Você está na página 1de 276

gócios e nas instituições esta- A organização deste livro

tais, são alguns dos eventos iniciou-se no ano de 2015 com


mais recentes. o intuito de reunir investiga-
A presente coletânea com- ções realizadas no âmbito da

ESTADO, POLÍTICAS PÚBLICAS E TERRITÓRIO


põe o terceiro livro da coleção pós-graduação em Geografia
Território e Questão Agrária e nos estados de Sergipe, Paraí­
é composta por doze capítulos ba e Minas Gerais. Vivia-se
que, de modo geral, refletem a fase do neodesenvolvimen-
e dialogam com a perspecti- tismo na condução do Estado
va do Estado e das políticas brasileiro. Porém, sua publica-
públicas em suas implicações ção ocorreu apenas neste iní-
geográficas diretas, resultan-
do em novas dinâmicas e tam- ESTADO, cio de 2017, quando um brutal
golpe de Estado, promovido

POLÍTICAS
bém em desafios postos ao ter- por uma articulação entre os
ritório, avaliando situações no setores dominantes entrona-
campo e nas cidades, além de dos no Parlamento, no Judi-

PÚBLICAS
problemáticas políticas liga- ciário e nas Corporações de
das à educação e ao ambiente. Informação e Comunicação,
Esperamos com esta pu- roubou dos brasileiros a jovem
blicação revelar alguns dos
impasses e desafios postos à
sociedade brasileira, instigan-
E TERRITÓRIO democracia e restaurou a se-
gunda fase do neoliberalismo.
Desde então, a tônica tem
do o debate crítico de proble- sido a imposição de um modo
mas históricos que assolam o de governar voltado exclusi-
território; desafiando, a partir vamente à ampliação de lu-
de reflexões acadêmicas teci- o cros e acumulação de capital,
das no diálogo com diferentes Filh mediante a espoliação dos di-
s a
agentes, a encontrarmos pistas
amo ereir reitos e conquistas históricas
para a produção de um proje-
lva R nte P ntos dos trabalhadores. O desmon-
i a
a S i Vice oa S leps
to político que seja capaz de te do Programa Nacional de
nos oferecer novo horizonte de d Habitação Rural; a extinção
lutas e de conquistas. a ldo chin Lisb ero C gs.) do Ministério do Desenvolvi-
Er i Fa a de umi
e f e ( Or mento Agrário que prenun-
rl e G d
Eraldo da Silva
Mi Jos aise ndra ciou a dissipação de todas as

a D sta A
Ramos Filho políticas públicas de apoio e
is fortalecimento da agricultura
Mirlei Fachini
Ge a Co camponesa; o apoio irrestri-
Vicente Pereira d
ilza to às corporações transnacio-
n
Va
nais do agronegócio; o apro-
fundamento pelo Estado da
perspectiva da natureza/bio-
diversidade como mercado-
ria; escancaramento da condi-
ção patrimonialista do Estado;
ademais dos escândalos, frau-
des e corrupção nos (agro)ne-
ESTADO, POLÍTICAS PÚBLICAS E TERRITÓRIO
ERALDO DA SILVA RAMOS FILHO
MIRLEI FACHINI VICENTE PEREIRA
JOSEFA DE LISBOA SANTOS
GEISA DAISE GUMIERO CLEPS
VANILZA DA COSTA ANDRADE (ORGS.)

ESTADO, POLÍTICAS PÚBLICAS E TERRITÓRIO

1ª edição
Outras Expressões
São Paulo – 2015
Copyright © Outras Expressões, 2015

Revisão: Dulcineia Pavan, Helen Cristina dos Anjos Santos e Lia Urbini
Capa e diagramação: Zap Design
Impressão: Cromosete
Tiragem: 1.500 exemplares

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autori-
zação da editora.

Esta obra não pode ser comercializada e está destinada à distribuição gratuita.

1ª edição: agosto de 2015

OUTRAS EXPRESSÕES
Rua Abolição, 201 – Bela Vista
CEP 01319-010 – São Paulo – SP
Tel: (11) 3112-0941 / 3105-9500
livraria@expressaopopular.com.br
www.facebook.com/ed.expressaopopular
www.expressaopopular.com.br
SUMÁRIO

Agradecimentos................................................................................................. 7
Apresentação..................................................................................................... 9

POLÍTICAS PÚBLICAS E CAMPESINATO


Políticas públicas e questão agrária: bases para o
desenvolvimento territorial camponês................................................................ 17
Bernardo Mançano Fernandes
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar................................. 39
Eraldo da Silva Ramos Filho

CAMPO, ESTADO E AGENTES PRIVADOS NO BRASIL


Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro.............................................. 67
Mirlei Fachini Vicente Pereira
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio
Wanderley no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba............................................. 87
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre a
política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano....................... 111
Leônidas de Santana Marques
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no Polo Irrigado Petrolina /Juazeiro.................................................................. 127
Renata Sibéria de Oliveira
Josefa de Lisboa Santos
POLÍTICAS PÚBLICAS E
DESAFIOS DA EDUCAÇÃO DO CAMPO
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel embrionário
do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul.................................................. 149
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do
Pronera em Alagoas (1998-2008)...................................................................... 165
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

POLÍTICAS PÚBLICAS, AÇÕES DO ESTADO


E SEUS CONTEXTOS TERRITORIAIS
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental........................................... 199
André Vieira Freitas
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe............................... 221
Ana Rocha dos Santos
Descentralização e habitação: Programa Casa Nova, Vida Nova
na política de desenvolvimento territorial de Sergipe......................................... 233
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco...... 255
José Hunaldo Lima
Sobre os autores................................................................................................. 273
AGRADECIMENTOS

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CA-


PES) e à Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado
de Sergipe (FAPITEC/SE) pelos recursos destinados ao fomento ao Pro-
grama de Estímulo à Mobilidade e ao Aumento da Cooperação Acadêmica
da Pós-graduação em Sergipe (PROMOB), que viabilizou a realização do
projeto Estado, questão agrária e conflitos territoriais: um estudo comparativo
entre Sergipe, Paraíba e Minas Gerais, realizado no contexto da cooperação
científica interinstitucional entre os Programas de Pós-graduação em Geo-
grafia da Universidade Federal de Sergipe, da Universidade Federal da Para-
íba e da Universidade Federal de Uberlândia, coordenado respectivamente
pelo Prof. Dr. Eraldo da Silva Ramos Filho, Prof. Dr. Marco Antonio Mi-
tidiero Junior e Prof. Dr. João Cleps Junior, entre outubro de 2012 e junho
de 2015.
APRESENTAÇÃO

A última década está marcada pelo aprofundamento da crise estrutural


do capital. Desde a bolha imobiliária estadunidense em 2008, seguida pela
crise mundial dos alimentos, pelo colapso de parte da economia europeia
e das massas migratórias dos refugiados das guerras do Oriente Médio em
direção à Europa, evidências do esgotamento do capitalismo como modelo
civilizatório pairam no ar.
As saídas apontadas pelo capitalismo explicitam estratégias de desloca-
mento do capital especulativo e produtivo para a aquisição de “ativos” sob
a forma de natureza, situados nas porções do globo onde haja estoques pas-
síveis de dominação e mercadorização. Como consequência, deparamo-nos
com profundas transformações na questão agrária mundial e multiplicação
dos conflitos socioterritoriais que expressam os antagonismos entre os mo-
delos de desenvolvimento impulsados pelo capital e as formas de existência
e resistência dos povos do campo, das florestas e das águas.
A questão agrária, problemática estrutural do desenvolvimento de-
sigual, contraditório e combinado do capitalismo, explicita sua essência
geo­gráfica quando da explosão dos conflitos territoriais, gerados pelo an-
tagonismo das classes sociais e seus modos e interesses de apropriação e
de dominação do espaço geográfico. Nosso intuito em organizar a coleção
Território e Questão Agrária foi o de discutir a atualidade dessa problemá-
tica estrutural, seus processos e dimensões a partir da diversidade de temas
possíveis de tratamento desde a ciência geográfica.
O primeiro volume desta série abordou a Questão Agrária no século XXI:
escalas, dinâmicas e conflitos territoriais a partir dos debates centrais realiza-
dos no VI Simpósio Internacional de Geografia Agrária, realizado na Uni-
versidade Federal da Paraíba, em setembro de 2013.
O segundo volume discutiu a atualidade da Questão agrária e conflitos
territoriais no Brasil, em uma coletânea de artigos cujos estudos foram ela-
borados no âmbito do projeto Estado, Questão Agrária e Conflitos Territo­
riais: um estudo comparativo entre Sergipe, Paraíba e Minas Gerais, realizado
no contexto da cooperação científica interinstitucional entre os Programas
Mirlei Fachini Vicente Pereira e Eraldo da Silva Ramos Filho

de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe, Uni-


versidade Federal da Paraíba e Universidade Federal de Uberlândia.
A cooperação foi fomentada pelo Programa de Estímulo à Mobilida-
de e ao Aumento da Cooperação Acadêmica da Pós-graduação em Sergipe
(PROMOB) e auspiciada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (CAPES) e Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação
Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC), entre 2013 e 2015.
A presente coletânea dá sequência ao segundo livro da série (publica-
do em 2016), na coleção Território e Questão Agrária. A publicação que ora
apresentamos é composta por doze capítulos, organizados em quatro partes
de acordo com diferentes eixos temáticos que, de modo geral, refletem e
dialogam com a perspectiva do Estado e das políticas públicas em suas im-
plicações geográficas diretas, resultando em novas dinâmicas e também em
desafios postos ao território, avaliando situações no campo e nas cidades,
além de problemáticas políticas ligadas à educação e ao ambiente.
A primeira parte, intitulada Políticas públicas e campesinato, é composta
por dois textos. Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvol­
vimento territorial camponês, de autoria de Bernardo Mançano Fernandes,
inaugura esta coletânea de artigos analisando a questão agrária brasileira
no período do neodesenvolvimentismo, como problema e referência para a
construção de um modelo de desenvolvimento territorial rural. O autor pro-
blematiza que Estado, corporações do agronegócio e movimentos socioterri-
toriais camponeses são atores formuladores e executores de políticas públicas
que dimensionam modelos de desenvolvimento contraditórios, e defende
que o protagonismo e as relações camponesas na produção desses territórios
devem ser considerados nas políticas públicas, com vistas à emancipação.
No segundo texto, Eraldo da Silva Ramos Filho discute o Campesina­
to entre a segurança e soberania alimentar. Partindo da abordagem da con-
flitualidade paradigmática entre as teorias analíticas do desenvolvimento
do capitalismo no campo, discute o lugar da agricultura nas diferentes
fases de acumulação capitalista, situando a crise mundial dos alimentos
no contexto da crise estrutural do capital. A discussão da geoestratégia
do governo estadunidense nos anos 1950 elucida a gênese, diretrizes e
materialização sob a forma de políticas públicas da segurança alimentar
enquanto um projeto geopolítico-econômico-militar endossado pelas cor-
porações transnacionais agroalimentares. Em contraposição, emerge nas

10
Apresentação

lutas camponesas mundializadas da última década a soberania alimentar


como plataforma de futuro.
A segunda parte da coletânea é intitulada Campo, Estado e agentes pri­
vados no Brasil, e oferece um quadro de diferentes situações no território
brasileiro. O texto de Mirlei Fachini Vicente Pereira, intitulado Estado e
mercado na definição de uma região agrícola moderna: Processos e consequên­
cias no Triângulo Mineiro, avalia estratégias de ações públicas e de agen-
tes privados na conformação de um espaço agrícola voltado às demandas
do mercado. A lógica que orienta a produção moderna do agronegócio no
Triângulo Mineiro foi, desde os anos 1960-1970, amparada por políticas
e ações do Estado que culminaram na criação de um espaço alienado e
claramente marcado pela produção de commodities valorizadas no mercado
externo, revelando a condição subordinada do país e da região na divisão
territorial do trabalho.
O texto Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wander­
ley no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, de Natália Lorena Campos e João
Cleps Jr., analisa a formação da rede e territorialização de um dos principais
grupos que atuam no setor sucroenergético no Triângulo Mineiro, forman-
do um arranjo de quatro usinas em funcionamento na região. Criando me-
canismos de manutenção da produção e construindo estratégias de competi-
tividade, o grupo Tércio Wanderley acaba por criar dependência econômica
dos municípios acionados para a produção.
As políticas recentes voltadas às novas estratégias de desenvolvimen-
to regional são avaliadas no texto intitulado O Território do Sisal enquan­
to “Território Institucional”: lineamentos sobre a política de desenvolvimen­
to territorial no espaço agrário baiano, de autoria de Leônidas de Santana
Marques. O autor analisa a institucionalização da região sisaleira da Bahia,
apontando políticas em tese voltadas ao desenvolvimento socioeconômico,
implementadas pelo poder público em diferentes escalas, que, no entanto,
não resultam no almejado desenvolvimento pela própria forma como a ges-
tão do projeto se realiza, evidenciando os limites das políticas de desenvol-
vimento regional próprias do contexto neoliberal.
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos, no capítulo intitu-
lado Organização dos pequenos produtores: O cooperativismo/associativismo no
polo irrigado Petrolina/Juazeiro, avaliam as propostas de produção pautadas
pela ação de cooperativas e associações no contexto da agricultura irrigada

11
Mirlei Fachini Vicente Pereira e Eraldo da Silva Ramos Filho

no vale do São Francisco. Ainda que marcadas por um horizonte outro de


organização (em tese visando práticas de algum modo socializantes), as au-
toras reconhecem os limites de tais propostas, que, permeadas por práticas
do Estado e instrumentalizadas por razões de mercado, perdem seu poten-
cial de emancipação.
A terceira parte da coletânea, denominada Políticas públicas e desafios da
educação do campo, é composta por dois textos. Em Contextos e trajetórias da
Educação do Campo no Mato Grosso do Sul, Mariana Santos Lemes e Mar-
celo Cervo Chelotti revelam, a partir da análise de diferentes programas,
os dilemas e disputas políticas travadas para a construção de uma proposta
de educação do campo na região de Três Lagoas-MS, espaço notadamente
marcado pelo avanço do agronegócio do papel e celulose na última década.
O texto de Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho,
intitulado A educação do campo em Alagoas sob o desenvolvimento da políti­
ca pública do PRONERA (1998-2008), avalia os esforços de implantação
do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) no
estado de Alagoas, a mobilização de atores sociais para a efetivação do Pro-
grama, bem como os dilemas enfrentados a partir da inserção de propostas
avessas à realização de uma plena educação do campo, visto que a proposta
original foi permeada de mecanismos que divergem dos pressupostos de luta
dos movimentos socioterritoriais.
A quarta e última parte apresenta diferentes situações, no Brasil, das
Políticas públicas, ações do Estado e seus contextos territoriais. O primeiro tex-
to, intitulado Estado, território, ambiente e políticas públicas: O ordenamento
territorial e sua interface ambiental, de André Vieira Freitas, avalia questões
relativas às políticas de Estado, visando particularmente elucidar os nexos
entre o ordenamento do território e a dimensão ambiental. A análise aponta
para a necessidade de reconhecermos as implicações espaciais das políticas
públicas, tanto em sua dimensão territorial quanto ambiental, tendo em vis-
ta sua indissociabilidade.
O texto apresentado por Ana Rocha dos Santos, com o título A espa­
cialidade das ações políticas do Estado: o público e o privado na reprodução do
patrimonialismo em Sergipe, avalia, a partir de propostas que figuram como
esforços de uma suposta descentralização de políticas públicas no estado
de Sergipe, a histórica reprodução do patrimonialismo que conduz a rela-
ção entre Estado e sociedade civil, que resulta na submissão das demandas

12
Apresentação

públicas ao interesse privado. A análise se debruça especialmente sobre po-


líticas de desenvolvimento territorial e de habitação, revelando aspectos per-
versos que impedem a plena emancipação social.
O texto Descentralização e habitação: Programa Casa Nova, Vida Nova
na política de desenvolvimento territorial de Sergipe, de autoria de Vanilza da
Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos, avalia os limites de uma política de
habitação de interesse social que, muito permeada por práticas clientelistas,
não alcança de fato a população que mais demanda moradia na região do
Alto Sertão Sergipano. Barganhas políticas, trocas de favores em função de
votos e outras práticas são acionadas e revelam como a política de habitação
acaba por não resolver o problema dos mais pobres.
O texto que encerra a coletânea, intitulado, Uma revisão sobre a car­
tografia presente nos escritos sobre o São Francisco, de José Hunaldo Lima
resgata, em ampla revisão bibliográfica, estudos sobre a bacia do Rio São
Francisco realizados em diferentes momentos históricos. Partindo das obras
de Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha, atravessando os relatórios da
Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF
e chegando às teses e dissertações mais recentes, o autor analisa a cartografia
adotada nesses estudos, demonstrando que a questão agrária e a estrutura
fundiária concentrada não têm sido preocupação corrente dos estudiosos,
embora sejam estruturais na manutenção da desigualdade.
Esperamos, com mais este volume da Coleção Território e Questão Agrá­
ria, revelar alguns dos impasses e desafios postos à sociedade brasileira, ins-
tigando o debate crítico de problemas históricos que assolam o território; de-
safiando, a partir de reflexões acadêmicas tecidas no diálogo com diferentes
agentes, a encontrarmos pistas para a produção de um projeto político que
seja capaz de nos oferecer novo horizonte de lutas e de conquistas.

Mirlei Fachini Vicente Pereira


Eraldo da Silva Ramos Filho

13
POLÍTICAS PÚBLICAS E CAMPESINATO
POLÍTICAS PÚBLICAS E QUESTÃO AGRÁRIA:
BASES PARA O DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL
CAMPONÊS1

Bernardo Mançano Fernandes

INTRODUÇÃO
No período pós-neoliberal ou neodesenvolvimentista ampliaram-se
as disputas por políticas públicas como parte das ações que determinam
o desenvolvimento territorial rural no Brasil. Enquanto no período desen-
volvimentista o governo aparecia como o propositor dos planos nacionais
de desenvolvimento, no período atual as partes interessadas da sociedade
(stakeholders), como as corporações, organizações e movimentos socioterri-
toriais, têm participado cada vez mais na formulação de políticas públicas. A
constituição e o estabelecimento das políticas públicas tornaram-se disputas
por territórios e por modelos de desenvolvimento, configurando-se entre os
novos elementos da questão agrária atual.
Analisamos a questão agrária como problema e como conjunto de re-
ferências e condições para a construção de um modelo de desenvolvimento
territorial rural, a partir de diferentes realidades dos movimentos campo-
neses. Destas referências, selecionamos a reforma agrária e as ocupações de
terra como exemplos de políticas públicas. No Brasil, a reforma agrária é
impulsionada pelas ocupações de terra, e por esta razão não é possível sepa-
rá-las. Todavia, para uma análise das características que as definem como
políticas públicas é necessário abstrair os componentes de ambas. Com estes
exemplos, discutiremos como a ação política também constitui um tipo de
política pública, que não é definida pelo Estado, e sim construída nos es-
paços de socialização política pelos movimentos camponeses. Enfatizamos,

1
Este artigo é um dos resultados do projeto de pesquisa “Tipos de territórios e modelos de
desenvolvimento”. Apoio CNPq.
Bernardo Mançano Fernandes

assim, como a luta pela terra e a reforma agrária são importantes pontos de
partida para as disputas por modelos de desenvolvimento.
Na análise deste processo, discutimos algumas políticas públicas for-
muladas pelo governo federal, por movimentos camponeses e por corpo-
rações do agronegócio, e refletimos sobre o processo de formulação e ou
de execução, contextualizando-os no debate paradigmático, para conhecer
melhor como as tendências dos paradigmas da questão agrária e do capita-
lismo agrário produzem conhecimentos que contribuem e determinam a
formulação e execução de políticas públicas.
Apresentamos as expressões “políticas públicas emancipatórias” e “po-
líticas públicas de subordinação” para explicar as conflitualidades geradas
por diferentes modelos de desenvolvimento. A partir do paradigma da ques-
tão agrária, analisamos as perspectivas e proposições de movimentos cam-
poneses para o desenvolvimento da agricultura, e a partir do paradigma do
capitalismo agrário discutimos as ações contraofensivas na elaboração de
políticas públicas.
Também discutiremos os papéis de diversas instituições, como do Mi-
nistério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e do Ministério do De-
senvolvimento Agrário, na correlação de forças entre as diferentes linhas
políticas que constituem o governo atual. É neste cenário que analisamos
as disputas por políticas públicas que estão relacionadas à produção do co-
nhecimento científico nas universidades, que, por sua vez, contribuem para
definir os rumos das políticas de desenvolvimento rural no Brasil.

DOS PLANOS DE DESENVOLVIMENTO ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS


E AS DISPUTAS POR MODELOS DE DESENVOLVIMENTO
A elaboração de políticas públicas é resultado da correlação de forças
entre instituições que são ou representam interesses de classes. São as partes
interessadas que, em suas proposições de políticas, defendem seus respecti-
vos modelos de desenvolvimento. A influência de instituições e organiza-
ções da sociedade determinam os rumos das políticas de governos e das polí-
ticas de Estado. As políticas de desenvolvimento para o campo são exemplos
deste processo. Na última década, os movimentos camponeses têm conse-
guido influenciar mais a elaboração de políticas de desenvolvimento para a
agricultura, pecuária, mercado, indústria, educação, saúde, habitação etc.,

18
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

ou seja, este conjunto forma as políticas de desenvolvimento territorial, dis-


putando com as corporações capitalistas, denominadas de agronegócio.
Esta mudança pode ser observada nos processos de criação de políticas
de desenvolvimento para o campo nas últimas cinco décadas. Elas são ela-
boradas pelos governos, mas determinadas pelos interesses das corporações
do agronegócio que sustentam e são sustentadas pelo sistema hegemônico
capitalista. São exemplos, em diferentes tempos e escalas, os Planos Nacio­
nais de Desenvolvimento (PNDs) e o Plano Agrícola e Pecuário 2013/2014.
Nos governos militares de 1964 a 1984, seus planos de desenvolvimento
para a agricultura foram elaborados a partir dos interesses das corporações
e do latifúndio (Fernandes, 1996). Nos governos neoliberais da década de
1990, as corporações revigoraram-se em lobbies e mantiveram forte influên-
cia na determinação das políticas e dos modelos de desenvolvimento. Con-
traditoriamente, a ideologia neoliberal, ao defender o Estado mínimo, criou,
ao mesmo tempo, tanto políticas de precarização quanto condições políticas
para os movimentos camponeses se manifestarem, reivindicarem e propo-
rem outras políticas de desenvolvimento.
Estas ações criaram um novo cenário das disputas políticas sobre os
modelos de desenvolvimento do país e especialmente para o desenvolvimen-
to territorial rural. Podemos citar como exemplo o Plano Safra da Agricultu­
ra Familiar 2013/2014. A existência de dois planos para o desenvolvimento
da agricultura explicita as disputas por modelos de desenvolvimento entre
duas classes sociais: a classe capitalista representada pelo agronegócio e a
classe camponesa, representada com a denominação de agricultura familiar,
criada pela Lei n. 11.326, de 24 de julho de 2006. Esta lei, o Plano Safra
específico para a agricultura familiar, bem como o Censo Agropecuário de
2006, são referências que demonstram a separação dos planos e das políticas
públicas para o agronegócio e para a agricultura camponesa.
Embora esta separação seja resultado de intensa luta de classes, ela nem
sequer é considerada nos documentos de algum governo, mesmo dos go-
vernos de esquerda. As disputas por modelos de desenvolvimento não são
componentes dos planos e das políticas, porque estes são determinados pelos
princípios do paradigma do capitalismo agrário. Da mesma forma, vários
estudiosos, também vinculados a este paradigma, desconsideram as confli-
tualidades resultantes das lutas e disputas. As disputas por modelos são polí-
ticas, teóricas e conceituais, por exemplo, as diferentes leituras sobre o agro-

19
Bernardo Mançano Fernandes

negócio, alguns o definem apenas como um conjunto de sistemas (agrícola,


pecuário, industrial, mercantil, financeiro, tecnológico etc.) de um modelo
de desenvolvimento e inclui, neste conjunto, a agricultura capitalista e a
camponesa ou familiar; outros incluem neste conjunto o histórico de sua
construção pelas relações capitalistas e não incluem a agricultura campo-
nesa. De fato, a agricultura camponesa ou familiar não foi protagonista do
modelo do agronegócio do qual são dependentes e marginais, de modo que
alguns movimentos camponeses procuram criar outro modelo de desenvol-
vimento a partir de suas relações sociais: do trabalho familiar, associativo
ou cooperativo, da pequena escala, do desenvolvimento local, na economia
solidária etc.2
Outro exemplo são as diversas leituras sobre o campesinato e a agricul-
tura familiar, que são vistos como sujeitos distintos, como em Abramovay
(1992) e como sendo os mesmos sujeitos com diferentes denominações, de
acordo com Fernandes (2013). Portanto, tratamos agricultura camponesa/
agricultura familiar como um modo de produção e classe social.
Esta separação nas políticas e planos de desenvolvimento é resulta-
do das constantes lutas da Via Campesina, principalmente pelas ações do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos
Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens
(MAB) e pelo Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), da Confe-
deração Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e da Federa-
ção Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar.
Esses movimentos camponeses lutaram e geraram as condições que levaram
à criação dos Planos Safra da agricultura familiar a partir de 2001, o que
influenciou a realização do Censo Agropecuário de 2006, quando o Ins-
tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) separou a produção da
agricultura familiar ou camponesa da produção da agricultura patronal ou
capitalista ou agronegócio e publicou em cadernos distintos. Esta postura
do IBGE reforçou uma leitura crítica sobre a agricultura brasileira, como as
análises sobre as diferentes participações das agriculturas camponesa e ca-
pitalista a partir dos censos agropecuários. Essas análises foram feitas pelo
geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira desde a década de 1980 para de-

2
Sobre as questões do agronegócio, agricultura camponesa/familiar, ver Fernandes et al., 2014.

20
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

monstrar a importante participação do campesinato no desenvolvimento


do país. Exemplos delas podem ser observados em Oliveira (1991 e 2004).
A elaboração de dois censos agropecuários e o fato do Brasil possuir
dois ministérios de desenvolvimento da agricultura demonstram – ainda
mais – que pensar os modelos de desenvolvimento não é uma questão sim-
ples, embora esta questão tenha sido evitada pela maior parte dos estudiosos
dos paradigmas do capitalismo agrário e da questão agrária. O Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é o mais antigo, criado na época
do Brasil Império (1860). É o ministério do agronegócio e, portanto, sem-
pre defendeu os interesses do latifúndio e das corporações. Definiu sozinho
as políticas agrárias por mais de um século. O Ministério do Desenvolvi-
mento Agrário foi criado após o massacre de Eldorado dos Carajás (1996)3
e tornou-se importante para o desenvolvimento da agricultura camponesa/
familiar. Sua criação foi resultado da luta camponesa pela terra e por um
modelo de desenvolvimento emancipatório, contra o Estado de sujeição às
políticas de interesse capitalista elaboradas pelo ministério do agronegócio.
Estes fatos são expressões incontestáveis do debate paradigmático, das
disputas territoriais e dos diferentes modelos de desenvolvimento defendidos
pelas classes. Através do paradigma do capitalismo agrário é possível ignorar
as classes sociais e as conflitualidades das disputas por políticas de desen-
volvimento, mas é impossível negá-las. Estas disputas estão marcadas coti-
dianamente pela luta de classes que se manifesta pelas ocupações de terra,
protestos, reivindicações e proposições de políticas públicas pelos movimen-
tos camponeses e lobbies pelas corporações para demarcarem seus territórios
dentro do governo federal.

QUEM ELABORA A POLÍTICA PÚBLICA? QUESTÃO AGRÁRIA,


DESENVOLVIMENTO E CONFLITUALIDADE
As corporações da agricultura capitalista controlaram por quase um
século e meio as políticas de desenvolvimento da agricultura. Somente no
final da última década do século XX e na primeira década deste século os

3
O massacre aconteceu no dia 17 de abril de 1996; em 29 de abril foi nomeado o ministro de
Estado Extraordinário de Política Fundiária, por decreto. No ano de 1999, por meio da medida
provisória n. 1.911-12, o governo criou o Ministério de Política Fundiária e do Desenvolvimento
Agrário, que mudou para Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) no dia 14 de janeiro
de 2000, através do Decreto n. 3.338.

21
Bernardo Mançano Fernandes

movimentos camponeses conseguiram influenciar os governos para criação


de planos e políticas públicas. Elaborar uma proposta de política pública e
contribuir para construir um modelo de desenvolvimento para a agricultura
camponesa continua sendo o grande desafio destes movimentos. Em seu
VII Congresso Nacional, o MST apresentou o seu Programa Agrário com
as seguintes considerações:
a sua implantação não depende de reinvindicações a governo ou apenas de
vontade política de nosso movimento. A sua concretude depende da luta de
classes, da nossa capacidade de ir acumulando forças e irmos construindo
na prática nas áreas conquistadas dos assentamentos, escolas, centros de
treinamento etc.;
depende de nossa capacidade de construirmos alianças concretas em torno
do programa com os demais setores do campesinato e com toda classe tra-
balhadora urbana;
depende da capacidade de amplos setores da sociedade brasileira, para
construir uma hegemonia – uma maioria – que compreenda e defenda esse
programa (MST, 2013, p. 6).

O Programa Agrário do Movimento (MST, 2013) apresenta diretrizes


para um modelo de desenvolvimento da agricultura camponesa. No capítu-
lo 6, “Proposta de um programa Reforma Agrária Popular”, são apresenta-
dos os principais pontos de uma política de desenvolvimento:
1 – a desconcentração da propriedade da terra;
2 – a sustentabilidade do uso dos recursos naturais;
3 – garantir as sementes como patrimônio e como soberania;
4 – assegurar um modo de produção que garanta o direito à alimenta-
ção a partir da soberania alimentar;
5 – produzir e utilizar energias renováveis;
6 – garantir a educação em todos os níveis e acesso às práticas culturais;
7 – defender os direitos dos trabalhadores, lutando contra todos os ti-
pos de exploração;
8 – a síntese dos pontos é um modo de vida digno.
Estes pontos têm sido as referências que o Movimento tem utilizado
para defender as políticas públicas necessárias para um modelo de desen-
volvimento. Até o momento, o MST, assim como os outros movimen-
tos camponeses do Brasil, não se dedicou à elaboração de um modelo
de desenvolvimento, embora seja possível selecionar as diretrizes de seus
documentos.

22
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) foi o primeiro movi-


mento camponês da Via Campesina a formular uma proposta de um Pla­
no Camponês, que contou inclusive com a participação do MST nos anos
2004/2005, todavia o MST deixou de participar nos anos seguintes, reto-
mando nos anos de 2013/2014. Persistente, o MPA chegou a sistematizar
sua proposta e publicou um caderno denominado “Plano Camponês; da
agricultura camponesa para toda a sociedade” (MPA, 2012). Valter Israel
da Silva, membro do MPA, publicou Caminhos da afirmação camponesa:
elementos para um plano camponês (Silva, s.d.). Nestes documentos pode-se
encontrar, também, as diretrizes de um modelo de desenvolvimento para a
agricultura camponesa. Alguns destaques são:
1 – definição de campesinato;
2 – agroecologia, assistência técnica, pesquisa;
3 – crédito, comercialização;
4 – alimentos e energia: diversidade;
5 – produção, cooperação, agroindústria;
6 – educação, cultura, formação, tecnologia;
7 – comunidade e qualidade de vida.
Estes documentos são alguns dos registros das principais linhas organi-
zadas por movimentos camponeses da Via Campesina. São a expressão da
luta camponesa, que tem influenciado políticas públicas como, por exem-
plo, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), os
cursos de licenciatura em Pedagogia da Terra, em implantação em várias
universidades federais, o mestrado acadêmico em Desenvolvimento Territo-
rial na América Latina e Caribe (criado na Unesp), o Programa de Aquisição
de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Estas
experiências são sementes de um modelo de desenvolvimento que está sendo
concebido pela práxis, teoria e militância dos movimentos camponeses e das
instituições que os apoiam. Este processo é carregado de conflitualidades e
um caminho para compreender é o debate paradigmático.

DEBATE PARADIGMÁTICO: A QUESTÃO AGRÁRIA E O


CAPITALISMO AGRÁRIO
O debate paradigmático é, primeiro, uma proposta para se compreen­
der os pensamentos que defendem os modelos de desenvolvimento do agro-
negócio e da agricultura camponesa. O ponto de partida para o debate pa-

23
Bernardo Mançano Fernandes

radigmático é a intencionalidade. O que nos conduz ao debate é tanto a


intenção de defender nossas visões de mundo, nossos estilos de pensamento,
nossos referenciais teóricos, nossos paradigmas, nossas posições políticas,
quanto de conhecer outras posições teórico-políticas e suas visões de mun-
do, respectivos estilos de pensamento e distintos paradigmas. Mesmo não
tendo noção dos paradigmas e suas tendências, os trabalhadores intelectuais
transitam por esses territórios epistemológicos, onde a filosofia e a ciência se
encontram (Japiassu, 1979). Os territórios epistemológicos são campos da
política, da liberdade, como nos lembra Arendt (1998). A intencionalidade
é manifestada de diversos modos: pela ação cognitiva, percepção, lingua-
gens, práticas etc. (Searle, 1995). Ao mesmo tempo que a ação cognitiva é
produtora de territórios imateriais, a ação prática é produtora de territórios
materiais. Esta relação tempo-espaço a partir das ações cognitivas e práticas
criam a conexão entre o pensamento e realidade, o conhecimento e o fato.
Este processo é um movimento que possui diversas direções expressando
diferentes intencionalidades, como também é uma espécie de trilha entre o
sujeito e o objeto (Santos, 1996, p. 74). Este processo-movimento-dirigido
é a práxis (Vázquez, 2007), que ninguém pode evitar, pois qualquer ato é
revelador de ação, tanto a proposição quanto a negação.
O processo de construção do conhecimento é uma práxis intelectual e
política que através de coletivos de pensamento se organiza para produzir
seus estilos de pensamento, seus paradigmas (Fleck, 2010; Kuhn, 1978).
Nenhum trabalhador intelectual está fora deste processo, nem os que tra-
balham em grupos de pesquisas, em redes nacionais e internacionais, e nem
mesmo aqueles que trabalham sozinhos. É através da práxis intelectual que
adentramos nos territórios das teorias, conduzidos pelo método, utilizamos
conceitos produzidos e produzimos outros. A discussão sobre os conceitos
tem um papel importante dentro do debate paradigmático, porque traz à luz
as intencionalidades dos pensadores e revelam suas posições políticas.
Somente para aqueles que estão abertos ao diálogo, para melhor com-
preensão das razões, é possível realizar o debate paradigmático. Nossa opção
pelo método materialista dialético significa ter uma posição definida nos
territórios imateriais formados pelos paradigmas. Estes são formados por
teorias, que são pensamentos de referências organizados em correntes teóri-
cas, ou seja, que fazem as interpretações dos fatos, o que implica necessaria-
mente ter uma postura política diante dos mesmos e não ignorar as outras

24
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

posturas científicas e políticas, como rotineiramente acontece quando um


paradigma é hegemônico dentro da academia e/ou de instituições.
Na Geografia, uma referência que temos para este debate é o texto “Ques-
tões teóricas sobre a agricultura camponesa” (Oliveira, 1991, p. 45-49), que apre-
senta três grupos de autores e suas visões sobre o desenvolvimento da agricul-
tura. O primeiro entende que o campesinato seria destruído pela diferenciação
produzida pela integração ao mercado capitalista ou pela modernização do la-
tifúndio que levaria as relações não capitalistas à extinção. O segundo grupo
compreende que a destruição das relações culturais e comunitárias – provocada
pelo individualismo gerado pela economia de mercado – levaria à proletariza-
ção. O terceiro acredita que o campesinato é criado e recriado pelo capitalismo.
Oliveira (1999, p. 63) afirma que “discutir a Geografia agrária e as transforma-
ções territoriais no campo brasileiro abre perspectivas para discussões profundas
sobre o rumo que o Brasil está trilhando...” e que discutir este tema “é função
básica da produção acadêmica. Discernir entre o político, o ideológico e o teó-
rico é igualmente tarefa da reflexão intelectual”. É isto que me proponho neste
texto, discernir para conhecer melhor os sentidos, sem desconhecer suas relações
intrínsecas e implicações com a elaboração e execução das políticas públicas.
A primeira vez que manifestamos nossa leitura sobre o debate paradigmá-
tico na forma de texto foi em Carvalho (2005, p. 23-25), em que apresentamos
as primeiras ideias de paradigmas. As teses recentes de Felício (2011), Campos
(2012) e Camacho (2013) são contribuições fundamentais para o avanço desta
proposição inaugurada há uma década, com o objetivo de analisarmos melhor
os pensamentos, as políticas e os territórios que são produzidos pelas ações de
diferentes instituições no desenvolvimento da agricultura. O debate paradigmá-
tico explicita a disputa de paradigmas que se utilizam do embate das ideias, dos
campos de disputas, por meio de relações de poder, para defender e ou impor di-
ferentes intenções que determinam seus modelos interpretativos. Os paradigmas
representam interesses e ideologias, desejos e determinações que se materializam
por meio de políticas públicas nos territórios de acordo com as pretensões das
classes sociais.
Por intermédio do recurso paradigmático, os cientistas interpretam as
realidades e procuram explicá-las. Para tanto, eles selecionam e manipulam
um conjunto de constituintes como, por exemplo: elementos, componentes,
variáveis, recursos, indicadores, dados, informações etc., de acordo com suas
perspectivas e suas histórias, definindo politicamente os resultados que que-

25
Bernardo Mançano Fernandes

rem demonstrar. Evidentemente que sempre respeitando a coerência e o rigor


teórico-metodológico.
Nas leituras sobre o desenvolvimento e as transformações da agricultu-
ra, nos detemos nos problemas e soluções criadas pelas relações sociais na
produção de diferentes espaços e territórios. Estas leituras paradigmáticas
têm influências na elaboração de políticas públicas para o desenvolvimento
da agricultura, definindo a aplicação de recursos em determinadas regiões,
territórios, setores, culturas, instituições etc. Por essa razão, conhecer o mo-
vimento paradigmático que vai da construção da interpretação da teoria que
sustenta a elaboração até a execução da política é fundamental. A constru-
ção dos paradigmas foi realizada a partir da seleção de referenciais teóricos e
suas leituras a respeito das condições de existência do campesinato no capita­
lismo, os problemas, as perspectivas de superação ou manutenção.
Estas condições são discutidas, neste artigo, a partir do trabalho inte-
lectual para representar seus estilos de pensamento na defesa de diferentes
modelos de desenvolvimento do campo. Este mesmo princípio é utilizado
para discutir as posturas das diversas instituições, como os governos em
diferentes escalas (federal, estadual e municipal), as corporações do agrone-
gócio nacional e multinacional e dos vários movimentos camponeses. Estas
posturas podem ser analisadas através dos documentos publicados e das ma-
nifestações das organizações.
O paradigma da questão agrária tem como ponto de partida as lutas de
classes para explicar as disputas territoriais e suas conflitualidades na defesa
de modelos de desenvolvimento que viabilizem a autonomia dos campone-
ses. Entende que os problemas agrários fazem parte da estrutura do capita-
lismo, de modo que a luta contra o capitalismo é a perspectiva de construção
de outra sociedade (Fernandes, 2008).
O paradigma da questão agrária está disposto em duas tendências: a pro-
letarista, que tem como ênfase as relações capital-trabalho e entende o fim
do campesinato como resultado da territorialização do capital no campo; a
campesinista, que tem como ênfase as relações sociais camponesas e seu en-
frentamento com o capital. Para o paradigma do capitalismo agrário, as de-
sigualdades geradas pelas relações capitalistas são um problema conjuntural
e pode ser superado por meio de políticas que possibilitem a “integração” do
campesinato ou “agricultor de base familiar” ao mercado capitalista. Nessa
lógica, campesinato e capital compõem um mesmo espaço político fazendo

26
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

parte de uma totalidade (sociedade capitalista) que não os diferencia, porque a


luta de classes não é elemento desse paradigma (Abramovay, 1992).
Este paradigma possui duas vertentes: a tendência da agricultura fa-
miliar, que acredita na integração ao capital, e a vertente do agronegócio,
que vê a agricultura familiar como residual. Em síntese, para o paradigma
da questão agrária, o problema está no capitalismo, e para o paradigma do
capitalismo agrário, o problema está no campesinato.
Esses paradigmas têm contribuído para a elaboração de distintas leitu-
ras sobre o campo brasileiro, realizadas pelas universidades, pelos governos,
pelas empresas e organizações do agronegócio e pelos movimentos campo-
neses. Na atualidade, as organizações mais influentes do agronegócio são a
Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Confederação da Agricul-
tura e Pecuária do Brasil (CNA). Entre as organizações camponesas estão a
Via Campesina (formada pelo MST, MPA, MAB, MMC e CPT), a Con-
tag e a Fetraf (Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na
Agricultura Familiar). O governo federal pode ser representado pelos dois
ministérios que tratam das políticas de desenvolvimento para o campo: Mi-
nistério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e o Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA). Entre as universidades mais influentes,
destacamos: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Uni-
versidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nas figuras a seguir
apresentamos essas ideias com logos das instituições, inclusive dos partidos
políticos, como forma de ilustrar o debate paradigmático e as disputas.

Elementos das tendências paradigmáticas

27
Bernardo Mançano Fernandes

Posição das instituições no debate paradigmático

A análise do debate paradigmático também contribui para uma postu-


ra crítica em relação às atitudes dos governos. A partir das políticas de go-
vernos, por meio de seus documentos, pode-se ler suas tendências políticas e
formular proposições para mudá-las. O paradigma do capitalismo agrário é
hegemônico e o grande desafio do paradigma da questão agrária é formular
propostas para criar novos espaços que possibilitem a construção de planos
de desenvolvimento para o campesinato. Neste ponto, necessita-se descons-
truir o conceito de políticas públicas a partir da compreensão das conflitua­
lidades geradas pelas disputas por modelos de desenvolvimento, para com-
preender se são políticas de subordinação ou políticas emancipatórias.

POLÍTICAS PÚBLICAS DE SUBORDINAÇÃO E POLÍTICAS


PÚBLICAS EMANCIPATÓRIAS
Para pensar as políticas públicas a partir do debate paradigmático é
necessário compreender que são construídas por meio de disputas políticas.
Dependendo da correlação de forças, são elaboradas políticas públicas de
subordinação ou políticas públicas emancipatórias. O ponto de partida é a
compreensão de que os territórios camponeses e capitalistas necessitam de
políticas diferenciadas para o seu desenvolvimento, que devem ser pensados
de acordo com as lógicas das relações sociais.
Os territórios do agronegócio têm se valido de políticas públicas e pri-
vadas para se desenvolverem a partir da lógica do trabalho assalariado e da
produção de commodities para exportação. Os territórios camponeses neces-

28
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

sitam de políticas de desenvolvimento a partir da lógica do trabalho fami-


liar, cooperativo ou associado, para a produção de diversas culturas para os
mercados locais, regionais e nacional e para exportação. Enfatizando, nova-
mente, cada território precisa produzir políticas de acordo com sua lógica,
seu modo de produção. A ação do agronegócio em territórios camponeses
rompe a territorialidade camponesa e cria a subordinação, expressa pela ter-
ritorialidade do agronegócio. As políticas dos territórios camponeses não
podem, portanto, ser elaboradas a partir da lógica do agronegócio. As polí-
ticas públicas com esses princípios devem ser elaboradas preferencialmente
pelos movimentos camponeses, sindicatos e suas confederações. A participa-
ção do governo é importante, mas não pode ser intrusiva.
Desde esse entendimento, o grande desafio do campesinato é elaborar
um plano de desenvolvimento e de enfrentamento ao capitalismo, para ga-
rantir o direito de sua existência. Em certa medida, a experiência brasileira
de políticas de desenvolvimento do campo ainda é muito primária, baseada
principalmente nos princípios de produção de commodities. Superar esta vi-
são e construir um plano baseado na biodiversidade é um salto de qualida-
de importante e, para tanto, será necessária a criação de políticas públicas
emancipatórias.
Políticas emancipatórias são formuladas pelo protagonismo e pela par-
ticipação. Parte da coerência entre as relações sociais e a produção territorial.
Políticas de subordinação são elaboradas por representantes ou ideólogos de
uma classe para a outra, como forma de manter o controle, de possibilitar a
manutenção de uma condição de existência. Isso não significa que políticas
de subordinação não contribuam para o desenvolvimento, mas contribuem
para o desenvolvimento desigual.
O termo “política pública” pode ser compreendido de acordo com as
premissas selecionadas. Quando utilizamos a expressão política pública, es-
tamos nos referindo a um programa, projeto ou plano de desenvolvimento
elaborado pelos governos ou por estes com organizações da sociedade civil
que transformam espaços e territórios. A partir deste pensamento, as po-
líticas públicas são elaboradas em determinados espaços e territórios por
instituições públicas e privadas que defendem diferentes modelos de de-
senvolvimento do país. Além da relação entre as instituições, seus espaços e
territórios, temos políticas públicas elaboradas de cima para baixo, ou seja,
a partir de um setor do governo para atender uma demanda da população,

29
Bernardo Mançano Fernandes

sem contar com sua participação. Também são elaboradas políticas públi-
cas de baixo para cima, que contam com ampla participação da sociedade
organizada.
As políticas de subordinação e políticas emancipatórias são sempre
construídas por disputas e conflitos. As primeiras por imposição, procuran-
do enquadrar as comunidades camponesas ao modelo do agronegócio, ou as
comunidades urbanas às políticas de governo. Estas políticas são elaboradas
a partir das referências do paradigma do capitalismo agrário e/ou da lógica
do modo capitalista de produção. As segundas são construídas pelo protago-
nismo, superando desafios desde sua elaboração até sua execução. Somente
através da participação efetiva dos governos e de instituições da sociedade,
respeitando as relações sociais e seus territórios, é que se pode construir po-
líticas emancipatórias.
Respeito se conquista com luta e poder. A falta de respeito às comuni-
dades camponesas é marca de muitos governos e principalmente das cor-
porações. Por esta razão, os movimentos camponeses lutam diariamente,
manifestando-se, reivindicando e propondo políticas de desenvolvimento.
Segundo o relatório Dataluta (2013), entre os anos 2000-2012, mais de 5
milhões de pessoas participaram de diversos tipos de manifestações em de-
fesa do desenvolvimento territorial rural em todo o país (ver tabela 1).
Por conter a maior parte da população camponesa do país, o Nordeste
é a região do Brasil onde se concentra o maior número de manifestantes,
mas é o Rio Grande do Sul que reúne o maior número de pessoas por Esta-
do, acompanhado pelo Paraná na região Sul. O Pará, na fronteira agrícola
da Amazônia ocidental, é o Estado com maior número de pessoas em ma-
nifestações. As manifestações são marcadas pelas seguintes reivindicações:
reforma agrária, educação, direitos humanos, crédito, saúde, infraestrutura,
e contra o agronegócio.
A questão agrária é o movimento do conjunto de problemas relativos
ao desenvolvimento da agropecuária e das lutas de resistência dos trabalha-
dores, que são inerentes ao processo desigual e contraditório das relações
capitalistas de produção. Em diferentes momentos da história, essa questão
apresenta-se com características diversas, relacionadas aos distintos estágios
de desenvolvimento do capitalismo. Assim, a produção teórica constante-
mente sofre modificações por causa das novas referências, formadas a partir
das transformações da realidade.

30
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

A questão agrária da última década do século XX não é igual à questão


agrária da primeira década do século XXI, embora seja a mesma estrutura.
A manutenção da estrutura do sistema capitalista não impede que ocorram
mudanças de conjuntura política e econômica. É por essa razão que falamos
em questão agrária atual. A questão agrária de 1950 é diferente da questão
agrária de 1980, mas os elementos estruturais não mudaram, como a con-
centração da propriedade da terra e as relações de produção. Mas há novos
elementos conjunturais, como a intensificação da produção de agrocombus-
tíveis que passam a disputar terras com a produção de alimentos, impul-
sionados pela estrangeirização da terra, impactando a reforma agrária, que
continua em passos lentos.
Não queremos nos referir somente ao movimento da questão agrária,
mas também ao seu sentido. A questão agrária não é apenas um problema
agrário, é também um problema de desenvolvimento agrário. Ela explicita
os problemas gerados pelo modo de produção capitalista e as possibilidades
de mudança. Mas estas possibilidades não vêm do capital, e sim do campe-

31
Bernardo Mançano Fernandes

sinato. Por essa razão é necessário pensar as políticas públicas emancipató-


rias. Mas para isso é preciso desconstruir o conceito de política pública. A
desconstrução é necessária porque a definição do conceito também está em
disputa.
A partir de diferentes olhares sobre as políticas públicas (Grisa, 2010;
Grisa, 2012) e de diversas definições do conceito de política pública apre-
sentadas em Souza (2006), sabemos que são ações disputadas, usadas para
tentar superar problemas territoriais emergentes ou que se arrastam há longo
tempo. A dinâmica e amplitude do conceito exigiu a elaboração de um di-
cionário (Di Giovani e Nogueira, 2013), como ocorreu com a Educação do
Campo, que surgiu como uma ação e se transformou em uma política públi-
ca, tendo também o seu dicionário (Caldart et al., 2012). Como afirmamos,
a política pública pode ser elaborada de “baixo para cima” ou de “cima para
baixo”, ou seja, pode ser uma proposição de diferentes organizações civis e
pode ser uma intervenção estatal, mas com certeza sempre será disputada na
relação Estado e sociedade e por suas classes sociais. Mas não é somente a
política que é disputada, a definição do conceito também é. No debate sobre
definição de política pública há uma compreensão predominante que esta é
de competência do Estado, mesmo que em parceria com organizações civis.
Todavia, há experiências de políticas públicas que não são de competência
do Estado pelo fato da estrutura estatal não querer se prestar a este papel,
como é o caso das ocupações de terras. Estas ações são um tipo de política
pública, pois sem elas a maioria dos assentamentos de reforma agrária não
existiria.
As ocupações de terras são ações políticas propositoras de um mode-
lo de desenvolvimento para uma determinada classe social: o campesinato.
Evidente que a este modelo estão associados diversos fatores e relações que
compreendem uma forma de economia, um tipo de trabalho, de produção
do espaço geográfico e conquista de territórios. A formação de grupos de fa-
mílias para ocuparem a terra resulta de várias ações que envolvem diferentes
organizações, custos, infraestrutura, negociações, normas etc.
As manifestações, as ocupações de terra e os assentamentos de reforma
agrária têm sido os mais ativos geradores e produtores de políticas públicas.
As ocupações de terra possuem os elementos de um projeto de política pú-
blica popular, ou seja, uma política pública elaborada sem a participação
do governo, embora este seja envolvido em todas as suas etapas, através dos

32
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

diálogos, negociações e repressão. Considerar as ocupações de terra como


uma política pública e como ação produtora de políticas públicas nos leva a
repensar o conceito que tem sido definido apenas quando há a participação
do Estado.
Nas últimas três décadas surgiram diversas políticas públicas de caráter
emancipatório e de subordinação. Fundamental enfatizar que estes estilos
de políticas são relativos à correlação de forças que definem os destinos da
população subalterna rural e urbana. O protagonismo dessa população é
condição essencial para as organizações que querem defender suas intencio-
nalidades e interesses de modo propositivo. As políticas de subordinação,
quase sempre, são elaboradas de cima para baixo com o objetivo de controle
político das populações subalternas. Já as emancipatórias, quase sempre, são
elaboradas de baixo para cima com o objetivo de construir autonomias re-
lativas e formas de enfrentamento e resistência na perspectiva de superação
da subalternidade. A reforma agrária tem sido realizada predominantemente
como uma política de subordinação e os resultados estão aquém das propo-
sições dos movimentos. Isso não significa que ela não possa ser uma políti-
ca emancipatória, mas, para ser, precisa dos elementos constituintes, como
a participação das partes interessadas com autonomia e poder de decisão.
Mesmo os assentamentos criados como política de subordinação podem se
emancipar por meio da organização das famílias assentadas vinculadas aos
movimentos camponeses organizados em escala nacional. A passagem da
condição de subordinado para emancipado é construída por um conjunto
de fatores que relacionam as organizações políticas na defesa de seus mode-
los de desenvolvimento.
A proposição de políticas de desenvolvimento também é competência
da sociedade organizada, de onde deveria nascer a maior parte das políticas
públicas. Esta é uma ação importante na disputa do Estado e do governo,
na construção de alternativas. Ganhar as eleições não é suficiente, é essen-
cial ter uma postura política propositiva para romper com a hegemonia do
sistema capitalista.
Os governos pós-neoliberais criaram políticas de distribuição de renda
e reforçaram as políticas de investimento para empresas capitalistas. Estas
políticas são referências para explicitar a correlação de forças pela disputa
do governo e do Estado. Políticas de distribuição de renda como o Bolsa
Família não são uma concessão do sistema capitalista, mas, sim, uma ação

33
Bernardo Mançano Fernandes

resultante das lutas populares que pressionam o Estado para minimizar as


desigualdades geradas pelas relações capitalistas.
A elaboração de políticas públicas para promover o desenvolvimento
são possibilidades de construção de alternativas, pois uma política pode for-
talecer ou enfrentar o sistema hegemônico. É por meio dos sentidos das
disputas por políticas que entendemos as políticas de subordinação e as po-
líticas emancipatórias. Pois é este conjunto de políticas que têm provocado
as mudanças recentes no nosso país.
O Bolsa Família é uma política de subordinação, mas contribui para a
melhoria da qualidade de vida da população se associada às políticas eman-
cipatórias. Para o campesinato, estes atos têm profunda significação, pois
estas políticas podem subordiná-los ou contribuir para a sua emancipação. E
esta condição está diretamente relacionada com o desenvolvimento do país.
Nos últimos dez anos observamos que as políticas governamentais de
distribuição de renda contribuíram com a promoção da qualidade de vida
da população. Todavia, as leituras dos resultados dessas políticas não podem
desconsiderar as outras políticas públicas que também contribuíram com
esta melhoria, como o Programa Nacional de Educação e Reforma Agrária
(Pronera) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), bem como a po-
lítica de reforma agrária.
Estas são políticas emancipatórias de referências que estão sendo re-
plicadas em outros países da América Latina e África. Em artigo recente,
Miranda (2013, p. A2) destaca apenas o resultado do Bolsa Família no pe-
ríodo de seca (2012/2013), não se referindo às outras políticas que estão
associadas. Em suas palavras: “O programa garante alimentação a quase
todas as famílias do semiárido nordestino”, “ao contrário do que ocorria no
passado, não houve ondas de saques, nem deslocamentos de flagelados, nem
a organização de frentes de trabalho pelo governo, nem a invasão de cidades
ou ataques a armazéns em busca de comida. Não existem campanhas na
televisão para arrecadar alimentos para as vítimas da estiagem” (Miranda,
2013, p. A2).
O Nordeste é a maior região camponesa do Brasil e, embora empobre-
cidos, estes camponeses contribuem significativamente para o abastecimen-
to da região, como os censos agropecuários têm registrado. O Bolsa Família
deve ser considerado somente na articulação com outras políticas como a
reforma agrária, PAA e Pronera.

34
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

As experiências recentes de construção de políticas públicas têm demons-


trado que a participação popular é fundamental para o sucesso dessas políti-
cas. O Nordeste é um exemplo de que a questão agrária pode ser minimizada
e transformada em política de desenvolvimento, desde que os movimentos
camponeses mantenham-se protagonistas de políticas que defendam as rela-
ções sociais, familiares e comunitárias e seus territórios. Essa compreensão é
fundamental para mudar o rumo do desenvolvimento desigual. Superar a vi-
são do paradigma do capitalismo agrário de submeter o campesinato à lógica
do agronegócio é condição essencial para essa superação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensar políticas públicas sem considerar as especificidades das relações
sociais na produção de seus territórios condena o campesinato à subordi-
nação ao modelo de desenvolvimento hegemônico: o agronegócio. O que
propomos, neste artigo, é superar esta postura falaciosa, defendendo o pro-
tagonismo dos movimentos camponeses na elaboração de modelos desen-
volvimento da agricultura camponesa para o Brasil.
Quase dois séculos de história são suficientes para nos convencer que
o capitalismo não é o único modelo de desenvolvimento da agropecuária,
que o campesinato não foi destruído pelas relações capitalistas e que conti-
nua sendo fundamental para a produção de alimentos, fibras e agroenergia.
Mas o cenário futuro não é tão promissor. Se os governos não enfrentarem a
questão agrária e continuarem se baseando no capitalismo agrário, a confli-
tualidade tende a se multiplicar. A Amazônia tem sido uma área de escape
para os conflitos, especialmente com a regularização fundiária. Todavia, a
fronteira agrícola está se fechando e as terras da União não serão suficientes
para fazer a reforma agrária. A desconcentração fundiária acontece princi-
palmente pela desapropriação. O enfrentamento entre agronegócio e cam-
pesinato tende a aumentar.
A reforma agrária continua sendo um tema atual. As mudanças agrá-
rias dos últimos 50 anos e os 30 anos da experiência brasileira de reforma
agrária ofereceram diversos parâmetros para analisarmos as políticas públi-
cas resultantes desse processo a partir das demandas dos movimentos cam-
poneses no Brasil. Esta é uma forma de fortalecer a agricultura brasileira,
diversificando modelos e oferecendo a outros países uma referência de de-
mocratização do campo.

35
Bernardo Mançano Fernandes

REFERÊNCIAS
ABRAMOVAY, Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. Campinas: Huci-
tec/Anpocs/Editora da Unicamp, 1992.
ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
CALDART, Roseli Salete. Pereira, Isabel Brasil Alentejano, Paulo e Frigotto, Gaudêncio.
(orgs.) Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro: São Paulo: Escola Politéc-
nica de Saúde Joaquim Venâncio: Expressão Popular, 2012.
CAMACHO, Rodrigo Simão. “Paradigmas em Disputas na Educação do Campo”. Re-
latório de Qualificação de Doutorado, 2013. Programa de Pós-graduação em Geo­
grafia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista,
campus de Presidente Prudente.
CAMPOS, Janaina Francisca de Souza. Leituras dos territórios paradigmáticos da Geogra­
fia Agrária: análise dos grupos de pesquisa do Estado de São Paulo. Tese (Geografia).
Programa de Pós-graduação em Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade Estadual Paulista, campus de Presidente Prudente, 2012.
CARVALHO, Horácio Martins. O campesinato no século XXI: possibilidades e condicio­
nantes do desenvolvimento do campesinato no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2005.
DATALUTA. Relatório Dataluta 2013. Presidente Prudente: Nera, 2013.
DI GIOVANNI, Geraldo. Nogueira, Marco Aurélio (orgs.). Dicionário de políticas públi­
cas. São Paulo: Fundap: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2013.
FELÍCIO, Munir Jorge. Contribuição ao debate paradigmático da questão agrária e do
capitalismo agrário. Tese (Geografia). Programa de Pós-graduação em Geografia da
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista, campus de
Presidente Prudente, 2011.
FERNANDES, Bernardo Mançano Fernandes. Construindo um estilo de pensamento na
questão agrária: o debate paradigmático e o conhecimento geográfico. (Livre-Docência
em Geografia). Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista,
campus de Presidente Prudente, 2013.
_____ . Questão Agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial in: BUAINAIN,
Antônio Márcio (editor). Luta pela terra, reforma agrária e gestão de conflitos no Bra­
sil. Campinas: Editora da Unicamp, 2008, p. 173-224.
_____ . Reforma agrária e modernização no campo in: Terra Livre, Geografia, Política e
Cidadania, n. 11 e 12. Editora: AGB, 1996.
_____ ; WELCH, Clifford Andrew e GONÇALVES, Elienai Constantino. Os usos da
terra no Brasil. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.
GRISA, Catia. Diferentes olhares na análise de políticas públicas: considerações sobre o
papel do Estado, das instituições, das ideias e dos atores sociais. Sociedade e Desen­
volvimento Rural online; v. 4, n. 1, jun. 2010, p. 96-116. Disponível em: www. ina-
grodf.com.br/revista. Acesso em: 31 ago. 2014.
_____ . Políticas públicas para a Agricultura Familiar no Brasil: produção e institucionali­
zação das ideias. Doutorado em Ciências Sociais, Desenvolvimento, Agricultura e
Sociedade. Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento,

36
Políticas públicas e questão agrária: bases para o desenvolvimento territorial camponês

Agricultura e Sociedade (CPDA). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Univer-


sidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), 2012.
JAPIASSU, Hilton. Introdução ao Pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1979.
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Plano
Agrícola e Pecuário 2013/2014. Mapa: Brasília, 2013.
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO. Plano Safra da Agricultura
Familiar 2013/2014. MDA: Brasília, 2013.
MIRANDA, Evaristo Eduardo. “A seca e o Bolsa Família”. O Estado de S. Paulo, 30 de
março de 2013, p. A2.
MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores. Plano Camponês: da agricultura camponesa
para toda a sociedade. s.l. MPA, 2012.
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Programa Agrário do MST. São
Paulo: MST, 2013.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Barbárie e Modernidade: as transformações no campo
e o agronegócio no Brasil. Terra Livre, 2004, v. 2, n. 21.
_____ . A geografia agrária e as transformações territoriais recentes do campo brasileiro,
in: ALESSANDRI Carlos, Ana Fani (org.) Novos caminhos da geografia. São Paulo:
Editora Contexto, 1999.
_____ . A agricultura camponesa no Brasil. São Paulo: Contexto, 1991.
SEARLE, John R. Intencionalidade. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SILVA, Valter Israel da. Caminhos da afirmação camponesa: elementos para um plano cam­
ponês. s.l. MPA, s.d.
SOUZA, Celina. Políticas públicas: uma revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre,
ano 8, n. 16, jul./dez. 2006, p. 20-45.

37
O CAMPESINATO ENTRE A SEGURANÇA E A
SOBERANIA ALIMENTAR1

Eraldo da Silva Ramos Filho

INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a sociedade global assistiu a uma miríade de even-
tos, cuja sucessão de ocorrências tem se dado em velocidade tão vertigino-
sa que nos induz a uma sensação de permanente efemeridade, desconexão
intrínseca e condição conjuntural. Nos anos 1990, propalou-se a globali-
zação multidimensional e seu meio técnico-científico-informacional em
transformação.
No ocaso do século XX, sobrevivemos ao Bug do Milênio, tornando-
-nos ainda mais reféns do monopólio dos softwares. No crepúsculo do sécu-
lo XXI, as ações imperialistas do Norte sofreram contundente contestação
nos eventos conhecidos como 11 de Setembro de 2001. Assistimos atônitos,
como desdobramento, ao início de uma guerra jamais vista, que além de
possuir data marcada para iniciar, ofertava a possibilidade de acompanhar
sua re(a)presentação pelos circuitos midiáticos das corporações oligopolistas
da comunicação mundial.
O motivo da guerra foi a ganância de abertura do território para que o
capital pudesse buscar novos fronts de expansão, como suspiro para sua crise
estrutural. Destruição, dominação de territórios, espoliação de recursos (na-
turais e humanos) e globalização do medo foram travestidos de “libertação”.
Antes que a crise estrutural viesse à tona para a população mundial, os
dirigentes do cassino global adotaram expedientes midiáticos fundados na
barbárie, como a decapitação, pelos EUA, do presidente iraquiano deposto
Saddam Hussein e a cinematográfica suposta captura de Osama Bin Laden
com a posterior ocultação do seu cadáver, em 2011.
1
As reflexões expostas neste artigo decorrem de pesquisas realizadas com auxílio financeiro
do Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Apoio à
Pesquisa e ao Desenvolvimento Tecnológico do Estado de Sergipe (Fapitec) e da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Eraldo da Silva Ramos Filho

A produção da guerra e os artifícios cinematográficos para difusão do


medo mais uma vez não surtiram efeito contra a história. A crise estrutu-
ral do capitalismo tornou-se notória, pois passou a ser vivida no centro do
sistema. Em 2006, agravou-se profundamente nos Estados Unidos e foi as-
sumida publicamente pelo governo em março de 2007, quando diferentes
instituições de crédito que operavam com empréstimos hipotecários (Sub­
prime), cartões de crédito, aluguel de veículos etc., sofreram grandes perdas
de lucratividade, arrastando consigo vários bancos privados e afundando as
principais bolsas de valores do mundo.
Vários bancos decidiram transformar os empréstimos hipotecários em
papéis que foram vendidos a outras instituições financeiras. Os gigantes
usuários estadunidenses anunciaram prejuízos bilionários e pressionaram
o governo para prestar-lhes socorro. Em julho de 2007, a crise do crédito
hipotecário provocou a falta de dinheiro disponível para saque imediato dos
correntistas, o que os economistas denominam de crise de confiança.
Foi somente em setembro de 2008 que o acúmulo das perdas levou ao
desespero os usurários-especuladores, materializado em uma sucessiva onda
de falências, cujo exemplo emblemático é a insolvência do banco Lehman
Brothers que provocou a maior queda do índice Dow Jones na história do
mercado financeiro. Este conjunto de eventos foi propalado como a Crise
Financeira Mundial de 2008. Em curto período, a crise se estendeu para a
Europa, assolando a zona do euro. Os governos dos Estados nacionais, acos-
sados pelos grandes banqueiros, optaram por salvar os capitalistas e corroer
os direitos dos trabalhadores.
A cobertura da mídia em torno da crise tratou de difundir o argumento
de que este era mais um evento passageiro e que o Estado seria o paladino
do controle da situação. Como forma de legitimação desta tática, promove-
-se a fragmentação da realidade e propala-se um cenário de diversas crises
supostamente desconexas que seriam superadas agilmente; bastaria confiar
no Estado e fazermos, cada qual, sua parte.
No interior desta crise estrutural do sistema do capital encontramos
um conjunto de crises (ambiental, climática, alimentar, energética etc.) que
são partes indissociáveis e interdependentes, que somente podem ser com-
preendidas na sua permanente interação com o todo em seu movimento
histórico. As leituras parciais e fragmentadas da realidade buscam ocultar o
caráter universal, o alcance global, a condição permanente da crise estrutu-

40
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

ral do capital (Mészáros, 2011). Com o auxílio das corporações midiáticas


oblitera-se a desumanidade desta crise civilizatória, e dentre as manifesta-
ções destacamos a crise alimentar mundial que vivemos na atualidade, cuja
maior gravidade verifica-se desde 2007/2008 com a alta exorbitante do pre-
ço dos alimentos.
A consequência imediata da crise mundial dos alimentos foi o lúgubre
crescimento do número de famintos no mundo, que segundo a Organiza-
ção das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) atingiu o
contingente de um bilhão de seres humanos. Estes processos desencadeiam
diferentes reflexões e proposições de soluções. A adoção de um percurso
analítico envolve uma posição de método, ou seja, um pensamento filosófi-
co-político construído no movimento da história.
Para o atual diretor da FAO, José Graziano da Silva, esta situação gera
uma importante oportunidade de negócios, pois abre possibilidades de in-
vestimentos financeiros na agricultura capazes de reduzir a pobreza e aliviar
esta desumanidade com a adoção da fórmula do assalariamento e progra-
mas de transferência de renda do Estado para os mais pobres com vistas à
promoção da segurança alimentar. Em contraposição, para os movimentos
camponeses esta problemática deve ser superada a partir da desconcentração
da terra, construção de processos de autonomia e soberania alimentar.
Diante desta conjuntura político-econômica internacional, proponho
este ensaio científico, elaborado a partir de uma trajetória de diálogo com
pesquisadores e movimentos socioterritoriais na América Latina, bem com a
realização de pesquisas científicas que abordam a questão agrária brasileira.
Objetivo uma aproximação às gêneses, diretrizes e tradução em políticas po-
líticas das plataformas da segurança alimentar e soberania alimentar, inclu-
sive para problematizar o sentido das políticas públicas de Estado/governo
voltadas à agricultura e para o campo.
O presente texto está organizado em cinco seções, ademais desta intro-
dução. Na primeira, discuto as conflitualidade entre os paradigmas do ca-
pitalismo agrário e da questão agrária. Na segunda seção, recupero o papel
da agricultura nas fases do capitalismo comercial, industrial e financeiro.
Em seguida, remeto ao leitor uma discussão teórica sobre campesinato, suas
formas de organização em movimentos socioterritoriais para disputar terri-
tórios e políticas públicas. Na quarta seção, discuto a segurança alimentar e
o desenvolvimento territorial e, por fim, como guisa de conclusão, apresento

41
Eraldo da Silva Ramos Filho

os fundamentos da soberania alimentar como prática política internaciona-


lizada do campesinato.

A QUESTÃO PARADIGMÁTICA E AS ANÁLISES SOBRE OS


PROCESSOS GEOGRÁFICOS NO CAMPO
A compreensão sobre o desenvolvimento do capitalismo na agricultu-
ra, particularmente da questão agrária e seus componentes, varia de acordo
com o paradigma de explicação adotado. Entendo paradigmas como pen-
samentos teóricos e políticos que apresentam distintas leituras da questão
agrária, do desenvolvimento do campo e da reforma agrária e, na realidade,
se materializam em diferentes projetos para o tratamento dos problemas.
Desde esses pontos de vista, temos várias compreensões que se intera-
gem, se misturam, se distanciam e se enfrentam, contribuindo ora para o
seu desenvolvimento, ora para o seu emperramento. Na atualidade, a diver-
sidade de pensamentos que analisam o campo na América Latina pode ser
organizada em duas vertentes: o Paradigma do Capitalismo Agrário (PCA)
e o Paradigma da Questão Agrária (PQA). Ambas estabelecem uma con-
flitualidade em torno da formulação de pensamentos que disputam o Esta-
do, as políticas públicas e impactam a realidade (Fernandes, 2005; Felício,
2011).
As teorias que compõem o Paradigma do Capitalismo Agrário (PCA)
podem ser organizadas em duas tendências complementares. A primeira é
a tendência da agricultura familiar, cuja concepção prega que não há con-
tradição entre o campesinato e o agronegócio, mas sim, complementaridade
entre ambos, desde que ocorra a metamorfose do camponês em agricultor
familiar, chegando até o sofisma do agronegocinho. A segunda é aquela que
defende o agronegócio altamente globalizado como saída para o desenvol-
vimento dos países.
Para o PCA a prosperidade da agricultura perpassa a expansão da
agricultura capitalista de larga escala integrada ao mercado globalizado.
Nesse cenário, busca-se o esvaziamento político do conceito de campesi-
nato e a construção do conceito de agricultor familiar como um estágio
evolutivo superior. Por agricultores familiares classificam-se e identificam-
-se os pequenos produtores agropecuários que conseguem incorporar prá-
ticas produtivas modernas; os que se inserem nas redes globais de informa-
ção e se articulam nos mercados completos, mesmo que essas condições se

42
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

deem mediante a integração do camponês às corporações agroindustriais


e agroalimentares resultantes de formas espúrias de exploração, subordi-
nação e expropriação.
Esse paradigma defende a especialização da produção em determina-
dos sistemas agrários e a diferenciação dos agricultores como processos do
desenvolvimento do capitalismo agrário, de maneira que aquele sujeito que
não obtiver o sucesso no seu empreendimento é o próprio culpado por seu
destino, e sua pobreza deve ser resolvida com políticas de transferência de
renda emanadas pelo Estado ou mediante a venda da força de trabalho nos
empreendimentos agropecuários próximos ao lote familiar ou em atividades
no espaço urbano. Esse processo de proletarização é denominado por este
paradigma como pluriatividade.
Para os causídicos do paradigma do capitalismo agrário (PCA) (Lamar-
che, 1993 e 1998; Abramovay, 1998; Veiga, 1991), a questão agrária foi subs-
tituída pelo desenvolvimento rural, pelo desenvolvimento rural sustentável
e pelo desenvolvimento territorial rural, ora utilizados como sinônimos, ora
adotados como etapas de um mesmo processo (expansão do capitalismo na
agricultura).
Nesse paradigma o território é identificado com a escala local. O terri-
torial evoca a participação e a construção de consensos entre os mais pobres
do campo, os gestores de políticas públicas e os empresários e empreende-
dores, na busca pela articulação das políticas públicas, com a finalidade de
desencadear a mitigação dos cenários de pobreza e, assim, promover o de-
senvolvimento (capitalista).
Embora oponham o territorial à região como unidade de planejamento
estatal, convencionou-se partir de determinados critérios pré-estabelecidos
(culturais e identitários, densidade demográfica e índice de desenvolvimen-
to humano baixos, demandas do Ministério do Desenvolvimento Agrário
etc.), agrupar áreas de municípios para a conformação do que prefiro deno-
minar de pseudoterritório ou área delimitada.
Objetiva-se, no contexto da área delimitada (pseudoterritório), articular
sujeitos antagônicos em fóruns colegiados entre representantes dos poderes
públicos governamentais, entidades de classe e organizações da sociedade
civil, de maneira a constituir ambientes forjadores de participação dos mais
pobres, visando o estabelecimento de consensos (ou legitimação) sobre o
direcionamento dos recursos financeiros do Estado voltados à estruturação,

43
Eraldo da Silva Ramos Filho

desenvolvimento e/ou fortalecimento de cadeias produtivas, frequentemente


complementares aos anseios do capital.
Por sua vez, o Paradigma da Questão Agrária (PQA) também apresenta
duas tendências. Uma fundada no pensamento clássico que tem sua gênese
com Kautsky (1986) e Lenin (1985), os quais defendiam que o campesina-
to teria o seu fim a partir dos processos de diferenciação, expropriação ou
sujeição como consequências das grandes explorações capitalistas, pressu-
pondo, portanto a suplantação do trabalho assalariado pelo assalariamento.
Estes autores estavam pensando na via revolucionária e no protagonismo do
proletariado.
Outra tendência é a campesinista, que se fundamenta em autores con-
temporâneos como Chayanov (1981), Shanin (1980, 2008), Martins (1991,
1995), Oliveira (1997, 2007), Fernandes (2005, 2001) e Verges (2011).
Em Martins (1995), encontramos reflexões sobre a sujeição da renda
da terra ao capital e o novo sentido da luta pela reforma agrária. Fernandes
(2005, 2001) compreende que a questão agrária é uma problemática estru-
tural do capitalismo que expressa o desenvolvimento da agropecuária e das
lutas dos trabalhadores, portanto, trata-se de uma problemática insuperável.
Oliveira (1997, 2007) compreende que, na lógica desigual, contradi-
tória e combinada do desenvolvimento da agricultura no capitalismo, as
possibilidades de criação e recriação do campesinato se dão por meio dos
seguintes processos econômico-geográficos: arrendamento da terra, migra-
ção, sujeição da renda da terra ao capital e resistências camponesas, que
Fernandes (1996, 2001) destaca como a espacialização da luta pela terra e a
territorialização da reforma agrária.
No campo, o capital impulsiona um modelo de desenvolvimento que
perpassa o controle da terra com vistas à produção de produtos que tenham
valor de troca e, sobretudo, à circulação de mercadorias agrícolas e/ou mine-
rais. A dominação da terra pode, não raro, servir como instrumento de espe-
culação, manifestação do rentismo fundiário. Portanto, concretiza possibili-
dades de apropriação de lucro extraordinário, obtenção de prestígio e poder
político, barganhas sob a forma de créditos financeiros etc. O sociólogo José
de Souza Martins (1991) denominou este processo de terra de negócio.
A afirmação de que o processo de expansão do capital no campo é de-
sigual, contraditório e combinado significa que o capital, ao se expandir no
campo, expande as relações de produção capitalistas ou o assalariamento,

44
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

destruindo as relações de produção não capitalistas fundamentadas no tra-


balho familiar. Neste caso, o capital expande-se incorporando mais terras
sob o seu domínio. Contraditória e concomitantemente, esta expansão pode
criar, no interior destes domínios, relações de produção não capitalistas,
como a escravização do trabalho que se dá na agricultura.
O movimento do exercício de poder de uma determinada classe social
sobre o espaço geográfico, impondo suas intencionalidades sob as formas
de produção, distribuição, circulação e consumo, compreende-se à luz do
geógrafo Claude Raffestin, em sua obra Por uma Geografia do Poder, como
territorialização. Portanto, a territorialização do capital, no campo, dá-se
mediante a ampliação dos territórios incorporando mais terras, o que Oli-
veira (1997) denomina territorialização do capital monopolista.
Concomitantemente, em outros espaços, o próprio capital, de maneira
contraditória, (re)cria o campesinato que ele mesmo destruiu, agora sob o
seu controle, através dos arrendamentos, compra e venda da terra, subordi-
nação da produção e do trabalho familiar camponês, com a finalidade de
subordinar os territórios camponeses para a produção de matérias-primas
demandadas pela agroindústria, configurando a monopolização do território
camponês pelo capital monopolista.
Para esse paradigma, a reforma agrária é compreendida como uma po-
lítica importante de distribuição da terra, forma de impedir a intensificação
da expropriação e promoção da justiça social. O mercado e a capitalização
são processos que devem ser pensados no campo da luta e da resistência. Ao
contrário dos outros paradigmas, nesse, a luta pela terra é considerada como
condição essencial para a formação do campesinato. Portanto, terra de tra-
balho, conforme cunhou Martins (1991).
Dessarte, as análises sobre os processos que se dão no campo exigem
certa coerência quanto ao ferramental teórico-político diante dos objetivos
previstos. A incorporação de um caminho ou outro certamente culminará
em resultados distintos, opostos. Para avançar com a elucidação dos objeti-
vos propostos neste artigo, me parece importante cotejar aspectos inerentes
ao papel da agricultura na acumulação capitalista, em diferentes fases.

