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Sampaio Bruno
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Um portuense ilustre do período
republicano

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Bruno Meneses, Filipa Sousa e Pedro Ferreira – Turma 2

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Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Índice
Resumo.......................................................................................................................................... 2
Introdução ..................................................................................................................................... 3
O Homem ...................................................................................................................................... 4
Fase Inicial ................................................................................................................................. 4
Fase de Maturação .................................................................................................................... 5
Fase Final ................................................................................................................................... 6
Os Livros e Publicações ................................................................................................................. 8
Bibliografia selecta de Sampaio Bruno.................................................................................... 10
A Filosofia .................................................................................................................................... 11
Racionalismo ........................................................................................................................... 11
Deísmo..................................................................................................................................... 11
Misticismo ............................................................................................................................... 12
Esoterismo............................................................................................................................... 12
Gnosticismo ............................................................................................................................. 12
Cabala ...................................................................................................................................... 12
Análise artigo José Miguel Sárdica .............................................................................................. 18
Conclusão .................................................................................................................................... 20
Bibliografia .................................................................................................................................. 21
Em Anexo .................................................................................................................................... 22
Entrevista ao Professor José Alves .......................................................................................... 22
Imagens ................................................................................................................................... 24

1
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Resumo
Este trabalho aborda a importância de uma das ilustres figuras portuenses da
Primeira República Portuguesa, Sampaio Bruno, ao longo da sua vida, especialmente no
período de revolta e mudança de regime em Portugal. Como tal, iremos referir não só o
seu papel nas revoltas republicanas, mas também toda a sua obra de importância
acrescida para a literatura portuguesa e para os ideais que este defendia.

Uma entrevista ao docente de História Contemporânea na Faculdade de Letras


da Universidade do Porto, José Alves, irá dar profundidade ao nosso trabalho de
investigação sobre Sampaio Bruno e um artigo de José Miguel Sárdica demonstrará que
as ideias do portuense abrangeram também a área jornalística. Homem de ideais fixas e
de convicções, Bruno deixou a sua marca na história portuguesa, influenciou figuras
como Fernando Pessoa, defendeu uma filosofia que marcou o pensamento heterodoxo
português e viveu, lutando constantemente pela melhoria do estado da sociedade
portuguesa.

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Introdução
A estória deste trabalho começa com a escolha do tema a tratar. Entre várias
hipóteses que percorrem a história de Portugal desde a implantação do liberalismo até
ao 25 de Abril e à chegada da democracia, a escolha deste grupo recaiu sobre a História
da Primeira República, mais especificamente no tópico “Portuenses ilustres do período
republicano”.

A personalidade escolhida teve grande influência no Norte do país mas o eco da


sua opinião não se circunscreveu apenas a essa região. José Pereira de Sampaio é uma
das personagens que marcaram a transição do século XIX para o século XX.

Sobre ele, Teixeira de Pascoaes diria: «A sabedoria foi a qualidade suprema de


Bruno, que se torna assim numa figura quase religiosa, intérprete dos sonhos do
homem, enviada à nossa dolorosíssima ansiedade.» 1

Bruno com os seus textos desmentia aqueles que o acusavam de escrever mal,
mantinha um tom rebuscado e lento e por vezes enveredava por um tom exortatório e
combativo. Foi assim que conseguiu receber elogios de vários autores, entre os quais
António Quadros. Inicialmente os artigos de Bruno primavam pela agressividade e eram
muito polémicos, estilo que com o passar do tempo foi abandonando, voltando-se para
um tom mais coloquial e um estilo erudito. A faceta de filósofo não lhe permitia ser
simples, como a luta de muitos homens públicos da sua época, ainda assim lutou pela
causa liberalista carregando os seus textos com materiais granjeados através da
literatura, diálogo e da meditação. Era movido por uma consciência intensamente
religiosa que o impelia a comunicar aos outros as parcelas da verdade que descobria, daí
que tenha sido pontualmente censurado. Mais tarde, numa fase de abatimento colectivo
da sociedade portuguesa, percebeu que devia apelar aos seus concidadãos que se
empenhassem a recuperar a pátria em crise.

Os seus textos valem pela informação e reflexão neles contida e também pela
necessidade de decifrar e interpretar atentamente todas as palavras. Segundo José
Marinho, «O melhor da obra do filósofo obscuro espera ainda a hora de revelar os seus
méritos, por ora encobertos. Tendo chegado a hora dos intérpretes, eles têm, no entanto,
escasseado.»

Quando questionado sobre o contributo mais importante que Sampaio Bruno


deixou a Portugal, o Prof. José Alves é célere a responder que esse contributo se verifica
a dois níveis: «1) o de militante republicano, com produção jornalística intensa de
doutrinação e acção mobilizadora; 2) como intelectual, atento às doutrinas e
personalidades do seu tempo, mas com temas históricos e obra muito pessoal no campo
da filosofia que faz dele um dos filósofos portugueses mais originais no campo de um
certo misticismo.»

1
A Águia, vol. III, Porto, 1915, p.198

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

O Homem

Fase Inicial
José Pereira de Sampaio nasceu no Porto no dia 30 de Novembro de 1857, na
Rua de Santa Catarina, filho de José Pais de Sampaio e de Ana Albina Pereira Barroso
de Sampaio. O seu pai tinha uma carreira militar, era primeiro-sargento quando uma
revolta republicana em Penamacor, da qual não fez parte activa, levou a que fosse preso
por não ter denunciado alguns colegas implicados na malograda revolução. É na prisão
que José Pais de Sampaio conhece a sua esposa e traduz o romance de Clemência
Robert, Os Quatro Sargentos da Rochadela (1854, Porto). Mais tarde iria tornar-se um
prestigiado chefe de secção do Banco União, maçom convicto e dono de uma padaria na
Rua do Bonjardim, no Porto.

Sampaio Bruno faz uma dedicatória ao pai (pouco depois da sua morte), no seu
primeiro livro, A Ideia de Deus. São várias páginas onde Bruno deixa a sua homenagem
ao homem que foi responsável pela sua maturidade precoce, pela descoberta de autores
como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Jules Simon, e também pela responsabilidade e
dignidade moral do filósofo.

Bruno era um rapaz irreverente e por culpa da sua indiscrição foi descobrir nas
gavetas do pai livros de Victor Hugo que o despertaram para a realidade. É por esta
altura que começa a contactar com as notícias do mundo e decide defender «o sonho
sublime da paz e da liberdade»2. A 8 de Abril de 1872, com 14 anos, publica o seu
primeiro artigo no Diário da Tarde e neste mesmo ano funda, com Júlio Barbosa e
Silva, Henrique Barbosa e A. Cardoso, o jornal académico O Laço Branco do qual só
foram editados apenas três números. O pai não gostou da ideia que o filho passasse a
escrever no jornal com regularidade o que levou José Pereira de Sampaio a assinar os
seus artigos com o pseudónimo Bruno, inspirado em Giordano Bruno (1548-1600),
teólogo italiano, condenado à morte pela Inquisição romana por heresia. Mais tarde
ficaria conhecido por Sampaio Bruno.

