Você está na página 1de 175

CAPA

ROSA MONTERO

A ridícula ideia de não voltar a ver-te


CONTRACAPA

ROSA MONTERO
A ridícula ideia de não voltar a ver-te
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da
morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de
certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma
narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias
coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso
íntimo doloroso. São páginas que falam da superação da dor, das relações entre
homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da
ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a
gozar a existência em plenitude. Um livro libérrimo e original, que nos devolve,
inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus
livros.

Rosa Montero nasceu em Madrid, em 1951. Como jornalista, colabora em exclusivo


com o Jornal El País, tendo obtido, em 1980, o Prémio Nacional de Jornalismo. No
catálogo da Porto Editora figuram já os seus livros Instruções para Salvar o
Mundo e Lágrimas na Chuva. Com A Louca da Casa recebeu o Prémio Grinzane Cavour
de literatura estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol,
distinção que também foi atribuída, em 2006, a História do Rei Transparente.

Porto Editora
Página de Título

Rosa Montero

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Tradução de Helena Pitta

Porto Editora
Ficha Técnica

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te


Rosa Montero
Publicado em Portugal por: Porto Editora
Divisão Editorial Literária - Lisboa E-mail: dellisboa@portoeditora.pt
Título original:
La ridícula idea de no volver a verte
©2013, Rosa Montero
Design da capa: © Manuel Pessoa
Imagens da frente da capa: © Philippe Halsman-Magnum Photos / A1C
1.a edição: janeiro de 2015
Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem
transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico,
fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.
Este Livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Porto Editora
Rua da Restauração, 365
4099-023 Porto Portugal

Execução gráfica Bloco Gráfico, Lda.


Unidade Industrial da Maia.
Dep. legal 385437/14
A Cópia ilegal viola os direitos dos autores.
Os prejudicados somos todos nós.

ISBN 978-972-0-04712-0
Para todas as pessoas que me são queridas, com amor. Vocês sabem quem são, mesmo
que não vos nomeie.
<Página em branco>
Índice

A arte de fingir dor................................................... 9


A ridícula ideia de não voltar a ver-te................................ 19
Uma jovem estudante muito sábia......................................... 27
Pássaros com os peitos palpitantes.................................... 39
O fogo doméstico do suor e da febre................................... 53
Elogio dos excêntricos....................................... 63
Radioatividade e compotas.............................................. 71
A bruxa do caldeirão.......................................... 77
Esmagando carvões com as mãos nuas..................................... 84
Uma questão de dedinhos.......................................... 93
Mas esforço-me..................................................... 104
Um sorriso ferozmente encorajador...................................... 111
Umas velhas asas que se desfazem............................ 131
A última vez que se sobe a uma montanha............................... 136
Escondido no centro do silêncio..................
O canto de uma menina............................................ 149
Agradecimentos: umas palavras finais................................. 157
Índice de hashtags................................................... 159
Apêndice: Diário de Marie Curie....................................... 161
<Página em branco>
A arte de fingir dor

Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os
meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos. Achas
lúgubre, quem sabe até doentio? Eu não o vejo assim. Parece-me, pelo contrário,
tão lógico, tão natural, tão certo. Só nos nascimentos e nas mortes saímos do
tempo; a Terra detém a sua rotação, e as trivialidades em que desperdiçamos as
horas caem ao chão como pó de purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa
morre, o presente parte-se ao meio e deixa-nos espreitar por um instante a
frincha da verdade: monumental, ardente e imutável. Nunca nos sentimos tão
autênticos como quando bordejamos as fronteiras biológicas: temos a consciência
clara de estar a viver uma coisa em grande. Há muitos anos, o jornalista Ihaki
Gabilondo contou-me numa entrevista que a morte da sua primeira mulher, que
morreu muito nova com um cancro, fora duríssima, sim, mas também o que de mais
transcendente lhe tinha acontecido. As palavras dele impressionaram-me: de
facto, ainda me lembro delas, embora tenha em geral uma memória de mosquito.
Nessa altura, julguei ter compreendido bem o que me queria dizer; mas, depois de
o viver, entendi melhor. Nem tudo é horrível na morte, embora pareça mentira
(espanto-me ao ouvir-me a proferi-lo).
Mas este não é um livro sobre a morte.
Na realidade, não sei bem o que é, ou o que será. Tenho-o aqui agora, na ponta
dos meus dedos, apenas umas linhas num tablet, um amontoado de células
eletrónicas ainda indeterminadas que poderiam ser abortadas com facilidade.

9
Os livros nascem de um germe ínfimo, de um ovinho minúsculo, de uma frase, de
uma imagem, de uma intuição; crescem como zigotos, organicamente, célula a
célula, diferenciando-se em tecidos e estruturas cada vez mais complexas até se
transformarem numa criatura completa e, frequentemente, inesperada. Confesso-te
que tenho uma ideia do que quero fazer com este texto; mas o projeto manter-se-á
até ao fim ou surgirá qualquer outra coisa? Sinto-me como o pastor daquela
antiga anedota que está a esculpir distraidamente um bocado de madeira com a sua
navalha e que, quando um passeante lhe pergunta, «Que figura está a fazer?»,
responde: «Bom, se sair com barbas, Santo Antão; se não, a Imaculada Conceição.»
Seja como for, uma imagem sagrada.
A «santa» deste livro é Marie Curie. Sempre se me afigurou uma mulher
fascinante, coisa que, por outro lado, acontece a quase toda a gente, porque é
uma personagem anómala e romântica que parece maior do que a sua própria vida.
Uma polaca espetacular que foi capaz de ganhar dois prémios Nobel: um de Física,
em 1903, em parceria com o marido, Pierre Curie, e outro de Química, em 1911,
sozinha. De facto, em toda a história dos Nobel, só outras três pessoas
obtiveram dois galardões: Linus Pauling, Frederick Sanger e John Bardeen; e só
Pauling o fez em duas categorias diferentes, como Marie. Mas Linus levou um
prémio de Química e outro da Paz, e é preciso reconhecer que este último vale
bastante menos (como é sabido, até o deram a Kissinger). Ou seja, Madame Curie
permanece imbatível.
Inclusive, Marie descobriu e mediu a radioatividade, essa propriedade aterradora
da Natureza: fulgurantes raios sobre-humanos que curam e que matam, que
esturricam tumores cancerígenos na radioterapia ou calcinam corpos após uma
deflagração atómica. Dela é também a descoberta do polónio e do rádio, dois
elementos mais ativos do que o urânio. O polónio, o primeiro que encontrou (por
isso o batizou com o nome do seu país), foi rapidamente ofuscado pela relevância
do rádio, embora ultimamente tenha ficado na moda como uma forma eficiente de
assassinato: recordemos a morte terrível do espião russo Alexander Litvinenko,
em 2006, depois de ingerir polónio 210, ou o polémico caso de Arafat (outro
Nobel da Paz inacreditável!); de modo que até a estas sinistras aplicações
chegou a mão branca de Marie Curie.

10
Mas, para o bem ou para o mal, essa força devastadora está na própria base da
construção do século XX e, com grande probabilidade, também do século XXI.
Vivemos tempos radioativos.

Foto <omitida>: Litvinenko no seu leito de morte

A dimensão profissional de Madame Curie foi uma singularidade absoluta numa


época em que às mulheres quase nada era permitido. De facto, as cientistas
continuam hoje a ser relativamente escassas e, como é evidente, os prémios ainda
lhes são regateados. Desde o início dos Nobel e até 2011 receberam o prémio
setecentos e oitenta e seis homens para apenas quarenta e quatro mulheres (pouco
mais de seis por cento); foram, aliás, maioritariamente prémios da Paz e da
Literatura. Só existiram quatro laureadas em Química e duas em Física (incluindo
a dobradinha de Curie, que por si só sobe bastante a percentagem), não falando
já dos casos em que pura e simplesmente lhes roubaram o Nobel, como aconteceu
com Lise Meitner (1878-1968), que teve uma participação substancial na
descoberta da fissão nuclear, embora o galardão tenha sido entregue ao alemão
Otto Hahn em 1944, sem sequer a mencionar; ademais, Lise era judia e viviam-se
tempos nazis. Lise teve a sorte de viver o suficiente para começar a ser
solicitada e receber algumas homenagens na velhice - não sei se isso compensará
a ferida de uma vida inteira.
Muito pior foi o que aconteceu a Rosalind Franklin (1920-1958), eminente
cientista britânica que descobriu os fundamentos da estrutura molecular do ADN.
Wilkins, um colega de trabalho com quem mantinha uma relação conflituosa (era
ainda um mundo deveras machista), pegou nas anotações de Rosalind e numa
importantíssima fotografia do ADN que a cientista conseguira tirar recorrendo a
um processo complexo denominado difração de raios X e, sem que ela soubesse ou
autorizasse, mostrou tudo a dois outros colegas, Watson e Crick, que estavam a
trabalhar na mesma área e que, depois de se apropriarem de forma ilegal daquelas
descobertas, se basearam nelas para desenvolver o seu próprio trabalho.

11
Desconhece-se se Rosalind chegou a saber do «roubo» intelectual de que fora
objeto; faleceu muito nova, aos trinta e sete anos, de um cancro de ovário
causado, muito provavelmente, pela exposição aos mesmos raios X que lhe
permitiram espreitar as entranhas do ADN. Em 1962, quatro anos depois da morte
de Franklin, Watson, Crick e Wilkins obtiveram o Nobel da Medicina pelas suas
descobertas sobre o ADN. Como o galardão não se pode ganhar a título póstumo,
Rosalind nunca o teria recebido, ainda que naturalmente o merecesse. Mas o mais
vergonhoso é que nem Watson nem Crick mencionaram Franklin ou reconheceram a sua
contribuição. Enfim, uma história suja e triste, mas, pelo menos, conhecida.
Interrogo-me quantos outros casos de espionagem, apropriação indevida e
parasitismo terão existido na história da Ciência que não chegaram a tornar-se
públicos.

Foto <omitida>: Esta é Rosalind Franklin. Bonita, não acham?

(Inacreditável! Enquanto redigia as linhas anteriores, uma amiga da minha página


do Facebook, Sandra Castellanos, enviou-me uma mensagem privada.

12
Não nos conhecemos pessoalmente: só sei que vive no Canadá e que é uma boa
escritora principiante, porque já li alguns dos seus escritos. Há meses que não
falávamos e, de repente, saído da crepitante vastidão cibernética, chega-me o
seguinte:

Olá,Rosa
Vi isto e pensei que ias adorar.
De Por Amor à Física, de Walter Lewin:
«Os desafios dos limites do nosso equipamento tornam ainda mais assombrosos os
êxitos de Henrietta Swan Leavitt, uma brilhante mas, regra geral, ignorada
astrónoma. Leavitt trabalhava em 1908 no Observatório de Harvard, num lugar
secundário, quando começou o seu trabalho, que provocou um salto gigantesco na
medição da distância até às estrelas.
Este tipo de coisas aconteceu com tanta frequência na história da ciência que o
facto de se minimizar o talento, a inteligência e a contribuição das mulheres
cientistas devia ser considerado um erro sistémico.»
E em rodapé:
«Aconteceu a Lise Meitner, que ajudou a descobrir a fissão nuclear; a Rosalind
Franklin, que contribuiu para descobrir a estrutura do ADN; e a Jocelyn Bell,
que descobriu os pulsares e que, em 1974, devia ter partilhado o Prémio Nobel
que deram ao seu supervisor, Anthony Hewish.»

Uau! Não sabia nada acerca de Leavitt ou de Jocelyn Bell, mas o que me deixou
atónita foi a sincronia espetacular no tempo e no tema. E o que é mais
inquietante, estas #Coincidências que parecem mágicas abundam no território
literário. Mas disso falaremos mais adiante.)

13
Eu estava a preparar outro romance e há mais de dois anos que tirava
apontamentos e lia livros que tratavam de assuntos semelhantes, deixando crescer
o zigoto na minha cabeça. Comecei-o finalmente, ou seja, passei ao ato - sentei-
me diante de um computador e pus-me a teclar - em novembro de 2011. Toda a trama
acontece na selva, nesse asfixiante, putrefacto, enlouquecedor ventre vegetal.
Escrevi os três primeiros capítulos, e agradaram-me. Além do mais, sei tudo o
que vai acontecer depois. Também me agrada... Quer dizer, creio que pode ser
emocionante para mim acabá-lo. No entanto, no fim de dezembro deixei essa
história, talvez para sempre (espero que não). Só interrompi a escrita de um
outro romance em toda a minha vida: em 1984, numa altura em que já tinha uma
centena de páginas. Deitei-as fora, exceto as cinco ou seis primeiras, que
publiquei como um conto, com o título «A Vida Fácil», no meu livro Amantes e
Inimigos. Esse romance nunca mais voltará. Deixei de sentir as personagens,
deixaram de interessar-me as peripécias por que passavam, o tema cansou-me. Para
conseguir escrever um romance, para aguentar o tempo longuíssimo e aborrecido
que esse trabalho implica, mês após mês, ano após ano, a história tem de manter
bolhas de luz na nossa cabeça. Cenas que são ilhas de emoção candente. E é pelo
desejo de chegar a uma dessas cenas que, não sabemos porquê, nos deixam a
tiritar, que atravessamos talvez meses de soberano e insuportável aborrecimento
ao teclado. De modo que a paisagem que avistamos ao começar uma obra de ficção é
como um longo colar de escuridão iluminado de quando em quando por uma grande
pérola iridescente. E avançamos com esforço pelo fio de sombras, de uma conta
para outra, atraídos como traças pelo brilho, até chegarmos à cena final que,
para mim, é a última dessas ilhas de luz, uma explosão radiosa. É verdade que
cada romance tem poucas pérolas. Com sorte, com muita sorte, umas dez. Mas já
nos conseguimos arranjar com quatro ou cinco, se para nós forem suficientemente
poderosas, se forem embriagadoras, se as sentirmos tão grandes que não nos cabem
no peito e nos assegurarmos de que temos de as partilhar - até porque, se não o
fizermos, desconfiamos que a cena explodiria no nosso íntimo e que acabaríamos a
deitar fumo pelas narinas.

14
E o que aconteceu com aquele romance de 1984 é que as luzinhas do arraial se
apagaram. Acabou-se a necessidade, o tremor e o arrebatamento. Foi um verdadeiro
aborto, e ainda por cima tardio (metaforicamente; falamos de uns cinco meses),
de tal forma que a minha saúde literária se ressentiu - «A Seca capturou-me»,
como diria Donoso -, e passei quase quatro anos sem conseguir escrever. Um
inferno desgraçado porque, ao perder a escrita, perdi o nexo com a vida. Sentia
uma atonia, um distanciamento da realidade, um cinzentismo que apagava tudo,
como se não fosse capaz de emocionar-me com o que vivia se não o elaborasse
mentalmente através de palavras. Se virmos bem, é possível que Fernando Pessoa
se referisse a isso nos seus célebres versos: «O poeta é um fingidor. Finge tão
completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.» Talvez o
escritor seja um tipo mais ou menos louco e incapaz de sentir a sua própria dor
se não finge ou constrói com palavras; com as palavras que colocam, que
consolam, que calmam, que nos tornam conscientes de estarmos vivos. Vejam lá,
todos os termos me saíram com C. Extraordinário, o tilintar cego do cérebro.
Não creio que o meu relato da selva esteja tão morto como aquele de 1984 que
acabou por me bloquear. Prefiro pensar que é uma simples falta de sintonia entre
o tema e eu; que não era o que queria contar agora; que, se calhar, precisava de
contar outra coisa. Esse romance surgiu na minha cabeça durante os meses de
doença do meu marido. É a trama mais obscura, mais desesperada e angustiante que
jamais idealizei. E agora não me vejo aí. Não quero meter-me aí. Não desejo
passar o próximo ano presa nessa selva trituradora.
E à volta disto refletia quando me chegou um e-mail de Elena Ramírez, editora da
Seix Barrai, propondo-me que escrevesse um prólogo para Únicos, uma coleção de
livrinhos muito curtos. O texto de que queria que falasse era o diário de Marie
Curie: pouco mais de uma vintena de páginas redigidas ao longo dos doze meses
posteriores à morte do marido, que faleceu aos quarenta e sete anos atropelado
por um carro puxado a cavalos. A sábia, feiticeira, maga Elena Ramírez
explicava: «Pensei em ti porque reflete com uma crueza descarnada o luto pela
perda do marido. Acho que, se gostares da peça, podes fazer uma coisa estupenda,
acerca dela ou acerca da superação (se assim se pode chamar) do luto em geral.

15
Aliás, creio que conforme fores fazendo a imersão no livro e à medida que te
sentares a escrever, poderias transformá-lo num prólogo ou no corpo central, e o
diário de Curie ficaria como complemento... Aqui o deixo, aberto a qualquer
surpresa.»
Li o texto. E impressionou-me. Mais do que isso, agarrou-me.
Mas aquele também não era um livro sobre o luto. Ou não só.
Comprei meia dúzia de biografias de Madame Curie, de quem antes já sabia coisas,
mas não tantas, e alguma coisa informe começou a crescer na minha cabeça. Uma
vontade de contar a história dela à minha maneira. Uma vontade de usar a vida
dela como medida para entender a minha; e não estou a falar de teorias
feministas, mas de tentar averiguar qual é o #LugarDaMulher nesta sociedade em
que os lugares tradicionais se aboliram (o homem também anda perdido, como é
evidente, mas um varão que explore esse outro pântano). Uma vontade de vadiar
pelas esquinas do mundo, do meu mundo, e de refletir sobre uma série de
#Palavras que me despertam ecos, #Palavras que ultimamente me andam às voltas na
cabeça como cães perdidos. Uma vontade de escrever como quem respira. Com
naturalidade, com #Leveza.
Em pequena adoeci com tuberculose. Deixei de ir à escola dos cinco aos nove anos
e, conforme consta da lenda familiar, fui salva por um pediatra chamado dom
Justo, um médico maravilhoso e um grande homem, que não cobrava quando não havia
dinheiro. Lembro-me bem das múltiplas visitas a dom Justo; vivíamos longe,
tínhamos de apanhar um autocarro e eu chegava sempre enjoada (nessa altura,
quando quase ninguém tinha carro próprio e as pessoas viajavam pouco em veículos
a motor, era frequente sentirmo-nos enjoadíssimos quando entrávamos num
automóvel). Ao fundo do consultório, dom Justo tinha uma espécie de quartinho
onde estava a máquina de raios X. Repetidamente, e cada vez que fui vê-lo,
durante a doença e as revisões dos anos posteriores, dom Justo punha-me de pé na
máquina, despida da cintura para cima porque tinha acabado de me auscultar.
Obrigava-me a pôr-me muito direita, com as costas encostadas ao metal gelado, e
depois aproximava-me do peito o ecrã de raios, também desagradavelmente frio.

16
Eu apoiava o queixo no rebordo superior: o aparelho tinha um ligeiro odor a
ferro, um bafo que mais tarde reconheci no cheiro do sangue. Dom Justo e a minha
mãe instalavam-se sem qualquer proteção diante da máquina e, depois de a lâmpada
apagar, começava o espetáculo; recordo-me da penumbra do consultório e de como
as caras do pediatra e da minha mãe se iluminavam com o brilho azulado dos
raios. «Está a ver, dona Amália?», observava dom Justo, apontando com o dedo
para algum lugar do meu peito, «esta parte aparece mais branca porque a lesão
está a calcificar». Olhavam e conversavam animadamente durante um tempo que me
parecia longuíssimo, fascinados com o espetáculo do meu interior. Eu sentia-me
importante, mas também inquieta e pouco à vontade. Aquela escuridão, aquele
brilho espetral que parecia transformá-los em fantasmas, não falando já da ideia
asquerosa de estarem a ver as minhas tripas. Hoje calculo a quantidade de
radiações que devemos ter recebido todos e gela-me o sangue, embora seja
tranquilizador saber que dom Justo faleceu com quase cem anos e que a minha mãe
continua viva e lutadora aos noventa e um. Tudo isto aconteceu nos finais dos
anos cinquenta e início dos anos sessenta. Marie Curie morrera, destruída pelo
rádio, havia um quarto de século. Agora penso no brilho frio que me saía do
peito como um ectoplasma e no zumbido da máquina e sinto uma enorme proximidade,
uma rara intimidade com aquela carrancuda cientista polaca. De alguma forma, o
seu trabalho ajudou a que me diagnosticassem e me curassem, não falando já no
facto de a própria mãe de Marie ter morrido de tuberculose. Além disso, também
vi o brilho azul que Curie tanto amou! Digamos que fui uma criança radioativa; e
agora sou uma madura velha ou uma velha jovem que, há uns dois anos, mora a duas
esquinas do antigo consultório de dom Justo, ou seja, a cem metros do sítio onde
estava aquela antiga máquina de raios X que tinha o mesmo cheiro do sangue.
Agora o andar é um consultório ginecológico. Às vezes tenho a sensação de que
nos movemos na vida sempre em redor dos mesmos lugares, como num desconcertante
jogo da glória.
Marie Curie não foi só a primeira mulher a receber um Nobel e a única a receber
dois; foi também a primeira a licenciar-se em Ciências na Sorbonne, a primeira a
doutorar-se em Ciências em França, a primeira a ter uma cátedra... Foi a
primeira em tantas frentes que se torna impossível enumerá-las.

17
Uma pioneira absoluta. Um ser diferente Também foi a primeira mulher a ser
enterrada pelos seus próprios méritos no Panteão de Homens Ilustres (sic) de
Paris. Trasladaram os seus restos mortais para aí a 26 de abril de 1995 com
grande pompa e circunstância (no Panteão estão também, a propósito, Pierre Curie
e Paul Langevin, respetivamente, o marido e o amante de Marie) e o discurso do
presidente Mitterrand, então já muito doente, enfatizou «a luta exemplar de uma
mulher» numa sociedade em que «as funções intelectuais e as responsabilidades
públicas eram reservadas aos homens». «Eram», declarou Mitterrand, como se essas
desigualdades já tivessem sido superadas por completo no mundo contemporâneo.
Mas Marie Curie continua a ser a única mulher enterrada no Panteão; e o Panteão
ainda é denominado (era o que mais faltava que não fosse) de Homens Ilustres.
Como terá essa polaca, sem apoios nem dinheiro, conquistado tudo aquilo tão
cedo, tão só, tão a contracorrente? Foi uma mulher nova. Uma lutadora. Uma
#Mutante. Por isso estava sempre tão séria, tão triste? Por isso exibia aquela
expressão tão trágica em todas as fotografias? Mesmo em instantâneos que, como o
seguinte, são anteriores à sua viuvez. Penso agora na velha anedota do pastor
que esculpia um bocado de madeira e digo a mim própria que o que sairá deste
livro talvez seja uma coisa intermédia; e que Marie teve de ser, em simultâneo,
Santo Antão e a Imaculada Conceição para ter chegado a fazer tudo o que fez.

Foto <omitida> de Pierre e Marie Curie

18
A ridícula ideia de não voltar a ver-te

A verdadeira dor é indizível. Se conseguimos falar do que nos angustia estamos


com sorte: significa que não é assim tão importante. Porque quando a dor cai
sobre nós sem paliativos, a primeira coisa que nos arranca é a #Palavra. É
provável que reconheças o que digo; talvez o tenhas sentido, porque o sofrimento
(tal como a alegria) é algo comum em todas as vidas. Falo daquela dor que é tão
grande que nem sequer parece que nos nasce de dentro, que é como se tivéssemos
sido sepultados por uma avalancha. E assim ficamos, tão enterrados sob essas
toneladas pedregosas de pena que nem conseguimos falar. Temos a certeza de que
ninguém nos vai ouvir.
Agora que penso nisso, parece-se muito com a loucura. Na minha adolescência e
primeira juventude sofri várias crises de angústia. Eram ataques de pânico
repentinos: enjoos, sensação aguda de perda da realidade, terror de estar a
enlouquecer. Justamente por isso estudei Psicologia na Universidade Complutense
(desisti no quarto ano): na verdade, creio que é a razão pela qual noventa e
nove por cento dos profissionais do ramo estudam Psicologia ou Psiquiatria (os
restante são filhos de psicólogos ou psiquiatras, e esses ainda estão pior). Que
conste que não acho mal que assim seja: aproximar-se do exercício terapêutico
tendo conhecido o que é o desequilíbrio mental pode proporcionar-nos mais
compreensão, mais empatia. A mim, as crises de angústia aumentaram-me o
conhecimento do mundo. Hoje alegro-me por as ter sofrido: assim soube o que era
a dor psíquica, devastadora porque inefável. Porque a característica essencial
daquilo a que chamamos loucura é a solidão, mas uma solidão monumental.

19
Uma solidão tão grande que não cabe dentro da palavra e que não consegues sequer
imaginar se nunca lá estiveste. É sentir que nos desligámos do mundo, que não
vão conseguir entender-nos, que não temos #Palavras para nos expressarmos. É
como falar uma linguagem que mais ninguém conhece. É ser um astronauta flutuando
à deriva na vastidão negra e vazia do espaço exterior. É a este tamanho de
solidão que me refiro. E acontece que na verdadeira dor, na dor-avalancha, se
passa uma coisa semelhante. Embora a sensação de alheamento não seja tão
extrema, também não conseguimos partilhar ou explicar o nosso sofrimento. Já o
diz a sabedoria popular: fulano enlouqueceu de dor. A mágoa aguda é uma
alienação. Calamo-nos e fechamo-nos.
Foi o que fez Marie Curie quando lhe trouxeram o cadáver de Pierre: encerrou-se
no mutismo, no silêncio, numa frieza pétrea e aparente. Estavam casados há onze
anos e tinham duas filhas, a mais pequena com catorze meses. Nessa manhã, Pierre
saíra a caminho do trabalho, como sempre; almoçou com colegas e, ao voltar ao
laboratório, escorregou e caiu diante de um pesado carro de transporte de
mercadorias. Os cavalos evitaram-no, mas uma roda traseira rebentou-lhe o
crânio. Faleceu de imediato.
Entro na sala. Dizem-me: «Morreu.» Acaso se pode compreender semelhante palavra?
Pierre morreu, ele, que no entanto vira sair de manhã; a ele, que esperava
apertar entre os meus braços nessa tarde, já só o voltarei a ver morto, e
acabou-se, para sempre.
«Sempre», «nunca», palavras absolutas que não conseguimos compreender sendo,
como somos, pequenas criaturas presas no nosso pequeno tempo. Nunca brincaste,
na infância, a tentar imaginar a eternidade? O infinito abrindo-se à tua frente
como uma fita azul enjoativa e interminável. É a primeira coisa que nos atinge
num luto: a incapacidade de pensar nisso e de o admitir. A ideia simplesmente
não nos cabe na cabeça. Mas como é possível que não esteja? Essa pessoa que
ocupava tanto espaço no mundo, onde se meteu?

20
O cérebro não consegue compreender que tenha desaparecido para sempre. E que
diacho é sempre? É um conceito inumano. Isto é, está fora da nossa capacidade de
entendimento. Mas como, «não o verei mais»? Nem hoje, nem amanhã, nem depois de
amanhã, nem dentro de um ano? É uma realidade inconcebível, que a mente rejeita:
não o ver nunca mais é uma piada de mau gosto, uma ideia ridícula.
Às vezes [tenho] a ridícula ideia de que tudo isto é uma ilusão e de que vais
voltar. Não tive ontem, ao ouvir a porta fechar-se, a ideia absurda de que eras
tu?
Depois da morte de Pablo, também eu me vi durante duas semanas enredada neste
pensamento: «Vamos lá ver se para de se armar em parvo e volta de uma vez», como
se a tua ausência fosse uma partida que me pregasses para me aborrecer, como às
vezes acontecia. Entende-me: não era um pensamento verdadeiro e totalmente
assumido, mas uma daquelas ideias ainda indefinidas que lampejam na beira da
consciência, como peixes nervosos e escorregadios. Da mesma maneira, é de todos
sabido que muitas pessoas julgam ver pelas ruas o ente querido que acabam de
perder (a mim nunca me aconteceu). Úrsula K. Le Guin descreve-o com grande
perspicácia num poema descarnado intitulado On Hemlock Street:

I see broad shoulders,


a silver head,
and I think: John!
And I think: dead.
(Vejo uns ombros largos,
uma cabeça prateada,
e penso: John!
E penso: morto.)

Tive a imensa sorte e o privilégio de desenvolver uma certa amizade com Úrsula
K. Le Guin, uma dos escritores cujo magistério sobre a minha obra reconheço de
forma consciente (o outro é Nabokov).

21
Quando lhe escrevi há alguns meses contando-lhe que queria redigir um livro
sobre Madame Curie, respondeu-me:
Li uma biografia de Marie Curie quando tinha quinze ou dezasseis anos. Incluía
inúmeras citações do seu diário. Deixou-me impressionada, admirada e
aterrorizada. Talvez a memória me traia, mas do que melhor me lembro é de ela
ter guardado, após a morte de Pierre, o lenço com que tentara limpar-lhe a cara.
Parte do sangue e do cérebro dele ficaram no tecido, e ela guardou-o,
escondendo-o de toda a gente até ser obrigada a queimá-lo. Essa imagem
perseguiu-me com angústia todos estes anos.
Bolas, penso para mim própria, não vi esse pormenor em nenhuma das biografias
que consultei. Tendo em conta a idade de Ursula (nasceu em 1929), pensei que
talvez se tratasse do livro que a segunda filha de Marie, Ève, escreveu sobre a
mãe em 1937 - quando recebi o e-mail dela ainda não o lera porque estava
esgotado; tive de procurar meio mundo até conseguir um exemplar em segunda mão,
em inglês. De modo que as palavras de Ursula me fizeram rever com atenção o
pequeno diário de Curie e descobrir um parágrafo que, à luz desta sinistra
explicação, tinha um sentido bastante revelador:
Queimei, com a minha irmã, a tua roupa do dia da desgraça. Para uma fogueira
enorme atiro os farrapos cortados de tecido com os grumos de sangue e restos de
massa cerebral. Horror e desdita: beijo o que resta de ti.
Na minha primeira leitura, assumi que tinham queimado o fato pouco depois do
acidente e entendi o «beijo o que resta de ti» como uma metáfora, mas agora
receava o pior. Esperei com impaciência pela chegada do livro de Ève e, de
facto, deparei-me com uma cena brutal. Quase dois meses depois da morte de
Pierre, no dia anterior ao regresso à Polónia da irmã de Marie, Bronya, Madame
Curie pediu-lhe que a acompanhasse ao quarto e, depois de fechar a porta com
cuidado, tirou do armário um grande pacote embrulhado era papel impermeável: era
a roupa toda amarrotada de Pierre, com coágulos de sangue e grumos de massa
cerebral agarrados.

22
Guardara aquela porcaria junto dela em segredo. «Tens de me ajudar a fazer
isto», implorou a Bronya, e começou a cortar o tecido com umas tesouras,
atirando os bocados para a fogueira. Mas quando chegou aos restos de substância
orgânica não conseguiu continuar: pôs-se a beijá-los e a acariciá-los diante do
horror da irmã, que lhe arrancou as roupas das mãos e terminou aquela tarefa
lúgubre. Não me espanta que a imagem tivesse ficado gravada na mente da Ursula-
criança. Posso afirmar que o sofrimento agudo é como um assomo de loucura. Por
fora, Marie surpreendeu pela sua contenção emocional: «Aquela mulher gelada,
calma, enlutada, aquela autómata em que Marie se transformara», descreve a sua
filha Ève. Mas, por dentro, ardia a demência pura da dor.
Eu nunca cheguei a esse ponto, evidentemente; pelo contrário, quis «portar-me
bem» no meu luto e agarrei no machado: desfiz--me logo de toda a roupa dele,
tranquei os seus pertences, mandei estofar a sua poltrona preferida, aquela onde
se sentava sempre. Exagerei na secura. Quando o estofador chegou para levar a
poltrona, sentei-me nela, desesperada. Queria sentir o teu suor agarrado ao
tecido, a antiga marca do teu corpo. Arrependi-me daquela ideia, mas não tive
nem coragem nem a convicção suficientes para mandar o homem embora. Levou a
poltrona: tenho-a aqui agora, forrada com um tecido alegre e banal, às riscas.
Nunca mais voltei a usá-la.
«Portar-se bem» no luto. #FazerOQueSeDeve. Vivemos tão alienados da morte que
não sabemos como agir. Temos uma confusão enorme na cabeça. Comigo o que se
passou foi que encarei o meu luto como uma doença de que precisava de me curar
quanto antes. Julgo que é um erro assaz comum, porque na nossa sociedade a morte
é vista como uma anomalia e o luto, como uma patologia: «Falamos constantemente
de mortes evitáveis, como se a morte pudesse prevenir-se, em vez de adiar-se»,
menciona a doutora Iona Heath no seu livro Matters of Life and Death.

23
Thomas Lynch, o curioso escritor norte-americano que é diretor de uma agência
funerária há trinta anos, explica em The Undertaking: «Estamos sempre a morrer
de falhas, anomalias, insuficiências, disfunções, paragens, acidentes. São
crónicas ou agudas. A linguagem das certidões de óbito - a de Milo menciona
paragem cardiorrespiratória - é como uma linguagem da fraqueza. Da mesma forma,
dir-se-á que a senhora Hornsby, na sua dor, está destruída, destroçada ou de
rastos, como se nela houvesse alguma coisa estruturalmente incorreta. É como se
a morte e a dor não fizessem parte da ordem das coisas, como se a paragem de
Milo e o pranto da viúva fossem, ou devessem ser, fonte de vergonha.»
Com efeito, eu não queria sentir-me envergonhada pela minha dor. Sou daquele
tipo de pessoas que tenta sempre #FazerOQue-Deve: daí ter alcançado tantas
bolsas de mérito académico no liceu. De modo que procurei submeter-me ao que
julgava que a sociedade esperava de mim após a morte de Pablo. Nos primeiros
dias, as pessoas aconselham-nos: «Chora, chora, é bom», e é como se dissessem:
«É preciso furar e apertar o abcesso para que saia o pus.» Só que é precisamente
nos primeiros momentos que temos menos vontade de chorar, porque estamos em
choque, extenuados e fora do mundo. Mas depois, a seguir, passado pouquíssimo
tempo, quando começamos a encontrar o caudal aparentemente inesgotável do nosso
pranto, quem nos rodeia põe-se a exigir de nós um esforço de vitalidade e de
otimismo, de esperança no futuro, de recuperação da nossa mágoa. Porque é
justamente isso que se diz: que fulano ainda não recuperou da morte de sicrana,
como se se tratasse de uma hepatite (mas nunca recuperamos, é esse o erro: uma
pessoa não se recupera, reinventa-se). Ao colocá-lo desta forma a minha intenção
não é criticar ninguém: eu também agia assim, antes de saber! Eu também
aconselhava: chora, chora. E, passados três meses: bom, já chega, levanta a
cabeça, anima-te. Com a melhor das intenções e o pior dos resultados, com
certeza.
Com isto não quero dizer que os parentes tenham de passar dois anos vestidos de
luto, trancados em casa a soluçar de manhã à noite, como se fazia antigamente.
Oh, não, o luto e a vida não têm nada a ver com isso. De facto, a vida é tão
tenaz, tão bela, tão poderosa, que mesmo nos primeiros momentos da mágoa nos
permite gozar de instantes de alegria: o deleite de uma tarde bonita, um riso,
uma música, a cumplicidade de um amigo.

24
A vida abre caminho com a mesma obstinação com que uma plantinha minúscula é
capaz de rasgar o chão de cimento para se assomar. Mas, ao mesmo tempo, a mágoa
também segue o seu curso. E é isso que a nossa sociedade não gere muito bem:
escondemos ou proibimos, imediata e tacitamente, o sofrimento.

Manhã de 11 de maio de 1906


Meu Pierre, levanto-me depois de ter dormido bem, relativamente tranquila, tudo
isso há não mais de um quarto de hora e, vê lá tu, tenho outra vez vontade de
uivar como um animal selvagem.
Coisas destas dizia Marie no seu diário. O arrepio da impudência.

Provavelmente, Marie Curie salvou-se da aniquilação graças à redação destas


páginas, que são dilacerantes e de uma sinceridade e nudez chocantes. É um
diário íntimo; não foi pensado para ser publicado. Mas, por outro lado, não foi
destruído. Marie conservou-o. Claro que era uma carta pessoal dirigida a Pierre,
um último nexo de #Palavras, uma espécie de cordão umbilical derradeiro com o
seu morto. Não me admira que Marie fosse incapaz de se desprender destas
anotações desconsoladas.
Confesso que, durante muitos anos, considerei uma indecência fazer uso artístico
da própria dor. Achei deplorável Eric Clapton ter composto Tears in Heaven, a
canção dedicada ao seu filho Conor, falecido aos quatro anos de idade ao cair de
um quinquagésimo terceiro andar em Nova Iorque; e incomodou-me que Isabel
Allende tivesse publicado Paula, o romance autobiográfico sobre a morte da
filha. Para mim era como se estivessem, de alguma forma, a traficar com dores
que deviam ter sido conservadas puras. Mas mais tarde, com o tempo, fui mudando
de opinião; de facto, cheguei à conclusão de que, na realidade, é uma coisa que
todos nós fazemos: embora nos meus romances evite com particular afinco a
autobiografia, simbolicamente estou sempre a lamber as minhas feridas mais
profundas.

25
Na origem da criatividade está o sofrimento, o próprio e o alheio. A verdadeira
dor é inefável, deixa-nos surdos e mudos, está para além de qualquer descrição e
qualquer consolo. A verdadeira dor é uma baleia demasiado grande para poder ser
arpoada. E no entanto, e apesar disso, os escritores empenham-se em pôr
#Palavras no nada. Atiramos #Palavras como quem atira pedrinhas a um poço
radioativo até o entulharmos.
Eu agora sei que escrevo para tentar atribuir ao Mal e à Dor um sentido que, na
realidade, sei que não têm. Clapton e Allende utilizaram o único recurso que
conheciam para conseguirem suportar o que acontecera.
«A arte é uma ferida feita luz», dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz: não
só quem escreve ou pinta ou compõe música, mas também os que lêem e vêem quadros
e ouvem um concerto. Precisamos todos dessa beleza para que a vida nos seja
suportável. Fernando Pessoa expressou-o muito bem: «A literatura, como a arte em
geral, é a demonstração de que a vida não basta.» Não basta, não. Por isso
redijo este livro. Por isso estás a lê-lo.

26
Uma jovem estudante muito sábia

Não consegui encontrar uma fotografia de Marie Curie em que apareça a sorrir. É
verdade que, como me diz o meu amigo Martin Roberts, nas fotografias antigas a
seriedade era uma expressão habitual, porque a exposição demorava bastante e os
modelos tinham de ficar imóveis por muito tempo. Mas uma coisa é estar sério e
outra, muito diferente, é ter um aspeto trágico. Pierre Curie, por exemplo,
aparece-nos risonho com bastante frequência, ao contrário do que acontece com
Marie. Dela, o retrato menos carrancudo e áspero é um instantâneo a que chamam
«fotografia do casamento» e que foi tirado em 1895. Aí, se repararmos bem,
parece bailar algo semelhante a uma levíssima distensão na boca de Marie. Nada a
que possa chamar-se sorriso mas, pelo menos, a sua expressão parece franca e
quase alegre.