O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO E A AGRICULTURA


O capitalismo é um modo de produção vivenciado pela humanidade há
apenas cinco séculos. Apresenta como fundamentos centrais a liberdade e igual-

45
Eraldo da Silva Ramos Filho

dade jurídica entre os homens, que legitima a desigualdade das trocas realizadas
entre o capital e o trabalho. A ideologia capitalista propala que o capitalismo
é um modo de produção de mercadorias. Todavia, constitui-se centralmente
como um modo de apropriação privada do mais-valor. Seu processo histórico
de desenvolvimento revela diferentes estratégias para realização da acumulação.
Durante o período do capitalismo mercantil, que vigorou aproximada-
mente entre os séculos XV e XVIII, a estratégia do capital, fundamental-
mente localizado na Europa, foi expandir seus domínios para os territórios
que hoje conformam os países do Sul, mediante a implantação do colonia-
lismo como forma de realizar a dominação das riquezas naturais, do tra-
balho e das mercadorias agrícolas aí produzidas. Esse foi um momento de
produção do capital através de uma acumulação primitiva.
O principal sistema adotado no período foram as plantations, que ope-
ravam com base na crueldade da escravização do trabalho de africanos e po-
vos originários latinoamericanos para explorarem grandes extensões de ter-
ras destinadas à implantação de monocultivos de produtos comerciais. Em
face da ganância por riquezas, povos inteiros foram exterminados, socieda-
des desiguais foram criadas, resultando em um desenvolvimento desigual.
A partir do século XVIII, com a ascensão da indústria moderna, a estra-
tégia para acumulação de capital era a exploração do trabalho assalariado, a
extração da mais-valia. O processo produtivo fabril impôs o controle rigoroso
do tempo do trabalho e deslocou espacialmente o trabalho dos camponeses,
concentrando-o nas cidades como forma de possibilitar sua exploração quan-
do necessário. Este processo criou aglomerações urbanas gigantescas para o
período, que tinham unicamente a função consumidora de meios de vida.
Nesse período a agricultura sofreu profundas transformações, dentre as
quais Kautsky (1986) assinalou:
− a transformação dos camponeses em meros produtores agrícolas, algo
que até aquele momento nunca haviam sido, pois a unidade de produção
familiar era constituída por agricultura e indústria doméstica;
− a propagação de diversas formas de monetarização da vida, impondo
a necessidade de consumo de instrumentos que passavam a ser produzidos
somente pela grande indústria urbana emergente;
− a adoção de diferentes dispositivos e instrumentos de mercadorização
das terras com implantação da propriedade privada do solo, em oposição às
formas comunitárias e consuetudinárias de uso da terra. Neste aspecto, a

46
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

criação e elevação dos impostos sobre o uso da terra contribuiu enormemen-


te para a expulsão do campesinato, provocando a mobilidade do trabalho da
família camponesa para satisfazer os objetivos de acumulação da indústria;
− a imposição da reorientação da agricultura para atendimento das ne-
cessidades das fábricas e da reprodução da vida nos aglomerados urbanos.
Isto exigiu a expansão de complexos agroindustriais fundamentados na pro-
dutividade e geração de lucro; e
− os desenvolvimentos científico e tecnológico foram primordiais na
corrida pela elevação da produtividade do trabalho na agricultura, mediante
a “revolução verde”, a “revolução azul” e a “revolução na pecuária”.
Desde a década de 1950/1960 verifica-se a crise do capitalismo indus-
trial decorrente do esgotamento do sistema fordista e seus objetivos de ajus-
tar o mercado à produção e seus contratos rígidos. A corrida pela expansão
ilimitada do lucro impôs a reestruturação produtiva e o padrão de produção
flexível, baseada, dentre outros fatores, como analisou David Harvey em
sua obra a Condição Pós-moderna (p. 137-138), na mudança tecnológica (au-
tomação); liberação dos mercados; dispersão geográfica para zona de contro-
le do trabalho mais facilmente; precarização, proletarização e imposição da
mobilidade espacial do trabalho, muitas das vezes na escala internacional;
ademais das fusões e medidas para acelerar o tempo de giro do capital.
Essas mudanças na base produtiva e na composição do capital constituí­
ram a ascensão do capital financeiro como forma de acumular globalmente,
emitindo, comprando e vendendo papéis (títulos, ações, debêntures etc.) de
empresas e governos no mercado de ações. A fim de obter maiores taxas de
juros, vale-se da mais avançada tecnologia de comunicações e informação, de
informática, de automação, da microeletrônica e da química fina. Essa forma
de capital volátil, predominante dos países do Norte, impôs uma circulação
em velocidade quase instantânea em quase todos os países do mundo.
Nesse bojo, verificam-se os processos de concentração e centralização
de capitais a partir de fusões, aquisições, formação de monopólios, oligopó-
lios, conglomerados, expandindo o poder de corporações transnacionais que
atuam globalmente, em muitos países ao mesmo tempo, independente de
setor ou ramos (agrícola, serviços, comércio, bancos, redes de varejo alimen-
tar, indústria etc.). Torna-se cada vez mais difícil distinguir o capitalista da
agricultura, do comércio, da indústria, da mineração ou dos bancos. Todos
estão reunidos em uma só empresa.

47
Eraldo da Silva Ramos Filho

Recentemente, no setor agroindustrial brasileiro, acompanhamos a fu-


são da Sadia e da Perdigão, para formar a gigantesca BRF Foods, e a fusão
entre a Aracruz Celulose e a VCP, pertencente ao Grupo Votorantim, for-
mando a Fíbria, atualmente a maior produtora de celulose do mundo. Vale
registrar que ambas as transações contaram com a participação do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aportou,
respectivamente, cerca de R$ 400 milhões no negócio em troca de R$ 10
milhões em ações, e desembolsou aproximadamente R$ 2,4 bilhões.
No final de 2012, o Amber Waves, publicação técnica do Departamen-
to de Agricultura dos Estados Unidos, publicou um relatório que atesta nas
últimas décadas o aumento da concentração do mercado global de insumos
agrícolas. A pesquisa demonstra que 50% do mercado global de sementes/
genética, agrotóxicos, máquinas agrícolas, medicamentos veterinários e me-
lhoramento genético animal são controlados pelas quatro maiores empresas
de cada setor. Se considerarmos as oito maiores empresas de cada setor, o
controle do mercado global variou entre 61 e 72% (tabela 1).

Tabela 1 – Crescimento da concentração do


mercado de insumos agrícolas – 2012
Setor Ano 4 maiores empresas 8 maiores empresas
Índice de controle do mercado global (%)
Sementes e biotecnologia 1994 21,1 29,0
2000 32,5 43,1
2009 53,9 63,4
Agrotóxicos 1994 28,5 50,1
2000 41,0 62,6
2009 53,0 74,8
Máquinas agrícolas 1994 28,1 40,9
2000 32,8 44,7
2009 50,1 61,4
Medicamentos veterinários 1994 32,4 57,4
2000 41,8 67,4
2009 50,6 72,0
Melhoramento genético animal 1994 n.d. n.d.
2000 n.d. n.d.
2006/07 55,9 72,8
Fonte: USDA, Economic Research Service estimates from Fuglie et al. (2011) apud Furglie, K, et al. (2012). Obs: O índice de
concentração mede a participação das vendas no mercado global auferida pelos maiores quatro ou oito empresas do setor.
Tradução: Eraldo da Silva Ramos Filho.

48
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

As corporações transnacionais expandem mundialmente as commodi­


ties globais (grãos e energia) e controlam o comércio agrícola internacional,
sobretudo a partir da imposição dos preços mundiais no interior dos países
e da submissão da política dos Estados Nacionais às normas da Organização
Mundial do Comércio (OMC), levando a situações de dumpping e desnacio-
nalização de empresas nacionais em todo o mundo.
Hoje, o setor primário segue como um importante eixo da acumula-
ção capitalista, que busca sua realização para além da apenas exploração do
trabalho. A terra assume condição estratégica a partir da internacionaliza-
ção de um modelo de agricultura produtivista, atualmente conhecido como
agronegócio.
O agronegócio não deve ser confundido com a grande propriedade ou
com o latifúndio improdutivo. Ele pode ser isto e é também mais amplo
que isto. Compreende-se o agronegócio como um complexo de sistemas de
produção capitalista que envolve a agropecuária de larga escala, a indústria
(alimentos, fertilizantes, implementos, venenos e remédios), finanças (ban-
cos, papéis, empréstimos e financiamentos), centros de pesquisa (engenharia
genética, biotenologia, nanotecnologia), transporte, comunicação, marke­
ting e propaganda, ideologia e conhecimento.
Em um cenário de crise de sobreacumulação de capital (como o dos
tempos atuais), isto é, sumariamente, quando há “registradas como exceden-
tes de capital (em termos de mercadorias, moeda, e capacidade produtiva)
e excedentes de trabalho lado a lado, sem que haja uma maneira de conju-
gá-los lucrativamente a fim de realizar tarefas socialmente úteis” (Harvey,
2005, p. 78), o Estado (compreendido como o aparato institucional for-
mado pelo poder político, governo territorializado e administração pública
regida pelo conjunto de regras constitucionais e suportado pelos aparatos
de coerção social) desencadeia processos de (re)produção do espaço que (re)
criam as condições de promoção de formas lucrativas de absorção de exce-
dentes de capital, e muitas vezes este processo exige a expansão geográfica e
a reorganização espacial (p. 78).
Diante disso, verifica-se neste cenário de crise estrutural do capital o
deslocamento de capitais para os países do Sul na busca pela exploração dos
recursos naturais (terra, água, minérios, biodiversidade etc.) cuja valorização
é definida pelo setor financeiro e homologada pela Rio+20, no âmbito da
economia verde, fundada em ativos dos mercados de carbono. Por isso a cor-

49
Eraldo da Silva Ramos Filho

rida de corporações transnacionais e especuladores para investir na compra


de terras em diferentes países do mundo, seja para garantir reservas de valor,
especular com os alimentos no mercado financeiro, produzir grãos para ex-
portação, seja para transformação em agrocombustíveis.
O processo de expansão desse modelo de agricultura produtivista tem
tentado destruir os sistemas agroalimentares locais e imposto a padroni-
zação da comida ruim dos fast foods, cujo objetivo é facilitar a fabricação
e comercialização dos alimentos no mundo inteiro (Bové e Dufor, 2001).
Tanto faz se estamos na praça de alimentação de um shopping center em
Aracaju, Toronto ou Barcelona. A marca é a da substituição dos alimentos
por substâncias nutrientes, como ômega 3, gorduras trans, gorduras poli-
-insaturadas, ácidos graxos etc.
A busca realizada pelas corporações agroalimentares por lucratividade
com os nutrientes tem provocado alterações drásticas no nosso padrão ali-
mentar, cuja temporalidade é mais rápida até mesmo que uma geração. Nós
devemos estar vigilantes! Para alguns, comer é um ato cultural, no sentido
de uma forma determinada de existir no mundo. A prática de preservar e
consumir a própria comida converte o comer em um ato político, necessário
para combater a tentativa de dominação de povos inteiros, contida na subs-
tituição dos hábitos alimentares tradicionais de um povo pelos nutrientes.
Nesta perspectiva, o modo de vida camponês e a soberania alimentar assu-
mem proeminência.

CAMPESINATO, MOVIMENTOS SOCIOTERRITORIAIS E


POLÍTICAS PÚBLICAS

Para os camponeses, a terra tem um sentido oposto. O acesso e o


controle da terra são primordiais para viabilizar moradia, produção ali-
mentar básica da família, geração dos recursos econômicos necessários à
sua subsistência, realização da cultura e muitas vezes da religião. Portanto,
a conquista e o controle da terra para o campesinato comportam as fun-
ções de moradia, de trabalho, de vida. A terra representa um sonho para
os camponeses expropriados. Quando o acesso a ela converte-se em acesso
ao território, a terra tanto sonhada torna-se o meio que possibilita ampliar
e materializar os sonhos da família, em diferentes planos, dimensões e es-
calas temporais.

50
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

Portanto, território não é apenas terra. Mas é terra, água, cultura, re-
ligião, floresta, política, economia, memória etc. Na seção anterior afirmei
que o capital, ao se territorializar, destrói o campesinato que se fundamenta
em relações de produção não capitalistas. Contudo, os trabalhadores tam-
bém podem ser protagonistas da sua recriação, empreendendo uma luta
contra o capital, na qual as lutas por terras, sobretudo materializadas pe-
las ocupações de terras, têm sido importantes para ampliação do território
camponês no nosso tempo, sobretudo para que organizados em movimentos
socioterritoriais possam contestar o processo de intensificação da concentra-
ção do território.
Em passagem recente pelo Brasil, o professor Theodor Shanin (2008)
nos ajudou a compreender que o campesinato é antes de tudo um modo de
vida extremamente completo e complexo. Apesar de historicamente ter pro-
tagonizado importantes momentos históricos e grandes transformações po-
líticas, o campesinato tem sua vida definida por outros sujeitos. Observa-se
que o controle da política nos países latino-americanos segue nas mãos dos
setores urbanos ou das oligarquias agrárias. Mesmo assim, o campesinato
não fica à espera de que os outros resolvam seus problemas. Esta caracterís-
tica o fortalece. Permanentemente os camponeses exercitam e mantêm sua
criatividade e inventividade e, mais que isso, expressam sua rebeldia!
O fundamento da sua existência reside em uma economia familiar,
na qual o trabalho da família é a principal referência. Os objetivos do seu
trabalho não são guiados pela realização da acumulação. Esta é outra ca-
racterística importante da economia camponesa. Em épocas de crise, as so-
luções não são tão rígidas e dispendiosas quanto as adotadas pelas econo-
mias empresariais e/ou estatais, que são formas econômicas não camponesas
(Shanin, 2008). Os camponeses praticam a ajuda mútua, a solidariedade
comunitária, formas de cooperação simples e complexa, que se estendem e
se entrelaçam entre os membros da família camponesa, entre diferentes fa-
mílias camponesas e entre diferentes comunidades.
Por exemplo, é frequente os camponeses do Estado de Sergipe, Brasil,
reunirem-se para o beneficiamento da mandioca. Duas ou mais famílias
se reúnem no espaço da casa de farinha de uma delas, com os seus sacos
de mandioca ainda in natura. Através de uma divisão geracional e sexual
do trabalho, os sujeitos realizam o beneficiamento da mandioca. A partir
de um trabalho em mutirão elaboram a farinha, a puba, os beijus etc. Os

51
Eraldo da Silva Ramos Filho

resultados são repartidos entre as famílias que participaram do processo em


quantidades de produtos produzidos, e o pagamento pelo uso da casa de
farinha, com vistas a repor os custos de funcionamento e depreciação dos
equipamentos, pode ser realizado destinando aos donos da casa de farinha
determinado percentual do produto ou certa quantia em dinheiro após a
comercialização deste.
O campesinato é o modo de vida mais antigo da história da humani-
dade. Tem resistido e sobrevivido às diferentes crises econômicas, bélicas,
ambientais etc. Os empresários nos momentos de crise recorrem aos bancos
e governos para pedir socorro. Os camponeses criam suas saídas. Eles têm
muito a nos ensinar.
Os modos de produção empresarial do agronegócio e o de produção
familiar do campesinato possuem formas de realização e objetivos antagô-
nicos, resultados e influências desiguais junto aos governos. O campo do
agronegócio, objetivado pela lucratividade, produz pobreza, destruição da
natureza, concentração do território (poder, terra, água, biodiversidade, tec-
nologia, recursos, ideologia e política). O campo do campesinato objetiva a
dignidade da família, o abastecimento dos mercados, a proteção da natureza
(natural e humana) e a desconcentração do território (partilhando seu con-
teúdo e contingente), logo, produz riqueza.
Nesse antagonismo residem, obviamente, as demandas desses sujeitos
por políticas públicas que possibilitem a construção de modelos de desenvol-
vimento de acordo com os seus interesses. As políticas públicas são instru-
mentos, preferencialmente de Estado, que colocam em marcha um conjunto
das ações para resolver problemas da sociedade. A formulação das políticas
públicas e sua implementação dependem
(...) do jogo de interesses; da correlação de forças estabelecida entre os mo-
vimentos sociais, o capital e o mercado. O sujeito histórico que apresentar
maior força política em dado momento histórico determina a elaboração
da política pública. Todavia, muitas vezes, para garantir que a política pú-
blica elaborada seja implementada nos moldes do segmento social que a
idealizou, é preciso uma intensificação do exercício de poder, em particu-
lar, quando se trata de programas emanados das classes populares (Ramos
Filho, 2009, p. 254).

Aqui, duas ideias precisam ser destacadas: a política pública como ter-
ritório e a necessidade do campesinato fazer-se classe.

52
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

Compreendo o território como um espaço geográfico delimitado, con-


tornado a partir do exercício de poder por dada classe que projeta suas in-
tencionalidades, desencadeando conflitualidades. A delimitação do territó-
rio pode se dar no plano material e imaterial. O território imaterial se dá a
partir do momento em que o controle no espaço mental de determinadas
formas de pensar a realidade, formulações teóricas, leis ou políticas desen-
cadeiam ações materializando-se na realidade. Nesta perspectiva, a política
pública é um território ao derivar da luta entre as diferentes classes em de-
terminada sociedade e em determinado tempo histórico.
A classe não é algo dado a partir da posição dos sujeitos no processo de
produção, resultante do desenvolvimento das forças produtivas ou mesmo
da aplicação de formulações teóricas à realidade. Efetivamente, é a realida-
de que contribui para produção da teoria, que por sua vez contribui para o
desvendamento e explicação da realidade. Essa é (ou deve ser) uma carac-
terística pertinente ao trabalho dos intelectuais. Concordo com Thompson
(2001, p. 274) quando afirma que
(...) as classes não existem como entidades separadas que olham ao redor,
acham um inimigo de classe e partem para a batalha. Ao contrário, para
mim, as pessoas se veem numa sociedade estruturada de um certo modo
(por meio de relações de produção fundamentalmente), suportam a ex-
ploração (ou buscam manter poder sobre os explorados), identificam os
nós dos interesses antagônicos, debatem-se em torno desses mesmos nós e,
no curso de tal processo de luta, descobrem a si mesmas como uma clas-
se, vindo, pois, a fazer a descoberta da sua consciência de classe. Classe e
consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um
processo histórico real.

É no processo de identificação de um determinado conjunto de proble-


mas que os sujeitos, no movimento do fazer histórico, buscam a construção
de possibilidades e condições materiais para a superação dos mesmos e a
transformação das suas realidades. Este movimento pode desembocar em
manifestações coletivas, compreendidas como todo modo de agrupamento
com a finalidade específica de obter respostas às respectivas demandas.
A identificação dos problemas antagônicos pode gerar, ainda, formas
organizativas coletivas que exigem delimitação e identificação dos seus in-
tegrantes, elaboração de uma matriz discursiva, retenção de referenciais his-
tóricos e teóricos da luta, até a delimitação de estratégias e um programa

53
Eraldo da Silva Ramos Filho

de ação. Estes componentes dos movimentos sociais pressupõem uma per-


manência temporal. As ações praticadas por um dado movimento social
podem produzir transformações determinadas na forma de estruturação da
sociedade.
Um conjunto de movimentos sociais tem, no corpo do seu programa de
ação, questões fundamentalmente espaciais. É nesse raciocínio que se inse-
re o campesinato. É central para existência o direito de acesso à terra, com
vistas à realização de relações de produção não capitalistas, materializadas
no trabalho familiar.
Segundo Fernandes (2005b, p. 7), “alguns movimentos transformam
espaços em territórios, também se territorializam e são desterritorializados
e se reterritorializam e carregam consigo suas territorialidades, suas identi-
dades territoriais constituindo uma pluriterritorialidade.” Assim constituem
um movimento socioterritorial, compreendido como
(...) uma organização que tem como objetivo criar as capacidades de in-
troduzir novas formas de apropriação e uso dos territórios. Seu objetivo
é a instauração de uma nova territorialidade. Essas novas territorialida-
des implicam transformações nas relações sociais e na configuração dos
lugares. Na constituição do território, o espaço é apropriado de forma a
fazer dele o espaço da ação. Este espaço é formado por seus participantes,
líderes e mediadores, todos eles sujeitos da ação política que tem na sua
territorialidade a legitimação de sua ação. (...) Todo movimento socioter-
ritorial é ao mesmo tempo um movimento pela autodefinição. Busca-se
afirmar uma representação de si mesmo, como indivíduo ou grupo, que
se apropria de um espaço. Esta autodefinição constitui-se dentro de um
espaço maior, onde as relações de poder estão arranjadas de forma a dar
sentido ao ordenamento no território. Impor sua territorialidade, impri-
mir no espaço o conjunto de seus valores, ideias e vontades, faz com que
a conquista do território seja um trunfo para os movimentos socioterrito-
riais (Pedon, 2009, p. 175).

Nessa perspectiva, o campesinato tem saltado da condição de sujeito


individual e se constituído em sujeito coletivo, organizando a luta política
internacional em defesa dos territórios camponeses a partir da articulação
transnacional de movimentos socioterritoriais que atuam desde as escalas
local, regional, nacional e transnacional, até a Via Campesina. Esta tem sido
uma estratégia para a elaboração de uma matriz de existência alternativa à
expansão capitalista, que busca superar as dinâmicas impulsionadas pelas

54
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

políticas públicas, nacionais e transnacionais, de segurança alimentar e de-


senvolvimento territorial, que abordarei a seguir.

APONTAMENTOS SOBRE A GÊNESE DA SEGURANÇA


ALIMENTAR E AS POLÍTICAS PÚBLICAS
Na virada do século XXI emergiu uma nova governança global que se
fundamenta no compromisso dos governos com a redução da pobreza, par-
ticularmente para atingir os Objetivos do Milênio2 (ODM). No contexto
desta governança, muitas ações, diversas políticas e uma multiplicidade de
programas e instituições têm se fundamentado nos esforços de promover,
garantir e ampliar a segurança alimentar.
A gênese da segurança alimentar remonta ao final da Primeira Guerra
Mundial, em 1918, quando os governos de um conjunto de Estados belicis-
tas perceberam que poderiam ser dominados, caso um inimigo controlasse
a produção e a oferta de alimentos. Isto desencadeou esforços, em período
de guerra, buscando a provisão de alimentos como questão de segurança
nacional, tanto para evitar a proliferação de motins de fome como também
para garantir os alimentos necessários às forças militares. Estas duas preo-
cupações impulsionaram ações para garantir a capacidade dos Estados de
produzir, armazenar e distribuir os alimentos em segurança.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a destruição multidimensio-
nal da Europa, verificou-se a estratégia geopolítica dos EUA em articular a
criação do Plano Marshall e financiar a criação de organismos financeiros
multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mun-
dial (BM), o Acordo Geral de Tarifas (Gatt), a Organização das Nações
Unidas (ONU) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Ali-
mentação (FAO), com vistas a reconstruir a Europa pós-guerra e forjar a aju-
da alimentar para os países que tiveram seus espaços alimentares destruídos.

2
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) previram até o ano de 2015: reduzir à
metade o quantitativo de pessoas em situação de pobreza e extrema pobreza; proporcionar que
crianças de todo o mundo possam terminar um ciclo completo de ensino primário; eliminar a
desigualdade de escolarização entre os gêneros; reduzir em dois terços a mortalidade das crianças
menores de cinco anos; reduzir em 75% a taxa de mortalidade materna; deter a contaminação
por AIDS, especialmente no continente africano; difundir os princípios do desenvolvimento
sustentável nas políticas públicas nacionais; fomentar uma aliança mundial para o desenvolvimento
(FAO, 2012).

55
Eraldo da Silva Ramos Filho

Esse esforço de reconstrução do espaço europeu se confunde com as


estratégias adotadas pelos governos estadunidenses de utilizar os alimentos
como arma política de dominação dos países do Sul e conter a expansão do
socialismo soviético, bem como viabilizar a acumulação mundializada das
corporações agroalimentares estadunidenses.
Segundo a declaração de Earl Butz, ex-secretário de agricultura dos
EUA, “O alimento é um instrumento. É uma arma de negociação para os
EUA” (Time, 1974). Esta posição ficou explícita com a aprovação pelo Con-
gresso Americano em 1954 da Lei n. 480, conhecida como Lei de Comércio
e Desenvolvimento Agrícola, cujo objetivo era “desenvolver futuros merca-
dos comerciais para as exportações de cereais norte-americanos e resolver o
problema dos crescentes excedentes agrícolas dos EUA, despejando-os no
exterior” (Burbach e Flynn, 1982, p. 67).
A Lei n. 480 possibilitou a venda dos excedentes de cereais estaduni-
denses aos Estados aliados, mediante créditos de longo prazo e juros baixos,
possibilitando aos governos revender estes produtos às camadas médias das
populações nacionais. Com os ingressos desta comercialização, perfazia-se
um fundo para o governo aliado dos EUA, conhecido pelo nome de “fun-
dos de contrapartida”. Sob o nome “Programa Alimentos para Paz”, para-
doxalmente, cumpriram papel de assistência econômica estadunidense aos
programas militares dos respectivos governos aliados.
Também houve a reposição de empréstimos em moedas locais que fo-
ram utilizadas pelos EUA no exterior para a “defesa comum”, ou seja, gastos
com embaixadas estadunidenses no exterior e despesas militares como estra-
tégia para conter a expansão do socialismo, impedir o desenvolvimento dos
sistemas agroalimentares locais e impor a dependência de alimentos impor-
tados dos EUA, além de naturalizar os sistemas agroindustriais controlados
por suas corporações (Burbach e Flynn, 1982, p. 68-69).
Para além de garantir a internacionalização dessas últimas, o “Progra-
ma Cooley”, previsto na própria Lei n. 480, garantia empréstimos em mo-
eda local para as corporações criarem novas subsidiárias nos países aliados.
Dentre os beneficiários podemos destacar o Bank of America, a Ralston
Purina e a Cargill Corporation (Burbach e Flynn, 1982, p. 68-69).
Entre as décadas de 1960 e 1970, verificou-se a ampliação dos investi-
mentos em agricultura e desenvolvimento rural pelo Banco Mundial, ban-
cos multilaterais regionais, Fundação Ford e a Fundação Rockefeller, pro-

56
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

vocando a intensificação da revolução verde sob o discurso do combate à


pobreza.
O resultado foi paradoxal! Apesar do crescimento da produção de ali-
mentos, os patamares de pobreza e fome mundial continuaram crescentes.
De maneira que, em 1974, a Organização das Nações Unidas para a Agri-
cultura e Alimentação (FAO) realizou a I Conferência Mundial de Seguran-
ça Alimentar, como tentativa de discutir entre os países-membros soluções
para os problemas da fome, da pobreza e da miséria.
Decorridos 20 anos dessa conferência de alimentação, o paradoxo não
apenas persistia como se apresentava mais grave. O número de famintos no
globo só aumentou e os sistemas agroalimentares se tornaram ainda mais
concentrados e centralizados por um número cada vez menor de corpora-
ções transnacionais, como demonstramos parcialmente em seção anterior.
A fim de, supostamente, buscar uma solução a esse estado de coisas, a
FAO realizou, em 1996, a Cúpula Mundial sobre Alimentação que aprovou
a Declaração de Roma sobre Segurança Alimentar Mundial. Ele prevê: “o
direito de todos a terem acesso a alimentos seguros e nutritivos, em conso-
nância com o direito a uma alimentação adequada e com o direito funda-
mental de todos a não sofrer a fome” e o “esforço permanente para erradicar
a fome em todos os países, com o objetivo imediato de reduzir, até metade
do seu nível atual, o número de pessoas subalimentas até, ao mais tardar, o
ano 2015” (FAO, 1996, p. 1).
Segundo a FAO (1996, p. 310),
(...) para garantizar el acceso a los alimentos, es necesario además de su
disponibilidad en el mercado local, regional o nacional que los precios se
mantengan estables, se incrementen el empleo, los ingresos, la producción
agroalimentaria interna y se creen canales adecuados para garantizar una
distribución equitativa.

Portanto, a segurança alimentar tem como princípios: a disponibilidade


dos alimentos; o acesso aos alimentos ou a capacidade para adquiri-los; a es-
tabilidade na oferta; e a sua salubridade: “(...) todas as pessoas têm em todo
momento acesso físico e econômico a alimentos suficientes e nutritivos para
satisfazer suas necessidades alimentares” (FAO, 1996).
Em que pese esta cimeira reconhecer, pela primeira vez, que a alimen-
tação é um direito humano básico, mas tão somente sinalizar compromissos
de mitigação da fome, os Estados Unidos da América discordou desta de-

57
Eraldo da Silva Ramos Filho

liberação, entendendo a alimentação como um objetivo ou aspiração. Esta


posição, provinda do Estado-Nação mais poderoso do mundo, obviamente
provocou certa perda de energia no encaminhamento resolutivo do pro-
blema na escala mundo, limitando as ações nesta matéria à voluntariedade
dos Estados-Nação. Tal objeção, provavelmente, se fundamenta na amea-
ça que estabelece aos interesses das corporações agroalimentares frente aos
processos de acordo de livre comércio e liberalização da agricultura, e as
conse­quências já conhecidas no aprofundamento da desigualdade, pobreza
e fome (Desmarais, 2013, p. 54).
A perspectiva da segurança alimentar nem sequer questiona o envol-
vimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) na tentativa de
constituir um mercado livre mundial de alimentos, controlado pelos inte-
resses dos países do Norte. O agravamento dos cenários de pobreza, fome e
miséria no mundo tornou a segurança alimentar propalada pela FAO uma
verdadeira governança global. Em geral, os Estados Nação, notadamente
aqueles do Sul, adotam uma agenda interna composta de pelo menos seis
categorias de políticas públicas:
1) política públicas no marco da segurança alimentar e nutricional –
distribuição de alimentos para os mais pobres, restaurantes populares, com-
pra de produtos dos pobres do mundo rural pelo Estado etc.;
2) políticas e programas de ajuda humanitária e nutricional – desti-
nação de alimentos pelos países ricos para aquelas nações em situações de
calamidade, guerras, desastres naturais etc.;
3) políticas compensatórias de transferência de renda – destinação pe-
riódica de auxílios financeiros aos mais pobres com vistas à constituição de
consumidores de produtos de consumo imediato;
4) reforma agrária de mercado – financiamento da compra de terras
para os mais pobres;
5) desenvolvimento territorial rural como substituição às análises e
ações de governo fundamentadas na questão agrária – articulação de polí-
ticas públicas residuais que combatam a pobreza e estabeleçam consensos
entre capital e trabalho;
6) alimentos como arma política – como o que está ocorrendo na re-
construção do espaço agrícola no Iraque pós-invasão estadunidense, no qual
as corporações agroalimentares são as encarregadas da reconstrução do es-
paço agrícola no interior de zonas controladas por forças militares.

58
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

Diante desses apontamentos sobre a gênese e o conteúdo da segurança


alimentar, constata-se sua profunda orientação às necessidades de expansão
do poder político das nações do Norte e instituições supranacionais sobre
os Estados-Nação do Sul e, particularmente, os rumos da vida dos povos
que vivem das águas, terras e florestas. Estes por sua vez, têm construído ao
longo das últimas décadas a plataforma da soberania alimentar como alter-
nativa ao modelo civilizatório capitalista.

A SOBERANIA ALIMENTAR COMO PLATAFORMA DE FUTURO


Em 1996, ao mesmo tempo que os chefes de Estado, reunidos na Cúpula
Mundial sobre Alimentação, discutiam os interesses dos usurários-especula-
dores e das corporações transnacionais em matéria de agricultura, os cam-
poneses já se apresentavam como força política internacional organizada. A
Via Campesina exigia ser reconhecida como delegação oficial. Ela defendia a
soberania alimentar como alternativa para os povos contra a fome e rechaçava
que os “outros” decidissem sobre seu próprio futuro (Desmarais, 2007).
Desde meados dos anos 1990, a articulação internacional de movimen-
tos camponeses (Via Campesina) vem denunciando, através de estudos cien-
tíficos, documentos políticos, campanhas intercontinentais, manifestações
públicas e ações de confronto direto ao negócio rentável da (re)produção da
pobreza e da fome no mundo, a insustentabilidade das políticas neoliberais
e a articulação das propostas de segurança alimentar com a busca por um
mercado agrícola mundial liberalizado e oligopolizado.
Não basta que a população de um país tenha uma produção alimentar
suficiente para seu contingente demográfico, ou que possuam meios eco-
nômicos para comprá-los, ou, ainda, que recebam doações humanitárias
internacionais (acesso). É preciso que cada Nação tenha garantido o direito
de manter e desenvolver sua capacidade de produzir alimentos básicos, em
consonância e respeito com sua(s) respectiva(s) identidade(s) cultural(is) e
produtiva(s), garantindo o direito de produzir o próprio alimento em seu
território e afirmando o direito dos povos de ter o controle e exercer o poder
sobre suas políticas agrícolas e alimentares.
Segundo Desmarais (2007, p. 56-57), soberania alimentar é:
– dar prioridad a la producción de alimentos saludables, de buena calidad
y culturalmente apropiados en primer lugar para el mercado doméstico. Es

59
Eraldo da Silva Ramos Filho

fundamental mantener una capacidad de producción de alimentos basada


en un sistema de producción agrícola diversificado – que respete la biodi-
versidad, la capacidad de producción de la tierra, los valores culturales, la
preservación de los recursos naturales – para garantizar la independencia y
soberanía alimentaria de las poblaciones;
– suministrar precios competitivos para los agricultores (hombres y muje-
res), lo que supone un poder para proteger los mercados internos contra las
importaciones de bajos precios;
– regular la producción de los mercados internos para abolir la creación de
excedentes;
– detener el proceso de industrialización de los métodos de producción y
desarrollar una producción sostenible basada en familia agraria;
– abolir cualquier ayuda a la exportación directa o indirecta.

Portanto, soberania alimentar não é apenas um conceito de maior am-


plitude que o de segurança alimentar. O conceito costuma ser uma delimi-
tação cognitiva-objetiva que confere caráter explicativo a certas dimensões
da realidade objetiva. Na minha avaliação, a soberania alimentar é mais
que um conceito, trata-se de uma plataforma anunciadora de futuro, que se
apresenta antagônica ao projeto da segurança alimentar.
Em um movimento de maior intensificação do processo de concen-
tração, tecnificação e liberalização da produção e circulação dos produtos
agroalimentares, respaldado pela segurança alimentar, a Via Campesina está
defendendo o direito a produzir os alimentos na escala local, priorizando o
autoconsumo e a comercialização dos excedentes sob o controle dos campo-
neses (Desmarais, 2007).
Busca-se a criação de relações solidárias em detrimento da competição,
a alteração no controle do poder do que deve ser produzido e, transferindo-o
para os agricultores, fortalecendo o intercâmbio cultural em detrimento da
homogeneização e estabelecimento das redes de comércio justo, criando as
bases para uma democracia verdadeira (Desmarais, 2007).
O conceito de soberania alimentar articula-se ainda com o controle de-
mocrático dos sistemas alimentares e o reconhecimento da herança cultural
e o pertencimento dos recursos genéticos da humanidade, concebendo que
os quatro recursos essenciais para a realização da produção agrícola são: a
terra, a água, o ar e as sementes.
Esta articulação mundial camponesa coloca-se contrária a toda ini-
ciativa de estabelecimento de patentes sobre as plantas, os animais e seus

60
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

componentes. Isso porque na medida em que as patentes sobre os recursos


são estabelecidas nos moldes atuais, verifica-se uma transferência do poder
sobre esses recursos dos camponeses, das comunidades e da humanidade
para as corporações transnacionais que operam sobre as regras da produ-
ção capitalista global da Organização Mundial do Comércio (Desmarais,
2007).
A biodiversidade articula-se com formas de conhecimento milenares,
ancestrais e populares, nas quais as relações entre natureza e seres humanos
se pautam em referências de vida em equilíbrio, respeito e interdependên-
cia. Nesse sentido, destacam-se as sementes como elemento indispensável
para a vida coletiva no planeta, portanto um bem comum da humanidade
(Houtart, 2013). As relações socias que envolvem as sementes carregam um
acúmulo de conhecimento ancestral e popular no tocante à sua preservação,
conservação e usos agrícolas, alimentares e espirituais/religiosos. Sua trans-
formação genética, e consequente patenteação, subverte a natureza, erosiona
a cultura. Promove uma ruptura com as práticas milenares dos camponeses
de cuidar e de armazenar suas sementes de uma safra para outra, trocar se-
mentes entre comunidades, de produzir conhecimento sobre a manutenção
e a conservação dos recursos naturais. Carrega no seu bojo um processo de
mercadorização da vida, a imposição do consumo dos pacotes tecnológicos,
que para alguns representa a possibilidade de auferir lucratividade e, para
muitos, a perda do equilíbrio ecológico tão fundamental para os sistemas
agrícolas e as economias familiares.
A plataforma da soberania alimentar, ao considerar o modelo de pro-
dução camponês como a referência de futuro, reafirma a tríade terra – tra-
balho – família. Nessa perspectiva, o direito e acesso dos povos à terra e ao
território é essencial para o processo de construção da soberania alimentar.
O direito ao território é o reconhecimento e a garantia da restituição aos
povos originários e tradicionais dos territórios ancestrais.
Vislumbra-se o acesso à terra mediante a realização de reforma agrá-
ria integral, enquanto uma política pública, preferencialmente de Estado,
que garanta a desconcentração da propriedade privada da terra nas escalas
nacionais e locais, que seja acompanhada do conjunto de políticas e progra-
mas produtivos, creditícios, habitacionais, previdenciários, saúde coletiva,
tecnológicos etc., sempre considerando o protagonismo dos trabalhadores
neste processo. À medida que a plataforma da soberania alimentar avança,

61
Eraldo da Silva Ramos Filho

as dimensões da equidade de gênero e geracional, a soberania laboral e a so-


berania energética tendem a se impor (Desmarais, 2007).
Por fim, a construção da soberania alimentar tem sido nas últimas dé-
cadas um instrumento importante do projeto popular camponês em que este
modo de vida se faz classe social e projeta internacionalmente sua luta política.
Neste processo, o campesinato rejeita a subalternidade imposta por aqueles
que controlam o poder político nos diferentes Estados Nacionais e organismos
multilaterais, exercita sua criatividade, pratica a solidariedade internacional e
a resistência propositiva, com isto, (des)constroem a Política e criam desde os
subalternos a política como uma prática de liberdade transformadora.

REFERÊNCIAS
ABRAMOVAY, Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. 2ª ed. São Paulo/
Campinas: Hucitec/Editora da Unicamp, 1998.
ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
ALPESTANA, Davide. A ilusão da escolha in: Urbscape. 28 abr. 2012. Disponível em:
http://urbscapeblog.wordpress.com/2012/04/28/a-ilusao-da-escolha/. Aceso em: 15
maio 2013.
BOVÉ, José; DUFOUR, François. O mundo não é uma mercadoria: camponeses contra a
comida ruim. Tradução de Angela Mendes de Almeida e Maria Teresa Van Acker.
São Paulo: Editora Unesp, 2001.
BURBACH, Roger; FLYNN, Patrícia. Agroindústria nas Américas. Tradução de Waltensir
Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.
CHAYANOV, Alexander V. Sobre a teoria dos sistemas econômicos não capitalistas in:
GRAZIANO DA SILVA, José; STOLCKE, Verena. (orgs.). A questão agrária. São
Paulo: Editora Brasiliense, 1981, p. 133-163.
DEMARAIS, Annette Aurelié. La Vía Campesina: la globalización y el poder del campesi­
nado. Madrid: Editora Popular, 2007.
FAO – Organización de las Naciones Unidas para la Agricultura y la Alimentación.
“TWorld food sumit: declaração de Roma sobre a segurança alimentar mundial e
plano de acção da cimeira mundial de alimentação”. Roma: FAO, 1996. Disponível
em: http://www.fao.org/docrep/003/W3613P/W3613P00.htm.
_____ . “The state of food insecurity in the world: addresing food insecurity in protracted
crises (2010)”. Roma: FAO, 2010.
_____ . “El Estado mundial de la agricultura e la alimentación 2010 – 2011: las mujeres
en la agricultura. Cerrar las brechas de género en aras del desarrollo”. Roma: FAO,
2011.
FAO – Food and Agriculture Organization of the United. “The state of food insecurity in
the world: economic growth is necessary but not sufficient to accelerate reduction of
hunger and malnutrition”. Rome: FAO, 2012.

62
O campesinato entre a segurança e a soberania alimentar

FELÍCIO, Munir Jorge. Contribuição ao debate paradigmático da qeustão agrária e do ca­


pitalismo agrário. Presidente Prudente. Tese Doutorado em Geografia. Faculdade de
Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista”, 2011.
FERNANDES, B. M. MST: formação e territorialização em São Paulo. São Paulo: Huci-
tec, 1996.
_____ . Questão agrária, pesquisa e MST. São Paulo, Cortez, 2001.
_____ . Questão agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial in: BUAINAIN, A.
M. (org.). Luta pela terra, reforma agrária e gestão de conflitos no Brasil. Campinas:
Unicamp, 2005a.
_____ . Movimentos socioterritoriais e movimentos socioespaciais: contribuição teórica
para uma leitura geográfica dos movimentos sociais. Revista Nera, Presidente Pru-
dente, ano 8, n. 6, p. 14-34, jan./jun. 2005b. Disponível em: http://www2.prudente.
unesp. br/dgeo/nera/Revista/Arq_6/Textos%20PDF/Fernandes.pdf. Acesso em: 17
nov. 2006.
FURGLIE, Keith; KING, John; HEISEY, Paul; SCHIMMELPFENNIG. Rising con-
centracion in agriculture input industries influence new farm technologies in: Am-
ber Waves: the economics of food, farming, natural resources, and rural America.
Economic research service/USDA, v. 10, n. 4, dez. 2012. Disponível em: www.ers.
usda.gov/amberwaves.
HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004.
_____ . A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2009.
KAUTSKY, Karl. A questão agrária. São Paulo: Nova Cultural,1986.
LAMARCHE, Hugues (coord.). A Agricultura Familiar: uma realidade multiforme. Cam-
pinas: Editora da Unicamp, 1993.
_____ . (coord.). A agricultura familiar: do mito à realidade. Campinas: Editora da Uni-
camp, 1998.
MARTINS, José de Souza. Expropriação e violência: a questão política no campo. 3ª ed.
São Paulo: Hucitec, 1991.
MARTINS, José de Souza. Os camponeses e a política no Brasil: as lutas sociais no campo e
seu lugar no processo político. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
MÉSZÁROS, István. Crise estrutural necessita de mudança estrutural. II Encontro de
São Lázaro – Conferênia de abertura. Salvador: Universidade Federal da Bahia. Dis-
ponível em: http://www.ffch.ufba.br/IMG/pdf/Conferencia_Meszaros.pdf. Acesso
em: 2 ago. 2011.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Modo capitalista de produção, agricultura e reforma
agrária. São Paulo: Labur Edições, 2007.
_____ . A agricultura camponesa no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Contexto, 1997. (Caminhos
da geografia).
PEDON, Nelson Rodrigo. Movimentos socioterritorais: uma contribuição conceitual à pes­
quisa geográfica. Presidente Prudente. Tese Doutorado em Geografia. Programa de
Pós-graduação em Geografia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita”
– campus de Presidente Prudente, 2009. Disponível em: http://www4.fct.unesp.br/
nera/biblioteca.php.

63
Eraldo da Silva Ramos Filho

RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993.
RAMOS FILHO, Eraldo da Silva. Movimentos socioterritoriais, a reforma agrária de mer­
cado do Banco Mundial e o combate à pobreza rural: os casos do MST, Contag e Maram.
Subordinação ou resistência camponesa. São Paulo/Buenos Aires: Expressão Popular/
Clacso, 2013. Disponível em: http://www.clacso.org.ar/area_r_internacionales/3a2.
php?idioma=port.
_____. “A contrarreforma agrária no Brasil no início do século XXI”, in: IV Forum Estado,
Capital, Trabalho. São Cristóvão: Gepect/NPGEO, 2011a, mimeo.
_____ . Da prisão da dívida ao território da política: reforma agrária de mercado e o com-
bate à pobreza rural. Os casos da Fetase, MST e Maram, in: RUBIO, Ana María
Pérez; DURAN, Nelson Antequera. (org.). Viejos problemas, nuevas alternativas: es­
trategia de luchas contra la pobreza gestadas desde el Sur. Buenos Aires: Clacso-Crop/
Norad, 2011b, v. 1, p. 217-251. Disponível em: http://www.clacso.org.ar/area_r_
internacionales/3a2.php?idioma=port.
_____ . De pobre e sem-terra a pobre com terra e sem sossego: territorialização e territoria-
lidades da reforma agrária de mercado in: FERNANDES, B. M. et al. (orgs.). Lutas
camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas. V. 2, (Coleção História
Social do Campesinato), São Paulo: Nead, MDA, EDUnesp, 2009. Disponível em:
http://www.iica.int/Esp/regiones/sur/brasil/Lists/Publicacoes/Attachments/65/Lu-
tas_Camponesas_vol2.pdf.
_____ . Questão agrária atual: Sergipe como referência para um estudo confrontativo das po­
líticas de reforma agrária e reforma agrária de mercado (2003-2006). Tese Doutorado
em Geografia. Programa de Pós-graduação em Geografia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita” – campus de Presidente Prudente, 2008. Disponível em:
http://www4.fct.unesp. br/nera/biblioteca.php. Acesso em: 3 out. 2008.
SILVA, José Graziano da. “Investir no combate à pobreza deixa um extraordinário re-
torno”. Entrevista concedida a Fabiana Frayssinet. Salvador: Agência de notítcias
Inter Press Service, 7 dez. 2011. Disponível em: http://ips.org/ipsbrasil.net/print.
php?idnews=7783. Acesso em: 15 jan. 2012.
SHANIN, Teodor. A definição de camponês: conceituação e desconceituação: o velho e o
novo em uma discussão marxista. Estudos Cebrap, Petrópolis, n. 26, 1980.
_____ . Lições camponesas in: PAULINO, Eliane Tomiasi; FABRINI, João Edimilson
(orgs.). Campesinato e territórios em disputa. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
THOMPSON, Edward. P. Algumas observações sobre classe e “falsa consciencia” in:
NEGRO, Antonio Luigi; SILVA, Sérgio (orgs.) E. P. Thompson: as peculiaridades dos
ingleses e outros artigos. Campinas: Edunicamp, 2001.
VEIGA, José Eli. O desenvolvimento agrícola: uma visão histórica. São Paulo: Hucitec,
1991.
VERGES, Armando Bartra. Campesíndios: aproximaciones a los campesinos de un continen­
te colonizado. Ecuador: Ediciones La Tierra, 2011.

64
CAMPO, ESTADO E AGENTES
PRIVADOS NO BRASIL
ESTADO E MERCADO NA DEFINIÇÃO DE UMA
REGIÃO AGRÍCOLA MODERNA: PROCESSOS E
CONSEQUÊNCIAS NO TRIÂNGULO MINEIRO1

Mirlei Fachini Vicente Pereira

OS ESFORÇOS INICIAIS DE MODERNIZAÇÃO DA AGROPECUÁRIA


REGIONAL: PRESENÇA E INTENÇÕES DO ESTADO
No Brasil, os anos 1960-1970 são marcados pela constituição de um
sistema de crédito rural e pelo expressivo aumento do investimento estatal
nas atividades de pesquisa voltadas ao campo, especialmente às commodi­
ties muito valorizadas no mercado externo. Tais esforços visaram viabilizar
plantios como o da soja em espaços recém-abertos do território brasileiro,
sobretudo em áreas originalmente cobertas pelo cerrado. Essa é a face da
modernização agrícola do território em um país que visava uma inserção
rápida no sistema capitalista mundial (com amplos esforços de desenvolvi-
mento da indústria, acompanhados de um processo rápido de urbanização),
que inauguraria uma nova etapa de integração do território brasileiro à eco-
nomia mundial que, necessariamente, passava pela integração e extensão
dos nexos capitalistas ao Brasil central. “Nesse sentido, o cerrado era uma
significativa fronteira para a ciência e a tecnologia, onde coexistiam interes-
ses diversos de ordem econômica e política que envolviam as escalas local,
regional, nacional e planetária” (Bernardes, 2005, p. 52).
Foi assim que a técnica e a ciência decisivamente contribuíram para a
reformulação do mapa da produção agrícola no Brasil, expandindo as fron-
teiras da agricultura e redefinindo o uso do território no interior do país.
Criam-se novos extensos (Santos, 1986), que constituem vastas regiões agrí-
colas que, em pouco tempo, substituem gêneros de vida pretéritos (tornados
obsoletos), inserindo uma agropecuária moderna que ganha expressão em
termos de volume e qualidade de produção (com significativa adição de

1
O texto resulta de projeto de pesquisa coordenado pelo autor, com auxílio financeiro da
Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais – Fapemig (APQ 01797-14).
Mirlei Fachini Vicente Pereira

técnica e ciência), induzindo movimentos migratórios, a renovação da in-


fraestrutura, fazendo crescer cidades etc. É a afirmação de um meio técnico
científico (Richta, 1973) que pouco mais tarde é preenchido e regido tam-
bém por um conteúdo informacional (Santos, 1994, 1996), o qual redefine
por completo vastas porções do território.2
Mas as inovações técnico-científicas resultantes da lógica e das ações do
mercado não se dão sem o consentimento e o aporte de ações políticas que
normalmente as antecedem, sendo o Estado responsável por ações funda-
mentais às transformações operadas nos cerrados. É deste modo, e seguindo
a orientação de método expressa por Milton Santos (1985, p. 75), que Esta-
do e mercado figuram como um par dialético, dois subsistemas que, vistos
em conjunto, são importantes para a compreensão dos processos espaciais
em um dado país ou região. Assim, o Estado e o mercado, mas também o
externo e o interno, e os conteúdos que figuram o “novo” e o “velho” (San-
tos, 1985), são forças e variáveis definidoras de situações territoriais, e, me-
todologicamente, constituem ferramentas analíticas capazes de oferecer um
caminho de interpretação para as transformações territoriais e suas implica-
ções, tal como pretendemos avaliar no Triângulo Mineiro.3
As políticas estatais de planejamento implantadas para a moderniza-
ção do território brasileiro no período da ditadura militar, especialmente o
Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (Polocentro) (criado em 1975
e inserido nas metas do II PND), foram essenciais para a consolidação, nos
cerrados do Brasil central e particularmente no Triângulo Mineiro/Alto Pa-
ranaíba, de uma nova maneira de produzir os gêneros agropecuários (Pes-
soa, 1990, 2006). Tendo como principal referência a década de 1970, os
esforços do Estado brasileiro para a conversão dos cerrados (considerados
pouco ocupados e com tênues nexos capitalistas) em espaços cuja ocupação

2
“Mudam as vantagens comparativas naturais, substituídas pelas vantagens comparativas
artificiais; a aceleração da competição entre lugares resulta no envelhecimento rápido dos
lugares e do patrimônio técnico. Imensas áreas são descaracterizadas a fim de exercerem uma
função que lhes foi atribuída por uma ordem fundada na nova fase da acumulação de capital”
(Bernardes, 2005, p. 55).
3
A expressão Triângulo Mineiro designa, neste texto, a porção oeste do Estado de Minas Gerais
compreendida, grosso modo, pelos rios Grande e Paranaíba (formadores do rio Paraná), que
constituem a divisão territorial entre Minas Gerais, São Paulo e Goiás. O IBGE denomina
atualmente essa porção territorial como mesorregião Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.

68
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

e uso são muito voltados para a produção com vistas ao mercado tiveram no
Polocentro o principal esforço político-estatal.
Elegendo pontos estratégicos no território nacional que deveriam figu-
rar como polos de desenvolvimento a partir do fomento a uma agropecuária
moderna, industrializada e voltada ao mercado externo, o município de Rio
Verde (e de certo modo toda a porção sul de Goiás) fora eleito como um dos
espaços estratégicos e, assim, a região do Triângulo Mineiro, especialmente
na área composta pelos municípios de Uberaba e Uberlândia, acabou por
conhecer um conjunto de infraestruturas previstas nesse Programa, viabili-
zando também nas terras mineiras o desenvolvimento de uma agropecuária
moderna.
Para além do Polocentro, uma série de outros programas estatais foi
fundamental para o processo de modernização do campo nessa região. Con-
forme aponta Vera L. Salazar Pessôa (2007, p. 261), “além do Polocentro,
tivemos o PCI (Programa de Crédito Integrado e Incorporação dos Cerra-
dos), o Padap (Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba) e
o Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento
Agrícola da Região dos Cerrados)”. Esses últimos, com marcada atuação
no Triângulo e Alto Paranaíba, como é o caso do Padap (em 1973, com re-
cursos do Estado de Minas Gerais) implantado nos municípios de Ibiá, São
Gotardo, Rio Paranaíba e Campos Altos; e, pouco mais tarde, também os
municípios de Coromandel e Iraí de Minas (além de Paracatu/MG), foram
eleitos como núcleos experimentais pelo Prodecer I, em 1979 (com recursos
do Japan International Cooperation Agency – Jica) (Pessôa, 1990; Bessa,
2007; Santos, 2010).
Podemos afirmar que tais esforços empreendidos nesta região, em pou-
co tempo, tornariam o Triângulo Mineiro um espaço de referência da mo-
derna agropecuária realizada nos cerrados do Brasil central. Se tais políticas
viabilizavam uma agropecuária racionalizada, com estímulos à colonização
(migrantes oriundos especialmente do sul do país e do Estado de São Pau-
lo), destinação de crédito agropecuário e assistência técnica; o próprio terri-
tório também conhece uma nova composição técnica, com a instalação de
infraestrutura de escoamento (com reforço da malha rodoviária a partir dos
anos 1960-1970), de armazenamento e energia, além da adaptação de novos
cultivos aos solos do cerrado (Cleps Jr., 1998, p. 172), preparando a região
para, pouco mais tarde, viabilizar a instalação de grandes grupos nacionais

69
Mirlei Fachini Vicente Pereira

e mesmo multinacionais que operam o processamento, industrialização e


comercialização, principalmente de soja, milho e cana-de-açúcar.
De certo modo, esse “aparelhamento” do território no Triângulo Mi-
neiro ocorreu de forma mais facilitada, tendo em vista que os investimentos
do Plano de Metas realizados no governo de J. Kubitschek, especialmente
para a construção de Brasília, já haviam dotado a região de significativa in-
fraestrutura rodoviária, extensão dos sistemas de comunicação e construção
de usinas hidrelétricas e redes de distribuição de energia (Bessa, 2007, p.
148). As rodovias que atendem a região e permitem a ligação do Triângu-
lo com outras partes do país foram alvo de modernização nos anos 1960 e
1970, quando foi concluída a pavimentação das rodovias BR050 (da divisa
com São Paulo à divisa de Goiás, entre 1962-1968); BR153 (permitindo a
ligação pavimentada do Triângulo Mineiro a Barretos/SP, em 1966), e rodo-
vias BR365 (Uberlândia – Montes Claros), BR452 (Uberlândia – Araxá) e
BR495 (Uberlândia – Prata, e, com acesso pela BR153, a todo o sul do país)
em meados da década de 1970 (Cleps Jr., 1998). Assim, o território estava de
certo modo preparado para integrar-se muito mais facilmente aos ditames
do mercado.
Tal situação é indicativa de um processo “homogeneizador”, que desfaz
fronteiras territoriais e cria as condições básicas que permitem uma valori-
zação ampliada do capital, e que se estende a novas regiões, proposta esta
muito bem elaborada por Carlos Brandão. Nas palavras do autor,
(...) a homogeneização não deve ser associada a nenhuma ideia de afinida-
des ou de solidariedade de uma ‘comunidade’ particular, mas ao movimen-
to universalizante do capital, arrebatando mesmo os espaços mais remotos
a um único domínio. Apenas nesse sentido o capital é homogeneizador e
abarcador. (...) É o capital impondo suas determinações mais gerais e ima-
nentes, buscando a constituição dos equivalentes gerais, dando unidade à
diversidade de relações existentes (Brandão, 2007, p. 72).

Particularmente no que se refere à moderna agropecuária e às investidas


do Estado brasileiro para a sua expansão nos anos 1960/1970, este processo
homogeneizador atinge regiões como o Triângulo Mineiro, além de uma
série de outros fronts que se estabelecem principalmente em Goiás e Mato
Grosso, dissolvendo relações estabelecidas historicamente e que passam a ser
consideradas “arcaicas”, o que no Triângulo Mineiro significa um processo
de inserção e aprofundamento de relações capitalistas de produção que en-

70
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

volvem, entre outros aspectos, a titulação e venda de terras (acompanhada


de sua valorização), as relações assalariadas de trabalho no campo (redefi-
nindo as condições da produção tradicional), e a inserção de novas condi-
ções gerais de produção que viabilizam a moderna agropecuária (infraestru-
tura de escoamento e armazenamento etc.).
É o momento de inflexão do conteúdo “velho”, próprio de outra tem-
poralidade (Santos, 1985), ou seja, de uma tradicional região rural de Minas
Gerais (cujas práticas se decantavam desde o início do século XIX) que, na
década de 1970, dá lugar progressivamente a uma região agrícola forjada
num moderno front de expansão da produção capitalizada e tecnicizada,
que se impõe progressivamente como conteúdo novo. Estavam postas as
condições iniciais para a valorização do capital que, a partir de então, regula
o movimento da produção social e definitivamente insere a função rentista
da terra como uma verdadeira meta.
Esse também é o momento a partir do qual podemos reconhecer
o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba como um conjunto, uma “única
região”,4 “homegeineizada” pelos esforços do Estado ao dotar o território
das condições básicas para a reprodução ampliada do capital. No cam-
po, e a região em estudo é emblemática, este tipo de acumulação ocorre
a partir dos anos 1970, quando a agricultura e a pecuária tradicionais e
não incluídas em circuitos produtivos modernos e integrados às demandas
mais prementes do mercado dão lugar a um processo de reocupação com
culturas voltadas à agroindústria, visando muitas vezes mercados distan-
tes e controlada de modo centralizado por alguns grandes grupos. Como
isso não ocorre sem adaptações e transformações profundas no território,
o Estado é o primeiro agente a impor o novo projeto à região, garantindo
o aprofundamento dos nexos capitalistas a partir da viabilização da infra-
estrutura de território e crédito, permitindo e incentivando a realização da
agropecuária moderna. O ingresso de produtores oriundos principalmente
do sul do país, que adquirem terras baratas com amplo financiamento do
4
O reconhecimento do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba como uma única unidade regional
pelo IBGE ocorreu muito mais tarde. É no censo de 1990 que a mesorregião considerada é
denominada Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Trata-se de um processo homogeneizador para
a expansão da moderna agropecuária, reforçando também a rede urbana que passa cada vez mais
a ser comandada por Uberlândia. A Fundação João Pinheiro, entidade de pesquisa da Secretaria
de Estado de Planejamento de Minas Gerais, ainda hoje, divide tal porção do território em duas
unidades territoriais de planejamento.

71
Mirlei Fachini Vicente Pereira

Estado nos anos 1970 e 1980, redefine o uso da terra na região, agora cada
vez mais racionalizado e visando a outro tipo de renda, com efeito imedia-
to de valorização das terras.
A condição de uma região que ganha importância na produção de
gêneros agropecuários diretamente voltados para as demandas do merca-
do (especialmente o externo), seguido da instalação de grandes agroindús-
trias, foi capaz de acelerar o processo de urbanização, tornando a população
majoritariamente urbana em 1970, além de imprimir-lhe transformações
substanciais.
Assim, e reconhecendo os anos 1970 como década que inaugura na
região um novo período, prenhe de novos significados territoriais, é que o
Triângulo Mineiro se transforma na mais moderna região agropecuária de
Minas Gerais, a partir da inserção de culturas como a soja, o café e a cana-
-de-açúcar (Pessôa, 2006).
Em 1975, o Triângulo Mineiro5 era responsável por quase 90% da
produção de soja, pouco menos da metade de toda a produção de algodão
e quase 40% da produção de milho no Estado de Minas Gerais (IBGE,
Censo Agropecuário). A situação se mantém nos anos 1980, e ainda que
novos espaços de uma agricultura moderna se estabeleçam em outras re-
giões mineiras (como é o caso da soja, que avança também para a re-
gião Noroeste de Minas), a produção realizada no Triângulo continua
significativa para estas culturas, inclusive com o incremento da produção
regional de cana-de-açúcar, quando novas usinas se instalam em Tupaci-
guara (planta hoje localizada em Araporã), Pirajuba, Iturama e Canápolis
(Pereira, 2011). O café produzido no cerrado do Triângulo Mineiro, que
respondia por 2% da produção mineira em 1975, em 1980 alcança 10%
da produção estadual. Como não poderia deixar de ser, gêneros agrícolas
tradicionais conhecem decréscimo significativo da produção, como é o
caso do arroz, por exemplo, (quase 40% da produção mineira localizada
no Triângulo em 1975, e menos de 20% da produção em 1990). Estavam
dadas as condições para a inserção e controle da agropecuária por capitais
externos à região e ao país.

5
Para o ano de 1975, os dados do IBGE se referem somente à região “Triângulo Mineiro”,
excluindo, portanto, os municípios do Alto Paranaíba (que compunha, na divisão do IBGE,
outro recorte regional).

72
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

O ACIONAMENTO DA REGIÃO PELOS CIRCUITOS ESPACIAIS


PRODUTIVOS DE COMMODITIES AGRÍCOLAS: FORÇAS E
ORIENTAÇÕES DO MERCADO
Após os esforços de homogeneização do território empreendidos nos
anos 1960 e sobretudo 1970, o processo seguinte será o de “integração”,
quando investimentos privados encontram situações de inserção e concor-
rência em mercados tornados receptivos ao capital (Brandão, 2007, p. 75-
76). É assim que já na década de 1970 a região recebe grandes projetos de
investimentos industriais, como é o caso das grandes plantas para a produ-
ção de fertilizantes (NPK) em Uberaba, Araxá e Patos de Minas ou, ainda
no final dos anos 1970, a instalação de uma planta de processamento de soja
pelo grupo Algar em Uberlândia (ABC Inco. em 1978) (Cleps Jr., 1998). É
quando
os mercados regionais passam a ser expostos à pluralidade das formas supe-
riores de capitais forâneos. Na esteira da incorporação, multiplicam-se as
interdependências e as complementaridades regionais, que podem acarretar
o aumento tanto das potencialidades quanto das vulnerabilidades regionais
(Brandão, 2007, p. 76).

Desse modo, “o processo integrativo visaria à geração de maior pro-


fundidade e extensão na acumulação de capital” (Brandão, 2007, p. 77).
Na região em análise, o referido processo integrativo ganha maior expres-
são nos anos 1980, quando se instalam grandes plantas agroindustriais
oriundas principalmente de investimentos estrangeiros nos municípios de
Uberlândia, como é o caso de uma grande planta de processamento de
grãos instalada pelo grupo estadunidense Cargill ou, ainda, a criação de
aves pela Granja Resende, mais tarde incorporada pela Sadia (atual BR-
Foods), a produção de sementes em Capinópolis (Cargill), uma agroin-
dústria de leite em Ituiutaba (Nestlé), além de novas usinas produtoras de
açúcar e álcool (Cleps Jr., 1998).
Tal processo estende-se aos anos 1990, quando a Cargill expande suas
atividades tornando seu complexo industrial em Uberlândia um dos maio-
res do mundo ou, ainda, pelos investimentos do grupo Archer Daniels Mi-
dland (ADM) na aquisição das instalações para processamento de grãos
da Sadia. É esse o momento de incorporação e subordinação definitivas da
produção agrícola regional ao capital industrial, consolidando na região o
chamado complexo agroindustrial, tal como descrito por Geraldo Müller

73
Mirlei Fachini Vicente Pereira

(1989). Esta também é a condição para a posterior afirmação da agricul-


tura como uma atividade científica e globalizada, conforme proposição de
Milton Santos (2000), em que agentes globais, atuando na região através
de capitais obedientes às demandas de suas sedes estrangeiras e à lógica do
mercado externo, cada vez mais passam a exercer um controle sobre aquilo
que é produzido.
Esse também é o momento definitivo de inserção da região numa divi-
são territorial do trabalho6 que lhe confere diretamente uma posição subor-
dinada aos ditames da divisão internacional do trabalho, ou seja, quando a
região, assim como o país, voltam-se ao atendimento de demandas longín-
quas, obedecendo a ordens firmadas e realizadas a partir dos novos nexos
externos estabelecidos pelo Estado em parceria com agentes privados.
Tal condição nos remete a pensar que o processo de integração é tam-
bém responsável, no dizer de Carlos Brandão (2007, p. 81-82), pela produ-
ção de uma hierarquia territorial, em que são ampliadas as relações entre
regiões dominantes e regiões subordinadas, sendo que, no caso das regiões
subordinadas, como a própria denominação indica, falta-lhes autonomia de
decisão, gravitando em torno dos interesses das regiões ou países do centro
do capitalismo. Em outras palavras, e para utilizarmos um conceito de Mil-
ton Santos (1995, 1996), trata-se de um acontecer hierárquico, que revela
uma situação de comando e de obediência entre lugares e agentes, no mais
das vezes distantes, de onde emergem e entram em confronto diferentes ra-
zões ou ordens de uso do território, ora externas, ora internas, já que nenhu-
ma impera ou se realiza por completo sobre todo o território. É uma clara
condição de região do fazer (Santos, 2008; Santos & Silveira, 2001), que se

6
“Como afirma Cano (1988), as regiões periféricas passam a ser ‘acionadas’ a partir do comando
da economia do centro. Então, resta tão somente se integrar complementarmente à economia do
polo dinâmico da acumulação, submetendo-se e enquadrando-se a uma hierarquia comandada
por aquele centro do processo de decisões atinentes à acumulação de capital, que passa
a ditar o ritmo e a natureza da incorporação de cada região do ranking nacional, vetando o
que não fosse aquela ‘articulação possível’ em cada momento e eventualmente gerando efeitos
de destruição nas regiões que ousassem enfrentar os requerimentos emitidos pelo núcleo da
acumulação de capital. Os diversos capitais, como unidades expansivas de valorização, se
disseminam e se defrontam em todo o território nacional (espaço agora homogeneizado para
o jogo concorrencial), conformando uma estrutura produtiva densa, integrada, complexa e
diversificada, que se localiza em diferentes parcelas do espaço geográfico nacional” (Brandão,
2007, p. 80).

74
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

estabelece no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba já nos anos 1980, situação


esta que se aprofunda nas décadas seguintes.
É sob o processo completado nos anos 1980 e afirmado nos anos 1990
que a agropecuária moderna definitivamente impõe uma “cara” geográfica
globalizada à região, exercendo hegemonia entre as outras formas de produ-
ção no campo, enquadrando-o e hierarquizando-o, comumente figurando
como “portador do novo”, como bem destaca Brandão (2007, p. 84). Esse
poder hegemônico é exercido por grandes empresas (especialmente os maio-
res grupos ou tradings do agronegócio, em sua maior parte multinacionais),
e coadunado por empresas, grandes produtores e políticos locais, diretamen-
te ligados aos interesses do agronegócio.
A virada de século foi portadora de um novo período e expressou uma
nova situação do agronegócio brasileiro, própria daquilo que Delgado (2012,
p. 94) reconhece como um novo “pacto de economia política do agronegó-
cio”, em que se associam o grande capital agroindustrial e a grande proprie-
dade fundiária, para a realização de uma estratégia econômica de capital
financeiro com amplo apoio do Estado. Tal pacto de poder, arquitetado no
governo de Fernando Henrique Cardoso e sustentado pelos governos Lula e
Dilma Roussef, se estabelece numa conjuntura de mercado externo favorá-
vel às commodities agrícolas e minerais (com desvalorização do real no final
dos anos 1990), amplo esforço estatal para dotar o território com as infraes-
truturas necessárias à viabilidade da produção competitiva e de uma pesqui-
sa (via Embrapa) alinhada às demandas das multinacionais que controlam a
produção/comercialização do agronegócio, bem como a provisão de crédito
rural nos planos Safra. O referido pacto se assenta na aposta em manter o
equilíbrio ou gerar superávits na balança comercial a partir da exportação
de gêneros primários, cuja produção tem valor quadruplicado entre os anos
1990 e 2000, acompanhada de uma reprimarização da pauta exportadora
do país; projeto este que, no entanto, e partir do final da primeira década de
2000, apresenta claros limites de sustentação, tornando inviável tal aposta
para o equilíbrio da balança comercial (Delgado, 2012, p. 94-95).
Tal processo será claramente percebido no contexto de Minas Gerais
e aciona particularmente o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, refletindo
na modernização e em um uso agrícola mais intensivo do território, espe-
cialmente nos caso da cana e da soja, ainda que com significativas variações
em cada cultura. Os dados do período 1990-2014 são elucidativos do cres-

75
Mirlei Fachini Vicente Pereira

cimento da produção e da força do mercado na orientação do agronegócio


brasileiro e de Minas Gerais, a partir de tal pacto de poder (tabelas 1 e 2).