Inicialmente, devido à sua irreverência, as suas publicações eram radicalistas e


anticristãs o que gerou uma onda de indignação na burguesia portuense e também nos
redactores que faziam parte do Diário da Tarde. Bruno retira-se e funda alguns jornais
efémeros em 1873, tais como O Vampiro e a revista Harpa, dirigida por Joaquim
Araújo e onde se iniciava também Cesário Verde. Apesar de terem sido efémeros, foram
polémicos e levaram Bruno a tribunal, este foi absolvido por ter apenas 15 anos.

Confessou desde muito cedo ter um “puro deísmo”, amor à liberdade e forte
noção de responsabilidade social, características bem notórias na sua escrita agressiva.
O próximo passo na sua carreira, aos dezasseis anos foi a colaboração nas revistas
Gazeta do Realismo e Tribuna. Por esta altura Bruno inscreve-se no curso superior de
Medicina da Academia Politécnica do Porto, embora os seus problemas de saúde e a
morte do pai (1874) viessem a hipotecar esse desejo. Foi obrigado a trabalhar para
2
Joel Serrão, Sampaio Bruno - O Homem e o Pensamento, 1958

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

sustentar a família e segue as pisadas do pai como bancário. No entanto, a dificuldade


de conciliar a discrição que a profissão de bancário requeria com os seus interesses
intelectuais e a sua actividade de leitor, vocacionado para intervir na vida pública, irão
levá-lo a optar pelo jornalismo, onde será um dos melhores. O filósofo desiste então do
curso de medicina mas aplica-se ainda mais na vida intelectual, conhece Júlio de Matos,
Eugénio Perdigão e Basílio Teles. Eram os tempos das reuniões com outros
companheiros na padaria do seu pai, onde se discutiam problemas de variada ordem:
filosófica, literária e política. Estas reuniões eram chamadas “O Círculo dos
Companheiros” porque partilhavam o mesmo pão, sabedoria e ciência. Em 1876,
publica um ensaio intitulado A Propósito do Positivismo.

Fase de Maturação
Por esta altura, Portugal tinha como escritores de referência Eça de Queiroz,
Teófilo Braga, Oliveira Martins e Antero que convergiam e divergiam nas revistas e
jornais sobre novos ideais que chegavam: socialismo, positivismo, livre-pensamento,
república, ou seja, a rebeldia ante o estabelecido. Estes autores eram lidos com fervor
em Lisboa, Porto e Coimbra, daí que os ideais anteriormente referidos começassem a
circular e a dar origem a pequenas conspirações.

Como já foi dito, Bruno era um puro deísta e as ideias liberais dominavam a sua
forma de pensar, com o ingresso no jornalismo decide combater pelo ideal republicano e
o seu primeiro livro, Análise da Crença Cristã (Porto, 1874) marcaria o início de
quarenta anos de vida literária a proclamar liberdade, igualdade e fraternidade. Passa
também a integrar o Directório do Partido Republicano Português – PRP, em 1878.

A propaganda intensificava-se com as notícias das revoluções republicanas que


vinham da França e de Espanha e a partir de 1870 os republicanos portugueses dedicam-
se a espalhar os ideais de democracia em forma de república, anticlericalismo,
socialismo e mais tarde até comunismo. É deste sincretismo republicano,
revolucionário, democrático, anticlerical e filosofante que provém o pensamento de
Bruno que passa a pautar os seus exercícios de opinião nos artigos e nos livros com uma
tentativa de exaltar o patriotismo e a grandeza do povo para o “despertar” republicano.

Em 1881, o portuense funda os semanários O Democrata e O Norte Republicano


que duraram pouco tempo. Iria ainda surgir outro diário intitulado Folha Nova, dirigido
por Emílio de Oliveira e no qual Bruno prestou uma grande colaboração. Isso não o
impediu de ser suspenso numa fase posterior mas em 1883 decide organizar um novo
diário chamado A Discussão, que também acabaria suspenso em 1887.

Mas é em 1890, com o ultimato inglês, que a luta republicana ganha grande
aderência e passa da conspiração à acção. É neste ano que sai o primeiro número do
jornal A República Portuguesa que visava servir o partido republicano e de que foram
fundadores Sampaio Bruno e Joaquim Gomes de Macedo. Com Antero de Quental e
Basílio Teles, Bruno elabora os estatutos da Liga Patriótica do Norte. A 31 de Janeiro
de 1891, o portuense participa na malograda revolução republicana do Porto, com o

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

fracasso da revolta decide partir para exílio, passando por Madrid, Bélgica, Holanda e
finalmente Paris, onde se fixou para «beber» o ideal republicano com Júlio Chagas. É lá
que escreve o Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana de 31-1-1891 e
Notas do Exílio (1893). Em Paris sofre a influência de personalidades como Santos
Dumont, Benoit Malon, Jules Guesde, Paul Verlaine e António Nobre.

A sua amnistia só lhe seria concedida a 25 de Fevereiro de 1893, já depois de


Bruno ter sofrido uma grande depressão, por culpa das saudades que tinha da sua pátria,
que iria contribuir para o encaminhar numa pesquisa sobre o misticismo e esoterismo,
mergulhando numa literatura gnóstica de inspiração judaica e na ideologia maçónica. Só
voltaria a Portugal em Março, com a sua chegada a ser noticiada pelo jornal republicano
portuense A Voz Pública, no qual Bruno passaria a colaborar em 1894 até 1908. Trouxe
do exílio uma nova mentalidade, mais madura e passados dois meses da sua chegada
saía o livro Notas do Exílio (1893). Sampaio Bruno considerava-se agora um
propagandista.

Em 1895 iria assumir o cargo de redactor principal do jornal portuense A Voz


Pública.

Fase Final
O 31 de Janeiro foi um marco histórico na vida de Sampaio Bruno e muitos
historiadores escolhem essa data como um ponto de viragem na mentalidade de Bruno.
Supõe-se que tenha sido a partir desse momento que passou a meditar e a tirar lições
sobre o carácter ilusório do activismo político a que não preside um pensamento
superior.

Por esta altura, Guerra Junqueiro escrevia a sua obra Pátria (1915), na qual
revelava um Portugal abatido e sem alma. Mas qual seria a atitude de Sampaio Bruno
perante esta apatia nacional? A resposta já tinha sido dada no livro O Brasil Mental
(1898): «A empresa, primacial e fundamental, da descoberta da rota marítima das Índias
é obra e feitura longa, sistemática, comum, de gerações castas que se vão sucedendo,
alargando no tempo e no espaço. Não haverá mesmo, na história do pensamento
humano, caso tão caracterizado – de especulação e de acção de ordem colectiva – tão
íntegro e perfeito como este.»3. Segue-se então uma fase de exortação aos portugueses
com o objectivo de revitalizar a grandeza nacional, tal como no passado histórico.

