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RESENHA: SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na


pós-modernidade. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2001.

Esta resenha abordará o primeiro e segundo capítulos, que consistem na primeira parte
da obra “Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade”, bem como o sétimo e
nono capítulos, que se situam na terceira parte da referida obra. O autor logo no prefácio da
obra esclarece que a mesma está dividida em três partes, a primeira tratando sobre algumas
referências teóricas que têm pautado a sua investigação, a segunda analisando alguns aspectos
da crise da modernidade enquanto paradigma societal e a terceira parte fazendo uma análise
combinada com a prospectiva. No primeiro capítulo, intitulado “Cinco desafios à imaginação
sociológica”, o autor formula cinco perplexidades analíticas em face das transformações
sociais do final do século XX e enuncia vias por que se podem traduzir em motivos de
criatividade sociológica. Inicialmente, Santos expõe o contexto sócio temporal no qual
emergem estas perplexidades – as décadas de oitenta e noventa. O autor inicia a análise com
um questionamento – se do ponto de vista sociológico a década de oitenta é uma década para
esquecer.
Santos argumenta, então, que do ponto de vista da questão social, a década de oitenta
é sem dúvida uma década para esquecer, diante do agravamento das desigualdades sociais e
dos processos de exclusão social, tanto nos países centrais, com a crise do Estado-
Providência, quanto nos países periféricos, com a dívida externa, a desvalorização
internacional dos produtos que colocam no mercado mundial e o decréscimo da ajuda externa.
No entanto, o autor pondera que do ponto de vista da participação popular e política dos
cidadãos e grupos sociais – outro pilar da tradição intelectual da sociologia – a década de
oitenta foi muito rica, pois “foi a década dos movimentos sociais e da democracia, do fim do
comunismo autoritário e do apartheid, do fim do conflito Leste-Oeste e de um certo
abrandamento (momentâneo?) da ameaça nuclear” (SANTOS, 2001, p. 18). Neste sentido, o
autor conclui que não é uma década que pode ser esquecida, embora não se queira repeti-la,
de forma que o questionamento que se coloca diz respeito aos desafios que as transformações
ocorridas no final da década de oitenta, as quais passam por novas transformações na década
de noventa, colocam à sociologia e às ciências sociais e humanidades em geral.
Santos destaca que não é fácil responder este tipo de questionamento, ainda mais
levando em conta a dificuldade de uma postura epistemológica que pressupõe a separação
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sujeito-objeto, quando na verdade as transformações englobam a todos. O autor traz à baila,


então, o questionamento sobre o ângulo de observação que a sociologia deve adotar,
destacando que em face da imprevisibilidade das transformações recentes, que tomam a
dianteira sobre a teoria, a realidade torna-se hiper real e parece teorizar-se a si mesma. Santos
conclui que é necessário um ângulo de proximidade crítica, passando a discorrer
posteriormente sobre os desafios, que iniciam como perplexidades produtivas. A primeira
perplexidade apresentada pelo autor diz respeito ao fato dos principais problemas existentes
hoje serem de natureza econômica e contraditoriamente a análise sociológica ter passado a
desvalorizar o econômico, em detrimento do político, do cultural e do simbólico, o que leva
ao questionamento sobre se estaremos a falhar no alvo analítico ou se na verdade é necessária
uma reconstrução teórica radical.
A segunda perplexidade formulada pelo autor diz respeito ao fato de nos últimos anos
terem se intensificado as práticas transnacionais, o que leva ao questionamento se o Estado
nacional é uma unidade de análise em vias de extinção ou se, pelo contrário, é hoje mais
central do que nunca, e quais são as responsabilidades da sociologia neste contexto. A terceira
perplexidade é relativa ao fato de os últimos anos terem marcado o regresso do indivíduo, ao
mesmo tempo em que, contraditoriamente, o indivíduo parece menos individual do que nunca,
diante da vida íntima pública, vida sexual codificada, liberdade de expressão sujeita a critérios
de correção política, liberdade de escolha derivada de escolhas anteriores, de forma que
surgem questionamentos sobre se a distinção indivíduo-sociedade trata-se de um legado que
necessitamos nos libertar, ou se, na verdade, nos libertamos cedo demais do conceito de
alienação, e também sobre como fazer vingar a preocupação com a participação e criatividade
sociais numa situação em que toda a espontaneidade se transforma em artefato midiático.
