cão negro bebe sangue.
Oh, a dor, o arrependimento! Nunca mais ninguém olharia para ele da mesma
maneira. A sua honra estava manchada para além do recuperável.
Quando Herodes entrou a correr pela porta, uma hora mais tarde, encontrou
António tão bêbado que este não o reconheceu nem pareceu dar pela sua presença.
Ventídio entrou, viu António e cuspiu no chão.
- Vai chamar os criados dele e diz-lhes que o metam na cama - disse Ventídio
bruscamente. -Ali, nos meus aposentos. Quando ele recuperar a consciência já eu
estarei a meio caminho da Síria.
E Herodes não conseguiu descobrir mais nada.
António contou-lhe dois dias mais tarde, já sóbrio, mas afectado pelo vinho de
uma forma que não era habitual.
- Acreditei no Délio - disse miseravelmente.
- Bem, isso foi insensato, António. - Herodes tentou parecer animado. - Pronto,
mas já acabou. Samósata foi tomada, Antíoco fugiu para a Pérsia e o saque
ultrapassa todas as expectativas. Uma boa conclusão para a guerra.

237

- Como é que Ventídio conseguiu tomar a cidade?


- Ele é um inventor, portanto percebeu o que tinha que fazer. Construiu uma
bola gigante com pedaços de ferro maciço, ligou-a a uma corrente e suspendeu a
corrente de uma torre. Depois atrelou cinquenta bois e puxou a bola muito para
trás da torre. Quando a corrente ficou esticada e tensa, cortou a ligação entre
a corrente e os animais. Esta voou como um punho monstruoso e atingiu as
muralhas com um barulho horrendo... eu tapei os ouvidos. E as muralhas...
caíram! No espaço de um dia já tinha aberto um buraco suficientemente grande
para os soldados entrarem aos milhares. Descobriu-se que os habitantes não
tinham mais defesa nenhuma para além das muralhas. Não tinham tropas, nem boas
nem más... nada!
- Ouvi dizer que ele também inventou um projéctil para a funda.
- Uma arma terrível! - exclamou Herodes. Pôs uma mão no braço de António. -Anda
António, agora que Ventídio se foi embora és tu o comandante. Devias pelo menos
inspeccionar o local e ver o que a bola de ferro fez. Aquelas muralhas
aguentaram quinhentos anos, mas nada resiste a um exército romano. Não pareces
estar muito esfomeado, mas os teus legados... humm.... andam por aí sem
destino, sem saber o que fazer a seguir. Por isso preparei um jantar na minha
casa. Vem! Fará toda a gente sentir-se melhor, incluindo tu.
- Dói-me a cabeça.
- O que não é surpreendente, atendendo ao mijo que bebeste. Também tenho um
vinho sofrível, se for isso o que queres.
António suspirou, estendeu as mãos e ficou a olhar para elas.
- Parecem ser capazes de agarrar no que quer que seja, não é? - perguntou ele,
estremecendo. - Mas perderam o controlo.
- Disparate! Uma boa refeição de pão fresco e carne magra porá tudo em ordem.
- Que se passa na Judeia?
- Muito pouca coisa. Silo é um homem excelente, mas duas legiões não eram o
suficiente e, quando chegou a terceira, Antígono já se entrincheirara em
Jerusalém. Essa é uma cidade muito difícil de tomar, mais difícil do que esta
fortaleza assíria. A propósito, Ventídio foi muito bom para mim.
António encolheu-se.
- Não deites mais achas para a fogueira! Como?
- Deu-me dinheiro suficiente para ir ao Egipto e reabastecer Massada onde estão
a minha família e a família do Hircano. Mas não estou a ficar mais novo,
António, e os Judeus precisam... bem, de um tirano. Andam a armar-se e a
treinar-se.
Como nenhum legado foi suficientemente imprudente para mencionar Ventídio, no
fim do seu primeiro nundinum em Samósata, António já se mostrava genuinamente
no comando das operações. Mas a culpa que sentia relativamente a Ventídio fez
com que a cidade sofresse atrocidades às mãos de António.

238

Toda a população foi vendida para a escravatura em Nicefório, onde um


representante do novo rei dos Partos, Fraates, os comprou por atacado como
força de trabalho. Estava com falta de mão-de-obra pois executara uma proporção
significativa do seu povo, de alto a baixo. Os seus próprios filhos tinham sido
os primeiros a morrer, mas escapara-lhe um sobrinho, um tal de Monaeses, que
fugira para a Síria e desaparecera. O que era muito irritante para Fraates que
adorava ser rei.
As muralhas de Samósata foram derrubadas. António queria utilizá-las para fazer
uma ponte sobre o Eufrates, mas descobriu que o rio era demasiado profundo e a
corrente tão forte, que arrastava as pedras como se fossem palhas. Finalmente
acabou por espalhar as pedras por toda a região.
Quando tudo terminou, já as noites estavam a ficar frias. António depusera
Antíoco, multara-o pesadamente e pusera o irmão deste, Mitídrates, no trono.
Públio Canídio ficou à frente das legiões que acamparam perto de Antioquia e de
Damasco. Deveria preparar-se para uma campanha na Arménia e na Média no ano
seguinte -sob o comando pessoal de António. Gaio Sósio foi nomeado governador
da Síria, com ordens para instalar Herodes no trono assim que terminasse a
pausa de Inverno. Em Porta Alexandria, António embarcou num navio cujo
comandante estava disposto a enfrentar o mar aberto. A ferida sarava
lentamente; já conseguia olhar novamente os Romanos nos olhos sem pensar no que
estariam a pensar. Mas oh, precisava de um peito doce e feminino onde enterrar
a cabeça! O único problema era que o peito doce e feminino porque ele ansiava
era o de Cleópatra.
Quando Agripa regressou, coberto de glória, dos dois anos passados na Gália
Ulterior, ele e as duas legiões que trouxera consigo acamparam no Campo de
Marte no exterior do pomerium; o Senado aprovara-lhe um triunfo, o que
significava que a sua entrada em Roma estava vedada por razões religiosas.
Obviamente estava à espera de encontrar César a aguardá-lo junto à entrada da
esplêndida tenda vermelha erigida para alojar o general durante o seu exílio
temporário, mas... nem sinais de César. Nem de quaisquer senadores. Bem, se
calhar cheguei cedo de mais, pensou Agripa mandando a ordenança levar as suas
coisas para dentro; estava demasiado ansioso por ver César a chegar para
procurar abrigo. Os seus olhos conseguiam ver o brilho do metal a mais de três
quilómetros de distância ou um risco quase invisível num objecto que tivesse na
mão e soltou um suspiro de alívio quando avistou um grande número de guardas
germanos emergindo da Porta Fontinalis e descendo a colina na direcção da Via
Recta. Depois franziu o sobrolho; no meio dos guardas vinha uma liteira. César,
numa liteira? Estaria doente? Ansioso e impaciente, obrigou-se a esperar onde
estava e a não correr na direcção do transporte deselegante que acabou por ser
içado colina acima, para grande júbilo dos germanos.

239

Quando Mecenas saltou de lá de dentro, Agripa arfou.


- Lá dentro - disse o arquimanipulador dirigindo-se à tenda.
- O que foi? O que se passa? César está doente?
- Não, não está doente, apenas metido num grande sarilho - disse Mecenas
parecendo tenso. -A casa dele está cercada de guardas e ele não se atreve a pôr
o pé na rua. Teve que fortificar a casa, acreditas numa coisa destas? Uma
muralha e uma fossa no Palatino!
- Porquê? - perguntou Agripa espantado.
- Não sabes? Não adivinhas? Quando é que os problemas são causados por outra
coisa a não ser o abastecimento de cereais? Impostos? Preços altos?
Com os lábios cerrados. Agripa olhou para os estandartes com a Águia plantados
no chão em frente da sua tenda, cada um deles envolto nos louros da vitória.
-Tens razão, eu devia saber. Qual é o capítulo mais recente deste épico eterno?
Deuses, isto começa a ser tão doloroso como o estudo de Tucídides!
- Aquela lesma matreira do Lépido, com dezasseis legiões sob o seu comando!,
deixou que o Sexto Pompeu ficasse com o carregamento todo de cereais africanos.
Depois aquele cão traiçoeiro do Menodoro teve uma briga com Sabino, não gostou
de ficar sob a autoridade dele, e desertou novamente para o lado de Sexto. Não
levou com ele mais do que seis navios de guerra, mas disse a Sexto qual seria a
rota utilizada pela colheita da Sardenha, e essa também se foi. O Senado não
tem alternativa senão comprar cereais a Sexto, que está a cobrar quarenta
sestércios o modius. O que significa que os cereais vendidos pelo Estado
custarão cinquenta sestércios o modius e os vendedores privados andam a falar
em vendê-lo a sessenta. Se o Estado quer conseguir comprar cereais suficientes
para os subsídios, tem que cobrar cinquenta sestércios aos que têm que pagar.
Quando as classes mais baixas e o Conto de Cabeças souberam disso ficaram
loucos. Motins, guerras de bandos... César teve que mandar vir uma legião de
Cápua para guardar os celeiros públicos e o Vicus da Porta Trigemina está cheio
de soldados e o porto de Roma deserto. - Mecenas respirou fundo e estendeu as
mãos, que tremiam. - Estamos em crise, numa verdadeira crise.
- Então e os despojos do triunfo do Ventídio? - perguntou Agripa. - Não
ajudaram a equilibrar as contas para manter o preço a quarenta sestércios para
o Povo?
- Podiam ter servido, só que António insistiu em receber metade, por ser o
triúnviro e o comandante-chefe no Oriente. Como o Senado continua cheio de
gente dele, aprovou que lhe dessem cinco mil talentos - disse Mecenas
sombriamente e já sem qualquer paixão. - Acrescenta o quinhão das legiões e só
restam dois mil talentos. Uns meros cinquenta milhões de sestércios e uma conta
para pagar os cereais de quase quinhentos milhões de sestércios. César
perguntou se podia pagar a conta em prestações mas Sexto recusou. Ou era pago à
cabeça ou não havia cereais. Mais um mês e os celeiros ficarão vazios.

240

- E não há dinheiro para financiar uma guerra total contra esse mentula! -
disse Agripa selvaticamente. - Bem, eu trago mais dois mil em saque... o que dá
para pagar cem milhões da conta dos cereais quando os juntarmos ao que resta de
Ven-tídío. O que nós devíamos fazer era pôr o Senado no meio do Fórum e deixar
que a multidão apedrejasse todos os seus membros até à morte! Mas é claro que
eles fugiram de Roma, não fugiram?
- Oh, sim. Estão escondidos nas suas villas. Não é só Roma que está a ferver, a
Itália inteira está amotinada. A culpa não é deles, dizem, deitando todas as
culpas ao mau governo de César. Malditos sejam!
Agripa dirigiu-se à porta da tenda.
- Isto tem que parar, Mecenas. Anda, vamos ter com César. Mecenas ficou a olhar
para ele de boca aberta.
-Agripa! Não podes! Atravessas o pomerium, entras em Roma e perdes o teu
triunfo!
- Oh, o que é um triunfo quando César precisa de mim? Terei o meu triunfo
noutra guerra qualquer. - E lá foi Agripa, sozinho, ainda de armadura de
cerimónia, as pernas compridas devorando o caminho. A sua mente andava em
círculos, pois sabia que não havia solução enquanto o seu espírito insistia em
que tinha que haver uma. César, César, não podes permitir que um vulgar pirata
te faça refém a ti e ao Povo de Roma! Maldito sejas, Sexto Pompeu, mas António
ainda é mais maldito.
A Mecenas só restava entrar para a sua liteira e esperar chegar uma hora depois
à domus Lívia Drusila, escoltado pela sua guarda armada. Agripa, sozinho! A
multidão ia desfazê-lo em pedaços.
A cidade estava em polvorosa, as portadas das lojas todas fechadas e trancadas;
as paredes cobertas com inscrições, algumas protestando contra o preço dos
cereais mas, a maioria, insultando César, reparou imediatamente Agripa enquanto
descia pela colina dos Banqueiros. Vagueavam por ali bandos armados com pedras,
mocas e, ocasionalmente, uma espada, mas nenhum o desafiou - aquele era um
guerreiro e isso era algo que, mesmo os mais agressivos de entre eles,
conseguiam ver num relance. Os detritos de ovos e vegetais podres escorriam
pelas bancas e pórticos de lojas veneráveis, o fedor a esgoto pairava no ar,
devido aos bacios que ninguém tinha coragem suficiente para levar até à latrina
pública mais próxima para esvaziar. Nunca, nem nos seus sonhos mais mórbidos,
Agripa pensara ver Roma tão degradada, tão suja, tão desfigurada. A única coisa
que faltava era o cheiro a fumo; o que significava que a loucura ainda não se
instalara completamente. Sem pensar na sua própria segurança, Agripa abriu
caminho por entre a multidão ululante no Fórum onde as estátuas tinham sido
derrubadas e as cores ricas dos templos estavam praticamente cobertas de
inscrições e de sujidade.

241

Quando chegou às Escadas dos Fabricantes de Anéis, subiu-as de quatro em


quatro, empurrando qualquer um que se lhe atravessasse no caminho. Atravessou o
Palatino e ali estava, na frente dele, uma muralha alta e feita à pressa, com
uma fileira de guardas germanos no topo.
- Marco Agripa! - gritou um esticando o braço; a ponte levadiça sobre a fossa
foi baixada e aberta a porta de correr por detrás. Por essa altura já era
entoado em coro "Marco Agripa" no meio de aplausos. Entrou na casa rodeado por
úbios aos pulos.
- Mantenham-se de vigia, rapazes! - gritou ele por cima do ombro, lançando-lhes
um sorriso e entrou para o pátio desolado, com os lagos de peixes cheios de
limos, algas e um jardim abandonado transformado em acampamento para os
germanos que não eram esquisitos.
Ao entrar na domus Lívia Drusila viu imediatamente que a nova esposa já deixara
a sua marca. A casa estava irreconhecível. Entrou numa sala mobilada com todo o
requinte, as paredes brilhantes com frescos pintados, plintos e colunas
decoradas com genitais em belos mármores. Burgúndio apareceu, furioso, mas o
seu rosto contorceu-se em sorrisos assim que viu quem andava a riscar os
pavimentos preciosos com botas cardadas.
- Onde está ele, Burgúndio?
- No escritório. Oh, Marco Agripa, como é bom ver-te!
Sim, ele estava no escritório, mas não sentado a uma secretária velha e
apinhada de recipientes cheios de livros, nem por estantes com orifícios para
rolos de pergaminho a rebentar de tão cheias. Aquela secretária era enorme e
feita de malaquite com manchas verdes; a desordem de papéis fora organizada e
ostentava a mesma arrumação que sempre fora característica da secretária de
César e dois escribas estavam sentados a duas secretárias menos ornamentadas,
mas muito apresentáveis, enquanto um escriturário andava de um lado para o
outro a arquivar rolos de pergaminho.
O rosto que se ergueu irritado para ver quem o vinha perturbar envelhecera,
parecia pertencer a alguém com trinta e muitos anos, com rugas na testa alta e
a boca quase sem lábios.
- César!
O tinteiro de malaquite foi pelos ares. Octaviano deu um salto, espalhando
papéis por todo o lado, e atravessou a sala de um salto para abraçar Agripa com
entusiasmo. Depois apercebeu-se das implicações. Recuou, horrorizado.
- Oh, não! O teu triunfo!
Agripa abraçou-o e beijou-o nas faces.
- Haverá outros triunfos, César. Achavas mesmo que eu ia permanecer no exterior
das muralhas, com Roma num estado tão tumultuoso que não consegues sair de
casa? Se um civil vir a minha cara não a reconhece, por isso vim eu ter
contigo.
- Onde está Mecenas?
- Vem aí de liteira - disse Agripa sorrindo.

242

- Queres dizer que vieste sem escolta?


- Nenhuma multidão consegue enfrentar um centurião completamente armado e foi
isso que eles pensaram que eu era. Mecenas precisava muito mais da guarda do
que eu.
Octaviano secou as lágrimas e fechou os olhos.
- Agripa, meu Agripa! Oh, este é um ponto de viragem, sinto-o!
- César? - disse uma nova voz, grave e ligeiramente rouca. Octaviano virou-se
nos braços de Agripa mas não se soltou do abraço.
- Lívia Drusa, a minha vida está novamente completa! Marco regressou a casa.
Agripa viu um pequeno rosto oval, com uma pele imaculada cor de marfim,
a boca sensualmente cheia, os olhos escuros e brilhantes. Se ela achava aquela
situação estranha não o revelou minimamente, nem mesmo nas profundezas dos
olhos expressivos. O seu rosto iluminou-se de sorrisos genuinamente encantados
e pousou uma mão ao de leve no braço de Agripa, acariciando-o com a mesma
ternura de um amante.
- Marco Agripa, que bom - disse ela e depois franziu o cenho. - Mas o teu
triunfo!
- Ele desistiu dele para me ver - disse Octaviano agarrando a mulher com uma
mão e passando o outro braço em torno dos ombros de Agripa. - Vem, vamos
sentar-nos num sítio com mais privacidade e conforto. Lívia Drusila arranjou-me
uma equipa muito eficiente, mas perdi a privacidade.
- O novo aspecto da casa de César é obra tua, senhora? - perguntou Agripa,
afundando-se numa cadeira dourada e estofada com um brocado macio cor de
púrpura e aceitando um copo de cristal com vinho sem água. Deu um golo e riu-
se. - Uma colheita muito melhor do que costumavas servir, César! Suponho que o
facto de não estar aguado faz disto uma celebração?
- De nada mais importante que o teu regresso. Ela é uma maravilha, a minha
Lívia Drusila.
Para surpresa de Agripa, Lívia Drusila não se retirou, apesar de isso ser o que
se esperava de uma esposa. Escolheu uma cadeira grande cor de púrpura e sentou-
se, com os pés dobrados debaixo do corpo, aceitando um copo das mãos de
Octaviano com um aceno de agradecimento. Oh! A senhora participava nos
conselhos!
- Vou ter que arranjar maneira de sobreviver a mais um ano assim - disse
Octaviano pousando o vinho após o brinde. - A não ser que penses que podemos
avançar no ano que vem?
- Não, César, não podemos. Portus Julius não ficará pronto antes do Verão, foi
o que Sabino me disse na sua última carta, o que me dá oito meses para me armar
e treinar. A derrota de Sexto Pompeu tem que ser total, tão completa que ele
não mais se consiga levantar.

243

Apesar de termos que arranjar cento e cinquenta navios de guerra não sei onde.
Os estaleiros da Itália não conseguirão fornecer-nos tantos.
- Só existe uma única fonte capaz de os fornecer e essa é o nosso querido
António - disse Octaviano amargamente. - Ele, e só ele, é a causa de tudo isto!
Tem o Senado a ir comer-lhe à mão e nenhum deus me consegue explicar a razão!
Seria de pensar que os idiotas teriam mais juízo, vivendo numa agonia destas,
mas não! A lealdade a Marco António é mais importante do que as barrigas
vazias!
- Isso não mudou desde os tempos de Catulo e de Escauro - disse Agripa. -Tens-
lhe escrito?
- Estava a fazê-lo quando me apareceste à porta. A estragar folha após folha de
bom papel tentando encontrar as palavras certas.
- Há quanto tempo é que o não vês?
- Há mais de um ano, quando ele levou Octávia e as crianças para Atenas.
Escrevi-lhe na última Primavera, pedindo-lhe que se encontrasse comigo em Brun-
dísio, mas ele enganou-me, pois veio sem as suas legiões e tão prontamente, que
eu ainda estava em Roma à espera da sua resposta. E ele regressou a Atenas e
enviou--me uma carta desagradável, ameaçando cortar-me o pescoço com a sua
própria espada se eu não aparecesse no encontro seguinte. Depois partiu para
Samósata, portanto... não houve encontro. Nem sequer tenho a certeza de que ele
tenha regressado a Atenas.
- Deixando isso de lado, César, o que podemos fazer relativamente ao
abastecimento de cereais? Temos que arranjar maneira de alimentar a Itália e
por menos dinheiro do que aquilo que Mecenas diz que conseguiremos.
- Lívia Drusila diz que tenho que pedir emprestado o que for preciso aos
plutocratas, mas receio fazê-lo.
Bem, bem, bons conselhos do pequeno leopardo negro!
- Ela tem razão, César. Pede emprestado em vez de cobrares impostos.
Os olhos dela voaram para o rosto de Agripa, espantados; aquele fora um
encontro que receara, convicta de que o amigo mais querido de César seria seu
inimigo - porque não haveria de o ser? Os homens não gostavam de ter as
mulheres no conselho e, apesar de saber que as suas ideias estavam certas,
homens como Estatílio Tauro, Calvísio Sabino, Ápio Cláudio e Cornélio Galo,
odiavam ver a sua estrela em ascensão. Descobrir que Agripa estava do seu lado
era um presente melhor do que a criança que ainda não chegara.
- Eles vão esfolar-me.
- Melhor do que qualquer magarefe - disse Agripa sorrindo. - Todavia o dinheiro
está lá e, até que António mexa o rabo para regularizar o Oriente, eles não
obterão daí quaisquer lucros, a sua maior fonte de rendimentos. Têm capital a
precisar de ser investido.

244

- Sim, sei disso - disse Octaviano com alguma rigidez não estando certo de
querer ser inundado de bons conselhos sobre questões que ele próprio já
resolvera. - O que me desagrada é ter que lhes pagar um juro composto de vinte
por cento.
Tempo de bater em retirada.
- Composto?
- Sim, juros sobre juros. Tornar-se-ão credores de Roma durante os próximos
trinta ou quarenta anos - disse Octaviano.
- Duvidas de ti próprio, querido César, e não devias - disse Lívia Drusila.
-Pensa, anda! Sabes a resposta.
O velho sorriso apareceu; ele riu-se.
- Os cofres de Sexto Pompeu cheios de dinheiro ganho desonestamente, é o que
queres dizer. - Subitamente fez um ar manhoso. - Vou oferecer-lhes vinte por
cento compostos e lanço uma rede suficientemente larga para apanhar alguns dos
senadores de António também. Duvido que alguém recuse a minha proposta nestes
termos, não acham? Sou capaz de ter mesmo que pagar o equivalente dos ganhos
desonestos de Pompeu de um ano inteiro, mas assim que me vir livre de António e
o Senado for meu, posso fazer o que quiser. Reduzir a taxa de juro passando
novas leis... os únicos a levantar objecções serão os tubarões maiores do nosso
mar financeiro!
- Ele não esteve inactivo noutros aspectos - disse a mulher a Agripa. Octaviano
pareceu ficar sem saber do que estavam a falar por um instante e
depois riu-se.
- Oh, a campanha do "Cultivem Mais Trigo na Itália"! Sim, contraí ainda mais
dívidas em nome de Roma. Os meus números revelam que um agricultor, com uma
família numerosa, precisa de duzentos modii de trigo por ano para alimentar
toda a gente. Mas um iugerum produz muito mais do que isso e, como é evidente,
o agricultor vende o excedente, a não ser que os animais do campo, ou quaisquer
outros presságios em que ele acredite, lhe digam que se aproxima uma seca ou
uma inundação. Nesse caso armazena uma maior quantidade de cereal. Todavia,
tudo indica que não devemos ter cheias nem secas no próximo ano. Portanto estou
disposto a pagar aos produtores de trigo trinta sestércios por modius dos seus
excedentes. Uma quantia que os comerciantes privados, a quem eles habitualmente
vendem, não estão dispostos a pagar. O que espero é que os nossos veteranos
cultivem mesmo alguma coisa nos seus terrenos. A maior parte deles arrenda as
suas terras a vinhateiros porque gostam de beber vinho; parece-me que essa é a
forma de pensar dos soldados reformados.
-Tudo o que contribua para que tenhamos que comprar menos cereais a Sexto na
próxima colheita é uma coisa boa, César - disse Agripa -, mas será essa a
solução? Quanto pensas que irás comprar?
- Metade das nossas necessidades - disse Octaviano calmamente.

245

- Será caro, mas não tanto como aquilo que Sexto pede. Mecenas disse que Lépido
não fez nada para defender os cereais africanos; que é que se passa com ele? -
perguntou Agripa.
- Está a ficar demasiado cheio de si - disse Lívia Drusila, lançando a pedra
para ver se Agripa olhava para o marido à procura de confirmação. Mas ele não o
fez, limitando-se a aceitar a afirmação dela - e a ela própria - como tão
merecedora de confiança como Octaviano. Oh, Agripa, também te amo!
A couraça de Agripa gemeu quando ele tentou pôr-se numa situação mais
confortável - estava demasiado habituado aos bancos de campanha que não tinham
costas.
- Ele não sabe, César - disse ela com os olhos a brilhar. - Diz-lhe e depois o
pobre homem poderá ver-se livre daquela couraça horrível.
- Edepol! Esqueci-me! - exclamou Octaviano e riu-se deliciado. - Dentro de
menos de um mês, Marco, serás o cônsul sénior de Roma.
- César! - exclamou Agripa, atordoado. Uma onda de alegria percorreu-o
transfigurando o seu rosto severo. - César, eu não... eu não sou digno disso!
- Ninguém no mundo é mais digno do que tu, Marco. A única coisa que estou a
fazer é entregar-te uma Roma ferida e a sangrar, esfomeada e quase derrotada.
Tive que ceder e dar o lugar de cônsul a Canínio só porque ele é primo de
António, mas com condições... será sucedido por Estatílio Tauro, como sufecto,
em Julius. O Senado está a tremer, pois tu mostraste aquilo de que eras feito
quando foste prateor urbanus e eles sabem que não serás misericordioso.
- O que tu não disseste, César, é o quanto esta nomeação deve ser ofensiva para
os homens com sangue de linhagem. O meu é baixo.
- Nomeação? - perguntou Octaviano abrindo muito os olhos cinzentos. - Meu caro
Agripa, foste eleito in absentia, algo que não foi concedido nem a Divus
Julius. E o teu sangue não é baixo, é bom e legítimo sangue romano. Eu sei qual
a espada que quereria ter a meu lado e ela não pertence a nenhum Fábio nem
Valério. Nem a um Júlio.
- Oh, isto é óptimo! Significa que posso trabalhar no Portus Julius com
autoridade consular! Só tu ou António é que podem levantar-me objecções e tu
não o farás e ele não pode fazê-lo. Obrigado, César, obrigado!
- Quem me dera que todas as minhas decisões provocassem tanto prazer - disse
Octaviano ironicamente trocando um olhar com a mulher. - Lívia Drusila tem
razão, tens que ir vestir roupas mais confortáveis. Eu tenho que voltar à
escrita da carta para António.
- Não, não vás - disse Agripa soerguendo-se da cadeira. - Não?
- Não. -Agripa conseguiu levantar-se. - Isto já passou do ponto em que se
podiam enviar cartas. Envia o Mecenas.

