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TÍTULO: Ernestina

AUTOR: J. Rentes de Carvalho


EDITORA: Quetzal
GÉNERO: Romance
Esta obra foi digitalizada e corregida pelo serviço de Leitura Especial da
Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Destina-se unicamente a pessoas com
necessidades especiais e não tem fins comerciais.
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e-mail: leituraespecial@cm-viana-castelo.pt

CONTRACAPA: «Deus Criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de
Maio de 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar
conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com
os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através
de um binóculo.»
Ernestina é mais do que um romance autobiográfico ou um volume de memórias
de família ficcionadas. É um retrato do norte do país, entre os anos 1930 e
os anos 1950, um romance que transcende o cunho regionalista e que atravessa
fronteiras, transformando-se num fenómeno invulgar em Portugal e na Holanda.
«O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade
vai de par com a riqueza, (...) uma linguagem que decide sugerir e propor,
em vez de explicar e impor.» José Saramago, Prémio Nobel da Literatura

«A melhor obra de J. Rentes de Carvalho.»


International Herald Tribune

«Os holandeses renderam-se à música desta aguarela de gentes, costumes e


tradições das paisagens da aldeia, da vida no Porto ou em Gaia.»
Rui Lagartinho, Público

«Ernestina é o romance autobiográfico de Rentes de Carvalho, a estrela


portuguesa da Holanda. É a biografia de milhares e milhares de famílias
portuguesas. Um livro terno, mas nunca lamechas. Um livro duro, mas que nunca
corta a esperança. Um livro simples e obrigatório.»
Henrique Raposo, Expresso

«A elegância do estilo, a força da ironia, o poder de em poucas palavras


delinear uma personagem — com essa perícia, J. Rentes de Carvalho empresta
aos acontecimentos um carácter assustador e inesquecível.»
Vrij Nederland

«Graças ao empenho da Quetzal, abre-se agora um tempo em que Portugal pode


começar a descobrir a obra de J. Rentes de Carvalho.» Público

ABA DA CAPA: J. Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia. Obrigado
a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, em São Paulo,
Nova Iorque e Paris, trabalhando para vários jornais. Em 1956 passou a viver
em Amesterdão, onde se licenciou e foi docente de Literatura Portuguesa entre
1964 e 1988. Dedica-se, desde então, exclusivamente à escrita e a uma vasta
colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além
de várias revistas literárias. A sua extensa obra ficcional e cronística tem
sido publicada na Holanda, e recebida com grande reconhecimento, quer por parte
da crítica, quer por parte dos leitores em geral, chegando alguns títulos a
alcançar o estatuto de best-seller. Os seus livros Tempo Contado, Com os
Holandeses e A Amante Holandesa estão actualmente disponíveis na Quetzal, que
continuará a publicar o conjunto das suas obras.

ABA DA CONTRACAPA: série língua comum:


Marçal Aquino: Cabeça a Prémio
Tony Bellotto: Um Caso com o Demónio No Buraco
Possidónio Cachapa: O Mundo Branco do Rapaz-Coelho
Afonso Cruz: Enciclopédia da Estória Universal
A Boneca de Kokoschka
Arthur Dapieve: De Cada Amor Tu Herdarás
Só o Cinismo Black Music
Vasco Graça Moura: Morte no Retrovisor
Naufrágio de Sepúlveda
Quatro Últimas Canções
Adriana Lisboa: Rakushisha
Mónica Marques: Transa Atlântica
Para Interromper o Amor
Pedro Paixão: O Mundo É Tudo o que Acontece
Viver Todos os Dias Cansa
António Manuel Venda:
Uma Noite com o Fogo
O Sorriso Enigmático do Javali

Título: Ernestina
1.ª edição: Outubro de 2009
2.ª edição: Novembro de 2010
Autor: J. Rentes de Carvalho
Revisão: Carlos Pinheiro
Projecto gráfico original: RPVP Designers
Design da capa: Rui Rodrigues • Quetzal Editores
Fotografia da capa: J. Rentes de Carvalho
Fré-impressão: Fotocompográfica, Lda.
Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.
Unidade Industrial da Maia
© 2009 Quetzal Editores
[Todos os direitos para a publicação desta obra cm língua portuguesa,
excepto Brasil, reservados por Quetzal Editores]
© 2001 J. Rentes de Carvalho
ISBN 978-972-564-814-8
Depósito Legal: 317 781/10
Quetzal Editores
Rua Prof. Jorge da Silva Horta,
1500-499 Lisboa PORTUGAL
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A cópia ilegal viola os direitos dos autores.
Os prejudicados somos todos nós.

Quetzal ave trepadora da América Central,


que morre quando privada de liberdade;
raiz e origem de Quetzalcoatl (serpente emplumada
com penas de quetzal), divindade dos Toltecas,
cuja alma, segundo reza a lenda, teria subido
ao céu sob a forma de Estrela da Manha
Teimosa, desastrada, desobediente, repontona, com queda para transformar em
calamidade as coisas simples – um dia à janela deixou escapar das mãos uma
jarra de vidro que por pouco ia ferindo um vizinho, doutra vez pegou fogo à
casa, a brincar com uma faca cortou a boca até à bochecha – Ernestina tornou-se
no seio da família uma espécie de risco permanente.
The ways we miss our life are life.
Shakespeare
(Os falhanços da nossa vida são a vida)

