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28/2/2019 e10.

1 Essay - Eduardo Viveiros de Castro: Some reflections on the notion of species

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HEMISPHERIC INSTITUTE E-MISFERICA

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E-MISFÉRICA 10.1 BIO/ZOO TODAS AS EDIÇÕES PARTICIPE EXPEDIENTE

Eduardo Viveiros de Castro: Algumas reflexões sobre a


BIO/ZOO
noção de espécies. — PRÓLOGO EDITORIA

ÁLVARO FERNÁNDEZ BRAVO


ÁLVARO FERNÁNDEZ BRAVO| NEW YORK UNIVERSITY- BUENOS AIRES, CONICET GIORGI AND FERMÍN ROD

O texto a seguir foi escrito pelo antropologista brasileiro Eduardo Viveiros de Castro (Rio de Janeiro, 1951) em resposta Volume 10 | Issue 1 | Inve
a um ques onário acerca da noção de espécies, preparado e enviado para ele por Álvaro Fernández-Bravo, para a e-
misférica 10.1. O trabalho recente de Viveiros de Castro não é muito bem conhecido pelos leitores americanos [em
inglês]. O seu úl mo livro publicado em inglês saiu há vinte anos atrás: From the Enemy’s Point of View: Humanity and
Divinity in an Amazonian Society (Chicago, 1992). Dentre as suas obras mais recentes estão A inconstância da alma ENSAIOS
selvagem e outros ensaios de antropologia (São Paulo: Cosac Naify, 2000), Métaphysiques cannibals. Lignes
TENDÊNCIAS HUMANAS
d’anthropologies post-structurale (Paris: Presses Universitaires de France, 2009) e a versão em espanhol do mesmo Ed Cohen
livro, Meta sicas caníbales. Líneas de antropología postestructural (Buenos Aires: Katz, 2010). Ele já lecionou na
University of Chicago, Cambridge University, University of Manchester, École des hautes études en sciences sociales,
em Paris, Universidade de São Paulo e Universidade Federal de Minas Gerais e é atualmente professor de antropologia APARENCIAS E MODOS DE VIDA: TO
VIVIENTE NA POESIA E NAS ARTES
do Museu Nacional – UFRJ, bem como pesquisador da CNRS, França.
Eduardo Jorge

O foco das questões apresentadas ao autor é o Perspec vismo Mul naturalista, um conceito desenvolvido na sua obra,
que enfa za o ponto de vista dos povos indígenas da região amazônica. A proposta de Viveiros de Castro é distanciar- FRONTEIRAS DO HUMANO
se do mundo ameríndio como um objeto de observação/estudo rumo a um esforço no sen do de ver o mundo María Esther Maciel
(inclusive os seus componentes não-humanos) a par r de um ponto de vista indígena. Não o retorno do na vo, mas a
vez do na vo, como ele afirma. O perspec vismo ameríndio é uma teoria e uma visão do mundo fortemente ligada ao
“mul naturalismo”, uma categoria oposta ao mul culturalismo, que assume a coexistência de diferentes “naturezas”, ESPACIOS DE ESPECIES
como na cosmologia amazônica. Estas “naturezas” incluem percepções animais não-humanas, além da percepção Raúl Antelo
humana, e todas elas compar lham uma perspec va ou afinidade comum. Como diz o autor, o que é relevante
atualmente não é mais classificar as espécies em que a natureza se divide, mas saber como as próprias espécies
PARA UNA TEORÍA LITERARIA POST
assumem essa tarefa (2010: 69), produzindo imagens da natureza de acordo com as suas perspec vas. Em seus livros e
Julieta Yelin
ar gos, em um diálogo a vo com posturas filosóficas de Deleuze, Viveiros de Castro refere-se em várias ocasiões a
“espécies”, par cularmente em relação ao par humano-animal. Animais e humanos compar lham um ponto de vista
comum, segundo o qual “naturezas” diferentes e móveis são concebidas. COMUNIDADE, INMUNIDADE, BIOP
Roberto Esposito
As questões endereçadas a Eduardo Viveiros de Castro levaram-no a desenvolver alguns dos seus conceitos,
par cularmente o relacionamento entre o Perspec vismo Mul naturalista e a noção de espécies. Esta ainda é uma
noção ú l para se entender o mundo? Qual o seu valor para a produção de conhecimento? É possível evitar a violência ANIMALS AND ARCHIVES
Zeb Tortorici
epistêmica que tem caracterizado as taxonomias e hierarquias raciais na história da ciência ocidental e con nuar
pensando em termos de espécies? Devemos preservar a noção de espécies como uma ferramenta conceitual ou ela
deveria ser abandonada completamente? É possível capturar essa noção de espécies e atribuir-lhe uma função
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO: AL
emancipatória? REFLEXÕES SOBRE A NOÇÃO DE ESP
Álvaro Fernández Bravo
Eduardo Viveiros de Castro: A noção de espécie na História da Antropologia