246

- Estamos encalhados - disse Lívia Drusila aproximando-se e encostando a face à


de Agripa. - Ficámos encalhados, César. Agripa tem razão. Manda o Mecenas.
Depois escapuliu-se para os seus aposentos que incluíam uma sala de estar
enorme, mobilada com grande luxo mas sem mais nenhum sinal de ostentação,
incluindo o cubículo onde dormia. Este tinha um grande roupeiro, pois Lívia
Drusila adorava roupas, mas o espaço mais amplo era, de longe, o seu tablinum
privado, o seu escritório, que não imitava os escritórios dos homens - era o
escritório de um homem. Visto que casara com César sem dote nem um único
criado, os libertos que desempenhavam as funções de seus secretários
pertenciam-lhe a ele e ela tivera a brilhante ideia de os fazer rodar entre o
escritório dele e o dela, para que todos soubessem o que se passava e pudessem
ser úteis em momentos de crise.
Foi direita ao cubículo das orações, outra das suas ideias, onde estavam
erguidos altares a Vesta, Juno Lucina, Opsiconsiva e a Bona Dea. O facto de a
sua teologia ser um tanto confusa, devia-se a não ter sido instruída na
religião oficial como acontecia aos rapazes; ela limitava-se simplesmente a
encarar aquelas quatro forças divinas como as que deviam receber as suas
orações. Vesta, por lhe ter dado um verdadeiro lar; a Juno Lucina pedia uma
criança; a Opsiconsiva que aumentasse o poder e a riqueza de Roma; e à Bona Dea
rezava porque sabia que fora ela quem a trouxera para junto de César e para que
a fizesse ajudá-lo, para além de ser sua mulher.
Estava pendurada num poste uma gaiola dourada com pombas brancas; fazendo o som
de beijos ela levou as aves até junto dos altares como uma oferenda. Mas não as
matou; imediatamente após ver a ave pousar em frente ao altar, levava-a até à
janela e soltava-a, ficando a vê-la voar para longe com as mãos cruzadas sobre
o peito e o rosto erguido com uma expressão extasiada.
Ouvira durante meses o marido falar incessantemente do seu amado Marco Agripa -
ouvira, não com cepticismo, mas com desespero. Como poderia alguma vez competir
com um tal modelo de perfeição? Que embalara a cabeça de César no colo, durante
a terrível viagem de Apolónia para Bário, após Divus Julius ter sido
assassinado; que o fizera recuperar quando a asma quase o matara; que estivera
sempre presente até a traição de Salvidieno o ter exilado para a Gália
Ulterior. Marco Agripa, o contemporâneo. Nascido no mesmo dia, apesar de não
ter nascido no mesmo mês. Agripa nascera no dia vinte e três de Julius,
Octaviano no dia vinte e três de Setembro, ambos no mesmo ano. Tinham agora
vinte e cinco anos e estavam juntos havia nove.
Outra mulher poderia ter tentado fomentar o afastamento entre eles, mas Lívia
Drusila não era estúpida nem ingénua a esse ponto. Eles estavam unidos por um
laço que ela sabia, instintivamente, que ninguém conseguiria quebrar, portanto
para quê desgastar-se a tentar? Não, o que ela tinha a fazer era cair nas
graças de Marco Agripa e fazê-lo ficar do lado dela - ou, no mínimo, fazê-lo
compreender que o lado dela era o de César. No seu espírito imaginara uma luta
titânica; naturalmente que ele a encararia com ciúmes e desconfiança.

247

Nem por um momento acreditou nos rumores de que eles eram amantes em todos os
sentidos. Talvez essa inclinação fosse incipiente em César, mas, dissera-lho o
próprio, tinha sido posta de lado para sempre. Não admitindo que tivesse
existido, mas contando-lhe o essencial da conversa que mantivera com Divus
Julius num cabriole enquanto atravessavam a Hispânia Ulterior a galope.
Dezassete anos. Fora na época um contubernalis enfermiço que tivera o
privilégio de servir no exército do maior romano que alguma vez existira. E
Divus Julius avisara-o de que a sua beleza, aliada ao aspecto delicado,
originariam comentários de que ele fazia sexo com homens - o que, na Roma
homofóbica, seria um obstáculo tremendo para uma carreira política. Não, ele e
Agripa não eram amantes. O que eles partilhavam era algo mais profundo do que
uma ligação carnal, uma fusão única dos espíritos. E, compreendendo-o, ela
vivera aterrorizada com Marco Agripa, o único que não conseguiria conquistar
como seu aliado. O facto de a linhagem dele não merecer nem mesmo o desprezo de
um Cláudio Nero, deixara de ter importância; se Agripa era uma parte intrínseca
da sobrevivência milagrosa de César, então para a nova Lívia Drusila, o seu
sangue era de tão boa qualidade como o seu. Melhor, até.
Naquele dia dera-se o encontro entre ambos e este deixara-a com a mesma
sensação de leveza de uma borboleta ao vento. Pois descobrira que Marco Agripa
amava de verdade, de uma maneira que poucos eram capazes de amar ou estavam
dispostos a amar - sem egoísmo, sem condições, sem temer rivais, sem buscar
favores ou distinções.
Agora somos três, pensou ao ver a pomba de Opsiconsiva a erguer-se bem alto
sobre os pinheiros com as pontas das asas douradas pelo sol que se punha. Somos
três para cuidar de Roma e três é um número de sorte.
A última pomba era a da Bona Dea, a sua oferenda privada que lhe dizia respeito
unicamente a ela. Mas quando esta se erguia no céu uma águia desceu a pique e
apanhou-a, levando-a consigo. Uma águia... Roma recebeu a minha oferenda e ela
é uma deusa ainda maior do que a Bona Dea. O que poderá isto significar? Não
perguntes, Lívia Drusila! Não, não perguntes.
Mecenas nunca se importara por ser enviado para negociações em locais como
Atenas, onde tinha uma pequena residência que não tencionava partilhar nunca
com a sua mulher, uma típica Terência Varrão: altiva, orgulhosa, extremamente
consciente do seu estatuto. Ali, tal como Ático, podia dedicar-se discreta e
deliciosamente ao seu lado homossexual. Mas isso teria que esperar; primeiro
teria que ver Marco António, que se dizia estar em Atenas, apesar de Atenas não
lhe ter posto a vista em cima. Aparentemente não andava com disposição para
filosofia nem palestras.

248

E, na verdade, quando Mecenas foi cumprimentar o Grande Homem este estava


ausente; foi Octávia quem o recebeu e o sentou numa cadeira ateniense a que não
achou graça.
- Porque será - disse a Octávia - que os Gregos, que são tão brilhantes em
tudo, nunca apreciaram verdadeiramente as linhas curvas? Se existe alguma coisa
de que eu não goste em Atenas é da rigidez matemática dos seus ângulos.
- Oh, eles têm algum afecto pela curva, Mecenas. Para mim não há nenhuma coluna
tão bela como a coluna jónica. Parece um pergaminho meio aberto, com as
extremidades a enrolarem-se. Sei que as folhas de acanto coríntias se tornaram
mais populares nas colunas, mas são excessivas. Para mim reflectem uma certa
decadência - disse Octávia sorrindo.
Ela parecia, pensou Mecenas, um tanto desgastada, apesar de ainda não ter
trinta anos. Tal como o irmão, ficara com círculos escuros à volta dos
belíssimos olhos da cor das águas-marinhas e a boca curvava-se numa expressão
mais triste. Por falar em curvas. Estaria o casamento em crise? Com certeza que
não! Mesmo um sujeito lascivo e mulherengo como Marco António não conseguiria
encontrar defeitos em Octávia, nem como esposa nem como mulher.
- Onde está ele?
Os olhos dela nublaram-se e encolheu os ombros.
-Não faço ideia. Regressou há um nundinum mas eu mal o vi. Glafira veio para
Atenas na companhia dos dois filhos mais novos.
- Não, Octávia, ele não teria um caso mesmo debaixo do teu nariz!
- Foi o que eu disse a mim própria e acho que acredito nisso.
O arquímanipulador inclinou-se para a frente sentado na cadeira angulosa. -
Ora, minha querida, não é Glafira o que te rala. Tens demasiado bom senso para
isso. Que se passa realmente?
Os olhos dela pareciam cegos e as mãos moveram-se, impotentes.
- Estou perdida, Mecenas. Só te sei dizer que António mudou de uma forma que eu
não consigo identificar exactamente. Estava à espera que ele voltasse cheio de
saúde e com vontade de se divertir... ele gosta sempre de visitar um teatro de
guerra, isso rejuvenesce-o. Mas ele regressou... oh, não sei, murcho. Será esse
o termo exacto? Como se a viagem lhe tivesse roubado algo de que ele precisa
desesperadamente para manter a boa opinião de si próprio. Houve outras
mudanças... zangou-se com Quinto Délio que mandou embora. E recusa-se a ver
Planco que veio de visita da província da Ásia. Limitou-se a receber o tributo
que Planco trouxe e mandou-o de volta para Éfeso. Planco está fora de si, mas a
única coisa que eu consigo arrancar a António é que não pode confiar em nenhum
dos seus amigos. Que a única coisa que eles fazem é mentir-lhe. Polião queria
conferenciar com ele sobre as dificuldades que César tem tido na Itália... tem
tido dificuldades em manter a facção senatorial de António nas devidas
condições, seja lá o que for que isso signifique.

249

Mas ele não o deixa vir!


- Ouvi dizer que a sua zanga mais grave foi com Públio Ventídio - disse
Mecenas.
- Bem, toda a Roma o deve saber - disse ela ironicamente. - Ele cometeu o
gravíssimo erro de pensar que Ventídio aceitara um suborno.
-Talvez seja esse o problema.
- Talvez - disse ela e depois virou a cabeça. - Ah! António!
Ele entrou com a leveza e a graciosidade que nunca deixavam de espantar
Mecenas; os homens grandes e musculosos costumavam levar tudo à frente. O rosto
de pele macia tinha uma expressão fechada, mas esta não se devia a um humor
passageiro, pensou Mecenas; aquela era a expressão habitual dos últimos tempos,
adivinhou. Quando António viu Mecenas deteve-se e franziu o sobrolho.
- Oh, tu! - disse atirando-se para cima de uma cadeira mas não se servindo de
vinho. - Suponho que a tua vinda era inevitável, apesar de ter pensado que o
teu chefe nojento fosse continuar a escrever-me cartas suplicantes.
- Não, ele achou que chegara a altura para um Mecenas suplicante. Octávia
levantou-se.
- Vou deixá-los sozinhos - disse fazendo uma festa nos caracóis de António
quando passou junto dele. - Portem-se bem.
Mecenas riu-se, António não.
- O que quer Octaviano?
- O que ele quer sempre, António. Navios de guerra.
- Eu não tenho nenhuns.
- Germe! O Pireu está atafulhado deles. - Mecenas pousou o copo de vinho e
juntou os dedos. - António, não podes continuar a evitar encontrar-te com César
Octaviano.
-Ah! Não fui eu que não apareci em Brundísio.
- Não mandaste nenhuma mensagem a avisar que ias para lá, e foste tão
rapidamente, que apanhaste César Octaviano desprevenido e ainda em Roma. Depois
não esperaste que ele tivesse tempo de fazer a viagem.
- Ele não tinha intenção de fazer a viagem. Só queria ver-me a obedecer às suas
ordens.
- Não, ele não faria tal coisa.
A discussão andou às voltas e voltas durante horas, período em que comeram uma
refeição num estado de espírito nada propício a apreciar as iguarias que os
cozinheiros de Octávia tinham preparado - e durante a qual Mecenas observou a
sua presa como um gato observa um rato: imóvel e tremendo de antecipação.
Octávia, estás mais perto da realidade do que aquilo que imaginas, pensou;
murcho é o termo exacto para descrever este novo António.

250

Finalmente bateu com as mãos nas coxas e soltou uma exclamação exasperada, o
seu primeiro sinal de impaciência.
- António, reconhece que sem a tua ajuda César Octaviano não conseguirá
derrotar Sexto Pompeu! - disse.
António arreganhou o lábio.
- Admito-o de livre vontade.
- Então ainda não te ocorreu que o dinheiro de que necessitas para dominar o
Oriente e invadir o reino dos Partos está nos cofres de Sexto?
- Bem, sim... isso já me ocorreu.
- Então nesse caso porque não começas a redistribuir a riqueza da maneira
correcta, à maneira romana? Será realmente importante César Octaviano ter os
seus problemas resolvidos se Sexto for derrotado? São os teus problemas que são
importantes para ti António e, tal como para César Octaviano, estes dissipar-
se-ão no ar assim que os cofres de Sexto Pompeu forem abertos. Não será isso
mais importante do que o destino de César Octaviano? Se regressares do Oriente
com uma campanha brilhante no currículo, quem te poderá fazer frente?
- Não confio no teu amo, Mecenas. Ele vai arranjar uma maneira de ficar com o
recheio dos cofres de Sexto.
- Isso poderia ser verdade se Sexto tivesse menos dinheiro. Creio que estás
disposto a admitir que César Octaviano tem boa cabeça para números, para as
minúcias da contabilidade?
António não conseguiu deixar de se rir. - A aritmética foi sempre o seu forte!
- Então considera o seguinte. Quer seja cultivado nas suas terras da Sicília,
quer seja roubado às frotas cerealíferas da África e da Sardenha, Sexto não
paga o trigo que vende a Roma... e a ti. Esse estado de coisas já vem de antes
de Filipos. Fazendo os cálculos por baixo, a quantidade de cereais que ele
roubou durante os últimos seis anos chegam a, números redondos, pelo menos a
oitenta milhões de modii. Descontando uns quantos almirantes gananciosos e
alguns custos, mas custos que não se comparam aos que Roma e tu suportam, César
Octaviano e o seu ábaco chegaram a uma média de vinte sestércios de lucros
limpos por cada modius. Não é fantasia! O preço que ele cobrou a Roma este ano
foi de quarenta e nunca foi menos de vinte e cinco. Bem, isso significa que os
cofres de Sexto Pompeu devem conter mais ou menos mil e oitocentos milhões de
sestércios. Divide por vinte e cinco mil e obténs o espantoso resultado de
setenta e dois mil talentos! Ora com metade disso, César Octaviano poderá
alimentar a Itália, comprar terras para instalar os veteranos e reduzir os
impostos! Enquanto que a tua metade permitirá aos teus legionários usar cotas
de malha em prata e plumas de avestruz nos capacetes. O Tesouro de Roma nunca
foi tão rico como Sexto Pompeu é neste momento, nem mesmo quando o pai dele
duplicou o seu recheio.

251

António escutava-o completamente absorto e a ficar rapidamente mais bem-


disposto. Podia ter sido burro na aritmética quando andava na escola (ele e os
irmãos tinham feito gazeta na maior parte das vezes), mas não tinha dificuldade
em seguir a lição de Mecenas e sabia que aquela estimativa da riqueza actual de
Sexto devia estar correcta. Júpiter, mas que cunnus! Porque não se tinha
sentado com o ábaco a fazer aquelas contas? Octaviano tinha razão, Sexto Pompeu
tinha sangrado Roma de toda a sua riqueza. O dinheiro não desaparecera! Era
Sexto que o tinha!
- Estou a ver o teu ponto de vista - disse bruscamente.
- Então na Primavera virás pessoalmente a um encontro com Octaviano?
- Desde que o local do encontro não seja Brundísio.
- Ah,.. e que tal Tarento? É uma viagem mais longa, mas não tão árdua como a
viagem para Putéolos ou Óstia. E fica na Via Ápia. O que é muito conveniente se
quiseres ir a Roma depois.
Aquilo não agradava a António.
- Não, o encontro tem que ser no início da Primavera e tem que ser breve. Nada
de regateios nem discussões. Tenho que estar na Síria no Verão para dar início
à minha invasão.
Isso não vai acontecer, António, pensou Mecenas para consigo. Abri-te o apetite
falando-te em números a que um glutão como tu não consegue resistir. Quando
chegar a altura de ires a Tarento já te terás apercebido da verdadeira dimensão
dos despojos e vais querer ficar com a parte de leão. Nascido no mês de
Sextilis, é Leão. Já Octaviano é um filho da transição, com uma metade fria e
meticulosa típica do signo de Virgem e metade com o equilíbrio da Balança. Tu
tens Marte em Leão também, mas César tem o seu Marte numa constelação muito
mais forte, em Escorpião. E tem Júpiter em Capricórnio juntamente com o seu
ascendente. Riqueza e sucesso. Sim, escolhi o amo certo. Mas também eu tenho a
sagacidade do Escorpião e a ambivalência dos Peixes.
- É aceitável? - perguntou António, aparentemente pela segunda vez. Arrancado à
sua análise astrológica, Mecenas sobressaltou-se e depois assentiu.
- Sim. Tarento nas Nonas de Abril.
- Ele mordeu o isco. - Mecenas informou Octaviano, Lívia Drusila e Agripa
quando regressou a Roma, mesmo a tempo do Ano Novo e da posse de Agripa como
cônsul sénior.
- Eu sabia que ele morderia - disse Octaviano com complacência.
- Há quanto tempo tens este isco guardado no sinus da tua toga, César? -
perguntou Agripa.
- Desde o início, antes de ser triúnviro. Foi apenas uma questão de ir
adicionando cada ano aos anteriores.

252

- Ático, Ópio e os Balbos, deram indicações de que estarão dispostos a


emprestar novamente dinheiro para a próxima colheita - disse Lívia Drusila
sorrindo venenosamente. - Enquanto estiveste fora, Mecenas, Agripa levou-os a
ver o Portus Julius. Começam finalmente a perceber que poderemos derrotar
Sexto.
- Bem, eles conseguem fazer contas melhor do que César - disse Mecenas. - Agora
sabem que o seu investimento é seguro.
A posse de Agripa correu muito bem. Octaviano observou os céus nocturnos com
ele durante a sua vigília e o seu boi, impecavelmente imaculado, aceitou o
martelo e a faca de popa e cultrarius tão calmamente que os senadores que
assistiam reprimiram estremecimentos de apreensão - um ano de Marco Vipsânio
Agripa era um ano em demasia. Como o boi branco de Gaio Canínio Galo escapou ao
martelo e quase fugiu antes da pancada amortecedora ser finalmente aplicada,
não parecia que Canínio tivesse a força necessária para lidar com aquele
sujeito vulgar e mal-nascido.
Roma continuava cheia de motins, mas o Inverno foi rigoroso; o Tibre gelou, a
neve caía e não derretia e um vento agreste do Norte soprava incessantemente.
Nenhum destes factores encorajava a formação de grandes multidões no Fórum e
nas praças, o que permitia a Octaviano sair detrás das suas muralhas apesar de
Agripa o ter proibido de as derrubar. No fim, os cereais públicos acabaram por
ser vendidos a quarenta sestércios o modius - graças aos empréstimos dos
plutocratas e a uma conta chocante em juros - e o aumento da actividade de
Agripa em Portus Julius significava que havia trabalho para todos os homens
dispostos a trocar Roma pela Campânia. A crise não terminara, mas aliviara.
Os agentes de Octaviano começaram a falar na conferência que se realizaria em
Tarento, nas Nonas de Abril, e a prever que os dias de Sexto estavam contados.
Os bons tempos voltariam, entoavam.
Desta vez Octaviano não se atrasaria; ele e a mulher chegaram a Tarento muito
antes das Nonas, juntamente com Mecenas e o cunhado deste, Varrão Murena.
Querendo que a conferência decorresse num ambiente festivo, Octaviano decorou a
cidade portuária com grinaldas e coroas e contratou todos os mimos, mágicos,
acrobatas, músicos, curiosidades de feira e números especiais que a Itália
produzia e mandou construir um teatro de madeira para encenar mimos e farsas,
os espectáculos preferidos das pessoas comuns. O grande Marco António vinha
divertir-se com César Divi Filius! Mesmo que Tarento tivesse sofrido no passado
às mãos de António - e não sofrera - todos os ressentimentos teriam sido
esquecidos. Um festival de Primavera de prosperidade, era como o povo encarava
a ocasião.
Quando António embarcou na véspera das Nonas, toda a Tarento estava alinhada na
frente marítima, aplaudindo loucamente, em especial quando o povo se apercebeu
de que ele trazia consigo as cento e vinte embarcações de guerra da frota
ateniense.

253

- Maravilhosos, não são? - perguntou Octaviano a Agripa quando estavam junto ao


porto a procurar o navio almirante que não viera na frente. - Até agora já
contei quatro almirantes, mas ainda não vi o navio de António. Deve vir atrás a
abanar a cauda. Aquele é o pavilhão de Aenobarbo: um javali preto.
- Apropriado - disse Agripa mais interessado nos navios. - Todos eles são de
cinco com convés, César. Bicos de bronze, muitos deles duplos, imenso espaço
para artilharia e soldados. Oh, o que eu não daria por uma frota destas!
- Os meus agentes garantem-me que ele tem mais em Tassos, Ambrácia e Lesbos.
Ainda estão em boas condições, mas dentro de cinco anos já não estarão. Ah,
aqui vem António!
Octaviano apontou para uma galera magnífica com uma cabina elevada para
permitir uma sala espaçosa por baixo, o convés eriçado de catapultas. O
pavilhão ostentava um leão dourado sobre um fundo escarlate, a boca aberta num
rugido, juba negra e cauda com ponta também negra.
- Adequado - disse Octaviano.
Começaram a regressar ao cais escolhido para receber o navio almirante, cujo
piloto dirigia a partir de um barco a remos. Não havia pressa, chegariam lá
facilmente, primeiro do que o barco.
- Tens que ter um pavilhão próprio, Agripa - disse Octaviano enquanto observava
a cidade que se espraiava ao longo da margem, as casas pintadas de branco, os
pinheiros mansos e os abetos das praças enfeitados com lanternas e galhardetes.
- Suponho que sim - disse Agripa apanhado de surpresa. - O que sugeres, César?
- Um fundo azul-claro com a palavra FIDES escrita em grandes letras carmim -
respondeu Octaviano de imediato.
- E o teu pavilhão naval, César?
- Não terei nenhum. Içarei as letras SPQR envoltas em folhas de louro.
- Então e os almirantes como Tauro e Cornifício?
- Eles também içarão as letras SPQR, tal como eu. O teu pavilhão será o único
personalizado, Agripa. Uma marca de distinção. Serás tu quem conquistará a
nossa vitória sobre Sexto, sinto-o nos ossos.
- Pelo menos os navios dele serão fáceis de identificar, com os seus pavilhões
com ossos cruzados.
- Característico - foi a resposta de Octaviano. - Oh, quem foi o imbecil que
fez aquilo? Que vergonha!
Referia-se à carpete vermelha que um qualquer oficial do duumviri tinha
estendido a todo o comprimento do cais, uma distinção de realeza que horrorizou
Octaviano. Mas mais ninguém pareceu perturbado; aquele era o escarlate de um
general e não a púrpura real.

254

E ali estava ele, saltando do navio para o tapete vermelho, com um aspecto tão
saudável e robusto como sempre. Octaviano e Agripa esperaram juntos debaixo do
toldo ao fundo do cais com Canínio, o cônsul júnior, um passo mais atrás e,
atrás dele, setecentos senadores, todos eles homens de Marco António. O
duumviri e outros oficiais da cidade tiveram que se contentar com uma posição
ainda mais recuada.
Obviamente que António envergava a sua couraça dourada de cerimónia; a toga não
assentava bem no seu corpanzil, fazia-o parecer gordo. Sendo um homem
igualmente musculado, apesar de mais esbelto, Agripa não ligava ao aspecto e
usava a toga debruada a púrpura. Ele e Octaviano avançaram para saudar António,
Octaviano parecendo uma criança frágil e delicada no meio daqueles dois
esplêndidos guerreiros. No entanto era Octaviano quem dominava, talvez devido a
esse facto, talvez devido à sua beleza, à sua espessa cabeleira loira e
brilhante. Naquela cidade do Sul da Itália, onde os Gregos se tinham instalado
muito antes de os primeiros romanos terem penetrado na península, o cabelo
loiro e brilhante era uma raridade muito admirada.
Está feito!, pensou Octaviano. Consegui trazer António para solo italiano e ele
não sairá daqui até me dar aquilo que eu quero, aquilo que Roma tem que ter.
Pelo meio de pétalas de rosas lançadas por meninas, desfilaram até ao complexo
de edifícios que lhe estavam reservados, sorrindo e acenando às multidões
extasiadas.
- Uma tarde e noite para te instalares - disse Octaviano junto à porta da
residência de António. - Devemos começar imediatamente a trabalhar... sei que
estás com pressa... ou deveremos agradar ao povo de Tarento indo amanhã ao
teatro? Vão encenar uma farsa atelana.
- Não é Sófocles, mas é mais do agrado geral - disse António parecendo
descontraído. - Sim, porque não? Trouxe Octávia e as crianças comigo... ela
estava desesperada por ver o irmãozinho.
- Não mais desesperada do que estou por vê-la. Ainda não conheceu a minha
mulher... sim, eu também trouxe a minha - disse Octaviano. - Digamos então que
vamos ao teatro amanhã de manhã e que faremos um banquete amanhã à tarde?
Depois disso... será mesmo trabalho.
Quando entrou na sua própria residência, Octaviano encontrou Mecenas com um
ataque de riso.
- Não vais acreditar! - conseguiu Mecenas arfar secando os olhos e depois teve
novo ataque de riso. - Oh, é engraçado!
- O quê? - perguntou Octaviano permitindo a um criado que lhe tirasse a toga. -
E onde estão os poetas?
- É isso mesmo, César! Os poetas! - Mecenas conseguiu controlar-se, engolindo
de vez em quando e com os olhos ainda marejados de lágrimas.

255

- Horácio, Virgílio, o companheiro e protector de Virgílio, Plócio Tuca, Vário


Rufo e mais umas quantas luminárias menores, partiram de Roma há um nundinum
para elevar o tom intelectual das festividades de Tarento, mas - engasgou-se,
riu-se e controlou-se - enganaram-se e foram para Brundísio e Brundísio não os
deixa partir, determinada a ter o seu próprio festival! - uivou de riso.
Octaviano conseguiu sorrir e Agripa deu uma risada, mas nenhum deles conseguia
apreciar a situação como Mecenas, não estando familiarizados com as mentes
distraídas dos poetas.
Quando descobriu o que se passara, António soltou gargalhadas quase tão sonoras
como as de Mecenas e enviou um mensageiro a Brundísio para lhes entregar uma
bolsa com ouro.
Como não esperara que António trouxesse Octávia e as crianças, Octaviano não
instalara António numa casa suficientemente grande para acomodar toda a gente
sem que o barulho das crianças o perturbasse, mas Lívia Drusila apareceu com
uma solução inovadora.
- Ouvi falar de uma casa próxima cujo proprietário está disposto a dispensá-la
durante a conferência - disse. - Porque não me mudo para lá com Octávia e as
crianças? Se eu também lá estiver, então António não poderá queixar-se de
tratamento de segunda para a sua mulher.
Octaviano beijou-lhe a mão e sorriu olhando para aqueles maravilhosos olhos
riscados.
- Brilhante, meu amor! Fá-lo imediatamente.
- E, se não te importares, não assistiremos à peça amanhã. Nem mesmo os
triúnviros podem sentar-se junto das mulheres e eu não consigo ouvir nada nas
filas das mulheres, lá atrás e, além disso, não me parece que Octávia goste
mais de farsas do que eu própria.
- Pede uma bolsa a Burgúndio e vai às compras na cidade. Sei que tens um
fraquinho por roupas bonitas e pode ser que encontres alguma coisa ao teu
gosto. Se bem me recordo, Octávia gosta de fazer compras.
- Não te preocupes connosco - disse Lívia Drusila muito satisfeita. - Podemos
não encontrar nada para comprar, mas será uma oportunidade para nos
conhecermos.
Octávia estava curiosa relativamente a Lívia Drusila; tal como toda a classe
superior romana, tinha ouvido falar na estranha paixão do seu irmão pela mulher
doutro homem, grávida do segundo filho deste, do divórcio por motivos
religiosos, do total mistério que o rodeava a ele, a ela, à paixão. Seria
mútua? Existiria realmente?
A Lívia Drusila que Octávia encontrou não era muito diferente da rapariguinha
que ainda era quando casara com Octaviano. Aquela não era uma esposa recatada e
tímida!, pensou Octávia lembrando-se das descrições que lhe tinham feito.
256

Viu uma jovem matrona elegantemente vestida com o cabelo apanhado à última moda
e que usava a quantidade certa de jóias de ouro simples (mas maciço). Comparada
com ela, Octávia sentiu-se razoavelmente bem vestida, mas fora de moda - o que
não era surpreendente, depois de ter passado tanto tempo em Atenas, onde as
mulheres não frequentavam a sociedade. É claro que as esposas romanas insistiam
em frequentar os jantares oferecidos pelos homens romanos, mas os jantares
oferecidos pelos homens gregos estavam-lhes vedados: só eram convidados os
maridos. Portanto o centro da moda feminina era Roma e Octávia nunca estivera
tão consciente desse facto como naquele momento, olhando para a sua nova
cunhada.
- Foi uma ideia muito inteligente pôr-nos na mesma casa - disse Octávia quando
se instalaram a beber um vinho doce e aguado e a comer bolos de mel ainda
quentes do forno de barro, uma especialidade da região.
- Bem, dá liberdade aos nossos maridos - disse Lívia Drusila sorrindo. -
Imagino que António teria preferido vir sem ti.
- A tua imaginação está absolutamente correcta - disse Octávia ironicamente.
Inclinou-se impulsivamente para a frente. - Mas eu não interesso! Conta-me tudo
sobre ti e o... - tinha na ponta da língua "Pequeno Gaio", mas houve algo que a
deteve e a avisou de que fazê-lo seria um erro. O que quer que fosse, Lívia
Drusila não era nem sentimental nem feminina, isso era evidente. - ... Gaio -
emendou. -Tenho ouvido histórias tão idiotas que gostaria de saber a verdade.
- Conhecemo-nos nas ruínas de Fregelas e apaixonámo-nos - disse Lívia Drusila
num tom de voz normal. - Esse foi o nosso único encontro até nos termos casado
confarreatio. Nessa altura já eu estava grávida de oito meses do meu segundo
filho, Tibério Cláudio Nero Druso, que César enviou ao pai para ser criado.
- Oh, pobrezinha! - gritou Octávia. - Deves ter ficado com o coração
despedaçado.
-Absolutamente nada. -A mulher de Octaviano mordiscou um bolinho delicadamente.
- Eu não gostava dos meus filhos porque não gostava do pai deles.
- Tu não gostavas de uma criança?
- Porque haveria de gostar? Eles crescem e tornam-se nos adultos de que não
gostamos.
- Já os viste? Especialmente o segundo... como é que lhe chamam?
- O pai chama-lhe Druso. E não, nunca o vi. Já tem treze meses.
- Certamente que sentes a sua falta!
- Só quando fico doente por causa do leite.
- Eu... eu... - Octávia gaguejou e acabou por se calar. Sabia o que as pessoas
diziam do Pequeno Gaio - que ele era frio como uma pedra. Bem, casara com
alguém tão frio como ele. No entanto ambos tinham ardido, só que não tinham
ardido pelas mesmas coisas que ela, Octávia, achava importantes. - És feliz? -
perguntou tentando encontrar algo em comum.