Foto: <omitida) A fotografia do casamento <de Pierre e Marie Curie>

27
Todos os outros retratos são horríveis; quando não está tesa como um carapau,
revela uma expressão definitivamente triste, até dramática. É tão evidente que
cheguei a desconfiar que Marie Curie tinha maus dentes e que, por esse motivo,
não queria sorrir (as pessoas são assim, maníacas: eu, por exemplo, sorrio
sempre, mesmo nas fotografias onde é menos adequado porque, quando estou séria,
fico com uma cara de perdigueiro desolado com que não me identifico). Mas na
biografia de Sarah Dry cita-se as palavras de Eugénie Feytis, uma aluna de Marie
do tempo em que a cientista dava aulas de Física e Química na Escola Normal
Superior de Sèvres. Contava Eugénie: «Acontecia com frequência o bonito rosto da
nossa professora, normalmente sério, iluminar-se com um sorriso divertido e
encantador diante de algumas das nossas observações.» «Com frequência»? «Sorriso
divertido e encantador»? Pondo à margem a pouca fiabilidade de qualquer memória
(o que recordamos é uma reconstrução imaginária), a verdade é que não consigo
visualizar Marie assim.
Em geral, o que predomina nos seus retratos é um cenho voluntarioso, uma testa
impetuosa, uma boca contraída pelo esforço. É o rosto de alguém desavindo com o
mundo, ou melhor, de alguém em plena batalha contra tudo. Até na fotografia em
que provavelmente ela gostava mais de se ver, porque era a que mais agradava a
Pierre, aparece com uma expressão amuada. Menciona-a no seu diário:
Colocámos-te no caixão sábado de manhã e segurei a tua cabeça enquanto o
fazíamos. Não é verdade que não terias querido que mais ninguém ta segurasse?
Beijei-te, Jacques também e igualmente André [o irmão e o colaborador mais
íntimo de Pierre, respetivamente]; deixámos um último beijo sobre a tua cara
fria, mas tão querida como sempre. Mais tarde, algumas flores dentro do caixão e
o meu pequeno retrato de «jovem estudante aplicada», como tu dizias, e que tanto
te agradava.

28
Pierre trazia sempre uma cópia da fotografia acima mencionada no bolso do seu
colete, e nela vê-se uma Marie muito jovem e roliça. Data provavelmente de
quando chegou a Paris no outono de 1891; tinha então vinte e quatro anos. Era
uma polaca alta e robusta (de todas as irmãs talvez a mais gorducha) e, como é
notório, muito forte: de outra maneira não se perceberia como aguentou as doses
letais de radiação a que se expôs durante tanto tempo. Pouco depois desta época
começou a emagrecer, passando a ser uma mulher magríssima, quase fantasmagórica.
Na lenda a seu respeito consta que, durante os quatro anos que estudou na
Sorbonne, se alimentava de pão, chocolate, ovos e fruta. Vivia num quarto, num
sexto andar sem elevador, e tinha de quebrar o gelo da bacia para se lavar. Uma
noite, já sem carvão para o pequeno braseiro nem dinheiro para o comprar, tinha
tanto frio que não conseguia conciliar o sono; de modo que se levantou, se
vestiu com toda a roupa que possuía e se tornou a deitar, cobrindo-se com todos
os panos que encontrou, incluindo as toalhas de mesa e de banho. Mesmo assim
continuava a tiritar e acabou por colocar sobre o corpo, em equilíbrio precário,
a única cadeira de que dispunha, para que o peso lhe desse uma enganosa sensação
de calor.
Desmaiou algumas vezes, dizem que de fome, embora ela se recordasse sempre
daquela época como tendo sido muito feliz. Mais tarde, já casada, enquanto
trabalhava freneticamente nas suas investigações radioativas, continuava a
alimentar-se muito mal (o que também faz parte da lenda). Georges Sagnac, um
colega dos Curie, escreveu uma carta a Pierre, preocupado com o aspeto de Marie:

29
«Fiquei admirado, ao ver Madame Curie na Sociedade de Física, devido à alteração
do seu aspeto [...]. Dificilmente comerão, vocês os dois. Mais de uma vez vi
Madame Curie mordiscar duas rodelas de salsicha e beber uma chávena de chá. Não
achas que uma constituição robusta sofrerá com uma alimentação tão
insuficiente?»
Sofreria Marie Curie de algum distúrbio alimentar? Seria anorética? Teria sido
aquele ar de esqueleto vivo, típico de quem sofre dessa doença, que assustou
Sagnac a ponto de o levar a escrever uma carta a Pierre? Eram tempos propensos à
anorexia, sobretudo em mulheres que, como ela, lutavam contra a estreita prisão
das convenções. Além do mais, Curie possuía um carácter perfecionista e
obsessivo, bastante habitual neste tipo de doentes; e era uma adepta fervorosa
do exercício físico, outra paixão que as pessoas com distúrbios alimentares
costumam ter: andava de bicicleta, subia montanhas, nadava, obrigava as filhas a
fazer ginástica (instalou no jardim uma barra com argolas e uma corda com nós
para que as crianças se exercitassem). De qualquer forma, não existem dados
suficientes para formular um diagnóstico: talvez fosse só uma questão de falta
de dinheiro, de falta de tempo, de falta de mimo para consigo... Alguma coisa
lhe faltava, com toda a certeza, para se tratar tão mal; embora a sua magreza
macilenta nas últimas décadas já se devesse, sem dúvida, aos estragos da
radioatividade.
Marie teve, desde sempre, uma vida muito difícil e não é de admirar o seu
sobrolho franzido e a sua expressão sofrida. É que nem teve, sequer, um país ao
nascer: em 1867 a Polónia não existia, dividida como estava entre a Rússia, a
Áustria e a Prússia. Varsóvia, a cidade de Marie (o seu nome era então Marya
Sklodowska, embora toda a gente a tratasse por Manya) estava sob governação dos
russos, que eram os mais duros: o polaco fora proibido e a repressão era feroz.
Os pais de Manya vinham de uma pequena aristocracia empobrecida e eram ambos
professores, muito cultos e inteligentes. A mãe, Bronislawa, era diretora de uma
prestigiada escola para meninas; o pai, Wladislaw, professor de Física e Química
num liceu. Marie foi o quinto e último filho que tiveram (antes dela nasceram
três raparigas e só um rapaz, Józef) e, pouco depois do seu nascimento, o pai
foi nomeado vice-diretor de uma escola nos arredores da cidade. Foram viver para
lá e a mãe tentou continuar com o seu trabalho, mas a distância era grande; de
modo que renunciou porque, como é óbvio, o destino do homem era prioritário.

30
Bronislawa passou a ser uma simples dona de casa e, pouco depois, adoeceu com
tuberculose. É possível que ambos os factos estivessem relacionados de alguma
forma: a frustração e a mágoa diminuem as defesas.
Contam os biógrafos que, depois de adoecer, a mãe deixou de tocar nas filhas
para não as contagiar, e que Marie, ainda muito pequena, não conseguiu entender
e se sentiu rejeitada. Soa a melodrama, mas parece ser verdade. Ainda é mais
melodramático o facto de, em 1874, lhe ter morrido a irmã mais velha, então com
vinte anos, de tifo; e que, quatro anos depois, a tuberculose tivesse acabado
com a mãe. Quando ficou órfã, Manya tinha apenas onze anos. As fotografias da
época, como é natural, já são muito tristes.
Ao que parece, Marie adorava a literatura e a escrita (escrevia admiravelmente
bem) e considerou durante algum tempo dedicar-se-lhes, mas acabou por se decidir
pela Física e Química, como Wladislaw: #HonrarOPai. Claro que o empenho
inacreditável e a energia monumental que Manya teve de investir para seguir em
frente, conseguir estudar e ter uma carreira própria pode também entender-se
como uma maneira de #HonrarAMãe: ela não ia abandonar a sua profissão, como
Bronislawa fizera; ela não ia acabar trancada na triste gaiola das atividades
domésticas.
#HonrarOsPais, então: que mandato terrível, que obrigação subterrânea e
frequentemente inconsciente, que armadilha do destino! Crescemos com a mensagem
forte dos nossos progenitores a arder-nos na cabeça e com frequência acabamos
por acreditar que os desejos deles são os nossos e que somos responsáveis pelas
suas carências. Um exemplo: durante a última década do século XX, tanto a Itália
como a Espanha foram-se revezando para ocupar de forma alternada o primeiro e o
segundo lugares do mundo em crescimento demográfico negativo. Ou seja: éramos os
dois países que menos filhos tinham no planeta (mais tarde, quando começámos a
receber muitos emigrantes, a tendência esbateu-se); e como é curioso tal ter
acontecido precisamente nestas duas sociedades católicas e extremamente
machistas (até há pouco tempo), com uma evolução recente e radical do papel da
mulher.

31
Deixa-me que te diga o que penso: as nossas mães viveram como prisioneiras do
sexismo, mas puderam ver as mudanças sociais que decorriam diante dos seus
olhos, embora já não pudessem beneficiar delas. E que frustração devia causar--
lhes não terem podido gozar das liberdades dos novos tempos por uma margem tão
estreita! «Eu nasci demasiado cedo», «eu devia ter trinta anos a menos»: ouvi-as
repetirem estas frases vezes sem conta. Então criaram as filhas, várias gerações
de filhas, com essa raiva e essa mágoa; e encheram-nos os ouvidos com os seus
sussurros amargos, mas hipnotizantes, com palavras candentes como chumbo
líquido: «Não tenhas filhos, não sejas como eu, não te deixes prender no papel
doméstico; sê livre, sê independente, faz por mim tudo o que eu não pude fazer.»
E nós, claro está, obedecemos: milhares de espanholas (e de italianas)
prescindiram dos filhos, #HonrandoAsMães.
Agora que penso nisso, aquela exacerbada palavra de ordem materna acaba por ser
como se nos coagissem. Não sejas tão mulher. Não sejas tão feminina. Ou, pelo
menos, não o sejas tanto como eu fui. Sê outro tipo de mulher. Sê uma #Mutante,
uma fêmea sem lugar, ou à procura de outro #Lugar.
Algo semelhante deve ter acontecido também a Manya Sklodowska. Pela única
fotografia que vi dela, Bronislawa parecia uma mulher bonita, delicada,
primorosa, vaidosa, bem arranjada. Muito feminina. A nossa Marie nunca se punha
tão bonita: aqueles cetins, aqueles caracóis, aquelas golas, aqueles punhos
esponjosos, aquele penteado impecável, aquele olhar sonhador.

32
Manya, pelo contrário, sempre fez gala de austeridade, quase de descuido, no
vestir. Como é evidente, durante muito tempo não dispôs de dinheiro para
futilidades; em Varsóvia a família passou por enormes apertos económicos, a
ponto de serem obrigados a transformar a sua casa numa espécie de pensão,
alugando quartos a estudantes. Mas nem sequer quando dispôs de fundos
suficientes se enfeitou. Pelo contrário: dir-se-ia que tanto ela como a filha
mais velha, Irene, que também ganharia um Nobel da Química em 1935 (foi a
segunda mulher a obter um galardão científico,, trinta e dois anos depois da
mãe), cultivavam de propósito o despojamento ornamental e o desdém pelas pompas
decorativas, alardeando a falta de feminilidade. A filha mais nova, Ève, que
mais tarde seria pianista, jornalista e escritora, era, pelo contrário, atraente
e vaidosa, uma rapariga na moda que se vestia com gosto e se maquilhava. Por
esse motivo recebeu reprimendas cáusticas e trocistas da mãe, que troçava dos
seus decotes ou do uso de cosméticos. No seu livro, onde se cita a si própria na
terceira pessoa, Ève conta várias cenas penosamente risíveis:
Os momentos mais dolorosos eram os da caixa de maquilhagem. Depois de um
prolongado esforço até conseguir o que ela julgava ser um resultado perfeito,
Ève acedia ao pedido da mãe: «Dá uma volta, para que possa observar-te.» Então
Madame Curie examinava-a, equânime e cientificamente, e no fim, com
consternação, declarava: «Bom, em princípio, e como é evidente, não tenho
objeções a toda esta lambuzadela e borradela. Sei que se fez desde sempre. No
antigo Egito as mulheres inventaram coisas muito piores... Só te posso dizer uma
coisa: acho pavoroso.»
E era assim, dia após dia. Noutra parte do livro, Ève permite a si própria uma
sombra de ironia que quase nunca utiliza na sua afetuosa biografia da mãe: «Se
Marie ia a uma loja com Ève, nunca olhava para os preços mas, com um instinto
infalível, apontava com as suas mãos nervosas para o vestido mais simples e para
o chapéu mais barato.» Por tudo isto, suponho, e por outras coisas de que
falaremos mais adiante, Ève afiança no livro: «Os meus anos de juventude não
foram felizes.»

33
Enfim, comparar os retratos das duas irmãs - de Irene, a filha obediente ao
mandato materno, e de Ève, a díscola - equivale a um tratado de várias páginas
sobre o que é ou não o feminino e sobre o #LugarDaMulher.

Foto <omitida>: Esta é Ève Curie


Foto <omitida>: Esta é Irene Curie

Em 1913, Einstein, numa carta à prima, que viria a ser a sua segunda mulher,
menciona o seguinte: «Madame Curie é muito inteligente mas é tão fria como um
peixe, o que significa que carece de todos os sentimentos de alegria ou mágoa.
Praticamente, a única forma que tem para expressar as suas emoções é
disparatando sobre as coisas que não lhe agradam. E tem uma filha [Irene] que
chega a ser pior: parece um granadeiro. Esta filha é também muito dotada.»
(Reprodu-lo José Manuel Sánchez Ron no seu livro sobre Curie.)
Einstein acabou por ser muito amigo de Marie e escreveu coisas belíssimas acerca
dela; esta é uma carta privada e, além do mais, parece-me que ele estava a
namoriscar a prima e queria que aquela se risse com as suas bisbilhotices
maldosas. Mas, por detrás das suas palavras, dir-se-ia que pulsam os
estereótipos habituais: refiro-me ao facto de, nas mulheres, serem em geral
chocantes os atributos tradicionalmente masculinos. Se num homem a contenção
emocional é considerada elegante e viril, numa mulher como Marie fá-la parecer,
segundo Einstein, um bacalhau. Da mesma forma, nunca se pode destacar como valor
negativo a ambição masculina, pelo contrário: faz parte da capacidade de luta,
da competitividade, da grandeza dos homens.

34
Mas uma mulher ambiciosa... ai! é uma bruxa. Má a sério. Finalmente, o parágrafo
dá a entender que ambas as Curie são pouco femininas (de tal modo que Irene é
comparada a um granadeiro). Mas ao menos respeita-as intelectualmente: e o facto
de Einstein respeitar alguém a esse nível não é caso para brincadeira. Talvez
fossem obrigadas a vestir-se assim, como secas missionárias da ciência, para que
as levassem a sério.
Na minha geração aconteceu uma coisa parecida. Pertenço à contracultura dos anos
setenta: desterrámos os soutiens e os sapatos de salto agulha e deixámos de
depilar as axilas. Mais tarde voltei a depilar-me mas, de alguma forma,
continuei a lutar contra o estereótipo tradicional feminino. Nunca usei saltos
(não sei andar com eles). Nunca usei verniz nas unhas das mãos. Nunca pintei os
lábios. Durante anos usei óculos em vez de lentes de contacto, não usava rímel
nem maquilhagem e andava sempre de calças de ganga. «Minha filha, como desprezas
a tua beleza!», queixava-se o meu pai, quase elegíaco. Mas é que então era mesmo
difícil sermos levadas a sério enquanto mulheres; em consequência, era preciso
parecê-lo muito pouco. Era necessário mimetizarmo-nos e ser mais um dos rapazes.
Inclusive, a recém-inventada pílula fomentava a ilusão, de facto machista, da
«não feminilidade», afastando de uma penada o risco de gravidez. Vivíamos e
fodíamos como homenzinhos.

Foto <omitida>: Uma fotografia minha da época em que era preciso sermos como
«mais um dos rapazes»

Foto <omitida>: Patti Smith, um dos símbolos mais evidentes dessa geração de
mulheres

35
Durante décadas, fomentei mesmo a minha faceta mais lógica, em detrimento da
mais imaginativa, porque as discussões intelectuais e racionais eram o ambiente
do varão, o território de combate onde ganhávamos o respeito do outro, ao passo
que as fantasias eram divagações parvas de mulher. É o motivo pelo qual os meus
primeiros romances são todos mais realistas, e só consegui começar a libertar-me
dessa repressão ou mutilação mental com o meu quinto livro, Temblor, um romance
de ficção-científica que foi publicado em 1990, ou seja, quando exibia a idade
mais que respeitável de trinta e nove anos. Durante todo aquele tempo, tive
dificuldade em revelar a minha faceta fantástica, em expor aquela menina
imaginativa que mantivera prisioneira a sete chaves no meu íntimo. Com o tempo,
as mulheres aprendem que ser como os homens não é, de facto, o mais desejável.
E, em vez de uma Patti Smith, as miúdas de hoje têm uma Lady Gaga, que se veste
de homem, de mulher ou de bife do lombo conforme lhe apetece. Muito mais livre.
Mas voltando às fotografias de Curie, há uma que adoro: também não sorri, claro
está, mas exibe uma expressão poderosíssima! com o olhar de quem está disposta a
chegar onde for preciso para atingir os seus objetivos. Que luta tremenda isso
implicava! Para fazeres uma pequena ideia, recorda-te de que Manya Sklodowska
era uma magnífica aluna no liceu mas que, apesar de tirar as melhores notas, não
podia continuar a estudar, uma vez que, na Polónia ocupada, o acesso à
universidade estava vedado às mulheres (na realidade, o mesmo acontecia em quase
todo o mundo).

36
Em certas notas autobiográficas que redigiu anos mais tarde, refere:

À noite [na adolescência, depois de terminar o liceu aos catorze anos] costumava
estudar. Ouvira contar que algumas mulheres tinham conseguido cursar estudos em
São Petersburgo ou no estrangeiro e propus-me estudar por minha conta para lhes
seguir o exemplo.

Céus! Diz que ouvira contar! Algumas! No estrangeiro! Quase como quem ouve
contar alguma lenda fabulosa, rumores da existência de um unicórnio alado. Foi a
partir deste abismo que Marie construiu a sua vida esplêndida, com a agravante
de, na sua família, não haver sequer um cêntimo para lhe pagar os estudos, muito
menos fora do país. De modo que, quando acabou o liceu, e depois de um ano de
depressão, Marie se empregou como precetora. Chegara a um acordo com a irmã
Bronya, dois anos mais velha do que ela, para que esta fosse para Paris estudar
Medicina; Marie ajudá-la-ia economicamente e, quando Bronya acabasse os seus
estudos, seria ela a ajudar Marie a fazer a sua carreira. Que vontade é preciso
ter para fazer tudo isto quando, inclusive, o ambiente não só não lhes era
favorável como as fazia sentir-se anómalas, absurdas nas suas pretensões, quiçá
disparatadas. Para o colocar de outra forma: ninguém esperava nada de Manya. Não
me admira que tivesse de cerrar tanto os dentes. Embora, por outro lado, o
excesso de expectativas e o imperativo tirânico da glória e do sucesso que
sofreram os rapazes também pudesse acabar por se tornar numa armadilha fatal.

37
Quantos homens desistiram, incapazes de chegar à altura impossível das
expectativas desmesuradas! Como lembra a escritora Nuria Labari, «a #Ambição tem
uma forma odiosa de matar o talento». Mas essa é outra história.

38
Pássaros com os peitos palpitantes

Já aqui foi dito que Marie cresceu num ambiente político bastante rarefeito. Em
1864, três anos antes do seu nascimento, os russos esmagaram uma insurreição
nacionalista e enforcaram os cabecilhas, deixando os corpos pendurados nas
muralhas da cidadela de Alexandre durante o verão, para que apodrecessem à vista
de todos: um espetáculo de ferocidade medieval que não deve ter melhorado as
relações entre opressores e oprimidos. Na escola, Manya e as colegas tinham as
aulas em polaco (o que era proibido), mas o centro previra um sistema de
campainhas para avisar os professores da chegada dos inspetores russos. Num
desses dias, Marie e as suas vinte e cinco colegas estavam a estudar História da
Polónia quando receberam o aviso; guardaram de pronto os livros e tiraram os
lavores, tal como tinham ensaiado, de modo que, quando o inspetor entrou, as
meninas estavam educadamente a casear. Nessa altura, a professora mandou Marie
ao quadro, porque era a melhor aluna da turma, e o tipo fê-la recitar o pai-
nosso em russo e enumerar a lista dos czares com todos os seus títulos. Marie
fê-lo bem, mas sentiu-se muitíssimo humilhada e chorou, desconsolada, quando o
homem saiu.
Compreendo a angústia dela: as perguntas do russo foram feitas com a intenção de
a domar e subjugar. Mas, por outro lado, a cena parece-me bastante simbólica.
Talvez o incidente tivesse ensinado a Manya que a mulher que cose é uma
impostora. Ou seja, que é alguém que sabe e faz muito mais do que apenas
pespontar casas com mansidão. Os ambientes revolucionários sempre foram
favoráveis ao avanço das mulheres; os momentos socialmente anómalos deixam
fissuras na estrutura convencional por onde os espíritos mais livres escapam.

39
Isto significa que, por esses estranhos paradoxos da vida, é possível que a
repressão russa tivesse ajudado Marie a romper com os preconceitos machistas da
época; unidos pela resistência nacionalista, os homens e as mulheres polacos
eram, sem dúvida, mais iguais. Aliás, esse ambiente efervescente contribuiu para
que Marie se consciencializasse e posicionasse ideologicamente desde muito cedo.
Assim que chegou à adolescência, a futura Madame Curie transformou-se numa
seguidora entusiasta do positivismo de Comte, que se distanciava da religião e
consagrava a ciência como única via para conhecer a realidade e melhorar o
mundo. Manya, que abandonara a fé depois da morte da mãe, entregou-se com paixão
ao romantismo científico. Aos dezoito anos mandou à sua melhor amiga um retrato
que tirara com a irmã mais velha, Bronya, cuja dedicatória era a seguinte: «Para
uma positivista ideal de duas positivistas idealistas.» Para falar com
franqueza, nele aparece rechonchuda como uma maçã.

Foto <omitida>: Manya e Bronya Sklodowska

Ainda assim, e apesar do fervor dos ideais e da luta nacionalista, imagino Marie
naquela escola: a mais nova de cinco irmãos (quatro, depois da morte da mais
velha), sem dinheiro, uma simples menina humilhada pelos invasores. O que podia
esperar da vida? Em Nada (1944), esse maravilhoso romance escrito em estado de
graça por Cármen Laforet aos vinte e três anos, a narradora fala das amigas da
tia, que haviam sido jovens felizes e que eram agora mulheres atormentadas e
murchas, contando: «Eram como pássaros envelhecidos e obscuros, com os peitos
palpitantes por terem voado de mais num bocado de céu muito pequeno.»

40
Esse era o destino mais provável para Manya: um bocado de céu demasiado pequeno
e um coração quase desfeito depois de ter embatido contra os limites, uma e
outra vez. Não creio que, então, alguém desse um cêntimo que fosse pela pequena
Sklodowska.
Mas Marie possuía #Ambição. A bem da verdade, era uma ambição confusa ou, pelo
menos, a forma contraditória com que as mulheres se relacionam com a sua própria
ambição. Felizmente as coisas estão a mudar imenso nas últimas gerações, mas até
há bem pouco tempo (duas décadas apenas), o maior problema da mulher ocidental
consistia em não saber viver para o seu próprio desejo: vivia sempre para as
vontades dos outros - dos pais, dos namorados, dos maridos, dos filhos -, como
se as suas aspirações pessoais fossem secundárias, improcedentes e defeituosas.
Este caos mental não é de admirar quando nos educaram durante séculos na
convicção de que a #Ambição não é coisa de mulheres. No tempo de Marie Curie,
pretender brilhar por si própria era anormal, presunçoso e até ridículo. E
assim, sem modelos em que se rever e contra a corrente, é muito difícil seguir-
se em frente mesmo que se tenha uma vocação e se esteja convencida do próprio
valor, porque tudo à sua volta repete sistematicamente que se é uma intrusa, que
não se vale o suficiente, que não se tem o direito de estar ali, junto dos
homens. Que se é uma #Mutante, fracassada como mulher e um aborto como homem.
Quantas mulheres dotadas devem ter quebrado sob pressão! Como aconteceu
justamente a Cármen Laforet: ela sabia que possuía um talento literário
descomunal, e a sua #Ambição era equivalente ao seu talento; mas não teve força
psíquica suficiente para manter as suas aspirações no meio do machismo reles do
pós-guerra espanhol. Não voltou a escrever nada com a qualidade do seu primeiro
romance e, de facto, escreveu pouco mais. Quebrou. Foi-se abaixo. Laforet, sim,
acabou envelhecida e obscura e com o peito a palpitar de impotência e asfixia.

41
Por isso, porque era muito duro e arriscado avançar a sós, muitas mulheres
solucionaram a sua ânsia de sucesso da forma tradicional: agarrando-se a um
macho como uma lapa e vivendo o destino do seu homem. Atenção: não estou a
referir-me às donas de casa, àquelas a que chamam depreciativamente marujas,
mulheres estóicas e essenciais na construção da vida, verdadeiros pilares da
terra. Não: falo das musas profissionais, as mulheres que só se unem a homens de
sucesso. São mulheres que dão tudo pelo seu cavalo de corrida: cuidam dele,
alimentam-no, escovam-no; servem-lhe de secretárias, amantes, mães, enfermeiras,
publicitárias, agentes, guarda-costas; são mesmo capazes de morrer por ele, se
necessário. Foi o que fez Eva Braun com Hitler. Creio que Eva se suicidou no
bunker na convicção de que assim passaria à História, e tinha razão. Isso, sim,
é #Ambição, poça! Pergunto a mim própria até onde teria chegado Eva Braun caso
tivesse tido coragem suficiente para construir o seu próprio destino.
Trabalhando como fotógrafa, por exemplo: adorava tirar fotografias e não era
nada má.
Manya também esteve à beira da claudicação. Em 1890 a sua irmã Bronya escreveu-
lhe de Paris contando-lhe que estava a terminar os estudos, que ia casar-se e
que Marie podia ingressar Sorbonne no ano letivo seguinte. Mas a futura Madame
Curie respondeu com esta carta desoladora:
Sonhava com Paris como sendo a redenção, mas há muito que a esperança da viagem
me abandonara. E agora que se me oferece a possibilidade, não sei o que fazer.
Tenho medo de falar com o papá. Creio que o nosso projeto de vivermos juntos no
próximo ano lhe tocou o coração [...] Gostaria de dar-lhe um pouco de felicidade
na sua velhice. Por outro lado, parte-se-me o coração quando penso nas minhas
aptidões perdidas...
Nas suas aptidões perdidas... Manya sabe que é boa, mas como é difícil manter
essa convicção quando mais ninguém a confirma... Por outro lado, vemo-la aqui
prestes a sacrificar-se para adotar o antiquíssimo papel da filha que fica para
cuidar dos seus progenitores:

42
#HonrarOsPais. Mas na realidade, o que acontecera a Marie nesses anos para
parecer tão derrotada? Pensa um pouco. Pensa naquilo que é mais óbvio. Fecha os
olhos durante uns segundos e não continues a ler. Pensa e de certeza que
acertarás.
Precisamente. Cherchez Vhomme. O que aconteceu é que Manya se apaixonou como uma
imbecil, e sofreu.
Mas comecemos pelo princípio. E o princípio é a falta de #LugaresDasMulheres, os
espaços equívocos por onde era tradição que se movessem. Quando Marie recuperou
da depressão que sofrera aos quinze anos depois de terminar o liceu (talvez
devido à morte da mãe, da irmã, à falta de dinheiro e de opções para continuar a
estudar) e procurou emprego para poder pagar a faculdade a Bronya, descobriu que
ser precetora era uma maçada, porque se tratava de uma figura indefinida: eram
raparigas cultas e de boas famílias empobrecidas (por isso tinham de trabalhar),
e as suas necessidades equiparavam-nas à criadagem. Ou seja, permaneciam numa
espécie de limbo social: em teoria respeitadas como iguais pelos senhores, mas
ocupando de facto uma posição tão falsa que a realidade quotidiana se
encarregava de as pôr no seu lugar (como cruelmente então se dizia),
encarregando-se com frequência de as humilhar. Nos seus romances, Jane Austen
descreveu com grande sensibilidade esse #Lugar sem lugar de tantas raparigas
desesperadas. É preciso ter em conta que, até ao século XX, a mulher quase não
possuía opções laborais. As operárias trabalhavam o dobro e recebiam metade do
salário dos maridos, mas as da classe média nem sequer podiam empregar-se exceto
nalguns (poucos) ofícios de perfil escorregadio: precetora, dama de companhia...
Não existiam mais saídas além das apresentadas ou da opção por alguma das três
ocupações tradicionais: freira, puta ou viúva. Digamos que, através dos séculos,
estes três #Lugares foram praticamente os únicos que as mulheres puderam ocupar
para dirigirem elas próprias a sua vida e fazerem uma boa carreira profissional:
abadessa de um convento; cortesã de luxo; ou viúva alegre e ativa, capaz de
continuar a dirigir a empresa ou o império do falecido marido. Como a magnífica
Veuve Clicquot (a viúva Clicquot) que, por morte do marido em 1805, conseguiu
transformar o seu champanhe num êxito borbulhante; ou como a terrível e
malvadíssima imperatriz Irene de Bizâncio, que assumiu o poder em 780 quando
desapareceu o seu cônjuge, o imperador Leão IV.

43
Fora desses muito escassos #Lugares sociais autorizados, as mulheres, se queriam
mover-se em liberdade pelo mundo, tinham de disfarçar-se de homens. Devem ter
existido muitas, muitíssimas mulheres travestidas desde o princípio dos tempos -
só em Dom Quixote de la Mancha mencionam-se duas -, mas o castigo pelo
atrevimento podia ser terrível. Demonstra-o de forma exemplar a história da
papisa Joana, uma lenda singularmente expressiva. Contam-se que, no século IX,
houve uma mulher que chegou a ser papa durante dois anos, sete meses e quatro
dias, fazendo-se passar por homem. Uns afirmam que o seu pontificado decorreu
entre 855 e 857, e nesse caso teria sido conhecida pelo nome pontifício de
Benedito III; outros, que decorreu em 872, o que corresponderia a João VIII.
Joana teria nascido na Mogúncia: muito inteligente e amante do conhecimento, tal
como a nossa Manya, como não podia estudar por ser mulher, disfarçou-se de
monge. Viajou para Atenas na companhia de outro religioso e aí conseguiu
transformar-se numa figura intelectual bastante respeitada. Sendo um sábio
célebre, Joana foi para Roma e conquistou a cidade, de tal forma que foi eleita
papa por unanimidade. Mais, a lenda conta que o seu mandato foi bom e prudente.
Mas engravidou do seu amigo monge e um dia, enquanto atravessava a cidade numa
procissão solene com todos os ornamentos pontifícios, Joana entrou em trabalho
de parto prematuro e deu à luz entre a multidão. Imagina a cena: a tiara
dourada, o báculo, as sedas, os brocados soberbos encharcados com o sangue
feminino e cobertos com os humildes restos placentários. Supõe-se que nessa
altura as pessoas, tão enfurecidas como horrorizadas, se atiraram sobre a
papisa, a amarraram pelos pés à cauda de um cavalo, a arrastaram e lapidaram
durante meia légua até a matarem. Tal acontecimento ter-se-ia dado numa ruela
estreita entre o Coliseu e a igreja de São Clemente pelo que, durante séculos,
se acreditou aí ter estado exposto um marco a recordar o evento, onde se podia
ler o seguinte: «Petrus, Pater Patrum, Papisse Prodito Partum» (Pedro, Pai dos
Pais, propiciou o parto da Papisa), uma inscrição que é uma verdadeira apoteose
do poder patriarcal e que enterra sob uma catarata de «pês» viris a intrusa
insolente.

44
Por fim, contam também que, depois dessa terrível subversão da ordem, dessa
tentativa de usurpar o mais importante #LugarDoHomem no mundo (não te esqueças
de que o papa é o representante terreno de um Deus indubitavelmente macho), se
instituiu durante vários séculos um curioso ritual na eleição dos pontífices que
consistia em fazer o papa sentar-se, antes da coroação, numa cadeira de mármore
vermelho com o assento furado. Na devida altura o prelado mais jovem (isto do
mais jovem será porque aos novatos calha sempre o mais desagradável dos
serviços, ou porque era mais prazeroso para o pontífice?) punha a mão por baixo
do assento e era obrigado a apalpar os genitais do novo pontífice, gritando em
seguida: «Habet!», ou seja, «Tem!», brado ao qual os restantes cardeais
respondiam: «Deo Gratias!», suponho que cheios de alívio e regozijo por poderem
confirmar que o novo Petrus era um Pater como eles. De momento, nada de Matere,
por favor. A lenda da papisa Joana foi bastante popular durante vários séculos e
as pessoas acreditavam nela a pés juntos até a Igreja a ter rejeitado
oficialmente no século XVI. Mas é indiferente que seja verdade ou mentira: o que
interessa é a sua enorme força simbólica e a maneira como revela bem o medo do
mundo masculino perante a ascensão social da mulher. Além de servir como
parábola didática, ensinando às mulheres que tentar ocupar o #LugarDosHomens se
castiga de forma capital.

45
É mesmo isto que Marie Curie fará: ocupar #Lugares nunca antes pisados por
mulheres, pagando, como é evidente, um preço alto pela ousadia. Mas vários anos
antes, e como milhares de outras raparigas, a jovem Sklodowska empregou-se como
precetora. Primeiro numa casa horrível, onde durou pouco, e depois no campo,
longe de Varsóvia, com uma família nacionalista e amável, os Zorawski. Daí
escreveu à prima:
Para os rapazes e raparigas daqui, palavras como positivismo ou a questão social
são objeto de aversão, supondo que tenham sequer ouvido falar delas, o que é
invulgar [...]. Se pudesses ver como me porto bem! Vou à igreja todos os
domingos e dias santos de guarda, sem nunca alegar dor de cabeça ou uma
constipação para me livrar. Quase nunca menciono o tema da educação superior
para as mulheres. Em geral, nas minhas conversas, guardo o decoro que se espera
de alguém na minha posição...
Apesar da incomodidade da posição, desse #Lugar tão escorregadio, Marie não
conseguiu evitar por completo ser quem era: organizou uma escola clandestina
para ensinar os camponeses da zona a ler e a escrever em polaco, um projeto
arriscado devido ao qual poderiam tê-la prendido. Já antes participara na
resistência através da Universidade Volante de Varsóvia, um movimento educativo
subterrâneo: os estudantes recebiam aulas de nível superior e, ao mesmo tempo,
ensinavam operários. Tudo estas atividades eram proibidas e implicavam riscos.
Recordam-me os esforços comoventes daquelas professoras que, em segredo,
continuavam a dar aulas às meninas sob o regime terrível dos talibãs.
E o que aconteceu foi que, no verão, Marie conheceu o filho mais velho dos
Zorawski, Casimir, um rapaz da sua idade que estudava Matemática em Varsóvia, e
se apaixonaram. Faíscas saltaram-lhe diante dos olhos, campainhas ensurdecedoras
tilintaram-lhe aos ouvidos e as estrelas puseram-se a dançar. Ou seja, a
parafernália habitual da primeira paixão.

46
Sarah Dry inclui uma fotografia de Casimir na sua biografia de Curie; dir-se-ia
que era um jovem bastante atraente.
Ah, marota! No fim de contas a nossa marrona gostava dos bonitos (no seu estilo,
Pierre Curie também não era de se deitar fora).
De modo que, neste assunto, a transgressora Marie era bastante convencional.
Para minha vergonha, devo reconhecer que me acontece o mesmo. Não é justo, não é
racional, não casa com os meus princípios nem com as minhas ideias, mas é dos
bonitos que mais gosto. Sempre me irritou e desesperou essa propensão tão humana
de revelar uma debilidade irremediável pela beleza. É possível que seja só uma
determinação genética, qualquer coisa inscrita cegamente nas nossas células,
porque nos animais a beleza (isto é, a simetria) parece ser um indício da sua
boa capacidade reprodutora; mas sendo os humanos criaturas complexas e
distantes, em tantas coisas, daquilo que é instintivo, porquê continuarmos
presos a esse ardil biológico?

47
O facto é que as pessoas bonitas tendem a parecer-nos mais inteligentes, mais
sensíveis, mais honestas, mais mais e tudo de tudo. Olha para este rosto, por
exemplo: não achas que deixa adivinhar um temperamento doce e delicado?
É pena que seja a fotografia de Jeffrey Dahmer, o Carniceiro de Milwaukee (1960-
1994), que assassinou, torturou, mutilou e devorou dezassete homens e rapazes. A
realidade é teimosa e complexa e insiste em contrariar-nos de forma obscena
quando nos armamos em sonhadores.
Creio que quem padece destes excessos de idealização são sobretudo as mulheres,
que demonstram uma facilidade desmesurada em inventar o amado. Sim, já sei que
as generalizações têm sempre a sua quota-parte de estupidez, mas deixa-me que
brinque um pouco falando dos homens e das mulheres, mesmo que seja apenas
esquematicamente. E, assim, penso que, quando julgamos estar apaixonadas por
alguém, enumeramos de imediato, como origem do nosso entusiasmo, uma quimera de
virtudes sem fim que atribuímos a essa pessoa (éespertoébomouéencantador),
quando o que nos ofuscou e a única coisa que, com certeza, sabemos acerca dele
(ou talvez dela: não sei se acontecerá o mesmo nas relações homossexuais) é que
tem uns olhos de uma cor espantosa, uns dentes muito brancos entre lábios
sumarentos, ombros largos e um pescoço que apetece mesmo morder. Porque nós,
mulheres, estamos presas ao nosso pernicioso romantismo, a uma idealização
desaforada que nos faz procurar no amado o sumo de todas as maravilhas.

48
E mesmo quando a realidade nos demonstra, uma e outra vez, que não é assim
(quando nos apaixonamos, por exemplo, por um tipo rude e grosseiro),
interiormente argumentamos que essa aparência é falsa; que, bem lá no fundo, o
nosso homem é um doce e que, para revelar a sua ternura natural, só precisa de
sentir-se mais seguro, mais querido, mais bem acompanhado. Em suma, convencemo-
nos de que vamos conseguir mudá-lo graças à varinha mágica do nosso carinho.
Resgataremos e libertaremos o verdadeiro amado, que está preso no interior dos
seus traumas emocionais. Salvá-lo-emos de si próprio.
Nós, mulheres, sofremos da maldita síndrome da redenção.
Creio que os homens, pelo contrário, costumam ser mais saudáveis neste ponto, e
são capazes de amar-nos pelo que realmente somos. Não nos inventam tanto, talvez
porque também não têm tanta necessidade (durante séculos, o amor foi a única
paixão que nos foi permitida, enquanto os homens se podiam apaixonar por muitas
outras coisas), ou talvez não possuam uma imaginação tão fértil. O facto é que
olham para nós e nos vêem, enquanto nós olhamos para eles e, no calor do
primeiro enamoramento, o que vemos é uma quimera fabulosa. Há uma frase genial
de um comediante francês chamado Arthur a esse respeito: «O problema dos casais
é que as mulheres se casam pensando que eles vão mudar, e os homens se casam
pensando que elas não vão mudar.» Que tremenda lucidez, e que certeiro!
Maioritariamente, empenhamo-nos em mudar o amado para que se adapte aos nossos
sonhos grandiosos. Achamos que, se o curarmos das suas supostas feridas, o nosso
amado perfeito emergirá em todo o seu esplendor. As histórias infantis, tão
sábias, sublinham-no com clareza: passamos a vida a beijar sapos, convencidas de
que podemos transformá-los em belos príncipes.
Mas os sapos são sapos, coitadinhos; não só ninguém consegue mudar ninguém, como
é profundamente injusto exigir a um batráquio que se transforme noutra coisa. De
modo que, à medida que o tempo passa e vemos que o nosso homem não se transforma
em Super-Homem, começamos a sentir uma frustração e um rancor desenfreados.
Apagamos os focos dos nossos olhos, os refletores com que antes os iluminávamos
como se fossem as grandes estrelas do nosso filme, e começamos a observá-los com
desprezo e desilusão, como se se tratassem de carraças.