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Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930.
E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar conscientemente a Sua
criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha
dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.
Esse irresistível e constante desejo de querer ver tudo de mais perto foi causa
de grandes desesperos familiares, gritarias e alguns tabefes. Minha mãe era
obrigada a puxar às mãos ambas para me desgrudar da janela, onde eu, horas
imóvel a gozar a agitação do rio e do Porto, corria o risco de ficar raquítico.
Mas se me obrigavam a movimentar-me o perigo era ainda maior, porque poucos
passos dava sem ter o aparelho apertado contra os olhos, perdendo-se a conta
das vezes que caí por erro de cálculo ou pelo fascínio de ver que, sem dor,
conseguia amputar as pernas e fazer com que os pés me saíssem do peito.
A prognose era que eu acabaria cego. À mesa não o largava. No penico descobria
através dele um universo de formas imprevistas. Deformados pelo aumento, ou
curiosamente
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diminutos, o garfo e a faca perdiam a trivialidade doméstica, excitavam a
imaginação. Deitávamo-nos juntos e antes de adormecer eu percorria
detalhadamente com ele os recantos do tecto em busca de aranhas, moscas,
centopeias, fascinado por aquele mundo que existia indiferente à lei da
gravidade ou, como eu dizia então, andava no ar de patas para cima.
Mendigos ou visitas, a padeira, o farrapeiro, os vizinhos que não estavam a
par — quem batia à nossa porta sobressaltava-se ao descobrir que, pela força
e naturalidade do uso, o binóculo parecia ter-se-me incrustado na cabeça como
uma prótese.
Esse maravilhoso instrumento fora-me dado pelo meu avô José Maria que, ao que
parece, o ganhara às cartas a um patrão de traineira seu amigo. E com os tubos
de cobre ele tinha de facto qualquer coisa de marítimo, mas ao mesmo tempo
parecia um brinquedo, pois as minhas mãos abarcavam-no sem dificuldade e o
seu poder de aumento não era excessivo. Foi também o avô que me ensinou a
desenroscar as lentes para, concentrando com elas os raios do sol, fazer o
milagre do lume sem fósforos.
Queimei papéis, queimei as unhas e a pele, a sola dos sapatos, o pêlo do gato,
roupa posta a secar, jornais, pontas de cigarro. Fiz um razoável número de
buracos nos caixilhos das janelas. Um dia, a ver se descobria de que ponto
vinha o fogo, pus-me a espreitar o sol através da lente, e só não ceguei do
olho esquerdo porque o anjo da guarda me desviou a mão a tempo. Ficou a cicatriz
na pálpebra, lembrança da primeira intervenção do sobrenatural, que a partir
daí se deve ter ocupado de mim a tempo inteiro, pois outra explicação não vejo
para ter escapado mais ou menos são aos perigos e trambolhões da minha infância.
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O Cabeço são cinco ou seis casas de pedra solta na crista do Malhão, serra
que nasce na margem esquerda do Sabor, e que pelo isolamento parece mais alta
que os seus setecentos metros. Lugarejo desabrigado, exposto a todos os ventos,
sem árvore que lhe dê sombra nas temerosas canículas, com a água longe,
compreende-se mal que alguém jamais o tenha escolhido para moradia.
A paisagem é majestosa. Num redor de dezenas de quilómetros avistam-se de lá
aldeias e santuários, planaltos, encostas de terra avermelhada, serranias que,
conforme a hora, passam do amarelo aos tons mais escuros do cinzento, ribeiros
delgados que lembram cobras luzidias a esgueirar-se pelos vales. Vê-se até
longe na Espanha. Vê-se a serra de Bornes. Vêem-se as montanhas que ficam para
norte de Bragança.
Desde o Verão de 1945, a única vez que lá estive, não se passa ano que não
intente voltar. Mas por uma razão ou outra a visita vai sendo adiada, mesmo
que não haja agora o receio do mau caminho. Da nossa aldeia para lá ainda se
enrosca pelas vertentes o secular carreiro de cabras, mas pelo que oiço dizer,
indo de Carviçais, o caminho está plano, e guiando com cuidado até se pode
passar de automóvel.
Custa a crer, mas a verdade é que sempre encontro desculpas para o não ir
verificar, talvez porque inconscientemente quero guardar intactas as imagens
da memória longínqua.
Os moradores abandonaram as casas dezenas de anos atrás, quando a lavoura
deixou de compensar. Tirante a quinta das Arcas, a meia encosta, também já
despovoada, mas onde por enquanto ainda tratam das oliveiras e dos amendoais,
o que eu conheci como searas são hoje matos.
No meu tempo de criança a brisa fazia ondular num ritmo hipnótico as ladeiras
plantadas de cereal, e não era preciso
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muita fantasia para imaginar um dedo gigantesco a passar e repassar sobre elas,
dando-lhes vida. O dedo de Deus. Agora, mais bastos que no passado, os pinheiros
estendem-se à toa pelos montes. Vistas de longe, as suas copas parecem um tapete
verde lançado sobre a terra estéril, onde os silvedos, as giestas, as estevas,
os carrascos e cem outros arbustos daninhos crescem tão densos que só as fragas
maiores não desapareceram ainda sob eles.
A paisagem tornou-se agreste como a de um deserto e, ao contrário de
antigamente, quando por toda a parte havia homens na lida da terra, hoje raro
se vê alguém a cavar ou a lavrar. Os burros e os mulos são poucos. Os bois
desapareceram. Rebanho não há nenhum. A linha do comboio fechou.
Nas terras mais próximas da estrada, compradas por dez réis de mel coado aos
pobres que emigraram, ou aos velhos que as não podiam trabalhar, a fábrica
do papel mandou plantar eucaliptos em filas intermináveis. E essas filas
regulares de árvores calibradas, cuidadas, duma monotonia industrial,
idênticas no porte como frangos de aviário, prenunciam um mundo novo, uniforme
e controlado, fazem contraste ao passado que em torno delas agoniza lentamente.
O meu avô José Maria nasceu no Cabeço. Embora eu guarde nítidas outras memórias
mais remotas, dele, que me ensinou a ler e a escrever, e faleceu quando eu
passava dos cinco anos, só tenho recordações esparsas. A do grande bigode
encaracolado. A de uma farda de gala de veludo azul com botões dourados e
alamares. A espada. Mas o seu rosto só o conheço das fotografias. Da sua voz,
dos seus modos, do porte, nada ficou. Quase tudo o que sei dele ouvi o contar.
Algumas vezes em versões contraditórias ou com detalhes diferentes.
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Outras vezes por gente que lhe tinha querido bem e passava por alto o seu génio
iroso, as suas imprevisíveis mudanças de humor, o feitio severo que outros
lhe criticavam.
Ouvi dizer também que era bom, cumpridor, fiel aos seus amigos e aos ideais
republicanos, o nome que então se dava ao socialismo. Deixou fama como caçador.
O resto que sei catei-o em papéis soltos, ou nos cadernos de papel esverdeado
e pautado que ainda guardo e que ele usava para anotações. No topo de cada
página lê-se em maiúsculas: «Alfândega do Porto». Na margem esquerda, numa
linha vertical: «Remessa de documentos para a sede». Com a sua mão a guiar
o meu dedo, foram essas as primeiras palavras que me ensinou a soletrar.
No Cabeço a vida era ritmada pelos afazeres do dia, sempre os mesmos, comandada
pela tirânica sucessão das sementeiras e das colheitas. Vida dura. Por única
distração havia a mudança do tempo. Muito longe, onde diziam que ficava o mar,
viam-se em montões as nuvens que trariam a chuva do dia seguinte. Sobre a serra
de Bornes, como que a dois passos, nasciam as trovoadas que depois estouravam
mais secas que tiros de canhão e cujo eco se repetia e ricocheteava nas
encostas, prenunciando catástrofes.
Os vendavais, esses eram repentinos. Na violência do seu sopro adivinhava-se
o poder de espíritos malignos, determinados a arrasar tudo. E aquela gente,
que vivia ali sem capela, nem sequer umas alminhas, só com a protecção de algum
santo de calendário e das medalhas penduradas nos rosários, corria a recolher
os animais, agachava-se em torno da lareira a rezar para que o Senhor se
compadecesse. Vida de medo.
O avô, ouvi-o depois às suas irmãs, já de pequeno não era de rezas. Resmoneava
com os outros, por temor de que
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lhe assentassem algum tabefe se mostrasse falta de respeito, mas assim que
se fez rapaz deixou de rezar e não haveria força que lhe mudasse a ideia. A
caça, as raparigas e os bailes nessa ordem — eram a sua paixão. Nenhuma
distância lhe parecia grande, nenhum esforço o cansava, e se havia festa numa
aldeia da redondeza, deitava um saco de trigo aos ombros, cinquenta quilos,
e ia incansável ladeira abaixo, ladeira acima, a cantarolar como era seu
hábito. Até Carviçais, uma caminhada de três horas. Para Estevais quatro.
A Lagoaça sete. A Mós também sete. O saco de trigo entregava-o ele na taberna,
em penhor das rodadas de vinho e dos maços de cigarros, para retribuir as
cortesias dos amigos, parentes e conhecidos. De todos, afinal. Porque as
aldeias, chegadas ou longínquas, eram uma teia de laços de sangue e amizades.
Nesse tempo em que o correio era luxo caro, pedia-se aos almocreves que dessem
recomendações aos parentes de Chacim, a dia e meio de jornada, que se visitavam
quando muito uma vez por geração.
Batia à porta gente desconhecida, vizinhos de primos de Bemposta que iam de
passagem com gado para as feiras de Moncorvo, de Trancoso, da Pesqueira, e
a quem era natural que se desse ceia e dormida. Recebiam-se ofertas
inesperadas: uma bola de carne, um cesto de doces, um frango, um presunto,
um garrafão de vinho. Às vezes vindos não se sabia donde, nem de quem, porque
tinham passado por tantas mãos que o último portador se embrulhava no recado.
Mandavam-se presentes aos santos. «Vós ides amanhã à festa de Vila Flor, ó
Júlia? Então leva me estes paninhos e entrega-os lá à Nossa Senhora da
Assunção.»
Não invento nem alindo. Era assim na vida dos meus passados e era assim ainda
na minha meninice.
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Costumes brandos, mas não de todo desinteressados. Na solidão das serras era
preciso ter quem acudisse a um desastre, a uma urgência, à precisão de ir chamar
o médico ou buscar um remédio.
Não falo do Cabeço, onde as três famílias que lá moravam eram por necessidade
como uma família só. Falo de Estevais, a nossa aldeia, onde com festa ou sem
ela o meu avô já de moço aparecia quase todos os domingos. Para as caçadas
e para o namoro. Sempre de espingarda na mão, algumas vezes com o saco de trigo
ao ombro para a despesa.
Esse trigo ia-o ele tirando pouco a pouco da tulha paternal, às escondidas,
ajudado pelas irmãs, que eram mais novas e lhe queriam tanto bem que,
contaram-mo elas um dia, sorrindo enternecidas, tudo o que ele fazia se lhe
desculpava, porque não se lhe conhecia uma maldade que fosse. E se era como
era, de verdade a culpa cabia ao pai, homem forreta, de poucas graças, que
fazia gosto em trazer a família de rédea curta.
Se o velho fechava os olhos ao vício da caça, porque os coelhos e as perdizes
que o filho matava compensavam de sobra a despesa dos cartuchos, não lhe
perdoaria se viesse a saber que ele andava pelas tabernas a esbanjar dinheiro
em rodadas. Ou que perdia tempo em namoros. Um Cavaleiro — era esse o apelido
que os Carvalhos do Cabeço e de Carviçais tinham herdado de um longínquo
antepassado de Mós, meio fidalgo pobretanas para uns, salteador na boca doutros
— um Cavaleiro mourejava, apalavrava casamento com uma rapariga de gente boa,
tinha filhos, respeitava Deus, não fazia dívidas, não pedia favores a ninguém.
Namorada já ele arranjara, mas ao rapaz generoso e festejeiro que era, o saco
de trigo desviado de vez em quando
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e a venda, à socapa do pai, de algum coelho ou perdiz, não devem ter parecido
perspectivas de futuro que valesse a pena.
Infelizmente, para o negócio não tinha jeito e ir à jeira para alguém que lhe
pagasse em contado estava fora de questão: nem o orgulho lho consentiria, nem
o pai ia deixar que lhe fugissem os braços de que precisava para a lavoura.
Tanto mais que a mulher e as duas filhas mal podiam com a lida da casa e do
gado, e o outro rapaz, que era mole da cabeça, só servia para pastorear as
ovelhas.
Se tivesse vocação e um espírito obediente, poderia ter achado remédio no
seminário, que dava cama, mesa, educação e a garantia de uma vida de conforto.
Mas inquieto de nascença, quando em 1880 lhe chegou a obrigação de assentar
praça, foi de abalada à longínqua Lisboa para se alistar na Marinha. E lá,
para seu desconsolo, não o quiseram, dando-lhe por razão que quem só tinha
calcorreado montes nunca conseguiria ganhar pé de marinheiro. Adeus sonhos
de navegação e viagens ao Oriente.
Resignou-se à tarimba de Infantaria num regimento do Porto. Soldado raso. Má
vida, mas melhor e mais sua do que a que teria sob o jugo do pai a trabalhar
de sol a sol. Porque voltar, e isso tinha-o com certeza decidido logo, nunca
mais voltaria. Nos fins do ano, talvez, pelo Natal. Ou no Verão, pára as festas
e a caça.
Da sua história desse tempo só ficaram testemunhos orais, nem todos fidedignos.
É pouco provável que, sem saber nadar, se tenha atirado ao Douro para acudir
a uma mulher. Também deve ser fábula que, durante uma das frequentes revoluções
de então, tenha tido o sangue-frio de, antes de ela explodir, arremessar de
volta para o inimigo uma granada que caíra na sua trincheira. Mas descontadas
as fantasias dos parentes e amigos, não resta dúvida que era corajoso,
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pois o condecoraram por ter salvo uma família num incêndio, e ganhou um louvor
na ordem do dia pela abnegação que demonstrara ao ajudar os náufragos dum navio
encalhado nos penedos da Foz.
Como era quase geral para quem nascera nos montes, não tinha aprendido a ler
nem a escrever, e ao seu orgulho deve ter pesado o estigma. Não lhe escapou
também que, na vida complexa da cidade, o analfabeto só encontrava lugar nos
degraus mais baixos da escala social.
Sem oportunidade nem dinheiro para frequentar a escola, usando uma cartilha
que o capitão lhe tinha dado, ensinou-se ele próprio as primeiras letras.
Comprou depois pena e tinteiro, uma caixa de aparos, um caderno, e morosamente
foi desenhando as letras. Momentos de alegria tão intensa que nunca ele se
cansaria de os evocar e, contados por outros durante os serões da minha
infância, ganhavam um simbolismo lendário.
Apurou-se na leitura e na escrita, e de tal modo o maravilhou a descoberta
que pela vida fora lhe continuaria crescendo a paixão pelos livros e o saber.
Embora o pré fosse uma miséria, cuidava de pôr de lado o bastante para comprar
o jornal ao domingo, que tinha mais páginas e suplementos.
Continuava festejeiro, tocava guitarra, bebia o seu copo, mas quando ao fim
dos quatro anos de tropa a grande maioria dos camaradas foi de volta para as
aldeias, ele, seguro do que tinha aprendido, fez concurso para a Guarda Fiscal.
No exame ganhou o primeiro lugar, outra razão de orgulho. Mas doeu-lhe que
em vez de o deixarem ficar na cidade que tanto lhe agradava, o mandassem
desterrado ganhar prática em Esmoriz, uma aldeia na costa. Duas ruas de
casebres. Barcos frágeis encalhados na areia. Redes estendidas sobre varais
à espera de remendo. Pescadores tão pobres que
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no Inverno, quando o mar embravecia, ficavam sem sustento e iam a pedir esmola
por longe. Vinte e cinco anos, chefe de posto. O prédio ainda lá está. Embora
pequeno, era de cantaria, uma imponência entre as choupanas de madeira.
Bandeira desfraldada, o distintivo e as letras douradas sobre a porta. Sentado
a uma escrivaninha de pinho, ou fazendo as suas rondas, o jovem Zé Maria
comandava aí quatro homens que patrulhavam a beira-mar e de madrugada apareciam
na lota a recolher o imposto sobre o pescado.
O comandante, que própria e alheia conhecera a miséria de perto, dizia-lhes
que de vez em quando fechassem os olhos, não fossem severos no peso do peixe.
Recomendação supérflua. Esse era o costume, e quando a pesca rendia os
pescadores não esqueciam o favor, pelo que nunca nas casas da autoridade
faltava a sardinha ou a faneca, os camarões do mar próximo, o polvo que vivia
agarrado aos penedos, as raias e os congros que eles iam buscar às águas
longínquas donde se não via a costa.
Em 1886, casado havia ano e pouco com Maria dos Santos, uma rapariga de
Estevais, assistiu com ela no Porto aos grandes festejos da inauguração da
ponte de D. Luís.
Como era a vida nesse tempo?
No comboio que nos levava a ambos de viagem para a aldeia, minha avó olhou-me
surpreendida. Precoce, pouco mais fazendo que ler, aos oito ou nove anos as
minhas frases ganhavam por vezes uma seriedade adulta.
A vida era boa — respondeu ela, com uma expressão melancólica que recordo bem.
— Às vezes pesada, mas ia-se aguentando.
Palavras de conforto para não magoar a inocência da criança que ela me julgava
e eu no corpo ainda era — mas só no corpo, porque a cabeça, essa, pelas razões
misteriosas
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que as circunstâncias do viver engendram, funcionava acelerada e já pouco tinha
de infantil.
O mundo entrava-me em catadupas para o cérebro e cada cena, cada conversa,
por vezes uma simples observação, bastava para que numa torrente de sentimentos
se me revelassem episódios inteiros das existências que me rodeavam.
A avó tinha mentido por caridade. Acabada de casar, longe do conchego da família
e da aldeia, para a rapariguinha que nunca tinha conhecido mais que as ladeiras
em redor, e alguma ida a Mogadouro para a feira de ano, a vida não seria leve.
Criada na serenidade da montanha, nunca ela se habituou ao marulhar das ondas,
à ventania constante, à areia onde se caminhava a cambalear. Mais tarde,
contando o passado, diria muitas vezes que a saudade e a tristeza é que lhe
tinham feito perder o primeiro filho, uma menina que só viveu horas.
Mas maior sombra que o afastamento da casa paterna lhe causavam por certo as
aventuras do homem que ela, naquele tempo de submissão, tinha de aceitar
calada, fingindo não ver. Porque, infelizmente, de namorador Zé Maria passara
a galaroz.
Figura desempenada, ar marcial, a autoridade de comandante e o poder que lhe
dava a lei sobre aquela gente pobre, as mulheres corriam para ele como moscas
para o mel. Não ficaram detalhes nem provas, só murmúrios, retalhos de
conversas ouvidas por acaso e que findavam súbitas ao eu chegar — mas de vez
em quando uma ou outra fatalmente emprenhava e pelas aldeias da costa há-de
haver mais de um ignorado tio meu.
Contudo, as aventuras, discretas bastante para nunca ser apanhado em
flagrante, devem ter sido para ele apenas um passatempo. Paixão funda só a
tinha pelo estudo e peia leitura. Jornais, livros, os panfletos que os partidos
distribuíam
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aos milhares, devorava-os ele como se, juntamente com a sua, tivesse de saciar
também a fome de saber dos antepassados que o destino fizera nascer e viver
no negrume da ignorância. Zé Maria lia, relia, decorava.
Tinha poucos amigos entre os colegas, sim entre os tipógrafos, reputados então
por saberem muito e pelo seu entusiasmo pelas ideias novas do socialismo.
Quando a república finalmente vencesse sobre a monarquia, no país inteiro e
no mundo inteiro, garantiam eles que nunca mais haveria miséria nem fome, nem
medo, nem desigualdades. Zé Maria sentia a iminência das grandes mudanças.
Dizia-o à mulher e, porque ela mal conhecia as letras, finda a ceia lia lhe
ele o jornal em voz alta, para que aprendesse e também se maravilhasse.
Calma e ponderada ela ouvia, respondia que sim, mas o pensamento ocupava-se-lhe
mais com o filho que lhes nascera e por quem todos os dias rezava a São Lourenço
para que o deixasse vingar.
O rapaz vingou e, ele falecido há anos, eu acabado de nascer, homenageariam
um dia a sua memória e o muito que lhe tinham querido baptizando-me, como a
ele, José Avelino.
Do tempo que meus avós viveram à beira-mar, pouco mais sei. Que todos os anos
entre Agosto e Setembro voltavam à aldeia para um mês de férias, tradição que
os meus pais continuariam. Também nos dias entre Natal e Ano Novo. E por vezes
para a colheita, quando lhes chegava o alarme de que não haveria braços
bastantes para ceifar as searas.
O filho desenvolvera-se respeitador, bonito moço, irradiava alegria de viver
e para ambos tornara-se-lhes a menina dos olhos. Seguindo o exemplo paterno
o rapaz era possesso
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dos livros, e na escola, estupefactos com o brilho da sua inteligência, os
professores auguravam-lhe um belo futuro.
No mais a vida era calma, a rotina só quebrada no Inverno, quando as tempestades
traziam naufrágios e mortes. Sentada connosco à lareira quase meio século
passado, a avó Maria tornava vívidas as cenas de horror, com os náufragos
agarrados às rochas, perdendo as forças, clamando por um socorro que ninguém
lhes podia dar. A alguns empurrava-os a corrente e o vento para o largo,
enquanto as famílias enlouqueciam com o desespero de lhes não poderem acudir.
Os cadáveres apareciam depois na praia, repelentes de podridão, às vezes em
frangalhos, uma perna aqui, meio corpo além.
Um cargueiro inglês tinha-se espatifado uma noite contra os rochedos, e ao
clarear do dia estava a praia semeada de mortos, de caixotes, bidões, barricas,
gradeados. O avô Zé Maria e os seus homens ainda puxaram das pistolas, a ver
se continham a multidão dos saqueadores, mas nem a lei nem as armas fazem parar
quem tem fome.
O capitão ficou agarrado a um resto de amurada quase o dia inteiro até que,
sabendo-se sem forças nem esperança de salvação, o viram fazer um gesto de
adeus para terra, persignar-se e desaparecer nas ondas.
Vieram trinta e cinco caixões. Tão grande impressão me fez o relato que por
vezes pedia à avó que voltasse a contar, para de novo sentir os medos e correr
pela praia com o povo, ver os mortos, receber na face os salpicos do mar, fugir
diante dos guardas que avançavam de pistola na mão, pilhar a minha parte das
riquezas que a tragédia espalhara sobre a areia.
Histórias de festejos e romarias não me interessavam; nem as das curas
milagrosas que tinham acontecido na capela do Senhor da Pedra; nem as das
complicações com parentes
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e menos ainda as da carestia da vida. Fosse eu a acreditá-las, na juventude
dela quase tudo era de graça ou custava centavos, ia-se de comboio para o Porto
por dez tostões, com dez mil réis pagava-se um fato de boa fazenda.
Mas bondosa como era e sabendo-me os gostos, volta e meia a avó voltava a contar
dos naufrágios e dos pescadores que, desesperados pela miséria, tinham ido
com a família para o Brasil num barco a remos; das levas de degredados que
ela vira embarcar no Porto a caminho da África, acorrentados uns aos outros
como animais, entontecidos porque o degredo era uma forma de morte. Duma cena
de facadas na praia, entre dois homens apaixonados pela mesma mulher.
Os que foram para o Brasil chegaram lá?
Chegaram. Sãos e salvos.
Era um cinema, e nele me ia abastecendo das imagens com que, suplementando
as dos livros e as da fantasia, eu recriava o passado dos meus, «vivendo-o»
com eles, ao mesmo tempo que, inconscientemente escritor, aproveitava a
possibilidade de alindar, de esquecer ou escamotear os episódios que me feriam
a sensibilidade. Os de um avô femeeiro. Os das doenças íntimas, que a mãe e
a avó referiam numa linguagem que julgavam cabalística e para mim não podia
ser mais transparente. Os das humilhações que o avô tinha sofrido dum superior
que sem razão o odiava, ou os do tio José Avelino, ainda adolescente e a pedir
meças ao pai em questões de saias, roubando-lhe de vez em quando as amantes.
O melhor na escola primária, o melhor no liceu, tivesse a família dinheiro
e protecções o rapaz teria rumado para a universidade. Mas sem hesitação,
ciente de que encontraria
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outras portas para entrar na vida, alistou-se também na Guarda Fiscal, e em
1909, numa promoção extraordinária para a época, aos vinte anos era sargento.
Os pais reviam-se de orgulho, mas para eles 1909 seria também um ano de
decepção. Chegada à casa dos quarenta a avó Maria tinha engravidado, dando
à luz um filho que, por razões várias, receberam como um castigo: fora gerado
por descuido e chegava como um trambolho; não era a rapariga que gostariam
de ter para diminuir a saudade da que tinham perdido; e por muito inteligente
que viesse a mostrar-se, nunca seria capaz de igualar os êxitos fulgurantes
do irmão, que preparava o concurso para oficial.
António Afonso, meu pai, nasceu sob uma estrela que, sem lhe ser de todo
funesta, de certo modo se descuidou de o proteger. Mal-amado, recebido como
um empecilho, logo de pequeno se deve ter dado conta de que os obstáculos que
lhe punham pela frente não eram fáceis de contornar ou de vencer. Os pais
achavam-no incómodo, difícil, iam-lhe tornar a infância amarga com uma
disciplina de castigos e tareias que ele nem sempre mereceria.
Além disso, como se um complexo de Édipo não bastasse para afligir, ele, para
rumar ao encontro do seu destino, não somente teria de «matar» o progenitor,
mas também o irmão que, além de favorito da mãe, o tratava com uma condescência
toda paternal.
Sem ser dado a confidências, mas talvez para de maneira indirecta me dizer
o carinho que por mim sentia, lembro-me que por duas ou três ocasiões me contou
que, por uma qualquer traquinice sem importância, a mãe um dia, desesperada,
o agarrara pela cabeça e lha esfregara até sangrar contra as arestas de cimento
da parede da casa.
Que não era o que se chama um anjo, ele próprio concordava. Fugia de casa,
roubava, mentia, era violento, zaragateiro,
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quebrava os vidros da vizinhança à pedrada, matava gatos à fisga. Quando em
1916 a família se mudou para Vila Nova de Gaia, para a casa onde eu viria a
nascer, ele aos sete anos já fumava, era o terror da escola de Santa Marinha,
nela ganharia fama por rachar a cabeça da professora com um tinteiro, saltando
depois do primeiro andar para a rua sem ter quebrado os ossos.
Fechavam-no à chave, punham-no a pão e água, batia-lhe o pai com o cinto, a
mãe com um pau. Às vezes o seu corpo ficava com tantas manchas negras que metia
medo. Mas não ganhava emenda. Aos dez anos roubou o porta-moedas da mãe com
o dinheiro para as compras e desapareceu durante três dias, deixando a família
aflita. Trouxe-o de volta a casa uma prostituta idosa que o tinha visto a vadiar
esfomeado pela Ribeira, no Porto, e se apiedara dele.
Mais tareia, mais castigo. O único que parecia querer-lhe bem e se compadecia
de o ver tão torturado era o irmão, que muitas vezes se entremetia para que
não lhe batessem, lhe perdoassem, porque com tanta severidade se arriscavam
a vê-lo meter-se por maus caminhos. E para o livrar da fúria dos pais levava-o
consigo para o quartel, para os cafés, ia com ele às romarias, dava-lhe
cigarros. Ensinou-lhe a jogar às cartas e ao dominó, a tocar guitarra. De vez
em quando, mansamente, em conversa de homem para homem, recomendava-lhe que
não fosse burro, não faltasse às aulas, que aprendesse, porque a instrução
era a chave para o futuro.
O miúdo acenava a concordar, sem fingimento, porque sabia que era assim,
tinham-lho dito na escola os professores que achavam que seria uma pena se
ele não aproveitasse a «boa cabeça» que Deus lhe tinha dado.
Aprendia com facilidade, lia com entusiasmo, mas a sua paixão eram os números;
tudo o que fosse exacto e lógico, matemática, álgebra, geometria, exercia sobre
ele um fascínio
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que tocava a obsessão. Mais tarde deixaria perplexos os colegas, ao fazer
cálculos complicados com uma celeridade que eles consideravam parecer dum
número de circo, e a sua memória tornar-se-ia lendária. Da escola, junto com
o amor do desenho, ficou-lhe uma caligrafia de uma elegância invulgar, que
revelaria mais sobre o seu carácter do que a carapaça de severidade e melancolia
atrás da qual se iria esconder a vida inteira.
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No mundo confortável em que hoje vivemos, o relato objectivo não chega para
se ter ideia do que era nos fins do século passado a pobreza e o primitivismo
das aldeias de Trás-os-Montes. A imaginação também não basta. Para de certo
modo ser capaz de aperceber a realidade de então, o leitor terá de regredir
àquele abençoado estádio da meninice em que a alma com tudo se maravilha, e
o espírito crítico, por incipiente, não intervém com dúvidas e suspeitas. Até
à minha mocidade pouco ou nada mudara ainda nas circunstâncias de Estevais,
a nossa aldeia, e contudo, para reconstruir a vida do tempo, eu que a vivi
tenho de me esforçar para impedir que as emoções falseiem as imagens e os
momentos recordados, ou que a nostalgia afecte a memória. Vigio-me para que
os alindamentos não sejam em demasia, nem entrem à socapa no testemunho.
Alguns serão inevitáveis. Por respeito. Pela compaixão a que obriga a angústia
dos que viveram sem sorte nem socorro, oprimidos pelos ricos e as autoridades,
abandonados de Deus, sofrendo com as intempéries, que umas vezes os impediam
de semear, outras vezes destruíam o que eles
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meses inteiros tinham sonhado colher. E com pouco pão, poucas batatas, poucas
cebolas esses eram os pilares da sua frágil mantença — aterrorizava-os a
passagem dos dias, a certeza de que chegaria o momento inevitável em que os
filhos passariam fome, em que de chapéu na mão teriam de ir, humilhados, pedir
a algum vizinho ou parente abastado que lhes emprestasse o dinheiro para a
sementeira.
Por razões que devem ter a ver com uma vida dura e incessantemente repetida
de geração para geração, de século em século; talvez também com a paciência
que precisa quem vive rodeado de montes, onde o longe parece traiçoeiramente
perto, e a cada encosta que se desce segue-se outra que se tem de subir, a
gente de Estevais é tenaz.
Ao longo de tempos imemoriais suportaram privações, misérias, medos, e o
exemplo do avô Zé Maria, desertando para a cidade, demoraria décadas a ser
seguido, só depois da Grande Guerra iriam os primeiros a caminho dos eldorados
do Brasil e da França.
Ao desespero de certeza não cederam, pois em mais de duzentos anos só lá houve
três suicídios: dois velhos transtornados e um rapaz que se enforcou pela
vergonha de ter apanhado o mal-turco.
Personificação da tenacidade, António Manuel Rentes, o outro avô, nasceu,
viveu e iria morrer na força da vida num mundo de que nunca viu mais que os
montes em redor e, nas feiras de ano ou por doença, as vilas de Mogadouro e
Moncorvo, ambas então a oito ou nove horas de caminho para a ida, outras tantas
para a volta.
Não o conheci, porque faleceu no ano anterior ao do meu nascimento, mas sobre
ele os mais idosos guardam ainda tantas recordações e episódios detalhados
que não é difícil
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reconstruir-lhe a vida, a personalidade e até a aparência física, mau grado
não haver dele qualquer fotografia.
Conheci-lhe o pai, o meu bisavô Cuco, nonagenário de maus fígados, meio tonto,
que por me ver quase só de ano a ano desconfiava não ser eu família e dar-me
por bisneto para lhe apanhar a herança de algum metro de terra. Mas por enquanto
ele e eu somos sombras fugidias no pano de fundo do palco onde António Manuel
Rentes faz a sua entrada.
É de estatura mediana, com um rosto oval, o cabelo preto, olhos dum castanho
pintalgado de verde. Pouco tempo andou na escola, mas sabe ler e escrever,
sério como é aparenta mais anos do que os quinze que tem.
Zangou-se com o pai, que o trata como um servo, e dando-se conta de que por
si só o trabalho da lavoura não é futuro que lhe agrade, deixa a família e
vai para Lagoaça, aprender com um parente a arte de sapateiro. A troco de cama
e mesa, como então era usança. Cinco anos. Também escravatura, mas com um fito
e tenacidade igual à que levou Jacob a pastorear tanto tempo as ovelhas de
Labão. Só que a sua Raquel se chama Elisa e não é filha do sapateiro, mas uma
vizinha de Estevais, três anos mais nova do que ele.
Agradou-se de pequeno pela rapariga de corpo airoso, covinhas na face e uns
olhos pretos que, quando ela sorri, dão a impressão de que se fecham.
Remediados são-no ambos, ele com a vantagem de só ter uma irmã; na família
dela, embora possuam boas terras e rebanhos, sentam-se dezasseis à mesa e no
dia em que os pais morrerem a herança de cada um será nada coisa nenhuma. Vivaço
como é aprende bem e o patrão, reconhecendo que tem ali ajudante esmerado,
ensina-lhe os segredos da ofício, o preparo das linhas, o modo de escolher
solas e cabedais,
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as receitas para com azeite, plantas e o sebo dos rins de anho, preparar a
pomada que torna macio e impermeável o couro grosseiro das botas.
De aprendiz passa a oficial, aos dezanove anos é mestre, mas mais energia do
que no trabalho gasta ele a repelir as arremetidas constantes do sapateiro,
que vê no moço o genro ideal e um sócio lógico. Escolha uma das três filhas
que tem em casa e ele cuidará de que nada lhes falte. Mas o coração do António
já estava dado, e com promessas de dinheiro ou benefícios nunca ninguém
conseguiria demovê-lo do seu propósito.
Contou-me a avó Elisa que nos três primeiros anos quase se não tinham visto;
de longe a longe, num ou outro domingo, e no dia da festa de São Lourenço.
Quando ele finalmente chegou a mestre, a sua esperança era que o patrão o
deixasse estabelecer por conta própria. Mas já que não lhe queria as filhas,
o sapateiro lembrou-lhe que o não libertava do compromisso e lhe devia ainda
dois anos dos cinco que tinham apalavrado.
António cumpriu, mas daí em diante, quase todos os dias, chovesse ou nevasse,
fizesse frio ou calor, acabado o trabalho comia à pressa e punha-se a caminho
de Estevais a namorar a prometida. Duas a três horas para cada lado, conforme
o tempo, o estado dos carreiros e o cansaço das pernas. E para quê? Para estar
com Elisa e a família dela em volta da lareira, sonhando alto, falando da
esperança de uma vida melhor, ao mesmo tempo que, para ocupar as mãos, ia
cortando em pau de buxo as colheres que serviriam mais tarde à prometida para
provar a sopa, e com que hoje em nossa casa medimos o arroz.
No Inverno levava nos bolsos umas quantas caixas de fósforos e com ramos de
giesta enrolava fachos que acendia para afugentar os lobos esfomeados que
rondavam pelas veredas.
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Findo o serão voltava a Lagoaça sem visitar a casa do pai, porque esse, com
o seu mau génio, ao saber que ele tinha recusado a proposta do sapateiro e
andava de namoro com a pobretanas, o tinha expulsado e excomungado. Que não
se considerasse seu filho. Nunca mais. Não lhe pedisse a bênção nem ajudas,
porque lhas negaria.
Casaram em 1906, ele com vinte, ela com dezassete anos, e foram viver numa
quinta parte de casa que Elisa tinha recebido por herança dos avós. Além da
roupa do corpo, pouca e gasta, possuíam por enxoval quatro lençóis, dois
cobertores, uma cama de madeira tosca, um enxergão de palha, dois pratos e
dois garfos que a mãe dele lhes dera à socapa.
Mesa não tinham e por enquanto não precisavam, comiam ao lume sentados nos
banquinhos rasos que se fazem com três bocados de tábua e meia dúzia de pregos.
No rés-do-chão da casa abriu ele oficina de sapateiro. Previdente como era,
e poupado, o pouco que tinha ganhado nos anos de aprendizagem investira-o em
sovelas e facas, agulhas, martelos, uma forma. Tachas e cardas, a sola, a
primeira peça de cabedal, fiou-lhas o senhor Cinco Réis, que em Lagoaça tinha
uma loja onde vendia de tudo por grosso e a retalho.
Porque era trabalhador e só usava material bom, o negócio prosperou. Além
disso, como para o calçado do monte o modelo era por assim dizer único — as
botas de homem com cano, as de mulher sem ele — um par nunca lhe levava mais
de dois dias a fazer. No resto do tempo deitava-se a semear, a lavrar, a podar,
trazia num brinco a horta e os bocados de terra que a mulher recebera dos pais.
Contudo, a arte de sapateiro e os trabalhos daquela reduzida lavoura não
chegavam para que gastasse a muita energia
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que tinha e, pensando, repensando, arriscou um passo maior.
O espaço era acanhado, mas à oficina acrescentou um balcão, atrás dele
carpinteirou uma prateleira para os copos, colocou uma pipa entre as tulhas
e fez-se também taberneiro.
Nesse tempo, sem estradas nem comboio, Estevais era lugar obrigatório de
passagem para tudo o que se movia entre o centro do país, as terras de Bragança
e mais para lá, na Espanha, as províncias de Zamora e de León. Enormes rebanhos
de ovelhas e de cabras, manadas de cavalgaduras, récuas de machos com fardos
de pano, carros de bois que de tão carregados eram puxados por duas juntas,
na única rua da aldeia quase todos os dias passava gente de fora.
Lugar de pousio só havia um, a taberna do senhor Carolino, por alcunha o
Espinha. E verdade se diga, era pousio amplo, bem situado, à entrada da aldeia
para quem vinha de Carviçais, com um vão onde cabia inteira uma leva de
almocreves.
Infelizmente, o senhor Carolino merecia a alcunha, e eu ainda cheguei a
conhecê-lo, um homem magro, caladão, com uns olhos azuis que assustavam de
tão inexpressivos. Como taberneiro tinha fraca fama, diziam dele que
«baptizava» o vinho e nos pesos não era de confiar. Mas com sete filhos, poucas
terras e a taberna como único ganha-pão, ninguém quererá enxovalhar-lhe a
memória por pecados tão miúdos.
Estabelecido então há anos e com fregueses certos, não se deve ter incomodado
com a concorrência dum pexote a quem havia pouco começara a crescer a barba
na cara. Outros com experiência tinham tentado e falhado, a este de certeza
aconteceria o mesmo.
Só que a têmpera do Antoninho Sapateiro — o nome que tinha ganhado — era mais
rija, a sua cabeça mais bem assente,
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e para o vinho ia seguir a mesma linha que para o cabedal: o bom a preço justo.
Nessa altura também já tinha poupado o bastante para comprar uma parelha de
burras, e ia buscá-lo em odres onde o sabia de qualidade: ao vale da Vilariça,
à Pesqueira, às terras de Foz Côa, pouco se lhe dando que fosse longe, pois
para alcançar o que queria não havia canseira a que se negasse.
Cedo começaram a parar mais almocreves e tendeiros à sua porta do que à do
Espinha, e como negócio lhe ia de vento em popa, passou também a dar-lhes de
comer e a pensar-lhes as montadas.
Estranha empresa, a do Sapateiro que vendia vinho ao mesmo tempo que fazia
botas, enquanto no andar de cima a mulher se atarefava em torno das panelas.
Quando os fregueses escasseavam deixava a porta aberta, para que os que
eventualmente chegassem se servissem eles próprios — um começo de «pegue e
pague» — e ia-se a amanhar as terras, trabalho que não sofria espera.
Quando fazia frio mantinha uma braseira acesa, luxo que só se via nas vilas
e por si bastaria para tornar a taberna um centro social estimado. Mas os homens
gostavam também de o ver trabalhar, apreciavam a sua arte, a meticulosidade
do ponteado, a força que punha no aperto do fio, o cuidado com que batia a
sola, a precisão dos furos dos ilhós, a paciência que tinha para ensebar o
cabedal até deixá-lo como que envernizado.
Anos mais tarde, ele há muito falecido e eu já homem feito, de vez em quando
um ancião haveria de parar-me para mostrar as suas botas, dizendo para que
com razão me orgulhasse: Feitas pelo teu avô. Nunca as houve melhores, nem
sequer iguais.
Mas não era só na feitura do calçado ou no negócio do vinho que o Sapateiro
brilhava. Pela inteligência e pela seriedade,
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pelo modo expedito como tratava de tudo, fosse seu ou alheio, a gente da aldeia
habituou-se a pedir-lhe conselho, descobrindo que nem a sua juventude nem a
modéstia da sua condição o impediam de tratar sem medo com os ricos, a Guarda
ou a gente da Câmara. E assim, pouco a pouco, fizeram dele regedor, juiz de
paz, a tábua de salvação a que recorriam nas aflições.
Mais homem de ouvir que de falar, acudia a quem precisava, mas logo voltava
aos seus afazeres sem esperar agradecimentos nem perder tempo com futilidades.
Tempo era dinheiro e àquela gente, em maioria apática e por natureza
melancólica, dava ele a impressão dum redemoinho, homem que só via a cama para
se refazer da canseira, e nunca se sentava como os outros nos bancos da rua
para dois dedos de conversa.
De olhos postos no futuro, cada vez que a ocasião surgia e o seu dinheiro era
o preciso, comprava as terras boas postas à venda ou aquelas que serviam para
alargar as que possuía. A casa ficaria sempre simples, quase pobre, com as
paredes de pedra nua e a lareira sem chupão, o fumo a escapar-se por dois buracos
no telhado que de propósito, ou abertos por alguma ventania, tinham ficado
sem telha. Cadeiras e mesas, armários, os escanos ao pé do lume, as arcas,
a cama nova, tudo isso o fizera ele sólido, em boa madeira de castanho, deixando
às vezes no entalhe duma flor, dum ramo, o testemunho da sua artisticidade.
Com a mulher dava-se bem. Ambos eram poupados sem avareza e em questões de
diligência no trabalho valiam-se como parceiros. Ao casar, sabendo-se novos
demais e quase sem posses, tinham decidido que seria melhor não se meterem
a ter filhos antes de lhes poderem assegurar o pão de cada dia.
Mas embora de começo a vida lhes tivesse corrido de feição, tinham passado
seis anos quando em 1912 lhes nasceu o primeiro filho, uma rapariga, a que
deram o nome de Ernestina.
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Pouco diferente da época remota em que a tinham fundado como povoado, a aldeia
era ainda uma rua de casas de pedra solta, cortada por meia dúzia de becos
ladeados de palheiros, estábulos, pocilgas, aqui e além um curral, um palmo
de horta.
Ao cimo, junto da igreja e a única com reboco e cal, ficava a casa dos Pimentéis,
gente da pequena aristocracia da província, latifundiários, donos da «Casa
Grande» de Castelo Branco e, desde gerações, também mais ou menos «donos» da
Câmara e da influência política no concelho de Mogadouro.
Ao fundo ficava a capela. A rua, longa, quase a direito e nalguns pontos larga
de dez metros, era de piso desigual, porque afloravam nela rochedos que nada
conseguia desgastar. No começo do Inverno, seguindo a largura das casas até
ao meio da calçada, cada um deitava montes de palha cortada que depois, trilhada
pela passagem da gente e das bestas, ensopada pela chuva, as penicadas e o
lixo das casas, não tardava a fermentar. Nuvens de moscas e mosquitos cobriam
tudo, mordiam com uma ferocidade de praga bíblica, mas o hábito da sujidade
era consagrado peio tempo, e o adubo indispensável para uma terra que a natureza
fizera pobre. Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e
a das casas onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão — com as terríveis
doenças que os afligiam.
Poucos eram também os que escapavam às «febres», a malária que os punha
escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com
calafrios que nenhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das
chamas do inferno.
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Morriam da malária e da cólera, do tifo, da tuberculose, do antraz, do
vómito-negro, mas também do desleixo e do isolamento. Levavam-se os doentes
a cavalo ou de liteira para Moncorvo, viagem dum dia inteiro por maus caminhos
e, chegados lá, o único médico ou não estava ou dizia-lhes que esperassem;
se não queriam ou não podiam fossem à Pesqueira, dois dias mais longe. Por
isso se curvavam ao que lhes parecia a vontade do Senhor e este, misericordioso,
às vezes aceitava-lhes as orações, obrava curas milagrosas. De milagres eram
também capazes os ciganos, que sabiam distinguir os carbúnculos e outras
feridas ruins, e as faziam desaparecer queimando fundo a carne com um ferro
em brasa.
No Verão, porque a pouca água se tornava salobra, havia mais doenças e sobretudo
os pequenitos morriam como passarinhos: levava-os o sarampo, as «bexigas»,
a soltura; acontecia fenecerem dum momento para o outro e dizia-se então que
era um bem, uma caridade de Deus que os chamara a si para lhes poupar o
sofrimento de viver.
Ernestina conseguiu escapar sem arranhões de maior aos perigos dos primeiros
anos daquela vida dura, talvez porque o Sapateiro tinha juntado aos deveres
de pai as funções de anjo da guarda. Além de mimos e cuidados para que nada
lhe faltasse, servia-lhe ainda de escudo permanente contra as fúrias
irracionais da mãe.
Em 1915 Elisa engravidara de novo, dando à luz um menino que era, ouvi-lho
eu muitas vezes, «o ser mais perfeito que Deus jamais pôs no mundo.» Para o
pai um orgulho, o herdeiro varão; para a mãe um enlevo de todas as horas o
ver como o pequerrucho crescia em beleza e vivacidade.
Mas instintivamente a irmã deve ter sentido que sobre si pesava uma ameaça:
carinhos, atenção, nada disso continuaria
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a ser garantido e unicamente seu. O bebé tirara-lhe a primazia e Ernestina,
que desde a nascença dera mostras de ter um carácter difícil, tornou-se
insuportável.
Teimosa, desastrada, desobediente, repontona, com queda para transformar em
calamidade as coisas simples — um dia à janela deixou escapar das mãos uma
jarra de vidro que por pouco ia ferindo um vizinho, doutra vez pegou fogo à
casa, a brincar com uma faca cortou a boca até à bochecha - Ernestina tomou-se
no seio da família uma espécie de risco permanente. O pai levava-a consigo
para o campo, para as feiras, algumas vezes levou-a também nas longas jornadas
da compra do vinho, mas assim que a deixavam um momento sozinha em casa punha-se
a rondar o irmão com intenções que pareciam ter pouco de pacíficas.
Por isso, quando a tragédia aconteceu e uma manhã deram com o garotinho morto
no berço, a mãe como que perdeu a razão, gritando que a filha — que pouco passava
dos quatro anos — o tinha matado com ciúmes e mau-olhado. Desvairada deitou-lhe
as mãos ao pescoço e se o homem não tivesse acorrido de certeza a teria
estrangulado.
Tiraram a rapariga de casa por uns dias e levaram-na para os avós até que a
mãe acalmasse, mas a partir daí e quase para o resto da vida, um nada as poria
em pé-de-guerra.
O tempo que se seguiu à morte do bebé foi para ambas um inferno. Elisa não
conseguia suportar a dor da perda e passou a odiar a filha que, embora pequena,
parecia ter o demónio; castigos ou pancadas não lhe faziam mossa, ria-se se
a ameaçavam e, inexplicavelmente, conseguia que mesmo as brincadeiras se
transformassem em tragédia.
Um dia, imitando o que via fazer aos adultos, amarrou a um banco de carpinteiro
um camarada mais dócil. Outros, achando graça, vieram ajudá-la e fiéis à regra
apertaram forte acorda que segurava o «porco.» Trouxeram um alguidar
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para aparar o sangue, um braçado de palha com que se queimaria a pele do animal,
e o «porco» — o primo Américo — contar-me-ia anos depois que ele próprio achara
graça àquilo. O que não passava pela cabeça de ninguém era que Ernestina,
tomando a sério a representação da matança, se tivesse armado duma faca que
inesperadamente espetou no pescoço do garoto.
Os outros fugiram aos gritos, a vizinhança acudiu, o Américo escapou com um
lanho que lhe deixaria cicatriz, e a malvada ficou de cama com o corpo numa
nódoa, tão violenta foi a tareia que lhe deu a mãe.
Ao saber da nova o Sapateiro, que tinha andado de jornada, desgostou-se com
a mulher. Porque, dizia ele, a criança não fizera aquilo por maldade, mas por
desatino, não era com pancadas que se lhe ia dar entendimento. Palavra puxa
palavra, zangaram-se pela primeira vez a sério e ele, temendo perder o juízo,
embrulhou a filha num cobertor e foi-se com ela para casa dos sogros. Uns dias
apenas, porque logo se meteram os familiares a apaziguar, a dizer que tivessem
juízo, que esquecessem o caso.
E facto que o Sapateiro não podia sem mais nem menos abandonar o ganha-pão
e os animais, ou desleixar as terras.
É facto também que amava demais a mulher para querer viver sem ela. Mas como
o seu sentido de justiça e o amor que tinha à filha não facilitavam a situação
nem as pazes, a divina providência interveio e Elisa adoeceu. Com febre alta,
delírios, ataques em que o sangue lhe saía às golfadas peia boca e, sem comer
nem beber, quase de seguida reduzida ao esqueleto.
O Sapateiro correu a buscar o médico a Moncorvo. O médico chegou, examinou,
disse que era grave. A única esperança de salvação estava em levá-la com
urgência para o hospital do Porto, pois só lá a poderiam tratar.
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Partiram na madrugada do dia seguinte. Numa caminhada longa e dolorosa, a pobre
montada numa burra, ele ao seu lado a pé, para lhe acudir se ela com o delírio
se desequilibrasse, levaram o dia inteiro, a noite e a madrugada para fazer
os sessenta e tal quilómetros até à estação do Pocinho, que era então o fim
da linha do comboio.
Esperava-os lá Maria dos Santos, a irmã mais velha, que avisada por telegrama
tinha vindo de Vila Nova de Gaia para acompanhar a enferma. O Sapateiro disse
adeus à mulher com pouca fé de a voltar a ver viva e, assombrado por maus
pensamentos, regressou a casa.
Se lho tivesse pedido abruptamente, confessando que me ocupo a reconstruir
a história desse tempo, e que gostaria de ouvir mais detalhes do que aqueles
que já conheço, minha mãe, com um encolher de ombros, acharia desinteressante
e falaria doutra coisa. Mas além de que em ocasiões destas não cabe a
brusquidão, ao longo da vida aprendi também a distinguir-lhe as teimosias e
as fraquezas.
Assim uma noite, depois da ceia, começo um longo rodeio sobre gente
desaparecida, costumes decaídos, a alegria que os arraiais deixaram de ter,
o abandono em que andam os campos e, insensivelmente, levo-a a falar dos meses
que então viveu sozinha com o pai e lhe ficaram na lembrança como a época mais
feliz da sua vida.
São passados oitenta anos, mas ela faz reviver com nitidez pessoas e coisas,
momentos, o júbilo de todos os dias terem sido então de harmonia e paz.
Embora preocupado e tão cheio de afazeres que parecia milagre como podia acudir
a tudo, para o Sapateiro a filha vinha em primeiro lugar. Onde ele estivesse,
estava ela; para onde fosse, longe ou perto, levava-a consigo.
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Era-lhe simultaneamente pai, mãe, anjo custódio, malabarista bondoso que
tirava dos bolsos um doce, um brinquedo, e uma manhã ao acordar a surpreendeu
com um cachorrinho perdigueiro, sonho que ela jamais esperara ver realizado.
Apertava-a contra si na albarda para que perdesse o medo de cavalgar; na horta
ensinava-lhe paciente o modo como se enfeixam as couves ou a réstia das cebolas,
o jeito de atar os feijoeiros às estacas; tinha-lhe feito uma enxada de
brinquedo, para que ela pudesse também guiar a água da rega para os sulcos
onde cresciam as tomateiras; deu-lhe um cestinho, que ainda hoje guarda, para
pôr os figos que lhe deixava colher nos ramos mais baixos das figueiras.
À noite, ao deitar, esperava até que ela rezasse o padre-nosso pelas melhoras
da mãe e descia depois para a oficina a continuar o trabalho, enquanto os
fregueses se mediam eles próprios os copos de vinho e aguardente. Ernestina
adormecia embalada pelo murmúrio das conversas e o bater ritmado do martelo
sobre a sola.
Em Vila Nova de Gaia, amparada pela irmã, o cunhado e os sobrinhos, que gostavam
sinceramente dela, Elisa ia arribando, mas devagar. No hospital de Santo
António, no Porto, onde ia a tratamento, receitavam-lhe injecções e pílulas,
xaropes, banhos de mar, e recomendavam sobretudo descanso. Mas nem o seu corpo
nem o seu espírito se acomodavam com aquela indolência forçada e ao fim de
quase cinco meses, vendo que, no seu modo de dizer, «a coisa não ia para trás
nem para diante», decidiu voltar a casa.
Acompanhou-a de novo a irmã para aquela viagem de dia inteiro até ao Pocinho,
onde as esperava o Sapateiro com a filha e as burras em que fariam o moroso
regresso.
De cansaço, ou por se dar conta de que de novo tinha perdido o exclusivo das
atenções do pai, Ernestina rabujou
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de modo tão desalmado durante o caminho, que em determinado momento a mãe
desatou aos gritos e o Sapateiro, perdendo a calma, ameaçou que se a filha
não se calasse e aquietasse a acalmaria ele com um par de bofetadas.
A ameaça, temerosa por vir de quem ela só recebera afectos e nunca lhe tocara
com o dedo, lançou-a num ataque de histeria.
Maria dos Santos, bondosa por natureza e compreendendo as boas razões que todos
tinham, chamou a sobrinha para que se sentasse junto de si na albarda e,
acarinhada, confortada, a pobre acabou por adormecer, só acordando quando
muitas horas depois se apearam à porta de casa.
Tréguas, se as houve, devem ter sido raras. Na lembrança de ambas raro passava
dia em que Elisa, desvairada, não corresse atrás da filha aos brados e com
ameaças, porque esta, por traquinice ou mau génio, se tomara refinada nos modos
de apoquentar.
O pai, se estava presente, interpunha-se e protegia-a das pancadas. Mas sofria
fundo. Embora devotado à mulher e à filha, dava-se conta de que a situação
se tomava intolerável.
E para conseguir suportar aquela briga de todos os instantes, refugiava-se
cada vez mais no trabalho. Queimasse o Verão ou rachasse o frio, fizesse a
chuva e a ventania correr os outros para o conforto da lareira, o Sapateiro
plantava, semeava, lavrava, podava e limpava como um possesso. Dos alvores
da madrugada ao sol-pôr.
Cuidava melhor dos animais que tinha do que de si mesmo, comia duas garfadas
e descia para a oficina, gastando poucas palavras com os fregueses que,
amodorrados pelo vinho, o calor da braseira e o fumo dos cigarros, se iam
lentamente embebedando.
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Um par de botas fazia-o ele agora em dois serões. Mesmo assim a gente da aldeia
queixava-se porque, como a fama da sua arte se espalhara por longe e as
encomendas eram muitas, eles, que queriam ser atendidos mal precisavam, tinham
de esperar vez. Mas em questões de correcção, seriedade ou justiça o Sapateiro
era intratável, e embora pouco passasse dos trinta anos guardavam-lhe mais
respeito que ao doutor da Casa Grande que, talvez por ser muito rico, tinha
fama de sovina e de maroto.
Apreço merecia-lhes cada vez mais a sua bondade, e nenhum aflito precisava
de pedir ajuda, pois lha oferecia ele desinteressado ao pressentir um
sofrimento ou uma carência. Os jeireiros achavam-no severo, porque não se
poupava a criticá-los se preguiçavam, mas sabiam-no justo pois, ao contrário
de muitos, na hora das contas nunca ele se abaixaria a atrasar-lhes o pagamento
ou a regatear o dinheiro da jorna. E para as mulheres nenhum patrão podia ser
melhor, pois se para a apanha da amêndoa e da azeitona os outros as deixavam
caminhar horas a pé, enquanto ao seu lado as burras iam sem carga, ele
dizia-lhes que montassem, porque os animais teriam tempo de descansar e assim
elas chegariam folgadas ao trabalho. Mas com aquela guerra em casa entre a
mulher e a filha o Sapateiro sentia-se infeliz. Ele, «que já não era de muito
riso», contam-me os anciãos, tornara-se ainda mais sombrio.
Passava de cabeça baixa, metido em si, dando a impressão de que até às
boas-horas lhe custava responder.
Em Outubro de 1918, com quase seis anos e meio, Ernestina entrou na escola.
Pequeno prédio que ainda existe, mas há muito abandonado, com uma salita no
rés-do-chão, outra de arrumos no primeiro andar, escolinha tão primitiva que
hoje custaria a imaginar se não se vissem semelhantes nos filmes que mostram
os confins da China ou do Bangladesh.
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Eu próprio a frequentei uns meses, sofrendo a ditadura e a palmatória da mesma
professora, a D. Aninhas, falecida centenária em 1995.
A escola, por assim dizer ao pé de casa, três portas adiante, era para Ernestina
e as outras crianças lugar de suplício. Aprendiam as primeiras letras
soletrando o ABC em coro, mas com que medos! A professora, magra que nem um
esqueleto, alçada nos tacões altos que continuaria a usar até à morte,
erguia-se diante deles como uma torre furiosa e impaciente, sempre aos gritos,
na mão a cana-da-índia com que inesperadamente lhes zurzia as orelhas.
Ernestina aprendeu a ler e a escrever em menos de um ano, mas quando a escola
fechou para as férias grandes a professora avisou os pais de que era melhor
que a não voltassem a matricular, porque nem mesmo obrigada a aceitaria. Que
a rapariga era o diabo feito gente, refilona de primeira, desobediente, sem
ponta de respeito por nada nem por ninguém. Melhor seria até se a metessem
num asilo, antes que fosse tarde.
O pai entristeceu mais, a mãe viu naquilo a confirmação de que não era sem
motivo que lhe custava tanto a aturar a filha, mas nem um nem outro sabiam
que remédio dar a uma situação que não fazia senão piorar.
Em Agosto de 1919 «a família do Porto», como na aldeia diziam, veio como era
tradição para a festa de São Lourenço e para passar com os parentes o resto
do mês.
Mau grado os anos de cidade, Zé Maria mantinha-se um caçador campeão e dizia-se
a rir que com certeza embruxava a caça, pois nos mesmos lugares por onde os
outros passavam sem ver nada, conseguia ele matar coelhos e perdizes bastantes
para encher o cinto.
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O filho mais velho também caçava, menos por gosto do que para agradar ao pai,
que gostava de o ter por companheiro. Afonso, o pequeno, ia com dez anos feitos,
e chegado à aldeia raro passava dia sem justificar a fama de turbulento. Roubava
dinheiro para comprar cigarros; na adega por detrás da taberna do tio
descobriam-no com a boca na torneira a beber o vinho directamente da pipa;
escondia-se nas capoeiras a satisfazer um vício estranho: esperava que as
galinhas pusessem ovo e tirava-lho logo, furava-o nas extremidades com um prego
que trazia sempre consigo e sugava-o deliciado antes que arrefecesse.
Mula, burra ou cavalo que alguém deixasse preso às argolas que ladeavam as
portas, era tentação a que não sabia resistir e nenhuma tareia curava. Num
abrir e fechar de olhos desapertava-lhes a rédea, montava dum salto e
desaparecia na serra onde depois tinham de o ir procurar porque ele, conhecendo
as consequências, ficava sem coragem de por si só voltar para casa.
O seu amor pelos ovos acabados de pôr e a tendência que mostrava para a
travessura — os pais diziam malvadez, mas era exagero — resultaria num episódio
que naquele meio pequenino, onde pouco ou nada acontecia, se tornaria lendário
e seria história para muitos anos.
Numa véspera de feira parou à porta da taberna do Sapateiro uma leva de
almocreves que vinha de longe com os machos muito carregados. Afonso, que era
expedito e grande para a idade, depois de ajudar à descarga das bestas correu
a trazer da cozinha para a rua os caldeiros em que a tia Elisa preparara as
«sopas de cavalo cansado» que os almocreves tinham encomendado para que os
animais se refizessem.
O garoto não conhecia aquilo e, curioso por natureza, cheirou, provou,
soube-lhe bem, comeu uma mão cheia,
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comeu outra, mais outra, e antes de se dar conta estava meio bêbedo. Também
não era para menos, porque para cada animal misturavam-se no caldeiro dois
pães dos grandes cortados aos bocados, um quilo de açúcar, vinho bastante para
amolecer tudo e um copo grande de aguardente.
A iguaria deve-lhe ter despertado o desejo por um ovo e, aos tropeções, enquanto
os que tinham visto zombavam dele, julgando que iria para algum palheiro a
curar a carraspana, o desastrado meteu-se na capoeira.
Com o que não tinha contado era que, além das poedeiras, uma das galinhas tinha
uma ninhada de poucos dias e ele, entontecido e com pressa de apanhar os ovos,
deve-se ter descuidado. Já tinha pisado uns quantos pintainhos antes de se
dar conta de que a galinha o atacava por lhe estar a matar a ninhada. Então
perdeu a cabeça. Aquilo não ia somente dar a maior carga de porrada que já
recebera dos pais, mas a galinha e os pintos eram dos tios e ele não sabia
que remédio dar àquela desgraça. Para confessar, faltavam-lhe as forças. Fugir
não adiantava, até seria pior, e se negasse ninguém o acreditaria.
Nesse momento o medo deve-lhe ter sussurrado uma saída que, embora não
resolvesse o caso, pelo menos adiava o castigo: matou o resto dos pintainhos
e torceu o pescoço à mãe para que ela parasse de cacarejar; depois,
cuidadosamente, assentou-a na palha, escondeu-lhe a cabeça debaixo duma asa,
pôs alguns filhos à sua volta e, para dar um toque de maior realidade ao quadro,
colocou-lhe os restantes entre as penas do lombo.
Ao anoitecer a tia Elisa fechou a capoeira sem dar por nada. De manhã,
surpreendida ao ver a galinha no mesmo lugar e na posição em que a deixara,
tocou-lhe, e ao vê-la cair tesa como uma tábua, os pintainhos idem, desatou
aos gritos de que a raposa lhos tinha matado.
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Os que acudiram desiludiram-na, porque em parte alguma se via sangue ou penas
e se fosse trabalho da raposa o que ela não pudesse comer levava-o consigo.
Não, aquilo tinha sido maroteira.
Interrogaram Ernestina, mais por princípio que por convicção, pois embora
desatinada não a supunham capaz duma crueldade daquelas; e ela a chorar negou
que não tinha culpa.
Mas viste quem foi?
Não senhora.
Só que o modo como respondeu deve ter parecido suspeito à mãe, que repetiu
a pergunta ao mesmo tempo que lhe torcia as orelhas com força redobrada; e
isso bastou para lhe avivar a memória de que tinha visto o primo sair da
capoeira.
Entretanto o malfeitor botara a fugir para a serra, mas ninguém se deu ao
trabalho de correr atrás dele, porque o medo dos lobos e do escuro o faria
voltar.
Surpresa grande teve-a ele quando ao cair da noite apareceu em casa banhado
em lágrimas e, em vez de pancadas, foi recebido com chacota. É que um dos
almocreves tinha visto como ele se embebedara com as «sopas» e sentiu remorso
de não ter avisado os pais. Perdoassem ao garoto e dissessem-lhe quanto era,
que ele pagava a galinha e os pintainhos.
Mas o Sapateiro disse que não senhor, não tinha importância, do rapaz
encarregava-se ele que ninguém o castigasse e a galinha iam-na comer à ceia.
Doutras travessuras nesse Verão não ficou relato, mas as férias iriam acabar
em tristeza.
Embora com menos gravidade do que na vez anterior, Elisa voltara a cair doente,
sem que ninguém pudesse dizer
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ao certo se o mal lhe vinha da apoquentação quase diária com a filha, ou de
qualquer fraqueza do organismo.
O médico era de opinião que voltasse para o hospital, mas ela respondeu que
não. Se Nosso Senhor não se compadecesse com o seu sofrimento e não lhe ouvisse
as orações, antes preferia a morte do que deixar que a metessem numa daquelas
enfermarias onde só tinha visto gente a gemer e a chorar.
Pouco habituado a que a sua autoridade fosse desobedecida, ainda por cima por
uma mulher humilde e analfabeta, o médico abespinhou-se e disse ao Sapateiro
que lavava as mãos do caso. Como ela recusava o tratamento preciso, o mais
provável era que no dia em que uma qualquer arrelia a fizesse sair dos eixos
lhe podia dar um ataque capaz de a pôr paralítica para o resto da vida; ou
de a matar redonda, o que seria uma caridade.
O Sapateiro conhecia bastante o génio da mulher para saber que não haveria
remédio contra aquela obstinação, e o seu carácter pacificador frequentemente
chocava com a agressividade de que ela usava, menos como arma do que em defesa
sabe Deus de que ameaças ou medos que lhe torturavam o espírito.
Um nada bastava para que, por exemplo, recusasse fazer a comida. Resignado,
fazia-a ele. Um contratempo mínimo, um desarranjo, e logo desatava às injúrias
contra o mundo, a família, os vizinhos, numa cólera tão desproporcionada que
só podia ser doença. Resignado, aturava-a sem lhe responder. Só quando ela
ameaçava a filha é que o Sapateiro, com a voz calma de quem há muito pesou
as consequências, a avisava de que se tocasse num cabelo da rapariga ele a
faria em pedaços.
Ela pranteava por se ver desamada e, para evitar que acontecesse algum mal,
tinha escondido a machada que
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tinham junto da lareira para cortar em achas os toros mais grosseiros. O
Sapateiro reparou, calou-se, encolheu os ombros quando a cunhada lhe suplicou
que tivesse paciência e compaixão. Havia de ser o que Deus quisesse, respondeu
ele com o seu modo severo.
Aflita, Maria dos Santos pediu ao homem e ao filho mais velho que esquecessem
a caça; melhor era que até ao fim das férias acompanhassem o Sapateiro na sua
lida do campo, pois com o feitio sombrio que tinha, e sozinho a magicar o dia
inteiro, era capaz de se lhe desandar a cabeça.
Eles concordaram e até o pequeno Afonso se prontificou a ir também, menos por
ter a força precisa para ajudar, do que pelo gosto de fazer o caminho a cavalo.
Zé Maria e o filho não eram homens de preguiça, nem os hábitos de cidade os
tinham amolecido, mas trabalhar de sol a sol ao lado de quem só no pino do
dia parava um instante para beber um gole e comer um naco, deixava-os arrasados.
À ceia zombavam mansamente dele, tanto mais que o apercebiam a espreitar de
esguelha pelo corrimão da escada, inquieto de se ver a gastar à mesa o tempo
que melhor empregaria a cortar sola e a medir copos de vinho.
A zombaria, porém, era um modo de gracejar. Na memória de ambos o Sapateiro
ficaria com proporções de monumento: o rapaz que saído do nada conseguira em
pouco mais de dez anos tornar-se o segundo lavrador da aldeia, plantando por
sua mão milhares de oliveiras e amendoeiras; duas vinhas, com a maior a ocupar
a vertente inteira dum monte; e castanheiros, nogueiras, cerejeiras,
figueiras. A sua horta era um mimo e com o irmão mais velho da mulher trazia
de meias um rebanho de trezentas ovelhas.
O que lhe dava pena era não conseguir arranjar um aprendiz que o secundasse
na oficina, pois sozinho não dava vazão às encomendas. Durante meses tinha
pagado soldada
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ao Serafim Sanço, um rapaz que não fora à tropa por ter cegado dum olho; mas
este, lesto nas tarefas pesadas da terra, mostrou-se incapaz de ficar sentado
horas inteiras a dar pontos e a pregar cardas. Ademais, também lhe custava
a seguir as instruções do mestre, porque este queria dizer as coisas uma vez
só e impacientava-se com quem o não compreendia logo à primeira.
Em boa amizade, no dia em que se separaram o Sapateiro ofereceu uma rodada
e, gracejando, disse ao rapaz que no dia em que resolvesse casar lhe pagaria
a boda.
Alguns dos presentes riram às gargalhadas; outros, contar-mo-iam depois,
acharam estranho aquele modo do Sapateiro, porque não era hábito seu escarnecer
de ninguém, muito menos esperavam que o fizesse do Serafim que, além de pobre
e sem sorte, era tido pelo rapaz mais feio da aldeia.
Com o olho são de um azul deslavado, o rosto torto, maus dentes, o cabelo
precocemente branco, nenhuma rapariga o quereria. E isso sabiam-no todos,
sabia-o ele também, que de pequeno se habituara a receber maus-tratos devido
à sua fealdade. Aliás, a vista de que cegara tinham-lha picado os companheiros
com uma bola feita de cardos, a ver se deixava de deitar mau olhado.
Pressentindo talvez que o seu futuro lhe não reservava grandes alegrias, menos
ainda as de ter família e vir a ser pai, nessa altura quase todas as tardes
ia bater à porta do João Marceneiro, pedindo à mulher que lhe mostrasse os
gémeos nascidos havia pouco. A Adozinda, compadecida, tirava-os do berço,
punha-lhos nos braços e ele, carinhoso, ficava-se a embalá-los como que em
transe.
Dum outro achariam que era ternura, mas do Serafim diziam que era maluquice,
e ele, benigno, ouvia-lhes a chacota, ria também quando na taberna algum pegava
de repente numa garrafa ou num toro e imitando o seu cantarolar se punha a
embalá-la:
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«Ai menino, meu lindo menino! Nosso Senhor te guarde, meu lindo menino!»
Mas no trabalho poucos o igualavam e aos domingos à tarde, quando novos e velhos
iam para a eira jogar à malha ou ao ferro, admiravam a precisão com que ele
lançava as patelas contra o meco e a força que dava ao dardo, atirando-o tão
longe que sendo a vez dele jogar ninguém fazia apostas.
Órfão, sozinho e sem queda para sapateiro, voltou para a lavoura; uns dias
a trabalhar como jornaleiro, noutros amanhando as terras que lhe tinham deixado
os irmãos, emigrados nesse ano para o Brasil.
O mês chegava ao fim e Zé Maria, a mulher e os filhos preparavam-se para voltar
a Gaia. Entretanto, entre o Sapateiro e Elisa as coisas não tinham melhorado
nem piorado, mas notava-se que ambos faziam o possível para não chegar a
extremos e que, quando à hora da ceia se sentavam todos à mesa, eram mais os
momentos de silêncio que de conversa. Zé Maria, com o seu bom feitio, ainda
às vezes se esforçava por contar um caso curioso, uma anedota. Ou sacava então
a bolsa do tabaco e, como sempre quando não podia com os nervos, enrolava
devagar um cigarro grosso, colava a mortalha na ponta da língua, assentava
as extremidades batendo-as contra a unha do polegar. Depois, forçando a
contenção, debruçava se a apanhar as tenazes que estavam junto do lume, prendia
com elas uma brasa e finalmente acendia o cigarro.
Poupa-se uma cerilha — acrescentava, sem se dirigir em especial a qualquer
dos presentes, uma última tentativa para desanuviar o ambiente. Mas a graça
era estafada e além disso ninguém tinha vontade de rir.
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Nos dois ou três dias antes da partida da família, Ernestina pareceu de súbito
regenerar-se, esquecida das traquinices, sem vontade de brincar, passando o
tempo sentada macambúzia na soleira da porta a acariciar o cão.
Incapaz de exprimir doutro modo os seus sentimentos, por certo lhe custava
saber próximo o momento em que a tia Maria dos Santos a abraçaria a despedir-se;
a tia que, quase tanto como o pai, era para ela objecto de veneração. Palavra
sua aceitava-a como lei e nunca pensaria em desobedecer-lhe nem responder do
mesmo modo que usava para arreliar a mãe ou fazer perder a cabeça à professora.
Era no seu regaço que se refugiava ao sentir-se escorraçada ou a temer algum
castigo pendente. E essa protecção, temporária mas preciosa numa casa em que
dum momento para o outro a guerra podia estourar, estava prestes a desaparecer,
ia abandoná-la durante um longo ano.
Porquê? Porquê? Seremos tão sem valor que ninguém pode dizer se nos rege o
acaso, um destino, ou a indiferença com que Deus risca as linhas por onde
encarrila a existência de cada um de nós? Certo é que com um passo, um atraso,