257

- Sim, muito. A minha vida actualmente é muito interessante. César é um génio,


a qualidade da sua mente fascina-me. É um grande privilégio ser sua mulher! E a
sua ajudante. Ele ouve os meus conselhos.
- Ouve mesmo?
- Constantemente. Ansiamos pelas nossas conversas na cama.
- Conversas na cama?
- Sim. Ele guarda todos os problemas do dia para discutir comigo, em privado.
Imagens daquela união bizarra dançaram na frente dos olhos de Octávia: duas
pessoas jovens e extremamente atraentes aninhadas na cama a conversar. Seria
que eles... eles...? Talvez, depois de terminada a conversa, concluiu e depois
foi despertada abruptamente do seu sonho acordado quando Lívia Drusila riu com
um som de campainhas.
- Assim que acaba de discutir os seus problemas cai a dormir - disse
ternamente. - Diz que nunca dormiu tão bem em toda a vida. Não é esplêndido?
Oh, ainda és uma criança!, pensou Octávia, compreendendo. Um peixinho apanhado
na rede do meu irmão. Ele está a moldar-te às suas necessidades e não tem
necessidades conjugais. Será que ele chegou sequer a consumar o vosso casamento
confarreatio? Tu tens tanto orgulho nisso, quando a realidade é que te liga a
ele irrevogavelmente. Se tiver sido consumado, também não é por isso que tu
anseias, meu pobre peixinho. Como ele deve ser sensível, para te ter visto uma
única vez e ter logo percebido o que eu estou a ver agora: uma sede de poder só
igualada pela dele. Lívia Drusila, Lívia Drusila! Perderás a tua infantilidade,
mas nunca conhecerás a verdadeira felicidade de uma mulher tal como eu a
conheci, como a conheço... O primeiro casal de Roma, apresentando uma fachada
de ferro ao mundo, lutando lado a lado para controlar todas as pessoas e
situações que encontram. É claro que enganaram Agripa. Imagino que ele esteja
tão fascinado com o meu irmão como tu.
- E então Escribónia? - perguntou mudando de assunto.
- Está bem, ainda que não esteja feliz - disse Lívia Drusila suspirando. -
Visito-a uma vez por semana agora que a cidade está um pouco mais calma... é
difícil andar de um lado para o outro quando os bandos de rua se amotinam.
César mandou pôr guardas na casa dela também.
- E Júlia?
Por um instante Lívia Drusila ficou inexpressiva mas depois o seu rosto ilu-
minou-se.
- Oh, essa Júlia. Engraçado, penso sempre na filha de Divus Julius quando oiço
esse nome. É muito bonita.
- Tem dois anos, já deve andar e falar. E inteligente?
- Na realidade não sei. Escribónia enche-a de mimos. Subitamente Octávia
sentiu-se à beira das lágrimas e levantou-se.

258

- Estou muito cansada, minha querida. Importas-te que vá fazer uma sesta? Terás
muito tempo para ver as crianças... ficaremos aqui durante dias.
- Mais provavelmente durante nundinae - disse Lívia Drusila que, era óbvio, não
estava propriamente entusiasmada com a perspectiva de conhecer uma tribo de
crianças pequenas.
A previsão íntima de Mecenas provou estar certa; tendo passado o Inverno em
Atenas a digerir a quantidade de dinheiro que havia nos cofres de Sexto Pompeu,
António queria a parte de leão.
- Oitenta por cento são para mim - anunciou.
- Em troco de quê? - perguntou Octaviano com uma expressão impassível.
- Da frota que trouxe de Tarento e o serviço de três almirantes experientes:
Bíbulo, Ópio Capito e Atratino. Sessenta dos navios são comandados por Ópio,
outros sessenta por Atratino e Bíbulo desempenha as funções de almirante-geral.
- E, por vinte por cento, eu teria que arranjar mais trezentos navios no mínimo
e ainda um exército terrestre para a invasão da Sicília.
- Correcto - disse António examinando as unhas.
- Não te parece que essa é uma divisão bastante desproporcionada? Sorrindo,
António inclinou-se para diante com uma expressão de ameaça subtil. -Vê as
coisas desta forma, Octaviano: sem mim não conseguirás derrotar Sexto.
Portanto sou eu quem impõe as condições.
- Negoceias de uma posição de poder. Sim, compreendo. Mas não concordo por duas
razões. A primeira é que agiremos em conjunto para tirar uma farpa do flanco de
Roma, não do meu nem do teu. A segunda é que eu preciso de mais do que vinte
por cento para reparar a devastação causada por Sexto e para pagar as dívidas
de Roma.
- Estou-me absolutamente nas tintas para o que tu queres ou o que tu precisas!
Para participar nisto exijo oitenta por cento.
- Isso significa que estarás presente em Agrigento quando abrirmos os cofres de
Sexto? - perguntou Lépido.
A chegada dele fora um choque para António e para Octaviano, que estavam
tranquilos sabendo que o terceiro triúnviro e as suas dezasseis legiões estavam
em segurança lá longe, em África. Como é que ele soubera da conferência com
antecedência suficiente para assistir, António não sabia, enquanto que
Octaviano suspeitava do filho mais velho de Lépido, Marco, que estava em Roma
para se casar com a primeira noiva intocada de Octaviano, Servília Vácia.
Alguém dera com a língua nos dentes e Marco contactara Lépido imediatamente. Se
havia grandes saques no horizonte, então os Emílios Lépidos tinham que receber
a sua parte.
- Não, não estarei em Agrigento! - ripostou António. - Estarei bem adiantado na
tarefa de submeter os Partos.

259

- Como esperas então que a divisão do conteúdo dos cofres de Sexto seja feita
conforme a tua vontade? - perguntou Lépido.
- Porque se tal não acontecer, Pontífice Máximo, tu ficarás sem o teu lugar de
sacerdote e sem tudo o resto! Quero saber das tuas legiões? Não, não quero! As
únicas legiões que valem alguma coisa pertencem-me a mim e não ficarei no
Oriente para sempre. Oitenta por cento.
- Cinquenta por cento - disse Octaviano mantendo o rosto inexpressivo. Olhou
para Lépido. - E para ti, Pontífice Máximo, nada. Os teus serviços não serão
necessários.
- Disparate, é claro que serão - disse Lépido complacentemente. - Contudo eu
não sou ganancioso. Dez por cento servem-me perfeitamente. Tu, António, não
estás a fazer nada que justifique quarenta por cento, mas concordarei com essa
quantia visto seres tão ganancioso. A maior parte das dívidas de Octaviano
devem-se às actividades de Sexto, portanto deve ficar com cinquenta por cento.
- Oitenta ou levo a minha frota para Atenas.
- Fá-lo e não receberás nada - disse Octaviano inclinando-se para diante numa
ameaça subtil, algo que ele fazia melhor do que António. - Não me interpretes
mal, António! Sexto Pompeu vai cair no próximo ano, quer tu contribuas com uma
frota quer não. Como triúnviro cumpridor e leal estou a oferecer-te uma
oportunidade para partilhares o saque da sua derrota. A oferecer-te. A tua
guerra no Oriente, se bem--sucedida, beneficiará Roma e o Tesouro, portanto uma
parte ajudará a custear essa guerra. Não te faço esta oferta por mais nenhuma
razão. Mas Lépido tem razão. Se eu usar as legiões dele e as de Agripa para
invadir uma ilha muito grande e montanhosa, depois de as frotas de Sexto terem
deixado de existir, a Sicília cairá mais rapidamente e com menos perdas de
vidas. Portanto estou disposto a conceder ao nosso Pontífice Máximo dez por
cento dos despojos. O que te deixa com quarenta por cento. Quarenta por cento
de setenta e dois mil são vinte e nove mil. Era mais ou menos isso o que César
tinha na sua arca de guerra para a campanha contra os Partos.
António escutou com uma ira visivelmente crescente, mas não disse nada.
Octaviano avançou.
-Todavia, quando tivermos montado esta guerra total contra Sexto, eleja terá
adicionado vinte mil talentos ao seu espólio: o preço desta colheita. O que
significa que terá cerca de noventa e dois mil talentos. Dez por cento disso é
mais do que nove mil talentos. Os teus quarenta por cento, António, são cerca
de trinta e sete mil. Pensa nisso, pensa! Um lucro enorme para um pequeno
investimento... apenas uma frota, por muito boa que seja.
- Oitenta - repetiu António sem vacilar.
Quanto, pensou Mecenas, estará ele preparado para aceitar? Não oitenta por
cento - ele tem que saber que nunca conseguirá essa quantia. Mas é evidente que
se esqueceu de juntar a actual colheita aos despojos.

260

Depende da quantia que eleja tenha gasto na sua cabeça. Com os números antigos,
uns trinta e seis mil. Aceitando dez por cento menos com os números novos,
receberá um pouco mais do que receberia se estivesse a contar receber cinquenta
por cento.
- Lembrem-se - disse Octaviano -, o que quer que vá para ti, António, e para
ti, Lépido, é pago em nome de Roma. Nenhum de vós gastará o vosso quinhão com a
própria Roma. Enquanto que os meus cinquenta por cento irão inteirinhos para o
Tesouro. Sei que o general tem direito a dez por cento, mas eu não ficarei com
nada. Para que os quereria, se ficasse com eles? O meu divino pai deixou-me
bens mais do que suficientes para as minhas necessidades e comprei a única
domus romano de que alguma vez precisarei. Já está mobilada. Portanto as minhas
necessidades pessoais são praticamente inexistentes. A minha parte vai toda
para Roma.
- Setenta por cento - disse António. - Eu sou o parceiro mais importante.
- Em quê? Certamente que não na guerra contra Sexto Pompeu - disse Octaviano. -
Quarenta por cento, António. É pegar ou largar.
O regateio continuou durante um mês no fim do qual António já deveria ir a meio
caminho da Síria. A responsabilidade de ele continuar onde estava podia ser
atribuída ao pecúlio de Sexto, pois estava determinado a sair daquela
negociação com dinheiro suficiente para equipar soberbamente vinte legiões e
vinte mil soldados de cavalaria. Muitas centenas de peças de artilharia. Um
enorme comboio de mantimentos capaz de carregar toda a comida e alimentação
para animais que o seu exército enorme fosse capaz de consumir. Era de esperar
que Octaviano insinuasse que ele ficaria com o dinheiro para si próprio. Não
ficaria, e Octaviano sabia-o muito bem. Aquele dinheiro significava o melhor
exército que Roma alguma vez tivera. Oh! e o saque no fim da campanha! Faria
com que o tesouro de Sexto Pompeu parecesse uma miséria.
Finalmente chegaram a acordo nas percentagens: cinquenta para Octaviano e Roma,
quarenta para António e para o Oriente e dez para Lépido em Africa.
- Há outras questões - disse Octaviano. - Questões que têm que ser debatidas
agora e não mais tarde.
- Oh, Júpiter! - grunhiu António. - O quê?
- O Pacto de Putéolos ou Miseno ou o que queiram chamar-lhe, deu a Sexto
imperium proconsular sobre as ilhas, bem como sobre o Peloponeso. E deverá ser
cônsul dentro de dois anos. Isso são tudo coisas que têm que acabar
imediatamente. O Senado deverá reactivar o decreto de hostis e proibir o uso da
água e do fogo a Sexto num raio de cento e sessenta quilómetros de Roma,
retirar-lhe as suas pretensas províncias e retirar o seu nome dos fasti... não
poderá ser cônsul nunca.
- Como é que essas coisas podem ser feitas imediatamente? O Senado reúne-se em
Roma - objectou António.

261

- Ora, quando o assunto é a guerra? Quando discute uma guerra, o Senado tem que
se reunir no exterior do pomerium. E Tarento fica indiscutivelmente no exterior
do pomerium. Estão aqui mais de setecentos dos teus senadores, António, muito
atarefados a lamber-te as botas, de tal maneira que já têm as línguas gastas
-disse Octaviano desabridamente. - Também aqui temos o Pontífice Máximo e tu és
um augure e eu sou sacerdote e augure. Não há nenhum impedimento, António,
absolutamente nenhum.
- O Senado tem que se reunir num edifício devidamente inaugurado.
- Que, certamente, existirá em Tarento.
- Esqueceste uma coisa, Octaviano - disse Lépido.
- Esclarece-me por favor.
- O nome de Sexto Pompeu já está nos fasti... é isso o que acontece quando
escolhemos os cônsules com um ano de antecedência e depois limitamo-nos a
fingir que são eleitos. Apagá-lo seria nefas.
Octaviano soltou uma risadinha.
- Para quê apagá-lo, Lépido? Não vejo necessidade. Esqueces-te de que há um
outro Sexto Pompeu da mesma família a pavonear-se por Roma? Não há razão para
que não possa ser cônsul daqui a dois anos... é um dos sessenta pretores que
serviram no ano passado.
Todos os rostos se iluminaram com sorrisos rasgados.
- Brilhante, Octaviano! - gritou Lépido. - Eu conheço o sujeito... é o neto do
irmão de Pompeu Estrabão. Ficará morto de orgulho.
-Apenas quase morto de orgulho já será suficiente, Lépido. - Octaviano es-
preguiçou-se, bocejou e conseguiu parecer-se com um gato satisfeito. - Supõem
que isto significa que podemos concluir o Pacto de Tarento e regressar a Roma,
para espalhar a boa nova de que o triunvirato foi renovado por mais cinco anos
e que os dias de pirataria de Sexto Pompeu estão contados? Tens que vir,
António, já é demasiado tarde para iniciares uma campanha este ano.
- Oh, António, que maravilha! - gritou Octávia quando ele lhe disse. - Posso
ver a mamã e ver a pequena Júlia com os meus próprios olhos... Lívia Drusila é
completamente indiferente à sua sorte e não fará qualquer esforço para
persuadir o Pequeno... o César Octaviano, quero dizer, a manter-se em contacto
com a filha; receio pela pequenita.
- Estás outra vez grávida - disse António percebendo subitamente. -
Adivinhaste! Que espantoso! Ainda estou muito no início e estava à espera
de ter a certeza para te contar. Espero que seja um filho.
- Filho, filha, que interessa isso? Tenho imensos de uns e de outros.
- Na verdade, tens - disse Octávia. - Mais do que qualquer outro homem ilustre,
especialmente se contares com os gémeos de Cleópatra.

262

- Irritada, minha querida? - disse ele, sorrindo.


- Ecastor, não! Só estou orgulhosa da tua virilidade, acho - disse ela
retribuindo-lhe o sorriso. - Confesso que por vezes dou por mim a pensar
nela... na Cleópatra. Ela está bem? A vida é-lhe agradável? Desvaneceu-se da
consciência da maior parte de Roma, incluindo a do meu irmão. De certa forma é
uma pena, dado ela ter um filho de Divus Julius, para além dos teus gémeos.
Talvez um dia regresse a Roma. Gostaria de voltar a vê-la.
Ele pegou-lhe na mão e beijou-a.
- Uma coisa te digo, Octávia... não tens um grama de ciúme no corpo.
Em Roma, António encontrou duas cartas a aguardá-lo, uma de Herodes e outra de
Cleópatra. Considerando a de Cleópatra como menos urgente, quebrou o lacre da
carta de Herodes primeiro.
Meu caro António, sou rei dos Judeus finalmente! Não foi fácil, dada a
incompetência militar de Gaio Sósio - não é nenhum Silo! É um bom governador
para tempos de paz, mas não está à altura de disciplinar os Judeus. No entanto
concedeu-me uma honra assinalável ao entregar-me duas legiões muito boas de
tropas romanas para que eu as conduzisse para o Sul da Judeia. Antígono saiu de
Jerusalém e encontrou-se comigo em Jericó e eu derrotei-o completamente.
Ele fugiu então para Jerusalém que ficou debaixo de cerco. Caiu quando Sósio me
enviou mais duas boas legiões. Veio com elas pessoalmente. Quando a cidade caiu
ele queria saqueá-la, mas convenci-o a não o fazer. O que eu queria e Roma
precisava, era de uma Judeia próspera, não deserta e pilhada. Ele acabou por
concordar. Acorrentámos Antígono e enviámo-lo para Antioquia. Quando fores a
Antioquia poderás decidir o que queres fazer com ele, mas eu recomendo
fortemente a execução.
Libertei a minha família e a família de Hircano de Massada e casei com Mariana.
Ela está grávida do nosso primeiro filho. Como não sou judeu, não me nomeei
sumo sacerdote. Essa honra foi para um saduceu, Ananeel. Que fará exactamente o
que eu mandar. É claro que tenho opositores e há alguns que conspiram para
pegar em armas contra mim, mas não dará em nada. O meu pé está agora firmemente
assente no pescoço dos Judeus e nunca mais será levantado enquanto houver vida
no meu corpo.
Por favor, imploro-te Marco António, devolve-me uma Judeia inteira e contígua
em vez destes cinco pedaços separados! Preciso de um porto de mar e ficaria
satisfeito com Jopa. Gaza fica um pouco para sul.

263

As melhores notícias são que arranquei a recolha do betume das mãos do Malco da
Nabateia que tomou o partido dos Partos e que me rejeitou, a mim, seu próprio
sobrinho. Despeço-me agradecendo-te profusamente pelo teu apoio. Fica certo de
que Roma nunca se arrependerá de me ter feito rei dos Judeus.
António deixou que o pergaminho se enrolasse e ficou sentado alguns instantes
com as mãos por trás da cabeça, sorrindo com as ideias que estava a ter sobre
aquele sapo semita. Era um Mecenas oriental, mas senhor de uma impiedade e
selvajaria que, em Mecenas, estavam completamente ausentes. A questão era, o
que seria mais útil aos interesses romanos no Sul da Síria? Um reino judaico
reunificado ou fragmentado? Sem expandir as suas fronteiras geográficas numa
milha sequer, Herodes enriquecera extraordinariamente ao adquirir os jardins de
bálsamo de Jericó e a recolha de betume de Palus Asfaltite. Os Judeus eram um
povo guerreiro e davam excelentes soldados - precisaria Roma de uma Judeia rica
governada por um homem inteligentíssimo? O que aconteceria se a Judeia
engolisse toda a Síria a sul do rio Orontes? Para onde olharia o rei a seguir?
Para a Nabateia, que lhe renderia uma das duas maiores frotas envolvidas no
comércio com a índia e com a Taprobana. Mais riqueza. Depois disso ele olharia
para o Egipto, que seria menos problemático do que qualquer tentativa de
expansão para norte e para as províncias romanas. Humm...
Agarrou na carta de Cleópatra, quebrou o selo e leu-a muito mais rapidamente do
que lera a de Herodes. Não que eles fossem muito diferentes, Herodes e
Cleópatra: não tinham, qualquer um dos dois, um grama de sentimentalismo. Como
sempre, ela escrevera uma litania de elogios a Cesarião, mas isso não era
sentimentalismo, era o instinto protector da leoa para com a sua cria. À parte
Cesarião, aquela era mais uma carta de uma soberana do que de uma antiga
amante. Glafira faria bem em imitar a sua homóloga.
O rostinho comprido de Cleópatra pairava no seu espírito, os olhos dourados
brilhando como acontecia quando estava feliz - estaria ela feliz? Era uma carta
muito fria, suavizada apenas pelo amor dela pelo filho mais velho. Bem, em
primeiro lugar era rainha e só depois era mulher. Mas ao menos tinha mais
assuntos para debater do que Octávia, mergulhada na gravidez e na felicidade de
estar novamente em Roma. Apesar de não passar muito tempo com Lívia Drusila, a
quem considerava fria e calculista. Não que ela o dissesse - quando é que a sua
mulher rompia com a etiqueta, mesmo em privado com o marido? Mas António sabia-
o porque partilhava do desagrado dela; a rapariga era completamente uma
criatura de Octaviano. Que qualidade teria Octaviano para conseguir apanhar
algumas pessoas e controlá-las com garras de aço? Agripa. Mecenas. E agora
Lívia Drusila.

264

Subitamente, sentiu-se cheio de asco por Roma, pela pequena classe dominante
romana, pelos objectivos inexoráveis de Roma, pelo direito divino de Roma a
governar o mundo. Mesmo os Silas e os Césares subjugavam os seus desejos a
Roma, ofereciam tudo o que faziam nos altares de Roma, alimentavam Roma com a
sua força, os seus feitos, com o animus que os movia. Que se passaria com ele?
Seria incapaz daquele tipo de dedicação a uma abstracção, a uma ideia?
Alexandre, o Grande, não pensava na Macedónia da mesma maneira que César
pensara em Roma; pensava em si próprio em primeiro lugar, sonhava com a sua
própria deificação e não com o poder do seu país. Claro que essa fora a razão
de o seu império se ter desfeito imediatamente após a sua morte. O império de
Roma nunca se desfaria devido à morte de um homem, nem mesmo devido à morte de
muitos homens. Um romano tinha o seu lugar temporário ao sol, nunca se encarava
a si próprio como o sol. Alexandre, o Grande, fizera-o. E talvez Marco António
também o fizesse. Sim, Marco António queria um sol só para si e esse sol não
era o de Roma. Não, não era o de Roma!
Porque é que permitira àqueles tipos em Tarento que lhe diminuíssem a
percentagem? Só tinha que ir embora com a sua frota, mas não fora. Pensando que
ficava para garantir a segurança e o bem-estar das suas tropas quando invadisse
o reino dos Partos. Aplacado com meras promessas para o futuro! Sim, prometo
que te darei vinte mil legionários bem treinados, dissera Octaviano, mentindo
com quantos dentes tinha na boca. Prometo que te enviarei quarenta por cento do
total assim que abrirmos as portas dos cofres de Sexto. Prometo-te que serás
cônsul. Prometo-te que serás o triúnviro mais importante. Prometo zelar pelos
teus interesses no Ocidente. Prometo isto, prometo aquilo. Mentiras, mentiras,
tudo mentiras!
Reflecte, António. Pensai Tens mais de setecentos senadores num total de mil.
Consegues reunir votos nas classes superiores e controlar as leis e as
eleições. Mas, não sei como, nunca consegues atingir César Octaviano. E isso
deve-se ao facto de ele estar aqui, em Roma, e tu não. Mesmo durante este Verão
interminável em que aqui estás fisicamente, não consegues reunir as forças para
o destruir. Os senadores estão à espera para ver quanto conseguirão tirar dos
cofres de Sexto Pompeu - isto é, aqueles de entre os que não desapareceram para
as villas junto ao mar, fugindo da Roma quente e fedorenta. E o Povo está a
perder-te de vista. Agora que regressaste, há já muitos que não te reconhecem à
primeira, apesar de só terem passado dois anos desde que aqui estiveste. Eles
podem odiar Octaviano, mas é um ódio familiar e muito amado: o tipo de homem
que todos os outros homens acham que têm que amar para odiar. Já eu, não sou
mais visto, actualmente, como o salvador de Roma. Eles esperaram demasiado
tempo que me impusesse. Passaram cinco anos de Filipos e não consegui fazer
aquilo que disse que faria no Oriente.

265

Os cavaleiros detestam-me mais a mim do que a Octaviano - ele deves-lhe milhões


e milhões, o que faz com que esteja nas suas mãos. Eu não lhes devo nada, mas
não consegui fazer com que o Oriente seja um local seguro para fazer negócios e
isso eles não me perdoam.
O mês de Julius veio e foi-se, Sextilis está a desaparecer rapidamente naquele
sorvedouro que eu não compreendo. Porque é que o tempo voa tão depressa? No ano
que vem - tem que ser no ano que vem! Se não for, passarei à história. E aquela
caganita vencerá.
Octávia entrou na sala a medo, com um sorriso hesitante, e depois avançou
quando ele lhe fez sinal com a mão.
- Não tenhas medo - disse numa voz grave. - Eu não te como.
- Não me pareceu que comesses, meu querido. Estava só a pensar quando iríamos
para Atenas.
- Nas Calendas de Setembro - pigarreou. - Vou levar-te a ti, mas às crianças
não. No fim do ano estarei em Antioquia e tu ficarás exilada em Atenas. As
crianças ficarão melhor em Roma sob a protecção do teu irmão.
A face dela entristeceu e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Oh, isso será muito duro! - disse com a voz embargada. - Eles precisam de
mim.
- Podes ficar aqui se quiseres - disse ele bruscamente.
- Não, António, não posso. O meu lugar é ao teu lado, mesmo que não estejas em
Atenas com muita frequência.
- Faz como queiras.
Havia um novo Quinto Délio na vida de António, um senador alto e extremamente
elegante de uma família bastante antiga que, tinha produzido, por exemplo, uma
Virgem Vestal quase cem anos antes. Os Fonteios Capitones eram genuínos
aristocratas plebeus romanos. O nome dele era Gaio Fonteio Capito e era tão
bem-parecido como qualquer Mémio, tão bem-educado como um Múcio Cévola. E
Fonteio não era um sicofanta; gostava da companhia de António, fazia sobressair
o melhor de António e, como cliente leal, gostava de prestar bons serviços a
António, mas era senhor de si próprio.
Quando António saiu de Roma e de Itália no início de Setembro, embarcando com
Octávia no seu navio almirante em Tarento, levou Fonteio consigo. Aos cento e
vinte navios da frota tinham-se juntado mais vinte quinquerremes que Octávia
oferecera ao irmão, financiando-os com a sua fortuna pessoal; os cento e
quarenta barcos continuavam ancorados em Tarento, com as tripulações ocupadas a
construir abrigos para que as embarcações pudessem ser tiradas da água antes da
chegada do Inverno.