Não tenho competência para falar sobre a história da noção de espécie na filosofia ocidental. No caso da antropologia, DOSSIER
a noção entra em jogo em dois contextos conceituais diferentes.
EL ANIMAL COMUNISTA
Gabriel Giorgi
Em primeiro lugar, e de modo mais importante — pois envolve a definição mesma do objeto da disciplina —, a
antropologia, desde muito cedo, tem se apegado ao postulado da “unidade psíquica da espécie”, o que equivale a
definir a espécie humana por suas capacidades “psíquicas”, entenda-se, no caso, essencialmente cogni vas. O que, por
PERFORMING BIOTECHNOLOGY
sua vez, pressupõe uma descon nuidade fundacional entre nossa espécie e todas as demais, visto que a “unidade Jennifer Willet
psíquica” sugere que nossa espécie contra-unifica todas as demais em uma só província sub-psíquica ou a-psíquica, isto
é, exaus vamente determinada por uma corporalidade extra-psíquica. A ideia de espécie, neste caso, funciona de
modo algo paradoxal, visto que para a antropologia só há, a rigor, uma espécie, a humana, que se reveste assim da UNA ESPECIE NO ENDEMICA: O BIC
NA PAISAGEM DE ERNESTO NETO

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natureza de um gênero ou domínio, visto que as diferenças “ôn cas” ou “empíricas” entre as inumeráveis espécies Álvaro Fernández Bravo
vivas são neutralizadas pela grande diferença “ontológica” ou “transcendental” entre essa espécie especial e as

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espécies comuns. A humanidade funciona aqui como um anjo cole vo, no sen do em que os anjos, para alguns

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AKBAR STOLE MY HEART: COMING

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pensadores medievais, eram ditos ser indivíduos que eram, cada um separadamente, sua própria espécie. A analogia
ANIMALIST

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com os anjos não é acidental, uma vez que a humanidade foi frequentemente pensada como uma en dade halfway Alexandra Isfahani-Hammond
between ape and angel. Não é preciso observar que o aspecto ape é o corpo, e que o angel corresponde à alma ou à
“unidade psíquica”. A antropologia é congenitamente dualista e por isso a ideia de espécie é menos um modo de situar
o homem na mul plicidade natural do que de separá-lo radicalmente como unicamente dual e dualmente único. EL MATADERO
Mar n Kohan
Por outro lado, qualquer tenta va de se introduzir descon nuidades antropologicamente (isto é, “psiquicamente”)
relevantes no domínio animal, entendido como o domínio residual do não-humano, ameaça a homogeneidade, e
KILTR@
portanto a integridade, da espécie humana como unidade. Como se houvesse um jogo de soma zero entre unidade
Cheto Castellano and Lisse e Olivares
interna e contra-unidade externa: toda diferenciação interna significa va do domínio exterior do não-humano ameaça
diferenciar internamente o domínio do humano, exteriorizando parte deste domínio como quase-humano ou sub-
humano. Em outras palavras, tudo se passa como se o único modo de se exorcizar o racismo (o especismo interno) LA VOZ PRESTADA DE LOS ANIMALE
fosse pelo endurecimento do especismo externo (a tese do excepcionalismo humano). Mas Lévi-Strauss, em sua Sergio Chejfec
célebre homenagem a Jean-Jacques Rousseau (1962), já adver a que a relação entre racismo e especismo não é de
descon nuidade, e sim de con nuidade. O especismo antecipa e prepara o racismo:
ON BIOPOLITICS AND THE ANIMAL
INTERVIEW WITH CARY WOLFE
Never in the course of the past four centuries has western man been in a be er posi on to realize that by
Cary Wolfe and Gabriel Giorgi
arroga ng to himself the right to raise a wall dividing mankind from the beast in nature, and appropria ng to
himself all the quali es he denied the la er, he was se ng in mo on an infernal cycle. For this same wall was
to be pulled steadily ghter, serving to set some men apart from other men and to jus fy in the minds of an SENTENCIA DE VIDA
ever-shrinking minority their claim to being the only civiliza on of men. Such a civiliza on, based as it was on Fermín Rodríguez
the principle and no on of self-conceit, was corrupt from the very start.