uma hesitação, tudo pode radicalmente mudar; volta-se à esquerda e a vida
inteira seria outra se tivéssemos parado um momento ou virado à direita.
Na véspera da viagem de retorno da família a Gaia, Elisa viu passar um cigano
com os seus burros carregados de loiça e, num impulso, decidiu comprar uma
bilha para oferecer à irmã. Sem esse acto banal a vida de minha mãe teria tido
um rumo diferente e a probabilidade é grande que os átomos que me compõem
continuariam a esvoaçar desordenados pelo universo. Mas Elisa parou o cigano,
escolheu a bilha que lhe pareceu mais bonita, deve ter regateado como era uso
e, satisfeita com a compra, levou-a para casa.
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Ernestina recorda com extraordinária clareza os detalhes do acontecimento
longínquo. Sentada a brincar no soalho ao cimo das escadas, vê a mãe subir
segurando a bilha pela asa e depois enchê-la de água na cantareira.
Aproxima-se curiosa de ver como a humidade escurece o barro. Passa-lhe a mão
para sentir a frescura. Ligeiramente, porque o fundo é estreito e um nada a
fará tombar. Pede à mãe se a deixa regar com ela as sardinheiras. Que sim,
se o fizer com cuidado e lhe pegar às mãos ambas, porque cheia pesa muito.
Os vasos com as flores estão do lado de fora do peitoril, altos demais.
Ernestina puxa um banquinho e aproxima-se da janela, levanta a bilha até que
a água jorra. Rega um vaso, rega outro. O terceiro custa-lhe a alcançar porque
os seus braços de criança não chegam para que incline até ele a bilha já quase
vazia. Põe-se em bicos de pés e nesse momento, por ter escorregado, ou devido
a debruçar-se e perder o equilíbrio, a bilha escapa-se-lhe das mãos, empurra
o vaso, partem-se ambos com estrondo na calçada.
O terror deve tê-la paralisado porque, como num pesadelo, sem poder escapar,
sentiu que a mãe a esbofeteava e atirava ao chão, pisando-lhe o corpo aos gritos
de que seria a sua desgraça, mas que desta vez a matava.
Quando o Sapateiro e o cunhado, e atrás deles os vizinhos, correram escada
acima, a criança jazia desmaiada com sangue a escorrer-lhe da boca, enquanto
Elisa uivava e batia contra as paredes, num ataque de loucura tão violenta
que foram precisos quatro ou cinco homens para a agarrar e manter quieta até
que acalmasse.
O médico veio alta noite e encontrou a casa como num velório, cheia de gente
a rezar o terço, velas a arder junto das imagens dos santos; a mãe deitada
no quarto, febril, murmurando palavras sem nexo; a filha, porque tremia e se
queixava
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de sentir frio, numa caminha que tinham improvisado com almofadas junto da
lareira, agarrada à mão da tia.
Foi esta, aliás, que fez o relato do que se tinha passado, porque o Sapateiro
havia horas que se sentara a um canto, a cabeça entre as mãos, imóvel e alheio
ao que se passava à sua volta.
Ernestina sentia dores e tinha o corpo coberto de manchas que começavam a
arroxear, mas felizmente nenhum osso quebrado nem lesão funda. A respeito da
mãe o médico repetiu o que tinha dito da vez anterior: era levá-la para o
hospital do Porto ou aguardar o pior. De momento dava-lhe uma injecção para
que dormisse, e mais não podia fazer, porque um estado daqueles não se curava
com xaropes nem com pílulas.
Na manhã seguinte Zé Maria anunciou que a viagem da família ficaria adiada
até ao fim da semana, para dar tempo a que os ânimos acalmassem e as doentes
se recompusessem.
O Sapateiro, porém, curado do seu torpor, replicou-lhe que não era preciso.
Da mulher trataria ele e a única coisa que pedia ao cunhado era que lhe levasse
a filha consigo e a guardasse uns tempos. Mais tarde se decidiria o que fazer.
Para Ernestina a separação foi simultaneamente alívio e suplício. Protegiam-na
os tios que adorava, ganhava nos primos dois irmãos mais velhos que a tratavam
com simpatia; ia para o Porto, a cidade, o lugar fabuloso de que nem em sonhos
era capaz de imaginar o que fosse a sua riqueza e a grandura.
Mas perdia o pai, o aconchego da aldeia, aquela vida simples que, sem o medo
e os tormentos a que a sujeitava a mãe, tinha algo de um paraíso. Perdia também
o cão, o Bonito, seu único companheiro, e na hora da partida
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chorou abraçada a ele. Chorou agarrada ao pai, com o desespero de sentir que
ele, que lhe queria tanto bem, não tinha outro modo de salvá-la.
Finalmente a tia levou-a junto da mãe que, ainda acamada, se desfazia em pranto,
talvez com remorso do mal feito, ou por não compreender de que fundos lhe vinha
aquela ira assassina. Ernestina aceitou-lhe a bênção, mas quando a viu
soerguer-se recuou assustada, escondeu-se atrás da tia, e força nenhuma a faria
aproximar-se para o beijo que a mãe lhe queria dar.
3
Como a ida-e-volta até à estação do Pocinho eram dois dias e duas noites, e
o Sapateiro não se atrevia a deixar a mulher sozinha em casa, os viajantes
foram com uma leva de almocreves que ia para as bandas de Trancoso.
Pelo caminho Ernestina chorou de tristeza e abandono, embora fosse como
gostava, sentada com a tia na mesma albarda, os braços dela protectores e
carinhosos a apertá-la contra o seio. Desenha-se-lhe um sorriso malicioso,
ao lembrar que quando entrou na carruagem a melancolia se lhe foi de pronto
que nem por feitiço. Com boa razão, pois desse momento em diante, e a começar
pelo que lhe parecia um luxo, os assentos de ripas envernizadas da terceira
classe, quase tudo seria uma première.
O rio Douro apareceu-lhe largo como na sua imaginação supunha os mares. E porque
não tinha ideia de que se pudesse correr mais do que um cavalo a galope, a
velocidade do comboio afigurou-se-lhe sobrenatural. Também não sabia o que
fosse uma ponte. Sentiu-se morrer quando o tio lhe disse que se debruçasse
na janela e se viu a sobrevoar um despenhadeiro.
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Nas estações maiores estranhou a azáfama da gente, o barulho, o apitar das
máquinas, perguntando de cada vez se aquilo era feira; e no primeiro túnel
gritou de medo, incapaz de compreender que num relâmpago se pudesse passar
da luz do dia para o negrume total.
Uma pena que ainda hoje lhe dói é que quando o comboio chegou ao Porto tinha
adormecido tão profundamente que de nada deu conta; da estação para casa, quase
uma hora de caminho, revezaram-se o tio e o primo mais velho a levá-la ao colo.
Mas de manhã, ao abrir a janela e esperando uma só rua, por certo mais larga
do que aquela em que nascera, que assombrosa surpresa quando o panorama da
cidade, a ponte, o rio, os lugres, os cargueiros, lhe explodiram em formas
e movimento defronte dos olhos.
Para ela, e o mesmo aconteceria depois comigo, essa paisagem fixou-se-lhe na
retina, é a única de que tem saudade, continua a ser o seu ponto de referência
quando quer medir uma alegria ou uma excitação.
Aquela massa de casario sem fim! E à noite, Jesus! o mar de luzes, tantas que
deixavam distinguir os prédios e faziam brilhar o céu. Havia-as coloridas,
a desenhar letras. Outras rebentavam silenciosas em faíscas azuis e disse-lhe
a tia que não eram relâmpagos de trovoada, mas o toque das varas dos carros
eléctricos nas linhas. As que se viam correr eram as dos faróis dos automóveis.
Automóveis? Carros eléctricos? Navios? Tudo era novo, surpreendente; todavia,
à sua sensibilidade infantil deve ter doído que cada maravilha, cada novidade,
lhe revelasse bruscamente a fundura da sua ignorância perante a imensidão do
mundo. Talvez por isso iria tornar-se retraída, avessa a muita fala ou a
perguntas; com consequências ora cómicas,
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ora desagradáveis, demoraria às vezes anos para descobrir o que uma simples
resposta lhe teria revelado.
Mau génio já tinha o bastante de nascença e algum se lhe terá acrescentado
com o antagonismo que sentia pela mãe, mas a mudança repentina da aldeia para
a cidade, da escuridão para a luz eléctrica, dos tempos medievos para o século
vinte, deve ter também contribuído para que se viesse a tornar desconfiada,
em estado de constante alerta, a vida inteira a temer erros e enganos.
São suposições que me faço. Talvez porque a sabiam malquerida da mãe, ou por
o filho favorito os ter deixado num vazio, porque desde havia pouco tinha casa
sua, ou sofrendo ainda com a perda da filha morta ao nascer, certo é que
Ernestina se tornou o enlevo dos tios.
Por muito que se esforce não é capaz de lembrar uma única ocasião da sua
infância, adolescência ou vida adulta em que qualquer deles a tenha repreendido
de mau modo ou castigado. E assim não é de estranhar que os tenha considerado
como pais perfeitos e seus, e que eles a tenham amado como filha exemplar.
A sua entrada na família decorreu sem complicações, e para melhor marcar o
afecto cederam-lhe o quarto da frente, o maior, que antes fora do primo José
Avelino.
Com Afonso, o mais novo, embora dormissem sob o mesmo tecto e comessem à mesma
mesa, o contacto era quase nulo, pois o rapaz, endiabrado como era vivia na
rua, escapando quanto podia aos pais que, como de costume, ao mínimo desacerto
o enchiam de porrada e punham a pão e água.
Um pequeno problema deu-se quando semanas depois se falou na necessidade de
a matricular na escola.
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A criança deve ter sofrido terrivelmente, supondo que os tios se queriam
desfazer dela e colocá-la nalgum internato. Aos soluços, aos gritos, incapaz
de comer, passou dois dias e uma noite agarrada à tia para que a não obrigasse
a sair de casa. E nem a afeição ou os argumentos suaves de que era bom aprender,
que era necessário, puderam contra aquele medo.
Nesse tempo, no papel, o ensino já era obrigatório, mas nem as autoridades
se preocupavam quando a lei não era cumprida, nem importava muito que uma
rapariga humilde ficasse sem instrução. O tio Zé Maria, porém, tinha outras
ideias. Fanático como era da leitura, não ia deixar que filha sua — sobrinha
ou filha, que importava isso? — crescesse sem saber ler nem escrever.
A rapariga não queria ir para a escola com medo que a tirassem de casa?
Fazia-se-lhe a vontade. Aprender é que havia de aprender e disso se encarregava
ele, competente como era para organizar e motivar.
Acabada a ceia, bebido o café que queria com muito açúcar, era seu hábito fumar
um cigarro e ler o jornal em voz alta enquanto a mulher lavava a loiça.
Ernestina, embora pequena, ajudava a secar. Mas daí em diante e quase todos
os serões, o ritual deixaria de ser o de antigamente, com o pai e o filho a
ler e a mãe a costurar. Arrumada a cozinha ele trazia da sua escrivaninha a
cartilha, o caderno, o tinteiro, a pena, a caixa dos aparos, o mata-borrão.
Sentado ao seu lado amparava-lhe a mão para que aprendesse a escrever entre
as linhas e, com a firmeza gentil do bom mestre, corrigia-lhe a pronúncia
difícil dos ditongos, a das palavras cheias de esses e erres que a obrigavam
a gaguejar. Ensinava-lhe as conjugações. Escrevia-lhe na lousa os algarismos
das contas simples e queria ouvir a resposta certa.
Dois e dois são...? Dois e três...? Três e três...?
A lição durava até à hora da deita, mas o progresso seria lento, porque a aluna
sofria ainda com a lembrança dos
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maus-tratos e das palmatoadas que tinha levado. Por vezes alta noite, torturada
pelos pesadelos, acordava a casa inteira aos gritos de «Não me bata! Não me
bata!»
Corriam a acarinhá-la, e para que acalmasse deitavam-na entre ambos na cama.
Zé Maria opinava que aquilo devia ser do medo que a D. Aninhas, a professora,
lhe tinha metido na escola; mas Maria dos Santos, chorando em silêncio para
que nem o homem nem a sobrinha dessem conta, rezava a pedir a Deus para que
fizesse com que mãe nenhuma maltratasse os filhos.
Ao contrário do que sinto agora, no dia em que lhe ouvi a confidência em vez
de me comover repliquei-lhe com a indignação dos meus dez anos:
Mas quando o pai era pequeno a senhora todos os dias o surrava!
Porque merecia. Era mau como as cobras e só me dava amarguras.
Na aldeia continuava o ramerrão secular dos nascimentos e das mortes, da missa
ao domingo, da semeadura e da colheita. Elisa recuperara um quase nada, mas
em certas ocasiões esquecia a passagem das horas e o homem ia encontrá-la
sentada ao lume, apática, as mãos entrelaçadas sobre o regaço, o olhar perdido
nas chamas. Tocava-lhe de manso uma vez, duas, e só então ela olhava à sua
volta, com o modo de quem saía dum sono fundo, surpreendida de estar ali.
Porque os tempos iam maus passavam menos almocreves e tendeiros, e já nessa
altura tinham deixado de fazer comida para eles. Além disso, sem ajudante e
com a mulher doente, o Sapateiro não podia tratar sozinho da casa, dos animais,
da lavoura e da oficina. E se é certo que gostava de ganhar dinheiro,
faltava-lhe contudo a paciência para na taberna
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aturar os entornados ou ouvir as longas conversas dos viandantes que, depois
das longas e silenciosas horas de jornada, nunca mais se calavam.
A decisão de fechar de vez o negócio tomou-a ele uma noite, num momento de
fúria contida, mas tão visivelmente perigosa que quando mandou aos fregueses
que se fossem embora nenhum deles pensou em repontar.
A feira dos Gorazes, em Mogadouro, ainda se faz a 15 de Novembro, mas então
durava três dias e era um dos grandes acontecimentos anuais da província.
Semanas antes já de toda a parte acorriam rebanhos, manadas de vitelas e vacas,
récuas de muares, os louceiros, os bufarinheiros, os pedintes, os
saltimbancos, os músicos cegos, os adivinhos.
Aos Gorazes só não iam os entrevados e quem estava de cama. No mais, de todas
as aldeias em redor e até das de longe, enchiam-se os caminhos com gente
aperaltada, os ricos nos seus cavalos ajaezados, os mais pobres cuidando de
que mesmo os burros decrépitos fossem aparelhados com estribos, levassem
albarda atapetada e alforjes sem remendos.
Ferragens para a lida dos campos, rédeas e atafais, cordame, sementes, plantas
de viveiro, roupa, faziam-se lá compras para o ano inteiro; e bebia-se,
comia-se, festejava-se, trocavam-se mulas por burras, cabras por ovelhas,
escolhia-se o porco para a matança, invejavam-se os que sacando um maço de
notas compravam um alambique ou um daqueles carros de bois feitos à moda de
antigamente, em madeira de castanho e ferro espesso a cobrir as rodas.
Nesse Novembro, tristonho com o afastamento da filha e o estado da mulher,
o Sapateiro partiu de madrugada no primeiro dia de feira, com intenção de se
abastecer do que precisava e voltar a casa antes do cair da noite.
Esteve no armazém dos Casimiros, seus fornecedores de cabedal, e comprou lá
também um bico para o arado, uma
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forma de ferro, as bolachas que a mulher lhe tinha pedido e mais duas ou três
miudezas, depois do que se foi a dar uma volta pela feira do gado a ver como
estavam os preços.
De longe apercebeu o pai num grupo que regateava sobre uma novilha e esteve
tentado a ir ter com ele; mas como desde que se casara as relações entre ambos
se tinham mantido mais frias que cordiais, passou adiante. O velho é que, ou
por que alguém lho dissesse, ou por ele próprio o ter avistado, lhe acenou
para que se aproximasse. Que lhe parecia a bezerra? Valeria o que o dono pedia
por ela? Teria malina?
Sabedor do carácter embirrento do pai e da sua tendência para assacar culpas,
o Sapateiro respondeu-lhe que não se metia a dar palpites. E até logo, porque
ainda tinha coisas a aviar. Mas o velho não o deixou ir e agarrando-o pelo
braço afastou-se com ele para que os outros não ouvissem o seu bichanar. O
animal era bom, o preço em conta, só que não tinha vindo prevenido para uma
despesa tão grande. A ver se o filho lhe emprestava os cem mil réis que lhe
faltavam.
Aquilo pareceu curioso ao Sapateiro, porque o pai não era homem de pedir
emprestado, além de que cem mil réis era bom dinheiro, mais de metade do preço
da vitela. Os olhos raiados de sangue e o modo como se lhe empapava a fala
também mostravam que já não estaria de todo em seu juízo. Mas nem por um momento
pensou em lhe negar o favor. Sem comentário, puxou discretamente da carteira,
entregou-lhe a nota e foi-se à sua vida.
O tempo passou. Natal, Ano Novo, um Março quente como não havia memória, e
o Sapateiro a cismar sobre que razões teria o pai para não voltar a falar do
empréstimo.
Tanto mais que, pelos jeitos, na feira acabara por desistir da compra da vitela.
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Na casa o velho nunca visitava o andar de cima, porque desde que Elisa lhe
tinha «roubado» o rapaz não lhe voltara a falar; mas quase todas as noites
aparecia na taberna, bebia o seu copo, conversava. Sobre o dinheiro é que nem
chus nem bus.
Uma noite chegou já entornado, desagradando ao filho que se desgostava de o
ver assim, e ainda por cima a acirrá-lo, a dizer-lhe que por muitos pares de
botas que fizesse nunca chegaria a rico. A riqueza ganhava-se na África, no
Brasil. Para lá é que deveria ter ido, em vez de se ficar a vida inteira ali
a coser solas. Trabalho de agulha e linha era coisa de mulher.
Deu uma risada que não encontrou eco, porque os presentes se sentiam
embaraçados com aquele modo. O Sapateiro, calado, continuou a trabalhar.
Vou medir uma rodada, ó António. Pago-a eu.
O senhor já bebeu demais e seria melhor que se fosse deitar.
Mas o ti Cuco não ia desistir por tão pouco, nem sofrer aquela desobediência,
teria feito alguma asneira se os outros o não tivessem obrigado a aquietar-se.
Com uma piscadela de olho ao Sapateiro, para que não fizesse caso, encheram-lhe
um copo com a jarra que estava sobre o balcão, e falou-se doutra coisa.
O espírito do velho, porém, estava longe de voltar à quietude, porque passado
um bocado a resmungar sem nexo pôs-se em pé, voltou a dirigir-se ao filho.
Tu com certeza esqueceste, mas aquele dinheiro que me emprestaste na feira
dei-to logo, porque não precisei dele. A bezerra já a tinham vendido a outro.
O Sapateiro ergueu os olhos numa interrogação, mas respondeu-lhe calmo que
não tinha recebido dinheiro nenhum.
Estou certo que to dei. A mesma nota. Agora se não te lembras e para que não
me chames mentiroso, aqui tens outros cem mil reis.
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Que te façam bom proveito! — e puxando do bolso do colete uma nota dobrada,
atirou-lha aos pés.
Alguns pensaram com razão que eram coisas da bebedeira, outros riram da
parvoíce, pois em seriedade e honra o ti Cuco não chegava aos calcanhares do
filho.
Pondo de lado a forma, que como sempre mantinha apertada entre os joelhos,
e levantando-se do banquinho raso, o Sapateiro, o rosto apopléctico, tremia
como se estivesse com a febre das maleitas.
Apanhou a nota, desdobrou-a, encarou o pai com um modo tão sanhudo que, disseram
os que lá estavam, naquele instante não teriam estranhado se o atravessasse
com uma faca.
O senhor não me pagou. O senhor bem sabe que não me pagou.
Para assombro dos presentes que, sempre em aflições de dinheiro, viram no gesto
uma espécie de sacrilégio, o Sapateiro aproximou a nota da chama da candeia,
pegou-lhe fogo e atirou-a para o chão, onde ficou a arder. Depois avançou um
passo, conteve-se, e como se rebentassem nele as dores e raivas duma vida
inteira, gritou ao pai:
O senhor é um canalha! Um bandalho! Nunca mais ponha aqui os pés! Nunca mais
me volte a falar, porque faço uma desgraça! E agora rua! Todos!
O velho, desnorteado, saiu a cambalear; os outros, incapazes duma palavra ou
dum gesto de conciliação, foram atrás dele e desapareceram no escuro, sem
coragem de encarar o Sapateiro, que os empurrava para fora e com estrondo lhes
fechou a porta nas costas.
O ti Manuel contava que o Sapateiro chegara a pegar na faca de cortar a sola,
e o Serafim Sanço tinha visto a nota cair, não no chão, mas sobre uma peça
de cabedal onde fizera uma mancha preta. O Germano lembrava-se dos cem mil
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réis a arder na braseira — «Pena, um prejuízo daqueles!» — e que ao querer
tirá-los de lá alguém o tinha empurrado. Elisa, que seguira tudo espreitando
por entre o gradeado do corrimão da escada, dizia dum modo. O Moleiro, que
era então rapaz, dizia doutro. Mas mais detalhe menos detalhe, as versões que
pelos anos adiante se ouviram do acontecido foram sempre conformes, mesmo a
dos que lá não tinham estado nessa noite.
Diferente foi a que me contou o bisavô Cuco da última vez que o vi uns meses
antes de falecer, no Verão de 1945.
Se eu era o seu bisneto, o neto do António Sapateiro, perguntou quando lhe
fui pedir a bênção. E assim crescido com certeza já estava pronto da tropa.
Respondi-lhe que só tinha quinze anos, mas ele, surdo ou desinteressado, ou
talvez perdido nas suas recordações, puxou-me o braço para que me sentasse
também na soleira da porta.
Falou da colheita que tinha sido má e das dores que sentia nos ossos, de que
a caminho dos cem não podia mais que cavar a terra mole da horta.
Medo de morrer não tinha, mas das duas coisas que mais lhe custavam da vida
inteira, uma era o ter maltratado tanto a mulher, a sua Eufrásia. Todas as
noites lhe rezava a pedir perdão e se Deus Nosso Senhor um dia lha ressuscitasse
havia de a pôr num altar. Com redoma. Porque tinha sido mais que santa.
Tirou o lenço para secar os olhos e quis saber se alguém me tinha contado da
zanga com o meu avô. Acanhado, acenei que sim. Pois essa, ficasse eu a saber,
era a outra razão maior da sua pena. O filho não se lembrava, mas o dinheiro
emprestado retornara-lho ele logo a seguir, porque o marchante tinha vendido
a bezerra a outro. Depois, já passada a sementeira, uma noite na taberna fez
uma cena dos diabos, a dizer que lhe devia, que o punha no tribunal, não sei
quê
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nem que mais. Então para o calar tinha-lhe dado outros cem mil réis.
Estás a ouvir?
Estou, sim senhor.
E que fez o tolo? Hein? Atirou-os ao lume! Que nunca mais me falava! A maior
falta de respeito que se pode mostrar a um pai!
Silenciou amodorrado, esquecido da minha presença, dando-me ocasião a
observá-lo de soslaio. Estatura de criança mirrada, mãos incrivelmente nodosas
a repousar sobre a bengala, roupa de burel, suja, cheia de remendos; chapéu
de aba larga, enterrado até às sobrancelhas, a proteger os olhos inflamados
e ramelosos; os lábios retorcidos para dentro da boca desdentada. Cheirava
mal. Tive-lhe medo.
De repente, acordando, e a falar-me como se eu fosse doutra geração:
Conheceste a tua avó Elisa?
Então não havia de conhecer? Ela está viva — respondi, inquieto com aquele
modo de mau agouro.
Pois esse traste também deixou de me falar. Já não lhe bastava o ter-me roubado
o filho, nunca mais me deu uma palavra, nem sequer as boas-horas.
E batendo raivoso com a bengala no chão:
Põe-te a andar, que sois todos má semente! Não precisais de me fazer mimices,
que não vos deixo um tostão, nem um palmo de terra!
Sozinho com a mulher que de novo ia melhorando aos poucos; sem filha para cuidar
nem taberna para atender; não tendo mais para gastar as energias do que a
lavoura e o seu ofício, o Sapateiro precisava de coisa nova para aproveitar
o tempo que lhe sobrava.
Na canelha do Casal herdara um bocado de terra, onde pelo método simples de
amontoar pedras soltas e cobri-las
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de colmo já tinha levantado um palheiro que, a dois passos de casa, fazia bom
jeito. No resto do terreno, uns vinte metros de comprido, dez de largo, plantava
couves galegas e abóboras, que ambas se davam bem no sequeiro, pois ali não
tinha outra rega senão a da chuva.
Elisa via-o de lápis na mão e um bocado de ripa a riscar linhas num papel de
embrulho, mas perguntar-lhe para o que era não adiantaria, porque o homem,
além de ser de poucas falas, enquanto andasse a remoer as suas ideias ninguém
lhe tirava uma palavra da boca.
Quando uma manhã o surpreendeu a medir com uma corda teve as suas suspeitas,
mas passou-se mais de um mês antes que ele lhe dissesse que ia justar com o
Zé Serrador para que lhe cortasse uns cinquenta pinhos para tábuas e caibros.
E ela, fazendo-se desentendida, a dizer que não via para que os precisava;
melhor seria empregar o dinheiro na compra doutro porco, engordá-lo, e vendê-lo
na feira dos Gorazes onde daria bom lucro.
O Sapateiro encolheu os ombros, e com o modo impaciente de quem não compreende
que a mulher fosse incapaz de lhe ler os pensamentos, anunciou que ia fazer
uma casa. Para a filha e para o neto.
Elisa gostava de contar que quando ouviu aquilo desatara a rir e o encarou
com a incredulidade de quem se vê diante dum maluco. A filha ia fazer nove
anos! E que neto? O que é que lhe tinha subido à cabeça?
Ele olhou-a perplexo, como quem acorda dum sonho e, achando a explicação
bastante, acrescentou que também ia mandar cortar pedra.
Dias depois marcou o terreno com cavilhas e cordas, e à força de picareta
começou a abrir na rocha o fosso dos alicerces. Sozinho e calado. Os anciãos
sentados perto a comentar que aquilo não poderia ir muito adiante, que a dureza
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da pedra cedo o faria desistir, o que era agora caminho liso ia-se tornar num
barranco perigoso. Não havia de demorar a que alguém quebrasse ali uma perna.
O Sapateiro sorria. Quando tinha tempo e a vontade lhe pegava ia-se aos
alicerces. Avançando a palmo, mas avançando. Amontoando o cascalho que os
velhos lhe aconselhavam a deitar fora, porque não prestava para nada,
coisíssima nenhuma, mas que ele sabia que mais tarde lhe seria preciso para
nivelar o chão.
Tinha passado para cima de um ano quando pôde começar as paredes. Sozinho.
Dando de vez em quando uma vista de olhos ao papel em que fizera as medidas.
Quase um metro de largo, para que aguentassem sem desvio o peso das cantarias
e do travejame. Amassando o barro, alinhando as pedras toscas e desiguais num
caixilho de madeira, como tinha visto fazer aos bons pedreiros. Modo demorado,
trabalhoso, mas o único que lhe garantia que as paredes se ergueriam na
vertical.
E os velhos a murmurar que naquele andamento lhe iam nascer cabelos brancos
antes de assentar a cumeeira. Havia tanto rapaz bom trabalhador, porque não
contratava ele dois ou três? O Sapateiro respondia-lhes que tudo se faria a
seu tempo. Quando chegasse a hora de empinar as ombreiras das portas e das
janelas, e na construção da varanda, que queria toda em granito, então sim,
talvez. Por enquanto aquilo era obra leve, não precisava de ajudantes, nem
tinha vontade de andar a vigiar se trabalhavam como devia ser.
Tratar da lavoura, dos animais, fazer calçado e, porque Elisa adoentada caía
muitas vezes de cama, cuidar também da casa, não lhe deixava folga demais para
a obra; mas no começo do terceiro ano ia adiantado o bastante para mandar vir
a pedra, acontecimento que os que eram rapazes nesse tempo ainda recordam,
porque foram precisos todos os
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carros de bois da aldeia e, o que nunca antes se tinha visto, devido ao peso
alguns deles vinham puxados por quatro juntas.
Na construção das janelas, em que por poupança decidira fazer as ombreiras
de granito, pedra dura, sobre peitoris de xisto, pedra mole, teve azar. Uma
vezes era o peitoril que rachava, doutras a ombreira fazia esboroar a parede,
em duas ou três ocasiões as pedras espatifaram-se-lhe no caminho. Sem desastre,
mas dando alguma razão aos temerosos que passavam de largo.
Serventes só chegara a contratar para que o ajudassem a subir as cantarias,
porque para mais não serviam, incapazes como eram de segurar uma trolha ou
arrematar um canto.
Os mirones trocavam olhares manhosos, na certeza de que a chança de querer
fazer a casa por sua mão acabaria por lhe sair cara. Ele, porém, não era homem
a quem os reveses intimidassem e por fim conseguiu aprontar as janelas e a
porta da loja das bestas. A da entrada deu-lhe desgosto, porque por erro dos
pedreiros que se tinham desentendido no corte da pedra, ficou só com um metro
e oitenta de alto em vez dos dois e dez que ele tinha encomendado.
Maior bico-de-obra ia ser a carpintaria do telhado, do forro e do soalho, porque
a aldeia não tinha carpinteiro e os poucos que havia nos arredores eram, como
então se dizia, artistas de meia-tigela. Mas por linhas travessas, nessa altura
já Deus tinha remediado, ao fazer com que um João Pacheco deixasse Felgueiras,
a sua aldeia natal, e se metesse a demandar os caminhos do mundo.
À procura de trabalho parou em Estevais, onde depois iria gerar dúzia e meia
de filhos, um rapaz airoso, de boa postura, trazendo às costas a caixa da
ferramenta e num canudinho de ferro a «carta» de mestre carpinteiro e
marceneiro,
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prova de que bem precisava quando ao oferecer o seu trabalho lhe perguntavam
quantos anos tinha e ele respondia que havia pouco completara os dezassete.
A diferença de idade entre ambos era de pai para filho, no carácter pouco se
pareciam, mas a diligência no trabalho e a afeição que ambos tinham pela obra
bem acabada tornou-os amigos. Para surpresa de quem nunca o conhecera assim,
o Sapateiro servia de ajudante ao rapaz, reconhecendo-lhe a competência,
aprendendo com ele como se fazia uma junta, se alinhava um barrote ou se cavavam
as traves de forma a que os caibros alinhassem sem desnível. Quando finalmente
chegou o dia de assentar a cumeeira, a aldeia parou. Os velhos, as mulheres
e a canalhada a ver de longe, para não incomodar. Os homens a dar uma ajuda
às cordas dos sarilhos, ou engatinhando pelas paredes a guiar com jeito o
monstro, não fosse ele derrubá-las na subida. Porque monstro era e a ajuda
de todos bem precisa.
Com o seu gosto por obra sólida o Sapateiro calcorreara o termo à procura dum
castanheiro que correspondesse às suas ideias: pelo menos doze metros de
comprido e diâmetro suficiente para aguentar o peso do telhado. Mas árvores
desse porte eram escassas e das que vira na redondeza nenhuma passava dos oito.
Até que lhe chegou notícia de que procurasse no Felgar, onde havia uma que,
se não tinha a medida precisa, pouco lhe faltaria.
Os anos — ele caminha para os noventa — e o gosto pela pinga tornaram o senhor
Pacheco um ancião que se vai alheando das coisas do mundo. Entretido na casinha
que fez à beira da estrada, com um quintal em volta e a dois passos do café
Tavares, só aos domingos aparece na rua a juntar-se aos que conversam depois
da missa.
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Falo-lhe da cumeeira. Ele sorri, os olhos animados com a memória de alegrias
passadas, e depois dum instante a pensar murmura que nada se compara ao tempo
desses anos. Nem à gente, nem à vida.
Tinham ido ambos a cavalo ao Felgar para ver o castanheiro, quase um dia de
caminho, e como quando chegaram já fazia escuro foram-se à taberna.
O teu avô bebia pouco, não acompanhava, mas era bom garfo e comemos bem. Depois
fomo-nos à deita num palheiro e manhã cedo levaram-nos a ver o bicho. Que era
de respeito. Subi eu com uma corda para o medir e faltavam-lhe uns três palmos.
Agora o problema não era esse, porque se remediava com o que se lhe pudesse
tirar da parte enterrada; o catano era a ponta, que pouco mais tinha que meio
metro de roda. Metem-se-lhe uns calços, disse eu. E fica seguro? perguntou
o teu avô. Garanti-lhe que ficava e ele justou logo ali com o dono. Lembro-me
que lhe pagou bom dinheiro, cento e vinte mil réis, o que hoje nem para um
maço de cigarros dá.
Devido ao comprimento o castanheiro tinha vindo sobre dois carros, engatados
um ao outro, com três juntas de bois a puxá-los. Depois nas eiras, que era
a única parte plana e espaçosa bastante da aldeia, o carpinteiro tinha montado
seis cavaletes para que os serradores afeiçoassem a trave, que realmente viria
a sair fina dum lado e demasiado grossa do outro. Talvez por isso e com a
diferença de peso é que a parede da frente foi abaulando — digo eu.
O senhor Pacheco, porém, ou não ouve ou interessam-lhe mais as suas recordações
que o meu reparo.
Nesse tempo tudo era barato, quase dado. E então os arraiais! Qualquer festa
de padroeiro levava dois dias. Ou três, com os preparos. Mesmo a da Pelada,
que era terra pobre
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e ainda hoje nem sequer tem capela, só umas alminhas. Comida à farta. Bebida
era até não poder mais. A feira dos Gorazes, essa, com as idas e vindas durava
uma semana. E quem hoje vê a nossa rua com meia dúzia de trôpegos, duas carroças
e as velhotas sentadas no fontenário, não faz ideia do que era o movimento
de gente e bestas por aí acima.
Aceno que sim, mas ele não atenta em cortesias e tem pouca paciência com a
minha curiosidade. Quando lhe pergunto, desnecessariamente aliás, só pela
conversa, se foi ele que fez as portas e as janelas da casa, olha-me irónico,
meio incrédulo, a suspeitar um fingimento, compreendendo mal que eu precise
de confirmação para a evidência.
Então quem havia de ser? Carpinteiro só era eu.
O Hermínio andava na escola e depois é que aprendeu a arte comigo. Qual portas,
qual janelas? Fiz tudo! Telhado, tecto, soalho, os escanos da cozinha, as
prateleiras, a cantareira. Como deve ser e não à moda de agora, desses que
só andam florear com máquinas e nem sequer sabem como se espeta um prego.
A prumo — digo eu para o acirrar.
Nada, não senhor. De esguelha, que aperta melhor e nunca racha a madeira.
Como de costume, em princípios de Agosto de 1926 o correio trouxe a carta a
anunciar a chegada da «família do Porto.» Como de costume também, porque com
a festa de São Lourenço e a feira dos Gorazes a vinda deles era o grande
acontecimento do ano, ficou tudo num rebuliço, pois ter a casa limpa, o soalho
esfregado, a louça lavada, as camas feitas, o pão cozido, e mantimento para
tanta boca, era tarefa em que Elisa e as sobrinhas que a vinham ajudar gastavam
mais duma semana.
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No dia aprazado o Sapateiro foi buscá-los ao comboio, que já chegava a
Carviçais, com uma récua de onze bestas, as dele e outras emprestadas, porque
devido ao mau caminho, além de ser preciso para cada um sua montada, os
viajantes vinham carregados de bagagem.
Para eles o retomo à aldeia era um momento de descanso e esquecimento das lides
do seu dia-a-dia; o mês inteiro seriam festejados, acarinhados, mimados com
prendas e fruta da estação. O reverso era que os parentes, os vizinhos, os
amigos, os conhecidos, todos esperavam que lhes fossem retribuídas as
gentilezas do ano anterior. E eles, curvando-se ao uso, traziam as malas a
abarrotar.
Excepção fazia o Sapateiro, que os avisava de que não lhe trouxessem nada,
pois lho não aceitaria. O terem com eles a filha já era favor que com nada
deste mundo lhes poderia agradecer. Os cunhados, porém, que o apreciavam e
lhe queriam como irmão, arranjavam sempre forma de descobrir qualquer coisa
para o presentear — uma carteira, uma turquês, um par de estribos, uns alforges
de cabedal — objectos esquecidos na loja com que eu mais tarde me entreteria
a brincar e de que a avó Elisa, às vezes com os olhos rasos de lágrimas de
saudade pelos seus mortos, me contaria então a história.
Ernestina vinha crescidota. Acharam-na desenvolvida para os seus catorze anos
e, como sempre, desde o momento em que descia do comboio abraçada ao pai e
ao cão, dando a ideia de não poder deixá-los.
Afonso, que iria assentar praça voluntário daí a pouco, estava um latagão,
bebia e fumava como um desalmado, só deixava a taberna quando o pai o obrigava
a ir com ele à caça.
José Avelino, o irmão mais velho, nesse ano não os tinha acompanhado na viagem.
A mentira piedosa era de que
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tinha estudado tanto que acabara por cair doente e estava em convalescença
numa casa de repouso. A verdade foi sussurrada quando ao fim do serão as visitas
se foram embora e a família ficou só.
Brilhante como era, o rapaz não compreendia porque razão duas vezes seguidas
tinha sido reprovado no concurso para oficial. As explicações dadas pelos
superiores eram ridículas, e os pedidos que fizera para que um novo júri revesse
as suas provas tinham esbarrado contra um muro de indiferença. Desapontado,
lançara-se então numa vida de cafés e de noitadas, de jogo, mulheres perdidas
— «Só na Rua Direita tinha mais de dez amantes» — ouviria eu um dia excitado
contar à mesa, os olhos baixos, fingindo que comia.
Quando finalmente o convenceram a que se deixasse examinar no hospital, porque
tossia constantemente e estava só pele e osso, os médicos tinham-lhe descoberto
uma tísica galopante e mandado no dia seguinte para tratamento num sanatório
do Caramulo, onde ficara de quarentena.
Porque para que fosse surpresa não lho tinham mandado dizer, os visitantes
ficaram de boca aberta ao encontrarem a casa nova pronta. Ou quase. Faltava
argamassar e caiar o tabique das divisões, as madeiras estavam por pintar,
e o ferreiro montara o chupão sobre a lareira mas não colocara ainda o gradeado
na varanda. Contudo já se lá podia viver e eles instalaram-se satisfeitos,
à larga, cada um com seu quarto á moda da cidade.
Herdeira só tinha aquela, o que tomava o esclarecimento desnecessário, mas
à hora da ceia o Sapateiro anunciou aos presentes que Ernestina não precisaria
de esperar que ele morresse para herdar a casa, porque lha dava ali mesmo,
fossem eles testemunha. E num gesto solene tirou a chave do bolso e
entregou-lha.
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Tinha-a feito para ela, acrescentou, e para o neto, certo como estava de que
a filha um dia havia de casar e gerar um varão.
Contra o seu hábito, naquela noite mostrou-se falador, cheio de visões do
futuro, confessando-lhes que por vezes o tomava a vontade de deixar a vida
parada da aldeia e ir-se à procura dos horizontes largos onde à força de
trabalho se podia fazer fortuna.
Não é que se queixasse do seu destino, que podia ter sido bem pior; doía-lhe
era ter aprendido tão pouco e ver-se amarrado a uma existência em que o ganho
nunca passava de centavos. Mas se Deus quisesse a filha havia de lhe dar um
neto e para os estudos dele andava já a poupar. Queria-o guarda-livros — fora
esse o seu grande sonho— porque o saber de contas, ser capaz de pôr as coisas
em ordem e seguir regras estritas, parecia-lhe a garantia mais sólida para
uma vida próspera e feliz.
Orgulhoso como se descrevesse uma realidade, contou-lhes que às vezes «via»
o neto no Brasil, na América, na África, homem de peso, escrevendo-lhe em longas
cartas o relato dos seus negócios e das suas andanças.
Sem o contradizer, os presentes tinham sorrido daquele abandono, dos sonhos
que lhes pareciam uma inesperada toleima, e só José Maria confessou que quando
viesse a ter netos tardava, mas na sua ideia também era coisa assente — os
quereria a todos no Exército. A general não precisavam de chegar, que era
posição reservada para os ricaços com cunhas fortes. E tinha a certeza de que
o seu filho mais velho, inteligente e trabalhador como era, receberia um dia
os galões de major. Por isso via os netos pelo menos coronéis.
A comandar regimentos. Montados em belos cavalos, homens de autoridade e
respeito a quem ele teria honra de bater continência.
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O sobrolho franzido num tique nervoso que lhe ficara de criança, Afonso fingia
não ouvir, dolorosamente consciente de que nada daquilo tinha a ver consigo.
O irmão era a estrela que refulgia no céu familial, e aos netos ainda por gerar
já se atribuíam postos, ambições; mesmo a prima tinha o destino marcado pela
sua condição de mulher: emprenhar, parir, cuidar da família. Com ele, porém,
a ovelha preta, o toleirão que não sabia aproveitar a «boa cabeça» que Deus
lhe dera e que à falta de melhor ia para a tropa, soldado raso — com ele ninguém
se importava, pareciam nem sequer se dar conta da sua presença.
Às vezes ainda tinha esperança de que o pai se tornasse menos ríspido e que,
em vez de pancadas, gritarias e raivas, a mãe um dia o abraçasse contra si.
Mas conversas como aquela só faziam aumentar a sua solidão e a impaciência
que sentia de fugir para a taberna do Espinha.
O sobrolho não parava de tremelicar e ele, distraído, pôs-se a torcê-lo entre
os dedos num gesto que se lhe tornara habitual, até que da cabeceira da mesa,
no tom humilhante de quem repreende um garoto, o pai lhe gritou:
Acaba lá com isso!
Talvez porque depois da ceia as visitas e os parentes tinham vindo como
costumavam fazer-lhes companhia, é que o caso do queixai se gravou na memória
de tantos.
A conversa corria ainda sobre o futuro, uns e outros a fazer suposições de
como seria a vida nas terras longínquas, quando Elisa se ergueu bruscamente
e, deitando as mãos à boca, soltou um grito que os fez estremecer.
Dela sabia-se que sofria de tudo: do ventre e de dores de cabeça, do reumatismo,
de ânsias, que lhe davam tonturas e caía com uns chiliques em que ficava a
rebolar os olhos.
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Mas umas vezes com rezas, ou então com os caldos de unto de cobra e de olhos
de sapo que ela era das poucas capaz de engolir — o mal acabava por lhe passar.
Aquele grito, porém, era tão azarento que alguns instintivamente se benzeram,
ao mesmo tempo que se apressavam para lhe acudir; mas a infeliz, a boca apertada
entre os punhos e o corpo sacudido por espasmos, não deixava que ninguém lhe
tocasse, dando uns urros profundos que mais pareciam de animal ferido de morte.
Com ternura duns e força bruta doutros acabaram por conseguir que se sentasse,
seguraram-lhe os braços, e ao retirar-lhe o lenço da cabeça, que apertado com
um nó lhe escondia as faces, é que viram que tinha o lado direito da cara todo
inchado.
Em ocasiões assim o remédio mais rápido era a aguardente que, se não curava,
pelo menos adormecia o sofrimento; mas Elisa era avessa ao álcool e nem com
carinhos nem ameaças conseguiram convencê-la a que abrisse a boca.
Abriu-a depois um bocadinho, quando o homem prometeu que ninguém lhe faria
mal; então o irmão Manuel, que tinha muito jeito com as doenças, fossem de
gente ou dos animais, aproximou a luz duma candeia, palpou a gengiva e disse
que era um abcesso.
Deitaram-na na cama. Puseram-lhe emplastros de linhaça para que a dor
acalmasse, mas pelo jeito como continuava a gritar não lhe faziam bem nenhum
e iam ter de levá-la ao tira-dentes de Moncorvo.
Saíram de madrugada, à primeira cantada do galo para que o tempo lhes rendesse
e pudessem estar de volta antes do anoitecer. Acompanhava-os a irmã Maria dos
Santos, numa burra mansa com albarda e cadeirinha; o cunhado Zé Maria,
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que era alto, ia noutra, com os pés quase a roçar o chão; para segurar a doente
o Sapateiro montava um macho forte que lhe tinham emprestado, grande como um
cavalo, os braços apertados em volta da mulher que todo o caminho não pararia
de chorar e de gemer.
Com dez anos de idade a separá-las, Maria dos Santos sentia por Elisa uma
ternura maternal e o carácter ponderado de ambas, também as aproximava; mas
saudável como era, às vezes perdia a paciência com a fraqueza da irmã, sempre
doente, sempre em queixumes, resmungando que ela provavelmente tinha mais
teias de aranha na cabeça do que mazelas no corpo. E de cada vez que falava
no caso do queixai franzia os lábios e sacudia a cabeça num modo que só nessa
ocasião tinha, como que a mostrar que na vida inteira nunca presenciara coisa
mais incrível.
Com aquele gosto pela narrativa que na família era comum, ao reviver os
acontecimentos desse dia acentuava os detalhes e repetia os gestos, os soluços,
descrevia a frescura da manhã, os cheiros que subiam da terra quando o sol
começara a aquecer, a lonjura, os carreiros tortuosos onde os animais
resvalavam.
Chegaram à vila cedo. O tira-dentes que, no costume desse tempo, era também
barbeiro, estava a abrir a loja e já tinha gente à espera, mas compadecido
com o sofrimento de Elisa mandou aos outros que lhe dessem a vez.
Sentaram-na na cadeira onde se cortava o cabelo e depois de ter ido buscar
a um armário a caixa dos instrumentos examinou-lhe a boca, umas vezes palpando,
outras virando-lhe a cabeça para o lado da rua, donde vinha mais luz.
Como o irmão Manuel tinha dito, aquilo era de facto um abcesso e o malfeitor
um queixal podre e que ia ser preciso arrancar. Pela ideia dele melhor era
arrancar-lhe os queixais todos, porque ruins como os tinha só lhe dariam
incómodo.
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Ficava com os cientes da frente, que bastavam para o comer e a boa aparência.
Outra qualquer acharia razoável o raciocínio e de Elisa, que pálida e exausta
não parara de choramingar, ninguém esperava oposição, menos ainda que fechasse
a boca com tal força. Mas a abanar a cabeça e agarrada aos braços da cadeira,
apertava os queixos dum modo que ninguém seria capaz de lhos abrir.
Pediram-lhe com brandura. Nada. O tira-dentes jurou que não lhe faria mal
nenhum, que quando sentisse uma dorzinha já o queixai estava fora. O cunhado
falou-lhe, procurou convencê-la mansamente, mas furioso com aquela teimosia
acabou por lhe virar as costas. A irmã acarinhou-a, tentando levá-la a bem.
O Sapateiro disse-lhe que se deixasse de criancices, porque teriam de prendê-la
à cadeira e mostrou-lhe os calços que lhe iam meter na boca para evitar que
ferrasse.
Foi como se a tivessem ameaçado de morte. Aos uivos e aos urros atirou-se a
espernear, os familiares e a gente que ali estava a agarrá-la a ver se a
acalmavam, os curiosos amontoando-se à porta para saber que desgraça era
aquela.
Quando se aquietou deram-lhe água, voltaram às mesmas razões e ela aos mesmos
gemidos. O tira-dentes, julgando que fazia bem, mostrou-lhe a tenaz com que
dum só puxão lhe acalmaria o sofrimento; e Elisa, de novo a tremelicar, desatou
aos gritos de que não se chegasse, porque lhe furava os olhos.
Incapaz de ser duro e talvez envergonhado com a cena, o Sapateiro disse à mulher
que se levantasse. Ia ele mostrar-lhe que o tirar dum queixal era uma ninharia
de que ninguém precisava de ter medo. E sentando-se na cadeira mandou ao
tira-dentes:
Arranque-me um.
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Para quê, homem?
Já lhe disse, arranque-me um.
Se assim quer, então tiro-lhe um dos de trás, que não fazem falta nenhuma.
O propósito era carinhoso e romântico no seu exagero, mas infelizmente o
Sapateiro possuía uma excelente dentadura. Por mais que o homem puxasse
agarrado ao alicate, o queixal não saía. Elisa e a irmã choravam, os
circunstantes diziam que não valia a pena estar ele a sofrer, até que num
intervalo em que o tira-dentes parara a repousar o Sapateiro pediu a um rapaz
que agarrasse o homem pela cintura e que puxassem ambos.
O queixal saiu e admiraram como era são e branco, de raízes fortes; mas de
nada adiantou: ao ver o homem cuspir sangue Elisa tinha desfalecido e ao
escorregar ficara sentada no chão, amparada pela irmã que debalde a abanava
com um lenço.
Como nada a convenceria a aceitar o tratamento, pagaram o trabalho ao homem,
despediram-se e, meio zangados, meteram-se ao caminho de volta. De cansaço
ou por sentir menos dores, a doente deixara de gemer. O queixal despegou-se-lhe
por si só dali a dias, durante o serão, um bocado de osso podre que despertou
pouco interesse e ela atirou depois para a lareira. José Avelino regressou
do sanatório tão pálido e emaciado que os pais se assustaram e, em segredo,
correram ao médico que o tratava para que lhes dissesse qual era o estado do
rapaz. E o médico, caridosamente, mentiu.
A magreza, como certamente sabiam, era um sintoma comum da tuberculose, e o
tossir, os vómitos de sangue, vinham da reacção dos pulmões aos bacilos. Não
se incomodassem, que ele era forte e havia de arribar.
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Ernestina conta o calvário de ambos. Quase todos os dias ia um deles à casa
do filho a visitá-lo e achavam-no cada vez mais doente, mais carcomido. Como
se isso não bastasse para os afligir, quando apareciam sem aviso raro
encontravam lá a mesma «nora» a cuidá-lo, e os garotos que entravam e saíam
e que primeiro lhes tinham dito serem da vizinhança, descobriram eles com pasmo
que eram provavelmente seus netos.
Garanhão, atraente, com boa soldada, nos sete anos desde que saíra da casa
paterna — e não, como eles tinham julgado, só nos últimos tempos — José Avelino
levara uma vida de muçulmano sibarita; com harém e, surpreendente para a
mentalidade de então, sem que nenhuma das suas concubinas — as que viviam com
ele e as que vinham de fugida — jamais mostrasse ciúmes ou lhe levasse a mal
aquela promiscuidade invulgar.
Filhos e filhas tinham nascido uns atrás dos outros ao acaso das paixões, mas
nem ele saberia dizer quantos, nem as mães lhe poderiam garantir a paternidade,
acabando ele por só perfilhar três rapazes que, pela pinta, eram o seu perfeito
retrato.
Informando-se discretamente, ouvindo confidências, José Maria teve também de
se conformar com uma outra versão da história de que os oficiais perseguiam
o filho e lhe barravam o andamento da carreira. A verdade era que as mulheres
de alguns deles se tinham entregue atadas de pés e mãos aos encantos do
sargento, e os cornudos, incapazes de vingar doutro modo a honra enlameada,
faziam o que podiam para azedar a vida do rapaz, boicotando-lhe a promoção.
Embora crentes, José Maria e a mulher não eram de padres nem de igrejas, e
na aldeia só iam à missa para que nem a família nem os vizinhos se
escandalizassem. Mas agora, temendo a desgraça que sentiam pendente, Ernestina
às vezes
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encontrava-os na sala a rezar, rogando a Deus que lhes dissesse que mal tinham
feito para os castigar assim; que lhes desse a penitencia mais pesada, mas
se apiedasse deles e não lhes tirasse o filho que era a luz da sua vida. Caíam
nos braços um do outro a chorar de desespero e a sobrinha, que não sabia como
consolá-los ou aliviar-lhes a aflição, chorava com eles.
Fizeram promessas a São Lourenço, o seu padroeiro, e a imagem de Santo António
que tinham sobre a cómoda do quarto ficou iluminada em permanência por uma
lamparina votiva. Andaram por bruxas, por curandeiros, foram em peregrinação
a Fátima, e quando alguém lhes falou dum especialista de nomeada, que em Lisboa
fazia verdadeiros milagres, rogaram ao filho que o fosse consultar.
O médico mostrou-se optimista. Acabado o exame disse-lhe que estava a recuperar
bem, que evitasse os esforços violentos, quando pudesse fosse de novo para
o Caramulo, onde o ar da montanha era seco e excelente para curar a tísica.
Mas depois, chamando o pai de lado sob um pretexto qualquer, deu-lhe a má
notícia. No estado em que o rapaz tinha os pulmões poderia aguentar no máximo
um mês, mês e meio. Mais do que isso só por milagre. Que o fossem confortando
como pudessem, porque infelizmente para um caso daqueles não havia salvação.
Com os anos e o peso das suas próprias dores, o choro de Ernestina já não é
convulso como na tarde em que os tios voltaram a casa arrasados de sofrimento;
mas à medida que recorda, e embora a sua voz se mantenha serena, os olhos
enchem-se-lhe de lágrimas que lentamente deslizam pelas faces sem que ela cuide
de enxugá-las.
A pretexto de que lhe seria mais benéfico o sossego do que a balbúrdia em que
vivia, os pais tentaram convencer
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o doente a que voltasse uma temporada para casa deles. José Avelino, porém,
ganhara outros hábitos, gostava de ver as crianças à sua volta e,
provavelmente, não se queria passar do afecto e das carícias das amantes. Mas
prometeu que podiam ter a certeza de que daí em diante retomaria o hábito antigo
de não faltar ao almoço de domingo. A mãe que preparasse a carne assada com
batatas e pimentos de que ele gostava tanto e lhe fizesse arroz doce com canela.
Foi surpresa grande quando no domingo seguinte o viram chegar: caminhava
desenvolto, o rosto tinha perdido o rubor febril e os olhos não pareciam, como
antes, sumir-se-lhe nas órbitas. Perguntaram-lhe como se sentia e ele
respondeu que nunca se sentira tão bem, os remédios com certeza davam efeito,
pois estava sem febre, e pela primeira vez desde que adoecera voltara a ter
apetite.
O almoço decorreu alegre. A família, jubilante com a boa-nova e o modo como
ele comia, pôs de lado as previsões sinistras do médico; ao fim e ao cabo os
doutores não podiam saber tudo, também se enganavam, talvez Deus se tivesse
compadecido com o fervor com que tinham rezado.
Viram-no repetir a carne, comeu guloso uma tigela de arroz doce e riram com
ele quando disse que tinha de afrouxar o cinto. Depois bebeu café, quis um
cálice de vinho fino. Enquanto a mãe e a prima arrumavam a louça, ficou a fumar
com o pai, desafiando de brincadeira o irmão a que se atrevesse a acender um
cigarro diante deles.
Ao meio da tarde Afonso saiu a acompanhá-lo. Pelo gosto do passeio e pelo
pretexto de sair de casa, porque desde que o irmão adoecera era cada vez mais
vexado pelos pais, que desesperados com as velhacarias em que ele se metia
o amaldiçoavam, gritando que Deus melhor teria feito em castigá-lo a ele com
a doença que lhes mirrava o favorito.
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Foram pela margem a gozar a serenidade do domingo de Abril e entraram no tasco
que ainda existe na esquina do cais com o largo onde começa a Rua Direita.
Beberam uns copos com os amigos, cavaquearam e, bem disposto, José Avelino
disse que os convidava para irem ao Rivoli ver o último filme do Charlot. Se
em vez de meter pela ponte atravessassem o rio num caíque, ainda apanhavam
a segunda matiné.
Aproximou-se do balcão para pousar o copo e nesse instante, paralisados pelo
choque, os outros viram-no apertar as mãos contra o peito, ao mesmo tempo que
pela boca lhe saía uma golfada de sangue.
Apressaram-se a agarrá-lo para que não caísse desfalecido e estenderam-no num
banco. Como o sangue não parava, enquanto alguns corriam a chamar o médico
e os pais, os outros embrulharam-no num cobertor e, pegando nele ao colo,
levaram-no para casa, que era ali a dois passos na Rua da Barroca.
Recobrou os sentidos quando o deitaram e sorriu ao irmão, dizendo-lhe que não
se preocupasse, aquilo era um incómodo passageiro. Sorriu ainda aos amigos,
mas dum modo absorto, como se estranhasse vê-los ali. Depois segurou a mão
da amante que, com um lenço, lhe secava as bagas de suor do rosto, pediu um
copo de água e, sem que nada fizesse prever que era o fim, com um pequeno tremor
faleceu.
A estima em que o tinham e o bem que lhe queriam viu-se no funeral que, penosa
marca, se realizou no dia dos seus trinta e oito anos, e de que se contaria
depois que não havia memória de em Gaia se ter jamais feito outro como aquele.
O caixão levavam-no os amigos aos ombros, revezando-se constantemente, porque
eram muitos e todos lhe queriam pegar.
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Seguiam-no dois laudaus cheios de coroas de flores, e um automóvel onde tinham
acomodado os pais e a prima que, consumidos pelo desgosto, mal se podiam mover.
Atrás caminhavam as amantes, algumas afogadas em pranto, outras altivas,
orgulhosas de mostrar ali que lhe tinham pertencido. Iam os seus bastardos
e no meio deles o irmão, tão abalado que uma das mulheres lhe dera o braço
para que se amparasse.
Pelo caminho a massa de povo tinha engrossado a ponto que muitos ficaram fora
do cemitério sem poder assistir ao enterro, mas aguardaram que terminassem
as exéquias para acompanhar a família a casa. E então, na quietude do momento
em que o padre aspergia o caixão antes de descer à cova, ecoaram de súbito
gritos que os fizeram arrepiar a todos. O pai, incapaz de suportar a dor, caíra
fulminado por um ataque.
José Maria passou semanas no hospital, a vida por um fio, mas quando finalmente
teve alta os médicos deram-lhe parabéns pela sorte que tinha tido e pela
fortaleza da sua constituição, garantindo-lhe que regressava a casa e ao
serviço com a saúde antiga.
Nos modos e no espírito, contudo, a família logo notou que vinha transformado,
outro homem. Sombrio, mais metido em si, e até com um caminhar diferente. Além
disso, ele, que tanto apreciara a comida, que se entusiasmava com a cor dum
assado ou a frescura do peixe, e quase sempre repetia a sopa, agora em vez
de comer debicava; depois sem explicação, como que enojado, empurrava o prato
para longe de si.
Falas só lhe ouviam as precisas e os guardas contavam que no posto passava
horas sentado à secretária, a cabeça escondidas entre as mãos.
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Quando o viam assim tinham a certeza de que estava a chorar, e mesmo que o
assunto fosse urgente retiravam-se pé-ante-pé, intimidados com aquele
sofrimento do chefe que, noutras ocasiões, lhes dava a impressão de ser homem
que nada conseguiria abalar.
O tempo, piedosamente, amaciou-lhe a dor, a rotina do dia-a-dia foi abafando
aos poucos os gritos da alma e o padecer do coração; mas demorou meses até
que ganhasse ânimo bastante para entrar com o filho Afonso na casa do falecido
a fazer o rol do espólio.
Discreto por natureza, e talvez também sentido com o facto de o seu filho mais
querido ter levado uma vida de que ignorava os pormenores, deve-lhe ter custado
a penetrar naquela intimidade alheia, onde a cada momento poderia encontrar
revelações dolorosas. Se tal aconteceu não o confiou a ninguém e, pela primeira
vez em anos, num momento em que se tinham sentado a descansar, surpreendeu
o filho ao agarrá-lo pelos ombros, pedindo-lhe solene que não lhe desse mais
desgostos, que dali em diante fizesse por entrar no caminho direito.
A tarefa despacharam-na em poucas horas, dividindo entre as mulheres com
crianças o que José Avelino tinha deixado de dinheiro — mais do que supunham,
dada a vida de boémia que levara — os móveis, a roupa da cama e as coisas da
cozinha. O calçado e os fatos deram-nos aos pedintes. Para si próprios levaram
os livros, a espada toledana, o relógio de bolso e a caneta de tinta permanente,
mais uma arca abaulada de madeira, onde sabiam que ele guardava retratos,
papelada e outras coisas íntimas.
Essa arca, em que ninguém se atrevera a mexer, iria ficar anos esquecida numa
alcova, até à tarde em que eu, com a irreprimível curiosidade da infância,
descobri a chave do aloquete e abrindo a tampa mergulhei nos seus segredos.
4
Sozinhos com a sobrinha, porque Afonso só de longe a longe vinha do quartel,
José Maria e a mulher viviam metidos em casa, indiferentes à passagem do tempo,
amargurados como se jamais pudessem tornar a sentir-se felizes.
Alegres que tinham sido, as horas da comida eram agora soturnas. Ele deixara
o hábito de lhes ler o jornal ao fim da ceia, e desde o começo da doença do
filho ninguém voltara a mexer na guitarra, nem sequer para lhe limpar a caixa
que, abandonada a um canto e coberta de pó, parecia acentuar a mágoa que sobre
eles pesava.
As lições que dava a Ernestina também tinham terminado, embora aí a culpa fosse
da aluna, que preferia fazer renda, dizendo que já tinha aprendido o bastante
e não se sentia com cabeça para estudos.
As noites passavam-nas sentados à mesa, silenciosos, ele absorvido no jornal
ou nalgum livro, elas umas vezes com o crochet, outras no trabalho moroso de
remendar a roupa.
Mas a época em que viviam era de mudanças bruscas na sociedade e na política,
e as inquietações não tardaram a chegar. Raro passava semana em que não houvesse
revolta,
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os governos mudavam constantemente, os correligionários de hoje tornavam-se
os inimigos de amanhã, por um nada se perdia o emprego ou se acabava na prisão.
José Maria deu-se conta de que, com as obrigações do seu cargo e família a
proteger, naquele ambiente lhe seria difícil opor-se abertamente ao partido
de Salazar, que cada dia arrebatava um pouco mais do poder, e no qual os generais
e os ricos se tinham unido à Igreja. Mas homem justo e socialista convicto,
não ia ficar de braços caídos enquanto os governantes e a secreta cada dia
espezinhavam mais o povo.
Fez-se conspirador. Saía de noite à paisana, ou então disfarçado de pescador
do mar, tão completamente que arranjara uma rede e bóias que carregava às
costas. Doutras vezes dava parte de doente e desaparecia durante dias, deixando
a mulher e a sobrinha aflitas. Se alguém viesse perguntar por ele, dissessem
que tinha ido para o hospital.
Quando regressava, sempre pelo escuro, assustavam-se ao vê-lo desembrulhar
da rede caixas de munição, revólveres ou os panfletos vermelhos que
misteriosamente apareciam depois espalhados pelas ruas, no mercado, no adro
das igrejas. E como nenhuma delas tinha força para o dissuadir daqueles
perigos, nem ele era pessoa de escutar súplicas, cada vez que se ia embora
ajoelhavam-se ambas diante da cómoda, onde o bruxulear da lamparina parecia
dar vida à imagem de Santo António.
Dos esforços e dos riscos só tirou o lucro de ter feito o que lhe mandava a
consciência e o orgulho de ter permanecido fiel aos seus ideais.
Ficou-lhe também a cicatriz duma bala que o tinha apanhado de raspão num braço,
e a lembrança da amargura do dia em que o comandante o intimou a que fosse
ao seu gabinete.
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Que o tinha por homem de respeito e funcionário cumpridor, disse, por isso
não compreendia que se tivesse metido com uma canalha que queria a desgraça
do país. Felizmente, as forças que defendiam Deus, a Família, a Ordem e o
Progresso tinham triunfado, e os opositores iam pagar caro a ousadia de terem
desafiado quem defendia os mais preciosos valores da Pátria. Graças à sua
intervenção pessoal, ele, José Maria, desta vez escapava. Passava-se a esponja
sobre as asneiras que tinha feito; mas aos concursos não precisava de ir, porque
nunca mais seria promovido. A menos que, se estivesse disposto a cooperar...
José Maria respondeu-lhe que não estava no seu feitio ser canalha nem
denunciante, o melhor era deixarem a conversa, porque assim se evitavam
dissabores para ambos, nem teria ele de lhe pagar ali mesmo o insulto com um
par de bofetadas.
O comandante corou e calou-se. Talvez menos por temor do que pelo respeito
que lhe impunha o senhor José Maria desde o tempo em que um era o que ficara,
simples chefe de posto, e o outro o guarda seu subordinado, que à força de
traições tinha subido os graus da hierarquia com uma celeridade de foguete.
Alarmadas com o modo que lhe viram quando entrou em casa, pálido, a transpirar,
as mãos num tremedouro, a mulher e a sobrinha recearam que lhe fosse dar outro
ataque.
Mas ele sossegou-as, não era nada, uma arrelia que tinha tido. Que lhe
arranjassem um chá e despachassem a ceia, depois lhes contava o que se tinha
passado entre ele e o Andrade. Lembravam-se dele? Um que tinha uma mulher ruiva
e era agora comandante?
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Ernestina tem tudo presente: as cenas, os nomes, até o detalhe de que o tio
estava sentado perto da janela da cozinha quando voltou a perguntar:
Então vocês não se lembram do Andrade? Aquele magrito que trabalhou comigo
no posto da Afurada e tinha fama de bufo?
Responderam-lhe que não e ele, com um gesto de contrariedade, começou absorto
a mexer o chá.
A sobrinha notou-o quando ia estender a toalha sobre a mesa, mas antes de poder
dar o grito que lhe sufocava a garganta a tia pôs o dedo sobre os lábios num
imperativo de silêncio. Depois, cautelosamente, acenou-lhe para que deixasse
ficar tudo como estava e saísse com ela da cozinha.
Foram para as traseiras, a rapariga agitada, Maria dos Santos a acarinhá-la
para que sossegasse, explicando que o que ela tinha visto, o tio a rebolar
a cabeça, a baba a escorrer-lhe da boca e os olhos em branco, felizmente não
era ataque. Mas Nosso Senhor tivesse compaixão de todos.
Fê-la sentar e disse que, para que não se assustasse mais, e também porque
já estava em idade para compreender certas coisas, lhe ia confessar um segredo.
Mas tinha de prometer que enquanto o tio fosse vivo nunca o revelaria.
Muda de susto e a tremer, Ernestina acenou que sim, prometia. A tia
sussurrou-lhe então que ele desde pequeno sentia aquilo. Ficava muito aflito,
porque nem sempre se podia esconder, e as pessoas julgavam que fosse doença
e que tinham de lhe acudir. Mas o melhor era deixá-lo em paz, não lhe tocar
nem falar até que o martírio passasse.
Mas que martírio?
Ele desde rapaz tem a infelicidade de assistir à «procissão dos defuntos».
Sabes o que é? Ernestina não sabia e, atónita, mal podia acreditar no que a
tia lhe confidenciava:
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Quando lhe dá aquilo diz que vê primeiro um campo cheio de árvores esquisitas,
com uns galhos muito retorcidos que em vez de folhas têm uma espécie de bolas.
Depois levanta-se um nevoeiro e aparece então um cortejo de pessoas vestidas
de branco e no meio delas vai outra vestida normalmente. Só dessa é que
distingue as feições e é sempre alguém conhecido que não tarda a morrer.
Então ele também viu o José Avelino assim?
Não sei, minha filha. Não tive coragem de lho perguntar.
E há bocado estaria a ver alguém?
Não lho perguntes. Se quiser ele to dirá um dia; mas se se calar é porque lá
tem as suas razões.
Ao voltar à cozinha encontraram-no a fazer as palavras cruzadas do Janeiro,
um dos seus passatempos favoritos, com o ar calmo de quem estava ali sem que
nada de extraordinário tivesse acontecido. Também pareceu não se dar conta
de que estivera sozinho. A única coisa que Ernestina depois estranhou foi que
quando lhe deu as boas-noites e lhe pediu que a abençoasse, ele, em vez de
lhe tocar a fronte como era seu hábito, levantou-se da cadeira e com uma
expressão de melancolia apertou-a contra si.
Pelos acontecimentos e com os desgostos que tinham sofrido, passaram quase
dois anos sem ir à aldeia. As notícias que de lá recebiam era que tudo estava
na mesma, as cartas que eles próprios mandavam quase que as enchiam com as
frases correntes de «ao escrever esta nós, graças sejam dadas ao Altíssimo,
estamos bons de saúde e fazemos votos para que estejais todos bem.» O resto
era um resumo das suas penas, porque não queriam afligir os parentes e quando
tornassem a ver-se haveria ocasião de sobra para entrar em detalhes.
92
No começo de 1928 José Maria meteu requerimento para ir de licença em Agosto.
Involuntariamente, ou por qualquer motivo íntimo, só quando o pedido foi
deferido é que falou da data à mulher. Ela zangou-se. Como suportava mal o
calor sempre lhe pedia que ao menos um ano fossem de férias em Setembro, e
ele, fazendo de esquecido, desculpava-se com a obrigação de estarem na festa
do santo, que era a dez de Agosto, ou então dizendo que passada a época a caça
já não prestava.
Mas desta vez nem procurou desculpas, retorquiu com um redondo não. Ela
desgostou-se e, para grande aflição da sobrinha, da troca de palavras passaram
ao ralho, pela primeira vez desde o casamento ficaram amuados.
Conciliou-os poucos dias depois o choque que tiveram ao receber a má nova de
que o filho Afonso estava de novo preso na cadeia militar, desta vez por numa
taberna se ter metido à zaragata com dois civis, e a golpes de cinturão e pontapé
os ter deixado entre a vida e a morte. Foram visitá-lo e encontraram-no cheio
de manchas e inchaços, um braço pendurado ao peito, a cabeça embrulhada num
capacete de ligaduras.
Contou-lhes que estava a beber descansado com uns camaradas, quando dois
mariolas começaram a meter-se com ele e a insultar, a ameaçar. Ainda tinha
aguentado aquilo um bocado, mas quando lhe atiraram um copo de vinho à cara
foi como se tivesse perdido o juízo e desancou-os.
A culpa, acrescentou, não era sua, mas como tinha fama de zaragateiro, o oficial
de dia nem sequer se dera ao trabalho de ouvir as testemunhas e mandara-o
prender.
Os pais voltaram a casa consternados, porque lhe conheciam de sobejo o
carácter, desculpas iguais também não era a primeira vez que as ouviam. O grande
medo em que viviam era de não saber como encaminhá-lo e de se sentirem
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incapazes de prever o futuro daquele filho que, já desde criança, umas vezes
se mostrava carinhoso, mas noutras parecia possesso do demónio.
Embora inteligente e trabalhador, sem ter acabado os estudos a esperança era
pouca de que pudesse arranjar emprego ao sair da tropa. Durante um tempo ainda
pensaram que o melhor para ele seria que ficasse e seguisse a carreira militar.
Porém, com tantos castigos e mais dias passados no cárcere do que no quartel,
depressa se lhes foi o sonho.
A ideia deve-lhes ter ocorrido muito antes, durante uma das longas conversas
que tinham quando se deitavam e que Ernestina, no seu quarto, se acostumara
a ouvir como um ronronar indistinto que lhe confirmava a presença protectora
dos pais adoptivos.
Na tarde de domingo em que lhe disseram que deixasse a renda e se viesse sentar
mais perto, porque lhe queriam uma fala, sentiu-se um instante apreensiva.
Não que tivesse razão de temor, mas o tom de ambos e um não sei quê no ar
prenunciavam solenidade.
Durante um instante, tão curto que o pensamento mal se chegou a formar, supôs
que fosse notícia ruim; depois, o sorriso que lhes viu dissipou-lhe o receio,
mas quando o tio incompreensivelmente se foi alongando sobre o bem que ambos
lhe queriam, que nunca a tinham considerado como sobrinha, sim verdadeira
filha; que tinham a certeza de que ela seria o único amparo da sua velhice,
começou a inquietar-se. Conhecia-lhes o modo franco, a maneira directa de
falar, e custava-lhe a crer que precisassem agora de tantos rodeios.
Finalmente, conta ela, o tio, baixando a voz como se se envergonhasse do que
lhe pediam, falou das preocupações que lhes causava o carácter e a vida do
filho.
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Dali a semanas deixaria a vida militar e eles temiam que, com o carácter que
tinha e a frustração que o tomaria de se ver sem trabalho, podia acontecer
o pior. Além disso não lhe faltavam as más companhias, e se eles não cuidassem
de o proteger contra si próprio, o mais certo é que acabaria numa vida de
desgraça.
Tinham pensado, repensado, custava-lhes muito porque sabiam que a iam
sacrificar, mas queriam-lhe pedir que casasse com o primo. Talvez que as
responsabilidades do casamento o amansassem, e se por acaso não conseguisse
emprego na cidade, ele, robusto como era, sempre poderia fazer em Estevais
uma vida de lavoura. Com o que o Sapateiro comprara e os campos que eles próprios
tinham recebido por herança, Afonso podia levar uma vida de lavrador abastado.
Respeitosa e incapaz de recusar o que quer que fosse aos tios, Ernestina
respondeu que sim. Casaria. Perguntaram-lhe se gostava dele. Gostava.
A pergunta era ociosa e aquele gostar não era, não podia ser, o do amor; era
um gostar fraternal, a simpatia de crianças que por terem crescido juntas na
mesma intimidade jamais poderiam conhecer os arroubos da paixão.
Querendo-lhes como lhes queria, Ernestina nunca sonharia em se negar ao que
os tios lhe pediam; e afinal o casamento, fosse com o primo ou com outro, era
passo obrigatório para quem nascera mulher, predestinada para gerar, criar