49
Quando Arthur afirma que os homens pensam que nós não vamos mudar, não se refere
a podermos ficar rabudas ou com celulite, mas a enchermos de aspereza o olhar, a
deixarmos de mimá-los e de cuidar deles como se fossem deuses, a arruinarmos a
vida em comum com censuras acerbas. Às vezes o processo de desencanto é tão
feroz que a convivência se transforma num inferno para ambos. Patricia
Highsmith, magnífica domadora de demónios, reflete a cruel transformação do amor
em ódio em vários dos seus romances mas, sobretudo, no desolador Águas
Profundas. Creio que nós, pelo contrário, lhes parecemos a eles umas rãzinhas
amorosas. Nisso são menos exigentes, mais generosos. Invejo a naturalidade com
que nos vêem e nos desejam.
Voltando à nossa Marie: penso que, por debaixo da sua rígida contenção, e
justamente por causa dela, era uma verdadeira torrente passional. As cartas que
escreveu na juventude transbordavam de sentimentos vulcânicos, bem como o diário
que manteve depois da morte de Pierre e as poucas linhas que mandou ao amante,
Langevin, e que quase originaram uma tragédia. A paixão escondia-se nos altos e
baixos do seu temperamento, nas suas crises melancólicas, na sua sensibilidade
de nervo em carne viva. De modo que imagino o que terá sido esse primeiro amor
por Casimir. Meu Deus! Aquela mulher de mente e vontade tão poderosas, aquela
força da Natureza, fascinada cegamente pelo rapazinho bonito (embora tenha a
certeza de que Manya julgava amá-lo por ser um bom matemático). Deve ter sido um
espetáculo emocional digno de se ver.
E aconteceu então o que acontece nos romances de George Elliot: quando Casimir
contou aos pais que queria casar-se com Manya, os encantadores Zorawski deitaram
as mãos à cabeça e deixaram de ser encantadores. Mas como, com uma precetora?
Nem pensar! Mais: se o filho insistisse na história do casamento, seria
deserdado de imediato. Formalmente, a história acabou aí; ademais, como cúmulo
da dor e da humilhação, Marie teve de continuar como precetora dos Zorawski
durante os dois anos que se seguiram, até acabar o contrato, fazendo de conta
que nada acontecera. Deve ter sido bastante penoso, como é evidente.

50
Como se não bastasse, a história com Casimir na verdade não terminara. É de
calcular que o rapaz se movia num mar de ambiguidades, que dizia e se desdizia
sem se atrever a romper com a família, e suponho que Manya terá mantido a
esperança de que ele mudasse para além do razoável (parece-te familiar?). O
facto é que o último encontro com Casimir se deu em 1891, pouco antes de ela ir
para Paris, o que significa que a maldita história, ou não-história, durou quase
cinco anos. Esses foram os tempos mais difíceis, uma época de tristeza e chumbo
que quase acabou com Marie. Ela própria o admite numa carta ao irmão:
Agora que perdi a esperança de chegar a ser alguém, deposito todas as minhas
ambições em Bronya e em ti. Vocês os dois, pelo menos, devem orientar as vossas
vidas em conformidade com os vossos dons. Esses dons, que sem dúvida existem na
nossa família, não devem desperdiçar-se... Quanto mais pena sinto por mim, mais
esperança tenho em vocês.
Sempre a consciência dos dons; e a desmoralização, a incapacidade de assumir a
enorme luta que implicaria tentar desenvolver o próprio talento.
Querida Bronya:
Fui estúpida, sou estúpida e continuarei a sê-lo pelo resto da minha vida, ou
talvez devesse traduzi-lo numa linguagem mais clara: nunca fui, não sou nem
serei afortunada.
Esta veemência na autoflagelação é típica da apaixonada que sente ter caído no
ridículo. Por que outro motivo uma mulher pode afirmar com tanto desespero que
foi, é e será uma estúpida se não for por ter o coração partido? São palavras
que parecem tiradas de um melodrama sentimental, de tão óbvias. O desamor é
tópico ridículo, monumentalmente exagerado. Mas dói, ah, como dói! Parece
mentira que o fim de uma ilusão amorosa que talvez só tenha durado umas semanas
possa mergulhar-nos em semelhante inferno. Já se sabe que sofrer de mal de
amores é como enjoar num barco: as pessoas acham o nosso estado divertido, mas
nós sentimo-nos a morrer.

51
Em 1888, enquanto suportava a amargura de continuar a trabalhar na casa de quem
a rejeitara como nora, Manya escreveu a uma amiga:
Caí numa negra melancolia [...]. Só tinha dezoito anos quando cá cheguei e o que
não padeci! Houve momentos que contarei entre os mais cruéis da minha vida!
E isto vindo de uma rapariga que vivera a morte da mãe e da irmã mais velha
antes dos onze anos! Mas a ferida sentimental parecia-lhe mais insuportável,
mais feroz. Sim, as mágoas de amor abrem abismos insuspeitados, espasmos de
agonia que, creio, se referem na realidade a outra coisa, que vão mais além da
história amorosa concreta, que se relacionam com algo muito básico da nossa
construção emocional, com a pedra angular em que assenta o edifício que somos. O
desamor derruba e derrota. «A tensão que lhe causa [a história de Casimir] veio
juntar-se ao seu transtorno», escreve o pai de Marie por essa altura a outra das
filhas: vê-se que, desde a depressão sofrida aos quinze anos, a considerava
frágil, nervosa, demasiado apaixonada.
E assim estava Manya: à beira de baixar os braços. Um rapazote bonito quase a
levou a render-se e a aceitar o tradicional destino sacrificial da filha que
fica a cuidar do pai. Fico arrepiada só de pensar que aquele mentecapto esteve a
ponto de nos privar da existência de Marie Curie! (Casimir acabaria por se
tornar um dos matemáticos mais importantes da Polónia, mas, mesmo assim,
continua a parecer-me alguém deplorável a nível emocional.) Pergunto a mim
própria quantas Manyas se terão perdido pelo caminho de forma semelhante...
Quantas possíveis pintoras, escritoras, engenheiras, inventoras, exploradoras,
escultoras, médicas, geómetras, geógrafas, astrónomas, historiadoras,
antropólogas... Quantas outras mulheres radioativas e maravilhosas não chegaram
nunca a poder irradiar? Espero que o cobarde Casimir e a sua família
convencional tenham apodrecido de arrependimento ao verem a pequena precetora
Manya transformada numa fulgurante Marie Curie (de certeza que a própria Marie
também o terá pensado com complacência).

52
O fogo doméstico do suor e da febre

A infância é um lugar a que não se pode regressar (regra geral, também não
queremos fazê-lo; eu, à partida, nunca voltaria), mas do qual, na realidade,
nunca se sai. «O menino é o pai do homem», declarava Wordsworth num verso
célebre, e com razão: a infância forja-nos, e o que somos hoje mergulha as suas
raízes no passado. Dizem que a Humanidade se pode dividir entre aqueles cuja
infância foi um inferno, e que viverão sempre perseguidos por esse fantasma, e
aqueles que gozaram de uma infância maravilhosa, que estão ainda pior porque
perderam para sempre o paraíso. Brincadeiras à parte (ou não será uma
brincadeira?), a infância é uma etapa espinhosa. Toda aquela fragilidade, toda
aquela impotência, toda aquela intensidade nas emoções; além da imaginação
febril, do tempo eterno e de uma necessidade de carinho tão desesperada como a
que sente o náufrago que agoniza de sede na falta de um copo de água. Na
infância estamos quase sempre a morrer, metaforicamente falando. Ou, pelo menos,
sujeitos a que morram ou acabem mutilados alguns dos nossos ramos. Crescemos
como bonsais, torturados, podados e diminuídos pelas circunstâncias, pelas
convenções, pelos preconceitos culturais, pelos imperativos sociais, pelos
traumas infantis e pelas expectativas familiares. #HonrarOsPais.
Houve um tempo em que preguei na parede da minha casa fotografias dos meus
amigos em criança. Mais tarde, em alguma das minhas mudanças, guardei-as numa
caixa. Não sei porque as tirei da parede: eram maravilhosas.

53
Estavam tão despidos, eram tão transparentes nesses retratos... Depois da morte
de Pablo, o seu primo Rafael Fernández del Amo enviou-me esta fotografia:
Atrás escreve: «Na barragem de El Burguillo. Valdelandes. Verão de 1961.» Pablo
é o mais pequeno, o que espreita ao fundo com a cabeça inclinada. Tinha dez anos
acabados de fazer. A realidade é que todo ele já estava ali, mas com a inocência
e com a ignorância daquilo que depois a vida lhe traria. É estranho: desde que
morreu não sinto só a falta da sua presença, de continuar a viver com ele, como
também tenho saudades do seu passado, das muitas vivências que não conheci.
Desta infância, desta tarde de verão num barquinho. Gostaria de poder beber,
como um vampiro, todos os seus momentos de felicidade.
Creio que é uma questão de #Intimidade. Pablo e eu estivemos juntos vinte e um
anos. Foi, tanto para ele como para mim, a relação mais longa das nossas vidas,
com enorme diferença relativamente às anteriores (em ambos os casos, de não mais
de quatro anos). Julgo que o conheci melhor do que ninguém e, como é evidente,
na minha vida não houve nem haverá alguém que chegue a conhecer-me tão bem como
Pablo. Mesmo que tenha a sorte de viver mais vinte e um anos de boa saúde, e a
ventura improvável de o fazer acompanhada pelo melhor parceiro possível, as
etapas que me restam pela frente já não são tão centrais, tão intensas, tão
mutáveis, tão eloquentes como os anos que partilhei com Pablo.

54
Este desconsolo da #Intimidade perdida («para sempre», «para sempre», novamente
as mesmas palavras malditas, obsessivas) é um dano colateral que chega com o
luto e que todos os viúvos de longos relacionamentos conhecem muito bem. Na
primeira página do seu diário, Marie fala dos últimos dias que passou com
Pierre. Estavam nas férias da Páscoa e passaram um fim de semana no campo, numa
pequena povoação chamada Saint-Rémy-lès-Chevreuse:
Tínhamos feito o leite-creme de que gostavas. Dormimos no nosso quarto com Ève
[que na altura teria catorze meses] . Disseste-me que preferias aquela cama â de
Paris. Dormimos aconchegados um no outro, como de costume, e dei-te um pequeno
xaile de Ève para que cobrisses a cabeça.
Ah, quanta, quanta #Intimidade há nestas linhas! A vida real, a mais verdadeira
e mais profunda, é feita destas pequenas banalidades. Marie fez-lhe o leite-
creme de que ele gostava. Não nos conta como, mas sabia sem dúvida qual o ponto
exato de cozedura que Pierre queria, se preferia comê-lo num prato ou numa taça,
mais espesso ou mais leve. E o que dizer da cama de Paris em oposição à de
Saint-Rémy? As nossas camas são tão importantes! Por vezes, embora cada vez
menos, são o cenário da nossa morte. E, de qualquer forma, são o aconchego da
nossa nudez mais absoluta, e não me estou a referir só à falta de roupa. Porque
preferia Pierre a cama do campo? Era mais mole, mais dura, mais alta, mais
baixa, mais estreita, mais larga; estava ao lado de uma janela, junto à parede;
teria vista, teria luz? Como é óbvio, Marie conseguiria responder a todas estas
perguntas, e isso, justamente, é conhecer alguém, é possuí-lo. Dormiam
aconchegados um no outro «como de costume»: eis a #Intimidade a explodir no amor
glorioso da pele, um amor animal. E o melhor: deu-lhe um xaile para que cobrisse
a cabeça. Aqui chegamos à zona abissal da #Intimidade. Atingimos as manias de
cada um: águas profundas. Escrevi num dos meus romances que o amor consiste em
encontrar alguém com quem partilhar as nossas excentricidades. Pierre gostava de
cobrir-se com um trapo.

55
O meu pai também: enrolava a dobra do lençol em volta da cabeça. Continuar a
amar alguém que põe um lencinho bordado de bebé no cocuruto, ou que se embrulha
como uma muçulmana num xador, é a prova máxima do verdadeiro amor. Não existe
nada de ridículo na #Intimidade, nada escatológico ou repudiável nesse lento
fogo doméstico de suor e de febre, de moncos e espirros, de peidos e roncos.
Bom, estes últimos costumam ser motivo de muitas discussões, mas até a isso
acabamos por nos habituar. A #Intimidade: não ser muito claro onde acaba um e
começa o outro. E saber tudo sobre aquela pessoa ou, pelo menos, saber muito. No
seu belo livro Tiempo de Vida, escrito depois da morte (por cancro) de seu pai,
Marcos Giralt Torrente aponta os gostos do falecido em longas fiadas de dados
ínfimos: «Tinha uma inclinação pelos fritos e por tudo o que levasse bechamel
[...], gostava de enchidos, de macarrão, de almôndegas; gostava de repolho, de
beterraba, de atum...» Todas estas insignificâncias, de facto, é que constituem
as pessoas. São a nossa fórmula básica, o rabisco único que cada um desenha na
existência. Por exemplo: eu detesto couves e belisco as peles dos dedos até
fazer sangue. Estas ninharias, e muitas mais, são exatamente o que sou.
Por isso sinto falta de conhecer também o passado, a vida de Pablo que eu não
vivi. Quero saber tudo acerca dele. Se o conseguisse, e em absoluto, seria como
se ele não tivesse morrido. Carregamos os nossos mortos às costas: é o que me
garantia Amos Oz numa entrevista (os judeus têm tantos mortos, afirmava ele, que
o peso é sobre-humano). Ou então somos relicários dos nossos entes queridos.
Trazemo-los cá dentro, somos a sua memória. E não queremos esquecer:
Irene brinca com os tios. Ève, que durante tudo o que aconteceu corria pela casa
numa alegria inconsciente, brinca e ri-se; toda a gente fala. E eu vejo os olhos
do Pierre da minha alma no seu leito de morte, e sofro. Parece-me que o
esquecimento já aí vem, o esquecimento horroroso, que até a recordação do ser
amado aniquila.

56
Isto de não querer esquecer é uma prova, um lugar-comum acerca do qual toda a
gente nos previne e que, evidentemente, dificulta o luto e o torna mais longo.
Mas é lógico resistirmos ao esquecimento porque essa é a derrota final perante a
nossa grande inimiga, perante a morte asquerosa que é destruidora das doçuras,
separadora das multidões, aniquiladora dos palácios e construtora de túmulos,
como a denominam nas Mil e Uma Noites, uma obra que sabe muito sobre o combate
desigual dos homens contra a Parca.
De modo que Marie recordava Pierre em carne viva, motivo pelo qual proibiu as
filhas de mencionarem o pai na sua presença. Suponho que a magoava de mais e
receava ir-se abaixo diante das miúdas. De qualquer maneira, a proibição parece-
me brutal e própria de uma mulher possuída com violência pelas suas emoções,
mesmo que se esforçasse por ocultá-lo. Ela própria reconheceu a sua dissimulação
numa carta que escreveu a uma amiga, aos vinte anos: «Quanto a mim, estou muito
contente, porque com frequência escondo no riso a minha absoluta falta de
alegria. Foi uma coisa que aprendi a fazer quando me dei conta de que as pessoas
que vivem tudo com tanta intensidade como eu não são capazes de mudar esta
característica da sua natureza e têm de a dissimular o melhor possível.» Tal
como os géiseres, só de quando em quando deixava escapar o seu íntimo ardente.

Foto <omitida>: Marie com Ève e Irène em 1908

57
Há uma fotografia terrível de Marie com as filhas no jardim de casa. Parece um
retrato trágico de um luto muito recente (dir-se-ia que tinham acabado de
regressar do cemitério), mas foi tirada dois anos depois da morte de Pierre. As
crianças têm a mesma expressão de dor contida, sobretudo Irene, que abraça a mãe
de uma forma comovente, não sei se tentando protegê-la. Deve ter sido uma
infância dura para as duas órfãs. Ève reconheceu-o mais tarde, por escrito, mas
creio que foi a Irene que calhou a parte pior. Eu diria que Marie Curie, a
grande Marie, foi uma mãe terrível para a filha mais velha. Uma mãe de uma
exigência insaciável que, quando Pierre morreu, entregou a menina em oferenda à
memória sagrada do marido. Ela própria o admite no diário, poucas semanas depois
da morte dele:
Eu sonhava, meu Pierre, e disse-to muitas vezes, que esta menina, que se parecia
tanto contigo na reflexão grave e tranquila, depressa se transformaria na tua
companheira de trabalho, e te deveria o melhor de si mesma.
Irene recebeu o mandato de substituir o pai e obedeceu: #HonrarAMãe. E fê-lo com
tanto empenho, com uma entrega tal, que não só conseguiu ganhar também um Nobel
da Química, como acabou por morrer prematuramente, aos cinquenta e nove anos, em
consequência das radiações, enquanto a mãe só veio a falecer aos sessenta e
seis. Neste sacrifício ganhou-a.
Há um poema arrepiante de Philip Larkin sobre o legado de dor que muitas vezes
se herda dos pais. Intitula-se This Be The Verse e diz:

They fuck you up, your mum and dad.


They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they werefucked up in their turn


By fools in old-style hats and coats,
Who halfthe time were soppy-stern
And halfat one anothers throats.

58
Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you cari,
And dont have any kids yourself.

Cuja tradução acaba por ser:

Fodem-te a vida, o papá e a mamã,


Mesmo que não seja essa a intenção.
Deixam-te todos os vícios que tenham
E mais dois ou três por especial atenção.

Mas no tempo deles também foram fodidos


Por tolos trajando jaquetão e coco,
Que, quando não estavam piegas ou hirtos,
Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

E assim é legada a infelicidade.


Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.
Foge mal tenhas oportunidade
E quanto a teres filhos - isso nem pensar. (Nota 1)

A verdade é que acho o poema por de mais tenebroso. Não me parece que, no geral,
a situação seja sempre tão desesperada ou tão sinistra, e consta-me que entre
pais e filhos também pode haver uma quantidade incalculável de luz. Mas a
verdade é que nessas relações, tão importantes, a felicidade e a dor misturam-
se. Suponho que é inevitável projetarmo-nos nos filhos de alguma forma, da mesma
maneira que é forçoso, por parte dos filhos, exigir aos pais uma dimensão mítica
impossível.

Nota 1 - Tradução de Rui Carvalho Homem in Janelas Altas, Edições Cotovia,


Lisboa, 2004. (N. da T.)

59
Ninguém pretende magoar, mas ainda assim acontece; como provavelmente o deve ter
feito Marie sem o desejar e sem conseguir evitá-lo, porque teve de lutar em
muitas frentes. Eu não tive filhos, mas não por causa do sórdido mandato com que
Larkin termina o seu poema. De facto, às vezes lamento não os ter tido, porque
procriar é um passo da maturidade física e psíquica: só o amor absoluto e
cintilante que os pais sentem pelos filhos permite superar o egoísmo individual
que nos faz pôr a nossa própria integridade acima de tudo. O que quero dizer é
que os pais são capazes de morrer pelas suas crianças: é um mandato genético, um
recurso de sobrevivência da espécie, mas é de igual modo um movimento do coração
que nos torna mais completos, mais humanos. Aqueles que, como eu, não têm
filhos, nunca chegam a crescer até aí. Eu não morreria por ninguém. É uma pena.
Tirei as notas finais para este livro num caderno Paula Rego, que é uma das
pintoras contemporâneas de que mais gosto, talvez mesmo a minha preferida.
Nasceu em Portugal em 1935 e vive agora em Londres. Comprei o caderno no museu
que há em Cascais e que é dedicado à artista, e é um objeto realmente muito
bonito; de quando em quando, disseminados pelas páginas em branco, há um punhado
de desenhos de Rego, de modo que vamos escrevendo entre os seus esboços.
Por uma dessas curiosas #Coincidências que tanto abundam na vida, acontece que
Paula Rego tem uma série de desenhos tão brutal como comovente que se intitula
Mães e Filhas, e que reflete tudo aquilo de que temos vindo a falar.

60
Uma menina enorme, paquidérmica, mantém amorosamente abraçada no seu regaço uma
mãe diminuta e dependente. Medonha.
Mas existem ainda mais pontos em comum («as #Coincidências coincidem», como
dizia o biólogo austríaco Paul Kammerer, autor de uma lei sobre as
casualidades), porque o marido de Paula Rego, que era também artista plástico,
Victor Willing, morreu prematuramente, em 1988, vítima de esclerose múltipla; de
modo que a minha pintora preferida também pertence ao vasto clube das viúvas.
Que coisa extraordinária! Nunca pensei que enviuvaria porque decidira não me
casar (fi-lo no fim, com Pablo já doente). Lembro-me de que, em criança,
saltávamos à corda ao som desta canção: «Quero saber a minha vocação: solteira,
casada, viúva ou freira» e, dependendo de onde falhávamos e pisávamos a corda,
assim se apresentava o nosso futuro. Enfim, a letra é tão evidentemente machista
que podemos poupar o comentário óbvio. Suponho que este tipo de canções, e o
pano de fundo social que revelavam, contribuíram para que me tornasse tão
alérgica ao casamento.
Mas, mesmo alérgica, eis-me aqui viúva. Às vezes, com a mania que temos de
comparar a nossa sina à dos outros, olho para as outras viúvas e faço a mim
própria inquietantes e inúteis perguntas sem resposta. O que será melhor: que o
nosso par morra de repente (como Pierre Curie), ou que tal aconteça depois de um
tempo de dor e sofrimento (como Pablo: dez meses; ou como o marido de Rego: a
esclerose múltipla é um inferno)? O que será melhor: enviuvar jovem, a tempo de
poder ainda refazer a vida, ou mais velha, quando tal opção é mais difícil,
embora se tenha podido desfrutar mais do cônjuge? Em julho de 2011, a
Organização Mundial de Saúde publicou um estudo sobre a depressão que realizou
em colaboração com vinte centros internacionais, dois deles espanhóis. A
investigação foi efetuada a 89 037 cidadãos de dezoito países, ou seja, uma
amostra realmente significativa. É um trabalho interessantíssimo que compara
todo o tipo de fatores: rendimentos, cultura, sexo, idade. Mas o que agora me
interessa, e a razão por que o trago à baila, é que descobriram que, em doze
desses países, estar separado ou divorciado aumenta o risco de sofrer depressões
agudas, enquanto ser viúvo ou viúva tem menos influência em quase toda a parte.

61
Achei-o um dado inacreditável, espantoso, que parece ir contra o que se observa
e contra a própria razão. Mas, se não se trata de um erro e se é mesmo assim, o
que implica? Que os separados ou divorciados se sentem fracassados? E que, ao
morrer um cônjuge que é ainda nosso consorte, o podemos mitificar na nossa
cabeça, torná-lo eterno, considerá-lo um êxito? Será que estas malditas mortes
podem ser geradoras de algum pequeno consolo, no fim de contas?

62
Elogio dos excêntricos

Manya encontrou-se com Pierre pela primeira vez na primavera de 1894, depois de
se ter licenciado em Física com a melhor nota do seu curso. Bom, nessa altura já
não se chamava Manya, mas Marie: mudara o nome ao chegar a Paris, um símbolo
claro da volta que queria dar à sua vida. Quando se conheceram, Marie tinha
vinte e sete anos e suponho que estaria bastante esquelética porque se
alimentava de rábanos e cerejas. Passara o verão na Polónia, mas regressara à
Sorbonne no outono, graças a uma bolsa de estudo para outra licenciatura, desta
feita em Matemática. Como tudo o que fez na vida, também o segundo diploma foi
uma proeza: sentia-se culpada ao abandonar de novo o pai para perseguir a
quimera dos estudos. A #Culpabilidade é uma emoção tradicionalmente feminina,
sobretudo em épocas passadas, embora restem ainda hoje alguns farrapos que nos
mancham, véus pegajosos como teias de aranha. É uma #Culpabilidade socialmente
induzida por nos atrevermos a seguir os nossos desejos, por descuidarmos as
nossas obrigações de mulher. #Culpabilidade por ser má filha, má irmã, má
mulher, má mãe. Marie sentiu a mordedura de todas estas culpas corrosivas e,
apesar disso, continuou o seu caminho: era uma mulher assombrosa. «Não preciso
de dizer como estou contente por estar de novo em Paris... É toda a minha vida
que está em jogo. Achava, portanto, que poderia aqui permanecer sem remorsos de
consciência», escreveu numa carta ao irmão assim que regressou à universidade.
Que corajosa e que forte tinha de ser para transmitir e concretizar algo assim
estando tão só, sem modelos de referência, quase sem outras mulheres, abrindo
uma brecha na crosta endurecida dos preconceitos como um pequeno barco quebra-
gelo.

63
Noutra carta de 1894 para o irmão, que na altura se esforçava por tirar o
doutoramento em Medicina, em Varsóvia, escrevia Marie: «Parece que a vida não é
fácil para nenhum dos dois. E depois? Temos de perseverar e, sobretudo, de ter
confiança em nós. Temos de acreditar que somos dotados para alguma coisa e que
atingiremos esse objetivo, custe o que custar.» Que temperamento! A força
implacável do seu projeto quase assusta. «Sustentava-a uma vontade de ferro, um
prazer maníaco pela perfeição e uma teimosia inacreditável», explica Ève, que
devia conhecê-la bem.
No meio de toda esta luta apareceu Pierre: um amigo comum, um físico polaco de
visita a Paris, convidou ambos para jantar na pensão em que estava hospedado:
«Quando cheguei, Pierre Curie estava de pé no umbral da porta envidraçada de uma
varanda. Pareceu-me muito jovem, embora tivesse trinta e cinco anos.
Impressionou-me a expressão do seu olhar claro e a leve aparência de abandono da
sua figura espigada. A sua forma de falar, um pouco lenta e reflexiva, a sua
simplicidade, o seu sorriso, simultaneamente grave e juvenil, inspiravam
confiança. Entabulámos conversa sobre questões científicas, acerca das quais me
senti feliz por conhecer a sua opinião, e mais tarde falámos de coisas de âmbito
social ou humanitário que interessavam a ambos; a conversa era cada vez mais
amistosa. Apesar da diferença entre os nossos países de origem existia uma
afinidade assombrosa na nossa conceção da vida, devida, em parte, a uma certa
analogia no ambiente moral e familiar em que nos tínhamos criado», escreveu
Marie muitos anos depois, já viúva, na biografia que escreveu sobre Pierre. E,
embora seja parca e delicada na sua expressão, creio que é evidente que o achou
bonito. Impressionou-a vê-lo ali, perfilado na janela, numa visão ou lembrança
bastante teatral. Posso imaginar aquela conversa brilhante e cada vez mais
íntima, ainda que falassem de assuntos científicos e humanitários. Ou mesmo por
causa deles: além de serem temáticas que interessavam a ambos, tenho a certeza
de que Marie Curie baseou grande parte da sua atração no intelecto de Pierre.
Todos temos as nossas armas secretas para agradar, sobretudo aqueles que
não são bonitos: uns conquistam através do engenho, outros tentam ser
engraçados, ou atléticos, ou elegantes, ou cultos (eu sempre seduzi por meio da
#Palavra: para poder engatar precisava de falar; daí que detestasse as
ensurdecedoras discotecas)...

64
Embora em nova não lhe faltasse encanto, Marie era a mais feia de entre as suas
bonitas irmãs; tenho até a sensação de que nunca se considerou atraente, mas
sabia que o seu cérebro era uma jóia: de certeza que ofuscou Casimir com a sua
deslumbrante mente matemática e, no seu encontro com Pierre, que era um homem
mais maduro e completo, a sintonia e a sedução devem ter-se manifestado de forma
explosiva desde o primeiro momento. Suponho que o físico polaco que os
apresentou estaria a esfregar as mãos, pensando como lhe correra bem aquela
manobra de alcoviteiro. Embora oficialmente o encontro fosse para ver se Curie
podia emprestar um laboratório a Marie (não pôde), desconfio que o polaco teve
também uma intuição a respeito deles, e adivinhou que os seus dois amigos, tão
solitários e estranhos, juntos podiam fazer muito bem um ao outro.
É que tanto Pierre como Marie eram freaks - para quê enganarmo-nos? Ela,
pioneira em tudo, era uma extravagância para a época, mas também ele era o mais
excêntrico possível. Aos trinta e cinco anos ainda vivia com os pais e estava
muito ligado ao irmão, as únicas pessoas com quem se relacionara em toda a sua
vida. Fora, desde pequeno, uma criança especial; tinha dificuldades em passar
rapidamente de um assunto para outro e precisava de se concentrar em temas
isolados para conseguir compreendê-los. Considera-se provado que sofria de
dislexia, como Einstein e talvez também Rutherford, outro Prémio Nobel da época
e concorrente direto dos Curie: Einstein só falou a partir dos quatro anos e
Rutherford, aos onze, sabia ler mas não escrever.
Permite-me que faça aqui um ligeiro desvio para cantar louvores aos
#Excêntricos, aos diferentes, aos monstros, que costumam ser as pessoas que mais
me interessam. Por acréscimo, descobri com o tempo que a normalidade não existe;
que não vem da palavra «normal», como sinónimo do que é mais comum, mais
abundante, mais habitual, mas de «norma», de regulação e de mandato. A
normalidade é um marco convencional que pretende a homogeneização dos humanos,
como ovelhas fechadas num redil; mas, se olhares bem de perto, somos todos
diferentes.

65
Quem nunca se sentiu um monstro alguma vez? Além do mais, ser diferente pode ter
algumas vantagens. Em 2009, a universidade húngara de Semmelweis publicou um
estudo fascinante efetuado pelo seu Departamento de Psiquiatria. Pegaram em
trezentos e vinte e oito indivíduos sãos e sem antecedentes de doenças
neuropsiquiátricas e fizeram-lhes um teste de criatividade. Depois verificaram
se os sujeitos revelavam uma determinada mutação num gene do cérebro chamado,
espirituosamente, «neuregulin 1)». Calcula-se que cinquenta por cento dos
europeus sãos possui uma cópia deste gene alterado, quinze por cento duas cópias
e os restantes trinta e cinco, nenhuma. Acontece que o gene de nome inverosímil
aparenta ter uma relação direta com a criatividade: os mais criativos teriam
precisamente duas cópias e os menos criativos, nenhuma. Segue-se a parte melhor:
possuir a mutação também implica um aumento do risco de contrair transtornos
psíquicos, como uma memória pior e... uma sensibilidade disparatada às críticas!
Não te parece ser o perfeito retrato-robô do artista? Doido e pateticamente
inseguro? O reverso da medalha é que essas pessoas um pouco excêntricas,
bastante neuróticas e possivelmente fragilizadas parecem ser as mais
imaginativas, o que não é nada mau. O estudo poderia explicar, aliás, a
existência dos génios.
Mas regressemos a Pierre Curie e às suas peculiaridades cognitivas. Apercebendo-
se dos problemas de aprendizagem do filho, os pais decidiram, com bom senso,
educá-lo em casa: recorrendo a um professor particular até aos dezasseis anos,
conseguiram que o cérebro poderoso, embora um pouco diferente, do filho se
desenvolvesse de forma livre. Mais tarde, Pierre licenciou-se em Física na
Sorbonne e fez alguns trabalhos espetaculares sobre cristais e magnetismo com o
irmão (ambos eram então muito jovens), descobrindo um fenómeno chamado
piezoeletricidade e inventando instrumentos de medição que mais tarde seriam
importantíssimos. No entanto, Pierre era incapaz de tirar um rendimento
convencional de todo esse brilhantismo: aos trinta e cinco anos, quando conheceu
Marie, ainda não obtivera o doutoramento (embora qualquer uma das suas
descobertas tivesse sido suficiente para o conseguir) e trabalhava, além do
mais, na Escola Municipal de Física e Química Industrial, que, com o tempo, iria
adquirir bastante prestígio mas que, naquela altura, era apenas uma modesta
escola de formação profissional.

66
Olhando para o Pierre anterior a Marie, dá a sensação de que era um homem que
não conseguia integrar-se totalmente no mundo. Ela foi a sua âncora com a
realidade e, de facto, convenceu-o de imediato a tirar o doutoramento.
O que era evidente é que o que surgiu entre os dois foi amor à primeira vista,
pelo menos para ele. No verão de 1894, ou seja, dois meses depois de se
conhecerem, Pierre escrevia assim a Marie, que estava em Varsóvia:
Seria muito bonito, embora não me atreva a acreditá-lo, passarmos a vida um com
o outro, hipnotizados pelos nossos sonhos; o seu sonho patriótico, o nosso sonho
humanitário e o nosso sonho científico. De todos estes sonhos, creio que só o
último é legítimo. Quero dizer que não está nas nossas mãos mudar o estado
social, e se assim não fosse, não saberíamos o que fazer, e se agíssemos de
forma leviana nunca teríamos a certeza de não estarmos a fazer mais mal que bem
ao atrasar alguma evolução inevitável. No âmbito da ciência, pelo contrário,
podemos pretender fazer alguma coisa; aqui o terreno é mais sólido e qualquer
descoberta, por pequena que seja, é uma conquista.
Acho a carta uma maravilha, não só pela forma genial como Pierre lhe oferece uma
vida em comum, mas também pela enorme lucidez com que esventra o carácter
ilusório das utopias sociais, e isto tudo um quarto de século antes da Revolução
russa. É a análise serena de uma mente científica.
No entanto, Marie resistiu durante todo um ano a dar-lhe o sim. Casar-se com
Pierre implicaria ficar em Paris, e Marie angustiava--se por abandonar o que
considerava ser a sua obrigação: voltar para a Polónia e ser aí professora junto
do pai. #FazerOQueSeDeve. Aliás, estou convicta que, depois da experiência com
Casimir, a assustava duplamente entregar-se a alguém.

67
Muitas mulheres receiam que as suas necessidades emocionais lhes possam retirar
independência. Quando a nossa autonomia nos custou tanto a conseguir como a
Marie, tendemos a transformar-nos em galinhas chocas que, sentadas sobre o
pequeno ovo da sua liberdade, bicam todos os que se aproximam. Aconteceu-me um
pouco a mim, apesar de as minhas circunstâncias serem muitíssimo mais
favoráveis, de modo que compreendo o seu medo. Ora bem, dito isto, e tendo em
conta a natureza secretamente vulcânica de Marie, poderia parecer que, ao
princípio, não se apaixonou de forma arrebatadora por Curie, porque uma paixão
assim, da parte de alguém tão ardente quanto Marie, teria passado por cima das
ninharias que significavam a Polónia, o pai e a independência. No entanto, a
relação, que talvez tivesse começado por ser morna e demasiado tranquila para o
coração guerreiro de Marie, depressa se transformou numa bonita e sólida
história de amor. Quatro anos depois do casamento, em 1899, Madame Curie
confessou a Bronya: «Tenho o melhor marido com que poderia sonhar; nunca
imaginei que encontraria alguém como ele. É um verdadeiro presente do Céu, e
quanto mais tempo vivemos juntos, mais nos amamos.»
Tinham muitas coisas em comum. Para começar, eram ambos idealistas. Aos vinte
anos, Pierre escrevera: «É preciso transformar a vida num sonho e tornar os
sonhos realidade.» E Marie tinha profundas preocupações políticas, nacionalistas
e sociais; queria fazer alguma coisa pela Humanidade e sentia-o como um dever
moral. Para isso, praticava aquilo a que chamava o credo do desinteresse, que
consistia em colocar-se objetivos elevados e trabalhar para os atingir sem dar
atenção às distrações mundanas. Parece seco, parece duro, parece árido e é-o, de
facto. Mane possuía qualquer coisa de missionária, de freira laica, de
visionária ardendo na pureza da sua visão. A faceta «Joana D’Arc» é talvez a que
menos me atrai nela, mas esse núcleo incandescente de imensa vontade e
sacrifício duro foi com certeza necessário para que ela conseguisse tudo o que
conseguiu, tendo em conta as enormes dificuldades que enfrentava. Por outro
lado, Marie era muito ela mesma, e a sua personalidade formidável e complexa não
podia ficar reduzida a um perfil tão estreito, tão pobre, tão carente de
refinamentos e de prazeres.

68
Por exemplo: havia sempre flores frescas em sua casa; amava o campo; gostava de
fazer excursões de bicicleta e piqueniques, não falando já da sua paixão pela
investigação científica, um prazer em si mesmo. Além do mais, julgo que, com o
tempo, Marie foi aprendendo a viver. No Natal de 1928 escreveu uma carta à sua
filha Irene que discorria: «Quanto mais se envelhece, mais se sente que saber
gozar o presente é um dom precioso, comparável a um estado de graça.»
De modo que Marie também sabia falar de prazer. O que não me surpreende, porque
pressinto que, sob o seu aspeto adstringente e o seu sobrolho quase sempre
franzido, era carnal e sensual. Conta no seu diário:
Os teus lábios, que eu costumava dizer que eram deliciosos, estão pálidos, sem
cor. A tua barbinha, grisalha; quase não se te vê o cabelo porque a ferida
começa justamente aí e poderia ver-se o osso superior à direita da testa
levantado [...] . Que pancada sofreu a tua pobre cabeça, que eu acariciava com
frequência, segurando-a entre as mãos. E mais uma vez te beijei as pálpebras que
tu fechavas tantas vezes para que eu as osculasse, oferecendo-me a cabeça com um
movimento familiar que hoje recordo e que verei esbater-se na minha memória; a
lembrança é já confusa e incerta.
Tanta pele, tanto roçar, tanto deleite com o corpo do outro há nestas linhas! E
tanto desespero por o ter perdido!
É verdade: a memória é traiçoeira, fraca, mentirosa. Sobretudo a memória visual,
que se desintegra como um tecido que apodrece mesmo com pouco uso. Claro que
depois há a memória involuntária. Refiro-me à memória proustiana, aquela que,
indiretamente, é evocada pelas «madalenas». É extraordinário que, quando morre
alguém com quem convivemos muito tempo, não só ficamos tocados de uma forma
indelével, como o mundo inteiro fica tingido, manchado, marcado por um mapa de
lugares e hábitos que servem de gatilho à evocação, muitas vezes com resultados
tão devastadores como a explosão de uma bomba.

69
E assim, um dia estou a ver uma revista com toda a tranquilidade, volto a página
e zás!, dou de caras com a fotografia de uma daquelas maravilhosas igrejas
medievais de madeira da Noruega, sim, daquelas construções incríveis rematadas
por dragões que mais parecem saídas de um passado viquingue do que do
cristianismo. E eu estive ali com Pablo naquela viagem deliciosa à Noruega,
estivemos justamente ali, diante da belíssima igreja de Borgund, absortos,
entusiasmados e felizes. Juntos. Vivos. Buuummm!, explode-me a bomba das
lembranças na cabeça, ou talvez no coração, ou na garganta. Puro terrorismo
emocional.
Há pessoas que, na sua dor, constróem no luto uma espécie de ninho e ficam a
viver aí para sempre. Permanecem na casa comum, repetem o destino das férias,
visitam ritualmente os antigos lugares partilhados, mantêm os mesmos hábitos em
memória do morto. Eu não creio que seja bom (ou talvez sim, quem sabe; quem sou
eu para dizer como se deve ultrapassar uma perda), mas, de qualquer maneira, não
é a minha escolha. Mudei de casa depois da morte de Pablo (Marie também mudou de
casa quando enviuvou) e o mundo tem vários sítios que, com grande probabilidade,
não voltarei a visitar: Istambul, o Alasca, a Islândia, algumas zonas da Áustria
ou estas belíssimas igrejas de madeira.