A primeira década do século XX é então de intensíssima actividade do


publicista. Antes da revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, publica Portugal e
a Guerra das Nações (1906), A Questão Religiosa (1907), os três volumes dos
Portuenses Ilustres (1907-1908) e A Ditadura (1909). Além destas publicações,
mantinha ainda uma intensa colaboração na imprensa periódica, onde a sua opinião era
altamente considerada e era também muito solicitado para prefaciar livros.

3
Sampaio Bruno, O Brasil Mental, 1898

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Bruno sempre foi um escritor habituado a expressar lealmente o seu pensamento,


apesar dos riscos inerentes, razão pela qual sofreu exílio e diversas modalidades de
obstrução à liberdade de imprensa. Veio também a ser vítima dos seus confrades
políticos. No dia 11 de Janeiro de 1902, na sequência do congresso republicano de
Coimbra, no qual o portuense considerara as decisões tomadas incompatíveis com os
princípios democráticos, resolveu desligar-se da disciplina partidária. Poucos dias
depois, Afonso Costa, o principal responsável pela alteração do rumo partidário, haveria
de o agredir na Rua Sá da Bandeira, causando-lhe diversos ferimentos. É também neste
ano que publica a sua maior obra: A Ideia de Deus.

Embora fiel ao seu ideal republicano, não se conseguiu identificar com o modo
como o regime republicano se impôs, o que motivou a declaração de 11 de Fevereiro de
1911, onde informava ver-se obrigado a suspender a publicação no Diário da Tarde,
tendo pouco depois decidido afastar-se, «enojado» da vida política, ou seja, quatro
meses depois da instauração da república.

Em 1908 é nomeado, a 10 de Janeiro, 2º Oficial Conservador da Real Biblioteca


Municipal do Porto, pela vereação municipal e elevado a director no ano seguinte. A sua
função na biblioteca e os seus problemas de saúde iriam determinar alguma inflexão na
sua actividade intelectual. Se de 1902 a 1909 publicou nove grossos volumes, daí até à
morte só publicou mais um, O Porto Culto (1912).

No entanto, é de notar que Bruno nunca pensou nem antes nem depois de 31 de
Janeiro de 1891, nem antes nem depois de 5 de Outubro de 1910 que a república
pudesse ser uma solução radical para todos os problemas da nação. Nunca afirmou
acreditar que a república iria resolver milagrosamente todas as vicissitudes da pátria,
continuou a sua vida como publicista ligado a um republicanismo independente e
crítico, que só tinha que aprender com os erros da República brasileira.

A sua morte precoce em 1915 acontece a 11 de Novembro, pelas 19 horas no


Hospital da Ordem do Terço no seguimento de uma intervenção cirúrgica tardia a uma
hidrocele que nos últimos anos o impossibilitaria de caminhar. Sampaio Bruno nunca
casou nem teve filhos e o seu funeral realizou-se no dia 13 de Novembro no cemitério
do Prado do Repouso, no Porto.

Além da sua vasta obra literária, que não deixa de ser filosófica, é de relembrar
ainda que Sampaio Bruno foi autor dos primeiros estatutos da Associação dos
Jornalistas e Homens de Letras do Porto e foi também responsável pela criação da
Faculdade de Letras do Porto.

Sobre Sampaio Bruno, Fernando Pessoa iria dizer: “Só um homem em Portugal
mostra compreender: Sampaio Bruno.”4

4
Pedro Teixeira da Mota, Agenda Centenária de Fernando Pessoa, 1988, 26 de Novembro

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Os Livros e Publicações
Sampaio Bruno publicou diversas obras. A sua produção literária começa logo
aos 17 anos, em 1874, quando publica o seu primeiro livro: Análise da crença cristã –
Estudos críticos sobre o cristianismo, dogmas e crenças. Esta obra é inspirada no
clássico estudo de Pedro Amorim Viana, Defesa do racionalismo ou análise da fé,
publicado em 1865. Em 1876, publicou o ensaio A propósito do Positivismo que viria,
20 anos mais tarde, a ser a base para uma das obras mais importantes de Bruno: O
Brasil Mental. Dado que era um fervoroso republicano e membro do Directório do
Partido Republicano Português fundou, em 1886, os semanários O Democrata e O
Norte Republicano, assim como o jornal diário A Discussão. Nesse mesmo ano
publicou o ensaio A Geração Nova. Bruno, juntamente com Antero de Quental e
Basílio Teles, redigiu os Estatutos da Liga Patriótica do Norte. Este movimento surgiu
como uma resposta republicana ao ultimato inglês de 1890. Porém, o fracasso da
Revolução Republicana de 31 de Janeiro de 1891 forçou Bruno a exilar-se em Paris
onde viveu durante um ano. Durante essa estadia em Paris, lançou o Manifesto dos
Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891.

O exílio trouxe uma grande solidão a Bruno e provocou uma forte crise
maníaco-depressiva que o levou a procurar uma saída mística. O pensador portuense
baseia-se na literatura gnóstica de inspiração judaica. Em 1893, essa inspiração é
reflectida num artigo do jornal portuense A Voz Pública, «no comboio da manhã tinham
chegado inúmeras obras de que fez aquisição nos negociantes de livros da Espanha,
França, Bélgica e Amesterdão, por onde nosso amigo andou, durante o seu exílio, a
compilar materiais para diversos trabalhos que traz em mente, sobretudo acerca de
judeus portugueses»5. No mesmo ano, publicou as suas Notas do Exílio.

Em 1898, Bruno publica O Brasil Mental, uma das suas obras mais importantes.
Nesta obra retoma a crítica que tinha feito ao positivismo no passado. A filosofia de
Comte é criticada por fechar o horizonte do conhecimento humano, neutralizando a
hipótese da conjectura. Esta crítica está expressa nas seguintes afirmações retiradas da
obra: «Porque o positivismo é rigidamente limitado; tem as fronteiras próximas e
claramente visíveis; é uma curva fechada; é um polígono cujas arestas não toleram que
as ultrapasse a conjectura. O positivismo, não. É positivo demais.»6.

Em 1902 surge A Ideia de Deus, outro livro fundamental de Bruno. Nele


transmite a inspiração mística que o exílio lhe trouxe. Em Salamanca, sentiu um êxtase
místico «sobressalto profundo da minha consciência», nas suas palavras. O sobressalto
levou-o a procurar a unidade primordial de onde tudo provém. O acaso assumia um
papel fundamental na sua concepção mística. O mistério é possibilitado pela incerteza
que o acaso traz. Assim explica Sampaio Bruno a forma mágica como encontrou o seu
amigo João Chagas, que tinha ficado em Paris, na localidade de Fuente de Santo
Esteban: «Lavando-me e vestindo-me, eu ia pensando, materialeiramente, na