e cuidar. O que a assustava, porém, não era a fatalidade do destino, sim a
perspectiva de ter de voltar para junto da mãe. Além disso, nos quase nove
anos que tinham passado desde que chegara, a cidade tinha-se tornado o seu
meio favorito, e da aldeia, fora os sofrimentos e as terríveis cenas da
infância, pouco mais lhe restava que a memória de um longe inóspito, rude,
onde só lhe era querida a recordação do pai.
Do modo como Afonso recebeu a notícia do noivado iminente não ficou relato.
Fiel ao seu carácter, as boas ou
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más emoções que ressentiu fechou-as dentro de si a vida inteira, levou-as para
a cova. Mas conhecidas as circunstâncias e o modo dos protagonistas não é
difícil imaginar que, reunidos todos uma noite à mesa, o patriarca tenha
anunciado a decisão para a qual não havia direito de apelo.
Com dezanove anos incompletos e sem possibilidade de se libertar da tirania
dos pais, o rapaz deve-se ter conformado ao inevitável. Aliás, naqueles tempos
de crise e inquietude, a esperança de emprego equivalia à de ganhar a sorte
grande na lotaria e, ao fim e ao cabo, casar com a prima ou com outra vinha
tudo a dar no mesmo. Mas a vida de taberna e noitadas com os amigos é que ia
ser difícil de abandonar, porque essa liberdade era um privilégio de homem.
Ponto delicado que o pai sensatamente passara por alto.
O resto? Depois se veria.
Começado Agosto fizeram mais uma vez a viagem pelo vale do Douro e a linha
do Sabor, sempre por aquela canícula infernal que os punha a todos
maldispostos. Comboio lento, horas longas, nervos à flor da pele. Depois, monte
acima, monte abaixo, a caminhada ao trote sonolento das burras e por fim, em
vez de poderem repousar, o interminável ritual dos abraços.
Ao Sapateiro já na estação tinham dito que traziam novidade grande, mas era
melhor esperar para quando estivessem todos juntos. Ele estranhou-lhes aquele
segredo a que não estava habituado. Também lhe pareceu ver a filha mudada,
ainda menos expansiva, e mais tarde diria à mulher que naquele momento tinha
sentido uma vaga suspeita, uma preocupação, mas que achara melhor dar tempo
ao tempo.
Com o seu modo sóbrio, ao começo da ceia José Maria deu-lhes a notícia, não
escondendo que o casamento era um
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arranjo ditado pelo temor. E porque tinha sido sincero, esperava pelo menos
que os parentes compreendessem os seus motivos e se acomodassem com o destino
que reservava à filha. Por isso lhe doeu fundo o vê-los silenciosos e
visivelmente amarfanhados, de olhos baixos a evitar encará-lo.
Eles por seu lado nunca lho diriam, mas acharam uma traição, A filha tinha
suficiente de seu para ser bom partido e o querê-la casar com o primo, um
malandraço habituado à boémia da cidade, sem emprego nem futuro, era o mesmo
que condená-la a uma vida de tristeza.
No íntimo José Maria com certeza lhes dava razão, mas para ele e para a mulher,
Ernestina era a bóia a que se agarravam, a única possibilidade de manter intacta
a paz a que se tinham habituado e, antes que fosse tarde demais, de domar pelo
casamento as estroinices do rapaz. Conversou-se noite fora em volta da lareira,
Ernestina e Afonso sentados lado a lado, indiferentes a que se dispusesse ali
da sua vida.
O Sapateiro confessou que lhe parecia má ideia e quis ouvir a opinião da filha,
mas ela desiludiu-o, dizendo que faria a vontade aos tios. Elisa, que não tinha
outro argumento senão as lágrimas, chorava segurando as mãos da irmã, talvez
na esperança de que esta, a quem considerava quase mãe, se compadecesse e lhe
acudisse.
No dia seguinte, acalmadas um pouco as aflições e aceite o inevitável,
acomodaram-se facilmente os interesses materiais, porque ambos eram filhos
únicos e não ia haver complicações de partilhas. Mas de parte a parte as
lágrimas continuaram, umas vezes escondidas, outras vezes desesperadas, como
na missa do domingo seguinte, quando o padre pediu a bênção de Deus para os
noivos e Elisa foi incapaz de conter o pranto.
Noivado. Estranha situação para aqueles dois que de pequenos se tinham
habituado a viver e a brincar como irmão
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e irmã, e agora, ainda na adolescência, tinham de se conformar à tradição e
ficar sentados à porta a namorar. Planos de futuro, não tinham. Interesses
que os unissem, também não.
E como se opunham em quase tudo, os assuntos das suas conversas davam em zanga.
Por isso sofriam mal aquela comédia de namoro oficial e levantavam-se sem se
dar razões, ele para a taberna do Espinha, ela para a cozinha a ajudar a mãe
e a tia.
A festa de São Lourenço passaram-na tristonha. Comeram, beberam e riram como
pedia a ocasião, mas mais pelo dever de nesse ano serem mordomos e terem metade
da banda de música hospedada em casa, do que pelo gosto de andarem em festejos.
Além disso, José Maria tornara-se uma sombra de si mesmo, comido de desgosto,
escaveirado e, contara Maria dos Santos em segredo à irmã, nos últimos tempos
constantemente atormentado pelas visões da «procissão dos defuntos.»
Essa conversa tinham-na tido na tarde da festa. A minha avó Elisa lembrava
ainda como ambas se persignaram para afastar o mau agouro e que depois, tomadas
pelo mesmo pensamento de se valerem da protecção divina contra alguma desgraça
iminente, foram dali à igreja a começar uma novena. Com tanta fé tinham rezado
que esqueceram o tempo e quando chegaram a casa estavam os homens sentados
à porta a resmungar que era hora da ceia e nem sequer estava o lume aceso.
A satisfazer o hábito e a queda para a caça, mas também para variar a comida,
José Maria de vez em quando saía com o filho para o monte. Como de costume
enchia o cinto de coelhos e perdizes, enquanto o rapaz, pouco amigo de
calcorrear encostas o dia inteiro e fraco na pontaria, às vezes nem sequer
uma peça conseguia matar.
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Quando traziam alguma lebre, as pessoas paravam a admirar-lhe o tamanho e a
gordura, e muitos falariam durante anos do espanto que foi na tarde em que
pai e filho entraram na aldeia a bufar, carregando um javali que passava das
seis arrobas. Assaram o animal numa fogueira defronte da igreja e juntou-se
o povo a comê-lo com entusiasmo, menos pela carne, que acharam sem gosto, mas
num ritual de vingança contra os estafermos que lhes destruíam as searas e
o arvoredo.
Nos mais dias, José Maria ajudava o Sapateiro na lavoura, o que além de poupar
o custo das jeiras acrescia o património que, com os filhos quase casados,
podiam chamar comum.
Pelo caminho e nas poucas folgas do trabalho eles, por natureza pouco
faladores, não se cansavam de sonhar o futuro e riscar o destino do neto. Porque
para ambos era coisa assente: o primogénito ia ser macho, a sua sorte bem outra
que a de ficar pelas choupanas do Cabeço ou de viver na modorra dos Estevais.
Nem o Porto lhes bastava. Para o neto queriam os fulgores da África, as riquezas
do Brasil, os paraísos de que ouviam falar e que na juventude tinham
ambicionado, sem nunca terem podido ir mais além do que aqueles sonhos que,
por irrealizáveis, se tornam depois o melancólico e inútil post-scriptum da
vida.
Uma coisa começara a preocupar sobremodo o Sapateiro: durante o trabalho o
cunhado deixava às vezes subitamente a enxada ou o arado, ia sentar-se a uma
sombra e, a cabeça apertada entre os braços como para se proteger duma ameaça,
ficava ali alheado de tudo.
Da primeira vez ainda lhe perguntou se se sentia mal, mas José Maria fez um
gesto que não e nunca mais tornara a incomodá-lo. Agora que era estranho, lá
isso era, porque tinha visto que o corpo se lhe sacudia como se estivesse a
chorar ou com um ataque.
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No dia dezassete, uma semana depois da festa, foram lavrar cedo. Mas ou por
o arado ser velho, ou porque a relha ao bater nalguma pedra tivesse causado
um movimento desencontrado dos animais, a rabiça quebrou e a meio da manhã
voltaram para a aldeia a compô-la.
Amarraram as mulas às argolas da parede, tiraram-lhes as albardas para que
não sofressem tanto com o calor, e no momento em que o Sapateiro ia deitar
o arado ao ombro para o levar para a forja, a ver se o ferreiro lho compunha
atravessando nele umas cavilhas na madeira, José Maria ouviu-o rogar uma praga
e atirá-lo ao chão.
Sacana de moscardo! Olha que picadela!
O insecto tinha-o ele esmagado com uma palmada, mas o ferrão preto via-se ainda
cravado no pulso onde se formara uma minúscula gota de sangue. Tentaram com
uma agulha, depois com uma tesoura pequena, mas só quando José Maria cortou
fundo na pele com uma navalha da barba é que finalmente conseguiram retirá-lo.
Desinfectaram o lanho com aguardente e o ferreiro ainda disse que seria melhor
queimá-lo com um ferro em brasa, o que os fez rir pelo exagero. Compusesse
ele o arado, que disso é que entendia.
Por azar o arado não tinha conserto, pois carcomido como estava não demoraria
a quebrar noutro sítio, e resolveram então que iriam comprar um novo à feira
de Carviçais, dali a dois dias.
Comeram ao meio-dia. Foram depois sentar-se defronte de casa, à sombra que
fazia a varanda da Maria Chacim que, Verão ou Inverno, desde memória de gente
era o pouso preferido dos homens. Os que lá estavam repararam que
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o Sapateiro coçava o pulso e, ao ver que o lanho parecia inflamado,
aconselharam-no a que o apertasse com um lenço e o encharcasse de aguardente.
Ele assim fez, mas sem paciência para estar quieto — se se sentava de vez em
quando com os outros era a rogo do cunhado — foi-se a mondar a erva da horta.
Quando voltou a casa vinha febril, doía-lhe a cabeça, ao desabotoar a manga
da camisa viram que o braço estava inchado e com uma cor estranha, arroxeada,
que se espalhava em linhas grossas até ao sovaco.
Passou mal a noite, com um delírio tão forte que Elisa correu a acordar a irmã
e o cunhado. Mas mais do que pôr-lhe toalhas molhadas sobre a testa a ver se
lhe diminuía a febre, não podiam fazer. No desejo de acudir deram-lhe também
uns pós de quinina e pincelaram-lhe a ferida com tintura de iodo, infelizmente
sem resultado. Ainda não começara a clarear o dia quando José Maria montou
no cavalo do senhor Antero e se meteu a galope para Moncorvo em busca do médico.
Pobre José Maria. Como tantas vezes acontecia, o médico não estava.
Disseram-lhe que tinha ido no dia antes tratar duns assuntos na sua quinta
de Vila Flor, mas de certeza que por volta da uma estaria de retorno.
Desanimado por aguardar tanto tempo em vão, esquecido de comer, passava das
quatro e o sol ia a pino quando se meteu a caminho de Vila Flor. Na quinta
o caseiro disse-lhe que o patrão realmente tinha estado, mas saíra cedo sem
dizer para onde, e por isso julgava que tivesse voltado para Moncorvo. Não
o tinha encontrado lá? Então o mais certo era ter ido ver algum doente à Lousa
ou a visitar os primos a Macedo.
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Escurecera há muito quando José Maria voltou a Moncorvo e o médico
recomendou-lhe calma, pois com apoquentações é que se arranjavam as doenças.
Picadela de moscardo? Não tinha importância. Fora disso estava cansado e também
já não eram horas cristãs de ir tão longe a visitar doentes. Levassem-lhe o
homem no dia seguinte a Carviçais, porque era feira e iria lá dar consulta.
Entretanto o Sapateiro tinha piorado e umas quantas vezes durante a noite
temeram que não escapasse. Manhã cedo estenderam-no sobre um colchão num carro
de bois, cobriram-no com mantas e, uns a pé outros a cavalo, foi a família
e um magote de gente a acompanhá-lo. O doente, coitado, não dava por nada,
só abria os olhos a espaços, e como ardia de febre a mulher chegava-lhe aos
lábios uma bilha com água que ele não conseguia beber e se lhe derramava pelo
rosto.
Dos acompanhantes uns choravam, outros iam desfiando orações, na expressão
dalguns lia-se o temor de sentirem tão próxima a cólera do Senhor. Porque
grandes seriam os pecados de todos para que Deus os castigasse assim, pondo
naquele estado o homem que respeitavam, aquele que nunca negava ajuda nas horas
de aflição e que para muitos era, em segredo, o seu verdadeiro confessor.
Na praça de Carviçais o povo de feirantes e fregueses silenciava ao abrir campo
para que o carro passasse, e aos que perguntavam a saber quem ia ali respondiam
que era o António Sapateiro, dos Estevais, que estava muito mal da picadela
dum bicho.
Juntou-se um ror de gente à porta da casa onde o médico tinha o consultório,
mas quando tiraram o doente e o levaram em braços para dentro, alguns nem
queriam acreditar no que viam: nunca tinham pensado que alguém pudesse ficar
assim inchado, com os lábios quase a rebentar e uma cara roxa que não parecia
deste mundo.
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Do sobrinho Afonso bem tinham notado depois as palmas das mãos ensanguentadas,
mas julgaram que fosse de qualquer outra coisa. Passaram-se anos antes que
ele contasse que naquele momento tinha cravado as unhas na pele para que a
dor o fizesse conter, pois doutro modo teria espatifado o médico quando o viu
aproximar-se do enfermo, repuxar-lhe as pálpebras e dizer friamente:
Não se salva. Anteontem ainda se lhe poderia ter valido, mas agora já tem o
sangue todo envenenado.
No regresso a Estevais José Maria subiu também para o carro a amparar o
moribundo. Ele dum lado, deitando-lhe um braço pelas costas para que os
solavancos o incomodassem menos; Elisa do outro, o rosário entre os dedos,
desfeita em lágrimas por aquela desgraça que na força da vida a deixava sem
homem e sem amparo.
Ernestina ia a pé atrás do carro, às vezes chegando-se para tocar os pés do
pai, um modo infantil de lhe pedir que a não abandonasse, que se morresse a
deixaria numa amargura tão funda que nenhum bem-querer, nem mesmo o dos tios,
lhe poderia dar conforto. De vez em quando abaixava-se a afagar o Bonito que,
como sempre, desde o momento em que ela chegara à aldeia não saía do seu lado.
Estremeceu quando perto de casa o cão se pôs a uivar, e mais tarde sentiria
remorsos por não lhe ter acudido quando os outros, temendo o mau agouro, o
tinham enxotado à pedrada.
Tão estranho era o aspecto do Sapateiro, e havia tantas horas que estava
inconsciente, que quando o deitaram na cama o deram por morto. Mas José Maria
não se conformava. Obrigando as mulheres a calar o pranto, disse que lhe
trouxessem um espelho. E o espelho felizmente embaciou.
Tomou-lhe o pulso. Na veia sentiu um bater ténue, uma palpitação, mas enquanto
houvesse vida havia esperança. Os médicos também se enganavam, não podiam saber
tudo.
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Além disso Deus, o Deus em que ele dizia não acreditar, teria piedade. E a
«procissão dos defuntos», onde tantas vezes distinguira o cunhado rodeado
pelos véus brancos dos mortos, não precisava de ser profética, talvez fosse
apenas um aviso. Corresse alguém à ribeira a procurar sanguessugas, que ele
tinha fé de que ainda lhe poderiam acudir.
Foram os homens que estavam à porta e os rapazes crescidos, mais alguns dos
pequenos que queriam ver como se fazia, e num abrir e fechar de olhos estavam
de volta com uma púcara cheia de bichas viscosas, esverdeadas, que se enrolavam
inquietas umas nas outras deitando baba.
Com os curiosos em redor e sem que o doente desse de si, José Maria foi-lhas
chegando às veias do pescoço, dos pulsos, dos tornozelos, as bichas logo
aferradas, empanturrando-se de sangue. Mas quase no mesmo instante rebentou
o pranto, porque todos compreenderam que era o fim quando as sanguessugas,
em vez de continuarem presas ao corpo a chupar, começaram a cair sobre o lençol,
elas próprias envenenadas pela peçonha.
Encheu-se a casa de gente que carpia de desespero e dor, e os que não tinham
podido entrar choravam na rua, alguns tomados por um sentimento tão fundo de
perda que — ouviria eu mais tarde — foi preciso segurá-los para que não fossem
dali a anavalhar o médico.
Como por milagre o Sapateiro aguentou ainda a noite e a madrugada que, dizem,
é a hora em que o corpo se torna frágil e a alma as mais vezes se despede.
Rompia a aurora quando aos poucos foi retomando consciência. Depois, falando
a custo, disse que se sentia enfraquecido, mas que o ajudassem a sentar-se
e lhe dessem uma malga de café.
Enquanto a mulher corria a fazê-lo, consolou a filha, dizendo-lhe que não se
apoquentasse, porque não tardaria a melhorar. Quis ficar a sós com José Maria
e pediu-lhe que
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lhe protegesse a mulher e a filha, porque como via estava nas últimas, não
aguentaria até ao sol-pôr. Depois falou ainda palavras de amizade à cunhada
e abençoou o futuro genro que, sufocado de emoção, nada ouviu do que ele lhe
disse.
Elisa trouxe-lhe o café bem doce, com um pouco de leite e migas de pão como
ele gostava, mas teve de lho dar a beber com uma colher, pois o pobre nem sequer
tinha força para aproximar a malga dos lábios. Não se assustaram ao vê-lo perder
de novo os sentidos, porque continuava a arquejar e aquilo não seria mais que
um desfalecimento passageiro.
De facto não tardou a reabrir os olhos, dando a entender por gestos que queria
que todos se fossem e o deixassem com a mulher. E a ela, que se sentara na
enxerga, e num gesto de carinho lhe segurava as mãos entre as suas, pediu num
murmúrio que tivesse coragem. Ia morrer e pouco tinha feito do que sonhara,
mas ela precisava de ser forte, cuidar da vida, cuidar do neto que não tardaria
a nascer.
Elisa, os olhos marejados de lágrimas, abanava a cabeça a querer negar o que
ouvia, respondia-lhe que a não deixasse, que pedisse a Deus, prometia ela a
São Lourenço o seu peso em cera se lhe desse a cura.
O Sapateiro estremeceu alarmado, como se tivesse uma visão tenebrosa, mas
quando voltou a acalmar o seu rosto mostrava uma imensa tristeza e, agarrando
ele próprio a mão da mulher, perguntou se ela cumpriria o que lhe ia pedir.
Cumpro, António. O que é?
Não quero que meu pai vá ao meu enterro.
Talvez porque aquelas palavras de maldição tinham gastado no corpo o que lhe
restava de força, retesou-se, os olhos arregalaram-se-lhe e soltou um suspiro
fundo, como se finalmente deixassem de lhe pesar no corpo e na alma os
sofrimentos da existência.
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Foi escândalo. De perto e de longe juntou-se uma multidão para o funeral, e
atrás de todos caminhava o ti Cuco agarrado ao braço da filha mais velha,
toldado do vinho, mas consciente bastante para, quando o padre interrompeu
um momento o responso, se pôr a gritar que a culpa era daquela malvada, que
lhe roubara o filho e ainda por cima tinha inventado que ele não queria que
o acompanhasse à cova. Ninguém lhe faltasse ao respeito, que ele ia ali com
mais direito que os outros todos. E a grande cadela não mandava nada coisa
nenhuma. Com certeza até fora ela que tirara os cem mil réis da carteira do
homem, para que depois o pobre deitasse as culpas ao pai. Mas Deus lá estava,
Deus é que sabia e lhe havia de pedir contas.
O burburinho tinha acontecido a meio da rua. Passado o choque, o Paulo Branco
e o irmão que iam perto dele, pararam o velho e com bom modo encaminharam-no
para uma canelha, pedindo-lhe que se aquietasse. À Margarida, a filha, disseram
que devia ter vergonha de deixar o pai fazer aquilo, e para ele não se rebaixar
mais que o aferrolhasse em casa até lhe passar a bebedeira.
O enterro tinha sido a vinte e um, onze dias depois da festa, a uma semana
e pouco do fim do mês, quando terminaria a licença do José Maria. E como o
dia-a-dia não se compadece com dores, nesse curto espaço de tempo todos eles,
além de acudir ao trabalho da casa, dos animais e da lavoura, tiveram de
resolver quem iria e quem ficava.
Pareceu-lhes que o melhor seria apressar o casamento, mas naquele momento
ninguém tinha cabeça para os arranjos. Decidia-se depois. De imediato Afonso
e Maria dos Santos
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ficavam na aldeia, ela para ajudar a irmã, ele para fazer a sementeira.
Ernestina voltaria para junto da mãe. José Maria regressava sozinho ao
trabalho, e até arranjar quem lhe fizesse a comida e tratasse da casa ia morar
no quartel.
Foram dias tristes. Doía-lhes a falta do Sapateiro, mas isso era já o passado;
o presente era a falta de hábito de trabalharem sem guia, o verem-se a fazer
juntos e mal as coisas que ele sozinho fazia na perfeição. Por ignorância
sofriam de inquietações novas: uma cilha quebrada, uma albarda rota, um
jeireiro que não aparecera ao trabalho, tudo lhes parecia contratempo grande
e lhes punha os nervos à flor da pele.
Para Elisa não era só a perda do homem que a amargurava, nem o excesso de
trabalho e cuidados, mas visivelmente nela qualquer coisa quebrara,
envelhecendo-a a olhos vistos. Ernestina, por sua vez, evitava quanto podia
contrariar a mãe ou ficar perto dela mais tempo que o preciso. Calava-se, mesmo
quando sem motivo a via bater no cão, e escondendo as lágrimas corria a
refugiar-se com ele ao pé da tia. Mas esta mudara também e, ao contrário de
antigamente, parecia alheada, perdida num sofrimento íntimo, trabalhava como
um autómato, durante dias inteiros mal se lhe ouvia uma palavra.
Sozinha, não sabendo que fazer para não desagradar, a rapariga ficava sentada
à porta de manhã à noite, os olhos postos naqueles infindáveis trabalhos de
agulha que lhe ocupavam as mãos e entorpeciam o espírito.
Afonso era robusto e das poucas vezes que por curiosidade ou de brincadeira
lavrara um campo aquilo parecera-lhe coisa leve. Diferente era agora o
levantar-se todos os dias no escuro, dar de comer às mulas, carregá-las, ir
com elas pelo monte uma hora ou mais de caminho e depois, do romper do sol
até quase ao lusco-fusco, andar incessantemente curvado, uma mão na rabiça
do arado, a outra a manejar a vara
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com que guiava os animais. Mas o que verdadeiramente o entontecia era menos
o esforço físico a que não estava habituado do que a intensa monotonia de,
para lá e para cá, hora após hora, abrir sulcos iguais ensurdecido pelo barulho
da relha a rasgar a terra.
Voltava a casa tão exausto que as mulheres discretamente tomavam a si o trabalho
de descarregar as bestas, levá-las à fonte, curar-lhes os ferimentos, metê-las
em seguida na loja a comer a ração. Porque o ajudavam assim, na esperança de
que descansasse e fosse cedo para a cama, ou pelo menos lhes fizesse um pouco
de companhia, mais lhes custava vê-lo macambúzio à mesa e depois do comer,
sem despedida nem explicação, ir-se meter na taberna.
Saía de lá alta noite, acordava os vizinhos a praguejar e a bater pancadas
inúteis à porta que a mãe deixava no trinque, mas que ele, caído de bêbado,
não conseguia abrir.
5
A noite de Natal passaram-na como já se tinham habituado; as mulheres sozinhas
e caladas, a fazer renda em volta da lareira; o rapaz na taberna com a meia
dúzia de borracholas que, reconhecendo nele um parceiro, se atreviam a
desafiá-lo, troçando da fraca arte que mostrava no amanho da terra.
Tinha alguém reparado como ele semeara as Cortes? Nuns sulcos não crescia uma
planta sequer, noutros com certeza tinha deitado a semente por um funil, tão
desiguais eram os tufos de verdura. Via-se logo que aquilo eram mãos de janota
da cidade. Mas nada de zangas! «Ó ti Faustino, meça uma ronda para alegrar
a rapaziada! Venha outra, para que se festeje como deve ser o nascimento de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais uma, ó ti Faustino, mais uma que a paga aqui
o nosso lavrador diplomado.»
Quando ao voltar da Missa do Galo o encontraram sentado no escano a aquecer-se
ao lume, a mãe, a tia e a prometida ficaram surpreendidas, mas não arriscaram
um ai. O vedo sóbrio, ou quase, também as não tranquilizou, e como confessaram
depois, a única ideia que lhes ocorreu foi que
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ele, num desando da cabeça, tivesse matado alguém na taberna e estivesse ali
à espera da Guarda.
A ver se lhe desatavam a língua, puseram-lhe defronte o prato de rabanadas
que não tinha querido à ceia, mas ele comeu-as sem uma palavra, os olhos fitos
nas labaredas, pegando de vez em quando na tenaz para ajeitar os toros.
Perguntaram se lhe apetecia um copo de vinho fino a acompanhar, respondeu ele
de mau modo que se tivesse vontade de beber ninguém precisava de lhe chegar
a garrafa.
As mulheres baixaram os olhos, a temer o que iria sair dali, e pegaram de novo
na renda. Como num prólogo, ou a dar-se coragem, o rapaz tossiu a raspar o
gogo, escarrou para o lume, acariciou o cão que se lhe tinha deitado aos pés
e por fim, sem as encarar, gritou-lhes que dali em diante não contassem com
ele para a lavoura. Chamassem jeireiros, dessem as terras de meias ou
deixassem-nas ao abandono, o que quisessem, ele é que não lhes voltava a tocar.
Nem nas bestas. Nem no raio que partisse tudo. A mãe e a prima podiam ir também,
podiam ficar, como lhes desse na gana, ele é que não aguentava nem mais um
dia; ficassem a saber que voltava para o Porto. Ala que se faz tarde, nunca
mais o apanhavam naquele estupor de buraco.
Aquilo era a dor funda das humilhações e dos insultos, o saber-se
inconscientemente sem futuro nem sonhos, a frustração de não ter ainda chegado
aos vinte anos e sentir que a vida já se lhe negava.
As mulheres, essas, feitas doutra têmpera, sabiam por intuição e carácter que
era melhor não fazer caso. Aliás, mágoas também tinham elas as bastantes para
compreender as que o afligiam. Deixá-lo gritar, coitado, que assim ao menos
se aliviava do peso do coração.
Mas o ele querer ir-se embora só entrava nas suas próprias contas, nas de mais
ninguém, e a isso ia ser preciso dar
111
um jeito, pois estava fora de questão que se parasse dum dia para o outro com
a lavoura. Se não se trabalhassem as terras, donde é que ia vir o dinheiro?
E se o mato as comesse, quem teria força para voltar a arranjá-las?
Ele a barafustar, elas de olhos na renda, sem o contradizer nem mostrar amuos.
De manhã se veria. Era preciso arranjar os canos da rega na horta, dar uma
volta de arado à encosta do Embredo que, por ir o Inverno seco e muito frio,
estava lá a terra tão dura que a semente não rebentava.
Fingiram não dar conta quando ele se levantou e raivosamente acendeu o lampião
para se alumiar na rua, e sem lhes dar as boas-noites foi escada abaixo para
a outra casa. Mas ao ouvir bater a porta Elisa resmungou contra a filha que
se despachasse, eram mais que horas de se deitar.
A rapariga compreendeu que a mãe e a tia queriam conversar a sós. Arrumado
o cestinho da renda pediu-lhes a bênção e fechou-se no seu quarto que era ali
ao lado, separado da lareira por um tabique sem argamassa.
Os sussurros em que ambas se puseram de nada adiantavam. Com a candeia apagada
e espreitando pelas frinchas da parede, as palavras chegavam-lhe distintas
como se continuasse sentada ao lume. E o que ouviu cortou-lhe o fôlego.
A sua vida estava decidida, bem o sabia, e tinha aceitado que o seu destino
seria o que os outros mandassem, mas tão criança era que no íntimo guardava
a ideia de que tudo demoraria eternidades. Que as coisas fossem tomar a pressa
que a conversa anunciava causou-lhe de súbito a sensação de se ver à borda
dum precipício para onde irremediavelmente a iam empurrar. As entranhas
reviraram-se-lhe e ainda se debruçou para fora da cama, mas sem poder alcançar
o penico vomitou no soalho, a mãe e a tia a acudir aflitas, perguntando o que
é que sentia, o que é que tinha feito, quase sem lhe
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dar tempo para entre os vómitos dizer que não era nada, que com certeza a ceia
lhe tinha desarranjado o estômago.
Sabiam-na virtuosa e tímida, e a chorar jurou pela alma do pai que não tinha
feito nada, que nem o primo nem ninguém lhe fizera o mal.
Mas de manhã depois do café vomitou outra vez, e as duas irmãs, tomadas de
pânico, fecharam-se com ela em casa e recomeçaram o interrogatório. Sem
resultado, porque a rapariga jurava que não e depois, com os olhos inchados
do choro e sem fôlego de tanto soluçar, já não podia mais que abanar a cabeça.
Queriam acreditar nela, e o mais provável era que não tivesse feito a asneira,
mas em coisas da carne nunca se sabe. De súbito a agitação do rapaz parecia-lhes
fingida, a pressa que mostrara de querer voltar para a cidade uma razão de
suspeita. Era acareá-los, e depressa. Afonso, que talvez por julgar que o
anúncio da partida o livrava das obrigações dormia a sono solto, acordou
estremunhado com a urgência das sacudidelas da mãe. Que tolices? Que estava
ela a dizer? Que mal?
Maria dos Santos, gritando que o que ele merecia era uma carga de porrada,
foi sentar-se nos degraus da varanda à espera que o filho se vestisse, e quando
ele apareceu teve de se conter, tão forte era a vontade que tinha de o levar
preso pelas orelhas até à casa da irmã.
Impediu-a a vergonha e talvez o tamanho do rapaz, que à beira dela parecia
uma torre e há muito não deixava que ninguém lhe tocasse.
Durou horas, mas para incómodo das inquisidoras os acusados não reconheceram
culpa. Ameaças, o medo do escândalo, as promessas de castigo nos infernos deste
mundo
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e do outro, nada os fez demover. Não tinham feito mal nenhum. Pronto, acabou-se!
Ernestina conta que nessa altura eram ambos ainda tão castos que nunca tinham
trocado um beijo, nem um abraço, e como nenhum deles gostava de dança não sabiam
sequer que impressão dava o rodopiar num baile apertados um contra o outro.
A desconfiança das mães era sem fundamento e a certa altura elas talvez se
tenham mesmo convencido de que ambos diziam a verdade. Mas o susto tinha sido
grande demais, além de que não achavam explicação para as agonias que
continuavam a afligir a rapariga.
O melhor era não estar com demoras nem panos quentes: Afonso esquecia a
rebeldia, despachava-se a compor os canos da rega, assim que estivesse pronto
ia a Castelo Branco falar ao padre Bernardino para que preparasse os banhos.
E de lá para Mogadouro, a arranjar os papéis no Registo Civil.
Como andavam de luto pesado a boda ia ser sem festa, e de enxoval também não
precisavam, porque fora o passarem a dormir na mesma cama, na vida dos noivos
nada ia mudar. A maior demora seria a de mandar fazer um fato preto para ele,
e para ela uma roupinha jeitosa, com saia e casaco de fazenda e blusa de seda.
Afonso voltou a casa noite fechada atordoado peia expedição, que em Castelo
Branco lhe correra pior do que tinha esperado. O padre Bernardino, cura velho
que sabia fazer render os emolumentos e vendia trintários, indulgências e
outras remissões de pecado com um afã de lojista, andara anos a missionar pelas
colónias.
Por lá, além de arrecadar bom pecúlio, tinha-se-lhe apurado em extremo a
arrogância do carácter e habituara-se
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a tratar os paroquianos, sobretudo aqueles com pouco de seu, como se fossem
bichos do mato.
Por isso na vizinhança ninguém estranhava o seu modo de desatar aos gritos
cada vez que alguém lhe batia à porta. Mas desta vez a razão da sua ira era
que, ao abrir, reconhecera o fedelho que, depois do enterro do Sapateiro, se
atrevera a ir criticá-lo e dizer-lhe que tinha sido uma falta de respeito o
ele celebrar a missa de corpo presente com as esporas presas às botas.
Nessa ocasião alguém tinha empurrado o rapaz para fora da sacristia antes de
o poder corrigir com um par de tabefes, e agora estava Sua Senhoria ali, de
chapéu na mão, a pedir que lhe fizesse o favor de preparar os banhos do casório.
Ah! Mas a coisa não ia ser tão simples como o pateta julgava. E ia pagar.
Dobrado, para aprender o que era respeito. Quantos anos tens, ó tu? Vais fazer
vinte em Junho? Dobrado também, por ser menor. E sois primos carnais?
Redobrado, porque isso era questão para decidir em Roma e a dispensa tinha
de vir com os selos do Santo Padre. Havia urgência? Era para casarem já no
Janeiro? Triplicava tudo. Dentro de duas ou três semanas o sacristão lhe diria
quanto era, e tivesse a massaroca pronta, porque se os prazos caíssem teria
de pagar tudo outra vez. E agora que desandasse.
Quando o sacristão lhes veio com a notícia ficaram como fulminados, não podiam
acreditar. Setecentos mil réis! Ó ti Manuel, vossemecê ouviu bem? O padre não
terá dito sete?
A dúvida era compreensível, porque com setecentos mil réis compravam-se duas
juntas de bois ou uma boa casa, era dinheiro que na aldeia quase ninguém
conseguia arrecadar ao fim de uma vida inteira de mourejo.
Vender algumas terras era recurso em que nem sequer pensavam, além de que a
lei o proibia enquanto entre mãe e filha não tivesse sido feita a partilha
da herança. Mas em
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herança e partilhas ainda não se tinha falado — e durante muitos anos nunca
se falaria assunto que evitavam para não criar desavenças. Também é verdade
que, como afirmara floreadamente o Sapateiro no dia em que tinham discutido
o noivado, ambos eram filhos únicos, daí que «todas as batatas se cozeriam
sempre numa só panela.»
Mas setecentos mil réis! Pedir emprestado estava-lhes tão fora dos costumes
que nem se perguntaram se seria uma possibilidade; e foi José Maria, a quem
tinham informado pelo telégrafo, que mandou carta com a solução. Radical. Não
se pagava nada ao padre, nem ao bispo, nem a ninguém. Um raio partisse essa
cambada de ladrões, inimigos de Deus e do próximo. Se o casamento se tinha
de fazer depressa passavam-se da igreja. O rapaz que voltasse ao Registo para
marcar a data para daí a quinze dias e ele se encarregaria de chegar à aldeia
a tempo e horas.
Aos noivos aquilo pouca perturbação causou, porque eram decisões de que só
vagamente compreendiam o alcance; mas as irmãs choraram com a leitura da carta.
Ia ser uma vergonha! Casamento que não fosse abençoado no altar não era
casamento de verdade, era mancebia, uma mancha que ficaria para sempre. O padre
nunca mais os deixaria entrar na igreja, não lhes daria os sacramentos, não
lhes baptizaria os filhos nem os assistiria na hora da morte, era até capaz
de não os deixar enterrar em campo-santo.
Elisa disse que não suportava a desgraça. Fossem-se os anéis e ficassem os
dedos. A lei proibia que vendesse? Que lhe importava a lei? Se se achasse
comprador, os olivais que o Sapateiro plantara no vale dos Cerejais, mais a
horta e as duas terras maiores da serra de Lagoaça, eram capazes de valer
quinhentos ou seiscentos mil réis. Para o resto venderia os cordões de ouro
e a corrente de relógio do falecido.
A irmã discordou. Por lhe parecer errado, mas também por saber que José Maria,
com o feitio que tinha e a autoridade
116
de chefe de família, não ia aceitar que se lhe desobedecesse.
Finalmente, cansadas de chorar e lastimar, decidiram que Afonso fosse a
Mogadouro e marcasse o casamento para o dia vinte. Só que ao entrar na vila
o rapaz, em vez de ir ao Registo Civil foi primeiro à taberna, e quando de
lá saiu, tarde e más horas, a repartição estava a fechar. Ainda o atenderam
porque o chefe lhe conhecia o pai, mas com o susto e o vinho fez-se-lhe tal
confusão na cabeça que não conseguia lembrar a data que tinham apalavrado em
casa e o funcionário, impaciente, escreveu por extenso no fim da folha «vinte
e dois de Janeiro de mil novecentos e vinte e nove», colou o selo fiscal,
perguntou-lhe se sabia escrever e mandou que assinasse por cima.
Porque basta uma palavra apanhada no ar, um sussurro ouvido atrás duma porta,
uma resposta evasiva, e as novidades correm mais rápidas do que as labaredas
em seara seca, na aldeia estavam todos ao corrente.
Tinha sido um choque e ninguém se regozijava de que os noivos fossem casar-se
só pelo Civil, pois era coisa que nunca ali tinha acontecido, uma espécie de
condenação perpétua, pena tão severa que nem aos piores inimigos se desejava.
Na manhã de vinte e dois o vento frio cortava através dos xailes e dos agasalhos,
e começara a nevar, mas não era por isso que a rua estava deserta quando montaram
nas bestas e se puseram a caminho. É que conforto ninguém lhes poderia dar,
parabéns também não. Por dó, para que não se sentissem enxovalhados, fechara-se
cada um em sua casa.
O mesmo se deu quando regressaram. O único sinal de gente era o fumo das
chaminés, mas não encontraram vivalma, e num grande silêncio a neve continuava
a cair, uma forma de mortalha. Era como se nada tivesse acontecido.
117
A mim nunca mo disseram, porque por ser filho talvez se acanhassem da
confidência, mas duma vez que estavam à mesa com amigos, e me julgavam perdido
nos livros, ouvi-os recordar, fungando de riso, que não tinham tido noite de
núpcias. Com a atrapalhação dos preparos ninguém se lembrara de lhes fazer
cama junta e — realmente, como se nada tivesse acontecido — acabada a ceia
fora cada um para o seu quarto.
Promovido a homem casado, e com aviso do pai para que levasse a sério o cuidado
das terras, caso contrário ele lhe pediria contas, Afonso de bom ou mau grado
lá se sujeitou a aguentar aquele modo de vida para que nada o talhara. Lavrador
de verdade nunca o chegaria a ser, e o que então aprendeu da lida dos campos,
qualquer garoto da aldeia o fazia melhor por intuição. À taberna continuou
a ir, mas embora os parceiros o julgassem mais sombrio desde que se tinha
casado, também notaram que a não ser no domingo de Páscoa nunca mais voltara
a embebedar-se.
Alegria grande só lhe conheciam uma, a que ressentia nos dias em que o correio
trazia os maços de jornais ou os livros que, para o confortar, o pai de vez
em quando lhe mandava. Aí esquecia tudo. Metia-se num canto a ler, até que
a mãe ou a tia apareciam a repreendê-lo e a lembrar-lhe que numa casa de lavoura
a vida não consentia folgas nem vadiagens.
Reconstruo a história desses meses com a ajuda de ninharias: uma frase solta,
um dichote, um desabafo aparentemente
118
sem sentido, mas que depois se revela prenhe das recriminações que duram a
vida inteira. Casados eram-no no papel e aos olhos do mundo, e finalmente
dormiam na mesma cama, mas na realidade continuavam a ser as duas crianças
que se sentiam irmão e irmã. O matrimónio a que os tinham obrigado causava-lhes
mais transtorno do que gosto, atracção nenhum deles sentia, e por regra
espontaneamente estabelecida, o primeiro a ir para a cama dormia já quando
o outro se deitava.
As mães espiavam-lhes o modo, os olhares, os barulhos no quarto. Julgando
talvez que o faziam discretamente, de longe a longe aludiam com rodeios às
obrigações, lembravam-lhes que esta ou aquela já tinha parido, que uma outra
andava de barriga cheia.
«Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura.» No princípio tinham feito
de desentendidos, mas sobrava-lhes a vergonha, e argumentos para explicar
nenhum deles conhecia. Assim, sem outro modo para se defenderem da acusação
— porque acusação era e, mesmo velada, terrível de força — caíram ambos doentes.
No mesmo dia. Ele com uma febre alta, que parecia das maleitas. Ela dum momento
para o outro pálida como cera, olheiras fundas, a face cavada, tomada dumas
ânsias que a agoniavam como se a alma se lhe quisesse despedir do corpo.
O médico veio, receitou, disse que se dali a uma semana não tivessem arribado
o mandassem chamar de novo; mas à cautela que os separassem, não fosse o caso
de terem doença que se pegasse. E lá foi Ernestina mais uma vez para o seu
quarto de criança na casa materna, enquanto Afonso ficava entregue aos cuidados
da mãe.
A semana passou sem mudança nem melhoras e o médico voltou, receitou-lhes
injecções sem dizer do que sofriam, mandou que tivessem paciência porque podia
ser que tivessem de ir para o hospital.
119
Claro que a inexplicável moléstia dos filhos fazia com que as duas irmãs se
arrepelassem os cabelos, mas preocupação igual — não se atreveriam a dizer
maior, mas com certeza o pensavam — lhes causava o abandono das terras. Com
a Primavera a correr as searas precisavam de ser lavradas e adubadas, as árvores
estavam à espera de poda, tinha de se fazer a monda da horta, alguém teria
de levar as mulas ao ferrador, mil coisas a que elas sem ajuda não podiam dar
vazão.
A doença do rapaz era uma calamidade, porque poucos homens iam à jeira, e desses
poucos a maioria não passava duma cambada de madraços que queriam paga, vinho,
boa merenda, mas deixavam o trabalho mal feito ou por acabar.
E o Serafim? — Maria dos Santos sugerira o nome sem razão especial, talvez
porque dias atrás ele lhe tinha perguntado se lhe comprava uma saca de carvão
de lenha para o ferro de passar. O Serafim Sanço? — Elisa encolheu os ombros.
Trabalhador era ele e ainda se lembrava da pena que o Sapateiro tinha tido
por o rapaz não mostrar inclinação para aprender o ofício. Podia-se-lhe falar,
a ver o que dava, mas fazer carvão rendia melhor soldada.
Para surpresa de ambas o Serafim aceitou, justaram a paga sem muito discutir,
e como havia pressa começou logo no dia seguinte.
Um boi de trabalho. Não era preciso dar-lhe ordens nem lembrar-lhe tarefas,
porque acudia a tudo e, como se quisesse igualar o falecido patrão, saía de
manhã cedo, voltava ao sol-pôr.
Não tardou a que se murmurasse que, com aquele modo, dava mais a impressão
de fazer lavoura sua do que de andar
120
por conta alheia, ao que as más-línguas acrescentavam que mesmo com a diferença
das idades, ele nos trinta, ela com quarenta, o mais provável seria andar de
olho feito na viúva, pois com o que tinha de seu era bom partido.
As aparências pareciam confirmar a suspeita, tanto mais que se sabia que quase
desde o princípio as irmãs lhe davam também a ceia. A verdade, porém, era que
elas, tomando em conta que um homem que vivia sozinho, e chegava derreado do
trabalho, pouca vontade teria de se pôr a cozinhar, lhe tinham dito que comessem
juntos.
Companhia raramente lhes fazia, porque por natureza falava só o preciso, mas
carinhoso era e, dadas as graças, combinada a tarefa do dia seguinte, ia
sentar-se uns instantes junto de Ernestina.
A fingir de severo dizia-lhe para não ser preguiçosa, porque precisava da ajuda
dela, queria vê-la arribar. Depois ia à outra casa, fazendo o mesmo com o rapaz,
acrescentando, para animá-lo, que assim que estivesse bom lhe havia de ensinar
como se lavrava nas ladeiras, de modo que não lhe voltasse a acontecer o que
fizera novos e velhos rir à gargalhada, mas que também podia ter sido a sua
morte.
Fora antes do Natal e Afonso nunca esqueceria o vexame nem o susto. A encosta
do Buraco era quase a pique e lavrá-la obrigava a andar o dia inteiro com uma
perna encolhida para compensar o desnível, ao passo que as mulas caminhavam
bom meio metro uma acima da outra, irrequietas porque o jugo entortado lhes
magoava o cachaço.
O arado tinha de se segurar às mãos ambas, pois doutro modo escorregava em
vez de se enterrar no solo pedregoso; um trabalho que pedia força, jeito,
atenção sem falha, e que mesmo aos lavradores experientes custava a fazer.
É certo que o tinham avisado e ele aos primeiros sulcos compreendeu a
dificuldade e o risco, mas distraído, ou por
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que tivesse aparelhado mal os animais, o certo é que num momento em que quis
tirar o lenço do bolso, o arado não somente se lhe escapou como lhe deu uma
pancada tão violenta que o atirou a rebolar ladeira abaixo.
As mulas, assustadas, tinham-se despenhado atrás dele, arrastando consigo o
arado que, quebrada a corda que o prendia aos atafais, passou aos trambolhões
e por um triz lhe ia abrindo a cabeça.
Acudiram-lhe os filhos do Artilheiro, que andavam perto e o tinham visto cair;
mas quando se deram conta de que só tinha uns arranhões, em lugar de confortá-lo
começaram a troçar, nem sequer o ajudaram a desenvencilhar as mulas que,
estateladas no chão e presas ainda uma à outra, não paravam de escoucear.
Ernestina melhorou primeiro e poucos dias depois Afonso também já saía à rua,
mas enfraquecido, capaz de pouco mais que de se arrastar com passos de inválido
de casa para a rua.
A inactividade da doença, contudo, para alguma coisa lhe servira, pois desta
vez o seu propósito estava firmado: do amanho das terras cuidasse o Serafim,
que era competente; ele esperaria até à festa, dois meses e pico e, com o
consentimento dos pais ou sem ele, pegava na mulher e abalavam para a cidade.
Casa não tinham, meios de vida também não, mas ficar ali mais tempo que o preciso
para se restabelecer seria, sentia-o ele nas entranhas, o mesmo que condenar-se
à morte.
As duas irmãs também eram de opinião que com o serviçal as terras andavam quase
tão bem cuidadas como no tempo do Sapateiro, e que Afonso, amoldado à vida
da cidade, nunca chegaria a ser lavrador de préstimo. Sobre o assunto
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só viriam a conversar quando José Maria voltasse à aldeia, mas entretanto,
apenas com vagas alusões de vez em quando, parecia a todos coisa assente.
Não que os problemas desaparecessem ou se tornassem menores. Onde ia o rapaz
conseguir trabalho? Como é que Elisa podia continuar a ter um homem de portas
adentro sem que as más línguas começassem os murmúrios?
Tudo isso se arranjaria conforme a vontade de Deus Pai, Criador do Céu e da
Terra, mas Deus com certeza mal se apercebia das suas penas, porque desde o
casamento não tinham voltado a assistir à missa, receosas de que devido a os
filhos viverem em mancebia o padre as mandasse pôr fora da igreja.
Iam às vezes pelo escuro rezar uma novena junto do altar da Virgem, mas
sobretudo Elisa sentia falta da comunhão. Torturavam-na as badaladas do sino
aos domingos e quase enlouquecia ao ouvir as passadas dos que se encaminhavam
para a Casa do Senhor, donde se julgava para sempre excluída.
Afonso, juvenilmente ateu e distraído das coisas da religião, desde a cena
em Castelo Branco nunca mais voltara a pensar no padre; só no dia em que a
tinha surpreendido em lágrimas, e ao perguntar-lhe a razão, é que atentou no
sofrimento da tia. Pediu-lhe que não chorasse, pois quando estivesse bom de
todo se encarregaria do caso.
Meu dito, meu feito, não tardou a que lhes anunciasse que quando quisessem
podiam voltar todas três à missa, porque o padre não faria barafunda nem lhes
negaria a comunhão.
O que ele lhes escondeu foi que uma tarde se tinha metido a pé para Castelo
Branco e, chegado à porta do sacerdote, mandou recado pela criada de que lhe
queria falar.
Ao descobri-lo o padre Bernardino tinha arregalado os olhos de fúria, mas o
rapaz não lhe deu tempo a mais e,
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displicentemente, mostrou o varapau que levava. Que saísse para a rua, porque
queria ter com ele dois dedos de conversa.
Atemorizado, o cura obedeceu, e o rapaz, baixando a voz para que os vizinhos
que tinham assomado não ouvissem, tratou-o de filho da puta, avisou-o de que
a mãe, a tia e a mulher passavam a ir à missa quando lhes desse na real gana,
e se ele se atrevesse a enxovalhá-las, ou a dizer qualquer palavra que lhe
não caísse no goto, podia ter por garantido que no dia seguinte lhe quebrava
os cornos com aquele varapau e no resto do corpo também lhe não ficaria osso
inteiro.
Chegou a festa. Nessa noite os meus progenitores devem finalmente ter posto
de lado as inibições de que tinham sofrido, e a esperança de daí a pouco irem
mudar de vida também terá ajudado. O mais certo é que a euforia, e os copos
de licor que era costume beber para festejar o santo e aliviar o peso dos
comeres, lhes tenham feito esquecer a aberração do incesto. Assim, como do
10 de Agosto em que se celebra a festa em Estevais ao 15 de Maio em que nasci
em Vila Nova de Gaia vão, mais dia menos dia, os nove meses da regra, a
probabilidade é grande que me tenham gerado no arraial de São Lourenço de 1929.
Aleluia!
A rapariga grávida era um júbilo. O rapaz, desempregado e quase a ser pai,
um problema que, no começo daquele ano de grande crise por toda a parte, parecia
insolúvel.
Os primeiros meses tinham passado céleres, ambos contentes de se verem livres
da prisão que a aldeia lhes tinha sido, mas em circunstâncias assim a alegria
acaba sempre por ser afogada pelos cuidados. E cuidados tinham-nos todos, cada
um à sua maneira: os pais temerosos do que prenunciariam
124
as nuvens negras que lhes ensombravam o pensamento; o casal amargurado com
a vida de dependência a que tinha de se sujeitar.
Faltas não conheciam. Com o ordenado do velho, os mantimentos que lhes vinham
da aldeia e a poupança estrita de Maria dos Santos, viviam quase em abastança.
Mas que seria o amanhã? Que futuro ia ter o neto se não se lhe pudesse dar
a educação devida, ou se o pai ou o avô de repente lhe faltassem?
Que o fruto do ventre de Ernestina ia ser rapaz, era certeza que de tanto a
terem sonhado não lhes parecia absurda, além de que Deus os havia de recompensar
da dor que tinham tido com a morte do primogénito. E agora, mais de meio caminho
andado na gravidez, quando olhavam para a barriga que desequilibrava o corpo
franzino da rapariga, concluíam enternecidos que um vulto daquele tamanho só
podia ser macho.
Às noites conversavam, esperançavam-se com sugestões, com manejos, só que na
prática nada dava certo. Afonso ia aqui, ia ali, mas as portas fechavam-se-lhe
na cara, algumas desculpas bem intencionadas feriam-no mais que as negativas
brutas, e por fim, desesperado, em vez de procurar trabalho vadiava pelas ruas.
Caiu de novo na melancolia, recomeçou a embebedar-se, raro era o dia em que
não zaragateasse. Se não aparecia à hora da ceia o pai ia procurá-lo à taberna,
pagava a despesa, e sem ralhos nem censuras amparava-o de volta a casa.
Mas um martírio assim não podia durar e José Maria, que, fiel ao seu carácter
e avesso ao servilismo, até então sempre recusara pedir favores, decidiu falar
a um homem de influência, o senhor Valente, seu senhorio.
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Mais tarde, se houver ocasião de contar o medo que me metia, teremos dele um
retrato de corpo inteiro. Por agora basta o apontamento: era rico, importante,
dono e senhor da estiva do rio Douro, onde não se carregava nem descarregava
vapor, lugre ou fragata sem licença sua e o pagamento que ele ditasse. Nos
cais tinha uma quadrilha de mariolas encarregados de manter a disciplina e
que, dizia-se à boca pequena, não hesitavam em atirar os descontentes borda
fora, às vezes com uma pedra atada ao pescoço.
Para José Maria, o senhor Valente era o tipo acabado do gangster; para o senhor
Valente, o chefe José Maria um funcionário incómodo, cumpridor da lei e
refractário à corrupção. De modo que as relações entre ambos não podiam ser
cordiais, e contudo existia entre eles uma forma de respeito mútuo, nascida
talvez do facto de saberem que, cada um à sua maneira, eram homens de uma só
palavra e uma só cara.
Por outro lado as aparências têm de se guardar e como eles, além de senhorio
e inquilino, eram também vizinhos havia dezenas de anos, com filhos que tinham
crescido juntos, quando por acaso se cruzavam na rua tiravam o chapéu e, muito
de longe a longe, paravam para um dedo de conversa.
Uma coisa que José Maria nunca conseguira aclarar fora a amizade entre o seu
primogénito e o senhor Valente, tanto mais que em questões de respeito pela
lei o filho igualara o pai. Talvez fosse melhor não saber os porquês. Certo
é que no enterro do rapaz a coroa maior tinha sido a do senhorio, e os que
conheciam a dureza de alma do «Rei do rio», como às escondidas lhe chamavam,
tinham ficado de boca aberta ao vê-lo chorar.
Encontraram-se uma manhã no escritório do senhorio no cais da Ribeira, onde
os seus armazéns, escondidos atrás dos
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arcos de pedra, desapareciam subterrâneos nos esconsos medievais da cidade.
Dizia-se que estavam ligados entre si por meio de longos túneis, e que não
serviam apenas para guardar carvão, sal, e outras mercadorias, mas que toda
uma populaça de ladrões enterrava lá os seus roubos e desaparecia neles sem
rasto quando lhes cheirava a polícia.
À noite, em casa» José Maria tinha-se feito actor, assumindo ambos os papéis
para melhor repetir a conversa:
Sente-se, José Maria. Esteja à sua vontade. Então o que é que o traz por cá?
E o meu rapaz. Tem-se remexido tudo e não há meio de lhe arranjarmos emprego.
Os tempos vão maus.
É verdade, mas o coitado daqui a uns meses vai ser pai e tem de tratar da vida.
Desculpe que lho diga, José Maria, mas a culpa é sua.
Minha?
Sim senhor. Sua. Se não fosse o desgraçado orgulho que você tem, vinha falar
comigo logo no princípio. Estava o caso arrumado e tinha o rapaz a ganhar desde
que saiu da tropa. Bem sei o que contam por aí, mas olhe que não sou tão mau
como isso. Vá em paz, que eu me encarrego do caso e daqui a uns dias lhe darei
notícias.
A mulher e a sobrinha mal podiam acreditar, e José Maria apontara o relógio
da parede para indicar, com um gesto teatral, que do começo ao fim a conversa
não durara um quarto de hora.
O encontro fora na quinta-feira. No sábado, homem de palavra, o senhor Valente
mandou dizer que tinha falado ao director da Cadeia da Relação, íntimo seu
e homem poderoso dentro e fora da cidade. Que no primeiro do mês Afonso se
fosse apresentar com a caderneta militar no quartel da Guarda.
127
Era facto, os concursos estavam suspensos havia tempos, mas tinha-se dado um
jeito e podiam dormir descansados, que o rapaz seria alistado no mesmo dia.
Não fizeram festa, mas foi um alívio. Funcionário! Para os pais o sonho que
não tinham ousado sonhar, e o consolo de saberem o filho mais bem protegido
contra os reveses que fatalmente sofreria na vida se tivesse de servir um
patrão.
Alívio era-lhes também a certeza de que daí em diante, mesmo quando viessem
a falecer, à Ernestina e ao neto nada iria faltar. Continuariam a viver todos
na mesma casa, que era ampla bastante; e com dois ordenados, o rendimento das
terras, as economias a vencer juro na Caixa, podiam olhar o futuro com desafogo.
6
As dores começaram ao entardecer do dia catorze, repentinas e tão violentas
que os gritos da rapariga alarmaram a vizinhança que encheu a casa, os homens
discretamente parados na cozinha, as mulheres no quarto da pobre, aos ais e
com palpites de desgraça, dizendo que pela pouca idade, e por ter a bacia
apertada, o parto era capaz de lhe correr mal.
À cautela mandaram chamar a parteira, mas os prestimosos que se ofereceram
para o recado não tinham compreendido bem e, talvez devido a terem falado com
pessoas diferentes, regressaram sem se entender: para um estava de turno no
hospital, outro ouvira dizer que tinha ido de visita à terra, o terceiro que
nada disso, não senhor, ela vivia agora amigada com um sujeito, mas ninguém
sabia onde.
Ernestina parecia chegada às últimas, num sofrimento que metia medo e, como
melhor é fazer que mandar, José Maria disse ao filho que se aprontasse e saíram
eles próprios em busca da parteira.
Andaram pela vizinhança e pela cidade, perguntaram a gente que a conhecia,
foram aos prontos-socorros, procuraram no hospital.
130
Em vão. Já madrugada voltaram à casa da mulher e ela abriu, desarranjada, caída
de bêbeda. Ao vê-la naquele estado iam voltar-lhe as costas, mas ela agarrou-os
pela manga e, as palavras engrolando-se-lhe na boca, disse que podiam ficar
descansados. A Ernestina com certeza estava com muitas dores, mas não havia
perigo, era por ser novinha, por ser apertada. Ainda tinha pensado em passar
por lá, só que a ceia lhe caído mal, e a ver se desengrossava o estômago bebera
uma pinguita a mais. Mas de manhã estaria fina e pronta para o serviço. Fossem
em paz.
O dia anunciava-se quente, mas a meio da manhã já não era questão de calor,
sim de verdadeiro fogo, como se dum momento para o outro o chão da rua e as
paredes das casas pudessem começar a arder.
A parteira tinha chegado a horas, mas feitos os seus exames ficara a torcer
as mãos, murmurando palavras incompreensíveis, até que por fim, perdendo a
compostura, gritou que fosse alguém a correr chamar o doutor, porque a criança
estava atravessada. Ela não a podia tirar e se não se lhe acudisse depressa
era capaz de se enforcar ao nascer e ao mesmo tempo matar a mãe.
Foi um alvoroço. Ambos os homens tinham saído cedo para o serviço, ali só havia
as vizinhas que, em pânico, não sabiam para que banda se voltar. Como o médico
vivia longe, no Candal, a mais expedita correu para a beira-rio a avisar o
chefe José Maria, que àquela hora ainda não teria começado a fazer a ronda
dos cais.
Por felicidade encontrou-o logo, deu-lhe a má notícia, e o senhor Artur, que
tinha o camião ali perto a descarregar umas pipas, prontificou-se a levá-lo
ao Candal.
Por má sorte o doutor Pereira não estava, e deixaram-lhe o recado para quando
voltasse das visitas.
131
Os outros médicos que procuraram não os atenderam, alguns respondendo com mau
modo que levassem a mulher para o hospital, porque lá é que se acudia às
urgências.
O doutor Pereira apareceu a seguir do almoço. Entrado em anos e curtido por
uma vida inteira a testemunhar sofrimentos e aflições, pouco haveria capaz
de lhe fazer perder a calma. Sentou-se na cozinha a descansar e a perguntar
o que se tinha passado, bebeu um copo de vinho «para animar» e só depois entrou
no quarto onde Ernestina continuava aos berros.
Apalpou, examinou, disse que a coisa estava bicuda, mas ainda se lhe dava um
jeito. Trouxessem uma bacia grande, uma panela de água fervida e umas quantas
toalhas e lençóis, porque o quarto ia ficar pior que um matadouro. Mandassem
também chamar um táxi para a levar para o hospital no caso de haver
complicações. E agora saíssem todos dali, menos a parteira, e pusessem-se a
rezar.
De tê-lo ouvido vezes sem conta, já na infância me custava a suportar o relato
do parto, tanto mais que as descrições sangrentas vinham infalivelmente
acompanhadas de detalhes que eu preferiria ignorar.
Atravessado no útero, quatro quilos de peso, nascido no meio duma barulheira
em que aos urros da parturiente se misturavam o vozear do médico e os gritos
da comadre, a sangria tinha sido de tal ordem que anos depois ainda de vez
em quando se descobriam manchas na parede ou nos móveis. E lá vinham de novo
as peripécias, com o médico e a parteira embrulhados em lençóis sangrentos,
eu a chorar as minhas primeiras lágrimas encafuado numa toalha, o doutor
Pereira anunciando que Ernestina nunca mais poderia ter filhos, pois eu «lhe
tinha dado cabo do útero.»
132
Penosa tinha sido também a atitude do jovem pai, que nessa manhã pedira licença
do serviço, mas que ninguém conseguira descobrir para o alegrar com o bom
sucesso.
Quando tarde e mal chegou a casa, tonto do vinho e descrente de que o parto
já tivesse acontecido, recusou-se a pegar naquele embrulho de carne que chorava
e à viva força lhe queriam pôr nos braços.
Para os avós, passado o susto tudo era deleite, e com as expressões entusiastas
de quem anuncia um triunfo, no mesmo dia telegrafaram a Elisa. Veio telegrama
de volta a perguntar se era menino ou menina, porque eles, com a obsessão antiga
de que neto seu só podia ser macho, se tinham esquecido de mencionar o sexo
da criança.
No dia seguinte ao do nascimento foram o pai e o avô fazer o registo. O primeiro
perguntando se em silêncio porque razão tinha de ir acompanhado para diligência
tão simples.
A sua curiosidade, porém, não tardou a ser satisfeita, pois quando ambos se
aproximaram do guichet e o funcionário quis saber o nome do recém-nascido,
Afonso foi literalmente empurrado pelo próprio pai, que respondeu que o menino
se chamaria José Avelino.
E assim eu, que por desejo dos meus progenitores deveria ter sido crismado
António para honrar a memória do avô Sapateiro, recebi autoritariamente o nome
do tio falecido na força da vida, o qual, fora a inteligência, se tinha
sobretudo distinguido por realizar o sonho de cada galaroz, mantendo em casa
um verdadeiro harém.
À primeira vista, com o pai a impor bruscamente o seu desejo, a cena pode parecer
apenas um abuso do poder;
133
e o facto de o filho se vergar sem oposição poderá tomar-se como um sinal de
cobardia. A verdade é que, devido às circunstâncias que tinham levado ao
matrimónio e às tensões criadas em torno dele, a situação no seio da família
estava longe de ser regular ou livre de obstáculos. Embora casados, Afonso
e Ernestina continuavam na dependência em que tinham vivido desde crianças;
e o meu nascimento, em vez de contribuir para que se libertassem, antes iria
reforçar a sua submissão. Mas dificilmente poderia ser doutro modo. Com o filho
desinteressado da paternidade e a filha — nunca eles se lhe referiram como
sobrinha ou nora de novo em perigo de vida, a ponto de logo a seguir ao parto
ter de ser internada no hospital, os velhos, mesmo que o não tivessem desejado,
viram-se obrigados a acumular o papel de pais com o de avós.
Sem mãe que me desse o seio, a avó Maria dos Santos tinha alarmado a vizinhança
e a notícia fora de boca em boca, até de Valbom apareceram mulheres a oferecer
o seu leite, aflitas por me julgarem sem sustento. De longe ou vizinhas, novas
umas, outras já passadas das primícias, pobretanas, burguesas, as mulheres
da vida que moravam na viela atrás do largo da nossa casa, todas elas me deram
o peito com generosidade, eu em todas mamei sem discriminação nem choro.
Rigorosa em questões de higiene, minha avó lavava-lhes ela própria os seios
com água e sabão, e juntavam-se as vizinhas a admirar a gula com que eu me
empanturrava, indiferente à forma, ao volume ou ao sabor da mama que me punham
na boca.
Três meses assim. As mulheres estranhas dando-me o sustento, a avó encarregue
dos cuidados maternais, o avô José Maria a visitar a doente no hospital duas
vezes ao dia, o meu pai desaparecendo em noitadas misteriosas.
134
Ernestina voltou a casa quase tão mal como tinha saído, porque os médicos não
atinavam com a causa da doença. Depois de a submeterem a tratamentos que mais
tarde eu a ouviria comparar a verdadeiras torturas — fechada numa cabine,
bombardeavam-lhe longamente o corpo com jactos de água fria — e de lhe
receitarem pílulas que a entonteciam, tinham-lhe de súbito dado alta, dizendo
que repousasse até se sentir melhor.
Fraca, só pele e osso, mal podendo comigo ao colo e ainda sem leite para me
dar, nesses primeiros meses foi mãe como que por procuração e deve-lhe ter
doído ver como eu, com instinto animal, fugia do seu peito seco para me agarrar
às tetas bojudas das mulheres que me tinham adoptado.
Foi um tempo doloroso, enervante, em que diariamente pequenos nadas se
transformavam em desavenças. Como por exemplo o berço que os meus pais tinham
comprado. Os avôs traumatizados em tudo viam perigos, e desculpando-se com
o facto de que o filho entrava e saía do serviço a horas irregulares, em vez
de me deixarem dormir no berço, onde temiam que eu acabasse por morrer
asfixiado, deitavam-me na cama entre si, tendo sempre à mão, para as
emergências nocturnas, dois ou três biberões cheios com o leite das minhas
amas.
Estou sentado no berço de cara voltada para a sala e seguro na mão esquerda
o tronco da boneca que acabo de espatifar, enquanto com a outra abano o gradeado
de madeira. À minha volta, causando-me um sentimento que oscila entre o
desagrado e a irritação, está espalhado o resto: braços, pernas, cabeça, roupa,
o elástico branco que quebrei por curiosidade e sem custo. Levanto os olhos
para ver lá no alto os rostos dos meus avós, que riem da minha agitação.
135
Tenho sentimentos, mas falta-me ainda o uso da palavra, e furioso por não saber
como recompor o que estraguei começo a chorar.
Essa recordação, que suponho seja a primeira que guardei de modo consciente,
é muito vívida; mas se bem que eu esteja seguro dos detalhes, ela encerra
aspectos que lhe emprestam certo mistério. Porque a memória relatada acima
se torna inverosímil se se sabe que eu teria uns nove meses quando, contra
a vontade do avô, minha mãe me deu a boneca. Para ela, talvez, a satisfação
inconsciente do desejo de possuir o que nunca tinha tido. Para o avô, porém,
aquilo era uma mariquice peçonhenta para a virilidade do neto. Que eu no mesmo
dia a tenha destruído pareceu-lhe bom sinal.
Mais inquietante do que a precocidade — pelo menos para o repouso do meu
espírito — é o facto de que desse mesmo instante possuo, não uma, mas duas
recordações claras, idênticas no conteúdo, e contudo divergentes no que se
refere ao ponto de vista físico da observação. Numa sou o bebé, tal como
descrito atrás. Na outra sou uma presença imaterial ao lado dos meus avós e,
como eles, observo aquele ser que se agita, chora, abana a grade, mas de quem
estranhamente partilho as emoções.
Entre essa recordação e as seguintes, fortemente visuais, há um hiato de quase
três anos. Nelas, curiosamente, não distingo ainda as feições dos meus
familiares nem o interior da casa, mas estou sentado ao colo do avô José Maria,
defronte da janela da cozinha, o seu lugar à mesa e poiso favorito. Num encanto
que permanecerá, maravilho-me com o panorama do rio e da cidade.
Nem a baía de Guanabara, nem Nova Iorque vista de avião ao anoitecer, nenhum
Paris, nenhuma Roma, a Amazónia, as Pirâmides, o deserto, nada disso que viria
depois
136
e é grandioso, me deixou uma impressão tão viva e duradoura como a da paisagem
que se avistava das janelas da casa em que nasci.
Mais tarde dei-me conta de que a razão profunda do meu fascínio não era tanto
a inegável beleza da vista, mas o facto de dali, como defronte dum gigantesco
ecrã tridimensional, poder testemunhar do burburinho de mil vidas.
Para oriente, os meus olhos alcançavam até ao longe dos altos de Campanhã,
as Fontainhas e, espreitando por entre o arco da ponte, as entradas dos dois
túneis do caminho de ferro. Na linha superior era um constante passar de
comboios. Na outra, muitos metros abaixo, apenas de vez em quando aparecia
uma locomotiva a puxar lentamente vagões de mercadorias que desapareciam sob
a cidade, a caminho do cais da Alfândega.
Na ponte de cima era o vaivém de eléctricos amarelos, camionetas de carreira,
camiões, automóveis, grupos de gente.
Sem eléctricos e de curvas apertadas a cada extremo, a ponte de baixo era mais
sossegada, com o seu trânsito de carrejões, vareiras, leiteiras e padeiras,
carvoeiros, carros de bois. De longe a longe um camião com pipas, um táxi com
pressa, mas buzinar não adiantava, porque quem ia pesado de carregos caminhava
pelo meio do tabuleiro, sem ceder um palmo.
Eu via os carros, via as trouxas. Via mais longe as mulheres da carqueja,
curvadas sob molhos incríveis, subindo dos barcos «rabelos» para o cais e,
Calçada da Corticeira acima, aos rodeios, com uma lentidão e persistência de
insectos. A Calçada da Corticeira, ruim de subir, ruim de descer, tão íngreme
que parecia um traço quase vertical na encosta.
Nos Guindais a muralha ligava-se por degraus ao rio e aí atracavam às dezenas
«rabelos» e «valboeiros», os homens
137
do leme correndo descalços sobre a gaiola, os outros atentos ao manejar dos
remos e do cordame das velas, na manobra perigosa em que simultaneamente tinham
de lutar contra as forças contrárias do vento e da água.
Por vezes acontecia ser o barco apanhado num redemoinho. Ouviam-se gritos.
Pessoas corriam pela ponte e pelos cais, pressentindo a tragédia, desatinadas
por não poderem acudir. As velas caíam num ápice. Dois ou três homens subiam
ágeis a ajudar o timoneiro, juntavam o seu peso ao dele e, carregando na ponta,
conseguiam levantar da água a trave do leme. Assim evitavam que a força do
rodopiar o quebrasse, mas o perigo continuava igual.
Ao longo dos cais mulheres caíam de joelhos, homens desbarretavam-se em oração,
pedindo misericórdia, implorando a Deus para que se apiedasse daqueles pobres
em tamanho perigo. À deriva numa corrente tão forte, só a força divina impediria
que o barco se fosse espatifar contra um molhe ou o casco de ferro dalgum
cargueiro. E milagre, fleugma, ou ciência das coisas do rio, na fracção de
momento em que o barco parecia hesitar na sua louca corrida, o leme caía na
água, as velas levantavam-se como por si só, o corpo retesado dos homens
compensava a força que fazia curvar os remos na travagem. Besta domada,
obediente à vontade de quem a mandava, a embarcação ia aos poucos ganhando
a margem, até que alguém atirava um cabo e finalmente a prendiam ao cais.
As pessoas ficavam ainda um momento a olhar, a assegurar-se de que já não havia
perigo, a dizer-se palavras de conforto. Passada a aflição desfaziam-se os
grupos e carregando o seu fardo ia cada um ao seu destino.
Nas casas da Ribeira, estendidas pelo muro, tudo era quietude. Por sobre elas,
nos jardins do convento dos Grilos, passeavam em longas filas os seminaristas
vestidos de negro.
138
Mais acima, pesados e grandes, o palácio do bispo e a sé.
Mas entre as casas e o rio os meus olhos não chegavam para abarcar o tumulto
de tanto povo. Uns em correrias desencontradas, outros atarefados na descarga
dos barcos, lavadeiras ajoelhadas a esfregar a roupa no cais, ou batendo-a
sem dó contra a cantaria dos degraus. Devido à curva do rio, do lado do Porto
o panorama terminava nos arvoredos do Palácio de Cristal, mas o resto
conhecia-o eu tão bem que me bastava querer e «via» a barra, o mar, os estaleiros
do Lordelo, as traineiras ancoradas defronte da Afurada.
Na margem sul, a nossa, a trajectória dos olhos era breve: começava na igreja
redonda da Serra do Pilar, descia para os telhados dos armazéns de vinho, o
convento das freiras, e ia parar nas árvores seculares da quinta de Campo Belo.
Mas de tudo o que eu via da janela, o que mais me encantava era o rio. Então
a barra ainda era funda, entravam por ela enormes cargueiros, tantos que às
vezes ficavam atracados dois a dois, desde o Lordelo até à ponte. E porque
na margem de Gaia não havia cais, a carga era morosa e pitoresca.
As pipas, os fardos, os caixotes, rolavam pelas pranchas ou levavam-nos os
homens da estiva à cabeça para as barcaças, que iam acostar aos navios. Os
guinchos funcionavam a vapor e ao içar a mercadoria, ou quando a baixavam para
os porões, saía deles silvando um longo penacho de fumo.
Tudo era princípio, novidade. Pedagogo nato, o avô sussurrava-me os nomes das
ruas, dos lugares, dos objectos, dos navios, dos países, ordenando e colorindo
a realidade que eu ainda não podia interpretar. Quase por inteiro são suas
as descrições das tragédias do rio, dos barcos a redemoinhar nas águas
turbulentas, da violência dos ciclones.
139
A paisagem era o filme, ele o comentador, e para me agradar apressava-se de
volta a casa depois do trabalho, eu à espera ao cimo das escadas, ansioso por
acompanhar a continuação da história do mundo.
Desde a morte do homem Elisa tinha aguentado quatro anos a maledicência da
aldeia, a inveja das outras viúvas, o agastamento dos que antes costumavam
contratar o Serafim e a quem ele agora tinha de dizer não.
Severa, senhora do seu nariz, também pouco lhe importara que o padre tivesse
feito saber pelas beatas que uma mulher de respeito, com o jeireiro de portas
adentro e com certeza a fazerem ambos o que não deviam fazer, ou a pensar no
pecado, era situação que não aprazia a Deus.
Mas de cansaço, ou vendo ela própria que não podia arriscar-se a que Serafim
se despedisse e lhe deixasse as terras ao abandono, à terceira ou quarta vez
que Manuel, o irmão mais velho, lhe apareceu a aconselhar o casamento, acabou