266
Ainda era cedo para os ventos do equinócio e António estava ansioso por partir,
na esperança de apanhar ventos e mares favoráveis o caminho todo, em torno do
cabo Ténaro, abaixo do Peloponeso e para cima, para Atenas, até ancorar no
Pireu.
Mas após três dias de viagem encontraram uma tempestade terrível que os forçou
a procurar abrigo em Corcira, uma bela ilha em frente à costa grega mesmo
abaixo de Epiro. O mar agitado não fizera nada bem a Octávia, que estava quase
no fim do sétimo mês de gravidez, e ela saudou com gratidão a terra firma.
- Detesto que te atrases - disse a António -, mas confesso que espero ficar
aqui vários dias; o meu bebé deve ser um soldado e não um marinheiro.
Ele não sorriu com a sua graçola, demasiado impaciente por continuar a viagem
para se comover com o sofrimento da mulher ou com os seus esforços valorosos
para não ser um problema.
-Assim que o capitão disser que podemos partir embarcaremos novamente - disse
com brusquidão.
- Claro. Estarei pronta.
Nessa noite não apareceu para jantar, invocando um estômago ainda doente devido
às provações marítimas, e António estava cansado do grupo do costume que o
rodeava competindo pela sua atenção, forçando-o a fingir uma bonomia que não
sentia. Na verdade o único que o atraía era Fonteio, a quem pediu que lhe
fizesse companhia ao jantar; um jantar só para os dois.
Com o tipo de astúcia do diplomata nato e gostando mais de António do que de si
próprio, Fonteio aceitou com gratidão. Havia muito que adivinhara que António
não estava feliz e talvez aquela noite fosse a sua oportunidade de sondar a
ferida de António para tentar encontrar a seta envenenada.
Era uma noite ideal para uma conversa íntima; as chamas do candeeiro
bruxuleavam loucamente devido ao vento que rugia no exterior, a chuva batia nas
persianas, uma pequena torrente gorgolejava no seu caminho colina abaixo. Os
carvões brilhavam, vermelhos, em vários braseiros para aquecer a sala e os
criados moviam--se como lémures, aparecendo e desaparecendo na sombra.
Talvez devido à atmosfera, ou talvez porque Fonteio soubesse como obter as
respostas certas, António deu por si a confessar os seus receios, horrores,
dilemas, ansiedades, com pouca lógica e desordenadamente.
- Qual é o meu lugar? - perguntou a Fonteio. - O que é que eu quero? Serei um
verdadeiro romano ou aconteceu-me algo que me tornou menos romano do que
costumava ser? Tenho tudo na minha mão, um poder enorme... e no entanto... no
entanto... pareço não ter um lugar a que possa chamar meu. Ou será local a
palavra errada? Não sei!
- Pode ser que quando dizes local queiras dizer função - disse Fonteio
escolhendo delicadamente o caminho. - Adoras divertir-te, estares com homens
que consideras teus amigos e com mulheres que desejas.

267

O rosto que mostras ao mundo é atrevido, audaz, simples. Mas eu vejo muitas
complicações por baixo dessa fachada. Uma delas levou-te a uma participação
periférica no assassínio de César... não, não o negues! Não te culpo a ti,
culpo a César. Ele também te matou ao fazer de Octaviano seu herdeiro. Só posso
imaginar como isso te deve ter ferido! Tinhas passado toda a tua vida, até essa
altura, ao serviço de César e um homem com o teu temperamento não podia
compreender a razão por que César condenava algumas das tuas acções. Depois ele
deixou um testamento em que nem sequer és mencionado. Um golpe cruel que
destruiu completamente a tua dignitas. Pois os homens ficaram a pensar por que
razão César teria deixado o seu nome, as suas legiões, o seu dinheiro e o seu
poder a um menino bonito em vez de tos deixar a ti, seu primo e um homem no
apogeu. Interpretaram o testamento de César como um sinal do seu tremendo
descontentamento com a tua conduta. Tal não teria tido importância se não se
tratasse de César, o ídolo do Povo. Fizeram dele um deus e os deuses não tomam
decisões erradas. Logo, tu não eras digno de ser herdeiro de César. Nunca
poderás ser outro César. César tornou isso impossível, não Octaviano. Ele
roubou-te a tua dignitas.
- Sim, compreendo - disse António lentamente cerrando os punhos. - O velhote
cuspiu-me em cima.
- Tu não és naturalmente introspectivo, António. Gostas de lidar com factos
concretos e tens a mesma propensão de Alexandre, o Grande, para usar a espada
na resolução de problemas complicados. Não tens a capacidade de Octaviano de
escavar por baixo da pele da sociedade, para murmurar difamações como sendo
verdades de maneira a que as pessoas acreditem. A origem do teu dilema é a
mancha na tua reputação ali posta por César. Porquê, por exemplo, escolheste o
Oriente como a tua parte do triunvirato? Provavelmente pensas que o fizeste
devido às riquezas e às guerras que podias travar por lá. Mas eu não acho que
tenha sido essa a razão. Acho que foi uma maneira honrada de poderes sair de
Roma e da Itália onde terias que aparecer perante pessoas que sabiam que César
te desprezava. Procura bem dentro de ti, António! Encontra a tua ferida e
identifica-a como sendo o que é!
- Sorte! - disse António chocando Fonteio. - Depois, mais alto: - Sorte! A
sorte de César era proverbial, fazia parte da sua lenda. Mas quando ele me
excluiu do testamento passou a sua sorte para Octaviano. De que outra forma
poderia o vermezinho ter sobrevivido? Ele tem a sorte de César, é por isso! E
eu perdi a minha. Perdi-a! E esse é o cerne da questão, Fonteio. Tudo o que
faço dá azar... como é que uma pessoa resolve uma coisa assim? Eu não sei.
- Mas sabes, António! - gritou Fonteio recuperando para conseguir acompanhar
aquela reviravolta extraordinária. - Se decidires encarar a tua actual
melancolia como falta de sorte, então recupera a sorte no Oriente! Não é uma
tarefa fora do teu alcance. Recupera a tua reputação junto dos cavaleiros
criando um Oriente perfeito e cheio de oportunidades de negócio!

268

E arranja um conselheiro oriental, alguém do Oriente e pelo Oriente. - Calou-se


pensando em Pitodoro de Trales, ligado a António por laços conjugais. - Um
conselheiro com poder, influência, riqueza. Tens mais cinco anos como triúnviro
graças ao Pacto de Tarento... usa-os! Cria um poço sem fundo de sorte!
Arrepios de exaltação percorreram António banindo a sua depressão. Subitamente
viu o caminho desimpedido e a forma de recuperar a sorte.
- Serias capaz de fazer uma longa viagem por mim, suportando os mares
inernosos?
- O que quer que seja, António. Estou genuinamente preocupado com o teu futuro
que não está em harmonia com a Roma de Octaviano. Esse é outro dos factores que
te causa melancolia... o facto de a Roma que Octaviano está decidido a criar
ser estranha aos homens romanos, que prezam o que Roma costumava ser. César
começou a mexer nos direitos e prerrogativas da primeira classe e Octaviano
está determinado a continuar esse trabalho. Acho que, quando encontrares a tua
sorte, deverias concentrar-te em trazer Roma de volta àquilo que era. - Fonteio
ergueu a cabeça, escutou os barulhos do vento e da chuva e sorriu. - O vento
está a acalmar. Onde queres que eu vá? - era uma pergunta retórica: Trales e
Pitodoro, já o sabia.
- Ao Egipto. Quero que fales com Cleópatra e a persuadas a juntar-se a mim em
Antioquia antes do fim do Inverno. Farás isso?
- Com todo o prazer, António - disse Fonteio disfarçando o seu desalento. Se
houver aqui no porto de Corcira um navio capaz de navegar no oceano Líbio
partirei de imediato. - Adoptou uma expressão pesarosa. - No entanto a minha
bolsa não é muito funda. Vou precisar de dinheiro.
- Terás o dinheiro, Fonteio! - arfou António com o rosto transfigurado de
felicidade. - Oh, Fonteio, obrigado por me teres mostrado o que devia fazer!
Tenho que usar o Oriente para forçar Roma a rejeitar as maquinações de César e
do seu herdeiro!
Quando António passou pela porta de Octávia, a caminho do seu quarto, ainda
borbulhava de excitação e transbordava de uma renovada vontade de chegar a
Antioquia. Não, não se deteria em Atenas! Embarcaria directamente para
Antioquia. Com a decisão tomada abriu a porta de Octávia e entrou, encontrando-
a aninhada na cama. Sentou-se na beira e afastou-lhe uma madeixa da testa,
sorrindo.
- Minha pobre rapariga! - disse com ternura. - Devia ter-te deixado em Roma e
não te ter sujeitado ao mar Jónico perto do equinócio.
- De manhã já estarei melhor, António.
- Pode ser que estejas, mas ficarás aqui até arranjares um barco para Itália
-disse ele. - Não, não protestes! Não quero discussões, Octávia. Volta a Roma e
tem lá o bebé. Tens saudades das crianças que ficaram em Roma. Eu não vou para
Atenas, vou direito a Antioquia que não é lugar para ti.

269

A tristeza inundou-a; olhou para os olhos avermelhados dele com os seus cheios
de dor. Como é que o sabia não fazia ideia, mas aquela seria a última vez que
veria Marco António, o seu amado marido. O adeus na ilha de Corcira - quem o
poderia ter previsto?
- Farei aquilo que achares melhor - disse ela engolindo em seco.
- Óptimo! - Ele levantou-se e inclinou-se para a beijar.
- Mas ver-te-ei de manhã, não é?
- Sim, certamente que verás.
Depois de ele sair ela rolou sobre si própria e enterrou o rosto na almofada.
Não para chorar; a agonia era demasiado grande para lágrimas. Aquilo que ela
contemplava era a solidão.
Fonteio partiu primeiro. Um mercador sírio também tinha aportado para esperar
que a tempestade passasse e, dado que o comandante do seu barco teria que
enfrentar o oceano Líbio de qualquer maneira, disse ele, não lhe desagradaria
uma paragem extra em Alexandria por uma boa maquia. Os seus porões estavam
carregados com rodas de carroça reforçadas a ferro da Gália, potes de cobre da
Hispânia Citerior, alguns potes de condimento de garum e, para preencher os
espaços, telas de linho das terras dos Petrocórios. O que significava que a
embarcação ia bastante baixa, mas bem assente na água, e estava disposto a
ceder a sua cabina por baixo do convés a este senador finório com os seus sete
criados.
Fonteio acenou em despedida a António, ainda atordoado. Como tudo correra
terrivelmente mal! E como ele fora presunçoso, ao pensar que conseguiria ler a
mente de António, quanto mais manipulá-la! Porque se teria o homem fixado logo
na questão da sorte? Um fantasma, um produto da imaginação. Fonteio não
acreditava na existência da sorte como numa entidade em si própria, dissessem
as pessoas o que dissessem da sorte de César. No entanto António erguera-se
sobre os cumes da verdade que deveria ter visto para se fixar na sorte. Sorte!
E Cleópatra! Deuses, no que estaria ele a pensar para a escolher como
conselheira oriental? Ela picá-lo-ia e torcê-lo-ia, aumentando-lhe a confusão.
O sangue do rei Mitrídates, o Grande, corria-lhe nas veias, juntamente com o
sangue de um bando de Ptolomeus assassinos e amorais e ainda com o sangue de
uns quantos partos, para compor. Para Fonteio, ela era uma destilação de tudo o
que havia de pior no Oriente.
Fonteio queria uma guerra civil, se fosse isso o necessário para se verem
livres de Octaviano. E o único homem que conseguiria ter sucesso e vencer
Octaviano era Marco António. Não o António que Fonteio vira emergir nos últimos
anos; seria necessário o António de Filipos. Cleópatra? Oh, António, uma má
escolha! Fonteio tivera relações de amizade com a viúva de César, Calpúrnia,
antes de esta se ter suicidado e ela fizera-lhe uma descrição bastante completa
da Cleópatra, que ela e outras mulheres tinham conhecido em Roma.

270

Uma descrição que não inspirava esperança ao embaixador de António.


Que chegou a Alexandria após uma viagem de um mês por causa de uma tempestade
que os forçara a passar seis dias em Paretónio - mas que sítio! Porém, o
capitão encontrara lá laserpicium e atirara um número suficiente de telas borda
fora para arranjar lugar para umas quantas ânforas daquele produto.
- Já fiquei rico! - disse ele, jubiloso, a Fonteio. - Com Marco António a ins-
talar-se em Antioquia, vai haver tantas farras que poderei pedir uma fortuna
por cada dose! E são vários milhares de colheres por ânfora... ah, êxtase!
Apesar de nunca ter estado em Alexandria, Fonteio não ficou muito impressionado
com a inegável beleza da cidade, a sua organização e ruas largas. Mecenas,
pensou ele, tê-la-ia caracterizado como um deserto de ângulos rectos. Contudo,
graças à paixão de sucessivos Ptolomeus pela construção de novos palácios, os
Domínios Reais tinham encanto. Eram pelo menos duas dúzias de palácios mais uma
sala de audiências.
Ali, no meio do brilho dourado que espantara todos os romanos que o tinham
visto, encontrou duas marionetas. Era a única palavra que lhe ocorria para as
descrever, por serem tão rígidas, nodosas e pintadas. Um par de bonecas feitas
na Satúrnia ou Florença, os fios puxados por um qualquer manipulador invisível.
A audiência foi breve; não lhe foi pedido que dissesse o que o trazia ali e ele
limitou-se a apresentar os cumprimentos do triúnviro Marco António.
- Podes ir, Gaio Fonteio Capito - disse a boneca de cara branca sentada no
trono mais elevado.
- Agradecemos-te teres vindo - disse a boneca de cara vermelha no trono mais
baixo.
- Um criado irá buscar-te para vires jantar connosco esta tarde.
Sem a maquilhagem e toda a parafernália, as bonecas transformaram-se em duas
pessoas pequenas, apesar de o rapaz não ser um homem pequeno. Fonteio sabia a
idade dele - dez anos - e pensou que parecia mais ter treze ou catorze, mas
via-se que ainda não iniciara a puberdade. Era a imagem de César! Seria mais um
actor no palco do futuro e uma razão inesperada e extraordinariamente poderosa
para António não se associar àquela mulher. Cesarião era o único objecto dos
seus afectos, este brilhava nos seus magníficos olhos dourados de cada vez que
pousavam nele, quanto ao resto, era magrinha, pequena e quase feia. O que a
salvava eram os olhos e a pele magníficos; era também senhora de uma voz grave,
melodiosa e que usava inteligentemente. Tanto a mãe como o filho falaram com
ele num latim absolutamente perfeito.

271

- Marco António enviou-te para nos avisares da sua vinda? - perguntou o filho
ansiosamente. - Oh, como tenho saudades dele!
- Não, Majestade, ele não vem para aqui.
O rosto bonito ficou desanimado e os olhos azuis vivos desviaram-se.
-Oh!
- Um desapontamento - comentou a mãe. - Porque vieste então?
- Por esta altura Marco António já se deve ter instalado em Antioquia - disse
Fonteio pensando que o camarão de água doce que estava a comer era sensaborão.
Com o Nosso Mar a lamber os degraus do palácio, porque não dava ela ordens às
suas frotas pesqueiras para que apanhassem camarões marinhos? Enquanto a sua
mente pensava naquele enigma, os lábios continuaram a falar. - Planeia
instalar-se lá, permanentemente, por duas razões.
- Uma das quais - disse o rapaz - é a proximidade das terras dos Partos. Ele
vai atacá-los a partir de Antioquia.
O monstrinho mal-educado!, pensou Fonteio. A meter-se na conversa dos adultos!
E mais, a mãe dele acha isso normal e maravilhoso. Muito bem, pequeno monstro,
vamos lá ver se és mesmo inteligente! - e a segunda razão? - perguntou
Fonteio.
- Antioquia fica mesmo no Oriente, o que não se pode dizer da província da Ásia
e muito menos da Grécia ou da Macedónia. Se António vai dominar o Oriente, terá
que estar instalado num local verdadeiramente oriental e Antioquia ou Damasco
são locais ideais - respondeu Cesarião sem se atrapalhar.
- Então porque não Damasco?
- Tem melhor clima mas fica demasiado longe do mar.
- Foi exactamente isso o que António disse - respondeu Fonteio que era
demasiado diplomático para deixar transparecer o seu desagrado.
- Porque estás então aqui, Gaio Fonteio? - perguntou a rainha.
- Para vos convidar, Majestade, para virdes a Antioquia. Marco António está
muito ansioso por ver-vos, mas há mais razões. Ele necessita do conselho de
alguém que seja oriental por nascimento e cultura e pensa que vós sois, de
longe, a melhor
candidata.
- Ele pensou noutras pessoas? - perguntou ela secamente e franzindo o sobrolho.
- Não, eu é que pensei - disse Fonteio calmamente. - Sugeri-lhe nomes, mas
para António só havia um possível: o vosso.
- Ah! - Ela recostou-se no divã e fez um sorriso tão felino como o gato
alaranjado que estava junto ao seu cotovelo. Uma das mãos magras começou a
afagar as costas da criatura e este virou-se para lhe sorrir.
- Gostais de gatos - disse ele.

272

- Os gatos são sagrados, Gaio Fonteio. Em tempos, há talvez uns vinte e cinco
anos, um homem de negócios romano de Alexandria matou um gato. O povo desfê-lo
em pedacinhos.
- Brr! - disse ele estremecendo. - Estou habituado a gatos cinzentos tigrados
ou malhados, mas nunca tinha visto nenhum desta cor.
- É uma gata egípcia. Chamo-lhe Bastella. Chamar-lhe Bast seria sacrílego, mas
recebi bons presságios para o diminutivo latino. - Cleópatra desviou-se da gata
e estendeu a mão para uma tâmara. - Então, Marco António ordena-me que vá a
Antioquia?
- Não ordena, Majestade. Pede.
- Uma ova! - disse Cesarião rindo. - Ele ordena.
- Podes dizer-lhe que irei.
- E eu também! - disse o rapaz rapidamente.
Uma estranha troca silenciosa seguiu-se entre mãe e filho; não foi proferida
uma única palavra, apesar de ela estar ansiosa por falar. Uma batalha de
vontades. O facto de o rapaz ter vencido não foi surpresa para Fonteio;
Cleópatra não nascera uma autocrata, tinham sido as circunstâncias que a
fizeram assim. Já Cesarião era um autocrata desde o ventre materno. Tal como o
seu tatá. Fonteio sentiu um calafrio de medo que lhe percorreu a espinha e lhe
pôs os cabelos em pé. Imagine-se como seria Cesarião depois de crescido! O
sangue de Gaio Júlio César e o sangue de tiranos orientais. Seria imparável. E
é por Cleópatra saber disso que fará o trabalhinho sujo por António. Não
querendo saber nem dele nem do seu destino. Querendo que o seu filho Cesarião
reine sobre o mundo.
Fonteio foi aconselhado a viajar por terra acompanhado por uma guarda egípcia
que Cleópatra disse ser necessária; a Síria estava cheia de bandidos desde o
colapso dos vários principados durante a ocupação dos Partos.
- Seguir-te-ei assim que puder - disse ela a Fonteio -, mas não creio que isso
aconteça antes do Ano Novo. Se Cesarião insistir em me acompanhar terei que
arranjar um regente e um conselho, apesar de Cesarião não ir permanecer em
Antioquia mais do que alguns dias.
- Ele sabe disso? - perguntou Fonteio maliciosamente.
- Certamente - respondeu Cleópatra muito tensa.
- E então os filhos de António?
- Para os ver António terá que vir a Alexandria.
Um mês depois encontrou António instalado em Antioquia e a trabalhar
arduamente. Lucílio corria para cumprir ordem após ordem e António estava
sentado à secretária a rever pilhas de papel e uns quantos rolos de pergaminho.

273

O seu único entretenimento era fazer paradas com as tropas que estavam de
regresso ao acampamento de Inverno, após uma campanha rápida na Arménia que
Públio Canídio conduzira com a mesma eficiência com que Ventídio conduzira as
campanhas anteriores; o próprio Canídio ficara no Norte com dez das legiões,
esperando a Primavera, o resto das legiões, a cavalaria e Marco António. O
único erro que, aos olhos de António, Canídio cometera fora avisá-lo, em todas
as cartas, que o rei Artavasdes da Arménia não era merecedor de confiança, não
obstante todos os seus protestos de lealdade a Roma e de inimizade com os
Partos. Uma profecia que António preferiu ignorar por ter mais receio do outro
Artavasdes, rei da Média. Também ele fazia ofertas de amizade.
- Vejo que a cidade se está a encher de potentados e de aspirantes a potentados
- disse Fonteio recostando-se na cadeira.
- Sim, consegui finalmente escolhê-los a todos, portanto convoquei-os para que
fiquem a saber a sua sorte - disse António com um sorriso. - Ela... ela virá? -
acrescentou, o divertimento desvanecendo-se devido à ansiedade.
-Assim que puder. Aquele fedelho insolente, Cesarião, insistiu em vir com ela,
por isso tem que arranjar um regente.
- Fedelho insolente? - perguntou António de cenho franzido.
- É o que eu acho dele. Insuportável até.
- Oh, bem, ele participa na monarquia como igual da mãe... ambos são Faraó.
- Faraó? - perguntou Fonteio.
- Sim, senhor supremo do Nilo, o verdadeiro reino do Egipto. Alexandria é
considerada como não egípcia.
- Nisso pelo menos estou de acordo. Na verdade é muito grega.
- Oh, não no interior dos Domínios Reais. - António tentou parecer
desinteressado. - Quando é que ela vem exactamente?
- No início do novo ano.
Desapontado, António fez um gesto vago de despedida com a mão.
- Amanhã vou distribuir a generosidade de Roma por todos os potentados e
aspirantes a potentados - disse ele. -Na agora. Os costumes e a tradição dizem
que deveria envergar a toga, mas eu odeio togas. Vou usar a couraça dourada.
Tens contigo uma armadura de cerimónia?
Fonteio pestanejou.
- Não António, nem mesmo uma couraça de trabalho.
- Então Sósio pode emprestar-te uma.
- A couraça é... hum... legal?
- Fora da Itália tudo o que um triúnviro decidir é legal. Pensei que sabias
isso, Fonteio.
- Confesso que não sabia.

274

António instalara um tribunal elevado na agora, o maior espaço aberto de


Antioquia, e foi ali que se sentou, em todo o seu esplendor marcial, com o
governador Sósio e os seus legados sentados no topo do tribunal, em lugares
menos proeminentes e o pobre Fonteio, já de si desconfortável devido à couraça
emprestada, completamente sozinho. Desde quando, pensou, teria António começado
a usar vinte e quatro lictores? O único magistrado que tinha direito a esse
número era o ditador e António, abolira, pessoalmente, a ditadura. No entanto
ali estava ele, com o número de lictores do ditador! Algo que Octaviano não se
atrevia a fazer em Roma, fosse ou não Divi Filius.
Era uma reunião fechada; os presentes tinham recebido convites formais. Os
guardas bloqueavam as várias entradas, para grande ira dos habitantes de
Antioquia que não estavam habituados a ser excluídos dos seus próprios locais
públicos.
Não foram ditas orações nem consultados os augúrios, uma omissão estranha e
interessante. António lançou-se simplesmente no discurso, usando o tom mais
agudo da voz que tinha maior alcance.
- Após muitas luas de profunda reflexão e cuidadosas considerações, muitas
entrevistas e inspecção de documentos, eu, imperador e triúnviro Marco António,
cheguei a uma decisão relativamente ao Oriente.
"Em primeiro lugar, o que é o Oriente? Não considero que a Macedónia e as suas
prefeituras que cobrem a Grécia, o Peloponeso, a Cirenaica e Creta façam parte
do Oriente. Apesar de o triunvirato as incluir, essas regiões pertencem
geográfica e fisicamente ao Nosso Mar. O Oriente é a Ásia, isto é, todas as
terras para leste do Helesponto, a Propôntida e o Bósforo trácio.
Hum, pensou Fonteio, isto vai ser interessante! Começo a perceber a razão por
que ele decidiu exibir o poder das armas de Roma em vez do seu governo civil.
- Haverá três províncias romanas no Oriente, todas elas sob o controlo directo
de Roma através de um governador! A primeira é a província da Bitínia, que
incluirá Tróade e a Mísia e que terá a sua fronteira oriental no rio Sangário.
A segunda, a província da Ásia, incluirá a Lídia, a Caria e a Lícia! E a
terceira, a província da Síria, com fronteira nas montanhas de Amano, a margem
ocidental do rio Eufrates e os desertos da Idumeia e da Arábia Petra. Contudo,
o Sul da Síria incluirá também reinos, satrapias e principados, assim como a
margem ocidental do Eufrates!
A pequena multidão agitou-se, alguns rostos ansiosos, outros desanimados. A um
dos lados e sob forte guarda, estavam vários homens de aspecto oriental
acorrentados uns aos outros. Quem são eles?, perguntou-se Fonteio. Não
interessa, acabarei por descobrir.
- Amintas, avança! - gritou António.
Um homem novo, vestido à grega, destacou-se da multidão.

275

- Amintas, filho de Demétrio de Ancira, em nome de Roma nomeio-te rei da


Galácia! O teu reino inclui as quatro tetrarquias gálatas, a Pisídia, a
Licaónia e todas as regiões da margem sul do rio Hális até à costa da Panfília!
Ouviu-se um enorme burburinho; António acabara de conceder a Amintas um reino
muito maior do que o ambicioso Deiotaro alguma vez tivera.
- Polémon, filho de Zenão da Laodiceia, em nome de Roma nomeio-te rei do Ponto
e da Arménia Parva, incluindo todas as terras na margem norte do rio Hális!
O rosto de Polémon era-lhe familiar; tinha-se fartado de lamber as botas de
António em Atenas. Agora recebera a sua recompensa; uma grande recompensa.
- Arquelau Sisenes, filho de Glafira, rei-sacerdote de Ma, em nome de Roma,
nomeio-te rei da Capadócia, a parir da grande curva do rio Hális, a leste, e
incluindo todas as terras da sua margem sul desde esse ponto até à costa de
Tarso e à costa da Cilicia Pedia. A tua fronteira oriental é o rio Eufrates
acima de Samósata. Poderei vir a designar pequenas áreas no interior do teu
reino para serem governadas por outros, mas para todos os efeitos este é o teu
reino.
Mais um jovem muito satisfeito, pensou Fonteio e olhem para a mãe dele! Correm
boatos de que ela arrancou as terras a António com a vagina. É inteligente
escolher jovens. Serão seus clientes durante décadas.
Apesar de menos importantes, as nomeações continuaram; a de Tarcondimoto e de
outros. Mas depois vieram as execuções, algo com que Fonteio não contara.
Lisânias de Caleis, Antígono dos Judeus, Ariárates da Capadócia. Oh, eu não sou
um guerreiro!, gritou Fonteio para consigo, tentando segurar o conteúdo do
estômago quando o fedor do sangue se ergueu sob o calor do sol e apareceram os
enxames de moscas peganhentas. António assistia à carnificina com indiferença;
Sósio desmaiou. Recuso-me a fazer aquela figura, pensou Fonteio em silêncio,
agradecendo a todos os deuses quando finalmente pôde partir para o palácio do
governador. Claro que António ficou para trás; ia dar um banquete em honra dos
novos governantes e das suas hordas de seguidores ali mesmo, na agora, pois o
palácio não tinha salões grandes nem pátios espaçosos. Se Fonteio não
conhecesse a história, diria que o palácio do governador em Antioquia tinha
sido uma hospedaria para as caravanas e não a residência de reis como Antíoco e
Tigranes.
Na manhã seguinte conheceu o seu primeiro parto genuíno, um refugiado chamado
Monaeses da corte do novo rei, Fraates. Cheio de caracóis e ataviado com uma
barba postiça presa por fios de ouro atados às orelhas, uma saia cheia de
folhos e um casaco com franjas e coberto com enormes quantidades de ouro.
- Estou a pensar fazer dele o rei dos Árabes Skenitas - disse António muito
satisfeito com as decisões que tomara. Vendo a expressão na cara de Fonteio
pareceu surpreendido. - Porquê a desaprovação? Por ele ser parto? Eu gosto
dele! Fraates matou a família inteira com a excepção de Monaeses, que foi
suficientemente esperto para fugir.

276

- Ou terá sido ajudado na fuga? - perguntou Fonteio.