Em segundo lugar, o conceito de espécie foi mobilizado na antropologia para dar conta de um fenômeno cuja história MULTIMEDIOS
intelectual é indissociável da própria disciplina, a saber, o chamado “totemismo” ou, mais geralmente, os inúmeros
disposi vos de diferenciação interna de uma sociedade, que lançam mão das diferenças sensíveis entre as espécies SPECIES AND BELONGING
Nuno Ramos
vivas (ou, mais geralmente, os chamados natural kinds) para pensar a segmentação do socius em categorias ar culadas
horizontal ou ver calmente. A interpretação clássica dos fenômenos totêmicos os via como manifestações de uma
iden dade originária entre os humanos e os animais e demais formas de vida. Lévi-Strauss, mais uma vez, se não foi o
PINTACANES
primeiro, foi o antropólogo que inverteu os termos do problema e chamou a atenção para o fato de que a iden dade Lisse e Olivares
entre dois “gêneros” diferentes (o humano e um não-humano genérico) era subordinada à diferença entre dois
sistemas de diferenças, as diferenças entre as espécies “naturais” e as diferenças entre as espécies “sociais” ou
segmentos internos à sociedade humana. Notem que a explicação, embora enfa ze as diferenças internas do domínio MAY THE HORSE LIVE IN ME
não-humano, con nua a pensar a “série natural” dos totens como globalmente descon nua em relação à “série Marion Laval-Jeantet
cultural” dos segmentos sociais. O pai do estruturalismo, por fim, reservará à noção de espécie um papel
absolutamente central em sua imagem do “pensamento selvagem”: a espécie aparece como o operador central de
uma razão essencialmente classificatória, disposta como ela está, a meio caminho entre o indivíduo e a categoria; RESENHAS DE LIVROS
acrescente-se que a espécie, para Lévi-Strauss, é o equivalente empírico do signo pleno, a meio caminho da pura
ostensão concreta (o indivíduo) e da categoria abstrata (o conceito). A espécie, enquanto unidade de uma RACIAL INNOCENCE: PERFORMING
CHILDHOOD FROM SLAVERY TO CIV
mul plicidade, aparece assim como a forma mesma do objeto para o pensamento selvagem. Neste sen do, o (AMERICA AND THE LONG 19TH CE
ROBIN BERNSTEIN
pensamento selvagem é aristotélico (e vice-versa), como argumentará Sco Atran. Harvey Young

Note-se ainda que o primeiro contexto de uso da noção de espécie é antropocêntrico: a espécie humana não é uma
espécie como as outras, pois exprime determinações inex stentes nas demais espécies, tomadas como um todo. Ela PERFORMING THE U.S. LATINA AND
BORDERLANDS BY ARTURO J. ALDA
exprime, na verdade, uma certa indeterminação essencial, uma irredu bilidade às determinações naturais que SANDOVAL , POR PETER J. GARCIA
dis nguem as espécies entre si. A espécie humana, como vimos, é dupla: é uma espécie e ao mesmo tempo é um Yve e Mar nez-Vu
domínio; é uma en dade empírica e um sujeito transcendental, que conhece a sua própria condição e, nesta medida,
“liberta-se” dela. O segundo contexto de uso, os sistemas totêmicos, permanece em certa medida antropocêntrico,
uma vez que as espécies vivas são pensadas como estando em relação biunívoca com sub-espécies humanas (os FROM LIBERATION TO CONQUEST: T
POPULAR CULTURES OF THE SPANIS
segmentos totêmicos). Cada espécie totêmica corresponde a um “ po” de humano — uma humanidade parcial, como WAR OF 1898 POR BONNIE M. MILL
se o universo, representado em miniatura pela mul plicidade finita das espécies totêmicas, es vesse em relação Autumn Womack
proje va homológica com a sociedade. A relação entre a sociedade como microcosmos e o cosmos como macro-
sociedade estabelece uma iden dade formal entre relações internas e relações externas.
ANIMACIES: BIOPOLITICS, RACIAL M
AND QUEER AFFECT POR MEL Y. CH
A descoberta do “perspec vismo mul natural” como solo pressuposicional das cosmologias ameríndias — e muitas Leon Hilton
vezes como doutrina explicitamente elaborada no xamanismo e na mitologia na vos — levou à posição conceitual de
uma virtualidade não-antropocêntrica da ideia de espécie. O perspec vismo é o nome que demos a uma elaboração
culturalmente caracterís ca do chamado “animismo”, a tude cosmológica que consiste em recusar a descon nuidade NEOLIBERALISM AND GLOBAL THEA
PERFORMANCE AND PERMUTATION
psíquica entre os diferentes pos de seres que povoam o cosmos, imaginando todas as diferenças inter-específicas LARA D. NIELSEN AND PATRICIA YBA
como um prolongamento horizontal, analógico ou metonímico das diferenças intra-específicas (e não, o que é o caso Camila González Or z