A quarta perplexidade consiste em se o triunfo da democracia, que liquidou o conflito
Leste-Oeste, se articula com o triunfo do neoliberalismo de que resultará o agravamento do
conflito Norte-Sul? E se estes dois triunfos criarão novos conflitos Norte-Sul, tanto dentro do
Norte como dentro do Sul. Por fim, a quinta perplexidade consiste no fato de que a
intensificação da interdependência transnacional e das interações globais levarem à ideia de
desterritorialização das relações sociais, ao mesmo tempo em que assiste-se,
contraditoriamente, ao desabrochar de novas identidades regionais e locais, levando ao
questionamento de se esta dialética de territorialização/desterritorialização faz esquecer as
velhas opressões e se a velha opressão de classe faz esquecer, ela própria, a presença ou até o
agravamento de velhas e novas opressões locais, de origem sexual, racial ou étnica. O autor
conclui o capítulo afirmando que todas as perplexidades se resumem em uma só: “em
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condições de aceleração da história como as que hoje vivemos é possível pôr a realidade no
seu lugar sem correr o risco de criar conceitos e teorias fora do lugar?” (SANTOS, 2001, p,
22).
O segundo capítulo, intitulado “Tudo o que é sólido se desfaz no ar: o marxismo
também?”, procede a uma avaliação do marxismo enquanto tradição teórica da sociologia,
objetivando distinguir em que áreas ou dimensões este continua atual ou mais atual do que
nunca e em quais outras está desatualizado e precisa ser revisto ou abandonado. Inicialmente,
Santos explica a expressão “tudo o que é sólido se desfaz no ar”, utilizada por Marx e Engels
no Manifesto Comunista de 1848 para caracterizar o caráter revolucionário das mudanças
trazidas pela modernidade e pelo capitalismo, que fez com que práticas sociais pré-modernas
tidas por naturais perdessem toda a sua solidez, evaporada junto com os seus fundamentos, de
forma que o capitalismo implicou numa verdadeira mudança societal global, uma mudança
paradigmática, destacando que a grande complexidade/ambiguidade do Manifesto está em
condenar o capitalismo e celebrar a modernidade na mesma estratégia discursiva. Santos
esclarece que Marx acreditava que, ao mesmo tempo que a solidez pré-capitalista se desfazia
no ar, uma outra solidez se instalava, a das relações de produção capitalista, cuja evaporação
estaria a cargo do movimento operário.
A partir deste ponto, o autor passa a fazer um apanhado histórico do marxismo ao
longo do tempo, destacando primeiramente o período de 1890-1920, tido como a idade de
ouro do marxismo, na qual a Revolução de 1917 evidencia a força revolucionária do
marxismo, que parecia ser capaz de desfazer no ar, a curto prazo, o capitalismo. Santos
destaca que o marxismo foi recepcionado nas ciências sociais quase que imediatamente, tendo
passado a ser estudado em diversas universidade, de forma que inicia-se um dos debates
paradigmáticos da sociologia contemporânea, entre a teoria de Marx e Max Weber, outro
grande fundador da sociologia, sobre o socialismo. O autor explica, então, que neste período
ocorrem duas grandes cisões na reflexão marxista, uma de caráter predominantemente político
e outra de caráter epistemológico. A primeira denominada controvérsia revisionista, que
entende que o marxismo tem que ser profundamente revisto, diante dos fatos não irem
conforme o previsto por Marx, e a segunda cisão, de recorte epistemológico, que ocorre com
as austro-marxistas, que procuraram transformar o marxismo numa ciência empírica, numa
sociologia das sociedade capitalistas. Santos esclarece que sobretudo após 1917, esta
concepção passou a ser fortemente contestada, por entenderem que a mesma desarmava o
potencial revolucionário do marxismo.
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No que tange ao período dos anos trinta e quarenta, Santos discorre que tratou-se de
um período negativo para o marxismo, posto que o capitalismo imperialista e o fascismo
pareceram ter força para desfazer o marxismo no ar, diante da diminuição do movimento
socialista na Europa ocidental e do pesadelo estalinista. A partir dos anos cinquenta, Santos
destaca que o pensamento marxista renasce com vigor, iniciando uma fase brilhante que se
prolonga até o final da década de setenta, evidenciada na revolução chinesa, nos movimentos
de descolonização e abrupta criação de novos países, pela revolução cubana e movimento
estudantil nos países capitalistas centrais da Europa e América do Norte. No entanto, a solidez
do marxismo neste período que de algum modo se virou contra ele próprio e o desfez no ar.