Tabela 1 – Cultivo de cana-de-açúcar, milho, soja e café no


Estado de Minas Gerais no período 1990-2014
Área Plantada (hectares) Quantidade Produzida (toneladas)
Ano Cana-de- Milho Soja Café Cana-de- Milho Soja Café
açúcar açúcar
1990 301.710 1.439.083 558.387 983.645 17.533.368 2.272.804 748.794 1.040.799
1995 267.571 1.496.923 603.773 848.060 16.726.400 3.744.524 1.199.666 931.983
2000 292.571 1.240.549 600.054 998.515 18.706.313 4.232.225 1.438.829 1.651.261
2005 349.112 1.356.279 1.118.867 1.043.308 25.386.038 6.243.873 2.937.243 1.002.672
2010 746.527 1.191.454 1.020.751 1.026.613 60.603.247 6.089.941 2.902.464 1.504.188
2014 949.801 1.325.456 1.244.575 1.009.340 71.086.808 6.966.931 3.345.549 1.364.409
Fonte: IBGE-PAM, 2016. Organizada pelo autor.

Tabela 2 – Cultivo de cana-de-açúcar, milho, soja e café na mesorregião


Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba no período 1990-2014
Área Plantada (hectares) Quantidade Produzida (toneladas)
Ano Cana-de- Milho Soja Café Cana-de- Milho Soja Café
açúcar açúcar
1990 103.862 329.039 346.370 156.519 7.332.891 686.535 536.637 214.986
1995 92.575 368.482 395.034 122.953 6.856.624 1.222.086 863.984 185.609
2000 126.500 337.086 445.651 149.568 10.076.488 1.453.439 1.092.018 316.591
2005 176.791 371.741 755.353 146.556 14.459.650 2.152.177 1.910.880 169.796
2010 492.440 333.245 595.705 155.929 42.415.800 2.230.929 1.770.873 308.201
2014 664.735 428.475 676.698 158.484 51.392.433 2.846.587 1.763.817 307.191
Fonte: IBGE-PAM, 2016. Organizada pelo autor.

De modo geral, podemos reconhecer que no período de globalização


o Triângulo Mineiro se insere de forma mais expressiva na atual divisão
territorial do trabalho através da produção de alguns gêneros agrícolas espe-
cíficos, sobretudo os mais valorizados no mercado externo, e cuja produção
torna-se mais competitiva, mais uma vez, sendo a clara face de orientação da
produção agrícola pelas forças do mercado. Assim, as práticas modernas do
agronegócio no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba permitem que a região
participe diretamente, e de modo mais significativo, nos circuitos espaciais
de produção (Santos, 1986, 1994; Santos & Silveira, 2001) de alguns gêne-
ros agrícolas e de seus derivados, como é o caso da cana-de-açúcar (açúcar e
etanol), da soja/milho (óleo, farelos e rações) e do café.

76
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

Permitindo compreender o território em sua dinâmica de funciona-


mento, os circuitos espaciais de produção e os círculos de cooperação são
definidos por Milton Santos da seguinte maneira:
Os circuitos espaciais produtivos são definidos pela circulação dos produ-
tos, isto é, de matéria. Os circuitos [ou círculos] de cooperação associam a
esses fluxos de matéria outros fluxos não necessariamente materiais: capi-
tal, informação, mensagens, ordens. As cidades são definidas como pontos
nodais, onde estes círculos de valor desigual se encontram e se superpõem
(Santos, 1994, p. 128).

Para a produção de cada um dos gêneros agropecuários e de seus deri-


vados há especificidades importantes no que se refere ao plantio, colheita,
industrialização ou ao menos algum processamento prévio, ainda que, em
todos os casos, trate-se de uma agroindústria que compõe um setor tradi-
cional, em geral pouco intenso em tecnologia e incapaz de agregar valor
significativo à produção, no mais das vezes compondo circuitos produtivos
que não se completam no interior da região e mesmo do país, controlados
por grupos de capital externo, como os que dominam fatias expressivas do
mercado nacional ou mesmo mundial de commodities agrícolas.
O circuito sucroenergético é emblemático desta situação de definitiva
integração da região ao mercado e recentemente ganha maior expressão no
Triângulo Mineiro, reordenando as práticas agrícolas. Se a partir de 1990
o volume da produção de cana-de-açúcar praticamente triplica no país, a
atividade produtiva é estimulada de fora, quando o país pretende tornar-se
um importante fornecedor mundial das commodities que derivam da cana
(açúcares e mais recentemente também o etanol). As implicações territoriais
são diversas, exigindo a expansão das áreas de produção em novas regiões
do país, a multiplicação das unidades produtivas industriais (usinas) e tam-
bém um aperfeiçoamento da logística. Pautada em conhecimento científico
do território, as novas áreas produtoras de cana são definidas a partir de
um planejamento, visando tornar viável e competitiva a produção. Como
apontam Camelini e Castillo (2012, p. 11), fatores físicos, econômicos e
político-infraestruturais entram em jogo na definição de um novo mapa da
produção.
A área destinada ao cultivo da cana mais que triplica no Estado de
Minas Gerais, enquanto que o volume produzido é quadruplicado no pe-
ríodo (1990-2014), indicando um uso intensivo da terra e a modernização

77
Mirlei Fachini Vicente Pereira

da produção. O Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba é uma região estratégica


em termos de competitividade e muito responsável por este crescimento,
inclusive alcançando produtividade maior, visto que a área produzida au-
menta pouco mais de seis vezes no período e a produção aumenta mais de
sete vezes, sendo a região responsável por mais de 70% da produção mineira
em 2014.
O cultivo da cana conhece diferentes períodos no Triângulo Mineiro,
mas é essencialmente após os incentivos do Proálcool nos anos 1970 que a
produção se fortalece e ganha status agroindustrial, com a instalação de um
conjunto de usinas nas décadas de 1970 e 1980 (como é o caso das usinas
de Araporã, Pirajuba, Canápolis e Iturama), quando a região se integra ver-
dadeiramente ao circuito sucroenergético que ganhava novo fôlego no país,
com fartos recursos do Estado. Depois de relativa estabilidade – e recebendo
inclusive novos investimentos nos anos 1990, como é o caso de capitais de
tradicionais usineiros da região Nordeste do país – e dos novos estímulos
dos anos 2000 – marcados pelo apelo ambientalista aos “combustíveis re-
nováveis”, as possibilidades de exportação de etanol, a consolidação de uma
frota bicombustível no país, além de fartos créditos do BNDES para novos
empreendimentos –, a produção do agora denominado etanol é revalorizada
e aumenta extraordinariamente.
A atuação do capital externo no setor é sem dúvida um dado novo da
produção sucroenergética realizada no território nacional neste início de sé-
culo, visto que a atividade era há pouco tempo vista como uma tecnologia
propriamente nacional. No Triângulo Mineiro, tal fenômeno se expressa
com a instalação ou aquisição de usinas pelos grupos Cargill, ADM, Louis
Deyfrus, BP e Bunge. Das 25 usinas instaladas na região (em 19 muni-
cípios), quase dois terços resultam de projetos concretizados após os anos
2000 (Pereira, 2011; Campos, 2014).
Ocupando as melhores terras, a expansão das atividades sucroenergé-
ticas gera uma valorização fundiária que por vezes inviabiliza a permanên-
cia de outras atividades (especialmente a tradicional pecuária leiteira), cria
mecanismos de sujeição dos proprietários de terra, tornando alguns deles
vítimas dos esquemas perversos de arrendamento (Faria, 2011), e acaba por
criar uma situação de vulnerabilidade territorial que alcança inclusive os
espaços das cidades (Pereira, 2014a). Assim, prevalece a lógica das commo­
dities, que subordina os produtores às ações das grandes empresas (Castillo,

78
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

2011) que, em última instância, resulta em situações de uso corporativo do


território.
O circuito espacial produtivo que envolve a produção de soja, milho e
derivados, bem como a destinação final das mercadorias (muitas vezes con-
sumida no exterior) é muito coordenado por grandes tradings estrangeiras
que dominam a comercialização destas commodities. A produção brasileira
de soja e milho é, nas últimas décadas, marcada por importante volume de
exportação (cerca de 50%, segundo o CEPEA/Esalq), seja de grãos ou de
seus derivados. A produção realizada no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba
se insere no moderno circuito produtivo nacional a partir dos processos de
modernização da agricultura que também ocorrem na década de 1970, e até
hoje é muito marcada pelo caráter técnico,7 pela alta produtividade e pela
presença de agentes externos no controle da comercialização.
Tal como a produção de soja triplica no Brasil entre 1990 e 2014, a pro-
dução realizada especificamente em Minas Gerais aumenta mais de quatro
vezes no mesmo período, e a região do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba
continua sendo responsável por mais da metade da produção do Estado. A
produção de soja no ano de 2014 no Triângulo Mineiro (1,7 milhões de to-
neladas) correspondeu a pouco mais de 2% do total nacional.
A situação do milho é parecida no que se refere à participação do Tri-
ângulo Mineiro/Alto Paranaíba no conjunto do Estado, o que equivale a
quase um terço da produção mineira em 2014. Para ambos os casos (soja
e milho), há extraordinário aumento da produtividade – eram produzidas,
em média, 1,57 t/ha de milho em 1990 no Estado de Minas, e 1,34 t/ha de
soja, volume este que em 2014 aumenta, em média, mais de três vezes para o

7
Como constatamos em atividades de campo, a agricultura praticada na região ganha, com o
aprofundamento da lógica das commodities, cada vez mais status de um “negócio” tecnicizado e
racionalizado. Conforme relatos recolhidos em trabalhos de campo há testes empreendidos com
êxito em Uberlândia, por multinacionais do ramo de sementes e em parceria com fabricantes
de máquinas agrícolas, onde adubação e plantio são controlados tecnicamente por sistemas de
GPS – há, por exemplo, possibilidade de variar em até 62 vezes o volume de distribuição de
adubos e sementes por máquinas de última geração. Outras máquinas realizam um plantio
capaz de inserir até oito sementes a cada metro da lavoura (gerando, por exemplo, oito leiras de
soja por metro linear, com distância de 12,5 cm uma da outra), numa gestão precisa e otimizada
do uso das sementes e do espaço na lavoura. Tais procedimentos, somados a fertilizantes e
defensivos específicos, de última geração, garantem o aumento da produtividade nos cerrados
do Brasil, necessário para a remuneração dos capitais investidos, demonstrando a força com que
tais agentes se impõem no território.

79
Mirlei Fachini Vicente Pereira

milho (5,25 t/ha) e duas vezes para a soja (2,68 t/ha). No Triângulo Minei-
ro/Alto Paranaíba, e tomando mais uma vez os anos de 1990 e 2014 como
referência, a produtividade média da soja é a mesma encontrada no Estado,
enquanto que a média da produtividade do milho já era maior em 1990 (2
t/ha), e ainda maior em 2014 (6,64 t/ha) (IBGE-PAM, 2016).
É assim que podemos instigar o debate e de algum modo também des-
mistificar uma suposta ameaça da cana-de-açúcar (em expansão nos últi-
mos anos) sobre as áreas destinadas à produção de soja e milho no Triângulo
Mineiro. Ao que tudo indica, se a área, sobretudo a da soja, diminui por
vezes entre um ano e outro, a produtividade e o uso de tecnologias cons-
tantemente aumentam, e se existe variação na produção, isso resulta muito
mais das situações de oscilação do preço destas commodities e do interesse
dos produtores no plantio (quando a mercadoria é bem remunerada) do que
propriamente de uma substituição definitiva por outra cultura.
Outro elemento indispensável a ser considerado é o significado territo-
rial da infraestrutura de processamento de grãos instalada na região (grupos
Algar Agro, Cargill, ADM etc.), bem como o consumo de grãos por agroin-
dústrias, que nas duas últimas décadas aumentaram a atividade de criação
de animais como aves e suínos (como é o caso da BR Foods, antiga Sadia,
em Uberlândia). Esse consumo produtivo de grãos que ocorre na própria
região também figura como mercado garantido para a produção regional,
já que demanda inclusive uma produção realizada em espaços distantes. As-
sim, a região, sobretudo a partir de Uberlândia, é marcada por esta função
de processamento industrial de grãos, participando, portanto, em mais esta
instância do circuito espacial produtivo, ainda que o trabalho industrial ou
mesmo no campo no mais das vezes não seja expressivo.8
Exigente de um sistema de movimentos eficiente, o Triângulo Mineiro,
nas últimas décadas, adéqua suas infraestruturas territoriais de transporte,
essencial à competitividade do que é produzido. Um expressivo conjunto de

8
Em recente trabalho de campo realizado no município de Iraí de Minas pela equipe de
pesquisadores do Promob Capes/Fapitec-SE (setembro de 2014), ouvimos de um agrônomo
e de um dos produtores atendidos pelo Prodecer que o trabalho agrícola gerado nos espaços
da agricultura moderna na região é em média de um trabalhador para cada 100 hectares.
Utilizando-se de maquinário moderno, de insumos próprios do pacote tecnológico necessário
ao uso de sementes transgênicas e com o emprego de pivôs de irrigação que cobrem áreas de 30
a 80 hectares (instalados a um custo de R$15 mil por hectare), toda a produção de soja e milho
realizada e comercializada em uma cooperativa do município é voltada à exportação.

80
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

rodovias e estradas vicinais, os ramais ferroviários (Ferrovia Centro Atlân-


tica – FCA), a maior concentração no Estado de Minas de infraestruturas
de armazenamento, bem como as facilidades proporcionadas por dois ter-
minais de integração rodoferroviários (Valor da Logística Integrada – VLI)
em Araguari (grãos) e Uberaba (grãos e açúcar) e um terminal de distribui-
ção de etanol com dutos ligados ao Estado de São Paulo e do Rio de Janei-
ro (Logum), localizado em Uberaba, permitem o movimento facilitado e
conferem maior competitividade ao que é produzido, revelando novamente
o projeto esposado entre Estado e mercado para o agronegócio, já que tais
infraestruturas são viabilizadas por crédito e concessões de caráter público.
O café é outra commodity expressiva da modernização agrícola que se
estabelece no cerrado mineiro desde os anos 1970. Atualmente, Minas Ge-
rais é o principal Estado produtor de café arábica no Brasil, concentrando
pouco mais da metade dos estabelecimentos agropecuários que se dedicam
a este cultivo no país, produzindo, no ano de 2010, cerca de 1,5 milhão de
toneladas (25,1 milhões de sacas de 60 kg) (IBGE, 2012).
No Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, onde a produtividade do café
é a maior do Estado (mais de 31 sacas/ha em 2010), 4.443 propriedades se
dedicam a tal cultivo, sendo que o município de Patrocínio, o principal mu-
nicípio, contava com 943 estabelecimentos, segundo dados do censo agro-
pecuário (Pereira, 2014b).
A década de 1970 é marcada por uma reestruturação territorial produ-
tiva do café no território brasileiro, tendo em vista a existência de políticas
públicas que visavam dotar a produção de maior produtividade, como é o
caso do Plano de Renovação e Revigoramento dos Cafezais (PRRC) (Ortega
& Jesus, 2012). A partir de esforços de erradicação de cafezais improdutivos
ou por motivos de substituição por outros cultivos em tradicionais regiões
produtoras de café, como é o caso do Paraná (onde os cultivos enfrentaram
problemas climáticos na década de 1970) e também do Estado de São Paulo
(Frederico, 2011), novas regiões do país foram alvo de inserção e expansão
da cafeicultura moderna, visando reforçar e tornar mais competitiva a pro-
dução nacional. É neste contexto de reestruturação territorial do cultivo do
café que a região do Triângulo Mineiro passa a ser área privilegiada para a
expansão da cultura, já no início dos anos 1970.
O circuito produtivo do café é marcado pela produção propriamente
dita (café em grãos verdes), que é posteriormente torrado (em pequenas tor-

81
Mirlei Fachini Vicente Pereira

refações ou em grandes torrefadoras) e comercializado no mercado interno


ou externo.9
Se a região do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba é importante produ-
tora de café, inclusive hoje também voltada para a produção de cafés finos
(produtos gourmet, com certificações e indicação geográfica), sua partici-
pação no circuito espacial produtivo é, no entanto, restrita basicamente à
comercialização do café em grão verde. A atividade de torrefação, moagem
e industrialização para consumo final, quando existente, é pouco significa-
tiva, e realizada por pequenas torrefações que normalmente exploram mer-
cados apenas locais (algumas poucas iniciativas podem ser observadas em
Patrocínio, Araguari, Uberlândia e Uberaba).
A maior parte da produção, pelo que pudemos constatar em pesquisas
de campo (Pereira, 2014b), é voltada para indústrias torrefadoras localizadas
no Estado de São Paulo (na capital, e também cidades do interior, como
Franca), bem como na região sul de Minas Gerais (onde atuam grandes
indústrias cujo mercado alcança todo o território nacional); enquanto que
os cafés de melhor qualidade são exportados a vários países pela Expocac-
cer (Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado) e tradings hoje já inseridas
na região (sobretudo em Patrocínio). Trata-se, assim, de uma produção que
deixa a região sem qualquer tipo de processamento industrial.
Uma alternativa praticada a partir dos anos 1990 para a valorização da
produção regional tem sido a busca pelas certificações que conferem alto va-
lor à produção agrícola (Nascimento, 2014), o que ocorre fundamentalmen-
te pela garantia de origem (apenas propriedades certificadas), de qualidade
(alto padrão dos grãos, com esquemas rígidos de classificação) e rastreabili-
dade (permitindo identificar, para cada saca produzida, data, local e origem),
funcionando a partir de esquemas rígidos de controle, tornando a atividade
seletiva e com a maior parte dos ganhos sendo capturada por grandes tradings
do setor que se instalaram na última década na região (Pereira, 2014b).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Cabe aqui produzirmos breve síntese do que pudemos avaliar, reconhe-
cendo a natureza e intenções do processo de modernização do campo, da

9
Uma análise detalhada do circuito espacial produtivo do café pode ser encontrada em Castillo e
Frederico (2004).

82
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

ação do agronegócio e suas implicações territoriais no Triângulo Mineiro/


Alto Paranaíba.
Podemos afirmar que a modernização da agropecuária nos cerrados,
projeto encampado pelo Estado brasileiro e pelo mercado (capital nacio-
nal e estrangeiro), parece figurar entre os processos primeiros de inserção
do espaço regional do Triângulo Mineiro na globalização da economia nas
últimas décadas do século XX. Uma região tradicionalmente marcada pela
prática de uma agropecuária simples, com baixa produtividade e voltada
essencialmente para o consumo regional ou próximo, aos poucos dá lugar a
uma produção altamente tecnificada, tornando-se mesmo a principal região
produtiva agrícola do Estado de Minas Gerais.
Concordando com Milton Santos, podemos afirmar que o processo
de globalização, fruto de intenções políticas particulares e das possibilida-
des mesmas do meio técnico científico informacional, permite a expansão
do capital hegemônico que, ao atingir novos espaços, acaba por redefinir o
fenômeno regional, fazendo das regiões “(...) o suporte e a condição de rela-
ções globais que de outra forma não se realizariam” (Santos, 1996, p. 196).
É essa a situação do uso agrícola do território no Triângulo Mineiro na atu-
alidade – as ações mais espessas, as atividades que mais envolvem técnica e
capital, bem como a atenção do poder público (em diferentes esferas), são
aquelas operacionais à realização do agronegócio, que produzem um campo
moderno e obediente a lógicas e comandos externos, definidos sobretudo
pela situação de subordinação do país na divisão internacional do trabalho
que, para além de uma opção das classes políticas dirigentes, também re-
sulta de imposições e da histórica impossibilidade de participação da maior
parte da nação na definição de seus projetos.
Funcional aos interesses do agronegócio, hoje comandado pelo capital
financeiro, a região torna-se um espaço conveniente e atrativo à ação de
grandes empresas que praticam topologias gigantescas, estendendo os cir-
cuitos produtivos de commodities agrícolas para além dos limites da nação.
É esta a feição, na região, de uma condição própria da formação socioespa-
cial brasileira neste período de globalização, resultado do pacto de poder do
agronegócio encampado pelo Estado como projeto privilegiado de cresci-
mento que, no entanto, já conhece seus limites. O caso do setor sucroener-
gético é emblemático: com suposta crise instalada nos últimos anos, com
o encerramento de atividades em algumas usinas e, inclusive, com grandes

83
Mirlei Fachini Vicente Pereira

grupos externos divulgando a venda de seus ativos. Trata-se de explícita ma-


nifestação da instabilidade e vulnerabilidade do território.
Confiar o desenvolvimento da região às práticas do agronegócio, da
forma como ele se realiza hoje, é um exercício puro de abstração (Ribei-
ro, 2005), praticado pelo Estado, pelas empresas e pelas classes que tiram
proveito da situação historicamente estabelecida. Como não reconhecer os
limites deste “desenvolvimento”, tendo em vista o caráter corporativo de um
campo moderno que é ordenado e configurado por vezes de modo quase
exclusivo em função dos interesses de mercado de agentes externos muito
capitalizados e que, mais do que tudo, visam primeiramente à remuneração
de seus capitais e uma acumulação ampliada? Como esperar desta situação
alguma mudança revolucionária em termos de distribuição de renda, me-
lhoria das condições materiais de vida ou a emancipação social do que res-
tou da população no campo ou dos muitos que se avolumam nas periferias
das cidades? Urge pensarmos um novo projeto para a agricultura e também
para o Estado, que garanta a viabilidade de um campo capaz de sustentar
uma produção de alimentos e uma mais justa distribuição de renda.

REFERÊNCIAS
BERNARDES, J. A. Técnica e trabalho na fronteira de expansão da agricultura moderna
brasileira, in: SILVA, C. A.; BERNARDES, J. A.; ARRUZZO, R.; RIBEIRO, A.
C. T. (org.). Formas em crise: utopias necessárias. Cap. 2. Rio de Janeiro: Arquimedes,
2005, p. 47-66.
BESSA, K. A dinâmica da rede urbana no Triângulo Mineiro: Convergências e divergências
entre Uberaba e Uberlândia. Uberlândia: Edição da autora, 2007.
BRANDÃO, C. Território & Desenvolvimento. As múltiplas escalas entre o local e o global.
Campinas: Editora Unicamp, 2007.
CAMELINI, J. H.; CASTILLO, R. Etanol e uso corporativo do território. Mercator. For-
taleza, v. 11, n. 25, p. 7-19, 2012.
CAMPOS, N. L. Redes do agronegócio: a territorialização do Grupo Tércio Wanderley no
Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba-MG. Dissertação (Mestrado em Geografia). IG-
-UFU, Uberlândia, 2014.
CASTILLO, R. A ideia de região competitiva aplicada ao estudo das fronteiras agríco-
las modernas no território brasileiro. IX ENANPEGE. Goiânia, outubro de 2011.
Anais... Goiânia, Anpege, 2011.
_____; FREDERICO, S.. Circuito espacial produtivo do café e competitividade territorial
no Brasil. Ciência Geográfica. Bauru, ano X, v. X, n. 3, 2004, p. 236-241.
CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada/Esalq-USP). Cepea Soja.
Agromensal – CEPEA-Esalq. Mês de referência Dez./2011. Disponível em: http://

84
Estado e mercado na definição de uma região agrícola moderna:
processos e consequências no Triângulo Mineiro

www.cepea.esalq.usp. br/agromensal/2011/12_dezembro/Soja.htm. Acesso em: ago.


2012.
CLEPS Jr., J. Dinâmica e Estratégias do Setor Agroindustrial no Cerrado: o caso do Triângulo
Mineiro. Tese (Doutorado em Geografia). IGCE, Unesp, Rio Claro, 1998.
DELGADO, G. C. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudan­
ças cíclicas em meio século (1965-2012). Porto Alegre: UFRGS, 2012.
FARIA, A. H. A expansão da cana-de-açúcar na mesorregião Triângulo Mineiro/Alto Para­
naíba (MG): o discurso da modernidade e as (re)territorializações nos cerrados do mu­
nicípio de Ibiá. Dissertação (Mestrado em Geografia). IG-UFU, Uberlândia, 2011.
FREDERICO, S. Globalização, regiões competitivas e cafeicultura científica globalizada
in: IX ENCONTRO NACIONAL DA ANPEGE, Goiânia, GO. Anais ..., Goiâ-
nia, Anpege, 2011.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Produção Agrícola Municipal –
PAM. Disponível em: http://www.sidra.ibge.gov.br/. Vários acessos em: 2016.
MÜLLER, G. Complexo agroindustrial e modernização agrária. São Paulo: Hucitec, 1989.
NASCIMENTO, R. C. do. Os cafés especiais no Cerrado Mineiro: o circuito espacial produ­
tivo e os círculos de cooperação no município de Patrocínio/MG. Dissertação (Mestrado
em Geografia). IG-Unicamp, Campinas, 2014.
ORTEGA; A. C. JESUS, C. M. de. Café e território: a cafeicultura no cerrado mineiro.
Campinas: Alínea, 2012.
PEREIRA, M. F. V. A cana-de-açúcar e as usinas sucroalcooleiras no Triângulo Mineiro:
periodização e processo recente de expansão. IX ENANPEGE, Goiânia. Anais...
Goiânia, 2011, v. 1.
_____ . O setor sucroenergético no Triângulo Mineiro e as “cidades da cana” in: XXII
ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA. Anais...UFRN, Natal,
2014a.
_____. Globalização, especialização territorial e divisão do trabalho: Patrocínio e o café do
Cerrado mineiro. Cuadernos de Geografía. V. 23, n. 2, p. 239-254. Bogotá, 2014b.
PESSOA, V. L. S. Ação do Estado e as transformações agrárias no cerrado das Zonas de Pa­
racatu e Alto Paranaíba (MG). Tese (Doutorado em Geografia), IGCE-Unesp, Rio
Claro, 1990.
_____ . Meio técnico-científico-informacional e a modernização da agricultura: uma re-
flexão sobre as transformações do cerrado mineiro. XVII ENCONTRO NACIO-
NAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA. Nov. 2006. (Comunicação apresentada).
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). (mimeo).
RIBEIRO, A. C. T. Outros territórios, outros mapas. Osal, Buenos Aires, ano VI, n.16,
p. 263-272, 2005.
RICHTA, R. Revolução científica e técnica e transformações sociais. Porto: Textos Margi-
nais, 1973.
SANTOS, C. O conceito de extenso (ou a construção ideológica do espaço geográfico)
in: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia de (org.). A construção do espaço. São
Paulo: Nobel, 1986, p. 25-31.
SANTOS, M. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985.

85
Mirlei Fachini Vicente Pereira

_____ . Circuitos espaciais de produção: um comentário in: SANTOS, Milton; SOUZA,


Maria Adélia de (org.). A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986, p. 121-134.
_____ . Técnica, espaço, tempo. Globalização e meio técnico-científico-informacional. São
Paulo: Hucitec, 1994.
_____ . A natureza do espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
_____ . Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. Rio de
Janeiro: Record, 2000.
_____ . A urbanização brasileira. São Paulo: Edusp, 2008 (1ª ed. 1993).
SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI.
Rio de Janeiro: Record, 2001.
SANTOS, R. J. Gaúchos e mineiros no Cerrado. Metamorfoses das diferentes temporalidades
e lógicas sociais. Uberlândia: Edufu, 2010.

86
REDES DO AGRONEGÓCIO: TERRITORIALIZAÇÃO
DO GRUPO TÉRCIO WANDERLEY NO TRIÂNGULO
MINEIRO/ALTO PARANAÍBA1

Natália Lorena Campos


João Cleps Junior

INTRODUÇÃO
A expansão canavieira teve um crescimento acelerado em Minas Gerais a
partir da década de 1970. Um dos fatores que contribuíram para essa expan-
são foi a utilização do álcool como combustível alternativo e a implantação
do Programa Nacional do Álcool (Proálcool – 1975-1985). É sabido que a
monocultura canavieira teve início na região Nordeste. Mediante os incen-
tivos da produção sucroenergética, houve o movimento do capital canavieiro
nordestino para o Centro-Sul, o qual se iniciou expressivo nos Estados de São
Paulo e Rio de Janeiro a partir da década de 1970. A produção canavieira da
região Nordeste concentrava-se nas mãos de alguns grupos tradicionais, que
posteriormente migraram seu capital para o Centro-Sul do país.
Em meio à crise enfrentada nos anos 1990, os principais grupos tradicio-
nais e capitalizados do Nordeste direcionaram parte do seu capital acumulado
para o Centro-Sul, adquirindo novas terras e implantando novas unidades, ad-
quirindo unidades já implantadas ou transplantando suas unidades nordestinas.
Outro fator relacionado ao movimento do capital agroindustrial cana-
vieiro para o Centro-Sul está consubstanciado na modernização da agricul-
tura e na revolução verde ocorridas na década de 1970, pautadas nos progra-
mas de desenvolvimento do Cerrado, onde teve início o processo de ocupação
dessas áreas denominadas como novas fronteiras agrícolas modernas, isto é,
áreas agrícolas consolidadas e em expansão “aptas a receber o novo de maneira
menos resistente, constituindo condições geográficas ideais para a política das

1
Este trabalho faz parte da pesquisa de mestrado realizada no Programa de Pós-graduação em
Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), financiada pela Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e defendida em 2014.
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

grandes empresas, para além do processamento industrial e da comercializa-


ção” (Castillo; Frederico, 2010, p. 22).
As novas fronteiras agrícolas do Cerrado possuem uma grande concen-
tração fundiária e terras não ocupadas pelo agronegócio, criando possibilida-
des de atuação de grandes empresas de diversos segmentos (agro)industriais.
O Cerrado de Minas Gerais, na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto
Paranaíba, teve sua área constantemente ocupada pelas lavouras de cana-de-
-açúcar durante a década de 1980. O Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba se
destaca das demais regiões do Estado devido aos aspectos econômicos – maior
proximidade com os principais centros econômicos do país, o que facilita a
logística de escoamento da produção; e ambientais – solo propício para a pro-
dução, com pouca declividade, o que permite a inserção de máquinas no pro-
cesso produtivo e condições climáticas favoráveis à cultura, como a disponi-
bilidade hídrica dos Rios Grande e Paranaíba. Além disso, a região já possuía
estrutura agroindustrial para a disseminação do agronegócio canavieiro devi-
do à produção de grãos existente, tais como a soja e o milho.
Todas essas condições foram determinantes para o avanço agroindustrial
canavieiro, além de compor uma rede infraestrutural propiciando a atividade
na região. Ao todo, Minas Gerais possui 49 unidades em operação e o Tri-
ângulo Mineiro/Alto Paranaíba concentra 28 dessas usinas (Udop, 2014). Ao
longo dos anos, observamos um notável crescimento no número de usinas e
as investidas dos capitais nordestinos e paulistas, que transformaram o cenário
agrícola da região. Na década de 2000, a atividade canavieira vivenciou uma
internacionalização do setor com a participação de capital estrangeiro. Diante
a dinâmica do setor sucroenergético de Minas Gerais, procuramos compreen-
der a atuação desses grupos econômicos, bem como a presença do Grupo Tér-
cio Wanderley e sua territorialização no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.

GRUPOS ECONÔMICOS ATUANTES NO TRIÂNGULO


MINEIRO/ALTO PARANAÍBA E A PRESENÇA DO CAPITAL
AGROINDUSTRIAL NORDESTINO
A migração do capital nordestino para o Centro-Sul ocorreu dian-
te do cenário de crise durante a década de 1980 e a baixa produtividade
que se agravou com a crise internacional de 2008, na qual os recursos fi-
nanceiros foram reduzidos. Muitas empresas nordestinas faliram e vários
projetos tiveram seus cronogramas adiados ou suspensos. Com a crise, os

88
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

grupos nordestinos tradicionais direcionaram seu capital para as novas


áreas de expansão da atividade canavieira. A produção da cana-de-açúcar
no período anterior à crise concentrava-se na região Nordeste e no Estado
de São Paulo.
Nesse contexto, Minas Gerais recebeu filiais desses grupos que implan-
taram novas unidades e/ou adquiriram unidades já existentes, formando
parcerias e ampliando seu capital. De acordo com o relatório de impactos de
grandes projetos, essa situação “(...) implica um processo de desterritoriali-
zação e reterritorialização do agronegócio canavieiro no Brasil, provocando
toda uma cadeia de impactos no território nacional” (Afes, 2009, p. 40).
Oliveira (2009) investigou, entre os representantes dos grupos/empre-
sas nordestinos, os principais fatores da migração do capital agroindustrial
canavieiro para o Centro-Sul, destacando a falta de terras para a expansão
canavieira na região, a baixa fertilidade dos solos, a deficiência hídrica e
irregularidade das precipitações e a topografia acidentada que dificulta o
processo de mecanização, encarecendo os custos de produção.
Diante do ocorrido, podemos verificar algumas redes agroindustriais
se formando, à medida que se dá a transferência de capital e know-how dos
grupos tradicionais nordestinos para essa nova fronteira agrícola de expan-
são. Vale ressaltar que apenas os grupos capitalizados considerados grandes
conseguiram se manter, investindo em práticas de irrigação viabilizando a
produtividade diante desse cenário de crise, e algumas usinas faliram.
Os principais grupos nordestinos em Minas Gerais originam de
Alagoas­, assim como a mão de obra migrante que veio para trabalhar nas
lavouras no início da expansão, que ocorreu nos anos 1980 e perdurou até
meados da década de 2000. Temos no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba a
presença dos grupos João Lyra, Carlos Lyra (atual Delta Sucroenergia), Tér-
cio Wanderley, João Pessoa e João Tenório (adquirido pela Bunge, em 2007).
O Grupo João Lyra, sediado em Alagoas, possui ramificações nos Estados
da Bahia e Minas Gerais. Totaliza dez empresas no ramo da agroindústria
canavieira e de fertilizantes e adubos. Na atividade canavieira o Grupo pos-
sui cinco usinas no Estado: Laginha, Uruba e Guaxuma, em Alagoas, além
da Triálcool (Canápolis) e Vale do Paranaíba (Capinópolis). Foi o primeiro
Grupo nordestino a chegar, na década de 1980 (Sítio eletrônico do Grupo
João Lyra, 2012). Atualmente, o grupo passa por grandes endividamentos
devido à má gestão, implicando no fechamento de suas usinas.

89
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

O Grupo Carlos Lyra iniciou suas atividades em indústrias produtoras


de algodão no Estado de Alagoas. Em 2012 houve cisão que envolveu as
usinas de Minas Gerais e de Alagoas. Em Minas Gerais, o Grupo passa a se
chamar Delta Sucroenergia, com três usinas no Estado: unidade Delta (Ma-
triz), localizada no município de Delta; unidade Volta Grande, em Concei-
ção das Alagoas, e unidade Conquista de Minas, em Conquista. Responsá-
vel pelo açúcar Delta, atua nos segmentos de Açúcar, Etanol, Bioenergia e
Levedura, Têxtil, Pecuária, Radiodifusão e Táxi Aéreo.
Em relação ao número de unidades no Estado, o Grupo Tércio Wander-
ley é o que possui maior representatividade. Responsável pelas Usinas Coru-
ripe, sua matriz localiza-se no município de mesmo nome, em Alagoas­. Em
Minas Gerais (mapa 1), temos a Coruripe Filial Iturama, a Coruripe Filial
Campo Florido, a Coruripe Filial Limeira do Oeste e a Coruripe Filial Car-
neirinho. O Grupo pretende ampliar suas unidades em União de Minas,
com o início das atividades previsto para 2018 e em Prata em 2020.2 Ainda
conta com uma unidade em Paranaíba/MS. A usina Coruripe corresponde
a uma empresa familiar de capital fechado e existe desde 1925. Faz parte do
Grupo Tércio Wanderley (objeto de nossa pesquisa) desde 1941.

Mapa 1 – Unidades Coruripe no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Fonte: Udop, 2013. Org.: Campos, N. L., 2014.

O Grupo João Pessoa iniciou suas atividades no ano de 1987 em Alagoas e


no ano de 1996 implantou uma unidade no município de Fronteira, a Vale do
2
Informação obtida em pesquisa de campo (Campo Florido, agosto/2013).

90
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Ivaí, posteriormente adquirida pelo Grupo paranaense de mesmo nome. Essa


mesma unidade, hoje Destilaria Rio Grande, desde 2010 passa por inúmeros
processos estruturais, nos quais foi decretada falência, enquanto Vale do Ivaí, e
demissão de cerca de 380 funcionários. A fim de a empresa continuar atuando
na atividade, os trabalhadores requereram o seu controle. Eles apresentaram um
projeto de viabilidade econômica do negócio, com parcerias para reformar a
indústria e dar prosseguimento ao negócio em economia solidária-cooperativis-
mo, o que deverá ser apreciado pelo novo administrador da massa falida.
O Grupo João Tenório (Triunfo) instala-se na região em 2003 com a
construção da Agroindustrial Santa Juliana, adquirida em 2007 pela Bunge.
Além da migração de capitais de outras regiões do país, notamos a tendência
da internacionalização de capitais no Brasil.
Diante da desregulamentação do setor, iniciada na década de 1980 e
efetivada na década de 1990, período em que a intervenção estatal não era
dominante e os subsídios às usinas foram cortados, o setor sucroenergético
precisou se reestruturar e buscar novos investimentos. O ano de 1995 mar-
cou a efetivação da desregulamentação do mercado brasileiro de açúcar e
álcool. Foi nesse período que tiveram início os investimentos estrangeiros
na atividade canavieira no Brasil.
Esse fato teve mais repercussão e intensificação decorrente da crise fi-
nanceira de 2008, momento em que se acentua o processo de internacio-
nalização de capitais nas agroindústrias canavieiras de Minas Gerais. No
Brasil, esta tendência acentua-se a partir dos anos 2000, período em que o
país estava passando por uma profunda e acelerada internacionalização de
seus ativos e da produção (Benetti, 2009).
Segundo a Siamig (2011), a participação estrangeira corresponde a 20% da
produção, em torno de 10 milhões de toneladas de cana. A internacionalização
da atividade corresponde aos esforços de consolidar o etanol nos mercados glo-
balizados, modificando as estruturas do setor canavieiro (tradicionalmente con-
trolado por empresas familiares) e expandindo suas redes de influência.
A entrada dessas novas empresas foi facilitada pela crise mundial deflagra-
da em 2008, cujas consequências desestruturaram a organização do setor
e impactaram diretamente a gestão e operação das usinas. As dificuldades
estão relacionadas, principalmente, a: escassez de financiamento; elevado
custo financeiro para investimentos; perdas cambiais e elevado endivi-
damento de algumas usinas, principalmente daquelas que apostaram na

91
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

grande demanda de etanol prevista em anos anteriores; e a diminuição das


exportações de etanol em função da retração da demanda externa (Venco-
vsky, 2013, p. 52 apud Goes & Marra, 2009; e Castro & Dantas, 2009).

No quadro 1, apresentamos os principais grupos estrangeiros atuantes


nas usinas de Minas Gerais no período compreendido entre 2007/2013.
Essa tendência teve um crescimento a partir da década de 2000, no qual
os grupos estrangeiros passaram a atuar no Estado com a fusão e/ou aquisi-
ção de unidades mineiras. Nota-se que a maioria possui total participação
acionária.
O capital estrangeiro em Minas Gerais tem origem inglesa, estaduni-
dense, argentina e francesa principalmente, e conta com a participação de
grupos japoneses e chineses na atividade. Ele se instala nos ramos de infra-
estrutura e de commodity agrícola-energética e se constitui a partir da cons-
trução e aquisição de usinas, compra de terras e controle da tecnologia, bem
como da expansão de redes transnacionais (Afes, 2009, p. 33).

Quadro 1 – Presença do capital estrangeiro


na aquisição de unidades em Minas Gerais
PART.
GRUPO INVESTIDOR USINA MUNICÍPIO
ACIONÁRIA (%)
Adecoagro (EUA/Argentina) Monte Alegre Monte Belo 100
Frutal Frutal
Bunge (EUA) Itapagipe Itapagipe 100
Santa Juliana Santa Juliana
Cargill (EUA) Itapagipe Itapagipe 43,75
Alcana – Nanuque Nanuque
Infinity Bio (Inglaterra) CEPAR – São São Sebastião do 100
Sebastião do Paraíso Paraíso
Louis Dreyfus Commodities (LDC), Biosev – Santa BIOSEV – Lagoa da
Lagoa da Prata 100
Elisa Vale (França) Prata
CNAA – Ituiutaba
Ituiutaba
Global Foods/Carlyle/Rivestone/Goldman Sachs/ CNAA – Campina
Campina Verde 72
Discovery Capital (EUA) Verde
Platina
CNAA – Platina
ADM (EUA) Limeira do Oeste Limeira do Oeste 50

British Petroleum (BP Biofuels – Inglaterra) Ituiutaba Ituiutaba 100

Dow Chemical Company – Mitsui & Co. Ltda (EUA/ 50 (EUA) – 50


Santa Vitória Santa Vitória
Japão) (Japão)
Fonte: Relatório Econômico – Siamig, 2009 – atualizado pela autora, 2014. Org.: Campos, N. L., 2014.

92
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Segundo a pesquisa da Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade


(2009), houve um crescimento acelerado da atividade canavieira devido ao
aumento da demanda doméstica do etanol. No entanto, as restrições de
crédito ocasionadas pela crise financeira favoreceram as fusões e internacio-
nalização do setor e, como tendência, as usinas de pequeno e médio porte
foram compradas pelas maiores. Segundo Vencovsky (2013), essas empresas
possuem operação em quase todas as regiões do país, atuando em fábricas
de insumos, indústrias esmagadoras, terminais aquaviários, ferroviários e
portuários, usinas de açúcar e etanol, dutos, ferrovias e empresas transporta-
doras, além de propriedades agrícolas. O autor discute que a atuação dessas
empresas, “seus investimentos, relações técnicas e políticas, e fluxos de pro-
dutos, informações e recursos financeiros, permite compreender a própria
organização e uso do território nacional” (Vencovsky, 2013, p. 53).

ESTUDO DO GRUPO TÉRCIO WANDERLEY – USINA CORURIPE


(AL) E CORURIPE FILIAIS (MG)
O setor sucroenergético alagoano passou por um processo de reestru-
turação produtiva durante a década de 1990, período em que adotou novas
estratégias competitivas conseguindo superar a desregulamentação e as di-
ficuldades, reafirmando o foco da produção no açúcar, álcool e energia e
especializando a produção. Porém, as crises ocorridas e o esgotamento das
terras na região Nordeste fizeram com que os grupos capitalizados direcio-
nassem parte do seu capital acumulado para o Centro-Sul.
A Usina Coruripe está instalada no município de Coruripe (AL) desde
1925 e faz parte do Grupo Tércio Wanderley desde 1941, onde se consolidou
e ganhou destaque na produção canavieira, tornando-se a maior e mais im-
portante usina da região Nordeste. O município de Coruripe localiza-se a 120
quilômetros de Maceió, capital de Alagoas. A Coruripe Matriz foi constituída
da união de pequenos engenhos, e o Comendador Tércio Wanderley adqui-
riu o controle acionário da empresa. Sua principal atividade é a produção de
açúcar e álcool, além da produção de energia, atividade que tornou possível
através de estudos em relação ao destino dos resíduos da cana-de-açúcar.
Ainda em tempos atuais, a usina Coruripe Matriz exerce uma forte
presença na economia local, depois de passado o período de reestruturação
produtiva que teve como resultado o início da rede agroindustrial através da
sua expansão para Minas Gerais.

93
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

O Grupo se estabeleceu em Minas Gerais no ano de 1994 com sua


primeira filial localizada no município de Iturama. A empresa foi adquirida
pelo Grupo a partir da aquisição da Destilaria Alexandre Balbo, e tornou-se
a mais importante unidade do Estado, por ser a primeira e a maior tanto em
produção como em capacidade produtiva.
Vale lembrar que o grupo TW expandiu seu negócio no Triângulo Mineiro
com base em três estratégias: 1) aquisição de uma unidade do grupo pau-
lista Balbo, a partir da qual foi criada a Unidade Coruripe Filial Iturama
em 1994, quando o grupo iniciou suas atividades em Minas Gerais; 2) o
desmonte da antiga destilaria Camaçari, em Alagoas, sendo parte dos equi-
pamentos usados para implantar a Unidade Coruripe, no município de
Campo Florido, em 2002; 3) e a construção de novas unidades, a Coruripe
Limeira do Oeste, em 2005, e a Coruripe Carneirinho 100% nova, voltada
inicialmente para a produção de açúcar (Oliveira, 2009, p. 250).

Podemos afirmar, segundo pesquisas de campo, que a filial de Itura-


ma está no centro de outras duas – de Limeira do Oeste e Carneirinho −,
gerando influência direta nessas unidades tanto pela proximidade quanto
pela forma de produção das mesmas. A filial de Limeira do Oeste foi des-
tinada apenas à produção de etanol, já a de Carneirinho produz apenas
açúcar e fica a cargo da unidade de Iturama controlar o desempenho dessas
unidades.
Portanto, a influência que a empresa matriz tem nas unidades mineiras
está mais relacionada ao nome e prestígio do Grupo, contando com uma
influência na parte administrativa. As unidades mineiras possuem autono-
mia de gestão e são consideradas até mais evoluídas que a matriz no que se
refere a tecnologias aplicadas na parte industrial e na mecanização, que está
em fase inicial na unidade de Alagoas, até por condições do próprio relevo
do Estado.
Percebemos a influência da unidade de Iturama nas demais unidades
da região. “A unidade de Alagoas, de lá vem a administração central, a dis-
tribuição dessas ideias é feita por Iturama. De lá se reúne o conselho e as
metas, e Iturama é o lugar que faz o repasse”.3 Isso se dá principalmente por
ter sido a primeira unidade em Minas Gerais, e em sua aquisição a região já
possuía a estrutura de uma grande empresa, tornando a unidade responsável
pelas demais unidades do Grupo.
3
Entrevista com prestador de serviços das usinas Coruripe (Iturama, maio/2013).

94
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

A migração do Grupo Tércio Wanderley para o Triângulo Mineiro/


Alto Paranaíba ocorreu com pequena participação do Estado, diferente do
que acontece com a implantação da maioria das usinas que são financiadas
pelo BNDES. O Estado esteve presente com maior incentivo no momento
em que se instalou a Destilaria Alexandre Balbo. Na implantação da Coru-
ripe houve benefício fiscal de ISS,4 porém por curto prazo, segundo entre-
vista de campo. O interesse de investimento do Grupo na região foi pautado
na possibilidade de crescimento e expansão dos mercados, pois o Grupo foi
um dos pioneiros a se instalar na região.
(...) quando eles vieram pra cá, nós tínhamos aqui a João Lyra lá em Ituiu-
taba, Capinópolis, praticamente não era explorada a região. E eles viram
que o setor ia crescer, eles viram que ia sair de São Paulo, de Pernambuco
e Alagoas a cana, pro restante do país, e eles mediram, eles mapearam as
regiões que podiam ter retorno. Terra produtiva, capacidade de água muito
grande.5

Sobre a unidade de Campo Florido, os incentivos ocorreram em for-


ma de Parcerias Público-Privadas (PPP) para o desenvolvimento da malha
viária a fim de facilitar o escoamento da produção, como aponta o gerente
administrativo da usina. No município em questão, a implantação da Co-
ruripe ocorreu em virtude dos próprios fornecedores. Segundo o Gerente
Administrativo da empresa, os fornecedores possuíam uma excelente es-
trutura para o plantio da cana e já detinham mão de obra para o plantio
e colheita mecanizados, de forma que as primeiras safras já iniciaram com
a mecanização.
A estrutura que os fornecedores tinha pra plantar cana era muito boa. Lo-
gicamente topografia, clima, isso tudo também ajudou, mas o que mais
pesou foi a estrutura que os fornecedores tinham. Eram empresários rurais,
são empresários rurais, né?, e já detinham a mão de obra para plantio toda
mecanizada, e colheita mecanizada, então eles já partiram, a introdução
veio tudo com colheita mecanizada. Então eles já tinham tecnologia, já
implantavam tecnologia de ponta na área agricultável de soja, ou soja ou
milho, então a grande indução de vim pra cá foi dos próprios fornecedores.6

4
Imposto Sobre Serviço de qualquer natureza.
5
Entrevista com prestador de serviços das usinas Coruripe (Iturama, maio/2013).
6
Entrevista com o gerente administrativo da Coruripe Filial Campo Florido (Campo Florido,
setembro/2013).

95
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

O desenvolvimento da atividade canavieira foi bastante favorável para


as empresas no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Quando questionado
sobre os fatores que influenciaram os investimentos na região, a primei-
ra resposta foi em relação ao grande potencial agrícola, a disponibilidade
de terra e água, a infraestrutura decorrente dessa expansão – visto que o
Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba já possuía uma logística que facilitou o
desenvolvimento da produção. Além disso, a capacidade de crescimento da
atividade canavieira foi um dos principais fatores que influenciaram os in-
vestimentos, tanto no crescimento da usina como dos fornecedores. O Tri-
ângulo Mineiro/Alto Paranaíba, embora bastante ocupado por outras ati-
vidades agropecuárias, ainda possui imensas áreas a serem “exploradas pela
monocultura canavieira”.
Ah! tem muita área ainda. Tem ainda que melhorar, né?, mas tem muita
área ainda pra arrendar. Tem muita área ai, apesar de que a cana se você
for uns 30, 35 quilômetros pra cima já não é muito viável, então concentra
mais na beira da rodovia por causa do transporte. Facilita o transporte,
facilita a mão de obra.7

Como bem aponta Castillo (2013, p. 77) e ressaltado pelo fornecedor


de cana da Coruripe, a viabilidade consiste na usina estar situada no centro
de um círculo ocupado por canaviais, cujo raio poderia ser estimado em 40
km, pois o “mais importante que a distância física é a distância medida em
custo e, sobretudo, em tempo”. Por outro lado, devido à proximidade de al-
gumas usinas na região, é impossível cartografar o alcance potencial de cada
usina, pois a monocultura se confunde tornando visível como uma coisa só.
As lavouras se localizam muito próximas das unidades, pois a longas
distâncias tornam-se inviáveis devido aos custos. A usina trabalha com Cor-
te, Carregamento e Transporte (CCT), dando preferência às áreas próximas
à usina e seu entorno. “A gente brinca muito, o custo do CCT menor é a
gordura do meu lucro”.
Mesmo com as oscilações devido às crises ou com a redução de custos
nos tratos dos canaviais influenciando na produtividade, os empresários do
agronegócio canavieiro se mantêm bastante otimistas em relação ao cresci-
mento da atividade. Segundo o fornecedor responsável pelo Grupo Irmãos
Boldrin, desde que vieram para Minas Gerais não deixaram de expandir.

7
Entrevista com o fornecedor de cana do Grupo Irmãos Roncolato (Iturama, maio/2013).

96
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

A crise de 2008, responsável por uma grande quebra no setor, na qual


muitas usinas fecharam no país por ausência de capital, acabou selecionan-
do o pessoal que continuaria na atividade. A estrutura que o Grupo Tércio
Wanderley mantém fez com que os reflexos da crise de 2008 não fossem
tão impactantes, afetando pouco a produtividade. O Grupo trabalha com
endividamento baixo para em momentos de crise ter caixa suficiente para
sua manutenção. Outra estratégia utilizada durante a crise de 2008 foi a
redução de custo de produção. De acordo com o gerente administrativo da
filial de Campo Florido, eles otimizaram os custos industriais e agrícolas,
deixando de aplicar alguns corretivos, agrotóxicos e adubação, realizar algu-
mas expansões que estavam previstas para enfrentar a crise sem necessidade
de dispensar mão de obra. Utilizando essa estratégia de redução e passada a
crise, o Grupo já trabalha em novos projetos de expansão.

REDES DE PRODUÇÃO E FORNECEDORES DA USINA CORURIPE


A produção canavieira do Grupo Tércio Wanderley corresponde ba-
sicamente entre a produção da usina e dos fornecedores. Mais de 50% da
cana utilizada na produção da Coruripe8 é proveniente de áreas adquiri-
das pela usina por forma de compra e em contratos de parceria. O restante
da cana provém dos fornecedores. Esses se dividem em grandes, médios e
pequenos. Eles possuem, em sua maioria, áreas arrendadas, assim como as
áreas de produção da usina, e fornecem cana principalmente para a Coruri-
pe, sendo que alguns também abastecem outras usinas próximas em Minas
Gerais e outras localizadas em São Paulo e Mato Grosso.
Essa produção cria novas redes produtivas com outras usinas não ne-
cessariamente pertencentes ao Grupo Tércio Wanderley, arrendando terras
de pequenos produtores na região e alguns prestando serviço, como é o caso
dos Irmãos Boldrin, um dos maiores responsáveis da produção de cana das
usinas Coruripe, que em meio à crise de 2008 investiu em maquinário,
atuan­do no ramo de prestação de serviços (aluguel de máquinas) para a pró-
pria usina e outros fornecedores.
As unidades da Coruripe Iturama, Limeira do Oeste e Carneirinho
possuem os mesmos fornecedores, principalmente pela proximidade das

8
Aqui estamos considerando o volume de produção de todas as unidades da Coruripe em Minas
Gerais no ano de 2013.

97
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

unidades, por elas serem interligadas. São cerca de 50, divididos entre pe-
quenos, médios e grandes. Já a Coruripe de Campo Florido possui aproxi-
madamente 69 fornecedores. A tabela 1 caracteriza os principais responsá-
veis pela produção de cana-de-açúcar das usinas Coruripe.

Tabela 1 – Principais fornecedores da Coruripe9


Fornecedores Área (ha.) Produção (ton.) N. Funcionários N. Colhedoras
Irmãos Boldrin 2.700 – 500 15
Irmãos Roncolato 1.500 74 mil 136 5
Usinas Coruripe 104.405 9,65 milhões – –
(-) Sem informação.
Fonte: Pesquisa de Campo (Iturama – Maio/2013), Canasat, 2014. Org.: Campos, N. L., 2014.

Os Irmãos Roncolato atuam na região desde 1986, quando a Destilaria


Alexandre Balbo foi fundada, e ainda permanecem como fornecedores das
usinas Coruripe. Cerca de 80% de sua produção é para a Coruripe, com
maior parte para a unidade de Iturama, além de produzir para a usina da
Pedra em Ribeirão Preto (SP) e para a Bunge de Ouroeste (SP) em outras
áreas produtoras. Sua produção concentra-se grande parte em terras pró-
prias, numa área de 1.500 hectares, como mostra a tabela 1, e possui alguns
contratos de parceria. A produção no Estado de São Paulo concentra-se em
uma área própria de mil hectares. A participação dos Irmãos Roncolato no
Estado de São Paulo não é tão expressiva como em Minas Gerais, que con-
centra 80% da produção, de forma que toda lavoura se localiza no municí-
pio de Iturama. Eles atuam somente na atividade canavieira como fornece-
dores de cana e ainda prestam alguns serviços na área. Toda a produção é
mecanizada, assim como a da maioria dos fornecedores e da própria usina.
Os Irmãos Boldrin têm origem em Piracicaba, interior de São Paulo,
onde já atuavam na atividade canavieira. Devido à ausência de áreas para
crescer e a grande concorrência, iniciaram a atividade no Triângulo Mineiro
no primeiro ano do Grupo Tércio Wanderley, participando da primeira safra
em 1995. Assim como os Roncolato, eles ainda têm uma pequena produção
no Estado de São Paulo fornecendo cana para a Bunge de Ouroeste. O que
diferencia os Irmãos Boldrin dos Irmãos Roncolato é a forma de atuação de
ambos. Os Boldrin, pós crise de 2008, venderam grande parte de sua área
produtiva para a Coruripe e investiram na prestação de serviços para as usi-
9
Exceto a unidade de Campo Florido.

98
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

nas da região adquirindo colhedoras – vê-se pelo número expressivo na ta-


bela 1, um total de 15 colhedoras adquiridas com auxílio de financiamentos.
Até o ano de 2008, os Irmãos Boldrin possuíam uma área de 7 mil
ha de terras, segundo o responsável. Como forma de liquidar as despesas e
enfrentar a crise, eles venderam 5 mil ha para a Coruripe e, passada a crise,
estão crescendo novamente, investindo na prestação de serviços. Em 2014,
ramificaram suas atividades e têm como maior contratante a Bunge. Atuam­
nas usinas em Santa Juliana, Frutal, Itapagipe (três unidades da Bunge),
Usina Caeté, unidade Delta, além de atuar no Estado de São Paulo. Nesse
sentido, atuam como prestador de serviços, produtor rural e fornecedor de
cana, um dos maiores da Coruripe, sendo a referência de um dos melhores
ATR10 e são considerados os mais produtivos.
Desde que iniciaram na atividade canavieira, os fornecedores tiveram
financiamentos e empréstimos de bancos e a usina era avalista. Eles tam-
bém se utilizaram de financiamentos para a aquisição do maquinário – as
colhedoras, que possibilitaram a atuação no ramo de prestação de serviços.
A presença das usinas na região criou diversos outros postos de servi-
ços que podemos considerar como integrantes de uma rede, como oficinas
mecânicas, escritórios, associações etc. Em pesquisa de campo realizada em
maio de 2013 no município de Iturama, foi verificada a grande influência
das usinas na região, principalmente em relação à geração de emprego e
renda no desenvolvimento econômico dos municípios. Alexandrita, distrito
de Iturama, é um exemplo dessa influência. Grande parte da economia da
“vila”11 é dependente da usina assim como os empregos. A maioria da popu-
lação que reside naquele local é funcionário direto ou indireto da usina. É
nesse distrito que se localizam os escritórios dos dois maiores fornecedores
do Grupo, os Irmãos Boldrin e os Irmãos Roncolato.
Ainda que a usina seja a maior fornecedora, mais de 50% da produção
de cana é oriunda de terras adquiridas e arrendadas pela usina, a importân-
cia dos fornecedores é fundamental para a produção do açúcar e álcool da
Coruripe. Eles se concentram entre esses dois maiores, que possuem áreas
próprias e a maioria composta por arrendamentos, e cerca de 50 outros pe-
quenos. Essa produção é dividida entre as três principais usinas que estão
10
ATR: Açúcar Total Recuperável. É usado para efeitos de cálculo do preço nas bolsas de cereais
da tonelada de cana-de-açúcar.
11
Forma que os moradores chamam este distrito de Iturama.

99
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

próximas. Os irmãos Boldrin, entre 2006 e 2008, tiveram uma experiência


abastecendo a unidade de Campo Florido, porém, com a crise de 2008,
eles continuaram apenas com as outras três unidades, passando as terras de
Campo Florido para a usina.
Quando o Grupo veio para o Triângulo Mineiro, vieram também as
experiências de gerenciamento da matriz alagoana e alguns fornecedores,
esses por manter nível de parentesco e amizade com a família que gere o
Grupo. Alguns deles, por não terem experiência e conhecimento necessários
sobre a produção canavieira, acabaram abandonando a atividade e hoje o
número de fornecedores alagoanos não é tão expressivo. Podemos conside-
rar que junto com a matriz alagoana veio o know-how de gerenciamento e
direção das unidades, porém o de produção agrícola em grande parte veio
do Estado de São Paulo, a saber, pelos principais fornecedores, antes produ-
tores paulistas que, devido à crescente competitividade na região, passaram
a investir nessa nova área de expansão.
Segundo o prestador de serviços da Coruripe, para trabalhar na ativi-
dade canavieira tem que ser profissional do agronegócio canavieiro. Quem
se aventura nessa atividade sem o devido conhecimento, por mais estrutu-
rado financeiramente que seja, será um dos grandes candidatos a quebrar na
primeira crise. O agronegócio canavieiro é uma atividade que gira muito di-
nheiro, tem um custo altíssimo, e é preciso conhecer todos os setores, desde
o preparo do solo, a limpeza de área, para conseguir se manter no negócio.
Esse foi um dos principais motivos da falta de sucesso dos produtores nor-
destinos que vieram para o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba investir na
atividade canavieira.
Na visão do responsável pelo Grupo Irmãos Roncolato, o diferencial de
produção dos paulistas para os nordestinos, mais precisamente os alagoa­
nos que vieram para a região, está no gerenciamento da atividade. Isto é,
presença nas lavouras acompanhando todo o processo produtivo. “Eles [os
alagoanos] são mais de administrar escritório, a gente não, somos mais de tra­
balhar na lavoura”.12
Já o responsável pela atuação do Grupo Irmãos Boldrin ressalta que
houve casos de produtores paulistas e mineiros que também não tiveram
sucesso na atividade canavieira, assim como houve produtores nordestinos

12
Entrevista com o prestador de serviços das usinas Coruripe (Iturama, maio/2013).

100
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

que tiveram sucesso. A questão está na origem do Grupo, visto que, segundo
ele, tem-se essa visão devido ao Grupo ser nordestino, de que haveria uma
preferência por produtores da mesma origem. Houve um tratamento seme-
lhante para com todos os produtores, cabendo a cada um sua administração
para sobreviver no negócio.

PRINCIPAIS TRANSFORMAÇÕES SOCIOESPACIAIS PELO GRUPO


TÉRCIO WANDERLEY
É comum na atividade canavieira as usinas adquirirem terras para a pro-
dução, além de contarem com as parcerias dos produtores. Essa aquisição se
dá por meio de contratos de compra e venda e/ou contratos de parcerias e
arrendamentos. Em entrevista com o prestador de serviços da Coruripe, des-
vendamos algumas estratégias da forma de aquisição de terras pela empresa.
Durante o ano de 2013, o Grupo Tércio Wanderley passou por uma
reestruturação em suas esferas organizacionais, de modo que ocorreu a mu-
dança de sua equipe de gerenciamento tanto da matriz alagoana quanto das
filiais mineiras. Essas mudanças estão ocorrendo principalmente para sele-
cionar os parceiros e os fornecedores de cana.
A empresa participa como avalista nos financiamentos de seus parceiros
e produtores. Nesse sentido, todo o acesso que os produtores têm ao crédito
está vinculado a um aval dado pela Coruripe, pois a empresa possui carta
branca em todo sistema financeiro. Ainda, os contratos de parcerias estabe-
lecidos por dez anos dão preferência de compra das terras para a usina, caso
o proprietário queira vender. Muitos se endividam pegando adiantamento
de safras e acabam vendendo suas terras para a usina.
O que essas pessoas, a grande maioria, fizeram? Passaram 100% das suas
áreas em arrendamento, pegaram duas safras e o mundo de dinheiro, que
fazia tempo que não viam dinheiro e compraram uma casa na cidade, com-
praram um carro novo e pagaram as dívidas que eles tinham e fazem finan-
ciamento para se manter. Passa um ano, passa dois, passa três, mas não con-
segue girar, quando ele começa a receber o dinheiro ele já tá tão endividado
novamente que ele tem que vender a propriedade. E às vezes quem compra é
a própria usina, porque já tem no contrato que a preferência de compra é dela,
tem 40 mil o alqueire, eu quero 50, menor do que esse valor não. E ela tem
direito da cana. No contrato dela tem preferência de compra em igualdade
de condição, só que tem que a lavoura é dela, por 10 anos a lavoura é dela.13
13
Entrevista com prestador de serviços das usinas Coruripe (Iturama, maio/2013).

101
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

Com isso, a usina comprou muita terra, chegando a possuir mais de


50% da produção canavieira, ficando o restante por conta de fornecedores
e parceiros.
A visão que os empresários do agronegócio canavieiro têm em rela-
ção à falta de sucesso de alguns produtores está relacionada ao desprepa-
ro dos mesmos na atividade canavieira. São os ditos “aventureiros”, que
sem nenhuma experiência optam por arrendar as terras em contratos
de parcerias e não conseguem administrar a situação, se endividando
em outras formas de financiamento. Visto que a renda esperada não é
imediata, requer algum tempo para se obterem os lucros da atividade
canavieira.
Nesse sentido, de acordo com o contrato estabelecido, o produtor fica
dependente da usina, pois ela tem preferência na compra da terra, mesmo
que ele encontre um comprador que ofereça um valor maior. Com essa es-
tratégia, a usina adquiriu muitas propriedades que são administradas por ela
ou em parceria com os fornecedores. Nessa parceria, a usina arrenda suas
terras para o parceiro cultivar a cana e recebe os 13, 14% como os outros
produtores que arrendam a terra.
A produção canavieira das usinas Coruripe em Minas Gerais provém,
cerca da metade, de áreas próprias da usina, e o restante é dividida entre os
produtores/fornecedores. As lavouras de cana-de-açúcar configuraram uma
nova paisagem no território do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e expres-
sam de forma significativa um crescimento econômico nos municípios onde
a Coruripe atua. Na tabela 2 mostramos a evolução da produção de cana-
-de-açúcar nos municípios de Campo Florido, Carneirinho, Iturama e Li-
meira do Oeste.

Tabela 2 – Produção de cana-de-açúcar (ton.)


dos municípios de atuação da Coruripe
Municípios 2002 2004 2006 2008 2010 2012
Campo Florido 479.360 1.150.165 1.757.500 1.728.000 1.750.000 1.800.000
Carneirinho 25.725 16.400 40.000 390.000 560.000 480.000
Iturama 1.181.821 1.738.886 1.909.200 1.720.000 2.373.120 2.318.000
Limeira do Oeste 177.626 180.216 694.800 1.020.000 1.530.000 1.598.000
Total 1.864.532 3.085.667 4.401.500 4.858.000 6.213.120 6.196.000
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM) – IBGE, 2013.
Org.: Campos, N. L., 2013.

102
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Os dados revelam como nos últimos dez anos a produção canavieira nesses
municípios têm crescido, passando de mil para milhões de toneladas. Mesmo
que o município de Limeira do Oeste possua duas usinas – Coruripe e Cabrera,
tendo a produção dividida entre essas duas unidades −, ainda é um volume con-
siderável e o que teve maior expressão, visto que as usinas no município são con-
sideradas novas (sendo a primeira de 2005 e a segunda de 2009). Tal fator ocorre
devido ao município já possuir lavoura para abastecer a unidade de Iturama.
A presença das usinas gerou algumas transformações na paisagem, nos
modos de vida e na produção agrícola, principalmente dos pequenos muni-
cípios dessa região. Os municípios que possuem usinas instaladas apresen-
tam características semelhantes em relação ao crescimento econômico, se-
gundo a pesquisa do Diagnóstico de Impactos de Grandes Projetos em Direitos
Humanos (2009). Isso se deve ao fato de que a instalação da usina gerou um
crescimento populacional nesses municípios. Devido ao atrativo do empre-
go, houve um crescimento do comércio de diversos serviços, como alega o
Gerente Administrativo da Usina Coruripe de Campo Florido.
Ela influenciou aí o comércio local, o desenvolvimento local, o próprio desen-
volvimento habitacional, não era uma região que tinha um impacto de desen-
volvimento habitacional tão grande, foi o que aconteceu. Pirajuba praticamente
em 10 anos dobrou de tamanho, tinha 1.800 habitantes e hoje tem 4.600.
Campo Florido ao longo desses 10 anos também praticamente dobrou, tinha
entre 2.600, 2.800 habitantes, hoje é 6.200. E alguns outros aspectos da cida-
de também, que não tinha comércio local, o comércio era todo em Uberaba,
foi atraindo o comércio pra cá, o desenvolvimento do próprio comércio local,
a prestação de serviço, mão de obra não tinha também na região, começou a
acontecer; é, hotéis, posto de combustível, isso também não tinha. Então toda
a influência física dentro da cidade que houve foi praticamente pela demanda
da empresa. A gente deve ai empregar na faixa de 4.600 empregos indiretos de
fornecedores de cana, a gente tem a empresa com 70% de cana de fornecedor,
chegou a ser 100%, então isso influenciou muito no próprio desenvolvimento
da região e quando o fornecedor ele compra, ele compra do comércio local, ele
não tem o poder de compra que a usina tem. Quando a usina vai comprar ela
compra 100 pneus, 200 pneus, pra comprar pra vários tratores né, e o forne-
cedor não, ele tem talvez dois, três tipos de modelo de tratores diferentes. E ai
ele compra no comércio local, acaba fomentando o comércio local. Então veio
pra cá grandes cooperativas, Copercito, Copercana, e outras demais ai, então
desenvolveu muito bem o comércio local.14
14
Entrevista com gerente administrativo da usina Coruripe Filial Campo Florido (Campo Florido,
agosto/2013).

103
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

A fala do entrevistado refere-se ao município de Campo Florido, que


durante esses dez anos passou por significativas transformações estruturais
e econômicas. Campo Florido possui uma população de aproximadamente
6.870 habitantes segundo o Censo Demográfico de 2010 e uma área terri-
torial de 1.264,245 km². Nesse período, a cana-de-açúcar já ocupava uma
área de 17.500 ha no município. Além da cana, suas principais produções
são soja, milho, arroz e feijão, além da pecuária que ainda é representativa,
pois o município localiza-se a 74 km de Uberaba.
Como mencionado pelo entrevistado, e segundo reportagem do Canal
Bioenergia, Campo Florido vem experimentando um crescimento econô-
mico inédito.
A economia local passou a atrair, inclusive, gente que havia migrado em
busca de novas oportunidades. Hoje, existem cerca de 2 mil empregos tem-
porários e 4 mil empregos diretos. Magno Luiz, chefe de gabinete da Pre-
feitura de Campo Florido, diz que o aumento de empregos na região trouxe
progresso para o município. Várias empresas estão se instalando em virtude
do funcionamento da Usina Coruripe. (...) Cerca de 80% da força de traba-
lho atua em atividades ligadas direta ou indiretamente ao setor de etanol.
Tal crescimento refere-se às mudanças no modelo de cultivo adotado. Os
produtores locais negociaram com o Grupo Tércio Wanderley para que a
Coruripe terceirizasse a produção de cana na região, em que cerca de 60
agricultores se organizam em condomínios de fornecedores, modo de tra-
balho adotado pela indústria (Canal Bioenergia, 2008).

A reportagem corresponde ao ano de 2008, pouco antes da crise que


acometeu o setor sucroenergético no país. Ainda hoje (2014) o município
sofre as influências da Coruripe, pois ela gerou novos postos de traba-
lho, porém, as populações camponesas não foram beneficiadas com es-
ses empregos, com a maioria excluída desse processo, principalmente os
migrantes.
A instalação da Coruripe no município trouxe diversas mudanças nas
atividades comerciais, antes comandadas pela pecuária de leite. Segundo o
entrevistado, tradicionalmente a produção da região desse município era
dividida em 70% pecuária e 30% grãos. Em 2014 esse quadro se inverteu,
passando a 30% de pecuária e 70% agricultura (35% cana-de-açúcar e 35%
soja). Contudo, o que ocorre é que essa expansão está ocupando cada vez
mais áreas de agricultura e pecuária, ocasionando desmatamentos e incor-
porando territórios camponeses.