- E porque haveria de ter sido? - ripostou António.
- Porque o mundo inteiro sabe que tu planeias invadir o reino dos Partos, só
por isso! Por muito obcecado que um rei esteja com a ameaça de ser deposto por
alguém do seu próprio sangue, teria que ser muito estúpido para não salvar um
herdeiro! Acho que o Monaeses está aqui a espiar para os Partos. Além disso ele
é muito orgulhoso e altivo, não me parece que fique muito entusiasmado com a
ideia de ser rei de um monte de árabes do deserto.
- Germe! - exclamou António nada impressionado com as palavras dele. -Acho que
o Monaeses é um bom homem e aposto que tenho razão. Mil denários?
- Apostado! - disse Fonteio.
A principal razão para Cleópatra se ter demorado a partir para ir ter com
António, nada tinha a ver com a necessidade de arranjar um regente ou um
conselho; essa alternativa estava sempre preparada e pronta para ser activada.
Ela queria ter tempo para pensar e chegar no momento certo. Nem demasiado cedo
nem demasiado tarde. E o que iria pedir quando chegasse a Antioquia? Aquela
convocatória tinha sido feita através de um homem muito diferente de Quinto
Délio; Fonteio era um aristocrata e devotado a António, não estava metido
naquilo por dinheiro. Demasiado sofisticado para o deixar transparecer, emanava
apesar de tudo uma aura de apreensão... não, de preocupação. Era isso,
preocupação! Apesar de a vida nos últimos quatro anos se ter passado
tranquilamente, a Faraó mais velha não abrandara a sua vigilância um milímetro.
Os seus agentes no Oriente e no Ocidente faziam-lhe relatórios regulares; havia
muito pouca coisa que ela não soubesse, incluindo quem esperava receber o quê
de António quando ele achasse que chegara o momento de tomar as suas decisões.
Assim que Fonteio lhe dissera que António já estava em Antioquia, ela percebeu
a razão de ele a querer lá rapidamente: tencionava ter a rainha do Egipto aos
pés do seu pedestal, no meio de um monte de camponeses sujos e a receber...
nada. A sua presença serviria apenas para lembrar que também o Egipto estava
sob protecção romana. Na sua sombra.
Fora assolada pela fúria. Sacudira-a, mal conseguindo respirar normalmente.
Então ele quer-me lá para testemunhar os seus actos senhoriais, é? Bem, por
Serápio, não o farei! Ele que me mande executar, mas não o farei! Assistir à
nomeação deste rei camponês e daquele príncipe camponês? Nunca! Nunca, nunca,
nunca! E quando eu for para Antioquia, Marco António, irei pedir muito mais do
que aquilo que está em teu poder conceder-me, mas tu concedê-lo-ás, quer tenhas
poder ou não! Fonteio está preocupado contigo, o que significa que
desenvolveste uma fraqueza que ele acha ser suficientemente grave para te pôr
em perigo.

277

Quando Novembro ultrapassou o meado, a rainha já sabia de todas as decisões


tomadas por António em Antioquia. Pareceram-lhe lógicas, sensatas, até mesmo
visionárias. Isto com excepção da última: fazer de Monaeses, o parto, o novo
rei dos Árabes Skenitas. António, António, seu palerma! Seu idiota! Por muito
que o homem seja um refugiado genuíno do machado decapitador do seu tio, nunca
se faz de um ariano arsácida rei seja de que árabes for! Isso está abaixo da
sua dignidade. É um insulto. Um insulto mortal. E se ele for um agente do seu
tio Fraates, esse facto reforçar-lhe-á a sua inimizade. Podes governar o
Oriente, mas és do Ocidente. Não percebes nada dos povos orientais, a forma
como sentem e a maneira como pensam.
A guerra com os Partos não podia ser permitida, decidiu ela. Mas como iria
conseguir persuadir António disso? Era essa a única razão por que iria para
Antioquia. Roma era uma ameaça ao seu trono mas, se os Partos vencessem, ela
perderia o trono e Cesarião teria o mesmo destino de todos os jovens
promissores: a execução. António estava a mexer num ninho de vespas.
Naquela época do ano teria que viajar por terra, uma viagem complicada porque o
Egipto tinha que deslumbrar as gentes de todas as terras por que ela e Cesarião
passassem. Carros pesados carregados de mercadorias e de parafernália real, um
destacamento de mil elementos da Guarda Real, carroças puxadas por mulas,
cavalos vistosos e, para a rainha, a liteira com os seus carregadores negros.
Um mês na estrada; partiria nas Nonas de Dezembro, nem um dia antes.
E em tudo isto, Marco António o homem, o amante, nunca veio à superfície do
espírito de Cleópatra, que estava demasiado ocupada a conspirar e a planear
aquilo que queria e a forma de o obter. Algures nas profundezas de si tinha uma
vaga memória de que ele fora uma diversão agradável mas que, no fim, se tornara
cansativa; nunca se aproximara sequer de o amar. Ele não passava de um
instrumento; engravidara, o Nilo inundara, Cesarião tinha uma irmã com quem
casar e um irmão para o apoiar. Naquele momento a única coisa que António lhe
podia dar era poder - o que implicava que ela lhe arrancasse uma parte do seu.
Uma tarefa muito exigente, Cleópatra.

<Página em branco>

IV
A Rainha das Bestas
36 a.C. a 33 a.C.

<Gravura - omitida>

Nas nonas de Janeiro e fustigados por um vento agreste e pouco usual, Cleópatra
e Cesarião entraram em Antioquia. Ostentando a Coroa Dupla e viajando na sua
liteira, a rainha, sentada, parecia a boneca descrita por Fonteio, o rosto
pintado, o corpo envolto em linho alvo finamente branqueado, pescoço, braços,
ombros, cintura e pés brilhantes e cobertos de ouro e de jóias. Com a versão
marcial da Coroa Dupla, Cesarião montava um vigoroso cavalo vermelho, pois era
essa a cor de Montu, o deus da Guerra; tinha o rosto pintado de vermelho e o
corpo envolto na armadura egípcia dos faraós, feita de linho e de placas de
ouro. Por entre as túnicas purpúreas e prateadas dos mil Guardas Reais, o
brilho dos cavalos peados, que transportavam dignitários e burocratas e a
liteira real com Cesarião cavalgando ao lado, Antioquia não vira um desfile
assim desde que Tigranes fora rei da Síria.
António andara muito ocupado. Reconhecendo serem verdadeiras as comparações que
Fonteio fizera entre o palácio do governador e uma hospedaria para caravanas,
demolira vários quarteirões de edifícios nas vizinhanças e construirá um anexo
que achava adequado ao alojamento da rainha do Egipto.
- Não é um palácio alexandrino - disse ele acompanhando Cleópatra e o filho
numa visita às instalações -, mas é muitíssimo mais confortável do que a antiga
residência.
Cesarião estava esfuziante de alegria, lamentando apenas ter crescido demasiado
para poder continuar a ser transportado ao colo na anca de António.
Controlando-se para não desatar aos saltos, caminhava solenemente e tentava pôr
um ar majestático. O que não era difícil debaixo daquela tinta toda que tanto
detestava.
- Espero que haja um banho - disse.
- Pronto e a postos, jovem César - disse António com um sorriso.
Os três não voltaram a ver-se até meio da tarde quando António mandou servir o
jantar num triclinium tão novo que ainda cheirava a tinta e aos vários
pigmentos usados para ornamentar as paredes sombrias com frescos de Alexandre,
o Grande, e dos seus marechais mais próximos, todos montados em cavalos em
poses animadas.

282
Como estava demasiado frio para abrir as persianas, queimavam incenso para
disfarçar o mau cheiro. Cleópatra era demasiado bem-educada e altiva para fazer
comentários, mas Cesarião não tinha esse tipo de constrangimento.
- Este sítio fede - disse ele subindo para um divã.
- Se for insuportável podemos refugiar-nos no velho palácio.
- Não, dentro de alguns minutos deixarei de dar por isso e os vapores já não
são venenosos. - Cesarião riu-se. - Catulo César suicidou-se fechando-se numa
sala recentemente estucada com uma dúzia de braseiros e todas as aberturas
tapadas para impedir a entrada de ar exterior. Era primo direito do meu bisavô.
- Tens andado a estudar a História de Roma.
- Evidentemente.
- E então a História do Egipto?
- Até aos registos orais, antes da invenção dos hieróglifos.
- É o Ch'am que o ensina - disse Cleópatra falando pela primeira vez. -
Cesarião será o rei mais bem-educado de sempre.
Aquela troca de palavras fixou o tom do jantar; Cesarião falou incessantemente
e a mãe fazia um comentário ocasional para confirmar uma afirmação sua,
enquanto António se mantinha deitado no divã fingindo escutar quando não estava
a responder a uma das perguntas de Cesarião.
Apesar de gostar do rapaz reconhecia a pertinência do comentário de Fonteio;
Cleópatra não dera a Cesarião nenhuma noção dos seus limites e ele sentia-se
suficientemente confiante para participar em todas as conversas como se fosse
um adulto. Isso poderia ser admissível se ele não tivesse o hábito de
interromper os outros. O seu pai teria posto fim àquele género de conduta -
como António se lembrava bem de como fora quando, ele próprio, tivera a idade
de Cesarião! Já Cleópatra era uma mãe babada dominada por um filho imperioso e
extremamente teimoso. O que não era bom.
Finalmente, depois de os doces terem sido servidos e levantados, António agiu.
- Vai-te embora, jovem Cesarião - disse bruscamente. - Quero falar com a tua
mãe em privado.
O rapaz agitou-se e abriu a boca para protestar; depois viu o brilho vermelho
nos olhos de António. A sua resistência esvaziou-se como uma bexiga furada. Um
encolher de ombros resignado e desapareceu.
- Como é que conseguiste? - perguntou ela aliviada.
- Falei e agi como um pai. Tu dás muita liberdade ao rapaz, Cleópatra, e ele
mais tarde não te agradecerá.
Ela não respondeu, demasiado ocupada em tentar compreender aquele Marco
António. Não parecia envelhecer da mesma maneira que os outros homens nem
revelava quaisquer sinais exteriores de dissipação. Tinha o ventre plano, os
músculos dos braços acima do cotovelo não tinham a flacidez da meia-idade e o
cabelo continuava tão ruivo como sempre, sem quaisquer cabelos grisalhos.

283

As mudanças visíveis estavam nos olhos - eram os olhos de um homem perturbado.


Mas porque estaria perturbado? Iria levar tempo a descobri-lo.
Seria Octaviano o responsável? Desde Filipos que ele tivera que se confrontar
com Octaviano numa guerra que não o era. Um duelo de inteligência e vontade,
travado sem sacar de espadas e sem desferir golpes. Ele via que Sexto Pompeu
era a sua melhor arma, mas quando se apresentara uma oportunidade perfeita para
se unir a Sexto e fazer avançar os seus próprios marechais, Polião e Ventídio,
não a aproveitara. Naquele momento poderia ter esmagado Octaviano. Agora nunca
o faria e começava a aperceber-se disso Enquanto pensara que teria uma
oportunidade para esmagar Octaviano ficara-se pelo Ocidente. O facto de ele
estar ali em Antioquia revelava que desistira dessa luta. Fonteio via isso
nele, mas como? Far-lhe-ia António confidências?
- Senti a tua falta - disse ele abruptamente.
- Sentiste? - perguntou ela casualmente como se não estivesse interessada.
- Sim, cada vez mais. Engraçado. Sempre pensei que as saudades de alguém iam
diminuindo com a passagem do tempo, mas a falta que sinto de ti vai aumentando.
Não teria conseguido esperar muito mais tempo para te ver.
Uma táctica feminina:
- Como está a tua mulher?
- Octávia? Doce como sempre. É uma pessoa adorável.
- Não devias dizer isso de uma mulher a outra mulher.
- Porque não? Desde quando é que Marco António esteve apaixonado pela virtude,
ou pela bondade, ou pela afectuosidade? Eu... tenho pena dela.
- Isso significa que acreditas que ela te ama.
- Não tenho dúvidas disso. Não se passa um dia sem que ela me diga que me ama,
fá-lo por carta se não estivermos juntos. Já tenho um arquivo cheio de cartas
dessas em Antioquia. - Fez uma careta. - Ela conta-me como estão as crianças e
o que o irmão Octaviano anda a fazer, pelo menos ela sabe-o, e mais outras
coisas que pensa terem graça para mim. Apesar de nunca mencionar Lívia Drusila.
Ela não aprova a atitude da mulher de Octaviano relativamente à filha dele com
Escribónia.
- Lívia Drusila já teve filhos? Nunca ouvi falar nisso. -Não. Tão estéril como
o deserto líbio.
- Isso talvez seja culpa de Octaviano.
- Não me interessa de quem é a culpa! - ripostou ele.
- Mas devia interessar, António.
Em resposta ele passou para o divã dela e puxou-a para si.
- Quero fazer amor contigo.

284

Ah, ela esquecera o seu odor, como a excitava! Limpo, bronzeado, sem o menor
vestígio oriental. Bem, ele comia os alimentos do seu próprio povo, não
sucumbira aos cardamomos e canelas que eram preferidos no Oriente. E era por
isso que a pele dele não transpirava os seus óleos residuais.
Com um olhar apercebeu-se de que os criados tinham saído e que não seria
permitida a entrada de ninguém, nem mesmo de Cesarião. Pousou a mão sobre a
dele e levou-a ao peito, que ficara mais cheio desde o nascimento dos gémeos.
- Também senti a tua falta - mentiu ela, sentindo a excitação a percorrê-la.
Sim, ele agradara-lhe como amante e Cesarião beneficiaria com um segundo irmão.
Amon-Rá, Isis, Hathor, dêem-me um filho! Só tenho trinta e três anos, o que não
é idade suficiente para tornar os partos arriscados para uma Ptolomeu.
- Também senti a tua falta - murmurou. - Oh, é maravilhoso!
Vulnerável, consumido por dúvidas, inseguro quanto àquilo que o futuro lhe
reservava em Roma, António estava maduro para que Cleópatra o colhesse e caiu,
de livre vontade, na palma da sua mão. Chegara a uma idade em que tinha uma
necessidade desesperada de ter das mulheres mais do que sexo; ansiava por uma
verdadeira companheira e não a encontrava entre as suas amigas, nem nas suas
amantes nem, sobretudo, na sua mulher romana. Esta rainha entre as mulheres -
na realidade, este rei entre os homens - era sua igual em tudo: em poder, força
e na ambição que a permeava até à medula.
E ela, consciente de tudo isto, levava o tempo que queria a satisfazer as suas
necessidades, que não eram nem carnais nem espirituais. Gaio Fonteio,
Publícola, Sósio, Tício e o jovem Marco Emílio Escauro, estavam todos em
Antioquia, mas aquele novo Marco António quase nem dava por eles, assim como
não prestou atenção a Gneu Domício Aenobarbo quando este apareceu, pois o lugar
de governador da Abissínia estava demasiado distante de tudo para um homem tão
enérgico. Cleópatra sempre lhe desagradara e o que viu em Antioquia só serviu
para reforçar esse desagrado. António era seu escravo.
- Não parece um filho com a sua mãe - disse Aenobarbo a Fonteio em quem
pressentia ter um aliado - , mas sim um cão com o seu dono.
- Aquilo há-de passar-lhe - disse Fonteio certo de que assim seria. - Ele está
mais perto dos cinquenta do que dos quarenta, já foi cônsul, imperador,
triúnviro, já foi tudo excepto Primeiro Homem em Roma incontestado. E desde os
tempos loucos da sua juventude com Curião e com Clódio, foi sempre um
mulherengo famoso sem nunca se ter entregue a qualquer mulher. E já era mais do
que tempo de isso acontecer, daí o que se está a passar com Cleópatra. Admite-
o, Aenobarbo! Ela é a mulher mais poderosa do mundo e fabulosamente rica. Ele
tem que a ter e tem que a manter contra todos os rivais.

285

- Cacat! - ripostou o seu interlocutor com intolerância. - É ela que manda nele
e não ele nela! Ele está mole como papas!
- Assim que tiver saído de Antioquia e estiver no campo de batalha, o velho
Marco António regressará - confortou-o Fonteio certo de ter razão.
Para grande surpresa de Cleópatra, quando António disse a Cesarião que chegara
o momento de regressar a Alexandria para ali reinar como Rei e Faraó, o rapaz
partiu sem um murmúrio de protesto. Não passara tanto tempo com António como
esperara, mas tinham conseguido sair de Antioquia várias vezes e passado dias
inteiros a caçar os lobos e leões que passavam o Inverno na Síria antes de
regressarem às estepes da Cítia. E também não se deixava enganar.
- Eu não sou idiota, sabes - disse ele a António depois de abater a primeira
presa, um leão macho.
- Que queres dizer? - perguntou António sobressaltado.
- Esta é uma região colonizada, demasiado populosa para ter leões. Trouxeste-o
do mato para termos alguma coisa para caçar.
- És um monstro, Cesarião,
- Uma górgona ou um ciclope?
- Uma espécie inteiramente nova.
As últimas palavras que António lhe dirigiu antes de partir de regresso ao
Egipto foram mais sérias.
- Quando a tua mãe regressar- disse ele -, certifica-te de que tratas melhor
dela. Presentemente passas por cima das suas opiniões e dos seus desejos.
Herdaste isso do teu pai. Mas falta-te a percepção da realidade, algo que ele
entendia ser uma coisa exterior a si próprio. Cultiva essa qualidade, jovem
César, e, quando cresceres, nada te deterá.
E eu, pensou António, serei demasiado velho para me importar com aquilo que tu
faças da tua vida. Apesar de pensar que fui mais um pai para ti do que para os
meus próprios filhos. Mas isso é porque a tua mãe é extraordinariamente
importante para mim e tu és o centro do mundo dela.
Ela esperou cinco nundinae para atacar. Por essa altura já a maioria dos recém-
nomeados reis e potentados tinham visitado Antioquia para apresentar
cumprimentos a António. Não a ela. Quem era ela senão mais uma monarca-cliente?
Amintas, Polémon, Pitodoro, Tarcondimoto, Arquelau Sisenes e, evidentemente,
Herodes. Muito cheio de si!
Começou por Herodes.
- Ele ainda não me pagou o dinheiro que me deve nem a minha parte dos lucros
do bálsamo - disse a António.
- Não sabia que ele te devia dinheiro nem lucros do bálsamo.

286

- Mas deve! Emprestei-lhe cem talentos para ir apresentar o seu caso a Roma. O
bálsamo fazia parte do pagamento.
- Amanhã vou lembrar-lhe através de uma carta enviada por mensageiro.
- Não lhe vais lembrar nada! Ele não se esqueceu, simplesmente não tenciona
honrar as suas dívidas. Embora exista uma forma de o obrigar a pagar.
- Ai sim? Como ? - perguntou António desconfiado.
- Concede-me os jardins de bálsamo de Jericó e a recolha de betume do Palus
Asfaltite. Livres e desimpedidos, todos meus.
- Júpiter! Isso equivale a metade dos rendimentos de todo o reino de Herodes!
Deixa-o em paz com o seu bálsamo, meu amor.
- Não, não deixo! Eu não preciso do dinheiro e ele precisa, é verdade, mas ele
não merece ser deixado em paz. É uma lesma gorda!
Após um momento de reflexão, António sentiu-se divertido; os seus olhos
começaram a brilhar.
- Há mais alguma coisa que queiras exigir, meu pardal?
- Soberania total sobre Chipre que sempre pertenceu ao Egipto até Catão o ter
anexado a Roma. Sobre a Cirenaica, outra possessão egípcia roubada por Roma. A
Cilícia Traqueia. A costa da Síria até ao rio Eleutero... foi mais o tempo que
pertenceu ao Egipto do que aquele que não pertenceu. Cálcis. Na verdade, um Sul
da Síria inteiramente egípcio encantar-me-ia, portanto o melhor é concederes-me
toda a Judeia. Creta também calhava bem. E Rodes.
Ele ficou de boca aberta e os olhos pequenos esbugalhados, sem saber se havia
de rir à gargalhada ou rugir de ultraje. Finalmente disse:
- Estás a brincar.
- A brincar? A brincar? Mas quem são os teus novos aliados, António? Os teus
aliados, não os de Roma! Deste a Anatólia e uma boa parte da Síria a um bando
de rufias, traidores e bandidos! Na realidade, Tarcondimoto é um bandido! A
quem entregaste as Portas Sírias e todo o Amano! Ofereceste ao filho da tua
amante a Capadócia e deste a Galácia a um vulgar escriturário! Casaste a tua
filha, que tem dupla linhagem juliana, com um usurário greco-asiático
gorduroso! Puseste um liberto a governar Chipre! Oh, a quantidade de glória que
distribuíste generosamente pelos teus belíssimos aliados! - Ela estava a
aumentar o tom da sua irritação com precisão e mestria, os olhos com um brilho
felino e feroz, os lábios arreganhados e a face esculpida numa máscara de puro
veneno. - E onde está o Egipto em todas essas brilhantes disposições? -
sibilou. - Ultrapassado! Nem sequer mencionado! Como o Tarcondimoto, para falar
só num, se deve estar a rir! Quanto ao Herodes... esse é um sapo peganhento,
esse filho rapace de duas nulidades ambiciosas!
Onde estava a sua fúria? Onde estava o seu instrumento de maior confiança,
usado para esmagar as pretensões de adversários muito mais poderosos do que
Cleópatra? Nem um lampejo do velho e conhecido fogo lhe aquecia as veias que
permaneciam geladas sob aquele olhar de Medusa.

287

Apesar de se sentir confuso e desorientado, conseguiu preservar alguma da sua


astúcia.
- Espetas a faca sem misericórdia - arfou ele agitando as mãos no ar. - Eu não
queria insultar-te!
Ela deixou que a sua raiva aparente se acalmasse, mas não misericordiosamente.
- Oh, eu sei o que tenho que fazer para ficar com os territórios que te estou a
pedir - disse em tom coloquial. - Os teus bandidos receberam as terras à borla,
mas o Egipto tem que pagar. Quantos talentos de ouro vale a Cilícia Traqueia? O
bálsamo e o betume são dívidas, recuso-me a pagar por eles. Mas Cálcis?
Fenícia? Filístia? Chipre? Cirenaica? Creta? Rodes? Judeia? Os meus cofres
estão a transbordar de tesouros, caro António, como tu bem sabes. Essa foi
sempre a tua intenção, não foi? Fazer o Egipto pagar milhares e milhares de
talentos de ouro por cada plethron de terra! Enquanto outros, apaniguados sem
valor, recebem terras em troco de nada, o Egipto terá que as comprar! Seu
hipócrita! Seu vigarista mesquinho e miserável!
Ele foi-se abaixo e rebentou em pranto, o que era sempre um bom instrumento
político.
- Oh, pára com as lágrimas! - berrou ela atirando-lhe um guardanapo da mesma
forma que um plutocrata lançaria uma moeda a alguém que lhe tivesse prestado um
serviço muito valioso. - Enxuga os olhos! Está na hora de começar o regateio.
- Eu não pensei que o Egipto quisesse mais territórios - disse ele por não ter
argumentos sensatos.
- Oh, realmente? E o que te levou a tirar essa conclusão?
A dor começava a instalar-se: ela não o amava absolutamente nada.
- O Egipto é completamente auto-suficiente. - Com os olhos ainda marejados de
lágrimas ficou a olhar para ela. Pensa António, pensa! - O que farias com a
Cilícia Traqueia? Com Creta? Com Rodes? Até mesmo com a Cirenaica? Reinas sobre
uma terra que tem grande dificuldade em manter um exército capaz de defender
até as suas próprias fronteiras. - Falar estancara-lhe as lágrimas e ajudara-o
a recuperar alguma da compostura. Mas não a sua auto-estima, essa estava para
lá de qualquer possibilidade de recuperação.
- Acrescentaria essas terras ao reino que o meu filho herdará, usá-las-ia como
o seu campo de treino. As leis do Egipto estão gravadas na pedra, mas há outros
lugares que clamam pela mão de um governante sensato e Cesarião será o mais
sensato entre os sensatos - disse ela.
Como poderia responder-lhe?
- O Chipre consigo compreender, Cleópatra. Tens toda a razão, sempre pertenceu
ao Egipto. César devolveu-to, mas, quando ele morreu, reverteu novamente para
Roma. Ficarei muito feliz por te ceder o Chipre. Na realidade sempre foi minha
intenção fazê-lo... não reparaste que eu o excluí das minhas atribuições?
- Muito generoso da tua parte - disse ela causticamente. - E a Cirenaica?

288

- A Cirenaica faz parte dos fornecedores de trigo de Roma. Nem pensar.


- Recuso-me a regressar a casa com menos do que os teus chulos e engraxadores!
- Eles não são chulos e engraxadores, são homens decentes.
- O que queres em troca da Fenícia e da Filístia?
Então que assim seja, sua meretrix gananciosa! Quando se apercebera de que os
seus quarenta mil talentos de prata dos cofres de Sexto Pompeu poderiam levar
anos a chegar às suas mãos, ficara alarmado. E no entanto ali estava a rainha
do Egipto, pronta a pagar e com os meios para o fazer. Ela não o amava nem um
pedacinho. .. que dor! Mas podia dar-lhe um exército esplêndido e
imediatamente. Óptimo, estava a sentir-se um pouco melhor, pelo menos na
cabeça.
- Falemos então de pagamentos. Vais querer soberania total e receber todos os
lucros. Que, a seu tempo, renderão cem mil talentos de ouro cada. Mas eu quero
um sinal de um por cento. Mil talentos de ouro pela Fenícia, Filístia, Cilícia
Pedia, Caleis, Emesa, o rio Eleutero e Chipre. Nem pensar em Creta, na
Cirenaica ou na Judeia. Bálsamo e betume, gratuitos.
- Um total de sete mil talentos de ouro. - Ela espreguiçou-se e emitiu um som
baixo e semelhante a um ronronar. - Negócio fechado, António.
- Quero os sete mil já, Cleópatra.
- Em troca das certidões oficiais, assinadas e seladas na tua qualidade de
triúnviro responsável pelo Oriente.
- Depois de eu ter o ouro, e de o ter contado, terás os teus papéis.
Autenticados com o selo de Roma mais o meu selo triunviral. E ainda juntarei o
meu selo pessoal.
- Isso é satisfatório. Vou enviar um mensageiro veloz para Mênfis amanhã de
manhã.
- Mênfis?
- É a forma mais rápida, acredita em mim.
Aquela troca de palavras deixou-os sem saber o que dizer a seguir. Ela viera
para conseguir algo e obtivera mais do que pensara ser possível; ele
necessitara desesperadamente da força e das orientações dela e não recebera
nada. Os laços físicos eram frágeis e os mentais inexistentes. Instalou-se um
longo silêncio em que ficaram a olhar-se sem mais nada para dizer. Depois
António suspirou.
- Tu não me amas absolutamente nada - disse. - Vieste a Antioquia como todas as
outras mulheres: às compras.
- É verdade que vim para garantir a parte do saque a que Cesarião tem direito
-respondeu ela com um olhar suficientemente humano para parecer um pouco
triste. - Todavia devo amar-te. Se não amasse ter-me-ia dedicado de uma outra
maneira aos meus objectivos. Tu não te apercebes, mas eu poupei-te.
- Que os deuses me protejam, de uma Cleópatra que não me poupe!

289

- Oh, tu choraste e isso, a teus olhos, significa que te roubei a virilidade.


Mas ninguém te consegue tirar a virilidade, António, a não ser tu próprio. Até
que Cesarião seja um homem, o que significa pelo menos mais dez anos, o Egipto
precisa de um consorte e eu só tenho um nome em mente. Marco António. Tu não és
fraco, mas falta-te determinação. Vejo-o tão claramente como Fonteio deve ter
visto.
Ele franziu a testa.
- Fonteio? Vocês têm andado a trocar impressões?
- Claro que não. Eu senti simplesmente que ele está preocupado contigo. Agora
percebo porquê. Tu não amas Roma como César amava e o teu rival em Roma é vinte
anos mais novo do que tu. A não ser que morra, durará mais do que tu no cargo e
não estou a ver Octaviano a morrer novo, apesar da asma. Um assassínio? Seria a
resposta ideal, se fosse exequível, mas não é. Protegido por Agripa e pelos
guardas germanos ele é invulnerável. Octaviano a abdicar dos lictores como
César fez? Nem que lhe oferecessem Sexto Pompeu numa bandeja de ouro! Se tu
fosses mais velho, seria mais fácil para ti, mas vinte não chegam, apesar de
serem muitos anos. Octaviano faz vinte e seis anos este ano. Os meus agentes
dizem que tem um ar mais masculino, agora que já não tem a frescura da
juventude. Tu tens quarenta e seis e eu fiz trinta e dois. Tu e eu estamos bem
emparelhados em termos de idade e gostaria que o Egipto recuperasse o seu
antigo poder. Ao contrário do reino dos Partos, o Egipto pertence ao Vosso Mar.
Contigo por consorte, António, pensa no que poderíamos fazer nos próximos dez
anos!
O que ela estava a propor-lhe seria exequível? Não era muito romano, mas Roma
escapava-se-lhe por entre os dedos, fios de fumo no ar perfumado do Oriente.
Sim, estava confuso, mas não tão confuso que não percebesse o que ela lhe
propunha e quais eram as implicações. O controlo que tinha sobre os seus
partidários em Roma estava a diminuir; Polião fora-se, bem como Ventídio e
Salústio, todos os grandes marechais com excepção de Aenobarbo. Durante quanto
tempo conseguiria conservar as suas sete centenas de clientes senatoriais, a
não ser que fizesse frequentes visitas a Roma com intervalos aceitáveis?
Valeria a pena o esforço? Conseguiria ele fazer mais aquele esforço sabendo que
Cleópatra não o amava? Não sendo um homem racional, não conseguia perceber o
que ela lhe fizera; só sabia que a amava. Ficara derrotado desde o dia da
chegada dela a Antioquia e esse era um mistério cuja solução não estava ao seu
alcance.
Ela estava a falar novamente:
- Com Sexto Pompeu para derrotar, passar-se-ão alguns anos até que Octaviano e
Roma estejam em condições de se preocupar sequer com o que se passa no Oriente.
O Senado não passa de um bando de galinhas cacarejantes, impotentes para
arrancar o poder das mãos de Octaviano... ou das tuas. Lépido não conta.
Deslizou do seu divã e veio deitar-se ao lado dele, a face apoiada no seu braço
musculoso.