Um dos fatores sociológicos para tal foi a crescente discrepância entre o vigor e a sofisticação
dos debates intelectuais e a mediocridade real do movimento socialista, desertado por uma
classe operária diversa da que fizera a história do marxismo. Neste período ficou claro para
quase todos os cientistas sociais que Marx equivocara-se nas suas previsões sobre a evolução
das sociedades capitalistas e que as suas teorias só com profundas revisões teriam alguma
utilidade analítica, de forma que logo surgem revisões do marxismo, como em 1978 a obra
Para uma Reconstrução do Materialismo Histórico, de Habermas, e em 1981, Uma Crítica
Contemporânea do Materialismo Histórico, de Anthony Giddens, e A Crise do Materialismo
Histórico, de Stanley Aaronowitz.
A década de oitenta, por sua vez, é a década do pós-marxismo, na qual mais do que em
qualquer outro período, a solidez e a radicalidade do capitalismo ganhou força para desfazer o
marxismo no ar e aparentemente de forma definitiva, o que é evidenciado pela ascensão de
partidos conservadores na Europa e nos EUA, pelo isolamento dos partidos comunistas, pelas
exigências do capitalismo multinacional e das instituições de suporte, pela ascensão do
neoliberalismo, queda de governos de orientação socialista, bem como pelo colapso dos
regimes comunistas do Leste Europeu. Este período, como explica Santos, tem um traço
fundamental, é anti-reducionista, antideterminista e processualista. O reducionismo
economicista passa a ser fortemente criticado, pois se considera o determinismo em geral
insustentável, por não considerar fatores políticos e culturais. Neste sentido, o autor destaca a
crítica da sociologia feminista e a de Ernesto Laclau e Chantal de Mouffe, para os quais a
sociedade não tem essência, não tem identidade estrutural. Santos, então, discorre que a
segunda parte do capítulo se ocupará de saber se terminou aí o futuro do marxismo.
O autor inicia, então, uma análise sobre como Max Weber e Durkheim falharam
menos estrondosamente do que Marx nas suas previsões por terem se limitado a prever
variações do presente, enquanto este último, ao tentar prever mais longe e mais radicalmente,
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apresentou uma das últimas grandes utopias da modernidade, cumprindo analisar se podemos
dispensar as utopias ou se a utopia de Marx ainda nos serve ou se é necessário substituí-la
integral ou parcialmente por outra. Santos passa a expor, então, a condição presente, que trata-
se de uma fase de transição paradigmática, entre o paradigma da modernidade e o da pós-
modernidade, transição esta que é evidente sobretudo no domínio epistemológico, mas ocorre
no plano societal global. Por um lado, o autor destaca que a conversão do progresso em
acumulação capitalista transformou a natureza em mera condição de produção, de forma que
estão cada vez mais iminentes os perigos de catástrofe ecológica, e por outro lado, sempre que
o capitalismo teve que enfrentar suas crises de acumulação, o fez ampliando a mercadorização
da vida, mas que os limites desta expansão já estão inultrapassáveis. Assim, fica o
questionamento de se o marxismo tem como contribuir para a superação da condição
presente.
Santos argumenta que no plano epistemológico, o marxismo pouco pode contribuir
para a transição paradigmática, uma vez que Marx demonstrou fé incondicional na ciência
moderna e no progresso e racionalidade que ela podia gerar. Já no plano sócio-político as
coisas podem ser diferentes. O autor passa, então, a explicar que a transição paradigmática
tem vindo a ser entendida de duas formas, uma primeira designada por ele de pós-
modernismo inquietante ou de oposição, que entende que as promessas da modernidade não
foram nem podem ser cumpridas, e uma segunda designada pelo autor de pós-modernismo
reconfortante ou de celebração, que entende que o que está em crise é a ideia moderna de que
há promessas a cumprir e de que o capitalismo é um obstáculo à realização de algo. Para esta
última versão, majoritária nos países centrais, o marxismo nada tem a contribuir. Já para a
primeira versão, defendida pelo autor, é essencial a ideia de uma alternativa radical à
sociedade atual, e Marx formulou uma tal alternativa, de forma que cumpre determinar o
contributo desta para a construção de uma alternativa pós-moderna, o que o autor busca fazer
a partir de três áreas temáticas – processos de determinação social e autonomia do político;
ação coletiva e identidade; e direção da transformação social.