5
Apud Torres, 1975: 145
6
Apud Torres, 1975: 146
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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

impossibilidade material de me encontrar com João Chagas. (…) A João Chagas eu


sabia-o retido em Paris por apremiantes circunstâncias econômicas, que dificilmente,
impossivelmente poderia, na regra costumeira, vencer de pronto. (…) E, voltando para o
meu compartimento, ao sentar-me de novo, um zumbido fulgiu aos meus ouvidos; e a
mesma voz, agora descida um quarto de tom, me disse, com branda inflexão ao de leve
maliciosa, levemente risonha: - Ora, vais agora ver o Chagas. Não sei por que nem
para que, eu sorri-me. Pensei: - Também tinha sua graça, na verdade. Porém, de seguro,
devera haver-me tornado lívido, porque houve em mim a súbita impressão de que o
sangue se me coalhara, todo, nas veias. Era que eu ouvira nesse instante (mas agora, por
modo positivo, objetivo, exterior) a, de mim bem conhecida, voz de João Chagas, que,
em francês, dizia para a francesa: - Minha Senhora, queira ter a bondade de mandar
acomodar as minhas malas naquela carruagem de primeira. Precipitei-me para a
portinhola do meu compartimento; na porta do restaurante, João Chagas dava as últimas
instruções ao criado, indicando-lhe, com a badine, a carruagem que escolhera e que era
precisamente a que se seguia à minha. Caí, abatido, sobre a travessa de madeira; e não
tive mente para meditar um ápice sequer. (...) Com efeito, contra toda a racionalidade de
minhas, feitas, deduções concretas; contra toda a racionalidade das deduções concretas,
possíveis, do retardatário: eu viera, afinal, encontrar-me, na verdade, com João
Chagas.»7

Em 1904, Bruno publicou a sua obra mais importante, O Encoberto, em que se


afirma como «o historiador esotérico do esoterismo»8. Defendia que com o despertar
para o passado encoberto, podemos encontrar orientações para o difícil caminho do
futuro. Para Joel Serrão, O Encoberto, O Brasil Mental e A Ideia de Deus são as três
obras fundamentais de Bruno. Joel Serrão explica assim o nexo que une as três: «A
trajectória do pensamento de Bruno é descrita adentro do Iluminismo, e cifra-se,
fundamentalmente, em que, partindo do racionalismo deísta, anticlerical e progressista
do gigante de Ferney (como Bruno nos tempos juvenis da Análise da Crença Cristã
chamava a Voltaire), chega ao misticismo hermético de um Saint-Martin que, não
obstante, é tão deísta, tão anticlerical, e tão progressista como o pensamento daquele.
Dir-se-ia que o sentido da evolução do escritor portuense foi o seguinte: da ramagem da
árvore do Iluminismo, historicamente considerado, a certas raízes ocultas dela; da
liberdade, igualdade e fraternidade, como lema de propaganda política, ao significado
recôndito, esotérico, que subsumiria.»9 O misticismo esotérico de Bruno deixa raízes na
ideologia maçónica, no misticismo judaico e na Cabala especulativa, como nos diz Ruy
d’ Abreu Torres.

Bruno também publicou algumas colectâneas de textos seus publicados na


imprensa, principalmente no jornal A Voz Pública. As colectâneas foram: Os Modernos
Publicistas Portugueses (1906), Portugal e a guerra das Nações (1906), A questão

7
Bruno, 1960: 37-41
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Apud Torres, 1975: 147
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Apud Torres, 1975: 148
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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

religiosa (1907), Portuenses ilustres (três volumes, 1907-1908), A Ditadura (1909) e O


Porto culto (1912).

O afastamento da vida política levou-o a aprofundar a participação no mundo


literário tendo prefaciado várias publicações da Biblioteca Pública Municipal do Porto,
em 1909. Escreveu nessa altura alguns ensaios de filosofia, reunidos por Joel Serrão, de
forma póstuma na obra Os Cavaleiros do Amor – Plano de um Livro a fazer (1960).

Raúl Brandão, nas suas Memórias, descreve assim os últimos anos de vida do
portuense: «Bruno, esse, nunca fez cálculos sobre a vida. Cheio de simplicidade e de
modéstia, viveu e morreu como um pobre homem – a arrastar-se nos últimos anos, da
padaria da Rua do Bonjardim para a Biblioteca, da Biblioteca para a Rua do Bonjardim.
Punha um pé, parava; outro pé adiante, com uns testículos que lhe chegavam aos
joelhos, e suspendia a marcha, arrastando-se com os vagares do caracol. Cada vez mais
apegado à inocência dos livros, a sua grande alegria era conversar. Só se detinha um
momento a olhar a gente por cima das lunetas e tinha pena de não poder como
antigamente correr pelas ruas do Porto até de madrugada com os amigos. – Nem ao café
vou. Chamam-me talassa!» 10

Bibliografia selecta de Sampaio Bruno

 Análise da Crença Cristã (Porto, 1874).


 A Geração Nova (Porto, 1886).
 Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de
Janeiro de 1891, com pref. de Sampaio Bruno e Alves da Veiga (Paris, 1891).
 Notas do Exílio. 1891-1893, (Porto, 1893).
 O Brasil Mental. Esboço crítico, (Porto, 1898).
 A Ideia de Deus (Porto, 1902).
 O Encoberto (Porto, 1904).
 Portugal e a Guerra das Nações (Porto, 1906).
 A Questão Religiosa (Porto, 1907).
 Portuenses Ilustres (Porto, 1907-1912).
 A Ditadura. Subsídios Morais para o seu Juízo Crítico (Porto, 1909).
 O Porto Culto (Porto, 1912

10
Apud Torres, 1975: 151
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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

A Filosofia
Como já foi dito Sampaio Bruno não foi exclusivamente escritor e jornalista,
teve também importância na filosofia nacional e deixou a sua marca, sendo recordado
por muitos filósofos portugueses como “um liberal português heterodoxo”. Nesta parte
do trabalho iremos proceder a uma análise do contributo filosófico que nos deixou e que
tanto nos honra.

Numa abordagem geral a este assunto, poder-se-á afirmar que a sua principal
influência ideológica provinha das ideias liberais e de um racionalismo deísta. Mais
tarde, depois da depressão que o afectou no exílio parisiense, a sua pesquisa passa a
encaminhar-se no sentido do misticismo e do esoterismo, mergulhando na leitura
gnóstica de inspiração judaica, na cabala e na ideologia maçónica. Com a publicação,
em 1898, do livro O Brasil Mental desenvolve a sua crítica ao positivismo comteano. É
também nessa obra que faz o seguinte reparo «Carece-se de uma filosofia mais inexacta
e menos terrestre».

Posteriormente na obra O Encoberto (1904) revela um afastamento progressivo


em relação ao racionalismo da juventude. No entanto, acabaria por conservar as
ideologias deísta, anticlerical e progressista que herdou através da leitura de Voltaire na
sua formação. O pensamento de Bruno teria grande influência em Fernando Pessoa que
mantinha correspondência com o intelectual portuense, Pessoa chegou inclusivamente a
enviar-lhe o primeiro número do Orfeu pedindo-lhe uma opinião.

Sobre este assunto, questionamos o professor José Alves em que medida


considerava que Fernando Pessoa tinha sido influenciado pelo pensamento de Bruno. A
resposta foi: “Exactamente pelo seu misticismo esotérico, que Pessoa vai desenvolver
nomeadamente na Mensagem.”

Para que não se torne confusa esta análise á filosofia de Bruno, propomos a
sintetização de cada uma destas correntes filosóficas para que se possam compreender
melhor as suas ideias.