290

- Não estou a defender a sedição, António - disse em tom calmo e doce. - Longe
disso. Só estou a dizer-te que, em concerto comigo, podes fazer do Oriente um
local mais forte e melhor. Como é que isso pode ser malvisto por Roma? Como
pode isso diminuir Roma? Pelo contrário. Por exemplo, impede o surgimento de um
outro Mitrídates ou Tigranes.
- Eu tornar-me-ia teu consorte num piscar de olhos, Cleópatra, se conseguisse
acreditar verdadeiramente que uma parte disso era por mim ou por causa de mim.
Terão todas as partículas dessa decisão que ser devidas a Cesarião? - perguntou
ele com os lábios a acariciarem-lhe o ombro. - Ultimamente apercebi-me de que,
antes de morrer, quero erguer-me só e colossal sob a luz forte do sol... sem
sombras de qualquer tipo! Não quero uma sombra romana nem a sombra de Cesarião.
Quero terminar a minha vida como Marco António, nem romano nem egípcio. Quero
ser verdadeiramente singular. Quero ser António, o Grande. E tu não é isso que
me ofereces.
- Mas eu estou mesmo a oferecer-te a grandeza! Não podes ser egípcio, isso é
impossível. E se és romano, só tu podes decidir deixar de o ser. E apenas uma
pele, não é difícil de largar, as cobras largam as suas. - Roçou-lhe o rosto
com a boca. - António, eu compreendo! Tu anseias por ser maior do que Júlio
César, o que significa conquistar novos mundos. Mas ao olhar para os Partos
estás a olhar para o sítio errado. Vira-te para ocidente e não mais para leste!
César nunca conquistou verdadeiramente Roma. Ele sucumbiu a Roma. António só
poderá conquistar o cognome de Grande se conquistar Roma.
Aquele foi meramente o primeiro assalto daquela que viria a ser uma batalha
permanente que durou até Março, a Primavera de Antioquia. Uma luta titânica
travada na escuridão do emaranhado das suas emoções e no silêncio das suas
dúvidas e desconfianças mudas. O secretismo era muitíssimo importante e
completo; se Aenobarbo, Publícola, Fonteio, Fúrnio, Sósio ou qualquer outro
romano em Antioquia, adivinhasse que António estava a vender para sempre e sem
direito a tributo aquilo que pertencia a Roma e que era meramente cedido a
reis-clientes em troca de tributos, teria havido uma convulsão tão grande que
António poder-se-ia ver acorrentado e enviado de regresso a Roma. As terras
cedidas a Cleópatra tinham que parecer ter sido cedidas de uma forma inocente,
até a base de poder de António ser muito mais forte. Portanto, aquilo que, num
aspecto, era do conhecimento público, noutro aspecto era conhecido apenas de
António e Cleópatra. Para os seus compatriotas romanos tinham que parecer
concessões normais para conseguir o ouro necessário ao financiamento de um
exército. Assim que ele se tornasse senhor absoluto do Oriente, já não
interessaria o que era ou não do conhecimento público. Ela tentara persuadir
César a declarar-se rei de Roma e falhara. António era feito de um material
mais maleável, especialmente no seu presente estado de espírito.

291

E o Oriente estava sedento de um rei forte. Quem melhor para o lugar que um
romano, com formação legal e experiência governamental, e nada dado a caprichos
ou a carnificinas? António, o Grande, consolidaria o Oriente, transformando-o
numa entidade suficientemente formidável para poder disputar a Roma a
supremacia mundial. Aquele era o sonho de Cleópatra, sabendo muito bem que
ainda faltava muito caminho e que o caminho ainda seria mais longo até ela
poder esmagar António, o Grande, em favor de Cesarião, o Rei dos Reis.
António conseguiu enganar os colegas. Aenobarbo e Publícola serviram de
testemunhas na emissão dos documentos de Cleópatra sem ler o que diziam e
fizeram pouco da sua credulidade. Tanto ouro!
Mas o pior conflito de António este não o confidenciava a ninguém. A rainha era
totalmente contrária à sua campanha contra os Partos e regateava-lhe o ouro
para a financiar. Ficava horrorizada com a perspectiva de ver o exército
horrivelmente reduzido pelos ataques partos, horrorizada com a ideia de o
exército ficar demasiado fraco para fazer aquilo que ela queria que fizesse.
Fazer a guerra a Roma e a Octaviano. Planos esses que só revelara parcialmente
a António mas que estavam permanentemente presentes no seu espírito. Cesarião
deveria reinar sobre o mundo de César bem como sobre o Egipto e o Oriente e
nada, incluindo Marco António, iria impedir que tal acontecesse.
Para horror de António, este apercebeu-se de que ela tencionava ir com ele em
campanha e esperava ter um papel relevante nos conselhos de guerra. Canídio
aguardava em Carana após uma surtida bem sucedida a norte, no Cáucaso, e ela
estava ansiosa por se encontrar com ele, segundo dizia insistentemente. Por
mais que tentasse, António não conseguiu convencê-la de que não seria bem-vinda
e de que os seus legados não a tolerariam.
Por isso, e no espaço de um nundinum, ele livrou-se dos homens que era mais
provável se rebelassem contra a presença dela. Enviou Publícola a Roma para
animar os seus setecentos senadores e Fúrnio para governar a província da Ásia.
Aenobarbo regressou para o governo da Bitínia e Sósio iria continuar na Síria.
Depois o mais natural e inevitável dos acontecimentos salvou-o: uma gravidez.
Tonto de alívio, pôde dizer aos seus legados que a rainha só viajaria com as
legiões até Zeugma no Eufrates e depois regressaria a casa, no Egipto.
Divertidos e admirados, os seus legados concluíram que o amor da rainha por
António era tão grande que ela mal conseguia estar afastada dele.
Foi portanto uma Cleópatra muito satisfeita que beijou Marco António e se
despediu dele em Zeugma e começou a longa viagem de regresso ao Egipto; apesar
de poder ir de barco, tinha boas razões para não o fazer. Uma razão chamada
Herodes, rei dos Judeus. Quando soubera da perda do bálsamo e do betume, ele
viera a galope de Jerusalém até Antioquia.

292

Mas quando viu Cleópatra sentada ao lado de António na sala de audiências,


girou nos calcanhares e regressou a casa. Uma reacção que revelou a Cleópatra
que Herodes preferia esperar até poder falar a sós com António. O que também
significava que Herodes se apercebera daquilo de que os Romanos não se tinham
apercebido: que ela dominava o triúnviro responsável pelo Oriente e que este
era barro moldável nas suas mãos imparáveis e metediças.
Todavia, quaisquer que fossem os seus sentimentos íntimos, Herodes não tinha
alternativa senão receber muito bem a rainha do Egipto na sua capital e alojá-
la majestosamente no seu novo palácio, um edifício sumptuoso.
- Na verdade vejo que há edifícios a serem construídos por toda a parte - disse
Cleópatra ao anfitrião durante o jantar, pensando para consigo que a comida era
horrível e que a rainha Mariana era feia e sensaborona. Mas era fecunda: já
tinha dois filhos. - Um deles parece-se perigosamente com uma fortaleza.
- Oh e é um fortaleza - disse Herodes imperturbável. - Chamar-lhe-ei Antónia em
honra do nosso triúnviro. Estou também a construir um novo templo.
- E algumas novas estruturas em Massada, segundo ouvi dizer.
- Foi um exílio cruel para a minha família, mas é um local útil. Vou equipá-lo
com melhores residências, mais celeiros e salas para comer e cisternas para a
água.
- Uma pena não poder ver essas obras. A estrada costeira é mais aprazível.
- Especialmente para uma senhora à espera de um bebé. -Acenou com a mão a
Mariana que se levantou e saiu de imediato.
- Tens bons olhos, Herodes.
- E tu um apetite insaciável por territórios, segundo os relatórios que recebi
de Antioquia. A Cilicia Traqueia! Para que queres esse pedaço de costa rochosa?
- Entre outras coisas para devolver Olba à rainha Aba e à linhagem dos Teucros.
No entanto não fiquei com a única cidade.
- A Selêucia é muito importante para os Romanos, minha cara e ambiciosa rainha.
A propósito, não podes ficar com os meus rendimentos do bálsamo e do betume.
Preciso demasiado deles.
- Eu já tenho o bálsamo e o betume, Herodes e aqui - disse ela pescando um
papel no interior de uma sacola de rede de ouro com jóias encastradas - estão
as instruções de Marco António ordenando-te que cobres as taxas em meu nome.
-António não me faria uma coisa destas! - gritou Herodes lendo o papel.
-António faria e fez. Embora tenha sido ideia minha encarregar-te da cobrança.
Devias ter pago as tuas dívidas, Herodes.
- Eu sobreviver-te-ei, Cleópatra!
- Disparate. És demasiado ganancioso e demasiado gordo. Os homens gordos morrem
novos.
- O que queres dizer é que as mulheres magricelas vivem para sempre. Não no teu
caso, rainha. A minha ambição não é nada quando comparada com a tua. Não te
contentarás com menos do que o mundo inteiro.

293

Mas António não é o homem adequado para to conseguir. Ele está a perder o
controlo sobre a parte do mundo que tem em seu poder, não reparaste?
- Pff! - cuspiu ela. - Se estás a referir-te a esta campanha contra o rei dos
Partos, trata-se simplesmente de uma coisa que ele tem que eliminar do sistema
antes de virar as suas energias para objectivos mais exequíveis.
- Objectivos que tu inventas para ele!
- Disparate! Ele é muito capaz de os ver sozinho.
Herodes recostou-se para trás no divã e entrelaçou os dedos gorduchos e cheios
de anéis sobre a barriga.
- Há quanto tempo é que andas a maquinar aquilo que acho que estás a maquinar?
Os olhos dourados abriram-se muito e olharam-no especulativamente.
- Herodes, eu, a maquinar? Tens uma imaginação febril. Não tarda estás para aí
a delirar. O que poderia eu maquinar?
- Com António com um anel no nariz e a arrastar atrás de si um grande número de
legiões, minha cara Cleópatra, a minha aposta é que o teu objectivo é
substituir Roma pelo Egipto. E que melhor altura para atacar senão quando
Octaviano está enfraquecido e as províncias ocidentais necessitam dos melhores
homens de que dispõe? Não há limite para a tua ambição, para a tua sede. O que
me surpreende é que ninguém parece ter-se apercebido dos teus planos a não ser
eu. Pobre António, quando descobrir!
- Se fores sensato, Herodes, manterás as tuas especulações no interior da tua
cabeça e não as deixarás cair da ponta da língua. São uma loucura sem qualquer
fundamento.
- Dá-me o bálsamo e o betume e ficarei calado. Ela saiu do divã e enfiou os
chinelos.
- Eu não te daria nem o cheiro de um trapo sujo, sua abominação! - E saiu,
arrastando a cauda do vestido atrás de si com o som de murmúrios sedosos e
suaves, semelhantes ao de vozes recitando feitiços.
No dia seguinte ao da partida de Cleópatra de Zeugma para o Egipto,
apareceu Aenobarbo animado e descontraído.
- Devias ir a caminho da Bitínia - disse António com uma expressão de desagrado
mas sentindo-se felicíssimo.
- Esse era o teu esquema para te veres livre de mim enquanto pensaste que a
harpia egípcia iria em campanha contigo. Nenhum homem romano aguentaria uma
coisa dessas, António, e estou surpreendido por teres pensado que conseguias...
a não ser que tenhas desistido de ser um homem romano.

<Gravura - omitida>

295

- Não, não desisti! - disse António irritado. - Aenobarbo, tens que compreender
que foi unicamente a disponibilidade de Cleópatra para me emprestar enormes
quantidades de ouro que permitiu montar esta expedição! Ela parecia pensar que
o empréstimo lhe dava o direito de participar no empreendimento mas, quando
chegámos aqui, já estava desejosa de regressar a casa.
- E eu fiquei muito satisfeito por interromper a minha viagem para a Nicomédia.
Então, meu amigo, esclarece-me quanto aos acontecimentos mais recentes.
António está com muito bom aspecto, pensou Aenobarbo, o melhor aspecto que lhe
vi desde Filipos. Tem uma tarefa à sua altura e, além disso, é uma realização
de um sonho. Por muito que eu deteste a harpia egípcia, estou-lhe grato pelo
empréstimo do ouro. Ele poderá pagar-lho só com o saque de uma das campanhas.
-Arranjei uma fonte de informação relativamente aos Partos - disse António. -
Um sobrinho do novo rei parto, chamado Monaeses. Quando Fraates assassinou a
sua família inteira, Monaeses conseguiu fugir para a Síria porque na altura não
estava na corte. Estava em Nicefório, a resolver uma disputa comercial com os
Skenitas. É claro que não se atreveu a regressar a casa... tem a cabeça a
prémio. Parece que o rei Fraates desposou uma filha casadoira de um membro
menor da Casa Arsácida e tenciona criar um novo lote de herdeiros. A família da
noiva foi toda passada pelo fio da espada, ou do machado ou do que quer que
seja que os Partos usam. Esta nova ninhada de filhos levará anos a crescer,
logo passar-se-ão anos até serem um perigo para Fraates. Enquanto que Monaeses
é um homem feito e tem seguidores. São implacáveis, estes monarcas orientais.
- Espero que te recordes desse facto quando lidas com Cleópatra - disse
Aenobarbo secamente.
- Cleópatra - disse António com uma ligeira altivez - é diferente.
- E tu, António, estás apaixonado - disse-lhe o amigo directa e brutalmente.
-Espero bem que a tua avaliação deste Monaeses seja mais sólida.
- Tão sólida como um bronze de Briáxis.
Mas quando Aenobarbo conheceu o príncipe Monaeses, sentiu o estômago gelado.
Confiar naquele homem? Nunca! Ele não o conseguia olhar olhos nos olhos, por
muito bom que fosse o seu grego e por muito bem que imitasse as maneiras
gregas.
- Não lhe confies nem a pontinha do dedo! - gritou Aenobarbo. - Se o fizeres,
ele fica-te com o braço e com o ombro! Não vês que ele foi quem o rei Fraates
manteve de reserva, treinado nas maneiras do Ocidente, para o caso de ser
necessário colocar um espião no nosso seio? Monaeses não escapou ao massacre,
foi poupado para cumprir o seu dever de parto - atrair-nos para a ruína e a
derrota!
A resposta de António foi uma gargalhada; nada que Aenobarbo ou qualquer um dos
outros cépticos lhe dissesse o fazia vacilar na convicção de que Monaeses era
tão sólido como o ouro de Cleópatra.

296

A maior parte do exército aguardava em Carana com Públio Canídio, mas António
trouxe mais seis legiões com ele bem como dez mil cavaleiros gauleses e um
total de trinta mil recrutas estrangeiros compostos por judeus, sírios,
cilícios e asiáticos gregos. Deixara uma legião em Jerusalém para garantir a
manutenção de Herodes no trono - António era um amigo leal ainda que por vezes
fosse demasiado crédulo - e sete legiões para guarnecer a Macedónia que estava
permanentemente agitada.
O Eufrates escavara um amplo vale entre Zeugma e as terras mais altas em
Carana; havia pastagens em abundância para os cavalos, mulas e bois. Chegaram a
Samósata e ultrapassaram-na; o vale começou a estreitar um pouco e a estrada a
ficar mais dura à medida que a força enorme continuava na direcção de Melitene.
Não muito a norte de Samósata, o exército ultrapassou o comboio das bagagens, o
que foi um desapontamento, pois António enviara-o de Zeugma vinte dias antes da
partida do exército e pensara que ambos alcançariam Carana ao mesmo tempo. Mas
confiara que os bois conseguiriam fazer vinte e cinco ou mais quilómetros por
dia, no entanto nem todas as pragas e chicotes do mundo tinham conseguido que
fizessem mais do que dezasseis, como percebeu naquela altura.
O comboio das bagagens era motivo de grande alegria e orgulho para António,
pois era o maior que um exército romano alguma vez tivera. Eram literalmente
centenas de catapultas, balistas e peças mais pequenas de artilharia atreladas
ao número necessário de bois para o transporte de cada peça, mais uma
quantidade de aríetes capazes de derrubar as portas normais de uma cidade e um
monstro com oitenta metros de comprimento capaz de derrubar, como António disse
a Monaeses em tom jocoso, "até mesmo os portões da antiga Ílio!" E isso era
apenas a maquinaria de guerra. Em carroça após carroça eram transportados os
mantimentos: trigo, barricas de carne de porco salgada, peças de toucinho
longamente fumado, azeite, lentilhas, grão, sal, peças sobressalentes,
ferramentas e equipamento para os artesãos da legião, carvão, porcas de ferro
fundido para fazer aço, enormes barrotes e pranchas de madeira, serras para
derrubar árvores ou rocha macia como a pedra calcária, cordas e cabos, lonas,
tendas sobressalentes, postes, arreios, tudo o que um praefectus fabrum
eficiente pensava que um exército daquele tamanho era capaz de precisar para
completar aquilo que transportava e também para montar um cerco. Em fila única,
o comboio estendia-se por oitenta quilómetros, mas viajava com uma frente larga
com cinco quilómetros de fundo; duas legiões incompletas de quatro mil homens
cada estavam permanentemente destacadas para guardar um instrumento de guerra
tão imenso e precioso. Ópio Estatiano era o comandante e queixava-se disso a
todos quantos lhe dessem ouvidos.
Os seus ouvintes incluíram António quando o exército passou por ele.

297

- Está tudo muito bem enquanto conseguirmos marchar assim - disse Estatiano sem
tacto nenhum -, mas aquelas montanhas ali à frente significam, na minha
opinião, vales estreitos e se tivermos que esticar a linha dos carros, as
linhas de comunicação e as nossas defesas não se aguentarão.
Não era uma opinião que António quisesse ouvir ou estivesse preparado para
escutar.
- Pareces uma velha, Estatiano - disse ele tocando, o cavalo com os
calcanhares. - Arranca-lhes é mais quilómetros!
As forças móveis chegaram a Carana quinze dias depois de terem saído de Zeugma,
uma distância de quinhentos e sessenta quilómetros, mas o comboio com as
bagagens só chegou doze dias depois, apesar de ter saído muito antes. O que
deixou António muito mal disposto; quando estava assim não ouvia ninguém, nem
amigos como Aenobarbo nem marechais como Canídio, que tinha acabado de chegar
de uma expedição ao Cáucaso e estava muitíssimo bem informado acerca das
montanhas.
- A Itália está cercada pelos Alpes - disse Canídio -, mas esses parecem uma
brincadeira de crianças quando comparados com estes picos. Olha em torno do
vale onde fica Carana e verás centenas de montanhas com cerca de quatro mil e
quinhentos metros de altitude. Vai para norte ou para leste, e são ainda mais
altas e com precipícios maiores. Os vales são estreitos, com praticamente a
largura dos ribeiros cheios de rápidos que os atravessam. Já estamos a meio de
Abril, o que significa que tens até Outubro para a tua campanha. Seis meses e o
Inverno estará aí. Carana é a maior plataforma de terras relativamente planas
entre este local e as grandes planícies por onde o Araxes corre para o mar
Cáspio. Eu só tinha dez legiões e dez mil cavaleiros, mas achei que até mesmo
com uma força dessas dimensões era impossível de manobrar neste terreno. Ainda
assim imagino que saibas o que estás a fazer, portanto não tenciono discutir.
Tal como Ventídio, Canídio era um Homem Militar de origens ignóbeis; fora
apenas a sua grande competência no comando de tropas que lhe permitira subir.
Ligara-se a Marco António após a morte de César e gostava mais de António do
que das suas capacidades militares. Contudo, após o triunfo de Ventídio na
Síria, Canídio sabia que não lhe dariam o comando de uma empresa como aquela
que António tencionava levar a cabo no reino dos Partos através, digamos, da
porta das traseiras. Uma iniciativa tortuosa que requereria o génio de um
César, e António não era nenhum César. Para já ele gostava de coisas enormes,
enquanto que César detestava exércitos muito grandes. Para ele, dez legiões e
dez mil cavaleiros eram o número máximo que um comandante conseguia manobrar
com sucesso; num exército mais numeroso as ordens baralhavam-se, as linhas de
comunicação ficavam em perigo devido à distância e ao tempo. Canídio concordava
com César.
- O rei Artavasdes veio? - perguntou António.

298

- Qual deles? António pestanejou.


- Refiro-me à Arménia.
- Sim, está aqui, à espera de uma audiência de tiara na mão. Assim como
Artavasdes da Média Atropatene.
- Média Atropatene?
- Isso mesmo. Ambos viram de que lado soprava o vento depois da minha incursão
no Cáucaso e decidiram ambos que Roma vai vencer este recontro com os Partos.
Artavasdes da Arménia quer que lhe sejam devolvidos os seus setenta vales na
Média Atropatene e Artavasdes da Média Atropatene quer governar o reino dos
Partos.
António soltou uma enorme gargalhada.
- Canídio, Canídio, que sorte! Mas como é que os posso distinguir pelos nomes?
- Chamo Arménia à Arménia e à Média Atropatene chamo só Média.
- Eles não têm características físicas que eu possa usar?
- Estes não! São tão parecidos como gémeos... devido a todos aqueles casamentos
de uns com os outros, suponho. Usam saias largas e casacos, barbas postiças,
muitos caracóis, têm narizes aquilinos e cabelos pretos.
- Parecem partos.
- São da mesma origem, acho. Estás pronto para os receber?
- Algum deles fala grego?
- Nem grego nem aramaico. Só falam a sua própria língua e parto.
- Muito bem, então usarei o Monaeses.
Mas António não usou Monaeses durante muito tempo. Depois de fazer de
intérprete em várias audiências estranhas entre pessoas que não faziam ideia do
que os seus interlocutores pensavam, Monaeses decidiu regressar a Nicefório -
ele era, recordou a António, rei dos Árabes Skenitas e tinha que preparar o seu
reino para a guerra. Agradecendo profusamente e dando garantias de que os três
homens que arranjara para servirem de intérpretes se sairiam melhor do que ele
próprio, Monaeses partiu para sul.
- Quem me dera poder confiar nele - disse Canídio a Aenobarbo.
- Quem me dera poder confiar nele, mas não confio. Como as coisas já estão em
andamento e não podem ser paradas, a única coisa que qualquer um de nós pode
fazer, Canídio, é sacrifícios aos deuses para que estejamos enganados.
- Ou que, se estivermos certos, não haja nada que Monaeses possa fazer para
perturbar os planos de António.
- Ficaria muito mais descansado se o nosso exército fosse consideravemente mais
pequeno. Parece uma criança com os seus catafractários arménios!

299

Mas, na qualidade de veterano dos catafractários arménios e partos, posso


dizer-te que os Arménios não se podem comparar com os Partos - disse Canídio
com um suspiro. - As suas couraças são mais finas e mais fracas e os cavalos
não são muito maiores do que aqueles que temos em casa. Mais depressa lhes
chamaria lanceiros couraçados do que propriamente catafractários. Mas António
está extasiado por lhe terem sido oferecidos dezasseis mil deles.
- Mais dezasseis mil cavalos para alimentar - disse Aenobarbo.
- E poderemos ter mais confiança na Arménia ou na Média do que temos no
Monaeses? - perguntou Canídio.
- Na Arménia talvez. Na Média absolutamente nada. A que distância daqui é que
fica Artaxata? - perguntou Aenobarbo.
- A trezentos quilómetros, talvez um pouco menos.
- Temos que ir para lá?
- Metermo-nos na boca dos Arménios, é o que queres dizer. Infelizmente, temos.
Nunca fui um entusiasta desta estratégia de entrarmos pela porta das traseiras,
apesar de poder ser meritória se o terreno não fosse tão difícil. Vamos para
Fraaspa, depois Ecbátana, Susa e depois para a Mesopotâmia. E ele acha que o
comboio das bagagens conseguirá acompanhar-nos? Certamente que não!
- Oh, ele é Marco António - disse Aenobarbo. - Pertence à escola de generais
que acredita que quando se deseja uma coisa o suficiente, esta realizar-se-á. E
ele consegue ser muito bom numa campanha do género de Filipos. Mas como lidará
com o desconhecido?
-Tudo se resume a duas coisas, Aenobarbo. A primeira: será Monaeses um traidor?
A segunda: poderemos confiar na Arménia? Se a resposta à primeira pergunta for
negativa e à segunda for afirmativa, António terá sucesso. Ao contrário não.
Desta vez o comboio com as bagagens tinha partido para Artaxata, a capital da
Arménia, quase imediatamente após a chegada a Carana, para enorme irritação de
Ópio Estatiano, que ficara sem descanso, sem banho, sem mulher e sem uma
oportunidade de falar com António. Tencionara entregar-lhe uma lista de coisas
que pensava poderem muito bem ficar em Carana, conseguindo assim diminuir o
tamanho do comboio e aumentando um pouco a sua velocidade. Mas não, as ordens
eram para continuar em frente e levar tudo. Assim que alcançasse Artaxata,
deveria continuar para Fraaspa. Mais uma vez sem descanso, sem banho, sem
mulher e sem oportunidade de falar com António.
Que estava irascível e ansioso por iniciar a sua campanha, convencido de que a
sua marcha sobre os Partos passaria despercebida devido à sua estratégia de
entrar pela porta das traseiras. Oh, sem dúvida que já alguém teria avisado os
Partos de que Fraaspa seria a primeira cidade da Partia a ser atacada - havia
demasiados orientais e estrangeiros de todos os tipos entre eles para se
conseguir manter uma coisa daquela dimensão em segredo - mas António apostava
no ritmo da sua avançada, que tencionava fosse tão rápido como o de qualquer
marcha comandada por César.
300

Um exército romano chegaria a Fraaspa muitos meses antes de ser esperado.