No que tange à primeira área temática dos Processos de determinação social, o autor
destaca que são poucos os que aceitam hoje a versão apresentada por Marx do materialismo
histórico, tanto por conta do seu determinismo e evolucionismo quanto por conta do seu
reducionismo economicista. O autor explica, então, que o determinismo de Marx possibilitou
o desenvolvimento de uma série de conceitos (forças produtivas, relações de produção, modo
de produção) que lhe permitiram proceder a uma análise global da sociedade capitalista, mas
que a análise do presente e do passado, por mais profunda que seja, não pode fornecer mais do
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que um horizonte de possibilidades, motivo pelo qual Marx falhou estrondosamente. Quanto à
insustentabilidade do reducionismo econômico, Santos explica que se dá por duas razões,
primeiro porque a explicação pela estrutura econômica tende a transformar os fenômenos
políticos e culturais em epifenômenos, segundo porque é cada vez mais difícil distinguir entre
o econômico, o político e o cultural. O autor conclui então este tópico afirmando que “é
necessário pluralizar as estruturas a fim de desenvolver teorias que privilegiem a abertura dos
horizontes de possibilidades e a criatividade da ação” (SANTOS, 2001, p. 39).
No que diz respeito à segunda área temática da ação coletiva e identidade, Santos
explica que no marxismo as classes e lutas de classes têm a primazia explicativa e
transformadora da sociedade capitalista, mas que ambas as primazias estão sendo
radicalmente questionadas, tanto porque é muito duvidoso que a classe operária tenha
interesse no tipo de transformação socialista que lhe foi atribuído pelo marxismo e mesmo
que tivesse interesse que ela teria capacidade de concretizá-la, quanto porque ao privilegiar a
opressão de classe, o marxismo secundarizou outros tipos de opressão, como a opressão
sexual, de forma que seu projeto emancipatório ficou truncado.
Com relação à terceira área temática, da direção da transformação social, o autor inicia
discorrendo sobre um dos maiores méritos de Marx, que foi o de articular uma análise da
sociedade capitalista com a construção de uma vontade política de transformá-la numa
sociedade mais livre, igual, justa e humana, afirmando que diante da falha do sujeito histórico
de Marx cumpre saber se falhou com ele a utopia de transformação e também se há algum
interesse nesta averiguação hoje. Santos entende que como estamos num período de transição
paradigmática, a utopia é mais necessária do que nunca. No entanto, o autor pondera que a
utopia de Marx é um produto da modernidade, não sendo suficientemente radical para nos
guiar num período de transição paradigmática, entendendo que a única utopia realista é a
utopia ecológica e democrática, que ele chama de socialismo, destacando que embora a ideia
marxista de que a sociedade se transforma pelo desenvolvimento de contradições seja
essencial para compreender a sociedade contemporânea, Marx não enxergou a articulação
entre a exploração do trabalho e a destruição da natureza.
No sétimo capítulo, intitulado “A sociologia dos tribunais e a democratização da
justiça”, o autor faz uma resenha dos estudos sociológicos sobre a administração da justiça,
identificando as possíveis contribuições destes para uma nova política judiciária atenta ao
imperativo político de democratização da justiça e do acesso ao direito. O autor inicia o
capítulo discorrendo sobre o surgimento da sociologia do direito enquanto ciência social, que
se deu apenas depois da segunda guerra mundial. Destaca, no entanto, que a sociologia do
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direito é de todos os ramos as sociologia aquele em que o peso dos precursores mais tem se
feito sentir, esclarecendo que um dos fatos mais significativos disto trata-se do
privilegiamento, sobretudo no período inicial, de uma visão normativista e substantivista do
direito, em detrimento do direito processual. O autor aponta alguns temas do período para
ilustrar o exposto – a discrepância entre o direito formalmente vigente e o direito socialmente
eficaz; as relações entre o direito e o desenvolvimento sócio-econômico e mais
especificamente o papel do direito na transformação modernizadora das sociedades
tradicionais.
Santos destaca que posteriormente esta conjuntura intelectual se alterou, tendo
contribuído para isso condições teóricas e sociais emergentes no final da década de 50 e início
da década de 60. Quanto às condições teóricas, o autor destaca três: 01) o desenvolvimento da
sociologia das organizações, que tem em Weber um dos principais inspiradores, que
desenvolveu um interesse específico pela organização judiciária, particularmente os tribunais;
02) o desenvolvimento da ciência política e o interesse que esta revelou pelos tribunais
enquanto instância de decisão e de poder políticos; 03) o desenvolvimento da antropologia do
direito, que ao centrar-se nos litígios e nos mecanismos de sua prevenção e resolução desviou
a atenção analítica das normas e orientou-se para os processos e para as instituições. Quanto
às condições sociais, o autor destaca duas: 01) as lutas sociais protagonizadas por grupos
sociais que passaram a confrontar a igualdade dos cidadãos perante a lei com a desigualdade
da lei perante os cidadãos; 02) eclosão, na década de 60, da chamada crise da administração
da justiça, que está em parte relacionada com a anterior, visto que as lutas sociais aceleraram
a transformação do Estado Liberal no Estado-Providência, o que significou uma expansão de
direitos sociais, que resultou em conflitos relativos aos novos direitos e numa explosão de
litigiosidade.