Racionalismo
O racionalismo é a corrente filosófica que procura estabelecer e propor caminhos
para atingir determinados fins e acredita firmemente na capacidade humana de
raciocinar, a nível mental, discursivo e lógico. Esses fins terão que servir o interesse
colectivo e eliminar o conflito social. É a doutrina que afirma que tudo o que existe tem
uma causa, mesmo que essa causa não possa ser demonstrada. Privilegia a razão em
detrimento da experiência.

Deísmo

Corrente filosófica que admite a existência de um Deus criador, mas questiona a


ideia de revelação divina. Esta doutrina é suportada pelo racionalismo, porque a razão
era considerada a única via capaz de nos assegurar a existência de Deus. Para os deístas,
o ser divino revela-se perante os homens através da ciência e das leis da natureza, no

11
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

entanto não deixam de respeitar aqueles que dizem ter recebido uma revelação divina,
mas nesse caso a revelação apenas será válida para quem a recebeu. Orientam o seu
pensamento através da razão e não da interpretação divina.

Misticismo
O Misticismo pressupõe a busca de uma comunhão com a consciência de uma
realidade, verdade espiritual ou Deus através de uma experiência directa ou intuitiva. A
definição do misticismo não é exacta mas entende-se como uma prática, estudo e
aplicação das leis que unem o Homem à natureza e a Deus. Desta forma distingue-se da
Religião por se referir a uma experiência directa e pessoal, sem intermediários ou
dogmas.

Esoterismo
É uma definição abrangente de um conjunto de interpretações filosóficas das
doutrinas e religiões. O conhecimento esotérico procura desvendar tudo aquilo que é
enigmático, impenetrável e espiritual.

Gnosticismo
Existe uma distinção entre a gnose e o gnosticismo. A gnose é uma experiência
baseada em conceitos e preceitos da sensibilidade do coração, já o gnosticismo é a visão
do mundo baseada na experiência de gnose, ou seja, do conhecimento. Mas este
conhecimento não é de carácter racional ou científico, é sim intuitivo e transcendental,
através da sabedoria.

Cabala
A Cabala, palavra de origem hebraica, é uma sabedoria que investiga a natureza
divina. A sabedoria espiritual da Cabala explica as complexidades do universo material
e imaterial, bem como a natureza física e metafísica de toda a humanidade. O seu
propósito é trazer clareza, compreensão e liberdade a quem a utiliza.

Retomando a análise da filosofia de Bruno, é necessário fazer uma


contextualização. Em toda a Europa, nas últimas décadas do século XIX aparecia com
maior clareza a necessidade de superar a interdição que o positivismo estabelecera em
relação à metafísica. Era então tempo de evoluir a partir do positivismo e começavam a
surgir novas formas de pensar: a fenomenologia, o existencialismo e o culturalismo. Os
países católicos (caso de Portugal) estavam destinados a participar nesta reacção ao
positivismo e Sampaio Bruno seria uma personalidade destacada que iria revelar
capacidade de criar alternativas. A sua obra está no centro da formação de uma vertente
espiritualista muito própria. António Braz Teixeira afirma que Bruno «evoluirá no
sentido de uma teurgia heterodoxa, imamentista, messiânica e profética, aberta à
revelação e ao mistério a fim de outras correntes esotéricas.»

O portuense estava convencido de que só a República poderia redimir Portugal


da desorientação em que se envolveu, sobretudo depois das esperanças suscitadas pela
Revolução do Porto em 1820 e chega a escrever: «O lema enxerga-se ostensivo. É ele o
da República, esperança final, cujo aborto significaria indefectivelmente a morte da
12
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

nacionalidade». Acreditava que com a instauração da república só poderia seguir-se o


socialismo e que essa seria e expressão política de um passo essencial para a
«reintegração no absoluto» e para a erradicação do mal.

Os seus primeiros artigos eram marcados por uma sedução do positivismo


conteano (Análise da Crença Cristã), no entanto, em O Brasil Mental abandona e critica
este pensamento filosófico. Nesta obra, passa a primar a sua ideia de opacidade do
mundo e o seu carácter misterioso. Bruno acreditava firmemente que apenas a
linguagem seria capaz de traduzir essa opacidade, revelando a todos aquilo que se
entende por “verdade”, para o portuense a verdade não é absoluta e nela também existe
o sentido do oculto, ou não fosse a verdade «o erro, aproximando-se indefinidamente da
verdade verdadeira, desconhecida». É por declarações como esta que é considerado um
escritor difícil, com uma prosa labiríntica que procura total atenção do leitor para que
este não se perca no encadeamento lógico do texto.

Nesta fase, Bruno abria-se ao mito, à profecia, à revelação, às alucinações


auditivas (que afirmava ter sido vítima) e às sociedades secretas. Simultaneamente ia-se
libertando do messianismo que considerava ser uma dimensão acessória da realidade.

Questionamos o professor José Alves se concordava «que Sampaio Bruno


acreditava no messianismo e no sebastianismo por achar que os políticos, seus
contemporâneos, não seriam capazes de resolver os problemas do país», e a sua resposta
foi muito clara: «Não! Embora, na fase final, se desligasse da acção militante, tendo
problemas (como foi o conflito com Afonso Costa), o seu messianismo tem outras
raízes, advindo da sua reflexão ontológica, que, aliás, rema contra as teses da
decadência nacional expostas por outros autores como Antero ou Oliveira Martins.»

Bruno foca-se então na redenção humana e acredita que só assim será possível a
redenção universal, acabando por expor uma metafísica da redenção que parte do
mistério das origens para terminar na redenção não só do homem, porque achava imoral
acreditar numa visão antropocentrista, mas também universal e fraterna de toda a cadeia
de seres e da natureza em conjunto, num processo que era para ele a revelação sucessiva
de fins divinos rumo à perfeição de um absoluto misteriosamente alterado.

A sua obra é percorrida por uma exigência de relação com o englobante e, ao


mesmo tempo, ter presente o sentimento de ser englobado numa perspectiva do
monismo que rejeita o dualismo da metafísica cartesiana. Só nela se encontra uma
noção do real que envolve o amor, pela comunicação do homem com outros seres –
chega até a tornar-se vegetariano. Haveria de escrever na sua obra A Ideia de Deus:
«Em todo o mundo a paz será» e «chegará lá para os dias mais confiantes do longínquo
porvir». Mas tudo isto só se seria possível se o indivíduo se unisse ao meio envolvente.

Por isso, a defesa da liberdade não vem do eventual prazer das conquistas das
ciências e das técnicas possam (na fase em que o positivismo estava no seu apogeu em
Portugal e nas grandes exposições universais), vem de um plano mais profundo e

13
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

moralmente superior, o de libertar-se de si, libertando os outros seres de um mal criado


pelo mistério da queda e da decisão inicial.