104
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Iturama e o distrito Alexandrita, Limeira do Oeste e Carneirinho são


influenciados principalmente pela Coruripe Filial Iturama. O municí-
pio possui uma população de 34.456 habitantes e uma área territorial de
1.404,663 km², e a participação canavieira no ano de 2010 era de 30.900
ha. Limeira do Oeste possui uma população de 7.269 habitantes e área terri-
torial de 1.319,036 km², sendo 18 mil ha ocupados com cana-de-açúcar em
2010 e Carneirinho possui uma população de 9.471 habitantes e área terri-
torial de 2.063,315 km² com 7 mil hectares de cana-de-açúcar no mesmo
ano (Censo Demográfico 2010, IBGE). Juntas somam uma população de
51.196 habitantes. São municípios com população relativamente pequena na
região que expressam o desenvolvimento canavieiro, por isso, criando uma
forte dependência dessa atividade econômica que muitas vezes acaba sendo
a principal fonte de renda desses municípios.
Com a presença das filiais da Coruripe na região, houve um aumento
no comércio de prestação de serviços, como oficinas, autopeças, postos de
combustível etc. Toda essa economia é principalmente movimentada em
virtude dos fornecedores que atuam naquela região. Toda essa demanda
do comércio de serviços especializados para as agroindústrias canavieiras
necessita de uma mão de obra capacitada para atuar nesse serviço, sendo a
grande dificuldade encontrar esse pessoal. “Existe a vaga, mas não encontram
profissional”.
Segundo o entrevistado, o distrito Alexandrita é privilegiado por pos-
suir a melhor logística para quem quer trabalhar na região. Ele está no cen-
tro, a 70 km de Paranaíba/MS, a 90 de Jales/SP e a 90 km de São Simão/
GO. Como a filial de Iturama está distante de Uberlândia e Uberaba, é
utilizado São José do Rio Preto/SP como referência para alguns serviços que
a região não oferece, como exemplo, serviços hospitalares. A distância é de
“200 km, sendo 90 km de asfalto bom e 110 km de pista dupla, enquanto
para Uberlândia são 270 km de pista com muitas curvas. Então, a gente
utiliza muito mais São Paulo do que Minas Gerais”. Nesse sentido, os prin-
cipais fornecedores de cana da Coruripe Filial Iturama preferiram se instalar
nesse distrito por possuir boa condição logística e proximidade com a usina.
Assim, a principal mudança provocada pela presença da Coruripe nos
municípios de atuação foi gerar condições de trabalho que até então eram
restritas às atividades do campo. Na região de Iturama, por exemplo, traba-
lhavam-se nos meses iniciais na colheita do algodão, sem registro em cartei-

105
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

ra. Com a presença da usina, surgiram novos postos de trabalho em detri-


mento dos que existiam antigamente nas lavouras.
Além dos empregados que a usina contrata, a presença dos parceiros15
trouxe nova condição de emprego. São os parceiros principalmente que mo-
vimentam o capital na comunidade. Nesse sentido, o comércio se desen-
volveu, modificaram-se os postos de trabalho e houve uma necessidade de
prestadores de serviços de diversas categorias. O crescimento no comércio
está relacionado a demandas que a instalação de uma usina precisa para o
seu funcionamento e manutenção. Para os moradores locais, a usina trouxe
crescimento e renda para a região.
Segundo o fornecedor de cana responsável pelo Grupo Boldrin,16 há
15 anos, quando eles vieram para a região, em Iturama, havia algumas lojas
de peças e oficinas. Em 2014 encontram-se agências de caminhão, de tra-
tor, de colhedora, de veículos etc. Já em Carneirinho e Limeira do Oeste o
crescimento comercial não foi significativo. Podemos considerar que o cres-
cimento maior foi em relação à geração de novos empregos, pois devido à
proximidade com Iturama, essas demandas acabam sendo suprimidas pelo
comércio de lá. Então, Iturama tornou-se um centro polarizador de serviços
nesse eixo da Coruripe no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.
Devemos ressaltar que os novos empregos gerados e os melhores sa-
lários não atingiram a população desses municípios. O lucro é restrito aos
grandes proprietários de terras e empresários do agronegócio. Esses empre-
gos, em sua maioria, não foram para os moradores locais que ali residiam
anteriormente à instalação da usina, mas sim para aquelas pessoas que, devi-
do ao atrativo das demandas da usina, migraram para esses municípios exer-
cendo alguma atividade relacionada à usina, seja na prestação de serviços,
seja estabelecendo comércio e/ou diversos outros serviços que a usina ou o
município demandavam.
Portanto, o benefício maior obtido pela população de Campo Florido,
Limeira do Oeste e Carneirinho foi em relação à dependência de municí-
pios próximos a diversos serviços que antes eram precários ou inexistentes,
como os hospitalares, educacionais, comerciais. Campo Florido dependia de

15
Aqui estamos utilizando a definição da usina que denomina parceiros todos os produtores e
fornecedores de cana, ou seja, todos que oferecem serviços a ela.
16
Um dos principais fornecedores de cana-de-açúcar da Coruripe Filial Iturama, atuando desde a
primeira safra da usina em 1996.

106
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

Uberaba para suprir essas necessidades, enquanto Carneirinho e Limeira do


Oeste dependiam de Iturama.
A dependência da região para com a usina é grande e isso se torna vul-
nerável. Caso a empresa encerre as atividades, esses municípios sofreriam
alguns impactos e a perda seria considerável. Iturama sofreria menos com a
saída da empresa, pois não estabeleceu grande dependência, além de possuir
outros meios de arrecadação de capital. No entanto, os municípios de Li-
meira do Oeste, Carneirinho e Campo Florido sofreriam no sentido da per-
da dos empregos que ela gerou e dos melhores salários, porém, como ressalta
o prestador de serviços do Grupo, o risco disso acontecer é remoto. “A cada
dia que passa a gente tem informação, uma notícia de alguém querendo ser
sócio, alguém querendo investir mais na região, mas sempre parceiros deles,
não sozinhos, pra aproveitar o know how que eles têm”.17
Diante do exposto, percebemos que o Grupo criou algumas redes de
dependência, pois estabeleceu laços com as esferas sociais e municipais. A
Coruripe criou uma forte relação com os municípios e seu entorno, fazendo
com que muitos dependam de sua presença para se manterem com os atuais
padrões de vida. Trata-se de uma captura das lógicas sociais e econômicas
pelos grupos, visando a uma competitividade regional e uma vulnerabilida-
de territorial que representam enormes implicações na estrutura agrária das
regiões em que se realiza a produção canavieira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O agronegócio canavieiro tem motivado novos debates em torno da
questão agrária atual, principalmente no que diz respeito às transformações
geradas pela presença das monoculturas, que necessitam cada vez mais de
extensas áreas para sua produção, apropriando-se de territórios camponeses
e promovendo sua exclusão no desenvolvimento do capital. Nesse sentido,
esse trabalho teve como principal objetivo compreender a recente expansão
da monocultura canavieira no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, iniciada a
partir da década de 1980 e com maior crescimento nos anos 2000, trazendo
as experiências do Grupo Tércio Wanderley na apropriação de territórios.
Partindo da definição do Grupo, buscamos identificar as redes já exis-
tentes e que auxiliaram na instalação do grupo na região e as redes criadas

17
Entrevista com prestador de serviços das usinas Coruripe (Iturama, maio/2013).

107
Natália Lorena Campos e João Cleps Junior

pelo grupo com ênfase em sua reprodução no espaço do Triângulo Mineiro/


Alto Paranaíba, sejam elas tecnológicas, de comunicação, econômicas, lo-
gísticas. Focamos na rede dos fornecedores que permitiram maior relação
da empresa com a matriz e outros prestadores de diversos serviços, além do
mercado consumidor.
Nesta lógica das redes, vimos as estratégias do grupo na obtenção de
terras para o cultivo da cana-de-açúcar, ampliando sua rede de influência
sobre os territórios. Pautados nas experiências do Grupo, identificamos as
principais transformações territoriais nos municípios de Iturama, Campo
Florido, Limeira do Oeste e Carneirinho. Essas transformações foram posi-
tivas para os municípios apenas em relação ao crescimento econômico, com
a expansão do comércio local e geração de empregos em diversos setores. Po-
rém, o que ocorreu foram melhores condições de empregos para os grandes
produtores que já atuavam no agronegócio canavieiro, que possuíam capital
para a aquisição de terras na região e condições para o cultivo canavieiro.
Os camponeses e os habitantes dos municípios não foram inseridos
nesse processo e os pequenos proprietários que se arriscaram no agronegócio
canavieiro arrendando suas terras não obtiveram uma renda superior àquela
que teriam se cultivassem em suas terras. Nesse sentido, a produção cana-
vieira só é viável em grandes extensões de terras e quando o produtor detém
os meios de produção (máquinas) e capital para investir em melhorias nos
canaviais, aumentando a produtividade.

REFERÊNCIAS
AFES – Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade. “Diagnóstico de Impactos de
grandes projetos em direitos humanos – Estudo de caso sobre a cana-de-açúcar
(agronegócio/agroecologia) no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, Minas Gerais”.
Coordenador: Frei Rodrigo de Castro Amedée Péret. Uberlândia, 2009.
BENNETI, M. D. A internacionalização recente da indústria de etanol brasileira. Indica­
dores Econômicos FEE. Porto Alegre, v. 36, n. 4, 2009.
CAMPOS, N. L. Redes do agronegócio canavieiro: a territorialização do Grupo Tércio Wan­
derley no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Dissertação (Mestrado em Geografia e
Gestão do Território). Instituto de Geografia, UFU, Uberlândia, 2014.
CARVALHO, C. P. Setor sucroalcooleiro de Alagoas: a ultraespecialização como estra-
tégia competitiva (1990/2008). Economia e Desenvolvimento. Recife, v. 6, n. 2, p.
259-286, 2007.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

108
Redes do agronegócio: territorialização do grupo Tércio Wanderley
no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba

CASTILLO, R. A expansão do setor sucroenergético no Brasil, in: BERNARDES, J. A.;


SILVA, C. A.; ARRUZZO, R. C. (org.). Espaço e energia: mudanças no paradigma
sucroenergético. Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2013, p. 75-84.
_____ ; FREDERICO, S. Dinâmica regional e globalização: espaços competitivos no ter-
ritório brasileiro. Mercator. Fortaleza, v. 9, n. 18, p. 17-26, 2010.
CLEPS JÚNIOR, J. Dinâmica e estratégias do setor agroindustrial no cerrado: o caso do
Triângulo Mineiro. Tese (Doutorado em Organização do Espaço). Instituto de Geo-
ciências e Ciências Exatas, Unesp/Rio Claro, 1998.
DIAS, L. C. Redes: emergência e organização in: CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. C. &
CORRÊA, R. L. Geografia: Conceitos e Temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p.
141-162, 1995.
GRUPO TÉRCIO WANDERLEY. Disponível em: www.usinacoruripe.com.br. Acesso
em: 10 jul. 2014.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Disponível
em: www.ibge.org.br. Acesso em: 12 ago. 2014.
OLIVEIRA, A. M. Reordenamento territorial e produtivo do agronegócio canavieiro no Bra­
sil e os desdobramentos para o trabalho. Tese (Doutorado em Geografia). Faculdade de
Ciências e Tecnologias, Unesp/Presidente Prudente, 2009.
SINDICATO DA INDÚSTRIA DE FABRICAÇÃO DO ÁLCOOL NO ESTADO DE
MINAS GERAIS (SIAMIG). Disponível em: http://www.siamig.org.br/. Acesso
em: 22 ago. 2014.
UNIÃO DOS PRODUTORES DE BIOENERGIA (UDOP). Disponível em: www.
udop.com.br. Acesso em: 20 ago. 2014.
VENCOVSKY, V. P. Setor sucroenergético: a emergência de um novo período, in: BEN-
RARDES, J. A.; SILVA, C. A.; ARRUZZO, R. C. (org.). Espaço e energia: mudanças
no paradigma sucroenergético. Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2013, p. 51-62.

109
O TERRITÓRIO DO SISAL ENQUANTO
“TERRITÓRIO INSTITUCIONAL”: LINEAMENTOS
SOBRE A POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO
TERRITORIAL NO ESPAÇO AGRÁRIO BAIANO1

Leônidas de Santana Marques

INTRODUÇÃO
Dentro do campo da Análise Regional não são poucos os autores que
apontam para algo novo no atual contexto das discussões sobre Estado,
políticas públicas e desenvolvimento regional, conceitos que passam a ser
ainda mais problematizados. Na tentativa de buscar os fundamentos deste
new regionalism, Frisken e Norris (2001) apontam para uma série de teóri-
cos que veem nesta perspectiva o novo redentor para os problemas da de-
sigualdade regional. Contudo, é sempre preciso fazer algumas ponderações
sobre a aparência e aquilo que realmente se concretiza quanto aos modelos
de acumulação e a forma como o Estado é chamado a intervir nas primeiras
décadas do século XXI.
Assim, este artigo é apresentado como uma reflexão sobre este novo
regionalismo denominado de políticas de desenvolvimento territorial. O
recorte posto vai no sentido de analisar a relação que estas políticas têm
apresentado quanto às comunidades tradicionais de Fundo de Pasto, no
município de Monte Santo (figura 1), Estado da Bahia, mais especifica-
mente considerando a inserção deste município no chamado “Território
do Sisal”.

1
Este texto é fragmento de dissertação de mestrado que se intitula “Os fundos de pasto do
município de Monte Santo (BA) e a política de desenvolvimento territorial: conflitos e
interesses territoriais no campo”, defendida em fevereiro de 2013 no Núcleo de Pós-graduação
em Geografia da Universidade Federal de Sergipe (NPGEO/UFS), sob a orientação da Prof.ª
Dr.ª Ana Rocha dos Santos e com fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Ensino Superior (Capes).
Leônidas de Santana Marques

Localização do município de Monte Santo no Território


de Identidade do Sisal, Estado da Bahia.

Fonte: Bahia, 2003.

Monte Santo é um dos vinte municípios2 que integram o território ins-


titucional (rural, da cidadania e de identidade) “do sisal”. Assim, neste ar-
tigo são traçados alguns aspectos para compreensão desta unidade de pla-
nejamento do Estado (tanto em esfera federal quanto estadual), destacando
elementos gerais que caracterizam esta porção do Estado da Bahia, bem
como alguns traços históricos que elucidam a relação entre sociedade polí-
tica e sociedade civil organizada. Neste sentido, considera-se o papel central
assumido pelo Conselho Regional de Desenvolvimento Rural Sustentável
da Região Sisaleira do Estado da Bahia (Codes Sisal) na conformação e re-
lação entre os municípios em seus respectivos “atores sociais”, considerando
basicamente o que é exposto nos documentos institucionais do Ministério
do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do próprio colegiado.

2
Os demais municípios são: Araci, Barrocas, Biritinga, Candeal, Cansanção, Conceição do
Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Nordestina, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Santaluz, São
Domingos, Serrinha, Teofilândia, Tucano, Valente.

112
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

ASPECTOS GERAIS DO TERRITÓRIO DO SISAL


A área ocupada pelos vinte municípios do Território do Sisal corres-
ponde a aproximadamente 3,5% do Estado da Bahia, o que também re-
presenta algo em torno de 580 mil habitantes. Quanto à economia deste
território institucional (Brasil, 2011b), percebe-se a presença marcante do
setor agropecuário, que representa a maior parcela da força de trabalho.
As pequenas propriedades (com até 100 ha) representam 46% da área e
96% dos estabelecimentos, o que demonstra uma elevada concentração
fundiária (que mesmo sendo alta é ainda inferior à média estadual e na-
cional). A economia local representa em torno de 1,7% do Produto Inter-
no Bruto (PIB) estadual, principalmente relacionado à cultura do sisal e à
ovinocaprinocultura.
Considerando a estrutura fundiária do Território do Sisal, compreen-
de-se que existe uma grande predominância de pequenas propriedades. O
município de Monte Santo apresenta um elevado índice de Gini (0,719),
mesmo ressaltando que é inferior às médias baiana (0,84) e brasileira
(0,854). Ainda assim, a atividade sisaleira tem como uma de suas princi-
pais características a territorialização em minifúndios, destoando da ativi-
dade de bovinocultura extensiva que geralmente se materializa em médias
e grandes propriedades. Nos documentos institucionais que analisam a
questão deste “território” (BRASIL, 2011b; Codes Sisal, 2007), apresenta-
-se como centralidade o conceito de agricultura familiar, compreendendo
como esta forma de uso da terra é predominante, ao mesmo tempo que
está submetida a uma situação de extrema pobreza.
Assim, mesmo reconhecendo a questão da produção do sisal vincu-
lada a pequenas propriedades, o contexto em que se organiza o Território
do Sisal é de baixos índices de desenvolvimento. Quanto à educação, os
vários dados coletados apontam para uma baixa escolarização média, com
elevados números de analfabetismo, principalmente funcional. Isto acaba
tendo rebatimentos na própria relação entre os camponeses e os órgãos de
assessoria técnica (problemática que é recorrentemente levantada como
um gargalo na questão do desenvolvimento local nos documentos institu-
cionais) e também com a forma como alguns integrantes das organizações
sociais pensam e sistematizam o espaço do colegiado territorial.
Em um dos documentos oficiais consultados (Brasil, 2011a), aponta-
-se um parâmetro denominado Índice de Qualidade de Vida (ICV), que

113
Leônidas de Santana Marques

foi calculado para o Território do Sisal, obtendo o valor de 0,544, consi-


derado médio. Nesta análise, foram levadas em conta a questão do acesso
que o “agricultor familiar” tem a mecanismos de crédito rural, além de
formas de escoamento da produção. Assim, uma das principais problemá-
ticas apontadas resvala na ação dos atravessadores, o que tem como princi-
pal desdobramento a indicação da organização via território institucional
como um caminho para evitar que este quadro permaneça.
Não obstante, é necessário explicitar as especificidades do Terri-
tório do Sisal no âmbito da política de desenvolvimento territorial nas
esferas estadual e federal. Para tanto, são discutidos alguns elementos
históricos considerados centrais para compreender as suas dinâmicas es-
pecíficas. Isto porque, como fica nítido nos documentos institucionais
e nas opiniões de vários representantes do Codes Sisal, este território
pode ser visto como um exemplo no país de organização social popular
com vistas a uma nova forma de planejamento. Assim, analisar a reali-
dade contraditória da inserção das comunidades de Fundo de Pasto do
município de Monte Santo neste contexto apresenta-se como um grande
desafio de pesquisa, posto que o Território do Sisal é visto por alguns
como o modelo de como esta forma de política de desenvolvimento deve
ser implementada.
Inicialmente, vale ponderar sobre o próprio nome sisal, ou melhor,
como a cultura da agave sisalana, planta de origem mexicana, se estabele-
ceu nos sertões da Bahia. A ocupação predominante do interior do Esta-
do se deu a partir da pecuária bovina de corte. Isto ocorreu ao longo dos
vários séculos da história agrária da Bahia, apresentando algumas especi-
ficidades localizadas espacial e temporalmente. O caso da região sisaleira
é um exemplo disto, posto que no final do século XIX algumas pessoas
trouxeram esta cultura para o sertão baiano e experimentaram o seu culti-
vo, que foi sendo testado durante o século XX. Ainda assim, o sisal apenas
se consolida nesta região a partir das décadas de 1930 e 1940 por conta da
necessidade das fibras no contexto da Segunda Guerra Mundial.
Esta forma de produção e plantio se estabeleceu eminentemente em
bases minifundistas e teve um crescimento maior no aproveitamento das
palhas a partir da década de 1950, com o processo de mecanização parcial.
A progressiva estruturação da cadeia produtiva do sisal desenvolveu
uma série de relações produtivas entre as diversas etapas da extração, o que

114
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

alguns autores (Santos et al., 2011) apontam para a construção do senti-


mento de pertencimento, considerado hoje como marco para as políticas
de desenvolvimento territorial. Estes aspectos também são considerados
nos documentos do Codes Sisal (2007), que inclui como fatores da iden-
tidade local os elementos da paisagem do sertão, vinculadas à questão do
messianismo, do cangaço, da figura do vaqueiro, além de algumas ma-
nifestações culturais. Estas marcas da cultura local são apropriadas pela
política de desenvolvimento territorial e passam a compor o cabedal de
critérios para definição das áreas de planejamento do Estado.
Contudo, na análise desenvolvida neste trabalho, prefere-se dar mais
relevância a uma outra dimensão da conformação do Território do Sisal: a
questão da organização social popular presente na maior parte dos muni-
cípios envolvidos. Esta dimensão também é frisada nos documentos insti-
tucionais e é apontada como uma questão fundamental para a viabilidade
da gestão territorial descentralizada. O marco histórico que é apontado
como crucial para esta organização é a década de 1970, quando diversos
segmentos da Igreja Católica iniciaram um trabalho de base popular vin-
culado à Pastoral Rural e ao Movimento de Organização Comunitária
(MOC), que foi criado justamente para fortalecer iniciativas populares na
luta por direitos básicos, inclusive o acesso à terra. Neste período histórico,
vale mencionar que no Território do Sisal ocorreu a primeira mobilização
camponesa no Estado da Bahia após o golpe ditatorial de 1964. Esta mo-
bilização popular, que ocorreu em 1979, esteve vinculada também à con-
quista de alguns Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STR) por setores de
esquerda, com desdobramento também para Monte Santo. Assim, pelo
que se constatou em pesquisa de campo, a presença deste município no
Território do Sisal se deveu mais por uma questão da organização popular
dos sindicatos (através do Polo Sindical da Região Sisaleira) do que neces-
sariamente pela produção do sisal em si.
O ambiente de efervescência dos movimentos sociais na década de
1980 teve resultados importantes na região sisaleira. É possível citar nes-
te período a fundação da Associação de Desenvolvimento Sustentável e
Solidário da Região Sisaleira (Apaeb) que é entidade central em diversas
dimensões da sociedade civil local, considerando o seu trabalho na orga-
nização produtiva, nas redes de solidariedade e na valorização das poten-
cialidades e produtos regionais (Santos, 2010). Ainda na década de 1980

115
Leônidas de Santana Marques

ocorreu o movimento dos mutilados do sisal, que enfrentou as condições


degradantes do trabalho rural, inclusive envolvendo crianças.
Na década de 1990, ocorreu uma atuação mais incisiva dos STR mu-
nicipais, além da criação de algumas outras organizações, como o caso do
Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR), da Fundação
de Apoio aos Trabalhadores da Região Sisaleira (Fatres), da Cooperativa
Regional de Artesãs Fibras do Sertão (Cooperafis), da Agência Regional
de Comercialização do Sertão da Bahia (Arco Sertão), e da Cooperativa
de Crédito Rural do Semiárido da Bahia (Sicoob-Coopere). É com essa
conjuntura que Santos et al. (2011) apontam para a formação de um tecido
associativo e cooperativista no Território do Sisal que dará condições para
um ambiente favorável ao debate sobre o desenvolvimento local/territorial.

O TERRITÓRIO DO SISAL COMO “TERRITÓRIO


INSTITUCIONAL”
Em 2002, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, formou-
-se o Codes Sisal, que assumiu um protagonismo importante na confor-
mação do território institucional. Antes desta nomenclatura, o governo do
Estado da Bahia denominava esta porção estadual como Região Sisaleira,
na perspectiva de desenvolvimento através de regiões econômicas. Neste
sentido, no ano de 2003, já no governo do Partido dos Trabalhadores
em nível nacional, institui-se o Território do Sisal, que se apresenta como
“instrumento catalisador das potencialidades técnicas e políticas para im-
plementação do desenvolvimento sustentável” (Codes Sisal, 2007, p. 13).
Contudo, na delimitação dos municípios que seriam enquadrados neste
território, alguns importantes produtores ficaram de fora e outros que não
produzem foram incorporados. Desta forma, questiona-se: qual teria sido
o modelo de escolha dos vinte municípios que compõem o Território do
Sisal? Uma possível resposta está presente no relatório analítico sobre a
gestão dos territórios rurais da Secretaria de Desenvolvimento Territorial
do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que aponta como principal
elemento norteador a “identidade territorial”.
Levando em conta que o enfoque territorial implementado pelas políticas
de desenvolvimento nas esferas estadual e federal considera como central a
questão da definição de territórios e que esta definição envolve aspectos cul-
turais de laços de pertencimento, é quase que previsível que a delimitação das

116
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

unidades territoriais se daria pelo que se tem chamado de “identidade”. O que


não fica muito claro nos documentos institucionais é como os agentes delimi-
tadores desses territórios encontram esta tal “identidade territorial”. No supra-
citado documento do Ministério de Desenvolvimento Agrário (Brasil, 2011b),
a questão da identidade territorial é apresentada de forma até simplória, apon-
tando que a escolha pelos critérios identitários se deu na busca por estratégias
de desenvolvimento que tenham como principal desdobramento o reconheci-
mento social e o empoderamento (expressão típica dos documentos orientados
pelo Banco Mundial) das comunidades rurais. Assim, a operacionalização dos
territórios institucionais implica uma prática que poderia desenvolver nos su-
jeitos da sociedade civil organizada envolvidos a coerência política e ideológica
e a prática da gestão e do planejamento. A identidade passa a ser vista neste
contexto como territorialidade presente nas relações espaciais, neste caso, no
Território do Sisal. Ainda assim, é preciso delimitar como se reconhece esta
possível identidade territorial aglutinadora de interesses. Para tanto, o docu-
mento apresenta cinco variáveis que foram elencadas como parâmetros para
reconhecer o grau de territorialidade presente na região aqui problematizada.
São estes: ambiente, agricultura familiar, economia, pobreza, etnia, coloniza-
ção, aspectos políticos.
Na análise feita pelo governo federal com apoio do Codes Sisal, estes
parâmetros foram aplicados na realidade do território institucional para
mensurar como se dava a identidade territorial dos sujeitos. As categorias
que apresentaram maior valor de identidade foram “agricultura familiar”,
“aspectos políticos” e “economia”; em nível médio-alto apresentaram-se
“pobreza” e “ambiente”; e em nível médio “etnia” e “colonização”. Estes
dados estão demonstrados no quadro 1.

Quadro 1 – Categorias da identidade territorial do Território do Sisal


CATEGORIAS VALOR CLASSIFICAÇÃO
Ambiente 0,766 Médio-alto
Agricultura Familiar 0,851 Alto
Economia 0,802 Alto
Pobreza 0,780 Médio-alto
Etnia 0,423 Médio
Colonização 0,506 Médio
Político 0,824 Alto
Fonte: Brasil, 2011b.

117
Leônidas de Santana Marques

Com os dados que estão dispostos no quadro 1, percebe-se que os


fatores que mais geraram identidade entre os vinte municípios que com-
põem o Território do Sisal, aos olhos do MDA, são “agricultura fami-
liar”, “economia” e “aspectos políticos”. Contudo, ainda deve ser feita uma
questão: quais os critérios utilizados para delimitação dessas categorias?
Qual o instrumento teórico que embasa essa interpretação do MDA? Nes-
te sentido, tentou-se buscar uma fundamentação acadêmica que pudesse
dar lastro para essa análise institucional. Um texto que consegue contem-
plar esse intento é “Identidade e território no Brasil”, do mexicano Rafael
Echeverri Perico (2009), que produziu um material pelo Instituto Intera-
mericano de Agricultura (Iica) a pedido da Secretaria de Desenvolvimento
Territorial. O autor coloca que foi
(...) feita uma análise dos atributos territoriais, a partir dos processos terri-
toriais analisados, que pode indicar diferenças significativas entre os Terri-
tórios de Identidade, o que conduz a construção das tipologias e a definição
de proposta técnica-operativa a ser elaborada e aplicada às áreas estratégicas
de gestão da política do desenvolvimento rural. Para isso, foram estabele-
cidas as bases conceituais e instrumentais, em modelo de classificação ou
tipificação, com indicadores a serem utilizados, e feita uma investigação
sobre as formas de aplicação do processo de planejamento da política de
desenvolvimento rural (Echeverri Perico, 2009, p. 7).

Partindo de um modelo de ficha de coleta de dados sobre a identidade


territorial, o autor chega a um quadro geral de categorias necessárias para
a delimitação desta identidade. No primeiro momento, a coleta conside-
ra os seguintes elementos: “migração e motivação”, “produção e destino”,
“estrutura agrária”, “movimentos sociais”, “sistema político”, “organiza-
ções sociais” e “manifestações culturais”. Destes elementos, o autor, que
desenvolveu sua metodologia em dezesseis territórios brasileiros, chega a
um quadro que sintetiza as dimensões e os indicadores da identidade em
um determinado território institucional (quadro 2).
Neste quadro amplo (no qual um pouco de tudo acaba sendo iden-
tidade territorial), encontram-se as categorias utilizadas pelo MDA para
definição do território. Neste sentido, na dimensão socioambiental e so-
ciogeográfica encontra-se a categoria “ambiente”; na dimensão socioeco-
nômica encontram-se as categorias “agricultura familiar”, “economia” e
“pobreza”; na dimensão sociocultural encontram-se as categorias “etnia”

118
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

e “colonização”; e na dimensão sociopolítica e institucional enquadra-se


a categoria “aspectos políticos”. Resta saber o motivo da não escolha das
demais categorias para reconhecimento desta possível identidade territo-
rial, principalmente quando se considera que a questão dos conflitos terri-
toriais é algo muito presente no cotidiano das comunidades de Fundo de
Pasto de Monte Santo.

Quadro 2 – Dimensões e indicadores da identidade territorial


Ecossistemas
Socioambiental
Bacias Hidrográficas
Sociogeográfica
Crise ambiental
Sistemas produtivos
Agricultura familiar
Polos de desenvolvimento
Socioeconômica
Economias de enclave
Pobreza
Desigualdade
Identidade Características da coesão Etnia
para a ação coletiva Fatores históricos
Sociocultural
Processos de colonização
Religião
Organizações da sociedade civil
Gestão partidária
Conflitos de terras
Sociopolítica e Conflitos econômicos
Institucional Processos antecedentes
Instituições de referência
Gestão local ou estadual
Estratégias de aceso a políticas
Fonte: Echeverri Perico, 2009.

Aprofundando-se neste debate, é necessário problematizar alguns dos


principais elementos considerados para reconhecer as categorias da identi-
dade territorial. A primeira delas, a “agricultura familiar”, é discutida tendo
em conta a influência das atividades agrícolas no desenvolvimento local, in-
clusive do ponto de vista das organizações populares. Quanto ao camponês
(Echeverri Perico, 2009), o texto se refere à clássica visão de um campesina-
to que tende a desaparecer, seja se tornando proletário nos centros urbanos,
seja subordinando-se a um mercado monopsônico. Neste quadro, a Apaeb é
vista como uma entidade capaz de dar um novo significado a este pequeno
produtor, fazendo com que ele permaneça no campo.
Sobre a “economia”, o texto institucional aponta para a formação
econômica da região como um elemento importante para o pertencimen-

119
Leônidas de Santana Marques

to, por perceber que o processo de ocupação do sertão baiano aconteceu


por meio de interesses que valorizaram a bovinocultura em detrimento
da ovinocaprinocultura. Ainda assim, em uma perspectiva determinista,
o texto reconhece as condições do meio físico como estimuladoras da
organização popular, por entender que as limitações existentes por conta
da semiaridez foram responsáveis pela maior resiliência deste povo da
região sisaleira.
Quanto aos “aspectos políticos”, o texto institucional coloca alguns
argumentos interessantes para esta análise. Primeiro, reconhece a organi-
zação popular como um fator importante para a configuração do Terri-
tório do Sisal. É justamente neste sentido que este artigo se encaminha,
ao acreditar que o processo de organização e mobilização social das dé-
cadas de 1970, 1980 e 1990 foram cruciais para a atual conjuntura dos
movimentos sociais nesta região. Contudo, neste mesmo item, o texto
institucional admite que é central compreender que com “a política de
territorialidade do governo federal, a partir de 2003, a grande maioria
dos movimentos sociais passou a apostar na organização do Território de
Identidade, sendo o primeiro Território de Identidade a organizar-se no
Estado” (Brasil, 2011b, p. 22). O documento aponta que a relação muito
estreita entre as organizações sociais e o Partido dos Trabalhadores foi um
ponto que favoreceu a penetração da política de desenvolvimento territo-
rial na região sisaleira, o que vai ter rebatimentos diretos na forma como
os governos estadual e federal se comportam com o respectivo colegiado e
nas dinâmicas das prefeituras que compõem o Codes Sisal.
Ao longo da pesquisa de campo, que ocorreu no ano de 2012 no
município de Monte Santo, percebeu-se esta relação, a ponto de ser pos-
sível afirmar que alguns creem na política de desenvolvimento territorial
mais por uma questão de afinidade político-partidária do que pela sua
efetividade.
Sobre as demais categorias (ambiente, pobreza, colonização e etnia),
às vezes chega-se a conclusões que beiram a surrealidade, como apontar
que existiria no interior da Bahia certa “etnia sertaneja”! Neste sentido, é
importante apontar os limites das análises que se desapegam da materiali-
dade do cotidiano em busca de uma idealização sobre o território institu-
cional, no qual todos estariam imbuídos pelo bem comum da localidade
pelo simples fato de estarem unidos identitariamente. Existem diferenças/

120
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

divergências na sociedade que são insuperáveis, pelo “simples” fato de se-


rem concretamente antagônicas no processo de produção e reprodução do
espaço geográfico. Ainda assim, o Estado precisa mostrar-se como acima
de interesses específicos e delega aos sujeitos a responsabilidade por um
consenso que nunca existiu, e que não precisa existir. Mas esta é apenas
uma das contradições compreendidas no contexto da política de desenvol-
vimento territorial.
A ideia de formação do espaço colegiado se deu antes mesmo da
conformação dos territórios rurais no governo do PT. O Codes, desde
os seus momentos iniciais, pretendeu desenvolver uma “cultura do pla-
nejamento”, no sentido de incentivar a descentralização e a participação
popular nos processos decisórios. Neste sentido, como afirmado em do-
cumentos próprios (Codes Sisal, 2007), sempre concebeu o desenvolvi-
mento como algo que deve ser endógeno, dinâmico e multidimensional.
Neste sentido, um dos marcos de suas atividades foi o “Seminário para
o Fortalecimento das Políticas Públicas no Território do Sisal”, realiza-
do na cidade de Valente, em março de 2007. Neste momento, foi gera-
do um Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável do Sisal
(PTDRS), a ser implementado nos anos subsequentes, conforme coloca-
do no quadro 3.
Nesta etapa de planejamento, o Codes Sisal apresentou uma série de
possibilidades de programas e ações que apontam para uma visão multi-
dimensional do desenvolvimento no território institucional. Até mesmo
alguns aspectos que geralmente não estão inseridos nestes debates sobre
o desenvolvimento territorial rural foram indicados como importantes,
destacando especificamente a primeira meta do Projeto “Terra pra morar
e trabalhar”, quando menciona “Acesso à terra: assegurar os meios para
o assentamento, através dos Programas de Reforma Agrária e do Crédito
Fundiário, de três mil famílias/jovens por ano” (Codes Sisal, 2007, p. 67-
68). Em alguns espaços que debatem a questão do desenvolvimento rural,
o acesso à terra e a reforma agrária aparecem, de uma forma geral, como
pontos já vencidos na realidade da estrutura agrária brasileira. Agora, que
fique bem claro, que se trata do planejamento do órgão colegiado, o que
não significa necessariamente que se refletirá em ações concretas por parte
do governo (o que geralmente não acaba acontecendo).

121
Leônidas de Santana Marques

Quadro 3 – Dimensões, eixos e programas do PTDRS do Sisal


DIMENSÃO EIXOS PROGRAMAS
– desenvolvimento do sistema produtivo
do sisal;
– desenvolvimento da ovinocaprinocultura;
Fortalecimento da
– desenvolvimento da apicultura;
agricultura familiar
– fortalecimento da produção artesanal de sisal;
Econômica – exploração e beneficiamento de pedras e outros minerais;
– terra pra morar e trabalhar.
– esgotamento sanitário
– eletrificação rural;
Infraestrutura
– conservação de rodovias;
– morar bem;
– fortalecimento das entidades de comunicação;
Comunicação
– fortalecimento dos movimentos sociais.
– formação de professores;
– ampliação das ações socioeducativas;
– espaços de leitura;
Educação para
– pró-universidade do semiárido;
Sociocultural sustentabilidade
– Mova-Sisal – tecendo com a fibra, alfabetização e cidadania;
– qualificação educacional em assentamentos;
– educação para a solidariedade.
Saúde – Mais saúde
Cultura – Sistema Territorial de Cultura
Geração de trabalho e renda – Vida Melhor
– educação ambiental;
– Aterra território;
Ambiental Meio Ambiente
– recuperação de áreas degradadas;
– recuperação da Bacia do Itapicuru.
Fonte: Codes Sisal, 2007.

LIMITES E CONTRADIÇÕES DO TERRITÓRIO DO SISAL


Embora no início a questão da formação do Codes Sisal tenha sido co-
locada como fruto de todo um processo de organização e mobilização social,
é preciso considerar que a composição vigente em 2013 (como não poderia
deixar de ser) é formada pelos mais diversos segmentos da sociedade civil e
do Estado. Até o momento em que foram coletados os dados da pesquisa
no referido ano, o colegiado era composto por 56 organizações, com maior
predominância de órgão e entidades do Estado, principalmente prefeituras.
Contudo, mesmo que exista esta maioria, são justamente os representantes

122
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

do Estado que mais se ausentam das discussões, notadamente os das esferas


estadual e federal. Isto, de antemão, já cria limitações profundas para a atua­
ção do colegiado; ainda assim, não se acredita que essas limitações sejam
produto de uma mera ausência aleatória ou mesmo falta de compromisso,
mas de uma inoperância que oportunamente pode ser necessária.
Quanto à esfera municipal, existe um potencial esvaziamento vincu-
lado à formação do Consórcio Público de Desenvolvimento Sustentável do
Território do Sisal (Consisal), que tem apresentado maior executabilidade
do que o próprio Codes Sisal. Vale ainda ressaltar que existe o conselho ad-
ministrativo, que é composto por seis membros da sociedade civil e cinco
membros do Estado.
Neste estudo feito pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (Brasil,
2011b), buscaram-se alguns parâmetros para avaliar a capacidade institucional
do Codes Sisal, por meio de oito variáveis: gestão dos colegiados; capacidades
organizacionais; serviços institucionais disponíveis; instrumentos de gestão
municipal; mecanismos de solução de conflitos; infraestrutura institucional;
iniciativas comunitárias; e participação. Como resultado, a análise chegou à
conclusão de que os dois principais fatores limitantes da atuação do Codes
Sisal são os mecanismos de solução de conflitos e a participação. Mas não é
só isto. Ao longo do relatório, outros elementos levantados podem suscitar a
problematização sobre a política de desenvolvimento territorial. Um deles é
sobre o grau de envolvimento que os membros do colegiado (os que ainda par-
ticipam) apresentam e como se dá a inserção da sociedade civil neste espaço.
A seleção para integração dos membros do colegiado é feita a partir de dois
métodos: a simpatia e maior assiduidade nas reuniões. Aquelas pessoas que
assumem costumeiramente posturas polêmicas e questionadoras ficam de
fora, principalmente quando se observa que essas posturas não estão de
acordo com o processo de construção coletiva. Esse constitui um desafio
para a construção territorial que é a visão coletiva a partir de ações integra-
das e negociadas que precisa necessariamente se desvincular dos interesses
apenas municipais e de suas respectivas instituições (Brasil, 2011b, p. 38).

Esta citação, que foi retirada exatamente do texto oficial, denota como é
construído o consenso territorial. As análises oficiais apontam ainda que exis-
tem setores que geralmente apresentam maior capacidade de decisão perante os
demais, sendo esses vinculados aos representantes de organizações agrícolas e
movimentos sociais. Isto, obviamente, não é algo estranho, posto que se relacio-

123
Leônidas de Santana Marques

na ao processo de formação do Codes Sisal. Não obstante, é necessário colocar


uma questão em toda esta problematização: onde se inserem as comunidades
de Fundo de Pasto dentro do Território do Sisal? Esta questão é melhor proble-
matizada em Marques (2013), mas, no recorte aqui colocado, é possível notar
como o debate que gira em torno destas comunidades (acesso à terra, direitos
tradicionais, garantia de justiça etc.) está dissociado do cotidiano desta institui-
ção. Na listagem dos componentes do colegiado, apenas duas organizações do
município de Monte Santo são apresentadas: a Prefeitura Municipal e a repre-
sentação da Escola Família Agrícola do Sertão (em outros períodos também foi
identificada a participação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais local).
Através das entrevistas feitas no município de Monte Santo, alguns limi-
tes do Território do Sisal foram colocados. Esses surgem inclusive na forma-
ção da regionalização, posto que o crivo delimitador foi baseado em interesses
distintos em relação à forma como as comunidades se organizam. Em um
dado momento foi discutida a possibilidade de formação de um território
institucional próprio dos Fundos de Pasto, que congregasse os municípios que
apresentam uma quantidade razoável de comunidades. Esta proposta não foi
à frente e, atualmente, o Território do Sisal tem um espaço muito limitado
para as pautas específicas desta forma de campesinato (o pouco espaço que
existe vincula-se ao debate sobre comunidades tradicionais).
Contudo, esta questão seria ponto de maior problematização se, de fato,
o Território do Sisal funcionasse como intentam alguns dos agentes da socie-
dade civil organizada. Isto porque, pelo que foi constatado em campo, muito
pouco do que se propõe é efetivado. Na análise de alguns representantes dos
movimentos sociais no Codes Sisal, existe um gargalo central na operacionali-
dade da política: independente da forma como o colegiado define as políticas,
estas necessitam do crivo das prefeituras, que tradicionalmente apresentam in-
teresses próprios do capital local. Existe, por exemplo, o caso de uma verba do
MDA (de aproximadamente 8 milhões de reais conseguidos “via território”)
que está paralisada na prefeitura de Monte Santo, destinada à construção de
cisternas e reforma de casas rurais em comunidades de Fundo de Pasto. De
um modo geral, estima-se que algo em torno de 90% de todos os recursos
que são destinados às demandas do colegiado territorial não são plenamente
efetivados por conta dos interesses locais das prefeituras (em sua relação com o
capital local). No caso de Monte Santo, frisa-se a relação estreita entre o poder
público municipal e os principais latifundiários da região.

124
O Território do Sisal enquanto “território institucional”: lineamentos sobre
a política de desenvolvimento territorial no espaço agrário baiano

A inoperância se agravou ainda mais nos últimos anos por conta da cria-
ção do Consisal. Este é fruto de uma associação de prefeituras do território
institucional que resolveram se consorciar e manter relações com as esferas
federal e estadual independente do que é definido na escala da política de de-
senvolvimento territorial. Neste sentido, aponta-se que o Território do Sisal,
em suma, esvaziou-se, por conta da ausência das poucas prefeituras que parti-
cipavam das reuniões. Estas preferiram criar um espaço em que seus interesses
fossem mais diretamente atendidos, independente da participação de outros
setores da sociedade. Atualmente, o Consisal é formado pelos seguintes mu-
nicípios: Araci, Barrocas, Candeal, Cansanção, Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte
Santo, Nordestina, Queimadas, Retirolândia, Serrinha e Teofilândia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um dos principais problemas que o próprio Codes Sisal reconhece em
sua relação com o Estado é a capacidade de se fazer ouvido em instâncias di-
ferentes daquelas que tradicionalmente se relacionam (geralmente vinculadas
aos ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome). Isto implica uma disputa entre as organizações da socie-
dade civil por parcos recursos, ou seja, um gerenciamento que em essência
não contempla nem sequer os direitos básicos para a tão propalada cidadania
(Fontes, 2010). Uma segunda questão é quanto à eficiência daquilo que é im-
plementado pelo colegiado. Segundo a avaliação geral feita pelo MDA (Brasil,
2011b), tanto a fase de planejamento quanto a de gestão dos projetos foram
consideradas ruins pelos próprios membros do Codes Sisal. Isso sem falar da
própria forma como esses membros se relacionam com a dinâmica do conse-
lho, ao apontarem a falta de clareza do papel de cada um no órgão colegiado.
Como se percebe, alguns dos limites apontados para a (não) funcio-
nalidade do Território do Sisal no Estado da Bahia se colocam como in-
ternos aos próprios membros do colegiado. Isto denota uma interpretação
que deturpa os limites reais da política de desenvolvimento territorial, que
está muito além da clareza do papel dos que constroem cotidianamente
este espaço. Existem muitas outras questões que devem ser problematizadas
quando se considera a realidade dos territórios institucionais em suas con-
tradições estruturais.
Do ponto de vista da relação que o Território do Sisal tem com o muni-
cípio de Monte Santo, principalmente quanto aos Fundos de Pasto, percebe-

125
Leônidas de Santana Marques

-se a inserção limitada que estas comunidades têm apresentado. A política


de desenvolvimento territorial, mesmo propalando a diversidade e a diferen-
ça como discurso, constrói uma lógica de homogeneização pelo “consen-
so territorial” que anula distinções indispensáveis para a leitura do espaço
agrário baiano. O interesse territorial tenta camuflar conflitos intrínsecos ao
processo dialético de (re)produção do socioespacial, tendendo para um falso
horizonte de solução de assimetrias pela ação do Estado.

REFERÊNCIAS
BAHIA. Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). CD-ROM SIG
Bahia, 2003.
BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Sistema de In-
formações de Projetos de Reforma Agrária. Atualização de 18 de agosto de 2011a.
Disponível em: http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/projetos-e-
-programas-do-incra/relacao-de-beneficiarios-rb. Acesso em: 19 nov. 2012.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Secretaria de Desenvolvimento Terri-
torial (MDA). “Gestão de Território Rurais” – CNPq/MDA/SDT, n. 05/2009. Re-
latório Analítico. Território de Cidadania do Sisal – Bahia. Feira de Santana, 2011b.
CODES SISAL. Conselho de Desenvolvimento Rural Sustentável da Região Sisaleira do
Estado da Bahia. Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável do Sisal –
PTDRS. Valente/BA: Codes Sisal, 2007.
ECHEVERRI PERICO, R. Identidade e território no Brasil. Brasília: Secretaria de De-
senvolvimento Territorial/IICA, 2009.
FONTES, V. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2ª ed. Rio de Janeiro: EP-
SJV/Editora UFRJ, 2012.
FRISKEN, F.; NORRIS, D. F. Regionalism Reconsidered. Journal of Urban Affairs. Mi-
chigan, Urban Affairs Association, v. 23, n. 5, p. 467-478, 2001.
MARQUES, L. de S. Os Fundos de Pasto do município de Monte Santo (BA) e a política
de desenvolvimento territorial: conflitos e interesses territoriais no campo. Dissertação
(Mestrado em Geografia). Núcleo de Pós-graduação em Geografia da Universidade
Federal de Sergipe, São Cristóvão/SE, 2013.
SANTOS, E. M. C. Gente ajudando gente: a influência da Apaeb para a constituição de
outras entidades coletivas in: COELHO NETO, A. S.; SANTOS, E. M. C.; SILVA,
O. A. da (org.). (Geo)grafias dos movimentos sociais. Feira de Santana: UEFS Editora,
2010.
_____ ; COELHO NETO, A. S.; SILVA, O. A. da. Gente ajudando gente: o tecido associa­
tivista do Território do Sisal. Feira de Santana: UEFS Editora, 2011.

126
ORGANIZAÇÃO DOS PEQUENOS PRODUTORES: O
COOPERATIVISMO/ASSOCIATIVISMO NO POLO
IRRIGADO PETROLINA /JUAZEIRO1

Renata Sibéria de Oliveira


Josefa de Lisboa Santos

INTRODUÇÃO
As transformações no espaço agrário no vale do São Francisco, inicia-
das em meados dos anos de 1960, foram acompanhadas por intensa parti-
cipação do Estado, que atuou na condução das políticas de reordenamento
territorial no campo a partir da implantação dos perímetros de irrigação
nesta região.
As investigações que permeiam esta discussão estão centradas no papel
do cooperativismo e do associativismo no campo brasileiro, com destaque
para as áreas que compõem o polo irrigado Petrolina/Juazeiro e na atuação
do Estado como mediador das ações dessas organizações.
Discute-se em que medida as organizações em questão asseguram a
reprodução social dos trabalhadores no campo no vale do São Francisco a
partir dos desdobramentos das políticas de reordenamento territorial advin-
das da reestruturação produtiva, cujos rebatimentos foram sentidos, princi-
palmente, após a década de 1990.
As mudanças no padrão de produção, na produtividade, nas relações
de trabalho, assim como no arranjo espacial resultante das transformações
promovidas pelo avanço das forças produtivas no polo irrigado apresentam
implicações para as práticas espaciais das referidas organizações.
Considera-se que, no Brasil, o desenvolvimento dos princípios coopera-
tivistas e associativistas passaram por adequações para atender as exigências
do modelo de produção nos diferentes contextos econômicos. Ademais, ve-

1
A presente reflexão faz parte da pesquisa de mestrado acadêmico em Geografia defendido em
2011, na Universidade Federal de Sergipe – PPGEO/UFS, orientada pela prof. Dra. Josefa de
Lisboa Santos.
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

rificou-se que o Estado atuou mediando e direcionando as ações das coope-


rativas e das associações com vistas a torná-las instrumentalizadoras da ter-
ritorialização e da monopolização do capital no Vale do São Francisco. Ao
tempo em que esses movimentos foram, e continuam sendo, contraditoria-
mente, a condição da sujeição ao capital, eles constituem o mecanismo uti-
lizado pelos pequenos produtores para assegurar sua permanência na terra.

COOPERATIVISMO E ASSOCIATIVISMO SOB A ÓTICA DO


CAPITALISMO
A cada tempo é possível observar que o desenvolvimento dos princípios
cooperativos passou por adequações para atender às formas que o capitalis-
mo exigia, chegando a concentrar-se tão somente no atendimento das neces-
sidades básicas para manter-se. Assim, esse modelo de organização foi sendo
capturado e teve que reconfigurar seus objetivos adaptando-os aos interesses
do momento da acumulação.
As propostas de Rochdale2 que nortearam uma relação de cumplici-
dade e solidariedade humana, entre os associados, foram se fixando como
forma de afirmação ao movimento embasado na adesão livre, no contro-
le democrático, no retorno dos excedentes em proporção às operações, na
taxa limitada de juros ao capital social, na neutralidade política, religiosa,
na educação cooperativista e na integração cooperativa (Onofre & Suzuki,
2009, p. 5). Todavia, na atualidade, as cooperativas no interior de suas orga-
nizações modificaram seus preceitos para se tornarem cada vez mais com-
petitivas, moldando novos padrões organizativos que utilizam a cooperação
somente para fortalecer as relações econômicas reproduzindo as relações de
trabalho capitalistas (p. 6).
Essa transformação do sentido da organização cooperativa, que parte
de um ideal coletivo de mudanças para se constituir em mecanismos da pró-

2
A principal referência do cooperativismo moderno é a cooperativa de Rochdale (Nami, 2004,
p. 42), fundada em 1844, no subúrbio de Rochdale, distrito de Manchester, na Inglaterra.
Iniciou suas atividades de maneira simples e com poucos recursos, apenas 28 associados
“que adquiriram uma modesta quantia de farinha, de azeite, de açúcar e outras mercadorias”
(Schneider, 1991, p. 37). Márcio Roberto Palhares Nami confere aos Pioneiros de Rochdale
“o mérito de que souberam organizar, de maneira perfeita, um programa completo, unindo os
princípios teóricos às regras práticas de organização e funcionamento” (Nami, 2004, p. 42). A
cooperação se processava como forma de promover a socialização de alguns setores da produção,
em sua maioria, realizados no domínio industrial.

128
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

pria dominação através do fortalecimento das relações capitalistas, já havia


sido suscitado por Marx ainda no século XIX. Para entender o tipo de pro-
dução que se estabelece com a cooperação, no tomo I do livro O capital, ele
escreveu que “a força produtiva social desenvolvida pela cooperação aparece
como força produtiva do capital, a cooperação aparece como forma específi-
ca do processo de produção capitalista” (Marx, 2006, p. 388).
Diante do desenvolvimento e expansão deste modelo de produção após o
século XVIII, as cooperativas são obrigadas a assimilarem as características des-
te sistema e se inserirem nos mercados competitivos como forma de garantir sua
reprodução. Neste momento, elas revelam seu caráter “híbrido” na sociedade,
que, por assimilar relações tanto socialistas quanto capitalistas, não se estabelece
enquanto mecanismo de emancipação econômica (Luxemburgo, 2000).
Na concepção de Marx, a necessidade histórica do capitalismo transfor-
mar o processo de trabalho num processo social revela o método usado para
ampliar a força produtiva do trabalho e com isso gerar mais lucro (Marx,
2006). É a utilização das relações coletivas de sentido emancipatório, como
as cooperativas e/ou associações, e a introdução de relações baseadas na pro-
dução e no consumo que resultam, posteriormente, na sua dissolução ou na
dissolução dos princípios orientadores de uma perspectiva de atendimento
ao coletivo.
Portanto, o fato de muitas cooperativas de produção especialmente na
Inglaterra não terem dado certo desmitifica a ideia da ‘indisciplina’ entre os
associados, pois, no modelo de produção como está estruturado, o compor-
tamento dos cooperados se assemelha aos de empresários capitalistas. Por
isso, a reforma socialista baseada no sistema das cooperativas põe de lado a
luta contra o capital de produção, ou seja, contra o ramo principal da econo-
mia capitalista, e limita-se a dirigir seus golpes contra um capital comercial
e mais exatamente contra o pequeno e médio capital comercial, ela atinge
apenas os ramos secundários do tronco capitalista (Luxemburgo, 2000).
A participação do Estado no fomento às cooperativas desestrutura ain-
da mais seus objetivos e as transforma em movimentos de caráter puramente
mercadológico. Para Marx (2000), as cooperativas só têm valor enquanto
forem criações autônomas dos trabalhadores e não forem protegidas nem
pelos governos nem pelos burgueses.
Nessa perspectiva, na análise da constituição desse modelo de produ-
ção no Brasil, verifica-se o ajuste das práticas cooperativas e associativas às

129
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

necessidades do grande capital, na medida em que seus princípios são rever-


tidos aos objetivos do capital internacional e do Estado, representados pela
classe dominante.
Com sua organização diferenciada no desvendar da história, as coo-
perativas e as associações passaram a compor projetos governamentais para
atender a muitos problemas referentes ao desenvolvimento do país, recrian-
do um novo capitalismo que se fortalece com o movimento cooperativo
(Onofre & Suzuki, 2009).
No caso do associativismo, seu surgimento estava condicionado ao Es-
tado que utilizou de seus ideais e os aprimorou segundo suas necessidades
na montagem de um instrumento para conter a onda de protestos que se
deu no Brasil após a Segunda Guerra Mundial. Ele ganha força, acoplado
ao discurso de gestão democrática e planejamento participativo difundido
pelo Estado que o atrelou a programas de assistência social para conter as
insatisfações populares.
A trajetória dessas organizações, em consonância com o desenvolvimen-
to do capitalismo, permitiu ao cooperativismo e ao associativismo assimilar
as características do sistema capitalista e hoje estas organizações possuem
seus objetivos diretamente ligados à ampliação, acumulação e reprodução
do capital, perdendo os ideais iniciais do movimento (Onofre & Suzuki,
2009).
Dessa maneira, tanto o associativismo quanto o cooperativismo no
campo brasileiro surgiram para atender demandas do Estado em função
do desenvolvimento do capitalismo e de seus objetivos em cada momento
histórico. O movimento cooperativista no campo serviu de plataforma para
a expansão das áreas agrícolas e modernização da agricultura após a década
de 1960, e ao mesmo tempo – só que com destaque para década de 1980 –,
o associativismo tem sido utilizado como disseminador de ideologias para
limitar a atuação dos movimentos sociais.

COOPERATIVAS E ASSOCIAÇÕES NO CAMPO BRASILEIRO –


ESPACIALIZAÇÃO NO VALE DO SÃO FRANCISCO E O CONTROLE
DO ESTADO
Ao nos reportar ao surgimento das práticas organizativas no Brasil, ve-
rifica-se que seu maior desenvolvimento se deu no campo. Trazidas pelos
imigrantes europeus, essas práticas possuem, em sua natureza, característi-

130
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

cas peculiares, construídas em consonância com o desenrolar da história do


país. Sua estreita relação com o capitalismo e o impulso maior para sua im-
plantação por meio do Estado demonstram a disparidade em seus objetivos
quando comparado aos ideais que as fizeram surgir na Europa dos séculos
XVIII e XIX.
As primeiras organizações de que se tem registro são as colônias co-
munitárias no Sul do país que, mesmo não apresentando o formato de uma
cooperativa ou associação, foram importantes para disseminação dos ideais
e para a formação de movimentos posteriores.3
Conforme Schneider,
Las primeiras organizaciones explícitamente cooperativas que se fundaron
en el país, fueron las cooperativas de consumo, em el año de 1891 em Li-
meira, Estado de Sao Paulo. En seguida vino la Cooperativa Militar de
Consumo en Rio de Janeiro en 1894. Después, en 1895 la Cooperativa de
Consumo de Camaragibe, en Pernambuco y en 1897 la Cooperativa de
Consumo de los Empleados de la Campañia Paulista, en Campinas, Sao
Paulo4 (Schneider, 1987, p. 149).

No campo, as primeiras cooperativas em atividade foram criadas no


Sul do país em regiões de colonização italiana e alemã. A “Societá Coo-
perativa della Convenzioni Agricoli Industriali5” foi a primeira coopera-
tiva agropecuária. Em 1902, por iniciativa de Theodor Ambstadt, nasce a
primeira cooperativa de crédito rural “ségun el sistema Raiffeisen, llamada
entonces de caixa rural”6 (Schneider, 1987, p. 149). Alguns anos depois, em

3
O movimento cooperativista no Brasil começou a ser conhecido por volta de 1841 por intermédio
do francês Benoit Julis de Mure, que na cidade de Palmital/SP tentou formar uma colônia
comunitária de produção e consumo, em 1847. A colônia Santa Tereza Cristina, fundada pelo
médico Jean Maurice Faivre, significou a chegada dos ideais e princípios cooperativistas no
Brasil. Segundo Schineider (1991), pode-se destacar ainda várias experiências associativas
antes e durante o período colonial e o império, entre eles os quilombos, que se estabeleciam
como colônias autossuficientes, o “potirão” indígena conhecido hoje como mutirão. Durante o
império, houve na área de imigração europeia, na atual região Sul, experiências de associações
econômicas inspiradas nos modelos europeus.
4
As primeiras organizações explicitamente cooperativas que foram fundadas no país eram coope­
rativas de consumo, no ano 1891, em Limeira/SP. Em seguida, foi Cooperativa Militar de Con-
sumo no Rio de Janeiro, em 1894. Mais tarde, em 1895, a Cooperativa de Consumidor em Ca-
maragibe/PE e, em 1897, a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Companhia Paulista,
em Campinas/SP (Schneider, 1987, p. 149) (tradução nossa).
5
Sociedade Cooperativa de Convenções Agrícolas Industriais (tradução nossa).
6
De acordo com o sistema de Raiffeisen, chamado então de Caixa Rural (tradução nossa).

131
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

1908, foi fundada a Cooperativa Agrícola de Rio Maior, a Cooperprima,


em Urussanga/SC.
Dos diversos segmentos cooperativos implantados, o de maior expressi-
vidade no cenário nacional foi, sem dúvida, aquele voltado para o setor agro-
pecuário. As cooperativas e associações voltadas para esse segmento da eco-
nomia se destacaram especialmente com as políticas públicas para o campo
que faziam parte do projeto de modernização da agricultura empreendido
no país, após a década de 1960.
A partir desse período, as cooperativas no campo se multiplicaram em
um espaço muito curto de tempo. E, enquanto isso, o associativismo ga-
nhou destaque na década de 1980, especialmente a partir de sua inserção em
programas governamentais.
O movimento associativista e a espacialização de associações rurais no
Brasil foram estimuladas por recursos internacionais. O Projeto Nordeste,
criado em 1985 pelo Governo Federal, a Superintendência de Desenvolvi-
mento do Nordeste (Sudene) e o Banco Mundial traziam as propostas de
planejamento participativo por meio do Programa de Apoio ao Pequeno
Produtor Rural (PAPP), que se constituiu num importante veículo de dis-
seminação de associações no espaço agrário brasileiro, sobretudo no Nor-
deste. A formação de associações era uma maneira encontrada pelo Estado
para evitar as possíveis insurgências no campo, na medida em que, através
delas, promovia a disseminação de investimentos públicos com acesso para
os camponeses e, desse modo, dificultava a organização de movimentos ra-
dicais no espaço agrário.
O cooperativismo e o associativismo tomaram corpo no Brasil como
um movimento de Estado, especialmente após a economia brasileira fixar
suas bases na agricultura. O Estado passou a ser seu grande financiador,
caracterizando-o como instrumento de articulação para expansão das áreas­
agrícolas no modo de produção capitalista, que se consolidava no país. Essa
intensa participação do Estado no direcionamento desses movimentos ca-
racteriza sua natureza de mediador dos conflitos no jogo dos interesses an-
tagônicos entre as classes.
O caráter de subordinação e de dependência dos recursos dos poderes
públicos demonstrava a fragilidade do sistema cooperativo. Amarradas à lei
5.764/16 de 1971, as cooperativas e as associações não desenvolveram sua
autonomia financeira e, com o esgotamento dos recursos financeiros do

132
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

Estado, tais estruturas se revelaram incapazes para adequar sua capacidade


produtiva, comercial e financeira, assim como instaurar as mudanças neces-
sárias para reverter o quadro de dificuldade nas cooperativas e associações
(Silva, 2001).
Durante a década de 1980, a situação se agravou diante das alterações
na política econômica internacional. A política creditícia do Estado bra-
sileiro mudou e, a partir daí, as cooperativas ficaram com dificuldade de
liquidez, não conseguindo refinanciar suas dívidas com o aporte de novos
recursos e juros baixos. Observou-se a retirada de muitas cooperativas e
um decréscimo considerável no número dessas instituições. Muitas delas
faliram ou foram incorporadas por outras que conseguiram sobreviver (Si-
queira, 2001).
O que dificultou as condições dos produtores, nesse período, foi o fato
de o Estado desenvolver um sistema de implementação de modernas técni-
cas agrícolas em favor da expansão do capitalismo via endividamento dos
produtores. Daí a fragilidade das entidades e as dificuldades de se manterem
sem o suporte do Estado.
Como as cooperativas eram constituídas, em sua maioria, de pequenos
produtores, a crise generalizada tornou o sistema cooperativista inviável do
ponto de vista econômico para eles. Sobressaíram, apenas, algumas insti-
tuições que conseguiram se enquadrar no novo contexto de reestruturação
produtiva, após o final da década de 1980.
Para Schneider (1991), esse processo se deu porque a implantação do
cooperativismo aconteceu predominantemente por via oficial “de cima para
baixo”. Na fase inicial de implantação desse sistema de produção no Brasil,
houve apenas um transplante desse modelo sem levar em conta as carac-
terísticas culturais, tornando-as, assim, apenas um instrumento de poder
político.
A estrutura montada pelo Estado brasileiro mediante leis, decretos e a
criação de órgãos governamentais contribuiu para aumentar a dependência
do movimento cooperativista. A infiltração do Estado nas organizações dos
produtores reafirmou a expansão do sistema capitalista no campo brasileiro.
É por meio do estímulo do Estado, após a criação dos perímetros públi-
cos irrigados no Nordeste brasileiro, que vão surgir organizações de produ-
tores como cooperativas e associações no polo irrigado de Petrolina/Juazei-
ro. Com o objetivo de articular os produtores, ajudar na comercialização e

133
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

também na operação e manutenção dos perímetros, as associações e as coo-


perativas do polo Petrolina/Juazeiro foram criadas e se constituíram, duran-
te algum tempo, como organizações de grande importância na região. Por
meio delas, eram viabilizados os planos propostos pelo governo de expansão
das áreas agrícolas e ampliação da produção, além de se estabelecerem como
um canal de agências como a Companhia do Desenvolvimento dos Vales
do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), dentro dos perímetros irrigados
da região.
A primeira organização de pequenos produtores implantada no vale
do São Francisco foi a Cooperativa Agrícola Mista do projeto irrigado de
Bebedouro (Campib), em Petrolina, fundada em 1968 com a criação do
perímetro, ocorrida no mesmo ano. A partir da década de 1970 (período da
expansão dos perímetros irrigados) foram criadas várias outras cooperativas,
tanto do lado pernambucano quanto do lado baiano, como mostra o quadro
a seguir.

Quadro 1 – Cooperativas implantadas com a criação dos perímetros


irrigados
Petrolina/PE Juazeiro/BA

Caman – Cooperativa Agrícola de Mandacaru, substituída pela


Campib – Cooperativa Agrícola Mista do projeto
Campim – Cooperativa Agrícola Mista dos Produtores irrigados
irrigado de Bebedouro
de Mandacaru

Coamigra – Cooperativa Agrícola Mista do Grande Campima – Cooperativa Agrícola Mista do projeto irrigado de
Rio Ltda. Nilo Coelho Maniçoba

Campic – Cooperativa Agrícola Mista do projeto irrigado de


Campinc – Cooperativa Agrícola Mista do projeto Curaçá
de Irrigação Senador Nilo Coelho
Campit – Cooperativa Agrícola Mista do projeto irrigado de
Tourão
Fonte: Os autores, 2011.

Além das cooperativas de pequenos produtores, existia, ainda, a atuação


da Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), de cunho empresarial, originária
de São Paulo e que atuava em vários ramos no Brasil, agregando cooperados
de todo o polo irrigado Petrolina/Juazeiro. Essa cooperativa se instalou na
região devido ao momento de crescimento que viveu o cooperativismo no
Brasil, quando algumas instituições conseguiam “exercer diversas funções

134
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

no desenvolvimento de atividades industriais e atuando em diversas áreas


geográficas” (Siqueira, 2001, p. 50).
Para Silva,
a CAC também representava um novo processo de gestão quando compa-
rada às cooperativas já existentes na região. Além de um forte apoio técnico
e financeiro, os cooperados podiam contar com logística de comerciali-
zação da entidade (...) credita-se a essa cooperativa a primeira experiência
de exportação de uva da região para o mercado europeu, no ano de 1986
(Silva, 2001, p. 127).

O associativismo foi outra forma de organização dos produtores dos pe-


rímetros irrigados do polo Petrolina/Juazeiro. No perímetro Senador Nilo
Coelho, pela extensão da área, chegou a existir além, das duas cooperativas,
a Coamigra e da Campinc, mais 11 associações, que funcionavam nos 11
núcleos que fazem parte do Nilo Coelho.
No ramo empresarial, foi fundada em 1988 a Associação dos Produto-
res Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco
(Valexport), que congrega empresas e cooperativas da região. A sua criação
foi apoiada por órgãos públicos como a Codevasf, principal incentivadora,
que fornecia suporte técnico e financeiro. Com a força política dos associa-
dos, a Valexport logo se transformou na principal entidade de representação
dos interesses privados em torno da fruticultura na região (Silva, 2001).
As cooperativas dos pequenos produtores de atuação nos perímetros
irrigados do vale do São Francisco, além de exercerem um conjunto de suas
atividades na produção e comercialização dos produtos, também desempe-
nhavam funções administrativas nos núcleos irrigados. Na manutenção dos
perímetros, realizavam trabalhos de revitalização dos canais, abertura de es-
tradas, consertos em encanamentos, controle das estações de bombeamento
e conservação dos drenos. Para a operação, era necessária a realização das
cobranças das taxas criadas pela utilização da energia, água e outros serviços
indispensáveis à existência dos perímetros.
A responsabilidade de gerir as atividades de operação e de manutenção pe-
las cooperativas e associações nos perímetros era consentida pela Codevasf por
meio de convênios e parcerias assinadas entre ambas. Nesses convênios, eram
estipulados os períodos em que essas organizações exerceriam as atividades.
No início da implantação dos perímetros, e junto com ele, os investi-
mentos feitos pelo Estado, durante a década de 1970, permitiram aos pe-

135
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

quenos produtores, por meio das cooperativas/associações, alcançarem re-


sultados significativos, entre eles, investimentos nos lotes, capitalização,
aquisições de maquinários, compra de insumos utilizados na lavoura a cus-
tos mais baixos e, assim, garantiu melhoras em seus padrões de vida. Isso
tudo resultou diretamente na qualidade da produção e satisfação do peque-
no produtor.
Nesse período, toda a cadeia produtiva do vale do São Francisco era sub-
sidiada pelo Estado. Os financiamentos eram disponibilizados para atender ao
processo produtivo desde os primeiros tratos com o solo até a comercialização
com beneficiamento dos produtos, que se davam mediante a implantação e
manutenção de agroindústrias montadas na região para esse fim.
Nos anos 1980, quando ocorreram problemas econômicos gerados pela
retirada dos financiamentos externos no Brasil (resultado das crises vividas
nos países capitalistas centrais que vinham realizando pesados investimen-
tos nos países subdesenvolvidos, tanto pelo controle das ações políticas e
econômicas, quanto pela própria necessidade da expansão do modelo de
produção capitalista), toda a política de subsídio para o campo foi refeita,
ocasionando redução significativa nos financiamentos. O Estado foi obriga-
do a retirar os subsídios e o apoio dado aos pequenos produtores, reduzindo
consideravelmente os recursos para o setor. Esse fato acarretou uma série
de problemas para os produtores da região, em particular aos pequenos que
ficaram de fora de projetos e programas estatais pelo próprio esgotamento
dos financiamentos nos anos de 1980.
As dificuldades dos produtores refletiam diretamente no andamento
das atividades das associações e das cooperativas da região, e de maneira
mais intensa nas dos pequenos produtores. A crise encadeou-se gerando alta
na inflação, elevação no custo da produção, saída das agroindústrias, invia-
bilidade da cultura de ciclo curto e endividamento dos produtores. Como
resultado, as cooperativas ficaram descapitalizadas gerando um clima de
instabilidade, o que fez diminuir o crédito disponibilizado aos produtores
pelo sistema de associativismo e cooperativismo.
Assim, as cooperativas foram perdendo espaço, o que culminou com
a desestruturação e o fechamento de várias delas. Das cooperativas de pe-
quenos produtores criadas nas décadas de 1970 e 1980, apenas a Coopera-
tiva Agrícola Mista do Projeto Irrigado de Tourão (Campit), em Juazeiro,
encontra-se em atividade, ainda que com poucos cooperados e enfrentando

136
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

dificuldades. A Cooperativa Agrícola de Cotia – empresarial – também se


retirou da região e, com seu fechamento, alguns produtores da região e ex-
-cooperados criaram a Cooperativa Agrícola de Juazeiro (CAJ), e a associa-
ção Agro-Aliança.
Outro ponto a considerar na desestruturação das cooperativas/associa-
ções no vale do São Francisco foi a retirada do Estado no período de reces-
são do país sem ter desenvolvido nos produtores a autonomia e a autogestão
na condução das atividades das cooperativas e associações, “a artificialidade
com que foram criadas essas cooperativas e associações impediu a emer-
gência de organizações cujas determinações e controles fossem dos próprios
irrigantes” (Silva, 2001, p. 124). Essas limitações evidenciaram a fragilidade
dessas organizações a partir do afastamento do poder público de forma que
os produtores não encontram saída em meio à crise, culminando em suas
desestruturações.
Com a redução dos investimentos no setor público nos anos de 1980,
denunciada pela crise da dívida do país, a capacidade de planejamento do
Estado foi reduzida e o resultado foi a estagnação econômica e a consequen-
te dificuldade de investimento tanto para o crescimento do Brasil, quanto
para o atendimento social (Lisboa, 2007, p. 131). A falta de recursos para
manter as atividades dos produtores demonstrava também a dependência
do país dos recursos externos e a incapacidade de desenvolver uma política
interna autônoma.
Josefa Lisboa (2007) esclarece que esse modelo de produção alcançou a
década de 1980 nos países em desenvolvimento desvelando as contradições
do sistema capitalista, mostrando que, à medida que houve uma redução
dos empréstimos por parte dos países financiadores, ocorreu uma eclosão
da crise da dívida nesses países.
O endividamento externo do Brasil e o esgotamento do padrão de cres-
cimento econômico interno (atrelado à dependência dos recursos externos)
exigiu a entrada do Brasil no novo modelo de produção determinado pelos
países centrais, o qual se baseia na organização flexível da produção funda-
mentada na adoção de políticas neoliberais. A partir desse momento, aten-
dendo aos novos ditames do modelo de produção como estratégia para a
saída da crise, o Estado passou a estimular a produção voltada para o merca-
do externo e reorganizou as bases produtivas no vale do São Francisco para
atender às demandas dos países capitalistas centrais.

137
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

A RECRIAÇÃO DO COOPERATIVISMO/ASSOCIATIVISMO NO
CONTEXTO DA REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA: NOVAS
ORGANIZAÇÕES, VELHAS FUNÇÕES
A reestruturação produtiva foi a condição para o país se tornar com-
petitivo e se inserir no mercado internacional. Nesse caminhar, para uma
nova organização produtiva, o cooperativismo e o associativismo tiveram
mais uma vez papel importante na história do vale do São Francisco. Foram
reestruturados e assumiram novo direcionamento, agora inseridos no polo
frutícola, com seus trabalhos voltados para atender às novas dinâmicas do
mercado interno e global.
O setor frutícola do polo Petrolina/Juazeiro foi marcado por grandes
investimentos na década de 1990, realizados pelo Estado e por grandes em-
presas que se instalaram na região, como o Carrefour, Bompreço, Queiroz
Galvão, entre outros. Em 1996, foi lançado oficialmente o Programa de
Apoio e Desenvolvimento da Fruticultura Irrigada do Nordeste (Padfin),
uma orientação do projeto Novo Modelo de Irrigação, que integrava o Brasil
em Ação durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O programa
foi direcionado à irrigação privada e refutava o modelo de intervenção do
setor público no segmento da irrigação (Silva, 2001). No programa, deve-
ria prevalecer a lógica do mercado e estabelecia-se como diretriz “a ênfase
na irrigação privada, preferencialmente sob a forma de empresa ‘âncora’ e
cooperativas e associações de produtores visando reunir melhores condições
de alcançar competitividade no mercado interno e externo” (Brasil, 1997, p.
129, apud Silva, 2001, p. 107).
Dessa forma, os direcionamentos de uma política neoliberal se apre-
sentaram no vale do São Francisco determinados pelo Estado e com caráter
altamente seletivo, beneficiando apenas um segmento da sociedade e dei-
xando à margem a grande maioria dos produtores.
A incapacidade de se inserir nesses mercados desterritorializou muitos
pequenos produtores, e os que não se desfizeram de suas terras produziam
uma agricultura menos tecnificada e voltada para atender especialmente
ao mercado interno local e regional, mas a sua produção é também co-
mercializada por grandes empresas, que destinam os produtos ao mercado
externo.
A mudança não se deu apenas no âmbito dos produtos cultivados, mas
também com os agentes produtivos. Segundo Pedro Carlos Gama da Silva

138
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

(2001, p. 107) “a ampliação da participação dos pequenos produtores na


produção de frutas do polo Petrolina/Juazeiro está comprometida pela falta
e inadequação dos instrumentos de créditos” e da ausência de tecnologias
voltadas para o melhoramento dos seus cultivos.
Ainda assim, verificou-se o esforço hercúleo dos pequenos produtores
para adequar sua produção aos padrões de qualidade exigidos pelas empre-
sas exportadoras com intuito de se inserirem, mesmo que indiretamente, nas
comercializações externas, uma vez que a necessidade do mercado molda o
padrão de produção.
Na região do vale do São Francisco, os princípios cooperativistas for-
mulados para estimular as ações coletivas não permearam os espaços de
organização dos produtores. Os projetos governamentais de implantação
desses perímetros e suas respectivas cooperativas e/ou associações se ma-
terializaram como agentes de ampliação do modo capitalista de produção,
que encontrou nessas organizações “um alicerce para seu desenvolvimento”
(Onofre & Suzuki, 2009, p. 2), não levando em conta o fortalecimento das
relações sociais.
Com a reestruturação da produção e os novos rumos tomados pelo
Estado no atendimento ao desenvolvimento da fruticultura para exporta-
ção e abertura dos mercados no circuito internacional, o Estado, mais uma
vez, fez-se presente na condução da recriação das formas de organização de
produtores na região do polo Petrolina/Juazeiro. As intenções na indução
da implantação de novas cooperativas e, principalmente, de associações que
ganharam atenção maior após a década de 1980, eram as mesmas: controle
sobre as atividades dos produtores, determinação dos rumos dos investi-
mentos, subordinação da pequena produção aos grandes empresários, entre
tantos outros.
Nesse sentido, tornava-se imprescindível à Codevasf incentivar a re-
criação dessas formas de organização, pois, com a reestruturação da agri-
cultura e as exigências dos novos cultivos para atender à demanda do mer-
cado internacional, a padronização da produção se fazia necessária. Com
a instrumentalização das associações e cooperativas, que se deu com re-
formas de galpões, doações de packing houses,7 câmaras frias e a estrutura
burocrática de implantação cedida pela Codevasf e o Serviço Brasileiro de
7
Instalações onde são realizadas a recepção, o armazenamento, a classificação e o encaixotamento
das frutas.