70
Radioatividade e compotas

Em julho de 1895, um ano depois de se conhecerem, Pierre e Marie casaram-se pelo


civil em Paris; com o dinheiro que lhes ofereceram no casamento compraram duas
bicicletas e a lua de mel consistiu em pedalarem por meia França. Marie pedira
que o seu vestido de noiva (um presente da mãe de Pierre) fosse «escuro e
prático para poder usá-lo depois no laboratório, uma vez que só possuo a roupa
que visto todos os dias». Wladislaw veio de Varsóvia para o evento e comentou
com os sogros da filha: «Terão em Marie uma filha digna de ser querida. Desde
que veio ao mundo nunca me deu um desgosto.» Meu Deus, isso era o melhor que
podia dizer da filha? Era a única coisa que lhe interessava? #FazerOQueSeDeve,
#HonrarOPai.
Pierre explicou a Marie que, se permanecera solteiro até aos trinta e seis anos,
era porque não acreditava na possibilidade de um casamento que respeitasse
aquilo que era a sua prioridade absoluta: a entrega à Ciência. Nela, no entanto,
encontrara a sua alma gémea. De facto, no início da relação, em vez de lhe
enviar um ramo de flores ou bombons, Pierre mandara-lhe uma cópia do seu último
trabalho, intitulado Sobre a Simetria dos Fenómenos Físicos. Simetria de uma
zona elétrica e de uma zona magnética., o que, terás de concordar, não é um
assunto que todas as raparigas achem fascinante.

71
Foto <omitida>: Pierre e Marie, em 1895

Mas agradava a Marie; mais, entendia-o, o que era indiscutivelmente portentoso!


Sempre me maravilharam estas harmonias, estas #Coincidências extraordinárias do
destino que, de quando em vez, a vida nos proporciona quando é magnânima, e que
fazem com que, na enormidade do mundo, se juntem com proveito dois seres de
difícil adaptabilidade, como neste caso: duas mentes sobredotadas, duas pessoas
#Excêntricas, solitárias, de uma entrega utópica ardente, apaixonadas pela
ciência, de idades próximas, do sexo oposto sendo heterossexuais, ambos
sentimentalmente livres no momento do encontro, ambos na idade certa (porque
podiam ter-se conhecido em crianças ou já velhos) e, ainda por cima, atraindo-se
sexualmente! Não achas um milagre? Pois, além dos horrores que tanto nos chamam
a atenção, a vida também está cheia destes prodígios.
E aqui começa a etapa mais audaz da vida heróica de Marie Curie: a descoberta do
polónio e do rádio. Uma vez tiradas as duas licenciaturas, Marie decidiu
doutorar-se. Uma aposta ambiciosa, como o eram todas as suas: só existira uma
mulher no mundo a doutorar-se em Física - Elsa Neumann, em 1899, na universidade
de Berlim. Marie aspirava a muito, aspirava a tudo, e ponderou que doutoramento
fazer com extremo cuidado. Em 1895, o físico alemão Wilhelm Röntgen levava a
cabo experiências com um tubo de raios catódicos quando, por mero acaso,
descobriu os raios X (e porque possuía uma mente alerta, como acrescenta com
grande lucidez Sarah Dry); chamou-lhes justamente X porque não sabia explicar a
sua natureza.

72
A descoberta causou sensação e a famosa primeira radiografia da mão da sua
mulher deu a volta ao mundo.
Isso de poder ver-se as entranhas das pessoas parecia magia; vivia-se então uma
época de total deslumbramento pelas descobertas científicas, das quais se
esperava qualquer maravilha, e os espetaculares raios X pareciam corroborar
essas presunções. Começaram de imediato a ser utilizados para diagnosticar
fraturas de ossos, como agora, mas também para fins absurdos, como o de combater
a queda de cabelo. {Dir-se-ia que cada coisa nova que o ser humano inventa é
testada contra a alopecia, enorme obsessão estimulada pelo facto de serem os
homens quem mais amiúde perde cabelo.)
Fascinado como todos pelos raios X, o cientista francês Henri Becquerel decidiu
investigar se havia uma fosforescência natural semelhante à que se produzia
artificialmente no interior do tubo de raios catódicos. E também por acaso (e
pela consabida mente alerta, etc), em 1896 descobriu que os sais de urânio
emitiam radiações invisíveis de natureza desconhecida que eram capazes de deixar
uma impressão nas placas fotográficas. A descoberta, que não tinha nenhuma
aplicação circense e não deixava transparecer os ossos ou as moedas que se
traziam no bolso, deixou indiferente a generalidade das pessoas. Mas se eram
raios que não se podiam ver... Que grande seca! Porém, foi esse precisamente o
campo que Marie escolheu para investigar: porque era novo, porque era
desconhecido, porque interessava a pouca gente apesar de ser, todavia, um enigma
prometedor a nível científico.

73
Mas, antes de chegar a colocar a hipótese do doutoramento, Marie vivera um ano e
meio intensíssimo. Na biografia que escreveu sobre Pierre, orgulha-se, com
razão, da cumplicidade e igualdade científica e intelectual que tinha com o
marido: «A nossa convivência era muito estreita: partilhávamos os mesmos
interesses; o estudo teórico; as experiências de laboratório; a preparação das
aulas e os exames.» Mas mesmo ao lado, sem se dar bem conta do que afirma,
escreve: «Os nossos recursos eram muito limitados, de modo que era obrigada a
encarregar-me da casa, além de cozinhar.» Ou seja, partilhavam tudo menos o
trabalho doméstico. Que dias esgotantes os de Madame Curie: além de manter a
casa, estava a fazer um trabalho de investigação sobre as propriedades
magnéticas do aço, que lhe tinham oferecido a troco de alguns francos
(precisavam do dinheiro). Por acréscimo, pôs-se a examinar concursos para poder
dar aulas no ensino secundário, também por razões económicas, e à noite
frequentava aulas sobre cristais para poder entender melhor o trabalho de Pierre
(alucinante!). Tudo isto, que já era muito, piorou em 1897, quando Marie
engravidou de Irene. Ao que parece, passou uma gravidez horrível, cheia de
náuseas, embora, sempre voluntariosa, tentasse esquecer-se do seu estado e
trabalhar como se nada tivesse mudado. Mas em setembro, quando a filha nasceu,
as coisas atingiram o ponto mais caótico: «Marie apercebeu-se de que precisava
de fazer frente a uma enorme quantidade de trabalho e, ao mesmo tempo, cuidar da
criança. Este dado importante foi escamoteado ou minimizado em muitas biografias
de Curie», salienta, com toda a razão, Barbara Goldsmith no seu livro magnífico
sobre Marie. Sem dúvida: tenho amigas que são jovens profissionais, com melhores
condições económicas, com ajuda doméstica e sem a #Culpabilidade que Maria devia
sentir (ou, pelo menos, não tanta), e quase as vi enlouquecer nos meses
posteriores ao parto. Madame Curie era obrigada a voltar a casa de vez em quando
para amamentar a bebé e, quando ficou sem leite, teve de contratar uma ama,
sentindo-se um fracasso como mãe. Conta Ève que começou a sofrer ataques de
pânico: de repente, saía disparada do laboratório em direção ao parque, porque
se lhe metia na cabeça o pensamento obsessivo de que a ama perdera Irene.

74
Quando as encontrava e verificava que a menina estava bem, regressava a correr
ao trabalho. Estava quase a perder a razão. Felizmente (poderá utilizar-se o
termo num caso assim?), a mãe de Pierre faleceu e o viúvo, que era um homem
encantador, mudou-se para a residência do casal e dedicou-se a cuidar da menina.
Que estranha é a vida: se calhar sem essa morte, sem tal mudança de residência,
sem um sogro bondoso e disponível, nunca teria existido Marie Curie.
E foi assim que a nossa protagonista pôde considerar fazer o doutoramento no
início de 1898. Não sem custos, suponho; na sua biografia sobre Pierre menciona:
A questão de como cuidar da nossa pequena Irene e da casa sem renunciar à
investigação científica tornou-se imperiosa. A possibilidade de prescindir do
trabalho teria sido uma renúncia muito dolorosa para mim, que o meu marido nem
sequer considerou; costumava dizer que tinha uma mulher à sua medida, que
partilhava todas as suas inquietações. Nenhum de nós estava disposto a abandonar
uma coisa tão preciosa como a investigação partilhada. Como é de calcular,
contratámos uma criada, mas eu encarregava-me de tudo o que se relacionava com a
menina. Enquanto eu estava no laboratório, Irene ficava a cargo do avô [...]. A
grande união da nossa família permitiu-me cumprir as minhas obrigações.
Ah, sim: as suas «obrigações». É preciso #FazerOQueSeDeve sempre. É comovente
ver que neste texto, escrito passados muitos anos e depois de ter obtido os dois
prémios Nobel, Marie tem de justificar o facto de não abandonar a ciência para
cuidar da filha amparando-se na «investigação partilhada»: como se o trabalho de
Pierre, que precisava dela, fosse a causa final da sua desistência do dever de
mãe; como se o seu trabalho, por si só, não pudesse nunca justificá-lo. Como é
evidente, Marie teve muita sorte por contar com um marido tão compreensivo, um
visionário para a época, mas isso não alterava o facto de as coisas serem como
eram e de o dever da mulher ser um mandato não discutível.

75
Durante esses anos, Pierre publicou muito mais artigos científicos do que Marie.
Não posso afirmar que me surpreenda: Marie, entretanto, fazia compotas.
Aproximar-se da vida de Manya Sklodowska é como olhar para uma gota de água
através do microscópio e descobrir um fervilhante remoinho de bicharocos;
significa que, se repararmos bem na sua biografia, nos apercebemos das
dificuldades infinitas que Marie teve de superar e espantamo-nos. Como conseguiu
sobreviver, como seguiu em frente? E pensar que o pai falava do «seu
transtorno»! Grande transtornada. Que poderio.

76
A bruxa do caldeirão

Manya Sklodowska foi uma pessoa perseguida pela lenda. O mito que hoje existe em
torno da sua memória, sendo enorme, é porventura menos exagerado do que aquele
que teve de suportar enquanto vivia. Além disso, a sua fama passou por todo o
tipo de mutações: primeiro foi considerada santa, mais tarde mártir e depois
puta, e tudo isto de uma forma ardente e clamorosa.
Parte do mito da santidade científica de Marie (e do seu marido) baseia-se nas
penosas condições em que tiveram de trabalhar. A verdade é que Pierre Curie toda
a vida sonhou ter um bom laboratório e, na realidade, morreu sem o ter
conseguido. A descoberta do polónio e do rádio fez-se, como toda a gente sabe
(até porque é o pormenor mais ventilado da sua hagiografia), num barracão
miserável e meio esburacado que já servira de armazém e que Pierre conseguira
para usufruto da Escola de Física e Química Industrial, onde dava aulas. Os
vidros rachados e mal vedados do barracão deixavam entrar o pó e a água da
chuva, contaminando as amostras; para aquecer o lugar só tinham uma pequena
salamandra de ferro, e no inverno fazia um frio de bater os dentes: uma manhã
Marie apontou no seu caderno de trabalho que lá dentro a temperatura era apenas
de seis graus. Devia ser difícil fazer aquelas medições delicadas necessárias à
investigação tendo os dedos congelados.

77
Os raios invisíveis que Becquerel tinha descoberto, e sobre os quais Marie
decidira fazer a tese, possuíam a propriedade de fazer com que o ar em volta
conduzisse eletricidade, e Madame Curie lembrou-se de medir o grau de
condutibilidade do ar para estudar o fenómeno. E porque teve semelhante ideia?
Foi uma intuição genial nascida do seu talento, mas é provável que também
tivesse influído o facto de um dos aparelhos inventados por Pierre e pelo irmão,
Jacques, ser o eletrómetro piezoelétrico de quartzo, que servia precisamente
para fazer essas medições subtilíssimas com grande precisão. Ao que parece, era
um instrumento de uma dificuldade de utilização levada da breca, mas Pierre
ensinou a mulher e Marie aprendeu bem, com aquele perfeccionismo obstinado e
obsessivo que a caracterizava. E conseguia-o na perfeição, até com as mãos
enregeladas pelo frio.
De início Marie trabalhava apenas na investigação, mas rapidamente as
circunstâncias complicaram-se e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais interessantes,
de modo que Pierre abandonou os estudos que estava a efetuar sobre o magnetismo
e juntou-se ao trabalho da mulher. Marie decidiu experimentar com pecheblenda,
um mineral que, entre outros elementos, contém urânio, e descobriu uma coisa
alucinante: que a pecheblenda aumentava a condutividade do ar ainda mais do que
o urânio dela extraído, o que significava que no mineral tinha de existir algum
elemento mais radioativo do que o urânio.

78
Esta dedução foi muito emocionante, embora os Curie não fizessem a mais pequena
ideia do sarilho em que se estavam a meter, porque nessa altura não podiam
imaginar que os novos elementos fossem tão extremamente radioativos e que,
estando presentes na pecheblenda em quantidades tão ínfimas, seriam obrigados a
processar uma montanha de pedras para os conseguirem caçar. No total, dez
toneladas de pecheblenda para conseguirem tirar um décimo de grama de cloreto de
rádio. E fizeram-no nas condições penosas daquele barracão miserável, sozinhos
ou quase. «Ninguém sabe se teríamos insistido, dada a pobreza dos nossos meios
de investigação, se tivéssemos consciência da verdadeira proporção do que
estávamos a procurar», escreveu Marie muitos anos depois. No pátio do hangar,
aquela mulher magra, de pé todo o dia e que só comia meia salsicha, carregava
cargas de vinte quilos de um lado para o outro e mexia grandes caldeirões de
mineral fervente com uma pesada barra de ferro quase tão grande como ela. Era
uma bruxa branca, uma feiticeira boa. Passou três anos longuíssimos e
extenuantes a fazê-lo, e no fim conseguiu extrair o rádio, que era como um
desses espíritos das histórias infantis, uma substância ínfima que ardia com um
fulgor verde-azulado. Muito bonito, como é óbvio. Mas mortal.
Embora só conseguindo o isolamento do rádio em 1902, fizeram a descoberta do
novo elemento muito antes. No próprio ano de 1898, pouco depois de terem
começado, e após alguns meses de trabalho insano, os Curie descobriram primeiro
o polónio, quatrocentas vezes mais radioativo do que o urânio e, pouco depois, o
rádio que, segundo eles, era novecentas vezes mais radioativo (embora, na
realidade, seja três mil vezes mais potente). A 26 de dezembro de 1898
informaram a Academia das Ciências da sua descoberta e tornaram-se logo
famosíssimos, embora nada que se compare ao que aconteceria depois com o Nobel.
O resplandecente e poderoso rádio ateou a imaginação dos humanos: era o próprio
princípio da vida, um bocadinho da energia do cosmos, o fogo dos deuses trazido
à Terra pelos novos Prometeus que eram os Curie. De imediato, cientistas de todo
o mundo começaram a investigar as aplicações médicas da descoberta, como, por
exemplo, a cura de tumores cancerígenos (hoje continuamos a utilizar a
radioterapia com o mesmo objetivo, embora a fonte radioativa já não seja o
rádio, mas o cobalto), e o entusiasmo atingiu níveis tão críticos que o novo
elemento começou a ser utilizado de forma perigosa e inconsciente para tudo,
como se fosse o bálsamo de Ferrabrás.

79
Acrescentou-se rádio aos cosméticos: cremes faciais que em teoria nos manteriam
eternamente jovens, batons, tónicos para fortalecer e embelezar o cabelo,
dentífricos para deixar os dentes branquíssimos e fulminar as cáries, unguentos
milagrosos contra a celulite. Um anúncio do creme Alpha-Radium apregoava: «A ra-
dioatividade é um elemento essencial para conservar as células da pele
saudáveis.» Em relação à beleza as mulheres sempre fizeram autênticas
barbaridades, como usar durante séculos carbonato de chumbo para branquear o
rosto, ou carmim para os lábios confecionado com sulfureto de mercúrio, ou
tintas para o cabelo feitas com sulfureto de chumbo, cal viva e água, tudo
ingredientes terrivelmente tóxicos e, a longo prazo, mortais. Entre outros
efeitos secundários, o chumbo fazia cair o cabelo: daí que Isabel I de
Inglaterra, que aclarava a tez usando um emplastro de chumbo com vinagre,
acabasse por ostentar aquele aspeto chocante e uma enorme calva.
Mas o delírio radioativo abarcava muitos outros campos para além dos estéticos.
Se pusessem um saco com rádio no escroto, os homens impotentes curavam-se; se o
amarrassem à cintura, deixavam de sofrer de artrite. Os banhos radioativos
faziam recuperar o vigor e um pouco de rádio curava males como as nevralgias ou
o catarro.

80
Sarah Dry acrescenta que chegou a confecionar-se uma lã radioativa para fazer
roupas de bebé: «Ao tricotar as roupinhas para o seu bebé, utilize a lã O-
Radium, uma preciosa fonte de calor e energia vital, que não encolhe nem
amarrota.» É evidente que hoje ler uma coisa assim nos horroriza. O rádio estava
presente em quantidades ínfimas em todos os preparados, como é evidente, porque
se tratava de uma substância muito difícil de obter e, por conseguinte,
caríssima; mas, mesmo em doses mínimas, o nível de radiação era muito superior
ao aceitável. O frenesim do mercado em tirar proveito económico da nova «mina de
ouro» é conhecido e repugnante, sobretudo quando paramos para pensar que existia
uma enorme probabilidade de comercializarem a lã tóxica como um produto para
bebé justamente por ser cara, uma vez que pelos nossos filhos estamos dispostos
a fazer mais sacrifícios (pensa naquelas famílias de escassos recursos com uma
criança de saúde delicada, ou em pais que não podem pagar bons médicos mas que,
fazendo um esforço enorme, compram a lã radiante, e aparentemente curativa, com
que tricotarão, para o bebé doente, um amoroso casaquinho radio ativo).
Todo este frenesim durou, mesmo que pareça mentira, cerca de três décadas: «O
mundo enlouqueceu com o tema do rádio; despertou-nos da nossa inocência da mesma
forma que as aparições de Lurdes despertaram os católicos», escreveu Bernard
Shaw, citado por Goldsmith no seu livro. E se as pessoas começaram a ter
consciência dos perigos da radioatividade nos anos trinta foi, em grande parte,
graças a um acidente lamentável: em 1925, um falso médico, William Bailey,
patenteou e comercializou um produto chamado Radithor. Tratava-se de uma solução
de água com isótopos radioativos e acreditava-se que curava a dispepsia, a
impotência, a pressão arterial elevada e «mais cento e cinquenta doenças
endocrinológicas». Dois anos mais tarde, um milionário e campeão de golfe, de
seu nome Eben Byers, começou a tomar o Radithor por prescrição médica para
tratar uma dor crónica no braço. Pelos vistos, no início declarou sentir-se
rejuvenescido (o que é a sugestão!) mas após ter engolido entre mil e mil e
quinhentas garrafas do tónico ao longo de cinco anos, Byers morreu em 1932
fisicamente desfeito: anemia severa, destruição massiva dos ossos dos maxilares,
do crânio e do esqueleto em geral, magreza extrema e disfunção renal.

81
Foi um escândalo e as autoridades tomaram medidas. Mas é inacreditável que
ninguém tenha agido antes: suponho que havia demasiados interesses em jogo.
Pensar qual será hoje a nossa radioatividade autorizada, que substâncias legais
estarão a matar-nos de forma estúpida, não te inquieta?
Afirma José Manuel Sánchez Ron, sem que tal implique minimizar a importância de
Madame Curie, que as suas contribuições teóricas não atingiram o nível das de
outros grandes nomes da época como, por exemplo, as do também Prémio Nobel
Ernest Rutherford. Uma afirmação de que não duvido e que não discuto, como é
evidente: lendo o livro de Sánchez Ron, que é de longe o mais puramente
científico de todos os que consultei sobre Madame Curie, percebe-se muito bem a
que se refere. Mas, nesse caso, qual foi o lugar daquela polaca tenaz na
história da ciência? O que de melhor fez? Sarah Dry explica com eloquência
didática que a observação mais importante de Marie foi chegar à conclusão de que
a radioatividade era uma propriedade atómica da matéria. Justamente naqueles
anos começava a desmoronar-se a visão newtoniana dos átomos como partículas
«sólidas, maciças, duras e impenetráveis». Em 1897, J. J. Thomson descobrira a
primeira partícula subatómica, o eletrão; mas na ciência oficial ainda
prevalecia a ideia do átomo como uma bola de bilhar, e qualquer mudança na
estrutura a nível atómico, segundo Dry, «era considerada um conceito obscuro,
aparentado com a alquimia [...], não uma verdadeira ciência». De modo que Marie
fazia parte de uma pequena vanguarda que preconizava a instabilidade do átomo:
«Nunca mais voltou a fazer uma declaração tão profunda ou tão inspirada como o
salto intuitivo que deu ao sugerir que os átomos do novo elemento [o rádio]
eram, em si mesmos, responsáveis pela radioatividade que estava a medir. O seu
trabalho pioneiro criara uma ponte entre a química e a física.» (De novo Dry.) E
Barbara Goldsmith reitera: «Na realidade, o seu maior sucesso foi utilizar um
método completamente novo para descobrir elementos medindo a sua radioatividade.

82
Na década seguinte, os cientistas que localizaram a fonte e a composição da
radioatividade efetuaram mais descobertas sobre o átomo e sobre a sua estrutura
do que em todos os séculos anteriores. Como afirmou o perspicaz cientista
Frederick Soddy, "a maior descoberta de Pierre Curie foi Marie Sklodowska. A
maior descoberta dela foi... a radioatividade".»
Seja como for, em julho de 1902, depois de cozinhar e ferver e mexer e fracionar
e manipular até à exaustão todas aquelas toneladas de pecheblenda, Marie
conseguiu por fim um decigrama de cloreto de rádio puro o suficiente para se
poder medir a sua massa. O resultado de tanta cocção macumbeira foi um pedacinho
de matéria rutilante que não ocuparia mais que a quinquagésima parte de uma
colherzinha de chá. Antes de tornar público o seu êxito, Marie contou-o ao pai
numa carta emocionada. Wladislaw, que estava a morrer, respondeu: «Já estás na
posse de sais de rádio puro. Se pensarmos em tudo o que fizeste para os obter
seria, como é óbvio, o elemento químico mais caro de todos. Que pena este
trabalho só ter interesse teórico!» Ah, os progenitores que nunca estão
satisfeitos e para quem nada é suficiente... #HonrarOPai. O senhor faleceu seis
dias depois: que pena não ter chegado a ver o Prémio Nobel que atribuíram à
filha um ano mais tarde. Mas, agora que penso nisso, é provável que encontrasse
alguma coisinha desagradável para dizer.

83
Esmagando carvões com as mãos nuas

A Morte brinca connosco ao macaquinho do chinês, jogo em que uma criança conta
«um, dois, três...» de cara virada para a parede, e os outros tentam tocar no
muro sem que a criança os veja enquanto se movem. Pois então, com a Morte é a
mesma coisa. Entramos, saímos, amamos, odiamos, trabalhamos, dormimos; ou seja,
passamos a vida a contar como a criança do jogo, entretidos ou atordoados, sem
pensar que a nossa existência tem um fim. Mas de quando em quando lembramo-nos
de que somos mortais e então olhamos para trás, sobressaltados; e lá está a
Parca, a sorrir, quietinha, muito mesureira, como se não se tivesse movido, mas
mais perto, um bocadinho mais perto de nós. E assim, cada vez que nos distraímos
e nos ocupamos com outras coisas, a Morte aproveita para dar um salto e para se
aproximar. Até que chega um momento em que, sem nos apercebermos, esgotámos todo
o nosso tempo; e sentimos o hálito frio da Morte no cachaço e, passado um
instante, sem sequer nos dar tempo de olhar de novo para trás, a sua garra toca
na nossa parede e somos seus.
Uma pessoa descobre que está a jogar ao macaquinho do chinês com a Morte quando
lhe falece alguém próximo que não era suposto. Uma morte intempestiva e
despropositada, a Parca avançando a toda a velocidade atrás de nós enquanto não
olhamos. Foi o que aconteceu a Marie: de repente a Morte chegou a correr e
pousou a sua manápula amarela em Pierre. Foi a 19 de abril de 1906. Estavam
juntos há onze anos. Ele tinha quarenta e sete anos; ela, trinta e oito. A
crónica do enterro em Le Journal referia o seguinte:

84
«Madame Curie seguiu o caixão do marido pelo braço do sogro, até à campa aberta
junto da cerca [...]. Aí permaneceu um momento, imóvel, sempre com o olhar fixo
e duro.» Um exterior gélido devido ao trauma, enquanto no íntimo uivavam as
Ménades.
No seu curto diário do luto, Marie anota com obsessivo pormenor os últimos dias
que viveu com Pierre, os seus últimos atos, as últimas palavras. É a
incredulidade em face da tragédia: a vida fluía tão normal e, de repente, o
abismo. A Morte macula também as nossas lembranças: não suportamos relembrar a
nossa ignorância, a nossa inocência. Aqueles dias que passei com Pablo em Nova
Iorque, um mês antes de lhe terem diagnosticado o cancro, são agora uma memória
incandescente: ele estava mal e eu não sabia, estava tão doente e eu não sabia,
restava-lhe um ano de vida e eu não sabia; o desconhecimento abrasa, o
pensamento é persecutório; a inocência de ambos antes da dor, insuportável. Vejo
agora a belíssima fotografia que tirei da janela do nosso hotel em Manhattan e
sinto o coração gelar.
Com uma morte assim, como a de Pierre, com um diagnóstico assim, como o de
Pablo, o mundo desmorona. E, das ruínas, obcecados, damos voltas e mais voltas
ao instante anterior ao terramoto. Se eu soubesse!, dizemos a nós próprios. Mas
não, não sabíamos.
Fiquei ainda mais um dia em Saint-Rémy e só regressei na quarta-feira, no
comboio das duas e vinte, com mau tempo, frio e chuvoso [...].

85
Queria proporcionar às crianças mais um dia no campo. Por que razão fui tão
pouco sensata? Foi menos um dia que vivi contigo.
A #Culpa também é óbvia, é uma coisa de que falam todos os manuais. #Culpa por
não ter falado, por não ter feito, por ter discutido por idiotices, por não ter
demonstrado mais carinho. Seremos infinitamente generosos com os mortos amados,
mas, claro, é sempre muito mais difícil sermos generosos com os vivos. Desde a
obtenção do Nobel em 1903 e, em particular, depois do nascimento da segunda
filha, dir-se-ia que Marie começara a ver as coisas de outra maneira: queria
descontrair um pouco, trabalhar menos, desfrutar da vida e da família. E,
sobretudo, desejava que o marido descansasse e cuidasse de si próprio. Pierre
estava muito doente: há anos que sofria de um esgotamento estranho e de dores
terríveis e incapacitantes nos ossos. Os Curie atribuíam-nas a achaques
reumáticos; Marie, pessoalmente, acreditava ser excesso de trabalho: «A sua
fadiga física, originada por um sem-fim de obrigações, agravava--se com as
crises de dores agudas que sofria cada vez com maior frequência, devido ao
esgotamento», escreveu na biografia sobre o marido. Na realidade, a
radioatividade estava a desfazer-lhe o esqueleto; se não tivesse morrido
atropelado por aquele carro teria sofrido, sem sombra de dúvida, uma agonia
pavorosa (um facto surpreendente, este de Marie nunca ter assumido os efeitos do
rádio, nem no marido nem em si própria). No verão de 1905, Pierre estava tão mal
que quase não podia andar e custava-lhe manter o equilíbrio. A 24 de julho
escreveu a um amigo: «As minhas dores parece que vêm de algum tipo de
neurastenia, mais que de um verdadeiro reumatismo.» Pobres Curie: andavam a ser
jogados de um lado para outro, com diagnósticos e tratamentos absurdos, e, pior
ainda, como acontece às vezes quando os médicos ignoram o que o paciente tem,
começavam a pôr a culpa no próprio doente (lembra-me o que acontece hoje em dia
com a sensibilidade química ou com a fibromialgia). Duas semanas mais tarde,
Pierre voltou a escrever ao amigo: «Sofri novos ataques e a mais pequena fadiga
despoleta-os. Pergunto a mim próprio se algum dia serei capaz de voltar a
trabalhar a sério no laboratório no estado em que agora me encontro.»

86
Angustiada, Marie desatou a chorar diante da sua irmã Helena. Contou-lhe que
Pierre não conseguia dormir devido às muitas dores de costas e que experimentava
ataques agudos de fraqueza. E, como um cego que não quer ver, acrescentou:
«Talvez se trate de alguma doença terrível que os médicos não reconhecem.»
A saúde precária do marido, de qualquer forma, parece tê-la feito desejar outro
estilo de vida. Aquela polaca dura e austera, que sempre #HonraraOsSeusPais, que
carregara aos ombros a injustiça do mundo e #FizeraOQueEraDevido, de repente
tentou aprender a #Leveza, maravilhosa virtude existencial que consiste em saber
viver o presente com plenitude serena - o problema é que Pierre não a acompanhou
nessa jornada; pelo contrário, quanto mais doente estava, mais se esforçava em
redobrar o trabalho, como se pressentisse que o tempo se lhe acabava e que a
Morte estava quase a tocar na sua parede. Provavelmente, a diferença de opiniões
criou alguma tensão entre ambos: Marie queria que Pierre ficasse em Saint-Rémy
com ela e com as crianças, mas ele insistiu em voltar para o laboratório (e por
isso ela ficou mais um dia no campo, para o castigar? Daí aquele lamento
contrito no diário?). Marie descreve a manhã final, o momento em que o marido
saiu de casa:
Emma regressou, e tu censuraste-a por não manter a casa em condições (ela pedira
um aumento) . Estavas a sair, tinhas pressa, eu estava a tratar das crianças, e
já te ias embora quando me perguntaste em voz baixa se iria ao laboratório.
Respondi-te que não sabia e pedi-te que não me pressionasses. Precisamente nessa
altura saíste; a última frase que te dirigi não foi uma frase de amor e de
ternura. Depois, já só te vi morto.
A #Culpa. A #Culpa inevitável por não lhe ter dado tudo. A #Culpa imperdoável
por estar viva e ele não (embora, com a morte, o ente querido leve uma boa parte
de nós, um punhado de anos e de lembranças, uma porção de carne).

87
É que o corpo, esse animal, se regozija apesar de tudo por viver, como explica
Tolstoi na sua novela curta A Morte de Ivan Ilitch: «O simples facto de se
inteirarem da morte de alguém próximo suscitava nos presentes, como sempre
acontece, uma sensação de complacência: "o morto é ele; não sou eu". Cada um
deles pensava ou sentia: "pois sim, ele morreu, mas eu estou vivo".» Que
dissociação e que tortura: todas as nossas células celebrando freneticamente a
existência enquanto a nossa cabeça se afoga em mágoa.
De modo que essas foram as últimas lembranças que Marie guardou de Pierre. A
vida é maravilhosamente grotesca: na sua derradeira manhã, o grande homem que
sem dúvida foi Pierre Curie envolveu-se numa mesquinha discussão doméstica com a
criada e recusou-lhe um aumento de salário. Um sorriso quase me baila nos
lábios, por constatar que, mais uma vez, a pequenez dos humanos retira gravidade
à morte ou, pelo menos, torna-a tão pequena como nós. Quando nos libertamos da
ilusão da nossa própria importância, tudo mete menos medo.
Marie teve a pouca sorte de se terem despedido aborrecidos. Embora, numa morte
inesperada como aquela, não creia que exista alguma despedida que possa ser
consoladora o suficiente. De qualquer forma, Pierre saiu de casa e não voltou
com vida. Primeiro foi ao laboratório e depois teve um almoço de trabalho com
sete colegas da Associação de Professores de Ciências. Quando voltou à rua,
chovia torrencialmente. Atrapalhado com o guarda-chuva, tentou atravessar; o
tráfego era caótico e já referi a sua fraqueza e o facto de se deslocar com
dificuldade. Escorregou e caiu; no fim de contas, as radiações acabaram por
matá-lo de forma indireta. Marie soube o que acontecera ao anoitecer, horas mais
tarde, porque, desobedecendo ao marido, não só não passara no laboratório como
fora com Irene numa excursão ao campo, o que, com toda a certeza, também a
encheu de culpa. Por último, ficar viúva de repente deve ter sido um anticlímax
atroz da #Leveza.
A primeira coisa que trouxeram a Marie, antes da chegada do cadáver, foi o que o
marido trazia nos bolsos: uma caneta, chaves, uma carteira e um porta-moedas, um
relógio com o mostrador intacto e que, ironicamente, ainda funcionava. Que
dolorosos são esses pequenos vestígios para-humanos, objetos que acompanharam a
vida do nosso morto de forma tão íntima.

88
Também eu guardo, nalguma gaveta, sem conseguir desfazer-me deles, os «ossinhos»
do corpo social de Pablo: o telemóvel, que ele odiava; a pequena agenda, com as
suas limpas e minúsculas anotações; a carteira; o BI, a carta de condução, os
cartões de crédito... A perda de um ente querido é uma vivência tão
desconcertante e insensata que parece inacreditável até que ponto nos pode
chegar a perturbar e emocionar um cartão VISA com o nome do nosso morto escrito
em relevo.
Alguns biógrafos parecem admirar-se por o diário ter a forma de uma carta
dirigida a Pierre, como se Marie estivesse a falar com ele, e há mesmo quem
tente justificar este facto aduzindo que os Curie acreditavam no espiritismo e
na possibilidade de comunicação com os mortos. É verdade que, para o fim da sua
vida, Pierre estava muito interessado na investigação das «forças psíquicas» e
assistira até a uma ou outra sessão de uma famosa médium. O que, como muito bem
explica Sánchez Ron, não significa que o senhor Curie estivesse a perder a
cabeça: nessa altura, o estudo dos fenómenos paranormais estava na moda entre os
cientistas e ainda não se tinham descoberto os habilidosos embustes dos
pretensos médiuns. Na realidade, o mundo mudara tanto em tão poucos anos, e
descobriam-se coisas tão assombrosas (como o próprio rádio), que mesmo as mentes
mais rigorosas permaneciam abertas à indagação de qualquer fenómeno, por mais
chocante que fosse.
Mas o que a mim me deslumbra é o assombro dos biógrafos por Marie se dirigir a
Pierre: que parvoíce, a teoria espírita. Será tão difícil de entender que,
quando alguém querido parte, o que não nos cabe na cabeça é a sua impossível
ausência? Tenho a certeza de que todos falamos com os nossos mortos; eu faço-o,
como é óbvio, embora não acredite em absoluto na vida depois da morte; cheguei
até a sentir Pablo junto de mim de vez em quando: em alguns tropeções ajudou-me
a não cair, segurando-me enquanto eu ia dando guinadas instáveis até recuperar a
verticalidade. O cérebro é assim. Tece a realidade, constrói o mundo.
Não, Marie dirige-se a Pierre porque não pôde despedir-se, porque não pôde
dizer-lhe tudo o que teria querido, porque não conseguiu completar a narração da
sua existência em comum.

89
Expõe-no a doutora Iona Heath no seu terrível livrinho:
A morte faz parte da vida e é parte do relato de uma vida. É a última
oportunidade de encontrar um significado e de dar um sentido coerente ao que
aconteceu antes [...]. Isto talvez explique por que razão, no fim da vida, é tão
importante voltar a contar e a reviver os factos notáveis e por que motivo,
tanto para a pessoa moribunda como para aqueles que a ela sobreviverão, falar de
acontecimentos passados e tornar a olhar para fotografias partilhadas oferece um
consolo real e autêntico. Familiares e amigos podem continuar o relato mesmo
depois de a pessoa estar demasiado debilitada para contribuir, e fazê-lo
proporciona consolo a todos.
Para viver temos de narrar-nos; somos um produto da nossa imaginação. A nossa
memória, na realidade, é uma invenção, uma história que vamos reescrevendo todos
os dias (o que recordo hoje da minha infância não é o que recordava há vinte
anos); o que significa que a nossa identidade também é ficcional, uma vez que se
baseia na memória. Aliás, sem essa imaginação, que completa e reconstrói o nosso
passado e que dá ao caos da vida uma aparência de sentido, a existência seria
enlouquecedora e insuportável: só ruído e fúria. Por isso, quando alguém falece,
como muito bem explica a doutora Heath, é preciso escrever o fim. O fim da vida
de quem morre, mas também o fim da nossa vida em comum. É preciso contarmos a
nós próprios o que fomos um para o outro, dizermo-nos todas as palavras belas
necessárias, construir pontes sobre as fissuras, mondar o mato da paisagem e,
por fim, gravar esse relato redondo na pedra sepulcral da nossa memória.
Marie não pôde fazê-lo, claro está, e por essa razão escreveu aquele diário. Eu
também não pude, e talvez por isso escrevo este livro. Embora a doença do meu
marido se tenha prolongado por vários meses, não conseguimos construir o nosso
relato por diversas razões; entre elas, o carácter extremamente estóico e
reservado de Pablo (sei bem que detestaria o livro que estou a fazer, embora
creio que não desagradasse ao Pablo que me segura quando tropeço).

90
Mas há uma causa que me parece essencial: é que já tinha, desde o princípio,
metástases no cérebro, pelo que acabou por perder por completo a sua
maravilhosa, original e inteligentíssima cabeça. E assim eu, que passei toda a
existência a colocar palavras sobre a escuridão, fiquei sem poder narrar a
experiência mais importante da minha vida. Esse silêncio dói.
No entanto, houve uma #Palavra. Uma noite, já muito perto do fim, estávamos no
hospital: tínhamos sido admitidos nas Urgências, porque Pablo estava muitíssimo
agitado, confuso, incoerente. (Eu decidira levá-lo para casa no dia seguinte e
foi o que fiz; uma semana depois estava morto.) Nessa noite, muito tarde, depois
de lhe terem ministrado todo o tipo de drogas, conseguiu sossegar. Inclinei-me
sobre ele para verificar se estava bem. Era aquele momento da alta madrugada em
que a noite está quase a render-se ao dia e há um tempo que parece fora do
tempo, um instante de pura eternidade. Imagina um quarto de hospital na
penumbra, os metais a brilhar com um fulgor escuro, como o de uma nave espacial,
o peso do ar e do silêncio, a solidão infinita. Éramos os dois únicos habitantes
do mundo e parecia-me sentir sob os pés a rotação pesada e rangente do planeta.
Nesse momento, Pablo abriu os olhos e olhou para mim. «Estás bem?», sussurrei,
embora então fosse já praticamente impossível falar com ele porque baralhava
tudo, e dizia esmeraldas quando queria dizer médicos, por exemplo. Nesse minuto
de serenidade perfeita, Pablo sorriu, um sorriso bonito e sedutor; e com uma
ternura absoluta, a maior ternura com que alguma vez me falou, disse-me: «Minha
cadelinha.»
Foi uma palavra ressaltada pelo seu cérebro ferido, uma palavra-espelho
arrancada de outra parte, mas julgo que foi o que de mais bonito me disseram na
vida.
E agora, ouve! O que acabo de fazer é o truque mais velho da Humanidade perante
o horror. A criatividade é justamente isso: uma tentativa alquímica de
transmutar o sofrimento em beleza. A arte em geral, e a literatura em
particular, são armas poderosas contra o Mal e a Dor. Os romances não os vencem
(são invencíveis), mas consolam-nos do horror.

91
Em primeiro lugar, porque nos unem ao resto dos humanos: a literatura torna-nos
parte do todo e, no todo, a dor individual parece que dói um pouco menos. Mas o
sortilégio também funciona porque, quando o sofrimento nos parte a espinha, a
arte consegue transformar esse dano feio e sujo numa coisa bela. Narro e
partilho uma noite lacerante e, ao fazê-lo, arranco centelhas de luz ao negrume
(a mim, pelo menos, serve-me). Por isso Conrad escreveu O Coração das Trevas:
para exorcizar, para neutralizar a sua experiência no Congo, tão pavorosa que
quase o enlouqueceu. Por isso Dickens criou Oliver Twist e David Copperfield:
para conseguir suportar o sofrimento da sua própria infância. É preciso fazer
alguma coisa com tudo isso para que não nos destrua: com o fragor do desespero,
com o interminável refugo, com a furiosa dor de viver quando a vida é cruel. Os
humanos defendem-se da dor sem sentido enfeitando-a com a sensatez da beleza.
Esmagamos carvões com as mãos nuas e às vezes conseguimos que pareçam diamantes.