Por isso não se demorou em Artaxata e marchou o mais rapidamente que lhe foi
possível e pelo caminho mais directo. Eram oitocentos quilómetros de Artaxata a
Fraaspa e, sob alguns aspectos, o terreno não era nem tão agreste nem tão
elevado como as regiões que tinham atravessado no caminho de Carana para
Artaxata. Mas, disseram a António os seus guias medos e arménios, ele marchava
na direcção errada para conseguir uma passagem mais fácil. Todas as
cordilheiras, todas as elevações, todos os desfiladeiros, iam de oriente para
ocidente e, apesar de ser muito mais fácil fazer o caminho pelo lado oriental
do lago Matiane - um lago enorme. A única passagem existente nas montanhas
obrigava a descer pelas encostas ocidentais, o que levaria a ultrapassar muitas
cordilheiras, para cima e para baixo. Na extremidade sul do lago o exército
teria que virar para leste antes de poder virar e descer sobre Fraaspa; uma
outra cordilheira com picos altíssimos, de quatro mil e quinhentos metros de
altitude, ou mais, erguia-se para ocidente.
Dezasseis legiões, dez mil cavaleiros gauleses, cinquenta mil soldados
estrangeiras, tanto montados como a pé, e dezasseis mil catafractários arménios
- cento e quarenta mil homens - iniciaram a marcha. Mais de cinquenta mil deles
iam a cavalo. Nem mesmo Alexandre, o Grande, comandara uma multidão daquelas,
pensou António exultante, absolutamente certo de que nenhuma força do mundo o
poderia derrotar. Mas que aventura e que empreendimento colossal! Conseguiria
finalmente eclipsar César.
Encontraram o comboio das bagagens com uma brevidade desapontante; ainda não
atravessara a passagem na montanha que levava ao lago Matiane o que significava
que ainda teria que percorrer seiscentos e quarenta quilómetros. Apesar de
Canídio ter insistido com António para que abrandasse o passo e se mantivesse a
uma distância mais curta do comboio das bagagens, António recusou. Com alguma
justificação; se avançasse ao ritmo do comboio das bagagens, chegaria demasiado
tarde a Fraaspa para a tomar antes do Inverno, mesmo que a cidade não
oferecesse muita resistência. Além disso estavam a avançar bem, apesar das
constantes subidas e descidas das montanhas. António contentou-se enviando uma
mensagem a Estatiano, ordenando-lhe que separasse alguns dos elementos do
comboio e tentasse avançar mais depressa, aliviando a carga dos carros mais
adequados a um avanço rápido.
A mensagem nunca chegou a Estatiano. Sem que os batedores ou as equipas
avançadas o soubessem, Artavasdes da Média unira forças com Monaeses; quarenta
mil catafractários e arqueiros montados seguiam o mesmo caminho dos romanos à
distância suficiente para não serem avistados. Quando o comboio das bagagens
atravessou a passagem que descia do lago Matiane, os carros vinham numa única
fila graças à pouca largura da estrada de muito má qualidade e Estatiano
decidiu mantê-los assim, em fila, até o terreno ficar um pouco mais plano.

301

Dez mil catafractários medos atacaram todas as secções do comboio em


simultâneo. Com as comunicações desfeitas, Estatiano não sabia o que se estava
a passar onde nem quando e não podia enviar as suas duas legiões com nenhum
grau de certeza. Enquanto ele hesitava, os seus homens eram massacrados e os
que sobreviveram ao ataque foram massacrados logo de seguida, para garantir que
António não faria ideia do que acontecera aos seus abastecimentos. E que saque!
No espaço de um dia todas as carroças seguiam já para norte e para leste para a
Média Atropatene, que ficava bem desviada do caminho de António. O seu exército
dispunha agora das provisões que levava consigo, para um mês, e não tinha
qualquer artilharia nem equipamento de cerco.
Tendo atingido esse objectivo, Monaeses levou o destacamento parto, uma força
de trinta mil homens, em perseguição de António, mas sem o atacar. Estava agora
na posse das duas águias de prata das legiões de Estatiano para juntar às nove
que já havia em Ecbátana: sete de Crasso e agora quatro de António.
António, ignorando tudo isto, chegou intacto a Fraaspa e descobriu que a cidade
estava longe de ser o local grosseiro construído com tijolos de barro que
imaginara; era uma cidade do tamanho de Ataleia ou Trales, protegida por
enormes bastiões de pedra e equipada com vários portões imponentes. Um olhar
bastou para que António percebesse que teria que lhe montar um cerco. Dispôs
então o exército para encurralar os habitantes no interior das muralhas,
sentindo-se muito aliviado com o facto de os campos em torno de Fraaspa estarem
cobertos de espigas de trigo maduras que nenhum parto se lembrara de queimar,
assim como milhares de ovelhas gordas. Teriam o que comer.
Os dias sucediam-se sem sinais do comboio das bagagens.
- Raios partam Estatiano, onde estará ele? - perguntava António, consciente de
que um em cada dois dos grupos enviados para recolher provisões não regressava.
- Vou tentar localizá-lo - disse Polémon que decidira acompanhar os seus
fundibulários. Partiu com mil soldados de cavalaria ligeira, acenando
atrevidamente aos partos posicionados nas muralhas de Fraaspa, absolutamente
confiante em António e no seu magnífico exército.
Os dias sucederam-se e Polémon não regressava.
Sem árvores para cortar, era apenas o número de romanos que mantinha os
habitantes da cidade no interior das suas fortificações; era evidente que a
cidade estava bem fornecida e que tinha fontes de abastecimento de água. Seria
um cerco longo e lento. O mês de Julius viera e partira e Sextilis ia pelo
mesmo caminho e continuava a não haver sinais das bagagens. Oh, o que daria
pelo aríete de vinte e cinco metros! Teria desfeito em pedaços os portões de
Fraaspa.
- Reconhece-o, António - disse Públio Canídio quando o exército já estava
acampado às portas de Fraaspa havia setenta dias -, o comboio das bagagens não
chega porque já não existe.

302

Não temos madeira para construir torres de cerco, nem catapultas, nem balistas
nem nada. Até agora já perdemos vinte e cinco mil soldados estrangeiros
enviados em busca de provisões e hoje recebi a primeira recusa de sair daqui da
parte de cilícios, judeus, sírios e capadócios. É evidente que são menos vinte
e cinco mil bocas para alimentar, mas não estamos a conseguir trazer comida
suficiente dos campos para manter corpos e moral em boas condições durante
muito mais tempo. Algures para lá do alcance dos nossos batedores, pelo menos
daqueles que conseguem regressar, está um exército parto a fazer o mesmo que
Fábio Máximo fez a Aníbal.
António sentia-se, por aqueles dias, como se tivesse a barriga cheia de chumbo,
um sintoma que não podia ignorar pois sabia o que significava: o reconhecimento
da derrota. As muralhas escuras de Fraaspa riam-se dele e sentia-se perdido,
tão impotente na realidade como se sentira, premonitoriamente, durante muitos
meses. Anos mesmo. E tudo levara àquilo: ao falhanço. Seria por isso que a
melancolia se apossara dele? Porque perdera a sua sorte? E onde estava o
inimigo? Porque não o atacavam os Partos se lhe tinham roubado os seus
abastecimentos? E um receio ainda pior e mais horrendo invadiu-o: não lhe ia
ser dada sequer a oportunidade de travar batalha, de morrer gloriosamente no
campo de batalha, tal como Crasso morrera, redimindo nas suas últimas horas
todos os erros tremendos de uma campanha mal planeada. Era essa a única razão
de o nome de Crasso ser pronunciado respeitosamente e com pena por a sua cabeça
cega ter sido exposta nas muralhas de Artaxata. Mas o nome de António? Quem o
recordaria se não houvesse uma batalha?
- Eles não tencionam atacar-nos enquanto aqui estivermos, pois não? - perguntou
a Canídio.
- É essa a minha interpretação, Marco - disse Canídio não deixando transparecer
na voz a compaixão que sentia; ele sabia o que António estava a pensar.
- E eu também tenho a mesma interpretação - disse Aenobarbo de cenho franzido.
- Não nos vão dar batalha, querem que morramos lentamente e de causas mais
mundanas que os golpes das espadas. Também tivemos um traidor no nosso seio
para lhes contar tudo: Monaeses.
- Oh, não quero que isto acabe assim! - gritou António ignorando a referência a
Monaeses. - Preciso de mais tempo! Fraaspa não pode estar a viver com rações
completas, nenhuma cidade tem tanta comida no interior das suas muralhas, nem
mesmo Ílio! Se persistirmos um pouco mais, acho que Fraaspa se renderá.
- Podíamos invadi-la - disse Marco Tício.
Ninguém se deu ao trabalho de lhe responder; Tício era um questor, jovem e tolo
e disposto a tudo.
António ficou sentado na sua cadeira curul a olhar para longe com o rosto quase
absorto. Finalmente acordou do seu devaneio e olhou para Canídio.
- Quanto tempo mais nos conseguiremos aguentar aqui, Públio?

303

- Estamos no início de Setembro. No máximo mais um mês e isso já será de mais.


Se não penetrarmos as muralhas de Fraaspa antes do Inverno, então teremos que
retirar para Artaxata pelo mesmo caminho que viemos. Oitocentos quilómetros. Os
legionários conseguirão percorrê-los em trinta dias, se forem pressionados, mas
a maior parte das tropas auxiliares que nos restam estão apeadas e não
conseguirão, nem de perto nem de longe, acompanhar esse ritmo. O que significa
dividir o exército para preservar as legiões. Os cavaleiros gauleses que
sobreviveram às missões de abastecimento sair-se-ão bem... ainda deverá haver
pastagens. A não ser que milhares de catafractários as tenham transformado em
lama e terra. Como bem sabes, António, sem batedores andamos às apalpadelas
como cegos no meio de uma basílica.
- Pois somos. - António fez um sorriso irónico. - Dizem que Pompeu Magno voltou
para trás a três dias do mar Cáspio por não suportar as aranhas, mas eu
aceitaria de bom grado um milhão das aranhas maiores e mais peludas que se
possam imaginar, em troca de um relatório fidedigno sobre aquilo que nos espera
se decidirmos retirar.
- Eu vou - disse Tício entusiasticamente. Os outros fitaram-no.
- Se os batedores arménios não regressaram, Tício, porque achas que tu
regressarias? - perguntou António; ele gostava de Tício que era sobrinho de
Planco e tentou recusar a sua oferta com brandura. - Não, agradeço a oferta mas
temos que continuar a enviar arménios. Mais ninguém conseguiria sobreviver.
- Mas esse é o problema! - disse Tício veementemente. - Eles são o Inimigo,
Marco António, digam lá o que disserem que são. Todos sabemos que os Arménios
são tão traidores como os Medos. Deixa-me ir! Prometo que terei cuidado.
- Quantos homens queres levar?
- Nenhum, Públio Canídio. Só eu num cavalo nativo. Um da cor dos campos. Usarei
calças e casaco de pele de cabra e também me confundirei com a paisagem. E
talvez leve comigo uma dúzia de cavalos nativos para parecer um criador de
cavalos ou um condutor de cavalos ou coisa do género.
António riu-se e bateu nas costas de Tício.
- Porque não? Sim, Tício, vais! Mas... volta. - Conseguiu sorrir abertamente.
-Tens que voltar! O único questor que conheci que era pior do que tu a somar
números foi Marco António, mas esse servia um amo mais exigente: César.
Nenhum dos elementos da tenda de comando estava presente quando Marco Tício
iniciou a sua missão pois nenhum queria conservar a memória do seu rosto
animado e sardento para o futuro, como sendo mais do que a de um questor
incapaz, Tício, que estivera encarregado das finanças do exército e era
absolutamente incapaz de cuidar das suas próprias finanças.

304

Ele já partira havia um nundinum quando o vento mudou de direcção e começou a


soprar de norte. Com ele veio a chuva e o granizo. E nesse dia alguns dos
sitiados de Fraaspa assaram um borrego em cima das muralhas, o odor da carne
assada flutuando sobre o acampamento enorme espalhado pela planície; era uma
forma de comunicar aos sitiantes que Fraaspa tinha imensa comida para o Inverno
e que não se renderia.
António convocou um conselho de guerra, não uma reunião dos seus íntimos mas um
encontro que incluía todos os seus legados e tribunos, os primipilus e os
centuriões pilus prior - um total de sessenta homens. Era o tamanho ideal para
a comunicação pessoal; podia ser ouvido por todos sem o incómodo de ter arautos
a transmitir repetidamente aquilo que dizia. Os convocados para a reunião
trocaram olhares carregados de significado: não havia estrangeiros presentes.
Era uma reunião das legiões e não do exército.
- Sem os equipamentos de cerco não poderemos tomar Fraaspa - começou António -,
e a pequena exibição de hoje significa que os habitantes da cidade continuam a
comer bem. Iniciámos este cerco há cem dias e recolhemos tudo o que havia para
recolher nos campos à volta, mas pagámos um preço: a perda de dois terços das
tropas auxiliares de cavalaria. - Respirou fundo e tentou parecer severo e
resoluto, o general em controlo absoluto de si próprio bem como da situação. -
Chegou a hora de partir, rapazes - disse. - Percebemos, pelo tempo que fez
hoje, que aqui se passa directamente do Verão para o Inverno no último dia de
Setembro. Amanhã, nas Calendas de Outubro, marchamos para Artaxata. Uma coisa
para que os locais não estão preparados é para a velocidade com que as legiões
se movimentam. Quando eles se levantarem amanhã de manhã, tudo o que restará da
nossa presença serão as fogueiras. Dêem ordens aos homens para que carreguem
rações de cereais para um mês: as mulas das centúrias devem ser usadas para o
transporte da comida e da lenha e as que puxam os carros serão transformadas em
animais de carga. O que não pudermos levar às costas ou no dorso das mulas será
deixado para trás. Alimentos e combustíveis vão, o resto fica.
A maioria já esperava aquele anúncio, mas ninguém gostou de o ouvir. Todavia
havia uma coisa de que António podia estar certo: aqueles homens eram romanos e
não se lamentariam da sua sorte frente aos auxiliares, que eram tolerados mas
nunca estimados.
- Centuriões, entre este momento e a primeira luz da aurora, todos os
legionários têm que ficar a saber qual a situação e compreender o que têm que
fazer para sobreviver à marcha. Não faço ideia do que nos espreita lá adiante à
espera da nossa retirada, mas as legiões romanas não desistem e não desistirão
nesta marcha que se aproxima. O terreno fará com que levemos cerca de um mês a
chegar a Artaxata, especialmente se a chuva e o granizo continuarem. Estes
trarão lama e temperaturas geladas.

305

Todos os homens deverão tirar as meias de dentro das mochilas... se tiverem


meias de pele de coelho ou de furão melhor. Manterem-se secos vai ser uma parte
importante da batalha, pois essa batalha será a única que teremos, rapazes. Os
partos estão lá adiante e usam as tácticas fabianas: atacam aqueles que se
desviam da coluna, mas não nos atacarão em massa. O pior de tudo é que não há,
daqui a Artaxata, madeira suficiente nem para acendalhas, portanto não haverá
fogueiras para nos aquecermos. Qualquer homem que queime a sua estaca, partes
da armadura ou o cabo do pilum será chicoteado e decapitado... poderemos
precisar desses utensílios para nos defendermos dos ataques dos partos. E
também não poderemos confiar nos recrutas estrangeiros, incluindo os arménios.
As únicas tropas que Roma espera que preservemos são as suas legiões.
Fez-se um curto silêncio quebrado por Canídio.
- Marchamos em formação, António? - perguntou.
-Agmen quadratum onde o terreno for suficientemente plano, Canídio, e onde não
for, marcharemos em quadrado na mesma. Não me interessa quão estreito seja o
caminho, nunca marcharemos em fila e todos misturados, compreendido?
Ouviram-se murmúrios generalizados.
A boca de Aenobarbo estava aberta para fazer outra pergunta quando o perímetro
do grupo se agitou; alguns homens desviaram-se para dar passagem a Marco Tício
até ao local onde António se encontrava, os rostos contorcidos em sorrisos e
alguns dando palmadas nas costas do jovem questor.
- Tício, seu cão! - gritou António deliciado. - Encontraste os Partos? Qual é
verdadeiramente a situação?
- Sim, Marco António, encontrei-os - disse Tício com uma expressão sombria. -
Quarenta mil deles comandados pelo nosso amigo Monaeses. Vi-o claramente em
várias ocasiões e ele andava por lá a cavalo com uma couraça dourada e tinha
uma tiara no capacete. Um príncipe parto com pelo menos a importância de
Pácoro, a julgar pela descrição de Ventídio.
Desta vez as novidades sobre Monaeses não foram uma surpresa, nem mesmo para
António que fora o seu maior apoiante. O rei Fraates enganara-os e pusera um
traidor no seu seio.
- A que distância estão eles? - perguntou Fonteio.
- A cerca de cinquenta quilómetros e exactamente entre nós e Artaxata.
- Catafractários? Arqueiros montados? - perguntou Canídio.
- Ambos, mas mais arqueiros montados. - Tício fez um pequeno sorriso. - Suponho
que devem ter falta de catafractários depois da campanha de Ventídio... uns
cinco mil, não mais. Mas têm hordas de arqueiros. É um exército inteiramente
composto por cavalaria e saíram-se muito bem na destruição do solo... com esta
chuva os nossos soldados vão ficar atolados em lama. - Calou-se e olhou
interrogativamente para António. - Pelo menos deduzo que estejamos a planear
partir?

306

- E estamos mesmo. Chegaste mesmo à justa, Tício. Se chegasses um dia mais


tarde já teríamos partido.
- Mais alguma coisa a comunicar? - perguntou Canídio.
- Apenas que eles não agem como guerreiros a sentir o cheiro da batalha. Agem
mais como uma força determinada a manter-se na defensiva. Oh, atacar-nos-ão.
Mas a não ser que Monaeses seja melhor general do que penso que é, após tê-lo
visto a pavonear-se a cavalo de um lado para o outro com ares importantes,
deveremos ser capazes de rechaçar tudo o que lancem contra nós desde que
sejamos avisados a tempo.
- Não vamos precisar de aviso, Tício - disse Aenobarbo. - Marcharemos agmen
quadratum e, quando não pudermos fazê-lo, marcharemos em quadrado.
O encontro acalmou com a discussão da logística - qual das catorze legiões
deveria partir primeiro, qual deveria partir em último, com que frequência os
homens nas fileiras exteriores dos quadrados deveriam descansar passando para o
interior e sendo substituídos, qual a dimensão adequada aos quadrados, quantas
mulas de carga poderiam ir no interior dos quadrados mais pequenos - mil e uma
decisões que tinham que ser tomadas antes que o primeiro pé calçado de meia e
coliga iniciasse a sua marcha.
Finalmente Fonteio fez a pergunta que ninguém fizera.
- António, os auxiliares. Trinta mil soldados de infantaria. Que lhes vai
acontecer?
- Se conseguirem acompanhar-nos podem formar a nossa retaguarda... em quadrado.
Mas eles não vão conseguir acompanhar-nos, Fonteio, todos nós sabemos disso. Os
olhos de António ficaram húmidos. - Lamento muito e, enquanto triúnviro para o
Oriente, sou responsável por eles, mas as legiões têm que ser preservadas a
qualquer custo. Engraçado, passo a vida a pensar que temos dezasseis, mas é
claro que não temos. As duas de Estatiano há muito que se foram.
- Incluindo os não-combatentes, oitenta e quatro mil homens. O suficiente para
formar uma frente formidável enquanto for possível marcharem agmen. Temos
quatro mil cavaleiros gauleses e mais quatro mil gálatas para nos proteger os
flancos, mas se não há muitas pastagens, vão ter problemas antes de termos
feito metade do caminho - disse Canídio.
- Manda-os na frente António - disse Fonteio.
- Para destruírem ainda mais o terreno? Não, eles vão connosco a proteger-nos
os flancos. Se não conseguirem haver-se com os arqueiros e catafractários que
Monaeses lançar contra eles, ao menos poderão vir para o interior dos
quadrados. Os meus cavaleiros gauleses, em particular, são muito preciosos para
mim, Fonteio. Ofereceram-se como voluntários para esta campanha que fica a meio
mundo de distância da casa deles - disse António e ergueu as mãos. - Muito bem,
podem ir. Marchamos à primeira luz do dia e quero toda a gente já na estrada ao
nascer do sol.

307

- Os homens não vão ficar satisfeitos com a retirada - disse Tício.


- Sei muito bem disso! - disse António bruscamente. - E é por isso mesmo que
tenciono armar-me em César. Irei a todas as colunas falar pessoalmente com os
homens, nem que isso me leve um nundinum.
Agmen quadratum era uma formação que permitia a um exército de grandes
dimensões dispor-se em colunas no terreno, numa frente larga e a postos para,
em poucos minutos, girar e assumir posições de combate. Também permitia a
formação muito rápida dos quadrados. Aquele era o momento em que até o mais
burro dos soldados percebia a razão de ser dos dias, meses e até anos, de
treinos implacáveis; as manobras tinham que ser respostas automáticas que não
exigiam qualquer reflexão.
Com a infantaria auxiliar a seguir na frente de um quilómetro e meio de
largura, a retirada começou em boa ordem, apesar de fustigada por um agreste
vente do norte que gelava a lama e a transformava num campo cheio de bicos
aguçados e cortantes como facas - escorregadio, difícil, flagelante.
O melhor que as legiões conseguiam fazer era trinta e dois quilómetros por dia,
mas mesmo esse ritmo era demasiado para os auxiliares. Ao terceiro dia, com
António ainda a visitar as colunas e a dizer piadas e a prever vitórias para o
ano seguinte, agora que já sabiam aquilo que os esperava, Monaeses e os Partos
atacaram a retaguarda com os arqueiros a trespassar vários homens numa única
investida. Poucos morreram, mas aqueles que estavam demasiado feridos para
conseguirem acompanhar os restantes foram deixados para trás; quando chegaram à
vastidão das águas do lago Matinae, que se agitava como um mar, com excepção de
uma mão-cheia, as tropas auxiliares tinham desaparecido; se tinham sido
executados pelos partos ou capturados para uma vida de escravidão ninguém
sabia.
O moral mantinha-se surpreendentemente bom até o terreno se tornar tão íngreme
que as colunas tiveram que ser transformadas em quadrados. Apesar de, sempre
que tal era possível, António manter os quadrados do tamanho de coortes, o que
significava seis centúrias de homens marchando em filas de quatro em torno dos
quatro lados dos quadrados, com os escudos das fileiras exteriores virados para
fora formando uma barreira protectora semelhante à da formação em tartaruga. No
interior do quadrado iam os não-combatentes, as mulas e a pequena parte da
artilharia que viajara desde o início com as centúrias - escorpiões que
disparavam dardos de madeira e catapultas muito pequenas. Quando atacado, um
quadrado virava todas as suas fileiras para fora, a fileira mais recuada de
soldados empunhando longas lanças de cerco para atacar as barrigas dos cavalos
persuadidos a saltar para o interior - algo que Monaeses não parecia preparado
para fazer. Se os catafractários eram escassos nas terras partias devido ao
velho Ventídio, os cavalos grandes ainda levavam mais tempo a criar.

308

Os dias sucediam-se a um ritmo deprimente, entre vinte e sete e trinta


quilómetros por dia para cima e para baixo, para cima e para baixo, com toda a
gente já perfeitamente consciente dos partos que os perseguiam. Iniciaram-se as
escaramuças entre as cavalarias gaulesa e gaiata e os catafractários, mas o
exército continuava a avançar em boa ordem e num estado de espírito razoável.
Até que, ao subirem os picos ainda mais altos, com três mil e quinhentos metros
de altitude, foram atingidos por uma tempestade de neve e vento como não havia
em terras italianas. A neve cegava, como uma parede branca e opaca, os ventos
uivavam e o terreno abatia debaixo dos pés, deixando os homens atolados até à
cintura em gelo fino como pó de cristal.
Quanto mais as condições pioravam, mais alegres se tornavam António e os seus
legados, distribuindo entre si secções do exército, animando os homens,
dizendo--lhes como eram valentes, resistentes e determinados. Os quadrados
estavam reduzidos a manípulos com uma profundidade de apenas três homens.
Depois da passagem, teriam que voltar aos quadrados de centúria, mas nem
António nem ninguém achava que aquela passagem fosse um local provável para um
ataque - não havia espaço.
O pior de tudo era que apesar de a mochila de cada legionário conter perneiras
quentes, meias, o maravilhoso sagum circular à prova de água e cachecóis, mesmo
assim os homens gelavam por não se poderem aquecer a uma fogueira. Com dois
terços da marcha já percorrida, o exército esgotara o seu bem mais precioso: o
carvão. Ninguém podia cozer pão nem fazer sopa de ervilha; os homens
arrastavam-se agora roendo grãos crus de trigo, o seu único alimento. A fome,
as queimaduras do gelo e as doenças começaram a grassar com tal gravidade que
nem mesmo António conseguia animar o mais optimista dos seus soldados, que
resmungavam sobre a morte na neve e de nunca mais voltarem a ver a civilização.
- Faz-nos só sair desta passagem! - gritou António para Ciro, o seu guia
arménio. - Guiaste-nos com competência durante dois nundinae: não me
desapontes, Ciro, suplico-te!
- Não te desapontarei, Marco António - disse o homem num grego atroz. - Amanhã
os primeiros quadrados começarão a sair e depois sei onde poderemos encontrar
carvão. - O seu rosto ficou mais sombrio. - Embora te deva avisar, Marco
António, de que não deves confiar no rei da Arménia. Ele manteve-se sempre em
contacto com o irmão, na Média, e ambos são seguidores do rei Fraates. Receio
que o teu comboio das bagagens tenha sido uma tentação demasiado grande.
Desta vez António deu-lhe ouvidos; ainda faltava percorrer cento e sessenta
quilómetros até Artaxata e o humor das legiões não parava de piorar,
precipitando-se no sentido da insurreição.

309

- Até mesmo do motim - disse António a Fonteio quando tinha metade das tropas
de um lado das montanhas e a outra metade ainda a atravessá-las ou à espera de
as atravessar. - Nem me atrevo a mostrar a cara.
- Isso é verdade para todos nós - respondeu Fonteio desanimadamente. - Há sete
dias que comem trigo cru, têm os dedos pretos e a cair, assim como os narizes.
Terrível! E culpam-te a ti, Marco... a ti e só a ti. Os descontentes dizem que
nunca deverias ter perdido de vista o comboio das bagagens. .
- Eu não sou verdadeiramente a razão - disse António fatigadamente -, é este
pesadelo de campanha infrutífera, que não os deixou provar o que valem no campo
de batalha. Na opinião deles a única coisa que fizeram foi ficar sentados num
acampamento durante cem dias a olhar para uma cidade que lhes mostrava o
medicus. Vão levar no cu, romanos! Acham que são bons? Bem, não são.
Compreendo... - Calou-se quando Tício entrou apressado e parecendo assustado.
- Marco António, correm rumores de motim!
- Diz-me alguma coisa que eu não saiba, Tício.
- Não, mas isto é sério! Será esta noite ou amanhã ou então esta noite e
amanhã. Estão envolvidas pelo menos seis legiões.
- Obrigado, Tício, agora vai tratar da contabilidade, somar quanto devemos aos
soldados ou coisa do género... qualquer coisa!
E lá se foi Tício, incapaz, por uma vez, de encontrar uma solução.
- Será esta noite - disse António.
- Sim, concordo - disse Fonteio.
- Ajudas-me a cair sobre a espada, Gaio? Uma das coisas mais irritantes de ter
o peito e os braços tão musculados é que me cortam o alcance. Não consigo
agarrar com firmeza suficiente o punho da espada para desferir um golpe com a
força e profundidade necessárias.
Fonteio não discutiu.
- Sim - disse.
Ficaram os dois abrigados numa pequena tenda de cabedal à espera que o motim
rebentasse. Para António, já devastado, aquele era o fim adequado para a pior
campanha que algum general romano fizera, desde que Carbão fora feito em
pedaços pelos Germanos Cimbros ou que o exército de Cipião morrera em Aráusio,
ou - a mais horrenda de todas - a campanha em que Paulo e Varrão tinham sido
aniquilados por Aníbal, em Canas. Nem um único facto brilhante para iluminar o
abismo da derrota total! Ao menos os exércitos de Carbão, Cipião, Paulo e
Varrão tinham morrido a combater! Enquanto que ao seu grande exército não fora
dada a mínima oportunidade de mostrar o seu valor - nenhuma batalha, apenas
impotência.
Não posso culpar os meus soldados por se amotinarem, pensou António sentado com
a espada desembainhada no colo, pronta. Impotência. É o que eles sentem tanto
como eu.