139
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), além de cursos de capacita-


ção, o pequeno produtor estaria preparado para atender as novas exigên-
cias dos mercados.
Nessa nova conjuntura, identificou-se, no polo Petrolina/Juazeiro, du-
rante a pesquisa de campo, a existência de oito associações, sendo cinco nos
perímetros irrigados de Petrolina, três em Juazeiro, além de três cooperati-
vas, das quais duas funcionam em Petrolina e uma em Juazeiro, conforme
quadros a seguir.

Quadro 2 – Associações de pequenos produtores rurais do polo Petrolina/


Juazeiro, 2011
LOCALIDADE ASSOCIAÇÕES FUNDAÇÃO
Associação dos Pequenos Produtores Rurais do
N. 2 Nilo Coelho – Petrolina Em fase de reestruturação
Núcleo 2
1993. Comercialização a partir
N. 4 Nilo Coelho – Petrolina Associação dos Produtores Irrigados do Núcleo 4
de 2003
N. 6 – Petrolina Associação dos Produtores Rurais do Núcleo VI 1999
N. 11 – Petrolina Associação de Produtores do Núcleo 11 2006
Associação dos Produtores Irrigados de
Mandacaru – Juazeiro Com o fim da cooperativa
Mandacaru
Associação dos Pequenos Produtores Manga Brasil
Maniçoba – Juazeiro 2004
– Maniçoba
Associação dos Fruticultores do Perímetro Irrigado
N. 1 Curaçá – Juazeiro 11 de maio de 2004
de Curaçá
Associação de Pequenos Produtores de Uva do
Bebedouro 2004
Bebedouro
Fonte: Os autores, 2011.

Quadro 3 – Cooperativas de pequenos produtores rurais


do polo Petrolina/Juazeiro, 2011
LOCALIDADE COOPERATIVAS FUNDAÇÃO
Fundada em 9/5/2007, começou a
N 4 – Petrolina Cooperativa Agrícola Produtores Irrigantes do N. 4
comercializar em janeiro de 2010

Cooperativa mista dos agricultores irrigantes da


Maria Tereza – Petrolina 2000
área Maria Tereza

Tourão (Mandacaru II) – Cooperativa Agrícola Mista do Perímetro de


1994
Juazeiro Irrigação do Tourão

Fonte: Os autores, 2011.

140
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

A implementação dessas organizações, em muitos casos, não partiu de


discussões coletivas no intuito de identificar as reais necessidades dos pe-
quenos produtores. Simplesmente os recursos para sua instrumentalização
foram disponibilizados sem o acompanhamento de políticas que melhoras-
sem as condições de produção e comercialização.
O que se verifica, entretanto, é que as relações de produção no vale
do São Francisco caracterizam a subordinação dos pequenos produtores às
empresas agrícolas. Essa subordinação se dá por meio de mecanismos fi-
nanceiros, do controle técnico da produção, bem como pela contratação da
compra da produção, nos quais, em vez de expropriar os pequenos produto-
res pelo processo de territorialização do capital no campo e monopolização
do espaço agrário, está se reproduzindo a sujeição formal (Elias, 2006) tanto
do produtor quanto do trabalhador rural.
Para o pequeno produtor, o que diferencia a relação de produção atual­
do modelo que se constituiu na década de 1970, com a implantação das
agroindústrias, é apenas sua organização conjuntural. Com o neoliberalis-
mo, mudou-se o sentido das políticas, mas essas continuaram a beneficiar
apenas uma parcela de produtores. Em relação à tecnologia empregada, o
pequeno produtor continua excluído da utilização dos métodos modernos
de cultivo por não possuir capital necessário para sua aquisição. No entanto,
a sujeição, exploração e precarização do pequeno produtor continuam sendo
as características principais da realidade no vale do São Francisco.
Nessa relação de subordinação, o produtor torna-se dependente desses
mercados e, consequentemente, destes grupos empresariais e, como o co-
mércio da região gira em torno especialmente da fruticultura, esses produ-
tores precisam adequar rigidamente sua produção sob pena de não terem o
seu produto inserido no mercado.
É necessário retomar Ariovaldo Umbelino de Oliveira (2007) para en-
tender que o próprio capital cria as condições para que os camponeses for-
neçam aos mercados o que é necessário para a indústria capitalista, ou seja,
a matéria-prima. No caso do Vale do São Francisco, os pequenos produtores
atendem ao mercado interno local/regional e também produzem a fruticul-
tura para as empresas agrícolas de exportação. Isso revela que o capital sujei-
tou a renda da terra gerada pelos camponeses à sua lógica. Está-se diante da
metamorfose da renda da terra em capital, o que revela que o capital nunca
deriva de relações de produção especificamente capitalistas.

141
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

Verifica-se claramente nessa relação a exploração, que é inerente ao


modo de produção capitalista. Ocorre, além da subordinação, o controle
das atividades produtivas dos mais pobres impondo um padrão de quali-
dade que, para ser atendido, demanda um desdobramento no sentido da
exploração da própria força de trabalho desses pequenos produtores, pois o
controle que o capital impõe à pequena produção no polo Petrolina/Juazeiro
não se estabelece tão somente no domínio da terra.
Como mostra Ellen Wood,
uma vez que o mercado torna-se o ‘disciplinador’ ou o ‘regulador’ econômi-
co, uma vez que os atores econômicos se tornam dependentes do mercado,
no que diz respeito às condições da sua própria reprodução, até mesmo
trabalhadores que são donos dos seus meios de produção, individualmente
ou coletivamente, serão obrigados a responder aos imperativos do mercado
– competir e acumular, abandonar as empresas ‘não competitivas’ e seus
trabalhadores, e a explorar a si mesmos (Wood, 2000, p. 23).

Mesmo assim, contraditoriamente, o capital abre espaço para a repro-


dução dos pequenos produtores. Com o fomento de cooperativas e de as-
sociações, mesmo com o objetivo de controlar as práticas e ações no cam-
po, consegue-se assegurar a permanência na terra. As organizações acabam
abrindo espaços de discussão e reflexão de problemas comuns, promovendo,
assim, o atendimento de certas reivindicações, que são buscadas junto a po-
líticas públicas.
Ao se espacializar, utilizando-se das organizações dos pequenos produ-
tores, o capital cria, paralelamente, um ambiente que assegura, ainda que de
forma tênue, o entendimento em relação à burocracia estatal, “do ponto de
vista dos pequenos produtores, funciona como uma referência política para
os núcleos, possibilitando uma articulação entre os diversos povoados, o que
fortalece sua organização” (Machado, 1987, p. 145).

COOPERATIVISMO E ASSOCIATIVISMO: CONDIÇÃO DA


REPRODUÇÃO SOCIAL NOS ESPAÇOS IRRIGADOS DO VALE DO
SÃO FRANCISCO?
De acordo com Ariovaldo Umbelino de Oliveira, a territorialização do
capital nos espaços agrários tem o poder de varrer do campo os trabalhado-
res e os transformar em assalariados nas grandes cidades. No caso da mono-
polização do território pelo capital, os produtores sujeitam sua produção, a

142
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

adaptam aos padrões exigidos pelas indústrias e viabilizam o consumo dos


bens industrializados na produção agrícola (Oliveira, 2004). Em ambas as
situações, evidencia-se a perda da autonomia dos camponeses, pois, mesmo
continuando na terra, sua produção precisa atender aos padrões de produção
dos mercados. Como foi dito anteriormente, tem-se a metamorfose da renda
da terra em capital.
No entanto, a espacialização do capital e a própria dialética na produ-
ção do espaço a partir da intensificação das relações capitalistas, contradi-
toriamente, motiva a reprodução da classe camponesa. Ao se dar a mono-
polização do território pelo capital, esse cria, recria e redefine as relações de
produção no campo, abrindo espaço para que uma economia camponesa se
desenvolva, e com ela o campesinato.
Assim, é possível entender a recriação do trabalhador rural, contradi-
zendo autores que afirmam o seu fim. As diferentes maneiras de o capital se
territorializar traduzem-se na tentativa da negação da autonomia e na sub-
sunção do camponês ao capital, mas, contraditoriamente, a sua reprodução
é assegurada pelo próprio capitalismo, quando este não se territorializa, mas
realiza a monopolização do território. Desse modo, os pequenos produtores
se mantêm na terra, dando continuidade à sua reprodução mesmo subjuga-
dos às forças do mercado. Nesta perspectiva, é possível assegurar a recriação
dos pequenos produtores nos perímetros irrigados do polo Petrolina/Jua-
zeiro como classe social, mesmo em meio a uma produção de mercado nos
moldes capitalistas. Essa reprodução se consolida também com a própria
organização desses produtores em cooperativas e associações que, apesar de
terem chegado aos produtores através do Estado, se constituíram como uma
das condições da sua reprodução.
Esses produtores foram, portanto, associados e cooperados em seus res-
pectivos perímetros. São pessoas que viveram tanto a fase de ouro dessas
organizações, na década de 1970, quanto a sua decadência, nas décadas de
1980/1990. No entanto, são esses em sua maioria que ainda se encontram
associados a novas organizações, que estão sendo criadas ou mesmo reaber-
tas, permanecendo entre eles o sentimento de importância e necessidade da
união para o fortalecimento das relações comerciais e para sua reprodução.
Identificou-se, nesse sentido, que a organização se torna uma saída para
os pequenos produtores no polo irrigado Petrolina/Juazeiro, especialmente
porque, com área pequena e baixo emprego de tecnologia, eles acabam pro-

143
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

duzindo menos e com menos qualidade. Ao organizarem-se em grupos, é


possível aumentar o volume da produção e obter melhores preços no merca-
do, o que culmina com sua sustentação na terra.
A cooperativa e associação têm o poder de reduzir a comercialização via
atravessador, conseguir compradores, mediar contratos com grandes empre-
sas, inclusive exportadoras, realizar parceria com outras instituições, parti-
cipar de programas do governo.
É importante salientar que essa união assenta-se na necessidade da
construção de uma sociedade mais inclusiva e autônoma na qual esses pe-
quenos produtores possam conduzir seu próprio destino “mesmo em condi-
ções materiais determinadas”, pois a ação coletiva, baseada no controle dos
trabalhadores associados, que cooperam comunitariamente na identificação
e resolução de problemas comuns, pode representar “o germe da utopia de
superação das relações de produção, que engendram a ação e o pensamento
individualistas da sociedade burguesa que identifica liberdade com compe-
tição” (Noronha, 2004, p. 9-10).
E mesmo apresentando caráter híbrido, como observa Rosa Luxembur-
go (2000), em que permeiam tanto relações capitalistas quanto socialistas e,
por isso, não se constituem de fato como mecanismos de emancipação, são
essas organizações as únicas formas de permanência no espaço rural no vale
do São Francisco.
Diante do exposto, identifica-se que o associativismo e/ou cooperativis-
mo, nos moldes como se apresentam, podem não ser a melhor alternativa,
por estarem baseados nos padrões do mercado, na necessidade da comercia-
lização. No entanto, diante da realidade em que vivem esses pequenos pro-
dutores, tais experiências acabam se constituindo como a alternativa, atual e
possível, para estimular a sua permanência no campo. Contraditoriamente,
esses movimentos são instrumentalizadores da monopolização e territoria-
lização do capital no vale do São Francisco, caracterizando a sujeição do
pequeno produtor, mas à medida que acontece uma maior espacialização de
suas práticas, claro que instrumentalizadas pelo Estado, essas cooperativas
e associações vão construindo e sendo incorporadas aos novos territórios e
acabam por “despertar o sujeito para o seu contexto problematizado”, como
ressalta Josefa Lisboa (2001, p. 276).
O que se pretende mostrar é que, embora as cooperativas e associações
do vale do São Francisco se constituam em muitos casos dependentes das

144
Organização dos pequenos produtores: o cooperativismo/associativismo
no polo irrigado Petrolina /Juazeiro

ações do Estado, é necessário que nos voltemos para um exame de suas


práticas, pois representam possibilidades concretas de experiência coletiva,
visto que permitem que os produtores se reúnam para o debate acerca das
problemáticas que os envolvem.

REFERÊNCIAS
ELIAS, Denise. Agronegócio e desigualdades socioespaciais in: ELIAS, Denise; PEQUE-
NO, Renato. (org.). Difusão do agronegócio e novas dinâmicas socioespaciais. Fortale-
za: Banco do Nordeste do Brasil, 2006.
LISBOA, Josefa Santos. A trajetória do discurso do desenvolvimento para o Nordeste: polí­
ticas públicas na (dis)simulação da esperança. Tese de doutorado. Programa de Pós-
-graduação em Geografia, Universidade Federal de Sergipe, Aracaju, 2007.
_____ . Associativismo no campo: das relações em redes ao espaço da socialização política
(um estudo da coopertreze e das associações comunitárias em Lagarto e Salgado),
in: MENEZES, Ana Virgínia Costa e PINTO, Josefa Eliane S. de S. Linhas Geográ­
ficas. Programa Editorial NPGEO/UFS, 2001.
LUXEMBURGO, Rosa. As cooperativas, in: NAMORADO, Rui. Caderno das experiên­
cias históricas da cooperação n. 2. O cooperativismo no pensamento marxista (Marx,
Rosa, Karl, Lenin, Mao). MARTINS, Adalberto (org.). São Paulo: Concrab, 2000.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política – l. 01, 24ª ed. Rio de Janeiro: Civi-
lização Brasileira, 2006.
NAMI, Marcio Roberto Palhares. Viabilidade das cooperativas abertas: um estudo de caso
da Cooperativa de Crédito de Mendes Ltda., Seropédica. Dissertação de Mestrado.
UFRJ, Rio de Janeiro, 2004.
NORONHA, Olinda Maria. “Cooperativismo sociocomunitário e educação: reflexões
históricas e possibilidades atuais”. Disponível em: http://www.am.unisal.br/pos/
stricto-educacao/pdf/ArtigoOlinda.pdf. Acesso em: nov. 2010.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Geografia Agrária: Perspectiva no início do século
XXI, in: OLIVEIRA, Ariovaldo; MARQUES, Inês. O campo no século XXI: terri­
tório de vida e de construção da justiça social. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 29-70.
_____ . Modo de produção capitalista, agricultura e reforma agrária. São Paulo: Labur Edi-
ções, 2007.
ONOFRE, Gisele Ramos & SUZUKI, Júlio César. Embates e debates sobre o coopera­
tivismo rural. 2009. Disponível em: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_iv_epct/
PDF/. Acesso em: dez. 2010.
SCHNEIDER, José Odelso. Democracia – participação e autonomia cooperativa. São Leo­
poldo: Unisinos, 1991.
_____ . Informes sobre los países particulares: Brasil, in: BENECKE, Dieter W.; ES-
CHENBURG, Rolf (org.). Las cooperativas en America Latina. São Leopoldo: Uni-
sinos, 1987.

145
Renata Sibéria de Oliveira e Josefa de Lisboa Santos

SILVA, Pedro Carlos Gama da. Articulação dos interesses públicos e privados no pólo Pe­
trolina-PE/Juazeiro-BA: em busca de espaço no mercado globalizado de frutas frescas.
Tese de doutorado. Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia,
Campinas, 2001.
SIQUEIRA, Oscar Graeff. A crise das grandes cooperativas: um estudo comparado entre a
cooperativa de Carazinho (RS) e a de Não-me-toque (RS). Dissertação de Mestrado.
Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural, UFRS, Porto Alegre, 2001.
WOOD, Ellen Meiksins. As origens agrárias do capitalismo. Crítica marxista. São Paulo,
n. 10, p. 12-29, 2000. Disponível em: www.unicamp. br/cemarx/criticamarxista/
Ellem Wood.pdf. Acesso em: mar. 2010.

146
POLÍTICAS PÚBLICAS E DESAFIOS DA EDUCAÇÃO
DO CAMPO
CONTEXTOS E TRAJETÓRIAS DA EDUCAÇÃO DO
CAMPO: PAPEL EMBRIONÁRIO DO PRONERA NO
BRASIL E NO MATO GROSSO DO SUL

Mariana Santos Lemes


Marcelo Cervo Chelotti

INTRODUÇÃO
O presente texto é parte do trabalho de dissertação1 acerca da Educa-
ção do Campo e do processo de territorialização do capital agroindustrial na
microrregião2 de Três Lagoas, e busca elucidar os caminhos da Educação
do Campo trilhados no Estado de Mato Grosso do Sul.
O processo de territorialização ao qual nos referimos consiste na atua-
ção do setor florestal (de celulose e papel) com proposta de um projeto de
educação ambiental, representativo do capitalismo agrário (modernização
do campo) em contraposição à construção do projeto de Educação do Cam-
po, fomentado por práticas e políticas educacionais atentas às especificida-
des do campo.
Este setor florestal foi implantado no município de Três Lagoas a partir
do ano de 2007, e em 2012 inaugurou-se a empresa concorrente de celulo-
se e papel. Duas empresas se destacam na produção de papel e celulose no
Mato Grosso do Sul e lideram a demanda de expansão territorial do setor
florestal: a Fibra, primeira a se instalar em 2007, e a Eldorado Brasil S/A,
com inauguração em 2012, ambas no município de Três Lagoas. Desde a
primeira instalação, o município e seu entorno – a microrregião que com-
preende os municípios de Água Clara, Ribas do Rio Pardo, Brasilândia e
Santa Rita do Pardo – sofrem intensas transformações territoriais advindas
dessas empresas de linha contínua de celulose-papel que, em seu processo
1
Este trabalho é parte da dissertação de mestrado intitulada: Territorialização do capital e as
contradições da educação do campo na microrregião de Três Lagoas/MS, defendida em 2014 no
programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia, com bolsa
de fomento à pesquisa do CNPq.
2
Microrregião segundo os critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

produtivo atual, tornam-se reconhecidas mundialmente. Por consequência,


emergem diversas disputas por recursos e território, dos quais contextualiza-
remos, neste trabalho, os projetos políticos disputados na educação.

O CONTEXTO SUL MATO-GROSSENSE DE CONSTRUÇÃO DO


PARADIGMA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO
A Educação do Campo se refere ao novo conceito em construção na
última década e tem, em sua base, uma nova política pública demandada
pelos movimentos camponeses. Desse modo, o paradigma de Educação do
Campo constituiu-se com o intuito de incorporar experiências socioeducati-
vas dos movimentos sociais do campo e de fazer a construção de resistência
cultural e política no Brasil.
Sabemos que esse paradigma educacional está arraigado nas contradições
sociais intensas em que o campo se insere. Portanto, trata-se de “um conceito
próprio do nosso tempo histórico e que somente pode ser compreendido/discu-
tido no contexto de seu surgimento: a sociedade brasileira atual e a dinâmica
específica que envolve os sujeitos sociais do campo” (Caldart, 2008, p. 1), pois,
de certa forma, os trabalhadores rurais compreenderam que somente a luta
pela terra, pela reforma agrária, pelo debate político acerca da questão agrá-
ria e da luta contra o latifúndio não estavam separadas da educação. Lutar
pela educação significava exatamente esse algo novo que faltava na tonali-
dade reivindicatória dos movimentos sociais (Nascimento, 2009, p. 156).

Assim, essa realidade de ação se estende no campo Sul-mato-grossense,


e os primeiros passos na conquista da Educação do Campo foram dados no
início da década de 1980, quando se desencadeou o aprofundamento da luta
pela terra e o avanço na conquista de novos assentamentos em Mato Grosso
do Sul.
A ocupação da fazenda Santa Idalina, em Ivinhema, no ano de 1984,
foi um marco histórico da resistência camponesa e do início da implantação
dos assentamentos da reforma agrária no Estado. Esse mesmo ano também
foi o marco para a formação do MST em Mato Grosso do Sul. Assim, à
medida que a luta pela terra avançava no Estado, os próprios acampados e
assentados perceberam que para qualificar a luta acelerando suas conquistas
e reivindicações era fundamental ter a leitura e a escrita.
Nesse sentido, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Mato Grosso
do Sul, também reconheceu que não bastava somente a conquista da terra

150
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

pelos camponeses, havia também a necessidade de lutar por outros direitos


do homem e mulher do campo, dentre eles a conquista de uma educação
diferenciada para as escolas dos acampamentos e assentamentos (Kudlavicz;
Almeida, 2008).
A CPT/MS tomou a iniciativa, junto com as lideranças dos acampa-
dos, e promoveu, em 1985, a formação de monitores voluntários para tra-
balhar com crianças dos acampamentos e assentamentos, buscando, assim,
uma educação diferenciada, condizente com a realidade dessa população.
Ao lado dessa iniciativa, o material didático surgiu como outro desafio, pois,
na prática descobre-se que “construir uma proposta pedagógica que consi-
dere a história do grupo, os valores da região, a realidade socioeconômica e
a cultura camponesa não será possível utilizando o material proposto pelo
Estado” (Kudlavicz; Almeida, 2008, p. 28), uma vez que,
(...) a cultura hegemônica trata os valores, as crenças, os saberes do cam-
po de maneira depreciativa, como valores ultrapassados, como saberes tra-
dicionais, pré-científicos, pré-modernos. Daí que o modelo de Educação
básica queria impor para o campo currículos da escola urbana, saberes e
valores urbanos, como se o campo pertencesse a um passado a ser esquecido
e a ser superado. Como se os valores, a cultura, o modo de vida, o homem e
a mulher do campo fossem uma espécie em extinção (Arroyo, 2004, p. 79).

Assim sendo, a CPT-MS estabeleceu um compromisso com essa pro-


blemática educacional. Em um primeiro momento, com assentados e acam-
pados da região de Dourados e, posteriormente, estendeu a formação para
outros municípios do Estado, com o surgimento de novos acampamentos.
Desse modo, um conjunto de emergências educacionais surgiu e, para so-
lucioná-las, outras experiências foram incorporadas pela CPT em prol da
Educação do Campo em Mato Grosso do Sul.
Em 1987, ações de despejo reuniram 840 famílias em uma mesma área
de terra, denominada Assentamento Provisório e, para atender à demanda
de crianças e jovens advinda dessa área, a CPT, novamente com a comu-
nidade, executou atividades de alfabetização e recreação, as quais resulta-
ram na cartilha “Caderno de Cultura”. Em 1989, sob o amparo da CPT/
MS, rea­lizou-se o “I Encontro Estadual de Professores dos Assentamentos e
Acampamentos de Mato Grosso do Sul”, e continuou em 1990, impulsio-
nando novos desafios, como o curso “Magistério de Férias”, destinado à for-
mação de professores para áreas rurais. Esse projeto perdurou por dez anos,

151
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

desde 1993, habilitando mais de 200 professores das escolas rurais a exer-
cerem a prática do ensino em sua comunidade (Kudlavicz; Almeida, 2008).
Tal experiência repercutiu na participação de outras entidades como a
Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri), Confederação Na-
cional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), secretarias de educação,
e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (campus de Três Lago-
as). Em 1995, essas entidades promoveram três seminários para discutir a
Educação Rural nos assentamentos e carvoarias sul mato-grossenses. Assim,
cabe lembrar que toda essa articulação representou um exemplo de organi-
zação social para assegurar o direito fundamental previsto na Constituição
brasileira. Como bem menciona Horta (1983, p. 10):
(...) a Educação só se concretiza quando o seu reconhecimento jurídico
for acompanhado da vontade política dos Poderes Públicos no sentido de
torná-lo efetivo e da capacidade da sociedade civil se organizar e se mobi-
lizar para exigir o seu atendimento na justiça e nas ruas e nas praças, se for
necessário.

Desse modo, as práticas de “ações sociais” coletivas que, como parte


da historiografia, se mobilizaram a favor de/para uma educação do campo,
mostraram o possível diálogo e parceria por parte dos movimentos sociais,
do Estado e da Universidade do Mato Grosso do Sul. O marco histórico da
Educação no Campo, iniciado pela CPT, apontou alguns exemplos de pro-
jetos de suma relevância, considerados “embriões” no Mato Grosso do Sul:
Pronera, Saberes da Terra; Curso Normal Médio do Campo e Licenciatura
em Ciências Sociais (UFGD).

Pronera
O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) é
parte de uma das ações sociais que obtiveram três conquistas importantes
no âmbito nacional: Por uma Educação do Campo; o próprio Pronera e as
Diretrizes Educacionais para a Educação Básica para as Escolas do Campo;
e a Escola Itinerante (Guhur, 2010).
Esse Programa foi criado pelas ações dos movimentos sociais e traba-
lhadores rurais em abril de 1998 pela Portaria 10/98, do então existente Mi-
nistério Extraordinário de Política Fundiária, com o propósito de atender às
áreas de assentamento de reforma agrária, tornando-se a principal referência
da educação de jovens e adultos.

152
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

Um ano antes da criação do Pronera, em julho de 1997, quando se rea-


lizou um encontro de educadores da Reforma Agrária, intitulado “I Encon-
tro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária” (Enera), já
se pensava em um programa voltado para os assentamentos rurais. Os parti-
cipantes desse encontro almejavam que os trabalhos educacionais realizados
nos assentamentos fossem divulgados e multiplicados. Dentre os partici-
pantes, estavam presentes acampados e assentados, a maioria educadores(as)
representantes de universidades e instituições que já participavam ou apoia-
vam o Movimento, totalizando cerca de 700 pessoas “(...) Resultado de uma
parceria entre o Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária da Uni-
versidade de Brasília (GT-RA UnB), o MST, representado pelo seu setor de
educação, e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)” (Perius;
Oliveira, 2008, p. 49-50).
Como visto, o Enera possibilitou a discussão sobre os problemas econô-
micos, sociais e educacionais de acampamentos e assentamentos, e por meio
deste debate foi possível concluir que, embora houvesse descaso e abandono
por parte do governo federal, as experiências emergiam com novas pedagogias
desenvolvidas pelos militantes do MST na luta pela Reforma Agrária (Moli-
na, 2004). Nesse contexto, o Enera foi um marco na história do setor da Edu-
cação do MST e mesmo fora dele. Caldart (2002) acentua que, por meio desse
encontro, ficou visível a ação de educação do Movimento pela qualidade das
reflexões, por isso “se refere a uma nova lógica de participação do Movimento
no debate mais amplo sobre educação no Brasil” (2002, p. 177).
Diante desse contexto, ressaltamos que no I Enera os educadores do
MST propuseram maior integração das universidades que trabalhavam
com a temática da Educação do Campo para movimentarem ações em
rede nacional no intuito de enfrentar o problema de analfabetismo nos as-
sentamentos, por ser esta uma das grandes dificuldades encontradas pelos
educadores(as) da reforma agrária.
A partir desse desafio, gerado no Enera, o Pronera se tornou uma das
primeiras políticas públicas de Educação do Campo, pois sua criação foi de-
finida como política pública específica do Governo Federal, “cujo objetivo
é estimular, propor, criar, desenvolver e coordenar projetos de Educação nos
assentamentos da reforma agrária” (Perius; Oliveira, 2008, p. 50).
Molina (2003) ressalta, ainda, que o Pronera começou a ser estrutura-
do por uma Comissão Pedagógica responsável por organizar e elaborar o

153
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

conteúdo do manual destinado às universidades. Segundo este “Manual de


Operação do Pronera”, o objetivo geral
é fortalecer a educação nos assentamentos, estimulando, propondo, crian-
do, desenvolvendo e coordenando projetos educacionais, utilizando me-
todologias específicas para o campo. O programa tem como essência a
preocupação de capacitar membros das próprias comunidades onde serão
desenvolvidos os projetos, na perspectiva de que sua execução seja um ele-
mento estratégico na promoção do Desenvolvimento Rural Sustentável
(MDA, 2004, p. 12).

Nessa atuação, foram oferecidos cursos com duração de no mínimo 12


meses e o Programa desenvolveu um intenso trabalho entre as parcerias dos
(...) órgãos governamentais de Ensino Superior (IES), movimentos sociais,
sindicatos e comunidades assentadas; da multiplicação quando visa am-
pliar o número de alfabetizados, monitores e de agentes mobilizadores para
promover a educação nos assentamentos; e da participação quando busca
envolver a comunidade beneficiada em todas as fases do projeto; da inclu-
são quando visa ampliar as condições de acesso à educação como direito
social fundamental na construção da cidadania dos jovens e adultos que
vivem nas áreas de reforma agrária (Perius; Oliveira, 2008, p. 51).

Com isso, a Educação de Jovens e Adultos, sob a responsabilidade do


Pronera, formou 100 mil trabalhadores rurais assentados. Destes, 5 mil mo-
nitores assentados alfabetizados, que, ao trabalharem como alfabetizadores,
concluíram o Ensino Fundamental. Outros cursos foram fomentados, como
o normal de nível médio e técnicos profissionalizantes em agropecuária, ad-
ministração de assentamentos e de cooperativas de reforma agrária. Houve
apoio aos assentados para a formação, em nível superior, em cursos de Peda-
gogia, existentes na época, nos Estados de Rio Grande do Sul, Mato Grosso,
Espírito Santo, Pará e Rio Grande do Norte (Molina, 2004).
O governo de Mato Grosso do Sul, em parceria com várias entida-
des, iniciou, em 1998, o processo de discussão com encontros e reuniões
realizadas no Incra com o propósito de elaborar e encaminhar à Coor­
denação Nacional do Pronera o projeto: “Universidade Cidadã: uma
parceria na Educação de Jovens e Adultos em assentamentos de Mato
Grosso do Sul”.
Esse projeto teve como objetivo oferecer escola gratuita a jovens e adul-
tos dos assentamentos, visando garantir o acesso e suas permanências na es-
cola, já que assim se faz possível compatibilizar o processo educativo com o

154
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

mesmo local de trabalho e de moradia dessa clientela: os assentados (Perius;


Oliveira, 2008).
O MST-MS, por acreditar no Programa Nacional de Educação na Re-
forma Agrária, cuja meta principal é livrar os assentados do analfabetismo,
firmou sua participação com a Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul, manifestando o seu interesse de envolvimento na implantação desse
Programa. Por esse mesmo caminho enveredaram, também, a Associação
dos Educadores das Colônias Agrícolas, os Assentamentos e Acampamentos
de Mato Grosso do Sul, a Comissão Pastoral da Terra e o Centro de Orga-
nização e Apoio aos Assentados de Mato Grosso do Sul, que, por já terem
realizado outros trabalhos, estavam dispostos a desenvolver atividades no
Programa, em parceria com a UFMS.
Segundo Perius e Oliveira (2008), a população beneficiada com o Pro-
nera no MS foi de 1.500 assentados, com carga horária de 400 horas presen-
ciais, no período de 1999 a 2001. Vários contratempos dificultaram a execu-
ção do projeto, como o atraso nos repasses financeiros. Mas nem por isso a
parceria deixou de ser um marco positivo para os assentados e movimentos
sociais, mostrando que é produtiva a parceria entre estes, a universidade e o
Governo Federal para sua implantação.
Queremos acentuar que o Pronera é uma tentativa de superar a realida-
de de altos índices de analfabetismo no meio rural, do qual muitos jovens
e adultos dos acampamentos/assentamentos foram incluídos pelo histórico
de ausência da política pública educacional no campo. Para confrontar essa
realidade educacional, o Pronera levou até à universidade, como menciona-
mos anteriormente, a UFGD, a questão da educação nas áreas de reforma
agrária, buscando, assim, uma escola de qualidade e de fácil acesso à popu-
lação do campo. E, além disso, com o programa, os movimentos sociais na
luta pela democratização da terra ficaram mais fortalecidos.
Em Mato Grosso do Sul, com a implantação do Pronera, houve integra-
ção dos movimentos sociais do campo, como esclarecem Perius e Oliveira:
(...) O momento anterior à implantação do projeto de Educação de Jovens
e Adultos, na fase de elaboração do Plano de Trabalho pela universidade,
foi caracterizado pela adesão, pelo desejo comum de superar os obstáculos
entrepostos ao acesso à educação dos jovens e adultos do campo. Os prin-
cípios políticos pedagógicos, os objetivos e metas a serem alcançados, os
mecanismos de operacionalização e de acompanhamento do projeto foram
discutidos e elaborados coletivamente (Perius; Oliveira, 2008, p. 67).

155
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

Portanto, afirmamos que a conquista e implantação do Pronera foi ação


importante no contexto político e social dos assentamentos de reforma agrá-
ria, que, juntamente com os movimentos sociais geraram proveitosos deba-
tes e reflexões sobre o reconhecimento de uma educação diferenciada para o
campo. A partir do resgate desses projetos acreditamos que o paradigma da
Educação do Campo no Mato Grosso do Sul ainda se encontra em fase de
gestação. No entanto, entendemos que muitas dessas medidas educacionais
estão além dos objetivos gerados nos projetos de educação para o campo, pois,
para se desenvolverem, dependem da questão territorial das áreas em que são
desenvolvidos. Já que, no contexto educacional, concordamos com Haesbaert
(2012, p. 79) que o território “pode ser concebido a partir da imbricação de
múltiplas relações de poder, do poder mais material das relações econômico-
-políticas ao poder mais simbólico das relações de ordem mais estritamente
cultural”.
Nesse sentido é que pensamos a situação da Educação do Campo no
Leste de Mato Grosso do Sul, onde está localizada Três Lagoas e sua mi-
crorregião, com o território configurado pelo agronegócio do eucalipto para
produção de celulose e papel. Nesta realidade territorial, apreendemos que a
gestação da Educação do Campo caminha a “passos lentos” e, receamos, não
só isso, pois também há influência de outras medidas educativas desenvolvi-
das na microrregião, como o projeto de educação trazido pelo grande projeto
de investimento do setor florestal – agronegócio da celulose.
Referimo-nos ao projeto de sustentabilidade da empresa de celulose e
papel, que trabalha com a temática de educação ambiental desenvolvida em
diversas escolas do campo e da cidade. Ainda que saibamos que essa atuação
na educação é motivada pelo cumprimento da “responsabilidade social” da
empresa, acreditamos que os projetos de educação exercem papel e função
ideológica da empresa, portanto, o interesse de desempenho é distinto daquele
de emancipação e valorização dos saberes do campo.
Todavia, gostaríamos de ressaltar que, embora haja a execução de pro-
jetos empresariais,3 há também projetos que são desenvolvidos em prol da
Educação do Campo e, por ora, contribuem no sentido de contraposição às
ações ideológicas capitalistas empregadas pela educação empresarial, como,
3
Projetos do Sistema S (Senai Senac e Sesi) foram discutidos na pesquisa, porém não trataremos
neste trabalho por se referir a um projeto hegemônico de educação. Para mais detalhes ver
Lemes (2014).

156
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

por exemplo, o projeto “Recuperação de áreas degradadas no assentamento de


reforma agrária São Joaquim em Selvíria/MS”, desenvolvido pela Universida-
de Federal do Mato Grosso do Sul (campus de Três Lagoas).
Esse projeto contribuiu com a nossa compreensão sobre uma fase embrio-
nária do paradigma da Educação do Campo, pois se desenvolveu no local da
Escola Municipal Rural do Assentamento São Joaquim, em Selvíria, durante
o ano de 2013, como projeto de extensão, elaborado pela professora de Geo­
grafia Agrária, Rosemeire Aparecida de Almeida, do campus da UFMS de
Três Lagoas. Devido ao fato de que a grande maioria dos projetos de assenta-
mento do Incra, na região leste do Estado, foram implantados em áreas com
acentuada degradação, inclusive das APPs, o projeto visou intervir nas situa-
ções encontradas de supressão da vegetação nativa ao longo dos cursos d’água,
ou seja, na retirada da proteção natural do solo, pois a degradação ambiental
diminui a capacidade produtiva das famílias e contribui para a diminuição da
oferta de água para o sistema produtivo do assentamento e da região.
Desse modo, o projeto tinha como objetivo envolver a comunidade na re-
cuperação e recomposição da mata ciliar em pontos específicos dos Córregos
Pindaíba e Sabina, no Projeto do Assentamento São Joaquim, no sentido de
contribuir para que se estabelecessem formas sustentáveis de aproveitamento da
água no sistema produtivo, a partir do princípio de justiça social e ambiental.
O projeto contou com duas parcerias importantes: a CPT/MS, grande
responsável pelas experiências de associativismo e cooperativismo nos assenta-
mentos do MS, e a Agência de Assistência Técnica do Estado (Agraer), por já
atuar no assentamento São Joaquim e ser conhecedora da problemática. As-
sim, a metodologia consistiu em uma série de atividades e avaliações, dentre
as quais: sensibilização da comunidade local por meio de reuniões e debates
mediados pela CPT e Agraer; visitas técnicas para identificação da vegetação
nativa e do grau de degradação do ambiente; cruzamento dos dados empíricos
com os mapas para identificação da vegetação local; seleção dos trechos mais
críticos dos córregos Pindaíba e o Sabina, afluentes do ribeirão Beltrão e que
faz divisa com o assentamento São Joaquim; ciclo de palestras sobre educação
ambiental; visita ao viveiro de mudas da Cesp e da prefeitura de Três Lagoas;
escolha das espécies a serem plantadas, tendo como base as características da
vegetação original; aquisição de mudas arbóreas para implantação no assen-
tamento; preparo do terreno, adubação e plantio, com a participação de toda
a equipe envolvida: assentados, professores e estudantes da Escola do Rural

157
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

do Assentamento São Joaquim, docentes, discentes de graduação, discentes


de pós-graduação, técnico administrativo e os parceiros da CPT/MS, Agraer
entre outros (UFMS, 2013).

Saberes da Terra
Esse projeto compreende a Educação de Jovens e Adultos4 em nível funda-
mental (EJA) integrado à qualificação social e profissional de agricultores(as)
familiares. Foi implementado no ano de 2005, vinculado ao Ministério da
Educação pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diver-
sidade (Secadi) e com as seguintes parcerias: Ministério de Desenvolvimento
Agrário (MDA), SAF e SDT; Ministério do Trabalho e Emprego (MTE);
SPPE e Senaes; Ministério do Meio Ambiente (MMA); Ministério da Cultura
(MinC); Gestão de Processos em Educação Básica do Campo/EJA, Educação
Escolar Indígena e Educação Profissional (SED-MS/Suped/Copeed).
Apresentou como objetivo escolarizar 5.060 jovens agricultores(as) de di-
ferentes Estados e regiões do Brasil. No Nordeste: Bahia, Pernambuco, Paraí-
ba, Maranhão e Piauí; no Centro-Oeste: o Mato Grosso do Sul; na região Sul:
Santa Catarina e Paraná; no Sudeste, Minas Gerais; e na região Norte: Pará,
Tocantins e Rondônia. Segundo Ivone Nemer Arruda,5em âmbito estadual o
objetivo era escolarizar 300 agricultores(as), sendo que, entre os 44 projetos
recebidos pela Secadi, foram aprovados somente os de 12 Estados. No Centro-
-Oeste, Mato Grosso do Sul foi o único contemplado.
O projeto consistiu em um módulo no Ensino Fundamental, com carga
horária total de 3.200 horas, sendo 2.400 presenciais (tempo-escola) e 800
não presenciais (tempo-comunidade), com duração de dois anos. O projeto
expressava sua identidade bem definida, assim como no parecer do Artigo 2
das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo:
A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões
inerentes a sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios
dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência

4
São considerados jovens agricultores familiares aqueles definidos pela lei 11.326/06.
5
É professora aposentada pela prefeitura municipal de Aquidauana e integrante do Sindicato
Municipal dos Trabalhadores de Educação (Simted). A informação trazida nesse texto advém
do slide apresentado pela professora no Seminário de Educação do Campo realizado na cidade
de Campo Grande/MS no ano de 2007. Neste ano, a professora Ivone fazia parte do Comitê da
Educação do Campo instituído pelo Estado de Mato Grosso do Sul.

158
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de


projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade so-
cial da vida coletiva no país (Brasil, 1992).

Como exemplo da identidade da escola do campo, definida a partir dos


sujeitos sociais, foi proposto pela professora Ivone Nemer de Arruda (2013)
uma estrutura curricular de trabalho docente, interativa das áreas de estudo
com os eixos temáticos Linguagens, Linguagem Matemática, Ciências Hu-
manas e Ciências da Natureza a fim de possibilitar o eixo facilitador do social
e profissional dos/as trabalhadores/as com/em todas as áreas de estudos. As-
sim, verificamos na realidade da capital de Mato Grosso do Sul.
Em Campo Grande o projeto iniciou-se em 2006, e, após dois anos da
sua implantação, foi integrado à ação do Programa Nacional de Inclusão de
Jovens (Projovem), cuja gestão era da Secretaria Nacional de Juventude. O
Projovem possuía outras três modalidades: adolescente, trabalhador e urbano.
E, assim, é conhecido como ProJovem Campo – Saberes da Terra.
O referido projeto funcionou nos períodos vespertino e noturno, aos sá-
bados, atendendo à demanda das regiões do Estado, como mostra o quadro 1.

Quadro 1 – Ação do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem


Campo) em Mato Grosso do Sul
N. DE
REGIÃO CIDADE LOCAL
TURMAS
CONESUL 1 Itaquirai Assentamento Santa Rosa
SUL FRONTEIRA 3 Ponta Porã Assentamento Itamarati I e II
GRANDE DOURADOS 2 Dourados Aldeia Indígena – Bororó/Guarani-Kaiowá
CENTRAL 1 Sidrolândia Assentamento Gíbóia
Assentamento Andalúcia e Colônia
SUDOESTE 4 NioaqueAnastácioBodoquena Conceição Assentamento São Manoel
Fazenda Boca da Onça
Aldeia GuatóTrabalhadores do Transporte
ALTO PANTANAL 2 Corumbá
Fluvial
Organização: Mariana Lemes. Fonte: Arruda (2007).

Desse modo, o projeto desenvolveu-se, certificou-se e gerou muitos frutos,


como a coletânea “Saberes da Terra: teorias e vivências”, lançada no ano de 2011
e elaborada pela Universidade da Grande Dourados (UFGD), com muitos tex-
tos acadêmicos, documentos e material de divulgação com “seus feitos e pedaços
dos debates que esses têm gerado” (Falkembach et al., 2012, p. 10).

159
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

A apresentação dessa coletânea exemplifica quatro características aponta-


das por Falkembach:
1. a importância que as práticas relatadas e reflexões apresentadas sobre a
Educação do Campo, em suas diversas ramificações, têm dado à formação
de educadores;
2. o valor atribuído à história e à memória de educadores(as) e educandos(as)
que integram seus processos educativos;
3. a importância concedida à leitura e à escrita;
4. o papel relevante que assume o sujeito (genericamente falando ou sujeito-
-mulher, sujeito-indígena...) nas reflexões em curso – sua constituição, eman-
cipação, o “ser mais”, a libertação – que se estende ao seu contexto de atuação
(p. 10).

Contudo, concordamos que esse projeto abrange uma pluralidade de


ações e sujeitos condizentes com a diversidade alcançada ao fazer educação,
ao atender as orientações pedagógicas desse fazer e ao permitir reflexões pro-
vocadas pelos sujeitos sociais que se preocupam com a Educação do Campo.

Curso Normal Médio do Campo6


O curso Normal Médio do Campo foi aprovado no ano de 2005 pela
Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED), e teve vigên-
cia até o ano de 2007. O projeto se iniciou na Escola Estadual Dr. Arthur de
Vasconcellos Dias, em Campo Grande, no 2º semestre de 2005 (julho), com
a previsão de término em julho de 2008.
Em seus objetivos, pretendeu-se qualificar, em nível médio, jovens e
adultos como educadores(as) do campo, para atuarem na Educação Infantil e
Anos Iniciais do Ensino Fundamental nas escolas do campo; além de formar
cidadãos e cidadãs críticos, conscientes de seus direitos, com habilidades e
competências que ampliassem e desenvolvessem a capacidade de intervenção
efetiva na transformação da sociedade, possibilitando-os a seguir estudos em
nível superior. Esse curso contou com a parceria dos movimentos sociais da
reforma agrária: MST, CPT, MMC, Federação dos Trabalhadores na Agri-

6
Existem poucos registros específicos e nenhum artigo científico sobre este curso, portanto,
todas as informações aqui contidas, foram retiradas no site da Secretaria de Educação do Mato
Grosso do Sul. Disponível em: <http://www.sed.ms.gov.br/index.php?inside=1&tp=3&comp&
show=493>. Acesso em: 12 dez. 2013.

160
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

cultura no Estado de Mato Grosso, CNBB, Fundo de Aplicação Financeira


(FAF) e Centro de Organização e Apoio aos Assentados de Mato Grosso do
Sul (COAAMS), além das demais instituições representadas no Comitê da
Educação do Campo.
Assim como o “Saberes da Terra”, o curso trabalha com calendário di-
ferenciado, independentemente do ano civil, durante os meses de janeiro, fe-
vereiro e julho como Tempo-Escola (presencial), e os demais meses, como
Tempo-Comunidade (não presencial). Por meio dessa alternância regular de
períodos de estudos, jovens e adultos de diversos assentamentos, acampamen-
tos e demais comunidades do meio rural participaram do projeto, envolven-
do dezoito municípios: Anastácio, Angélica, Aquidauana, Bodoquena, Boni-
to, Campo Grande, Corumbá, Dois Irmãos do Buriti, Maracaju, Miranda,
Mundo Novo, Nioaque, Nova Andradina, Ponta Porã, Ribas do Rio Pardo,
Rio Brilhante, Sidrolândia e Terenos.
A partir dessa demanda, a Secretaria de Estado de Educação de Mato
Grosso do Sul priorizou o atendimento aos alunos do Ensino Médio, por meio
de parcerias com a rede municipal e iniciativa privada (associações e sindica-
to), possibilitando a formação de jovens e adultos como educadores das escolas
do campo no Mato Grosso do Sul.

Licenciatura em Ciências Sociais


Tratou-se de um curso superior de formação de educadores do campo
oferecido pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). A Licen-
ciatura em Ciências Sociais demonstrou a importância da educação inclu-
siva no ensino superior, pois foi o primeiro curso superior direcionado aos
moradores(as) de assentamentos rurais do Estado de Mato Grosso do Sul.
A UFGD tornou-se parceira dos movimentos sociais ao assumir o com-
promisso e, a partir daí, liderou o processo de criação e implantação do
curso. Assim, o curso foi criado no ano de 2008 com o intuito de “formar
educadores(as) político-sociais para incentivar sua atuação em suas próprias
comunidades, por meio de atividades nas escolas, nos grupos dos assentamen-
tos, em sindicatos e associações; enfim, em situações educativas e de apoio à
família” (Farias, 2009, p. 9).
Desse modo, no ano de 2009, publicou-se o livro “Saberes em Constru-
ção: experiências coletivas de sem-terras e a Universidade Federal da Grande
Dourados”, para divulgar o curso e mostrar os sujeitos sociais “em busca de

161
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

reconhecimento da sua história de vida, marcada por trajetórias de ‘andanças’


e de procura por um lugar melhor para viver, conquistado ao chegarem à ter-
ra” (p. 10).
Em parceria com o Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária
(Pronera), o qual destinou projetos e recursos específicos, o curso de Licencia-
tura em Ciências Sociais se constituiu por meio da ação conjunta da UFGD,
Pronera, MDA, Incra e movimentos sociais do Mato Grosso do Sul, com a
presença dessas instituições em todas as etapas e elaboração do Projeto Políti-
co-Pedagógico (objetivo, metas, matriz curricular, currículo) e das burocracias
e infraestrutura do curso, para atender 58 pessoas de assentamentos rurais do
Mato Grosso do Sul (Farias; Menegat, 2009).
Assim sendo, o curso foi pautado pela metodologia de alternância, para
concretizar a construção pedagógica, favorecendo a inclusão no ensino su-
perior de pessoas de assentamentos rurais e criar “alternativas para minimi-
zar as dificuldades de acesso e permanência na universidade, já que conside-
ram Tempo-universidade e Tempo-comunidade dois momentos interligados
e complementares do conhecimento” (p. 39). Sobre o método, reproduzimos
algumas palavras de uma das professoras do curso:
Construímos conhecimento sem negar as especificidades dos lugares onde
os/as acadêmicos/as vivem. Isso significa manter um olhar com respeito às
diferenças, aos direitos humanos e sociais, na ‘luta pela terra’ e na importân-
cia do campo brasileiro. Estamos contribuindo no processo de formação das
identidades das pessoas autônomas, que consigam ‘se verem e serem vistas’
(p. 40).

Nesse sentido, a história desse curso foi construída coletivamente com o


compromisso de uma “educação para além do capital” (Mészáros, 2002, p.
25), acreditando que “o contexto é o mundo onde a vida vive sua história”,
qual seja, a cultura gestada nas populações dos assentamentos rurais. A partir
dessa realidade, cabe ressaltar os cursos recém-criados: Licenciatura em Edu-
cação do Campo da Universidade Federal da Grande Dourados e da Universi-
dade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e Especialização em Educação
do/no Campo, curso de Educação a Distância (EaD) oferecido pela UFMS.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os projetos anteriormente apontados são exemplos de ação social cole-
tiva por meio da universidade, da organização social, da assistência técnica

162
Contextos e trajetórias da educação do campo: papel
embrionário do Pronera no Brasil e no Mato Grosso do Sul

estatal e da comunidade local, que demonstra a iniciativa de concretizar um


trabalho em favor das dificuldades ambientais e/ou sociais do meio rural,
bem como possibilitam notar um “campo de demonstração” e criar um am-
biente multiplicador de futuras práticas conservacionistas (UFMS, 2013, p.
5). Ademais, agregam elementos que fortalecem os homens e mulheres que
resistem no campo, e, a partir disso, auxiliam no processo de construção do
paradigma da Educação do Campo.
Haja vista o histórico dos projetos mencionados, podemos constatar
que o paradigma da Educação do Campo no Mato Grosso do Sul ainda se
encontra em estado embrionário, pois os projetos exemplificam uma pro-
posta de mudança da realidade rural, e, concomitantemente, constroem
uma nova consciência política. Deste modo “acreditamos que o caminho da
luta pela terra e para nela permanecer em Mato Grosso do Sul é árduo e está
apenas começando, porém importantes passos foram dados nesta direção e
eles são irreversíveis” (Kudlavicz; Almeida, 2008, p. 41).
Assim, esperamos que esta trajetória construtiva da Educação do Cam-
po permaneça a partir da educação e do ensino para que as oportunidades se
façam e refaçam em outros territórios como o da educação e possam ser nu-
tridos, formados e libertados da lógica perversa do capital. Contudo, pensar
e construir a Educação do Campo significa resistir e não fechar a questão
agrária cultuada na sociedade que vivemos.

REFERÊNCIAS
ARROYO, Miguel G; CALDART, Roseli S; MOLINA, Mônica C. (org.). Por uma edu­
cação do campo. Petrópolis: Vozes, 2004.
ARRUDA, Ivone N. Projeto Curso Normal Médio do Campo. [Slide]. Campo Grande:
Ivone Nemer Arruda, 2007, 7, verde.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, n. 9.394, de 20 de dezembro de
1996.
CALDART, Roseli S. Elementos para a construção de um projeto político e pedagógico
da educação do campo in: KOLLING, J. E.; CERIOLI, P. R.; CALDART, R. S. Por
uma educação do campo: contribuições para a construção de um projeto de educação do
campo. Brasília, 2004, p. 13-53.
_____ . Por uma Educação do Campo: traços de uma identidade em construção in:
KOLLING, Jorge Edgar; CERIOLI, Paulo Ricardo; CALDART, Roseli Salete.
Educação do Campo: identidade e políticas públicas. Brasília, 2002.
FALKEMBACH, Elza Maria. Prefácio, in: PINHEIRO, A. S.; TEDESCHI, L. A.; MARS-
CHNER, W. R. (org.). Saberes da terra: teoria e vivências. Dourados: UFGD, 2012.

163
Mariana Santos Lemes e Marcelo Cervo Chelotti

FARIAS, Marisa de F. L. Apresentação, in: MENEGAT, Alzira S; Marschner, Walter


(org.). Saberes em Construção: experiências coletivas de sem terra e a universidade da
Grande Dourados. Dourados: Editora UFGD, 2009.
GUHUR, D. M. P. Contribuições do diálogo de saberes à educação profissional em agroecolo­
gia no MST: desafios da educação do campo na construção do projeto popular. Disserta-
ção (Mestrado em Educação). Centro de Ciências Humanas e Sociais, Universidade
Estadual de Maringá, Maringá, 2010.
HAESBAERT, Rogério da C. O mito da desterritorialização: do “ fim dos territórios” à mul­
titerritorialidade. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
HORTA, José S. B. Planejamento educacional in: MENDES, Durmeval Trigueiro (org).
Filosofia da educação brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p.
195-239.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades @. Disponível em: http://
www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?. Acesso em: 29 out. 2011.
KUDLAVICZ, Mieceslau; ALMEIDA, R. A. de. Abrindo caminhos para uma educação
que valoriza os saberes do homem e da mulher do campo in: PEREIRA, J. (orgs.).
Educação no/do campo em Mato Grosso do Sul. Campo Grande: UFMS, 2008, p.
21-42.
LEMES, Mariana. S. Territorialização do capital e as contradições da educação do campo na
microrregião de Três Lagoas (MS). Dissertação (Mestrado em Geografia). Instituto de
Geografia, Universidade Federal de Uberlândia, 2014.
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO. Ministério da Educação.
Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). Manual de opera-
ções. Brasília: MEC/MDA, 2004.
MOLINA, Mônica C; JESUS, Sonia M. A de. (orgs). “Contribuições para a construção
de um projeto de educação do campo”. Brasília: Articulação Nacional Por uma Edu-
cação do Campo, 2004.
NASCIMENTO, Claudemiro Godoy do. Educação do campo e políticas públicas para além
do capital: Hegemonia em disputa. Tese (Doutorado em educação). Programa de Pós-
-graduação UnB, Universidade de Brasília, Brasília, 2009.
PERIUS, Lucia. C. F. da S.; OLIVEIRA, Regina. T. C. de. O programa nacional de edu-
cação na reforma agrária (Pronera) no Estado de Mato Grosso do Sul (1998-2001),
in: PEREIRA, J. H. do V.; ALMEIDA, R. A. de (org.) Educação no/do campo em
Mato Grosso do Sul. Campo Grande: UFMS, 2008.
UFMS. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Programa de Extensão Universitá-
ria. Recuperação de áreas degradadas no assentamento de reforma agrária São Joa-
quim em Selvíria/MS. Três Lagoas: MS, 2013.

164
REFORMA AGRÁRIA E EDUCAÇÃO DO CAMPO:
AS CONTRADIÇÕES DO PRONERA EM ALAGOAS
(1998-2008)1

Raqueline da Silva Santos


Eraldo da Silva Ramos Filho

INTRODUÇÃO
O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) sur-
giu das reivindicações dos movimentos sociais, em específico, o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Criado como um projeto de
educação, foi pensado para ser construído com os camponeses e voltado
para a realidade destes. Desse modo, é produto e reflexo da luta dos movi-
mentos socioterritoriais que atuam em defesa da democratização do acesso
a terra e em contraposição ao capital. No contexto desta luta reside a reivin-
dicação por direito à educação contextualizada para os sujeitos do campo e
seus territórios de vida.
Desde meados do século XX, os trabalhadores organizados em movi-
mentos sociais vêm empreendendo ações por democratização da proprie-
dade da terra, que se traduzem nos processos geográficos de espacialização
das lutas por terras, cujas formas e conteúdos podem ser apreendidas nas
ocupações de terras, edificações de acampamentos rurais, marchas de traba-
lhadores, bloqueio de rodovias, manifestações públicas etc. A conquista do

1
Este capítulo é um fragmento das reflexões tecidas na dissertação de mestrado intitulada:
“Reforma agrária e Educação do Campo: as contradições do Pronera em Alagoas”, defendida
em 30 de setembro de 2014, no Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade
Federal de Sergipe, sob a orientação do professor Dr. Eraldo da Silva Ramos Filho. Agradecemos
à Capes pela concessão da bolsa de estudos que possibilitou a realização deste estudo e ao CNPq
por auspiciar a missão de estudos na modalidade mestrado sanduíche, pelo Programa de Pós-
graduação em Geografia da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita”, no âmbito do projeto de pesquisa “Políticas públicas de desenvolvimento e a
apropriação da natureza: terra, água e conflitos socioterritoriais, Casadinho/Procad” financiado
pelo Edital MCTI/CNPq/MEC/Capes − Ação Transversal n. 06/2011 − Casadinho/Procad.
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

território dá-se quando a propriedade privada é desapropriada pelo Estado e


destinada ao uso social, no contexto dos assentamentos de reforma agrária.
A espacialização da luta pela terra e a territorialização da reforma agrá-
ria são processos permanentemente acompanhados das lutas pelo conjunto
dos direitos sociais que garantem a ressocialização humana e a permanência
da família camponesa na terra. Dentre os quais, destaca-se a pressão sobre
o Estado com vistas à criação de políticas públicas educacionais que dire-
cionem a formação desde a realidade do sujeito camponês, que pratique a
formação do sujeito com ênfase na busca da emancipação humana e que
reconheça o território camponês, como lugar de trabalho e vida digna.
Por outro lado, diante dos limites e contradições do Estado e da neces-
sidade de avançar no plano da escolarização e formação política dos seus
militantes, o MST desencadeou a construção do paradigma da Educação
do Campo e da Pedagogia do Movimento, a partir da sua realidade e dos re-
ferenciais existentes da educação popular. Para Kolling “a Educação Básica
do Campo é parte de um projeto popular que o povo brasileiro quer e é, ao
mesmo tempo, um meio para fazê-lo acontecer” (1999 p. 13).
O conceito de Educação Básica do Campo leva em conta dois pontos
para definir esse termo: o primeiro ponto considera como Educação Básica
o conceito retirado da LBD, Lei n. 9.394/96 que define para a educação bá-
sica os níveis de ensino infantil, fundamental, médio. Outros dois elementos
são a educação de jovens e adultos e a escolarização profissional. O segundo
ponto é “Do Campo”: essa expressão se contrapõe ao termo da educação do
meio rural (expressão mais comum), pois inclui uma nova reflexão sobre o
camponês. Neste sentido, é a valorização “das lutas sociais e culturais dos
grupos que hoje tentam garantir a sobrevivência deste trabalho” (Kolling,
1999, p. 11).
A partir de 1998, com a conquista pelos trabalhadores do Pronera, a
Educação do Campo passou a ser induzida por este programa estatal, ini-
cialmente com ênfase na escolarização de jovens e adultos e na formação de
professores para atuarem na alfabetização nas áreas de acampamentos ru-
rais. Ao longo dos anos e à medida que as turmas de escolarização elementar
eram terminadas e se ampliava o número de beneficiários, o programa foi
sendo atualizado para atender gradativamente um novo público demandan-
te de formação técnica, de graduação e pós-graduação (lato senso e stricto
senso). Neste sentido, o programa se converteu em um relevante instrumento

166
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

de democratização do conhecimento formal, em todos os níveis de ensino,


para os povos do campo.
Em Alagoas, o programa foi implantado já em 1998 através de parce-
rias firmadas entre o MST, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Incra,
a Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fun-
depes), a Secretaria de Educação do Estado de Alagoas (SEE/AL) e a Escola
Agrotécnica Federal de Satuba (Eafs).
Essas parcerias contribuíram para a implantação dos cursos nos níveis
de alfabetização, formação de professores e técnico em agropecuária. Os
cursos realizados foram: Projeto de Educação de Jovens e Adultos nas Áreas
de Reforma Agrária em Alagoas (Projeral), responsável pela escolarização de
jovens e adultos; Telecurso 2000, voltado para a formação dos educadores
que não tinham o nível fundamental completo; o Programa de Formação de
Professores em Exercício (Proformação) que deu continuidade à formação
destes educadores em nível médio e magistério. Houve também a formação
técnica em agropecuária de um grupo de assentados, realizada através da
parceria construída entre o Incra e a Escola Agrotécnica Federal de Satuba
(atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IF- Satuba).
O Proformação, o Projeral e o Curso Técnico em Agropecuária não
fundamentaram os cursos ofertados nos princípios epistemológicos da Edu-
cação do Campo. Algumas das evidências disto verificam-se: no abando-
no da Pedagogia da Alternância, que exercita a prática pedagógica entre o
tempo-escola e o tempo-comunidade, intercalando um período de convívio
na sala de aula com outro no campo, como articulador da teoria-prática; a
não construção do currículo pelos próprios sujeitos. Em nossa avaliação, os
cursos implantados em Alagoas negaram as condições de pensar a educação
camponesa a partir de suas especificidades.
Neste contexto, compreedemos que o Pronera em Alagoas é um caso
sui generis, e, nesse sentido, o presente texto problematiza a educação do
campo no contexto da execução do Pronera em Alagoas, entre os anos de
1998 a 2008, com o intuito de explicarmos as condições que direcionam os
pressupostos políticos e ideológicos presentes no direcionamento de políti-
cas públicas de educação voltadas para o campo alagoano.
Para fundamentar nossa análise, realizamos ampla revisão bibliográ-
fica, pesquisa documental sobre o Pronera em âmbito nacional e estadual,
participamos da II Pesquisa Nacional de Educação na Reforma Agrária (II

167
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

Pnera) e realizamos um conjunto de entrevistas com sujeitos e gestores dos


cursos em tela (coordenadores locais, educandos, educadores, estagiários e
coordenadores do Pronera).
O capítulo, no primeiro ponto, avalia uma leitura sobre a construção
do Paradigma da Educação do Campo. As temáticas abordadas no texto re-
fletem as diferenças da educação ofertada pelo Estado e da educação busca-
da pelos movimentos sociais. Procuramos evidenciar a importância de uma
educação voltada para a realidade do campo que vem sendo conquistada
pela luta dos movimentos por meio da consolidação da política pública do
Pronera, que abordamos no segundo tópico. O Pronera é, hoje, o principal
instrumento da consolidação da educação camponesa. Por meio do progra-
ma constatamos o avanço da luta e das conquistas dos movimentos sociais
em torno da educação do campo.
No terceiro ponto é feita uma análise do desenvolvimento da política
pública do Pronera no campo alagoano e sua relação na luta pela terra. Dis-
cutimos o desenvolvimento do programa a partir dos cursos realizados em
Alagoas: o Telecurso 2000, o Projeral, o Proformação e o curso Técnico em
Agropecuária.
Partimos do pressuposto de que esses cursos estão distantes dos princí-
pios educativos da Educação do Campo, e reafirmamos que o Pronera em
Alagoas é um caso sui generis, e, nesse sentido, a análise desse programa no
Estado dentro da relação da luta pela terra e pela Educação do Campo é
importante para entendermos o papel que desenvolveu nos territórios dos
assentamentos beneficiados pelo programa.

A CONSTRUÇÃO DO PARADIGMA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO


Os projetos de educação do Brasil nunca estiveram voltados para a po-
pulação como um todo, pois segundo Machado:
(...) O primeiro projeto sobre a instrução pública no Brasil foi aprovado
somente em 1827. No entanto, tal projeto nunca saiu do papel, já que as eli-
tes dominantes não tinham interesse em proporcionar instrução às classes
menos favorecidas. Para as elites, a educação deveria ser privilégio somente
daqueles que faziam parte dela, o que garantiria, conforme se acreditava,
grandes avanços para o crescimento do país (2008, p. 36).

A educação dos camponeses, ou o que o Estado chama de educação ru-


ral, passou a ser concebida como um direito somente a partir da Constitui-

168
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

ção de 1934. Ainda assim não houve um avanço na formação, pois o Estado
sempre relegou aos povos do campo uma educação voltada exclusivamente
à preparação de força de trabalho de baixo custo, no marco das especializa-
ções técnicas exigidas pela modernização da agricultura. Portanto, os pro-
cessos educativos apresentaram-se desarticulados da realidade camponesa.
O modelo de educação oferecido nos espaços rurais brasileiros historica-
mente veiculou os valores e interesses da classe dominante em escolas rurais
criadas e pensadas como instrumentos de controle da população rural.
O direito à universalização da educação no Brasil foi reconhecido na
Constituição Federal de 1988. O artigo 205 da Carta Magna reza que “a edu-
cação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e in-
centivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho.” Este direito também é garantido por outras normas jurídicas como:
o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990; e a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação (LDB), de 1996 (Guia de Direitos, 2016).
Essas leis são vistas como uma possibilidade de avanço para o ensino
e formação das crianças do campo. Contudo, desde sua promulgação não
houve ampliações de infraestrutura para as escolas do campo, nem aperfei-
çoamento de professores. Em contrapartida, nos últimos anos verifica-se,
respaldado nestas legislações, a opção por estimular o transporte escolar do
campo para a cidade, gerando, com isso, outra problemática relacionada ao
deslocamento de crianças, sua adaptação às escolas urbanas e uma série de
desafios de sociabilidade que isto implica.
Este modelo de educação e as condições para formação dos camponeses
passaram a ser questionados pelos movimentos socioterritoriais, particular-
mente o MST. Busca-se tanto ampliar o acesso e as possibilidades de forma-
ção educacional, quanto confrontar o modelo de educação rural tradicional
com a proposta de educação do campo, nascida no bojo da luta política dos
camponeses. Pretende-se concretizar uma educação problematizadora do
real, capaz de abrir processos de transformação da realidade, que provoque
(...) o rasgar da camisa de força da lógica incorrigível do sistema: perseguir
de modo planejado e consistente uma estratégia de rompimento do controle
exercido pelo capital, com todos os meios disponíveis, bem como todos os
meios ainda a serem inventados e que tenham o mesmo espírito (Mészáros,
p. 35, 2008).

169
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

Nesta educação, as determinações do capital perdem a força e ganha


papel central a valorização do homem, em detrimento da sua exploração.
Nesse sentido, o MST tem tido um papel fundamental na sociedade, pois,
a partir das suas lutas e reivindicações, materializadas nas ocupações de ter-
ras, acampamentos, marchas etc., explicita as condições de submissão que
o campo vem sofrendo frente ao avanço do capitalismo. Na luta pela terra e
pela educação, suas ações têm reconfigurado o território brasileiro à medida
que
(...) sua presença, suas lutas, sua organização, seus gestos, suas linguagens
e imagens são educativas, nos interrogam, chocam e sacodem valores, con-
cepções imaginárias, culturas e estruturas. Constroem novos valores e co-
nhecimentos, nova cultura política. Forma novos sujeitos coletivos (Cal-
dart, 2012, p. 151).

Traz em si não as dores de um grupo isolado, mas coloca em pauta as


angústias de todo o povo brasileiro, mostrando-nos que a esperança move e
edifica. É pautada nela que apresentam proposições de uma nova sociedade,
na qual a iniquidade gerada pelo capital deve ser superada.
O MST tem sido o grande propulsor da construção de uma educa-
ção que visa articular o entendimento do mundo com o entendimento da
palavra, tornando a formação dos camponeses mais viva, em movimento.
Exige-se a superação do modelo de educação mercadológica, bancária e a
construção de outro paradigma educacional que
(...) nos situa no terreno dos direitos, nos leva a vincular educação com
saúde, cooperação, justiça, cidadania. O direito coloca a educação no terre-
no dos grandes valores da vida e da formação humana. (...) O movimento
social no campo representa uma nova consciência dos direitos, à terra, ao
trabalho, à justiça, à igualdade, ao conhecimento, à cultura, à saúde e à
educação. O conjunto de lutas e ações que os homens e mulheres do campo
realizam, os riscos que assumem, mostram quanto se reconhecem sujeitos
de direitos (Arroyo, 1999, p. 9).

Nesse sentido, tornam-se indissociáveis a luta pela reforma agrária e a


luta pela democratização da educação:
(...) Não é possível viabilizar a democratização da terra e do capital com
uma multidão de analfabetos. Por outro lado, na sociedade moderna, co-
nhecimento, cultura, informação é poder. E é necessário que todos os cam-
poneses tenham acesso a esses conhecimentos, por isso é necessário demo-
cratizar a educação (Stedile, 2005, p. 162).

170
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

Várias ações são construídas para garantir a democratização da escola-


rização dos camponeses, como a
ampliação (quantitativa e qualitativa) do acesso às escolas, não só para es-
tudantes, mas também para suas famílias, comunidades, organizações e
movimentos populares. Maior participação da população na tomada de
decisões sobre a gestão do cotidiano escolar, sobre propostas pedagógicas e
sobre políticas públicas; a escola precisa ser vista como um espaço da comu-
nidade e não como um ente externo, onde o povo entra constrangido e nem
imagina que pode interferir no que ali acontece e no seu próprio destino;
maior participação dos alunos/alunas na gestão do cotidiano escolar, supe-
rando a mera democracia representativa; e criação de coletivos pedagógicos
capazes de pensar e repensar esses processos de transformação e traduzi-los
em ações educativas concretas (Kolling, 1999, p. 39-40).

A construção da educação do campo é um meio de fortalecer a classe


camponesa, pois esse paradigma nasce de baixo para cima. Surge a partir da
necessidade de quem conhece a realidade do seu território e compreende a
importância das mudanças das relações de subordinação tão presentes nos
espaços do campo brasileiro. Para Fernandes (2013)2, a Educação do Campo
(...) tem uma genuinidade, ela é uma política muito séria, tanto é que ela
tem 15 anos de idade3 e ela emplacou. Então, hoje o conjunto de políticas de
Educação do Campo está no Brasil inteiro e ela está se tornando referência
para outros países. O Brasil tem hoje uma educação que está sendo vista
por outros movimentos como referência.

A gênese deste paradigma educacional se deu na I Conferência Nacio-


nal “Por uma Educação Básica do Campo”, realizada na cidade de Luziânia/
GO, entre os dias 27 e 31 de julho de 1998. Nesta conferência foi criada a
“Articulação Nacional por uma Educação Básica do Campo”, integrada por
intelectuais e representantes de movimentos socioterritoriais que se encarre-
garam de fomentar os encontros, seminários, congressos, conferências, que
discutiam e difundiam o paradigma edificado e proposto pelos movimentos
socioterritoriais, ademais de assumir a responsabilidade por formular e for-
2
Entrevista realizada com o Professor Bernardo Mançano Fernandes no X Encontro Nacional
da Associação de Pós-graduação em Geografia no dia 8 de outubro de 2013 na Unicamp,
como parte do plano de trabalho da Mobilização de Mestrado − Projeto Edital MCTI/CNPq/
MEC/Capes − Ação Transversal n. 06/2011 − Casadinho/Procad e a Unesp, campus Presidente
Prudente.
3
A citação foi feita pelo professor Fernandes em 2013, portanto, hoje temos 18 anos da Educação
do Campo no Brasil.

171
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

talecer as propostas e princípios educativos desse novo projeto de educação,


dentre os quais ressaltamos a
(...) necessidade de duas lutas combinadas: pela ampliação do direito à edu-
cação e à escolarização no campo; e pela construção de uma escola que
esteja no campo, mas que também seja do campo: uma escola política e
pedagogicamente vinculada à história, à cultura e às causas sociais e huma-
nas dos sujeitos do campo, e não um mero apêndice da escola pensada na
cidade; uma escola enraizada também na práxis da Educação Popular e da
Pedagogia do Oprimido (Kolling, 2002, p. 19).