92
Uma questão de dedinhos

Há duas coisas difíceis de entender na biografia de Madame Curie.


A primeira é não ter tido consciência do perigo do rádio, apesar de todas as
evidências que se foram somando ao longo da sua vida. Embora tenham observado
que a exposição matava os animais de laboratório, os Curie pensavam, alegre e
ilogicamente, que aos seres humanos só provocava queimaduras na pele. Nos anos
posteriores à morte de Pierre, as provas da extrema perigosidade da substância
foram-se multiplicando; vários investigadores morreram e o rádio começou a ser
encarado com alguma precaução. Em 1926 Marie implantou no seu laboratório as
normas de segurança que, já nessa altura, eram habituais em toda a parte, mas
nem ela nem Irene as respeitavam. De facto, faziam coisas tão temerárias como
passar rádio e polónio de um recipiente para outro, aspirando as substâncias com
a boca por meio de uma pipeta: veja-se a fotografia de Irene a fazer loucuras
como esta na muito tardia data de 1954.

93
As medidas de segurança que, por outro lado, eram insuficientes para as
exigências atuais, incluíam uma análise de sangue periódica, porque já se sabia
que a radioatividade alterava os glóbulos vermelhos. Mas Marie estava tão
absurdamente empenhada em defender a natureza benéfica do seu amado rádio que,
em 1925, e em resposta a um relatório que sublinhava os perigos da preparação
industrial do elemento, escreveu que, embora fosse necessário avisar do risco,
ela não estava ciente «de nenhum acidente grave devido ao rádio ou ao mesotório
entre o pessoal de outras fábricas [...] nem entre o pessoal do meu instituto».
Seis anos mais tarde, um terço dos trabalhadores do instituto revelou anomalias
no sangue. O deslumbrante rádio era, no fim de contas, um criminoso sedutor e
silencioso. Que inocentes e que irresponsáveis foram os Curie a manipulá-lo!
Inocentes no início, como toda a gente, quando ninguém conhecia as
consequências; e mais tarde, quando se recusaram a reconhecê-las,
irresponsáveis. A única coisa que Marie chegou a reconhecer, anos mais tarde e
quando a sua saúde já estava totalmente destruída, foi o seguinte: «A
manipulação do rádio implica alguns perigos - de facto, eu própria sofri alguns
distúrbios que lhes atribuo.»
Em 1900, alguns cientistas alemães expuseram-se à radiação para ver o que
acontecia. Pierre decidiu seguir o seu exemplo e anotou com cuidado os
resultados:
O senhor Curie reproduziu em si próprio a experiência do senhor Giesel fazendo
atuar sobre o seu braço, através de uma folha fina de guta-percha e durante dez
horas, cloreto de bário radificado de atividade relativamente fraca (cinco mil
vezes a do urânio metálico). Após a ação dos raios, a pele ficou avermelhada
numa superfície de seis centímetros quadrados; a aparência é a de uma
queimadura, mas a pele quase não se torna dolorosa. Passados alguns dias, a
vermelhidão, sem se espalhar, aumenta de intensidade; aos vinte dias formam-se
crostas, depois uma chaga que se curou usando emplastros; aos quarenta dias a
epiderme começou a regenerar-se pelas bordas, chegando ao centro, e cinquenta e
dois dias depois da ação dos raios resta ainda uma espécie de chaga, que adquire
um aspeto acinzentado, indicando uma mortificação mais profunda.

94
Não me digas que a descrição do processo não é um bocadinho arrepiante: aquela
queimadura tão estranha que ao princípio não dói e depois sim, um dano insidioso
que parece ir aumentando e perfurando a carne com o passar dos dias... E, no
entanto, não ficaram alerta.
Este tipo de lesões tornara-se muito comum porque os acidentes abundavam.
Becquerel, por exemplo, queimou o peito ao transportar um pequeno tubo com rádio
muito ativo no bolso do colete. Isto de andar com um tubinho no colete era uma
coisa habitual entre os cientistas: não por questões de trabalho mas de prazer,
por orgulho, pelo maravilhamento; pelo prazer de ter fechado num bolso o moderno
génio da lâmpada, o espírito mais poderoso e fulgurante, a suprema força
inesgotável, como um jornalista definira o rádio. Depois de Marie ter conseguido
doutorar-se em Ciências pela Sorbonne com nota máxima, em junho de 1903, houve
um jantar de celebração. A seguir, todos os convidados foram para o jardim e
Pierre tirou um frasquinho com rádio como quem acende fogos artificiais.
Rutherford, que estava presente, escreveu: «A luminosidade era brilhante na
escuridão e foi um remate esplêndido para um dia inesquecível.»
Felizmente para ela, Marie não usava colete onde meter o belo assassino mas,
mesmo assim, sofreu todo o tipo de lacerações:
Sofremos nas mãos, durante as investigações efetuadas com os produtos mais
ativos, diversas ações. As mãos têm uma tendência geral a perder a pele: as
extremidades dos dedos que seguraram tubos ou cápsulas que continham produtos
muito ativos tornam-se duras e às vezes muito dolorosas; para um de nós, a
inflamação das extremidades dos dedos durou quinze dias e terminou com a queda
da pele, mas uma sensação dolorosa ainda não desapareceu totalmente passados
dois meses.

95
Os Curie encaravam os percalços já não com estoicismo, mas com uma espécie de
gabarolice infantil: as cicatrizes da sua proeza. «Na realidade estou feliz, no
fim de contas, com as minhas feridas. A minha mulher está tão satisfeita como
eu», confidenciou Pierre a um jornalista em 1903. Paladinos de histórias, os
Curie tinham encontrado uma fonte natural e eterna de energia, um pequeno Deus
que cabia numa proveta, e a gesta merecia bem uns quantos arranhões.
Claro que não eram arranhões. Pierre, já se mencionou, estava a morrer
lentamente (ou talvez não tão lentamente) quando o carro o matou. Quanto a
Marie, a radioatividade acabou por destruí-la. A fraqueza e a fadiga acossaram-
na durante décadas e aos sessenta parecia uma velhinha de oitenta. Há uma
fotografia terrível dessa época, em que a vemos consumida e com os dedos
esturricados:
Os seus últimos anos foram muito dolorosos. O rádio deixou-a quase cega e, entre
1923 e 1930, sujeitou-se a quatro operações às cataratas. A partir de 1932, as
lesões das mãos pioraram. Morreu em 1934, aos sessenta e sete anos, de uma
anemia perniciosa provocada, sem dúvida, pela radiação. Para Irene as coisas
foram ainda piores: faleceu aos cinquenta e nove anos de leucemia (o marido,
Frédéric Joliot, com quem partilhou o Nobel pela descoberta da radioatividade
artificial, morreu dois anos mais tarde, vítima do mesmo assassino). A outra
filha, Ève, que nunca se dedicou à ciência e nunca se aproximou de nada
radioativo na vida, além da mãe e da irmã, viveu cento e dois anos; e creio que
é lícito supor que a sua longevidade era um traço genético, cerceado, nos casos
de Marie e de Irene, pela fria e fulgurante ferocidade do rádio.

96
É incrível que Marie se tenha negado a reconhecer o risco que todos corriam,
sabendo do assunto tanto como sabia. De facto, conhecia perfeitamente a forma
insidiosa com que a radioatividade impregnava tudo e considerava que era uma
coisa muito perigosa, sim, mas só para a fiabilidade das suas experiências!
«Quando se estudam em profundidade as substâncias radioativas», escreveu, «devem
tomar-se precauções especiais se se pretende continuar a efetuar medições
precisas. Os diversos objetos utilizados num laboratório químico, e aqueles que
servem para experiências em física, tornam-se todos radioativos passado pouco
tempo e agem sobre placas fotográficas através do papel negro. O pó, o ar do
quarto, as próprias roupas, tudo se torna radioativo [...]. No laboratório em
que trabalhamos, o mal atingiu uma fase aguda e já não conseguimos ter nenhum
aparelho completamente isolado.» Aterrador! E mesmo assim, continuou sem querer
ver o que era óbvio. Em 1956, o marido de Irene mediu a radioatividade dos
cadernos de apontamentos de 1902 dos Curie e ainda estavam bastante
contaminados.
E porquê esta intransigência?
Por estarem apaixonados pelo rádio. Por ser tão belo e por tudo ter sido tão
emocionante. Por Marie o ter libertado da pecheblenda com um esforço titânico.
Por o ter trazido à luz, ou seja, por o ter parido. Marie escreveu, recordando
os primeiros tempos da descoberta:
Sentimos uma alegria especial ao observar que os nossos produtos que continham
rádio concentrado se tornavam espontaneamente luminosos. O meu marido, que
esperava ver bonitas colorações, teve de concordar que esta outra característica
inesperada lhe deu ainda maior satisfação... [os produtos] foram dispostos em
mesas e tabuleiros [no laboratório] : por toda a parte podíamos ver silhuetas
ligeiramente luminosas e esse brilho, que parecia suspenso na penumbra,
despertou em nós novas emoções e encantamento.

97
Estavam encantados, é a palavra certa, ou enfeitiçados, presos ao feitiço do
fulgor verde-azulado. Às vezes, depois de jantar, corriam até ao laboratório
para apreciarem a visão dos seus pequenos fantasmas luminosos. Até na cabeceira
da cama tinham uma amostra de rádio, suponho que para adormecerem com a sua
fosforescência, o que me faz lembrar as virgens de Fátima que as minhas tias
traziam do santuário: pequenas imagens de uma feia massa esbranquiçada que, ao
apagarmos a luz, se acendem como espetros esverdeados. Interrogo-me agora se
essas virgens fosforescentes, que eram muito comuns na minha mais tenra
infância, não teriam algum ingrediente perigoso. O rádio foi utilizado durante
anos em pinturas para mostradores luminosos de relógios: era o que fazia com que
pudéssemos ver as horas na escuridão. E, de facto, entre 1922 e 1924, morreram
nove empregadas de uma fábrica norte-americana porque molhavam o pincel na
própria saliva para pintarem os números com a substância letal (os maxilares
necrosaram). Tu achas que no santuário de Fátima se preocupariam muito com os
temas de saúde nos anos cinquenta? E se aquelas virgenzinhas eram radioativas?
Embora julgue que, na verdade, continham fósforo, que também é venenoso.
Encontrei uma imagem de uma delas na Internet: mede onze centímetros e vende-se
por seis euros e oitenta cêntimos.
A segunda coisa difícil de entender em Marie Curie foi o seu completo silêncio
sobre os problemas acrescidos que tinha de enfrentar por ser mulher. Nunca
mencionou, nem de passagem, o machismo evidente e feroz da sociedade em que
vivia e nunca sublinhou as injustiças concretas que ela própria sofreu, e que
foram muitas.

98
Por exemplo, na luta pelo Nobel. No outono de 1903, quatro famosos cientistas
redigiram uma carta oficial propondo Pierre Curie e Henri Becquerel para o
Prémio Nobel da Física desse ano pela descoberta do polónio e do rádio, sem
fazerem, em absoluto, qualquer menção a Marie. Informado do assunto, Pierre fez
o que devia (mas que muitos, no seu lugar, não teriam feito): escreveu
explicando que, se a proposta era séria, não poderia aceitar o prémio se não
incluíssem Madame Curie. A carta causou desagrado e nos bastidores dos galardões
houve complicações mas, no fim, acrescentaram o nome de Marie, embora o dinheiro
que receberam pelo prémio tivesse continuado a ser o correspondente a uma só
pessoa (Pierre e Marie receberam setenta mil francos, o mesmo montante que
Becquerel). E quando lhes entregaram o galardão, o único que subiu ao palco e
que falou foi Pierre (embora tenha atribuído todo o mérito à mulher, que estava
sentada entre a audiência).
O episódio do Nobel acabou bem, mas outras lutas houve que se perderam: por
exemplo, quando a Academia das Ciências rejeitou a candidatura de Marie em 1911.
E o pior não foi não ter conseguido a cadeira, mas a campanha suja e feroz que
encetaram contra ela nos jornais de direita. Dry conta que, no Excelsior,
publicaram um estudo fisionómico e grafológico de Marie Curie, ao estilo das
fichas policiais, e concluíam que era «alguém perigoso, um espécime de vontade
perversa e ambição inapropriada que poderia ser nociva para a Academia». É claro
que a #Ambição é sempre suspeita numa mulher. Este género de sensacionalismo
jornalístico acabou por se tornar no prelúdio do horror, da condenação massiva e
do escândalo que se desencadearia pouco depois. Mas sobre isso falaremos mais à
frente.
Simone de Beauvoir chamava mulheres-bola àquelas que, depois de triunfarem com
grandes dificuldades na sociedade machista, se prestavam a ser utilizadas por
essa mesma sociedade para reforçar a discriminação; e assim, a sua imagem era
atirada contra as restantes mulheres com a seguinte mensagem: «Vêem? Ela
triunfou porque merece; se vocês não conseguem fazê-lo não é por impedimentos
sexistas, mas porque não valem o suficiente.»

99
Marie Curie terá sido uma mulher-bola? Não te iludas: o facto de ter vivido há
mais de um século não a exime de ter consciência das injustiças de género. Já na
Idade Média existiam mulheres que escreveram textos protofeministas, como
Christine de Pisan em A Cidade das Mulheres (1405), e, concretamente na época de
Marie, as sufragistas eram terrivelmente ativas, de modo que, se nunca falou da
questão feminista, não foi por o tema lhe ser invisível. Sim, é possível que
Marie tivesse sido um pouco a mulher-bola de que falava Beauvoir. Era orgulhosa
e sabia que tudo lhe custara muito a ganhar - em temperamentos assim, creio, há
uma tendência para se considerar diferente das outras. Diferente e melhor. De
facto, ela argumentou uma vez sobre as mulheres: «Não é preciso viver uma
existência tão antinatural como a minha. Dediquei uma enorme quantidade de tempo
à ciência porque queria, porque amava a investigação... O que desejo para as
mulheres e para as jovens é uma simples vida de família e algum trabalho que
lhes interesse.» Uau! Paternalista, não? Ou será maternalista?
Marie era, como é óbvio e de facto, diferente e melhor do que a imensa maioria
das mulheres, mas também do que a imensa maioria dos homens, e talvez isso não
lhe tivesse sido tão evidente. Embora, na realidade, eu a compreenda: em
primeiro lugar, porque é prodigioso a sua vida ter dado para tanto, sobretudo
com todas as circunstâncias que tinha contra si. É uma gesta sobre-humana,
titânica! É lógico não ter sido capaz de abarcar tudo.
Mas compreendo-a sobretudo porque é uma coisa que, de alguma forma, nos acontece
a todas. É de novo um problema de #Lugar, do maldito e vago espaço próprio que
as mulheres têm de encontrar. Um #Lugar social, mas também um #Lugar íntimo. Que
confusão angustiante entre o desejo pessoal e os deveres herdados! Quando Marie
tirou o doutoramento, em junho de 1903, estava grávida de três meses (se essa
gravidez foi tão má como a primeira, coisa que não sei, deve ter feito o exame
final entre vómitos). Em agosto, já de cinco meses, abortou. Goldsmith defende
que a culpa foi de Pierre, que insistiu muitíssimo para que a mulher o
acompanhasse numa excursão de bicicleta, apesar do seu estado; e, de facto, três
semanas depois de ter andado a pedalar, perdeu o bebé.

100
É muito provável que Goldsmith tenha razão, embora creia que os efeitos da
radioatividade também devessem ser levados em conta: recordemos que andaram a
fazer fogos-fátuos com um frasco de rádio no dia do seu doutoramento e estando
grávida de três meses. Mas, de qualquer forma, a insistência do delicado Pierre
no disparate da bicicleta creio que sugere bastante sobre a forma como ambos se
relacionavam com a feminilidade de Marie: como se não existisse. As náuseas
ignoravam-se, desdenhava-se a barriga, a sua condição de mulher era uma coisa em
que nunca se pensava, um silêncio ativo na consciência. Mas, por baixo de toda
essa negação, rugia a #Culpa, a conhecida e tradicional #CulpaDaMulher. Quando
abortou, Marie mergulhou numa intensa depressão; estava tão mal que até junho de
1905 não conseguiram ir receber o Nobel. Ela escreveu à sua irmã Bronya sobre a
perda:
Sinto-me tão consternada por este acidente que não tive coragem de escrever a
ninguém. Fui-me habituando tanto à ideia de ter este bebé que estou
absolutamente desesperada e ninguém consegue consolar-me. Escreve-me, peço-te,
se achas que a culpa foi minha pelo meu cansaço generalizado, pois tenho de
admitir que não poupei as minhas forças. Confiava na minha constituição e agora
lamento-o com amargura, porque paguei muito caro. O bebé - uma menina - estava
em boas condições e vivia. E eu desejava-o tanto!
A dor e a #Culpa em carne viva. Que grito final dilacerante.
Sim, é difícil, muito difícil ser mulher porque na realidade não sabemos em que
consiste nem queremos assumir o que a tradição exige. É melhor não ser nada para
poder ser tudo, que foi, parece--me, a opção de Marie. E talvez também a minha,
de alguma forma, embora para mim seja incomparavelmente mais fácil, graças a ela
e a outras como ela. Sim, compreendo bem aquela polaca orgulhosa que não queria
ver-se como vítima, porque é um lugar abominável; mas que também não queria ver-
se como verdugo, esse papel tão ingrato: verdugo dos homens, do seu Pierre. É
melhor apagar-se.

101
A respeito dessas estranhas, hipertrofiadas e mutáveis identidades do ser homem
e do ser mulher, na anterior fotografia de Marie já velha, aquela onde está
apoiada num varandim e mostra a sua mão queimada, pude constatar que Madame
Curie tem o dedo anelar mais comprido do que o indicador. Ou seja, tem uma mão
masculina. Vários estudos científicos efetuados ao longo da última década
demonstraram que o tamanho dos dedos da mão está relacionado com a maior ou
menor exposição à testosterona no útero materno. A maior parte dos homens tem o
dedo anelar mais comprido do que o indicador, e a maior parte das mulheres
possui um indicador mais comprido do que o anelar. Mas algumas, e alguns, não
seguem esta regra: David Beckham tem as proporções ao contrário, por exemplo.
Madame Curie também. E eu.
Outros investigadores estudaram as possíveis consequências que tal
característica poderia implicar, no comportamento ou na saúde. E assim, as
mulheres com o anelar mais comprido, como Marie ou eu (que maravilha ter alguma
coisa em comum com ela!), possuem, supostamente, um cérebro mais varonil, se é
que tal coisa existe; ou seja, tendem a ser muito boas em matemática e em
orientação espacial, mas fracas em capacidade verbal; têm também uma maior
tendência para o enfarte, para a competitividade, para a resistência física.
Segundo um estudo das universidades de Oxford e de Liverpool feito há uns dois
anos, são mais propensas à promiscuidade. E segundo Scarborough e Johnson
(2005), as mulheres com o anelar mais comprido gostam dos homens muito
masculinos, de maxilares definidos e corpo forte.

102
São trabalhos científicos sérios, mas a mim soam-me um pouco como as previsões
do zodíaco. E, tal como na astrologia, há coisas com que me identifico e coisas
com que não. Por exemplo, é óbvio que, no caso de Marie Curie, os dotes
matemáticos eram assombrosos, mas eu sou uma autêntica naba, uma completa inútil
tanto para os números como para a orientação espacial (sou uma dessas mulheres
incapazes de entender um mapa) e, no entanto, tive desde sempre uma grande
facilidade de comunicação verbal, de modo que , por esse lado, o meu cérebro
seria o mais feminino que se possa imaginar. Ocorre-me, no fim de contas, que
todos esses estudos se limitam a arranhar a superfície das coisas, sem chegar a
acertar no essencial. E já é complicado o bastante para nós tentar esventrar o
enigma escorregadio do que é ser mulher (ou ser homem) para, além do mais, nos
virem com histórias de dedinhos.

103
Mas esforço-me

Depois de ganhar o Nobel, os Curie tornaram-se mundialmente famosos, e graças à


fama começou a chegar-lhes o reconhecimento que durante tanto tempo lhes fora
negado. Porque a verdade é que até então, e apesar da descoberta do rádio e da
radioatividade, a sociedade francesa se portara de maneira bastante sovina para
com eles. Pierre tentou obter a cátedra de Mineralogia da Sorbonne, para a qual
estava mais do que habilitado, mas não lha deram; concorreu à Academia de
Ciências, mas rejeitaram-no. As receitas do casal eram bastante modestas: Marie
era obrigada de dar aulas vários dias por semana em Sèvres e Pierre, debilitado
como estava, esgotava-se atendendo os seus próprios alunos. Mas o pior era não
disporem de um bom laboratório. Os Curie estavam desesperados para conseguir um
lugar em condições onde pudessem trabalhar, mas, embora tenham tentado tudo, não
houve maneira de o alcançarem. Em 1902 quiseram dar a Pierre a Legião de Honra e
ele recusou-a, com as seguintes palavras: «Por favor, agradeça ao ministro da
minha parte e informe-o de que não sinto a mais pequena necessidade de ser
condecorado, mas que tenho a mais aguda necessidade de um laboratório.» Pois
bem, nem assim. «É bastante dura esta vida que escolhemos», confiou Pierre a
Marie num dia de desalento.
Mas com o Nobel a situação começou a mudar. Finalmente, a Sorbonne ofereceu a
Pierre uma cátedra de Ciências e, depois de muita discussão, também um
laboratório, embora se tratasse de um local pequeno, só com duas divisões, e
insuficiente em todos os sentidos.

104
Muitos anos depois, Marie escreveu: «Uma pessoa não consegue evitar sentir
alguma amargura ao pensar que [...] um dos maiores cientistas franceses nunca
teve à sua disposição um laboratório em condições, embora a sua genialidade se
tenha revelado desde os vinte anos.» Mas, de qualquer forma, as duas pequenas
divisões eram preferíveis ao hangar ruinoso; além disso, o que era o melhor de
tudo, a Sorbonne designara Marie como chefe do laboratório; de modo que, pela
primeira vez, Madame Curie podia fazer as suas investigações com um salário e um
cargo reconhecido. Todo o seu trabalho anterior, incluindo a descoberta do
rádio, fizera-o de forma gratuita e oficiosa, como uma okupa do sujo e velho
barracão.
Mas a fama cobrava também o seu preço. Não paravam de dar entrevistas, a
presença de ambos era exigida em toda a parte e Pierre, diminuído pela doença,
sentia-se angustiado pelo tempo de trabalho que isso lhes roubava. Quanto a
Marie, engravidou de novo e Ève conta que a gravidez, que era a sua - ou seja,
era ela quem viria a nascer -, foi um tempo terrível e deprimente para Madame
Curie: «Porque estou a trazer esta criança ao mundo?», repetia constantemente.
Pobre Ève: se o escreveu no livro deve ter sido por a mãe lho ter contado.
Certamente, uma dessas histórias familiares que se nos cravam no coração como um
punhal; e Ève acrescenta as presumíveis razões que a mãe aduzia para não querer
tê-la: «A existência é demasiado dura, demasiado árida. Não deveríamos infligi-
la a seres inocentes...» Balelas. Não há justificação para uma filha que possa
anestesiar semelhante ferida: a mãe não quis tê-la. A Irene, sim; à bebé que
morreu, sim; mas a ela, não. E logo a seguir, Ève escreve: «O parto foi
doloroso, interminável.» Não me surpreende que afirme que a sua infância foi
infeliz.
No entanto, logo após o nascimento da menina, o estado de espírito de Marie
melhorou. Depressa a vemos mais ou menos feliz; por um lado, era a primeira vez
que se podia sentir tranquila a respeito do dinheiro (toda a sua vida sofrera
muito com problemas económicos); além disso, devia apreciar mais o êxito do que
Pierre, não por uma fútil (embora humana) vaidade, mas porque nela o sucesso
implicava o reconhecimento de quem era. Finalmente aceitavam-na; finalmente,
depois de tanta luta, conseguia ser vista. É lógico que desfrutasse! A única
coisa que empalidecia a alegria de Marie era o penoso estado físico de Pierre:
apesar disso, tentava cultivar o prazer da vida e a #Leveza.

105
Havia mesmo momentos em que brincava e ria! E aqui vem uma daquelas
#Coincidências arrepiantes, uma coisa que parece saída de um romance.
Foi no início de 1906. Um desconhecido parou na rua a apreciar a beleza de Ève,
que só tinha um ano, e provavelmente perguntou a quem saía a criança; de
repente, com um humor surpreendente, Marie, seríssima, respondeu-lhe que não
sabia, porque a bebé era uma pobre órfã. A partir de então costumava chamar a
Ève «a minha pobre orfãzinha», e fartava-se de rir. Ou seja, deve tê-la chamado
assim durante alguns meses, até, em abril, Pierre ter morrido e Ève ter atingido
de facto a orfandade.
Ah, as #Coincidências. São estranhas, impossíveis, inquietantes e abundam,
sobretudo, na literatura. Não me refiro ao conteúdo dos romances, mas às
proximidades da escrita. Ou à relação entre a escrita e a vida real.
Por exemplo, o meu romance Instruções para Salvar o Mundo. A personagem
principal é um taxista, Matias, que perdeu a mulher devido a um tumor maligno
fulminante; a história começa no cemitério, quando Matias enterra a mulher, e
depois acompanhamos a personagem durante o seu luto, até começar a sair da
escuridão. Publiquei o romance em maio de 2008; a 12 de julho diagnosticaram o
cancro ao meu marido. Ou seja, passara três anos a escrever a minha própria
história sem o saber. Três anos a tentar viver a perda de Matias, desventrando
ou adivinhando o que podia ser o seu percurso de dor. Fi-lo bem? Agora que o
vivi de facto, soube intuí-lo? Sim e não. Há pormenores acertados. Perceções
exatas. Mas não cheguei ao fundo. Lá em baixo havia um peixe abissal de
escuridão de que só cheguei a vislumbrar um pequeno movimento nas águas.
Um outro exemplo, também uma #Coincidência por de mais assombrosa, aconteceu-me
quando estava a escrever História do Rei Transparente, romance que publiquei em
2005. A ação decorre na Idade Média e a protagonista é uma camponesa que no
início do livro tem quinze anos, uma pobre serva da gleba que fica só num mundo
em guerra porque levaram o pai e o irmão como soldados.

106
Para se proteger, Leola, que é como se chama a minha camponesa, mete-se de
madrugada num campo de batalha, despe um cavaleiro morto e cobre-se com a sua
armadura para esconder a sua condição de mulher. É noite de lua cheia e o campo
está iluminado por uma luz fantasmagórica de prata que nos permite ver os
cavalos esventrados e os cadáveres dos guerreiros, tesos pelo rigor da morte. Eu
escrevia a cena e estava de facto ali, naquele campo, sob a luz gelada,
cheirando a ferro e a sangue, deambulando entre os caídos à procura de algum com
um tamanho apropriado ao meu corpo de Leola. Até finalmente o ter encontrado e,
ajoelhando-me junto do meu morto, ter começado a despi-lo: tirei-lhe as
brafoneiras, as calças, a cota de malha, o colete acolchoado, o capacete e...
Fiquei com a mão no ar, porque queria tirar ao meu cadáver a peça da armadura
que é um capuz de anéis de ferro, uma touca que cobre a cabeça e o pescoço e só
deixa o rosto a descoberto e, de súbito, apercebi-me de que não sabia como se
chamava. Andava há anos a preparar o livro; reunira uma abundante documentação
sobre a Idade Média; julgava saber tudo, ou quase tudo, mas acontece que não me
recordava do nome da maldita peça. A palavra que me faltava arrancou-me do campo
de batalha, da noite fulgurante, de Leola, expulsando-me do romance de um
empurrão. E eu que estava hipnotizada a escrever... Mas não me sentia capaz de
continuar se não conseguisse saber o nome exato.
E agora deixa-me que te lembre o muito que a vida mudou desde 2003 ou 2004, que
deve ter sido a data em que aconteceu o que te estou a contar. Porque hoje
escrevemos no Google «proteção para a cabeça armaduras século XII» e de imediato
aparece tudo o que queremos saber, com desenhos, reproduções, etimologias. Acabo
de o fazer e é facílimo. De facto, a fotografia abaixo é de uma página que vende
armaduras pela Internet (que mundo estranho!).

107
Mas nessa altura não, oh não!, nem nada que se pareça. Nessa altura era
dificílimo, para não dizer quase impossível, encontrar um dado destes: como se
chamava essa peça concreta no século XII, porque tinha forçosamente de pertencer
àquela época (as armaduras foram mudando com o tempo e aquela de que eu
precisava era dessa data).
Desesperada, levantei-me da minha mesa de trabalho. Como sempre gostei de
História, assinava as revistas Historia 16 e La aventura de la Historia há cerca
de uma década, e tinha a certeza de que em alguma delas haveria uma reportagem
sobre armaduras medievais. Mas seriam do século XII? Especificariam as peças da
cabeça? E, sobretudo, como diabo as encontraria? Sou caótica e descuidada, na
realidade um desastre, e os exemplares de ambas as revistas estavam espalhados
por toda a parte, em diversos cantos da casa, por ordenar. Encontrá-los seria um
trabalho de muitas horas, ou de dias, e no fim talvez não me servisse para nada.
Resfoleguei.
Sofri.
Irritei-me.
Grunhi.
Pus-me a dar voltas pela casa como um tubarão, enquanto pensava como solucionar
o problema, mas tinha a mente em branco. Sentindo-me frustrada e desterrada do
meu próprio romance, fui até ao quarto, deitei-me na cama e, esticando o braço,
peguei distraidamente no último número de La aventura de la Historia, que estava
em cima da mesa de cabeceira, o qual acabara de chegar e que ainda não lera.

108
Abri-o ao calhas, a meio. E aí, na página dupla, havia um estudo pormenorizado
sobre as peças da cabeça das armaduras do século XII, com desenhos e tudo.
Almafre. O raio da peça chamava-se «almafre».
Esta história passou-se tal e qual como te conto. Pensei bastante nela e suponho
que devo ter folheado a revista quando chegou, e é provável que tenha visto,
embora não me lembre, a reportagem das armaduras. De modo que, mais tarde, o meu
inconsciente (sempre muito mais sábio do que o consciente) me fez abrir a
revista no sítio adequado. De qualquer forma, porém, não explica o facto de La
aventura de la Historia publicar esse trabalho justamente no mês em que eu ia
precisar da informação.
Existe um deus dos romancistas. Ou uma deusa.
E por último: não é uma #Coincidência Elena Ramírez ter-me enviado o diário de
Marie Curie no exato momento em que eu acabara de ficar bloqueada e estava quase
a mergulhar no pânico, sem que ela fizesse ideia do meu bloqueio? E não é uma
dessas Coincidências que a vida oferece o facto de, ao ler esse pequeno texto,
eu sentir que despertava tantos ecos no meu íntimo? Não só pela morte próxima e
pelo luto, não só pela perda e pela ausência, mas porque a própria vida de Marie
Curie, a sua personalidade, a sua biografia, parecia atravessada por todas as
#Palavras sobre as quais eu estivera a refletir recentemente, por todas as
minhas ideias em construção, por todos os meus pensamentos recorrentes do último
ano. Detesto lung, abomino a magia e acho que cientistas como Rupert Sheldrake
são bastante duvidosos mas, com os anos, tenho a sensação crescente de que há
uma continuidade na mente humana; de que existe realmente um inconsciente
coletivo que nos entretece, como se fôssemos cardumes de peixes comprimidos que
dançam em uníssono sem o saberem. E as #Coincidências fazem parte dessa dança,
desse todo, dessa música, dessa canção comum que não conseguimos ouvir por
inteiro porque o vento só nos traz notas isoladas. Já sei que não há rigor
científico no que digo, mas é um pensamento consolador, porque coloca a pequena
tragédia da nossa vida individual em perspetiva. Quando era mais nova (de facto,
até há bem pouco tempo), aspirava à grandeza como romancista: a elevar-me como
uma águia e a escrever o grande livro sobre a condição humana.

109
Agora, pelo contrário, aspiro simples e modestamente à liberdade absoluta; se
conseguisse sê-lo escrevendo - livre do eu consciente, dos mandatos herdados, da
dependência do olhar dos outros, da própria #Ambição, do desejo de me elevar
como uma águia, dos meus medos e das minhas dúvidas e das minhas dívidas e das
minhas mesquinhices -, então poderia descer até ao fundo do meu inconsciente e
talvez me fosse possível ouvir, por um instante, a canção coletiva. Porque muito
dentro de mim cabemos nós todos. Só sendo absolutamente livre se pode dançar
bem, se pode fazer bem amor e se pode escrever bem. Atividades, todas elas,
importantíssimas. E então perguntar-me-ás: estás a ser realmente livre no texto
que agora escreves? E eu respondo-te: pois não. Nem aqui. Mas esforço-me.

110
Um sorriso ferozmente encorajador

Depois da morte de Pierre, pouco a pouco foi tomando forma uma corrente de
opinião que tentou minar o prestígio de Marie. Havia cientistas invejosos do seu
sucesso e a sua condição de mulher continuava a ser um aborrecimento para
muitos. E assim, não só começaram a insinuar que sem o marido não fazia nada
memorável, como tentaram também minimizar a sua importância no passado e a sua
contribuição na descoberta do rádio. É verdade que os trabalhos de Madame Curie
não estiveram à altura científica dos trabalhos dos seus melhores
contemporâneos, mas foi por Marie estar envolvida noutra coisa. Como sublinha
Goldsmith, dedicara toda a sua energia e o seu laboratório à «investigação
médica, biológica e industrial em benefício da humanidade». O seu lado ativista,
político e social, que era mais forte nela do que em Pierre, redobrou ao ficar
só. E além disso, se reparares, estava a tirar um rendimento prático da sua
descoberta, justamente o oposto do que vaticinara o seu progenitor antes de
morrer. #HonrarOPai.
E assim, Madame Curie concentrou-se no estudo da medição das substâncias
radioativas, criou um serviço de autenticação dessas medidas e definiu o padrão
internacional do rádio, essencial tanto para a indústria como para as aplicações
médicas. O padrão foi aceite pela comunidade científica e recebeu o nome de
cúrio (agora o padrão internacional é o becquerel, embora o cúrio continue a
utilizar-se muito). Por fim, fez uma coisa que lhe custou um esforço tremendo:
empenhou-se em conseguir o metal puro de rádio (até essa altura só havia sais).
E porque assumiu este desafio bastante inútil?

111
Porque parte da comunidade científica continuava a duvidar daquela maldita
intrusa. Barbara Goldsmith explica-o muito bem: «Lorde Kelvin [importante físico
e matemático britânico] fez aos oitenta e dois anos uma coisa que duvidamos que
tivesse feito caso ela fosse homem: escreveu uma carta ao The Times afirmando
que o rádio de Madame Curie não era um elemento, mas um composto de hélio.»
Ainda por cima, não enviou a sua opinião crítica a uma revista científica, como
seria correto, preferindo ventilá-la num jornal generalista, no diário mais
importante do país! Uma forma de desdenhar Marie e de tentar rebaixá-la em
público. De modo que não é de admirar que a combativa e orgulhosa polaca,
juntamente com um cientista amigo, André Debierne, dedicasse três anos da sua
vida à obtenção do metal puro, para acabar de uma vez por todas com tanta
asneira. Acabaram por conseguir produzir um quadradinho ínfimo, branco e
brilhante, que escurecia de imediato em contacto com o ar; mantiveram-no na sua
forma metálica muito pouco tempo e nunca mais repetiram o processo.
Na realidade, é o grande público que encara Marie como uma celebridade. Era a
estrela da ciência, a roqueira do laboratório, com um passado de santidade (o
esforço de mexer os caldeirões de pecheblenda, a pobreza do hangar onde
trabalhavam) e um presente de martírio devido à viuvez. Dir-se-ia, no entanto,
que agora Madame Curie já não apreciava nem um pouco o sucesso. Vivia a lutar
contra a dor do luto e drogava-se com o trabalho. Com frequência, permanecia no
laboratório até às duas da madrugada, e na manhã seguinte às oito já lá estava.
Não comia, não descansava. A sua filha Ève fala de desmaios, de quedas físicas e
psíquicas.
Depois de ficar viúva, quiseram dar-lhe uma pensão oficial, que ela recusou. Por
essa altura, a Sorbonne viu-se obrigada a oferecer-lhe as turmas da cátedra de
Pierre, e Marie aceitou. Conta-o numa bela e comovente entrada do seu diário:
14 de maio de 1906
Meu pequeno Pierre, gostaria de te contar que os laburnos floresceram e que
as glicínias, o espinheiro branco e os lírios começam a fazê-lo; terias adorado
aquecer-te ao sol vendo tudo isto.

112
Quero dizer-te também que me nomearam para o teu posto e que houve imbecis que
me felicitaram. E também que continuo a viver sem consolo e que não sei em que
me transformarei nem como suportarei a tarefa que me resta. Por momentos, a
minha dor parece que enfraquece e adormece, mas logo renasce, tenaz e
poderosa.
Ainda não passara um mês sobre a morte de Pierre e a primavera explodia com
aquela desconcertante indiferença com que a vida continua depois da morte de
alguém querido. Mas como? O mundo continua na mesma sem ele? A cabeça
compreende, mas o coração fica atónito. E o que dizer dos laburnos em flor, das
glicínias... Como compreendo esse esplendor vegetal, essa beleza! Pablo também
era um grande amante da jardinagem, da botânica. Durante vinte anos percorremos
todo o tipo de montanhas e ele ia-me perguntando pelo nome de cada folhinha;
aprendi a reconhecer algumas, mas a maior parte das vezes não acertava e o exame
parecia-me aborrecido. Hoje faço eu própria as perguntas cada vez que vou ao
campo; e desespera-me não ter quem me corrija quando falho. Um dado curioso com
os mortos queridos é que se produz uma espécie de possessão. Como se o morto
reencarnasse em nós de alguma forma, de modo que começamos a sentir como nossas
determinadas fobias ou inclinações do ausente que antes não partilhávamos. Creio
que também isto aconteceu a Marie. Ela conta no diário:
Chegada de Józef e de Bronya [os irmãos de Marie] . São bons. Mas fala-se de
mais nesta casa. Nota-se que já cá não estás, meu Pierre, tu que detestavas o
ruído.
E várias entradas à frente:
[...] tentei rodear-me de um grande silêncio.

113
Segundo Ève, a mãe não consentia qualquer ruído, nem um grito, e no final da
vida falava tão baixinho que quase não se ouvia. Como se estivesse a seguir, e
até a multiplicar, as manias de Pierre.
Mas estava a contar-te que Madame Curie aceitou encarregar-se da cátedra do
marido. Quando o ano letivo começou, escreveu:

6 de novembro de 1906
Ontem dei a primeira aula substituindo o meu Pierre. Que desconsolo e que
desespero! Terias ficado feliz ao ver-me como professora na Sorbonne, e eu
própria teria ficado encantada por tua causa. Mas fazê-lo em teu lugar, ó, meu
Pierre, quem imaginaria uma coisa tão cruel; como sofri, como estou desanimada!
Sinto que a faculdade de viver morreu em mim, e só me resta o dever de criar as
minhas filhas e de continuar a tarefa aceite. Talvez seja também o desejo de
demonstrar ao mundo, e sobretudo a mim própria, que aquela que amaste valia de
facto alguma coisa.