por ceder.
A verdade manda que não se embeleze a crueza da vida: o jeireiro, que era pobre,
não tinha de ser consultado, pois lhe ia sair a sorte grande. Por isso
concertaram-se o irmão e a irmã, ele de boca aberta ao ouvi-la dizer que tudo
ficava como dantes, só que agora o Serafim, além de comer, poderia dormir na
mesma casa, mas em cama separada. Casados sê-lo-iam pela lei, pela igreja e
para o povo, mas poder nenhum a obrigaria a renunciar à fidelidade que jurara
ao Sapateiro. Ele, que a tinha amado, acarinhado, protegido, que lhe gravara
a saudade no corpo e na alma, permaneceria o seu único homem. Para os séculos
dos séculos sem fim.
Serafim ouviu pensativo o recado, aceitou, e o casamento fez-se discretamente
em Agosto, uns dias depois de a família chegar de férias.
140
Para ele, fora o dormir noutra cama, sob outro telhado, tudo continuava igual.
O não ter mulher também pouca diferença lhe fazia, porque nunca tinha conhecido
nenhuma e durante a vida inteira manteria uma castidade de monge.
A única mudança de verdade, como se Deus o quisesse compensar um pouco do que
lhe negara, foi encontrar em mim o neto que nunca sonhara vir a ter, e para
quem, com o seu modo sossegado, ele seria até morrer uma mistura de avô
carinhoso e anjo da guarda.
Nesse Agosto, como acontecia sempre com quem vinha de longe, juntou-se o povo
a dar-nos as boas-vindas, e eu, com três anos feitos e pela primeira vez de
visita à aldeia, ouviria muitas vezes dizer como fui recebido que nem um
príncipe, beijado, acarinhado, passado de colo para colo.
O avô José Maria, que me tinha por coisa sua, «emprestava-me» ora a um, ora
a outro, mas logo me exigia de volta. Para com Serafim que, chacoteou ele,
sendo cego de um parecia que me estava a comer com ambos os olhos, foi generoso.
Pôs-me nos seus braços, dizendo-lhe que me sentisse o peso e me abençoasse,
porque quisesse ele ou não, daí em diante eu também lhe pertencia como neto.
No meio dessas festividades os meus pais faziam figura bisonha. Nenhum deles
era de expansões ou capaz de aguentar muito tempo beijos e abraços, nem gostavam
de se sentir presos. Por isso, cumprido o ritual da chegada, estavam um pouco
de fora naquela agitação, e porque todos lhes conheciam o feitio ninguém se
daria conta da sua indiferença.
José Maria, porém, sem que nada justificasse o veneno, meteu-se a explicar
a atitude de ambos: da Ernestina, compreendia-se, porque continuava fraca e
só sentada podia com
141
o bebé ao colo; mas o Afonso, esse, nunca mais lhe pegara desde o dia em que
o filho, assustado de se ver agarrado por aquele «estranho», o tinha mijado
de cima a baixo.
Era cruel, mas era facto. Casado, e contudo sem responsabilidades de família,
a sofrer a tutela autoritária dos pais como se ainda fosse garoto, com a mulher
doente e aquele filho que, sempre ao colo dos avós, não lhe parecia seu, Afonso
refugiava-se no trabalho e na noite. Tinha realmente acontecido que um dia
me quisera segurar e eu — os avós gostavam de me trazer sem cueiro, com a
tringalhinha ao léu — o regara inesperadamente e com tal abundância que ele,
surpreendido, quase me deixara cair.
Daí em diante, quando gabava as façanhas ou os talentos do rebento, e como
se assim provasse potências insuspeitas, José Maria nunca se esqueceria de
acrescentar às gargalhadas que o neto saíra «um grande mijão».
Foi vasto como um mundo, mas aos meus olhos de hoje o largo onde nasci — o
Monte dos Judeus na boca do povo — é um espaço diminuto ao cimo de uma tosca
e tortuosa escadaria medieval.
A sua paisagem continua espectacular, mas quando por lá passo a matar saudades,
obrigo-me a não ver que metade dela se acha agora tapada por um edifício.
Esqueço também as casas levantadas em lugar das que, como aquela em que nasci,
derruíram de idade e abandono. Mas as que resistiram fortalecem-me a memória.
A do senhor José Valente, o senhorio, e a do irmão, o senhor Francisco,
construídas gémeas, cobertas com azulejos idênticos para que as mulheres de
ambos não tivessem inveja uma da outra. A do senhor Artur, pequena demais para
os catorze filhos. A da senhora Mónica, que a tinha recebido dum amante idoso,
a quem ela
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à hora da morte pusera entre a espada e a parede: «Se não me dás a casa não
trato de ti, vais para o olho da rua.»
As da viela das traseiras estão como dantes e nelas, marcados pela pobreza,
os moradores parecem os mesmos da minha infância: os rostos, os modos, a
vozearia, o mexer dos braços a sublinhar o que dizem, tudo neles continua
familiar e me transporta ao tempo de então.
Se a paisagem do largo era o grande espectáculo, a da viela fascinou-me desde
começo pelo intenso burburinho de vida, as zangas, a sujidade, o fedor, os
estalos, as gargalhadas.
Havia nela um bordel e as putas saíam de lá aos gritos e às ameaças quando
um freguês, fingindo ser visita, entrava na casa de uma vizinha que o dava
mais barato ou, por gosto, até de graça. E assim, ainda inocente, me habituei
a julgar normal que quando alguma coisa lhes desprazia as mulheres levantassem
a saia até à barriga. Se bem que com a descoberta me apercebesse também inquieto
que, ao contrário da minha suposição, a tringalha não era comum.
Palavra para «aquilo» era-me desconhecida, porque embora o avô se esforçasse
por aumentar o meu vocabulário, e logo a seguir ao retorno da aldeia tivesse
começado a ensinar-me a ler e a escrever, o seu método além de inortodoxo era
estranhamente selectivo.
As primeiras palavras que me ensinou a soletrar foram, como já contei,
«Alfândega do Porto», que se liam em maiúsculas no topo de cada página dos
cadernos em que ele anotava as ocorrências do serviço. Se eu soletrava a
preceito ele inclinava então o caderno para me ensinar as palavras impressas
na margem em linha vertical: «Remessa de documentos para a sede.»
Daí passou para o abecedário e como eu não mostrasse dificuldade em distinguir
e decorar as letras, achou que podíamos
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avançar sem demora para o jornal. O seu dedo a seguir a linha, eu obediente
a papaguear palavras de vago significado, essa minha aprendizagem da leitura
resultou em que nunca me sentiria com gosto para ler histórias infantis.
Aquilo de fadas e anões era para quem? Débeis mentais? Pássaros falantes,
princesas adormecidas, cavaleiros montados em cavalos que deitavam fogo pelas
narinas, eu olhava-os com uma estranheza igual à que mais tarde me causariam
os números.
Voltando atrás. Tenho quase quatro anos. O avô chega a casa, senta-se comigo
à janela a contar a cidade, depois ceamos, eu à sua direita, e enquanto as
mulheres lavam a loiça ele desdobra o Janeiro para a lição.
Essa é a memória clara do anoitecer. A dos dias é difusa e confusa. Nela o
tempo amalgama-se, comprime-se, elimina diferenças, só à força de paciência
consigo restabelecer a cronologia. Mais ou menos. Porque se alguns episódios
sobem isolados da memória, tornados filme, noutros as emoções sobrepõem-se
à realidade e as sombras mistificam a lembrança. O que aconteceu surge então
num palco onde os trompe-l’oeil baralham o movimento e o único escape é o da
fantasia.
Brinco à porta de casa. Por não ser calcetado, só terra e pedras soltas, o
chão da praceta oferece possibilidades sem fim. Levanto muros. Crio serras
e vales. Com tufos de erva faço florestas. Mudo os degraus da nossa escada
nas prateleiras e no balcão de uma mercearia de que sou dono, assistido do
Irilo e do Teimoso, empregados fiéis e meus companheiros.
Os outros, uns quatro ou cinco de que esqueci o nome, são pouco inventivos
e, degradando-se eles próprios à condição de fregueses, juntam-se às raparigas
que esperam em bicha para ser atendidas.
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As pedras são os queijos, bocados de tábua representam o bacalhau, o cascalho
faz de açúcar e arroz. Pagam-me com bocadinhos de papel, faço o troco e damo-nos
solenemente as boas tardes, mas depois tanto nos entretém o fabrico do pão
que esquecemos o seguimento do negócio.
Com paciência raspamos por entre as pedras a terra fina até termos um bom monte
dela e, uns atrás dos outros, abrindo os indecorosos calções com que nos vestem
— racha à frente, racha atrás — mijamos de alto na cova que fizemos no cimo.
As raparigas arregaçam as saias, agacham-se, mijam com melhor pontaria.
Amassamos entusiasmados com as mãos e para forma usamos a tampa duma caixa
de graxa de calçado. A cozedura é simbólica sobre uma pedra quente do sol e
num pronto o balcão está cheio de sêmeas, a loja volta a abrir. Saltamos e
gritamos de alegria pelo trabalho feito, tão contentes que não nos assusta
o tom ríspido de minha mãe, a perguntar onde é que fomos arranjar a água.
Respondemos-lhe honestamente que é mijo e ela desvairada salta os degraus,
destrói a loja à vassourada, e aos safanões arrasta-me para casa aos berros
de «Porcalhão!», ameaçando que me vai dar uma ensinadela.
Larga-me descuidada ao arrumar a vassoura e eu fujo para o colo da avó Maria,
pára-raios e anjo benfeitor.
7
Sobre muitas das recordações da minha infância continua a pesar essa mistura
de alegria descuidada e entusiasmo, quase sempre seguida de uma humilhação,
de um medo ou um perigo.
Daí talvez que o primeiro dos meus sentimentos conscientes tenha sido o de
um constante estado de alerta que, contra vontade e incomodamente, se me
tornaria uma segunda natureza.
O avô era a calma, o aconchego. Folheando o jornal sobre a mesa, ou sentados
ambos à janela, ele levava-me mansamente a navegar pelo oceano da imaginação,
desdobrando a cidade num universo. Mostrava as torres da sé, dizia-me para
olhar bem, contava em sussurros, e eu sem custo distinguia em volta o
acampamento dos cruzados que esperavam transporte para a Terra Santa. Via-os
em algazarra a correr de lança erguida para a margem, mas subitamente o
malabarismo do avô transformava as galés medievais nas caravelas das
Descobertas, construídas ali perto nos estaleiros de Massarelos, e íamos nelas
a caminho da índia, sofrendo fome
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e doenças, naufrágios, até que apercebíamos aliviados uma costa toda de
palmeiras, palácios e areia branca.
Tão depressa passeávamos pelas ruas de Goa ou de Calcutá, por entre gente
vestida de sedas coloridas, admirando templos dourados, elefantes, tigres em
jaulas, como já ele, virando as páginas do tempo e do espaço, nos punha a bordo
do lugre de quatro mastros que ancorado ali em frente dava a impressão de que
o poderíamos tocar, enorme, todo iluminado, à espera da enchente para ir de
viagem.
Icebergs, pescadores solitários na imensidão do mar, auroras polares.
Florestas tropicais e rios majestosos. Himalaias. Metrópoles. Exércitos.
Castelos onde moravam reis tenebrosos como Ivan da Rússia, o Terrível, ou o
nosso Pedro I, o Cru, que aos condenados mandava arrancar o coração pelas
costas. A Grécia de Homero e Alexandre Magno, o Egipto dos faraós, as batalhas
da Flandres... Maravilhoso caleidoscópio para o garotinho que pouco
compreendendo absorvia tudo, e em cuja alma os nomes e os acontecimentos
ficavam a ressoar em ecos simultaneamente íntimos e universais, tornando o
mar alto, os monarcas, os animais, o nosso largo, a ponte sobre o rio, as
fábricas, os carros de bois, num todo uno, eterno, belo e feliz.
Com a avó Maria aprendi que em questões do sobrenatural não se tortura a gente
a perguntar, porque é inútil e ninguém nos dá resposta. Tem-se fé, tem-se
respeito, e basta.
Segurava-me ao colo, ensinava-me a unir as mãos em prece e, para que eu
repetindo as aprendesse, dizia uma a uma as invocações do padre-nosso.
Foi também ela quem primeiro me mandou pôr de joelhos a rezar a Deus, Senhor
do Céu e da Terra. Mas quando lhe perguntei que parecença Ele tinha, e ela
me respondeu
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que Deus não se parecia com ninguém, eu, que ainda não sabia como me resignar
à existência de mistérios, decidi que Deus era duplo.
Um, o invisível Omnipotente, reinava para lá das nuvens e ganhava a gente a
sua simpatia à força de orações. O outro era o ancião barbudo com uniforme
de general num quadro ao lado do relógio, que me aterrorizava, porque ao
encará-lo ele inexplicavelmente me seguia com os olhos, a mostrar que nada
lhe escapava dos meus actos e dos meus pensamentos.
Semelhantes especulações parecerão prematuras na criança de tenra idade que
eu era, mas alimentava-as o avô José Maria que, com o bom fim de dar o que
ele próprio não tinha recebido, ao ver que o neto aprendia facilmente decidira
prosseguir o ensino em marcha forçada.
Que não tenha tido consciência de que o conhecimento ministrado desse modo
me causava no cérebro efeitos de overdose, é erro que Deus lhe descontou. De
Deus, aliás, continuava a escarnecer e a avisar-me que não fosse em tretas,
porque a religião era uma crendice da padralhada, do mulherio e dos pobres
de espírito. Importante na vida era aprender com o exemplo dos grandes homens.
Anos seguidos antes do meu nascimento, recortara ele pontualmente do Janeiro,
o seu jornal, uma série de obras sobre a vida e as guerras de Napoleão. E agora,
entusiasmado, em vez de me deixar entregue aos brinquedos da minha idade, abria
sobre a mesa da cozinha os tomos de folhetins que tinha feito encadernar.
Mandava-me que lesse e eu lia, mas depressa se me cansava o entendimento. Ele
continuava então a leitura em voz alta e os meus sonhos, alimentados pela
sonoridade da sua declamação e pelas gravuras de Gustave Doré, eram um
encadeamento de batalhas e multidões em fuga, cidades a arder, marechais a
cavalo, paradas vitoriosas, cenas da coroação.
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Regelado, sofri com ele a campanha da Rússia, atravessei o Beresina, estive
em Waterloo, em Santa Helena. Ouvi-lhe ler as cartas do imperador a Joséphine
de Beauharnais, a Maria Walewska e a Marie Louise, guardando um vago sentimento
de inquietude sobre as paixões que complicavam a vida adulta.
Aliás, a tragédia dos amores napoleónicos media-a eu por uma experiência
pessoal recente e, que me lembre, a primeira verdadeiramente traumática.
Nos baixos da nossa casa havia uma arrecadação onde se amontoavam coisas
inúteis, caixas com garrafas de vinho, lenha para o lume, montes de jornais,
cadeiras velhas, panelas, loiça, sacos de farrapos à espera do trapeiro. Tinha
uma escuridão de caverna e recantos onde eu imaginava o começo de túneis que,
como nos armazéns do senhor Valente, furavam sob o rio e misteriosamente se
perdiam nos subterrâneos da cidade.
Entrar lá sozinho era proibido e a única porta estava em permanência fechada
com um cadeado que não ficaria mal num cárcere. Mas com interditos e aloquetes
é que se acendem as tentações. Numa tarde em que vi minha mãe sair para o tanque
a lavar uma trouxa de roupa, corri a tirar a chave da prateleira e, porque
talvez um contentamento me parecesse pouco, chamei a Marta para ir comigo.
A Marta, que me ajudava ao balcão da mercearia e às vezes, quando eu queria
explicar aos companheiros como era a vida na aldeia, me servia de burra,
tinha-se tornado desde há pouco a minha mulher. Brincávamos à família, tínhamos
um filho de celulóide num berço, íamos às compras, ralhávamos e, tapados com
um cobertor, fazíamos cama onde calhava.
Foi assim que pouco tempo antes, por imitação intuitiva ou chamamento da
natureza, ao sentir que nos tomava um
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esquisito tremor do corpo tínhamos trocado o primeiro beijo. Mas que um beijo
não era suficiente já eu o sabia pelas revelações das cartas de Napoleão, e
as gravuras representando os boudoirs imperiais também me devem ter incendiado
a fantasia.
As minhas intenções, pois, estavam longe de ser puras quando abri a porta dos
arrumos e, agarrado à Marta, me meti com ela a explorar aquela penumbra.
Caminhando na ponta dos pés, a sussurrar, para que não despertassem os anões
que com certeza lá viviam, e assustados com os ratos que ouvíamos chiar.
Não tardou, porém, a que o lugar se nos tornasse familiar, e à luz que vinha
da porta aberta fomos remexendo e procurando sem saber bem o quê, só pelo gosto
da descoberta. Um capote aqui, uma boneca além, um pé de cadeira, um martelo,
um caco, jornais, uma miniatura de barco...
A recordação do momento permanece completa e indelével. Nela está o cheiro
a bafio, a abundância de teias de aranha, o odor azedo de restos de vinho,
o pó, uma saca de carvão, uma tábua com latas de conserva suspensa do tecto
por arames.
Tomado de febre digo à Marta que espere, que não tenha medo, e corro a buscar
a manta das nossas brincadeiras. Estendo-a no chão. A minha companheira não
faz perguntas, olha indiferente, fica imóvel quando lhe puxo o vestido por
cima da cabeça. Mais roupa não tem. A minha: camisa, camisola, calções, cuecas,
meias, sapatos, demora ridiculamente a tirar.
Estamos em pêlo, deitamo-nos, ela por baixo, eu a cobri-la e, sem saber se
o tínhamos visto fazer a animais ou a gente, imitamos o fornicar. Com a
inocência dos cinco anos que ambos temos e um misto de surpresa e excitação,
sensíveis ao contacto das peles que se roçam, lambuzando-nos com beijos que
não sabemos dar.
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De repente tudo enegreceu. Paralisámos ao ouvir a porta fechar e abrir-se de
novo em pé de vento, minha mãe furiosa a perguntar onde é que eu estava. Não
me deu tempo a responder, porque em duas passadas tinha descoberto o nosso
ninho e na sua fúria caiu sobre mim às bofetadas e aos puxões de orelhas, mais
uma vez aos berros de «Porcalhão!» e «Desgraçado!», que com os anos perderiam
o impacto, mas naquele momento ressoavam com a força que eu mais tarde
reconheceria ao ler como Adão e Eva tinham sido expulsos do Paraíso.
A minha Eva, aliás, esgueirara-se nua, rápida que nem cobra, e quando minha
mãe foi levar o vestido e informar a dela que apanhara a filha a fazer
«porcarias» comigo, as vizinhas desataram a rir daquela preocupação de
moralidade. Então que pecado tinha? Deixá-los brincar, que não fazia mal
nenhum! Quanto mais depressa aprendessem, melhor era.
Em casa os meus avós também não aprovaram a severidade da sobrinha, tanto mais
que a punição me deixara com o corpo cheio de nódoas, um «galo» na cabeça e
um olho inchado.
Atrás desse trauma outros viriam, mas felizmente passado o choque o pior
esquece, e no meu precoce acordar para as coisas do sexo comecei a dar-me conta
de como ele à minha volta era natural. Cães, gatos, galos e galinhas, os pombos,
tudo copulava à farta e as mulheres da vizinhança, por exemplo, enquanto
conversavam umas com as outras, adormeciam as crianças rabugentas dando-lhes
pancadinhas ritmadas nas nádegas, ou acariciavam-lhes as pilinhas e os
pitinhos com suavidades de masturbação.
O desejo também se mostrou mais forte que o medo do castigo, porque a Marta
e eu ainda nos «casámos» umas
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quantas vezes, mas escolhendo habilidosamente cantos onde mãe nenhuma pensaria
em ir nos procurar.
A minha vida, entretanto, tinha levado uma reviravolta, quando em Outubro desse
ano me compraram uma sacola, um livro, uma lousa, e todas as manhãs me vi tirado
do conforto da cama para, pela mão de meu pai, ser levado para a escola que
ficava no número 248 da Rua Direita, umas quantas casas acima do quartel onde
ele fazia serviço.
Escola particular, porque nesse tempo para os pequenitos não havia outra, com
uma mestra solteirona azeda, sobre o gordo; e porque à falta de bancos nos
sentávamos no soalho ela, ao passar, manquejando apoiada a uma bengala, dava
a impressão duma torre ambulante que a qualquer momento nos podia cair em cima.
Começávamos a manhã com o padre-nosso, a ave-maria, o hino nacional, e em voz
alta dando graças a Deus por nos ter feito nascer portugueses. Seguia-se então
para os outros a tortura do abecedário, das contas de somar, e para mim o
indescritível aborrecimento de fingir que aprendia o que o meu avô dois anos
antes me tinha ensinado.
Mas a mestra não queria diferenças. Se eu já sabia ler e escrever tanto pior
para mim, aprendia tudo de novo, porque para isso é que estava ali. Vá de
soletrar como se visse as letras pela primeira vez e depois, como ela exigia,
desenhá-las redondas entre duas linhas. Entretanto, e mais do que aos outros,
porque eu bocejava ou distraído me punha a olhar para o quintal das traseiras,
a cana-da-índia apanhava-me pelas orelhas, pela cabeça, pelos dedos,
fazendo-me chorar.
Às quatro horas rezámos novo padre-nosso, outra ave-maria, cantávamos mais
uma vez o hino. Abria-se então
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a porta e saltávamos para a rua aos gritos de alegria, esquecidos de que a
tortura recomeçaria no dia seguinte.
Os meus companheiros corriam para casa, enquanto eu descia o passeio a caminho
do quartel, onde ficava até que por volta das seis meu pai deixasse o serviço.
Pobre menino, julgarão as almas sensíveis, abandonado a si próprio, sentado
horas à espera nalgum canto. Mas felizmente assim não era, e desde o começo
o quartel tornara-se para mim um Éden.
Hoje, quando por lá passo, não é mais que um modesto edifício de quatro andares
com varandas, onde um guarda continua a fazer sentinela. Nesse tempo, porém,
parecia-me imenso. Com a liberdade que tinha de andar por onde me apetecesse,
ia acariciar nas cavalariças os belos cavalos dos oficiais, espreitava os
dormitórios onde ao lado das camas se alinhavam espingardas reluzentes,
fascinavam-me os corredores sem fim, a cozinha conventual. Nas secretarias
ressoava o agitado matraquear das máquinas de escrever. Uma porta entreaberta
revelava o gabinete do comandante. Atapetado, paredes forradas de seda e lá
ao fundo o grande luxo: uma secretária de tampo de vidro e madeira envernizada,
um cadeirão, um sofá, uma lâmpada de luz esverdeada, a estatueta dum guerreiro.
Havia um quintal com dimensões de quinta, uma fonte, um tanque cheio de peixes
dourados. O muro do fundo dava para o quintal vizinho, igualmente vasto e que
um italiano, o senhor Luigi, usava como depósito do seu negócio de madeiras.
Promovido a mascote do pessoal, acarinhado por todos, sabendo-me protegido,
eu ia dum lado para o outro com uma inesgotável curiosidade de ver e de sentir,
de aprender, tocar, cheirar.
Se me dava a canseira subia para o que chamavam a sala de recreio, mas lá não
eram os jogos que me atraíam,
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sim as grandes estantes envidraçadas ao longo da parede, onde se alinhavam
milhares de livros em prateleiras tão altas que para alcançar as de cima se
tinha de usar um escadote. Nelas havia de tudo: clássicos da literatura e
novelas policiais, romances de cordel ligeiramente pornográficos (lembro Os
amores do Kronprinz) relatos de batalhas navais (A tragédia do couraçado
Breslau), episódios da história e livros de arte, descrições de cidades, terras
longínquas, a edição completa de Jules Verne.
Deitado num sofá ou empoleirado numa cadeira, eu folheava ao acaso, esquecido
do barulho dos homens que à minha volta jogavam as damas, o xadrez, as cartas,
a roleta. Enfronhava-me na leitura e gostasse dele ou não — hábito que só já
de velho perderia — livro começado lia-o até ao fim, marcando cuidadosamente
a página com uma tira de papel.
Por volta das seis meu pai vinha buscar-me, eu repunha o livro na estante,
e saíamos juntos. Mas como depois do dia de trabalho ele tinha pouca pressa
de voltar a casa, fazíamos ali a dois passos uma paragem no Facal.
A taberna não me desagradava. Era mais um mundo a explorar, a agitação dos
homens que bebiam e conversavam sentados em bancos de madeira, os copos sobre
mesas toscas manchadas de vinho. O balcão abarrotava de doçarias e rebuçados,
a cozinha cheirava a peixe frito; três ou quatro raparigas serviam apressadas
e, sem que elas parecessem dar-se conta, quando lhes passavam perto os homens
assentavam-lhes fortes palmadas nas ancas.
Se o vinho era bom davam-me uma pinguinha, «para habituar», mas em regra bebia
um «pirolito» acompanhado dum molete com queijo e marmelada, «para entreter
a fome» enquanto não íamos cear. O que às vezes demorava, porque meu pai, metido
à conversa e a beber como um
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desalmado, esquecia a minha presença. Só quando eu cabeceava ou adormecia é
que ele se dava conta de que passava da hora de irmos para casa.
Acordava-me, esvaziava um último copo, e pela penumbra das vielas onde a
iluminação pública só chegava em reflexos mortiços, a sua mão a prender a minha,
caminhávamos num silêncio que, começado assim, duraria a vida inteira.
Anos depois, quando já se tornara passado longínquo, eu viria a descobrir que
a tola ideia de todos os dias me fazer esperar no quartel tinha sido magicada
por minha mãe, que desse modo julgava que o homem lhe apareceria em casa à
hora normal da refeição.
Como chegávamos ambos tarde e mal havia zanga os meus avós entremetiam-se,
eu sentia-me culpado por não ser capaz de o arrastar da tasca e, todos trombudos
em volta da mesa, as nossas ceias eram um martírio.
No momento em que, por hábito, meu avô se levantava para lavar os dentes e
frisar o bigode com os ferros que punha a aquecer no fogão, meu pai despendurava
o capote e sem uma palavra, sem olhar ninguém, desaparecia na noite.
Daí até ao fim da escola primária, uns quatro anos, continuei a passar todas
as tardes pelo quartel. Para mim era como um palácio e os livros, que então
me deixavam levar para casa, tinham-se tornado a minha droga. O pai aparecia
na sala de recreio, fazia um aceno, dizia-me que fosse andando porque ele ainda
demorava. E eu ia devagarinho, escolhendo os caminhos mais longos e tortuosos,
explorando as ruas, a beira-rio, as casas, os pedaços de vida que se me
apresentavam ao acaso duma janela aberta ou duma escada, dum gato
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a miar de fome, dos armazéns de vinho onde os tonéis se assemelhavam a gigantes
couraçados.
Tinha sido uma noite como quase todas as outras: a zanga latente, palavras
bruscas a cortar os longos silêncios, o ritual do avô a frisar o bigode e,
o que mais me doía, aquele modo do meu pai a sair de olhos baixos e ar culpado.
Não me lembro de quando me deitaram, mas o pranto e os brados que a ressoar
pela casa me fizeram acordar gravaram-se tão fundo que por vezes, num eco
longínquo de pesadelo, julgo ainda ouvi-los.
Furei por entre a gente que entrava na cozinha a acudir e me estorvava a
passagem, mas não foi preciso dizer-me o que acontecera: quando vi o avô na
cadeira junto da janela, tão estranhamente imóvel, os olhos fixos e o rosto
com uma cor azulada, eu soube instintivamente que a morte nos tinha visitado.
Foi como se tudo se desmoronasse. Tomado dum medo grande demais para caber
em peito de criança, durante um instante fiquei petrificado; mas como se, por
ser primeira e ainda obscura, a dor concentrasse em si todo o sofrimento do
viver, caí sem sentidos.
Sobre o que se passou depois desse momento e nos meses seguintes, não tenho
memória. Nada recordo do funeral a que assisti e que me disseram que foi grande
como o do filho primogénito. Também nada me ficou das brincadeiras, da escola,
ou do que tanto me fascinava: o ir com minha mãe ao mercado nos sábados de
manhã. Muito vagamente tenho ideia de mais tarde, sozinho com a avó Maria,
me ver no comboio de viagem para a aldeia, de ouvi-la contar ao revisor que
tinha enviuvado havia pouco e que eu era o seu único neto.
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Talvez por me sentir intensamente órfão a recordação da estadia desse ano
também quase desapareceu, deixando apenas dois episódios que se tornariam
marcos miliários da minha infância.
À boa maneira do tempo eu só ia para a cama quando me dava o sono e, a menos
que mostrasse sinal de doença ou aflição, mesmo que o dia fosse a meio ninguém
interromperia o meu descanso. Com a comida era a mesma liberdade.
A hora das refeições estava mais ou menos marcada, mas o trabalho vinha em
primeiro lugar, e assim almoçava-se umas vezes ao meio-dia, outras às duas,
a ceia tanto podia calhar ao pôr do Sol como noite fechada. Criado, pois, à
rédea solta, ia-me aos armários e, debicando aqui, petiscando além, comia
quando queria e só do que mais gostava.
Pelos fins de Setembro, elas maduras, o meu vício eram as uvas, que eu escolhia
com minúcias de gourmet. À vista das sumentas D. Branca, as Moscatel eram
desenxabidas, mas a puro néctar só sabiam umas pequenitas que, com a casca
dum azul escuro salpicado de preto, se compreendia que lhes tivessem posto
o nome de Cagadas das moscas.
Sentado no chão da varanda com o jornal — rodeado de leões o Négus fazia cara
feia aos italianos que acabavam de invadir a Abissínia — eu comia na calma
uma fruteira toda, o que me deixava com barriga de abade e fazia correr para
o penico.
Para a avó Elisa, porém, a diarreia não podia vir do meu destempero, sim de
serem as uvas colhidas durante o calor; isso é que me revirava os intestinos.
Refrescá-las em água seria o remédio, só que infelizmente, por escassa demais,
a água no Verão era um bem que se não podia esbanjar. Quando a bica da fonte
deixava de correr
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punham-se os cântaros em gradeados sobre as bestas e tinha-se de ir buscá-la
longe, à das Casas de Baixo; se esta também secava só havia a da ribeira, mais
longe ainda, o que no vaivém de encher os cântaros da cozinha, as caldeiras
para os porcos e as talhas de reserva, dava um dia de trabalho.
Convencida de que assim elas não fariam mal ao neto, a avó Elisa albardava
a burra ainda escuro e, em quase uma hora de jornada, ia colher à vinha as
uvas refrescadas pela noite. Cobria o fundo da cesta com folhas de parreira,
escolhia por entre as videiras os cachos melhores. Acamava-os, punha mais
folhas a fazer de tampa, embrulhava tudo no xaile de lã a evitar o sol e, chegada
a casa, caminhando pé ante pé para me não acordar, pousava a surpresa junto
da mesinha-de-cabeceira.
Depois tornou-se um presente matinal que eu já esperava, mas da primeira vez,
compreendendo mal o que fazia ali a cesta, comecei a retirar sonolentamente
as folhas; e por um instante, ao descobrir aquela riqueza de bagos cobertos
de orvalho, a alegria pôde mais que a gula; pronto arrepanhei um cacho, enchi
a boca, e corri em busca da avó para no modo infantil de agradecer me agarrar
a ela aos saltos.
A ausência dos meus pais deve ter durado meses, porque quando alguém falava
deles eu não conseguia recordar-lhes as feições. O avô José Maria, esse sim,
com o bigode farto, as lunetas acavaladas sobre o nariz, tinha-o tão presente
que por vezes me iludia a imaginá-lo à minha espera com o Janeiro sobre a mesa
da cozinha. Mas os dois viajantes que com o ti Serafim fui buscar à estação
de Carviçais logo ao descer do comboio me deram um sentimento incómodo.
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Os seus abraços e beijos também me não confortaram, antes vi neles o sinal
de que de que a minha liberdade tinha acabado.
Acharam-me sujo. Eu achei-os meio estranhos. Antipáticos quando anunciaram
ali mesmo que o banho voltaria a ser diário e que estava fora de questão o
andar a rebolar-me no soalho ou metido pelos cantos a fazer tolices. Não me
deixariam dormir pela manhã fora, nem comer o que quisesse às horas que me
apetecesse. Adeus uvas. Adeus cartuchos de bolachas.
Acompanhei-os tristonho, desinteressado do caminho de que doutras vezes tanto
gostava, sem olhos para os pinheirais, o amarelo dos campos ceifados, a ribeira
que corria numa garganta e se atravessava por uma ponte de lajes toscas comidas
de musgo, que o ti Serafim me tinha dito que fora feita pelos antigos no começo
do mundo.
Na aldeia devem-lhes ter dado as boas-vindas do costume, o que não vi por me
ter ido para casa a remoer o descontentamento; mas eles não tardaram a chegar
com as malas, e outra vez cumprimentos, outra vez abraços, um alarido que nunca
mais acabava.
Chamaram-me com bons modos para que saísse do quarto, e como eu amuava
tiraram-me de lá com um puxão de orelhas. Depois, certos de que com o castigo
eu aprenderia a obedecer, obrigaram-me a ficar sentado, imóvel, para de seguida
me esquecerem porque da porta alguém chamava «Com licença!», e de novo os ouvi
a repetir as baboseiras de «Estais cada vez mais novos! Cada vez mais bonitos!»
O embrulho tinham-no posto defronte de mim e a julgar pelo aspecto era uma
caixa como as dos sapatos, mas provavelmente teria outra coisa mais leve, pois
o discreto empurrão que lhe tinha dado ao sentar-me quase o fez cair da mesa.
Se fosse calçado, não teria aquele papel colorido bem dobrado nos cantos, nem
a fita vermelha a terminar em laço.
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Algum presente para a avó Elisa, pensei, que quase todos os meses lhes mandavam
pelo comboio uma cesta com queijos e chouriças, frascos de mel ou garrafões
de azeite, mimos que, dizia ela, comprados na cidade eram sempre caros e maus.
Talvez a mostrar pressa as visitas tinham ficado na varanda, mas a conversa
nunca mais acabava e eu, aborrecido por não me poder levantar — se o fizesse
era tabefe garantido quanto mais queria esquecer o embrulho, deixá-lo quieto,
mais ele me enfeitiçava.
Com a ponta do dedo dei-lhe outro toque. Pareceu-me ao mesmo tempo pesado e
leve, como se o que tinha dentro estivesse solto. Puxei-o devagarinho para
mim. Ergui-o o bastante para o levantar da mesa e dei-lhe um abanão. A coisa
mexia. Peguei-lhe de novo. Fi-lo balançar, excitado, descrente de que de
verdade pudesse ser o automóvel que muito tempo antes tinha visto numa vitrina
e meu pai me prometera.
Infelizmente, porque cumprir promessas não era o seu forte, a minha excitação
era travada pela lembrança. Pouco antes de o avô morrer tinha ele dito que
me comprara uma espingarda, que a trariam da loja daí a dias. Via-me já montado
num cavalo preto, a carabina atravessada na sela, espreitando os wigwams dos
índios que se desenhavam contra o céu no longe da planura; outras vezes a
galopar ao encontro dos bandidos que atacavam as diligências e os comboios.
Mas os dias tinham passado. Quando lhe perguntava pela espingarda era sempre
amanhã, e finalmente gritou que como eu não me cansava de o chatear arrumava
o assunto de vez, não me dava espingarda nenhuma. Aprendesse, que a culpa era
minha.
Encheram-se-me os olhos de lágrimas e não é de estranhar, porque já o mesmo
tinha acontecido com a promessa
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duma navalha, a dum barquinho à vela, a duma caixa de lápis de cor, outras
que se me foram da memória.
Contudo, mais que de desilusão o meu choro era de vergonha, porque ele dissera
aquilo na cozinha do quartel e eu lia nos sorrisos irónicos dos seus colegas
que eles também sabiam que era mentira, que não tinha comprado espingarda
nenhuma. Talvez tivesse pensado fazê-lo, mas na euforia do vinho com certeza
tinha misturado o desejo com a realidade e levava-me a mal que eu lhe acendesse
o remorso.
Convulsivo, a asfixiar-me, o meu choro era também de impotência, porque com
cinco anos e pouco me sentia estranhamente diferente de meu pai, mais velho
do que ele e todavia incapaz de o proteger, medindo-lhe os actos e as palavras
com uma frieza que não era da minha idade, nem eu sabia donde me vinha.
As visitas iam embora, porque as risadas soavam mais longe e o portal chiou,
mas de costas para a entrada e a pensar no que teria o embrulho, só dei conta
de meu pai quando ele me sacudiu pelos ombros.
Então não queres ver o que está dentro? Abre lá isso, ó cabeça de atum!
Cabeça de atum. O modo que ele supunha carinhoso e jovial, mas lhe saía sempre
brusco, e mais tarde, eu já quase homem, seria a razão do nosso primeiro
confronto.
Desfiz o atilho. Comecei a desdobrar o papel do embrulho, mas logo o desenho
na caixa revelou o que estava dentro. Era um automóvel! Não o que eu tinha
visto na vitrina, pequeno, pintado de preto, com rodas de madeira, mas um carro
de corrida de metal prateado, tão grande que tive de o segurar às mãos ambas,
com pneus de borracha, volante, faróis, tubos de escape dos lados, um capot
que se podia levantar!
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Dava-se-lhe corda — meu pai mostrou como se fazia — e o bólido disparava até
ao fundo da sala, embatia na parede, e se não revirava de rodas para o ar dava
uma volta e vinha direito a nós.
Dizer que me encheu de alegria não dá, nem de longe, a medida do meu
contentamento. No sentir desse instante misturavam-se a euforia e a
satisfação, a certeza de que daí por diante só conheceríamos felicidade, de
que todas as refeições seriam harmoniosas. Bastava o modo como eles se
enterneciam de me ver correr atrás do brinquedo, imitando o roncar do motor,
para saber que em nossa casa nunca mais haveria as zangas que me levavam a
esconder na cama e a tapar a cabeça com a travesseira, para não ouvir os gritos
e as ameaças que me pareciam o sinal de indizíveis tragédias.
Como falar do que a alma quis abolir e a memória, caridosamente, poucas vezes
desenterrou? Deito-me de barriga no soalho, dou corda ao carro, seguro-lhe
as rodas; alinho-o com os concorrentes que a minha fantasia lhe criou, faço
brrum-brrum, solto-o, ele arranca pela longa pista que vai da saia à porta
da frente e ultrapassa os outros, ganha a corrida num pandemónio de vivas,
de música e de bombardas.
Cena repetida vezes sem conta na serenidade do fim da tarde de Setembro, todas
as janelas abertas para que a corrente de ar refresque a casa. Da cozinha vem
um murmúrio indistinto de conversa e quando oiço o ti Serafim que leva as burras
para a estrebaria, corro a mostrar-lhe o brinquedo que ele ainda não viu.
Mas no mesmo instante encolho-me contra a grade da varanda, porque meu pai
sobe os degraus possesso de raiva, a gritar: «Parto-lhe as trombas! Vai ver
com quem se meteu!»
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As mulheres saem da cozinha, tentam agarrá-lo para que acalme, mas com a força
que tem liberta-se delas, procura desvairado o cacete que costuma estar
pendurado à entrada e que eu vi a avó Elisa esconder num pronto atrás do avental.
À espera que a tempestade passe sento-me de novo no chão da sala, empurro o
carro para lá e para cá, confuso por não saber se me devo agarrar ao
contentamento que ainda sinto, ou ceder ao medo que me metem aqueles gritos.
As botas de meu pai ressoam no soalho até que pára tão junto de mim que me
custa levantar a cabeça para encará-lo.
Onde está o cajado?
Não sei.
Andaste a brincar com ele?
Não senhor.
Ai não senhor? Voou?
Puxa-me pelos cabelos de tal modo que julgo que mos vai arrancar e faz-me pôr
em pé. Sacode-me dum lado para o outro, pragueja, ameaça, e porque em vez de
lhe responder começo a chorar, com um empurrão atira-me contra a parede.
Então, num estouro de violência, dá um salto e parece que o vejo suspenso no
ar; mas logo em seguida a sua bota quase me roça, e com um barulho ensurdecedor
esmaga o carro umas quantas vezes, espalhando os bocados num último pontapé.
8
De volta à cidade achei a casa hostil e fria. O lugar favorito do avô, junto
da janela da cozinha, ficaria para sempre vazio e a sua cadeira posta noutro
sítio. Faltava-me também a avó Maria, que não regressara connosco, porque como
havia pouca gente que quisesse ir à jeira, a irmã e o Serafim precisavam de
ajuda. Além disso, «quanto menos se gastasse mais sobrava para os estudos do
menino.» Os estudos do menino! Palavras que durante anos me iriam soar nos
ouvidos como uma ameaça de pena de cadeia.
Mas lugares de evasão já eu tinha há muito: a janela do meu quarto, com o
sumptuoso panorama da cidade; ou a das traseiras, onde como dum camarote
«vivia» as emoções teatrais da viela. Só que agora constantemente me arredavam
duma e doutra, ou porque ficaria cego de tanto olhar pelo binóculo, ou porque
palavras feias já eu sabia demais.
Noutros dias, porém, ninguém se importava comigo, e assim me fui acomodando
a viver num ambiente que não era de disciplina ou de liberdade, mas de
insegurança permanente, sujeito a mandamentos caprichosos que subitamente
proibiam o que antes fora permitido, ou me deixavam ao
164
deus-dará; e a respeito de pragas e palavrões, os que se ouviam na viela
pareciam infantis se os comparava com os que meu pai soltava desde que se
tornara chefe de família e que eram uma das válvulas de escape que tinha para
as fúrias que lhe atormentavam o espírito.
A sua entrada em casa à hora da ceia era quase sem falha acompanhada de rugidos
e bufos, a marcar que tínhamos demorado a abrir-lhe a porta, que os pés lhe
doíam ou se lhe acabara o tabaco. Isso o preliminar. Depois à mesa, ele numa
ponta, eu na outra, a mãe entre nós, comíamos calados à espera do nada que
fizesse rebentar a tempestade. Que infalivelmente rebentava. Sal a mais sal
a menos, um palito que se lhe quebrava entre os queixais, uma mancha de gordura
na farda, e de súbito os «Puta que pariu isto!» explodiam na cozinha, seguidos
de punhadas, de «Raios partam esta merda!», de ameaças de «desfazer tudo à
bordoada» que no princípio ainda me faziam levantar os olhos a temer que
passasse das palavras aos actos, mas que por corriqueiras tinham perdido a
força.
Ernestina ia da mesa para o fogão, do fogão para a mesa, tirava daqui, punha
além, e a sua indiferença às ameaças e aos palavrões emprestava ao ambiente
um toque de loucura. Quando mais ele gritava, mais fundo era o silêncio dela,
e eu, atormentado por não saber a quem devia lealdade ou a que campo pertencia,
rezava a pedir que ele se fosse embora depressa.
Ainda a mastigar a última garfada afastava a cadeira da mesa, passava o
guardanapo pelos lábios, levantava-se, acendia um cigarro. Nesse momento, como
se a cena fosse ensaiada, Ernestina virava-lhe as costas e ele, soprando o
fumo, ia despendurar o capote e vestindo-o fazia um último aviso: — Isto um
dia ainda acaba mal! Garanto-te que acaba!
Com aquele modo esquivo que nunca perderia, saía para a rua batendo a porta.
Sem olhar para o meu lado, nem me
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dizer palavra, como se me tornasse invisível. O que talvez fosse um modo de
carinho, pois eu era o trambolho que lhe viera estragar a juventude e ele,
ao fingir que não me via, poupava-me a sua fúria.
Ao sabor da ocasião, aliás, o seu carinho podia tomar formas imprevisíveis,
como no domingo em que inesperadamente decidiu levar-me ao Senhor da Pedra.
Eu a julgar que seria festa ali perto, coisa de ir e voltar, passeio pró-forma,
mas nada disso. Primeiro até ao Facal, onde os amigos o esperavam, meia dúzia
deles já bem bebidos, surpresos com a parceria. Que era para eu aprender a
andar na borga e a ser homem, explicou ele.
Sentaram-me a um canto, folheei o jornal, comi um saquinho de amêndoas, e a
conversa durava, mas finalmente lá fomos andando para o eléctrico. No fim da
linha entrámos todos na carreira, descemos na praia e aí agarrei-me
instintivamente à mão mais próxima, porque nunca tinha visto o mar, nem tanto
povo junto.
Havia bandas a tocar e gente que dançava em volta dos coretos, foguetes,
gritaria, rodas de cavalinhos, barracas de tiro, de loiça, de brinquedos.
Sinto como se fosse ontem o escaldar do sol da tarde, incomoda-me a poeira,
toma-me por instantes a inquietude de que, distraídos, me vão deixar ali
sozinho. Mas há sempre um que me leva a reboque ou me pega ao colo quando
tropeço. Comer e beber não posso mais, tantas misturas me levaram a fazer de
carne e doçaria, de laranjada Invicta, sardinhas fritas e rebuçados.
Eles cantam, vozeiam, param para mais uma rodada, e eu caminho atrás
estonteado, por entre um nevoeiro que me vem do cansaço e da multidão, do
barulho, do calor, da novidade. Às vezes, toldados como vão, empurram-se,
desafiam-se, fazem gestos de ameaça, mas tudo acaba em abraços e cantoria.
«Meça outra vez, ó senhora! Bote p’ra cá mais iscas!»
166
Dessa tarde resta a fotografia que me lembro de termos tirado e que os anos
amareleceram. Nela estão cinco homens de fato, gravata, chapéu. Dois levantam
no ar púcaros de vinho. Um, de panamá e colarinho duro, severo na pose. Entre
os dois que estão sentados o miúdo que fui: de casaquinho e calções curtos,
boné de jóquei, ar medroso.
Depois devo ter adormecido, porque ao dar conta de mim estávamos no escuro
dum cinema, no ecrã um grupo de índios dançava em torno duma fogueira.
Alguns episódios da minha infância sobem esparsos da lembrança e tornados
opacos pela emoção, um medo, uma vergonha. Outros, porém, levam-me tão
completamente a recuar no tempo que quando os revivo me surpreende a nitidez
dos seus detalhes, a vivacidade dos pensamentos, dos cheiros, o sentimento
de novamente me sentir criança e frágil.
A avó Maria dos Santos regressou da aldeia e o tio José Avelino ressuscita
momentaneamente, porque aos domingos dois dos seus bastardos passam a almoçar
connosco.
Ambos bisonhos, em tudo contrários ao homem que os gerou, respondem ao que
se lhes pergunta baixando os olhos e eu, sem saber porquê, suponho-os
marítimos. Mas não são. O mais velho trabalha na Carris, o outro está
desempregado. Julgo-os irmãos e também aí me engano, porque são de mães
diferentes.
De comum têm o modo brusco como saem mal acabam a comida: levantam-se ao mesmo
tempo e apanham os bonés, vão beijar a face da avó (chamam «avó» à minha avó!),
apertam a mão de meu pai, fazem um aceno a minha mãe.
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Ao passar por mim dão-me um tabefe na cabeça em demonstração de simpatia, e
pela semana adiante nunca mais lhes pomos a vista em cima.
É outra vez domingo. Na mesa está o frango assado com batatas dos dias de festa
e os «sobrinhos» — é assim que são tratados — acabaram de chegar, deram as
boas-tardes à companhia, sentaram-se no lugar do costume.
A conversa vai morosa. Fala-se da carestia e do barco que se afundou à entrada
da barra, dos pescadores afogados, da sovinice do senhor Valente. Fala-se de
doenças e há um silêncio incómodo, porque ambos tossem. Quando meu pai lhes
pergunta se já foram ao médico respondem com evasivas, que se vai à consulta
mas de nada adianta, é dinheiro deitado à rua. Com os remédios a mesma coisa.
Mais tarde, quando se despedem, vejo minha avó esfregar discretamente a face
com a manga da blusa, e ainda eles não terão chegado ao fundo da escada já
os pratos e os talheres são atirados para uma caldeira de água a ferver.
A mim esfregam-me a cara e as mãos com álcool, examinam-me a garganta, receosos
de ver a rabiar nela os bacilos da tuberculose.
Por enquanto pareço-lhes são e salvo, graças a Deus, mas os «sobrinhos» é melhor
que não voltem. Discutem o recado que se lhes vai mandar e acertam numa ajuda
em dinheiro, porque sempre são família, mas passar da porta e voltarem a
sentar-se connosco à mesa, nem pensar nisso. Com aquela tosse o mais certo
é estarem já fracos dos pulmões, e o Santíssimo nos acuda para que o menino
não tenha ainda pegado qualquer coisa.
O «menino» ouve e cala, porque com a pouca idade não tem opinião, só fantasia,
imagina-se como o Alberto que mora na casa pegada, escaveirado, olheirudo,
a tossir de mãos cruzadas sobre o peito e a escarrar sangue num penico.
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No dia seguinte levam-me ao quartel. O enfermeiro que lá dá injecções e atende
os pequenos incómodos dos guardas tem fama de entendido, diz-se que «tomara
muito doutor perceber tanto de doenças como ele.» Despem-me. O senhor Faria,
de bata branca, apalpa-me as costas, os braços, manda-me abrir a boca, mostrar
a língua, acha-me fracote, diz que do que preciso é óleo de fígado de bacalhau.
Pode ser que a receita me tenha salvado, mas o que para mim tinha sido encanto
tornou-se anúncio dum martírio.
Até então eu assistira fascinado ao espectáculo dos lugres que se juntavam
no rio para, sempre num domingo, partirem como acontecia há séculos a pescar
bacalhau nas águas da Islândia e da Terra Nova. Duma vez lembro-me de ter
contado oito, atracados mesmo defronte da nossa casa. Pintados de fresco,
bandeiras no cordame, escotilhas de cobre a brilhar ao sol, mastros
envernizados, os conveses apinhados de dóris.
O bispo vinha em procissão a benzê-los. A seguir a charanga tocava, os foguetes
estrondeavam, a multidão no cais acenava, gritava, as velas subiam. Soltas
as amarras os rebocadores puxavam-nos para o meio do rio, ajudavam-nos a virar
e, um atrás doutro, serenos, silenciosos como cisnes, apontavam à barra para
a viagem de meses.
Voltavam carregados até à linha d’água, cobertos de ferrugem e da sujidade
esverdeada do mar, com as velas esfarrapadas, os conveses atulhados de
barricas, de fardos, dos
sacos de peixe salgado que não cabiam nos porões. Se vinham com um estandarte
preto a meia-haste era sinal de terem deixado mortos no mar.
Para a descarga punham entre o convés e o cais duas pranchas por onde homens
e mulheres se apressavam:
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desciam por uma, segurando os cestos vazios na mão, desapareciam nos porões,
subiam pela outra com eles cheios à cabeça.
Olhando pelo binóculo eu gostava daquela azáfama, acompanhava os carros de
bois que levavam o peixe para os armazéns, de vez em quando descobria meu pai
ao pé da prancha, a controlar a descarga com o livro dos assentos na mão.
Nessa altura a vasta paisagem da cidade, com os seus ruídos, a gente a correr,
os caíques no rio, os vapores, os «rabelos» de velas enfunadas, as calçadas
íngremes, o colorido das casas, as locomotivas no cais da Alfândega, os
eléctricos, a ponte, dava-me a impressão dum mundo só meu, livro que bastava
abrir para que as maravilhas se tornassem realidade.
Mas no dia seguinte ao da visita ao enfermeiro meu pai chegou para a ceia a
bufar de cansado, tirou o boné, o capote, desapertou o cinturão e pôs sobre
a mesa uma garrafa cheia dum líquido espesso. Minha mãe levantou-a contra a
luz do candeeiro para vermos melhor: a cor era quase como a do ouro e pelo
meio boiavam uns farrapos que, explicou meu pai, eram restos dos fígados dos
bacalhaus. Aquilo era o artigo genuíno, cem vezes melhor do que a mistela que
se comprava na farmácia; com os bocados de fígado, como os próprios pescadores
o bebiam para se fortalecer contra os frios e as doenças, é que fazia bem.
Abriu-se a garrafa. O cheiro ultrapassava o repugnante, era um fedor adocicado,
pior que o que deitava a filha da Adélia que morrera de lepra no Verão anterior
e o cadáver ficara dois dias em casa à espera que trouxessem o caixão para
o enterro. Tinham-me obrigado a ir pôr um ramo de flores ao pé de defunta,
mas ao receber em cheio aquele odor de podridão e morte desatei aos vómitos.
A garrafa de óleo de fígado de bacalhau acendeu vívida a recordação e
instintivamente afastei-me da mesa, mas
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nessa noite e daí em diante a minha resistência seria vã. Unidos como nunca
os tinha visto, meu pai sentou-se na cadeira e, segurando-me os braços atrás
das costas, prendeu-me as pernas entre as suas para evitar que esperneasse;
minha mãe puxou-me a cabeça para trás, apertou-me o nariz, meteu-me a colher
entre os dentes e lentamente, lentamente, deixou escorrer aquela peçonha.
Reviraram-se-me as entranhas, mas eles continuavam a segurar-me e de nada valeu
o choro: aquilo era para meu bem, ia crescer e tornar-me um homenzarrão.
Para a estatura de nada adiantou. Na manhã em que fui pela primeira vez à escola
primária quase todos os outros me ultrapassavam em tamanho e eram valentes
bastante para não chorar. Eu chorei, mas diga-se a verdade que com algum motivo.
Comigo pela mão, meu pai entrara na secretaria a perguntar para que classe
eu ia. Em seguida, levando-me pelo corredor com o à-vontade de quem voltava
aos lugares da sua infância, ao chegarmos ao fundo abriu uma porta.
A sala pareceu-me enorme, com as carteiras já quase todas ocupadas por garotos
de ar amedrontado. A professora, mulher idosa, miudinha, vestida de luto,
falava batendo no chão com a cana-da-índia e virou-se no momento em que íamos
a entrar.
Primeiro abriu a boca numa reacção de espanto, o corpo entesou-se-lhe, e de
olhos arregalados soltou um berro, avançando para nós de cana apontada como
uma lança.
Meu pai, surpreso, recuou arrastando-me consigo, murmurando que a mulher era
maluca; eu a chorar por não compreender o que se passava; as pessoas acudiram,
umas pondo-se de permeio, outras confortando a velha que não parava com os
gritos de «Malvado! Malvado!».
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Levaram-nos para o gabinete do director, que explicou ser uma pena, nunca
pensara que D. Adelaide se pusesse daquele modo. Mas ela pelos jeitos não tinha
esquecido que em garoto meu pai lhe rachara a cabeça com um tinteiro e por
certo temia que o filho saísse da mesma pinta. O remédio era pôr-me noutra
classe, ele ia mandar o contínuo chamar a D. Carolina.
D. Carolina, também professora da segunda — eu tinha sido dispensado da
primeira por me acharem «adiantado» — toda sorridente, gordinha, fresca da
pele, tinha ouvido o barulho e não precisou de explicações. Secou-me os olhos
num lenço que cheirava bem, deu-me um beijo, mandou que me despedisse,
agarrou-me ternamente pelo pescoço e assim caminhámos para a sua sala.
Ali nada de medos. Os novos companheiros sorriram quando ela anunciou que por
ser o meu primeiro dia não me dava carteira, mas ia ficar sentado ao seu lado.
A lição continuou, com o abecedário e as contas de somar, matéria pouco
interessante para mim, que lia o jornal e sabia de cor a tabuada.
Indiferente ao que ouvia e confortado pelo modo terno como ela me acarinhara,
nessa manhã nasceu a segunda paixão da minha vida, um amor que iria durar até
ao dia em que três anos mais tarde, ambos lavados em lágrimas, nos teríamos
de separar.
A minha outra paixão era meio secreta, só meio correspondida, contrariada pela
gritaria de minha mãe, que temia ver-me cair do muro a que eu trepava para
espiar Mrs. Cockburn no luxo do seu salão.
Mrs. Cockburn, inglesa idosa duns trinta anos, casada com um negociante de
vinhos e mãe de dois filhos, tinha uma tarde caminhado comigo de mãos dadas
desde a outra escola — ó mãos carinhosas e macias! — até à esquina onde
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os nossos caminhos se separavam. Vejo-a ainda curvar-se para mim,
enfeitiçar-me com um sorriso fulgurante e, depois de me beijar, dizer pela
primeira vez na sua voz melodiosa e doce: Good-bye, José.
A partir daí eu procurava adivinhar-lhe as andanças, atravessando-me
discretamente no seu caminho, na esperança de vê-la corresponder aos meus
sentimentos. Às vezes correspondia e então tomava-me um êxtase que não vinha
apenas da macieza da sua pele, do ouro dos seus cabelos ou do porte elegante,
antes do modo que tinha de me segurar a cabeça entre as suas mãos para me beijar.
Na testa. Uma vez por outra na face. Nunca nos lábios! Enquanto pelos livros
e os filmes eu sabia que a verdadeira paixão se consumaria apenas no momento
em que os nossos lábios se tocassem.
Mas Mrs. Cockburn não compreendia. Interessava-lhe mais o fazer-me beber
grandes copos de sumo de laranja, ao mesmo tempo que ininterruptamente
derramava sobre mim a língua inglesa. E como se entre nós tivesse esvoaçado
o Espírito Santo, não tardou a que eu saltasse da língua materna para a língua
estrangeira com uma facilidade que perturbava quem me ouvia.
Isso, junto à tara de só obrigado me separar do binóculo, a insaciável fome
de leitura, e o pouco gosto que tinha para na escola ou no nosso largo entrar
nas brincadeiras dos outros, valeu-me fama de bizarro. Preferia brincar
sozinho, estendendo no chão um cobertor que amarfanhava para criar uma paisagem
de montes por onde espalhava exércitos. Mares fazia-os com pratos cheios de
água e neles navegavam caixas de fósforos, os meus navios de guerra, com uma
inquieta tripulação de formigas apanhadas em volta do açucareiro.
Tinha castelos e cidades, organizava batalhas de tanques com carrinhos de
linhas, punha comboios que iam duma
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à outra ponta do cobertor, recriando a longa viagem que pelo vale do Douro
nos levava do Porto até à aldeia.
Porém, curioso de nascença, nem todas essas brincadeiras eram inofensivas,
e quando um dia me deixei fascinar pela simplicidade do motor a jacto quase
peguei fogo à casa.
No meu ver o diagrama no jornal era simples e a propulsão a jacto um ovo de
Colombo: construía-se uma câmara explosiva com saída estreita para a
retaguarda, provocava-se a combustão, e de seguida a força dos gases impelia
o veículo com uma força gigantesca. Talvez um dia a técnica viesse a ser usada
em aviões que, inacreditável, voariam à velocidade do som, e o jornalista
comparava o efeito ao de um canhão que se tomasse a sua própria bala.
Pareceu-me interessante e numa tarde em que minha mãe fora às compras deitei-me
à experiência. Com uma tabuinha e quatro rodas fiz um carro; coloquei-lhe em
cima um tubo de metal, fechado dum lado por uma rolha, estreitado do outro
à força de martelo; atei tudo com fio de embrulho, reforçado por arame grosso.
Comecei então a recolha do combustível que me parecera o mais apropriado e,
cautelosamente, fui desandando com um alicate uns quantos cartuchos de
metralhadora guardados numa gaveta, recordação do tempo em que o avô José Maria
tinha sido revolucionário. Tirei-lhes a pólvora, enchi com ela o tubo, repus
as balas nos cartuchos para que ninguém tivesse de se apoquentar.
Trouxe da cozinha a caixa de fósforos. Com a exaltação que conhecem os momentos
decisivos levei o meu engenho para um canto da sala e apontei-o à porta. Mesmo
descontando alguma coisa ao entusiasmo do jornalista era provável que o carro
disparasse em alta velocidade e não me desse tempo de segui-lo. Por isso melhor
seria fixar os olhos na meta.
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Acendi o fósforo, agachei-me, mas não vendo o que fazia o cálculo saiu errado
e o fósforo apagou-se contra o chão. Acendi outro e a olhar de esguelha estendi
o braço, aproximei a chama da pólvora.
A impressão que guardo é de ter ouvido primeiro um cicio, como o do ar que
escapa por um furo. Mas dessa lembrança faço pouca fé, porque a explosão foi
tão violenta que me fez cambalear e deixou envolto numa nuvem de fumo espesso,
angustiado, sem saber como apagar as chamas do carro que lambiam as tábuas
do soalho.
Atirei-lhes um jarro de água e para meu conforto, quando as vi extintas, dei-me
conta de que os estragos eram menores do que supusera na minha aflição. O que
restava do carrinho e os bocados do cano escondi-os no lixo. Lavei as mãos.
A nódoa de queimado no soalho raspei-a e encerei-a de tal modo que só sabendo
se descobriria, mas pelo sim pelo não sentei-me em cima dela, de costas para
a porta quando ouvi minha mãe subir a escada e desandar a fechadura.
Que estás a fazer aí sentado no chão?
Nada.
Pega neste embrulho.
Voltei-me, todo inocência, bom menino sempre pronto a ajudar, desprevenido
para o modo como ela subitamente deixou cair as compras e ergueu os braços
ao céus:
Mãe Santíssima! O que é que fizeste? Olha essa cara, desgraçado! E a roupa!
Jesus! Ainda hás-de ser a minha perdição!
Aos empurrões, torcendo-me o braço, levou-me para defronte do espelho.
Realmente era de meter medo, porque com o choque e a pressa de acudir ao estrago
só me lembrara de lavar as mãos. Mas as pestanas e as sobrancelhas tinham
desaparecido, boa parte do cabelo ficara queimado, o branco dos olhos realçava
no tisnado da cara.
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As pancadas doeram, mas foi o menos. Para o desastre também arranjei desculpa,
inventando que me tinha descuidado ao fazer uma fogueira na rua. Penoso de
facto só o chegar à escola no dia seguinte, com uma aparência que a uns pareceu
nojenta, a outros deu vontade de rir, e durante algum tempo me valeria a alcunha
de «Preto da Guiné».
D. Carolina perguntou como tinha sido e a ela contei a verdade, mas logo me
obrigou a fazer jura de que nunca
mais me meteria a brincar com coisas perigosas. «Estás a ouvir? Nunca mais.»
Eu a acenar que sim, mas no fundo sem levar a sério a promessa, sonhando acordado
como seria bom se ela, para me acarinhar, me deixasse sentar no seu regaço
pelo menos uma vez.
Mrs. Cockburn encontrou-me na rua. Já lhe tinham contado o caso e fez-me erguer
a cabeça. Ainda bem que tinha sido uma coisa de nada, mas era melhor não andar
com traquinices. Depois quis saber se eu alguma vez tinha ouvido cantar Sonny
boy e respondi-lhe que não, que não tínhamos rádio. Ela, sorrindo, disse que
com a cara assim tisnada eu lhe parecia mesmo Al Jolson e um dia havia de me
levar a vê-lo no cinema.
Anos mais tarde, o caso teria uma forma de epílogo. Meu pai e três ou quatro
amigos atardavam-se um domingo à mesa do almoço a discutir política, lastimando
que a ditadura nunca mais acabasse e, conversa puxa conversa, falou-se das
revoluções de antigamente, da coragem dos republicanos, dos perigos que o avô
José Maria tinha corrido.
Por qualquer razão meu pai mandou-me buscar a caixa das balas de metralhadora
esquecida no armário e eu,
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aparentando desinteresse, pus-lha diante. Ele abriu-a, os amigos apreciaram
aquele arsenal, um deles observando desconfiado que alguns dos projécteis
pareciam mais leves do que os outros. Eram. Não eram.
Tanto discordaram que veio a balança da cozinha e ficou provado. Retiraram
então a bala dum cartucho e para surpresa geral — a minha era fingida, mas
não menos convincente verificou-se que lhe faltava a pólvora.
Abriram outros dos leves e não havia que duvidar: aquilo devia ter sido uma
das muitas sabotagens dos fascistas, que usavam artimanhas reles para que as
balas dos revolucionários não disparassem. Na guerra que andava em Espanha
faziam o mesmo. Uma vergonha.
O óleo de fígado de bacalhau não teve o efeito esperado, porque eu crescia
pouco, continuava pálido, tinha umas olheiras fundas de noctívago.
Decidiu-se assim que nos tempos a vir me seria proibido ir à retrete, porque
de certeza eram lombrigas, e na opinião do senhor Faria o mais indicado era
dar-me purgantes. Passava a fazer as necessidades no penico, a maneira prática
de ver se dava resultado.
Pior que uma vergonha, uma degradação, mas sentença sem apelo, porque a família
mandava em mim como numa coisa. De nada servia sentir-me crescido, ler o Grande
Dicionário Lello Universal Ilustrado (dois volumes, seis quilos de papel, nus
de Delacroix e Ingres).
Sentado no penico perdia-me a admirar no dicionário o dorso irresistível de
Pauline Borghese, a irmã de Napoleão, para reviver o extraordinário momento
em que nos tínhamos tornado amantes, e ao mesmo tempo esquecer o temor de que
me fizessem o que tinha visto fazer ao Irilo:
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na rua, uma vez em que ele não parava de se coçar, a mãe baixara-lhe as calças
e depois, puxando com os dedos, tirara-lhe do traseiro uma atrás doutra o que
pareciam enguias esbranquiçadas a rabiar. Eram lombrigas. Ou bichas, como
também lhes chamavam. E contava-se que quando alguém tinha muitas lhe chegavam
a sair pela boca.
O nojo de que semelhante coisa vivesse dentro de mim bastava para agoniar,
mas pior era o vê-las retorcer-se no pote. Umas que nem fios de linha, outras
gordas, do tamanho dum lápis. Eram estas que minha mãe agarrava com um pau
e deitava num frasco que se levava ao senhor Faria para ele dizer que pílulas
eu havia de tomar.
Com o excesso de purgantes emagreci de tal modo que quando meus pais,
assustados, me levaram ao médico, ele mandou que parassem imediatamente com
a tolice, pois as lombrigas eram coisa natural. Tinha apetite? Deixassem-me
empanturrar. Gostava de correrias? Deixassem-me correr, que era bom para os
ossos. O quê? Não gostava de brincar com os outros, nem de jogar à bola? Pois
que me obrigassem, senão ficava raquítico.
Mas comparadas às fantasias que os jornais e os livros acendiam em mim, ou
a magia da cidade vista pelo binóculo, os jogos com os meus companheiros
pareciam-me um divertimento tosco, coisa de fedelhos que só sabiam gritar e
empurrar. Por isso, quando minha mãe me despachava para a rua, eu saía com
a disposição de um degredado, e as mais das vezes, tendo dado uns pontapés
pró-forma à bola de trapos, subia ao muro na esperança de que Mrs. Cockburn
me chamasse.
Pena era que, ocupada nos seus afazeres, ela umas vezes nem sequer me visse,
noutras fizesse apenas um sinalzinho
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ligeiro, mais adeus que convite. E eu punha-me a remoer um sentimento novo,
o do ciúme assassino, imaginando maneiras de mandar atropelar o teso e
desagradável Mr. Cockburn, ou de pedir ao barqueiro com quem ele atravessava
o rio que lhe desse um empurrão e ele se afogasse.
Os filhos voltariam para a Inglaterra ou ficavam entregues a minha mãe,
enquanto eu e ela iríamos de mãos dadas pelo mundo, passando de país para país,
de palácio para palácio, numa sucessão de viagens e de festas. Coisas assim
viam-se no cinema, porque não haviam de acontecer também na minha vida?
Entretanto folheava o jornal, lia assustado os horrores das guerras da
Abissínia e da Espanha, recortava as fotografias das actrizes que se pareciam
com a minha amada.
Essa melancolia pode bem ter sido a causa do segundo grande achaque da minha
vida, pois dum dia para o outro cobriram-se-me as faces e as orelhas com um
eczema que fazia rachar a pele e causava uma comichão infernal. Seria preciso
ir ao médico, mas embora o doutor Pereira gozasse de boa reputação achavam-no
caro, só se ia à sua consulta quando as mais possibilidades se esgotavam. E
as possibilidades eram inúmeras. A começar pela bruxa.
Levaram-me à mulher de virtude, uma anciã embrulhada num xaile, sentada ao
lume numa cozinha que fedia. Mesmo sem me encarar a velha adivinhou logo que
era mau olhado. Benzeu-me, defumou-me, prendeu-me em volta da cabeça uma fita
vermelha, meteu-me a mão direita numa malga com azeite. Depois pôs-se a rezar.
Acabada a reza deu-me uma bofetada, «para espantar o espírito maligno», e
preparou um saquinho de ervas para o chá que eu devia tomar em jejum.
Dali a nada estaria curado. Eram cinco mil réis. Mais cinco para as ervas.
Fôssemos na paz do Senhor.
Fomos, mas não resultou. A segunda bruxa também não. O carpinteiro em quem
um médico encarnara receitou que
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duas noites a seguir me esfregassem o corpo com terra de campa fresca. A avó
Maria, zangada, disse que aquilo eram enzonices e proibiu o tratamento.
Deram-me em seguida um xarope que a farmácia Azevedo, no Muro do Bacalhoeiros,
preparava em segredo e só vendia aos conhecidos, mas esse fazia-me vomitar.
Numa sequência alucinante lembro-me de minha mãe, às escondidas da avó, andar
comigo pelas ruas à procura de carros de bois, a pedir aos donos que lhe
deixassem tirar a baba dos beiços dos animais. Eles perguntavam surpresos para
o que era, diziam que sim, e enquanto os basbaques se juntavam à nossa volta
ela esfregava-me aquilo na cabeça. No princípio achei repugnante, mas acabei
por quase gostar do cheiro que lembrava o do feno e o da palha cortada de fresco.
Poções, pomadas, rezas a São Tadeu, comprimidos, toda a gente conhecia o
remédio certo, um que tinha sido usado pelos parentes ou pelos vizinhos e obrava
curas milagrosas.
Só que a mazela resistia, a minha cara numa chaga viva. Experimentaram uma
receita que alguém conhecia do tempo da Grande Guerra e que era sem falha:
fazia-se uma papa com três colheres de enxofre, outras três de pólvora, uma
de sal marinho e o sumo de dois limões; aplicava-se sobre as feridas,
esperava-se que endurecesse e cobria-se com folhas de couve.
O sofrer que dava era pior que o da doença e mal minha mãe voltava as costas
eu abria o emplastro e com as unhas descolava pouco a pouco a massa que me
afligia como uma máscara de gesso.
Mandou-se rezar uma missa a São Gonçalo. Depois alguém disse que havia um
remédio simples: bastava pincelar o eczema com tinta de escrever; e lá andei
eu uns dias com a cara pintada de azul e um ar tão atormentado que na rua e
na escola já ninguém zombava de mim.
180
Uma manhã no recreio, cheia de pena por me ver a um canto, D. Carolina sentou-me
ao colo; mas martirizado como me sentia nem dei conta que aquilo talvez fosse
amor, só reconheci a ternura, e escondendo a cabeça no seu regaço pus-me a
chorar.
Finalmente foi ela que convenceu os meus pais para que me levassem ao médico,
e o doutor Pereira receitou uma pomada e banhos de mar. A pomada foi-se buscar
à farmácia e logo ali me untaram com ela, uma massa cor de chumbo que cheirava
a azedo; mas banhos de mar no pino do Inverno não era fácil de resolver, porque
a praia de Lavadores ficava longe e não havia carreira.
Falou-se aos vizinhos. O senhor Miguel, que era electricista e às vezes
barqueiro dum caíque que tinha no cais das Freiras, disse que não era preciso
ir a Lavadores, ao Canidelo, a praia nenhuma: banhos de mar tomavam-se ali
mesmo no rio, quando a maré enchia. Que íamos fazer à praia se a água salgada
chegava até Crestuma, que era longe para burro, enquanto por assim dizer nós
estávamos a dois passos da barra?
Pagamento não queria, mas já agora levavam-se mais três ou quatro putos da
vizinhança que sofriam de escrófulas, a ver se lhes fazia bem. A única condição
era que os banhos teriam de ser de manhã cedo, antes de ele ir para o trabalho
e de nós irmos para a escola, o que por acaso calhava, porque era quando a
maré subia mais.
Acordei com os puxões que minha mãe me dava para me enfiar os sapatos e
descobri-me vestido, a tremer e arrepiado. Lembro-me de ir rua abaixo com os
outros, todos em silêncio, o senhor Miguel e meu pai à frente, de cigarro aceso,
dando passadas que mal podíamos acompanhar. Lembro-me também de passarmos pelo
escritório da Ferreirinha e de atravessarmos para o lado do convento; mas
àquela hora
181
ainda fazia escuro e era difícil reconhecer os lugares, os prédios ganhavam
um ar tenebroso ao surgirem por entre os farrapos da névoa.
Descemos até à borda da água pela prancha que servia para a descarga dos navios,
cuidadosos em evitar as fendas que separavam as traves. Cheirava a piche e
a maresia, sob os nossos pés ouvia-se o marulho da ondulação, as embarcações
rangiam ao embater umas nas outras.
O senhor Miguel puxou um cabo e vimos o caíque sair do nevoeiro que entretanto
escondera tudo à nossa volta, tão espesso que escamoteara a cidade e das luzes
só se apercebia um vago clarão. Meu pai saltou primeiro e foi-nos agarrando
um de cada vez. Depois saltou a mãe do André, que eu não tinha visto, e por
fim o senhor Miguel deu um empurrão ao caíque para o afastar do cais.
Lentamente foi até ao meio do rio e parou com a proa apontada à barra, dizendo
a meu pai para remar de vez em quando, não fosse a corrente da maré atirar-nos
para o cais ou contra algum navio.
Agachados no banco da popa tremíamos de frio e de medo pelo que nos iriam fazer,
pois ainda o senhor Miguel não tinha acabado de arregaçar as mangas e já a
mãe do André pusera o filho em pêlo, sacudindo-o e a dizer-lhe que não fosse