Pensar a educação democratizada leva os camponeses a criarem par-


cerias que viabilizem a expansão da Educação do Campo. Nesse sentido
o apoio da sociedade civil (representada pelas universidades, em destaque
a Universidade de Brasília (UNB), pelo Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), pela CNBB e pela Organização das Nações Unidas para
a Infância, Ciência e a Cultura (Unesco) foi fundamental para conquistar
programas que dessem subsídios para fomentar a nova proposta de educação
do campo (Martins, 2009).
As propostas de formação humana do Movimento se ampliam na me-
dida em que propõem novas concepções de escolas e formações. Sua trajetó-
ria histórica é um grande exemplo, pois suas ações vão criando e recriando
a forma de pensar dos sem-terra. A luta proporciona um novo repensar da
condição de ser sem-terra. Cria-se, molda-se uma nova postura na socie-
dade, que permite compreender a condição de submissão e exploração que
configura a vida camponesa na história do Brasil. Atuar na luta política é
um processo pedagógico que possibilita aos camponeses se reconhecerem na
história do país e compreender que é possível mudar a trajetória destrutiva
empreendida pelas relações do capital. O MST trabalha para além dos mu-
ros da escola, pois, para o Movimento,
a formação dos sem-terra não se dá pela assimilação de discursos, mas,
fundamentalmente, pela vivência pessoal em ação de luta social, cuja força
educativa costuma ser proporcional ao grau de ruptura que estabelece com
padrões anteriores de existência social desses trabalhadores e dessas traba-
lhadoras da terra, exatamente porque exige elaboração de novas sínteses
culturais (Caldart, 2012, p. 166).

A proposta de educação constrói novos valores e conhecimentos que


contribuem no sentido político, social e cultural. É a forma de pensar a edu-

172
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

cação que dá sentido à formação da coletividade camponesa. A Educação do


Campo pensada se contrapõe à ordem estabelecida, é problematizadora das
condições sociais dos sujeitos do campo, que procura favorecer um debate
que questione a condição social, a propriedade privada, a concentração da
terra, a precarização da vida humana e da própria educação.
O que está em pauta é a necessidade de pensar uma educação para o campo
que evidencie a importância de uma pedagogia construída com os camponeses e
voltada para a realidade destes. Vinculado ao MST, o pensamento da Educação
do Campo está ligado ao caráter ideológico e político empreendido na constru-
ção da identidade do movimento camponês. Nesse caráter ideológico e político
insere-se a construção do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária,
que vem sendo construído e concebido como o principal aliado da construção
pedagógica da educação proposta pelos movimentos sociais.

PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO


NA REFORMA AGRÁRIA (PRONERA)
O Pronera vem sendo construído pelas universidades com o MST. Em
outubro de 1997, com o respaldo do I Enera, representantes da UNB, Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade do Vale
do Sul (Unijui), Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Universidade
Estadual­Júlio de Mesquita Filho (Unesp) reuniram-se para discutir a par-
ticipação das universidades na educação dos camponeses. (Brasil/Pronera,
2011). O apoio das universidades, do Incra, da Unicef e da Unesco contri-
buiu para a materialização do programa institucionalmente em 16 de Abril
de 1998, por meio da Portaria n. 10/98 que também regulamentou e apro-
vou seu Manual de Operações (Incra, 1998).
O Pronera em sua institucionalização era vinculado ao gabinete do Mi-
nistério Extraordinário da Política Fundiária, sendo de responsabilidade do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CNDRS), cria-
do pelo Decreto n. 3.508, de 14 de junho de 2001. Esse Conselho era o
responsável, na década de 1990, pela aprovação das diretrizes, avaliações e
propostas do Pronera. Contudo, em 27 de agosto de 2001, o Pronera passa a
ser vinculado ao Incra, a partir da Portaria/MDA/196. Essa medida foi cria-
da para que o Incra pudesse ser o propulsor do desenvolvimento do Pronera,
logo, foi delegada, com esta portaria, autonomia para o funcionamento do
programa ao Incra (Incra, 1998).

173
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

O Pronera é fundamentado a partir do seu Manual de Operações, que


apresenta quatro edições. A primeira, em 1998, a segunda, em 2001, a ter-
ceira, em 2004 e, a mais atual, em 2011. Esses manuais apresentam os obje-
tivos que devem ser alcançados, os seus princípios metodológicos, a estrutu-
ra de funcionamento do programa e sugestões de elaboração do projeto por
parte das instituições de ensino superior para submeter ao Incra. Ressalta-
mos que, com o avanço do Pronera, cada manual traz suas especificidades e
são essas que distinguem e mostram o avanço do programa em relação a sua
execução nas áreas de assentamentos de reforma agrária.
Os Manuais de Operações de 1998 e 2011 destacam quais propostas
de educação são importantes para o fortalecimento da educação nos territó-
rios camponeses. Enfatizam a formação de jovens e adultos, a formação de
professores e a formação técnica profissional para os jovens e adultos. Por
sua vez, o Manual de Operações de 2004, além dessas proposições, amplia
a necessidade de projetos de formação superior para jovens e adultos da re-
forma agrária.
As modificações nos manuais refletem a mudança e o avanço, ainda
que pequeno, na situação educacional nessas áreas. O Manual de Operações
de 2011 amplia as propostas de educação e formação para jovens e adultos
dessas áreas, pois além dos cursos superiores já propostos no ano de 2004
pode ser viabilizada a criação de cursos de especialização, como é o caso da
Especialização em Residência Agrária e pós-graduação, caso mais recente
em algumas universidades brasileiras, como a Unesp e a Universidade do
Recôncavo Baiano (UFRB). Como exemplo do avanço dos cursos pelo pro-
grama, temos
(...) projetos de Educação de Jovens e Adultos, Cursos Técnico-Profissio-
nalizantes de Nível Médio, Técnico em Administração de Cooperativas,
Enfermagem, Técnico em Saúde Comunitária, Técnicos em Comunicação.
Os de nível superior, Pedagogia, História, Geografia, Sociologia, Ciências
Naturais, Agronomia, Direito e Medicina Veterinária, desenvolvidos por
meio da alternância regular de períodos de estudos, que considera o contex-
to socioambiental e a diversidade cultural do campo, em todos os Estados
do território nacional (Lacerda; Santos, 2011, p. 19).

O objetivo geral que permeou os Manuais de Operações de 1998, 2001


e 2004 foi o fortalecimento da educação nos Projetos da Reforma Agrária.
Era preciso estimular, propor e criar medidas que visassem o desenvolvi-

174
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

mento de projetos educacionais para essas áreas, utilizando metodologias


voltadas para a especificidade do campo, tendo em vista contribuir para
o desenvolvimento rural sustentável (Incra, 2004). Contudo, em 2011, o
programa amplia esses objetivos, visando formar jovens e adultos das áreas
de reforma agrária e beneficiários do crédito fundiário atuando em todos
os níveis de ensino, desde a escolarização básica ao ensino superior e pós-
-graduação, pois é preciso “proporcionar melhorias no desenvolvimento dos
assentamentos rurais por meio da formação e qualificação do público do
Programa Nacional de Reforma Agrária que desenvolvem atividades educa-
cionais e técnicas nos assentamentos” (Incra, 2011, p. 13).
Com essas novas abordagens do Pronera, temos uma ampliação no de-
senvolvimento dos programas educacionais voltados para as áreas de assen-
tamentos bem como o desenvolvimento de outros programas que surgem a
partir dele. O programa é uma construção do conjunto de teoria e prática
no contexto da Educação do Campo. Passou por algumas limitações jurí-
dicas a partir de 2008, devido ao Tribunal de Contas da União (TCU) de-
sautorizar a execução de convênios por parte do Incra com instituições esta-
duais, municipais e privadas. Através do Acórdão 2.653/08, regulamentava
que o Incra, em vez de estabelecer convênios com as instituições de ensino
para a execução dos projetos, o fizesse por meio de contrato, precedido de
procedimento licitatório.
Dessa maneira, essa imposição de deslegitimar as parcerias é o meio que
o governo encontrou de enfraquecer a luta dos movimentos socioterritoriais
por uma Educação do Campo que seja baseada na construção coletiva e que
proporcione a esses sujeitos o direito de escolarizar-se a partir de sua realida-
de (Molina e Azevedo, 2011). Contudo, em 2009 foi aprovado o programa
em lei pelo Congresso Nacional, e no final de 2010, durante o IV Seminário
Nacional do Pronera, realizado em Brasília, o ex-presidente Luís Inácio Lula
da Silva assinou o Decreto n. 7.352, que trata da Educação do Campo e ins-
titui formalmente o programa no Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA), a ser executado pelo Incra. Isso significa que o Pronera compõe a
política de Educação do Campo, mas preserva sua especificidade de política
pública de educação vinculada à reforma agrária.
Nesta perspectiva, o Pronera institui uma nova concepção de política pú-
blica, que se constrói não com sujeitos isolados, mas com sujeitos concretos,
territorializados, sujeitos coletivos de direitos, capazes de instituir novos

175
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

direitos e de universalizá-los. Universalizá-los a partir da sua concretude.


E a sua concretude é a diversidade. Tal diversidade foi reconhecida pelo
Estado brasileiro na publicação do Decreto Presidencial n. 7.352, de 4 de
novembro de 2010, ao instituir o Pronera como um Programa integrante da
política de Educação do Campo (art. 11º) e reconhecê-lo, ao mesmo tempo,
como integrante da política de desenvolvimento do campo (Molina; Aze-
vedo, 2011, p. 20).

O Pronera tem se tornando um relevante instrumento de democratização


do conhecimento formal em todos os níveis de ensino, dentre os quais se des-
tacam: projetos nas áreas de alfabetização dos jovens e adultos, formação em
ensino fundamental, médio, nível técnico, superior, pós-graduação lato sensu e
stricto sensu e formação continuada dos educadores. Esses princípios baseiam-se
na articulação de quatro pressupostos básicos: inclusão, participação, interação e
multiplicação. Vejamos a seguir como estão definidos nesta política pública:
Inclusão: a indicação das demandas educativas, a forma de participação e
gestão, os fundamentos teóricos metodológicos dos projetos devem ampliar
as condições do acesso à educação como um direito social fundamental na
construção da cidadania dos jovens e adultos que vivem nas áreas de refor-
ma agrária. Participação: a indicação das demandas educacionais é feita pe-
las comunidades das áreas de reforma agrária e suas organizações, que em
conjunto com os demais parceiros decidirão sobre a elaboração, execução e
acompanhamento dos projetos. Interação: as ações desenvolvidas por meio
de parcerias entre órgãos governamentais, instituições de ensino públicas
e privadas sem fins lucrativos, comunidades assentadas nas áreas de refor-
ma agrária e as suas organizações, no intuito de estabelecer uma interação
permanente entre esses sujeitos sociais pela via da educação continuada e
da profissionalização no campo. Multiplicação: a educação dos assentados
visa à ampliação não só do número de pessoas alfabetizadas e formadas em
diferentes níveis de ensino, mas também garantir educadores, profissionais,
técnicos, agentes mobilizadores e articuladores de políticas públicas para as
áreas de reforma agrária (Incra 2011, p. 15).

Outro princípio do Pronera é a parceria, a qual estimula uma gestão


compartilhada, participativa a partir da construção coletiva entre os mo-
vimentos socioterritoriais, as Instituições de Ensino Superior, as comuni-
dades dos assentamentos, o Incra, os governos estaduais e municipais e as
secretarias de educação, de maneira que as “responsabilidades são assumidas
por todos em uma construção coletiva no acompanhamento e na avalia-
ção dos projetos pedagógicos. A parceria é a condição para a realização das

176
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

ações” (Incra, 2011, p. 15). O princípio da parceria visa ao “fortalecimento


do mundo rural como território de vida em todas as suas dimensões: eco-
nômicas, sociais, ambientais, políticas, culturais, éticas, educacionais” etc.
(Incra, 2004, p. 34).
Através da gestão compartilhada, procura-se alfabetizar, elevar a esco-
laridade de jovens e adultos, aperfeiçoar educadores e universitários (forma-
dores) na formação de educadores do campo, técnicos agrícolas, universitá-
rios especializados em manejo etc. Enfim, busca-se formar sujeitos capazes
de atuar no fortalecimento e elevação da capacidade técnico-científica dos
acampamentos e assentamentos da reforma agrária.
As ações e cursos realizados pelo Pronera adotam a Pedagogia da Al-
ternância como uma forma de aproximar a educação escolar à realidade
do trabalho camponês, e a indissociabilidade entre o mundo do estudo e o
mundo do trabalho, buscando aproximar a teoria da prática e desencadear
uma perspectiva de educação contextualizada. No cotidiano, os cursos pas-
sam a assumir dois momentos pedagógicos que se intercalam e se imbricam:
o tempo-escola e o tempo-comunidade.
Contudo, apesar dos avanços epistemológicos observados na constru-
ção do paradigma da educação e conquistas em torno da criação do Pronera
enquanto uma política pública, as condições objetivas de implatação das
parcerias para criação de cursos específicos dependem de muitas dimensões,
dentre as quais se destacam as correlações de forças da conjuntura agrária
em dado momento histórico e respectiva sociedade. Neste contexto, na pró-
xima seção buscamos discutir as contradições da implantação de cursos des-
te âmbito em Alagoas, onde, apesar da conquista do campesinato de impor-
tante território na reforma agrária, a colonialidade do poder do latifúndio
ainda tem grande influência sob as instituições do Estado.

AS CONTRADIÇÕES DO PRONERA EM ALAGOAS


O Pronera foi introduzido em Alagoas com o objetivo de viabilizar a
diminuição do analfabetismo no campo, especificamente nas áreas de re-
forma agrária.
Nesta unidade da federação há 174 assentamentos espacializados em
102 municípios, contudo, apenas 11 assentamentos que fazem parte das
áreas de reforma agrária foram beneficiados pela implantação do programa,
conforme se pode visualizar no quadro a seguir.

177
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

Quadro 1 – Alagoas – municípios e assentamentos beneficiados pelo


Pronera (1998-2008)
REGIONAL DO MST MUNICÍPIO ASSENTAMENTO
Porto Calvo Maciape
Paulo Freire Matriz do Camaragibe Santa Cruz Do Riachão
São Luiz do Quitunde São Frutuoso
Canudos Atalaia São Macário
Branquinha Nova Esperança I
Zumbi dos Palmares Murici Dom Hélder Câmara
União Dos Palmares Chico Mendes
Arapiraca Dandara
Maria Bonita Girau do Ponciano Dom Hélder Câmara
Traipu Sol Nascente
Virgulino Ferreira Olho D’água do Casado Nova Esperança
TOTAL 11 11
Fonte: Relatório Final Projeral 2000/2001. Organizado por Raqueline da S. Santos.

O estudo sobre a implementação do Pronera em Alagoas revelou que os


cursos e programas ofertados e as parcerias realizadas viabilizam rupturas
com o paradigma da Educação do Campo ao adotar referências destoantes
e até mesmo antagônicas à construção e prática política dos movimentos
socioterritoriais, bem como dos princípios epistemológicos da Educação do
Campo. Compreendemos que estes programas e cursos foram adaptados ao
paradigma da educação rural, e seus pressupostos políticos, epistemológicos,
traduzidos na educação bancária em detrimento da formação para a eman-
cipação humana.
Nesse sentido, a seguir, discutimos cada um dos programas de forma-
ção do Pronera em Alagoas. Inicialmente atentamos para a escolarização dos
professores leigos que atuavam nas áreas de reforma agrária, realizada pelo
Telecurso 2000 e em seguida pelo Proformação. Depois passamos à forma-
ção dos alunos por meio do Projeral, realizado em quatro etapas. Por fim,
analisamos o Curso Técnico em Agropecuária, o último curso financiado
pelo Pronera no Estado, entre 2008 e 2009.

O Telecurso 2000 enquanto ação do Pronera em A lagoas


O passo inicial das ações do Pronera em Alagoas ocorreu no ano de
1998, com a atuação na formação dos educadores alfabetizadores que tra-
balhavam nas áreas de reforma agrária. A grande maioria destes sujeitos

178
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

apresentava escolarização básica incompleta, particularmente de nível fun-


damental. Este era um limite para acessar os cursos específicos de formação
de professores ofertados pelo Programa. A solução encontrada pela Ufal,
MST e Incra foi a construção de uma parceria com a Secretaria Estadual de
Educação de Alagoas, para contratar a escolarização dos educadores sem-
-terra com esse perfil relatado, através do Telecurso 2000, tendo como foco
principal a certificação.
O Telecurso 2000 é considerado uma tecnologia educacional que pro-
porciona Educação Básica para quem apresenta defasagem em relação à
idade-ano. Fundado pela Fundação Roberto Marinho (FRM) em parceria
com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o programa
foi concebido com o objetivo de proporcionar aos brasileiros que ainda não
tinham o ensino fundamental e médio a conclusão dos estudos por meio de
uma nova metodologia de educação.
Segundo a FRM, esse programa é fruto de experiências anteriores de-
senvolvidas por ela através do Telecurso de 2º grau e do Telecurso de 1º
grau. Essas experiências foram importantes para unir a FRM à Fiesp as
quais, juntas, desenvolveram a produção dos cursos para milhões de brasi-
leiros (FMR, 2014). O site da FRM afirma: “desde 1995, o Telecurso vem
sendo reconhecido mundialmente como uma metodologia que promove um
salto de qualidade na educação, tendo beneficiado 5 milhões de pessoas nas
27.714 telessalas implantadas em todo o Brasil” (FRM, 2013).
É uma produção difundida pela maior rede de comunicação do país, a
rede Globo. Expande-se por meio do rádio e da TV, como canais de ensino
para o povo brasileiro. Torna-se uma alternativa de escolarização que se liga a
dois sistemas: midiático e econômico. O midiático são as instituições (FRM,
Rede Globo) e o econômico liga-se ao sistema Fiesp. Segundo Siebert (s/d),
há uma equipe de especialistas, professores, consultores ligados à escola
tradicional envolvida no processo de produção (escolha dos conteúdos, ma-
teriais de referência para a elaboração dos roteiros), bem como na avaliação
do telealuno (realizada por meio das Secretarias Estaduais de Educação)
que dá sustentação ao discurso pedagógico. Mas esses sujeitos, além de
marcarem o texto com textualidades originárias do discurso pedagógico,
são determinados pelo modo de produção da mídia. Sendo todo o processo
de produção e circulação de sentido, do Telecurso 2000, legitimado pelo
Estado, quando da avaliação realizada pelas Secretarias Estaduais de Edu-
cação, para a emissão dos diplomas de conclusão de curso.

179
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

Essa realidade é apoiada pelo Estado, pois é a ele que cabe a certifica-
ção, mas dentro desse programa tem papel secundário, pois não participa
da elaboração, é apenas parte burocrática do processo. Dadas essas condi-
ções, é possível dizer que o Estado se isenta da responsabilidade pelo curso.
O direito de desenvolvimento desse programa educacional está sob a égide
de uma instituição criada na ditadura militar em 1977, cujo discurso é de
uma missão preocupada com a educação no Brasil. Entretanto, essas carac-
terísticas do programa estão distantes da Educação do Campo, pois esta é
construída na luta dos movimentos socioterritoriais e é tida como um pro-
jeto sociopolítico que destoa das perspectivas estabelecidas pelo ensino do
Telecurso 2000.
Desenvolver o Telecurso 2000 para formar os educadores do Pronera
alagoano é uma afronta à construção histórica da Educação do Campo. É
não levar em consideração o histórico da luta pela terra e pela conquista do
programa. É preciso atentarmos para o fato de que, mesmo em condições de
precariedade educacional no campo alagoano, devia-se ter a preocupação em
criar condições de viabilizar uma formação contextualizada em experiên­cias
camponesas, que estivessem direcionando os educadores do Pronera para ir
além da reprodução do conhecimento e da certificação.
Em nossa ótica, esta modalidade de ensino insere-se no marco da Peda-
gogia Tradicional, uma vez que se apresenta como um instrumento capaz de
promover estritamente a capacitação dos indivíduos para atuar passivamen-
te no mercado de vendagem da força de trabalho, desconexo do cotidiano
do aluno e das realidades sociais (Libâneo, 1992).
A metodologia de ensino do Telecurso 2000 adota as telessalas como
única ambiência pedagógica. Isto cria um conjunto de limites, se pensar-
mos desde a perspectiva epistemológica da educação do campo. O primeiro
destes é que os alunos não participam da construção do currículo, mas sim
são estimulados pelo professor, frente aos conteúdos transmitidos nas vídeo-
-aulas, cujos programas podem ser assistidos nas emissoras de TV (aber-
tas ou por assinatura): “Globo, Canal Futura, TV Educativa, TV Cultura,
Rede Minas, Rede Vida e Globo Internacional e em circuito fechado e redes
setoriais” (FRM, 2013).
As aulas são concebidas e veiculadas como blocos fechados, sem a pos-
sibilidade de estabelecimento de diálogos e debates entre os sujeitos envol-
vidos no processo de ensino-aprendizagem. Portanto, pela estrutura da pas-

180
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

sividade e impessoalidade diante do curso, bloqueiam qualquer perspectiva


dialógica e problematizadora da realidade, como preconizam os referenciais
teóricos do paradigma da educação do campo.
Os principais protagonistas na concepção e difusão desta proposta edu-
cativa são as corporações capitalistas da informação e comunicação que se
responsabilizam por toda a concepção, elaboração e veiculação dos cursos.
Ao Estado brasileiro compete uma função coadjuvante, na regulamentação
e, no caso do Estado de Alagoas, este mantém a função burocrática e, sobre-
tudo, legitimadora do processo mediante a certificação dos cursistas.
A principal contradição da incorporação deste curso ao Pronera em
Alagoas reside no fato de que o Telecurso 2000 reúne um conjunto de pres-
supostos epistemológicos, metodológicos e políticos de uma educação que
refuta a perspectiva do pensar coletivo, a referência, respeito e valorização da
organização sociopolítica dos trabalhadores. Ao desconsiderar o cotidiano
do educando, impulsiona a fragmentação da realidade. Na prática, é a ne-
gação da educação voltada para emancipação humana almejada pelos movi-
mentos socioterritoriais e exercitada pelo paradigma da educação do campo.
Contudo, um certo pragmatismo do movimento socioterritorial em
avançar com a escolarização e certificação dos sem-terra e a conjuntura po-
lítica e educacional de Alagoas possibilitaram dimensionar estritamente esta
ferramenta educativa, sem qualquer possibilidade de influenciar suas bases
e conteúdos. Com a escolarização e certificação dos assentados para o nível
fundamental, através do Telecurso 2000, esses educandos puderam ingres-
sar em uma segunda etapa formativa, o Proformação, voltado à habilitação
dos educandos, recém-egressos do Telecurso 2000, em nível médio, dirigido
ao magistério.
Não houve um debate para construção de um projeto de longo prazo
que pudesse sanar as deficiências desses educadores pela ausência de uma
formação contextualizada. No item seguinte buscaremos discutir a implan-
tação deste segundo momento de formação.

O Programa de Formação de Professores em Exercício (Proformação)


O Proformação já estava sendo desenvolvido pela Secretaria de Edu-
cação com educadores de escolas públicas e tinha como objetivo destinar
aos professores sem habilitação mínima, que atuam nas séries iniciais, em

181
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

classes de alfabetização e pré-escola, o curso de nível médio com habilitação


em magistério. Os educadores do campo foram inseridos nesse programa
devido à parceria criada pela Ufal e pelo Incra com a Secretaria Estadual
de Educação para desenvolver o segundo ciclo da formação dos educado-
res do campo alagoano, com o objetivo de adquirirem o nível médio e o
magistério.
O Proformação é um programa criado a partir da lógica neoliberal que
centraliza o controle pedagógico, em nível de currículo, avaliação e forma-
ção. Insere-se nos programas paliativos idealizados na lógica neoliberal, já
que tendem a expressar o protagonismo dominante das instituições esta-
tais (Gentili, 1998). É uma política de ajuste das condições de escolariza-
ção dos educadores leigos, pensada pelo Estado por meio do Ministério da
Educação.
A proposta pedagógica do Proformação está fundamentada em algu-
mas concepções próprias sobre educação, escola, aprendizagem, conheci-
mento escolar, prática pedagógica, interdisciplinaridade e identidade pro-
fissional. Destacamos dessa proposta pedagógica as duas primeiras, pois
analisando-as notamos divergências em relação às concepções de educação
e escola disseminadas pelo Paradigma da Educação do Campo e pela Polí-
tica Pública do Pronera.
Em relação ao Proformação, a concepção de escola baseia-se em consi-
derar esta como uma instituição social
(...) que concretiza as relações entre educação, sociedade e cidadania, sendo
uma das principais responsáveis pela formação das novas gerações. Expressa-se
em uma organização concreta, com objetivos, funções e estruturas defini-
das. Faz a mediação entre as demandas sociais por cidadãos escolarizados e as
necessidades de autorrealização das pessoas. É parte da sociedade, existe nela e
interage com os diferentes grupos sociais. Transforma-se junto com a socieda-
de, mas também colabora para essa transformação (Manual Proformação,
2000, p. 19, grifos dos autores).

O Proformação diferencia-se do Pronera, tanto na sua criação quanto


na sua estrutura, a qual, em esfera nacional, se ampara na Coordenação Na-
cional do Proformação (CNP) e no Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Escola (FNDE). No contexto estadual, atuam a Secretaria Estadual de Edu-
cação (SEE), a Equipe Estadual de Gerenciamento do Proformação (EEG)
e Agências Formadoras (AGF), localizadas no município de União dos Pal-

182
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

mares. Na esfera municipal, agem os órgãos: Secretaria Municipal de Edu-


cação (SME), Órgão Municipal de Educação (OME) e o Corpo de Tutores.
O Proformação no âmbito do Pronera foi desenvolvido em dois proces-
sos, na formação do educador e na análise deste em sala de aula. Para Cunha
(2000), esse processo do programa se vale dos
(...) benefícios da formação em serviço, que torna possível a observação e
o tratamento adequado das condições em que se dá a prática do professor
cursista, considerando as características, necessidades, limites e facilida-
des apresentados pela escola onde ele atua. Dessa forma, a própria escola
fundamental torna-se o lugar privilegiado de formação do professor, com
efeitos claros e rápidos sobre a sua prática pedagógica (Cunha, 2000, p. 12).

O programa é reconhecido como uma possibilidade para melhoria da


aprendizagem dos educadores. Os professores ampliaram seu leque de co-
nhecimentos e adquiriram credibilidade entre os assentados e educandos.
Diante da sociedade, estes passam a ter possibilidades antes inexistentes. A
legitimidade desse processo não foi aceita de imediato, uma vez que a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação mostra claramente, em seu artigo 62, que a
formação docente deve ser feita em nível superior. Porém, sabemos que no
Brasil muitos professores foram formados a partir do magistério com o nível
médio ou muitos ainda não o tinham completado. Nesse contexto, o Profor-
mação é tido como uma via legal para os professores que ainda não tinham
suas formações concluídas.
Em nossa perspectiva, a partir do estudo dos relatórios deste curso e de
materiais educativos adotados, o Proformação também rompe com todos
os princípios do paradigma da Educação do Campo, ademais de realizar
uma formação com muitas fragilidades do ponto de vista teórico e da con-
textualização da realidade alagoana, fundamentalmente dos assentamentos
rurais. Contudo, este entendimento não é compartilhado pelos gestores do
programa, ligados ao Estado ou pelos educandos, que aproveitaram a única
oportunidade de formação profissional oferecida em suas vidas, como nos
relatam as educadoras que foram entrevistadas sobre o desenvolvimento do
Programa em Alagoas.
Segundo a coordenadora do Pronera, “o Proformação foi uma luta e uma
conquista, pois, para que pudesse inserir os professores camponeses nele” era
necessário haver um compromisso desses educadores, dos professores da Ufal
e tutores do Proformação no tocante a uma dedicação maior ao grupo dos

183
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

educadores dos assentamentos rurais. Foi considerado pelos coordenadores da


Ufal e pelos educandos como uma boa experiência, que contribuiu metodolo-
gicamente para o avanço da formação dos educadores do campo.
Uma das educadoras do assentamento Dom Hélder Câmara, localiza-
do na cidade de Girau do Ponciano, em depoimento sobre sua participação
no Proformação, afirma que este foi essencial para melhorar sua vida, foi
a possibilidade de garantia de sua sobrevivência. Para ela, a credibilidade
que ganhou entre os assentados ampliou-se, foi outra maneira de se afirmar
como educadora. Vejamos um trecho do seu depoimento:
O Proformação foi a forma da minha sobrevivência até hoje, se não, eu
não teria a oportunidade de dar aula lá. Com o programa as pessoas foram
tendo credibilidade na escola, iam com mais frequência, eles gostavam da
metodologia que aprendíamos no curso e levávamos pra lá, levávamos no-
vidades e eles gostavam e as pessoas foram participando, aprendendo a ler e
a escrever e isso tem ajudado até na associação, porque muitas pessoas eram
enganadas e hoje como sabem ler já foram lendo e tendo noção e tendo no-
ção crítica e política, pois nas aulas buscávamos isso também (Entrevista,
município de Delmiro Gouveia, jan. 2013).4

Segundo a coordenadora da etapa 2002,5 responsável pela realização


do programa,
o Proformação era muito organizado. As dificuldades que nós tínhamos
em relação ao Projeral, não tinhamos em relação ao Proformação, devido
a toda estrutura montada pelo Proformação. Era muito organizado. Eu
penso que isso contribuiu bastante, quem teve condições e se interessou,
conseguiu concluir, mas nem todos conseguiram finalizar o curso (Entre-
vista, Maceió, set. 2013).

Contudo, é importante ressaltar que houve receio por parte dos educa-
dores e educandos do Proformação para receber grupos do MST. A coorde-
nadora afirmou que

4
As entrevistas foram realizadas por Raqueline da Silva Santos em 2013.
5
O Proformação foi desenvolvido em duas etapas: formação de nível médio e magistério. As
coordenadoras do Pronera em Alagoas foram duas professoras doutoras da Ufal. Ao mesmo
tempo, elas também coordenavam a participação dos educadores no programa. Entre 2000 e
2002 tivemos a primeira coordenação. Entre 2003 e 2006 a segunda, que concluiu sua gestão
em 2008. Ambas foram responsáveis pela estruturação do Pronera e dos cursos que viabilizaram
a execução do programa no Estado.

184
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

ainda tinha uma questão muito complexa que era da relação com os edu-
cadores que estavam iniciando o processo de formação e a imagem que se
tinha do movimento sem-terra. Existia muito preconceito ao movimento
sem-terra, a luta pela terra. Depois de um certo tempo do pessoal inserido
no Proformação, uma das coordenadoras disse que se surpreendeu com
a atuação do Movimento, pois tinha uma ideia muito preconceituosa do
mesmo (Entrevista, Maceió, set. 2013).

É interessante essa relação que a professora coordenadora destaca, pois


é justamente no âmbito da Educação do Campo que está a luta contra esse
preconceito instituído historicamente na sociedade. A relação dos campo-
neses com os professores das escolas públicas gerava um desconforto, um
receio, pois nas escolas esses eram tidos como atrasados, sem-terra, matutos,
entre outras denominações que revelavam o preconceito social para com os
camponeses. É contra esse tipo de preconceito que a Educação do Cam-
po tem desenvolvido estratégias que visam a valorização do modo de vida
camponesa.
Os depoimentos revelam que o programa se configurou como a única
medida realizada no Estado, voltada aos educadores para a habilitação em
magistério. Efetivamente o Proformação foi um instrumento capaz de me-
lhorar a escolarização dos educadores leigos em nível médio e magistério,
porém, não se pautou em princípios da Educação do Campo. Não quere-
mos negar a importância deste programa para todos os educadores que esta-
vam historicamente alijados do acesso à educação profissional especializada
e oportunidades de aperfeiçoamento do professor, mas evidenciamos que,
contraditoriamente, há um processo de manutenção dos instrumentos, pro-
cessos e princípios da Pedagogia Tradicional em detrimento da realização
plena do paradigma da Educação do Campo, que busca criar uma identida-
de própria para a educação, para os profissionais e escolas do campo.

O Projeto de Capacitação e Educação de Jovens e A dultos nas Á reas de


R eforma Agrária (Projeral)
Dentre as experiências do Pronera no Estado de Alagoas, a única ação
construída em efetiva parceria e diálogo entre o MST, o Incra e a Ufal foi o
Programa de Capacitação e Educação de Jovens e Adultos (Projeral), volta-
do à escolarização básica dos assentados e implementado em quatro etapas
de formação entre 1998 a 2008, sendo as duas primeiras etapas destinadas

185
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

ao processo de alfabetização e a terceira e quarta destinadas à formação de


ensino fundamental primeiro ciclo (atual 1º ao 5º ano).
Esse projeto contou com o financiamento do então Ministério Extraor­
dinário de Política Fundiária (MEPF) e a meta inicial do programa era que
cada etapa fosse realizada em 12 meses. Contudo, problemas estruturais,
como educadores sem formação e falta de infraestrutura para abarcar as
classes de alfabetização nos assentamentos, fizeram com que as etapas do
primeiro ciclo do ensino fundamental fossem prorrogadas.
De acordo com o relatório final da 1ª etapa, a concepção do sujeito
do processo educativo que orientou esse programa foi “considerar o adulto
um trabalhador como um sujeito produtor de cultura, portanto, portador
de um saber que deve ser levado em conta como ponto de partida e objeto
de estudo para a aquisição do conhecimento letrado” (Relatório, Projeral,
2002). Tal concepção chama a atenção por manter consonância com um
dos princípios do paradigma da educação do campo que é a valorização do
trabalhador e sua realidade.
Para que a alfabetização avance em bases efetivamente transformado-
ras, faz-se necessário superar as referências tradicionais de escolarização,
cujo foco não é ensinar apenas a escrever o nome. O direcionamento da
educação deve voltar-se para que o camponês consiga compreender sua rea­
lidade e use a educação para potencializar sua condição de sujeito ativo e
reflexivo no assentamento, na produção, no cotidiano, diante das relações
sociais, no mundo.
A prática educativa sob estas bases proporciona aos camponeses o gosto
pelo aprendizado e potencialmente a superação de sua condição de exclusão
social. A alfabetização não deve ser um processo desligado da realidade, ela
também precisa ajudar na conscientização do aluno, deve ser uma atividade
também de conteúdo e natureza política (Rodrigues, 1941).
Contudo, o desenrolar do Projeral apresentou um conjunto de limi-
tes: de um lado as descontinuidades e incompletudes da política pública
por parte do próprio Ministério; por outro lado, a dificuldade de acom-
panhamento por parte da Ufal, do Incra e do próprio MST na formação
dos educandos; some-se aí as dificuldades de infraestrutura e locais inade-
quados para realização das aulas, seja nas escolas, seja nos locais onde se
instalaram as salas de aula (casas dos moradores, galpões construídos com
lonas ou palhas).

186
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

Ademais, o processo de alfabetização adotado nos territórios campone-


ses limitou-se a reproduzir as perspectivas da educação rural: memorização
e mecanicismo típicos da educação bancária, assim como a completa des-
vinculação das metodologias e conteúdos da realidade social do educando.
Deve-se frisar, aqui, que a alfabetização é desestimulante quando parte des-
sa metodologia. Ela precisa ser transformadora, deve “constituir-se como o
primeiro grande princípio motivador para a aprendizagem da leitura e da
escrita” (Rodrigues, 1941).
Em reunião realizada na UFAL, no ano de 1999, para fazer avaliação
da implementação do Pronera em Alagoas, um membro do MST afirmou:
O Pronera em Alagoas teve método incorreto, mesmo com a nossa presen-
ça na avaliação e seleção dos monitores isso deve ser repensado. É preciso
buscar a realidade dos assentamentos. Em relação à capacitação, devemos
dar uma nova dinâmica, muitos problemas poderiam ter sido resolvidos se
a capacitação estivesse voltada para a realidade dos assentados (Relatório
Final Projeral I, 1999/2000).

Nessa fala, constatamos que a inquietação por parte do MST com


uma educação que não atendia à realidade camponesa já era evidente. Mais
um vez, a implantação de ação do Pronera em Alagoas, neste caso, mes-
mo que construída com o protoganismo do movimento social, os prínci-
pios da pedagogia tradicional prevaleciam sobre o paradigma da educação
do campo. Ainda assim, os sujeitos historicamente excluídos do processo
que conseguiram concluir o curso de alfabetização ofertado pelo Projeral
reconhecem que “eu só aprendi a escrever meu nome, mas tô satisfeita”,
conforme depoimento de uma aluna do curso em entrevista concedida no
Assentamento Dom Helder Câmara, em Girau do Ponciano, no dia 24 de
janeiro de 2014.
Até aqui verificamos que os diferentes cursos ofertados no âmbito do
Pronera em Alagoas não foram capazes de romper com as estruturas da
educação regida pela pedagogia tradicional. Contudo, essas experiências fo-
ram essenciais para a continuidade da construção de novas propostas que
atendessem às especificidades do território camponês, não destoando dos
princípios educativos da Educação do Campo, nem da própria Pedagogia
do MST. Outra tentativa foi o curso Técnico em Agropecuária, decorrente
de parceria entre o Incra e a Escola Agrotécnica Federal de Satuba, ao qual
dedicamos atenção especial no item seguinte.

187
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

O Curso Técnico em Agropecuária: Convênio Incra /Escola Agrotécnica


Federal de Satuba
O projeto de Educação do Campo é uma construção diária junto ao
modo de vida camponês. Deve ser pensado na relação indissociável entre
tempo-escola e tempo-comunidade, cujo objetivo é proporcionar aos cam-
poneses a possibilidade de colocar em prática o que foi aprendido na escola
no seu espaço de trabalho.
Realizado no período de 2008 a 2009, o curso técnico em agropecuária
para os assentados e filhos de assentados foi feito através da parceria firmada
entre o Incra e a Cooperativa dos Alunos da Escola Agrotécnica Federal de
Satuba (Coetagri).
As parcerias estabelecidas pelo Pronera devem ter uma proposta voltada
à realidade do camponês. O acesso à Escola Agrotécnica Federal de Satuba
se dá por meio de processo seletivo, no qual os alunos são submetidos a uma
prova para cursarem o ensino médio e o ensino técnico em agropecuária.
Contudo, no edital de seleção de 2007, para ingresso em 2008, do total de
vagas disponíveis para o curso, cinco vagas foram destinadas aos assentados
e filhos de assentados da reforma agrária.
Os cursos do Pronera devem ser voltados para a realidade camponesa,
estabelecendo uma construção com os povos do campo para atender suas
necessidades, pois a Educação do Campo deve ser pensada e construída
pelos seus próprios autores. Porém, verifica-se que o curso técnico em agro-
pecuária não foi voltado para as especificidades destes camponeses, mas foi
realizadoa somente a reserva de vagas em curso já existente para este pú-
blico, sem que se levasse em conta as suas especificidades e a magnitude
da demanda existente por este nível de formação. Ainda assim, o Pronera
financiou, através da Coetagri, um total de R$ 3.943,40 para
atender as despesas com o projeto de inclusão anual de 05 (cinco) vagas
através do processo seletivo na Escola Agrotécnica Federal de Satuba para
o curso técnico em agropecuária, para assentados e filhos de assentados das
áreas de reforma agrária no Estado de Alagoas, período de execução de ja-
neiro a dezembro de 2008 (Convênio/Incra/Eafs).

No ano de 2009 a parceria continuou, mediante o mesmo proces-


so, porém houve aumento nos recursos destinados para contribuir com a
permanência dos alunos no curso. Entre janeiro e dezembro de 2009, o

188
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

recurso liberado pelo Incra à Coetagri foi de R$ 6.320,00. Esse recurso


não foi totalmente aplicado no referido ano, pois houve o cancelamento
do convênio por parte da Escola, mediante ofício dirigido ao Incra, em 10
de setembro de 2009, com base na Lei n. 11.892, de 29 de dezembro de
2008, publicada no Diário Oficial da União de 30 de dezembro de 2009,
que estabelecia a integração da Escola Agrotécnica Federal de Satuba ao
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas, receben-
do o nome de campus Satuba. Essa mudança alterou a forma de ingresso
na escola, cuja reserva de vagas no processo seletivo deixou de ser destina-
da aos assentados da reforma agrária e ampliada para todos os estudantes
egressos da escola pública.
Em resposta à nota enviada pelo Incra à Escola Agrotécnica Federal de
Satuba (atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Ala-
goas – campus Satuba) que questionava a maneira de cancelamento através
de ofício, o estabelecimento de ensino declarou que isso ocorreu somente
por mudanças na estrutura da escola, e assumiu o compromisso de garantir
a conclusão dos cursos dos beneficiários do Pronera já matriculados, desde
que eles individualmente assumissem as despesas de seus estudos.
Esse fato torna-se problemático, pois retira do camponês o direito de
conseguir a escolarização por meio das vagas ofertadas no processo seletivo.
Outro fato que merece atenção é a retirada dos recursos para que os alunos
permanecessem na escola. Há uma contradição nessa parceria, bem como
na sua destituição por meio de ofício, sem um debate profundo sobre as con-
dições de realização do programa e de continuidade deste.
De acordo com nossa consulta ao projeto deste curso, o presente con-
vênio foi de suma importância para os camponeses beneficiados, pois con-
feriu oportunidade de formação para o trabalho, para atuação nas áreas de
reforma agrária, contribuindo, assim, com a permanência dos sujeitos no
campo. Por outro lado, questionamos: quais os pressupostos de financiar,
através dos recursos do Pronera, um número ínfimo de educandos em uma
realidade que não a sua?
Essa parceria é mais uma contradição no processo de desenvolvimen-
to do Pronera em Alagoas. Compreendemos que esta escola técnica é uma
grande parceira na formação do técnico agrícola, pois é a que mais forma
técnicos no Estado para esta área. Então, deveria ter sido criado um projeto
conjunto, direcionado a um grupo maior de assentados, tirando esse papel

189
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

de dependência da escola e evitando o desrespeito ao encerrar a parceria por


meio de ofício, prejudicando, assim, os estudantes envolvidos no processo.
A inserção dos alunos dos assentamentos foi insignificante. Porém,
analisando o convênio, percebemos que nesse processo há um grande dis-
tanciamento das proposições do Pronera que objetivam
fortalecer a educação do campo nas áreas de Reforma Agrária estimulando,
propondo, criando, desenvolvendo e coordenando projetos educacionais,
utilizando metodologias voltadas para a especificidade do campo, tendo
em vista contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável (Ma-
nual de Operações do Pronera, 2012, p. 17).

O Pronera tem uma maneira própria de funcionamento, é definido a


partir de uma bandeira de luta específica dos movimentos socioterritoriais.
Não é um projeto de educação alheio à realidade camponesa. É preciso via-
bilizar a educação em uma condição de vida através da relação trabalho e
escola. É importante que o movimento socioterritorial acompanhe e atue
conjuntamente na construção da educação pensada para o campo.
A parceria do curso deixa a desejar quando analisamos que o curso fun-
cionou como uma turma regular da escola técnica, com um pequeno acrés-
cimo de estudantes camponeses. É preciso superar essa limitação de acesso à
educação por parte dos camponeses. Estes merecem uma educação que seja
refletida para sua realidade, que viabilize e potencialize, assim, o território
imaterial dos camponeses. É preciso que a escola seja pensada para desen-
volver as áreas camponesas em todas as suas necessidades, principalmente
as mais urgentes, que supere a condição de pobreza e miséria a que muitas
vezes estão relegados em seu território devido ao processo de intensificação
do capitalismo no campo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A questão da Educação do Campo em Alagoas entre 1998 e 2008 está
vinculada à realização do Pronera no Estado. A Educação do Campo está
vinculada à questão da terra. Em Alagoas a concentração de terras é a marca
central da exploração e expropriação dos camponeses de suas terras. A terri-
torialização da monocultura canavieira em 54 municípios do Estado reflete
a força que esse setor tem na economia alagoana. É um impacto significa-
tivo na vida da população, uma vez que há um privilégio concedido pelo

190
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

próprio Estado que beneficia o avanço e a permanência deste setor, mas que
expropria os camponeses e provoca impactos na sociedade alagoana como
um todo.
É a luta dos movimentos socioterritoriais que atuam no Estado (MST,
CPT, Fetag/AL, MLST – Movimento de Libertação dos Sem Terra) que
tem contribuído para denunciar a concentração que gera violência no cam-
po e as injustiças sociais. A união dos movimentos carrega a força para as
conquistas de suas reivindicações e seus territórios. É na luta contra o agro-
negócio que os movimentos empreendem um projeto de outro modelo de
sociedade para Alagoas.
Nesse sentido, as ocupações são as ações mais emblemáticas para a con-
quista de direitos que eles reivindicam. Elas são as responsáveis no avanço dos
movimentos e de suas conquistas, sendo, no que tange ao MST, as forças mais
emblemáticas para lutar contra a opressão do capitalismo. As lutas pautadas
no ensejo da realização da reforma agrária dão abertura a outras lutas, espe-
cialmente, a luta pela Educação do Campo, desenvolvida como necessidade
de potencializar os territórios imateriais dos territórios camponeses.
É esse ensejo que viabiliza a construção de políticas direcionadas para
a realização de um programa pautado nos princípios ideológicos campo-
neses. Com isso, o Pronera é a oportunidade dos camponeses estudarem e
articularem sua formação mediada por sua realidade. É uma concepção de
educação revolucionária e que tem atendido às perspectivas e anseios dos
camponeses, pois são cursos de formação pautados em sua realidade.
O Pronera, além de ser um projeto ideológico, também se tornou um
projeto político. Ao tornar-se política pública, o referido projeto garante a
sua continuidade nos territórios camponeses, além de assegurar a estes o di-
reito à escolarização em todos os níveis do ensino, através de uma metodo-
logia que atende às suas necessidades. As particularidades do Pronera o tor-
nam um instrumento político que passa a ser um grande aliado da formação
camponesa. Sua ação é provocadora do modelo de educação do Estado, pois
proporciona, a partir de suas ações de formação, a criação de novos espaços
de disputa, e, com isso, vai democratizando a formação camponesa em es-
paços antes tomados somente pela elite, como as universidades e os cursos
de Direito, por exemplo.
É um programa que, no Brasil, tem suscitado a formação de muitos
camponeses, porém, em Alagoas, foi desenvolvido com um viés diferencia-

191
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

do. Adotou um programa cujas metodologias divergem da luta camponesa


e do projeto político-pedagógico da Educação do Campo. Em Alagoas, a
educação dos camponeses existe por persistência dos movimentos que pro-
curam ampliar as condições de acesso ao direito fundamental de formação
do sujeito. A socialização e apropriação dos conhecimentos são processos
que podem mudar a vida dos marginalizados e permitir-lhes o acesso às ri-
quezas produzidas socialmente. Este é o sentido das lutas dos movimentos
socioterritoriais pela Educação do Campo.
A conjuntura atual de Alagoas pode ser explicada pelo processo históri-
co de dominação de poucas famílias sobre a organização social, econômica
e política do Estado. A territorialização do Pronera não conseguiu superar a
negação do conhecimento aos homens e mulheres do campo. Entendemos
que, por ter sido executado distante das perspectivas da Educação do Cam-
po, gerou-se um impedimento real dos assentados terem acesso à formação
e se reconhecerem como sujeitos do campo, pois a Educação do Campo se
contrapõe àquela imposta pelo currículo do Estado. A parceria com o Esta-
do pressupõe relações de interesse no desenvolvimento desse programa em
Alagoas, negando a realização de uma educação que valorize o território
camponês e contribua para a autonomia de uma formação camponesa.
A luta pela terra e pela educação para os camponeses reafirma a sua im-
portância enquanto uma classe que vem reconfigurando o campo brasileiro.
Essas lutas trilham um desafio aos movimentos socioterritoriais que pensam
numa nova proposta de educação e se articulam para construir esse projeto,
bem como para o próprio Estado, o qual é pressionado para criar políticas
que evidenciem a necessidade da Educação do Campo. Consideramos que
esse projeto devia ter sido instalado com mais vigor em Alagoas.
Há uma ampla necessidade de mudar o quadro educacional desse Es-
tado, pois os espaços dos assentamentos são isolados e grandes dificuldades
são vivenciadas. A falta de infraestrutura e o descaso do Estado para com
esse território implica negar esses sujeitos. Faz-se necessário que, ao se cons-
truir um projeto para o campo, pensemos na realidade em que vivemos,
articulando e aglutinando forças para superar as condições de precarização
e descaso para com o campo alagoano.
O Pronera, nesses 18 anos, já ampliou a escolarização de milhares de
assentados em diversos níveis educacionais. Em Alagoas, como vimos, esse
processo foi sendo fragmentado por etapas, por projetos desvinculados da rea­

192
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

lidade camponesa. É preciso pensarmos a Educação do Campo para além


da ordem estabelecida e problematizar as condições atuais do campo ala-
goano para não cometer os mesmos erros do Pronera nesse período de seu
desenvolvimento.
No contexto alagoano o programa deveria ter divergido claramente da
educação desarticulada da realidade camponesa. Deveria ter criado, mesmo
que a longo prazo, possibilidades de instituir um Pronera, ainda que em
parcerias, como uma proposta que atendesse à realidade camponesa. Porém,
a divergência de programas desvinculados dos objetivos da Educação do
Campo reflete-se na continuidade de uma educação imposta, sem diálogos,
sem questionamentos, sem mudanças estruturais.
É preciso construir políticas que direcionem para um fluxo contínuo,
porque a educação é processo e avança em pequenos ciclos. Reconhecemos
que o Pronera em Alagoas progrediu pouco, que os resultados poderiam
ter sido mais satisfatórios se houvesse uma gestão contínua que pensasse a
longo prazo para investir os recursos em demandas essenciais, materiais,
estruturas e formações. Essa divergência de paradigmas educacionais causa
um conflito entre as classes, que talvez não seja compreendido pelos assenta-
dos, mas que é bem compreendido entre as instâncias maiores (Ufal, Incra,
MST, Fundeps, SEE/AL).
A Educação do Campo, em suas especificidades, procura levar em conta
a cultura, as necessidades e um projeto de longo prazo para o seu desenvol-
vimento. Articular programas paliativos é destoar da proposta de luta dos
movimentos socioterritoriais. O Pronera foi concebido em conflito, que ainda
se mantém. É preciso criar propostas que fortaleçam a Educação do Campo.
Quando vinculamos a educação dos camponeses a propostas divergentes, esta-
mos dando continuidade ao processo de educação negado pelos movimentos.
Portanto, em Alagoas, houve negação da luta pela Educação do Cam-
po. Temos consciência do esforço dos atores envolvidos no programa para
lidar com as diversas situações no seu desenvolvimento. Não estamos des-
merecendo o trabalho dos sujeitos que se dedicaram para o avanço do Pro-
nera, mesmo em um caso particular no Estado. Estamos questionando qual
foi a intencionalidade dos cursos com propostas totalmente diversas da luta
dos movimentos socioterritoriais. Estamos questionando o porquê do MST
ter aceitado que o programa ocorresse nessas condições. Questiona-se até
que ponto se discute a educação dentro da realidade camponesa alagoana

193
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

quando se colocam programas prontos e desvinculados da luta pela terra e


em confronto com o capitalismo.
O Pronera deve fortalecer a educação nos territórios camponeses. Esse
fortalecimento deve estar direcionado para a ampliação da escolarização do
campo e deve perpassar os níveis de alfabetização. É preciso que o próximo
curso avance na escolarização dos assentados, bem como na formação dos
professores. Nesse sentido, ele deve se tornar um instrumento de democra-
tização do ensino no campo alagoano; deve, também, apoiar projetos vol-
tados para as concepções educacionais do campo. É preciso pôr em prática
os princípios do programa: inclusão, participação, interação e multiplicação.
São eles que promovem a construção do desenvolvimento do programa. O
movimento socioterritorial deve ser o protagonista dessa história; a univer-
sidade, uma parceira que auxilie na construção desse projeto educacional;
não se deve desvincular os processos de luta e necessidades da educação
camponesa, colocando processos educacionais já superados pelo Movimento
de Educação do Campo.
É preciso compreender que os territórios camponeses, a partir do seu
modo de vida, da cultura, da relação do trabalho e das necessidades pre-
mentes deste território, buscam ampliar a inclusão por meio da participação
da comunidade no processo de formação dos camponeses. Em Alagoas, o
avanço do Pronera teve seus resultados positivos divergentes com a propos-
ta dialógica com os camponeses. Porém, esperamos que, ao serem criadas
novas propostas de educação para o campo alagoano, priorize-se o debate
da Educação do Campo, pois com um número tão significativo de assen-
tamentos em Alagoas não podemos negar que essa luta vem dando grandes
resultados em outros Estados do Brasil.
O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária deve ser vis-
to como um projeto associado ao Plano de Desenvolvimento do Assenta-
mento. Essa possibilidade já existe latente nos assentados, nos educadores
e educadoras dos assentamentos; há, então, a urgência de se construir um
processo de gestão compartilhada nas novas experiências que venham surgir
no Estado e possibilitem o avanço da Educação do Campo em Alagoas.

REFERÊNCIAS
ARROYO, Miguel González; CALDART, Roseli Salet; MOLINA, Mônica Castagna
(org.) Por uma educação do campo. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

194
Reforma agrária e educação do campo: as contradições do Pronera em Alagoas (1998-2008)

FERNANDES, Bernardo Mançano Fernandes. Construindo um estilo de pensamento na


questão agrária: o debate paradigmático e o conhecimento geográfico. (Tese de Livre
Docência). Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Tecnologia,
Unesp, v. 1-2, Presidente Prudente, 2013.
FRM. Fundação Roberto Marinho. Telecurso 2000. Disponível em: http://www.telecur-
so2000.org.br/. Acesso em: jan. 2013.
GENTILI, Pablo. A falsificação do consenso: simulacro e imposição na reforma educacional
do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.
GUIA DE DIREITOS. Direito à Educação. Disponível em: http://www.guiadedireitos.
org/index.php?option=com_content&view=article&id=9&Itemid=9. Acesso em: 14
ago. 2016.
INCRA. MDA. Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – Pronera. Manual
de Operações. Brasília, abril de 2001.
INCRA. MDA. Escola Agrotécnica Federal de Satuba. Convênio firmado entre
2007/2008. Processo n. 54360.000956/2007-26. Realização do Curso de Técnico
Agropecuário para formar os assentados e os filhos dos assentados a partir do Pro-
grama Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). Alagoas.
INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Panora-
ma da educação no campo. Brasília, 2007. Disponível em: http://www.red-ler.org/
panorama-educacao-campo.pdf. Acesso em: 20 maio 2013.
KOLLING, Edgar Jorge; CERIOLI, Paulo Ricardo; CALDART, Roseli Salete (org.).
Educação do Campo: identidade e políticas públicas. Brasília: Articulação Nacional
por uma Educação do Campo, 2002. Coleção Por uma Educação do Campo, n. 04.
MOLINA, Mônica Castagna. A contribuição do Pronera na construção de políticas públicas
de educação do campo e desenvolvimento sustentável. Tese (Doutorado desenvolvimen-
to Sustentável). Universidade de Brasília. Brasília, nov. 2003.
MUNARIN, Antônio; BELTRAME, Sônia; CONTE, Soraya Franzoni; PEIXER, Zil-
ma Izabel (orgs). Educação do campo: reflexões e perspectivas. Florianópolis: Insular,
2010.
OLIVEIRA, Daniela Motta de. “A Formação de Professores na Lei 9394/96 – Um estudo com-
parativo das diretrizes estabelecidas para a formação de professores de Educação Infantil
e das séries iniciais do Ensino Fundamental nos anos 70 e nos anos 90”. Disponível em:
http://www.ichs.ufop. br/conifes/anais/EDU/edu1603.htm. Acesso em: 12 jan.
2015.
RIBEIRO, Marlene. Movimento camponês, trabalho e educação: liberdade, autonomia,
emancipação: princípios/fins da formação humana. São Paulo: Expressão Popular,
2010.
RODRIGUES. Marlene. Cartilhas da dominação: a ideologia das primeiras letras nos cam­
pos do Brasil. Curitiba: Editora da UFPR, 1991.
SIEBERT, Silvânia. Análise Discursiva Do Telecurso 2000: o acontecimento discursivo do
módulo de Língua Portuguesa. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal de
Santa Catariana (UFSC), Tubarão, 2005.

195
Raqueline da Silva Santos e Eraldo da Silva Ramos Filho

SANTOS, Raqueline da Silva Santos. “O ensino-aprendizagem de geografia na formação


dos educadores do Pronera em Alagoas (2002 e 2006)”. Monografia (Graduação em
Geografia). Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2011.
TONET, Ivo. Educação, cidadania e emancipação. Ijuí: Ed. Unijui, 2005.
VERGNE, Ana. Relatório final do Projeto de Educação e Capacitação de Jovens e Adul-
tos nas Áreas de Reforma Agrária em Alagoas. Etapa 2005-2007. Maceió, novembro
de 2008.

196
POLÍTICAS PÚBLICAS, AÇÕES DO ESTADO E SEUS
CONTEXTOS TERRITORIAIS
ESTADO, TERRITÓRIO, AMBIENTE E POLÍTICAS
PÚBLICAS: O ORDENAMENTO TERRITORIAL E
SUA INTERFACE AMBIENTAL1

André Vieira Freitas

INTRODUÇÃO
Tendo em vista as distintas relações de poder que se materializam no
território, é possível afirmar que ocorrem diversos conflitos quanto ao seu
uso e apropriação – a partir dos distintos interesses dos atores que o com-
põem. Em meio a esses conflitos, o Estado aparece como o grande media-
dor, quando se reconhece que está simbioticamente ligado ao território, e
uma estratégia para tal mediação ocorre justamente por meio das políticas
públicas. Essas políticas constituem uma maneira de atuação do Estado no
território, destarte, seria válido afirmar que elas indicam ações e normas que
compactuam para o (re)ordenamento territorial ou, ainda, que todas elas
guardam uma “dimensão” territorial. Esse entendimento se aplica tanto para
as distintas políticas públicas quanto para seus respectivos instrumentos.
Quando se contempla a política ambiental, inserida em um contexto de
atenção ante a consciência dos agravos na relação da sociedade com o meio,
essa ligação com o território se revela de modo peculiar, já que se apresenta
um objeto bastante amplo, pois está relacionada ao conjunto das atividades
humanas que animam o território. Desse modo, é possível afirmar que a
política ambiental, a qual toca os objetos das outras políticas, também é
relevante em termos de ordenamento territorial. Essa leitura pode ainda ser
feita em relação aos seus instrumentos, quando são compreendidos como
um modo de realização da política pública.

1
Este texto teve como base partes das reflexões desenvolvidas na dissertação de mestrado do autor,
“Áreas protegidas, normas e território usado: o Sistema Nacional de Unidades de Conservação
da Natureza (SNUC) como um instrumento de ordenamento territorial”, orientada pelo Prof.
Dr. Mirlei Fachini Vicente Pereira e defendida em 14 de agosto de 2014, no Programa de Pós-
graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia.
André Vieira Freitas

Com esse espírito, este texto apresenta uma discussão que gira em tor-
no dos entendimentos de Estado e políticas públicas e das suas dimensões
territorial e ambiental. A primeira seção apresenta uma discussão acerca do
papel do Estado no território, chegando ao entendimento das políticas pú-
blicas. A segunda seção aborda especificamente a dimensão territorial dessa
atuação do Estado, destacando a discussão sobre política e ordenamento
territorial. A terceira seção, por sua vez, foca a dimensão ambiental da atua­
ção do Estado, abordando o planejamento ambiental, apresentando ainda
algumas considerações sobre a complementaridade entre as dimensões am-
biental e territorial do planejamento.

ESTADO, TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS


As políticas públicas e seus instrumentos constituem, grosso modo,
uma maneira de atuação do Estado no território. Tal afirmação aparente-
mente simples comporta uma discussão bastante densa que permite reco-
nhecer nexos entre a teoria política e a teoria geográfica.
De acordo com Bobbio (2012), o Estado pode ser concebido de diferen-
tes maneiras. Do ponto de vista jurídico, trata-se do “Estado como Estado de
direito, como Estado concebido principalmente como órgão de produção ju-
rídica e, no seu conjunto, como ordenamento jurídico” (Bobbio, 2012, p. 56).
Já do ponto de vista sociológico, concebe-se o “Estado como forma
complexa de organização social” (p. 57). Sem desconsiderar a relevância do
Estado enquanto ordenamento jurídico, compreende-se que este é apenas
um aspecto (o formal) do Estado e salienta-se o ponto de vista sociológico,
que abre caminho para um diálogo com a geografia (que será feito a seguir).
Ainda segundo Bobbio, do ponto de vista sociológico esboçam-se con-
cepções mais amplas ou mais restritas de Estado, a depender dos elementos
priorizados na análise, como a sua estrutura interna e onde se situa ao longo
do processo histórico.
Em uma concepção mais estreita, Estado é entendido precisamente
como Estado moderno, que é definido, na concepção weberiana, “mediante
dois elementos constitutivos: a presença de um aparato administrativo com
a função de prover a prestação de serviços públicos e o monopólio legítimo
da força” (p. 69).
Em uma concepção mais ampla, à qual o autor se filia, pode-se falar
em Estado no sentido genérico, englobando tanto um ordenamento surgi-

200
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

do na idade moderna, o Estado moderno, quanto ordenamentos anteriores.


Segundo o autor, sobretudo com respeito à organização política, falar em
Estado “implica a ideia de poder sobre um determinado território” (Bobbio,
2012, p. 72).
De fato, o Estado apresenta-se, a partir da Idade Moderna, como o
modo de organização política por excelência das sociedades no mundo. No
entanto, concordando com Bobbio, em uma perspectiva mais ampla, o con-
ceito de Estado pode abarcar mesmo ordenamentos políticos precedentes na
história da humanidade, pois se trata de uma forma de organização política
de uma sociedade em um território. Afinal, como destaca Cataia (2011, p.
117): “O Estado territorial foi construído num lento processo histórico, du-
rante o qual procurou fazer coincidir os espaços político, jurídico, econômi-
co e cultural”. Deixando a relação com o território para mais adiante, cabe
agora destacar o aspecto político.
Segundo Bobbio (2012, p. 76), “aquilo que ‘Estado’ e ‘política’ têm em
comum (e é inclusive a razão de sua intercambiabilidade) é a referência ao
fenômeno do poder.” Em específico, o poder político, sem negar a sua rela-
ção com outras formas de poder.
Como destaca Bobbio, o que distingue o poder político das outras for-
mas de poder é o exercício da força. Nesse sentido, seria possível compreen­
der o “poder político como o poder cujo meio específico é a força” (p. 83),
que seria o componente para a manutenção do Estado e a garantia da inte-
gridade do território.
“De fato, o poder coativo é aquele de que todo grupo social necessita
para defender-se dos ataques externos ou para impedir a própria desagrega-
ção interna” (p. 83). Assim, caberia “ao Estado o direito e o poder exclusivo
de exercer a força física sobre um determinado território e com respeito aos
habitantes desse território” (p. 80).
O poder político não se restringe ao Estado, existem outros grupos no
território, mas que não dispõem dos mesmos recursos, justamente por não
deterem os aparatos do Estado. Esses grupos, desse modo, se encontram
com menor força nas relações de poder na sociedade capitalista. Cabe sa-
lientar esse aspecto para o entendimento de Estado, como forma complexa
de organização social, e para a análise da relação do Estado com o território,
já que essa forma de organização tem uma base territorial e o próprio exercí-
cio do poder por parte do Estado se referencia e se materializa no território.

201
André Vieira Freitas

Essas considerações remetem ao conceito de soberania, como “o poder


absoluto e perpétuo” (Bodin, 1576, p. 345 apud Bobbio, 2012, p. 81) do
Estado no território, isto é, como elemento inalienável e indivisível da orga-
nização e execução do poder no interior do Estado nacional, como organi-
zação territorial política. O conceito de soberania viria, então, para afirmar
o poder do Estado no território.
Como aponta Gottmann (2012, p. 528): “Do século XV ao século XX,
a importância do território como a base e a estrutura essencial da política
emerge gradualmente no mapa-múndi, paralelamente às ideias políticas de
soberania nacional e autonomia”. De modo que é consenso em distintas áreas,
dentro e fora da teoria política, a ideia de soberania sobre um território como
elementos fundamentais do Estado. Como escreveu Santos (1986, p. 189):
“Um Estado-Nação é essencialmente formado de três elementos: 1) o terri-
tório; 2) um povo; 3) a soberania. As relações entre o povo e seu espaço e as
relações entre os diversos territórios nacionais são reguladas pela soberania”.
Em Poulantzas, o conceito de soberania tem um caráter ideológico,
para legitimar a unidade política do Estado sobre um espaço político (aqui
lido como território) sobre o qual exerce poder. Segundo o autor:
Esse Estado supõe necessariamente uma organização particular do espaço
político sobre o qual exerce o poder. O Estado (centralizado, burocratizado
etc.) instaura essa atomização e representa (Estado representativo) a unidade
do corpo (povo-nação), fracionando-o em mônadas formalmente equiva-
lentes (soberania nacional, vontade popular) (Poulantzas, 2000, p. 60-61,
grifo do autor).

Abrindo caminho para pensar as relações de poder no seio do próprio


Estado, para Poulantzas, o conceito de Estado e a visão da sua própria rela-
ção com o território, da qual surge também a noção de soberania, não deve
prescindir de seus aparelhos. Segundo o autor,
o território nacional (...) é essencialmente político no sentido em que o Es-
tado tende a monopolizar os procedimentos de organização do espaço. O
Estado moderno materializa nesses aparelhos (exército, escola, burocracia
centralizada, prisões) esta matriz espacial (p. 104).

O Estado, que organiza o seu espaço político ou, em outras palavras,


que ordena o território, o faz coordenando as distintas forças que nele se em-
batem e que, por sua vez, também se apresentam materializadas no Estado
por meio de seus aparelhos. Segundo o autor,

202
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

O poder, inclusive sob a sua forma de Estado, não é nunca imanência pura.
O Estado e mais geralmente o poder não são um polo/essência diante das
lutas. Se as lutas detêm sempre o primado sobre os aparelhos é porque o
poder é uma relação entre lutas e práticas (exploradores-explorados, domi-
nantes-dominados); porque o Estado é em especial a condensação de uma
relação de forças, exatamente das lutas (p. 153).

Trata-se, na perspectiva de Poulantzas, de enfatizar as relações de poder


no seio do Estado. Essas relações de poder não são do Estado, são dos dis-
tintos atores/agentes, grupos e classes que se manifestam e se materializam
na estrutura do Estado, por meio de seus aparelhos, e assim o constituem.
Segundo o autor, “o Estado, como é o caso de todo dispositivo de poder, é
a condensação material de uma relação” (p. 147, grifo do autor). No Estado
capitalista, uma relação de forças entre as classes e frações de classe, ele com-
pleta: “mais exatamente como a condensação material de uma relação de forças
entre classes e frações de classe” (p. 130, grifo do autor).
Para ele, as classes e frações se organizam formando o bloco no poder:
“o Estado tem um papel principal de organização. Este representa e organi-
za a ou as classes dominantes e, em suma, representa e organiza o interesse
político em longo prazo do bloco no poder, composto de várias frações de
classes burguesas” (p. 129, grifo do autor).
Segundo Poulantzas, essas classes e frações de classe têm interesses con-
traditórios entre si e com as classes dominadas, dos quais resulta a “política
do Estado”. Nesse sentido, ele desmonta a visão do Estado como um “bloco
monolítico”:
O estabelecimento da política do Estado deve ser considerado como a resul­
tante das contradições de classes inseridas na própria estrutura do Estado (o
Estado-relação). Compreender o Estado como uma condensação de uma
relação de forças entre classes e frações de classe tais como elas se expres-
sam, sempre de maneira específica, no seio do Estado, significa que o Estado
é constituído-dividido de lado a lado pelas contradições de classe. Isso sig-
nifica que uma instituição, o Estado, destinado a reproduzir as divisões de
classe, não é, não pode ser jamais, como nas concepções de Estado-Coisa
ou Sujeito, um bloco monolítico sem fissuras, cuja política se instaura de
qualquer maneira a despeito de suas contradições, mas ele mesmo é dividi-
do. Não basta simplesmente dizer que as contradições e as lutas atravessam
o Estado, como se se tratasse de manifestar uma substância já constituída
ou de percorrer um terreno vazio. As contradições de classe constituem o
Estado, presentes na sua ossatura material, e armam assim sua organização:

203
André Vieira Freitas

a política do Estado é o efeito de seu funcionamento no seio do Estado. (p.


134-135, grifo do autor).

Trata-se de enfatizar as contradições entre essas forças, que são dos dis-
tintos atores/agentes, grupos, classes e frações de classes sociais. Por isso, o
Estado não é esse bloco monolítico, mas, ao contrário, é composto de modo
heterogêneo por essas distintas forças que se condensam na sua estrutura, o
que dá a unidade complexa da política do Estado.
Dessa breve visita às ideias de Poulantzas (2000) e das anteriores de
Bobbio (2012), que intencionalmente não abarcou pontos importantes das
teses de ambos, cabe guardar algumas pequenas considerações para sedi-
mentar a visão de Estado adotada nesta obra, uma visão que se pretende
ampla e focada nas relações de poder. Nesse sentido, o Estado denota uma
forma de organização complexa da sociedade no território que, na sua
qualidade de dispositivo de poder, é a condensação das relações de forças
dos atores/agentes, grupos e classes sociais; não como um bloco monolí-
tico, mas, para usar outra metáfora, como uma “caixa de pandora”, que
sintetiza não todos os males do mundo, mas todos os embates das forças
sociais que o compõem.
Ao se enfatizar a contribuição de Poulantzas (2000) acerca da visão do
Estado como uma condensação de uma relação de forças, remete-se à dis-
cussão acerca das políticas públicas (o que também é válido para seus ins-
trumentos) ou, dito de outra maneira, a ação do Estado no território. Para
esse autor,
(...) entender o Estado como condensação material de uma relação de for-
ças, significa entendê-lo como um campo e um processo estratégicos, onde se
entrecruzam núcleos e redes de poder que ao mesmo tempo se articulam e
apresentam contradições e decalagens uns em relação aos outros. Emanam
daí táticas movediças e contraditórias, cujo objetivo geral ou cristalização
institucional se corporificam nos aparelhos estatais. Esse campo estratégico
é transpassado por táticas muitas vezes bastante explícitas ao nível restrito
onde se inserem no Estado, táticas que se entrecruzam, se combatem, en-
contram pontos de impacto em determinados aparelhos, provocam curto-
-circuito em outros e configuram o que se chama ‘a política’ do Estado,
linha de força geral que atravessa os confrontos no seio do Estado. Nesse
nível, essa política é certamente decifrável como cálculo estratégico, embo-
ra mais como resultante de uma coordenação conflitual de micropolíticas e
táticas explícitas e divergentes que como formulação racional de um projeto
global e coerente (Poulantzas, 2000, p. 139, grifo do autor).

204
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

Essa reflexão cabe tanto para “a política” do Estado, em sentido ge-


nérico, como o arranjo desse conjunto de forças que se condensam na sua
estrutura, quanto para ações mais ou menos específicas, como as políticas
públicas e seus instrumentos que, por congregarem ações e normas, po-
dem ser entendidas como as referidas táticas movediças e contraditórias,
que por sua vez também configuram “a política” do Estado nos termos do
autor.
Nesse sentido, seria possível associar tais considerações acerca desses
recortes das ideias de Poulantzas (2000) a dois termos da língua inglesa
fundamentais para o campo das políticas públicas: policy e politics. Como
aponta Pedone (1986, p. 12), diferentemente das línguas latinas, no inglês se
distinguem dois termos na literatura acadêmica: policy, para o entendimento
de políticas públicas; e politics, para o processo político, as relações de poder
entre os indivíduos (agentes-atores) e grupos. Esses dois termos, entretanto,
são relacionados, isto é, a política pública (policy) tem atrelado a ela o jogo
político (politics).
Afinal, é possível dizer com Souza (2006) que as políticas públicas se
relacionam ao jogo político, à sociedade política e às instituições em que as
políticas são formuladas (Souza, 2006, p. 40) ou, com base em Poulantzas,
à política do Estado.
Ademais, seria possível ainda fazer uma reflexão a partir do conceito
de território usado (Santos, 2005), que possui um potencial político, como
com a identificação dos atores e agentes, que manifestam seus conflitos em
relação aos distintos usos do território. Afinal, como já apontado em outro
momento, “não existe política pública (policy) sem o respectivo jogo polí-
tico (politics), e a categoria território usado ressalta o envolvimento desses
agentes-atores, bem como seus conflitos no processo político e, consequen-
temente, no processo das políticas públicas” (Freitas, 2013, p. 160).
Sem negligenciar os outros agentes/atores, grupos e classes, essa visão
das políticas públicas destaca o papel do Estado, o que compactua com o
entendimento de Souza, ao defender que as políticas públicas estão, em sua
essência, ligadas ao Estado, como um processo pelo qual se implementam
ações da autoridade pública, geralmente em torno de objetivos explícitos
(Souza, 2006, p. 26). É nesse sentido que Deubel (2006 [2002]) entende
que a análise de políticas públicas pode ser tomada como “a ciência do Esta-
do em ação” (Deubel, 2006 [2002], p. 15, grifo do autor, tradução nossa) ou

205
André Vieira Freitas

como “o nexo entre a teoria e a ação do Estado” (Pedone, 1986, p. 10). Para
Saraiva (2007, p. 28-29),
Trata-se de um fluxo de decisões públicas, orientado a manter o equilíbrio
social ou a introduzir desequilíbrios destinados a modificar essa realidade.
Decisões condicionadas pelo próprio fluxo e pelas reações e modificações
que elas provocam no tecido social, bem como pelos valores, ideias e visões
dos que adotam ou influem na decisão. É possível considerá-las como estra-
tégias que apontam para diversos fins, todos eles, de alguma forma, deseja-
dos pelos diversos grupos que participam do processo decisório (...). Com
uma perspectiva mais operacional, poderíamos dizer que ela é um sistema
de decisões públicas que visa a ações ou omissões, preventivas ou correti-
vas, destinadas a manter ou modificar a realidade de um ou vários setores
da vida social, por meio da definição de objetivos e estratégias de atuação e
da alocação de recursos necessários para atingir os objetivos estabelecidos.