310

Como poderão falar aos netos da expedição de Marco António à Partia Média sem
cuspir na sua memória? Uma expedição maltrapilha, descomposta, totalmente
destituída de orgulho ou distinção. Miles gloriosus, foi o que António foi. O
soldado vanglorioso. O material perfeito para uma farsa. Exibindo-se, dando-se
ares, cheio de si e da sua importância. Mas com sucessos tão ocos como ele
próprio. Uma caricatura de homem e um falhanço enquanto general. António, o
Grande. Ah!
E depois o motim desfez-se no ar rarefeito da passagem montanhosa como se os
legionários nunca o tivessem discutido. A manhã assistiu à passagem contínua
dos homens pela montanha e, a meio da tarde, a passagem ficara para trás.
António foi buscar algures a força necessária para se misturar com os homens,
fingindo que pelo menos ele nunca ouvira falar em motins.
Vinte e sete dias depois de terem levantado o acampamento em Fraaspa, as
catorze legiões e uma mão-cheia de cavaleiros chegaram a Artaxata, as barrigas
cheias com um pouco de pão e tanta carne de cavalo quanta conseguiam engolir.
Ciro, o guia, indicara a António onde poderia roubar carvão suficiente para
cozinhar.
A primeira coisa que António fez quando chegou a Artaxata foi dar a Ciro, o
guia, um saco de moedas e dois bons cavalos e enviá-lo a galope pelo caminho
mais rápido para sul. A missão de Ciro era urgente - e secreta, especialmente
no que dizia respeito a Artavasdes. O destino dele era o Egipto onde deveria
pedir uma audiência à rainha Cleópatra; as moedas que António lhe dera,
cunhadas em Antioquia no Inverno anterior, seriam o seu passaporte para chegar
à rainha. Levava instruções para lhe implorar que viesse a Leuke Kome trazendo
auxílio para as tropas de António. Leuke Kome era um pequeno porto perto de
Berito na Síria, um local muito mais discreto do que portos como o de Berito,
Sídon ou Jope. Ciro partiu grato e veloz; permanecer na Arménia após a partida
dos romanos equivaleria a uma sentença de morte, pois guiara os romanos com
competência e não era isso o que o Artavasdes arménio tivera em mente. Os
romanos deveriam ter vagueado, ter-se perdido, sem comida nem combustível, até
morrerem todos até ao último homem.
Mas com catorze fortes legiões confortavelmente acampadas nos arredores de
Artaxata, o rei Artavasdes não tivera alternativa senão ser agradável e
implorar a António que passasse ali o Inverno. Sem acreditar numa única palavra
do que Artavasdes dizia, António recusou-se a demorar-se por ali. Obrigou o rei
a abrir os celeiros e depois, devidamente abastecido, continuou a marcha para
Carana, enfrentando tempestades e neve. Os legionários, que pareciam já se ter
habituado, percorreram aqueles últimos trezentos quilómetros muitíssimo
animados por agora já poderem fazer fogueiras durante a noite. A madeira também
era escassa na Arménia, mas os arménios de Artaxata não se tinham atrevido a
discutir quando os soldados romanos caíram sobre as suas pilhas de lenha e as
confiscaram. A ideia de os arménios poderem morrer de frio não comoveu
minimamente os romanos. Eles tinham marchado a mastigar grãos crus de trigo
devido às traições orientais.

311

António chegou a Carana, o ponto de onde a expedição partira nas anteriores


Calendas de Maio, a meio do mês de Novembro. Todos os seus legados tinham
testemunhado a má disposição e a confusão, mas só Fonteio sabia o quão perto
António estivera do suicídio. Sabendo-o, mas sentindo relutância em fazer
confidências a Canídio, Fonteio assumiu a responsabilidade de persuadir António
a continuar para sul até Leuke Kome. Lá chegado poderia, caso fosse necessário,
enviar nova mensagem a Cleópatra.
Mas primeiro, António foi obrigado a saber o pior pela boca do inflexível
Canídio. A relação deles não fora amigável, pois Canídio apercebera-se do
caminho que a campanha levava bem no seu início e fora a favor da retirada
imediata. E também não aprovara a forma como fora formado e conduzido o comboio
das bagagens. Contudo tudo isso fazia parte do passado e ele fizera as pazes
consigo próprio e com as suas ambições. O seu futuro era junto de Marco
António, acontecesse o que acontecesse.
- O recenseamento está completo e foi entregue, António - disse ele
amargamente. - Das tropas auxiliares de infantaria, uns trinta mil soldados,
não sobreviveu nenhum. Da cavalaria gaulesa, sobreviveram seis de dez mil, mas
os cavalos foram-se. Todos abatidos para comer nos últimos cento e sessenta
quilómetros. Das dezasseis legiões, duas, as de Estatiano, desapareceram e o
seu destino é desconhecido. As outras catorze sofreram baixas pesadas mas não
mortais, a maior parte devido a queimaduras de gelo. Os homens que ficaram sem
dedos dos pés terão que ser retirados e enviados para casa de carroça. Não
podem marchar sem dedos dos pés. O sagum salvou todavia a maior parte dos dedos
das mãos. Todas as legiões, com excepção das duas de Estatiano, estavam na
máxima força, tinham quase cinco mil soldados e mais de um milhar de não-
combatentes. Agora todas as legiões têm menos de mil soldados e talvez uns
quinhentos não-combatentes. - Canídio respirou fundo e desviou os olhos do
rosto de António. - Estes são os números: tropas auxiliares de infantaria,
trinta mil; tropas auxiliares de cavalaria, dez mil e vinte mil cavalos. Dos
legionários, catorze mil não voltarão a combater e mais os oito mil de
Estatiano. E não-combatentes, nove mil. Um total de setenta mil homens e vinte
mil cavalos. Vinte e dois mil destes homens são legionários. Metade do
exército, se bem que não a melhor metade. Não estão, de forma alguma, todos
mortos, mas é como se estivessem.
- Parecerá melhor - disse António com a boca a tremer -, se dissermos que um
terço está morto e um quinto incapacitado. Oh, Canídio, perder tantos homens
sem travar uma batalha! Nem sequer posso reivindicar Canas.

312

- Pelo menos ninguém foi feito escravo, António. Não é uma desgraça, é
simplesmente um desastre devido ao mau tempo.
- O Fonteio diz que devo continuar até Leuke Kome para aguardar a rainha,
enviar-lhe outra mensagem se necessário.
- Bem pensado. Vai, António.
- Traz o exército da melhor maneira que puderes, Canídio. Meias de pele ou de
cabedal para toda a gente e, se encontrares tempestades de neve, espera que
passem num bom acampamento. Junto ao Eufrates estará um pouco mais quente,
suponho. Mas mantém-nos em movimento e promete-lhes um passeio nos Campos
Elísios quando chegarem a Leuke Kome: sol quente, imensa comida e todas as
prostitutas que eu conseguir encontrar na Síria.
Clemente tinha tido o mesmo destino de todos os cavalos quando aparecera
carvão, depois da passagem da montanha e de Artaxata. Com as pernas penduradas
e os pés quase a arrastar pelo chão, António partiu de Carana montado num
cavalo nativo, acompanhado por Fonteio, Marco Tício e Aenobarbo.
Chegou a Leuke Kome um mês depois, e encontrou o pequeno porto espantado com a
sua chegada; Cleópatra não viera nem chegara nenhuma notícia do Egipto. António
enviou Tício para Alexandria mas com poucas esperanças; ela não quisera que ele
fizesse aquela campanha e não era mulher de perdoar. Não lhe daria ajuda, nem
dinheiro para remendar o que restava das suas legiões e, enquanto que para ele
era um feito considerável ter conseguido trazer as legiões dizimadas mas não
aniquiladas, era mais provável que ela chorasse a perda das tropas auxiliares.
A depressão abateu-se sobre ele e transformou-se num desespero tão profundo,
que António se virou para a garrafa do vinho, incapaz de enfrentar as imagens
do frio gelado, dos dedos dos pés apodrecidos, da ameaça de motim naquela noite
terrível, de fileira após fileira de rostos cheios de raiva, de cavaleiros
odiando-o pela perda dos seus amados cavalos, das suas próprias decisões
patéticas, sempre erradas e sempre desastrosas. Ele, e só ele, carregava a
culpa de tantas mortes e de tanta miséria humana. Oh! Era insuportável! Por
isso bebeu até esquecer e continuou a beber.
Vinte ou trinta vezes por dia cambaleava para fora da tenda, com o copo a
transbordar numa das mãos, cobria a pequena distância que o separava da costa,
aos tropeções, e ficava a olhar para a distância, para o porto onde não se viam
velas nem navios.
- Ela virá? - perguntava a quem estivesse por perto. - Ela virá? Ela virá? -
Pensavam que estava louco e fugiam assim que o viam emergir da tenda. Quem é
que virá?
De regresso ao interior da tenda bebia um pouco mais e depois saía novamente:
- Ela virá? Ela virá?

313

Janeiro deu lugar a Fevereiro e depois Fevereiro chegou ao fim e ela não veio
nem enviou uma mensagem. Não chegou nada de Ciro nem de Tício.
Finalmente, as pernas de António deixaram de conseguir suportar o seu peso;
balouçava-se sobre o jarro do vinho na tenda e tentava dizer "Ela virá?" a quem
quer que entrasse.
- Ela virá? - perguntou ele assim que a cortina da tenda se levantou no início
de Março, um balbucio incoerente para quem não soubesse, devido à longa
experiência, aquilo que tentava dizer.
- Ela está aqui - disse uma voz suave. - Ela está aqui, António.
Sujo e fedorento, António lá conseguiu levantar-se; caiu de joelhos e ela
deixou-se cair a seu lado, aninhando-lhe a cabeça contra o peito enquanto ele
chorava, chorava.
Ela estava horrorizada, se bem que essa fosse apenas uma palavra; não conseguia
sequer começar a descrever as emoções que fervilhavam na mente de Cleópatra e
devastavam o seu corpo durante os dias que se seguiram, enquanto conversava com
Fonteio e com Aenobarbo. Depois de António ter chorado até adormecer e poder
ser lavado, deitado numa cama mais confortável do que a cama de campanha, o
doloroso processo de o pôr sóbrio e de o fazer passar sem o vinho testou todos
os limites do engenho de Cleópatra. Devido ao seu estado de espírito não era um
doente fácil: recusava-se a falar, irava-se quando lhe recusavam vinho e
parecia arrepender--se de alguma vez ter desejado a presença de Cleópatra.
Por isso tiveram que ser Fonteio e Aenobarbo a falar com ela, o primeiro
muitíssimo disposto a ajudar em tudo o que estivesse ao seu alcance, o segundo
não fazendo qualquer esforço para disfarçar o desagrado e o desprezo que nutria
por ela. Por isso tentou dividir os horrores que lhe contaram por fases, na
esperança de que, ao abordar as coisas com lógica e sequencialmente, pudesse
ver mais claramente uma forma de curar Marco António. Se ele ia sobreviver,
tinha que ser curado!
De Fonteio recebeu o relato completo da campanha condenada, incluindo da noite
em que o suicídio parecera a única alternativa. Das tempestades de vento e
neve, do gelo e dos homens atascados em neve até às virilhas, não tinha
qualquer compreensão, pois só vira a neve nos dois Invernos que passara em Roma
e que, segundo lhe tinham garantido na época, não haviam sido rigorosos; o
Tibre não gelara e os pequenos nevões foram encantadores, criando um mundo
completamente silencioso e coberto de branco. Nada, adivinhou, que pudesse ser
comparado com a retirada de Fraaspa.
Aenobarbo concentrou-se em fazer-lhe descrições gráficas, dos pés e narizes a
apodrecerem devido às queimaduras do gelo, dos homens a mastigar trigo em grão,
de António enlouquecido pela traição de todos, desde os aliados aos guias.

314
- Pagastes o fiasco dele - disse Aenobarbo -, sem sequer vos deterdes para
pensar que tipo de equipamento não estava incluído e devia estar, nomeadamente
roupas mais quentes para os legionários.
Que lhe poderia responder? Que essas não eram as suas preocupações, que eram da
competência de António e do seupraefectus fabrum? Se o fizesse, Aenobarbo
concluiria que respondia assim para se preservar à custa de António; era
evidente que não estava disposto a ouvir qualquer crítica a António, preferindo
atribuir-lhe a ela as culpas, apenas porque fora o seu dinheiro a financiar a
expedição. Por isso disse:
- Já estava tudo comprado quando o meu dinheiro ficou disponível. Como iria
António conduzir a sua campanha se não tivesse aparecido o meu dinheiro?
- Não teria havido campanha nenhuma, rainha! António teria continuado na Síria,
afundado em dívidas colossais aos fornecedores de tudo, desde cotas de malha a
peças de artilharia.
- E tu terias preferido que as coisas continuassem assim em vez de ele ter
dinheiro para pagar o que devia e poder fazer a sua campanha?
- Sim! - ripostou Aenobarbo.
- Isso significa que não o consideras um general capaz.
- Tirai as conclusões que quiserdes, rainha. Eu não digo mais nada. - E
Aenobarbo saiu disparado irradiando ódio.
-Terá ele razão, Fonteio? - perguntou ela ao seu simpático informante. - Será
Marco António incapaz de comandar um grande empreendimento?
Surpreendido e confundido, Fonteio amaldiçoou interiormente a língua irascível
de Aenobarbo.
- Não, Majestade, ele não tem razão e também não foi isso que quis dizer. Se
não tivésseis acompanhado o exército até Zeugma, com a intenção de continuar a
acompanhá-lo, e se não tivésseis dado opiniões no conselho, os homens como
Aenobarbo não teriam feito quaisquer críticas. O que ele estava a dizer é que
vós destes cabo do empreendimento ao insistirdes que ele fosse conduzido de uma
certa forma. Que, sem vós, António teria sido um homem diferente e não teria
sido derrotado sem travar uma única batalha.
- Oh, isso não é justo! - disse ela arfando. - Eu não dei qualquer tipo de
ordem a António! Nenhuma!
- Acredito em vós, senhora. Mas Aenobarbo nunca acreditará.
Quando o exército começou a coxear na direcção de Leuke Kome, três nundiane
após a rainha do Egipto lá ter chegado, encontrou um pequeno porto atafulhado
de navios e acampamentos espalhados pelos arredores da cidade. Cleópatra
trouxera médicos, remédios e o que parecia uma legião de padeiros e cozinheiros
que serviam aos legionários uma comida melhor que aquela que lhes era fornecida
pelos não-combatentes das legiões, camas confortáveis e roupas limpas e macias;
dera-se até mesmo ao trabalho de ordenar aos seus escravos que retirassem todos
os ouriços-do-mar dos baixios de uma praia grande, para que toda a gente
pudesse banhar-se sem ter que se preocupar com a pior praga que havia nas
praias daquela região do Nosso Mar.

315

Se Leuke Kome não era exactamente os Campos Elísios, para o legionário mediano
assemelhava-se muito. O estado de espírito melhorou imenso, sobretudo entre os
homens que não tinham perdido dedos dos pés.
- Estou muito grato - disse-lhe Públio Canídio. - Os meus rapazes precisam de
umas verdadeiras férias e vós permitistes que eles as tenham. Quando tiverem
recuperado esquecerão a parte pior das provações por que passaram.
- Excepto os narizes e dedos dos pés podres - respondeu Cleópatra amargamente.
Portus Julius ficou pronto a tempo de Agripa treinar os remadores e soldados
durante todo o Inverno pouco rigoroso em que Lúcio Gélio Publícola e Marco
Coceio Nerva assumiram o consulado no Dia de Ano Novo. Como de costume, o
candidato apoiado por um partido venceu o candidato independente; o terceiro
elemento neutral nas negociações que tinham originado o Pacto de Brundísio,
Lúcio Nerva, perdeu para o irmão, que era partidário de Octaviano. Estando em
Roma para desempenhar a função de observador para António, Publícola ficou com
a tarefa de governar a cidade; Octaviano não o queria a reclamar vitórias sobre
Sexto Pompeu em nome da facção de António, que ainda era grande e muito
barulhenta.
Sabino tinha sido um bom supervisor da construção de Portus Julius e queria o
comando supremo, mas a tendência que tinha para ter mau feitio tornara-o
desadequado aos olhos de Octaviano; com Agripa ocupado em Portus Julius,
Octaviano dirigiu-se ao Senado para fazer as suas propostas.
- Como já foste cônsul, o teu estatuto é equivalente ao de Sabino - disse ele a
Agripa quando o seu valoroso amigo veio a Roma prestar-lhe contas -, por isso o
Senado e o Povo decretaram que serás tu, e não Sabino, o comandante-chefe em
terra e almirante-chefe no mar. Sob o meu comando, evidentemente.
Dois anos como governador da Gália Ulterior, um consulado e a confiança de
Octaviano nas suas iniciativas, tinham produzido efeitos profundos em Agripa.
No passado teria corado e argumentado, agora limitou-se a engolir em seco e a
parecer agradado. O seu grau de convencimento - que era zero - não se alterara,
mas a confiança em si próprio desenvolvera-se sem revelar os defeitos fatais de
António: não era preguiçoso, mantinha uma atenção permanente aos pormenores e
não tinha relutância em tratar da correspondência de Marco Agripa!

316

Quando Agripa recebia uma carta esta era imediatamente respondida e de uma
forma tão sucinta, que o seu destinatário não tinha qualquer dúvida acerca da
natureza do seu conteúdo.
Tudo o que Agripa disse ao receber a notícia da enorme tarefa que iria
desempenhar foi:
- Como queiras, César.
- Contudo - continuou Octaviano -, peço-te humildemente que me arranjes uma
pequena frota e um par de legiões para comandar. Quero participar pessoalmente
na guerra. Desde que casei com Lívia Drusila que pareço estar completamente
curado da asma, mesmo quando estou perto de cavalos, portanto devo ser capaz de
sobreviver sem correr o risco de ouvir mais um chorrilho de piadas sobre a
minha cobardia. - Aquilo foi dito friamente, mas a expressão vidrada dos seus
olhos revelava a sua determinação em apagar de uma vez por todas as calúnias de
Filipos.
- Já estava a pensar fazê-lo, César - disse Agripa sorrindo. - Se tiveres tempo
gostaria de discutir os planos para a guerra.
- Lívia Drusila devia estar presente.
- Concordo. Ela está em casa ou saiu para comprar roupas?
A mulher de Octaviano tinha poucos defeitos, mas o seu amor por roupas bonitas
era certamente um deles. Insistia em vestir bem, tinha um gosto perfeito e as
suas jóias, cujo número era aumentado regularmente pelo marido, eram motivo da
inveja de todas as mulheres de Roma. O facto de o habitualmente parcimonioso
Octaviano não levantar objecções à sua extravagância devia-se a querer que a
sua mulher estivesse acima das outras em todos os aspectos; ela deveria parecer
e comportar-se como uma rainha não coroada, estabelecendo assim a sua
ascendência sobre as restantes mulheres. Um dia isso seria muito importante.
- Em casa, acho. - Octaviano bateu as palmas e disse ao homem que acorreu para
ir chamar a senhora Lívia Drusila.
Ela chegou momentos depois, vestida com roupas esvoaçantes de um tecido azul
muito escuro, bordado aqui e ali com uma safira que brilhava reflectindo a luz.
O colar, os brincos e os braceletes eram também de safiras e pérolas, e os
botões que apertavam as mangas a espaços eram também feitos com safiras e
pérolas.
Agripa pestanejou, ofuscado.
- Estás deliciosa, minha querida - disse Octaviano parecendo um homem de
setenta anos; ela tinha nele esse efeito.
- Sim, não consigo entender a razão de as safiras serem tão impopulares - disse
sentando-se numa cadeira. - Acho a sua cor escura muito subtil.
Octaviano fez sinal aos escribas e funcionários que andavam por ali de orelhas
espetadas.
- Vão almoçar ou contar os peixes no único lago que os germanos não saquearam -
disse-lhes. E para Agripa: - Oh, quem me dera não ter que viver por trás de
muralhas fortificadas! Diz-me que este ano as poderei derrubar, Agripa!

317

- Este ano de certeza, César.


- Fala, Agripa.
Mas primeiro Agripa abriu um mapa enorme sobre a mesa grande que servia para
separar a miríade de papéis que um triúnviro atarefado acumulava no desempenho
dos seus deveres que incluíam a Itália, do Adriático ao mar da Toscana e à
província de África.
- Acabei de fazer um inventário e posso informar-te de que disporemos de
quatrocentos e onze navios - disse Agripa. - Estão todos, com excepção de cento
e quarenta, em Portus Julius, prontos e a postos.

<Mapa - omitido>

318

- Os cento e vinte de António mais os vinte de Octávia, que estão em Tarento


-disse Octaviano.
- Exactamente. Como se estivessem destinados a navegar pelo estreito de
Messina, vulneráveis, mas eles nem se aproximarão do estreito. Virarão para sul
e avistarão a Sicília no cabo Pachymus, depois esgueirar-se-ão para norte,
costa acima, para atacar Siracusa. Esta frota vai ficar com Tauro que terá
também quatro legiões de tropas terrestres. Depois de tomar Siracusa deverá
atravessar as encostas de Etna, controlando os campos à medida que for
avançando e levar as legiões para Messina, onde deverá estar concentrado o
maior bastião da resistência. Mas Tauro vai necessitar de ajuda, tanto na
tomada de Siracusa como depois, na incursão pelo interior. - Os olhos
acastanhados enterrados sob a testa de Agripa brilharam, subitamente verdes. -A
tarefa mais perigosa de todas será a do isco, sessenta enormes "cincos",
especialmente escolhidas por serem capazes de travar uma batalha intensa no mar
- preferia não ter que as perder, mesmo sendo um isco. A frota partirá de
Portus Julius e passará pelo estreito para ir levar reforços a Tauro. Sexto
Pompeu fará o que sempre faz: ficará de tocaia no estreito. E atirar-se-á à
nossa frota-isco como um leão se atira a um veado. O objectivo é manter a
atenção de Sexto concentrada nos estreitos e, consequentemente, em Siracusa...
por que outra razão iria uma frota de robustas "cincos" navegar para sul se não
fosse para atacar Siracusa? Com um pouco de sorte a minha própria frota, que
partirá depois da frota-isco, conseguirá passar despercebida a Sexto e
desembarcará com sucesso as legiões em Mylae.
- Eu comandarei a frota-isco - disse Octaviano ansiosamente. - Dá-me essa
tarefa, Agripa, por favor! Levarei comigo Sabino para que ele não se sinta
ultrapassado na distribuição de um trabalho tão importante.
- Se queres a frota-isco, César, ela é tua.
- Até aqui o que estão a planear é um ataque em pinça dirigido à extremidade
oriental da ilha - disse Lívia Drusila. - Tu partirás do ocidente em direcção a
Messina, Agripa, enquanto Tauro se aproximará de Messina pelo sul. E então a
parte ocidental da Sicília?
O rosto de Agripa assumiu uma expressão infeliz.
- Para isso, senhora, temo que tenhamos que usar Marco Lépido e algumas das
inúmeras legiões que ele reuniu na província de África. É uma curta viagem por
mar de África até Lilibeu e Agrigento, uma viagem que será mais fácil para
Lépido. Sexto pode ter a sua base em Agrigento, mas não se demorará por lá com
tanta acção a decorrer em torno de Siracusa e Messina.
- Nunca pensei que ele fosse ficar por lá, mas os cofres com o dinheiro ficarão
- disse Lívia Drusila com uma expressão implacável. - Façamos o que fizermos,
não podemos permitir a Lépido que fuja com o saque de Sexto Pompeu. O que ele
tentará fazer.
319

- Absolutamente - disse Octaviano. - Infelizmente ele teve conhecimento do que


negociámos com António, portanto sabe mutíssimo bem que Agrigento é vital. E
que, em termos militares, não é um alvo primordial. Teremos que caçar Sexto em
torno de Messina, que está separada de Agrigento por meia ilha e várias
cordilheiras montanhosas. Mas eu encaro Agrigento como mais um isco. Lépido não
poderá confinar as suas actividades à extremidade ocidental se quer preservar o
seu estatuto de triúnviro e contribuinte importante para a vitória. Por isso, o
que fará será deixar várias legiões a guarnecer Agrigento até poder regressar
para esvaziar os cofres. E nós, consequentemente, não lhe permitiremos que
regresse.
- Como planeias consegui-lo, César? - perguntou Agripa.
- Ainda não sei ao certo Mas acredita na minha palavra, será isso o que
acontecerá a Lépido.
- Acredito em ti - disse Lívia Drusila com uma expressão satisfeita.
- E eu também - disse Agripa com uma expressão leal e devotada.
Sem querer correr o risco de ser apanhado pelos ventos do equinócio, Agripa não
montou o seu ataque até ao início do Verão, depois de ter recebido de África a
notícia de que Lépido estava pronto e que partiria nos Idos de Julius.
Estatílio Tauro, que era quem tinha, de longe, a viagem mais longa para fazer,
deveria sair de Tarento quinze dias antes, nas Calendas, enquanto que
Octaviano, Messala Corvino e Sabino, sairiam de Portus Julius no dia anterior
aos Idos e Agripa no dia depois dos Idos.
Tinha ficado acordado que Octaviano desembarcaria na Sicília mesmo a sul do
dedo da bota italiana, em Tauroménio, e que ficaria no comando do grosso das
legiões; Tauro deveria juntar-se-lhe depois de atravessar o monte Etna. O amigo
de Octaviano, Messala Corvino, deveria comandar a marcha das legiões através da
Lucânia até Vibão, de cujo porto atravessariam para Tauroménio.
E tudo teria corrido muito bem, não fora uma tempestade fora de época, que
provocou mais danos na frota-isco de Octaviano do que os ataques de Sexto
Pompeu. O próprio Octaviano ficou encalhado no lado italiano do estreito;
juntamente com metade das legiões; a outra metade, tendo desembarcado em
Tauroménio, esperou pela chegada de Tauro e a travessia de Octaviano. Uma longa
espera. Mesmo depois de a tempestade ter acalmado, dois nundinae mais tarde,
Octaviano e Messala Corvino foram demorados pelos estragos sofridos pelos
navios de transporte de tropas. Quando estes ficaram em condições já Sextilis
ia avançado e toda a ilha estava mergulhada em batalhas terrestres.
Lépido não teve quaisquer problemas. Chegou a Lilibeu e Agrigento no calendário
previsto, desembarcou doze legiões e dirigiu-se para norte e para leste através
das montanhas em direcção a Messina. Tal como Octaviano previra, guarneceu
Agrigento com mais quatro legiões, sentindo-se seguro de que ele, e mais
ninguém, poderia regressar para recolher o conteúdo dos cofres de Sexto Pompeu.

320

Mas foi Agripa quem venceu a campanha. Conhecendo a dimensão da frota de Tauro
e sobrestimando o tamanho da frota-isco de Octaviano, Sexto Pompeu chamou todos
os navios que possuía e concentrou-os nos estreitos, determinado a controlar
Messina e, consequentemente, a parte leste da ilha. Em resultado disso as
duzentas e onze quinquerremes e trirremes de Agripa mandaram para o fundo de
Mylae uma pequena frota pompeia e, a seguir, desembarcaram ali sãs e salvas
quatro legiões. Agripa subiu depois pela costa em direcção a norte, seguindo
uma rota para ocidente, antes de reunir os navios de guerra e ficar à espreita
ao largo em Náuloco.
Parecia não ter entrado na cabeça de Sexto Pompeu que o desprezível Octaviano
fosse - ou pudesse - reunir tantos navios e tropas para lançar contra si. Mas
as más notícias sucediam-se: Lépido estava a subjugar a extremidade ocidental
da Sicília, Agripa submetia a costa norte e o próprio Octaviano tinha
conseguido atravessar finalmente o estreito. A Sicília fervilhava de soldados,
mas destes, poucos pertenciam a Sexto Pompeu. Aterrorizado e desesperado, o
filho mais novo de Pompeu, o Grande, decidiu apostar tudo numa enorme batalha
naval e partiu ao encontro de Agripa.
As duas frotas encontraram-se em Náuloco com Sexto convencido de que, para além
de estar em maioria, também tinha mais perícia. Mais de trezentas galés
soberbamente tripuladas e comandadas, consigo próprio no comando supremo - o
que estaria um apuliano como Marco Agripa a pensar que fazia ao desafiar Sexto
Pompeu, que não fora derrotado durante dez longos anos? Mas os navios de Agripa
eram mais agressivos e estavam armados com uma arma secreta típica de Agripa. O
harpax. Pegara numa vulgar âncora pequena e transformara-a num míssil passível
de ser disparado por um escorpião, a distâncias muito maiores do que as
alcançáveis pelo lançamento de um braço. O navio inimigo era então puxado para
perto, continuando a ser submetido ao bombardeamento de dardos lançados por
escorpiões, pedregulhos e fardos de palha incendiados. Enquanto estas manobras
prosseguiam, o navio de Agripa virava e atacava de proa o lado da embarcação
inimiga, destruindo-