do totemismo, como sua repe ção “ver cal”, homológica ou metafórica). A espécie humana deixa de ser um domínio
separado e passa a definir o “universo de discurso”: todas as diferenças species-specific aparecem como modalidades
HOW A REVOLUTIONARY ART BECA
do humano, o que faz com que a condição humana deixe de ser “especial”, passando, ao contrário, a ser o modo CULTURE: MURALS, MUSEUMS, AN

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default ou a condição genérica de qualquer espécie. Desaparece um domínio da natureza como província contra- STATE POR MARY COFFEY
Christopher Fraga
unificada pela unidade eminente do domínio humano. O animismo é “antropomórfico” na exata medida em que é an -

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antropocêntrico. A forma humana é, literalmente, a forma no interior da qual todas as espécies emergem: cada

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espécie é um modo finito de uma humanidade, como substância universal. Isso inclui a espécie humana (tal como nós
RAÍCES Y SEMILLAS: MAESTROS Y C

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a entendemos), que passa efe vamente a ser mais uma espécie: as diferenças entre as sub-espécies humanas TEATRO EN AMÉRICA LATINA POR M
ZAPATA
(segmentos sociais de um mesmo povo ou povos diferentes) são da mesma natureza que as “super-espécies”
Carla Pereira Souza
humanas, ou o que nós chamamos de espécies naturais.