Trata-se, pois, da ação do Estado entendida em seu sentido mais amplo


– englobando ações propriamente ditas, mas também, normas, estratégias
(bem como omissões) relacionadas a usos do território – para os mais distin-
tos campos da esfera pública, que, como já dito, não deixa de se relacionar
ao jogo político. Para entender como essas ações em sentido amplo aconte-
cem, é necessário entender as políticas públicas como um processo – o que
mesmo transcende a sua realização, pois remete à sua gestação e aos seus
efeitos.
Retomando as lições de Poulantzas (2000), mas também dialogando
com Souza (2006), é possível afirmar que, por aparecerem como ações e
normas do Estado, as políticas públicas são definidas pelo Estado e guar-
dam as relações de poder que se expressam nos seus aparelhos.
Na visão de Poulantzas, as contradições internas do Estado definem
a sua política, ideia que é possível ser utilizada para compreender as polí-
ticas públicas em seu ciclo. Nas palavras do autor: “A política do Estado
se estabelece assim por um processo efetivo de contradições interestatais”
(Poulantzas, 2000, p. 137). Segundo ele, essas contradições têm algumas
características que, é possível dizer por inferência, marcam o processo de
políticas públicas:
− um mecanismo de seletividade estrutural da informação dada por parte
de um aparelho e de medidas tomadas pelos outros;
− um trabalho contraditório de decisões, mas também de “não decisões”
por parte dos setores e segmentos do Estado;

206
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

− séries de prioridades e contraprioridades contraditórias entre si;


− uma filtragem escalonada por cada ramo e aparelho, no processo de to-
mada de decisões, de medidas propostas pelos outros ou de execução efeti-
va, em suas diversas modalidades, de medidas tomadas pelos outros;
− um conjunto de medidas pontuais, conflituais e compensatórias em face
dos problemas do momento (Poulantzas, 2000, p. 136-137).

Além de explicar as descontinuidades no campo das políticas públi-


cas ou mesmo a desarticulação entre elas, nas suas diversas categorias e em
relação aos seus respectivos objetos, essas considerações ratificam que as
políticas públicas, como ações e normas do Estado, guardam as relações de
poder que se manifestam nos aparelhos do Estado, pois esse é justamente a
condensação de uma relação de forças, como apresenta Poulantzas (2000).
Essas ideias e o diálogo até aqui realizado elucidam e sedimentam uma
compreensão da estrutura do Estado e do seu papel por meio (do processo)
das políticas públicas. Mas resta uma questão em aberto tanto para as po-
líticas públicas, entendidas como uma ação (em sentido amplo) do Estado,
quanto para o próprio conceito de Estado, entendido como uma forma de
organização social complexa que, na sua qualidade de dispositivo de poder,
sintetiza todos os embates das forças sociais que o compõem. Onde se ma-
terializariam as relações de poder condensadas no Estado e manifestadas
através das políticas públicas, senão no território?
Afinal, como já alertado por Gottmann (2012): “Território é um con-
ceito político e geográfico, porque espaço geográfico é tanto compartimen-
tado quanto organizado através de processos políticos. Uma teoria política
que ignora as características e a diferenciação do espaço geográfico opera no
vácuo” (Gottmann, 2012, p. 526).
É sabido que uma “base territorial” já consta de modo geral nas defi-
nições de Estado em diferentes áreas dentro e fora da teoria política o que,
por inferência, também resvala nas definições de políticas públicas, já que,
como visto, elas estão em sua essência ligadas à atuação do Estado (Souza,
2006). De todo modo, o território, nesses entendimentos, aparece geral-
mente associado à ideia de limite, como em seu sentido jurídico. Como
adverte Steinberger:
A relação entre território e Estado, sob os cânones jurídicos, relega o terri-
tório a algo morto, ‘coisificado’, submetido ao Estado como mero recipiente
que abriga a sua ação. Em outras palavras, o território (e também o espaço)

207
André Vieira Freitas

é um receptáculo passivo onde a ação estatal se passa. Mais do que isso,


sua caracterização está restrita à geografia física e há uma reiterada preo-
cupação em dizer que o território não se limita ao geográfico (Steinberger,
2013, p. 61).

Criticando essa visão mais associada à ideia de limite, Steinberger apon-


ta para outra visão de território na discussão acerca de Estado e políticas
públicas. Segundo a autora:
− O território tem obrigatoriamente um sentido geográfico amplo que vai
além da geografia física e se complementa ao seu sentido jurídico. Não
pode ser relegado a um papel secundário.
− O território não é apenas material. É simultaneamente material e social.
Não pode ser confundido com a superfície terrestre, quadro natural, base
física, limite, recursos e extensão (Steinberger, 2013, p. 63).

A afirmação de outrora de que o território poderia indicar uma leitura


geográfica dos conceitos de Estado e das políticas públicas se alicerça nesta
perspectiva defendida pela autora.
Nessa senda, é possível entender o território a partir das relações de po-
der entre os diversos agentes/atores, grupos e classes. Tal perspectiva inclu-
sive corrobora com o sentido da discussão de Estado em Poulantzas (2000).
Nesse aspecto, é possível considerar então, por inferência, que as políticas
são gestadas no seio dos aparelhos de Estado e são formuladas a partir dos
embates internos dos distintos agentes/atores, grupos e classes, que são con-
densados na estrutura do Estado e referenciados no território. Ademais, já
que as políticas públicas também se realizam no território, é possível iden-
tificar uma relação simbiótica entre o Estado e as políticas com o território.
Ou a inseparabilidade entre Estado, políticas públicas e território, como
defende Steinberger (2013).
O território, que segundo Ribeiro (2005, p. 96) é “a dimensão ma-
terializada do espaço” apresenta-se, nas palavras de Souza (2000, p. 97),
como “um campo de forças” marcado por relações de poder. Neste campo
de forças, o Estado exerce um papel chave por meio de discursos e ações
de políticas públicas que indicam a sua indissociabilidade com o território.
Essa ideia é defendida por Steinberger, ao observar que todas as políticas
públicas, mesmo implicitamente, são implementadas no território. A autora
ressalta: “na prática, toda política pública concretiza-se no território, ou seja,
o território está sempre presente, explícita ou implicitamente nas ações de

208
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

políticas públicas. Assim admite-se que todas as políticas públicas têm uma
dimensão territorial” (Steinberger, 2013, p. 63).
Tomando como ponto de partida essa ideia, é relevante acionar ainda
o que Ratzel, interpretado por Costa, denomina de “senso geográfico” ou
“fundamento geográfico do poder político” (Costa, 1992, p. 32). A partir
do entendimento do Estado para Ratzel como “agente articulador entre o
povo e o solo” (p. 34, grifo do autor), ele chama atenção na verdade para o
território, de modo que, no pensamento ratzeliano, o poder político é incon-
cebível sem um Estado que esteja intrinsecamente ligado ao território.
A ideia de um senso ou fundamento geográfico se assemelha ao que
Gottmann afirma ser o “fator geográfico na política”, quando aponta o “ter-
ritório como a base e a estrutura essencial da política” (Gottmann, 2012, p.
528). Trata-se também de sinalizar para a relação entre Estado e território.
Nesse sentido, seria possível entender que Estado denota um dispositivo
de poder e uma forma de organização complexa da sociedade no território.
E o território, que é materialidade e arena de disputas entre os atores/agen-
tes, grupos e classes, é o fundamento geográfico do poder político. Na sua
qualidade de dispositivo de poder, o Estado é a condensação das relações de
forças dos atores/agentes, grupos e classes sociais, que por sua vez se refe-
renciam no território, sintetizando todos os embates entre essas forças que
o compõem. O Estado exerce o poder político, que é componente para a
manutenção da sua estrutura e a garantia da integridade do território. Desse
modo, o Estado ordena o território coordenando as distintas forças que o
atravessam e que, por sua vez, também se apresentam materializadas na es-
trutura do Estado por meio de seus aparelhos.
Coadunando com esse entendimento, seria possível entender ainda que
as políticas públicas e seus instrumentos, por sua vez, são um fluxo de decisões
públicas que congregam ações e normas, as quais relacionando-se ao jogo po-
lítico entre os distintos agentes, atores, grupos e classes, inserem-se na política
do Estado em sentido geral, como o arranjo desse conjunto de forças que se
condensam na sua estrutura, mas que também são referenciadas no território,
que é a arena desses embates e também onde se materializam essas políticas. É
por isso que as políticas públicas e o território são indissociáveis. Elas consti-
tuem um exercício de poder do Estado que toma forma no território.
Na senda de uma leitura geográfica das políticas públicas, Steinberger
(2006) defende uma nova categoria de políticas. Por acontecerem no terri-

209
André Vieira Freitas

tório, as políticas inserem-se na dinâmica espacial e estão relacionadas ao


ambiente. Todavia, como defende a autora, existem ainda políticas especi-
ficamente voltadas para a dinâmica espacial que formariam uma nova cate-
goria, as políticas públicas espaciais, “um conjunto de políticas constituído
pela ambiental, territorial, regional, urbana e rural, que são espacialmente
fundamentadas, isto é, tem em comum o fato de o espaço ser seu substrato”
(Steinberger, 2006, p. 31).
Tal ideia da autora indica uma visão integradora das ações do Estado
no seio da dinâmica espacial, com a identificação daquelas direcionadas par-
ticularmente para tal dinâmica, formando a referida categoria das políticas
públicas espaciais. Dentre essas políticas serão destacadas noções relacionadas
a duas delas nas seções seguintes: a política territorial e a política ambiental.

POLÍTICA E ORDENAMENTO TERRITORIAL


É possível perceber que existe uma ligação intrínseca do Estado com
o território. Essa ligação pode ser vista por meio das políticas públicas e de
seus instrumentos. De todo modo, sem desconsiderar essa assertiva, é pos-
sível refletir sobre a dimensão territorial do planejamento, o que conduz à
discussão acerca do ordenamento territorial, e sobre os objetos das políticas
públicas, o que nos conduz à discussão sobre política territorial.
Como visto até aqui, a atuação estatal tem necessariamente uma di-
mensão territorial, o que elucida o debate a respeito das políticas públicas.
Tal dimensão pode ser encontrada já nas ideias de Ratzel. No entanto, o au-
tor propõe ainda falar especificamente em política territorial. Costa (1992)
destaca que, para Ratzel,
(...) os Estados podem formular e executar políticas gerais e políticas terri­
toriais. No primeiro caso trata-se de políticas em que o território é tomado
apenas como um a priori, uma base, um suporte sobre o qual elas se de-
senvolverão. No segundo, ao contrário, trata-se de apreensão do território
como elemento fundamental (Costa, 1992, p. 35).

Uma dimensão territorial perpassa as reflexões de Ratzel a respeito da


ação estatal sobre a sociedade por meio de políticas. Todavia, como é possí-
vel ver na citação anterior, para além de políticas gerais que apenas se reali-
zariam no território, as políticas territoriais, na concepção de Ratzel, iriam
além, ao tomar o território como “elemento fundamental”. Este é um pri-
meiro ponto para se pensar uma definição de política territorial.

210
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

Corroborando tal entendimento do papel do Estado por meio de polí-


ticas territoriais, Moraes (2005) considera que:
O grande agente da produção do espaço é o Estado, por meio de suas po-
líticas territoriais. É ele o dotador dos grandes equipamentos e das infraes-
truturas, o construtor dos grandes sistemas de engenharia, o guardião do
patrimônio natural e o gestor dos fundos territoriais. Por estas atuações, o
Estado é também o grande indutor da ocupação do território, um mediador
essencial, no mundo moderno, das relações sociedade-espaço e sociedade-
-natureza (Moraes, 2005, p. 43).

Na sua reflexão acerca de política territorial, Sanchez, citado por


Rückert, ressalta os enfoques estratégicos para essa noção, que comportam
indiretamente o Estado:
A Política Territorial se configura pelo conjunto de enfoques estratégicos,
a médio e longo prazo, assim como pelas correspondentes formulações de
atuação dirigidas a intervir sobre o território, a fim de que assuma as for-
mas que sejam adequadas ao conjunto dos interesses que controlam o poder
político (Sánchez apud Rückert, 2010, p. 19).

É possível perceber, então, que pensar em política territorial é pensar


sobre o expressivo papel do Estado no território, seja na apreensão do territó-
rio como elemento fundamental, em Ratzel (Costa, 1992); no grande agente
na produção do espaço, em Moraes (2005); ou no conjunto dos interesses
que controlam o poder político e intervêm estrategicamente no território,
em Sánchez (Rückert, 2010).
Dialogando com esses recortes das ideias de Ratzel, Moraes e Sanchez,
Freitas entende política territorial como “o conjunto das orientações gerais
que guiam a ação estatal no seio da dinâmica territorial, prevendo ações
continuadas a partir de uma visão estratégica que toma o território como
elemento fundamental” (Freitas, 2013, p. 144). Essa breve discussão sobre
política territorial remete a outra também bastante ampla relacionada ao
planejamento e às políticas públicas: o ordenamento territorial.
Moraes (2005) lembra que o debate acerca do ordenamento territorial
remonta à geografia regional francesa, na década de 1960, sobretudo à esco-
la do aménagement du territoire. De acordo com o autor, tal escola embasou
o planejamento não somente na França, mas em outros países europeus
e latino-americanos. Segundo o autor, o aménagement du territoire visava
“utilizar o arsenal teórico e técnico desenvolvido para a análise regional em

211
André Vieira Freitas

programas de planejamento e estímulo ao desenvolvimento, tendo como ob-


jetivo a articulação das diferentes políticas numa base territorial” (Moraes,
2005, p. 44).
A partir da revisão dos casos de experiências de ordenamento territorial
na América Latina, Cabeza (2002) percebe uma polissemia na interpretação
desta noção. Segundo o autor:
Quanto à natureza, destaca-se a compreensão como uma disciplina cien-
tífica, como uma técnica administrativa, um estudo interdisciplinar, uma
política ou um conjunto de políticas, um caminho, método ou pesquisa;
um processo integral, uma estratégia de desenvolvimento, um conjunto
de ações político-administrativas, entre outras (Cabeza, 2002, tradução
nossa).

Nesse sentido, Rückert (2005) afirma que as discussões em torno do


tema chegariam a constituir “uma disciplina bastante nova e com conteú-
dos não muito bem definidos”. Na visão do autor, o ordenamento territorial
“pode ser visto, primeiramente, como um ‘corte transversal’ que afeta a to-
das as atuações públicas com incidência territorial, dando a elas um trata-
mento integrado” (Rückert, 2005, p. 34).
Concebendo tal entendimento de maneira ampla a partir do contexto
brasileiro, Moraes considera que:
O ordenamento territorial diz respeito a uma visão macro do espaço, enfo-
cando grandes conjuntos espaciais (biomas, macrorregiões, redes de cidades
etc.) e espaços de interesse estratégico ou usos especiais (zona de fronteira,
unidades de conservação, reservas indígenas, instalações militares etc.). Tra-
ta-se de uma escala de planejamento que aborda o território nacional em sua
integridade, atentando para a densidade da ocupação, as redes instaladas e
os sistemas de engenharia existentes (transporte, comunicações, energia etc.
(...) O ordenamento territorial busca, portanto, captar os grandes padrões
de ocupação, as formas predominantes de valorização do espaço, os eixos de
penetração do povoamento e das inovações técnicas e econômicas e a direção
prioritária dos fluxos (demográficos e de produtos). Enfim, ele visa estabele-
cer um diagnóstico geográfico do território, indicando tendências e aferindo
demandas e potencialidades, de modo a compor o quadro no qual devem
operar de forma articulada as políticas públicas setoriais, com vistas a realizar
os objetivos estratégicos do governo (Moraes, 2005, p. 45).

Também analisando a partir do contexto brasileiro, mas com uma


visão ampla, Costa (2005) destaca a prerrogativa do papel do Estado e a

212
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

importância da escala nacional para o ordenamento territorial. Segundo


o autor: “O tema do ordenamento territorial inspira uma reflexão sobre a
relevância, os limites e a eficácia das políticas públicas formuladas e ope-
radas a partir de estratégias e objetivos especificamente nacionais” (Costa,
2005, p. 55).
Dialogando com esses autores, é possível notar que falar em política
territorial ou ordenamento territorial é falar também da ligação simbiótica
do Estado com o território.
É possível inferir uma visão acerca do ordenamento territorial também
em Gottmann (2012), quando o autor discorre sobre a organização do ter-
ritório, o que, segundo aponta, tornou-se uma preocupação central do pen-
samento e da ação política. O autor entende o ordenamento territorial como
“um ‘acordo justo’ para todas as partes do território nacional” (Gottmann,
2012, p. 536), o que se relaciona à ideia de Ratzel acerca da “coesão interna
do território” (Costa, 1992, p. 38).
Como apresenta Costa, segundo Ratzel:
(...) todos eles (os Estados, na sua estruturação territorial) procurarão arti-
cular internamente o seu espaço de domínio, segundo os riscos potenciais
de cada uma das suas partes (...). Ligado à questão anterior, o processo
de diferenciação política do organismo estatal-territorial constitui-se num
fator essencial nas políticas e na gestão do território (Costa, 1992, p. 41).

Além disso, Costa também ressalta que, para Ratzel “o que importa
nas políticas territoriais dos Estados é formular e pôr em prática estratégias
destinadas a manter a todo custo o que chama de ‘coesão interna’ [do ter-
ritório]” (Costa, 1992, p. 41), que pode ser lida como a articulação entre as
diversas demandas e potencialidades (como ambientais, regionais, sociais e
econômicas) que se apresentam no território.
Algo que está implícito no ideário de Ratzel acerca da “coesão interna”
do território são as relações de poder que conduzem o “processo de diferen-
ciação política” (p. 41) dos territórios. Sobre essas relações de poder, segun-
do as ideias de Costa propriamente, “ordenar o território é pensar e atuar no
conjunto das forças que modelam atualmente o desenvolvimento do país”
(Costa, 2005, p. 58).
A discussão até aqui acionada sobre ordenamento territorial tem como
alicerce a reflexão acerca do papel do Estado no território nacional tomado
em seu conjunto, o que, como aponta Freitas,

213
André Vieira Freitas

(...) é chave não só para a noção de política territorial, entendida como a


orientação geral que guia a ação estatal a partir de uma visão estratégica do
território enquanto elemento fundamental, mas também para a noção de
ordenamento territorial, que diz respeito à ação do Estado sobre a dinâmica
territorial visando a um cenário desejável (Freitas, 2013, p. 159).

Com base nessas colocações, cabe afirmar agora que é possível se discu-
tir tanto uma política territorial “stricto sensu” quanto o ordenamento terri-
torial “lato sensu”, mas, como destaca o autor, ambas as noções são comple-
mentares (Freitas, 2013).
Acerca da noção de ordenamento territorial, a ideia defendida neste ar-
tigo é que ordenar o território requer articular políticas públicas e manter a
coesão interna do território, valendo-se de estratégias no sentido da mediação
de conflitos que ocorrem no território, seja entre os atores diretamente, seja
entre as instituições e esferas político-administrativas envolvidas. Para enfati-
zar seu aspecto dinâmico, seria rica para essa discussão uma reflexão a partir
do conceito de território usado (Santos, 2005). Como apresentado por Freitas:
(...) ela [a categoria território usado] pode contribuir para a coesão porque
destaca a dinâmica do território. De mais a mais, pode contribuir com a
articulação das políticas porque possibilita trabalhar com os usos que são
objetos de cada política. Pode contribuir ainda para a negociação entre
agentes-atores e a compatibilização de seus interesses quanto aos usos do
território. Em síntese, o território usado viabiliza o diálogo a ser promovido
pelo Estado Nacional (Freitas, 2013, p. 161).

Destarte, é possível afirmar que o ordenamento territorial teria como


prerrogativa articular políticas públicas – assim como seus instrumentos – a
partir de uma visão do território usado e manter a coesão interna em relação
aos distintos usos do território.
Seja na senda da discussão sobre ordenamento territorial, seja na senda
da discussão sobre política territorial, a dimensão territorial convida a pen-
sar a respeito da sua relação com outra dimensão em termos de planejamen-
to, a dimensão ambiental. É para ela que se volta a próxima seção.

PLANEJAMENTO E POLÍTICA AMBIENTAL


As dimensões territorial e ambiental constituem a dinâmica espacial.
Essas dimensões se apresentam no campo das políticas públicas de duas ma-
neiras: em sentido amplo, como dimensões para as políticas públicas em ge-

214
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

ral e, em sentido estrito, como objetos de políticas públicas espaciais (Stein-


berger, 2006): nomeadamente a política territorial e a política ambiental.
Por acontecerem no território, que pode ser entendido como a dimen-
são material do espaço (Ribeiro, 2005, p. 96), as políticas públicas inserem-
-se na dinâmica espacial. Desse modo, tocam na relação simbiótica socieda-
de-natureza e estão, portanto, relacionadas ao ambiente. Denota-se, então, o
referido sentido amplo: territorial e ambiental como dimensões das políticas
públicas em geral.
Em sentido estrito, como objetos da política territorial e da política am-
biental, territorial e ambiental dizem respeito a um conjunto de ações, em
termos de planejamento, voltadas específica e respectivamente para ambas
as dimensões.
Tendo em vista essa complementaridade, cabe agora retomar al-
gumas considerações sobre a política territorial, para depois alcançar
a noção de política ambiental. Falar em política territorial é falar do
expressivo papel do Estado no território, tomado por essa política como
“elemento fundamental”. Assim sendo, é possível compreender que polí-
tica territorial diz respeito ao conjunto das orientações gerais que guiam
a ação estatal no seio da dinâmica territorial, prevendo ações continua­
das a partir de uma visão estratégica que toma o território nacional como
elemento fundamental.
Ademais, o entendimento de política territorial remete à noção de orde-
namento territorial que requer articular políticas públicas e manter a coesão
interna dos usos do território, coordenando as relações de poder das forças
modeladoras do desenvolvimento do país.
A partir da recuperação dessas reflexões sobre política territorial, é pos-
sível começar a tecer algumas considerações sobre política ambiental, visan-
do a uma compreensão de ambiente que considere os elementos naturais e a
dinâmica social. Inicialmente é possível compreender que política ambiental
se lança para o mérito da relação sociedade-natureza e tem como objetivo,
em última instância, uma harmonia (do ponto de vista natural, mas tam-
bém social) dessa relação. Considerando os agravos nessa relação que cons-
truíram a problemática ambiental contemporânea, a política ambiental é de
fato compensatória.
Na perspectiva de Steinberger e Abirached (2013), que incorporam a
ideia de uso do território e da natureza, trata-se de

215
André Vieira Freitas

(...) políticas públicas ambientais que regulem a ação do homem sobre a


natureza, tanto para corrigir o mau uso, quanto para orientar o uso adequa-
do. Deduz-se daí que o uso da natureza e, por extensão, o uso do território,
constitui a essência da intervenção reguladora, pois intervir sobre a nature-
za é intervir sobre seu suporte, que é o território. Em outras palavras, a ação
do homem usar a natureza é, simultaneamente, a ação de usar o território,
razão pela qual se pode dizer que uma política ambiental, necessariamen-
te, possui uma dimensão territorial (Steinberger; Abirached, 2013, p. 115).

Daí, pois, a complementaridade entre territorial e ambiental como di-


mensões do planejamento que se cruzam nas ações em termos de políti-
cas públicas, ou seja, respectivamente como objetos da política territorial
e da política ambiental. Afinal, como apresentam Steinberger e Abirached
(2013), a política ambiental pode ser pensada a partir dos usos da natureza
e do território.
Similarmente ao que foi dito quanto à política territorial e dialogando
com a mencionada perspectiva de Steinberger e Abirached (2013), além da
visão de uma característica reativa apontada por Pagnoccheschi e Bernardo
(2006), é possível considerar política ambiental como o conjunto de orien-
tações gerais que guiam a ação estatal no sentido de relativa harmonia na re-
lação sociedade-natureza, tomando o meio como seu elemento fundamental
e buscando, a partir de uma visão estratégica, corrigir o acúmulo de agravos
a ele construídos historicamente, por meio de uma orientação dos usos da
natureza e do território.
Tal entendimento de política ambiental se liga à noção de planejamento
ambiental. Para Glico Viel (2006) esta noção diz respeito ao planejamento
geral do desenvolvimento, já que o meio ambiente tem um papel estrutural
no desenvolvimento. Nesse sentido carece, pois, ser incorporado como uma
variável desse processo (Glico Viel, 2006, p. 80); isto é, há uma dimensão
ambiental do desenvolvimento. A partir dessa colocação seria possível sedi-
mentar a seguinte compreensão de planejamento ambiental: a articulação
de políticas para corrigir os agravos ao meio, no sentido de uma relativa
harmonia na relação sociedade-natureza, coordenando nessa senda as forças
modeladoras do processo de desenvolvimento.
Denota-se assim uma complementaridade entre as noções de política
ambiental e de política territorial, assim como entre ordenamento territorial
e planejamento ambiental, o que ratifica a visão do territorial e do ambiental
como duas dimensões da dinâmica espacial. Nessa visão, política territorial

216
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

e política ambiental dizem respeito, respectivamente, a orientações gerais


para a ação estatal no seio da dinâmica territorial e à relação sociedade-
-natureza, tomando como elementos fundamentais o território e o meio.
Destarte, ordenamento territorial e planejamento ambiental requerem, res-
pectivamente, a articulação de políticas para manter a coesão interna do ter-
ritório e corrigir os agravos ao meio, coordenando as relações de poder das
forças modeladoras do desenvolvimento do país.
A visão dessa complementaridade parte das ideias de Steinberger
(2006), que reconhece ambiental e territorial como complementares em ter-
mos teóricos e em termos de planejamento. Como apresenta a autora,
(...) uma análise ambiental pressupõe uma análise territorial. Esta ideia está
ligada ao entendimento de que o espaço e a natureza são sistemas que se re-
definem ao longo do tempo, enquanto o território é o meio (de vida) que se
organiza, desorganiza e reorganiza diante dessas permanentes redefinições
(Steinberger, 2006, p. 54).

Ficam claras aí a complementaridade entre ambiental e territorial, e a


especificidade do segundo adjetivo. Já sobre o primeiro, completa a autora:
“Ambiental resulta dos efeitos dos maus-tratos do homem à natureza que
acontecem em frações do espaço e frações do território.” É por isso que
“pode-se falar em política ambiental e em política territorial, mas elas devem
ser formuladas em conjunto” (Steinberger, 2006, p. 55).
A partir de uma leitura sobre instrumentos de planejamento no Bra-
sil, Acselrad (2000) aponta que a dimensão ambiental já vem sendo incor-
porada ao planejamento territorial no país, havendo uma “ambientaliza-
ção” do planejamento. Nas palavras do autor: “a consideração da variável
ambiental tem, por diferentes caminhos, alterado as dinâmicas decorren-
tes do planejamento territorial. A incorporação dessa variável às concep-
ções e práticas de planejamento é imposta por múltiplas forças e contextos
sociais” (Acselrad, 2000, p. 6).
Entretanto, como completa o autor, ainda existem dificuldades de cunho
metodológico para a incorporação da dimensão ambiental no planejamento
territorial (ou no ordenamento territorial). Essas “seriam a expressão mesma
da tensão entre o espaço geometrizado, estático e relativamente homogêneo
da idealização zoneadora e o território usado” (Acselrad, 2000, p. 6).
Coadunando com uma visão do território usado, a efetiva incorpora-
ção da dimensão ambiental no planejamento territorial poderia ser pensada

217
André Vieira Freitas

a partir dos diferentes instrumentos de políticas públicas, compreendendo


que tocam nessas duas dimensões. Para cumprirem essa “missão” de instru-
mento de planejamento ambiental e de ordenamento territorial, os diferen-
tes instrumentos de políticas públicas requerem ações em concerto no sen-
tido da articulação de políticas para corrigir os agravos ao meio e manter a
coesão interna do território. Isto é, cabe efetivar os instrumentos de política
pública no sentido do planejamento ambiental e do ordenamento territorial,
de acordo com as diretrizes em termos de política ambiental e de política
territorial. Para tanto, esses instrumentos devem prever ações considerando
as distintas demandas que se apresentam, o que passa por uma visão do
território usado – com a visão da compatibilidade de usos, a negociação de
atores – coordenando as relações de poder das forças modeladoras do desen-
volvimento do país.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A dimensão territorial perpassa as noções de Estado e políticas públi-
cas, seja no seio dos campos do saber que se dedicam a essas noções, como
da teoria política, seja mesmo no seio da Geografia, que necessariamente
enfatiza essa dimensão.
Na perspectiva adotada neste capítulo, Estado diz respeito a uma forma
de organização complexa das sociedades no território, sintetizando um con-
junto de forças dos distintos atores/agentes, grupos e classes sociais, que por
sua vez são territorializados.
As políticas públicas constituem, por seu lado, uma maneira de ação
do Estado no território, conjugando ações de fato e normas. Nesse sentido,
todas as políticas possuem uma dimensão territorial.
Além dessa dimensão territorial nas políticas públicas em sentido geral,
também é possível falar especificamente em uma política territorial “stricto
sensu”, que teria como objetivo, em última instância, o ordenamento do ter-
ritório. Com um objeto também amplo, apresenta-se a política ambiental,
que se volta para o mérito da relação sociedade-natureza, tendo como obje-
tivo, em última instância, uma harmonia dessa relação.
Assim, percebe-se que as dimensões territorial e ambiental são tanto ob-
jetos de políticas públicas espaciais distintas, a política territorial e a política
ambiental, quanto duas dimensões do planejamento. A atuação do Estado
no território para articular políticas e manter a coesão interna do território

218
Estado, território, ambiente e políticas públicas:
o ordenamento territorial e sua interface ambiental

a partir da mediação de conflitos que ocorrem no território é da alçada do


ordenamento territorial. A atuação do Estado para a dimensão ambiental,
na relação da sociedade com seu meio, é da alçada do planejamento ambien-
tal, em termos de política pública e de seus instrumentos. Mas não se trata
de pensar em ordenamento territorial e planejamento ambiental de modo
fragmentado, mas de modo conjunto, já que, é possível asseverar, o orde-
namento territorial tem uma dimensão ambiental e ele se relaciona com o
conjunto das políticas públicas, mesmo que na prática do planejamento isso
apareça muitas vezes de maneira inconsciente.
Dessarte, ao se pensar as políticas públicas, seus instrumentos e suas
implicações geográficas, cabe reconhecer que elas possuem uma dimensão
territorial e uma dimensão ambiental, o que é coerente com uma visão dos
usos do território e a sua natureza.

REFERÊNCIAS
ACSELRAD. Henri. O zoneamento ecológico-econômico e a multiplicidade de ordens
socioambientais na Amazônia. Novos Cadernos Naea. Belém v. 3, n. 2, p. 5-15, 2000.
Disponível em: http://periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/article/viewArticle/32.
Acesso em: 10 fev. 2013.
BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: por uma teoria geral da política. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2012 [1986].
CABEZA, Ángel Massiris. Ordenación del território en America Latina. Scripta Nova.
Revista eletrónica de geografia y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, v. VI,
n. 125, 1º de outubro de 2002.
CATAIA, Márcio Antônio. Território político: fundamento e fundação do Estado. Socie­
dade & natureza (UFU. Online), v. 23, p. 115-125, 2011.
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia política e geopolítica: discursos sobre o território
e o poder. São Paulo: Hucitec, 1992.
_____ . O Estado e as políticas territoriais no Brasil. 9ª ed. São Paulo: Contexto, 2000
[1988].
DEUBEL, André-Noël Roth. Políticas públicas: formulación, implementación y evaluación.
Bogotá: Ediciones Aurora, 2006 [2002].
FREITAS, André Vieira. Uma política de ordenamento territorial para o Brasil?, in: Ter­
ritório, Estado e políticas públicas espaciais. STEINBERGER, Marília (org.). Brasília:
Ler Editora, 2013, p. 141-161.
GLICO VIEL, Nicolo. Estilos de desarrollo y médio ambiente en América Latina, un
cuarto de siglo después. CEPAL – Serie Medio ambiente y desarrollo, n. 126. San-
tiago do Chile, maio de 2006. Disponível em: http://www.eclac.org/publicaciones/
xml/6/26136/LCL-2533-P. pdf . Acesso em: 10 ago. 2013.

219
André Vieira Freitas

GOTTMANN, Jean. A evolução do conceito de território. Boletim Campineiro de Geo­


grafia, v. 2, n. 3, 2012 [1975], p. 523-545. Disponível em: http://agbcampinas.
com.br/bcg/index.php/boletim-campineiro/article/view/86/2012v2n3_Gottmann.
Acesso em: 10 jul. 2013.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Ordenamento territorial: uma conceituação para o
planejamento estratégico in: MELLO, Neli Aparecida de; OLIVEIRA JÚNIOR,
Rosalvo de (orgs.). Para pensar uma política nacional de ordenamento territorial. Bra-
sília: Ministério da Integração Nacional, 2005, p. 43-47.
PAGNOCCHESCHI, Bruno; BERNARDO, Maristela. Política ambiental no Brasil, in:
STEINBERGER, Marília (org.). Território, ambiente e políticas públicas espaciais.
Brasília: Paralelo 15 e LGE Editora, 2006, p. 101-123.
PEDONE, Luiz. Formulação, implementação e avaliação de políticas públicas. Brasília:
Fundação Centro de Formação do Servidor Público – Funcep, 1986.
POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. 4ª ed. São Paulo: Paz e Terra,
2000 [1978].
RIBEIRO, Ana Clara Torres. Território usado e humanismo concreto: o mercado so-
cialmente necessário in: RIBEIRO, Ana Clara Torres et al. Formas em crise: utopias
necessárias. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 2005.
RÜCKERT, Aldomar Arnaldo. O processo de reforma do Estado e a Política Nacional de
Ordenamento Territorial. Para Pensar uma Política Nacional de Ordenamento Terri­
torial. Brasília: Ministério da Integração Nacional, 2005, v. 1.
RÜCKERT, Aldomar Arnaldo. Usos do Território e Políticas Territoriais Contemporâ-
neas: Alguns Cenários no Brasil, União Europeia e Mercosul. Revista de Geopolítica,
Ponta Grossa/PR, v. 1, n. 1, p. 17-32, jan./jun. 2010.
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica.
São Paulo: Hucitec, 1986 [1978].
SARAIVA, Enrique. Introdução à teoria da política pública in: SARAIVA, Enrique;
FERRAREZI, Elisabete. Políticas públicas, coletânea. 2 v. Brasília: Enap, 2006.
SOUZA, Celina. Políticas Públicas: uma revisão da literatura in: Sociologias, Porto Alegre,
v. 8, n. 16. jul./dez. 2006, p. 20-45. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/soc/
n16/a03n16.pdf. Acesso em: mar. 2010.
SOUZA, Marcelo Lopes de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvi-
mento in: Iná Elias de Castro et al. (orgs.). Geografia: conceitos e temas. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2000 [1995], p. 77-116.
STEINBERGER, Marília. Território, ambiente e políticas públicas espaciais in: _____
(org.). Território, ambiente e políticas públicas espaciais. Brasília: LGE Editora e Para-
lelo 15, 2006, p. 29-82.
STEINBERGER, Marilia; ABIRACHED, Carlos Felipe. Política ambiental: do Estado
no uso da natureza e do território in: STEINBERGER, Marília (org.). Território,
Estado e políticas públicas espaciais. Brasília: Ler Editora, 2013, p. 115-140.

220
A ESPACIALIDADE DAS AÇÕES POLÍTICAS
DO ESTADO: O PÚBLICO E O PRIVADO NA
REPRODUÇÃO DO PATRIMONIALISMO EM
SERGIPE

Ana Rocha dos Santos

INTRODUÇÃO
Este texto faz parte das reflexões oriundas de pesquisas desenvolvidas
ao longo dos últimos anos, focadas no estudo de duas questões centrais:
a natureza do Estado e o patrimonialismo que caracteriza a relação entre
o público e privado na sociedade brasileira. As pesquisas foram desenvol-
vidas no Programa de Pós-graduação em Geografia, da Universidade Fe-
deral de Sergipe, por pesquisadores e alunos do mestrado e de graduação,
centrados na análise de políticas públicas, notadamente políticas sociais
que repercutem sobre a produção do espaço. Em cada pesquisa buscou-
-se compreender as contradições das políticas públicas que aprofundam
as desigualdades sociais, embora carreguem um discurso de emancipação
social, autonomia e desenvolvimento.
O materialismo histórico-dialético foi o método condutor do olhar
das pesquisas por ser capaz de desvendar a essência escondida na apa-
rência do fenômeno, assim como compreendê-lo em suas múltiplas de-
terminações. A natureza do Estado brasileiro do final dos anos 1990,
quando se implanta o neoliberalismo no Brasil, só pode ser esclarecida
à medida que se toma a leitura da totalidade. Isso posto, partiu-se da
hipótese de que as políticas públicas em um Estado neoliberal, mesmo
quando representam os anseios das comunidades e grupos sociais pobres
menos favorecidos, são elaboradas para a conformação dos interesses dos
detentores do capital.
As pesquisas realizadas resultaram em dissertações e tese orientadas no
Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Ser-
gipe, assim como da participação nos projetos “Políticas públicas de desen-
Ana Rocha dos Santos

volvimento e a apropriação da natureza: terra, água e conflitos territoriais”1


e “Estado, Questão Agrária e Conflitos Territoriais: um estudo comparativo
entre Sergipe, Paraíba e Minas Gerais”.2
As pesquisas realizadas ofereceram um panorama da ação política do
Estado, da atuação da sociedade civil e da situação social e econômica da
população submetida aos programas e projetos das políticas públicas estu-
dadas, particularmente no Estado de Sergipe. Por ser o Estado elemento
central na análise das pesquisas, optamos por apresentar, inicialmente, uma
reflexão que explicite a forma patrimonial de o Estado existir, destacando a
estreita relação entre o público e o privado na sociedade brasileira.
Considerando a natureza de classe do Estado, as políticas públicas fo-
ram estudadas para revelar as contradições existentes em suas formulações,
na medida em que perpetuam a desigualdade social, mas figuram como
emancipadoras para aqueles que foram alvo de sua intervenção. Por isso, o
foco principal do texto é refletir sobre as políticas de descentralização, de
desenvolvimento territorial e habitação, considerando a relação entre o pú-
blico e o privado que caracteriza a sociedade brasileira. Fundamenta-se na
leitura sobre a indistinção entre o público e o privado e no pseudoempode-
ramento da sociedade civil na definição das políticas públicas.

ESTADO E PODER PATRIMONIAL NO BRASIL


Quando Sérgio Buarque de Holanda escreveu Raízes do Brasil, em
1936, estava revelando uma sociabilidade marcada pela subsunção do públi-
co pelo privado e pela redução das relações impessoais a um padrão pessoal
e afetivo. A crítica aos fundamentos patrimoniais da sociedade brasileira
inaugura uma intepretação do Brasil sob o enfoque explicativo da vida so-
cial. Assim, Holanda afirma que: “é possível acompanhar, ao longo de nossa
história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram
seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordena-
ção impessoal” (1997, p. 146).

1
Projeto desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita”
(Unesp), submetido ao Edital MCTI/CNPq/MEC/Capes - Ação Transversal n. 06/2011 –
Casadinho/Procad, em 2011.
2
Projeto desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia e a Universidade
Federal da Paraíba, submetido ao Edital Capes/Fapitec/SE n. 06/2012 - Programa de Estímulo
à Mobilidade e ao Aumento da Cooperação Acadêmica da Pós-graduação em Sergipe (Promob).

222
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe

As políticas públicas brasileiras carregam em sua estrutura a caracterís-


tica da redução do público ao privado, um não desenvolvimento do públi-
co. O Estado, portanto, atua de modo que o planejamento e a intervenção
na economia asseguram os interesses particulares do grupo que o domina
e constitui. Desse modo, o uso privado da coisa pública demonstra que as
práticas e ações políticas são personificadas e revelam a estrutura do poder.
Segundo Santos,
o Estado patrimonial, portanto, conjuga o capitalismo moderno com for-
mas de relações políticas tradicionais, de cunho personalista, acostuma-
do com o poder resultante de privilégio. Apesar de a urbanização ter sido
acelerada no Brasil, incorporando nas práticas sociais a impessoalidade e
o estranhamento, isso não ocorreu subvertendo a ordem estabelecida pelo
clientelismo e o favoristismo. Ao contrário, a agudização das desigualdades
sociais e a acirrada competitividade impostas pela reestruturação produtiva
têm colocado o favor como meio e fim na política brasileira (2008, p. 145).

Para Martins, “a dominação patrimonial não se constitui em forma


antagônica de poder político em relação à dominação racional-legal” (1994,
p. 20). O passado mantém-se no moderno. O poder do atraso é a marca do
que Martins denomina de uma “sociologia da história lenta” e como isso
cria obstáculos para a tomada de consciência e transformação social.
A feição patrimonial do Estado denota o amálgama entre o público e
o privado, o moderno e o tradicional que historicamente estão superpostos
como práticas submetidas ao arbítrio de quem personifica o poder. Há uma
naturalização das relações de troca de favores por benefícios políticos ou
econômicos, que ocorre não somente entre ricos e pobres, mas também en-
tre os poderosos e ricos (p. 30).
Santos (2008), ao estudar a política de descentralização da saúde, re-
velou que há uma apropriação privada do público, embutida no discur-
so democrático de participação. As relações clientelísticas são reforçadas,
mantendo-se a dominação e a realização dos interesses dos grupos que
detêm o poder. Assim,
o ‘coronel’ se urbanizou e não é mais o padrinho dos filhos das Marias,
Antônias e tantas outras mulheres e famílias tuteladas, espalhadas pelo
interior do Brasil. No anonimato urbano, as relações clientelísticas de fa-
vor são metamorfoseadas na figura do ‘doutor’, dono do saber, do poder
econômico ou do poder midiático que utiliza as carências sociais, neste
caso, a fragilidade, para realização dos cuidados com a saúde, a fim de

223
Ana Rocha dos Santos

se manter no poder e extrair da condição de representante político seus


ganhos privados (p. 25).

Ainda, segundo Santos (2009), na pesquisa realizada sobre o município


e o desenvolvimento local,3 o clientelismo é reconhecido por gestores muni-
cipais e pela população como algo natural, parte constitutiva da cultura na-
cional. A justificativa utilizada pelos prefeitos entrevistados da Microrregião
do Agreste de Itabaiana/SE para a permanência do tratamento patrimonial
da coisa pública é que o povo não reconhece direitos, mas dádivas. De acor-
do com a afirmativa de gestores municipais:
Eu acho que o clientelismo é uma coisa que está muito presente na cultura
de nosso país, infelizmente, mesmo porque as pessoas esperam o clientelis-
mo, a população em geral não está preparada para um governo sem clien-
telismo não, é uma realidade.
É, e espera o favor, de repente é difícil você ter uma população que pensa,
uma certa consciência do que está sendo prestado, do que está sendo feito,
de como é importante avaliar a administração pelo gerenciamento, pela
forma como as coisas estão sendo feitas, as pessoas ainda esperam muito o
favor, aquela coisa do pessoal.
É, isso ainda é uma coisa muito cultural. Eu acho que isso em algum mo-
mento vai sofrer alguma alteração, mais isso ainda é uma coisa muito forte,
principalmente nos municípios, nas cidades menores, porque é um contato
mais direto, é aquela coisa de ver a pessoa, de procurar a pessoa, de saber
quem é (Pesquisa de campo, 2009).

Há, portanto, uma conformação quanto ao uso do poder para a rea-


lização da cultura do favor e da restrição de direitos àqueles que figuram
como oposição política. Desse modo, e como afirma Martins (1994, p.
43),
estamos em face de uma insidiosa disseminação das práticas clientelistas
e patrimoniais da política brasileira para amplos e até inesperados setores
dessa sociedade. Se a sociedade se democratiza, o populismo urbano se
dissemina nutrindo-se de simulacros de patrimonialismo para o estabeleci-
mento de um vínculo de natureza clientelista com os eleitores.

Carvalho (1997), ao analisar as confluências e diferenças entre con-


ceitos de clientelismo, mandonismo, coronelismo e patrimonialismo
3
Projeto O município e a gestão do desenvolvimento local: as relações escalares na produção dos
lugares, financiado pela Fapitec (Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do
Estado de Sergipe), em 2009.

224
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe

destaca que o clientelismo foi ampliado na medida em que houve o de-


créscimo do coronelismo, depois de o Brasil ter se tornado urbano. Com
base nas ideias de Leal (1980), esclarece que o coronelismo é datado
historicamente, com a instauração do federalismo no Brasil, implantado
pela República. É “um sistema político, uma complexa rede de relações
que vai desde o coronel até o presidente da República, envolvendo com-
promissos recíprocos” (p. 1). O clientelismo, por outro lado, perpassa
toda a história política do país, podendo aumentar ou diminuir e até
sofrer modificação de seu conteúdo. No clientelismo há concessão de
benefícios públicos em troca de apoio político, inclusive o voto, dispen-
sando a presença do coronel para o favorecimento político.
O debate acadêmico alimenta a reflexão sobre a formação social do
Brasil e a estrutura do poder que reproduz a dominação. Essa domina-
ção sofre uma metamorfose de acordo com as mudanças econômicas e
sociais verificadas no país, ora apresentando-se de modo mais coerciti-
va, ora mais camuflada em consensos extraídos de uma manipulação
dissimulada.
Embora Carvalho (1997) esteja preocupado com os conceitos e
apresente argumentos que justifiquem os diferentes significados de co-
ronelismo, clientelismo, mandonismo e patrimonialismo, é importante
considerar que essas formas de exercício do poder e da dominação fazem
parte do Estado brasileiro, variando no tempo, conforme novas relações
sociais vão sendo gestadas. No caso do patrimonialismo, a singular rela-
ção entre o público e o privado renova-se para garantir que os interesses
pessoais da autoridade sejam confundidos com o interesse público.
A dominação política e a forte concentração de poder no Estado,
quer sob governos centralizados quer descentralizados, marcam a traje-
tória da história da sociedade brasileira. Nesse sentido, a relação público/
privado sempre foi alicerçada no controle da esfera pública para a viabi-
lização de interesses privados, marca do Estado patrimonial.
O Estado é, portanto, uma criação que atua ideologicamente para a
realização dos interesses de uma classe (a dominante), mas aparece como
a expressão da impessoalidade e satisfação dos interesses de todos, mas-
carando a existência do amálgama público/privado. As práticas sociais
são realizadas sob a acomodação de quem personifica o privado sob o
manto de interesse público.

225
Ana Rocha dos Santos

ESTADO NEOLIBERAL: DESCENTRALIZAÇÃO, PARTICIPAÇÃO E


DOMINAÇÃO PELO CONSENSO
Os anos 1990 inauguraram a implantação do receituário neoliberal no
Brasil, com a adoção de mecanismos econômicos e políticos, o que redese-
nhou a relação entre o público e o privado. A apropriação privada da coisa
pública passou a ocorrer também ancorada na pseudoparticipação da socie-
dade civil. As lutas dos movimentos sociais, dos sindicatos e organizações
da sociedade civil que levantaram bandeiras de maior participação política,
atuação efetiva dos cidadãos na tomada de decisão para a formulação de po-
líticas públicas, foram capturadas pelos gestores dos três níveis federativos a
fim de encontrar respaldo para conduzirem as políticas sociais.
Expressões que não faziam parte de um país governado por militares
foram retomadas e popularizaram-se em todos os cantos do país. Confe-
rências, colegiados e comitês participativos passaram a ocupar importância
fundamental nos documentos oficiais, criados para conduzir os rumos de
um país que inaugurou um novo momento em sua história política: a volta
da democracia e, com ela, o empoderamento da sociedade civil.
Combinar o neoliberalismo com maior participação da sociedade civil pa-
rece contraditório, uma vez que a realização dos interesses da sociedade civil re-
quer ampliação dos direitos sociais, melhoria das condições de saúde, educação,
moradia, segurança, emprego e qualidade de vida no campo e na cidade. Para
tanto, o Estado (mesmo classista) deveria assumir esses compromissos, o que
não corresponde à natureza do neoliberalismo. O ingrediente fundamental para
o sucesso neoliberal reside na construção ideológica de que é necessário reduzir
o tamanho do Estado e tornar a sociedade civil protagonista das políticas so-
ciais. Não se quer, com isso, afirmar que o Estado interventor, característico do
período desenvolvimentista brasileiro, era melhor do que sua versão neoliberal.
Sob qualquer forma já existente, o Estado é, sobremodo, aquele que
nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes, e como, ao mes-
mo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral, o Estado da
classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe que, por
intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante e
adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida (En-
gels, 2002, p. 178).

Confirmando a natureza de classe do Estado ao desenvolver o conceito


de capital-imperialismo e a análise do Estado brasileiro no cenário mundial

226
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe

contemporâneo, Fontes (2010) destaca que o papel do Estado é “o de de-


fender as condições gerais que permitem a expansão do capital, legitiman-
do e legalizando uma forma de ser, gerindo uma sociabilidade adequada,
educando-a, além de coagir os renitentes pela violência, aberta ou discreta”
(p. 216).
Desse modo, as conquistas sociais que visam à classe trabalhadora não
permitem o rompimento das estruturas de poder e de submissão aos inte-
resses do capital nacional e/ou internacional. As políticas públicas que bene-
ficiam grupos sociais pobres atenuam os conflitos, remedeiam o enfrenta-
mento, cedem às pressões dos trabalhadores organizados, mas resguardam
os interesses da classe hegemônica, já que o sistema de controle sociometa-
bólico do capital é totalizador, pois
sujeita cegamente aos mesmos imperativos a questão da saúde e a do comér-
cio, a educação e a agricultura, a arte e a indústria manufatureira, que im-
placavelmente sobrepõe a tudo seus próprios critérios de viabilidade, desde
as menores unidades de seu ‘microcosmo’ até as mais gigantescas empresas
transnacionais, desde as mais íntimas relações pessoais aos mais complexos
processos de tomada de decisão dos vastos monopólios industriais, sempre
a favor dos fortes e contra os fracos (Mészáros, 2002, p. 96).

O Estado neoliberal concorreu para que houvesse a desestruturação da


classe trabalhadora, dos mercados nacionais e a perda de conquistas sociais
através da restrição das atividades de bem-estar e da precarização das rela-
ções de trabalho. Uma série de medidas foi tomada para assegurar o ajuste
estrutural necessário para a sobrevivência de um capitalismo em crise. Entre
essas medidas estão a privatização de empresas estatais, a abertura e liberali-
zação da economia de mercado e a redefinição das funções do Estado, a qual
encontrou na descentralização a fórmula para a gestão. Assim,
a descentralização que a princípio significaria uma aproximação das pes-
soas às decisões sobre seus problemas se dá em um contexto de Estado
mínimo para a questão social. Nesse sentido, foi motivada pela crise fiscal
do governo brasileiro e por problemas de governabilidade, se fortalecendo
como um mecanismo de redistribuição de poder, mas, sobretudo, como
uma estratégia ideológica de fazer pensar que cede aos reclamos da socieda-
de quanto à participação e controle social (Santos, 2008, p. 165).

A política de descentralização redefiniu as relações entre os entes fede-


rativos, delegando maior autonomia aos municípios, mas sem desconcentrar

227
Ana Rocha dos Santos

os recursos e as decisões. Isso na prática significa que o município assumiu


a operacionalização das políticas, sem, contudo, possuir condições para de-
finir os caminhos sociais, econômicos dos seus munícipes.
Do ponto de vista da política de desenvolvimento, há um redesenho es-
calar, um ordenamento que coloca o local como a escala de maior ênfase para
a realização das políticas públicas, principalmente, as sociais. Na política de
desenvolvimento, o local como escala de atuação das ações significa democra-
tizar as relações e satisfazer as demandas de qualidade de vida e bem-estar das
populações. Contudo, a descentralização parece mais uma caricatura, pois
en los proyetos de descentralización, las comunidades locales y regionales
no disponen de verdadera capacidad de gestión; cuando más, pueden seguir
paralizando las iniciativas del poder central, en cierta medida y, por si esto
fuera poco, se trata de hablar los medios de arrebatarles dicha capacidad
(Lefebvre, 1976, p. 59).

Harvey destaca que a descentralização


a menudo ha sucedido, por ejemplo, que la descentralización sea uno
de los mejores medios para preservar un poder altamente centralizado,
porque enmascara la naturaleza de ese poder centralizado bajo una capa
de libertad individual. En cierta forma era eso lo que defendía Adam
Smith­: un Estado centralizado puede acumular mucha más riqueza y po-
der eco­nómico liberando fuerzas de mercado individuales descentraliza-
das (2014, p. 144-145).

De acordo com a concepção de que a descentralização representa uma


lógica de mudança institucional, Goulart (2001) destaca a crença em uma
utopia isonomista no tratamento da realidade brasileira pela formalização
de normas que evidenciam o formalismo brasileiro de forjar os fatos jurídi-
cos antes que os fatos sociais sejam construídos pela história. Desse modo,
a descentralização (muitas vezes sacralizada e transformada em autêntica
panaceia) também criou seus feudos, seus anéis espúrios, seu formalismo
gattopardiano de fazer a mudança acontecer, mas para ficar tudo do jeito
de sempre. O ‘feudalismo predatório’ (...) é uma realidade no Brasil, mas
certamente tem dupla via, seja a dos mecanismos autoritários e clientelistas
de exercício do poder pelas esferas centrais, seja a da postura dependente,
isolacionista e parasitária do outro lado da linha (p. 4).

Com o empoderamento dos municípios e a criação de instâncias parti-


cipativas, em uma organização do planejamento de modo ascendente, cria-

228
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe

-se a ideia de que as decisões são tomadas por aqueles que vivenciam os
problemas e têm a autoridade para definir as soluções. Dessa maneira, as
conferências e reuniões colegiadas realizadas nos municípios devem servir
para a elaboração das políticas nacionais. O que ocorre, no entanto, é a con-
dução sistematizada pelos que dirigem as reuniões para que o consenso seja
alcançado, ratificando as decisões como resultado da participação de todos
os envolvidos.
Na pesquisa sobre o Programa “Casa Nova, Vida Nova”, do governo de
Sergipe, Andrade (2013) esclarece que
sob o discurso da gestão democrática iniciaram as audiências territoriais
para o Pehis,4 no entanto cabe questionar até que ponto quem são os sujei-
tos participantes dessas conferências, pois em três (Território do Alto Ser-
tão Sergipano, Território do Sul Sergipano e Território do Agreste Central
Sergipano) das oito conferências foi verificado que a maioria das pessoas
que vai a este espaço de debate é aliada dos poderes políticos locais (secre-
tariado, pessoas de cargos comissionados etc.). Ou seja, as pessoas que real­
mente necessitam de habitação, na maioria das vezes, não participam das
discussões dos objetivos para a elaboração do Pehis (p. 86).

Para a aquisição da moradia é comum a barganha política, a troca de


favores, na medida em que há dependência do poder político local para ga-
rantir a obtenção da casa do Programa Casa Nova, Vida Nova. Conforme
foi verificado na pesquisa feita por Andrade (2013, p. 120), os depoimen-
tos recolhidos permitiram identificar que a distribuição de casas é feita de
acordo com os interesses do prefeito. Assim, a produção da carência social
é importante recurso para a apropriação privada da coisa pública. O débito
permanecerá permeando as relações sociais entre aqueles que têm o prestígio
político e os que necessitam de bens e ações sociais.
O tratamento patrimonial da coisa pública é revelado quando o favore-
cido pela barganha política consente e se submete à relação de dependência.
Na pesquisa realizada por Santos (2009), o depoimento de um morador de
Itabaiana expressa a relação de dominação-consentimento, característico do
patrimonialismo:
O prefeito é gente boa. Na época da eleição eu fui lá conversar com ele. Eu
prometi que arranjava o voto da família e aí, depois da eleição, ele me deu
esse emprego aqui [vigilante], empregou minha esposa, meu cunhado, mi-

4
Plano Estadual de Habitação de Interesse Social.

229
Ana Rocha dos Santos

nha filha. Mas o coitado teve que demitir todo mundo, menos eu, por cau-
sa da lei que proíbe contratar muita gente (Pesquisa de campo, out. 2009).

Um traço marcante nas políticas implantadas após a instauração do


neo­liberalismo é a dominação pelo consenso. Na política de desenvolvimen-
to territorial, por exemplo, os colegiados e conselhos territoriais são com-
postos por atores sociais cuja representatividade deveria garantir o princípio
da igualdade na tomada de decisões. No entanto, a subordinação ao poder
político local é presença marcante que denota o caráter inovador das rela-
ções patrimoniais.
Almeida (2014) pesquisou a participação da sociedade civil na política
de desenvolvimento territorial, elegendo o conselho municipal de desenvol-
vimento sustentável de Itabaiana como objeto de pesquisa e análise. Neste
trabalho, Almeida constatou que a subordinação do conselho ao poder exe-
cutivo local conduz as ações e decisões desta instância participativa. Assim,
ele esclarece que
um claro exemplo dessa constatação tem sido as interrupções no anda-
mento dos trabalhos desenvolvidos pelo Conselho nos períodos de eleições
municipais. Nos meses que antecedem e sucedem as eleições locais, todas
as ações planejadas e elaboradas segundo o planejamento participativo são
interrompidas, perdendo-se de vista o planejamento e os projetos que pode-
riam ser pleiteados durante esse intervalo de tempo (p. 134).

Nesse sentido, a fragilidade política e a democracia amputada, na me-


dida em que o exercício participativo serve à subordinação e dominação
consentida, são reforçadas nas políticas descentralizadoras e de desenvolvi-
mento local/territorial.
A carência social, embora não seja pressuposto para a reprodução das
relações patrimonialistas, uma vez que os favores são realizados também
entre os mais ricos, é fundamental para que sejam mantidas as relações
de poder. Desse modo, as práticas políticas sujeitam a sociedade inteira ao
seu controle, definindo o que, como e quais práticas sociais devem existir,
descuidando-se da realização dos interesses da população menos favorecida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conteúdo espacial das relações sociais de marca patrimonial obje-
tiva-se na distribuição desigual dos serviços e ações das políticas sociais e
de desenvolvimento. A produção da carência verifica-se espacialmente na

230
A espacialidade das ações políticas do Estado: o público
e o privado na reprodução do patrimonialismo em Sergipe

precária infraestrutura dos serviços sociais, na concentração de terras, na


distribuição desigual de bens e equipamentos necessários à reprodução da
vida.
Para a realização da dominação pelo consenso, a ideologia serve para
mascarar a realidade, para a inculcação das ideias de empoderamento da-
queles que vivenciam os problemas mais de perto. Como um mascaramento
da realidade, as ideias dominantes na sociedade são as ideias da classe domi-
nante, em um processo virtuoso de produzir no outro a experiência de uma
“participação ativa”, sem, contudo, decidir coisa alguma.
A ideologia é capaz de fazer crer que os reclamos da sociedade serão
ouvidos, que existe um protagonismo social, oriundo da escala local, lugar
onde a vida se realiza. Após a redemocratização do Brasil e a instauração
da descentralização como forma institucional de o Estado existir, a trans-
ferência da esfera pública para a esfera privada ocorre pela participação da
sociedade na condução das políticas públicas. As instâncias participativas
(conselhos, conferências, colegiados, audiências públicas) têm contribuído
para a permanência de formas ideológicas de poder. Renovam-se os traços
patrimonialistas, uma subscrição do público pelo privado através de uma
nova roupagem que é a participação e o controle social da sociedade civil.
A mudança nas relações sociais e instauração de uma democracia cuja
igualdade seja substantiva passam, necessariamente, pelo fim da sociedade
capitalista. Para que as condições objetivas sejam gestadas e possam pro-
vocar as transformações necessárias, o empoderamento não pode ser dado
pelos gestores, a participação não pode ser institucional. É necessário que os
dissensos criem espaços de participação efetiva, construídos e abertos como
o lugar de ação política, cuja autonomia represente a emancipação de uma
sociedade em transformação.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Luiz Carlos Tavares de. Participação social e política de desenvolvimento terri­
torial: a produção de uma sociabilidade estabelecida pelo consenso. Dissertação (Mes-
trado em Geografia). Núcleo de Pós-graduação em Geografia da Universidade Fe-
deral de Sergipe, São Cristóvão/SE, 2014.
ANDRADE, Vanilza da Costa. Programa Casa Nova, Vida Nova e política de desenvol­
vimento territorial: habitação de interesse social no Alto Sertão Sergipano. Dissertação
(Mestrado em Geografia). Núcleo de Pós-graduação em Geografia da Universidade
Federal de Sergipe, São Cristóvão/SE, 2013.

231
Ana Rocha dos Santos

CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão


Conceitual. Rio de Janeiro. Dados, v. 40, ano 2, 1997. Disponível em: http://dx.doi.
org/10.1590/S0011-52581997000200003. Acesso em: 22 jan. 2012.
FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2ª ed. Rio de Janei-
ro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010.
GOULART, Flávio A. de Andrade. Esculpindo o SUS a golpes de portarias: considera-
ções sobre o processo de formulação das NOBs. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de
Janeiro. v. 6, n. 2, 2001. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/src/regis-
tro/ForCitArt.jsp?iCve=63060203. Acesso em: 15 dez. 2013.
HARVEY, David. Diecisiete contradicciones y el fin del capitalismo. Quito: Editorial IAEN,
2014.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 1997.
LEAL, Vítor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no
Brasil. 4ª ed. São Paulo: Alfa-ômega, 1978.
LEFEBVRE, Henri. Espacio y Política: El derecho a la ciudad, II. Barcelona: Ediciones
Península, 1976.
MARTINS, José de Souza. O poder do atraso: Ensaios de Sociologia da História Lenta. São
Paulo: Hucitec, 1994.
Mészáros, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boi-
tempo, 2002.
SANTOS, A. R. dos. O desvelar das contradições do modelo de descentralização: as interfaces
escalares na conformação do Sistema Único de Saúde em Sergipe. Tese (Doutorado em
Geografia) – Núcleo de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de
Sergipe, São Cristóvão/SE, 2008.

232
DESCENTRALIZAÇÃO E HABITAÇÃO: PROGRAMA
CASA NOVA, VIDA NOVA NA POLÍTICA DE
DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL DE SERGIPE1

Vanilza da Costa Andrade


Ana Rocha dos Santos

INTRODUÇÃO
Com o processo de redemocratização e a nova Constituição brasileira
de 1988 se instaurou a descentralização do poder do Estado, redesenhando
a responsabilidade e obrigações dos entes federados (União, Estados e mu-
nicípios), o que proporcionaria o rompimento do centralismo das estruturas
tradicionais, como também muitas políticas públicas passaram a ser geridas
e executadas pelos Estados e municípios.
A política habitacional, com o advento da descentralização brasileira,
passou a incorporar conceitos de gestão democrática em que os entes federa-
dos assumem responsabilidade para gerir e executar essa política, ao mesmo
tempo que a política de desenvolvimento local/territorial atribui aos sujeitos
sociais a responsabilidade de transformação da realidade social na qual estão
inseridos.
Em 2007 foi criada a Nova Política de Desenvolvimento Territorial
do Estado de Sergipe com objetivo de romper com as “disparidades” terri-
toriais, através da integração de diferentes órgãos estaduais. No âmbito da
questão habitacional e sob o enfoque territorial, o Programa Casa Nova,
Vida Nova (PCNVN) foi criado em parceria com o governo federal, prefei-
turas e associações, com o objetivo de resolver a problemática habitacional
do Estado.

1
Este artigo é fruto da pesquisa realizada para a dissertação de mestrado intitulada “Programa
Casa Nova, Vida Nova e Política de Desenvolvimento Territorial: Habitação de Interesse Social
no Alto Sertão Sergipano”, sob orientação da Profa. Dra. Ana Rocha dos Santos, defendida em
13 de junho de 2013, no Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de
Sergipe.
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

Assim, o presente texto tem como objetivo analisar o Programa Casa


Nova, Vida Nova na lógica da política de desenvolvimento territorial de
Sergipe. Para atingir o objetivo proposto optou-se pelo método do mate-
rialismo histórico e dialético, entendendo a política a partir das contra-
dições que revelam a essência dessa política social, pois “(...) o método
dialético busca captar a ligação, a unidade, o movimento que engendra os
contraditórios, que os opõe, que faz com que se choquem, que os quebra
ou os supera” (Lefebvre, 1991, p. 238).

EMERGÊNCIA DO CONCEITO DE GESTÃO DEMOCRÁTICA NO


ÂMBITO DA POLÍTICA DE HABITAÇÃO
Após a extinção do BNH2 (Banco Nacional de Habitação) e a elabo-
ração da Constituição de 1988, vigorou um período de poucas iniciativas
governamentais na área de habitação no Brasil, onde ocorreu um vai e vem
de instituições/ministérios encarregadas por elaborar e executar a política
de habitação. É como afirma Arretche (2000),
Em consequência do fechamento do BNH, a segunda metade da década
de 1980 foi testemunha de uma verdadeira ‘via crucis’ do espaço institu-
cional de formulação e gestão dos programas de desenvolvimento urbano.
No período 85-90, as instituições federais encarregadas das políticas ur-
banas experimentaram um caótico processo de transferência entre distin-
tos ministérios (p. 86-87).

A política habitacional, a partir do final dos anos 1980, foi inserida


na Política Nacional de Desenvolvimento Urbano, instituindo as atribui-
ções e competências entre os três níveis de governo, após a promulgação
da Constituição de 1988 que definiu a distribuição da Política Federal de
Desenvolvimento Urbano de acordo com os níveis de Governo (União,
Estados e municípios).
Rodrigues (2011) afirma que os artigos 182 e 183 da Constituição Fe-
deral de 1988 (Brasil, 1988), além de reafirmarem a competência do mu-
nicípio para a implementação da política urbana, explicitam o significado
de função social da cidade e da propriedade urbana.
2
A partir da década de 1970, com a crise econômica do capitalismo e a queda da taxa de emprego
formal e, consequentemente, a diminuição do recolhimento do FGTS, o BNH entrou em
falência e as atribuições dos recursos passaram para a Caixa Econômica Federal (CEF), passando
a operar como principal agente de financiamento habitacional no Brasil.

234
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Após a criação do Estatuto da Cidade em 2001, foram regulamen-


tados os Artigos 182 e 183 da Constituição Federal e, ao mesmo tempo,
estabelecidas as diretrizes gerais da política urbana, além da criação do
Ministério das Cidades, em 2003.
A Nova Política de Desenvolvimento Urbano (PNDU) é marcada
pela necessidade de eleger o município como o responsável em gerir/exe-
cutar essa política de caráter social, pois no discurso do governo ressalta-se
a necessidade de potencializar o município e
(...) ampliar a eficácia, a eficiência e a democratização das políticas. A
gestão municipal teria, ainda, a virtude de ser o nível de governo que
permitiria uma maior integração entre as políticas de provisão de mo-
radias e as políticas fundiária e de controle do uso e ocupação do solo,
o que ampliaria mais suas possibilidades de eficácia/eficiência (Brasil,
2004, p. 11).

A política habitacional passou a ser política de Estado, como a edu-


cação e a saúde, e tornou-se também um direito constitucional, pois “(...)
após 1988 o planejamento urbano torna-se a política urbana por excelên-
cia e, desse modo, a política urbana, no governo Lula, seguiu os parâme-
tros constitucionais regulamentados pelo Estatuto da Cidade” (Rodrigues,
2011, p. 7). E é no Estatuto da Cidade que essa política é regulamentada e
a gestão democrática encarada enquanto fator de transformação social, ou
seja, a população é chamada a participar das discussões e decisões referen-
tes à questão da habitação de interesse social.
Para colocar em prática a PNDU, foi elaborado o Plano Nacional de
Habitação (PlanHab), tendo como objetivo e estratégia equacionar as ne-
cessidades habitacionais do Brasil até 2023, pois “o PlanHab tem como
objetivo estruturar uma estratégia para enfrentar a questão habitacional
e urbana, um dos mais dramáticos problemas sociais, buscando articu-
lar uma política de inclusão com o desenvolvimento econômico do país”
(Brasil, 2009, p. 10).
O PlanHab exige que os Estados e municípios elaborem planos de
habitação de interesse social, traçando as necessidades e a problemática
habitacional de cada localidade. Só com a elaboração desse documento é
que serão autorizados os recursos para a construção de moradias.
Desse modo, em Sergipe, no final de 2011, teve início a elaboração
do Plano Estadual de Habitação de Interesse Social (Pehis), justamente

235
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

para atender as exigências do PlanHab. Inicialmente, foi realizada uma


audiência pública estadual e depois outras audiências nos oito territórios
de planejamento do Estado.
Sob o discurso de gestão democrática se iniciaram as audiências ter-
ritoriais para a PEHIS. No entanto, cabe questionar até que ponto quem
são os sujeitos participantes destas conferências, pois ao realizar pesquisa
de campo em três territórios de planejamento (Território do Alto Sertão
Sergipano, Território do Sul Sergipano e Território do Agreste Central
Sergipano), das oito conferências realizadas em Sergipe, foi constatado
que a maioria das pessoas que participavam nesses espaços de debate é
aliada aos poderes políticos locais (secretariado, sujeitos que ocupam car-
gos comissionados etc.). Ou seja, os sujeitos sociais que realmente necessi-
tam de habitação na maioria das vezes não participam das discussões dos
objetivos para a elaboração do Pehis.
Conforme a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano, a des-
centralização e a gestão democrática são importantes para alcançar os ob-
jetivos propostos, pois o enfrentamento dos problemas está diretamente
vinculado à articulação e recursos nos três níveis de governo (União, Es-
tados e municípios), juntamente com a sociedade. Desse modo, ocorre à
lógica de transferência de responsabilidade, em que a política de habitação
brasileira delega aos municípios a responsabilidade pela promoção do de-
senvolvimento local/territorial.
Percebe-se claramente a necessidade de reafirmar a relevância de criar
a gestão democrática, pois a política de habitação do Brasil passa a respon-
sabilizar as esferas menores (estaduais e municipais) para a resolução do
problema de habitação no país, sobretudo mediante a ideologia de que os
sujeitos são capazes de resolver seus problemas, desviando assim a respon-
sabilidade do Estado para a população.

DESENVOLVIMENTO LOCAL E/OU TERRITORIAL: CRIAÇÃO DA


IDEOLOGIA DA IDENTIDADE LOCAL
A convergência de políticas públicas implementadas sob o enfoque
territorial é uma tendência que se assenta no sucesso da região da Terceira
Itália.
Para Montenegro Gómez (2006), a mensagem do “incrível mundo
novo” da Terceira Itália é transmitida, recheada de conceitos amistosos,

236
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

como capital social, governança, comunidade de produtores etc. O terri-


tório como materialização do público, e o público, como anseio comum
de uma pacífica apropriação privada em troca de um desenvolvimento e
uma cidadania sob suspeita, que oferecem, na realidade, muito menos do
que prometem.
Nesse contexto, o desenvolvimento territorial se dá conforme a lógica
do desenvolvimento local, que parte da dimensão endógena do desenvol-
vimento. Segundo Oliveira (2001), a noção de desenvolvimento local está
ancorada na cidadania, que do ponto de vista neoliberal é sinônimo de
não conflito, de harmonia, de paz social. Como consequência, elabora-se
um discurso sobre o desenvolvimento local como paradigma alternativo
à sociedade plagada de conflitos por todos os lados. O desenvolvimen-
to local é apresentado como um emplastro (do romance de Machado de
Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) capaz de curar as mazelas de
uma sociedade pervertida, colocando- se no lugar bucólicas e harmônicas
comunidades.
Desenvolver na sociedade civil o sentimento de cidadania torna-se
um importante conceito de controle ideológico da população, pois o dis-
curso apresentado é o rompimento de todas as mazelas sociais, e com isso
as lutas sociais acabam por ser enfraquecidas, tornando-se cada vez mais
individualizadas.
O desenvolvimento territorial está relacionado à afirmação de uma
identidade territorial e resulta da necessidade de identificar e valorizar o
local, desenvolvendo as potencialidades, mas esse desenvolvimento condi-
ciona o sucesso à adesão das pessoas que assumirem a condição de atores
sociais, protagonistas das políticas públicas.
O conceito de desenvolvimento territorial começa a ter relevância no
contexto da mundialização do capital, no qual o sistema capitalista passa
a buscar na escala local a possibilidade de garantir a demanda da repro-
dução ininterrupta no ciclo de geração de lucro. Nesse contexto, o de-
senvolvimento territorial está relacionado à afirmação de uma identidade
territorial e resulta da necessidade de identificar e valorizar o local, de-
senvolvendo as potencialidades, desse modo, o “(...) Estado deixa de ser o
agente direto do crescimento, e passa a ser o elemento catalisador e impul-
sionador da sociedade civil e da empresa privada no combate à pobreza”
(Conceição, 2005, p. 168).