Ah, que terrível entrada, esta do seu diário... Marie é a primeira a ter
dúvidas. A sua luta contra o mundo passa, primeiro que tudo, por uma luta contra
si própria. Quando tudo à nossa volta e a nossa própria educação nos garantem
que não somos, que não prestamos, que não correspondemos a determinado #Lugar, é
difícil não nos sentirmos impostoras. Mas Marie aceitou o desafio, como sempre.
Deu aulas a partir de 1906, embora a Sorbonne tenha demorado mais dois anos a
conceder-lhe a titularidade oficial da cátedra. Foi a primeira mulher a ensinar
na universidade.
O breve diário dirigido a Pierre acaba justamente no aniversário da sua morte.
Suponho que Marie, que se esforçava sempre por #FazerOQueSeDeve, considerou que
um ano era o tempo de luto permitido, decente e adequado. Esta é a última
entrada:

114
Abril de 1907
Um ano. Vivo para as suas filhas, para o seu velho pai. A dor é surda, mas
continua viva. A carga pesa-me nos ombros. Como seria doce adormecer e nunca
mais acordar. Que jovens são as minhas pobres queridinhas! Que cansada me sinto!
Terei ainda coragem de escrever?

Não, não teve. No parágrafo final, faltou a Marie acrescentar que também vivia
para o trabalho. Fora disso, era verdade que não saía nem via ninguém. Ou quase
ninguém, além de um grupinho de cientistas, íntimos colaboradores.
E assim foram passando os anos.
Até que, de repente, aconteceu.
No início de 1910 morreu o pai de Pierre. Marie amava o sogro que, além do mais,
vivia com ela. Deve ter sido um momento doloroso. Mas, apenas dois meses mais
tarde, na primavera, Madame Curie foi um dia tomar café a casa de uns amigos, o
matemático Émile Borel e a mulher, e surgiu diferente, rejuvenescida, feliz. Em
vez de ir de preto, como sempre, apareceu com um vestido branco e uma rosa presa
à cintura.
Queres tornar a adivinhar ou é por de mais óbvio? De facto, estava apaixonada.
Nessa altura Marie tinha quarenta e dois anos, e há quatro que Pierre morrera.
Bem podia permitir que a vida lhe aquecesse novamente o coração. O eleito fora
Paul Langevin, cinco anos mais novo do que ela, um físico eminente (como
curiosidade partilharei que inventou o sonar, embora tenha passado à história
por sucessos científicos muito mais importantes), antigo aluno de Pierre, amigo
e colaborador próximo do casal Curie. E, além disso, bonito, embora num estilo
ardente e de brigadeiro, intenso e de grande bigode.

115
O problema é que Paul Langevin era casado. Toda a gente sabia que há anos se
dava muito mal com a mulher, Jeanne Desfosses, mas tinham quatro filhos. Por
razões profissionais, Paul e Marie viam-se com frequência: entre outras coisas,
ele ajudava-a a preparar as aulas da Sorbonne. Marie confessou a uma amiga que
estava fascinada com «a inteligência maravilhosa» de Langevin (e com o seu
enorme bigode e com a luz dos seus olhos, atrever-me-ia a acrescentar); quanto a
ele, sentia-se atraído por Marie «como por uma luz, no santuário de luto em que
se encerrara, com um afeto fraternal nascido da amizade por ela e pelo marido,
que se foi tornando mais estreito [...] e comecei a procurar nela a ternura que
me faltava em casa».
Curiosamente, algumas biografias, como a muito recente de Belén Yuste e Sonnia
Rivas-Caballero, continuam a passar com pinças pelo incidente, ou até a negar a
sua veracidade, como se fosse uma coisa vergonhosa. Não o é para mim. Marie
tinha todo o direito a apaixonar-se, e verdadeiramente vergonhoso foi o
escândalo criado, o linchamento a que foi submetida.
Ao que parece, por volta de julho de 1910 já eram amantes. O coração vulcânico
de Marie atirou-se ao amor mais uma vez. Escreveu a Langevin:
Seria tão bom conseguir a liberdade necessária para nos vermos tanto quanto nos
permitissem as nossas diversas ocupações, para trabalharmos juntos, para
passearmos ou viajarmos juntos, quando as circunstâncias o permitissem.

116
Existem profundas afinidades entre nós que só necessitam de uma situação
favorável para se desenvolverem... O instinto que nos aproximou um do outro era
muito forte... O que não poderia surgir de tal sentimento...? Creio que poderia
nascer tudo: um profícuo trabalho comum, uma boa e sólida amizade, coragem para
viver e até bonitos filhos, no sentido mais elevado da palavra.
Apre! Falava metaforicamente ou queria mesmo filhos de Paul? Aos quarenta e dois
anos!? Marie tentava dar às suas palavras um tom sensato e contido (o que nos
permitissem as nossas ocupações, blá-blá-blá) mas por baixo rugia a paixão como
um bramido de veados no cio. É um texto escrito com o corpo. Com a pele. Com uma
memória ainda em chamas pela glória do sexo. Ah, sim, a avaliar por esta carta,
Marie perdera-se: queria estar com Langevin a toda a hora.
Olho agora para as fotografias de ambos, instantâneos mais ou menos
contemporâneos, e esforço-me por imaginá-los na cama.
Para mim não há nada de doentio ou de impudico em tentar representá-los no ato
amoroso. Pelo contrário: há um desejo de senti-los próximos, de meter-me na pele
deles, de compreendê-los. Sempre achei que o sexo é uma via maravilhosa para nos
pormos no lugar do outro. Quando visito ruínas arqueológicas e lugares
históricos e ancestrais, procuro imaginar os seus antigos habitantes a fazer
amor, porque, por mais que os costumes tenham mudado, isso não deve ser muito
diferente.

117
Nos castelos medievais, no enigmático Machu Picchu, nas vetustas pirâmides do
Egito, a pele foi sempre a pele e o desejo, o desejo. E assim posso ouvir
aquelas presenças, posso reviver os antepassados na minha cabeça, possa saber o
que viram, o que sentiram; a intimidade do leito, a penumbra; a embriaguez de
uns braços ardentes e fortes, de um pescoço suado; a suavidade das ancas, o
esplendor da pele contra a pele. No caso de Marie e de Paul, é como se visse a
bigodaça de Langevin perfilando-se contra o teto à luz de uma vela. E um olhar
de ternura, de surpresa e de desejo.
Alegro-me por o sangue ter voltado a fervilhar no interior das veias de Marie;
só lamento que tenha durado tão pouco e que o tivesse pago tão caro. A mulher de
Paul, que suportara estoicamente as diversas infidelidades do marido,
enlouqueceu quando descobriu que ele andava com Curie (e como soube? Langevin
terá dado à língua?). Compreendo que se tenha sentido duplamente traída porque
Marie pertencia ao seu círculo de amizades, algo que é muito desagradável; mas,
de qualquer forma, parece que Jeanne era uma mulher pavorosa, doida e violenta,
e mantinha com Paul uma dessas relações doentias que são um inferno. Na
primavera de 1910, suponho que pouco antes de se tornarem amantes, Jeanne
contara a Marie que Paul a tratava com crueldade (batia-lhe?); em consequência,
Marie censurara Langevin, que então lhe mostrou um corte profundo na cabeça, de
uma garrafa que Jeanne lhe atirara (batiam-se?). Enfim, o horror.
A questão é que, quando soube da relação deles, a energúmena ameaçou que ia
matar Marie, e Paul achou-a capaz de o fazer. Uma noite, Jeanne e a irmã
atacaram Madame Curie num beco escuro e ameaçaram tirar-lhe a vida se não saísse
imediatamente de França. Aterrorizada, Marie não se atreveu a regressar a casa e
refugiou-se na de um amigo, Perrin, que seria Prémio Nobel da Física em 1926. As
coisas continuaram muito más durante meses; Paul e Marie encontravam-se quando
podiam, num apartamento que ele alugara perto da Sorbonne. Há uma série de
cartas de Marie para Paul, escritas em 1910, onde se vê que Madame Curie estava
a entrar numa fase desenfreada e angustiante do idílio, compreensível dadas as
circunstâncias.

118
Estava obcecada por Langevin, talvez porque ele se comportava de maneira
ambígua, e não há nada que alimente tanto a paixão como a sensação de que o
amado nos escapa. Marie, que devia andar há anos, como todos os amigos, a ouvir
os amargos lamentos conjugais de Paul, queria que ele se separasse de vez da
mulher. Nada mais lógico. Mas Langevin era um dubitativo insuportável; já se
afastara noutras ocasiões e acabara sempre a suplicar à esposa que o deixasse
voltar. Às vezes, as relações que se cimentam na agressão são mais persistentes
do que aquelas que se baseiam no amor.
Marie escrevia-lhe assim: «Meu Paul, abraço-te com toda a minha ternura...
Tentarei voltar ao trabalho, embora seja difícil com os nervos neste estado.» Ou
até assim: «Pensa nisso, meu Paul, quando fores invadido pelo receio de causar
dano aos teus filhos; eles nunca correrão tantos riscos como as minhas pobres
meninas, que poderão ficar órfãs da noite para o dia se não encontrarmos uma
solução estável.» Na sua magnífica biografia sobre Curie, Goldsmith considera
que existe aqui uma ameaça velada de suicídio, mas eu, de facto, acho que mais
depressa Marie se está a referir à possibilidade da aterradora Jeanne cumprir a
sua promessa criminosa. Goldsmith também critica Marie por esta outra carta, que
a biógrafa considera cruel e insensível: «Não te deixes influenciar por uma
crise de gritos e lágrimas. Pensa no ditado do crocodilo que chora porque não
comeu a sua presa: as lágrimas da tua mulher são desse tipo.» Creio, pelo
contrário, que é um conselho bastante lógico para tentar proteger o seu amado de
uma relação obviamente perturbada, melodramática e violenta. Não sei, dir-se-ia
que há um preconceito profundo e soterrado que continua em vigor, mesmo hoje, em
relação à mulher que participa num adultério. À outra. À má.
«Quando sei que estás com ela, as minhas noites são atrozes. Não consigo
adormecer, durmo duas ou três horas com dificuldade; acordo com a sensação de
ter febre e não consigo trabalhar. Faz o que puderes e acaba com isto. Não posso
continuar a viver na nossa situação atual», escreve Marie. Ah!, o tormento dos
ciúmes: «Não desças nunca [do quarto do andar superior] a menos que ela vá
buscar-te, trabalha até tarde...

119
Quanto ao pretexto que procuras, explica-lhe que, trabalhando até tarde e
levantando-te cedo, precisas de descanso [...] e que o seu pedido de partilhar a
cama te enerva e torna impossível descansares normalmente.»
Como se não tivesse ficado claro, Marie avisa Langevin que nem lhe passe pela
cabeça voltar a fazer amor com a mulher e ter um filho: «Se tal acontecesse,
significaria a nossa separação definitiva... Posso arriscar a minha vida e a
minha posição por ti, mas não conseguiria aceitar essa desonra... Se a tua
mulher se apercebe, utilizará este método de imediato.» Não parecia ter muita
confiança em Paul, e com razão. Por essa altura, Marie confidenciou à sua amiga
Marguerite Borel que receava que Langevin cedesse às pressões de Jeanne: «Tu e
eu somos fortes... ele é fraco.»
Aqui é necessário fazer um parágrafo para falar da #Fraqueza-DosHomens, uma
grande verdade que todas conhecemos mas que nenhuma de nós menciona.
Tenho para mim que o verdadeiro sexo fraco é o masculino. Não acontece com todos
os homens e nem sempre acontece de todo, mas no que respeita a uma fraqueza
genérica, os homens ganham-nos aos pontos - de qualquer maneira, nós achamo-los
fracos e, por conseguinte, tratamo-los com atenções e com uma superproteção
alucinantes. Talvez seja consequência do instinto maternal, que é, sem dúvida,
uma pulsão poderosa, mas o facto é que, com frequência, mimamos os homens como
se fossem meninos e temos um cuidado enorme em não lhes ferirmos o orgulho, a
autoestima, a sua frágil vaidade. Parecem-nos imaturos, inseguros, infinitamente
necessitados de atenção, admiração e aplauso. Há anos publiquei um microrrelato
sobre o assunto. Intitulava-se Um Pequeno Erro de Cálculo:

Regressa o Caçador do seu dia de caça, machucado e exausto, e atira o cadáver do


tigre aos pés da Recoletora, que está sentada à entrada da caverna separando as
bagas comestíveis das venenosas. A mulher observa como o homem mostra o seu
troféu com orgulho mas sem perder a vaga atitude de respeito com que sempre a
trata; diante do poder de morte do Caçador, a Recoletora possui um poder de vida
que o intimida.

120
O rosto do Caçador está tenso pela fadiga e rodeado de uma espuma de sangue
seco; olhando para ele, a Recoletora recorda o filho que pariu na passada lua,
todo ele também sangue e esforço. Enternece-se a mulher, acaricia os cabelos
ásperos do homem e decide oferecer-lhe um pequeno presente: durante o resto do
dia, pensa ela, e até que o sol seja escondido pelos montes, deixá-lo-ei
acreditar que é o dono do mundo.

Quantas vezes nós, mulheres, mentimos aos homens; em quantas ocasiões fingimos
saber menos do que sabemos, para que pareça que eles sabem mais; ou lhes dizemos
que precisamos deles para alguma coisa, mesmo que não seja verdade, só para que
se sintam bem; ou os adulamos à descarada para celebrar qualquer pequena
vitória, e até achamos enternecedor constatar que, por mais exagerada que seja a
lisonja, nunca se dão conta de que lhes estamos a dar graxa, porque na verdade
precisam de ouvir elogios, como aqueles adolescentes que necessitam de apoio
extra para poderem acreditar em si próprios. Sim, são capazes de ir para a
frente combater em guerras pavorosas; de arriscar a vida subindo ao Evereste; de
atravessar selvas tormentosas para encontrar as fontes do Nilo; mas, no plano
emocional, no sentimental, na realidade de cada dia, os homens, para falar com
franqueza, parecem-nos #Fracos.
A grande Alice Munro tem um conto, «Os Móveis da Família», onde a protagonista,
uma jovem, vai almoçar a casa de Alfrida, uma tia cinquentona com quem quase não
se relaciona. Sentado à mesa está também o namorado da tia, Bill, que, depois de
passar meia refeição sem falar, desata de repente numa discursata sobre a
qualidade das verduras congeladas em comparação com as frescas. «Alfrida
inclinou-se para a frente com um sorriso. Parecia quase conter a respiração,
como diante de um filho que começa a andar sem apoio ou faz a sua primeira
tentativa na bicicleta», escreve Munro. A seguir, a tia olha para a rapariga à
espera que ela intervenha. E a protagonista/narradora discorre:

Se eu não nada dizia, não era por indelicadeza ou aborrecimento [...], mas
porque não entendia a obrigação de fazer perguntas, quaisquer que fossem, para
encorajar um macho tímido a conversar, para o arrancar da sua introversão e
instituí-lo como homem de certa autoridade e, portanto, como homem da casa.

121
Não entendia porque Alfrida olhava para ele com um sorriso tão ferozmente
encorajador.

Que parágrafo delicioso sobre o #Fraco Bill e a protetora Alfrida (deparei-me


com o relato por acaso, no livro que estou a ler enquanto redijo este capítulo:
outra #Coincidência).
Sim, é evidente que também há mulheres atrozes, más e violentas, bruxas como
Jeanne Langevin, que não só não mimam os seus homens como tentam humilhá-los,
castrá-los, destruí-los. Há mulheres perversas como há homens brutais que
espancam ou matam as suas mulheres. Quando falo do nosso instinto de proteção
refiro-me à generalidade; à forma como a maior parte de nós trata os homens que
ama. Enfim, é possível que a #Fraqueza que julgamos ver neles não seja mais do
que uma ilusão; e talvez fosse muito melhor para todos se deixássemos de os
superproteger. Mas a verdade é que também há muitos homens que parecem cobrar
essa pretensa fragilidade. Lembro-me de uma magnífica série de piadas do
humorista Forges, protagonizadas por um casal terno e delicioso: Mariano,
pequenino, de grande narigão, óculos e dois cabelos no cocuruto, e a mulher,
Concha, enorme baleote de cabelo encaracolado por uma permanente - uma
representação gráfica perfeita da #FraquezaDosHomens.
Marie Curie sempre foi uma mulher forte, muito forte; e dir-se-ia que sempre viu
os homens um pouco como crianças necessitadas de compreensão e cuidados. No seu
diário descreve uma cena comovente passada no campo, naqueles últimos dias que
os Curie passaram juntos e felizes em Saint-Rémy:

Os charcos estavam meio secos e não havia nenúfares, mas o tojo florira e
observávamo-lo, admirados. Carregávamos Ève, primeiro um e depois o outro, mas
sobretudo eu.

122
Sentámo-nos junto de uma meda, e eu tirei a combinação para que não te sentasses
no chão sem nada; chamaste-me louca e ralhaste-me, mas eu não fiz caso - temia
que adoecesses.

É evidente que Pierre estava muito doente e Marie preocupadíssima, mas, ainda
assim, a cena demonstra uma deliciosa inversão de papéis, com Madame Curie sendo
o gentil-homem galante que, em vez de cobrir a lama com a sua capa, estende a
combinação. Marie foi sempre um verdadeiro cavalheiro (lembremo-nos do seu
dedinho anelar mais comprido).
Ève inclui dois parágrafos no seu livro que demonstram a #Fraqueza do seu pai e
que têm muito menos encanto. No primeiro refere:

Apesar da sua doçura [Pierre] era o mais possessivo e ciumento dos maridos.
Estava tão habituado à presença constante da mulher que o mais pequeno
desaparecimento por parte dela o impedia de pensar livremente. Se Marie se
entretinha um pouco mais junto da filha [a bebé que estava a adormecer], ele
recebia-a de volta à sala com uma censura tão injusta que chegava a ser cómica:
Tu só pensas nessa menina!

Cómica nada. Ou seja, além de dar aulas em Sèvres, de trabalhar no laboratório,


de fazer compotas, de tratar da casa e de cuidar das filhas, Marie tinha de
andar com Pierre ao colo! O comentário seguinte é ainda mais inquietante:

Se Marie, regra geral pouquíssimo faladora, se permitia discutir com paixão um


assunto científico numa reunião de homens de ciência, podíamos vê-la corar,
interromper-se perturbada e voltar-se para o marido para lhe dar a ele a
palavra; tão forte era a sua convicção de que a opinião de Pierre era mil vezes
mais preciosa do que a sua.
Raios a partam! E por isso ficava perturbada? Por isso corava? Não, o que se
passava é que, de repente, Marie se lembrava de que o marido estava presente e
apressava-se a dar-lhe a vez para que não se sentisse ferido, para que não visse
perigar o seu lugar de «homem com autoridade», como diria Alice Munro.

123
Com certeza que depois olharia para ele, enquanto falava, com um sorriso assaz
encorajador.
E se Marie protegeu Pierre, que foi sem dúvida o homem mais homem que passou
pela sua vida, um tipo mais ou menos sólido, é provável que se sentisse ainda
mais impelida a superproteger indivíduos obviamente mais #Fracos. Na sua
juventude compreendeu, perdoou e desculpou durante anos as hesitações e
fraquezas de Casimir, e agora voltava a pôr-se na mesma situação com Paul
Langevin: «Tu e eu somos fortes... ele é fraco.» Quantas, quantas vezes ao longo
da história as mulheres disseram ou pensaram o mesmo?
Enfim, assim corriam as coisas quando chegou 1911, o ano mais convulso e
terrível para Madame Curie. Começou em janeiro com a candidatura à Academia de
Ciências, claramente um erro. Talvez fosse, quem sabe, uma forma de sedução
perante Langevin, mas Marie enganou-se, colocando-se numa posição de risco: como
já expusemos, além de não ser eleita sofreu a primeira descarga de ataques
sensacionalistas na imprensa. Na Semana Santa, Jeanne contratou um detetive que
conseguiu roubar a Paul as cartas de Marie: Langevin podia ser um cérebro para a
Física e para a Matemática, mas dir-se-ia que era bastante idiota na vida real.
São as cartas cujo conteúdo já citámos, um material sem dúvida muito íntimo que
Jeanne ameaçava publicar. Langevin, agitado, saiu de casa, mas voltou passadas
duas semanas. Podemos imaginar o desespero, o receio e o esgotamento nervoso de
Marie durante esses meses.
No outono, tanto Marie como Langevin foram convidados do primeiro dos
prestigiados Congressos Solvay, jornadas que reuniam os melhores cientistas da
altura para debater e partilhar os seus trabalhos, e encontram-se em Bruxelas. O
congresso realizou-se de 30 de outubro a 3 de novembro e juntou vários prémios
Nobel havidos e por haver, como De Broglie, Einstein, Perrin, Lorentz, Nernst,
Planck e Rutherford. No total, vinte e um cérebros privilegiados sendo Marie,
como é óbvio, a única mulher. Há uma fotografia maravilhosa e comovente onde a
vemos, muito só e deslocada, muito fora do seu #Lugar, entre tanto mestre de
colarinho engomado.

124
Enquanto a maior parte dos imponentes varões olha diretamente para a objetiva da
máquina fotográfica e para a História, Marie está embrenhada não se sabe em que
sisuda questão com Poincaré, que se encontra à sua esquerda. À sua direita,
também concentrado, o seu grande amigo Perrin. Atrás de Marie está o robusto
Rutherford, um dos poucos presentes que mostra uma expressão normal e alegre. E
os dois homens à direita da fotografia são Paul Langevin e um Einstein muito
jovem, que conheceu Marie nesse congresso.
Langevin parece bastante distraído, dir-se-ia mesmo tenso, e a pensar noutras
coisas, o que não me surpreende, sabendo nós o que sabemos. Encontra-se também
perto de Marie. Imagino o que seriam esses dias do primeiro Solvay. Atrever-se-
iam a corricar de madrugada pelos corredores do hotel? Não me parece muito
provável, dado o grave problema que tinham, mas já se sabe que paixão é paixão e
que sempre foi a origem das maiores e mais impensáveis loucuras nas pessoas mais
comedidas. Além disso, também não tinham tantas oportunidades de se ver com
calma e a salvo da louca da mulher; e, por outro lado, não achas que julgariam a
pomposa gravidade da reunião excitante? Serem amantes e esfregarem-se em segredo
à noite um contra o outro, chegando às reuniões, tão solenes, com a marca dos
beijos ainda a queimar na pele, fingindo que não se passava nada? Será por isso
que Marie aparenta estar tão concentrada no trabalho e no pobre Poincaré? Ou que
Langevin parece tão ausente?

125
No seu rigoroso livro sobre Madame Curie, Sánchez Ron explica que, nesse
primeiro congresso (compareceu a mais seis), a cientista se limitou a participar
nos debates que se seguiam às apresentações, e reproduz algumas das suas
intervenções:
Pode existir, de forma absoluta, uma ligação rígida? Não parece possível, do
ponto de vista da teoria cinética ordinária, admitir que, por um lado, as
moléculas sejam absolutamente rígidas nos gases diatómicos e que, por outro
lado, essa rigidez desapareça progressivamente quando passam a estados mais
condensados.
Pode-se então tentar imaginar mecanismos que permitam interromper esta emissão
[de um elemento de energia]. É nesse caso provável que os mecanismos não sejam à
nossa escala, e sim comparáveis aos demónios de Maxwell: [nesse caso]
permitiriam obter desvios a partir das leis de radiação previstas para a
estatística, tal como os demónios de Maxwell permitem obtê-los a partir das
consequências do princípio de Carnot.
Uau! Não percebo nada mas... como soa bem! Imagina proferir e debater tudo isto
enquanto se tem ao lado o cotovelo de Langevin. Falar da rigidez dos gases
diatómicos e não se atrever a olhar para os seus olhos em brasa (é porventura
melhor concentrar-se no bondoso Poincaré); mencionar as flutuações provocadas
pelos demónios e tentar não pensar e não sentir o calor que irradia do corpo do
amante, três cadeiras à frente. Sim, deve ter havido uma quantidade de desvios e
muitíssimos demónios nesse primeiro Solvay.
O esplendor e a angústia da paixão.
Imediatamente a seguir, tudo explodiu. Devastação total. Como uma bomba de
neutrões.
A 4 de novembro, no dia seguinte ao encerramento do Solvay, o diário Le Journal
publicou uma reportagem intitulada «Uma história de amor: Madame Curie e o
professor Langevin». Mencionava que a mulher de Langevin detinha cartas que os
incriminavam e que Marie era uma devoradora de homens que destruíra um casamento
com quatro filhos.

126
«Sabíamos do affaire há vários meses. Teríamos continuado a mantê-lo em segredo
se o rumor não se tivesse espalhado ontem, quando os dois atores desta história
fugiram, um deles abandonando a sua casa, a sua mulher e os seus filhos, o outro
renunciando aos seus livros, ao seu laboratório e à sua glória», acrescentavam
em delírio. Quando Madame Curie regressou à sua casa em Sceaux (para onde se
mudara depois da morte de Pierre), deparou com uma multidão enfurecida que
atirava pedras contra as janelas, aterrorizando as crianças, nessa altura com
catorze e sete anos. Marie teve de agarrar nas filhas e fugir; refugiou-se em
casa do seu amigo, o matemático Émile Borel, diretor científico da Escola Normal
Superior, que lhes deu guarida, embora o Ministério de Instrução Pública tenha
ameaçado expulsá-lo caso o fizesse. As pessoas pareciam ter enlouquecido.
Em meia dúzia de dias, a notícia transformou-se num escândalo mundial. Começaram
a insinuar-se verdadeiras barbaridades sobre Marie, entre elas que a relação com
Langevin começara ainda em vida de Pierre e que por sua causa o marido se
suicidara atirando-se para baixo das rodas de um carro. L’Intransigeant afirmava
que a capacidade científica de Marie fora sobrevalorizada e que a mulher
verdadeiramente digna de simpatia era «a mãe francesa que [...] só queria cuidar
dos seus filhos. É com esta mãe, e não com a mulher estrangeira, que o público
simpatiza [...]. Esta mãe ama os seus filhos. Tem argumentos. Tem apoio. Tem,
acima de tudo, a força eterna da verdade do seu lado. Ela triunfará.» Este traço
terrível de uma parte da sociedade francesa - o chauvinismo, o antissemitismo, o
ódio e o desprezo pelo que é diferente - emergiu como uma torrente. Como Ève
escreveu com amargura, «chamaram-lhe sucessivamente russa, alemã, judia, polaca;
era a mulher estrangeira que chegara a Paris como uma usurpadora para conquistar
uma posição elevada de forma imprópria. Mas cada vez que Marie Curie era
aclamada pelo seu talento noutros países, quando lhe dedicavam elogios nunca
ouvidos antes, nessa altura transformava-se de pronto, nos mesmos jornais e com
a assinatura dos mesmos jornalistas, na embaixadora de França, na representação
pura do génio da nossa raça e numa glória nacional».

127
Marie, aterrorizada com a possibilidade de as cartas serem publicadas, enviou o
seguinte comunicado para o Le Temps: «Considero que todas as intrusões da
imprensa e do público na minha vida privada são abomináveis... Daí que pense
recorrer a rigorosas ações judiciais contra qualquer publicação de escritos que
me sejam atribuídos.» Acrescentava que afirmar que ela e Langevin tinham
desaparecido era uma «extravagância louca», uma vez que toda a comunidade
científica sabia que participavam num congresso em Bruxelas. E acabava
reiterando, com corajosa dignidade: «Não há nada nos meus atos que me obrigue a
sentir-me diminuída. Não acrescentarei mais nada.»
Para aumentar ainda mais o nível de caos desses dias, na mesma semana em que
saiu a notícia no Le Journal, Marie recebeu um telegrama onde lhe era comunicada
a atribuição do Prémio Nobel da Química. No meio do escândalo, ninguém deu
importância ao galardão. Muitos antigos amigos e colegas cientistas estavam
contra ela. Paul Appell, decano de Ciências da Sorbonne, tentou que um grupo de
professores da universidade exigisse a Madame Curie que abandonasse a França;
acabou por desistir do seu objetivo porque a sua filha Marguerite, mulher de
Émile Borel, ameaçou não voltar a vê-lo se continuasse - como é evidente, Marie
também teve apoios: de Perrin; de Jacques Curie, irmão de Pierre; de André De-
bierne e dos Borel... Recebeu até uma carta afetuosa de Einstein: «Sinto
necessidade de dizer-lhe o muito que admiro o seu espírito, a sua energia e a
sua honradez. Considero-me um felizardo por ter podido conhecê-la pessoalmente
em Bruxelas. Agradecerei sempre termos entre nós pessoas como a senhora e como
Langevin, seres humanos genuínos, de cuja companhia nos podemos congratular. Se
a ralé continua a falar de si, deixe de ler essas tontices. Que fiquem para as
víboras para quem foram fabricadas.» Os conselhos do jovem físico eram fáceis de
proferir, mas muito difíceis de seguir; sobretudo quando, a 23 de novembro, se
publicaram longos excertos das cartas no jornal L’oeuvre, com o título: «Os
escândalos da Sorbonne».
O mais interessante (e o mais desesperante) é verificar como a má da história
era Marie; ninguém pedira a Langevin que saísse da universidade, embora na
verdade o adúltero fosse ele.

128
Em L’Action Française escreveram: «Esta mulher estrangeira pretende falar em
nome da razão, em nome de uma Vida moralmente superior, de um Ideal
transcendente sob o qual oculta o seu monstruoso egoísmo. Em nome do anterior,
dispõe à sua vontade dessas pobres pessoas: do marido, da mulher e das
crianças...» Ou seja, Paul Langevin não era mais do que um pobre homem enganado
por uma harpia! Um jornalista chamado Gustave Téry escreveu que Langevin era um
pacóvio e um cobarde e Paul desafiou-o para um duelo. Foi um desafio absurdo:
Téry não levantou a pistola porque disse que não podia matar um cientista tão
valioso e Langevin baixou a sua arma sem a ter disparado porque «teria sido um
assassinato». Houve outros quatro duelos motivados pelo escândalo, nenhum com
consequências fatais. O caso estava a transformar-se numa espécie de ópera bufa.
Nessa altura, Marie recebeu uma carta dos Nobel a pedir-lhe que não fosse à
Suécia receber o prémio. Era um texto brutal que mencionava as cartas de amor
publicadas e «o ridículo duelo de Langevin», acrescentando: «Se a Academia
acreditasse que as cartas [...] poderiam ser autênticas, é muito provável que
não lhe tivesse concedido o prémio.» A resposta de Marie, nesses momentos tão
terrivelmente duros, foi grandiosa: «Parece-me que a ação que me recomenda seria
um grave erro da minha parte. Na realidade, o prémio foi-me concedido pela
descoberta do rádio e do polónio. Creio que não há nenhuma conexão entre o meu
trabalho científico e os factos da vida privada... Não posso aceitar, por
princípio, a ideia de que a apreciação do valor do trabalho científico possa ser
influenciada pelo libelo e pelas calúnias acerca da minha vida privada. Estou
convencida de que muitas pessoas partilham da mesma opinião. Entristece-me
profundamente que não se encontrem entre elas.» Uau! Sinto-me tentada a
levantar-me da cadeira e a aplaudir. Que dignidade e que têmpera. Como é
natural, Marie foi receber o seu Nobel, e foi ela quem fez o discurso de
aceitação, afirmando que o galardão era uma homenagem à memória de Pierre Curie.
Só então, após esta gesta incrível, depois de ter enfrentado de pé e de cabeça
erguida o linchamento público durante semanas, de ter lutado pelo Nobel e de ter
ido recebê-lo, Marie Curie desmoronou.

129
Estava destroçada. Pensa no seu carácter orgulhoso e obsessivo e na tortura
cruel que o escândalo vergonhoso deve ter significado para um temperamento como
o dela. Pensa, também, na dilaceração do seu coração apaixonado, ao ver a
relação com Paul destruída. E pensa no seu estado físico, já muitíssimo
maltratado pelas radiações. Mergulhou numa depressão profunda, a pior, a mais
negra da sua vida. «Marie foi empurrada para a beira do suicídio e da loucura»,
escreve Ève. Internaram-na num hospital com uma crise renal e, dois meses
depois, foi operada a um rim. Mas o pior era Madame Curie não querer viver.
Recusava-se a comer e emagreceu nove quilos, chegando a pesar quarenta e seis (e
era uma mulher alta). Mudou as filhas para uma nova casa no centro de Paris,
porque Sceaux estava permanentemente cercado de mirones, e deixou-as aí a cargo
de uma precetora. Depois desapareceu. Durante quase um ano, Marie não trabalhou
nem viu as filhas. Andou refugiada em diversos sítios, em termas, em casas de
campo alugadas, registando-se com nomes falsos. 1912 foi um ano queimado,
desesperado, o ano da devastação. Mais tarde, a sua coragem e integridade
inacreditáveis conseguiram fazê-la reerguer-se: em 1913 estava outra vez a
trabalhar no laboratório mas, de alguma forma, nunca mais voltou a ser a mesma.
Julgo que decidiu envelhecer. Foi nesse ano de 1913 que Einstein declarou que
lhe parecia «fria como um peixe». Ele não sabia que estava a ver só a camada
endurecida pela intempérie de um interior de lava.
Quanto a Langevin, acabou por assinar um acordo de separação com a mulher e
ficou livre (embora Marie já não estivesse no horizonte: recuperaram a amizade,
mas não o amor). No entanto, atingindo o cúmulo da vulgaridade e do ridículo,
três anos mais tarde o casal voltou a reconciliar-se e Paul, claro está,
arranjou uma nova amante, desta feita convenientemente anónima. Não se pode
dizer que a vida sentimental de Langevin fosse admirável: antes, afigura-se-me
como uma demonstração perfeita da sua #Fraqueza. Mas espera, ainda há mais.
Passados alguns anos teve uma filha ilegítima com uma das suas antigas alunas
(tudo bastante trivial) e pediu a Madame Curie que arranjasse à rapariga um
trabalho no seu laboratório. E sabes que mais? Marie acedeu.

130
Umas velhas asas que se desfazem

«Morrer faz parte da vida, não da morte: é preciso viver a morte», afirma a
doutora Iona Heath com uma simplicidade deslumbrante. Os humanos não sabem o que
fazer com a morte. Grande, impensável, ingerível, cruel, horrível. De modo que,
como não sabemos o que fazer, fabricámos túmulos, dólmenes, necrópoles
megalíticas, mastabas, pirâmides, sarcófagos, panteões, tumbas coletivas, tumbas
individuais, sepulcros, monumentos memoriais, lápides, criptas, nichos,
ossários, cemitérios solenes. O tempo, o dinheiro, o esforço e o espaço
investidos em construções para os mortos teriam podido melhorar bastante a vida
dos vivos. Embora, pensando bem, o que isso interessava? Afinal, os vivos não
passavam de projetos de cadáveres.
Mas nem sequer a pirâmide mais monumental é suficiente para nos defender da
morte, de modo que também nos rodeámos de ritos. Que importantes são para os
vivos! Lembra-te de Aquiles maculando o cadáver de Heitor: é o núcleo da
tragédia, a maior atrocidade relatada pela Ilíada, e isto tratando-se de uma
obra repleta de pavores (raptos, violações, massacres, traições). Mas nada é tão
horrível como profanar o cadáver do inimigo; porque se não somos capaz de
compreender, de reconhecer e de respeitar a dor dos seus parentes, é porque
também não podemos reconhecer a nossa própria humanidade nem respeitarmo-nos a
nós mesmos. «A mágoa é pura e é sagrada», disse uma nonagenária ao escritor Paul
Theroux, e é uma frase que me ficou gravada a fogo na memória. É verdade: a
mágoa é pura e sagrada e até na morte pode haver beleza, se soubermos vivê-la.

131
Já citei Thomas Lynch, o curioso escritor norte-americano que também dirige uma
agência funerária numa pequena povoação: «Todos os anos enterro uns duzentos
habitantes.» Um trabalho inquietante. No seu livro The Undertaking há uma página
maravilhosa que acaba por ser a antítese da ira de Aquiles. Uma menina fora
assassinada por um tipo desequilibrado; aconteceu no dia em que iam fazer a
fotografia anual da escola, de modo que a menina saíra de casa de ponto em
branco. Nunca chegou ao colégio: encontraram-na passadas vinte e quatro horas.
Fora violada, estrangulada, apunhalada e tinham-lhe esmagado a cabeça com um
taco de basebol. E então a menina, ou o que dela restava, chegou à agência
funerária. «Um homem com quem trabalho, chamado Wesley Rice, passou todo um dia
e uma noite a reconstruir o crânio com extremo cuidado», refere Lynch. «A maior
parte dos embalsamadores, se enfrentasse a mesma situação de Wesley Rice quando
abriu o saco da morgue, teria dito apenas: caixão fechado; ter-se-ia limitado a
controlar o cheiro; teria fechado o saco e ido para casa tomar um cocktail.
Muito mais fácil. O pagamento é o mesmo. Mas, ao invés, Wesley Rice começou a
trabalhar. Dezoito horas depois, a mãe da menina, que insistira em vê-la,
consegui-o. Estava morta, sobre isso não havia dúvidas, e deteriorada; mas o
rosto era outra vez o seu, não a versão do louco [...]; Wesley Rice não a
levantou de entre os mortos nem escondeu a dura realidade, mas resgatou-a da
morte daquele que a assassinou. Fechou-lhe os olhos e a boca. Lavou-lhe as
feridas, suturou as lacerações, reconstruiu o crânio esmagado [...], vestiu-a
com umas calças de ganga e uma camisola azul de gola alta e pô-la num caixão
junto do qual a mãe soluçou durante dois dias [...]. O funeral da menina foi o
que aqueles que trabalham em agências funerárias chamam de um bom funeral.
Serviu para os vivos, cuidando dos mortos.»
Uma beleza, não é?
Uma beleza trémula, como uma velha borboleta batendo lentamente asas que se
desfazem.
No entanto, creio que estamos cada vez mais longe de tudo isso, mais distantes
da pureza da mágoa. Iona Heath cita no seu livro um trabalho de um tal Ricks. Ao
que parece, fez-se um estudo sobre o cuidado a pacientes com demência avançada
num hospital de doenças graves dos Estados Unidos.

132
Cinquenta e cinco por cento deles morreram com os tubos de alimentação ainda
colocados. Ricks conclui: «Hoje em dia, nos Estados Unidos, é quase impossível
morrer com dignidade, a não ser que se seja pobre.» Gerir a morte nunca foi
fácil, mas dir-se-ia que agora estamos a torná-lo ainda mais complicado.
Escondemos os cadáveres, as pessoas agonizam na frieza dos hospitais,
abandonámos os ritos. No entanto, às vezes, uma cerimónia tão tradicional como
um velório pode proporcionar alívio. Conta Marie no seu diário:

O teu caixão fecha-se depois de um último beijo, e não volto a ver-te. Não
permito que o tapem com o horrível pano preto. Cubro-o de flores e sento-me ao
lado. Até o terem levado, quase não me mexi [...] . Estava só com o teu caixão e
pousei nele a minha cabeça, apoiando a testa. E apesar da imensa angústia que
sentia, falava contigo. Disse-te que te amava e que sempre te amara com todo o
meu coração. Que tu o sabias [...] e que te tinha dado a minha vida inteira,-
prometi-te que nunca nenhum outro ocuparia o lugar que fora teu na minha vida, e
que tentaria viver como terias gostado que o fizesse. Pareceu-me então que desse
contacto frio da minha testa com o caixão me chegava algo semelhante â
serenidade, e a intuição de que voltaria a encontrar a vontade de viver.

Sim, é preciso fazer alguma coisa com a morte. É preciso fazer alguma coisa com
os mortos. É preciso pôr-lhes flores. Falar com eles. Dizer que os amamos e que
sempre o fizemos. É melhor fazê-lo ao vivo; senão, também o podemos declarar
depois. Podemos gritá-lo ao mundo. Ou então escrevê-lo num livro como este.
Pablo, que pena ter esquecido que podias morrer, que podia perder-te. Se tivesse
essa consciência, ter-te-ia amado não mais, mas melhor. Ter-te-ia dito muito
mais vezes que te amava. Teria discutido menos por tontices.