Define então «três instantes supremos do crescimento» e expressa-os da seguinte


forma: «Um: é o espírito homogéneo e puro que foi e há-de voltar a ser. Eis o ponto de
partida e eis o ponto de chegada. Outro: é o espírito puro, mas diminuído actualmente
pelo destaque separativo do universo. Enfim, o outro ainda: esse universo que aspira a
regressar ao homogéneo inicial.»11 O motivo dessa divisão do espírito homogéneo e
puro – que identifica com Deus – na qual o mal se gerou e de que resultou a
heterogeneidade, como uma criação involuntária, é um verdadeiro mistério e Bruno
chega a escrever: «Nós não podemos compreender como foi esse mistério da
diferenciação de parte do espírito puro. Porém, que ele dado se houvesse é necessário:
para que um tanto inteligível o enigma universal nos seja.» 12

Assim, é possível acentuar a dimensão heterodoxa do seu pensamento, que se


afasta do dogma cristão da criação e faz da queda uma realidade que não atinge somente
o homem mas também o próprio Deus, um Deus omnisciente mas não omnipotente, que
sofre com o mundo e dele se aproxima mas que não actua sobre ele. Contrariamente à
filosofia cristã que negava o mal, a defesa que Bruno faz da positividade desperta o
esforço heróico de superação e de aproximação à verdade e ao bem, através da
diminuição do erro e do mal real. Por esse motivo definiu uma filosofia da história na
qual o cerne do «progresso moral» é de ordem moral.

Esta evolução define uma dinâmica a que se refere como uma «ascensão na
convergência do regresso», na qual o próprio Deus participa, por isso também ele sofre
da diminuição do espírito puro. Por sua vez, o significado desta ascensão recusará tanto
o Deus do catolicismo, como o Deus do deísmo, como rejeita também a tese bíblica do
finalismo utilitário das criaturas, fortemente antropocêntrico. Ao homem, à medida que
sabe e pode, incumbe um dever para com a natureza inteira, o seu papel é ajudar a
evolução da natureza: «Libertando-se a si, libertando os seus irmãos, ele contribui já
para a libertação do universo», pelo «trabalho de todas as consciências em amorosa e
sábia cooperação», pelo resgate da unidade como limite ideal da história, mas uma
unidade concebida não na fórmula antiga da autoridade, mas «unidade na liberdade».
Liberdade, entenda-se, como negação do individualismo e do egoísmo, como negação
de uma salvação pessoal que leva à absorção final e à «infinita sanção do absoluto».

Ou seja, para Bruno, o verdadeiro messias era o Homem e não nenhum príncipe
morto que o povo português tanto queria ressuscitar. É com esta ideia de liberdade e
noção de dinamismo universal apoiado em critérios morais que analisou, em O
Encoberto a filosofia da história de Portugal e também defendeu a evolução entre a
monarquia, república e socialismo. Para ele, a apreciação do desenvolvimento dos
povos faz-se com base no seu estado de desenvolvimento moral, apuramento de
sensibilidades e costumes e com a expressão das formas de dominação política.

11
Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, 1902
12
Joel Serrão, Sampaio Bruno - O Homem e o Pensamento, 1958

14
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Assim sendo, repudiou a Inquisição e a Companhia de Jesus e responsabilizou


estas duas instituições pelo retrocesso e decadência moral da pátria. O drama da história
de Portugal, tal como diziam os teóricos da Geração de 70, radicava na primazia do
autoritarismo e da intolerância, na falta de dignidade moral, num gosto assombroso pela
crueldade e expresso tantas vezes de uma forma bárbara.

Em suma, refutava o dogma cristão da criação e colocava o Criador em


julgamento, no banco dos réus, e nós, criaturas e filhos do mal que ele originou, éramos
as vítimas. Para o filósofo, o homem «não está neste mundo nem para saber nem para
gozar»13 mas para se libertar e regressar ao homogéneo inicial.

Sobre a Igreja, Bruno sempre foi claro quanto à sua posição, mas se duvidas
restassem, bastava apenas ler este excerto de opinião: «Agora cumpre-nos tão somente
declarar bem alto que o cristianismo é uma religião obsoleta, anacrónica, moribunda;
uma religião que assenta sobre os cadáveres dos desgraçados, sobre as ossadas
denegridas dos queimados vivos. Sim! Uma religião que, depois de mentir à razão e à
consciência pelos seus dogmas estultos, pelos seus livres santos, pelas suas doutrinas
canónicas, acende fogueiras e levanta forcas, queima em Espanha, trucida em França,
delira satanicamente em Roma, uma religião, cujos textos servem assim os padres, uma
religião que aspira à catolicidade, à suprema, ao despotismo, é uma religião toda
humana, com os nossos vícios e paixões, com a nossa cólera e o nosso furor, é uma
religião verdadeiramente infame. [...] Quando o povo pensar, compreenderá tão bem os
seus deveres morais e eis que eu já não sou destruidor de todo o edifício social. [...]
Querer que o cristianismo seja a religião do futuro seria querer que ontem fosse hoje.
Seria um não senso e uma blasfémia. [...]»14.

A metafísica defendida por Bruno era moderna, mas implicava uma mudança no
sentido da evolução, tal como diz o próprio: «Assim o nosso grito não deve ser: Morte!
Mas: Reforma! Não: Proscreva-se a Metafísica, porque não é possível mutilar a alma
civilizada, arrancando-lhe a necessidade, facto, imprescritível de curar os problemas
uma vez formulados; - mas sim: Reforme-se a Metafísica! (...) Assim atenderemos à
necessidade real, visto a Metafísica ter por objecto o responder a perguntas reais do
espírito.»15

Quanto ao pensamento liberal que “bebera” em França, considerada por ele


«mãe espiritual de todos quantos procedemos da Revolução e para a Revolução
convergimos»16, essa simpatia não implicava uma cegueira em face das contradições da
política francesa, tendo a principal ocorrido ao longo do século XIX, o espírito da
reacção. «Mas a admiração pode e deve coexistir com a autonomia mental; e a
veneração pelos serviços prestados não exclui a crítica perante as contradições penosas
e aflitivas. Ora, infelizmente o espírito de reacção invadiu a França e é terrível que o

13
Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, 1902
14
Sampaio Bruno, Análise da Crença Cristã, 1874
15
Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, 1902
16
Bruno, 1987: 213

15
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

missionamento jesuítico seja da França que parta e que em Paris encontra até aqui os
seus mais formidáveis redutos e bem assim os seus melhor estabelecidos depósitos.»17

Para o autor, a democracia começava no município e na região, era aí que se


poderia garantir o respeito aos direitos do cidadão e a sua participação nos negócios do
Estado. Analisou a democracia a nível regional e municipal, em Portugal e Espanha na
obra Os modernos publicistas portugueses (1906). Analisou com especial detalhe a
Galícia, por esta ser a província espanhola mais próxima do norte de Portugal e por o
seu povo ser ludibriado com as constantes promessas de liberdade e democracia quando
na verdade o poder se centrava em Madrid. Ou seja, se a república pretendia ser firme,
deveria deitar alicerces junto dos cidadãos para consolidar a verdadeira democracia
republicana. Chega também a culpar as elites, por estas culparem o povo, do momento
de crise que se vivia em Portugal. O portuense insistia que as elites não tinham
cumprido o seu papel de educação da cidadania: «A ignorância é má, mas a meia
ciência é pior; e, nas condições genéricas sociais actuais, nunca o povo pode atingir a
plenitude do saber. Não tem tempo para estudar, nem vagar nem disposição nas horas
livres que lhe restam, desde que sai moído do seu trabalho exaustivo. Assim, força lhe é
recorrer e confiar nos profissionais: confiar nos letrados, nos publicistas e nos políticos.
Ora, a indiferença de que acusam o povo português não provirá, em parte, dos cruéis
desenganos que tem constantemente experimentado, por banda dos políticos onde ele
tem depositado, aliás, a sua confiança?»18