maricas e parasse de chorar.
O senhor Miguel agarrou-o por uma perna, segurou-lhe o peito, e chegando-se
à borda mandou-lhe fechar a boca e o nariz. A seguir fê-lo mergulhar. Uma,
duas, três, quatro, cinco vezes. De cada vez que a cabecita aparecia à tona
dava uns gritos de arrepiar e saíam-lhe golfadas de água.
Aterrorizado com aquilo mal dei conta de já estar nu, e quando o senhor Miguel
me pegou esqueci o aviso, mergulhei de boca aberta, com a sensação de que o
meu peito estourava. Morri cinco vezes e da última, para que soltasse
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a água toda, o vizinho e o meu pai penduraram-me pelos pés, dizendo aos outros
que se não se acautelassem lhes teriam de fazer o mesmo.
Raramente voltei a sentir frio igual ao daquela manhã, e como por descuido
só havia uma toalha para nós todos, gravou-se-me para sempre o incómodo da
roupa que se cola à pele molhada.
O tratamento repetiu-se semanas a fio, ineficaz, mas tão traumático que talvez
por causa dele nunca aprendi a nadar. O meu fascínio pela água e pelos barcos,
porém, continuaria intenso, a ponto que numas quantas ocasiões em que por causa
deles me vi in extremis, só o anjo da guarda me pôde acudir.
Sarei do eczema tempos depois, bruscamente, no mesmo dia em que faleceu a mulher
do Santana, uma rezingona que andava de mal connosco e com certeza me deitara
o mau olhado. À cautela, não voltasse o espírito maligno a atormentar-me, minha
avó mandou rezar uma missa pela paz da alma da vizinha e pagou ao sacristão
para que lhe acendesse meia dúzia de velas no altar.
9
Com muito frio e todos os dias chuva, Fevereiro de 1937 corria tão mau que
os jornais escreveram que se continuasse daquele modo se iria tornar o pior
do século.
A ida para a escola era um martírio. Chegávamos a pingar e corríamos para os
fogareiros que havia em cada sala, mas eles nem sequer davam para aquecer as
mãos. O prédio fedia a petróleo queimado, roupa suja, ao mijo dos urinóis,
e porque o recreio se tornara um charco fazíamos ginástica no corredor. Às
quatro não saíamos como de costume a correr e aos gritos, mas voltávamos para
casa desalentados, com o sentimento de que sobre nós pesava uma fatalidade.
Subitamente, ao abrir uma manhã as portadas da janela, dei com o céu dum azul
esplendoroso, o sol já quente, o mundo a renascer. Estremunhado, os meus olhos
demoraram a atentar na paisagem, mas quando os fixei custou-me a crer que não
fosse alucinação.
O rio dobrara de largura, os cais tinham desaparecido, a água dum amarelo
lamacento alcançava as janelas das casas. A corrente, rodopiando em cachões,
arrastava árvores, destroços de barcos, aqui e além viam-se homens a atirar
184
fateixas aos caíques soltos, a ver se os agarravam antes que fossem engolidos
pelo torvelinho. Do lado de Gaia um cargueiro com certeza quebrara as amarras
e, meio deitado, fora abalroar numa esquina. Parecia um fim do mundo, era ao
mesmo tempo assustador e bonito.
Eu não me queria lavar, nem pequeno-almoço, queria ver aquilo, mas minha mãe
arrancou-me o binóculo, e com o seu
modo favorito de me torcer um braço atrás das costas afocinhou-me na bacia.
Depois tive de comer, mas longe da janela para castigo da teimosia e, como
ela repetia, para que aprendesse que não era eu quem mandava.
Meu pai apareceu esbaforido à porta, dizendo que tinha andado com os colegas
a noite toda a acudir a desastres, queria um café bem quente, ia mudar de roupa
e levava-me ele próprio à escola. De barco. Porque pelas ruas à beira-rio não
se passava a pé, a cheia era tão forte que desta vez se temia que chegasse
a alcançar o tabuleiro da ponte de baixo.
Os bombeiros tinham salvado muita gente à força de abrirem buracos nos telhados
e graças a Deus não havia mortos, só feridos. Eu já tinha visto o vapor
atravessado na rua? Pois um outro da Companhia Colonial também desgarrara,
afundando umas quantas barcas e indo embater no cais da Afurada. Uma felicidade
o não ter acontecido nada aos tripulantes, porque os naufrágios quase sempre
davam em tragédia.
Eu gostava de o ver assim, a falar comigo de homem para homem, com as palavras
adultas que conhecia dos jornais e só ele e D. Carolina usavam.
Depois fomos ambos rua abaixo, a minha mão bem presa na sua, e quando virámos
para a Calçada das Freiras pareceu-me incrível o que via: o rio espraiava-se
como um mar, dalgumas casas só espontavam as chaminés, a água cobria até meio
as paredes do convento.
185
No lugar onde eu de volta da escola às vezes me sentava para ver o comboio
passar, tinham improvisado um cais. Os barcos encalhavam na calçada e eram
tomados de assalto pelo mulherio que queria ir às compras, por gente com pressa
de correr ao médico, de acudir a um familiar. Ingleses tesos esperavam vez
de guarda-chuva enrolado, sem olhar para ninguém. Com o seu modo decidido de
autoridade, meu pai avançou por entre o povo comigo a reboque, fez sinal a
um barqueiro e o homem aproximou o caíque.
Houve quem resmungasse, mas tivessem paciência, era coisa urgente, ali
embarcávamos só os dois — e acendendo o cigarro, sentou-se junto de mim à popa,
disse ao barqueiro que nos levasse à Rua Direita, mas desse primeiro umas voltas
para o rapaz ver os estragos, e não se esquecesse também de passar pelo vapor
encalhado.
Veneza tem aqueles palácios recheados de grandeza, os canais espectaculares,
as pontes românticas, a basílica, a praça de San Marco, mas, nem de longe,
nada disso sofre comparação com a paisagem da minha infância.
As gôndolas envernizadas e os caíques humildemente pintados com sobras de tinta
são de mundos diferentes, para não falarmos do casaco esgarçado do homem que
nos levava a remo e, no outro pólo, os uniformes vistosos dos gondoleiros.
Contudo, da primeira vez que lá fui, Veneza decepcionou-me. Aquele navegar
ao rés do casario era facto assente desde tempos imemoriais, continuado sem
surpresa ao longo dos séculos; enquanto na manhã em que me vi a ir de barco
pelas ruas por onde antes caminhara, o meu mundo deu uma reviravolta.
As portas das casas tinham sumido e passado o receio os moradores debruçavam-se
nas janelas a comentar, acenavam
186
adeus aos caíques, alguns que precisavam de ir a qualquer parte estavam
escarranchados nos peitoris à espera de embarcar.
Curiosa sensação a de poder tocar o beiral do mercado coberto e de espreitar
para interiores que doutro modo nunca aperceberia. O caíque passou pelos
armazéns de vinho e pela igreja de Santa Marinha, onde o adro estava coberto
de água. Da casa do sacristão só se via o telhado. De vez em quando uma travessa
deixava-nos avistar o rio, parecendo incrível que nele a corrente fosse tão
forte, enquanto nós deslizávamos como sobre um lago sereno.
De repente, ao virar para a esquina da Rua Direita, apareceu-nos defronte um
muro negro, o casco do cargueiro que atravessado na calçada só por milagre
não tinha deitado as casas abaixo. Contornámo-lo devagar. Do outro lado
podia-se olhar para dentro, via-se tudo: a ponte com a roda do leme, aparelhos
de cobre, os motores dos guinchos, os cabrestantes, os escaleres a balouçar
nos turcos, a cozinha, os beliches.
Por minha vontade ficaríamos ali às voltas o dia todo, mas o barqueiro tinha
pressa de ir fazer outros fretes e meu pai com certeza achou que bastava, porque
lhe disse que virasse e em duas remadas chegámos ao quartel.
A meio da rua havia gente à espera de barco, e ao dar com alguns companheiros
que também não mostravam pressa de ir à escola, fiquei-me com eles. Mas verdade
se diga, menos por causa da cheia ou do ajuntamento de povo, do que pelo
espectáculo que o senhor Luigi dava à porta do seu armazém.
Um homem a chorar era raro, mas vê-lo passar das lágrimas às gargalhadas insanas
e em seguida arremeter contra as paredes com um barrote, metia medo. Pelo menos
a nós, que éramos pequenos. O resto da gente encolhia os ombros e um
187
ou outro brincalhão, exagerando os gestos, imitava o modo como ele gritava
Porca miséria!
O senhor Luigi, italiano de Nápoles — na placa de cobre da sua porta estava
gravado em letras vistosas: Luigi Fornari — Madeiras — era na Rua Direita,
juntamente com o senhor Facal da taberna, o senhor Ramos da mercearia e o
barbeiro, o senhor Pontes, o que se chama um tipo. Gorducho, avelhentado, as
calças presas por suspensórios largos como atafais, o senhor Luigi vivia em
constante agitação e só sabia falar alto. Imprevisível por natureza, se nos
arriscávamos a pedir-lhe um pedacito de pau para um brinquedo, tanto lhe podia
dar para nos correr aos gritos de «Fora daqui, cambada de ladrões!», como para
pacientemente nos instruir sobre as qualidades do mogno ou da balsa.
Agora mal o reconhecíamos e quando por fim, mais calmo, desapareceu no armazém,
fomos atrás dele espreitar à porta. O que vimos deixou-nos assombrados. Como
no imenso vão só se abria uma meia dúzia de frestas, as lâmpadas estavam sempre
acesas; mas em vez de alumiarem as grandes rimas de madeira que às vezes nos
serviam de esconderijo, a sua luz projectava-se sobre um espantoso caos.
No chão havia talvez um metro de água e das rimas apenas ficara uma aqui outra
além. O resto caíra em montões ou flutuava lentamente e os trabalhadores
andavam de calças arregaçadas a puxar para seco as tábuas de mais valia.
O senhor Luigi fora sentar-se nos degraus do escritório, alheado da azáfama
do pessoal, a cabeça apertada entre as mãos. Nós ainda ficámos um instante,
curiosos do que iria acontecer, mas quando ele começou aos soluços e o vimos
enxugar os olhos no lenço, fomo-nos dali pé ante pé.
188
Meu pai, senti eu, tinha mudado. A cheia ainda durou uma semana e ele pouco
tempo depois foi promovido e passou a chefiar o posto da Afurada, nessa altura
uma aldeia de pescadores pobres, agachada atrás das dunas que a abrigavam das
fúrias do oceano.
Notei a mudança quando aos domingos de manhã passou a levar-me consigo para
um longo passeio pela beira-rio. Chegados ao posto, enquanto ele se sentava
a ler o relatório dos guardas que tinham estado de serviço, eu corria a ver
as traineiras que, depois de um dia e uma noite à pesca no alto mar, atracavam
para descarregar na lota.
Quando ele assobiava para que voltasse parecia-me sempre cedo demais. Porque
o burburinho dos pescadores e das peixeiras, os gritos, as pragas, os barcos
varados no lodo, o cheiro do peixe fresco, os anciãos que com infinita paciência
consertavam as malhas das redes, tudo era para mim aventura e mistério.
Às vezes, uma festa, se o mar tinha dado ofereciam-nos a caldeirada.
Cozinhavam-na eles próprios num fogareiro, ali mesmo no convés, e comíamos
todos juntos, sentados no chão em redor da panela.
A meio da tarde meu pai tinha a monótona obrigação de fiscalizar uns quantos
quilómetros de areal e eu, sol ou borrasca, se ele não se opunha ia também
«fiscalizar».
Nos dias de mar forte a praia tomava-se um descampado, o único sinal de vida
eram os grupos de mulheres com os xailes deitados pela cabeça, aninhadas umas
contra as outras a proteger-se do frio e do medo, tensas, silenciosas, olhos
postos no mar onde andavam os seus homens.
Meu pai, que se cobria com uma enorme capa de oleado, abrigava-me nela — as
mulheres agasalhavam os filhos debaixo dos xailes — e ali ficávamos com elas
à espera, não acontecesse alguma desgraça e fosse preciso chamar socorro.
189
Os barcos da pesca, tábuas frágeis puxadas a remo, apareciam um momento no
vazio das ondas, depois na crista, ora a pique ou então de proa para cima como
se fossem voar, bamboleando naquela contradança de vento e água. Os homens
que não remavam víamo-los em pé, num equilíbrio impossível, fazendo
contrapeso. Ou então agachados, presos ao rebordo, recebendo nas costas as
pancadas do mar, às vezes pegando num remo a dois, a deitar mão ao companheiro
que fraquejava.
De través, às arrecuas ou de proa, ganhando metros, perdendo metros, os barcos
iam-se aproximando da praia cheios de cautela, os olhos dos homens atentos
à corrente. Por fim, à força de braço, de jeito e orações, aproveitando uma
onda mais mansa deixavam-se levar por ela e encalhavam na areia.
As mulheres, aliviadas, corriam a segurar os cabos. Falavam pouco, porque ainda
havia trabalho, era preciso recolher as redes, puxar os barcos para longe da
rebentação. Só depois perguntavam se a pesca tinha sido boa, mas às vezes nem
precisavam de perguntar, porque a resposta se lia nas caras fechadas e no
desânimo dos corpos.
Meu pai levava-me dali, para me poupar o desespero daquela gente, mas contando
que para eles o Inverno era uma longa ameaça de fome e de morte. Depois, como
que ensimesmado, falava da sua infância em Esmoriz, da pobreza que também lá
havia; dos naufrágios e do dia em que o avô Zé Maria, de pistola em punho,
enfrentara os saqueadores; da vez em que tinham alinhado trinta e cinco caixões
na praia. Ia-se ao cemitério e na maioria das campas estava escrito «Morto
no mar.»
Eu ouvia-o em silêncio, contente de que falasse, achando que não ficaria bem
se lhe dissesse que a avó já me tinha contado tudo isso e mais.
190
Foi por esse tempo que, de maneira curiosa, o cinema entrou regularmente na
minha vida, se bem que já antes me tivessem levado duas ou três vezes a ver
um filme, o que se tomara então a forma social e agradável de passar as tardes
de domingo. Mas por não haver quem me acompanhasse, ou porque vendo-me sempre
agarrado aos livros talvez pensassem que não valia a pena, o certo é que o
cinema ainda me era novidade.
Por isso espevitei as orelhas no dia em que, ao entrar por acaso na cozinha,
ouvi a palavra matiné e dei com a mulher do nosso senhorio, o senhor Valente,
a cochichar com minha mãe e minha avó. Como não me mandavam embora pendurei-me
na janela, fingindo que me entretinha com o passatempo favorito de olhar para
a cidade pelo binóculo, mas de facto todo ouvidos.
Era por causa da Joaquina, que arranjara namoro. A mãe contente. O pai
desagradado. Porque a rapariga herdaria barcos, casas, bom dinheiro, enquanto
o futuro, um ourives especializado em filigrana, fora o ter poucos meios ainda
por cima era viúvo.
A verdade, porém, é que ela chegara aos trinta e, mau grado a riqueza, talvez
por ter um feitio azedo e ser ossuda, os pretendentes começavam a escassear.
Como parecia sentir pelo ourives verdadeira paixão, o senhor Valente acabara
por ceder. O problema agora era que o homem, que os visitava aos domingos,
tinha anunciado que uma vez por outra gostaria de ir com a namorada ao cinema,
porque não tinha jeito estar a fazer-lhe a corte na sala com a mãe ao lado.
Claro que o ir ao cinema ou dar um passeio não era complicação de maior, mas
sozinhos não podia ser, porque por um nada se perdia a honra e Deus nos livre
de cair nas
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línguas do mundo. Por isso, se os meus pais deixassem que eu, que era
crescidinho e tinha entendimento, lhes fizesse companhia... Evitavam-se os
falatórios e tendo uma criança ao pé nunca um homem se lembraria de começar
com maldades.
Da primeira vez quase não vi o filme. A Joaquina estava sentada entre nós e
para que me entretece tinham-me dado um pacote de rebuçados. Mas logo que a
sala ficou em penumbra a mão do ourives apareceu no ombro da namorada, desceu
vagarosamente por ali abaixo, foi-lhe aos peitos, pousou nos joelhos,
desapareceu na saia.
Eu sabia o que significava perder a honra e até como a coisa acontecia, mas
aqueles preâmbulos eram novidade.
Assim, esquecido do enredo, o meu olhar rodava constantemente do ecrã para
a vizinha, embaraçado de vê-la ofegar daquele modo.
A fita era de guerra. Quando as granadas explodiam o clarão iluminava a plateia
e via-se o ourives um pouco inclinado para a frente, a mostrar que seguia as
peripécias, enquanto a Joaquina, olhos semicerrados, dava a impressão de ter
caído em êxtase.
Aquilo repetiu-se no domingo seguinte e perdi a curiosidade, mesmo quando os
beijos deles, a princípio furtivos, se tornaram apaixonados. E, diga-se de
passagem, um tanto indecentes. Nada que se comparasse aos que eu antes de
adormecer dava a Mrs. Cockburn ou à professora.
Os filmes passaram a interessar-me mais do que o que acontecia à minha volta,
aguçando uma imaginação já de si extrema e, melhor que os livros, obrando o
milagre de abandonar o meu corpo e ir encarnar nos personagens da minha
simpatia.
192
Desse modo desfiz bandidos a murro e pilotei aviões, fui corsário, atravessei
o deserto em longas caravanas, vivi em ilhas tropicais rodeado de beldades.
Sentia-me à vontade em Paris e no Alasca, com igual perícia montava um
puro-sangue ou pegava no leme dum galeão. Infelizmente, no instante em que
«THE END» enchia o ecrã e as luzes se acendiam, via-me devolvido ao mundo
mesquinho, obrigado a atentar na gente rude que gargalhava e cuspia, dando
empurrões para que os deixassem passar.
A fantasia, contudo, levava a melhor e o meu acordar para a realidade era de
pouca dura. É certo que na volta caminhava junto dos namorados, mas isso era
apenas um automatismo físico, pois o meu pensamento refugiava-se em mundos
longínquos, vivendo aventuras tão intensas que eu não distinguia se ia acordado
ou se alguém me deitara bruxedo.
De vez em quando falavam comigo ou a Joaquina segurava-me carinhosamente a
mão, mas nada me fazia sair do transe. Chegado a casa minha mãe achava-me
amarelado, com uma cara esquisita, perguntava se a fita tinha sido das de meter
medo.
A avó, mais prática, repuxava-me as pálpebras para ver o branco dos olhos,
examinava-me a língua, opinando que eu de certeza tinha outra vez lombrigas
e o melhor seria dar-me logo a purga.
Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer,
aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos
impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser
preciso como chaperon aos domingos
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era certo e sabido no Estrela-Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné,
repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático,
chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a
acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada»,
e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma
orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia
morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas
remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por
me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar
ao dia-a-dia onde não era poderoso, nem herói. Nem sequer adulto, sim um
garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho
apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos.
Dor pior estava para acontecer. Pagar o cinema todos os domingos era luxo e
a maioria dos meus companheiros, quase pobres de pedir, teriam visto uma fita,
talvez duas, mas por qualquer motivo o enredo não os interessara e tinham apenas
guardado impressões vagas.
Do que eles gostavam era que eu contasse, e eu, cheio de entusiasmo, atordoado
pela força da minha própria imaginação, nem precisava dos filmes para apoio,
fantasiava uma após outra aventuras muito pessoais. Como tinha ido à África
de submarino e depois percorrido o Amazonas em busca de tribos desconhecidas.
O encontro com Tarzan e a nossa luta contra pretos montados em elefantes.
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A vez em que no castelo de Drácula, escondido num buraco do tecto, presenciara
a terrível cerimónia em que os vampiros bebiam o sangue de miúdos como nós.
No fundo do mar tinha visitado a Atlântida e sabia dum túnel que levava ao
reino dos anões.
Depois da escola ficávamos no largo, eles à minha volta, descontentes quando
a história acabava depressa, pedindo que recomeçasse a do conde de Monte Cristo
ou a dos índios Sioux. Inocente, supondo que os sorrisos eram por se sentir
maravilhados, eu contava de novo, inventava com frenesim.
Por isso o momento foi terrível e mais queria que me tivessem matado ali mesmo
do que sofrer aquele choque. Como de costume tinham-se sentado à minha volta
e queriam ouvir de novo como eu tinha ido à África de submarino. Comecei uma
vez mais por descrever o engenho onde mal se cabia, os motores possantes, os
torpedos, o modo como ele ia mergulhando à medida que os tanques se enchiam
de água. O periscópio ficava à tona e ao pô-lo a funcionar é que eu tinha
descoberto o navio pirata.
Sei que me incomodou vagamente o vê-los acotovelar-se e os seus sorrisos também
me pareceram estranhos, mas lançado na história não via razão para parar. De
súbito, todos ao mesmo tempo como provavelmente tinham combinado, puseram-se
em pé dum salto e, de braços estendidos a apontar-me, começaram aos gritos
de «Al-dra-bão! Al-dra-bão! Al-dra-bão!»
Não tenho lembrança de quanto tempo o martírio durou, porque ao meu redor tudo
se fez o escuro, mas o desmaio deve ter sido breve, pois quando voltei a dar-me
conta donde estava ainda os vi a correr rua abaixo. Já então pouco dado a
companhias, a partir desse dia tornei-me um solitário. Nunca mais brincámos
juntos no recreio e nos dois anos que ainda fiquei na escola, nem as ameaças
do director nem os carinhos de D. Carolina me conseguiram demover.
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Ser o melhor da classe também não ajudava e o meu carácter, todo timidez e
teimosia, era couraça de fraca protecção. Mesmo assim, sentindo
instintivamente que com certeza seria vencido, nessa altura declarei guerra
ao mundo.
Fechava-me em casa a ler, ia ao cinema, vadiava pela beira-rio entretido com
o trabalho dos estaleiros e da estiva, horas parado a ver como os calafates
martelavam a estopa nas fendas dos cascos e a cobriam depois com alcatrão.
Unindo tábuas grossas os carpinteiros construíam pouco a pouco um leme,
enquanto outros, num incessante vaivém, as costas arqueadas a pôr força nas
plainas, afeiçoavam os troncos que se tornariam mastros. Seduzia-me o colorido
das tintas, a forma das ferramentas, não me mandassem sair dali quando montavam
a hélice, uma rodinha de nada que pelos jeitos tinha força para empurrar um
navio daquele tamanho.
Um bota-fora era oportunidade que raro perdia, mesmo que fosse sem festejo,
porque quando os homens retiravam o último calço à marretada e a quilha começava
a deslizar, eu vivia a emoção dum prenúncio de milagre. E o milagre realizava-se
em seguida, quando depois de inclinar e parecer que iria ao fundo, o barco
retomava a direitura e ficava serenamente a balouçar no rio.
Durante a maré baixa apareciam nas margens as aberturas dos esgotos e defronte
delas as gaivotas desciam em voo picado a apanhar o peixe atraído pela sujidade.
Os caíques assentavam no lodo, as amarras dos navios pendiam frouxas.
Espectáculo eram as ratazanas a descer calmamente pelas pranchas até borda
de água. Gordas, das maiores que já vi.
Um dia perguntei a meu pai porque havia tantas com o rabo curto e pelado e
ele respondeu que era de andarem
196
a pescar camarões. Só acreditei ao vê-las eu próprio meter o rabo na água e,
quando um camarão o picava e nele ficava preso, atirarem o rabo para trás com
o gesto experiente do pescador que recolhe a cana.
Mas não era só a beira-rio que me fascinava. De volta da escola raro perdia
o mercado, mais interessante do que seguir direito a casa. Ficava-me defronte
das bancas da carne, surpreso com aquelas metades de animais a pender dos
ganchos, as cabeças de porco, os montes de tripas, sangue por toda a parte.
As padeiras estendiam um lençol no chão e empilhavam sobre ele pães e doces
que eu desconhecia: boroa de Avintes, regueifas de Valongo, sêmeas, moletes,
fogaças polvilhadas de açúcar.
As vareiras gritavam a chamar os fregueses, enquanto as mulheres da hortaliça
esperavam apáticas, como que desinteressadas de vender. Metiam-me pena as
galinhas a cacarejar penduradas pelas patas e desviava os olhos, sempre tarde
demais, quando com uma pancada atrás das orelhas as vendedeiras matavam os
coelhos. Se o animal ainda estrebuchava acertavam-lhe outra, ao mesmo tempo
a rir e a conversar com uma indiferença de carrascos. Passava um homem a vender
água, outro a apregoar grelhas, um terceiro com um macaquinho no ombro e uma
caixa de vidro cheia de caramilos pendurada sobre a barriga. O amolador
anunciava-se com uma flauta. Havia bêbedos e pedintes, guardas, mulheres a
fazer compras, velhos que andavam por ali às voltas porque não tinham outra
distracção, gente vergada sob o peso dos fardos que levavam às costas ou à
cabeça. Parados na sombra e atrelados aos carros, os bois comiam mansamente
canas de milho, enquanto os donos aguardavam que alguém os chamasse para um
carreto.
Por vezes arriscava-me a entrar na igreja, que me parecia colossal, dum luxo
e com dourados que eu supunha fossem
197
os dos palácios. Deus existia, evidentemente, andava por toda a parte e tinha
ali casa, mas as imagens dos santos não despertavam em mim qualquer sentimento
de respeito ou devoção. Bem ao contrário. Metiam-me medo, porque com os seus
mantos coloridos, as tiaras de ouro, os cabelos encaracolados e as barbas
aparadas, davam-me a impressão de actores especados num palco e que dum momento
para o outro podiam reviver.
Havia sempre alguém de joelhos e lá ao fundo, se era hora de missa, tremulavam
velas no altar, o que eu achava bonito. Verdadeiro enlevo, porém, só o senti
da vez em que ao entrar sorrateiro atrás duma procissão, onde sob o pálio ia
um bispo com mitra e báculo, seguido de prelados e acólitos de opa roxa, o
órgão subitamente atroou à minha volta.
Aquela música que eu desconhecia e me causou um sentimento que era ao mesmo
tempo alegria, arrebatamento e plenitude, só podia ser a música de Deus.
O que tinha parecido mudança permanente, fora apenas um intervalo. De novo
a fazer serviço à beira-rio ressurgiu no meu pai o homem colérico que sem dar
satisfação desaparecia dias seguidos, regressando a casa com o ar tresloucado
de quem vinha duma guerra.
As ceias tornaram-se outra vez um inferno, minha mãe a espicaçá-lo com os seus
remoques, ele como antes às ameaças de «desfazer tudo à bordoada». Do modo
como eu o temia não saberia dar-lhe razão ou pôr-me do seu lado, e contudo,
no íntimo, uma voz que nunca antes tinha ouvido sussurrava-me que a culpa não
era toda dele.
Havia ocasiões em que chegava bem-disposto, a fumar, o boné inclinado num jeito
catita. Eu corria a beijá-lo, e contente de o ver assim, certo também de que
a noite ia ser de
198
paz, aguardava que ele pendurasse o capote e se fosse sentar na sua cadeira
para juntos puxarmos as polainas. Um ritual nosso.
Nesse momento Ernestina passava a caminho da mesa, detinha-se um segundo a
aspirar exageradamente pelo nariz como um cão que fareja, e no mesmo instante
eu sabia que a minha esperança tinha sido vã.
Ainda me agachava a desapertar-lhe as fivelas, mas já ambos tinham começado
a rezinga. Ela a acusá-lo de que vinha da pândega e cheirava a puta. Ele a
responder que se calasse ou lhe partia a cara. Ela pondo de mau modo a travessa
da comida na mesa, dizendo que não aguentava mais. Pois se não aguentava, olho
da rua, e a mostrar que também ele estava farto despedaçava um copo contra
o soalho.
Atemorizado, em lágrimas, eu ia sentar-me no banquinho ao pé da porta, pensando
que assim talvez os impedisse de sair. Ernestina a gritar do quarto que se
ia mesmo embora. Fazia a mala e pegava no menino, ele que se arranjasse com
as amásias, porque nunca mais nos poria a vista em cima. Ele a tamborilar com
os dedos, bufava, levantava-se raivoso, desatando aos pontapés à porta que
ela tinha aferrolhado.
De olhos fechados para sofrer menos, eu ouvia-o às punhadas, aos empurrões
contra os móveis, rasgando as cortinas e a toalha da mesa numa fúria de
possesso.
Fora daí!
Era comigo, o aviso de que saísse do seu caminho. E então o ciclone passava,
a porta batia, as paredes estremeciam, deixando-me com a impressão de que
verdadeiramente me sentia encolher.
Sem companheiros, a avó Maria de novo na aldeia, uma mãe neurótica, um pai
louco furioso, uma Mrs. Cockburn
199
que não correspondia ao meu amor, uma professora infiel que também acarinhava
os outros, entre os oito e os nove anos a minha vida era um apanhado de
desencontros.
Havia nela alegrias infantis e seriedade, assombros primitivos, por vezes
indefiníveis momentos de êxtase, como quando o nevoeiro ao abrir desvenda um
prodígio. Bastava uma passagem num livro, a cena dum filme, uma boa palavra
ou o entrever dum gesto de ternura, um nada e o meu mundo logo se coloria.
Alguns desencontros, porém, eram apenas ridículos, como se o destino e o mundo
já então zombassem de mim.
Cheguei da escola, fiz os meus deveres, li o jornal onde tudo são desastres
e ameaças de guerra. Milagrosamente meu pai aparece à hora da ceia, mas
carrancudo, sem uma palavra a ninguém.
Comemos de olhos baixos. Não fosse o gato que empoleirado na cadeira me toca
o ombro com a pata e mia a pedinchar, estávamos ali num silêncio de funeral.
O velho descasca minuciosamente uma laranja, come-a com um ar enfastiado,
arrota, veste o capote, afivela o cinturão, põe o boné e sai porta fora.
Ajudo a levantar a mesa, a lavar a louça, sento-me à janela e sem vontade,
talvez somente para escapar ao silêncio opressivo da casa, anuncio que vou
um bocadinho para a rua.
Minha mãe não responde nem se volta. Faz frio. No largo rondam apenas os cães
vadios que se chegam a apanhar os bocados de pão que lhes atiro. A única lâmpada
espalha uma luz amarelada e em torno do globo de vidro esvoaçam insectos, por
entre eles corta às vezes um morcego.
Melancólico, vou até aos degraus que levam à calçada. Volto atrás. Sento-me
no rebordo do muro. Um instante apenas, porque a inquietude não me deixa admirar
a cidade e a casa de Mrs. Cockburn está às escuras.
200
Vou à viela, onde também não há gente, e hesito se terei coragem de descer
as escadas que levam aos armazéns de vinho. Não tenho, porque sei que por detrás
das grades de ferro das janelas aparece o fantasma de D. Antónia Ferreira,
a antiga proprietária. Nalgumas casas ouve-se conversar. Tento erguer-me até
à janela da forja, mas não a alcanço. Volto ao largo. Tiro os berlindes do
bolso, lanço-os duas ou três vezes, mas aborreço-me porque sem parceiros não
tem jeito.
Subo a um monte de pedregulhos que empilharam ali para construir algum muro
ou aumento de casa, e salto dum para outro, alpinista no Himalaia. Nas fendas
imagino ravinas. Avanço de rastos a evitar os precipícios e bem alerta, não
vá ver-me cara a cara com yeti, o terrível homem das neves. Chego ao cume tomado
dum sentimento de vitória, esqueço a melancolia, estou no tecto do mundo e
a cidade transforma-se num país longínquo.
Mal assente, o pedregulho sob os meus pés balança quando me mexo, mas não cuido
do perigo de me ver despenhar com ele. Faço força dum lado, força do outro,
um perfeito balancé.
Estou naquela brincadeira há tanto tempo que minha mãe não deve tardar a querer
que me vá deitar. A sua sombra perpassa de vez em quando na janela, mas não
assoma. E inesperada mente rebenta um pandemónio: as janelas abrem-se de estalo
com gente a gritar por socorro, pessoas saem de casa a correr desatinadas pelo
largo, uns choram, outros de mãos postas e os olhos voltados para o céu
atiram-se de joelhos, os cães uivam.
É assustador, tenho o sentimento de que sofro duma alucinação e paro o balouçar
da pedra, mas já minha mãe aparece também a dar graças de me ver são e salvo.
Peço-lhe que explique, mas ela não mostra disposição para me atender,
201
os outros ainda menos. O que todos fazem é correr dum lado para o outro como
se tivessem enlouquecido, a clamar que Nosso Senhor tenha compaixão e não nos
castigue.
Das margens do rio e da cidade sobe um burburinho inquietante, os sinos tocam
nas igrejas, ouvem-se sirenes. Sonâmbulo, o Teimoso passa sem me olhar.
Agarro-o pelo braço e ele dá um safanão, mas tenho-o bem preso, só o vou deixar
quando me disser o que é aquilo.
Então não sentiste? — na cara leio-lhe que não sabe se zombo ou estou tolo
de todo.
O quê?
As casas a abanar, o chão...
Tinha havido um tremor de terra e só eu não tinha dado por ele.
10
O quarto dos arrumos ficava nas traseiras e era uma espécie de dependência
da arrecadação que havia nos baixos. Pelo tamanho poderia pôr-se nele uma cama,
mas sem janela e com a porta para o corredor era um compartimento escuro, onde
havia em permanência uma ratoeira armada.
Porque nesse tempo não tínhamos luz eléctrica, entrava-se lá com um candeeiro
e por entre as sombras que constantemente mexiam descobria-se um amontoado
de roupa velha, caixas e cestos, pratos desirmanados, garrafões vazios, coisas
arrecadadas porque «um dia poderiam servir.»
Em prateleiras misturavam-se os boiões de mel e as tigelas de marmelada, potes
de unto, saquinhos de ervas para fazer chá. Sobre uma cómoda a que faltavam
gavetas alinhavam-se frascos vazios de ENO fruit salts, de que desde o tempo
do avô se fazia em nossa casa um consumo absurdo. Era também lá que se punha
o bacalhau e penduravam os presuntos que a avó Elisa nos mandava da aldeia,
o que com o bafio espalhava um cheiro nauseabundo de gordura e salmoura.
204
Proibiam-me de lá entrar, de medo que fizesse alguma traquinice ou me ferisse
com a ratoeira, que de forte que era quase decapitava os ratos que nela caíam.
A verdade é que se me via sozinho ia espiolhar, esperançado de por descuido
encontrar aberto o armário onde eu sabia que estava a caixa com granadas de
mão que, tinha dito meu pai, se um dia explodissem fariam ir a casa pelos ares.
Com um desandador e um martelo tentei algumas vezes arrombar a fechadura, mas
aquilo precisava de jeito e forças que eu não tinha. Por isso me entretive
depois durante algum tempo a motorizar um carrinho de madeira com o maquinismo
de um despertador que achei num canto, experiência que resultou melhor que
a do motor a jacto.
Em busca doutros desafios ataquei então a arca do tio José Avelino, que pintada
de verde escuro e reforçada com tiras de metal me atraía como um íman, tanto
mais que desde que ele morrera nunca tinha sido aberta.
Eu sabia de cor as façanhas da sua vida de boémia e dizia-me que a arca
certamente guardava segredos, pois doutro modo não teria um aloquete tão forte.
Também me parecia suspeito o estar ali há tantos anos sem ninguém querer saber
o que teria dentro. Esconderia uma tragédia? Armas? Seria o caixão de uma das
suas amantes?
Imaginava-a bela e serena, vestida de branco, as mãos cruzadas sobre o peito,
uma coroa de flores na cabeça. Incorrupta, como pertence aos seres
extraordinários. Cuidadosamente eu levantava a tampa, ela ressuscitava, abria
os olhos e em seguida, sorrindo, pedia numa voz suave que a ajudasse a
levantar-se.
A minha fantasia parava aí, talvez pelo cansaço de pensar demasiado no aloquete
e chegar sempre à mesma conclusão de que me seria impossível forçá-lo. À serra
ou com um
205
alicate também o não quebraria, pois além de ser de aço tinha a grossura dum
dedo de homem.
Fechava a porta e saía, aborrecido com a contrariedade, distraindo-me a abrir
gavetas no quarto de meus pais, não para tirar o que quer que fosse, mas pela
simples curiosidade de rebuscar. Intrigavam-me sobretudo as cadernetas da
Caixa, porque me custava a crer que aqueles números escritos representassem
dinheiro.
Por entre os cobertores guardados na cómoda havia bolas de naftalina de cheiro
penetrante, que davam uma impressão de frescura ao tocá-las com a língua, e
numa das gavetas mais pequenas estava uma caixinha com anéis, cordões e um
relógio de bolso antigo, com tampa de prata e pássaros esmaltados.
A chave do aloquete encontrei-a uma tarde, quando ao remexer na escrivaninha
de meu pai peguei num estojo de desenho. O acaso dum movimento brusco fê-lo
cair, abrindo um segundo compartimento onde estava uma chave pequena e
estreita, presa a uma fita vermelha. Tive a certeza de que era aquela, mas
quando a ia experimentar ouvi os passos de minha mãe e com a pressa quase a
deixei cair antes de a esconder no bolso.
Passaram-se dias, não sei quantos, mas deles guardo a recordação de me ter
sentido aflito para ocultar a chave em lugar que ninguém desse com ela. Porque
minha mãe, curiosa como eu, ou mais, rebuscava constantemente a casa em busca
de provas da infidelidade do homem, supondo que ele tivesse esconderijos para
as prendas e os frascos de perfume que com certeza oferecia ao putedo.
O facto de nunca ter descoberto o corpo do delito não a desanimava das pesquisas
e por isso, à cautela, enfiei a chave no folhelho do colchão da minha cama,
um lugar seguro.
206
Para meu mal, seguro demais. Ansioso por saber o que guardaria a arca do tio,
da primeira vez que me vi sozinho corri à procura da chave, mas em vão, porque
levara sumiço. Definitivamente. Tentei doutras vezes, sem resultado, e
davam-me calafrios ao pensar o que me fariam quando descobrissem que eu a tinha
desencaminhado.
No meu desespero, uma noite em que de propósito me tinha deitado cedo, cortei
à tesoura dois ou três buracos no colchão, e enfiando por eles o braço pus-me
a revirar o folhelho até que, para meu alívio, acabei por encontrá-la.
Um sábado, quando minha mãe como de costume perdia horas no mercado a regatear,
fui-me aos arrumos e para ter mais luz puxei a mala para fora. Pesada como
era arrastei-a aos sacões até janela, meti a chave no aloquete em que felizmente
servia, abri-o, mas vítima da minha própria agitação não tive coragem para
levantar a tampa.
Suponhamos, tremia eu, que tivesse alguma coisa nojenta. Ou perigosa. Cadáver
de mulher talvez não, que o peso não era para isso. Mas se fosse um esqueleto?
Ou uma cobra? Se saltasse de dentro uma tarântula, como as que o corsário
Sandokan punha entre os diamantes a protegê-los contra os ladrões?
E se fosse uma armadilha? Levantava a tampa, o rastilho ardia, ainda me dava
tempo de gritar ao ver os cartuchos de dinamite — e então, como no cinema,
pegava friamente neles, atirava-os janela fora e ouvia-os rebentar na viela
com um estrondo e labaredas. Outra possibilidade, mas improvável, porque isso
nas fitas só acontecia aos bandidos, era de eu próprio morrer na explosão.
O receio de que minha mãe aparecesse dum momento para o outro deve ter levado
a melhor sobre os fantasmas com que me assustava: levantei simplesmente a
tampa, mas devagar e olhando de través, não fosse o diabo tecê-las.
207
No primeiro compartimento, um tabuleiro, estavam caixas pequenas, umas
quadradas, as outras redondas ou ovais, algumas picadas da ferrugem. Vi maços
de cartas, cada um atado com nastro de cor diferente. No rótulo dum frasco
estava escrito à mão: «Pó de cantárida.» Outro era de tintura de iodo. Abri
uma caixa ao acaso: tinha aparos. A tampa doutras mostrava um casal a beijar-se
e em letras floreadas uma palavra que depois não consegui encontrar no
dicionário: Préservatifs.
Um punhal numa bainha de camurça. Um envelope grande com retratos de mulheres.
Um baralho de cartas com figuras que pareciam diabos. Uma madeixa de cabelos
num estojo que deveria ser de prata. Lápis. Uma régua e um esquadro. Uma luva
branca bordada com florzinhas.
No segundo compartimento, que ia até ao fundo, só encontrei camisas, mais maços
de cartas e uma pistola pequena, cromada, que parecia de brinquedo mas tinha
balas verdadeiras. Um livro grosso, encadernado. Ao desembrulhar um pano de
veludo azul caiu ao chão uma coisa feita de osso, que logo reconheci e me fez
corar.
O choque dessa descoberta acordou-me para o perigo que seria o ficar ali mais
tempo, e repondo tudo no seu lugar tirei alguns maços de cartas, peguei no
livro e fui-me com eles para o meu quarto, fechando prudentemente o ferrolho.
«Meu amor.» As primeiras que abri começavam apaixonadas, às vezes com frases
que eu não compreendia. Tudo eram carícias e beijos, mas de repente mudavam
para falar do tempo, contavam mexericos, repetiam conversas que ambos tinham
tido. Achei-as banais, muito diferentes das que Napoleão trocara com as suas
amadas.
Além de ter pouco interesse, aquilo não eram as excitações que eu esperava,
os segredos, o «vê-los» na cama como
208
os actores nos filmes. Se bem que esses, meio vestidos, se ficavam pelos beijos
e o que eu queria eram as cenas de verdade. Agora o estarem a escrever que
iam viver numa rua mais perto dele, que iam comprar uma cama com dossel, ou
que o marido da vizinha lhes tinha piscado o olho...
Algumas chamavam-lhe nomes tolos: «Meu bichaninho», «Ferrão adorado», «Nobre
Amadis.» Uma que começava por «Meu querido José Avelino» transtornou-me.
Aquilo era comigo, era o meu nome! A princesa dos meus sonhos ia-se-me revelar
numa carta que por mágica aparecera ali e não era destinada ao meu falecido
tio, mas a mim, que ansiava por descobrir o grande amor.
Amores pequenos ou assim conhecia-os eu, que eram beijar a Marta ou ir de mãos
dadas com a professora ou Mrs. Cockburn. Mas esses, além de me não satisfazerem,
tinham me ferido pela inconstância. A Marta era infiel por natureza, D.
Carolina ora me abraçava ora se punha a gritar comigo, e Mrs. Cockburn, sem
aviso, sem se despedir, tinha regressado a Londres porque começara a guerra.
Uma vez por outra eu subia ao muro com a esperança de, como dantes, a ver no
salão, mas as janelas continuavam fechadas, em parte nenhuma havia sinal de
vida e por falta de rega as flores do jardim pendiam murchas.
Sentia então vontade de chorar, porque aquele abandono súbito se viera
acrescentar aos outros que tanto me doíam. Minha mãe era como se me não
conhecesse, sobretudo quando nos ataques de fúria arremetia cega contra mim,
o seu pião das nicas. Por sua vez meu pai, passado aquele mês e pouco em que
umas quantas vezes me tinha levado para a beira-mar ou ao cinema, tornara-se
um corpo que de manhã eu ouvia ressonar na cama, e à noite um ausente que dum
momento para o outro podia chegar em pé de guerra.
A exaltação daquele «Meu querido José Avelino», escrito pela princesa com quem
eu fugiria para longe, durou o instante dum relâmpago.
209
Não era carta de amor mas de queixas, uma lamúria sobre promessas que ele não
tinha cumprido e dinheiro que ela precisava, uma lista de aflições passadas,
e das que viriam se ele não lhe acudisse pela volta do correio.
As outras cartas não me apeteceu lê-las porque, detalhe a mais detalhe a menos,
certamente eram parecidas. E como minha mãe demorava fui repô-las onde
pertenciam, fechei o aloquete e meti a chave no estojo onde a tinha encontrado.
Voltei ao quarto, porque se me sentia aborrecido com as cartas que tinha aberto,
mas o livro que tirara da arca, esse sim, prometia ser um verdadeiro achado.
Era grosso, como atrás disse, a capa de couro vermelho e letras douradas.
Estranhei que não tivesse o nome do autor, mas o título fixou-se-me para sempre
na memória, e as gravuras que tinha de dez em dez páginas impressionaram-me
a tal ponto que ainda hoje posso descrever o que ilustravam.
Com os deboches que presenciava na viela, os livros que tinha lido e a
simplicidade com que na aldeia a nossa vida se misturava à dos animais — as
porcas que era preciso chegar ao berrão, os braços metidos nas vacas para as
ajudar a parir, os cães que ficavam presos depois de acasalar — eu aos nove
anos já sabia do sexo mais que o preciso. Mas com as ilustrações dos Segredos
dum convento de Paris, era esse o título, foi como se numa única dose me
revelassem o Kamasutra e o Decamerone, a obra completa do marquês de Sade,
os mistérios da bestialidade e os refinamentos do amor no Japão.
Como era de esperar tudo se passava entre freiras e capelães, bispos e duquesas,
mas também entravam cocheiros, criadas de quarto, polícias, limpa-chaminés.
Havia orgias
210
para três, para quatro, em salas cheias de gente, em jardins, em bosques. Cenas
de tortura em masmorras alternavam com cenas de tortura em boudoirs, os corpos
retorcidos em posições incríveis.
A leitura fui-a fazendo aos poucos e às escondidas, como não podia deixar de
ser, com tal avidez que acabei por decorar páginas inteiras. Mas ao despertar
curiosidades que eu não tinha e satisfazendo-as de imediato, os Segredos dum
convento de Paris foram simultaneamente um curso e uma catástrofe. Muito mais
tarde a recordação das suas gravuras e das suas descrições iria por vezes
sobrepor-se a momentos felizes, maculando-os com um desagradável sentimento
de déjà vu e, pelo menos na fantasia, de déjà vécu.
11
Pode bem ser que a memória me apresente agora, como pertencendo a um só, a
repetição dos factos de vários anos, mas estou convencido de que no Verão de
1939, a assídua correspondência entre meus pais e a avó Elisa tomou proporções
tais que, dessa época, me ficou sobretudo a lembrança da chegada do correio
e a de intermináveis conversas à mesa sobre o custo das jeiras, o preço do
trigo, a ameaça de não chover bastante e os problemas levantados pela partilha
dos bens da tia Conceição, uma tia-avó que morrera no Brasil sem filhos nem
testamento.
Finalmente a avó Elisa deve ter mandado a carta definitiva, com o acerto de
datas — detalhe que por razões escuras levava meses a fixar — e nos fins de
Agosto a casa começou a tomar o aspecto desordenado e desagradável dum
acampamento que se levanta no preparo de longa marcha.
Havia um desarrumo de gavetas e armários, roupas amontoadas, cadeiras fora
do seu lugar, pacotes, sacos, provisões que chegavam da mercearia em caixas,
remédios e fortificantes encomendados pela família, ou que iam de presente
para os amigos.
212
De vez em quando minha mãe punha-me de costas contra a parede, mandava-me ficar
quieto e, como se o fizesse a um boneco, media em mim calças, camisas,
camisolas, decidindo que eu tinha crescido, mas mesmo curta ou apertada a roupa
ainda servia. As refeições tornavam-se diferentes, a comida tinha outro gosto
e as malas trazidas dos arrumos estavam empilhadas no desvão da minha janela
favorita, o que me obrigava a ir para a rua quando queria ver bem o rio.
Na agitação da noite da véspera da partida, minha mãe deu-me a escolher entre
duas impossibilidades: ficar imóvel ou tornar-me invisível, exigências que,
mau grado a minha natureza sossegada e uma real boa vontade, eu tinha
dificuldade em satisfazer. Exausta e impaciente, atirou-me ela então com as
grandes ameaças do inferno, da morte violenta, dum futuro de doenças e
desgraças. Eu, a sublinhar uma indiferença que não sentia, saí de casa «como
um homem», fazendo bater a porta e cuspindo para o chão.
A viagem do dia seguinte seria longa. Por vezes, com as avarias, a ronceirice
dos comboios, a demora nas estações, saíamos com noite e chegávamos de noite.
Mas minha mãe preparava-se como se em vez de comida e bebida para três durante
um dia, tivesse de assegurar os víveres dum batalhão em campanha.
Algumas mulheres afobavam-se com ela em torno do fogão, e sobre a mesa, os
armários, as cadeiras, empilhava-se o peixe frito, estava a carne de
vinha-d’alhos pronta para ir ao forno, fumegavam pastelões; bifes e coxas de
frango assado escorriam da gordura; os doces cobertos com panos por causa das
moscas, a bilha da água, o garrafão de vinho, a garrafa-termos para o café,
uma cesta com bananas e laranjas, um melão...
No meu quarto enchi uma mala com os últimos cem números do Pim-Pam-Pum e d’0
Mosquito, alguns livros, os
213
meus automóveis favoritos, a espingarda de pressão de ar, o regimento de
soldadinhos de chumbo, dois barcos à vela para brincar na água do ribeiro,
a minha colecção de navalhas, a colecção de selos, um martelo, um cartucho
com pregos, algumas tabuinhas, a mochila, o binóculo, um caderno de linhas,
os lápis de cor, o tinteiro, o frasco da cola, a lupa e uma folha de cartão,
para o caso de precisar de fazer alguma caixa.
Com tudo arrumado apertei os fechos, estiquei bem a correia, e provavelmente
alguém me deu de comer e me deitou na cama, mas só me lembro de, no escuro
da noite, sentir que minha mãe me sacudia para que acordasse e de ouvi-la dizer
que eram horas de irmos para o comboio.
A nossa partida a caminho da estação de São Bento tinha sempre qualquer coisa
de oriental, e quando uma vez, anos mais tarde, lhe perguntei se naquele tempo
não teria sido mais confortável e fácil chamar um táxi, meu pai limitou-se
a resmungar qualquer coisa sobre «malas demais, volumes demais». Acena
repetiu-se durante muitos anos e ficou-me gravada na memória com a intensidade
dos grandes acontecimentos.
Aprontados na noite anterior, os volumes, os caixotes, os cestos, as malas
e os sacos tinham sido contados por meu pai que, em vez de procurar um táxi
— concordo que no lugar onde morávamos, mesmo hoje seria difícil — apalavrara
um grupo de carrejonas.
Com poucas palavras e incrível presteza, assim que abrimos a porta pegaram
elas na bagagem e deitaram-na à cabeça, as mais fortes carregando duas ou três
malas com um embrulho em cima. Ao minha mãe correr os fechos, já elas desciam
a tosca escadaria de granito que levava do largo à calçada.
214
Meu pai, com a desculpa de que ia indo para não termos de esperar na estação
pela compra dos bilhetes, tinha saído antes. O dia despontava quando chegámos
à beira-rio, e como dali até à ponte o caminho era mais ou menos a direito
e àquela hora quase deserto, distinguia-se meu pai ao longe, as mulheres em
fila indiana atrás dele. Minha mãe, que me levava pela mão, tinha de se acomodar
às minhas passadas, por natureza mais curtas que as suas e manhosamente lentas.
Não eram muitas as vezes que eu podia ver o rio ao amanhecer, e por isso me
deixava arrastar, ao que ela respondia puxando-me com safanões que magoavam
o braço.
Pouco importava. Não era só a vista, com outra perspectiva, nem a proximidade
de tudo o que eu só estava habituado a ver de longe. Ao passar recebia em cheio
os odores que só conhecia atenuados, ouvia ruídos que a distância agora não
abafava, tinha a impressão de que se quisesse poderia tocar o casco dos navios.
O cheiro inconfundível da estopa de calafate, do piche, o fedor dos óleos,
o eflúvio acre da maresia, o odor forte de vinho derramado, mijo dos bois,
madeira serrada de fresco, fruta podre, o fumo do carvão, o cheiro das tabernas
fechadas.
O chape-chape da água a acompanhar o ruído dos nossos passos, chamamentos em
língua estranha, o bater das horas repetido de torre para torre, toques de
corneta militar, campainhas de bordo, o matraqueio dos cavalos e das carroças
a ecoar na rua vazia, o pio das gaivotas, os pregões do alvorecer, os sinos,
os primeiros gritos, o maravilhoso despertar do mundo.
Minha mãe a puxar, eu a atrasar, lá chegámos à ponte, mas ao passarmos para
o outro lado e sobre o muro da Ribeira, tudo mudou. O sol acabava de nascer
e tive a suspeita de que Deus também se sente assim, vagamente decepcionado,
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quando lá do alto aponta o seu binóculo para o mundo e para nossa casa, e tudo
lhe aparece pequeno, quase desconhecido no longe.
Seguimos pela rua de São João, sombria, rodeada de prédios altos, armazéns
fedorentos no rés-do-chão, eu queixando-me dos pés e da estafa, descrente da
promessa de minha mãe de que passada a esquina já se via a estação. Lá estava
ela, realmente, um edifício gigantesco, onde mesmo à distância se pressentia
qualquer coisa da trepidação que acompanha as viagens.
Parte da bagagem que levaríamos connosco no comboio estava empilhada no hall,
guardada pelas carrejonas, enquanto meu pai preenchia as guias de despacho
do resto, a um balcão onde uma tabuleta anunciava em letras gordas: «Grande
Velocidade». Por mais que me esforçasse não conseguia decifrar-lhes o
significado. Iria meu pai com as malas maiores num outro comboio, em grande
velocidade? Ocupada a pagar às mulheres, minha mãe não respondeu quando lho
perguntei, e ao ver que eu insistia mandou-me entreter com os painéis de azulejo
das paredes da estação.
Meu pai regressou mal humorado, a dobrar cuidadosamente a papelada, queixoso
da roubalheira dos caminhos de ferro, a quem tinha tido de pagar uma fortuna
pelos bilhetes e o transporte de meia dúzia de malas. Finalmente, com a ajuda
dum carregador levámos o resto das malas e embrulhos para o comboio,
descobrimos a nossa carruagem, instalámo-nos no compartimento. Depois de tudo
bem arrumado meu pai levou-me a ver a máquina. Visita breve e de valor
pedagógico duvidoso, já que ele apenas me punha a par do evidente: «Os eixos
são de aço. Aquele fumo é o vapor que se escapa da caldeira. A varinha ali
em cima, com a argola de ferro, é para o maquinista puxar o apito. O outro
homem é o fogueiro.»
216
Eu acenava que sim por delicadeza, mas surpreso de que a sua ciência fosse
tão rudimentar e menor que a do Grande Dicionário Lello Universal Ilustrado.
No meio tempo o cais começara a encher-se de povo e voltámos ao compartimento
para não perdermos o lugar.
Se tínhamos fome, perguntou minha mãe. Tínhamos. Quando o chefe apitou para
a partida e a máquina lhe respondeu e o revisor passou a certificar-se de que
todas as portas iam fechadas, estava eu pendurado na janela, tendo numa mão
uma coxa de frango e na outra um copo de limonada. Eram oito da manhã.
O túnel maior começa na estação e é comprido, mas deixei-me ficar à janela
para não perder o momento em que à saída, olhando para trás, eu poderia
descortinar a nossa casa lá ao longe. Dali, em movimento e tão alto que me
imaginava voar, a vista era maravilhosa, com as duas pontes, o rio lá no fundo,
o casario, os navios e os «rabelos».
Infelizmente os meus olhos baralharam-se ao querer ver tudo e, para cúmulo,
a mão de minha mãe puxou-me para dentro e fechou a janela, por onde entravam
nuvens de fumo amarelado e acre. Como num cinema onde o ecrã desaparecesse
de súbito, outros túneis tapavam repentinamente a paisagem, numa mudança tão
rápida de luz e de escuro que sem querer adormeci.
Acordei com os solavancos da paragem no buliçoso entroncamento de Ermesinde.
Pessoas a correr aflitas, carregando malas, esquecendo sacos, a gritar às
crianças e aos velhos para que se apressassem. Vendedeiras ambulantes com
frutas e doces. Contra a cerca que separava o cais da rua um grupo de mendigos
e aleijados, de mãos estendidas à espera de esmola, lamuriavam a pedir
caridade, mostrando as chagas.
O chefe da estação, imponente num uniforme castanho com boné de ramagens
douradas, a bandeira vermelha
217
enrolada debaixo do braço, ia e vinha inquieto, a olhar de vez em quando para
o relógio, dizendo aos carregadores que se despachassem.
O comboio começou uma subida lenta. O calor era já muito. Pelas janelas abertas
entrava um cheiro penetrante de farmácia, o mesmo dos boiões de Vicks VapoRub,
de que havia fartura em casa e com o qual, à primeira tossidela, minha mãe
me esfregava vigorosamente o peito e as costas. Era dos eucaliptos e dos
pinheiros, disse meu pai.
Realmente, dum e doutro lado da linha, os ramos quase batiam nos vagões. Os
dos eucaliptos cheios de bolotas odorosas, cada pinheiro com um corte no
tronco, vermelho como um ferimento, por onde a resina gotejava em malgas de
barro.
Se me sentia mal, perguntou minha mãe, que me achava pálido. Queria comer?
Não, obrigado, não tinha fome. Sede? Não, não tinha. Porque é que não saía
da janela e me sentava quieto, a ler o jornal ou O Mosquito? Mas eu não me
queria sentar, nem ler, nem estar quieto enquanto o mundo passava diante dos
meus olhos.
Quase no alto da serra e enquanto nós ainda subíamos, já a locomotiva e o tênder
desapareciam na primeira curva da descida. O chão era outro, poeirento, pobre,
com grandes covas e montões de pedras dum cinzento azulado.
Ao ler o nome da estação e ver tantos vagões carregados de placas de ardósia,
ouvi claramente a voz de D. Carolina dizer no seu modo costumeiro, postada
no meio da sala e a marcar as palavras com o bater da cana no soalho: «Valongo
é uma terra muito feia e muito suja. Lá é que estão as minas de ardósia. Para
que serve a ardósia, ó brutinho?» E o brutinho respondia: «P’ra fazer as nossas
lousas, mi’sora.» «Que mais, ó tu?» «Telhas». «Para onde é que vão as telhas?»
«Pr’a Inglaterra.»
218
E assim naquela manhã na estação de Valongo, por uma recordação de nada,
entristeci à ideia de que se Mrs. Cockburn não voltasse de Londres eu nunca
mais a tornaria a ver.
Melancólico, desinteressei-me da paisagem, sentei-me a remoer os pensamentos,
mas logo minha mãe disse que em vez de ficar sentado e macambúzio, agora é
que me devia debruçar à janela para ver a ponte do rio Sousa. Por teimosia
não vi a ponte, não vi o rio, não li o jornal, nem quis comer.
Muito depois o comboio parou longamente em Penafiel e sobre uma das portas
da estação vi de novo escrito «Grande Velocidade», também em letras gordas.
Mas a teimosia ainda durava e não perguntei nada a ninguém, sentindo-me
repudiado pelos meus pais e por Mrs. Cockburn, que em vez de tornar realidade
os meus sonhos passava o tempo a corrigir-me.
O comboio partia, parava, tornava a partir, tornava a parar. Com um pano
humedecido minha mãe limpava-me de vez em quando a cara e as mãos, sujas da
poeira e da fuligem da máquina. Debiquei para passar o tempo. Toquei o fado
corrido na minha gaita de beiços. Fiz desenhos. Entretive-me a cortar um
pedacinho de madeira com o meu canivete.
A locomotiva parecia não ter força suficiente para puxar os vagões. O seu arfar
lembrava o dos cavalos que chegavam com as carroças em frente da escola, quase
ao cimo da Rua Direita, mas aí paravam exaustos e ofegantes. Os donos, às pragas
e aos gritos, ajudados por quem passava, agarravam-se às rodas a empurrar,
para que os animais vencessem os últimos metros.
Sorri à ideia de nos ver empurrar o comboio, mas de súbito a velocidade
aumentou, as pessoas precipitaram-se a fechar as janelas e em absoluta
escuridão percorremos o longo túnel da Tapada. Foi um alívio quando a claridade
voltou.
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Sucediam-se as pontes, as estações, os pequenos túneis que não metiam medo.
Numa subida de muitas curvas a locomotiva recomeçou a arfar, soprando nuvens
de fumo maiores e mais espessas. A linha corria agora pela borda de
despenhadeiros que eu olhava com inquietação, porque com as suas paredes
escarpadas, e lá no fundo a água tumultuosa dos grandes sorvedouros, me
pareciam locais de desgraça, propícios aos descarrilamentos com muitos mortos.
No compartimento um homem disse que depois da subida íamos entrar no túnel
do Juncai, o mais comprido, e que às vezes o comboio parava a meio «para a
máquina fazer vapor.» Os outros concordaram, mas acrescentando que isso
raramente acontecia, só quando as máquinas eram velhas.
Formidáveis estrondos acompanharam a entrada no túnel, de novo numa escuridão
que nada deixava distinguir, e pouco a pouco a velocidade foi abrandando, o
comboio parou.
Primeiro houve risos, gracejos de que teria sido melhor não falar no diabo.
Mas os risos depressa acabaram, dando lugar a resmungos, e como as janelas
fechadas não impediam a entrada do fumo acre, asfixiante, começou toda a gente
a tossir.
Para acalmar o princípio de pânico meu pai acendeu um fósforo, mas depois de
ele se apagar a escuridão envolveu-nos de maneira diferente, angustiante, mais
intensa. Desatei a chorar. Minha mãe, tacteando, puxou-me para o colo,
abraçou-me para que acalmasse. O ambiente era aquele que eu supunha preceder
as tragédias, agravado pela falta de ar e a escuridão profunda, o que nos dava
um medo de animais acuados. Foram minutos temerosos, longos de passar. Quando
por fim o comboio retomou vagarosamente o andamento, ninguém suspirou de
alívio, e ao chegarmos à luz as pessoas entreolharam-se, mostrando a palidez
e a tensão de quem viveu um grande perigo.
220
Ao desembocar do túnel, numa paisagem sensacional de rochedos gigantescos e
arbustos ressequidos, reencontrámos o Douro, pouco mais que um fio de água
no fundo do vale. Aqui e além uma vela de «rabelo», barcos varados nos areais,
povoações brancas nas encostas, gente a trabalhar nos vinhedos, que a partir
dali pareciam estender-se por toda a parte.
O revisor voltou a passar, minimizando com gracejos o medo e o desconforto
que tínhamos sentido. Não vinha controlar os bilhetes, disse ele bonachão,
mas saber quem desejava almoçar na Régua, para da estação seguinte telegrafar
as reservas.
No nosso compartimento ninguém queria. O restaurante tinha fama de caro e como
o comboio demorava lá menos duma hora, nem sequer dava tempo para se comer
com sossego. Já agora que passava do meio-dia e se falava de comida, abriram-se
os farnéis, tiraram-se as toalhas e os guardanapos, desarrolharam-se as
garrafas, encheram-se os copos. Indiferentes aos solavancos, de estranhos que
tínhamos sido, num nada estávamos ali a comer em família, pegue lá este bife
e dê-me um bocado desse presunto, prove o nosso vinho, beba deste que também
não é mau... Uma mulher que levava um bebé choramingão desabotoou o seio, deu
o peito à criança, cobriu-os ambos discretamente com um lenço e continuou a
comer.
Quando o comboio entrou na Régua íamos almoçados e fartos. Os homens desceram
para o cais a estender as pernas, a discutir e a fumar. Corri a espreitar o
restaurante, onde empregados de fardeta branca e galões dourados se apressavam
a servir uma gente tristonha, vestida de roupa escura, que viajava em primeira.
Ao longo dos vagões iam e vinham as vendedeiras a apregoar água, café, fruta,
bolos de arroz, «rebuçados da Régua».
221
Passageiros apressados na muda de comboio, chamando-se uns aos outros, não
fosse algum perder-se no rebuliço. Cegos a prometer a sorte grande da lotaria.
Vendedores de jornais, roucos de gritar. E fora da cerca, como em quase todas
as estações, a chusma de pedintes.
O chefe da estação apitou e houve uma correria, mas era só sinal para que o
revisor fosse avisar os clientes do restaurante que estava quase na hora. Pouco
depois apareceram eles, alguns ainda a limpar os lábios, outros a acender os
cigarros, e o comboio partiu.
Mau grado o alegre colorido das vinhas, o panorama aparecia torturado e a linha
esgueirava-se por momentos entre colossais muralhas de xisto, para logo voltar
à borda do rio. Apareciam com menos frequência as aldeias. Aqui e além uma
casa de rico, um nome pintado em letras grandes a assinalar uma quinta, raras
igrejas.
Montes escalvados, onde muitos anos antes a praga das videiras desfizera
riquezas, histórias que eu tinha ouvido contar e eram agora repetidas,
comentário ao filme mudo que se desenrolava à minha frente. O calor tornara-se
implacável e como a água das bilhas acabara, eu próprio ia matando a sede com
golos de vinho tinto. Nas estações a gente parecia amodorrada e mais pobre.
Passámos o Pinhão e o Tua, dois infernos àquela hora. Mais adiante outro longo
túnel, descobrindo-se ao fim dele, no rio, o Cachão da Valeira, lugar de tantas
mortes e naufrágios que as pessoas ao avistá-lo fizeram o sinal da cruz.
Tão devagar avançava agora o comboio que nem sequer se ouvia o matraquear
ritmado das rodas nos carris. Excitado, vi aproximar-se a ponte da Ferradosa,
para mim lugar mágico e espécie de fronteira, porque não somente se atravessava
o rio, mas desde os primeiros anos me tinha convencido de que do meio dela
se avistava a nossa aldeia.
222
Ilusão que meu pai, por cansaço, não refutava, e que eu criara um dia, ao ver
dali um monte que me pareceu familiar.
Pouco a pouco a paisagem ia-se tornando mais erma, mais solene, grandes aves
negras descreviam curvas lentas contra o azul do céu, nas encostas aparecia
por vezes um burro solitário atado a uma oliveira.
Faltavam muitas horas para chegarmos ao nosso destino, mas não sei porquê
sempre ressentia ali uma estranha mudança, como se o simples atravessar do
rio augurasse a proximidade dum paraíso. Se bem que desconhecida, a razão deve
ter sido funda, porque quando lá passo hoje, aquele ar, o chão, as cores, o
arvoredo, fazem ainda ecoar dentro de mim a mesma felicidade e euforia.
Antes de entrarmos na estação do Pocinho, onde quase todos íamos mudar de
comboio, o compartimento revolucionou-se. Dos porta-bagagens e de sob os
assentos foram tirados os pacotes, as cestas, as malas. Umas amontoadas sobre
os bancos e no chão, outras no corredor, perto da porta, para que hão houvesse
demora ao desembarcar.
As pessoas arrumavam os seus pertences, ajudavam a passar a tralha,
desejavam-se boa-viagem. Eu, para não estorvar, tinha sido posto em pé em cima
do banco. Mal o comboio parou meu pai saltou com as primeiras malas para o
lado oposto ao cais, quase dois metros de altura, e em seguida um estranho
pegou-me pelos sovacos e fez-me baixar como se eu fosse um fardo.
Num abrir e fechar de olhos toda a gente tinha descido e, no receio de não
conseguir lugar, corria por entre os carris e os dormentes para o pequenino
comboio de via estreita da linha do Sabor.
Meus pais deixaram-me de guarda ao que não podiam levar e devo dizer que com
alguma apreensão me vi sozinho, pois nada garantia que, se o outro comboio
fosse partir, eles
223
tivessem tempo de me vir buscar. Aflições ilusórias de criança, em nada menores
às que depois vêm com a realidade adulta.
A carruagem era um forno, o povo muito. Passou mais duma hora antes de as
mercadorias serem transbordadas aos ombros dos carregadores do comboio do
Porto para o nosso. Por razão que não sei íamos agora em primeira classe e
o peluche do assento, desagradavelmente quente, colava-se às minhas pernas
nuas. Um samaritano ofereceu-nos água da sua bilha. Irritados com a espera
alguns passageiros tinham-se apeado, mas os mais velhos voltaram a sentar-se,
queixando-se do calor e da pouca vergonha de nos obrigarem a ficar ali a assar.
O silvo frouxo da locomotiva fez rir. A troçar do modo ronceiro do comboio,
os rapazes que passeavam no cais puseram-se a acompanhá-lo a passo, só subindo
antes da ponte com que de novo e pela última vez se atravessava o Douro. Mas
no começo da encosta fronteira voltaram a descer, alguns dando-se mesmo o tempo
de mijar e, subindo a corta-mato, aparecerem depois como por mágica na próxima
curva antes de o comboio lá chegar.
Era tal a braveza do sol e a secura dos montes e do plantio, que dava a impressão
de que a qualquer momento poderia rebentar um incêndio. O suor corria nos
rostos. Havia gente a abanar-se com leques e jornais, enquanto outros,
derreados do calor e da viagem, dormiam de boca aberta.
Minha mãe tirou da bolsa um espelho, para que eu visse como de tanto ir à janela
se me pusera a cara que nem a dum carvoeiro. E porque na retrete não havia
água e a nossa tinha acabado, lavaram-me com o vinho branco duma garrafa que,
por ter estado ao sol, aquecera tanto que não prestava para beber.
Em Moncorvo, com carregos e descarregos, a paragem também foi longa. Depois,
quando já tudo parecia pronto,
224
desengataram a máquina que para surpresa geral partiu sem nós, mas retornou
por outra linha e foi parar junto do reservatório para meter água.
Aquilo era mau agouro, comentou um senhor de idade. A subida puxava, mas do
Pocinho até ali eram só doze quilómetros. Ora se a «bicha» com tão pouco já
perdera a pressão, ele, que ia para Miranda, estava a ver que só tarde e más
horas chegaria a casa.
Os outros contradisseram-no. Com certeza era do calor ou algum cano rebentado,
coisa de nada. Atrasos grandes, já há muito tempo que os não havia. O senhor
idoso discordou. Dois meses atrás, numa viagem que tinha feito a Coimbra, além
de ir atrasado o comboio chegara a descarrilar. E isso na linha do Norte, a
mais importante do país.
Entretanto a máquina fora de novo engatada e retomámos a marcha, lentamente,
embora o terreno fosse plano.
Vejam-me esta pachorra! — explodiu o senhor, tirando o relógio do bolso e
fazendo um gesto para a janela a mostrar que íamos a passo de boi. — São quase
as sete! Se fosse à tabela já eu estava em Miranda e farto de estar!
Para mim, de tão conhecida, a paisagem não guardava surpresas. Feliz,
confortado, ia-me certificando de que tudo era o mesmo, tudo estava no mesmo
lugar: a serra do Reboredo, os montes das minas de ferro, uma casa aqui, um
casebre além, uma figueira, um olival, as cruzes de pedra nas encruzilhadas.
Soletrava os nomes das estações. Um carro de bois parado, os olhos dos animais
cobertos pelas tiras de couro que os protegiam das moscas e lhes davam um
aspecto marcial. Chocalhos dum rebanho invisível, que de repente surgia por
detrás dum montículo.
Não era precisa a agitação de meus pais, aquela azáfama de tirar malas e
levá-las para a plataforma da carruagem, as despedidas, o pedir aos outros
passageiros que depois lhes
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alcançassem o resto da bagagem pela janela — eu sabia que estávamos a chegar.
Passámos as primeiras casas de Carviçais, a passagem de nível onde havia gente
a acenar, a escola, a oficina do ferreiro, a padaria, a casa do senhor Queiroz.
O andamento foi abrandando, a locomotiva deu uma apitadela, e a soprar fumo
por entre as rodas parou na nossa estação.
Ao parar o comboio, a primeira coisa que os meus olhos procuraram foram as
nossas bestas. Elas lá estavam, presas às argolas dum muro, cada uma com a
sua albarda atapetada, mesmo as que só levariam carga.
O Ti Serafim acenou ao ver-nos e antes de me dar conta já ele me tinha puxado
da plataforma da carruagem e apertava num abraço carinhoso. Encostei-me à
parede da estação para não estorvar a pressa do desembarque e num pronto estava
a bagagem no cais, enquanto mais longe os carregadores iam tirando do furgão
o resto das malas e das cestas. Finalmente meus pais desceram, foi o momento
dos abraços, das boas-vindas, das perguntas se tudo corria bem, se todos
estavam de saúde, se nos últimos dias tinha chovido.
O chefe apitou, o maquinista respondeu, e eu, que não tinha força para muito,
ajudei também, levando para fora os embrulhos pequenos que iriam nos alforges,
mas parando de vez em quando para ver como o comboio se tomava pequenino e
desaparecia no longe.
Mesmo com a ajuda do pessoal da estação, o pôr das cordas, o carregar,
equilibrar e arrochear de cinco bestas, os agradecimentos e os adeuses
demoraram-nos ali um ror de tempo. Mas ao cabo o ti Serafim escarranchou-me
sobre a albarda da burra mais pequena, ajudou minha mãe a subir para a
cadeirinha doutra burra, segurou o estribo para que
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meu pai, que era alto e pesado, não caísse ao montar a mula. E em vez de montar
comigo, ele próprio ia a pé, sabendo quanto eu gostava de cavalgar sozinho.
Saímos da estação em fila e assim seguiríamos até casa, quase duas horas de
montes e vales. Meu pai à frente, minha mãe atrás dele, o ti Serafim levando
a minha burra à rédea, um cão vadio a quem ele dava de comer e se lhe afeiçoara
e, a fechar a marcha, as cinco burras da bagagem.
No planalto o sol baixo ora alongava desmesuradamente as nossas sombras, ora
as fazia arredondar, um espectáculo. Porém, o que me alegrava como um encontro
feliz era voltar a aspirar os cheiros fortes do fim da tarde quente, quando
as resinas se evaporam das estevas, do rosmaninho, do tomilho, da alfazema,
das mil plantas de que ainda hoje desconheço o nome.
No começo da descida apareciam à nossa direita as primeiras filas de sobreiros,
alguns pinhos. Do lado esquerdo a vertente cheia de matagais e fraguedos onde
os lobos se abrigavam. Eu fechava os olhos, não de medo nem de sono, mas para
uma brincadeira que o ti Serafim me ensinara. Quanto mais tempo os mantinha
fechados, mais real se tornava a sensação de que a burra caminhava para trás.
A conversa de meus pais com o ti Serafim soava irreal, as vozes ganhavam um