133
Ter-me-ia rido mais. E até me teria esforçado por aprender o nome de todas as
árvores e por reconhecer todas as folhinhas. Já está. Já o fiz. Já o disse. De
facto, consola.
Consolou Marie. Fê-la intuir que voltaria a desfrutar da vida. E é verdade:
voltamos a desfrutar dela. Mas, por outro lado, isto do luto é estranho.
Sobretudo, julgo eu, nos lutos extemporâneos, nas mortes que não deviam ter
acontecido ainda. E é estranho porque, embora o tempo passe, a dor da perda,
quando se põe a doer, continua a parecer-nos igualmente intensa. É evidente que
cada vez ficamos melhor, muito melhor: a dor atinge-nos com menos frequência e
conseguimos recordar o nosso morto sem sofrer. Mas quando a mágoa surge, e não
sabemos muito bem por que motivo o faz, a laceração é a mesma, a brasa é a
mesma. A mim, pelo menos, acontece-me, e já passaram três anos. Talvez a
ferroada diminua com o tempo; ou talvez não. É uma coisa de que ninguém fala;
talvez seja um desses segredos que todos partilham, como o da
#FraquezaDosHomens. Talvez os enlutados se sintam estranhos e péssimos enlutados
por continuarem a sentir a dor com a mesma agudeza, passado tanto tempo. Talvez
nos envergonhe e pensemos que não soubemos «recuperar». Mas afirmo desde já que
a recuperação não existe: não é possível voltarmos a ser quem fomos. Existe a
reinvenção, o que já não é mau. Com sorte, pode ser que consigamos reinventar-
nos melhor do que antes. No fim de contas, agora sabemos mais.
Há uns meses faleceu a minha sogra, aos noventa e um anos. Numa #Coincidência
admirável, fê-lo a 3 de maio, precisamente na mesma data em que lhe morreu o
filho, três anos antes. Os meus cunhados avisaram-me do seu estado terminal e
fui lá a casa na noite anterior. Estive um bocado com alguns deles: com Tomás,
com Pedro, com Maria. Conversámos e rimos na sala, enquanto a minha sogra, Maria
Jesus, agonizava no quarto, muito fraca, medicada, sem sofrimento. A televisão
estava ligada sem som; passavam imagens não sei de que vitória do Real Madrid.
Pensei: o que Pablo não teria gostado (era adepto do Real). Também pensei, ou
antes, senti, tudo quanto tínhamos vivido naquele aposento no último quarto de
século. A minha primeira visita, quando conheci os pais dele; as refeições
natalícias.

134
Olhei para os objetos decorativos, para as cerâmicas da estante. Todos eles
tinham uma história e um significado para Maria Jesus, e agora iam perder, eles
também, o seu lugar na Terra. Quando morremos levamos um pedaço do mundo. Que
calma imensa havia nessa noite de princípio de maio; que paz entre nós, entre
Tomás, Pedro, Maria. A Morte já estava no apartamento, já andava às voltas pela
casa, e estávamos todos instalados no tempo lento, preguiçoso, no tempo melífluo
da espera da morte de alguém querido. Já tudo estava feito, já tudo estava dito:
só restava por viver o tiquetaque inaudível dos instantes finais, o bater das
asas da borboleta. Às vezes a proximidade de morte enche-nos de uma serenidade
estranha, quase visionária.
Deixa-me que te conte um dos momentos mais belos da minha vida. Como bom
guerreiro estóico e reservado, Pablo receou a piedade e preferiu isolar-se.
Significa que, durante os dez meses da doença, estivemos os dois praticamente
sozinhos. Até que, nos dias finais, Pablo perdeu a consciência; nessa altura,
quando a presença das pessoas já não podia incomodá-lo, os nossos amigos
entraram de rompante em casa: como a água de uma represa que rebenta, irromperam
empurrados por toda a angústia que tinham sentido ao serem mantidos longe
durante tanto tempo e ocuparam-nos a casa: passaram a noite na nossa sala,
dormiram nos sofás, fizeram turnos, prepararam refeições, agitaram remédios,
foram ao mercado e à farmácia. Fizeram-no para cuidarem dele, para tomarem conta
de mim, para nos rodearem de carinho; e ficaram cá em casa e não se foram embora
até Pablo ter falecido - um exército de amigos em pé de guerra que fizeram com
que aquela morte asquerosa tivesse também um lado indescritivelmente belo.

135
A última vez que se sobe a uma montanha

Sou uma grande adepta das biografias: são cartas de navegação da existência que
nos avisam dos escolhos e dos baixios que nos esperam. Li centenas delas e há
uma coisa que se repete sempre e que me parece bastante desoladora. Acontece que
o período da infância dos biografados costuma ocupar um grande espaço; depois
vêm a juventude e a maturidade que, como é compreensível, abarcam montes e
montes de folhas. Mas chega um momento do relato das suas vidas onde, de
repente, tudo parece esvaziar-se ou acelerar-se ou comprimir-se. Dir-se-ia que,
a não ser que morram jovens, quando se atinge a velhice tudo aquilo que acontece
interessa pouco. Esta ausência de conteúdo é particularmente dramática se a
personagem teve a sorte de viver muito. Podemos, então, estar a ler uma dessas
biografias grossas e minuciosas, de seiscentas páginas, suponhamos, e se calhar
os trinta últimos anos da vida de uma mulher que chegou a nonagenária são
despachados em menos de vinte folhas. Às vezes interrogo-me se já não terei
atingido esse ponto em que a existência se transforma num tobogã vertiginoso. Se
já terei começado a cair a toda a velocidade para esse tempo desfiado e
aparentemente insubstancial acerca do qual os biógrafos não encontram nada de
relevante para contar. Eu não o sinto, mas, se calhar, somos os últimos a
aperceber-nos de tal facto.
Sim, claro, como é evidente, já sei que há exceções. Existem pessoas que, em
idades muito avançadas, fazem coisas incríveis. Como uma das minhas heroínas
preferidas, Minna Keal. Minna nasceu em Londres em 1909, filha de judeus russos
emigrantes.

136
Adorava música e começou a estudar na Academia Real, mas o pai morreu e ela teve
de abandonar os estudos aos dezanove anos para começar a trabalhar. Em 1939
entrou para o Partido Comunista, de onde saiu em 1957, após a invasão da
Hungria; casou-se duas vezes, teve um filho. Durante a guerra, criou uma
organização para tirar crianças judias da Alemanha. Trabalhou a maior parte da
sua vida como secretária em diversos e aborrecidos empregos administrativos; aos
sessenta anos reformou-se e decidiu retomar as aulas de música e, depois,
estudar composição. Estreou a sua primeira sinfonia em 1989, nos BBC Proms,
prestigiados concertos anuais que se realizam no Royal Albert Hall, em Londres.
Foi um êxito clamoroso. Minna Keal tinha oitenta anos. A partir de então e até à
sua morte, uma década depois, Minna dedicou-se intensamente à música e
transformou-se numa das mais notáveis compositoras contemporâneas europeias.
«Achei que estava a chegar ao fim da minha vida, mas agora sinto-me como se
estivesse a começar. É como se vivesse a vida ao contrário», afirmou, depois da
sua estreia nos Proms.
Minna é uma velha espetacular e sentimos vontade de viver só de olhar para o seu
sorriso feliz e para os seus cabelos brancos despenteados pelo vento. Mas é um
caso excecional. Regra geral, na maior parte das biografias instala-se esse
silêncio, esse vazio. Como se uma pessoa se ausentasse da própria vida.
Marie Curie morreu ainda relativamente nova (aos sessenta e sete anos) e
manteve-se ativa até ao fim, de modo que os biógrafos têm muita coisa a dizer
acerca dela. Mas, sabes que mais?

137
O que contam não é muito excitante (eu pelo menos não acho), sobretudo em
comparação com o anterior, com a intensidade da sua vida espinhosa. Bom, minto;
fica por explicar uma coisa genial: a participação na Primeira Guerra Mundial,
que demonstra, além do mais, a sua tremenda generosidade. Madame Curie foi
realmente tão enorme em tudo, tão invulgar, que uma pessoa corre o risco de cair
na hagiografia e de a transformar numa heroína de papelão. Ainda bem que, de
quando em quando, encontrei algum pormenor miserável com que consegui humanizá-
la, porque não existem vidas sem a sua quota-parte de porcaria, mesmo que seja
em proporções pequenas.
Quanto à guerra, já sabes que Marie Curie foi sempre uma pessoa socialmente
comprometida. Lembra-te de que trabalhara com a resistência polaca e de que
considerava as suas descobertas científicas uma maneira de ajudar a Humanidade.
Além disso, era uma mulher de ação, uma lutadora persistente, incapaz de ficar
quieta diante de uma situação de necessidade. Com este perfil, é lógico que,
perante um conflito bélico, se sentisse impelida a ajudar de alguma forma. A
primeira coisa em que pensou foi em pôr a salvo a valiosíssima reserva de rádio
da França para que não caísse nas mãos dos alemães. De modo que, a 3 de setembro
de 1914, levou o rádio de comboio, sozinha, de Paris para Bordéus, cidade para
onde o Governo francês se transferira. A mala devia pesar vinte ou trinta
quilos, porque os tubos com brometo de rádio estavam cobertos de chumbo;
pergunto a mim própria como terá conseguido acartá-la. A proteção era, de
qualquer forma, bastante deficiente, de modo que Marie recebeu outra dose
significativa de radiação durante as vinte e quatro horas em que andou com a
mala (dormiu com ela aos pés da cama). Deixou o seu tesouro na Universidade de
Bordéus e regressou a Paris no primeiro comboio. Tinha quarenta e sete anos e
parecia terrivelmente envelhecida devido à constante exposição ao rádio. E não
se tratava só do seu aspeto: estava fraca e cansava-se com facilidade. Apesar
disso, conseguiu fazer aquela viagem terrível entre uma multidão caótica que
fugia da guerra, e sem nada ingerir durante dia e meio. A sua força de vontade
sobre-humana conseguia milagres.

138
Agora interrogo-me como encararia Marie a doença - a decadência física, a rápida
decrepitude do corpo -, ela que fora uma polaca robusta e fortíssima que
aguentava tudo, uma desportista capaz de passar um mês a pedalar pelas montanhas
de França. Quando terá montado uma bicicleta pela última vez? Sei que, já viúva,
continuava a passear de bicicleta com as filhas. Ève fala no seu livro de como
Marie gostava do exercício físico e se orgulhava de ser magra e ágil; já depois
dos cinquenta, aprendeu a patinar, a esquiar, a nadar. Comprou uma casa na costa
da Bretanha e os meses de veraneio que aí passou durante a última década da sua
vida foram, segundo Ève, tempos felizes, com Marie a nadar de manhã e à tarde no
mar, apesar de todos os seus achaques e da sua quase cegueira (melhorou bastante
com a última das quatro operações às cataratas). Creio que Madame Curie fez do
exercício físico não só uma paixão, mas também uma obsessão e uma espécie de
talismã contra a morte. Dois meses antes de falecer foi patinar e acompanhou a
filha a uma estância de esqui, embora duvide que tenha esquiado. Lutou como uma
leoa contra a degradação física, mas o corpo acaba inevitavelmente por nos
atraiçoar; vamos perdendo faculdades e a vida empurra-nos, sem que nos demos
conta, na direção das linhas mortas. A última vez que se sobe a uma montanha. A
última vez que se mergulha. A última vez que se joga futebol com os amigos.
Regra geral, quando o fazemos não sabemos que é a última vez. É o tempo que se
encarrega de nos despedir retrospetivamente das nossas possibilidades. A última
vez que se faz amor. Ufa. Com os seus quarenta e sete anos e naquele comboio
para Bordéus com uma mala radioativa, suponho que Marie Curie já se despedira do
sexo para sempre, uma perda que lhe deve ter sido muito dolorosa.
Que difícil é sempre a relação com o nosso organismo. Somos o nosso corpo, mas
não conseguimos evitar a sensação de alienação, de estranheza, de reféns da
carne. Em alguns casos patológicos, como contam os neurologistas Oliver Sacks ou
Ramachandran nos seus livros fascinantes, as pessoas não são capazes de
reconhecer os seus próprios braços, pernas, rosto, e chegam a mutilar-se. Mas
não é preciso estar doente para sentir este distanciamento com o físico: daí o
ser humano ter inventado a alma.

139
A ideia de que somos espíritos presos num invólucro carnal é tão forte, tão
persuasiva, que tendemos a presumi-lo mesmo sem sermos crentes. Temos milénios
de antagonismo entre o que entendemos por alma e esse suposto invólucro físico,
milénios de autopunições e disciplina, de cilícios e flagelações, de jejuns,
bulimias e anorexias, de intervenções estéticas selvagens, desde os pés
deformados das chinesas às cirurgias brutais de Michael Jackson. E dir-te-ei que
compreendo a atração de algumas dessas intervenções. Por exemplo, o prazer que
provocam as tatuagens: é aditivo. Eu tatuei uma salamandra num braço há doze
anos e tive de me conter para não ir a correr no dia seguinte fazer mais alguma
coisa. É que a sensação é maravilhosa: sente-se um alívio e uma plenitude
irracionais, como se com aquele rabisco de tinta sob a pele tivéssemos
conseguido vencer por uma vez o grande inimigo, tivéssemos conseguido rebaixar o
corpo tirano que nos humilha, que não escolhemos e com o qual temos de arcar
toda a existência, que adoece e que acaba por nos matar, o maldito corpo traidor
que de repente fica coxo, e acabaram-se as montanhas de uma vez; ou que faz
crescer de forma insidiosa, no laboratório silencioso das células, um tumor
maligno que nos vai torturar antes de nos assassinar; ou que escorrega e se
quebra com facilidade, como uma melancia que se parte, quando um carro nos
atropela. Pelo menos, corpo miserável, marquei-te com uma salamandra que é só
filha da minha vontade, e vais ter de aguentá-la até apodreceres.

140
Quando regressou a Paris, Marie começou a ver os primeiros feridos, jovens
soldados barbaramente mutilados, nas salas de operações dos hospitais de
campanha, e a sua cabeça privilegiada, que era tão prática como genial,
compreendeu de imediato o papel decisivo que poderiam ter os raios X se
conseguisse levá-los para a frente, porque permitiriam avaliar as fraturas e
encontrar e extrair as balas, minimizando a violência cirúrgica. Num tempo
recorde, Madame Curie convenceu as autoridades do seu projeto, apropriou-se dos
aparelhos de raios X que havia nas universidades ou nos consultórios dos médicos
mobilizados, conseguiu que lhe cedessem veículos a motor onde instalar os
equipamentos e criou as «unidades móveis», que logo começaram a ser denominadas
popularmente como as «pequenas Curie». Instruiu técnicos e enfermeiras para
manejarem o material de forma rápida, e a própria Curie aprendeu a conduzir para
poder guiar os carros e fazer radiografias junto das trincheiras. Mas quem mais
trabalhou no projeto foi Irene, a filha mais velha, que no início da Guerra
tinha dezassete anos e que passou a contenda efetuando um trabalho extenuante e
maravilhoso com as «pequenas Curie». De facto, foram provavelmente as enormes
doses de radiação que Irene recebeu nessa época que acabariam por matá-la de
leucemia aos cinquenta e nove anos. No total, fizeram-se mais de um milhão de
explorações com raios X: o plano foi um verdadeiro sucesso. Um efeito secundário
do engenhoso esforço de Marie foi a França lhe ter perdoado o adultério. Já não
era judia ou estrangeira e voltava a ser amada e respeitada. Pôs-se tudo para
trás das costas. O vento abrasador da guerra levou consigo muitas coisas.

141
O compromisso humanitário de Marie e de Pierre já se tinha manifestado há muitos
anos, quando ambos decidiram não patentear o seu método de extrair o rádio.
Marie explica-o nos seus escritos biográficos:

Pierre Curie adotou uma atitude extraordinariamente desinteressada e liberal. De


mútuo acordo, renunciámos a qualquer proveito material da nossa descoberta; daí
não termos patenteado nada e termos publicado, sem reservas, todos os resultados
das nossas investigações, bem como o procedimento para preparar o rádio.

Diverte-me a forma como Madame Curie faz um pequeno rodeio para se elogiar a si
própria (se a atitude de Pierre era «extraordinariamente desinteressada e
liberal» e ela estava de acordo, ela também o era; mas é preciso dizer que, além
de não patentearem o seu método, os Curie ofereceram amostras grátis do seu
preciosíssimo e caríssimo rádio a outros cientistas que faziam investigação no
mesmo campo e que eram seus concorrentes óbvios, como Rutherford. Sarah Dry
afirma com admiração que a decisão de não patentear era nessa altura «tão
invulgar como seria agora», mas para Barbara Goldsmith as coisas não são tão
evidentes: em primeiro lugar, afirma que não teria servido de muito patentear o
método de obtenção, porque havia várias formas de extrair o rádio (de facto, a
própria Marie foi mudando os seus procedimentos). E sublinha, além disso, que
então existia entre os cientistas a crença difundida de que não era honrado
lucrar com as descobertas; Röntgen, o pai dos raios X, doou o dinheiro do seu
Nobel a sociedades de beneficência e morreu quase na indigência, por exemplo.
Contudo, é preciso lembrar que Marie, já viúva, tomou outra decisão que a mim me
parece mais generosa: doou ao laboratório o grama de rádio que ela e Pierre
tinham conseguido com trabalho árduo e sem qualquer ajuda, e que valia a soma
exorbitante de um milhão de francos em ouro.
Parece evidente que, se os Curie se importavam com o dinheiro, era sobretudo
para poderem continuar a investigar. Marie era tão austera e inimiga das pompas
do mundo como uma freira missionária.

142
E, no entanto, os Curie tiveram de pactuar com o diabo, como todos.
Estabeleceram com habilidade diversos acordos comerciais com a indústria e
alguns deles tiveram os seus custos. Pierre, por exemplo, modificou os
instrumentos que inventara e fez versões piores, menos precisas, porque se
transportavam melhor e eram mais fáceis de vender. Nada de indignações
farisaicas, por favor: neste mundo complexo e contraditório todos temos algumas
mossas na consciência de que nos sentimos um pouco envergonhados. Nunca
bajulaste um cliente importante ou um chefe? Nunca foste mesquinho com algum
concorrente no trabalho? Nunca engoliste um contrato laboral humilhante que não
deverias ter suportado, não por necessitares desesperadamente do emprego, mas
para ascenderes na carreira? Estou a lembrar-me daquela obra-prima do cinema que
é O Apartamento de Billy Wilder, e de como a personagem protagonizada por Jack
Lemmon empresta o seu andar aos diretores da firma para que levem as suas
amantes. É um pobre tipo, um homem bom e #Fraco, mas é também quem faz o
trabalho sujo. Pierre Curie explicou com lucidez esse dilema entre a pureza e o
oportunismo com a sua lógica magnífica e límpida:
Temos de ganhar a vida e isso faz com que nos transformemos numa engrenagem da
máquina. O mais doloroso são as concessões que nos vemos forçados a fazer aos
preconceitos da sociedade em que vivemos. Temos de fazer mais ou menos cedências
consoante nos sentimos mais fracos ou mais fortes. Se não fizermos as
suficientes, esmagam-nos; se fizermos demasiadas, é ignóbil e desprezamo-nos.
Não creio que se possa expressar melhor. A vida corrompe.
O que fica por contar da biografia de Marie é muito menos excitante, ainda que
ela nunca tenha parado. Foi aos Estados Unidos e a muitos outros países, entre
os quais Espanha; deu conferências, participou nos sucessivos Congressos Solvay,
reuniu uma grande quantidade de dinheiro para comprar mais rádio e dirigiu o
brilhante Instituto Curie. No instituto, ombro a ombro com Marie, trabalhava
Irene, a brilhante Irene, a obediente Irene, a sucessora de Pierre, aquela que
nunca se pintava ou arranjava e que parecia um granadeiro, segundo Einstein.

143
De repente, Irene, então com vinte e oito anos, anunciou que ia casar. A mãe
quase teve um ataque. O eleito era um estudante três anos mais novo, Frédéric
Joliot, bonito e conquistador. Marie desconfiava de que Frédéric tentava apenas
aproveitar-se, o que deixa entrever que não tinha grande opinião acerca dos
encantos da filha (aqui está uma daquelas pequenas mesquinhices que humanizam
Madame Curie). Tentou convencer Irene a não se casar e chegou a consultar um
advogado para arranjar as coisas de modo a que a filha fosse a única a poder
herdar o controlo do rádio. Felizmente, Joliot saiu-se bem. Tirou a
licenciatura, depois o doutoramento e demonstrou ser um cientista excelente, o
que acabou por conquistar Marie. A propósito, Irene e Frédéric tiveram uma
filha, Hélène, que se casou com um neto de Langevin: que #Coincidência...
Naturalmente, Marie não viveu para assistir ao casamento da neta, nem para ver o
Nobel da Química conquistado por Irene e Frédéric em 1935, pela descoberta da
radioatividade artificial, embora deva ter imaginado que o ganhariam porque, uns
meses antes de morrer, a filha e o genro repetiram diante dela a experiência que
os levou àquela descoberta e Marie sabia muito bem o que significava: «Nunca
conseguirei esquecer a sua expressão de intensa alegria», escreveu Joliot anos
mais tarde. Nessa altura Madame Curie estava fisicamente devastada. Uma
fotografia de 1931, aos sessenta e quatro anos de idade, mostra-a como uma
velhinha acabada. Um corpo traidor; mas, também, um pobre corpo maltratado e
submetido a uma radioatividade brutal durante tantos anos. No fim de contas,
quem acaba por ser refém de quem?

144
Em maio de 1934, a saúde precária de Marie entra em queda livre. Os médicos
hesitam: será gripe, bronquite? Mandam-na para um hospital de tuberculosos
porque pensam que um pulmão fora atingido. Morreu a 4 de julho e este foi o
diagnóstico final: «Anemia aplásica perniciosa com rápido desenvolvimento
febril. A medula óssea não reagiu, porventura danificada por uma longa
acumulação de radiações.» Finalmente, o esplendoroso rádio é acusado, num
documento oficial, de ser o assassino de Madame Curie. E, com esta simplicidade,
tudo acabou. Exceto nas óperas e nos melodramas, a morte é um anticlímax.

145
Escondido no centro do silêncio

Tenho o hábito de dar a ler o manuscrito dos meus livros a alguns amigos para
que o critiquem, e assim poder levar em conta as suas opiniões antes da última
revisão do texto. É um exercício bastante recomendável: uma pessoa está tão
submersa na obra que escreve que precisa de olhares exteriores para poder ganhar
uma certa perspetiva. Um desses amigos, o escritor Alejandro Gándara, disse-me:
«No livro estão Marie e Pierre, e, por outro lado, estás tu. Mas Pablo não está.
Há um desequilíbrio».
Bom, sim, creio que entendo a que se refere e suponho que tem razão. Mas é
sempre tão difícil escrever diretamente sobre aquilo que é mais íntimo. Para
mim, pelo menos, é. Não gosto da narrativa autobiográfica, ou melhor, não gosto
de a praticar. Lê-la é outra coisa: há grandes autores que, partindo da sua
própria vida, são capazes de criar obras-primas, como Proust e o seu Em Busca do
Tempo Perdido, ou Conrad e O Coração das Trevas. Mas eu sempre precisei de usar
a intermediação do conto para poder expressar as minhas alegrias e as minhas
mágoas. As personagens de ficção são as marionetas do meu inconsciente.
A conexão entre a realidade biográfica e a ficção é um território ambíguo e
pantanoso onde se afundaram não poucos autores. Para mencionar um deles: Truman
Capote, que, pretendendo transformar-se no Marcel Proust americano, publicou
numa revista os três primeiros capítulos da sua pretensa obra magna, Súplicas
Atendidas, e assim conseguiu que todas as suas amigas da alta sociedade, que se
viram retratadas e traídas (a ponto de uma delas, Anne Woodward, se ter
suicidado), cortassem relações consigo.

146
O facto é que Capote se transformou num empestado: nunca terminou Súplicas
Atendidas e entregou-se de forma desmesurada ao álcool e às drogas, um estilo de
vida que o levou à morte num abrir e fechar de olhos. Ou seja, não gerir bem o
equilíbrio entre o fictício e o real pode ter consequências devastadoras.
Não é fácil saber onde parar, até onde é lícito contar ou não, como gerir a
substância sempre radioativa do real. Creio que é evidente que não há boa ficção
que não aspire à universalidade, a tentar entender o que é o ser humano. Ou
seja: o escritor que escreve para contar a sua vida, para se deleitar com ela,
atribuir-se medalhas ou vingar-se, fará, sem sombra de dúvida, um texto
abominável. A questão, no fim de contas, é a distância; conseguir analisar a
própria vida como se fosse a de outro. E, mesmo assim, como é complicado!
Confesso-te que cortei dois parágrafos que incluí na primeiríssima versão deste
livro; dois fragmentos que contavam alguma coisa de Pablo. Isto é, censurei-me.
É um conflito irresolúvel; por um lado, ambas as cenas falavam dos outros, da
dor de todos. De alguma forma, o narrador é como um médium: as suas palavras são
a expressão de muitos. E, ao escrever, sentimos esse compromisso, essa pulsão de
falar pelos outros ou com os outros: as duas cenas que cortei não eram só
minhas. Mas, por outro lado, eram sobretudo minhas e de Pablo, e não consegui
quebrar esse fruto de perfeita e calada intimidade entre mim e ele. Sabes que
anseio ser livre, totalmente livre ao escrever; quero voar, quero atingir a
leveza perfeita. Mas há ligações pessoais profundas das quais não desejo ou não
sei desprender-me. Sou um balão aerostático que baloiça a poucos palmos do chão
com o cesto ainda preso à terra por uma corda.
Diz o meu amigo que Pablo não está neste livro, e a mim parece--me impossível
que esteja mais. Como falar dele com naturalidade, com liberdade? O que se pode
contar para o fazer reviver? Pablo era um menino. Pablo era um homem. Possuía
uma inteligência enorme e originalíssima: mesmo depois de duas décadas de
convivência continuava a surpreender-me. Era teimoso, resmungão, sedutor,
honesto; escrevia muito bem e era um ótimo jornalista, além de elegante,
atlético e meticuloso; e gostava tanto do silêncio como das discussões.

147
Teria muito mais palavras a dizer sobre ele, mas não nos levariam a lado nenhum:
não é essa a melhor forma de o definir. Recordo-o atento, lendo todos os dias
até à última notícia dos jornais; e discordando, num jantar de amigos, pelo puro
prazer de discutir. Recordo-o levando para a rua, sobre um cartão, caracóis
apanhados no nosso pequeníssimo jardim, porque não tinha coragem de os matar
(costumava armar-se em duro, mas era bom a este ponto). Recordo-o feliz, a
passear pelos montes. Enfim, releio este último parágrafo e creio que o mais
acertado que escrevi foi «recordo-o». Essa sim é a mais pura das verdades.
Dentro da minha cabeça está todo ele.
Mas a literatura, ou a arte em geral, não consegue atingir essa zona interior. A
literatura dedica-se a dar voltas em redor do buraco: com sorte e com talento,
talvez consiga dar uma olhadela relampejante ao seu interior. Esse raio ilumina
as trevas, mas de uma forma tão breve que só há uma intuição, não uma visão. E,
além disso, quanto mais nos aproximamos do essencial, menos conseguimos nomeá-
lo. O tutano dos livros está nas esquinas das palavras. O mais importante dos
bons romances amontoa-se nas elipses, no ar que circula entre as personagens,
nas frases pequenas. Por isso julgo que não posso dizer mais nada sobre Pablo: o
seu lugar fica no centro do silêncio.

148
O canto de uma menina

Nesse caso, a vida acaba sempre mal? Segundo uma tradição cigana, quando se
comparece a uma celebração, a um casamento, a um batizado, não se deve desejar
felicidades, como é habitual, mas «maus princípios». Porque, com uma sabedoria
milenar forjada por condições de vida difíceis, os ciganos sabem que a desgraça
é inevitável na existência; e então preferem desejar que a quota de dor chegue
primeiro, para que assim o fim seja venturoso.
Mas a vida não tem outro fim possível além da morte; e antes, se tivermos muita
sorte, a velhice. Os filmes de Hollywood não costumam acabar assim. As pessoas
deprimem-se. O meu romance História do Rei Transparente acaba com a morte da
personagem principal. Para mim é uma morte magnífica, uma morte feliz. Viveu uma
grande vida e escolhe a maneira de partir. Considero que é um romance bastante
otimista e escrevê-lo suavizou o medo que tinha do meu próprio fim. E há
leitores que também o vêem assim, mas outros dizem que não me perdoam por ter
matado a protagonista. Por favor! Todos os protagonistas morrem, só que fora das
páginas dos livros!
Creio que a nossa perceção linear do tempo piora tudo. Einstein explicou-nos há
muito que o tempo e o espaço são curvos, mas nós continuamos a viver os minutos
como uma sequência (e uma consequência) inexorável. No seu estranho e comovente
livro A Fortunate Man, publicado em 1966, John Berger acompanha John Sassall, um
médico rural amigo, nas suas visitas aos pacientes, e traça um retrato reflexivo
do médico, concluindo que, com efeito, a vida dele pode considerar-se plena:
«Sassall é um homem que está a fazer o que quer.

149
Ou, para sermos mais precisos, um homem que sabe o que procura. Às vezes a busca
entranha tensão e contrariedades, mas constitui a sua única fonte de satisfação.
Tal como os artistas ou qualquer um que creia que o trabalho é a justificação da
sua vida, para os padrões miseráveis da nossa sociedade, Sassall é um homem de
sorte.» É difícil não pensar que Berger está a falar de si próprio, ou também de
si próprio, quando o escreveu; por isso, deve ter sido ainda mais desolador para
ele o que aconteceu mais tarde: quinze anos depois da publicação do livro, John
Sassall suicida-se. Conta-o o próprio Berger num curto post scriptum
acrescentado em 1999: «John, o homem de quem tanto gostei, suicidou-se. E, com
efeito, a sua morte mudou a história da sua vida. Tornou-a mais misteriosa, mas
não mais obscura. Não é menos luminosa agora: o seu mistério é simplesmente mais
violento.» Estou de acordo: por que razão o suicídio iria manchar todo o seu
passado? Mas tendemos a ver as coisas assim: se alguém se suicida, é como se
toda a sua vida tivesse sido uma tragédia. Se alguém tem uma velhice solitária,
instável e infeliz, é como se as trevas impregnassem toda a sua existência. Mas
não é assim. O que viveu, viveu. Antes de o inverno chegar, a cigarra gozou de
uma vida fantástica, enquanto a existência da formiga foi sempre bastante
monótona. Além disso, o período de vida dos insetos é, de qualquer forma, muito
breve; quer isto dizer, hurra à cigarra! Pelo menos ficou com memórias alegres,
com uma narração bonita que contar.
A #Felicidade, esse bem esquivo e indefinível. Outra das coisas que me inquieta
na leitura das biografias é o péssimo hábito que têm os biógrafos de alegar
coisas como «esse foi o ano mais feliz da sua vida» ou «provavelmente nunca foi
tão feliz como nessa altura». Abominação e miséria: nesse caso, podemos estar a
viver o melhor momento das nossas vidas sem nos darmos conta? Estaremos a
desaproveitar a #Felicidade? Já conheces a famosa frase de John Lennon: «A vida
é o que nos acontece enquanto estamos ocupados com outra coisa.» E é verdade que
perdemos o tempo preocupando-nos com ninharias, que nos incomodamos e teimamos
estupidamente, que tendemos a pensar que a verdadeira vida está ainda por
chegar.

150
Saber ser #Feliz é uma sabedoria complicada. Há gente que nunca chega a possuí-
la. Soube ser feliz Marie Curie? É provável que sim. Ou, pelo menos, esteve
muito perto de o ser. Nos seus escritos biográficos fala da época em que Pierre
e ela trabalhavam febrilmente no barracão que lhes servia de laboratório nestes
termos:
Naquele hangar miserável passámos os anos mais felizes da nossa vida, totalmente
consagrados ao trabalho. Muitas vezes tinha de improvisar uma refeição naquele
laboratório para não interromper alguma operação [...]. Mergulhada na quietude
do ambiente de investigação, sentia uma felicidade infinita e exaltava-me com os
progressos que permitiam abrigar a esperança de obter ainda melhores resultados
[...]. Recordo a felicidade dos momentos dedicados a discutir trabalho enquanto
percorríamos o hangar de um lado ao outro. Um dos nossos grandes prazeres era ir
ao laboratório à noite; em toda a parte brilhavam as ténues silhuetas iluminadas
dos tubos e das cápsulas que continham os nossos produtos. Era uma visão muito
bonita, que nunca deixava de nos assombrar. Os tubos brilhantes pareciam pálidas
luzes feéricas.
Devia sentir-se num mundo encantado, de facto; aquela rapariga pobre e órfã,
pertencente a um povo subjugado, uma simples mulher num mundo de homens, uma
rapariga humilhada pelos ricos (Casimir) que esteve muito perto de nem sequer
poder estudar, era agora uma cientista que estava a descobrir o ardente fogo da
vida na companhia de um homem adorável que a amava e respeitava. Magia pura.
Quando uma coisa nos custou muito, aprendemos a apreciá-la.
Conta no seu diário, referindo-se aos dias de férias passados em Saint-Rémy:
De manhã sentaste-te no prado que há no caminho da povoação [...] . Irene corria
atrás das borboletas com uma rede pequena e frágil e tu achavas que não
apanharia nenhuma. No entanto, para sua enorme alegria, agarrou uma e eu
convenci-a a deixá-la em liberdade.

151
Sentei-me ao pé de ti e deitei-me atravessada sobre o teu corpo. Estávamos bem:
eu sentia um certo remorso do teu cansaço, mas via-se que estavas feliz. E eu
própria tinha essa sensação, que experimentava com frequência nos últimos
tempos, de que já nada nos perturbava. Sentia-me calma e repleta de uma ternura
doce para com o excelente companheiro que estava ali comigo, sentia que a minha
vida lhe pertencia; que o meu coração transbordava de carinho por ti, meu
Pierre, e fazia-me feliz sentir que ali, ao teu lado, sob aquele belo sol e
diante da vista divina do vale, não me faltava nada. Isso dava-me forças e fé no
futuro - não sabia que não haveria qualquer futuro para mim.
Que frase imensa, redonda, invejável: «sentir [...] que não me faltava nada».
Marie teria atingido realmente essa sabedoria, ou seria um adorno da memória? A
insatisfação dos humanos, esse querer sempre mais alguma coisa, alguma coisa
melhor, diferente, é a origem de inúmeras desditas. Além disso, a #Felicidade é
minimalista. É simples e despida. É um quase nada que é tudo. Como esse dia
campestre dos Curie, sob o sol, diante do vale.
Esta manhã levei as cadelas a passear e encontrei uma figueira. Ou melhor, esta
manhã dei-me conta de que a árvore pela qual passo todos os dias é uma figueira;
e se me apercebi disso foi porque estava carregada de frutos que começavam a
cair (o verão agoniza), e não pela minha perspicácia botânica (desculpa, Pablo).
O meu marido adorava figueiras. Há anos, no início da nossa relação, fomos a uma
casinha que os pais dele tinham numa aldeia de montanha na província de Ávila.
Pablo passara aí os lentos, magníficos verões de criança, e foi-me mostrando a
paisagem da sua infância: o caminho para o rio, o bosque, o lago onde se
banhava. No início da vereda, à saída da povoação, havia uma figueira. Mostrou-
ma daquela primeira vez e contou-me a sua história: no fim de agosto, enquanto
os frutos acabavam de amadurecer, uma menina sentava--se debaixo dos ramos e
passava horas a cantar para afugentar os pássaros e evitar que bicassem os
frutos.

152
Esta cena deixava Pablo maravilhado: contou-ma nesse dia e em muitos outros,
cada vez que íamos à aldeia, com aquela contumácia com que os casais veteranos
repetem as pequenas coisas que os obcecam. Consigo compreender muito bem por que
motivo o fascinava; imagino Pablo aos dez anos, tão bonito como naquela
fotografia da barragem com os primos, de calções curtos, joelhos esfolados, a
caminho da lagoa. Vejo-o no final poeirento de um verão tórrido, já perto do
regresso a Madrid, da tristeza do inverno e da escola. Mas as férias ainda não
tinham acabado, ainda é livre e um pouco selvagem, ainda lhe restam vários dias
para passar junto da figueira e junto da menina que canta por baixo da figueira
e, nessa idade, cada dia é uma eternidade. Como devia surpreender um rapaz da
cidade, essa menina que cantava. Essa promessa de figos maduros e melosos. Esse
vislumbre de vida.
Quando Pablo me contou a cena pela primeira vez, tínhamos ambos trinta e sete
anos. Já ninguém apanhava os frutos da árvore e os pássaros empanturravam-se.
Mas os pinhais continuavam ali, e continuavam o monte, a vereda calcinada e o
calor do verão. Trasto e Bicho, os nossos cães na época, que já morreram há
muito, olhavam-nos, expectantes: queriam entrar no bosque próximo e úmbrio.
Recordo o peso do ar sufocante, o zumbido dos moscardos, recordo como era
dourada a luz do sol, que estava muito baixo, e o cheiro verde-escuro da
figueira. Recordo a #Felicidade simples, embriagadora, e o futuro estendendo-se
à nossa frente, num horizonte inesgotável. Estávamos no início da nossa relação,
e no momento agudo da paixão somos imortais.
Tudo isto me veio à cabeça há algumas horas, quando vi a figueira a rebentar de
frutos, na cansada plenitude deste verão que se acaba. Breve é o nosso dia e
imensa a noite. Às vezes pergunto-me em que pensaremos antes de morrer, que
lembranças escolheremos como resumo para nos narrarmos, e tenho quase a certeza
de que aquela menina cantando foi uma cena luminosa e crucial no imaginário de
Pablo, na sua representação da existência. Herdei dele essa lembrança
fundacional e agradeço-lhe.
E em que terá pensado Madame Curie? Qual teria sido o seu balanço final?

153
Sánchez Ron conclui o seu livro dizendo maravilhas da cientista e sublinhando os
graves problemas que teve de enfrentar: «À luz de semelhante biografia e imagem
pública, não deveria surpreender ninguém ser também possível identificar em
Marie Curie traços de grande dureza, ou que a sua figura transmitisse, com uma
constância prática insuportável, uma profunda tristeza e seriedade.» Tem razão,
embora eu julgue que a grande dureza era dirigida sobretudo contra si própria.
Mas o mais inquietante, de facto, são as suas fotografias. Sempre tão séria,
sempre tão triste. Ou talvez não. A sua expressão permanentemente austera não
seria uma máscara defensiva já petrificada depois de tantos anos? Aquele cenho
agressivo, próprio de uma mulher que, de facto, teve de derrubar muitos muros à
cabeçada, não teria acabado por se transformar num hábito facial, numa careta?
Não falando já da fadiga constante do seu corpo debilitado pela radiação. Deve
ser difícil sorrir quando nos sentimos sempre tão cansados.
Mas não te esqueças das felicitações natalícias que escreveu à filha Irene e a
Frédéric em dezembro de 1928. Já citei uma parte; agora transcrevo mais algumas
linhas:
Desejo-vos um ano de saúde, de satisfações, de bom trabalho, um ano durante o
qual sintam diariamente gosto em viver, sem esperar que os dias passem para
descobrirem neles a satisfação e sem terem necessidade de pôr esperanças de
felicidade nos dias que virão. Quanto mais se envelhece, mais se sente que saber
gozar o presente é um dom precioso, comparável a um estado de graça.
Parece-te a carta de alguém amargurado? Muito peio contrário: creio que,
finalmente, depois de uma vida batalhadora e dificílima, de uma ambição ardente
e de uma responsabilidade esmagadora, Manya Sklodowska soube encontrar a
#Leveza.
Quem, como ela, poderia perder peso e voar; flutuar leve no tempo, que é uma
maneira de roçar a eternidade; ou viver na suprema graça do aqui e do agora?
Sempre me fascinou o relato magistral de Nathaniel Hawthorne «Wakefield», no
qual um educado cavalheiro do século XIX saí de sua casa para um breve recado e
já não volta ou, pelo menos, não volta durante muitos anos.