Bruno também não deixa passar impune a iniciativa privada e destaca desta
forma o investimento moral para o futuro: «Portugal cheira a podre. Assim sendo,
cumpriria que se reagisse contra esta contaminação assombrosa; e aqui a iniciativa
particular pode exercer-se proficuamente ao lado e concomitantemente com a acção dos
poderes públicos. É certo que os perversos se não corrigem pelo efeito modificador das
práticas e dos conselhos; porém existem mil maneiras de melhorar os costumes e de
purificar os sentimentos das multidões. Quando mesmo a esperança deva perder-se pelo
que toca à geração presente, tão intimamente corrompida que já não haja remédio que
lhe valha, resta ainda acudir às gerações vindouras, pela instrução cívica e pela
educação sentimental da puerícia e da juventude.»19

Em 1915, depois de uma vida dedicada a uma constante crítica filosófica a


vários assuntos da sociedade, quer divinos, quer políticos, Bruno haveria de morrer
convicto que se o amor «[…] de Deus pelas criaturas se não individualiza para com
estas, a noção de Providência perde-se no conceito indiferente da finalidade genérica. O
arranjo universal do existente, em sua ordem e harmonia, não dá mais do que o
andamento regular e sistematizado do conjunto; mas toda a carinhosa protecção dum pai
para com seus filhos esvai-se; somos cidadãos duma república sob o inflexível império

17
Bruno, 1987: ibid.
18
Bruno, 1987: 135
19
Bruno, 1987: 332

16
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

da lei, que é igual para todos. A misericórdia suma, pela via das advertências, dos
cuidados, das repressões e das redenções, volve ao nada.»20

20
Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, 1902

17
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Análise artigo José Miguel Sárdica

“O jornalismo e a intelligentsia portuguesa nos finais da


Monarquia Constitucional”
José Miguel Sárdica

Na década de 1870 emergia em Portugal uma nova realidade, na qual as notícias,


informação e jornalismo tinham um poder acrescido, podendo moldar comportamentos
e consciências do povo português.

Surge um grupo de jovens ambiciosos, que se educaram e instruíram para


desconfiar da “paz podre” da Regeneração, sonhando com uma revolução cultural que
transformasse mentalidades em toda a sociedade e conduzisse o país a um ideal de
cidadania consciente, democrática e participativa. Esta geração, conhecida como a
“Geração de 70” serviu para a afirmação de várias figuras em todo o país, das quais
destacamos Eça de Queirós e, obviamente, Sampaio Bruno.

Desde finais do século XIX até inícios do século XX, a imprensa tornou-se o
meio ideal para a reorganização social do país e os jornalistas, intérpretes do novo
Portugal mais participativo e consciente, que acabaria por sofrer uma modernização.
Nesta época, o poder era uma “função política” e eram os jornalistas que detinham
qualidades requeridas para o seu desempenho, como a vasta cultura geral e o
conhecimento da psicologia dos homens.

Todavia, Portugal viveu um período adormecido para os principais assuntos da


sociedade e com o surgimento do jornal O Século, em 1880, os republicanos lançaram-
se à conquista da opinião pública, procurando combater a Monarquia. Os jornais
passaram a funcionar como “vulcões”, reflectindo as indignações populares.

Sampaio Bruno, na sua obra, tinha como terma de reflexão o jornalismo e toda a
sua influência. Fiel à ideologia republicana entendia a política como “demopaideia”,
educação das massas para a elevação cívica e a imprensa como veículo para
desenvolver essa mesma educação. Num artigo, de 1901, define o jornalista como “o
único escritor público” e como o verdadeiro “procurador dos cidadãos”.

Num congresso em 1909 da Associação dos Jornalistas e Escritores


Portugueses, Armelim Júnior relatou uma memória na qual atribui à imprensa sete
funções: a informação, a vulgarização, a instrução, a educação, a crítica, o serviço
económico-social e o exemplo.

O mundo jornalístico mudou muito desde a geração liberal romântica à geração


realista, surgindo também o sensacionalismo, que muitos autores consideravam ser mau

18
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

jornalismo. A orientação editorial dos jornais começou nas décadas de 1860 e 1870 a
afastar-se da política do Estado e a aproximar-se de assuntos nacionais e internacionais
relacionados com o quotidiano social.

No entanto, Portugal não deixou de ser um país pobre, rural e maioritariamente


analfabeto, onde a cultura, crítica e a opinião apenas chegavam e interessavam à
burguesia urbana, enquanto que a grande maioria da população vivia completamente ao
lado de toda uma realidade social, temendo o poder.

Para Sampaio Bruno, a ignorância do povo português era incontestável, sendo


preciso educá-lo através da actividade dos letrados e jornalistas. Isto conduzia ao círculo
em que morreram os sonhos de renovação alimentados pela intelligentsia portuguesa: a
imprensa devia fabricar e formar o povo, mas para que serve a existência de uma
imprensa de qualidade e de doutrinação democrática, se no povo não havia sentido de
comunidade cívica autoconsciente?

Como tal, o impulso da Geração de 70 e a chegada a Portugal do jornalismo


noticioso provocou uma recomposição multifacetada nos hábitos dos jornalistas e da
própria sociedade, tornando o jornalismo uma “indústria cultural” com a qual o povo
português deveria aprender e informar-se.

19
História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Conclusão
A realização deste trabalho permitiu-nos conhecer uma das principais figuras
portuenses da Primeira República Portuguesa, José Pereira de Sampaio (30 de
Novembro de 1857 – 6 de Novembro de 1915), Sampaio Bruno para a posterioridade.
Foi um militante republicano muito activo, com grande actividade jornalística, marcada
por um pendor doutrinário e mobilizador. Destacou-se também através de uma produção
filosófica mística e original.

Pedimos ainda ao professor José Alves que nos dissesse porque motivo é que
Sampaio Bruno era pouco conhecido em Portugal e a resposta que nos deu foi que
«Hoje os valores prevalecentes e veiculados pelas instâncias de comunicação apontam
para outros domínios. O nevoeiro dos tempos vai ocultando esse tipo de homens que
produziam ideias e se contentavam com a mediania na sua vida pessoal.»

Em termos de dificuldades sentidas na realização do trabalho podemos destacar


o facto de não termos encontrado os artigos de Bruno para a imprensa da época.

Este trabalho pretende ser mais um contributo para que a memória de uma figura
tão ilustre e importante da nossa cidade e do país fique marcada na História e não se
dilua com o passar dos tempos.