O perspec vismo é a pressuposição de que cada espécie viva é humana em seu próprio departamento, humana para ART AND SOCIAL MOVEMENTS: CUL
IN MEXICO AND AZTLÁN POR EDWA
si, ou antes, que “tudo para si é humano” ou antropogené co. Esta ideia tem sua origem nas cosmogonias indígenas, MCCAUGHAN
onde a forma primordial do ser é humana: “no princípio não havia nada”, dizem alguns mitos amazônicos, “só havia Nicholas Crane
pessoas”. Os diferentes pos de seres e fenômenos que povoam e ocorrem no mundo são transformações dessa
humanidade primordial.
GOD'S LABORATORY: ASSISTED REP
THE ANDES POR ELIZABETH F.S. RO
Tal condição originária persiste como uma espécie de background anthropomorphic radia on, fazendo com que todas Angela Castañeda
as espécies atuais se apreeendam mais ou menos intensamente como humanas. Na medida em que elas não são
apreendidas pelas demais espécies como humanas, a dis nção entre perspec va reflexiva ou interna e perspec va
third person ou externa é crucial. A diferença entre as espécies deixa de ser apenas uma dis nção externa e passa a BECOMING UNDONE: DARWINIAN R
LIFE, POLITICS AND ART POR ELIZA
incorporar cons tu vamente uma mudança de ponto de vista. O que define uma espécie é a diferença entre o ponto
Juan Marguch
de vista interno e o ponto de vista externo dessa espécie sobre si mesma e das outras sobre ela. Assim, por um lado,
toda espécie passa a ser “dupla”, consis ndo em uma dimensão espiritual (a “pessoa” humana, interior de cada
espécie) e uma dimensão corporal (a “roupa” ou equipamento corporal, dis n vo das capacidades de cada espécie). EXERCISES FOR REBEL ARTISTS: RAD
Ao se universalizar, o dualismo invisível/visível, primeira pessoa/terceira pessoa deixa de singularizar uma espécie e PERFORMANCE PEDAGOGY POR GU
GOMEZ-PENA AND ROBERTO SIFUE
passa a definir toda espécie enquanto tal. Não há “definição” de uma espécie que possa ser feita de um ponto de vista Antonio Prieto Stambaugh
species-independent. Toda espécie é um ponto de vista sobre as outras e tudo o que há é uma espécie de espécie, ou
seja, é um “sujeito”.
JUNGLE FEVER: EXPLORING MADNE
MEDICINE IN TWENTIETH CENTURY
Na medida em que toda espécie é formalmente composta de uma mesma oscilação perspec va dentro/fora, NARRATIVES POR CHARLOT TE ROGE
alma/corpo, humano/não-humano — pois toda espécie apreendida desde o ponto de vista de outra espécie não é Felipe Mar nez Pinzón
apreendida como humana, o que inclui a nossa própria espécie quando considerada, por exemplo, do ponto de vista
dos jaguares ou dos pecaris (para os quais somos, respec vamente, pecaris e jaguares, ou espíritos canibais) —, a
passagem entre as espécies é muito mais fluida do que no caso de nossa “vulgata cosmológica antropocêntrica e VIA JES VIRALES POR LINA MERUAN
Sebas án Reyes
excepcionalista”. As espécies são “fixas” para as cosmologias amazônicas, no sen do de que as transformações globais
per nentes se fizeram em geral de uma só vez no mundo pré-cosmológico do mito (os mitos são, em essência,
narra vas do processo de especiação) — não há transformismo con nuísta como em nossa biologia evolu va
BEFORE THE LAW: HUMANS AND O
moderna. Mas, ao mesmo tempo, os “indivíduos” de cada espécie podem “saltar” de uma espécie a outra com rela va IN A BIOPOLITICAL FRAME POR CAR
facilidade, um processo que é esquema zado principalmente pela imagís ca da predação alimentar: a incorporação Gabriel Giorgi
por outra espécie é frequentemente concebida como a transformação integral da presa em um membro da espécie do
predador. O que parece dar razão à frase de Samuel Butler, quando este dizia que “there is no such persecutor of grain
THE SPIRITS AND THE LAW: VODOU
as another grain when it has once fairly iden fied itself with a hen” (Life and Habit, p. 137). Outra forma de HAITI POR KATE RAMSEY
transformação inter-espécies é o xamanismo, que é a capacidade manifesta por certos indivíduos (de diferentes Gina Athena Ulysse
espécies) de oscilar entre o ponto de vista de duas (ou mais) espécies, sendo capaz de ver os membros de ambas como
eles se vêem, ou seja, como humanos, e assim de comunicar os seus pontos de vista e tornar inteligível o que só para
eles (os xamãs) é também sensível, a saber, o fato de que cada espécie aparece para outra de modo radicalmente EVERY TWELVE SECONDS: INDUSTR
SLAUGHTER AND THE POLITICS OF
diferente daquele que aparece para si mesma. TIMOTHY PACHIRAT
Susan Grelock
A diferença essencial deste “perspec vismo” para com o nosso “mul culturalismo” é que a variação de ponto de vista
não afeta apenas o “modo de ver” um mundo que seria obje vamente exterior ao ponto de vista e maior que qualquer
ponto de vista possível, um mundo ontológica ou epistemologicamente infinito. Em primeiro lugar, o “mundo” RESENHAS DE PERFORMANCE
perspec vista é um mundo composto exaus vamente por pontos de vista: todos os seres e coisas do mundo são
THE NATIONAL DANCE THEATRE CO
sujeitos em potencial, os seres que “vemos”, portanto, são sempre seing beings; aquilo que experimentamos é sempre JAMAICA'S 50TH ANNIVERSARY SEA
um sujeito de uma experiência possível; todo “objeto” é um po de “sujeito”. Em segundo lugar, a diferença entre as Lara Cahill-Booth
espécies não é uma diferença de “opinião” ou de “cultura”, mas uma diferença de “natureza”: é uma diferença no
modo como cada espécie é experimentada pelas outras, ou seja, como corpo, como conjunto de afetos sensíveis, de
capacidades de modificar e ser modificado por agentes de outra espécie. O mundo visto por outra espécie não é o LA AGUJA, UM FILME DE CARMEN O
VILLAR E JOSE CORREA-VIGIER
mesmo mundo visto diferentemente, mas um “outro mundo” visto da mesma maneira. Cada espécie, ao se ver como Liliana Ramos Collado
humana, vê as demais, isto é, o mundo, como nós, os que nos apreendemos como humanos, o vemos. Toda espécie vê
o mundo do mesmo jeito. Só há um ponto de vista, o ponto de vista da humanidade. O que muda é o ponto de vista
deste ponto de vista: que espécie está vendo o mundo, ao se ver a si mesma como humana? Se é a espécie dos
jaguares, estes verão os humanos (para nós) como se fossem pecaris — porque seres humanos comem pecaris —, e
não outros humanos. Todos os humanos compar lham da mesma cultura, a cultura humana. O que muda é a natureza
do que vêem, conforme o corpo que esses humanos de referência possuem. O ponto de vista está no corpo. O
perspec vismo não é, assim, uma teoria da representação (da natureza pelo espírito), mas uma pragmá ca dos afetos
corporais. É a potência species-specific de cada corpo que determina o correla vo obje vo das categorias culturais
universais “aplicadas” por todas as espécies em seu momento humano.