154
E aqui vem o mais arrepiante e genial: aluga um andar muito perto de casa, na
mesma rua, e durante o seu longo desaparecimento dedica-se a observar a dor da
mulher, a perplexidade daqueles que o conhecem, o vazio que a sua ausência
deixou. E agora diz-me: nunca sentiste a tentação insidiosa de deixar de ser
quem és? De te libertares de ti próprio? Mas não é necessário ser tão drástico
nem tão louco como Wakefield: bastaria ir largando lastro, despindo as camadas
supérfluas. Abaixo a ditadura de #FazerOQueSeDeve. Adeus à #Ambição escravizante
e à insegurança torturante (estas duas fazem par). Acabou-se a #Culpabilidade e
o cego mandato de #HonrarOsPais.
De facto, no fim de contas, é tudo uma questão de narração. De como nos narramos
a nós próprios. Aprender a viver passa pela #Palavra. Lembra-te dos resultados
espantosos daquele estudo segundo o qual os separados e divorciados são mais
depressivos do que os viúvos. O que falta aos primeiros? Não é, evidentemente, a
pessoa amada, mas uma narração convincente e rotunda, um relato consolador que
lhes dê sentido. Todos os humanos são romancistas e, por conseguinte, eu sou
redundante porque também me dedico à escrita. Faço romances cujas peripécias não
têm nada a ver comigo, mas que representam com fidelidade os meus fantasmas; e
agora que, com este livro, tentei dizer sempre a verdade, talvez tenha, na
realidade, acabado por fazer muito mais ficção. Porque, como afirma Iona Heath,
«encontrar sentido no relato de uma vida é um ato de criação».
Sempre pensei, e já o escrevi, que a velhice é uma idade heróica. Não sou a
única a vê-la assim; segundo um conhecido ditado norte-americano, «envelhecer
não é para cobardes» (growing old is not for sissies: o original é bastante
homofóbico, porque sissy acaba por ser mariquinhas). No entanto, começo agora a
intuir que talvez com a idade possamos aprender a escrever-nos melhor: no fim de
contas, o romance é um género de maturidade. E creio que, se tivermos o dinheiro
necessário para cobrir as nossas necessidades básicas, e saúde suficiente para
sermos autónomos, ser velho pode libertar-nos de nós próprios, como a Wakefield.
Segundo vários estudos efetuados nos últimos anos tendo por base amostragens
imensas de centenas de milhares de pessoas pertencentes a oitenta países, a
#Felicidade desenha uma curva estável e firme em forma de U ao longo da vida.

155
Ou seja, homens e mulheres de todas as sociedades declaram sentir-se mais
felizes na juventude e na velhice, enquanto o momento mais difícil da existência
se situa entre os quarenta e os cinquenta anos.
Estou a falar de atingir a mestria na narração, de conquistar realmente a
#Leveza. Quem sabe, talvez todos os biógrafos que não prestaram nenhuma atenção
aos últimos anos das suas personagens não tenham sabido ver o que analisavam. Na
#Leveza, a vida flutua irisada e subtil, transparente e quase impercetível, como
uma bola de sabão ao sol. Talvez os humanos estejam habituados a reparar apenas
nos grandes feitos, nos atos pesados, na solenidade e no esforço. Em coisas tão
óbvias e ruidosas como a descoberta da radioatividade e da penicilina, ou a
chegada à Lua, ou o auge e a queda dos impérios. Que, como é óbvio, são
acontecimentos memoráveis e é lógico que nos chamem a atenção. Não são é tudo o
que existe. Mas suponho que é preciso viver muito, e conseguir aprender com o
que se viveu, para poder compreender que não há nada tão importante nem tão
esplêndido como o canto de uma menina debaixo de uma figueira.

156
Agradecimentos: umas palavras finais

Todos os dados constantes neste livro sobre Marie e Pierre Curie estão
documentados; não há uma única invenção factual. No entanto, permiti-me voar nas
interpretações, porque utilizei a grande Madame Curie como um paradigma, um
arquétipo de referência para poder refletir sobre os assuntos que ultimamente me
rondam a cabeça com insistência. Um exemplo de voo: era o pai de Marie tão chato
como insinuo? Eu julgo que sim, mas o leitor tem os mesmos dados que eu e pode
decidir se está ou não de acordo com o que digo. De qualquer forma, representa
todos os pais chatos que, sem dúvida, existem.
Estes são os textos em que me baseei para contar a vida de Marie: o primeiro,
comovente e francamente bom, foi escrito pela sua filha mais nova, Ève Curie:
Madame Curie, Doubleday, Doran and Company, Inc., Nova Iorque, 1937 (é um livro
antigo e em inglês; infelizmente, está esgotado). Marie Curie, génio obsessivo,
uma biografia magnífica de Barbara Goldsmith, Antoni Bosch editor, Barcelona,
2005. Curie, de Sarah Dry, também bastante respeitável e com uma vertente mais
científica, Tutor, Madrid, 2006. Marie Curie y su tiempo, de José Manuel Sánchez
Ron, Drakontos bolsillo, Barcelona, 2009, que é mais um excelente livro de
ciência do que uma biografia. Sklodowska Curie, una polaca en Paris, o mais
recente e leve, de Belén Yuste e Sonnia L. Rivas-Caballero, Edicel, Madrid,
2011. Escritos autobiográficos, de Marie Curie, um volume interessantíssimo e
fascinante que reúne os inúmeros escritos não científicos de Madame Curie,
Ediciones UAB, Barcelona, 2011. Também há muito material sobre os Curie na
Internet. Foi-me particularmente útil a biografia de Marie feita pelo The
American Institute of Physics em http://www.aip.org/history/curie/.

157
Quero agradecer ao meu amigo e magnífico escritor Alejandro Gándara, que me
recomendou os três formidáveis livros que cito no meu texto: A Fortunate Man, de
John Berger, Alfaguara, Madrid, 2008; Matters of Life and Death, da doutora lona
Heath, Katz difusión, Madrid, 2008, e The Undertaking, de Thomas Lynch,
Alfaguara, Madrid, 2004. Quero agradecer também a Nuria Labari, que me sugeriu
alguns pormenores bastante acertados. E, por fim, o meu agradecimento para os
magníficos físicos Juan Manuel R. Parrondo e Raul Sánchez, que tiveram a
gentileza de ler o rascunho para ver se dizia alguma barbaridade científica.

158
Índice de hashtags

#Ambição, 37, 41, 42, 99, 110, 155


#Coincidências, 13, 60, 61, 72, 106, 109, 122, 134,144
#Culpa, #Culpabilidade, #CulpaDaMulher, 63, 74, 86, 87, 101, 155
#Excêntricos, 65, 72
#FazerOQueSeDeve, 23, 24, 67, 71, 75, 87, 114, 155
#Felicidade, 150, 151, 152, 153, 155
#FraquezaDosHomens, 120, 121, 122, 123,124, 130, 134, 143
#HonrarAMãe, #HonrarOPai, #HonrarOsPais, 31, 32,43, 53, 58, 71,83,87,111,155
#Intimidade, 54, 55, 56
#Leveza, 16, 87, 88, 106, 154, 156
#Lugar, #LugarDaMulher, #LugarDoHomem, 16, 32, 34, 43, 44, 45,46,100,114,124
#Mutante, 18, 32, 41
#Palavras, 16, 19, 20, 25, 26, 65, 91, 109, 155

159
<Página em branco>
Apêndice: Diário de Marie Curie

30 de abril de 1906

Querido Pierre, a quem não voltarei a ver aqui, quero falar-te no silêncio deste
laboratório, onde não imaginava ter de viver sem ti. E quero começar lembrando-
me dos últimos dias que vivemos juntos.
Fui para Saint-Rémy (Nota 2) na sexta-feira anterior à Páscoa, a 13 de abril;
pensava que faria bem a Irene (Nota 3) e que, sem ama, seria mais fácil cuidar
de Ève (Nota 4) aí. Até onde me lembro, passaste toda a manhã em casa e fiz-te
prometer que irias ter connosco sábado à tarde. Enquanto nós saíamos em direção
à estação, tu ias para o laboratório, e censurei-te por não me dizeres adeus. Na
manhã seguinte, esperava-te em Saint-Rémy, embora sem ter muita certeza de que
te veria. Mandei Irene ao teu encontro de bicicleta. Chegaram os dois juntos,
ela a chorar, porque caíra e ferira o joelho. Pobre criança, agora o teu joelho
está quase curado mas o teu pai, que foi quem to curou, já não está connosco. Eu
estava contente por o meu Pierre estar ali. Na sala, aquecia as mãos diante da
lareira que eu acendera para ele e ria-se, ao ver que Ève aproximava, como ele,
as mãos da lareira e as esfregava a seguir. Tínhamos feito o leite-creme de que
gostavas. Dormimos no nosso quarto com Ève. Disseste-me que preferias aquela
cama à de Paris. Dormimos aconchegados um no outro, como de costume, e dei-te um
pequeno xaile de Ève para que cobrisses a cabeça.

Nota 2 - Pierre e Marie Curie passavam as férias em Saint-Rémy-les-Chevreuse.


Nota 3 - A filha mais velha do casal, que teria então oito anos e meio.
Nota 4 - A filha mais nova, nascida a 6 de dezembro de 1904.

161
Ève estava atrás, na sua alcofa. Quando acordou, à meia-noite, embalei-a e não
quis que te levantasses, como pretendias. De manhã, bom tempo; foste ver o campo
assim que acordaste. Depois fomos todos juntos buscar leite à quinta lá em
baixo. Tu rias-te ao ver Ève meter-se em todos os sulcos do caminho e subir às
partes mais pedregosas do trajeto. Oh, como me custa recordá-lo, escapam-se-me
os pormenores! Surpreendeu-nos muito ver o tojo florido. Mais tarde, elevaste o
selim da bicicleta de Irene e depois do almoço fomos os três de bicicleta ao
vale de Port-Royal. Estava um tempo agradável. Parámos diante da lagoa que fica
na ribanceira onde a estrada atravessa para o outro lado do vale. Mostraste a
Irene algumas plantas e animais e lamentámos não as conhecer melhor. Depois
passámos Milon-la-Chapelle e parámos no prado que existe a seguir. Estivemos à
procura de flores e a observar algumas delas com Irene. Apanhámos também
braçadas de maónia em flor e fizemos um grande ramo com ranúnculos-aquáticos, de
que tanto gostavas. Levaste o ramo para Paris na manhã seguinte. Ainda
continuava vivo quando tu já tinhas morrido. À volta parámos nuns troncos e
ensinaste Irene a andar por cima deles, pondo os pés para fora. Já em casa, não
sabias se devias ir; estavas cansado, retive-te; hesitavas em ir almoçar à Rue
des martyrs no dia seguinte, mas preferiste ficar connosco. A noite foi um pouco
agitada porque Ève chorou um bocadinho, mas tu mantinhas a calma. No dia
seguinte continuavas cansado; o tempo estava divinal. De manhã sentaste-te no
prado que há no caminho da povoação, aquele que desce à direita mesmo depois de
passar a pequena ribanceira do percurso por detrás da casa dos Borgeaud. Irene
corria atrás das borboletas com uma rede pequena e frágil e tu achavas que não
apanharia nenhuma. No entanto, para sua enorme alegria, agarrou uma e eu
convenci-a a deixá-la em liberdade. Sentei-me ao pé de ti e deitei-me
atravessada sobre o teu corpo. Estávamos bem: eu sentia um certo remorso do teu
cansaço, mas via-se que estavas feliz. E eu própria tinha essa sensação, que
experimentava com frequência nos últimos tempos, de que já nada nos perturbava.

162
Sentia-me calma e repleta de uma ternura doce para com o excelente companheiro
que estava ali comigo, sentia que a minha vida lhe pertencia; que o meu coração
transbordava de carinho por ti, meu Pierre, e fazia-me feliz sentir que ali, ao
teu lado, sob aquele belo sol e diante da vista divina do vale, não me faltava
nada. Isso dava-me forças e fé no futuro - não sabia que não haveria qualquer
futuro para mim.
Irene sentia calor. A meio do prado, tirei-lhe a camisola de andar de bicicleta,
e foi para casa a correr com as suas calças de malha azul, com os braços e o
pescoço nus, à procura do seu casaco de tecido. Contemplámo-la maravilhados e a
sua graciosidade e beleza tornavam-nos felizes.
Pus uma manta quente lá fora para que descansasses. Tínhamos de ir à quinta de
cima e quiseste vir connosco; tive algum receio de que te cansasses mas, de
qualquer forma, estava contente porque sentia pena de te deixar. Subimos
tranquilamente. Tu estavas expectante de que Irene andasse com os pés para fora.
Uma vez lá em cima, mandámos Irene e Emma à quinta e tu e eu virámos à direita
com Ève para procurar os charcos com nenúfares de que nos lembrávamos. Os
charcos estavam meio secos e não havia nenúfares, mas o tojo florira e
observávamo-lo, admirados. Carregávamos Ève, primeiro um e depois o outro, mas
sobretudo eu. Sentámo-nos junto de uma meda, e eu tirei a combinação para que
não te sentasses no chão sem nada; chamaste-me louca e ralhaste-me, mas eu não
fiz caso - temia que adoecesses. Ève divertia-nos com as suas gracinhas. Por
fim, Emma e Irene vieram ao nosso encontro. O casaco de Irene via-se ao longe;
fazia-se tarde. Descemos pelo caminho que atravessava o bosque, onde encontrámos
algumas pervincas e violetas encantadoras.
Já em casa, quiseste ir embora. Tive muita pena, mas não podia opor-me; era
necessário. Fiz-te rapidamente o jantar e partiste.
Fiquei ainda mais um dia em Saint-Rémy e só regressei na quarta-feira, no
comboio das duas e vinte, com mau tempo, frio e chuvoso, o tempo que acabaria
por te custar a vida. Queria proporcionar às crianças mais um dia no campo. Por
que razão fui tão pouco sensata? Foi menos um dia que vivi contigo. Fui buscar-
te ao laboratório na quarta-feira à tarde. Entrei pela porta pequena e vi-te
pela janela com a tua bata e o teu gorro, na sala grande do pavilhão, atrás do
barómetro.

163
Entrei e disseste-me que tinhas pensado se, com o mau tempo que fazia, não
lamentaria ter vindo de Saint-Rémy. Respondi-te que sim, que era verdade, e que,
se ficara um pouco mais, fora por causa das crianças. Foste buscar o teu
sobretudo e o teu chapéu à sala onde trabalho e esperei por ti junto do
barómetro. Voltaste e dirigimo-nos para casa de Foyot. Pelo caminho falámos
destes jantares obrigatórios; fartavam-nos um pouco os inconvenientes
previsíveis e eu interrogava-me se não teria sido melhor não comparecermos. Foi
a última vez que jantei contigo. Entrámos e pus-me à conversa com a senhora
Rubens; voltei a juntar-me a ti já à mesa. Estávamos numa das esquinas, com
Henri Poincaré entre nós. Falei-lhe na necessidade de substituir a educação
literária por uma mais próxima da natureza, e do artigo de que tínhamos gostado,
meu Pierre (não foi em Saint-Rémy que o lemos?). Depois, um pouco incomodada por
ter falado tanto, quis ceder-te a palavra, obedecendo a essa sensação, que
sempre tive, de que o que tu podias dizer seria mais interessante do que aquilo
que eu própria falasse (em todas as circunstâncias da nossa vida, tive sempre
esta confiança inabalável em ti, no teu valor). A conversa levou-nos então até
Eusapia (Nota 5) e às coisas surpreendentes que fazia. Poincaré levantava
objeções com o seu sorriso de cético, apesar de curioso das novidades; tu
alegavas a realidade dos fenómenos. Eu observava-te enquanto falavas e, mais uma
vez, surpreendia-me a tua bela cabeça, o encanto da tua palavra simples,
iluminada pelo teu sorriso. Foi a última vez que te ouvi expores as tuas ideias.
Depois do jantar, só nos juntámos de novo no momento das despedidas. Fomos até à
estação (com Clangevin e Brillouin?). Voltámos para casa e lembro-me de que,
diante dela, falámos de novo do tema da educação, que tanto nos interessava.
Disse-te que as pessoas com quem tínhamos falado não entendiam a nossa opinião,
não viam no ensino das ciências naturais mais do que uma exposição de factos
quotidianos, não compreendiam que, para nós, se tratava de transmitir às
crianças um grande amor pela natureza, pela vida, e, ao mesmo tempo, a
curiosidade por conhecê-la.

Nota 5 - Eusapia Palladino era uma médium bastante conhecida à época. Cientistas
como Pierre e Marie Curie, intrigados, tinham assistido a algumas das suas
sessões.

164
Partilhavas da mesma opinião e sentíamos que, entre nós, existia uma compreensão
rara e admirável; se mo repetiste nesse momento, já não me lembro, mas quantas
vezes não me disseras, meu Pierre, «Realmente, vemos tudo da mesma maneira», ou
uma frase análoga cujas palavras agora me escapam. E eu respondia-te: «Sim,
Pierre, fomos feitos para uma existência em comum», ou alguma coisa do estilo.
A lembrança do fim desse último dia escapa-se-me, infelizmente [...]. Emma
avisara-nos de que Ève não estava bem. Fiz-te tirar os sapatos para não fazer
barulho. Durante a noite ela acordou e tive de lhe dar colo. Depois deitei-a
entre os dois; disse-te que precisava de aquecer; tu respondeste qualquer coisa
animando-me a cuidar dela e a consolá-la; depois beijaste-a várias vezes. Pouco
depois ela adormeceu e pude deitá-la na sua cama. Ève acordara Irene, que tornou
a adormecer sem dificuldade. Não me lembro bem da manhã seguinte. Emma
regressou, e tu censuraste-a por não manter a casa em condições (ela pedira um
aumento). Estavas a sair, tinhas pressa, eu estava a tratar das crianças, e já
te ias embora quando me perguntaste em voz baixa se iria ao laboratório.
Respondi-te que não sabia e pedi-te que não me pressionasses. Precisamente nessa
altura saíste; a última frase que te dirigi não foi uma frase de amor e de
ternura. Depois, já só te vi morto [...].
Entro na sala. Dizem-me: «Morreu.» Acaso se pode compreender semelhante palavra?
Pierre morreu, ele, que no entanto vira sair de manhã; a ele, que esperava
apertar entre os meus braços nessa tarde, já só o voltarei a ver morto, e
acabou-se, para sempre. Repito ainda e sempre o seu nome: «Pierre, Pierre,
Pierre, meu Pierre», mas infelizmente isso não o fará voltar, partiu para
sempre, deixando-me só a desolação e o desespero. Meu Pierre, esperei por ti
durante horas mortais; deram-me as coisas que trazias: a tua caneta, a tua
carteira, o teu porta-moedas, as tuas chaves, o teu relógio, esse relógio que
não parou quando a tua pobre cabeça recebeu a pancada terrível que a quebrou.
É tudo o que me resta de ti, juntamente com algumas velhas cartas e alguns
papéis. É tudo o que tenho em troca do amigo terno e amado com quem contava
passar a minha vida.

165
Trouxeram-mo à tarde. Primeiro, no carro, beijei-te a cara, que quase não tinha
mudado. Depois levámos-te para o quarto de baixo e pusemos-te em cima da cama. E
voltei a beijar-te: ainda estavas flexível e quase quente, e beijei a tua
querida mão, que ainda se fechava. Pediram-me que saísse enquanto te tiravam a
roupa. Obedeci, transtornada, e não percebo como pude ser tão tonta. Cabia-me a
mim tirar-te a roupa ensanguentada: mais ninguém devia fazê-lo, ninguém devia
tocar-te, como não percebi nessa altura? Compreendi-o depois e então só
conseguia separar-me de ti de vez em quando, e ficava no teu quarto cada vez
mais, e acariciava-te a cara e beijava-a.
Dias tristes e terríveis. Na manhã seguinte, a chegada de Jacques (Nota 6);
soluços e lágrimas. Depois ambos, Jacques e eu, íamos ver-te constantemente e as
primeiras palavras de Jacques junto à tua cama foram: «Tinha todas as
qualidades; não havia outro como ele.» Compreendíamo-nos bem, Jacques e eu: a
sua presença foi um consolo para mim. Permanecemos ao lado de quem mais nos
amava, juntos nos lamentámos, juntos relemos as velhas cartas e o que resta do
teu diário. Oh, tenho tanta pena de que Jacques se tenha ido embora!
Pierre, meu Pierre, estás aí, calmo como um pobre ferido que descansa enquanto
dorme com a cabeça ligada. E a tua cara mantém-se ainda doce e serena, continuas
ainda a ser tu, preso num sonho de onde não podes sair. Os teus lábios, que eu
costumava dizer que eram deliciosos, estão pálidos, sem cor. A tua barbinha,
grisalha; quase não se te vê o cabelo porque a ferida começa justamente aí e
poderia ver-se o osso superior à direita da testa levantado. Oh, como te deve
ter doído, como sangraste, a tua roupa está encharcada em sangue! Que pancada
sofreu a tua pobre cabeça, que eu acariciava com frequência, segurando-a entre
as mãos. E mais uma vez te beijei as pálpebras que tu fechavas tantas vezes para
que eu as osculasse, oferecendo-me a rabeca com um movimento familiar que hoje
recordo e que verei esbater-se na minha memória; a lembrança é já confusa e
incerta. Oh, como amaldiçoo esta carência de memória visual que me impede de ter
uma imagem clara daquilo que desapareceu!

Nota 6 - Irmão mais velho de Pierre Curie.

166
Muito em breve o único recurso serão os teus retratos! Oh! Precisaria de uma
memória de pintor ou de escultor para te ter sempre visível aos meus olhos e
para que a tua querida imagem não se apagasse jamais e me acompanhasse
fielmente.
Aflige-me sentir que tudo o que escrevo parece frio e que não sou capaz de pôr
por escrito a lembrança daquelas horas atrozes.
0 que posso então esperar salvar do desastre e conservar no futuro como apoio
para os meus extraviados pensamentos?

1 de maio de 1906
Meu Pierre, como tudo me aflige nesta casa que deixaste. A alma da casa foi-se;
tudo está triste, desolado e privado de sentido.
Colocámos-te no caixão sábado de manhã e segurei a tua cabeça enquanto o
fazíamos. Não é verdade que não terias querido que mais ninguém ta segurasse?
Beijei-te, Jacques também e igualmente André (Nota 7); deixámos um último beijo
sobre a tua cara fria, mas tão querida como sempre. Mais tarde, algumas flores
dentro do caixão e o meu pequeno retrato de «jovem estudante aplicada», como tu
dizias, e que tanto te agradava. Esse é o retrato que tinha de te acompanhar no
túmulo, porque era a imagem daquela que havias escolhido para companheira,
daquela que teve a sorte de te agradar tanto que não hesitaste em oferecer-lhe a
tua vida, apesar de só a teres visto umas quantas vezes. Asseguravas-me
frequentemente que fora a única vez que agiras sem hesitar, uma vez que possuías
a convicção total de estar a fazer a coisa correta. Meu Pierre, creio que não te
enganaste [...], fomos feitos para viver juntos e a nossa união tinha de
acontecer. Só que, infelizmente, deveria ter durado muito mais.
O teu caixão fecha-se depois de um último beijo, e não volto a ver-te. Não
permito que o tapem com o horrível pano preto. Cubro-o de flores e sento-me ao
lado. Até o terem levado, quase não me mexi.

Nota 7 - André Debierne, químico, era o colaborador mais próximo de Pierre e


Marie Curie.

167
Quero dizer aqui qual a sensação que tive. Estava só com o teu caixão e pousei
nele a minha cabeça, apoiando a testa. E apesar da imensa angústia que sentia,
falava contigo. Declarei que te amava e que sempre te amara com todo o meu
coração. Que tu o sabias [...] e que te tinha dado a minha vida inteira;
prometi-te que nunca nenhum outro ocuparia o lugar que fora teu na minha vida, e
que tentaria viver como terias gostado que o fizesse. Pareceu--me então que
desse contacto frio da minha testa com o caixão me chegava algo semelhante à
serenidade, e a intuição de que voltaria a encontrar a vontade de viver. Era uma
ilusão ou, quem sabe, uma acumulação de energia que provinha de ti e que, ao
condensar-se dentro do caixão fechado, chegava a mim pelo contacto, como uma
ação benfazeja da tua parte.
Vêm buscar-te, entristecida assistência; olho para eles, não lhes falo.
Acompanhamos-te a Sceaux e vemos-te descer pela cova grande e profunda que deve
acolher o teu último repouso. Depois, o desfile terrível de pessoas; oferecem-se
para nos levar. Jacques e eu voltámos, queremos assistir até ao fim; enchem a
cova, colocam os ramos de flores, acabou tudo. Pierre dorme o seu último sono
debaixo da terra, é o fim de tudo, tudo, tudo.
Não fiz bem, meu Pierre, em ter evitado o ruído e as cerimónias que detestavas
em volta do teu cortejo fúnebre? Tenho a certeza de que preferiste partir assim,
sem reboliço, sem demonstrações vãs, sem discursos. Sempre gostaste da calma. E
nos dois últimos dias em Saint-Rémy garantiste-me, uma vez mais, que essa
tranquilidade te fazia bem.
Não sei como foram a tarde e a noite. Na manhã seguinte contei tudo a Irene, que
estava em casa de Perrin. Até esse momento só lhe tinha dito que o pai dera uma
forte pancada com a cabeça e que não podia vir. Ela ria e brincava ao lado
enquanto nós velávamos o seu pai morto. Quando lho contei - quis fazê-lo eu
própria, era o meu dever de mãe -, ao princípio não entendeu e deixou que eu
saísse sem dizer nada; mas depois, ao que parece, chorou e pediu para nos ver.
Chorou muito em casa; mais tarde voltou a casa dos seus amiguinhos, tentando
esquecer.

Nota 8 - Jean Perrin, o físico, vivia na casa contígua à dos Curie.


Não quis saber nenhum pormenor e ao princípio temia falar do pai. Abria muito os
olhos, perturbada com a roupa preta que vestíamos. A primeira vez que voltou a
dormir em casa, na minha cama, acordou de manhã e, meio adormecida, procurando-
me com o braço, perguntou com uma voz chorosa: «Não é verdade que não está
morto?» Agora não me parece que pense nisso; no entanto, exigiu o retrato do pai
que alguém retirara da janela do seu quarto. Hoje, ao escrever à prima,
Madeleine, não lhe falou dele. Depressa o esquecerá por completo e, por outro
lado, saberia quem era? Mas a perda do pai pesará sobre a sua existência e nunca
saberemos o mal que isso lhe terá causado. Porque eu sonhava, meu Pierre, e
disse-to muitas vezes, que esta menina, que se parecia tanto contigo na reflexão
grave e tranquila, depressa se transformaria na tua companheira de trabalho, e
te deveria o melhor de si mesma. (Nota 9) Quem lhe dará o que tu lhe poderias
ter dado?
Chegada de Józef e de Bronya (Nota 10). São bons. Mas fala-se de mais nesta
casa. Nota-se que já cá não estás, meu Pierre, tu que detestavas o ruído. Irene
brinca com os tios. Ève, que durante tudo o que aconteceu corria pela casa numa
alegria inconsciente, brinca e ri-se; toda a gente fala. E eu vejo os olhos do
Pierre da minha alma no seu leito de morte, e sofro. Parece-me que o
esquecimento já aí vem, o esquecimento horroroso, que até a recordação do ser
amado aniquila. E a minha tristeza aumenta e mergulho na contemplação dessa
visão íntima.
Agora a casa está mais tranquila: Jacques e Józef foram embora, a minha irmã irá
amanhã. À minha volta, todos esquecem. Quanto a mim, tenho momentos de uma quase
completa insensibilidade e o que me surpreende mais é às vezes conseguir
trabalhar. Mas os momentos de calma são raros e tenho sobretudo este sentimento
obsessivo de desamparo, com instantes de angústia, e também uma inquietação e,
às vezes, a ridícula ideia de que tudo isto é uma ilusão e de que vais voltar.
Não tive ontem, ao ouvir a porta fechar-se, a ideia absurda de que eras tu?

Nota 9 - Irene Joliot-Curie obteve o Prémio Nobel da Química em 1935.


Nota 10 - Józef Sklodowski era o irmão de Marie Curie e Bronislawa Dluska, sua
irmã.

169
Queimei, com a minha irmã, a tua roupa do dia da desgraça. Para uma fogueira
enorme atiro os farrapos cortados de tecido com os grumos de sangue e restos de
massa cerebral. Horror e desdita: beijo o que resta de ti. Gostaria de me
embriagar com a minha dor, esgotar o copo, para que cada um dos teus sofrimentos
repercuta em mim até fazer o meu coração explodir.
Pela rua, caminho como que hipnotizada, sem me aperceber de nada. Não me
matarei: nem sequer tenho o desejo de me suicidar. Mas, entre todos estes
carros, não haverá um que me faça partilhar o destino do meu amado?
Na manhã do domingo posterior à tua morte fui pela primeira vez ao laboratório
com Jacques. Tentei tirar uma medida para uma curva de que cada um de nós
traçara alguns pontos, mas passado algum tempo senti a impossibilidade de
continuar. No laboratório pairava uma tristeza infinita: parecia um deserto.
Depois regressei e apressei [...] os [teus] ajudantes [...]. Fiz também alguns
cálculos para esclarecer as últimas notas do teu caderno de laboratório
relativas à dosagem da emanação e ocupei-me com a curva de desintegração desta.
Tudo varia consoante o momento. Há alturas em que me parece que não sinto nada e
que consigo trabalhar; depois, a angústia e o desânimo regressam.
Propuseram-me suceder-te, meu Pierre, tanto no teu curso como na direção do
laboratório. Aceitei. Não sei se fiz bem ou mal. Tu costumavas dizer que terias
gostado que desse um curso na Sorbonne. Eu aproveitaria ao menos o esforço para
continuar com as investigações. Às vezes acho que assim me será mais fácil
viver, outras vezes julgo que estou louca por embarcar nisto. Quantas vezes não
te terei garantido que, no caso de já não te ter comigo, provavelmente não
trabalharia. Depositava em ti todas as minhas esperanças científicas e, afinal,
atrevo-me a continuar sem a tua presença. Tu avisavas-me que não devia dizê-lo e
«que seria necessário continuar como se nada tivesse acontecido», mas quantas
vezes não afiançaste que «se já não me tivesses contigo talvez trabalhasses
ainda, mas não serias mais do que um corpo sem alma». E onde encontrarei eu uma
alma se a minha partiu contigo?

170
7 de maio de 1906

Meu Pierre, a vida é atroz sem ti, é uma angústia sem nome, um desamparo sem
fundo, uma desolação sem limites. Desde que cá não estás, há já dezoito dias,
não deixei de pensar em ti um único instante, exceto quando dormia. Nem por um
momento estando acordada abandonaste os meus pensamentos, e cada vez me custa
mais pensar noutra coisa e, em consequência, trabalhar. Ontem, pela primeira vez
desde o dia fatídico, uma tirada de Irene fez-me rir, mas mesmo rindo-me, doía-
me. Lembras-te de como te censuravas por te teres rido alguns dias depois da
morte da tua mãe? «Minha querida, o ursinho riu-se», disseste-me em voz aflita,
e consolei-te o melhor que pude. Estávamos sentados na cama do nosso quarto da
rue de la glacière. Meu Pierre, penso em ti sem trégua nem fim, a minha cabeça
explode e o meu juízo transtorna-se. Não compreendo ter de viver sem te ver a
partir de agora, sem sorrir para o doce companheiro da minha vida, para o meu
amigo tão terno e dedicado.
Lembras-te de como tratavas de mim quando me sentia mal durante as gravidezes?
[... ] Meu Pierre, eu amava-te e não sei como viver sem ti. Há dois dias que
vejo que as árvores têm folhas e que o jardim está encantador. Esta manhã
observei admirada as meninas, que bonitas! Pensei que também tu terias achado o
mesmo, e que me terias chamado para me mostrares os narcisos e as pervincas em
flor. Ontem estive no cemitério. Não conseguia compreender as palavras «Pierre
Curie» gravadas na pedra. O sol e a beleza do campo doíam--me e cobri-me com o
véu para ver tudo através do tecido. Também pensei que estavas mais tranquilo
neste cemitério em Sceaux do que em qualquer outro sítio [...].
Meu Pierre, tal como o meu coração se agarra à lembrança da imagem querida,
parece-me que o esforço do meu sofrimento deveria bastar para o quebrar e acabar
com esta vida da qual te foste.
Meu belo, meu bom, meu querido Pierre amado. Oh, as saudades de te ver, de
contemplar o teu sorriso bondoso, o teu rosto doce, de ouvir a tua voz grave e
terna e de nos apertarmos um contra o outro como fazíamos amiúde! Pierre, não
quero, não quero suportá-lo.

171
A vida não é possível. Ver-te sacrificado desta maneira, tu, o mais inofensivo,
o mais justo, o mais benevolente, o mais abnegado, ó, Pierre, nunca terei
lágrimas suficientes para te chorar, nunca terei pensamentos suficientes para o
recordar, e tudo o que puder fazer e sentir em face de semelhante tragédia é em
vão [...].
Tento retomar a minha vida; creio que é uma ilusão, e nem sequer completa. No
fundo de mim mesma, tenho consciência de que aconteceu, e sou como alguém que
tenta enganar-se e que com grande dificuldade, o consegue. Dou-me conta, no
entanto, de que para ter a mais pequena possibilidade de sucesso, preciso deixar
de pensar na minha desgraça quando estou a trabalhar. Mas não só não acredito
que possa consegui-lo para já, como a simples ideia de que possa acontecer me
repugna. Parece-me que, depois de ter perdido Pierre, nunca mais devo conseguir
rir-me com vontade até ao fim dos meus dias.

Manhã de 11 de maio de 1906


Meu Pierre, levanto-me depois de ter dormido bem, relativamente tranquila, tudo
isso há não mais de um quarto de hora e, vê lá tu, tenho outra vez vontade de
uivar como um animal selvagem.

14 de maio de 1906
Meu pequeno Pierre, gostaria de te contar que os laburnos floresceram e que as
glicínias, o espinheiro branco e os lírios começam a fazê-lo; terias adorado
aquecer-te ao sol vendo tudo isto. Quero dizer-te também que me nomearam para o
teu posto e que houve imbecis que me felicitaram. E também que continuo a viver
sem consolo e que não sei em que me transformarei nem como suportarei a tarefa
que me resta. Por momentos, a minha dor parece que enfraquece e adormece, mas
logo renasce, tenaz e poderosa.
Quero contar-te que já não gosto nem do sol nem das flores, que vê-los me faz
sofrer, que me sinto melhor com um tempo sombrio como o do dia da tua morte e
que se o bom tempo não me parece odioso, é porque as minhas filhas precisam
dele.

172
No domingo de manhã fui à campa do meu Pierre. Quero fazer um jazigo e será
necessário trasladar o caixão.
Trabalho no laboratório todos os dias, é tudo o que consigo fazer; estou melhor
aí do que em qualquer outro sítio. Sinto cada vez mais que a minha vida, sem ti,
terminou definitivamente.
Meu Pierre, já tudo passou e se afasta de mim cada vez mais; resta-me a tristeza
e o desalento. Não concebo nada que me possa dar uma alegria pessoal exceto
talvez o trabalho científico; e nem esse porque, se o conseguisse, me afligiria
que tu o desconhecesses. Mas este laboratório provoca em mim a ilusão de
conservar um resto da tua vida e as marcas da tua passagem.
Encontrei um pequeno retrato teu junto da balança: um retrato de aprendiz, é
verdade, que não é de todo uma obra de arte, mas onde estás com uma expressão
sorridente tão bonita que não consigo olhar para ele sem que os soluços me
agitem o peito, por nunca mais voltar a ver esse doce sorriso.

10 de junho de 1906
Choro bastante menos e a minha mágoa é menos aguda; no entanto, não esqueço.
Tudo está triste à minha volta. As preocupações da vida nem sequer me deixam
pensar em paz no meu Pierre. Mas tentei rodear-me de um grande silêncio, fazer
com que toda a gente se esqueça de mim. Apesar disso, quase não consigo viver
com os meus pensamentos. A casa, as crianças e o laboratório dão--me
preocupações constantes. Em momento algum, porém, me esqueço de que perdi
Pierre, só que quase não consigo concentrar o meu pensamento nele e espero com
impaciência pelos momentos em que o posso fazer. Vi como o trasladavam, na caixa
que o encerra, para o jazigo provisório. Estava tão perto de mim e teria gostado
tanto de o ver. Aquela caixa que alberga quem eu mais queria no mundo, como
lamento termos outra vez de a selar debaixo da terra!

173
Sinto necessidade de ir ao cemitério. Aí estou mais perto de Pierre e mais
tranquila para mergulhar nos meus pensamentos. Suporto a vida, mas não creio que
possa voltar a apreciar alguma vez o tempo que me resta. Não tenho uma alma
alegre nem serena por natureza, refugiava-me na doce serenidade de Pierre para
arranjar coragem, e essa fonte esgotou-se.
Tu eras a encarnação do encanto e da nobreza e dos dons mais divinos. Nunca
conhecera um homem igual a ti, e depois nunca encontrei um ser tão perfeito. Se
não te tivesse conhecido, nunca teria sabido que alguém assim podia existir na
realidade.

6 de novembro de 1906
Ontem dei a primeira aula substituindo o meu Pierre. Que desconsolo e que
desespero! Terias ficado feliz ao ver-me como professora na Sorbonne, e eu
própria teria ficado encantada por tua causa. Mas fazê-lo em teu lugar, ó, meu
Pierre, quem imaginaria uma coisa tão cruel; como sofri, como estou desanimada!
Sinto que a faculdade de viver morreu em mim, e só me resta o dever de criar as
minhas filhas e de continuar a tarefa aceite. Talvez seja também o desejo de
demonstrar ao mundo, e sobretudo a mim própria, que aquela que amaste valia de
facto alguma coisa. Tenho também a vaga esperança, bem pequena infelizmente, de
que talvez tu saibas da minha vida de dor e esforço e que me estarás grato, e
que assim talvez seja mais fácil reencontrar-te na outra vida, se houver. Se
assim for, tenho de poder dizer-te que fiz todo o possível para ser digna de ti.
Essa é agora a única preocupação da minha vida. Já não quero pensar mais em
viver para mim, já não tenho desejo nem capacidade para tal, já não me sinto
nada viva nem jovem, já não sei o que é a alegria e o prazer. Amanhã farei
trinta e nove anos. Uma vez que estou decidida a não continuar a viver para mim
e a não fazer nada com esse fim, talvez me reste ainda algum tempo para levar a
cabo, pelo menos em parte, as tarefas que me impus.
Esta manhã antes das aulas fui ao cemitério, diante do túmulo onde estás. Há
muito tempo que não ia, devido à estada em Saint-Rémy e à preparação do ano
escolar.

174
Quando viver em Sceaux quero ir com frequência, porque creio que aí poderei
pensar em ti de forma mais tranquila que noutros lugares onde a vida me distrai
constantemente.

Abril de 1907
Um ano. Vivo para as suas filhas, para o seu velho pai. A dor é surda, mas
continua viva. A carga pesa-me nos ombros. Como seria doce adormecer e nunca
mais acordar. Que jovens são as minhas pobres queridinhas! Que cansada me sinto!
Terei ainda coragem de escrever?

175

FIM