Terminamos assim este trabalho com uma citação de um nobre escritor,


deixando uma das suas ideias principais:

"Não é absurdo (digamos: ridículo) conceber que toda esta laboriosa evolução
mundial se operou, opera, operará para que o Sr. Fulano saiba bem física e o Sr.
Beltrano não tenha segundo no cálculo? [...] Saber por saber é uma espécie de
masturbação superior. [...] Porque o desfecho e remate do homem não é gozar-se, repita-
se. Se o mundo não existe para que o homem saiba, odioso seria fantasiar que o
universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. [...] O fim do homem neste
21
mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres. [...]"

21
Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, 1902

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Bibliografia
 Ricardo Vélez Rodriguez (1995), “José Pereira de Sampaio Bruno (1857-1915): o
Homem e a Sua Obra”, In: Colóquio Antero de Quental dedicado a Sampaio Bruno.
Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe, (organização e apresentação de
Luiz Antônio Barreto)
 Joel Serrão, Sampaio Bruno -- O Homem e o Pensamento, 1958, Livros Horizonte
 Joaquim Domingues, O Essencial sobre Sampaio (Bruno), 2002, Imprensa Nacional –
Casa da Moeda
 Diogo Alcoforado, Em Torno do Progresso (da) Moral em Sampaio Bruno – Algumas
reflexões
 António Pinho da Silva, As alucinações auditivas de Sampaio Bruno, Jornal do
Espiritismo
 António Paim, As Filosofias Nacionais, 2007
 José Miguel Sárdica, O jornalismo e a intelligentsia portuguesa nos finais da
Monarquia Constitucional,Comunicação & Cultura, nº 7, 2009, pp. 17-38
 Renato Epifánio, De José Marinho a Eduardo Lourenço e Miguel Real, passando por
Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva – breve reflexão sobre o nosso “atraso”, Centro de
Filosofia da Universidade de Lisboa
 Ricardo Vélez Rodriguez, Um Liberal Português Heterodoxo: Sampaio Bruno (1857-
1915), Universidade Federal de Juiz de Fora
 Luís Oliveira Marques, Sampaio Bruno: A Ideia de Deus, 07/04/2011,
<http://www.snpcultura.org/sampaio_bruno_a_ideia_de_Deus.html>
 António Quadros Ferro, A Ideia de Deus Sampaio Bruno 1998, 23/04/2011,
<http://www.rascunho.net/critica.php?id=1783>
 Pedro Calafate, Do Século XIX até à Proclamação da República, 02/04/2011,
<http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/index1.htm>
 Fundação Mário Soares, Sampaio Bruno, pseudónimo de José Pereira de Sampaio,
04/04/2011,
<http://www.fmsoares.pt/aeb/crono/biografias?registo=Sampaio%20Bruno>

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Em Anexo

Entrevista ao Professor José Alves


Com o objectivo de aprofundar o nosso trabalho entrevistámos o docente de
História Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Prof. Dr.
José Alves. Nesta entrevista procuramos a opinião do professor sobre o contributo de
Sampaio Bruno para a política, filosofia e jornalismo de Portugal.

Falamos da importância de Bruno na transição do regime monárquico para o


republicano, do seu traço messiânico, e da forma como Sampaio Bruno influenciou
Fernando Pessoa.

1. Qual considera que foi o contributo mais importante que Sampaio Bruno
deixou a Portugal?

R: O seu contributo verifica-se a dois níveis: 1) o de militante republicano, com


produção jornalística intensa de doutrinação e acção mobilizadora; 2) como
intelectual, atento às doutrinas e personalidades do seu tempo, mas com temas
históricos e obra muito pessoal no campo da filosofia que faz dele um dos
filósofos portugueses mais originais no campo de um certo misticismo

2. No que concerne à transição do regime monárquico para o republicano,


quão importante foi o papel de Sampaio Bruno neste processo?

R: Como disse acima: enquanto militante republicano (membro do Directório),


com produção jornalística intensa de doutrinação e acção mobilizadora, que
ajudou a formar vários jornais, nomeadamente A República e, depois, A
República Portuguesa, tendo um papel fundamental na revolução de 31 de
Janeiro de 1891.

3. Qual a obra de Sampaio Bruno que considera ter maior importância e


porquê?

R: O Brasil Mental, pela aproximação à cultura brasileira e retrato da situação


portuguesa, obra com impacto. Mas também A Ideia de Deus, obra base da sua
filosofia mística, tal como O Encoberto, pois estas duas influenciaram
fortemente a geração da Renascença Portuguesa.

4. Concorda que Sampaio Bruno acreditava no messianismo e no


sebastianismo por achar que os políticos, seus contemporâneos, não seriam
capazes de resolver os problemas do país?

R: Não! Embora, na fase final, se desligasse da acção militante, tendo problemas


(como foi o conflito com Afonso Costa), o seu messianismo tem outras raízes,
advindo da sua reflexão ontológica, que, aliás, rema contra as teses da
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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

decadência nacional expostas por outros autores como Antero ou Oliveira


Martins.

5. Em que medida considera que Fernando Pessoa foi influenciado pelo


pensamento de Bruno?

R: Exactamente pelo seu misticismo esotérico, que Pessoa vai desenvolver


nomeadamente na Mensagem.

6. Qual o impacto da filosofia na vida de Bruno e no jornalismo que exerceu?

R: A sua reflexão filosófica ganha fôlego com o seu exílio pós-revolta do 31 de


Janeiro na qual teve um papel activo e que, na altura, foi considerada um passo
atrás no movimento republicano, pela derrota sofrida. Nessa medida, a reflexão
filosófica terá compensado o vazio da política, em busca das grandes causas.

7. Foi nomeado director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, foi autor


dos primeiros estatutos da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras
do Porto, esteve envolvido na criação da Faculdade de Letras do Porto,
entre outros feitos, no entanto, Sampaio Bruno é um português pouco
conhecido pelo país e sobretudo pela sua cidade. Por que motivo acha que
isto acontece?

R: Hoje os valores prevalecentes e veiculados pelas instâncias de comunicação


apontam para outros domínios. O nevoeiro dos tempos vai ocultando esse tipo
de homens que produziam ideias e se contentavam com a mediania na sua vida
pessoal.

8. Na sua opinião, o que é que os jornalistas de hoje têm a aprender com


Bruno?

R: Bruno era um jornalista de opinião, de análise política aprofundada e


acutilante, com uma redacção apurada. Ler Bruno é ler um clássico de bem
escrever português.

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

Imagens

1: A imagem mais conhecida de Sampaio Bruno

2: Sampaio Bruno, O Encoberto

3: Sampaio Bruno, A Ideia de Deus

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História Contemporânea de Portugal
Sampaio Bruno – Um portuense ilustre do período republicano

4: Joel Serrão, Sampaio Bruno - O Homem e o Pensamento

5: O jornal A Voz Pública noticia a agressão a Sampaio Bruno na Rua Sá da Bandeira

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História Contemporânea de Portugal

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