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A espécie viva, a diferença entre as espécies, assim, é um conceito fundamental nos mundos perspec vistas. Mas a
espécie ali não é tanto um princípio de dis nção quanto um princípio de relação. A diferença entre as espécies não é,

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para começar, anatômica ou fisiológica, mas comportamental ou etológica (o que dis ngue as espécies é muito mais

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seu etograma — o que comem, onde habitam, se vivem em grupo ou não. etc. — do que sua morfologia). Nesta

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medida, as diferenças entre as “espécies” não se deixam projetar sobre um plano ontológico homogêneo, exceto se
definirmos a corporalidade como cons tuindo tal plano. Mas essa corporalidade é um conjunto heterogêneo e
relacional de afetos, antes que uma substância dotada de atributos. Diferenças entre hábitos alimentares de jaguares,
pecaris e humanos, diferenças entre hábitos alimentares de grupos humanos, aparência sica de animais diferentes e
povos diversos — todas essas diferenças são igualmente tomadas como diferenças que exprimem afetos corporais
diversos. Não é mais di cil, de jure, que um Araweté se transforme em um Kayapó do que em um jaguar. Os processos
de transformação envolverão apenas afetos qualita vamente dis ntos. Em segundo lugar, as diferenças inter-
específicas são blocos de virtualidades relacionais, de modos de posicionamento rela vo das espécies entre si. A
diferença entre as espécies não é um princípio de segregação, mas de alternação, pois o que define a diferença
específica é que duas espécies (ao contrário de dois indivíduos quaisquer) não podem “ser” humanas ao mesmo
tempo, isto é, ambas não podem perceber-se como humanas uma para a outra, ou deixariam de ser duas espécies
diferentes.

Se projetarmos o perspec vismo sobre ele mesmo, e sobre nosso mul culturalismo, seremos obrigados a concluir que
não é possível ser ao mesmo tempo perspec vista e mul culturalista. Nem é desejável. Deveremos concluir que essas
duas antropologias são inter-tradu veis (comensuráveis), mas são incompa veis (não há síntese dialé ca possível).
Falei em “antropologias”, porque entendo que toda cosmologia é uma antropologia; não no sen do trivial de que os
seres humanos só conseguem pensar em termos de categorias humanas — os índios estariam de acordo, mas não
concordariam que só a nossa espécie seja “humana” —, mas de que mesmo o nosso antropocentrismo é
inevitavelmente um antropomorfismo e que toda tenta va de ir além da “correlação” é apenas um antropocentrismo
nega vo, ainda e sempre referente ao anthropos. O antropomorfismo, longe se ser um especismo, como o é o
antropocentrismo — seja este cristão, kan ano, ou neo-constru vista —, exprime a “decisão” originária de pensar o
humano como dentro do mundo, não acima dele (mesmo que apenas por um lado de seu ser dual). Em um mundo
onde toda coisa é humano, a humanidade é toda uma outra coisa.

Tradução de Tissiana Oliva

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