Disto tudo, surgiu “um novo a vasto campo de estudos sociológicos, sobre a
administração da justiça, sobre a organização dos tribunais, sobre a formação e o
recrutamento dos magistrados, sobre as motivações das sentenças, sobre as ideologias
políticas e profissionais dos vários setores da administração da justiça, sobre o custo da
justiça, sobre os bloqueamentos dos processos e sobre o ritmo do seu andamento em suas
várias fases” (SANTOS, 2001, p. 166).
O autor passa a discorrer sobre as contribuições dos estudos sociológicos, dividindo-os
em três grandes grupos temáticos: acesso à justiça; administração da justiça enquanto
instituição política e organização profissional; litigiosidade social e os mecanismos da sua
resolução. No primeiro grupo, do acesso à justiça, o autor destaca que a contribuição da
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sociologia se deu no estudo dos obstáculos do acesso à justiça por parte das classes populares,
que conclui que eram de três tipos estes obstáculos: econômicos, sociais e culturais. Quanto
aos obstáculos econômicos, verificou-se que os custos da litigação eram muito elevados e que
a relação entre o valor da causa e o custo da sua litigação aumentava à medida que baixava o
valor da causa. Outro obstáculo foi relativo à lentidão dos processos, que resulta em custo
econômico adicional. Quanto aos obstáculos sociais e culturais, os estudos revelaram que a
distância dos cidadãos em relação à administração da justiça é maior quanto menor é o estrato
social a que pertencem, em primeiro lugar porque os cidadãos de menores recursos tendem a
conhecer menos os seus direitos; em segundo lugar porque mesmo reconhecendo o problema
como jurídico, os cidadãos de classes baixas hesitam mais em recorrer aos tribunais, pois ou
tiveram experiências anteriores com a justiça negativas ou possuem temor de represálias caso
recorram à justiça; em terceiro lugar por ainda que queiram recorrer à justiça possuem mais
dificuldades, como não conhecer advogados, estar distante geograficamente dos escritórios de
advocacia, etc. Santos destaca que estes resultados refletiram em inovações institucionais e
organizacionais, como instituição de sistema público e assistencial organizado e subsidiado
pelo Estado, para citar uma.
No segundo grupo, relativo à administração da justiça enquanto instituição política e
profissional, Santos destaca que a concepção dos tribunais como instâncias políticas teve
como consequência colocar os juízes no centro do campo analítico, de forma que os seus
comportamentos, decisões e motivações passaram a ser correlacionados com a origem de
classe, a formação profissional, a idade, a ideologia política e social, o que teve como segunda
consequência desmentir a administração de justiça como uma função neutra. Os estudos
apontaram para a importância dos sistemas de formação e de recrutamento dos magistrados e
a necessidade de dotá-los de conhecimentos culturais, sociológicos e econômicos, com vistas
a possibilitar-lhes um distanciamento crítico e uma atitude de prudência no exercício das suas
funções.
No terceiro grupo, relativo aos conflitos sociais e os mecanismos da sua resolução, o
autor destaca que a contribuição inicial veio da antropologia social, que revelou a existência
numa mesma sociedade de uma pluralidade de direitos convivendo, o que gerou enormes
impactos na sociologia do direito, que passou a estudar o litígio e o pluralismo jurídico. Estes
estudos levaram a concluir que o Estado não detém o monopólio da produção e distribuição
do direito e que a diminuição da litigiosidade civil é resultado do desvio desses conflitos para
outros mecanismos de resolução. Estas conclusões resultaram em reformas tanto no interior
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da justiça civil tradicional (oralidade, informalidade) como na criação de alternativas


(arbitragem, conciliação).