timbre diferente, pareciam distantes, inarticuladas como o falar dos papões.
Então o medo fingido tornava-se verdadeiro, eu abria os olhos a assegurar-me
de que íamos juntos, mas não tardava a recomeçar.
Nos pinhais o cheiro era outro. No vale, outro ainda, porque no fundo onde
murmurava o ribeiro crescia a hortelã, a macela, o manjericão, e os seus olores,
misturados com o sem número de perfumes dos pomares e do mato, entonteciam
as abelhas que revoavam à nossa volta. Entonteciam-me a mim. Eram a marca do
meu paraíso de menino, lugar
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de harmonia e paz, onde os perigos mais temerosos eram as trovoadas secas e
os incêndios. Para o resto havia salvação, com muito pedir a Deus até a morte
se podia adiar.
Outro monte, outro vale. Apeámo-nos sequiosos, a beber a água duma nascente
que brotava das fragas e caía num charco onde coaxavam rãs. Durante muito tempo
o caminho seguiria como por entre duas paredes, sombreado e fresco. Depois
viria a ponte. Um pouco antes dela, numa volta e só por um instante, a aldeia
apareceria encarrapitada na encosta, olhando bem distinguia-se a nossa casa.
Distraído ou a atentar noutra coisa, dessa vez escapou-me e de súbito estávamos
na ponte. Com a canícula o ribeiro levava pouca água, mas as suas margens
cobriam-se de juncos, de canaviais, de fetos, silvedos, e ao redor, sem vento
que os fizesse mexer, os espantalhos das hortas davam a impressão de gente
que olhava a nossa passagem.
Como dali para cima era caminho conhecido, pedi que me deixassem ir à frente.
A burra, porque o meu peso lhe não fazia mossa, mal lhe toquei com os calcanhares
desatou em correria, só parando à porta da minha avó.
Entre amigos e família — família éramos quase todos — havia sempre muito povo
à nossa espera. Na minha recordação o momento da chegada é uma mistura de
alegria e susto, felicidade e desconforto.
Ainda a burra se não tinha aquietado já os braços se estendiam para mim, e
em vez de me deixarem escorregar da albarda para o chão, como eu gostava,
erguiam-me no ar, afogavam-me com beijos e abraços, os homens passavam-me para
as mulheres, as mulheres para os homens. Se eu julgava que já bastava e me
iam deixar em paz, logo outros me agarravam.
Para escapar corri à procura de minha avó, modelo de serenidade. Nessas
alturas, porém, também ela era diferente,
228
aos abraços e aos beijos juntava lágrimas que eram de regozijo, mas me
mortificavam por supô-las dalguma pena oculta. Com a chegada de meus pais tudo
recomeçou, mas finalmente as burras foram levadas para a nossa porta e, com
muitas mãos a ajudar, descarregadas num pronto.
Que mais me ficou? O banho na varanda, numa tina de água fria. O cheiro dos
lençóis de linho e o da palha fresca das enxergas. Os cachos de uvas do ano
anterior, pendurados para se tornarem passas. Uma gaveta com brinquedos
esquecidos. O gosto da água bebida por uma pucarinha de barro. Correr de nossa
casa para a casa da avó e ao abrir da porta da rua aspirar fundo, por gosto,
o odor conjunto dos estábulos, das pipas vazias, das talhas do azeite e das
arcas da salmoura, dos toros de pinho, da resina das estevas, da fuligem secular
entranhada em paredes seculares.
Pequenino como eu era, sentir — com que misterioso sentido? — que ali, numa
ombreira de janela, num corrimão de escada, nas lárias enegrecidas pelo fogo
da cozinha, se mantinha secreta mas viva a marca das gerações, a lembrança
de todos os avós que como eu tinham também sido netos.
De mangas arregaçadas minha avó atarefa-se em volta da lareira. A mesa está
posta. Meus pais entram e sentam-se, exaustos. O ti Serafim vem de dar a ração
às bestas e de as levar à fonte, senta-se também, bufando de cansado.
Lembro-me de comer arroz de frango, doce de laranja, e de minha avó me pegar
ao colo. Daqui a nada vão chegar as visitas. Vagamente, como através duma névoa,
vejo os gatos em volta do borralho, vejo uma pinha meio queimada donde sai
um fumo azulado, um lampião a bruxulear, uma aranha a fazer teia num canto.
Depois tudo se esbate, não atino onde estou. Em murmurinhos a conversa é sobre
o custo das jeiras, o preço do trigo, a chuva que não veio. Morto de sono
fecham-se-me os olhos, não sei de viagem nenhuma, tenho a impressão de ouvir
minha mãe ler uma carta.
12
Desde a nascença, e por mais razões do que as que tenho para o explicar, a
aldeia entranhou-se em mim. As casas e as pessoas, os animais, os cheiros,
a música dos chocalhos, os sinos a tocar à reza, o gemer dos carros de bois,
os montes coroados de pinhos e as encostas que ao longo do dia mudavam de cor,
ela era um todo harmonioso, aconchegado, imutável.
Além de paraíso oásis de paz, pois com as duas avós em casa, o ti Serafim,
e vizinhos que constantemente entravam e saíam, meus pais não se podiam dar
a zangas. Às vezes de noite ouvia grunhidos indistintos, abafados pela grossura
das paredes, mas confortava-me dizendo que não podiam ser eles, com certeza
eram os cães a zaragatear na rua.
A lavoura dava trabalho de sobra a todos, menos a meu pai, que nunca se
recompusera do choque de na sua juventude ter rebolado com o arado ladeira
abaixo e pouco mais fazia que podar uma ou outra oliveira. O resto do tempo
passava-o na rua a conversar, ia à caça com os amigos ou encafuava-se com eles
na taberna.
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As mulheres lidavam na casa e no campo, o ti Serafim chamava a si o que era
pesado. De manhã cedo ouvia-o aparelhar os animais e depois, cerrando os olhos,
esperava que subisse as escadas e entrasse no meu quarto. Eu a fingir que
dormia, ele a fingir que se ia embora sem me acordar, mas chegado aos pés da
cama puxava o cobertor com um safanão.
Ríamo-nos ambos, ele abençoava-me, eu dava-lhe os bons-dias, e num pronto
estava vestido, borrifava a cara com água. Comer não queria, porque levávamos
merenda para quando nos desse a fome, e então chegava o momento de nos pormos
a caminho: ele trazia uma burra para junto da escada e quando a albarda ficava
à boa altura eu deixava-me escorregar, com a ilusão de que era um cavalo e
o montava como faziam os cowboys, saltando do chão.
Íamos lavrar a vinha ou o olival, às vezes para a horta até ao sol-pôr. Naquela
monotonia de abrir sulcos e amanhar a terra, eu imaginando-me também lavrador
quando ele me deixava ir sentado no arado, ou me dava um sacho dos mais pequenos
para que também cavasse.
Se o calor era muito mandava que me fosse refrescar na ribeira, mas tivesse
cuidado com as cobras e os lacraus. Sozinho, descalço, metia-me na água que
nem sequer aos joelhos chegava e ia-me a explorar.
Qual Amazonas! A selva era ali! A catarata de metro e pouco ao pé do moinho
rugia mais forte do que se dela se despenhassem as águas do Nilo. A qualquer
momento poderiam saltar leões dentre os fieitos e os juncos, as rãs a nadar
eram os meus crocodilos, mais adiante conseguia ver no alto das árvores a cabana
onde Tarzan morava.
Com o sol a desaparecer ti Serafim vinha sentar-se comigo nas pedras da margem.
Lavava a cara e as mãos, batia com o chapéu contra um tronco a sacudir-lhe
o pó, e então
231
era sempre uma surpresa: sem eu dar conta ele tinha colhido uvas, ou peras,
ou amoras, passava-as pela água, debicávamos até que chegava a hora de
aparelhar as bestas que pastavam na relva e voltarmos para casa. Às vezes
comíamos um melão — doce, perfumado que ele abria com uma navalha de cabo de
osso que eu invejava e mais tarde me daria de presente.
Paz que se foi para sempre, sabores que nunca voltaram a ser os mesmos.
Ao contrário de na cidade, eu na aldeia deixava de ser solitário. É certo que
ainda me perdia nos livros e no jornal, que chegava com três dias de atraso,
agora impressionante pelas notícias da guerra e as fotografias de cidades em
chamas, de aviões a lançar bombas, de longas filas de gente em fuga.
Mal ia para a rua os meus companheiros de brincadeira, que eram fiéis, se não
estavam à espera apareciam como por mágica ou chamados pela Aida que,
amorachada de mim, me espiava os passos.
Fazíamos cabanas, jogávamos o pião, à malha, às escondidas. Se alguém nos
chamava para uma ajuda corríamos alegres a esbagoar feijões, a apanhar palha,
a cortar abóboras em grandes pedaços para a vianda dos porcos. Uma burra
emprestada bastava para termos um regimento de cavalaria e, dois ou três
montados, o resto correndo atrás, íamos a trote pelos olivais com o entusiasmo
de cossacos.
Contudo, e tristemente, amigos de verdade que éramos, nunca partilhei com eles
aquela parte de mim onde guardava as alegrias mais fundas. Não os maravilhei
com histórias, nunca lhes contei como tinha ido à África de submarino, ou que
tinha visitado a Atlântida e o castelo de Drácula.
232
Quando me perguntavam como era o cinema, de que eles só tinham ouvido falar,
respondia-lhes que era bonito, muito grande, viam-se as coisas acontecer como
se a gente estivesse a olhar por uma janela.
Apertava-se-me o peito, porque talvez pensassem que mentia, sabendo que mesmo
se eles um dia fossem à cidade não se poderiam dar o luxo de ir ver um filme.
Então, por momentos, erguia-se entre nós o muro invisível da desconfiança,
e como no pesadelo que nalgumas noites ainda me torturava eu ouvia-os gritar
contra mim: «Al-dra-bão! Al-dra-bão! Al-dra-bão!»
Felizmente, de carácter menos rude que o dos meus companheiros da escola, se
não acreditavam no que eu lhes dizia também não zombavam de mim, e passado
o relâmpago da dúvida começávamos outro jogo. Ou sentávamo-nos à espera que
o senhor Pinto, que tinha uma loucura mansa e vestia o uniforme esfarrapado
que usara na Flandres durante a Grande Guerra, aparecesse à varanda e
apontando-nos a bengala começasse a gritar: «P’ró outro lado, caralho! P’ró
outro lado!»
Fingindo que escapávamos a um perigo, deitávamos a correr para o adro da igreja
à procura dum medo. Se era hora do angelus, o braço de D. Maria Clara aparecia
fantasmagórico, envolto em seda preta, a puxar a corda que, da janela
entreaberta do seu casarão, alcançava até à torre da igreja.
A vista daquele braço que ia e vinha, incorpóreo, descarnado, junto ao som
lúgubre do sino que tocava à oração, deixava-nos arrepiados. E tremíamos à
ideia do que poderia acontecer e nos faria fugir: acabado o angelus ela às
vezes abria mais a janela e cadavérica, toda de luto, a cabeça
233
coberta por uma mantilha de renda, chamava-nos com a sua voz de falsete que
parecia de além-túmulo.
Pernas para que vos quero, O susto era maior que a tentação das bolachas que
ela nos queria dar, e como um bando de pardais espantados fugíamos cada um
para seu lado, juntando-nos umas vezes à porta da taberna, outras defronte
da casa de D. Clarisse ou na forja do ti Custódio ferrador.
Entroncado, torto das pernas, o cabelo grisalho em caracóis e os olhos azuis,
um bigode farfalhudo, o ti Custódio tinha connosco paciência de santo.
Podíamos puxar o fole e mexer na ferramenta, ficar perto a ver como ele, com
uma espécie de formão, desbastava os cascos dos animais para lhes pôr
ferraduras novas. Deixava-nos segurar as patas das burras mansas e garantia
que os cravos só lhes doeriam se tocassem a carne. Mas não tocavam, que disso
se encarregava ele, espetando-os de viés, rebatendo-os depois contra o casco.
Mostrava-nos como o ferro ao rubro amolecia de modo que bastava um toque do
martelo para logo se dobrar. Limava, aparafusava, soldava, cosia cilhas,
cabrestos, por seu gosto podíamos ficar ali o dia inteiro e fazer o barulho
que quiséssemos, que nunca nos impontaria. A mim chamou-me um dia e que me
lembre foi ele o primeiro que me mostrou as botas que calçava:
Fê-las o teu avô António, que Deus guarde. Têm bons anos e olha que não se
desgastam. Homem de lei. Sapateiro como não voltou a haver.
Carinhoso connosco, brando com toda a gente, para a mulher e os filhos o ti
Custódio era um verdugo. Falava-lhes aos gritos, só podiam comer depois dele
e, mesmo sem falta, se lhe subia a neura desatava aos pontapés contra a mulher
e a filha. Aos dois rapazes punha o corpo roxo à cinturada, mas primeiro
mandava-os despir porque, como dizia a explicar, «a roupa não tinha culpa».
234
Ópera não sabíamos o que fosse e de teatro conhecíamos apenas os títeres que
apareciam nas feiras. Por minha parte, no tempo em que servira de chaperott
à Joaquina e ao ourives, tinha ido algumas vezes com eles ao Salão dos
Bombeiros, onde aos domingos à noite se representavam dramas.
Mas aquilo raro me divertia. O enredo custava a seguir ou era inverosímil,
com mortos a ressuscitar, paredes que mexiam por ser de pano, perucas que um
movimento brusco punha à banda. Pior era o homem que, mal escondido por detrás
dum cortinado, se via a imitar o ruído de cavalos a galope ou a «fazer» o trovão,
batendo uma na outra duas chapas onduladas.
De longe a longe havia episódios que me prendiam: o de um pai que para salvar
a honra matava a filha à punhalada e mais tarde, cheio de remorso, se ia suicidar
sobre a campa da rapariga; o de Salomé apresentando a Herodes a bandeja com
a cabeça de São João Baptista; uma mulher debruçada langorosamente num terraço,
indiferente ao amante que suplicava de joelhos.
Era esta que me vinha à lembrança quando corríamos da forja e parávamos na
rua diante da casa de D. Clarisse, fascinante pelo mistério de nunca sair à
rua, nem sequer para a missa. Dela murmuravam que bebia vinagre para não
engordar e de facto, magra em extremo, sem peitos, a roupa parecia que lhe
assentava directamente sobre os ossos.
Como se aguardasse a nossa chegada — e quem sabe se aguardava — ela aparecia
na varanda de grades de ferro, com um vestido branco que chegava ao chão e,
apoiando as mãos no rebordo, ficava imóvel, o olhar fixo, como se em vez de
nós e da casa do ti Seguro tivesse à sua frente o oceano.
235
Tonta ou a representar um papel, quedava assim um bocado, até que de súbito,
numa agudeza de soprano, se punha a cantar duma maneira estranha, desaparecendo
em seguida no interior da casa.
Se continuávamos à espera ela aparecia dali a pouco, com outro vestido, por
vezes repetindo a cantoria. Mas se íamos embora, então as portas da varanda
fechavam-se lentamente, como quando num palco a cortina desce.
Já adulto, assistindo pela primeira vez a uma representação de Falstaffy eu
sofreria um choque ao reconhecer algumas árias, custando-me a acreditar que
naquele tempo, na nossa remota aldeia, D. Clarisse nos tivesse cantado Verdi.
Nem tudo, porém, era divertimento. Havia as obrigações. Algumas agradáveis,
como à volta do trabalho levar as bestas a beber à fonte; outras que fazia
a contragosto, porque limpar a capoeira me parecia abaixo da minha dignidade.
Havia as visitas dos familiares, as visitas de cerimónia e, diariamente, a
tensão da hora da ceia, quando as zangas começavam por um comentário azedo,
uma resposta mais brusca.
Meu pai, os olhos na comida, era como se não estivesse ali, e avó Maria e o
ti Serafim eram por natureza gente branda. Mas Ernestina e a mãe, se uma achava
que as batatas já estavam cozidas, dizia a outra que seria melhor esperar,
e por um nada desses recomeçavam a guerra. Guerra a sério, de que era preciso
apartá-las, porque dos gritos e das censuras mútuas passavam aos insultos,
e no crescendo da loucura que as tomava Deus nos livre se apanhassem uma faca
a jeito.
Aterrorizado com aquela violência não ousava meter-me de permeio, porque elas
na sua cegueira me despachariam com um safanão.
236
Também seria inútil que o fizesse, porque a certa altura os outros acudiam
a separá-las. Ou chegava o ti Manuel, o irmão mais velho das avós, que vivia
na casa ao lado e com a sua autoridade de patriarca as obrigava a acalmar.
Mas se paravam com os gritos não paravam com as queixas e para meu maior abalo,
ficavam uns neutrais, punham-se outros a escolher campo, e então as dores,
as horas más, as tristezas, os enganos, os medos, a história inteira da nossa
família era mais uma vez remoída e repetida.
Desacertavam nas opiniões, porque cada um coloria a seu modo os episódios,
e todavia, em vez de me perturbar, isso aumentava o meu fascínio. Era como
um livro onde, vivos ou mortos, todos os personagens falassem e agissem
simultaneamente, uma história onde o tempo ganhava outra medida, permitindo
viver no mesmo instante a maldição que à hora da morte o Sapateiro lançara
sobre o pai, a chegada de Ernestina ao Porto e o dia em que Afonso matara os
pintainhos.
As desavenças entre mãe e filha eram más, mas piores achava eu as que metiam
a família toda. Sempre por causa de dinheiro, maus pagadores, rendas
esquecidas, o desleixo de meu pai em ter as contas em dia. Por serem casos
de ficar entre quatro paredes, eram zangas sem bulha, de gritos em surdina,
palavras que cortadas em sílabas tinham a força de chicotadas.
Já lá iam três anos que se tinha emprestado o conto de réis a fulano, e era
melhor esquecê-lo. Beltrano não falava nos sacos de grão que se lhe tinham
abonado para a sementeira. Os pinhos que um tinha cortado para tábuas
podia-se-lhes rezar pela alma e o porco doutro há muito que estava comido e
cagado, mas dinheiro, nem vê-lo.
237
A culpa deitavam-na a este e àquele, mas a verdade é que se esperavam o pagamento
também nenhum deles tinha cara de o ir pedir a quem só devia por necessidade.
Então, a fingir que resolviam qualquer coisa, combinavam que era preciso mandar
dizer aos parentes do Cabeço para que trouxessem a renda das terras de que
eram meeiros.
Com aquilo salvavam a face, porque de facto, para aparecerem na aldeia, os
tios do Cabeço só esperavam que os pastores lhes levassem o recado. Mal ficava
combinado, eles no domingo seguinte saíam de casa ainda com noite e estavam
à nossa porta a tempo de irmos todos juntos à missa.
O vê-los chegar era para mim um deleite, porque vinham numa caravana de muitas
burras e todas atapetadas. Nas da frente montavam as duas tias-avós, que pouco
passariam dos sessenta, mas eram aos meus olhos irmãs de Matusalém. Atrás delas
vinham umas quantas bestas carregadas de sacos de trigo e por baixo deles os
alforjes a avultar de presentes. Ti António, irmão mais novo e retrato chapado
do avô José Maria, fechava a marcha num macho grande com rédea dupla no
cabresto, freio, estribos e selim de cabedal.
Em rapaz, como o julgavam desarranjado da cabeça, não tinha feito mais que
pastorear os rebanhos de ovelhas. Mas desde que com a morte dos pais e a viuvez
das irmãs tinha passado a chefe de família, mostrava-se homem de tino e
trabalhador sem par.
O seu mal, se assim se pode dizer, era o desafecto que sentia pelas mulheres.
Namorada nunca tinha tido, e se lhe diziam que era preciso casar-se, respondia
com umas gargalhadas agudas, despropositadas naquele corpo másculo de
proporções quase perfeitas.
Isso, a fala suave, o cabelo em caracóis que lhe desciam até aos ombros e o
chapéu de aba larga inclinado de modo janota, é que lhe tinha valido a alcunha
de ti Maricas, que ele ouvia sem se importar.
238
Para mim, a sua alegria e a parecença tão forte com meu avô tornavam-no um
favorito, que em cuidados e ternura só tinha igual no ti Serafim. O que me
afligia era a ferida que lhe nascera do lado direito da face, entre a vista
e o nariz, e que diziam que era ruim, das que só a misericórdia do Senhor poderia
curar.
Embevecido na sua companhia — além de carinhoso, ele com o canivete e um
bocadito de madeira esculpia num pronto uma cara, um pássaro de asas abertas
— eu ligava tão pouco às tias que esqueci as suas feições, só sei que uma se
chamava Teresa e a outra Jacinta.
Embora curta, porque com o caminho longo e os animais à espera do trato a meio
da tarde eles já se despediam, dessa vez a visita da família do Cabeço foi
para mim uma festa. E a querer prolongá-la, à noite não quis ler na cama. Fechei
os olhos, a sonhar acordado que morávamos ao mesmo tempo na aldeia e na cidade,
e que na nossa família todas as gerações eram ainda vivas. Guerra também
tínhamos uma, mas não era cruenta como a que andava lá fora, mas outra, a que
nos contava às vezes a tia Rita, irmã da minha bisavó e tão velha que diziam
que passava dos cem anos.
Essa era a guerra dos franceses que, ouvira-o ela à mãe, um dia tinham aparecido
em Estevais com fardas muito vistosas, de jaquetas azuis, calças brancas, botas
altas, e na cabeça uns carapuços pretos com penas de pavão. À frente deles
marchavam uns garotinhos a tocar pífaros e a rufar tambores, como se houvesse
romaria.
No meu sonho os soldados paravam junto da capela e erguiam uma tenda grande.
A gente da aldeia juntava-se a eles e depois, em alas, começavam todos aos
vivas, até que Napoleão aparecia rua abaixo acompanhado da sua comitiva de
marechais.
Apeava-se, entrava na tenda e eu seguia-o maravilhado com o luxo da mobília
e dos tapetes, via-o sentar-se à
239
escrivaninha, abrir um envelope, desdobrar a carta e franzir o sobrolho ao
ler: «Meu querido José Avelino».
Desdenhando das leis que nos regem, os fios do sonho embaralhavam-se nos da
memória e punham nas mãos de Bonaparte a correspondência guardada na arca do
tio boémio meu homónimo.
A vividez da cena deve-me ter sobressaltado, porque acordo e me sento na cama,
tomando aos poucos consciência do negrume que me envolve e duma insólita
ausência de vida.
Ninguém ressona, não se ouvem os ruídos da noite. Chamo baixinho por minha
mãe, mas ela não responde. Chamo outra vez. Amedrontado, caminho a tactear
para o quarto de meus pais e encontro-o vazio. Vou ao quarto da avó Maria.
Ninguém. O medo torna-se pânico e parando no que deve ser o meio da sala dou-me
pela primeira vez conta de que o calor não abrandou, que o ar é espesso,
irrespirável.
Todas as janelas estão abertas e, estranho, a porta da varanda também. Na rua
uma escuridão de breu. Perto ou longe, não posso distinguir, deve estar algum
rebanho acurralado, porque se ouve espaçado o som ténue de chocalhos que
tilintam. A tremer, volto da varanda para a sala, incapaz de raciocinar se
me abandonaram, se morri ou se o mundo acabou.
Nesse momento acontece o impensável: às dezenas ou centenas, pouco importa,
os morcegos invadem a casa, esvoaçam à minha volta, quase me roçam e porque
estou nu sinto na pele a vibração das suas asas. Um horror que aumenta, porque
de nada adianta estrebuchar a querer afugentá-los, eles cercam-me, ameaçadores
e invisíveis, dum instante para o outro vão-se atirar a mim.
240
Tomado de histeria, sem voz para gritar por socorro, desço a escada e saio
para a rua aos trambolhões, rodeado pelos morcegos que me não largam.
Esbarro em dois vultos. Minha mãe e a avó Maria pegam-me pela mão e,
sussurrando, dizem-me que não tenha medo, os morcegos não fazem mal nenhum.
Dentro de casa acendem os candeeiros e levam-me para a cama. Peço-lhes que
me digam onde foram, o que aconteceu, onde está o pai. Mas em vez de responder
mandam-me que me deite e que durma.
Espero. De madrugada ouço-lhe os passos inseguros na rua, os tropeções que
dá ao subir os degraus, o custo que tem para meter a chave na fechadura. Com
a pressa deixa a porta da retrete aberta, vomita às golfadas, e eu adormeço,
tranquilizado por aquele ruído familiar.
A despedida da aldeia era sempre um tormento. Ainda não tínhamos montado, nem
sequer a bagagem estava apertada sobre as albardas, e já a avó Elisa, os
parentes e os vizinhos desatavam aos abraços e num sem-fim de lamentações:
que nunca mais nos voltariam a ver, que Nosso Senhor nos fizesse companhia
e guardasse dos desastres numa viagem tão longa, que encontrássemos tudo bem,
que voltássemos no Natal.
A avó Maria, que regressava connosco, serenava a irmã a dizer-lhe que acabasse
com a choradeira, mas ela própria escondia os olhos no lenço.
Pusemo-nos a caminho, mas a volta nunca se comparava à ida. A paisagem era
a mesma, os lugares conhecidos de sobejo, mas o mistério desaparecia e desta
vez, à medida que nos aproximávamos da cidade, parecia aumentar à nossa volta
um indescritível sentimento de apreensão.
241
Havia a guerra, longínqua, mas que dum momento para o outro nos podia chegar
à porta. A avó Maria, adoentada, a tossir tanto que dava aflição ouvi-la, tinha
consulta marcada no hospital. E eu sentia-me à beira dum precipício, porque
dali a um mês e pouco entraria para o liceu.
Ao chegarmos à cidade a falta de luz tomou-nos de surpresa. Só aqui e acolá
havia uma lâmpada acesa e os automóveis, os camiões, até os eléctricos, todos
tinham os faróis pintados de azul. Com as vitrinas apagadas mal via a gente
onde punha os pés e as janelas dos prédios estavam às escuras.
Logo na manhã seguinte, porque era obrigatório e se se demorasse a fazê-lo
a polícia multava, puseram-me a cortar tiras de jornal, que se tinham de colar
aos quadradinhos nas vidraças, para evitar os estilhaços se houvesse
bombardeamento. Pintava-se tudo por cima com tinta de escrever e como só se
podia ter um único candeeiro aceso as casas ganhavam um ar sobrenatural.
Novidade também, e essa para mim bem-vinda, eram as revistas de propaganda
metidas por baixo da porta nas noites de domingo. Os Aliados distribuíam duas:
Neptuno e A guerra ilustrada, cheias de fotografias de vitórias, de couraçados
gigantescos e soldados a rir. Signal, a dos alemães, mostrava tanques e mais
tanques, Hitler e mais Hitler, generais de monóculo, raparigas loiras, enormes
desfiles militares por entre suásticas.
Em nossa casa a simpatia ia para os Aliados, que eram os «bons», mas tínhamos
de conceder que a revista dos «maus» era mais bonita, com fotografias que valia
a pena recortar.
Foi assim que eu, que naquela altura tinha o coração livre, me tomei de amores
por Marika Rokk. O seu retrato ficou pendurado no meu quarto até ao dia em
que os alemães começaram a bombardear Londres, fazendo-me temer pela vida de
Mrs. Cockburn.
242
Recordações dos anos da guerra — que por se passar longe se assemelhava antes
a uma saga que a uma tragédia — guardo muitas, mas nessa altura impressionava-me
mais o dia-a-dia, cheio de medos novos e mudanças bruscas.
Uma manhã no começo de Outubro, de fato novo e sacola cheia de livros, minha
mãe a chorar como se eu fosse para as colónias, meu pai acendeu o cigarro,
deu-me a mão, e para que eu aprendesse o caminho duma vez para sempre levou-me
pela beira-rio, a ponte, e do outro lado pelo Muro dos Guindais, a Corticeira,
as Fontainhas, as ruas que ficam para lá do cemitério do Prado do Repouso.
Finalmente chegámos a uma avenida e ele, olhando para o relógio, disse que
tínhamos demorado mais duma hora, e por isso daí em diante eu teria de sair
de casa antes das oito. Depois, apontando para um colossal edifício amarelo
lá ao fundo e como se a explicação bastasse, acrescentou:
O liceu é ali.
Nem beijo, nem adeus. Dei uns passos e ainda olhei, a ver se se voltava ou
me fazia um aceno, mas então já ele se tinha perdido por entre a gente que
esperava na paragem do eléctrico.
Os portões eram maciços e no rés-do-chão as janelas tinham grades, mas o que
me deu o sentimento de entrar numa cadeia foi a longura dos corredores, os
números que marcavam as portas das salas de aula e os contínuos de bata
cinzenta.
Tive a estranha premonição de que ia ser infeliz ali, que não haveria lugar
para mim no meio daquela massa que corria, gritava, empurrava, numa barulheira
que a altura dos
243
tectos fazia ressonar num sem-fim de ecos. Doeu-me também a humilhação de ouvir
que daí por diante não me chamariam pelo nome, mas seria como todos somente
um número: o 2 da 1-A.
A lembrança desse primeiro dia de martírio foi-se atenuando, filtrada pelo
tempo e porque a ela se sobrepôs a do passeio glorioso da volta a casa: por
ruas diferentes, para diante e para trás a alongar o caminho, descobrindo as
maravilhas da cidade, a agitação dos cafés cheios de gente, os cinemas, as
praças, os becos esconsos, um mundo que aos poucos se tornaria meu.
Em vez de uma andei três horas, começava a escurecer quando bati à porta de
casa, a mãe e a avó num alvoroço, a perguntar se me tinha acontecido alguma
coisa, se me tinha perdido. Não. O caminho até era fácil. As aulas é que acabavam
mais tarde do que estava no horário.
Impensada e inocente essa mentira marcou uma data. O primeiro dia de aulas,
os professores trombudos, os companheiros desagradáveis, tudo isso parecia
já um passado. Presente e vívido ficara o sentimento de que, seguindo ao acaso
pelas ruas, eu tinha aspirado pela primeira vez o cheiro da liberdade que não
conhece horas nem laços. A minha guerra com o mundo certamente iria continuar,
mas já nem tudo me parecia derrota, talvez de longe a longe conseguisse vencer
uma batalha.
O hospital de Santo António conhecia-o eu desde miúdo, quando lá andara a fazer
curativo à pálpebra que tinha queimado com a lente do binóculo.
O edifício impunha-se-me pelo tamanho e, inconscientemente, pela severidade
da fachada, mas também pelas histórias das doenças da família e dos vizinhos.
Ao ouvir o que
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a avó Elisa lá sofrera, ou que minha mãe quase tinha dado a alma a Deus na
enfermaria 3, e o que eram os padecimentos da tísica, tomava-me uma angústia
tal que tinham de me borrifar a cara com água para que não desmaiasse. O que
já acontecera da vez que o senhor Pimpim, sem atender à minha pouca idade,
tinha vindo a nossa casa para contar minuciosamente a última operação da sua
falecida.
«Operação de barriga aberta», tinha ele sublinhado, enquanto o seu indicador
desenhava lentamente o golpe desde o peito ao baixo-ventre. Em seguida ilustrou
os cortes transversais e, para melhor explicar, puxou as bandas do casaco,
dizendo que era mais ou menos assim que a barriga se abria. A espirrar sangue
por todos os lados. Para examinar melhor, o cirurgião retirava as tripas do
doente, punha-as numa espécie de travessa de metal e com uma tesoura...
Descrever as operações da esposa era o tema favorito do vizinho e eu mais tarde,
fortalecido pela experiência, ouviria o resto sem pestanejar; mas naquele
instante, sem forças para aguentar o realismo do quadro, caí desmaiado.
Ao retomar os sentidos ouviria mais uma vez meu pai queixar-se de que eu era
um fraquezas, um nada me deitava de pernas para o ar, parecia daquelas meninas
que ao ver uma aranha lhes dava o chilique.
Doía-me ser tratado assim, mas agora ali no hospital, caminhando atrás da
família até à enfermaria onde está o Jaime da tia Emília, temo o pior. Olhando
para um lado e para o outro só vejo chagas, entrevados que rastejam, gente
que a doença tornou monstruosa.
Sentado numa cama e enrolado em ligaduras como uma múmia, o vulto tem buracos
para a boca, o nariz e os olhos. O fedor é insustentável, mas minha avó cheia
de pena, pára a perguntar o que o pôs naquele estado. A mulher que lhe chega
laranja aos lábios diz que ele não pode responder,
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que no trabalho caiu dentro duma caldeira de água a ferver e se queimou todo.
Desnorteada de aflição, e como se ele não pudesse ouvir, ajunta que os médicos
só lhe dão mais um dia de vida.
Um amputado mostra às visitas o coto dum braço com cicatrizes roxas, mais
adiante um ancião examina preocupado a própria barriga. Passa uma maca com
uma mulher de olhos esbugalhados, seguida de gente a chorar.
Entramos numa enfermaria pequena e os doentes, percebendo quem somos, apontam
sem falar o biombo que rodeia uma cama. O Jaime, o mocetão que na aldeia era
de todas as festas, está ali escaveirado à espera da morte, porque numa
desavença um cigano lhe furou a barriga a tiros de pistola.
Como os pais não podem fazer a despesa da viagem somos nós que lhe servimos
de família e, porque está nas últimas, desta vez viemos todos a visitá-lo.
Sorrio-lhe, mas ele não me reconhece, e ao ver que empalideço mandam-me para
o corredor, onde vou ficar horas sentado num banco até que meu pai me vem buscar
e, dando-me a mão, diz simplesmente: Morreu.
13
Tragédia para milhões, em nossa casa a Guerra Mundial foi sobretudo um tempo
de picaresco. Para mim, absorvido a descobrir a cidade e a vida, os episódios
domésticos como que passaram a desenrolar-se num palco onde só esporadicamente
me cabia o papel de actor.
Por isso assisti desinteressado à aventura de meu pai que com um colega — as
mulheres de ambos de cozinheiras — tinha resolvido abrir um restaurante na
Rua Direita. Os fregueses mais assíduos dos sócios eram eles próprios e os
muitos amigos que, por serem amigos, comiam e bebiam fiado. Com festa todas
as noites o capital durou dois meses e quando desiludidos tiveram de fechar
a porta, restava-lhes por espólio uma absurda quantidade de latas de conserva
de atum e sardinha que levaríamos uma eternidade a comer.
Lembro-me de ter visto minha mãe chorar, porque de futuro os talhos só iam
abrir à quarta e ao sábado, e durante uma semana não haveria pão branco à venda.
A temer o racionamento meu pai açambarcava onças de tabaco e, certo de que
viria a faltar a cerveja de que tanto gostava, apareceu
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um dia em casa com os ingredientes necessários para fazer cinquenta litros
dela.
Fechou-se na cozinha, donde logo começou a sair um forte odor de lúpulo, e
dali a horas anunciou triunfante que a receita dava certo. No soalho estavam
três caldeirões onde borbulhava um líquido turvo e malcheiroso.
No dia seguinte convidou os amigos para que viessem provar e a decisão geral
foi de que, na verdade, a coisa sabia a cerveja. Agora era questão de
engarrafar, arrolhar bem, dar-lhe tempo a que «amadurasse.» Depois era até
possível que viesse a ser bom negócio. Com abraços e palmadas nas costas os
amigos cumprimentavam-no pelo seu futuro êxito como cervejeiro, mas entretanto
preferiam brindar com vinho.
O arrolhamento, por conselho de quem sabia, foi feito a martelo, com rolhas
mais grossas que o gargalo, reforçadas para maior segurança com um barbante
em cruz. Por fim as setenta e tantas garrafas foram colocadas na cozinha em
prateleiras construídas especialmente, inclinadas a trinta graus para
favorecer a maturação.
Nessa noite à mesa falou-se pouco dos incómodos da guerra e meu pai — «só por
curiosidade, para ver o que dava» — puxou de lápis e papel e começou a fazer
cálculos sobre o que lhe tinham custado os ingredientes e o que dariam de lucro
setenta garrafas de cerveja vendidas ao preço da loja. E setenta mil. E
setecentas mil.
Como o assunto me não interessava devo ter adormecido, porque quando de
madrugada acordei com o calor e abri a janela, reparei que me tinham vestido
o pijama de riscas amarelas que eu odiava. A cidade estava às escuras. Aqui
e além viam-se os reflexos azulados dalgumas janelas, ouvia-se de vez em quando
o som dum cláxon, o latir dos cães, o ruído indistinto da cidade que dorme.
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De súbito, como se a guerra tivesse chegado, na nossa cozinha deu-se uma
tremenda explosão. Ouvi os meus pais correr, vi os vizinhos sair alarmados
para a rua, alguns carregando os baldes de água e de areia que era obrigatório
ter à mão para quando houvesse bombardeamentos.
Petrificado, sem ar, fiquei à espera das labaredas que dum momento para o outro
iriam consumir a nossa rua e o resto do mundo. Minha mãe veio encontrar-me
a tremer de medo, banhado em lágrimas, e só sosseguei quando ela me garantiu
que não havia perigo, que eram as garrafas de cerveja que tinham rebentado.
A história do porco também teve um fim inesperado, mas a pena que me causou,
em vez de me fazer chorar, iria meter-se naquele fundo da alma onde se acamam
os remorsos que mansamente doem a vida inteira.
Meu pai tinha-o trazido embrulhado numa serapilheira, a cabeça de fora, dois
palmos de leitão com olhos de gente e um modo irónico de torcer o focinho.
Metemo-lo na pocilga, uma cerca tosca feita nos baixos da casa pelo senhor
Samuel, um vizinho que era marítimo e tinha jeito para carpinteiro. Mas o
bacorinho, grunhindo, às pancadas contra as tábuas, logo de começo deu a
entender que o seu gosto era a liberdade e não se queria ali preso.
Deitava-se-lhe a lavagem e ele, guloso, comia por dois, mas se por um instante
a porta ficava aberta esquecia a caldeira, disparando para o largo acorrer
às voltas. Tentar agarrá-lo era pena perdida porque, mesmo que fôssemos uns
quantos a persegui-lo, ele nos fintava com uma agilidade de cachorro. Parava
a resfolegar, mas assim que nos via chegar perto demais, dava um pinote e
recomeçava a brincadeira.
O remédio, que descobrimos no dia em que exaustos tínhamos sido os primeiros
a parar, era sentarmo-nos no chão e ficar quietos.
250
Lentamente, com rodeios, os olhos alerta não o fôssemos agarrar de surpresa,
ele acabava por se aproximar. Coçávamos-lhe a barriga, o lombo, as orelhas,
e então a trégua era definitiva, rebolava-se contente a pedir mais.
Metíamos-lhe um pau entre as queixadas e ele puxava a mostrar a força. Se
atirávamos uma bola corria atrás dela com alegrias de criança, dando-lhe
cabeçadas para que continuasse a rebolar. No mais, o que queria era ser nosso
camarada e ver-se livre da pocilga.
Assim se criou o hábito de todos os dias ao fim da tarde, quando nos juntávamos
no largo, o irmos tirar da prisão. Ele esperava, tão certo da nossa amizade
que deixara de arremeter contra as tábuas e saía calmamente quando lhe abríamos
a porta. E de tal modo nos habituámos à sua companhia que por vezes esquecíamos
que lhe era impossível jogar connosco às cartas ou à bilharda.
Sensato, ia dar uma volta, fossava aqui e ali, debicava as ervas que cresciam
junto das casas. Outras vezes assentava as patas fronteiras no parapeito do
largo, a parecer que olhava a paisagem. Mas se se aborrecia ou achava a ausência
longa, voltava para a nossa beira, dando grunhidos ou empurrando-nos com o
focinho a fazer-se lembrado.
Com o passar dos meses cresceu, engordou, foi perdendo a agilidade. Tornara-se
mais calmo do que quando era pequeno, mas de resto, como o senhor Pimpim tinha
dito, «era um porco, mas era como se fosse gente».
Infelizmente, a bruteza do mundo não poupa humanos nem animais. Com o frio
do Outono aproximava-se sem remédio o momento da matança, embora das vezes
que se falara nela a opinião de todos tivesse sido que ainda se podia adiar.
De facto nenhum de nós queria que morresse, mas também não tínhamos maneira
de resolver o dilema porque, como a avó sentenciava, os porcos criavam-se para
ser comidos.
251
Quando por fim se aprazou e num domingo de manhã o matador apareceu com o
ajudante, o banco, as cordas e a faca, meu pai pagou-lhe e foi-se embora,
dizendo que tinha de entrar de serviço. Minha mãe, sem olhar para a pocilga,
entregou ao homem os alguidares para aparar o sangue e as tripas, e comigo
atrás fugimos ambos para o quarto das traseiras, sem atentar no sorriso irónico
da avó, que nos achava simples do espírito.
Para nossa aflição, as mãos a tapar os ouvidos e a grossura das paredes não
bastavam para abafar os roncos do pobre animal. Quando o homem gritou da porta
a dizer que já estava chamuscado e o iam pendurar, ainda fizemos de surdos,
mas ele não se calava e por fim tivemos de ir buscar os proventos com que se
faria a ceia.
À mesa olhámo-nos confundidos, hesitando se iríamos comer, porque o cheiro
era insuportável.
Ó mulher, tu esqueceste o fel? — perguntou meu pai com a garfada no ar.
Não. Ernestina era cuidadosa e como de costume tinha tirado o fel sem o
rebentar.
Mas isto parece podre! Cheira a trampa! — explodiu ele, chegando o nariz ao
prato.
Discutiu-se o que seria, achámos que realmente não podia cheirar pior e de
comum acordo, enquanto as mulheres deitavam a ceia para o lixo e fritavam uns
ovos, descemos ambos a inspeccionar o porco.
Nos baixos da casa foi entrar e sair, porque o fedor do animal desventrado
era de dar vómitos. Meu pai passou-me a chave para que eu fechasse a porta
e começou a enrolar o cigarro, murmurando entre dentes que tinha sido dinheiro
deitado à rua, uma carne assim nem os cães lhe pegavam.
Há alguma coisa? — perguntou o senhor Matias, que chegara à janela, estranhando
que estivéssemos ali ao frio.
252
Meu pai explicou o caso e o vizinho desceu a certificar-se, cheirou, escondeu
o nariz no lenço e apressou-se a sair para a rua. Era insuportável e, realmente,
a carne ninguém a poderia comer. Uma pena. Mas culpa nossa.
Que culpa? — quis meu pai saber, franzindo o sobrolho de mau humor.
O senhor Matias não era homem para responder logo, primeiro quis saber o que
dávamos ao porco.
Lavagem.
E verduras? Couves?
Também.
Farelos?
Sim.
Milho?
Um litro todos os dias.
E farinha?
Claro.
Naquele momento o sorriso do vizinho devia ter posto meu pai de pé atrás, só
que adormecido pelos preâmbulos não tinha compreendido onde o senhor Matias
queria chegar.
Farinha de trigo?
Não. De peixe.
Ora aí está! Farinha de peixe! Aí é que vocês borraram a opa. A farinha de
peixe pode-se lhes dar na lavagem, aos poucos, senão o resultado é esse e adeus
carne.
Para mim, o remorso e a pena iriam ficar, com o magro consolo de não ter tido
de comer o meu alegre companheiro.
Por essa altura a avó começou a piorar e o médico vinha agora vê-la quase todos
os dias, porque fraca como estava não se podia levantar da cama.
253
Dentro de casa reinava uma serenidade de mau agouro. Minha mãe escondia-se
para chorar. Meu pai chegava pontual à hora da ceia e, sombrio, em vez de
desaparecer em noitadas ficava a ler o jornal na mesa da cozinha, levantando
os olhos quando se ouvia a enferma tossir.
A mim diziam que não fizesse barulho, mas preocupado eu ia de vez em quando
em pontas de pé espreitar ao quarto. Amparada pelas almofadas, se não estava
a dormitar a avó acenava para que me aproximasse. Numa voz que se tornara um
sussurro pedia que lhe lesse o jornal ou lhe contasse o que tinha feito. Mas
logo amodorrava, até que a tosse a fazia sobressaltar e, chegando o lenço à
boca para que eu não visse o sangue, com um gesto mandava que me fosse embora.
Na noite em que morreu, quando lhe fui pedir a bênção antes de me deitar, o
sangue corria-lhe por entre os lábios num fio ou saía a espaços em curtas
golfadas que aparava numa bacia. Apontou a cama. Sentei-me. A arfar, ciciou
que estudasse com afinco. Que respeitasse os meus pais e lhes quisesse bem.
Que quisesse bem à avó Elisa, ao ti Serafim, à família toda. Que rezasse pelos
nossos mortos e por ela, para que Deus se apiedasse da sua alma.
A custo pousou a mão sobre a minha cabeça, que eu inclinara para ficar mais
perto, e ainda a ouvi dizer «Nosso Senhor te abençoe.» Também senti que meus
pais tinham entrado no quarto e recordo o soluçar de minha mãe. Mas do mais
que aconteceu nessa noite, os preparos, o cadáver exposto no caixão, a missa
de corpo presente e o enterro, tudo isso se me esvaiu da memória.
Passados dois ou três dias, a uma hora em que o supunha no serviço, meu pai
entrou inesperadamente em casa.
254
Ao vê-lo ir direito ao quarto dos arrumos tive um mau pressentimento, mas logo
acalmei. Como sempre diziam que um dia seria preciso abrir a arca do tio para
se saber o que tinha dentro, ninguém ia descobrir a falta do livro e o pecado
que eu trazia na consciência.
O que lá tinha ido fazer levou tempo e quando por fim saiu vi-o entrar agitado
na cozinha e fechar a porta. Além de aquilo não ser costume, preocupou-me mais
ainda o ouvir que cochichavam. Depois o silêncio tornou-se tão longo que não
me contive e fui espreitar o que estariam a fazer, mas nem sequer tinha colado
o olho à fechadura quando o berro a chamar-me atroou a casa.
Entrei. Minha mãe passou de nariz no ar, como quem evita um tinhoso, e fechando
a porta atrás de mim deixou-me diante do juiz que tamborilava com os dedos
no tampo da mesa.
Onde está o livro?
Que livro? — eu a arregalar os olhos de incompreensão, todo inocência.
O livro que estava na arca do tio.
Não vi livro nenhum.
A bofetada virou-me de lado, pondo-me a cara a arder. A segunda foi ainda mais
violenta, mas as outras quase que não as senti, tomado duma tontura que fazia
ondular tudo à minha volta.
Onde o puseste?
De mãos atrás das costas, os olhos semicerrados, ele dava quatro passos da
janela para o fogão, quatro do fogão para a janela. Para lá, para cá. Para
lá, para cá. Monótono como um pêndulo. Mais temeroso que um tigre numa jaula.
O livro... Se é...
A ensinar-me que não hesitasse atirou-me nova bofetada e a essa consegui
escapar, desviando rápido a cabeça.
255
Mas por experiência eu sabia o que me esperava. As bofetadas tinham acabado
e com uma minúcia de algoz ele iria desapertar o cinturão do dólman, pegá-lo
pelas pontas e dobrá-lo pelo meio, enquanto a seu mando eu me despia.
Duas vezes e por razões de nada tinha-me torturado desse modo, como se em lugar
de carne da sua carne eu fosse um inimigo. Para maior afronta ninguém me tinha
acudido e agora, ele ali de olhos injectados, sentia-me sem salvação. As dores
seriam terríveis, mas mais insuportável era a espera misturada à vergonha de
me ver nu, e sufocado pelos soluços supliquei-lhe que não me batesse.
Vai buscá-lo.
Fui ao esconderijo, retirei o livro e entreguei-lho a tremelicar, sem saber
se me perdoaria. Ele sentou-se, acendeu outro cigarro, folheou lentamente,
parando a ver uma ou outra gravura.
Sabes o que te salva? — perguntou depois de o fechar, soprando o fumo pelo
nariz.
Baixei os olhos, com medo de avivar a sua fúria.
Diz lá, ó cagão! Sabes o que te salva? Desta escapas porque estamos de luto.
Agora se voltas a fazer outra ponho-te o corpo numa chaga.
Esquecido de mim recomeçou a folhear o livro, mas como era homem de repentes
e com ele nunca se sabia ao certo, esperei um pouco a ver se me mandava ficar
e só então saí da cozinha às arrecuas.
Mal acalmado do susto dei-me conta que ficar sem os Segredos dum convento de
Paris me criava um embaraço. Aos camaradas mais amigos já eu tinha contado
as orgias das freiras e prometido que quando calhasse lhes havia de mostrar
as ilustrações. Só que provavelmente nunca mais o
256
tornaria a ver e doía-me a ideia de que eles, decepcionados, se pusessem também
a chamar-me mentiroso.
A ceia passou-se silenciosa. Quando meu pai se levantou da mesa e, como era
seu hábito, saiu porta fora sem se despedir, reparei que se lhe via meio enfiada
no bolso a capa vermelha do livro.
O destino, felizmente, tinha disposto a meu favor. Nessa madrugada ouvi-o
entrar aos trambolhões, tão perdido de bêbedo que quando espreitei esgadunhava
a porta do banheiro sem atinar no fecho.
A roupa que despira estava espalhada pelo chão do corredor, de mistura com
o que ele no seu desatino tinha tirado dos bolsos: o lenço e o molho de chaves,
a carteira, os cigarros, uns quantos papéis. O livro com certeza o espatifara
contra a parede, porque caíra aberto e se lhe via uma folha meio rasgada.
Todo instinto, como um animal em emboscada, diminuí a frincha e aguardei que
ele entrasse. Começou a vomitar, mas não me precipitei, porque o momento mais
seguro seria quando puxasse o autoclismo e o ruído abafasse o ranger das tábuas
do soalho sob os meus pés. Com a porta meio aberta, ao ouvir a água correr
na retrete em duas passadas alcancei o livro, voltei ao quarto, e caindo na
cama a arfar escondi-o debaixo dos cobertores.
Pelas minhas contas ele não daria pela falta, pois havia de julgar que o perdera
em qualquer parte ou lho teriam roubado na taberna. O perigo era se viesse
a descobrir que lho tinha tirado eu. Por isso de manhã escondi-o na sacola
entre os cadernos e no recreio apressei-me a mostrá-lo aos colegas, salvando
a minha reputação.
Para os inocentes foi um assombro. Os fanfarrões, esses acharam sem interesse,
garantindo que não era preciso ser padre ou viver em Paris, porque aquilo tudo
e mais faziam-no eles com as criadas desde pequenos.
257
Ter o livro comigo era o mesmo que passear com uma bomba de relógio, mas nessa
altura já eu tinha aprendido o caminho para os alfarrabistas, gastando
alegremente neles o dinheiro do almoço e os trocos que escondia quando minha
mãe me mandava às compras.
Prudente, não fosse alguém entrar, ao ver do que se tratava o homem levou o
livro consigo e pôs-se a folheá-lo num recanto do balcão. Depois, negociante
atilado, deu-me primeiro as más novas: aquilo era muito feio, proibido, se
a polícia me apanhasse com ele metiam-me na cadeia.
Eu, que tinha o medo por companhia permanente, acreditei que assim fosse e
naquele momento a minha vontade seria esquecer tudo e fugir dali. Mas ele,
metendo-o numa gaveta, deu-me as boas notícias: um livro daqueles não valia
um chavo e só por tê-lo na loja corria um perigo. O mais certo era que acabaria
por deitá-lo fora, razão por que não me ia pagar nada. Mas também não queria
que eu ficasse descontente e por isso podia ir tirar cinco livros da estante
dos romances.
Sem saber o que escolhia, guiado apenas pela bela ressonância dos seus nomes,
começou assim a minha admiração por Balzac e Zola.
Tal um quartel ou um seminário, o liceu era então estritamente masculino e
nele separavam-se também as idades e as portas. Nós, os mais novos, entrávamos
pela da esquerda, enquanto do quarto ano em diante se tinha o privilégio de
entrar pela da direita, que era também a dos professores. A seguir a cada
entrada havia os vestiários, enormes porque éramos mais de mil, e aí
entregávamos os nossos agasalhos contra uma ficha numerada.
Tirante as mulheres da cantina e uma meia dúzia de professoras prontas para
a reforma, as restantes excepções
258
à masculinidade do estabelecimento eram as funcionárias do vestiário: para
os grandes uma cinquentona; do nosso lado, o dos pequenos, uma jovem beldade.
Aqui a narrativa obriga a um salto no tempo. Quinze ou mais anos atrás,
provavelmente no início da sua carreira, dei pela primeira vez no jornal com
o retrato de Meryl Streep e não vou esquecer tão cedo o choque que me causou.
Meryl Streep? Como assim? Aquela mulher era «ela», a Alice, a «menina do
vestiário» que às vezes ao entregar a ficha nos segurava meigamente a mão e
a troco de pequenas atenções — um maço de cigarros, um número da Eva, um saquinho
de amêndoas — deixava que lhe acariciássemos os seios.
No primeiro ano as minhas notas tinham sido boas, mas em meados do segundo
tornaram-se quase todas péssimas, porque ao cinema e às horas de vadiagem a
descobrir a cidade, eu juntara outro vício: nos intervalos, ou inventando dores
de barriga para deixar a aula, corria ao vestiário a meter a mão no decote
da Alice.
Embora partilhado com muitos e de pouca dura — «pode entrar alguém» o prazer
era estonteante. Infelizmente tinha um lado amargo, o preço, pois sem pronto
pagamento a Alice não queria abusos. E assim passei a comprar menos livros,
a ver menos filmes, chegando sempre esfomeado a casa, porque o dinheiro para
o almoço e os trocos das compras esbanjava-os agora em doçaria e revistas de
modas para lhe oferecer.
Uma manhã em que queixando-me da cabeça tinha conseguido dispensa da ginástica,
corri excitado ao vestiário com um bolso cheio de tabletes de chocolate, certo
de que a generosidade me iria valer um prolongamento das carícias.
A Alice sorriu surpreendida, mas explicou que éramos tantos a dar-lhe
chocolates e rebuçados que também já tinha dito aos outros que dali em diante
preferia dinheiro.
259
O meu gesto, contudo, não tinha sido em vão, porque além de me beijar nos lábios
— a primeira vez! — sentou-se na cadeira atrás da máquina de costura,
facilitando o assalto ao diminuir a diferença das nossas alturas.
Depois retomou o crochet, enquanto os meus dedos lhe percorriam o corpo com
a sofreguidão que dá o pressentimento das grandes descobertas. A certa altura
abanou a cabeça a proibir, noutra pediu baixinho que não lhe fizesse cócegas.
Repentinamente deixou cair as agulhas e apertou-me contra si, colando a sua
boca à minha noutro beijo, esse tão longo que me deixou sem ar.
Só mais tarde, ao revolver tudo na lembrança, é que eu tomaria verdadeira
consciência dos detalhes. Naquele momento era como se voasse. Todo o meu ser
se tornara emoção cega e, perdido o sentido do tempo e do lugar, não me via
a mim próprio, nem a Alice, nem o vestiário. Nem o corpanzil do reitor, que
ao surgir dentre os sobretudos que pendiam dos cabides não me causou
propriamente um choque, fazendo apenas soar o alarme indistinto que se ouve
nos pesadelos.
A paralisia geral veio no instante a seguir, de nada adiantando o pôr-se ele
aos berros para que lhe explicasse o que fazia ali em vez de estar na ginástica.
Corpo e alma tinham-se-me fundido numa massa informe, destituída de
impressões, que ele finalmente foi empurrando até ao seu gabinete.
Ao entrar acordei. Aquilo era como eu imaginava que fosse o ambiente onde
Salazar despachava. Sala palacial, janelas que quase alcançavam o tecto,
cortinados de damasco com borlas de seda, armários monumentais, uma secretária
de ébano, o cadeirão onde ele se foi sentar, fazendo retinir uma campainha.
Parei onde me tinha mandado que parasse, ainda aturdido pelo que me acontecera
e em tremuras pelo que me iria acontecer.
260
O contínuo entrou, fez uma vénia, recebeu a ordem de ir buscar as notas do
segundo ano, fez outra vénia, e daí a pouco voltou com um registo tão grande
e pesado que o carregava em ambos os braços.
Pode ir embora.
A ordem era para o funcionário, que ao passar por mim me olhou de través, dando
a entender que eu não sairia dali inteiro.
Qual é o teu número?
O 31 da 2-C
O 31 da 2-C, senhor reitor!
Ele a bradar, eu a repetir num cicio:
O 31 da 2-C, senhor reitor.
De número dois da turma dos melhores no primeiro ano, eu no segundo tinha caído
de escantilhão para o último lugar entre os cábulas impenitentes.
Ele pôs os óculos, folheou, achou o meu número, leu com pausa franzindo o
sobrolho:
Mas isto é incrível! Quase só tens negativas!
Que havia eu de fazer senão baixar os olhos? Em geral o que me ensinavam não
me interessava e o gosto que ressentia por uma ou outra disciplina era menos
ditado pela matéria do que por simpatia pelo professor. Fazendo com elas um
gráfico, as minhas notas dariam um resultado comparável ao duma serrania, com
raros cumes separados por fundos abismos. Porém, os fracos resultados do meu
estudo não iam ser a causa do castigo que ele me ia dar. Apanhei-te em flagrante
delito num acto lúbrico, e por isso vou-te punir com três dias de expulsão.
Sem apelo! Com registo na caderneta!
Para a expulsão eu certamente arranjaria desculpa verosímil e, desde que os
meus pais o não viessem a saber, as consequências do «acto lúbrico» também
não deveriam ser graves. Mas se aquele modo pomposo de usar a língua já me
261
afligia, o que na verdade me aterrorizava era o «flagrante delito.» A expressão
conhecia-a eu dos jornais, sem ainda lhe ter descoberto o significado, agora
do que tinha a certeza era que havendo «flagrante delito» havia sempre polícia,
tribunal, e ao fim anos de cadeia.
Esses foram os momentos piores, o estar ali à espera que os guardas chegassem
com as algemas e a ver-me já numa cela de prisão. Por isso demorei a compreender
quando ele repetiu que me expulsava por três dias, até quinta-feira,
acrescentando:
Desta fica assim, mas se te voltas a meter noutra vai ser a tua desgraça.
Não garanto, mas receio ter-lhe agradecido a benevolência. O que sei ao certo
é que lhe fiz a vénia e mal me vi no corredor o medo se me foi como por encanto.
Nesse instante o diabo recomeçou a tentar-me com as delícias do vestiário.
Não faço ideia do que teria ousado se o contínuo não aparecesse a barrar-me
o caminho e com a notícia de que eu de futuro passaria a entrar pela porta
dos grandes.
Para justificar os três dias de liberdade inventei uma morte. Minha mãe, com
a cabeça cheia de preocupações maiores, ouviu distraída o relato que eu lhe
fazia do professor benquisto, fulminado por uma síncope no vestiário.
Acudimos-lhe e os mais fortes tinham pegado nele, levando-o para o gabinete
do reitor. Por acaso era a primeira vez que eu lá entrava e tinha ficado admirado
com o luxo. Parecia o gabinete dum presidente. No meio tempo tinha-se
telefonado a um médico, mas antes de ele chegar já o pobre tinha falecido.
Ensinava História, era casado, não tinha filhos, e por ser muito querido de
todos o reitor mandara pôr a bandeira a meia-haste, tinha decretado três dias
de luto. O enterro ia ser na sexta-feira, às duas.
262
Ocorrida num relâmpago, a ideia do enterro na sexta pareceu-me brilhante,
porque no Rivoli começaria a passar The thin man, com Myrna Loy e William Powel,
filme que eu não queria perder.
Minha mãe nem chus nem bus. Ocupada a preparar a ceia, soltava de vez em quando
um suspiro, dizendo por fim que se eu tinha aqueles dias livres podia fazer
o que me desse na gana. A única coisa que lhe importava era que a deixasse
em paz.
Com carta branca, no dia seguinte fui-me à procura dos companheiros à hora
em que de costume nos juntávamos no café Palladium. Receberam-me como um herói.
Tinha-se logo sabido tudo, primeiro pelo contínuo, depois porque o reitor
mandara afixar a minha expulsão no quadro dos avisos.
O que ele merecia, disseram, era que se lhe fizesse o mesmo que se tinha feito
ao panasca do Morcela, o professor de música: atraí-lo a um baldio e desancá-lo
a murro.
O Camilo do sétimo ano, um gorducho arrebatado e guarda-redes da nossa equipa
de futebol, deixou o bilhar e disse que um caso assim não se resolvia à porrada.
Era uma questão política o reitor a representar a ditadura, eu no papel do
oprimido — e para as questões políticas havia outras saídas, mas isso ficava
para se discutir em melhor altura. Primeiro íamos nós ambos conversar.
Apontando uma mesa a um canto foi à minha frente, pediu dois cafés ao empregado
e sem perguntar se eu já fumava ofereceu-me um cigarro. Aceitei, cheguei-o
ao isqueiro, e ao deitar a primeira baforada senti-me crescer em tamanho e
seriedade.
O Camilo principiou por dizer o que todos sabíamos: que ano após ano, desde
que começara a trabalhar no vestiário, a Alice se deixava apalpar.
E porquê?
Eu, que nunca tinha pensado nas razões, respondi à toa que com certeza era
porque gostava.
263
Talvez goste. Mas quem a apalpa paga, não é?
É.
Uma coisa de nada, mas paga. E o que é que isso quer dizer?
Encolhi os ombros e ele, a ciciar abespinhado:
Isso quer dizer que a Alice é tão pobre que nem sequer tem dinheiro para
ninharias. Não pode comprar uma revista. Não pode comprar uma tablete de
chocolate. Com certeza come mal. Só tem um vestido. Se adoecer não tem dinheiro
para o médico nem os remédios. E não é só isso, camarada. Há mais.
Suspendeu-se um instante, a tomar fôlego antes da revelação.
Há mais. Mas o que te vou dizer fica entre nós. Palavra de honra?
Palavra de honra.
A Alice arranjou emprego no vestiário porque o Barbosa a monta quando quer.
Que Barbosa?
O reitor, pateta! Quando o liceu fecha ela vai-lhe levar o sobretudo ao gabinete
e então, se lhe dá na gana, manda-a despir e põe-se nela. No sofá, no tapete,
onde calha.
Mas porque é que...
Não acreditas? Pergunta ao Fernando da limpeza, que é quem os espreita.
Claro que eu acreditava. O que queria era escapar às visões da minha fantasia,
o reitor e a Alice, ambos em pêlo, a repetir as cenas dos Segredos dum convento
de Paris. Aquilo era a suma de todos os pecados, simultaneamente sacrilégio,
incesto (pela diferença de idade poderiam ser avô e neta!) roubo e traição.
Por isso é que só te castigou a ti e a ela não fez nada. Estás a perceber?
264
Transtornado pelo ciúme eu percebia até demais e já não me parecia bastante
castigar o canalha a murro ou à paulada, era acabá-lo a tiro. E a falar verdade,
desgraçada ou não, a ingrata também merecia um par de bofetadas.
O Camilo abanou a cabeça. Eu tinha de ver as coisas doutro modo, noutra
perspectiva: a Alice não era ingrata nem infiel. A pobre rapariga era somente
vítima das condições em que se achava o proletariado.
Aquilo para mim era novidade e, pacientemente, ele foi explicando que o mundo
tinha de mudar, que a felicidade chegaria no dia em que todos fôssemos iguais
como na Rússia, todos camaradas. Para isso ainda se teria de lutar muito, porque
o capitalismo era poderoso, mas a própria guerra mostrava que nada resistia
ao ideal comunista. O Exército Vermelho levava tudo diante de si e se os jornais
pouco ou nada escreviam sobre as suas vitórias era porque não passavam de
simples lacaios do capital. Quem ouvia a Rádio Moscovo é que sabia a verdade.
Quase no fim, e embora nunca antes tivesse dado conta disso, ele convenceu-me
de que eu próprio era vítima do sistema. Bastava ver o modo como o reitor,
exemplo típico do fascista brutalhão, tinha abusado da sua autoridade,
castigando-me sem reunir o conselho disciplinar. Como se eu não tivesse
direitos! Aliás, ficasse eu a saber que o estudante era um operário como
qualquer outro, só que em vez de usar as mãos usava a cabeça. Por isso era
nosso dever unirmo-nos às massas trabalhadoras e lutarmos juntos pela nova
ordem social. »
14
Meses a fio o Camilo iria entregar-me à socapa números do Avante e livros de
doutrina marxista que deveriam ter andado por muitas mãos, pois vinham sempre
amarrotados e sebentos. A minha obrigação era lê-los, discuti-los com ele,
até ao dia em que, suficientemente instruído, pudesse entrar em contacto com
os outros camaradas da célula.
Eu tentava ler, mas logo me aborrecia. Zola, Balzac, Dickens, Eça de Queiroz,
eram infinitamente mais excitantes e a sua solidariedade com os oprimidos menos
abstracta. Além disso nascera avesso a doutrinas e dogmas. O padre da catequese
tinha tentado, o professor de Moral tinha tentado, mas a minha reacção
instintiva fora sempre de rebeldia.
A certa altura, dando-se conta de que semeava em campo estéril, o Camilo
cortou-me os livros, o Avante e a camaradagem, nunca mais falou comigo da luta
de classes nem das vitórias da União Soviética. E assim voltei à pachorrenta
vadiagem pelas ruas, à minha dose diária de cinema, seguindo pelos jornais
as peripécias da guerra, em que finalmente os «bons» começavam á levar a melhor
sobre os «maus».
266
Tudo isso, porém, acontecia longe e só se tornava real e chocante porque os
filmes mostravam as cidades arrasadas, as pilhas de mortos, os destroços nos
campos de batalha. Mas o horror pouco durava para lá do momento em que as luzes
se acendiam no cinema, e uma hora no café deixava impressões mais fundas que
o cerco de Estalinegrado ou o desembarque dos Aliados na Normandia.
Por esse tempo o perigo que nos viessem bombardear também tinha passado. A
iluminação pública era a de antigamente, as vidraças tinham sido limpas e,
talvez por desleixo do dono, só num ou noutro automóvel se viam ainda os faróis
azulados.
Em casa e fora dela o ritmo da nossa vida parecia imutável. Antes do Natal
chegava da aldeia a metade do meio porco que nos mandava a avó Elisa, já cortado
em presuntos curados, costeletas em salmoura e enfiadas de chouriços que quase
davam para o ano inteiro.
Um mês depois era a Festa dos Mareantes, que para mim na infância tinha sido
tétrica e fonte de pesadelos. De manhã cedo começava ao longe um ribombar que
só não podia ser de trovão porque tinha ritmo, e à medida que as horas iam
passando o barulho tornava-se mais forte, cada vez mais próximo, até que o
horrível acontecia: como se saísse do chão, no último degrau do largo aparecia
uma enorme cabeça degolada, a de São Gonçalo, com bigode, barba, cabelos pretos
encaracolados.
A cabeça, que parecia viva, dava a impressão de dançar (eu não sabia que tinha
dentro um homem a carregá-la aos ombros), meneando-se ao ritmo dos tambores.
Atrás vinha uma cabeça mais pequena, pendurada com alças noutro homem.
Seguiam-se então os Mareantes, a rufar em dezenas de tambores de todos os
tamanhos num barulho de ensurdecer, e por fim um mar de gente.
267
Eles passavam, nós crianças tremíamos de susto, o trovão ia lentamente
diminuindo até que só se ouviam umas pancadas espaçadas. Era o sinal de que
o cortejo tinha chegado à capela e se preparava o momento solene da «entrega».
O portador da cabeça grande tinha de a levar para dentro às arrecuas, sem olhar
para os lados nem tocar nas ombreiras. Se roçava nelas perdia e no ano seguinte
a honra de carregar com a cabeça do santo passava para outro.
Perder, aliás, era o mais provável, porque ao longo do caminho a tradição
mandava que, para melhor aguentar o peso, os acompanhantes lhe fossem dando
de beber. E eles davam e bebiam também. Vinho. Tão fartamente que todos os
anos ao passar à nossa porta, cabeçudos, tambores e acompanhantes, o cortejo
inteiro caminhava aos ziguezagues.
No domingo de Páscoa acordávamos com o estrondo dos foguetes a anunciar que
o «compasso» saía da igreja para ir levar a bênção às casas. À frente caminhava
o padre de sobrepeliz e com o breviário, seguido do sacristão que abraçava
contra o peito um crucifixo pequeno, mais cinco ou seis mordomos, todos de
opa vermelha. Um a tocar a sineta, outro com o hissope e a caldeirinha da água
benta, os restantes levando enfiados no braço os cestos onde guardariam as
oferendas.
O sinal de que se queria que o padre benzesse a casa — crentes ou ateus quase
todos queriam era espalhar defronte da porta da rua um braçado de verdura e
flores. Mas a espera era longa. Passava a manhã e às vezes a tarde ia já a
mais de meio quando por fim o «compasso» nos chegava à porta.
Ficávamos em pé na sala, junto da mesa onde estavam prontos os cálices, os
doces, as oferendas de comestíveis que a igreja distribuiria depois pelos
pobres e o envelope com o folar.
268
O padre chegava à frente, seguido do sacristão e do mordomo com a caldeirinha
da água benta. Como a sala era acanhada, dos outros só cabiam dois ou três
e o resto esperava fora. O padre dizia «Aleluia! Aleluia!», nós ajoelhávamos,
e pegando no hissope ele aspergia-nos a todos.
O sacristão chegava-nos o crucifixo a beijar, depois de cada beijo limpava-o
com uma toalha, e o padre murmurava a desejar-nos uma Páscoa feliz. Enquanto
um mordomo recolhia discretamente o folar e outro as oferendas, meu pai enchia
cálices de vinho fino para todos e debicávamos os doces.
Por sermos uma família pequena a bênção e o convívio duravam apenas uns minutos,
e recordo que isso me acabrunhava, porque tudo parecia ter mudado desde a morte
da avó Maria, de quem, estranhamente, eu sentia cada vez mais a falta. Creio
que foi também por essa altura que melancolicamente comecei a dar-me conta
de que já tinha um passado.
Mês das últimas notas do ano, como as que eu tinha continuavam aos altos e
baixos, o Junho de 44 foi aziago. Houve a gritaria do costume contra a minha
indolência e estupidez, houve insultos, bofetadas, estive uns dias preso em
casa (como se ler de manhã à noite fosse castigo!), mas com o São João à porta
o rigor abrandou e as ameaças caíram no esquecimento. A festa começava uma
semana antes, quando nas Fontainhas apareciam as primeiras barracas de tiro
ao alvo, de «farturas», as rodas de cavalinhos, as «cascatas», os
«comes-e-bebes» enfeitados com ramos de loureiro.
269
Dum momento para o outro as ruas engalanavam-se com arcos, lâmpadas,
guirlandas, e nos passeios mal se podia andar, tantos eram já os vendedores
de manjericos, ventoinhas e alhos-porros.
No muro dos Guindais os «rabelos» atracavam carregados de borregos que os
clientes vinham escolher e os vendedores matavam ali mesmo, segurando-os entre
as pernas, ao mesmo tempo que lhes metiam a faca no cachaço e a espichar sangue
os atiravam depois para os degraus do cais, até que parassem de estrebuchar.
Costume de sempre, meu pai e eu íamos buscar o nosso, escolhíamos o que nos
parecia mais gordo, o barqueiro cortava-lhe as goelas, e mal o dava por morto
atravessava-lhe uma vara nas patas. Segurando cada um em sua ponta e a acertar
o passo, era assim que o levávamos para casa.
No nosso largo os enfeites eram modestos: guirlandas de papel de seda, balões
pendurados aqui e ali, vasos de manjerico. No meio fazia-se uma fogueira, pela
alegria das labaredas e para assar as sardinhas que todos davam de boa vontade
e se comiam à sobreposse, acompanhadas de fatias de pão com manteiga e do café
que as mulheres traziam nas cafeteiras grandes que se usavam nas festas e nos
enterros.
Sentados em cadeiras e bancos trazidos de casa, estávamos como na plateia dum
teatro, frente ao palco que era o panorama iluminado da cidade no outro lado
do rio.
À meia-noite seria lançado o fogo-de-artifício. E que fogo! Os jornais tinham
escrito que constava de «fogo chinês», «fogo de Bengala», «chuva de prata»,
e que uma sessão especial denominada «As serpentes do faraó» iria causar
espanto. A fechar o espectáculo estava programado o sensacional «Incêndio de
Roma» que só se tinha visto muitas dezenas de anos antes, na coroação do último
rei.
Entretanto estouravam de vez em quando foguetes de lágrimas, a aragem
trazia-nos fragmentos das marchas que as
270
bandas de música tocavam pelas ruas, subiam para o céu dezenas de grandes balões
de papel, com mechas que os enchiam de ar quente e ao mesmo tempo lhes avivavam
o colorido.
O fogo-de-artifício começou ao bater das doze e realmente nunca ninguém, nem
os embarcadiços que tinham estado no estrangeiro, vira coisa semelhante. No
princípio ainda se ouviam exclamações de surpresa e gritos de contentamento,
as pessoas espontaneamente batiam palmas, mas quando «As serpentes do faraó»
começaram a rabear encosta abaixo fez se um grande silêncio de admiração.
O que ninguém esperava nem podia imaginar foi o que veio a seguir, um
espectáculo tão magnificente que a reacção súbita de todos foi de espanto e
temor. Numa gigantesca erupção de labaredas, de relâmpagos, de silvos e
cintilações, acompanhada de estrondos vulcânicos, os navios, os prédios, o
palácio do bispo, os armazéns, a igreja da Serra do Pilar, e ali ao lado a
grande casa de Mrs. Cockburn, tudo parecia lambido por chamas coloridas.
Quando as bombardas rebentaram por três vezes a anunciar o fim, houve quem
chorasse de alegria, porque o que lhes parecera a guerra mundial, ou Roma
incendiada, era a coisa mais bonita que jamais tinham visto.
Acabado o fogo, desinteressados da comedoria e do palrar da gente em volta
da fogueira, nós, os mais novos, esperançados de que pudessem acontecer ainda
outras maravilhas, tínhamo-nos ido sentar no rebordo do muro. E como de costume
a Rosa estava ao meu lado, a tocar-me distraidamente de vez em quando com o
braço nu.
Da minha idade, rechonchuda, cabelos de azeviche, a pele muito branca e uns
olhos verdes que lhe tinham valido
271
a alcunha de Olhos de gato, a Rosa era um perigo. Quando entrava em nossa casa
minha mãe não nos perdia de vista, e se por acaso se debruçava a ver comigo
uma revista, os seios a roçar-me, o braço materno logo se interpunha a afastá-la
para evitar «porcarias».
De feitio alegre a rapariga não se ofendia, continuava a sorrir, mas no instante
em que distraída por qualquer coisa minha mãe desviava os olhos, a
desavergonhada, deitando a língua de fora, dava-me um puxão à «ferramenta».
O perigo vinha daí. Garoto, rapaz, homem feito, a Rosa não era de preferências:
tivesse ele cio ou não, se apanhava o macho a jeito desapertava-lhe a braguilha
num repente e punha-se-lhe a chupar o «pirolito».
Quando lhe parecia bastante acabava as festas, arregaçava a saia, e então aí,
mesmo de pernas bambas, para o pobre diabo o remédio era deitar a fugir. Porque
desflorar uma menor, além de dar cadeia ainda por cima obrigava ao casamento,
e poucos teriam vontade de passar o resto da vida presos à Rosa, que além de
troquilheira era surda-muda.
Na nossa vizinhança nunca faltavam boatos. Uns assustadores, como o da mulher