237
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

Pode-se afirmar que as políticas de desenvolvimento no Brasil se ca-


racterizaram por serem políticas pleiteadas por aspirações hegemônicas
que enfraqueciam a organização da sociedade civil. A criação da política
de desenvolvimento territorial, em 2003, abriu caminho para a introdução
do capitalismo em escalas cada vez menores, além de disseminar a ideolo-
gia de que a comunidade local é a responsável em adequar-se às demandas
para alcançar o desenvolvimento endógeno.

POLÍTICA NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL


A política de desenvolvimento territorial no Brasil iniciou-se em 2003,
sob o comando do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), atra-
vés da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT). Essa foi intro-
duzida em todas as regiões brasileiras, sendo o espaço agrário o principal
palco de territorialização, pois, segundo o MDA, esse espaço necessitava
de investimentos e, por isso, foi pioneiro.
O conceito de território para o MDA é apresentado como um espaço
físico, geograficamente definido, geralmente contínuo, compreendendo a
cidade e o campo, caracterizado por critérios multidimensionais – tais
como o ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a política e as insti-
tuições – e uma população com grupos sociais relativamente distintos, que
se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos,
nos quais se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identida-
de e coesão social, cultural e territorial (Brasil, 2005).
Para alcançar o desenvolvimento com a implantação da nova política
de desenvolvimento territorial é necessário que haja uma articulação das
políticas públicas, da formação de parcerias, de forma a viabilizar o alcan-
ce de objetivos maiores das políticas públicas para o meio rural, potencia-
lizando resultados e reduzindo desperdícios vinculados à superposição e à
dispersão de esforços (Brasil, 2005).
Pelo exposto, o Plano Nacional de Desenvolvimento Territorial en-
carrega os sujeitos dos territórios da responsabilidade do sucesso local.
“(...) Ou seja, para o MDA, o sucesso do desenvolvimento está condiciona-
do ao reconhecimento e fortalecimento dos ‘potenciais’ embrionariamente
presentes nos territórios” (Lima, 2012, p. 69). A política é caracterizada
por condicionar a participação da sociedade civil, atendendo os interesses
que são globais, mas que se processam dentro do território.

238
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Sob o viés de uma leitura geográfica crítica, o conteúdo do território


expressa apropriação e conflito, o que torna imprescindível na análise da
política de desenvolvimento territorial o desvelamento do que, na maio-
ria das vezes, vem camuflado. Desse modo, Oliveira (1998) afirma que o
território deve ser apreendido como síntese contraditória, como totalidade
concreta do processo de modo de produção/distribuição/circulação/con-
sumo e suas articulações e mediações supraestruturais (políticas, ideológi-
cas, simbólicas etc.) onde o Estado desempenha a função de regulação. O
território é, assim, produto concreto da luta de classes travada pela socie-
dade no processo de produção de sua existência.
Na proposição do MDA, contrariamente à leitura crítica, o território
tem um conceito que parte do local e a valorização do potencial de cada
território ganha destaque, tornando-se assim um “(...) ator de desenvol-
vimento (...). Os lugares são tornados territórios pelo capital e passam a
apresentar a alternativa encontrada pelo capitalismo para suprir as suas
demandas, por sua vez, a descentralização transfere para a sociedade civil
(contraditoriamente, retira dela) a responsabilidade pela eficácia desse ter-
ritório” (Lisboa; Conceição, 2007, p. 122).
Nesse sentido, o território torna-se um ator importantíssimo para
abrandar os conflitos de classes, pois no determinado território do MDA,
todos são considerados iguais, prevalecendo uma pseudo-harmonia uma
vez que se busca a realização dos interesses de todos que dele fazem parte.

NOVA POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO


TERRITORIAL EM SERGIPE
Em 2007, foi criada a Nova Política de Desenvolvimento Territorial
do governo de Sergipe,3 tendo como objetivo romper com as disparidades
territoriais, através da integração de diferentes órgãos estaduais e, ao mes-
mo tempo, através de um processo de planejamento inovador,4 alicerçado
3
Decreto n. 24.338 que institui os oito Territórios de Planejamento que servem de base para a
promoção do desenvolvimento equânime entre as diversas regiões do Estado. Decreto n. 24.339
que institui o Processo de Planejamento do Desenvolvimento Territorial Participativo, sob a
coordenação da Seplan, bem como facultou a adesão das prefeituras municipais ao referido
processo.
4
O Plano de Desenvolvimento Territorial Participativo de Sergipe foi realizado e/ou construído a
partir conferências em três instâncias, ou seja, aconteceram conferências municipais, logo após
as territoriais e a Estadual.

239
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

na ampla participação popular e numa gestão ética assentada no território


e com transparência na aplicação dos recursos públicos (Falcón, 2008).
A principal justificativa para novo planejamento é a condição de tri-
pla desigualdade em que se encontra o Estado de Sergipe: concentração
da renda, resultando em desigualdade social e exclusão; concentração da
infraestrutura social e produtiva no litoral do Estado (67% do PIB é pro-
duzido no litoral e as oportunidades de emprego acompanham esse indi-
cador – 40% dos empregos formais estão no setor público), resultando em
desigualdades territoriais (Falcón, 2008). Além dessa justificativa prin-
cipal, foram formulados argumentos para precisão teórico-metodológica
para as dimensões do território5(jurídico-políticos, culturais, econômicos,
semiológicos, psicossociológicos) e da prática histórica.
Essa política territorial imprimiu uma nova regionalização que in-
clui oito territórios denominados de territórios de planejamento, formados
através de um conjunto de dimensões: ambiental, econômico-produtiva,
social, político-institucional e cultural. A elaboração dessa nova regionali-
zação partiu do pressuposto de chamar/convocar a população para se tor-
nar protagonista dessa política. Os lugares, transformados em territórios,
passaram a ser uma estratégia política e econômica na medida em que o
crescimento e o fortalecimento dos processos produtivos territoriais passa-
ram a ser responsabilidade da população local.
A Nova Política de Desenvolvimento Territorial expõe a necessidade
de que as comunidades e/ou territórios busquem identificar as dimensões
de pertencimento. É necessária a junção das diferentes dimensões eco-
nômico-produtiva, geoambiental, político-institucional, cultural e social
para que se atinja a identidade de cada território de planejamento.
A nova política de desenvolvimento territorial de Sergipe também ela-
borou o chamado “Kit território”, sendo conceituado enquanto “(...) um
‘pacote padrão’ de investimentos públicos que representam, em conjunto,
um mínimo de oferta de serviços públicos e de infraestrutura, para que os
territórios tenham a mesma oportunidade de desenvolvimento econômico
social” (Sergipe, 2007, p. 47). O “Kit território” demonstra que a intenção
do desenvolvimento territorial participativo é colocar a responsabilidade

5
Planejamento Participativo de Sergipe, 2007.

240
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

de desenvolvimento para a população, já que este “Kit” só terá resultado se


os atores sociais forem capazes de levar o desenvolvimento local.
No âmbito da Nova Política de Desenvolvimento Territorial de Ser-
gipe, o Programa Casa Nova, Vida Nova foi apresentando com o objetivo
de resolver a problemática habitacional de Sergipe.

PROGRAMA CASA NOVA, VIDA NOVA: ENTRE


O DISCURSO E A PRÁTICA
O Programa Casa Nova, Vida Nova é parte integrante da Nova Po-
lítica de Desenvolvimento Territorial de Sergipe. Destarte, em relação ao
“Kit Território”, um dos requisitos básicos para se alcançar o desenvol-
vimento do território está atrelado a esta política, pois é elencada como
responsável por erradicar as moradias precárias do Estado, como também
pela construção de habitações direcionadas à população de baixa renda,
cujo intuito é a diminuição do déficit habitacional do Estado.
No que tange ao Território do Alto Sertão Sergipano, o eixo Desen-
volvimento Urbano e Habitação do Planejamento Participativo de Sergipe
(2007) apresentou como principais metas e/ou objetivos a construção de
casas para famílias de até um salário mínimo e a criação do fundo territo-
rial de habitação.
O Programa Casa Nova, Vida Nova também prevê o aquecimento
da construção civil em Sergipe e aumento da oferta de emprego. Segundo
os discursos do governo, resolver o problema de habitação em Sergipe é
também resolver o problema de emprego e renda no Estado (trabalho de
campo, 2011 – conferência do Pehis).
O Programa Casa Nova, Vida Nova tem como financiadores princi-
pais para construção das casas o Ministério das Cidades, a Caixa Econô-
mica Federal, que entra com os recursos do FGTS – fundo de capital dos
próprios trabalhadores – prática que vem sendo executada desde a Ditadu-
ra Militar, como uma das formas de financiamento de moradias populares
destinadas as pessoas de baixa renda e o Incra.
O organograma 1 destaca os principais componentes do Programa
Casa Nova, Vida Nova, ressaltando a articulação entre o governo federal,
estadual e associações locais para a execução desse programa.

241
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

Esquema de funcionamento do Programa Casa Nova,


Vida Nova em Sergipe, 2008

Fonte: Seminário sobre Regularização Fundiária Sustentável, 2008. Organização: Vanilza da Costa Andrade.

O Programa Casa Nova, Vida Nova tem empreendimentos distribuí­


dos na maioria dos municípios de Sergipe. No território do Alto Sertão
Sergipano destaca-se, com a maior quantidade de empreendimentos, o mu-
nicípio de Canindé do São Francisco. Apesar de fazer parte do Território do
Alto Sertão Sergipano, os municípios de Porto da Folha e Nossa Senhora
Lourdes não foram contemplados com conjuntos habitacionais do Progra-
ma Casa Nova, Vida Nova.
A exclusão dos municípios de Porto da Folha e Nossa Senhora de Lour-
des do PCNVN pode ser justificada pelo fato dessa política não atingir
todos os municípios do Estado. Na teoria, ou seja, na proposta realizada no
Planejamento Participativo de Sergipe para o Alto Sertão Sergipano, todos
seriam contemplados pelo PCNVN, mas na prática esses municípios não
formam apreciados. A questão também está pautada na burocracia que é
criada e esta tem sido a justificativa utilizada para o não enquadramento dos
referidos municípios no programa.

242
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Em entrevista, o representante da Associação Amigos da Terra do


município de Porto da Folha afirmou que a burocracia barrou a execução
do empreendimento do Programa Casa Nova, Vida Nova no município:
Nós fizemos todo processo aqui e demos entrada na Adema [Adminis-
tração Estadual de Meio Ambiente]. A Adema devolveu o projeto no-
vamente porque precisava de umas adequações, aí peguei o engenheiro
fiz as adequações e até agora nada (...) pagamos aqui mil e trezentos
reais para dar entrada no programa no dia 06/05/2010 (...) o terreno
foi comprado e tá no nome de cada pessoa. São sessenta e quatro lotes
(Trabalho de campo, 2012).

Entretanto, o fator mais relevante para a exclusão de Porto da Folha e


Nossa Senhora de Lourdes do Programa Casa Nova, Vida Nova está pau-
tado na relação de troca de favores entre o Estado e o município. É comum
as políticas públicas serem direcionadas primeiramente aos aliados políti-
cos, ou seja, se prefeito “A” é aliado do governador, será favorecido com a
territorialização da política, mas se o prefeito “B” não for aliado, dificil-
mente será implementada a política em seu município. É nesse contexto
que a questão burocrática passa a ser a grande “vilã”, pois o problema do
PCNVN não incluir o município de Porto da Folha, por exemplo, é resul-
tado dessa e não da questão de troca de favores entre as esferas, ou seja, a
questão burocrática serve para mascarar o jogo de troca de favores entre a
esfera estadual e municipal.
O Programa não garante a construção de casas para comunidades
sem a posse do terreno, então a população necessita que a União ou o
Estado desapropriem ou que as prefeituras cedam lotes para a construção
das moradias. No entanto, o que ocorre com mais frequência é o depósito
por parte dos beneficiados de uma quantia X para a compra do terreno
e a documentação da moradia. Isso é realizado com a abertura de conta
individual na Caixa Econômica Federal de cada pessoa “beneficiada” pelo
Programa Casa Nova, Vida Nova.
O depósito deve ser realizado de uma só vez, e sem um planejamento
prévio, deixando a população que compõe o déficit habitacional muitas
das vezes a mercê desta política, já que não possui o valor estipulado pela
associação para pagar o terreno. Desse modo, não efetuar o pagamento é
ser excluído do Programa Casa Nova, Vida Nova.
Em entrevista realizada com um dos beneficiários do Programa Casa
Nova, Vida Nova no município de Monte Alegre de Sergipe é destacada a

243
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

necessidade de adquirir o dinheiro emprestado para poder participar desta


política pública.
(...) o prefeito pegou o nome das pessoas e depois veio uma folha para
a prefeitura, aí umas pessoas foram contempladas e outras não. Aí teve
uma reunião com a gente e eles pediram dentro de cinco dias para gen-
te arrumar R$1.000,00. Depois tivemos uma reunião com o gerente da
Caixa que deu cinco dias pra gente arrumar esse dinheiro, abrir a conta e
depositar (...) eu tomei emprestado a juro a 10%, paguei em dois meses,
ficou em R$1.200,00 (Pesquisa de campo, 2013).

De acordo com Cartilha do Programa Casa Nova, Vida Nova, quem


pode participar desta política são pessoas com renda familiar per capita até
R$200,00 (duzentos reais), tendo preferência idosos, pessoas com necessi-
dades especiais, famílias chefiadas por mulheres e com maior número de
filhos, famílias que participam dos programas sociais do governo federal,
como o Bolsa Família.
No entanto, em entrevista com moradores de conjuntos habitacionais
em Canindé do São Francisco e Monte Alegre de Sergipe, foi encontrada
outra realidade, diferente da descrita na cartilha do Programa Casa Nova,
Vida Nova, pois muitas casas estão ocupadas por pessoas que não atendem
aos requisitos que o programa elege como prioritários.
(...) é como eu estou te falando, foi os ricos que tem dinheiro, que pode,
que conseguiu esse dinheiro rapidinho aí pra comprar as casas (Pesquisa
de campo, 2013).
(...) rapaz, no máximo 40% das casas aqui são pessoas que realmente pre-
cisam (Pesquisa de campo, 2012).
(...) aqui tem muitas casas fechadas. Se não vem morar é porque não pre-
cisa, né? (Pesquisa de campo, 2012).
(...) tem pessoas que não precisavam de casas e ganharam, e no caso tem
aqui algumas casas de gente que tem casa lá na cidade e pegou outra e
depois vendeu, trocou em carro, e tem casas que o dono tem casa e a do
conjunto tá fechada (Pesquisa de campo, 2012).

No tocante à prioridade dos idosos e pessoas com necessidades espe-


ciais, tanto as casas como a infraestrutura da rua não condizem com as
normas de acessibilidade, não possuem portas largas que permitam o aces-
so, degraus entre os cômodos, rampas adequadas. Além disso, em muitos
casos estas pessoas não são assistidas por essa política pública.

244
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Em entrevista realizada com a representante das pessoas com neces-


sidades especiais de Canindé do São Francisco, ficou clara a luta realiza-
da para conseguir uma casa do Programa Casa Nova, Vida Nova para a
família de uma criança com necessidades especiais que morava em casa
alugada.
(...) Quando começaram a construir aquilo lá que chamam de conjunto
foi uma briga pra conseguir uma casa para Vitória. Porque vereador tem
tantas, outros tem tantas casas (...) então juntei todas as mães de deficien-
tes para ir ao Ministério Público brigar para conseguir uma casa para Vi-
tória. Ai se reuniram todas, umas 300 mães, e fomos pra porta do fórum
falar lá com o juiz para conseguir uma casa do conjunto porque falaram
que não iam dar (Pesquisa de campo, 2012).

Casa destinada a pessoa com necessidade especial.

Foto: Vanilza da Costa Andrade, Trabalho de campo, 2012.

245
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

Inadequação de infraestrutura na casa para pessoas


com necessidades especiais.

Foto: Vanilza da Costa Andrade, trabalho de campo 2012.

Após a reivindicação, a família da criança conseguiu a casa do Progra-


ma Casa Nova, Vida Nova. No entanto, a casa não foi construída/pensada
para uma pessoa que necessita de acessibilidade, pois fizeram apenas uma
rampa improvisada, com portas estreitas e degrau entre a cozinha e o ba-
nheiro (ver figura 3 e 4). É necessário destacar que as casas do Programa
Casa Nova, Vida Nova, em sua maioria, têm problemas na infraestrutura
interna (paredes tortas, falta de instalação de energia adequada, por exem-
plo), sem reboco interno e de tamanho reduzido, o que não permite uma
habitação adequada para os residentes.
Conforme visto no organograma 1, o Estado e/ou as prefeituras devem
arcar com os projetos de abastecimento de água, drenagem, esgotamento sa-
nitário e pavimentação. Além disso, quando o projeto envolve mais de cem
mutuários, pode ser construído um projeto social com recursos da Secreta-
ria de Estado de Inclusão, Assistência e do Desenvolvimento Social (Seides).
No entanto, nos municípios analisados (Canindé do São Francisco e Monte
Alegre de Sergipe), os conjuntos habitacionais construídos não contemplam
as infraestruturas necessárias, e sem essa condição a Caixa Econômica não
libera a entrega das casas (ver figura 5 e 6).

246
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Inadequação de infraestrutura no Residencial Antônio Ferreira de Araújo –


Monte Alegre de Sergipe.

Foto: Vanilza da Costa Andrade, Trabalho de campo, 2013.


Inadequação de infraestrutura no Residencial Antônio Ferreira de Araújo –
Monte Alegre de Sergipe.

Foto: Vanilza da Costa Andrade, Trabalho de Campo, 2013.

247
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

É importante destacar o discurso do Estado sobre a inadequação de


infraestrutura dos conjuntos habitacionais, pois segundo o representante da
Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SEDURB) “(...) a culpa é das enti-
dades organizativas porque compram terrenos em locais inapropriados para
a execução da infraestrutura” (pesquisa de campo, 2012). Desse modo, co-
loca-se a culpa nos sujeitos pelo não acesso a uma moradia digna e com boa
qualidade de vida. Isto é característico da lógica de desenvolvimento local/
territorial, na qual os atores sociais são responsáveis por alcançar o desenvol-
vimento pleno da comunidade.
Dentre as principais dificuldades enfrentadas pela população residente
nos conjuntos habitacionais da área em estudo destacam-se a água (ver fi-
gura 7), rede de esgoto, calçamento e coleta de lixo. Além da falta de água
e de infraestrutura, destaca-se a situação de abandono na qual se encontra
o Residencial Antônio Ferreira de Araújo em Monte Alegre de Sergipe, pois
a coleta de lixo não ocorre com frequência, acumulando lixo nas ruas do
conjunto (ver figura 8).
Abastecimento de água no Residencial Aldeson Gomes
em Canindé do São Francisco

Foto: Vanilza da Costa Andrade, trabalho de campo, 2012.

248
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

Falta de coleta de lixo regular no Residencial Antonio


Ferreira Araujo em Monte Alegre.

Foto: Vanilza da Costa Andrade, Trabalho de Campo, 2013.

O Programa Casa Nova, Vida Nova é uma política que tem como prin-
cipal finalidade a diminuição do déficit habitacional de Sergipe, no entan-
to, apenas construir moradias novas não é um indicativo de que os sujeitos
conseguirão uma habitação adequada, pois nos municípios estudados, além
das casas, em sua maioria, não serem direcionadas aos sujeitos que realmen-
te necessitam, aquelas que fazem parte do cálculo do déficit, o Estado não
disponibiliza a infraestrutura necessária para que as pessoas possam viver
dignamente.

PERPETUAÇÃO DAS RELAÇÕES CLIENTELÍSTICAS NO ALTO


SERTÃO SERGIPANO A PARTIR DO PROGRAMA CASA NOVA,
VIDA NOVA
O clientelismo político6 – relação de trocas de favores que confunde o
público e o privado – é uma característica da sociedade brasileira, pois cor-
robora com a manipulação das pessoas, o que muitas vezes passa de geração
6
Martins (1994) define o clientelismo político como uma relação de troca de favores políticos
por benefícios econômicos, não importa em que escala. Portanto, é essencialmente uma relação
entre poderosos e os ricos, e não principalmente uma relação entre os ricos e os pobres. Muito

249
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

em geração. O resultado desta manipulação política é o voto, formando


“verdadeiras teias de débitos e créditos morais” (Martins, 1994, p. 35).
O Estado brasileiro é historicamente instrumento de uma prática de
indistinção entre o público e o privado, pois “(...) a política do favor [é] base
e fundamento do Estado brasileiro, não permite nem comporta a distinção
entre o público e o privado” (p. 20). Esses são comportamentos políticos que
estão um no outro e as práticas de subordinação política sempre tiveram su-
porte e estiveram desde a formação do Estado brasileiro gestados por estas
relações sociais.
O clientelismo político, no Brasil, continua em voga, numa relação
constante de troca de favores com o intuito de conquistar cada vez mais
o eleitorado (sociedade), numa constante “(...) força eleitoral conservadora,
que se tornou fiel da balança política brasileira” (p. 32), tornando-se muito
eficiente na fase atual do sistema capitalista, já que o Estado assume uma
feição e ideia de liberdade e de direito universal. O clientelismo não é ape-
nas uma prática que se estende na troca de favores diretos, calcados no voto
como resultado final desse ciclo, mas o voto é apenas o último instrumento
de vínculo desta troca de favor.
No Programa Casa Nova, Vida Nova é necessário que a sociedade es-
teja organizada em associações, cooperativas etc. aliadas, muitas vezes, ao
poder político local, pois “o povo aí que tem casas é quase tudo do lado do
prefeito que pegou meio mundo de casa e quem tem precisão não pegou de
jeito nenhum” (Pesquisa de campo, 2013).
Nesse contexto, a barganha política então é camuflada, pois aqueles
que conseguem casas, em sua maioria, são aliados ao poder político local.
Entretanto, aqueles que conquistam as casas do PCNVN serão “cobrados”,
em épocas eleitorais, pelos votos de toda a família, pela casa ganhada/doada
por determinado político, o que comprova que há um fortalecimento das
relações clientelísticas por meio de políticas públicas.
Muitas das famílias que moram nos conjuntos habitacionais do Programa
Casa Nova, Vida Nova não fizeram parte de seleção; elas vivem lá ou de alu-
guel ou porque compraram uma das casas. É como afirma uma entrevistada:
Quando eu comprei eu dei R$5.500 (...). A maioria do povo que mora aqui
fizeram foi compra porque quem pegou essas casas foi os ricos (...). Tem
antes que os pobres pudessem votar e, portanto, negociar o preço do voto, já o Estado tinha com
os ricos, isto é, os senhores de terras e escravos, uma relação de troca de favores (p. 29).

250
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

muita gente aí que tem 2, 3, 4 casa, tá aí abandonada sem morar ninguém,


aí os pobres que tem condições de comprar alguma e que fica só na vontade
de comprar uma ou senão aluga (Pesquisa de campo, 2013).

A esfera política consegue controlar os indivíduos, mediante a ideologia


de que todos têm o mesmo direito perante a lei. A democracia no capitalis-
mo tem servido para dominação consentida da população mediante a ação
do Estado que favorece a existência da sociedade de classes. Além disso, a
democracia possibilita que a população ideologicamente dominada “natura-
lize” as desigualdades econômicas, políticas e sociais, como se não houvesse
nenhuma possibilidade da sociedade se mobilizar para mudar a estrutura
social vigente. É como afirma Chauí (2006):
(...) a naturalização das desigualdades e da violência permite, de um lado, a
afirmação de sua imagem como boa sociedade indivisa, pacífica, generosa e
ordeira, e, de outro, considerar perigosas e violentas as práticas dos grupos,
dos movimentos sociais e populares e das classes sociais, ou seja, as ações da
sociedade auto-organizada e mobilizada por direitos. Por esse motivo, con-
flitos, contradições e lutas são caracterizados como crise, e esta é entendida
como perigo e desordem (p. 7-8).

A democracia, que na teoria viria a proporcionar “igualdade” e direitos


a todos perante as leis, tornando a população independente e com capaci-
dade de reivindicar seus direitos, trouxe consigo uma democratização que
serviu enquanto objeto de dominação de atores hegemônicos, pois essa é
utilizada para dominar ainda mais a população, na medida em que há uma
conformação geral mediante ideologia de que todos têm o mesmo direito.
Nesse contexto, a política do favor torna-se cada vez mais em voga, pois
também garante a permanência de lideranças políticas locais.
É como afirma Chauí:
(...) um poder pensado e realizado sob a forma da tutela e do favor, em que
o governante se apresenta como aquele que detém não só o poder, mas tam-
bém o saber sobre o social e sobre a lei (o significado da lei) e, portanto, priva
os governados do conhecimento do mundo sociopolítico, podendo assim,
tutelá-los. Como não há mediações políticas nem mediações sociais para que
o poder se exerça, a tutela se manifesta numa forma canônica de relação entre
governante e governado: a relação do poder e da clientela (2006, p. 9).

O Estado utiliza-se da ideologia criada a partir de uma democracia for-


jada e guiada pelo capitalismo, aqui manifestada no discurso de participa-

251
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

ção social, para continuar a dominar a população, pois as políticas públicas


na atualidade, como é o caso do Programa Casa Nova, Vida Nova, tornam-
-se a pedra angular dos políticos para controlar a população, imprimindo,
muitas vezes, produções espaciais diferenciadas no território.
Em uma sociedade de classes antagônicas, a repartição dos recursos dá-
-se de maneira diferenciada no espaço geográfico, já que esses são distribuídos
de acordo com os interesses políticos e não de acordo com a necessidade da
população. Assim, os indivíduos que são “beneficiados” por determinada po-
lítica pública, são, em sua maioria, partidários do poder local ou “ganham” o
benefício e serão “cobrados” em épocas eleitorais pelo favor prestado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento territorial, nova estratégia de política para equa-
cionar questões referentes aos desequilíbrios originados por uma sociedade
capitalista, tem a partir de políticas públicas uma dimensão geográfica por
pautar-se na construção de territórios com identidade econômica e cultural,
baseados na participação popular.
Sob a perspectiva de desenvolvimento territorial, o Programa Casa
Nova, Vida Nova foi criado em 2007 com o objetivo de suprir as necessida-
des habitacionais de Sergipe, tornando-se um importante instrumento para
a política de desenvolvimento territorial do Estado, pois a população passa a
ser encarada como agente fundamental e indispensável para elevar o desen-
volvimento do território, sobretudo na modalidade concentrada que são os
grandes conjuntos habitacionais.
O desenvolvimento territorial a partir do PCNVN reafirma a necessi-
dade de criar a ideologia de que os sujeitos sociais são agentes capazes de re-
solver seus próprios problemas, evidenciando que essa política é basilar para
adequar o território para a expansão capitalista em escalas cada vez menores,
pois ao criar um programa desse porte abre espaços para a acumulação do
capital via, principalmente, o aquecimento da construção civil. Desse modo,
transferir a responsabilidade para a população também é uma maneira de
abrandar as lutas, pois estas cada vez mais se tornam individualizadas.
Neste contexto, os beneficiados pelo PCNVN, em sua maioria, não
são os sujeitos sociais que compõem o déficit habitacional básico dos mu-
nicípios, pois muitos dos que compõem o déficit moravam nos conjuntos
habitacionais na forma de aluguel e/ou compraram de terceiros que foram

252
Descentralização e habitação: programa Casa Nova,
Vida Nova na política de desenvolvimento territorial de Sergipe

“agraciados” com esta política. Além disso, foram visualizadas muitas casas
fechadas sem nenhum morador. Segundo entrevistados, estão fechadas por-
que são pessoas que não necessitam de moradia, pois já têm casas em outros
locais dos municípios.
Outro fator importante desvelado com a pesquisa foi a manipulação
política que ocorre com os representantes políticos locais na distribuição
das casas do PCNVN, visto que os representantes das associações (um dos
componentes exigidos para territorialização da política em um município)
são aliados dos poderes políticos locais e isso é uma maneira de mascarar a
escolha dos beneficiados por essa política. Outra forma desta política não
atingir as pessoas que compõem o déficit habitacional básico é a questão do
depósito para a compra do terreno, na maioria das vezes feito de maneira rá-
pida, ou seja, sem um aviso prévio para que as pessoas consigam o dinheiro
para a compra. Desse modo, “elege-se” os beneficiados de acordo com “ne-
cessidades” e interesses eleitorais.
O PCNVN é utilizado pelos poderes políticos locais para manter os
sujeitos sociais sob sua tutela, pois a relação de troca de favores está rela-
cionada com a conquista da casa própria, já que a maioria dos beneficiados
pelas casas são aliados do poder político local. É neste contexto que se ve-
rifica a atualidade de velhas/novas relações clientelísticas que se camuflam
em políticas públicas, como é o caso da política de habitação de interesse
social de Sergipe.

REFERÊNCIAS
AFFONSO, Rui de Britto Álvares. Descentralização e reforma do Estado: a federação
brasileira na encruzilhada. Economia e Sociedade. Campinas, n. 14, p. 127-152, jun.
2000.
ARRETCHE, Marta. Estado federativo e políticas sociais: determinantes da descentraliza­
ção. Rio de Janeiro: Revan, 2000.
BRASIL, Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável: Guia para Planeja-
mento. Ministério de Desenvolvimento Agrário – MDA, Brasília, 2005.
_____ . Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano. Ministério das Cidades, 2004.
_____ . Plano Nacional de Habitação. Ministério das Cidades. Brasília, 2009.
CARTILHA DO PROGRAMA CASA NOVA, VIDA NOVA. Disponível em: http://
www.seplan.se.gov.br/externo/publicacoes/folheto%20eletronico/cartilha_casa_
nova_vida_nova/cartilha.html. Acesso em: 10 ago. 2010.
CHAUI, Marilena. Democratização e transparência. Textos de referência, relevantes para
reflexão e debate, 2006.

253
Vanilza da Costa Andrade e Ana Rocha dos Santos

CONCEIÇÃO, Alexandrina Luz. A Geografia do espaço da miséria. Revista Scientia Ple­


na, v. 1, n. 6, 2005, p. 166-170.
FALCÓN, Maria Lúcia. Planejamento Territorializado e Participativo de Sergipe, 2008.
Disponível em: www.consad.org.br/sites/1500/1504/00000796.doc. Acesso em: 10
dez. 2010.
LEFEBVRE, Henri. Lógica formal/lógica dialética. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Bra-
sileira, 1991. Tradução de Carlos Nelson Coutinho.
LIMA, Lucas Gama. Despindo o estratagema das políticas de desenvolvimento territorial no
Alto Sertão Sergipano: o (des)mascaramento da territorialização do capital por meio da
sociabilidade reificante. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 2012 – série teses e
dissertações.
LISBOA, Josefa Bispo de. A trajetória do discurso do desenvolvimento para o Nordeste: polí­
ticas públicas na (dis)simulação da esperança. Tese (Doutorado em Geografia), Núcleo
de Pós-graduação em Geografia, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão,
2007.
_____ ; CONCEIÇÃO Alexandrina Luz. Desenvolvimento local como simulacro do en-
volvimento: o novo-velho sentido do desenvolvimento e sua funcionalidade para o
sistema do capital. Terra Livre. Presidente Prudente, ano 23, v. 2, n. 29, ago.-dez.
2007, p. 115-132.
MARTINS, José de Souza. O poder do atraso. São Paulo: Hucitec, 1994.
MATTOS, Carlos A. de. La descentralización, ¿una nueva panacea para impulsar el de-
sarrollo local? Estudios Regionales. Madrid, n. 26, p. 49-70, 1990.
MONTENEGRO GÓMEZ, Jorge R. Desenvolvimento em (des)construção: narrativas es­
calares sobre desenvolvimento territorial rural. Tese (Doutorado em Geografia) Pro-
grama de Pós-graduação em Geografia, Universidade Estadual Paulista, Faculdade
de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente, 2006.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. “As transformações territoriais recentes no cam-
po brasileiro”. Prova do Concurso para provimento de cargo de Professor Titular.
FFLCH-USP, 3/3/1998.
OLIVEIRA, Francisco de. Aproximações ao enigma: o que quer dizer o desenvolvimento lo­
cal? São Paulo: Polis – Programa de Gestão Pública e Cidadania/Eaesp/FGV, 2001.
RODRIGUES, Arlete Moysés. A Política urbana no governo Lula, in: Simpósio Nacional
de Geografia Urbana. N. 12, 2011, Belo Horizonte.
SERGIPE. Planejamento do Desenvolvimento Territorial Participativo de Sergipe. Secre-
taria de Estado do Planejamento (Seplag), Sergipe, 2007.
_____ . Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano. Plano Estadual de Habitação
de Interesse Social (PEHIS). Disponível em: http://www.sedurbse.gov.br/modules/
news/article.php?storyid=849. Acesso em: 18 dez. 2012.
_____ . Seminário sobre Regulação fundiária e Sustentável de Sergipe. Disponível em:
www.seplan.se.gov.br/modules/wfdownloads/visit.php?cid=1&lid=117. Acesso em:
20 ago. 2011.

254
UMA REVISÃO SOBRE A CARTOGRAFIA PRESENTE
NOS ESCRITOS SOBRE O SÃO FRANCISCO1

José Hunaldo Lima

INTRODUÇÃO
A cartografia do Rio São Francisco é lida, nesse artigo, a partir do res-
gate de estudos realizados em diferentes épocas por pensadores (acadêmicos
e técnicos) de diversas áreas do conhecimento. A escolha dos trabalhos para
esta revisão considerou tão somente o seu objeto, a bacia do São Francisco,
cuja cartografia, embora exponha o quadro físico da área da bacia, denota
uma insuficiência de leituras sobre a questão agrária nesse espaço de forma
ampliada, de modo a envolver o debate da estrutura fundiária.
Sabe-se que o conjunto de políticas públicas para o campo ali empreen-
didas resultou em transformações significativas no tocante ao uso e controle
das terras, o que nos levou a realizar essa investigação em obras que tratam
do Velho Chico2 e a desvelar em que medida essas obras e a essa cartografia
são elucidativas do quadro fundiário da bacia. Iniciamos pela reflexão sobre
as obras de Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha, até chegar aos relatórios
da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf).
Seguimos com a leitura de teses e dissertações defendidas nestas últimas
décadas, que enfocam: o estudo do rio, de fragmentos de áreas da bacia,
as microbacias, regiões fisiográficas e áreas municipais em perímetros irri-
gados. Nestes estudos, observou-se o uso de mapas com ênfase também na
questão agrária.

1
O artigo é parte da tese de doutorado intitulada “O uso da cartografia como instrumento me-
todológico de análise da questão agrária na bacia do São Francisco”, realizada no Programa de
Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe, no ano de 2014, sob a orien-
tação da Profa. Dra. Josefa de Lisboa Santos.
2
Denominação carinhosa atribuída ao Rio São Francisco, que também recebe outros nomes,
como Rio da Integração Nacional e Rio dos Currais.
José Hunaldo Lima

A CARTOGRAFIA CONSTANTE NAS OBRAS SOBRE O SÃO


FRANCISCO: DOS RELATÓRIOS TECNICOS À PRODUÇÃO
ACADÊMICA
Na obra O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina, de Teodoro
Sampaio, organizado por José Carlos Barreto de Santana (2008), há um
relato sobre o São Francisco, com a descrição de vilas, dos arruamentos sim-
ples e da situação da curvatura do rio no trecho onde hoje está assentada a
grande barragem de Sobradinho. Na sua expedição, realizada entre 1879 e
1880, o autor destaca a secura e salinidade dos seus principais afluentes, usa-
dos em larga escala para o abastecimento humano e dessedentação animal.
Alguns afluentes nas proximidades da sua foz formavam várzeas com solos
ricos em aluviões, que contribuiam para uma elevada fertilidade natural,
a exemplo do rio Moxotó, que serve como divisa entre Alagoas e Pernam-
buco. Essa viagem foi realizada em período de seca, quando os afluentes
encontravam-se formando extensas áreas de solo exposto, conforme observa
o autor: “O rio Moxotó estava inteiramente seco. O seu leito era então uma
larga estrada com alguns caldeirões de água salgada nas depressões mais
fundas que o gado sequioso procura para matar a sede, sem lograr sequer
mitigá-la” (p. 81).
A obra de Teodoro Sampaio não continha uma cartografia do rio, mas
sua descrição expõe detalhes importantes para se compreender o São Fran-
cisco e a estrutura fundiária dessa região, em relação à qual o autor relata
conflitos de terras no percurso da viagem.
Sampaio era um renomado engenheiro civil e sua expedição tinha ob-
jetivos bem claros. Sua equipe investigou as potencialidades do rio para pos-
síveis construções de hidrelétricas: Três Marias, em Minas Gerais, e Paulo
Afonso, na Bahia.
Outro trabalho relevante é a descrição minuciosa sobre o sertão rea­
lizada por Euclides da Cunha (2002), escrita em 1902, no famoso livro
Os sertões. Esse autor, embora também não realize um mapeamento da
área, retrata as condições em que os sertanejos sobreviviam com suas di-
ficuldades de domesticar o meio físico, e, principalmente, as dificulda-
des de sobreviverem em um espaço dominado, sobretudo pelos grandes
fazendeiros.
Em formato de livro, a obra intitulada de História do São Francisco é
de uma qualidade histórica de considerável valor com relação às proble-

256
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

máticas do Rio São Francisco. Não se pode deixar de fora o trabalho do


Padre Medeiros Neto (1941), na forma de tese para o concurso da Cadeira
de História do Brasil, no Instituto de Educação em Maceió. O traba-
lho retrata de forma simples e consistente alguns acontecimentos no São
Francisco, desde o nome de Opará dado pelos indígenas ao rio, à chegada
dos portugueses e aspectos religiosos, políticos, sociais e econômicos da
região. O estudo pode ser considerado uma instigante descrição da produ-
ção do espaço na bacia, embora mesmo com toda a descrição dos aconte-
cimentos, e não sendo um trabalho de cunho totalmente geográfico, haja
ausência de uma discussão maior acerca da ação dos grandes latifundiários
que concentram terras na região.

A FUNCIONALIDADE DOS MAPAS NOS PLANEJAMENTOS DOS


ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS
O relatório da Codevasf, intitulado de “Plano geral para aproveita-
mento do Vale do São Francisco”, elaborado no Rio de Janeiro, em 1960,
expõe um estudo detalhado da área da bacia e suas potencialidades, refe-
rentes à possível implantação de projetos, para a construção de hidrelétri-
cas, para projetos de irrigação, de navegação, entre outros. Nesse estudo,
chama atenção os mapas em anexo, que mesmo sendo antigos, apresentam
boa qualidade e aplicabilidade. São mapas da rede hidrográfica completa,
mapas das rodovias, ferrovias, de população urbana (com círculos propor-
cionais), de densidade demográfica. Todos eles expõem um elevado rigor
técnico, além de contarem com desenhos de projetos da potencialidade
hidroelétrica do rio.
Para melhor expressar a importância deste relatório e sua contribuição
para outros mapeamentos da bacia, escolhemos algumas destas represen-
tações espaciais para destacar nesta pesquisa. Merece menção o mapa da
distribuição da população que reflete a realidade daquela época no país. O
mapa de população é dinâmico e demonstra a população de 1920 e 1940
e sua respectiva variação, além da sua distribuição por toda a bacia. Nesse
período, anteriormente à construção de Brasília, se observa um vazio de-
mográfico no noroeste mineiro e oeste baiano, como se observa na figura
a seguir.

257
José Hunaldo Lima

População da bacia do São Francisco, 1960

Fonte: Comissão do Vale do São Francisco, 1960.

Nesse relatório encontra-se ainda um mapa referente ao substrato físico


da bacia, rico em detalhes no que se refere à datação das rochas, o qual serve
como fonte para se conhecer, além dos tipos de rochas, a formação de aquí-
feros importantes na atual configuração dos territórios do agrohidronegócio
na bacia.
Pode-se notar, no final do relatório, um dos mais completos mapas da
bacia, não somente para a época, mas que ainda serve de referência para
diferentes estudos. Ele é resultado de outros mapeamentos (mapa-síntese),
com temas variados em relação a equipamentos urbanos, hospitais, aeropor-
tos, escoamento da produção, rodovias e ferrovias, aliados à localização de
usinas hidrelétricas e campos de irrigação. Explicita a preocupação com o
planejamento na bacia, com destaque para a preparação da entrada do agro-
negócio, com irrigação e geração de energia, atrelada à construção de lago
artificial.

258
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

Geologia do vale Sistema regional de transporte do


do São Francisco São Francisco

Fonte: Comissão do Vale do São Francisco, 1960.


Fonte: Comissão do Vale do São Francisco, 1960.

No referido relatório aparecem alguns mapas, enfocando diferentes te-


mas importantes para a bacia e para o país, os quais servem de base para
a aplicação dos atuais projetos de desenvolvimento, cuja preocupação é o
crescimento econômico. Não se observam cartogramas que enfoquem a es-
trutura fundiária da bacia, mesmo o relatório vertendo­-se para estudos da
potencialidade agrícola da região e propagandeando a necessidade de uma
agricultura forte e competitiva.
No relatório intitulado “O Rio São Francisco como via de navegação”,
produzido pela Codevasf, em 1952, de autoria do engenheiro Affonso Hen-
rique Furtado Portugal, há um traçado da potencialidade de navegabilidade
do rio, com ênfase na profundidade do leito principal, com mapas técnicos
de considerável riqueza de detalhes. Grande parte dos estudos naquele con-
texto tinha enfoque na regularização da vazão do rio, para a construção de

259
José Hunaldo Lima

hidrelétricas e aumento da navegabilidade e, posteriormente, investimentos


na agricultura empresarial.

Localização da bacia do São Francisco

Fonte: Comissão do Vale do São Francisco, 1960.

A Revista Brasileira de Geografia de 1947 publicou o artigo “Divisão


regional do Vale do São Francisco”, de Orlando Valverde, preocupado com
a cartografia do São Francisco, com mapas temáticos de considerável valor
sobre o espaço físico, a exemplo dos de hidrografia e do clima, na maioria
das vezes tendo como propósito uma regionalização do vale do rio.
Outro trabalho importante sobre o São Francisco é o livro Na bacia do
São Francisco, de Vitor Figueira de Freitas (1960), que apresenta uma descrição
rápida das características da bacia, como clima, geologia e vegetação e aspec-
tos econômicos e sociais. Chama atenção, no trabalho, um mapa em forma de
croqui. Trata-se de um desenho da localização das futuras construções de algu-

260
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

mas hidrelétricas, com destaque para o complexo de hidrelétricas na altura da


cachoei­ra de Paulo Afonso, o que mais tarde se concretizaria com a construção
das hidrelétricas do complexo de Paulo Afonso e Jatobá, e outras nas proximida-
des de Cabrobó e Floresta, em Pernambuco, que não foram executadas.
O que se observa é uma tendência de apoio ao planejamento e prepa-
ração para a entrada de capital na região, realidade que hoje é visível pelas
políticas públicas, em cada perímetro irrigado em toda a bacia.

Planejamento – bacia do São Francisco

Fonte: Freitas, 1960.

Uma coletânea de textos, intitulada “Sertão do Baixo São Francisco


Sergipano: bacia hidrográfica como unidade de estudo”, de autoria de Bas-
tos e Fonseca (1997), faz um relato de características do Alto Sertão Sergipa-
no, com abordagens sobre a história, a cultura e o ambiente sertanejo local.
Nessa obra, pouco se discute a questão fundiária da bacia do São Francisco,
o que não era o foco principal do livro. Apesar disso, há mapas de uso das
terras para a pecuária e para o urbano, que expõem os afloramentos rocho-
sos e a vegetação primária da caatinga. Todos eles permitem a visualização
da ocupação do espaço da bacia.
Mesmo se tratando de um mapa que representa somente uma reduzida
parcela da área, e se referindo a estudos de bacia hidrográfica como unidade
de estudo, nele são representadas as microbacias do Alto Sertão Sergipano

261
José Hunaldo Lima

(Santa Brígida, das Onças, Jacaré, Campos Novos, Capivara e da Mão Es-
querda). A obra mostra o uso do solo nesta importante parcela do São Fran-
cisco, para se entender toda a dinâmica da produção do espaço, não somente
do vale do rio, mas de toda a região sertaneja de Sergipe.
Entre os livros que visitamos para realizar este texto, também merece
menção o elaborado por Maria Augusta Mundim Vargas, fruto da pesquisa
de doutoramento defendida em 1999, intitulado Desenvolvimento regional em
questão: o Baixo São Francisco revisitado. O livro, que retrata uma realidade
da bacia, especificamente no trecho do baixo curso sergipano, passa a ideia
de uma região integrada, principalmente quando faz uma discussão sobre a
importância das políticas regionais, a exemplo da discussão que realiza sobre
a Codevasf.
Com relação ao uso da cartografia, esse trabalho emprega diferentes ti-
pos de mapas: qualitativos, ordenados, e quantitativos. Dois apresentam toda
a bacia, sendo que o primeiro demonstra a situação das áreas dos programas
da Codevasf, das principais cidades da bacia e da rede hidrográfica, com o rio
principal e seus afluentes o segundo é um mapa de localização das 16 subdi-
visões dos programas de desenvolvimento da Codevasf.
Os mapas que representam o baixo São Francisco se encontram bem
variados, representam setores de atividades, o número de aposentados e pen-
sionistas, entre outros. O que chama atenção são os que se referem à questão
agrária envolvendo os projetos de irrigação e os de conflitos. Um apresentando
a ação do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e outro apresen-
tando projetos de assentamentos do Incra.
Dentre os trabalhos lidos e investigados, aqui descritos, o relatório do Pro-
grama de Ação da Bacia do São Francisco, elaborado pela ANA/GEF/Pnuma/
OEA (2004) é o que conta com o maior número de cartogramas de toda a ba-
cia. São mapas bem variados e que enfocam o substrato físico, com os principais
aquíferos, o de transporte de sedimentos, o de projetos de irrigação e outros. Por
sua vez, há uma ausência de análise sobre os mapas no referido relatório.
O primeiro mapa é um recorte de uma imagem de satélite que serve
como base para os demais. É um produto obtido do satélite landsat. O
mosaico mostra o uso do solo de toda a bacia. Os demais são cartogramas
temáticos, digitalizados e georreferenciados e de ótima qualidade, que po-
dem ser utilizados para diferentes estudos, apesar de não serem explorados
no relatório. Todos os mapas inseridos no relatório são elaborados com

262
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

SIG de alta precisão, no entanto, representam somente o espaço físico da


bacia, sem apresentar aspectos como população, renda, produção ou ou-
tros aspectos sociais.
Uma recente obra de Marco Antônio T. Coelho, escrita em 2005 e
intitulada Os descaminhos do São Francisco, descreve, nos primeiros ca-
pítulos, a história do rio e dos conflitos no campo no entorno da bacia,
principalmente no sul da Bahia (região de Barra) e no norte mineiro (em
Januária). O autor faz ainda um retrospecto sobre a política hidráulica na
bacia, questionando os equívocos da construção de Sobradinho e da futu-
ra implantação do Projeto de Integração de Bacias. No livro, encontra-se
um mapa antigo que representa somente o rio principal e a estrada que
interliga algumas cidades da bacia.
Apesar de a discussão sobre o atual Projeto de Transposição, que se
encontra em curso, estar sendo iniciada, o autor é um dos primeiros a
discutir com afinco a problemática dessa política. No livro, a inserção
de mapas é pequena, mas a sua qualidade está no fato de a obra apontar,
de forma cuidadosa e minuciosa, os desafios a serem enfrentados pelos
ribeirinhos.
Sá e Brasil organizaram o livro Rio sem história? Leituras sobre o Rio
São Francisco, em 2005, resgatando alguns aspectos de estimado valor para
se compreender a noção de ribeirinho ou beradeiro (como são chamados),
com sua cultura e histórias que perfazem um prolongado e importante
processo histórico de formação e constituição deste tão importante sujeito
do sertão nordestino. Mas o que mais chama atenção é sua terceira parte.
Em quatro artigos (“O baixo São Francisco: transformações históricas e
econômicas”; “O baixo São Francisco diante de novos arranjos políticos
e institucionais”; “Nos trilhos da história de Piranhas: um ensaio sobre a
estrada de ferro Paulo Afonso” e “Delmiro Gouveia e as alternativas para
o desenvolvimento da região”) os autores enfocam a institucionalização e
espacialização de algumas políticas públicas, com enfoque principal para
o Baixo São Francisco. A discussão se prolonga com um resgate histórico
que vem desde o Império e a configuração da indústria da seca. Apesar
desse resgate, pouco ou quase nada se discute com relação à elevada con-
centração de terras desde a chegada do colonizador, realidade que perdura
até os dias atuais. Vale ressaltar que se trata de textos de considerável valor
não somente da história, mas para entender a espacialização da ação do

263
José Hunaldo Lima

Estado para preparar a entrada do capital, principalmente no sertão. A


Revista RDE (Revista de Desenvolvimento Econômico),3 em dezembro de
2010, fez uma edição especial sobre o São Francisco. Na edição, todos os
artigos se referem ao rio, desde assuntos como cultura, histórias, educação,
gastronomia e outros. A revista trabalha a identidade do ribeirinho. Den-
tre os artigos, o de Scheer e Magalhães, intitulado “Análise do território
de identidade Sertão do São Francisco (BA) via metodologia de integração
em ambiente SIG”, faz uma análise da identidade do sertanejo baiano e se
utiliza do Sistema de Informação Geográfica (SIG), apresentando três ma-
pas. O primeiro realiza a localização do Território de Identidade do Sertão
Baiano; os outros dois são duas imagens de satélite em períodos diferentes
do ano, uma em março e outra em novembro, ambas em 2004. Nelas, fica
bastante visível a diferença do ambiente, nos períodos distintos, um com
maior formação florística e de armazenamento de água. Por ser no perío­
do das cheias na região, a imagem apresenta o meio físico da bacia bem
diferente, em imagem capturada dos satélites no período de seca. O livro
Impactos socioambientais à margem do Rio São Francisco: relação homem x
natureza, de Santos (2010), mesmo representando de forma específica a
margem direita do rio, em Sergipe, retrata uma realidade dos ribeirinhos
rizicultores, que não é só a realidade sergipana, mas de todo o Baixo São
Francisco. Segundo o autor, com as construções de hidroelétricas, prin-
cipalmente de Xingó (a última construída), houve uma diminuição da
vazão do rio e, em consequência, das lagoas marginais (popularmente de-
nominadas de várzeas).
Na obra é possível encontrar um mapa de localização da bacia do São
Francisco, com seus rios, afluentes e hidrelétricas. Por se tratar de uma aná-
lise do município de Porto da Folha em Sergipe, encontram-se alguns mapas
qualitativos e ordenados, a exemplo dos de rede hidrográfica, o de vegeta-
ção e outro de hipsometria da várzea da Ilha do Ouro. Quanto à produção
arrozeira, encontram-se alguns cartogramas e cartodiagramas da produção
antes e após a construção de Xingó. Esses mapas representam a produção no
Baixo São Francisco, e quanto a eles pode-se afirmar que são de destacada
importância para o estudo, pois através deles é possível perceber a mobilida-
de da produção arrozeira após a construção da hidrelétrica e principalmente
3
RDE. Revista de Desenvolvimento Econômico. Ano XII, edição especial, dezembro de 2010,
Salvador/BA.

264
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

com a implantação de Projetos de irrigação no Baixo São Francisco Sergi-


pano. Além desse quadro, o mapa hipsométrico, tem um papel importante
na obra, já que através dele é possível visualizar a perda significativa de água
que antes era acumulada na várzea.

OS ESTUDOS SOBRE O RIO SÃO FRANCISCO NO MEIO


ACADÊMICO
No tocante à revisão que realizamos em teses de doutorado e disserta-
ções de mestrado, constatamos que, na maioria dos casos, são estudos com
enfoques particularizados sobre a bacia e que discutem uma realidade local,
que serve como importante suporte para compreender a produção do espaço
no vale do São Francisco e tocam mais profundamente na questão agrária
dessa região, ora utilizando mais, ora menos mapas.
Boa parte desses trabalhos, observados na biblioteca do Programa de
Pós­-graduação em Geografia, da Universidade Federal de Sergipe, e alguns
de outras instituições de pesquisa, discutem a condição camponesa e confli-
tos por terras em Sergipe. Como o Sertão do São Francisco congrega consi-
derável soma desses estudos, é bastante pertinente mostrar alguns trabalhos
e seus enfoques quanto à problemática que envolve o rio.
As questões relacionadas aos conflitos por terra no Sertão do São Fran-
cisco sergipano retratam tanto os acampamentos (como o Gualter)4 quanto
os assentamentos (Barra da Onça, Jacaré­-Curituba e outros de reforma agrá-
ria), principalmente nos municípios de Canindé do São Francisco e Poço
Redondo, estes com maiores índices de acampados e de assentados. Nesse
quesito, o trabalho de Sérgio O sertão sergipano do São Francisco e os movi­
mentos sociais no campo, de 1999, aborda de maneira bem explícita não so-
mente os conflitos, mas também a inserção da igreja através da Diocese de
Propriá na luta com os camponeses. Por ser um trabalho que se concentra
nestes enfoques, ocorre menor uso de cartogramas. Por sua vez, esses traba-
lhos enfatizam a questão agrária do São Francisco.
O trabalho de doutorado de Silva, intitulado Articulação dos interesses
públicos e privados no polo Petrolina-PE/Juazeiro-BA: em busca de espaço no
4
O trabalho de dissertação de Pedro Sebastião Santos retrata o acampamento Gualter, no muni-
cípio de Canindé do São Francisco, quando o mesmo já contava com uma considerável quan-
tidade de famílias que, organizadas pelo MST, ocupam áreas nas proximidades da Rodovia
Estadual SE 2­ 06. Este conteúdo fica melhor apresentado no corpo do texto.

265
José Hunaldo Lima

mercado globalizado de frutas frescas, de 2003, mesmo não sendo um estudo


de cunho geográfico, serve como ótima reflexão para compreender o pro-
cesso de produção do espaço no polo de irrigação Petrolina­-Juazeiro, mos-
trando de forma contundente a expansão do capital e o processo de acumu-
lação de riquezas de grandes empresas da agroindústria em detrimento da
pobreza e dependência dos pequenos agricultores.
Quanto aos projetos de irrigação e aos perímetros irrigados do São
Francisco, o trabalho de Santos, Mobilidade do trabalho na fronteira do mu­
nicípio de Canindé do São Francisco, defendido em 2004, mesmo não tendo
como principal objetivo analisá­-los, traz em seus anexos mapas que pode-
riam ser mais bem trabalhados no transcurso do estudo; um se refere à ins-
talação da hidrelétrica e suas adjacências, e outro, com maiores detalhes, é a
planta do Projeto de Irrigação Califórnia, com todos os lotes e os canais de
irrigação por estes perpassados.
Na tese de doutorado A fruticultura no Nordeste semiárido: internacionali­
zação, conflitos territortiais e a precarização do trabalho, Bezerra (2012) enfoca as
questões relacionadas à fruticultura no Nordeste brasileiro, com destaque para a
realizada no vale do São Francisco, particularmente os perímetros irrigados da
região de Petrolina e Juazeiro. Para se chegar no Programa de Aceleramento do
Crescimento (PAC) e ao Projeto de Transposição de Águas do São Francisco, o
pesquisador fez um recorte histórico das políticas públicas e órgãos que foram
implementados no Nordeste e no vale do São Francisco. O autor utiliza dois
mapas (em forma de figuras ilustrativas) que demonstram como se processa a
construção da transposição. O primeiro é somente uma figura, sem escala e sem
os outros rigores cartográficos; já o segundo é bem mais trabalhado, refere-se a
um mapa do Ministério da Integração, em que o pesquisador deixa bem claro
como é feita a partilha do território pelas grandes construtoras.
A pesquisa destaca a produção irrigada de uva, manga, melão e ba-
nana. Existem mapas de excelente qualidade destes quatro produtos, com
área plantada e área colhida, nos anos de 2000 e 2009 em todo o Nordeste.
São bem ilustrativos e facilitam a percepção da participação da bacia no
mercado de frutas da região. Além destes, aparece uma sequência de mapas
relacionados ao emprego no setor agrícola do Nordeste, com destaque para
Petrolina e Juazeiro, na bacia do São Francisco.
Com relação à produção irrigada e todo o contexto que lhe é concer-
nente, também merece menção a dissertação de mestrado intitulada “En-

266
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

tre o Estado, o mercado e a reprodução social: organização dos pequenos


produtores do polo irrigado Petrolina/Juazeiro”, de Oliveira (2012). Neste
trabalho é possível identificar a ação do Estado para desenvolver uma agri-
cultura irrigada voltada para os grandes mercados, com implantação de um
pacote modernizador para os grandes irrigantes e deixando os camponeses
à margem do desenvolvimento, o que é frequente nas políticas de irrigação
na bacia do São Francisco.
Com relação aos mapeamentos, encontram-se três mapas: um do Nor-
deste, mostrando o objeto de estudo; um do submédio da bacia; e outro com
a área dos municípios analisados no trabalho. Destacam-se, nos mapas, a
localização da Barragem de Sobradinho e a rede de drenagem da bacia, de
modo que é possível observar que, mais uma vez, como em outros estudos,
a rede hidrográfica está presente.
Outro estudo que tem como objetivo discorrer acerca do Projeto de
Transposição, que atualmente é denominado de Interligação de bacia, é o de
Pagano (2012), Políticas públicas de poverty alleviation e a transposição do Rio
São Francisco: a quem serve a trasposição do Rio São Francisco? Nele, a autora
apresenta mapas da bacia e do Projeto de Interligação. São figuras ilustrati-
vas do polígono das secas, a quantidade de chuvas, e principalmente, duas
ilustrações que mostram a rede hidrográfica de parte do São Francisco, com
a captação dos dois eixos (Norte e Leste) e as bacias receptoras, sendo que
um mapa vem acompanhado do desenho mostrando como será feito para
elevar água em aquedutos e túneis. Neste estudo, merecem destaque quatro
mapas elaborados pela Codevasf, que representam a divisão administrativa
dos municípios que estão totalmente dentro da bacia e os que estão parcial-
mente nela. São cartogramas da divisão fisiográfica, do semiárido, de erosão
e assoreamento e de densidade demográfica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A bibliografia sobre o Rio São Francisco é bastante vasta, tornando di-
fícil esgotar de forma precisa e profunda todo o material, sejam livros, teses,
dissertações, artigos, revistas ou relatórios. Mesmo assim, é possível realizar
uma avaliação da inserção ou não de mapas que tocam na questão agrária
na bacia. Os temas mais recorrentes quanto a essa questão e que aparecem
mapeados em diferentes trabalhos sobre o rio e seu entorno, é o da produção
agrícola, dos conflitos, dos assentamentos e acampamentos, do agronegócio

267
José Hunaldo Lima

de frutas, e mapas da diversificação da produção, sobretudo do agronegócio


irrigado. Aparecem tabelas que expõem os Índices de Gini relacionados à
concentração de terras na região, entretanto, a estrutura fundiária é pouco
mapeada.
A seguir, apresentaremos uma representação cartográfica dos principais
temas abordados no material lido e descrito aqui. Para sua representação ela-
boramos o mapa 6, com base nas principais informações retiradas dos livros
e revistas, das teses e dissertações e dos relatórios.
Chegamos ­à constatação de que, dentre os temas mais abordados, se
encontram: a rede hidrográfica, representada pelo estudo das águas o estu-
do da agricultura ribeirinha, principalmente os projetos de irrigação, tanto
os em funcionamento quanto os que estão sendo implantados; e os estudos
das hidrelétricas, a exemplo de Três Marias, Paulo Afonso, Xingó e Moxotó.
Notou-se que, mesmo em poucos trabalhos, sobretudo os mais recen-
tes, já começam a aparecer mapas que remetem ao Projeto de Interligação de
Bacias (diga-­se transposição). Nesse ponto, destaque-se que são ilustrações
elaboradas com fontes dos órgãos do Estado e que demonstram de forma
incipiente somente a parte estrutural da bacia, por onde os canais irão pas-
sar, tendo como foco principal mostrar o ponto de coleta na barragem de
Itaparica, os rios da bacia e dos rios que irão receber a água desta bacia.
O mapa ao qual nos referimos é um resumo dos principais temas car-
tografáveis em análise, e demonstra a importância da bacia não somente
para Sergipe ou Nordeste, mas para todo o país. Mesmo observando-se a
existência de muitos mapas, é perceptível a necessidade de estudos que ve-
nham corroborar com o aumento de mapeamentos da bacia, em especial da
questão agrária que a envolve.
Como exposto pelas leituras que realizamos, encontramos um conjunto
de produções científicas que corroboraram com o planejamento do “desen-
volvimento” para o vale do São Francisco. Dessa forma, pode-se falar em uma
produção que esteve próxima aos interesses do Estado, ajudando a propagar
a ideologia do progresso pela via da tecnologia, da produção de energia, da
irrigação, garantidoras do crescimento econômico para a área e para o país.
Observou-se pela literatura analisada que, após os anos 1960, o São Fran-
cisco recebeu somas de investimentos para explorar as suas potencialidades e
se transformar no grande eldorado da irrigação, que se estendeu até os anos
mais recentes, com a implantação do Projeto de Integração de bacias.

268
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

Rede hidrográfica. Barragens e projetos de irrigação no São Francisco

Elaboração: José Hunaldo Lima. Fonte: Adaptado do Projeto de Gerenciamento das Atividades Desenvolvidas em Terras da Bacia do
Rio São Francisco, 2004.

Do conjunto dos textos lidos pôde-se inferir alguns resultados. Primei-


ro, que a cartografia ali presente ainda é frágil, tradicional, e pouco incita
grandes indagações. Segundo, mesmo aparecendo estudos sobre o espaço
agrário da bacia, bastante importantes para a compreensão de parcelas da-
quele espaço, não encontramos nos textos lidos um mapeamento que enfo-
que a estrutura fundiária de todo o trecho do rio.

269
José Hunaldo Lima

REFERÊNCIAS
BASTOS, Eduardo Alves; FONSECA, Vania. Sertão do baixo São Francisco sergipano: ba­
cia hidrográfica como unidade de estudo. Aracaju. Codevasf/UFS/CNPq, 1997.
BEZERRA, Juscelino Eudâmidas. A fruticultura no Nordeste semiárido: Internacionaliza­
ção, conflitos territoriais e a precarização do trabalho. (Tese de doutorado). Presidente
Prudente, Unesp, 2012.
COELHO, Marco Antônio T. Os descaminhos do São Francisco. São Paulo: Paz e Terra,
2005.
COMISSÃO DO VALE DO SÃO FRANCISCO. Plano geral para o aproveitamento do
Vale do São Francisco. Rio de Janeiro: Departamento da Imprensa Nacional, 1960.
_____ . O Rio São Francisco como via de navegação. Por Affonso Henrique Furtado Por-
tugal. Rio de Janeiro: Departamento da Imprensa Nacional, 1952.
CUNHA, Euclides. Os sertões. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002 (Série Ouro).
FREITAS, Victor Figueira de. Na bacia do São Francisco. Belo Horizonte: Ed. Santa Ma-
ria, 1960.
NETO, Pe. Medeiros. História do São Francisco. (Tese para concurso de História do Brasil
do Instituto de Educação). Maceió: Casa Ramalho Editora, 1941.
OLIVEIRA, Renata Sibéria de. Entre o Estado, o mercado e a reprodução social: organização
dos pequenos produtores do polo irrigado Petrolina/Juazeiro. (Dissertação de Mestra-
do). São Cristóvão: UFS­NPGEO, 2012.
PAGANO, Luciana Maria Palma. Políticas públicas de poverty alleviation e a transposição
do Rio São Francisco: A quem serve a transposição do Rio São Francisco? (Dissertação
de Mestrado).Cruz das Almas, 2012.
PROGRAMA DE AÇÕES ESTRATÉGICAS PARA O GERENCIAMENTO INTE-
GRADO DA BACIA DO RIO SÃO FRANCISCO E DA SUA ZONA COSTEI-
RA. Projeto de Gerenciamento Integrado das atividades desenvolvidas em terras
na Bacia do Rio São Francisco. Relatório Final. ANA/GEF/PNUMA/OEA, 2004.
RDE. Revista de Desenvolvimento Econômico. Ano XII, edição especial, dezembro de 2010,
Salvador­/BA.
SÁ, Antônio Fernando de Araújo e BRASIL, Vanessa. Rio sem história? Leituras sobre o Rio
São Francisco. Aracaju: Fapese, 2005.
SAMPAIO, Teodoro. O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Org. José Carlos Bar-
reto de Santana. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SANTOS, Luciene Leite. Mobilidade do trabalho na fronteira do município de Canindé do
São Francisco. A estratégia de formação e degradação do espaço. (Dissertação de Mes-
trado). Aracaju: UFS­NPGEO, 2004.
SANTOS, Regnaldo Gouveia dos. Impactos socioambientais à margem do Rio São Francis­
co. Relação homem x natureza. São Paulo: Biblioteca 24 x7, 2010.
SEBASTIÃO, Pedro. O caminho da reforma agrária: acampamento Gualter, roça boa, vida
nova. (Dissertação de Mestrado). Aracaju: UFS­NPGEO, 2004.
SÉRGIO, Marleide Maria Santos. O sertão sergipano do São Francisco e os movimentos so­
ciais no campo. (Dissertação de Mestrado). Aracaju: UFS­NPGEO, 1999.

270
Uma revisão sobre a cartografia presente nos escritos sobre o São Francisco

SILVA, Pedro Carlos Gama da. Articulação dos interesses públicos e privados no polo Petrolina­
PE/Juazeiro­BA: Em busca de espaço no mercado globalizado de frutas frescas. (Tese de
Doutorado). Campinas: Unicamp, 2001.
VALVERDE, Orlando. Divisão regional do Vale do São Francisco. Separata da Revista
Brasileira de Geografia. Ano VI, n. 2, Rio de Janeiro, IBGE, 1945.
VARGAS, Maria Augusta Mundim. Desenvolvimento regional em questão: O baixo São
Francisco revisitado. São Cristóvão: UFS­NPGEO, 1999.

271
SOBRE OS AUTORES

Ana Rocha dos Santos fez seus estudos de graduação (licenciatura e ba-
charelado) e pós-graduação (mestrado e doutorado) na Universidade Federal
de Sergipe, onde atualmente é professora do Departamento de Geografia,
campus Prof. Alberto Carvalho e do Programa de Pós-Graduação em Geogra-
fia (PPGEO). É membro do Grupo de Pesquisa Relação Sociedade-Natureza
e Produção do Espaço Geográfico. Contato: ana.rochaufs@gmail.com
André Vieira Freitas é mestre em Geografia pela Universidade Federal
de Uberlândia (2014). Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade
de Brasília (2010). Atua como docente em geografia na educação básica e no
ensino superior. Desde 2009, é membro do grupo de pesquisa “gestão territo-
rial e ambiental”, com foco na relação entre políticas públicas e espaço geográ-
fico. Contato: andrevfr@gmail.com
Bernardo Mançano Fernandes é doutor em Geografia pela Universida-
de de São Paulo, professor e livre-docente pela Universidade Estadual Paulista
(UNESP). Coordenador da Cátedra UNESCO de Educação do Campo e
Desenvolvimento Territorial, professor dos programas de pós-graduação em
Geografia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia FCT, campus de Presidente
Prudente, e Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, no Ins-
tituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais – IPPRI.
Eraldo da Silva Ramos Filho é doutor em Geografia pela Universida-
de Estadual Paulista “Júlio de Mesquita” (UNESP) – campus de Presidente
Prudente. Realizou estágio de pós-doutorado na Universidad de La Habana
(2011), Cuba, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU, 2009) e na
Universidade Federal Fluminense (UFF, 2017). Atua como professor dos
cursos de graduação e pós-graduação em Geografia da Universidade Federal
de Sergipe (UFS), onde coordena o Laboratório de Estudos Rurais e Urba-
nos (LABERUR). Coordenador do Grupo de Trabalho CLACSO Estudos
Críticos do Desenvolvimento Rural (2016 – 2019). Contato: eramosfilho@
gmail.com
João Cleps Junior é doutor em Geografia pela Universidade Estadual
Paulista, Campus Rio Claro (UNESP/Rio Claro). Professor titular do Insti-
Sobre os autores

tuto de Geografia e coordenador do Programa de Pós-graduação em Geogra-


fia e do Laboratório de Geografia Agraria (LAGEA). Contato: jcleps@ufu.br
Josefa de Lisboa Santos é pós-doutora pela Universidade Estadual Pau-
lista Júlio de Mesquita – campus de Presidente Prudente. Professora associada
do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de
Sergipe. Professora do Departamento de Geografia campus Itabaiana da Uni-
versidade Federal de Sergipe. Coordena o Laboratório de Estudos Territoriais
(LATER) e atua nas áreas de geografia agrária e análise regional. Contato:
josefalisboa@uol.com.br
José Hunaldo Lima possui licenciatura (2000) e bacharelado (2002) em
Geografia, mestrado (2004) e doutorado (2014) em Geografia. É professor
adjunto do Departamento de Geografia do campus Prof. Alberto de Carvalho
da Universidade Federal de Sergipe. Tutor do Programa de Educação Tutorial
(PET) Geografia Itabaiana. Chefe do Departamento de Geografia na gestão
2016-2018, e membro do Grupo de Pesquisa Relação Sociedade Natureza e
Produção do Espaço (PROGEO) DGEI/PPGEO/UFS/CNPq. Desenvolve
trabalhos nas áreas de representação da terra, geografia agrária, análise regio-
nal e ensino de geografia. Contato: hunaldolima@hotmail.com
Leônidas de Santana Marques é licenciado em Geografia pela Uni-
versidade Estadual de Feira de Santana, com mestrado em Geografia pela
Universidade Federal de Sergipe, linha de Análise Regional. Professor da Uni-
versidade Federal de Alagoas – campus do Sertão. É docente dos cursos de
licenciatura em Geografia e Pedagogia. Tem pesquisado principalmente sobre
políticas de desenvolvimento territorial, educação do campo e metodologia do
ensino de Geografia. Contato: leonidas.marques@delmiro.ufal.br
Mariana Santos Lemes é professora, mestre em Geografia pela Univer-
sidade Federal de Uberlândia. Bacharel e licenciada em Geografia pela Uni-
versidade Federal do Mato Grosso do Sul. Tutora presencial do curso de pós-
-graduação lato sensu em Educação Básica do Campo e assessora superior de
cultura do Departamento Municipal de Cultura de Três Lagoas-MS. Conta-
to: marilemess@gmail.com
Marcelo Cervo Chelotti é doutor em Geografia pela Universidade
Federal de Uberlândia (UFU-MG). Professor nos cursos de graduação e
pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia-MG.
Membro do Laboratório de Geografia Agrária (LAGEA) e do Núcleo de
Estudos Agrários e Territoriais (NEAT-CNPq). Atualmente coordenador

274
Sobre os autores

do PIBID Interdisciplinar Educação do Campo. Contato: mcervochelotti@


gmail.com
Mirlei Fachini Vicente Pereira é doutor em Geografia pela Universida-
de Estadual Paulista (UNESP), campus Rio Claro e professor dos cursos de
graduação e pós-graduação em Geografia no Instituto de Geografia da Uni-
versidade Federal de Uberlândia. Realiza pesquisas sobre os temas: moderni-
zação territorial e dinâmica dos lugares; redes e circuitos espaciais de produ-
ção; agronegócio, urbanização e dinâmicas territoriais; região e globalização.
Atualmente, é tutor do Programa Especial de Treinamento (PET Geografia
MEC/SESu) na UFU. Contato: mirlei@ufu.br
Natália Lorena Campos é doutoranda em Geografia pela Universidade
Federal de Uberlândia (UFU). Mestre (2014), bacharel e licenciada (2011)
pela Universidade Federal de Uberlândia. Membro do Laboratório de Geo-
grafia Agrária (LAGEA), do Núcleo de Estudos Agrários e Territoriais (NE-
AT-CNPq), e da equipe editorial da Revista Campo-Território (comitê técni-
co). Contato: natizinhacampos@yahoo.com.br
Raqueline da Silva Santos é graduada em Geografia pela Universidade
Federal de Alagoas. Mestra em Geografia pela Universidade Federal de Sergi-
pe. Professora da Educação Básica na Escola Barão do Rio Branco, Blumenau
– SC. Contato: raqueline.k@gmail.com
Renata Sibéria de Oliveira é doutoranda em Geografia pelo Programa
de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe. Pro-
fessora do Colegiado de Geografia da Universidade de Pernambuco – Cam­
pus Petrolina. Membro do Grupo de Pesquisa Relação Sociedade Natureza e
Produção do Espaço (PROGEO) e pesquisadora do Laboratório de Estudos
Territoriais (LATER/PPGEO/UFS). Contato: renatasiberia01@hotmail.com
Vanilza da Costa Andrade é doutoranda em Geografia pelo Progra-
ma de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO/UFS). Membro do Grupo de
Pesquisa Relação Sociedade Natureza e Produção do Espaço (PROGEO) e
pesquisadora do Laboratório de Estudos Territoriais (LATER/PPGEO/UFS).
Contato: vanilza.geo@gmail.com

275