O autor conclui o capítulo com o argumento que a melhor contribuição da sociologia
para a democratização da administração da justiça consiste em demonstrar que as reformas do
processo e do direito substantivo não são suficientes, devendo ser complementadas por outras,
como a reforma da organização judiciária, de forma a democratizá-la, e a reforma da
formação e dos processos de recrutamento dos magistrados, o quais devem passar a ser
equipados com vastos e diversificados conhecimentos.
O nono capítulo, intitulado “Subjetividade, cidadania e emancipação”, trata de
algumas questões relativas ao paradigma da modernidade, particularmente sobre como o
excesso de regulação e o consequente déficit de emancipação teve como resultado um
bloqueio de alternativas emancipatórias, daí o apelo do autor à formulação de uma nova teoria
da democracia e da emancipação social. O autor inicia discorrendo que se é complexa a
relação entre subjetividade e cidadania, é ainda mais a relação de qualquer uma delas com a
emancipação, isso porque o paradigma hegemônico aponta para a reafirmação da
subjetividade em detrimento da cidadania e para a reafirmação desigual de ambas em
detrimento da emancipação. Por isso, o autor argumenta que Foucault tem razão ao denunciar
o excesso de controle social produzido pelo poder disciplinar com que a modernidade
domestica os corpos e regula as populações, reduzindo seu potencial político. Santos esclarece
que tratará sobre o desequilíbrio que ocorreu no pilar da regulação.
O autor explica que o desequilíbrio no pilar da regulação foi decorrente do
desenvolvimento hipertrofiado do princípio do mercado em detrimento do princípio do Estado
e de ambos em detrimento do princípio da comunidade. Explica, então, que se tratou de um
processo histórico, que incluiu uma fase inicial de hipertrofia total do mercado no período do
capitalismo liberal, uma segunda fase de maior equilíbrio entre o princípio do mercado e do
Estado sob pressão do princípio da comunidade no período do capitalismo organizado
(Estado-Providência), e por último uma nova fase de hipertrofia do princípio do mercado sob
os princípios do Estado e da comunidade, com a reemergência do liberalismo econômico.
Santos explica que nos últimos vinte anos (anos setenta e oitenta) houve uma difusão
social da produção, por conta das empresas multinacionais, o que possibilitou a despolitização
e até naturalização dos novos imperativos da produção, bem como a indiferenciação
progressiva entre produção e reprodução. O isolamento político das classes trabalhadoras é
uma outra face desta difusão social da produção. Ambos são acompanhados no plano político-
cultural por uma constelação ideológica em que se misturam o renascimento do mercado e da
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subjetividade como articuladores nucleares da prática social, o que representa a revalidação


social e política do ideário liberal. Lado outro, Santos aponta que o isolamento político do
movimento operário facilitou a emergência de novos sujeitos sociais e de novas práticas de
mobilização social (movimentos ecológicos, feministas, pacifistas, antirracistas, urbano, etc.).
Segundo o autor, a principal novidade destes novos movimentos sociais reside no fato de
realizarem tanto uma crítica da regulação capitalista, como uma crítica da emancipação social
socialista, que negligenciou outras formas de opressão. Quanto ao debate relativo à relação
subjetividade-cidadania nos novos movimentos sociais, Santos destaca que alguns entendem
que estes movimentos representam a afirmação da subjetividade perante a cidadania, vez que
alegam que a emancipação pela qual eles lutam não é política, mas antes pessoal, social e
cultural. Pelo contrário, o autor entende que a novidade destes novos movimentos sociais não
reside na recusa da política, mas sim no alargamento da política para além do marco liberal da
distinção entre Estado e sociedade civil.
Na última parte do capítulo, que o autor trata de uma nova teoria da democracia e uma
nova teoria da emancipação, ele conclui que a nova teoria democrática deve proceder a uma
repolitização global da prática social e do campo político, de forma a desocultar novas formas
de opressão e criar, ao mesmo tempo, novas oportunidades para o exercício da democracia e
cidadania. Neste sentido, o autor destaca a politização do espaço doméstico, proposta pelo
movimento feminista, como elemento fundamental da nova teoria da democracia. O autor
ressalta também a importância da politização do espaço da produção, através da politização
das práticas transnacionais. Quanto a uma nova concepção de emancipação, o autor
argumenta que implica na criação de um novo senso comum político, que implique numa
nova cidadania que engloba tanto a obrigação política vertical entre cidadãos e o Estado,
quanto a obrigação política horizontal entre cidadãos, resultando em uma sociedade-
providência transfigurada, que ao mesmo que não dispensa do Estado as prestações sociais,
sabe abrir outros caminhos de emancipação.