que tinha dado à luz um filho com duas cabeças e o vendera aos ciganos do circo.
Outros absurdos: no açúcar branco a fábrica misturava um pó feito dos ossos
que os coveiros tiravam das campas e vendiam à socapa. As ameixas roxas não
se deviam comer, porque só se davam bem perto dos cemitérios e a cor que tinham
vinha-lhes do sangue dos mortos.
Passado esse São João, sobre a Rosa começou também a correr um boato tenebroso.
Que embora ela gostasse e tivesse parceiros de sobra, o melhor era não a deixar
fazer «broches». O que tinha acontecido a um condutor da linha 1 podia acontecer
a qualquer. O sujeito quase tinha batido a bota no hospital, porque a Rosa
em vez de lhe chupar
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a «coisa» soprara nela, enchendo de ar os tomates do desgraçado. A sua sorte
foi terem-lhe acudido a tempo, pois doutro modo eles iriam inchando que nem
balões e então, das duas uma: ou rebentavam ou caíam de podres.
A vida nunca mais voltaria a ter semelhante caleidoscópio de surpresas e
mistérios, de romantismo, de irrealidade. Em tudo, por toda a parte, era como
se constantemente se abrissem portas que ora revelavam ameaças ou deixavam
entrever esperanças.
No hábito de menino, porque de tão maravilhoso e variado o espectáculo nunca
me cansava, eu perdia ainda horas a espiar a cidade com o binóculo, admirado
das mudanças que a guerra causava.
Os lugres há anos que não saíam para a pesca e encostados ao cais iam
enferrujando. Os cargueiros ingleses vinham em «comboio», com canhões à popa,
todos pintados de cinzento, enquanto os nossos mantinham as cores garridas
e, para mostrar que eram neutros, traziam «Portugal» em letras descomunais
de cada lado do casco. Os carros e os camiões subiam as ruas lentamente, como
se lhes pesassem demais as caldeiras do gasogénio que substituía a gasolina.
Uma vez por semana as sereias começavam a mugir, espalhando em ondas um som
rouco que prenunciava mortandades.
Só as toninhas e os golfinhos continuavam a subir o rio como dantes, dando
aqueles saltos graciosos que era como se tivessem entendimento e fizessem
aquilo de propósito para nos divertir.
Um domingo de manhã a mulher do senhor Valente apareceu a alertar a vizinhança
para que por volta do meio-dia,
273
ao ouvirmos um barulho olhássemos para o céu, porque o novo prometido da
Joaquina, que era tenente-aviador — o antigo, o ourives, tinha querido abusar
dela — ia passar de avião sobre o nosso largo.
Juntámo-nos no largo. De facto ao meio-dia em ponto ouvimos um roncar e dali
a instantes, voando tão baixo que se distinguia o piloto a acenar-nos, o biplano
passou, deu uma volta, tornou a passar. Em seguida, em homenagem à noiva, com
um arrojo que seria falado nos jornais e deixou toda a gente de boca aberta,
o desvairado voou direito à ponte e, primeiro para lá, depois para o nosso
lado, por duas vezes passou com o avião sob o arco.
Como temeridade bastava e aliviados vimo-lo subir, subir, até que lá no alto
endireitou. Durante um segundo pareceu estacar, mas como se de repente se
tivesse avariado virou de hélice para baixo, caiu a pique e em seguida pôs-se
a girar interminavelmente sobre si próprio, deixando-nos aterrorizados à
espera da catástrofe.
A mão de Deus pareceu sustê-lo acima dos telhados, fazendo-o subir de novo
numa curva graciosa, para depois continuar em reviravoltas em que
maravilhosamente voava de cabeça para baixo, até que por fim, passando de novo
a acenar sobre o nosso largo, o vimos desaparecer rumo ao sul.
Indiferente aos gritos de aflição e aos «Ai Jesus!», a Joaquina não tinha parado
de sorrir. Aquilo, contou ela, não tinha perigo nenhum, eram exercícios. Quando
o avião picava a rebolar que metia medo, diziam que era uma queda en vrille
e às reviravoltas, se se lembrava bem, chamavam-lhes loopings.
Eu escutava-a atento, a perguntar-me se em vez de comandante do submarino que
me levasse à África não preferiria tornar-me piloto. Um ano depois o meu desejo
era ser
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advogado, para defender os pobres contra as injustiças dos ricos. Mas esses
e outros sonhos iriam ficando pelo caminho, se bem que a memória dalguns
continue presa a emoções inesquecíveis, como a de ver um aviãozinho que sobe
alegremente no céu azul, sentir a morte quando ele se despenha e conhecer a
euforia de no último instante escapar são e salvo.
Uma vez por ano a turma inteira ia à inspecção médica. Em fila indiana, de
cuecas, passávamos um a um diante do doutor Semedo, um ancião que tinha o tique
de constantemente bater com o indicador no nariz.
Mostrávamos a língua, ele repuxava-nos as pálpebras, auscultava o peito, as
costas, dava palmadinhas nas costelas, com um gesto mandava avançar o seguinte.
Pelos jeitos éramos todos saudáveis, porque nunca lhe tínhamos ouvido
comentário, até ao dia em que tendo chegado a minha vez ele demorou a
auscultar-me, mandou que me curvasse, que me endireitasse, correu-me a espinha
com os polegares, mandou que me pusesse de lado, outra vez de costas, que me
virasse para a esquerda, para a direita.
Chega.
Eu em sentido e a tremelicar, porque fazia frio, ele absorto a bater com o
dedo no nariz, ao mesmo tempo que dava estalinhos com a língua.
Estás a crescer mal, meu rapaz. Essas tuas costas vão ser o diabo e o melhor
seria dar-lhes um jeito. Mas enfim...
Despediu-me sem mais explicação e eu fui dali a vestir-me, mortificado, supondo
que não tardaria a ficar corcunda.
Em casa houve pânico. Meus pais mandaram-me pôr em pêlo, e como se entendessem
de doenças examinaram-me as costas, a coluna, mandaram-me curvar como eu lhes
tinha dito que o médico fizera, concluindo que tudo lhes parecia no seu lugar.
Pelo sim pelo não, e como o nosso velho doutor
275
Pereira falecera havia pouco, fomos os três ao consultório do doutor Mesquita,
que era major da Guarda e tinha fama de competente.
Ele apalpou, apalpou, auscultou, espetou-me os dedos no pescoço, por baixo
das orelhas, nos sovacos, torceu-me os braços e por fim disse que não havia
nada a fazer. Era de nascença. As costas só me viriam a doer de verdade quando
chegasse a homem feito. Ou talvez nunca. Questão de sorte. Corcunda também
não iria ficar, a menos que escangalhasse a espinha num trambolhão.
Agora donde lhe poderá vir mal...
Em vez de continuar passou as mãos pelos olhos com um modo cansado e mandou-me
sair.
Se na sala de espera não houvesse gente eu teria colado o ouvido à porta, mas
cheia como estava fui-me sentar e demorou antes que os meus pais aparecessem,
ambos trombudos e calados.
Dali fomos aviar a receita, que era de injecções, e da farmácia, numa urgência
como se houvesse perigo de vida, caminhámos direitos ao quartel.
O senhor Faria escutou o que eles lhe sussurravam, mandou-me deitar de barriga
para baixo e depois de desinfectar a seringa e a agulha num tachinho de água
a ferver espetou-ma fundo na nádega. Gritei de dor ao sentir passar um líquido
espesso como chumbo derretido e quando passei a mão na picadela a carne começara
a inchar.
O senhor Faria disse que realmente doía um bocado e que o inchaço ficava uns
tempos, mas massajando bem iria desaparecendo e deixava de doer.
E assim fomos para casa, eu uns passos atrás dos meus pais, a manquejar, com
a mão por dentro das calças esfregando a nádega, sentindo por baixo da pele
uma coisa dura do tamanho dum ovo.
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A zaragata explodiu logo na cozinha. Ela aos berros que se ele não andasse
sempre metido no putedo não haveria doenças em casa. Ele a repontar que não
tinha culpa nenhuma, não havia ninguém sem sífilis, e ou ela se calava ou lhe
partia a cara.
O ralho não foi por diante, porque ele num dos seus repentes nem sequer esperou
que Ernestina acendesse o lume para fazer a ceia. Despendurando do cabide o
capote que acabara de pendurar, pôs o boné na cabeça e desapareceu no escuro.
Aquilo eram zangas dum com o outro e eu, ao crescer, fora aprendendo que mais
valia ficar de fora. Deixá-los. Tanto mais que nalgumas ocasiões, sem razão
que se adivinhasse, passavam da gritaria ao riso, e fingindo que se aperreavam
fechavam-se no quarto.
Para não lhes ouvir os gemidos nem o ranger da cama eu saía para o largo, a
fazer de conta que não compreendia a Rosa, que quando me via sozinho sentado
no muro apontava para nossa casa com piscadelas de olho e, cheia de malícia,
espalmava uma mão sobre a outra.
A fingir de desinteressado, como se não me importasse, só depois da ceia peguei
na caixa das injecções. Vinham da França, eram de mercúrio e «indicadas
especialmente para o tratamento da sífilis congénita».
Achei estranho, porque a sífilis, já o sabia há tempos, vinha de coisas que
eu ainda não tinha feito. O mistério estava no «congénito», e ao procurar-lhe
o significado no dicionário compreendi que, como outros bens e males, a mazela
me viera por herança. Com dores nas costas pagaria eu os gozos de meu pai,
dos meus avós e dos avós deles, que de geração em geração tinham passado o
mal-turco uns aos outros.
A receita era para três caixas de doze ampolas cada. Como ia à injecção duas
vezes por semana, andei mais de quatro
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meses a massajar alternadamente as nádegas. Quando um dia os companheiros me
perguntaram o que tinha, mostrei-lhes os inchaços, explicando que andava a
tomar injecções para tratamento duma galiqueira que me pegara uma puta do café
Royal.
O assombro de que eu, como os grandes, tivesse coragem para aquilo, valeu-me
fama de putanheiro. E porque me pareceu que era melhor mantê-la, tive de ensinar
a uns quantos o caminho para as casas de tia da Rua Escura e da Rua Chã, que
eu só conhecia por lá ter estado de sentinela à porta com minha mãe, que não
perdia a esperança de, pelo menos uma vez, apanhar o homem com a boca na botija.
277
15
No dia em que a guerra acabou, uma semana antes dos meus quinze anos, juntou-se
na cidade uma multidão imensa a percorrer as ruas aos vivas. Em hastes que
por serem grandes e pesadas os homens as levavam apoiadas em alças de couro,
tremulavam as bandeiras da América, da Inglaterra, da França e de Portugal.
A da União Soviética tinha sido proibida, mas num malicioso simbolismo viam-se
aqui e além hastes sem bandeira.
Do mesmo modo, para aperrear as autoridades, gritavam-se vivas à França e à
América, à Inglaterra, a Portugal, e em seguida apenas um viva, mas tão
retumbante que o som parecia desenhar a foice e o martelo sobre aquela massa
de gente. Nessa euforia, e como a Polícia não podia estar em toda a parte,
de repente ouvia-se dum e doutro lado o começo da Internacional ou alguém que
não podendo conter a sua emoção gritava: «Viva Staline!»
Tendo escapado aos horrores da guerra, o que nós de facto celebrávamos era
menos a vitória dos Aliados do que a nossa esperança de redenção, pois naqueles
anos e no país inteiro raramente a miséria fora tanta, nem o futuro parecera
280
tão sombrio. E se os «bons» da democracia tinham derrotado os «maus» da
ditadura, o mais provável, pensávamos com ingenuidade, era que nesse momento
o nosso ditador se aprontasse para fugir.
De fato e gravata, a corrente de relógio do avô atravessada sobre o colete,
caminhei a tarde inteira solene e decidido, de braço dado com os estranhos
que me ladeavam, certo de que a nossa marcha prenunciava belos amanhãs.
No dia seguinte, supondo chegada a era da liberdade e das rebeliões, fomos
em comissão ao liceu feminino exigir da reitora que deixasse as raparigas sair
connosco a manifestar. A mulher, idosa e de má têmpera, ouviu-nos sem mexer,
pôs os óculos, tirou os óculos, arrepanhou os lábios umas quantas vezes, e
numa voz inesperadamente autoritária tratou-nos de canalhas, gritando que
saíssemos dali. Imediatamente. Ou chamava a Polícia.
Entreolhámo-nos um momento, perplexos de que ela não compreendesse que os
tempos tinham mudado, que com a aurora da democracia a romper nos devia outro
tratamento. Mas quando a vimos pegar no telefone o medo levou a melhor e
cobardemente fomo-nos embora. A nossa luta contra o regime ficou por aí. Com
os exames à porta e as férias grandes logo a seguir, desaparecemos cada um
para seu lado.
De memorável nesse tempo recordo os documentários sobre os campos de
concentração, que eram exibidos em todo o seu incrível horror, sem os cortes
de imagens que por piedade lhes seriam feitos depois. No cinema havia gente
agoniada a vomitar e à saída poucos continham as lágrimas.
A impressão que me ficou é de que ao ver esses filmes qualquer coisa de essencial
mudou então no meu íntimo e para sempre. Antes deles a vida para mim era a
comum, com as alegrias e tristezas que todos temos, mas depois de os
281
ver entraram-me na alma sombras que eu desconhecia, o que antes era só medo
tornou-se pesadelo.
Foi talvez isso que me levou a pensar que ao invés do que tinha acreditado,
na minha guerra com o mundo não ia haver batalhas em que de longe a longe eu
sairia vencedor. Pela simples razão de que a luta era desigual: dum lado o
zé-ninguém, do outro um poder bruto que torturava, esmagava e destruía, sem
sentimentos nem raciocínio. Esconderijo, não encontraria nenhum. Fugir-lhe,
também não saberia para onde. E assim, em lugar do que eu tinha sonhado, o
começo alegre de vida nova num mundo redimido, vi-me a dar os primeiros passos
numa longa jornada em que, imaginados ou reais, os obstáculos e os perigos
me pareceriam sempre maiores que as minhas forças.
No começo de Agosto lá fomos mais uma vez a caminho do comboio do Douro, naquele
ritual que vidas atrás os meus avós tinham originado de se estar presente na
aldeia para a festa de São Lourenço.
Mas a azáfama da casa nos preparos da viagem, o cheiro da comida que se levaria
para a merenda, aquele vaivém de gente com recados, as malas abertas no chão
e por cima das camas, as corridas de última hora a buscar o presente para este,
as pílulas para o outro, tudo isso que antes me alegrara enchia-me agora de
tédio.
Na manhã da partida, talvez por irmos em fila e pelo excesso e a disparidade
da bagagem, o cortejo que formávamos, meu pai como de hábito à frente, depois
as carrejonas, minha mãe a segui-las, continuava a ter qualquer coisa de
exótico. Vista por mim, que de propósito caminhava atrás e longe deles, a fumar
escondido e para que a pouca gente que havia na rua àquela hora matinal não
julgasse que eu
282
lhes pertencia, a cena assemelhava-se facilmente à de uma família de beduínos
a caminho dum oásis, ou de malaios de regresso ao kampong.
Ainda ia atentando na paisagem da beira-rio e na cidade acavalitada na outra
margem, mas talvez por tê-la absorvido em demasia, o meu sentimento era mais
de dono que de observador maravilhado. Olhava-a a verificar se tudo permanecia
no lugar devido, que eu queria imutável, mas em pensamento voava no sonho de
me embarcar num daqueles navios, viver ciclones, descobrir as ilhas fabulosas
que, tinha eu lido, emergiam dos abismos do oceano cobertas de palmeiras.
O sonho ia e vinha em relâmpagos, a realidade era o meu mau humor, a desejar-me
sozinho, longe da caravana que tinha passado o muro da Ribeira e desaparecera
na esquina.
Na estação repetiram-se como cada ano as queixas de meu pai contra o preço
do despacho das malas. Esperámos. Comemos. O comboio encheu-se de gente e de
vozearia. Partiu. Parou. Voltou a partir. Parou de novo. Horas e horas assim.
Às vezes dando a impressão de se quedar esquecido em estações onde não se via
gente e que pareciam arder naquele braseiro de inferno. Túneis. Fumo. Fuligem.
A monotonia das encostas plantadas dum sem-fim de vinha. Pontes. Penedias.
O Douro falto de água, estreito como um riacho. A mudança no Pocinho. O martírio
da linha do Sabor. O vagar da subida, as curvas a fazer o sol queimar dum lado,
do outro, a carruagem cheia de gente amodorrada e suarenta.
Sim senhor, não senhor, o dia inteiro pouco mais devo ter dito. Aquilo não
era a minha viagem, nem obrigação minha, não tinha a ver com os meus sonhos.
Eu ia ali de forçado, mas não era por serem imaginárias que as grilhetas me
tolhiam menos.
Felizmente que à chegada a Carviçais voltei a menino. Ao ver as nossas bestas
presas às argolas do muro da estação e o ti Serafim no cais, não esperei que
o comboio parasse e dum salto caí-lhe nos braços.
283
O mistério da ternura! Aquele homem que cheirava a suor e à resina dos pinhos,
ao surro encardido de quem trabalha a terra e vive entre animais. Aquele homem
zarolho, calejado, golpeado, de barba crescida, roupa esgarçada, que lavava
as mãos e a cara todos os dias, mas o resto só nas festas. Àquele homem me
abracei a chorar, porque não tinha palavras para lhe dizer a minha ternura
e o bem que lhe queria.
Silencioso, as lágrimas a apontar, ele apertou-me contra si num abraço forte,
a assegurar-me que o afastamento e a lonjura só reforçavam a afeição e que,
embora adoptivo, eu era tão seu neto como se o fosse de sangue.
Como sempre acontecia, um arrocho quebrado, uma cilha curta demais para abarcar
a carga, os embrulhos que não cabiam nos alforjes, entre contratempos e
discussões esperámos uma eternidade.
Quando finalmente partimos só meus pais iam montados. O ti Serafim a pé, porque
não sendo preciso lhe custava sobrecarregar os animais com o seu peso; eu ao
lado dele, levando uma burra à rédea. Atento ao homem, sensível à serenidade
e ao carinho que ele irradiava sem precisão de gestos, de palavras ou de
olhares.
Por certo nunca aspiraria ver-me no buraco que a aldeia era, a repetir o destino
dos meus antepassados numa vida de poucos sonhos, dias ásperos e sempre iguais,
os cumes da serra a tapar o horizonte. Contudo, ser como ele sereno e uno com
o que o rodeava, e ao mesmo tempo viajar para as ilhas cobertas de palmeiras,
talvez fosse isso o que os adultos chamavam felicidade.
284
Da paisagem ia-me desinteressando, mas os cheiros envolviam-me intensos. Eram
eles que acordavam a memória das vezes que passara pelo mesmo caminho com a
avó Maria, ela a apontar os penedos onde tinham matado o tendeiro, a gruta
onde em certas noites as bruxas dançavam, recontando a vida da sua longínqua
mocidade que eu, de tanto a ter ouvido, às vezes confundia com a minha.
Do fundo da rua logo se via o ajuntamento de parentes e vizinhos prontos para
as boas-vindas, mas eu já pouca inclinação tinha para chochices: beijei a avó
Elisa, recebi-lhe a bênção, abracei uns e outros de fugida e corri para casa
a certificar-me de que ninguém tinha desarranjado as minhas coisas.
À ceia falou-se da festa, que caía no domingo a seguir, e de que era preciso
arranjar cómodos para os parentes de Zava, que vinham cumprir promessa feita
a São Lourenço por lhes ter salvo as ovelhas da tinha. O comer dava para todos,
mas onde iam dormir quatro casais e onze crianças?
Falou-se das sobrinhas da Filomena, que ninguém conhecia por se terem criado
em Lisboa, e que também tinham chegado para a festa. Pintavam-se como as
mulheres da vida e obrigavam as pessoas a virar a cara, porque em vez de montarem
decentemente de lado, levantavam as saias e escarranchavam-se nas albardas,
de pernas ao léu até acima.
Falou-se dum recado dos tios do Cabeço, para que desta vez fôssemos visitá-los
sem falta, para se fazer a partilha das terras do Medal, adiada desde que o
avô José Maria tinha falecido.
Falou-se de que havia muito menos moscas e que quase tinham desaparecido os
mosquitos. A tia Lucinda, que comia connosco, estava certa de que fora milagre
da Virgem, a quem se acendiam muitas velas para que livrasse o povo das sezões.
285
Pelos jeitos não o sabiam e para que me não chamassem presunçoso não lhes contei
que tinha lido no jornal que, para nos livrar da malária, os americanos tinham
mandado aviões a espalhar DDT sobre o país inteiro.
Houve um momento de discórdia. A avó Elisa tinha-o ouvido no Porto, quando
lá estivera a tratar-se, mas só depois de uma desconfiança de anos tinha
finalmente aceitado a explicação do funcionamento do rádio. A caixa falante
estava ligada a um fio que desaparecia na parede, depois na terra, que saltava
de poste em poste como o telégrafo, e por esse fio é que chegavam as vozes
vindas dos confins.
Todo orgulhoso do presente e da surpresa, quando a ceia findou pus sobre a
mesa o rádio de pilhas, um Philco que um amigo de meu pai me tinha trazido
da América. Liguei-o, e as vozes saíram dele claras, a parecer que quem falava
estava ali connosco. Mudei de estação, aumentei o volume, a música explodiu
como se fosse duma banda num coreto.
No modo calmo que sempre tinha comigo, mas com uma rispidez que eu lhe
desconhecia, a avó mandou que lhe tirasse a «caixa» de casa. Fora! E nunca
mais lhe aparecesse com ela ali. Porque se fosse rádio, teria fio como os outros
tinham. Tal como se via, ligada a coisa nenhuma e as vozes vivas a sair-lhe
das entranhas, forçosamente era obra do Demo.
Mas ó avó, o som vem pelas ondas, pelo ar!
Olha, menino, não me consumas. Leva isso embora antes que to atire ao lume.
No íntimo chamei-lhe burra e desolado olhei para o ti Serafim, mas ele tinha
adormecido e ressonava de boca aberta estirado no escano. Os outros olharam
desinteressados, continuando a conversa como se nada se tivesse passado. O
que mais estranhei foi que meus pais não me tivessem acudido e, vexado, sem
dar as boas-noites a ninguém fui para nossa casa,
286
deitei-me a ouvir o rádio e adormeci a sonhar que a locutora da BBC era Mrs.
Cockburn, que de Londres falava comigo.
Tarde de sábado. Ponto alto do ano, tudo parecia trepidar desde que de manhã
cedo tinham começado nas casas e na rua os preparativos para a festa. As
mulheres corriam para o forno com travessas de carne, os rapazes puxavam
carradas de toros para a fogueira, as beatas preparavam os altares, os homens
tinham o coreto meio montado, os mais ágeis andavam com escadotes a fazer os
arcos que depois seriam enfeitados com ramos, flores e bandeirolas de papel
de seda.
A rua, que desde o princípio do mundo tinha sido um correr de fragas em que
a passagem de gente e de bestas cavara sulcos irregulares, fora calcetada havia
pouco e as mulheres, borrifando água para que o pó não levantasse, esmeravam-se
a varrê-la com as vassouras simples de ramos de giesta. A verdura que seria
espalhada à passagem da procissão amontoava-se às portas, esfregavam-se as
varandas para não sujar as colchas que as iriam enfeitar.
As doceiras, os tendeiros da roupa e os das bugigangas já tinham armado as
suas mesas, quando os garotos apareceram a gritar que os músicos de Carviçais
estavam a passar a ribeira. Realmente daí a pouco apeavam-se junto da capela
e parecia um regimento de cavalaria, porque entre animais de monta e os que
traziam os instrumentos eram para cima de trinta bestas.
Num pronto juntou-se o povo todo para assistir à «apresentação», o que sempre
demorava, pois se tinham de recolher os animais, beber um copo para acalmar
a sede, afinar os instrumentos e só então os músicos se punham em formatura.
287
De costume o primeiro número era uma marcha e dava gosto ir atrás da banda
até à igreja, marcando passo como os soldados. Mas sem aviso aos mordomos o
chefe tinha ensaiado um pasodoble e foi surpresa. Houve os que acharam bonito
e se entusiasmaram a dar uns passos de dança, mas a maior parte ficou
descontente, resmungando que era música sem graça, daquela que só gostavam
os ciganos.
Em casa da avó comeu-se a ceia em algazarra, porque com os parentes de Zava,
os músicos que nos tinham calhado para albergar, nós e um ou outro que entrava
e ficava, éramos mais de trinta na cozinha. Como não havia bancos nem cadeiras
bastantes, os mais pequenos comiam sentados no chão, às vezes aos berros se
os cães e os gatos lhes roubavam a comida. Quando os músicos se foram saí também,
mas enquanto eles iam para o coreto eu fui-me à procura dos meus companheiros,
porque o combinado era pormo-nos de sentinela à porta da Filomena, à espera
das meninas de Lisboa.
Impacientes, tínhamos a impressão de que nunca mais iriam sair, mas quando
apareceram deixaram-nos estupefactos. Cabelos soltos, ombros nus, decote
fundo, a finura da cinta a realçar as ancas, os lábios pintados dum vermelho
intenso, aquilo não eram raparigas, aquilo eram o que a nossa fantasia colocava
acima das divindades: actrizes!
Numa desinteresse fingido íamos deixar que passassem e depois, caminhando
atrás delas como por coincidência, lá se arranjaria modo de meter conversa.
O que nos pôs de cara à banda foi o vê-las parar ao pé de nós e, sorridentes,
sugerir que fôssemos juntos ouvir a música.
Fomos com elas rua acima em conversa séria. Ouvimos a música. Voltámos rua
abaixo. Sentámo-nos a conversar no
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rebordo da capela. Bebemos copinhos do que chamavam «licor», chá muito doce
misturado com aguardente. Vezes sem conta voltámos ao coreto e de novo à capela,
porque o arraial era isso: a banda a tocar, a barulheira, as zaragatas dos
borrachos, o povo rua acima rua abaixo a ver e a ser visto, de vez em quando
o estrondo dum foguete.
Elas eram irmãs e depois de muitas voltas o Ricardo, aparceirara com a mais
velha; a do meio ora sorria para o Jaime, ora para o Manuel, sem se decidir;
e a mim calhara-me a Antónia, uma rechonchuda da minha idade e grandes olhos
pretos. Vendo-se sem sorte o resto dos companheiros tinha-nos deixado o campo
livre, mas toldados do vinho e do «licor», quando calhava a passarem por nós
desatavam em gargalhadas alarves.
Aquilo começava a aborrecer. O andarmos dum lado para o outro também cansava,
foi então que o Ricardo, que era sabido e mais velho do que nós — tinha deixado
o seminário e daí a pouco iria à inspecção — disse que para elas, habituadas
à cidade, a festa não devia ter graça nenhuma. E elas a sorrir concordaram
que de facto tinha pouca, mas as festas nas aldeias eram assim, não havia
remédio a dar-lhe.
O Ricardo pôs uma expressão tristonha. Na verdade, disse ele, vivia-se ali
num buraco e na sua singeleza as pessoas com pouco se contentavam. A música
a tocar no coreto, uns pares em volta numa dança tosca, meia dúzia de foguetes
e vinho à farta, para a maioria isso já era festa de arromba.
Graças a Deus, para gente sensível a aldeia oferecia mais. Um exemplo. Elas
conheciam o alto das Cortes, pertinho, nem sequer meia hora de subida por entre
os pinheiros. Mas alguma vez tinham ido lá de noite? Não? Pois à noite o panorama
que de lá se avistava parecia mágico e a Lua cheia tornava-o espectacular.
Só vendo se acreditava.
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Bom vendedor do seu peixe, o Ricardo não continuou. Acendeu um cigarro e
ofereceu o maço à volta, elas a rir que ali não se atreviam a fumar. Nas Cortes
talvez, e se a vista era como ele dizia gostariam de ir ver. Infelizmente a
tia era severa e sem companhia não lhes daria licença. O Ricardo fez um gesto
de pasmo. Companhia! Então que éramos nós? Que melhor companhia queriam ter!
De mais a mais da mesma terra e, se fôssemos a ver, em segundo ou terceiro
grau éramos todos primos.
O argumento do parentesco convenceu-as, só que para evitar falatórios era
melhor irmos nós à frente e esperarmos a meio da encosta, que elas lá iriam
ter.
Saímos os três da aldeia no passo calmo de quem vai espairecer, mas ao pé da
casa do Cantoneiro o Ricardo não se conteve e puxando-me a mim e ao Jaime pelas
lapelas, sussurrou-nos ao ouvido:
Estão no papo!
Esperámos ansiosos, sentados à beira do caminho, fazendo esforço para nos
distrairmos com a música, a vozearia da festa, o colorido dos lampiões que
iluminavam o adro e a rua. Mas elas demoravam, os minutos pareciam horas, no
meu íntimo eu começara a desfiar recordações da Alice e de como era simples
entrar no vestiário, dar-lhe cinco mil réis de rebuçados, apalpá-la por onde
apetecesse.
Inesperado e agudo, o grito sobressaltou-nos, fez-nos curvar como se sobre
nós se fosse abater um perigo. E elas riam às gargalhadas do susto e da partida
que nos tinham pregado ao darem uma grande volta para que as não víssemos
chegar. Sem parar de rir, mas boas camaradas, ajudaram-nos a levantar e foi
assim que as nossas mãos se prenderam e aos pares, trocando beijos e carícias,
chegámos ao alto das Cortes.
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A vista conhecia-a eu de sobejo e com lua ou sem ela era sempre uma surpresa.
Aos poucos os olhos habituavam-se a distinguir aquela infinidade de tons de
escuro, que ia do negrume dos vales ao chumbo reluzente das encostas onde o
luar batia. Muito ao longe brilhavam clarões de vilas, e aqui e ali viam-se
subir foguetes nas aldeias onde também se festejava São Lourenço.
Porque os ouvidos demoravam a habituar-se aos zumbidos da noite o silêncio
parecia-nos absoluto e, instintivamente, como se não devêssemos perturbar
aquela quietude, falávamos em murmúrios.
Junto dos currais havia fragas lisas e macias, cobertas de musgo, e como se
tivéssemos combinado cada par desapareceu no seu recanto. A Antónia e eu
escolhemos o abrigo dum muro e quando nos sentámos ela pediu-me um cigarro,
acendi-lho, acendi o meu, mas depois de duas ou três fumaças em silêncio, como
se de súbito mudasse de ideia atirou com ele e encostou-se ao muro numa pose
estudada: as mãos sob a nuca, os olhos semicerrados, as pernas castamente
cruzadas.
A decepção foi atroz. Eu, romântico, febril de cio, queria tudo, acasalar-me
sem demora, e se ela engravidasse fugiríamos ambos de submarino para a África
ou de avião para Londres. Mas a Antónia, ciente do perigo, contentava-se com
beijos, e para carícias tirara da blusa o seio esquerdo.
Só esse. O outro e o resto protegia-o ela com unhas que esgadunhavam fino como
se fossem de gato.
Quando o Ricardo assobiou a dar sinal que era tempo de voltarmos à aldeia,
encontraram-nos à borda do atalho, ambos murchos, enquanto eles, a rir e
caminhando aos encontrões como se estivessem bêbedos, não paravam de se beijar
e apalpar.
291
Zangado com o mundo, no domingo não fui à procissão, não fui ouvir a música,
não andei rua abaixo rua acima, não quis ver ninguém. Só saí do meu quarto
para ir comer a casa da avó e voltei a fechar-me nele, entretido com o rádio,
que fraco das pilhas já mal se ouvia, e a folhear o meu passaporte para o mundo,
o Atlas Historique et Géographique de Paul Vidal de La Blache que, como se
lia no frontispício onde ele assinara o nome, o avô José Maria tinha comprado
no Porto no dia 12 de Dezembro de 1890.
Foi assim que perdi dois casos que seriam falados durantes anos. A meio da
tarde tinha aparecido um grupo grande de ciganos que ninguém conhecia e com
certeza eram de muito longe, pois falavam um espanhol arrevezado, ruim de
compreender. Disseram que queriam comprar cavalos, mas logo os desenganaram,
porque na terra só havia um na casa grande. O resto do povo não se podia dar
a luxos e trabalhava com burras e muares.
Negócio, pois, não puderam fazer, nem sequer trocas, mas talvez porque a festa
os tivesse animado descarregaram ao pé da taberna os animais que traziam e,
a acreditar nos que viram, tiraram dos alforjes uns dez ou doze violões,
pondo-se logo a tocar. As mulheres acompanhavam-nos com castanholas e
pandeiros, ao mesmo tempo que a sapatear, a rodopiar e a gritar Olé!, parecia
que se lhes tinha metido o diabo no corpo.
Aquilo era tão bonito que o povo esqueceu a banda, e até os próprios músicos
e o chefe desceram do coreto e foram também ver.
Ao fim de cada número as palmas nunca mais acabavam e fez-se ali um arraial
que durou noite fora, com tanto vinho e tanta comida trazida das casas que
os cães, empanturrados, nem sequer farejavam a carne que se lhes atirava.
292
O outro caso dera-se de manhã, antes da missa, quando os homens se tinham
juntado na taberna e, conversa vai conversa vem, o Picoto disse que apostava
com quem quisesse um garrafão de vinho em como ele, embora não fosse mulher,
seria capaz de tirar leite dos próprios peitos.
Uns riram, outros acharam que melhor seria fechar a boca para que nela não
entrasse mosca nem saísse asneira, alguns perguntaram-lhe de troça se já estava
outra vez borracho, ou se ainda não tinha curtido a carraspana da noite. Ele
na teima que se alguém se atrevesse a apostar haviam de ver que lhe saía o
leite, e não era às pingas, não senhor, saía num esguicho. De facto, baixote,
redondo das banhas, o Picoto tinha uma pança descomunal e na sua roupa caberiam
à vontade dois. E os peitos pareciam realmente odres a inchar-lhe a camisa.
Agora que dessem leite tinha de ser exagero. Ou não seria?
Ele a teimar que sim, eles a abanar a cabeça, mas a aposta ninguém a aceitava
até que, cheio de brio, disse que apostava contra o santo. Se ganhasse ele
bebiam ali o vinho, se o leite não saísse ia o dinheiro do garrafão para as
velas do altar.
Nunca se tinha visto semelhante maluqueira, nem havia memória de alguém tão
desavergonhado que fosse capaz de se pôr quase nu à vista de toda a gente.
Mas o Picoto, tarado ou bêbedo, não estava para meias medidas: despiu a camisa
e atirando-a para o soalho disse que pusessem um copo no balcão. Em seguida
pegou um peito às mãos ambas e do mesmo modo que ordenhava as cabras começou
a apertar e a espremer, a apertar e a espremer.
Os que estavam em volta disseram que não se via sair nada, parasse com aquilo;
não tinha graça nenhuma estar ali
293
a fazer de mulher e ainda era capaz de se magoar. O vinho da aposta pagavam-no
eles.
O gordo, enraivecido, a cara arroxeada, continuava a apertar e a espremer,
a apertar e a espremer, até que de repente deu um urro, e parecendo que o
esmagava fez sair do peito um esguicho de leite. E mais um, e outro, e outro,
até ter o copo meio cheio.
Acalmaram-no. Bastava. Sim senhor, tinha ganho, estavam convencidos. Mas que
se vestisse e se sentasse a descansar, porque um esforço daqueles ainda era
capaz de dar para mal.
Ouvi contar depois que tinham atirado com o copo para a rua e se anojaram todos
ao ver como os cães o lambiam.
Em mim o caso iria criar uma preocupação que por vezes se transformaria em
pesadelo: ao sair do banho e ver-me reflectido no espelho, olhava
involuntariamente para o peito, tremendo à ideia de um dia descobrir os meus
seios inchados, prontos a esguichar leite.
16
O ti Carmelo morreu dum ataque do coração na semana a seguir à festa e em nossa
casa carpiu-se tanto que eu, sem compreender, quis saber se era nosso parente.
Olharam-me desentendidos, mas explicações ninguém mas deu e perguntas também
não voltei a fazer, porque a experiência me tinha ensinado que o mais seguro
era esperar.
Surpreendente achei eu que os tios do Cabeço viessem de tão longe para o
enterro, o ti Maricas e as irmãs de luto e num choro de meter dó. De Mogadouro,
donde quase nunca saía, veio a tia Margarida com o homem e a filha, dando
impressão que a nossa gente carpia o falecido como se fosse família.
No regresso do cemitério o ti Serafim deve-se ter apiedado de me ver confuso
a fazer perguntas a que ninguém respondia e, procurando uma desculpa para me
afastar de casa, chamou-me para que o ajudasse a levar as bestas a beber.
A caminho da fonte disse que o que me ia contar não era segredo nenhum, mas
de certas coisas nunca se falava por respeito aos mortos.
Compreendes?
296
Respondi-lhe que não compreendia e ele esfregou o olho cego, um modo que tinha
quando se sentia acanhado.
Alguma vez notaste qualquer coisa no ti Carmelo? Nas feições dele?
Não senhor.
Vê se te lembras.
Eu não sabia do que me havia de lembrar, a única recordação que me ocorria
era a do seu aspecto de homem forte, alegre, com um bigode retorcido. Tinha-me
levado algumas vezes à festa de Lagoaça, fazendo gosto que montasse a sua mula
branca, que ele ajaezava com albarda atapetada e estribos ao meu tamanho,
pondo-lhe no cabresto um freio de cavalo. Lembrava-me também de entrarmos em
casas onde me faziam muitos festejos quando ele anunciava de quem eu era neto,
e da vergonha que sentia do modo como se punha a gabar me.
Se o teu pai usasse um bigode como o do ti Carmelo, com quem é que se pareceria?
perguntou o ti Serafim.
Ele a dizer aquilo e eu num relâmpago da imaginação a sobrepor os rostos de
ambos, descobrindo neles uma semelhança que nunca tinha notado e que agora
me parecia de irmãos. Que o eram, pouco se levando na idade, o ti Carmelo nascido
da «desgraça» que nos seus tempos de galaroz o avô José Maria fizera à Rosália,
a filha dos Pernetas. À última hora tinham conseguido casá-la com o Júlio
Cesteiro que, contente com o dote, não se tinha importado de a receber
«arrombada.»
Em subentendidos que para mim já o não eram, nessa noite só se falou do falecido
e dos Pernetas, da felicidade que tinha sido para o Cesteiro, sem um vintém
de seu, apanhar
297
as terras da Rosália, E de como o povo galhofava, mas na frente de ambos fingindo
de natural, a concordar que não era a primeira vez, nem seria a última, que
uma criança nascia aos seis meses.
Com as mortes dos antigos tudo isso eram águas passadas. Agora a pena era que
o Carmelo nunca se tivesse casado, não tivesse irmãos, nem se lhe conhecessem
parentes chegados, porque o que tinha iria parar ninguém sabia a que mãos.
Foi assim que falando de heranças, de ocasiões perdidas de enriquecer — quem
colhia duzentos ou trezentos alqueires de trigo era rico — e das desavenças
que davam as partilhas mal feitas, se combinou que na semana seguinte iríamos
finalmente ao Cabeço para medir as terras do Medal e ver se se continuaria
ou não o arranjo feito depois da morte do avô José Maria. Traziam eles as terras
de meias, e pelo rendimento dos pastos e das oliveiras davam-nos por ano quatro
borregos e sessenta litros de azeite.
Ao passo lento a que obrigava o calor de Agosto seria jornada de quatro ou
cinco horas, mas como passaríamos lá uma noite, talvez duas, e a cortesia
mandava corresponder com presentes aos presentes que eles nos tinham trazido,
os preparos levaram tanto tempo como se fôssemos já de volta para a cidade.
Saímos ao romper do dia, uma burra para a bagagem e os alforges da merenda,
outra em que minha mãe ia montada, meu pai e eu a pé, espingarda ao ombro,
cartucheira à cinta, cantil a tiracolo. Ele à frente, eu a fechar a marcha.
As armas eram para o caso de «adregarmos com qualquer coisa», eufemismo que
ele usava para a possibilidade remota de vermos algum coelho, ou de que no
caminho se nos levantasse um bando perdizes. Na verdade era mais aparência
que outra coisa, pois o muito que ambos tínhamos
298
provavelmente herdado do avô José Maria não incluía a perseverança de horas
a fio perseguir a caça, nem a pontaria que o tornara lendário.
De mais a mais, ele a tossir sem parar, a acender um cigarro no outro, eu perdido
nos meus sonhos, a Flobert calibre dezoito carregada de escumilha, ninguém
se lembraria de nos tomar por caçadores.
Talvez porque tinham sede, pouco mais teríamos andado que um quarto de hora
quando as burras nos obrigaram a parar na fonte das Casas de Baixo.
Beberam, indiferentes à nossa pressa, tornaram a beber, e de súbito, sem razão
que se adivinhasse, teimaram em voltar para a aldeia. Nós a empurrá-las para
o caminho, elas a querer a estrebaria, tantas vezes as virámos e revirámos
que meu pai perdeu a paciência e desatou às pauladas a ambas, numa fúria tão
desmedida que a que levava minha mãe se pôs aos coices e, atirando-a ao chão,
desapareceu a galope encosta abaixo.
Ela queixosa do tombo e ele a mandá-la calar, zangaram-se. Ernestina a
lembrar-lhe que o ti Serafim não queria que lhe maltratasse os animais, ele
aos gritos e bardamerda, que o não chateasse. Que se pusesse mas era a andar
mais depressa e se não podia, com aqueles sapatinhos de merda, então fosse
para casa. Bardamerda, não lhe moesse a paciência.
Peguei na outra burra à rédea e fui andando para os não ouvir, entretido com
a paisagem, onde agora os cumes se iluminavam, enquanto nalguns vales a sombra
tinha ainda um escuro nocturno.
A coisa de meia légua parei na casa onde se guardava a azeitona e a amêndoa,
trazida saco a saco por atalhos de
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cabras e que dali, por o caminho ser mais largo, era carregada nos carros de
bois que a levavam ao povoado. Sentei-me na soleira à espera, mas ao dar conta
de que ainda vinham a zaragatear, empurrei a burra à minha frente e meti-me
à descida.
Nos montes, as encostas sombreadas cobriam-se do verde escuro dos pinheirais,
e nas terras férteis da soalheira, onde havia menos dum mês se tinha feito
a segada do trigo, via eu gigantescos tapetes que o sol baixo da manhã pincelava
de reflexos dourados.
Andorinhas, gaios, um ou outro corvo, sardões a estacar surpreendidos de serem
incomodados na sua paz, à medida que o calor aumentava o ritmo da natureza
ia decaindo, o céu era uma placa azul a descer lentamente, inexoravelmente,
roubando-nos o ar. E por sobre as penedias os abutres voavam em círculos, a
aguardar que a brisa lhes mostrasse para que lado havia bestas mortas.
Numa volta a meio da ladeira avistavam-se as casas do Cabeço, tão nítidas que
custava a crer que fossem precisas horas para lá chegarmos, mas passos adiante
logo desapareceram, tapadas pelas fragas do Casalete.
Inacessíveis e formidáveis pelo tamanho, cortadas a pique, a avó Elisa contava
que um rei mouro as tinha mandado furar bem fundo, construindo lá um palácio
onde ainda morava gente. Só se não via quem eram porque naquele tempo, para
escaparem aos cristãos, um mágico os tinha enfeitiçado. Mas às vezes alguns
arriscavam-se a sair, transformados em bichos. Não ríssemos, porque era
verdade. No tempo dos bisavós os caçadores tinham um dia ferido um javali que
de repente se pusera a falar e a pedir-lhes de mãos postas que o não matassem.
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A burra que tinha escapado pastava na margem da ribeira e, às turras de
contentamento à companheira, deixou-se prender com ela a um olmo. Eu, que
trazia os pés em fogo, descalcei-me, fui sentar-me numa pedra a metê-los na
água.
Meus pais pouco demoraram a chegar. Vinham cansados e pelo modo da conversa
já esquecidos da zanga em que eu os tinha deixado. Acharam boa ideia
refrescar-se também, e o melhor seria comermos a merenda logo ali, pois na
subida por aquelas encostas pouca ou nenhuma sombra haveríamos de encontrar.
Comemos, deitámo-nos na relva a gozar o fresco, adormecemos todos três e
acordámos com o vento que, levantado de sopetão, revolvia a folhagem das
árvores num prenúncio de mau tempo. De facto, no céu azul apareciam nuvens
acasteladas a rebolar o negrume para o nosso lado.
Preocupados e sem lugar que nos desse abrigo, apressámo-nos a partir, na
esperança de que a chuva não nos apanhasse antes de chegarmos ao destino. Mas
o trovão ribombou quando íamos no colmeal que ainda se vê acima da ribeira,
os relâmpagos eram uns atrás dos outros e a chuva, que tinha começado por pingas
grossas, desabou sobre nós aos cântaros, tanta que num instante nos deixou
encharcados.
Meu pai mandou que parássemos e disse a minha mãe para desmontar. Encharcados
ou não tínhamos de ir para a frente, mas o perigo era grande de sermos apanhados
por alguma faísca. Por isso ia espetar as caçadeiras com os canos para cima
nos alforjes das burras, ia enxotá-las para que fossem sozinhas à nossa frente
e assim, atraindo as faíscas, nos servissem de pára-raios ambulante.
As bátegas eram violentas, a chuva escorria-me cara abaixo como se caísse dum
beiral, mas junto com ela corriam também algumas lágrimas, e a cada relâmpago
que
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fendia o céu eu fechava os olhos, certo que de um momento para o outro veria
cair carbonizadas as pobres bestas que tínhamos atraiçoado.
A família recebeu-nos numa aflição. Molhados até aos ossos por força íamos
adoecer, só mesmo gente da cidade é que confiava no céu limpo de Agosto e se
metia a caminho sem a cautela dum guarda-chuva.
A meu pai emprestaram o fato domingueiro do ti Maricas, o único que tinha,
e minha mãe apareceu com um vestido de luto que a cobria até aos pés, fazendo-nos
rir. Como para mim não havia roupa que servisse, enquanto a minha secava
sentei-me à lareira embrulhado num cobertor de lã, que dava comichão, mas sem
me poder coçar, receoso que me vissem nu se largasse as pontas por onde o
segurava.
Para mim a chegada tinha sido uma surpresa. Passada a quinta das Arcas o
carreiro fora-se tornando cada vez mais íngreme, mais tortuoso, dando ideia
de que nunca alcançaríamos o cimo, até que inesperadamente me vi no rebordo
duma planura e a casa dos antepassados ali à minha frente.
Casa não é bem o termo. Por ser grande demais também se lhe não poderia chamar
casebre. Nem palheiro, embora fosse coberta de coimo. Mais tarde, quando a
percorri com vagar, iria dar-me conta de que era uma construção baixa, duma
porta só, duas ou três janelas sem vidraças, aqui e além frestas estreitas
por onde entrava um pouco de ar e um pouco de luz. Para a esquerda da porta
ficava a cozinha, atrás dela uma enfiada de alcovas, a adega, as tulhas, a
arrumação. À direita havia um curral para as ovelhas, seguia-se o estábulo
para a junta de vacas e, separadas delas por um tabique, estavam duas parelhas
de mulas. Ao fundo ouvia-se o grunhir dos porcos.
302
Tudo sob o mesmo tecto. Visto de dentro era um labirinto escuro, incrivelmente
mais espaçoso do que se imaginava por fora, talvez porque algumas divisões
desapareciam enterradas no desnível do chão.
Enquanto se ia conversando e as mulheres punham a mesa, eu não me cansava de
olhar em volta, com um sentimento de emoção e assombro. Aquela gente do meu
sangue nascera ali e antes deles os avós dos nossos avós, num encadeamento
que estonteava por se perder em longes que eu não podia imaginar.
O canto onde me sentara à lareira, disse o ti Maricas que era o mesmo onde
em pequeno o avô José Maria gostava de comer. Também me haviam de mostrar a
alcova onde ele dormia, e pendurado em qualquer parte, depois o procurariam
para mo dar, estava ainda o seu cajado de pastor.
Meu pai só por alto se lembrava de em criança lá ter estado uma vez. Minha
mãe nunca. Para mim tudo era desconhecido, novo, surpreendente, mas dum modo
simultaneamente físico e imaterial eu sentia pertencer ali desde o tempo
anterior à memória. Naquele conchego envolvia-me um bem-estar que parecia de
sonho, porque me desprendia de mim próprio e tornava ligeiramente absurda a
conversa à minha volta.
O ti Maricas e as irmãs, Jacinta a mais velha, Teresa a outra, ambas a aperreá-lo
como se em vez de ancião fosse ainda gaiato, falavam connosco de maneira
diferente da de quando nos encontrávamos na aldeia. Cheios de apreço por termos
feito a caminhada. E também porque, como eu compreenderia mais tarde, vivendo
a bem dizer sozinhos, com os montes por companhia e o trabalho por distracção,
cada visita ganhava foros de marco miliário.
303
Além disso nós éramos «a família do Porto», gente sem precisão de gastar o
corpo nos trabalhos do campo, ainda por cima com autoridade e paga pelo Estado.
Éramos também a sua ligação com o sonho. E sonho era tudo o que ficava para
lá da serra de Bornes: as cidades que nunca veriam, as paisagens viçosas das
províncias férteis da beira-mar, o oceano que lhes dizíamos ser imenso.
Imenso como o céu? — perguntavam eles.
Não. Diferente — respondíamos nós.
Carinhosos, sorriam a perdoar-nos a tolice. Se não era como o céu, como podia
ser imenso?
Entretanto tínhamos comido e eu, com a roupa seca, fora inspeccionar os cómodos
e por fim, sem sair da porta, dera uma espreitadela pela vizinhança. Uma casa
perto, duas mais adiante, em parte nenhuma sinal de vida, em parte nenhuma
uma árvore que protegesse contra o sol de Agosto que, finda a trovoada, de
novo queimava como os fogos do inferno.
Voltei à cozinha, eles ainda à conversa, sentados em torno da lareira, onde
mau grado o calor mantinham o borralho para aquecer a vianda dos porcos.
No momento em que passei para o meu canto e me ia também sentar, a rapariga
apareceu à porta. Hesitou um instante na soleira ao ver ali estranhos, mas
logo se recompôs e de olhos baixos, dando as boas-horas num cicio, foi direita
ao canto onde se amontoavam as caldeiras. Connosco, gente da cidade, a família
não queria aquela brusquidão, que poderíamos tomar por falta de respeito, e
mandaram-lhe que deixasse as caldeiras em paz e viesse para a nossa beira.
Aproximou-se, obediente, mas ao chegar à roda em que estávamos estacou como
um soldado à espera de ordens. Tímida ou tolhida pelo embaraço que se lhe lia
no rubor das faces, silenciosa.
304
A tia Jacinta, com a simplicidade de alma que a velhice por vezes dá, parecendo
ignorar o acanhamento da rapariga, chacoteou a sorrir que se a conhecêssemos
como eles a conheciam, havíamos de ver que a Ernestina era menos envergonhada
do que parecia.
Ernestina? — ecoaram meus pais surpreendidos.
Realmente — disse o ti Maricas. — Ernestina. Engraçado, não é? Um nome antigo
que raro se ouve e juntam-se-nos aqui duas.
Ernestina era vizinha, continuou a tia Jacinta, conheciam-na desde o nascer
e agora ia-os ajudando, porque com a idade cada vez podiam menos. Mas coitada,
também tinha a sua vida e a sua cruz, e cruz bem pesada era a que Deus Nosso
Senhor lhe tinha dado.
Calámo-nos, eu envergonhado de ouvir falar assim da rapariga que parecia não
saber como sair dali para escapar ao tormento. Mas anunciada a história a tia
não pararia antes de no-la contar por inteiro, e num longo monólogo, sem
esquecer um nome nem um parentesco, desfiou-nos a vida de Ernestina, a dos
seus pais e avós, que como não podia deixar de ser ainda eram do nosso sangue.
Ela imóvel, de olhos no chão, sem que ninguém tivesse a caridade de lhe dizer
que se sentasse ou fosse ao que tinha a fazer.
O essencial, um desfiar de tragédias, acontecera em Novembro, como se num só
mês Deus a quisesse castigar por sabe-se lá que terríveis pecados que viria
a cometer, pois novinha e boa por natureza, os que teria cometido não lhe deviam
pesar muito na alma.
Tinha-se casado em Outubro, ao cumprir os dezanove, com o Carlos, o filho mais
velho do padeiro de Carviçais.
Festa não tinham feito, porque a mãe já então estava muito mal duma doença
ruim que tinha na barriga.
305
Enterraram-na nos Fiéis e logo se disse que o pai também não ia durar. Como
não durou. Poucas vezes se terá visto uma tristeza assim, os olhos arregalados
de meter medo, e era como se não reconhecesse as pessoas, pois nem sequer
respondia quando se lhe davam as boas-horas.
A certa altura desapareceu e demorou dois dias antes de o encontrarem enforcado
num castanheiro da quinta do Major. Os cães do rebanho é que tinham ido lá
pelo faro, custando a acreditar que um homem daquela idade tivesse sido capaz
de subir a um galho tão alto e amarrar nele a corda.
Apiedada, os olhos húmidos das lágrimas, minha mãe puxou a rapariga para que
se sentasse ao seu lado, o que ela fez, mas tensa, como que contrafeita.
Onde é que eu ia? — perguntou a tia Jacinta, desagradada com a interrupção
e fingindo ter perdido o fio à meada.
É verdade. Na morte do Guilherme. Coitado. Pois quisemos ir lá tirá-lo, porque
era uma aflição vê-lo ali todo roxo, a língua de fora, a balancear com o vento
e nem sequer se lhe poder deitar um lençol por cima. A Guarda é que não deixou,
porque se tinha de esperar pelo juiz e pelo médico.
Foi assim que só o tinham despendurado tarde e más horas, quase ao anoitecer,
e enterrado logo a seguir sem padre nem nada, porque não se lhe aguentava o
cheiro.
A rapariga mantinha os olhos fitos no borralho, agora com um ar sereno, dando
a impressão de que nada a tocava. Nem o relato, nem a nossa piedade.
Enquanto a tia Jacinta ia contando eu tinha-a olhado de través, achando-a quase
bonita, de feições regulares. O trabalho do campo não lhe tinha ainda desfeado
o corpo mediano, e as mangas arregaçadas da blusa descobriam braços lisos,
sem vulto de músculos, num contraste singular com as mãos ásperas.
Tomado de compaixão e antes que ela fosse continuar, o ti Maricas mandou à
irmã que se calasse para rezarmos
306
um padre-nosso por todos os infelizes, os que padeciam nas cadeias e nos
hospitais, e os que andavam por sobre as águas do mar. A seguir rezámos um
pela alma do enforcado, para que Nosso Senhor o livrasse das penas do
Purgatório. Outro pelo repouso da alma da sua defunta, mais outro pela do
Carlos.
Carlos era trabalhador, alegre, pimpão como haveria poucos. A única falta que
se lhe apontava era o vinho. Vezes sem conta lhe tinham dito que se acautelasse,
porque o vinho ainda viria a ser a sua desgraça, e ele que não senhor, o vinho
dava alegria, sem vinho não se era homem.
Pois olhai, o enterro do sogro foi numa quinta à noite. No domingo a seguir
disse ele à Ernestina que ia a Carviçais visitar a mãe, que estava de cama.
Mas em vez disso foi direito ao Santo Antão comer uma peixada com os amigos.
A beber à grande e à francesa. E para que lhe deu a borracheira? Para apostar
que à volta não havia de passar na barca, mas que atravessava o Sabor montado
no cavalo. Foi o que o perdeu. Dizem que nem fôlego teve para gritar. A água
do rio apanhou-o a ele e à besta num redemoinho, viram-nos às voltas e foram
logo chupados para o fundo. Lá devem ter ficado ambos, porque não voltaram
a aparecer.
E a rematar aquelas desgraças a tia persignou-se, suspirando que era triste
fado perder os pais tão cedo e ficar viúva sem sequer ter começado a vida.
Fez-se um silêncio que o ti Maricas quebrou no seu modo chocarreiro, dizendo
que com vontade ou sem ela eram horas de dar o trato aos animais.
A rapariga levantou-se, foi tirar a caldeira que fumegava presa nas lárias,
pousou-a no chão, e abrindo uma saca de farelos derramou duas ou três
mãos-cheias deles na água da vianda.
307
Ao ver-me a olhar para a caldeira a tia Teresa perguntou se eu já tinha visto
os porcos. Respondi-lhe que não, só as vacas e as parelhas. Pois se não tinha,
continuou ela, fosse com a Ernestina que ela mos mostraria. Ia ver que eram
bichos valentes, capazes de na matança pesarem doze arrobas cada.
A minha vontade era dar uma volta, mas a tia como que me barrava a porta,
acenando que fosse atrás da rapariga, que nesse momento saía da cozinha, a
caminhar curvada de lado devido ao peso da caldeira.
Passei-lhe à frente a abrir a primeira cancela e nem sequer me olhou. Na das
vacas o mesmo. Mas ao passarmos pelas mulas avisou que não me chegasse perto
da ruça, que era arisca, capaz de dar algum coice. E dizendo aquilo sorriu,
eu sorri, surpreso com o timbre ligeiramente rouco da sua voz.
Os porcos eram de facto avantajados, uns montes de gordura, a ponto que devido
ao peso as orelhas de um estavam rachadas junto da cabeça. Ernestina meteu
o braço na caldeira a remexer a vianda e abrindo a cancela da pocilga empurrou
os animais que, sôfregos, a não deixavam passar.
São grandes, não são? — perguntou, enquanto dum lanço lhes despejava a comida
na pia. Acenei que sim, evitando olhá-la, perturbado por estarmos sós e ela
tão perto que quase me roçava. Perturbado também pelos cheiros do seu corpo,
que eram de suor e do fumo da lareira, de resina, de bedum, misturados a outros,
densos e indefiníveis.
Ela a coçar lentamente o lombo dos porcos que, regalados, paravam de comer
para grunhir. Eu tomado do sentimento contraditório de invejar aquelas
carícias, e temeroso de que num repente, adivinhando o meu anseio, ela se
abraçasse a mim.
Vamos buscar a outra?
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A voz quebrou o sortilégio e, liberto do meu desejo, a modo de camaradagem
peguei na caldeira vazia. Ao passarmos pelas mulas voltou a avisar que me
acautelasse, e junto das vacas deu-me sem cerimónia um encontrão, na pressa
de acudir a uma que embaralhara nos cornos a corda que a prendia à manjedoura.
Na cozinha não havia ninguém. Enquanto Ernestina despendurava a segunda
caldeira corri para fora a ver se os via, mas em redor tudo era quietude. Corri
até ao pinhal, cheguei à borda da ladeira. Nada. Como o sol ainda ia alto,
o mais certo era terem ido medir alguma terra, e a arfar da correria voltei
a casa, porque ela devia estar à minha espera na cozinha.
Não estava. Nem na pocilga, nem no estábulo. No curral também não. E de súbito,
«Bbbrrr!», aquele grito de medo a fingir, ao mesmo tempo que saindo dum canto
me dava um empurrão e atirava sobre as faixas de palha.
Ela a rir, eu achando ridículo ver-me estatelado. Ela de mão estendida para
ajudar, eu a escorregar na palha por querer levantar-me sozinho.
Finalmente venceu, e agarrando-lhe a mão pus-me em pé, aturdido pela queda
e pelo roçar dos seus dedos a sacudir a palha que se me pegara à roupa.
Tontinho que és! Meti-te medo?
Abanei a cabeça, desagradado do modo zombeteiro, a falar-me como se eu fosse
um garoto em vez dum igual. Na idade não o seríamos, mas éramos quase da mesma
altura e a diferença dos anos, pensei, compensava-a eu de sobra por viver na
cidade.
Ela, porém, parecia não dar conta do meu amuo. Depois da roupa, catava agora
a palha que se me espetara por entre os cabelos e passava-me os dedos pelas
faces, a testa, as sobrancelhas, obrigando-me a cerrar os olhos.
309
O toque dos seus lábios nos meus foi tão incrivelmente leve, tão subtil, que
ao reabrir os olhos temi que tivesse sido ilusão. Mas no mesmo instante vi-me
preso nos seus braços, apertado contra o tabique do curral, a sua boca a
sugar-me, a beijar, a morder, numa voracidade que me afrouxava o corpo e o
sentir.
Ofegante, os olhos em brasa, durante um momento aceitou as minhas carícias,
mas eu próprio me dei conta de como era ainda desajeitado e inexperiente. Então
ela, a desvendar-me as maneiras e os segredos do seu corpo, prendeu a minha
mão na sua, guiou-a a mostrar por onde ir, onde demorar, encostando-a aos seios,
ensinando-lhe a leveza das carícias, fazendo-a penetrar pouco a pouco onde
eu não teria ousado.
Parámos ao ouvir o barulho de gente que entrava na cozinha e logo de seguida
o falsete da tia Jacinta:
Onde é que estais metidos, ó mafarricos?
Estamos a chegar o feno às vacas — respondeu Ernestina calma, enquanto se
compunha e me examinava, não fossem eles às vezes perceber.
O ti Maricas achou engraçado ver-nos ambos a segurar a caldeira, o que era
inútil, mas para ele prova de que nos fazíamos boa companhia. As tias e os
meus pais, esses não prestaram atenção, ocupados a discutir se uma fila de
oliveiras nos pertencia a nós ou a eles, e de como ia ser difícil fazer partes
iguais duma terra de semeadura que dum lado terminava em bico e do outro era
só fraga.
Ernestina tinha saído e voltado logo depois com uma cesta de batatas, dizendo
que ia para casa e se precisassem dela a chamassem, senão só vinha para a ceia.
A tia Teresa, lendo nos meus olhos:
Vai com ela, que te mostre o cachorrinho que lá tem.
310
Minha mãe, a ler também nos meus olhos e subitamente alerta:
Não vais nada. Ficas aqui.
Para mim o ter de ficar foi aborrecido, porque na conversa ninguém me ia pedir
opinião e o ti Maricas, esquecido de que me começava a despontar o bigode,
esculpia rapidamente em bocados de madeira pássaros de asas abertas, a sua
especialidade e, como sempre tinha feito desde que me vira pela primeira vez,
ainda no berço, metia-mos na mão para que eu brincasse.
Quando nos sentámos a cear, Ernestina do outro lado da mesa, evitei olhá-la,
na certeza de que se o fizesse revelaria o turbilhão que me ia na cabeça, onde
as cenas da tarde se baralhavam com ansiedades imprudentes e desejos que mesmo
ao custo de loucuras queriam ser satisfeitos de imediato.
Mais tarde, enquanto as tias lavavam a louça e meus pais compunham a alcova
onde iriam dormir, o ti Maricas e Ernestina foram-se a mudar a palha às bestas.
Eu atrás, a fazer-lhes companhia. De vez em quando a tentar tocar-lhe, ela
a repelir-me, franzindo os lábios a chamar-me silenciosamente desatinado.
Entretanto, na cozinha discutiam o lugar onde me iria deitar. Alcova para
visitas só tinham uma e dormir com meus pais não o queriam eles, eu ainda menos.
Dormir na estrebaria? Podia ser, mas era quente demais. Na cozinha ou na
arrumação? Só pondo lá uma enxerga. O melhor, se eu não tivesse medo, sugeriu
o ti Maricas, o melhor seria mesmo dormir no palheiro. Corria lá o fresco e
com um lençol por baixo, outro por cima, ficava ali que nem num palácio.
Fiz-me modesto e baixei os olhos para que não vissem que eles se me encandeavam.
Não senhor, não tinha medo nenhum, até gostava. Na aldeia, quando o calor era
pesado
311
como agora, às vezes também me deitava no palheiro e realmente dormia-se lá
melhor do que em casa.
A expectativa quase me sufocava! Tia Jacinta saiu a buscar os lençóis e
Ernestina, ocupada a arrumar, parecia distraída, indiferente, mas para mim
cada meneio do seu corpo era um sinal, cada olhar furtivo uma promessa.
O palheiro ficava atrás da casa, paredes meias com a pocilga e eu sabia, sentia,
que ela viria logo mal fizesse escuro e tudo se tivesse aquietado. Ia ser a
primeira vez, a primeira noite. E que noite!
Homem feito, disse-lhes que não precisava de acompanhamento. Dessem-me os
lençóis e um lampião, do resto tratava eu. Pedi a bênção a cada um, e até amanhã
se Deus quiser, mas Ernestina não esperou pelas minhas despedidas e sem me
encarar desapareceu no curral, onde os cães ladravam a anunciar que o rebanho
vinha perto.
Empurrei a porta do palheiro e deixei-a escancarada, os olhos a habituar-se
à luz frouxa do lampião pendurado no prego dum caibro. Faixas de palha desde
o chão quase até ao tecto. A tremelicar da pressa e dos nervos, desatei umas
quantas para acamar a palha, fiz nela uma cova. Estendi os lençóis. Apaguei
o lampião.
Sentado no escuro vi o céu e os montes delinear-se lentamente na moldura da
porta, mas nem o negrume da terra nem o rebrilhar das estrelas me distraíam
os sentidos, o corpo tenso a aguardar as vibrações que ela ia causar quando
se aproximasse.
Espera é tormento. Os meus olhos já distinguiam que os pinhais eram mais escuros
que as encostas, adivinhavam aqui e além o serpentear de um caminho. Longe
e espaçado ouvia-se o pio de uma coruja, ali perto o rastejar dalguma cobra
à procura de ratos, ou dos ratos à procura de grão.
312
Os cães do gado tinham vindo à porta a farejar o estranho, mansos, sem ladrar,
talvez por reconhecerem nele os cheiros domésticos. Depois uma excitação, o
barulho de passos. Infelizmente pesados demais para serem de mulher. Espreitei
e vi o ti Maricas de calças na mão, a caminhar para o recanto onde fazia as
necessidades.
Despi-me. Adormeci. À primeira cantada do galo acordei aturdido, sem saber
onde estava. Esperei, desapontado e intensamente triste. Voltei a adormecer.
Meu pai despertou-me aos safanões, a resmungar que me despachasse, porque íamos
medir as terras da ribeira do Medal e se fazia tarde.
Foi um dia de modorra. Tínhamos ido como numa expedição, cada um em sua burra
e outra para a merenda, porque o caminho era longo e ruim. Ernestina aparecera
brevemente a pôr garrafões da água nos alforges, mas logo nos virara as costas,
trombuda, a tia Jacinta a dizer que a rapariga com certeza estava de luas.
O carreiro a pique, as burras a passo, nós inclinados para trás nas albardas
não fôssemos escorregar e cair, quando chegámos à ribeira íamos moídos dos
ossos e moribundos do calor. Eles a desenrolar a fita métrica, a apontar, a
discutir. Eu atrás, umas vezes a fingir que me interessava, escolhendo os
calhaus que serviriam de marco, outras a atirar pedras à água da ribeira, ou
sentado à sombra a estudar a azáfama das formigas e a remoer a minha decepção.
Promessas de verdade não tinha feito, mas tinha-me beijado e acariciado,
pusera-me no corpo a febre que continuava a arder dentro de mim. Sabia onde
eu estava e sabia-me só, a porta sem fecho. Ela, que ninguém prendia, porque
não teria vindo?
Foi como se a cabeça me estourasse com a descoberta: sozinha em casa, tinha
ficado à minha espera! Eu é que devia
313
ter ido procurá-la e faltara! Por isso se tinha mostrado rabugenta, a fingir
que me não via!
O dia parecia nunca mais ter fim, mas quando o sol começou a alongar as sombras
deitámo-nos à subida, as burras de novo a passo, nós agora inclinados para
a frente, a ladeira por vezes tão íngreme que pouco faltava para que roçássemos
o cachaço das bestas.
A ceia teria sido a repetição da da noite anterior, não fosse que medidas as
terras chegara a hora de falar de partilhas, e de súbito as palavras ganhavam
subentendidos mordazes, já não se estava ali entre familiares, mas via-se a
ganância duns e doutros a vir desagradavelmente à tona.
Serviçal, fui ajudar Ernestina a levantar a mesa e junto da pia sussurrei-lhe
que não tinha compreendido, tinha ficado à espera. Ela áspera e sem me encarar,
respondeu que me calasse, não fosse burro, porque minha mãe desconfiava e via
tudo.
O serão alongou-se. Meus pais a querer convencer os tios de que eu era o seu
único herdeiro; eles a concordar, mas acrescentando que achavam justo que a
rapariga também herdasse, porque além de estar só no mundo e de lhe quererem
como filha, sem a ajuda que lhes dava não fariam lavoura.
Que sim, que não, que talvez. E outra vez deste modo, daquele, repetições de
entontecer, uma conversa que azedava com a lembrança de questiúnculas e
pecadilhos dos vivos e dos defuntos.
Ernestina já há muito que se tinha ido embora e eu, ao julgar que não daria
nas vistas, depois duns quantos bocejos acendi o lampião e despedi-me, dizendo
que me ia deitar.
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No palheiro a porta estava fechada, mas quando a empurrei ela esperava-me meio
enterrada na palha, o dedo sobre os lábios a mandar silêncio. Acenou que me
despisse, que apagasse o lampião e me deitasse, desaparecendo em seguida entre
as faixas como por mágica.
Ernestina!
Shhh! Deixa-te estar.
Dali a nada chiou a porta da casa, ouviram-se os passos agitados de quem vem
com pressa e logo a luz da pilha de meu pai a bater-me em cheio no rosto.
Ficaste com a fita métrica?
Não senhor. Parece-me que estava no alforge, junto com o caderno.
Eu a proteger os olhos com o braço, ele a passear o facho de luz pelos cantos,
esquecido da minha resposta, desaparecendo bruscamente no escuro.
Ernestina!
Shhh! Fica quieto.
O ti Maricas, no seu modo pesado de caminhar, passou junto ao muro. Ouvimo-lo
tossir e depois ir de volta a casa, a gemer baixinho com o martírio que lhe
causavam os achaques da idade.
Ernestina espreitou um momento para fora, a assegurar-se de que não andava
ninguém em volta. Fechou a porta com cuidado, trancou-a, e estendendo-se
vestida ao meu lado aceitou um beijo, dizendo num cicio que me aquietasse,
que aguardasse. E ali ficámos de mãos dadas uma eternidade, esperando não sei
o quê, eu estonteado de desejo, mas também a sofrer de pudor, como se a minha
nudez me tornasse frágil e a roupa dela fosse uma armadura.
Por entre as pedras soltas das paredes entrava uma claridade apenas suficiente
para adivinhar contornos, mas na
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penumbra os sentidos pareciam aguçar-se e não tardou a que eu também pudesse
distinguir os barulhos abafados que vinham da casa.
A tia Jacinta ainda está a pé— murmurou Ernestina.
A preparar a vianda para amanhã.
Realmente, ouvia-se o som de uma caldeira a arrastar pelo chão, outra a ser
pendurada nas lárias, o bater ritmado de uma tenaz num toro. Mais perto de
nós, no curral, os chocalhos badalavam ligeiros se alguma ovelha se mexia,
as muares davam de vez em quando uma patada inquieta, e por detrás da parede
o ressonar dos porcos parecia de gente. Muito longe, a coruja continuava os
seus pios, mas pouco a pouco mesmo as cobras e os ratos foram-se silenciando,
dando a ilusão de que o mundo inteiro tinha adormecido.
Nessa grande paz Ernestina despiu-se, beijou-me, deixou-se acariciar,
zombando em murmúrios da minha pressa, ora a travar-me o ímpeto, ora a picar
a minha inocência, como se o saber-me pueril aumentasse a sua excitação.
Proibia um beijo, provocava uma carícia. Escapava ao meu abraço e revirando-se
prendia-me entre as suas pernas, gozando a vitória, mordendo os meus lábios
até perder o fôlego.
Louco de cio como estava e bêbedo dos seus cheiros, ela facilmente podia ter
feito de mim um joguete. Mas não fez.
Dando-se conta de que eu não saberia prender o seu corpo ao meu, de novo me
foi mansamente guiando, a mostrar como cada emoção tinha um ritmo, como o prazer
se tomava em sorvos, ora animais, ora delicados.
A pele macia colava-se à minha, a fundir-se nela, enquanto os seus dedos, outras
tantas garras, me perturbavam com um sentimento estranho, desencontrado, que
era medo e êxtase, proibição e fascínio.
Quando quis ofertou-me o seu corpo, mas para a dádiva e para o momento não
há palavras.
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Acordei ao romper do sol, estremunhado, incapaz de distinguir entre sensações
e lembranças, a olhar-me e a apalpar-me, como que para retomar posse de mim
próprio.
Na cozinha faziam os preparos para o nosso regresso, mas a conversa era ainda
sobre partilhas e heranças, acrescentada agora de dúvidas sobre a exactidão
das medidas que uns e outros tinham feito, se aquele bocado com a fraga era
realmente igual ao outro que terminava em bico.
Tomado o café ofereci-me para albardar as burras, esperançado de encontrar
Ernestina na estrebaria. Não estava, nem junto dos porcos, nem no curral. E
o rebanho, que ela pastoreava à vez com um vizinho, devia andar longe, porque
o balir das ovelhas mal se distinguia do badalar dos chocalhos.
Os adeuses demoraram, cortados de novos argumentos, novas sugestões, uns e
outros sem saber como conciliar o bem que realmente se queriam e o temor de
se verem prejudicados num palmo de terra.
Finalmente deram-se os últimos abraços, fizeram-se promessas de que tudo se
havia de arranjar a contento e, a explicar-lhe a ausência, tia Jacinta
disse-nos que Ernestina tinha ido ajudar o pastor, por serem muitas as ovelhas
paridas.
Ao passar por mim minha mãe arrepanhou o nariz com nojo:
Há quantos dias não te lavas, rapaz?
Não precisei de responder porque o ti Maricas disse rindo que ao passarmos
a ribeira me deviam atirar à água.
Antes da ladeira virámo-nos para um último aceno e logo atrás de nós só ficou
o céu.
O caminho do regresso pareceu-me mais longo, as encostas sem fim. À ribeira,
que era meio caminho andado, só
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chegámos passava das três, e aí merendámos e tomei o meu banho. Depois,
morosamente, começámos a subida por um calor de entontecer.
Desejoso de solidão deixei-me atrasar, até que meus pais e as burras
desapareceram numa volta do caminho. Então, envolto na majestade da paisagem,
senti pulsar fundo em mim a lembrança do corpo que tão generosamente se unira
ao meu, os seus odores, a revelação do momento. E como se de par em par se
abrissem as portas que me tinham ocultado a grandeza do viver, gritei de alegria
e corri ladeira acima na pressa de encontrar o meu destino.
FIM

Ernestina, romance de J. Rentes de Carvalho, livro da série língua comum,


publicado por Quetzal Editores, foi composto em caracteres Sabon,
originalmente criados em 1967 pelo alemão Jan Tschichold (Leipzig,
1902-Locamo, 1974) em homenagem ao trabalho tipográfico de Jakob Sabon
(1535-1580), e inspirados nos tipos desenhados por Claude Garamond (Paris,
1480-1561), e foi impresso, nesta 2.ª edição, por Bloco Gráfico, Lda., em papel
Munken Pocket Cream/70 g, em Novembro de 2010, numa tiragem de 1500 exemplares.