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FACULDADE MERIDIONAL – IMED

ESCOLA DE DIREITO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM DIREITO – PPGD
MESTRADO EM DIREITO

Alexandre Marques Silveira

DANO SOCIAL ESTATAL-CORPORATIVO E A VITIMIZAÇÃO OCASIONADA


PELA EXPOSIÇÃO AO AMIANTO NA CIDADE DE OSASCO-SP: UM ESTUDO
CRIMINOLÓGICO A PARTIR DA REPRESENTAÇÃO DAS VÍTIMAS

Passo Fundo, RS
2018
Alexandre Marques Silveira

DANO SOCIAL ESTATAL-CORPORATIVO E A VITIMIZAÇÃO OCASIONADA


PELA EXPOSIÇÃO AO AMIANTO NA CIDADE DE OSASCO -SP: UM ESTUDO
CRIMINOLÓGICO A PARTIR DA REPRESENTAÇÃO DAS VÍTIMAS

Projeto de Dissertação apresentado ao


Programa de Pós-graduação Stricto
Sensu – Mestrado em Direito – da
Faculdade Meridional – IMED, em sua
área de concentração em Direito
Democracia e Sustentabilidade, Linha de
Pesquisa Mecanismos de Efetivação da
Democracia e da Sustentabilidade.

Orientador: Dr Jacopo Paffarini


Coorientadora: Drª Marília de Nardin Budó

Passo Fundo, RS
2018
CIP – Catalogação na Publicação
S587d SILVEIRA, Alexandre Marques
Dano social estatal-corporativo e a vitimização ocasionada pela exposição ao
amianto na cidade de Osasco-SP: um estudo criminológico a partir da representação
das vítimas / Alexandre Marques Silveira. – 2018.
119 f.: il.; 30 cm.

Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade IMED, Passo Fundo, 2018.


Orientador: Prof. Dr. Jacopo Paffarini.
Coorientador: Prof. Dr. Marília de Nardin Budó.

1. Direito ambiental. 2. Amianto – Crime ambiental. 3. Vitimização ambiental. I.


PAFFARINI, Jacopo, orientador. II. BUDÓ, Marília de Nardin, orientadora. III. Título.

CDU: 349.6
Catalogação: Bibliotecária Angela Saadi Machado - CRB 10/1857
À todos e à todas que de alguma forma sofreram e sofrem com os danos
derivados da exposição ao amianto.
AGRADECIMENTOS

Finalizando a dissertação, e lembrando-me do caminho percorrido, recordo de


quantos desafios enfrentei para chegar até aqui. Deixar o meu lar em Santa Maria e
estar longe daqueles que eu tanto amo, e tanto me protegeram. Chegar em Passo
Fundo e me deparar com uma realidade completamente diferente do que era
acostumado, percebo muitas mudanças em mim. O convívio com todos e todas que
conheci nessa jornada me tornou alguém mais forte. Por isso, devo agradecer
primeiramente aos Orixás e todos os guias espirituais de luz, por me darem saúde e
força para superar todas as dificuldades que aqui encontrei. Sem deixar que eu
perdesse a minha fé e essência alegre.
À minha mãe Angelita, por me ensinar a ser tão otimista e alegre, e por não
medir esforços para que eu pudesse estar bem. Ao meu pai José, pela formação
pessoal e caráter que muito influenciaram nessa nova e difícil decisão pela busca de
um futuro mais promissor e cheio de realizações. À minha avó Teresa por estar
sempre por perto me enchendo de mimos. Ao Felipe e à Tássia, por serem tão
fraternos comigo, não tenho dúvidas de que sem a ajuda deles não teria conseguido
chegar até aqui. Serei eternamente grato.
À minha orientadora Marília, por me fazer transbordar, por todos os
ensinamentos, oportunidades, carinho e amizade. Por me “desorientar” (no bom
sentido), como você mesma me disse que faria no dia em que me viu pela primeira
vez! Hoje entendo o que quis me dizer! Jamais olharei o mundo com os mesmos
olhos. Ao Professor Jacopo Paffarini, por aceitar me orientar na etapa final do
trabalho. A todos e a todas as integrantes do grupo de pesquisa de criminologia
crítica da IMED, em especial a Patrícia, a Karine e o Lucas, por me incentivarem e
por acreditarem no meu potencial. À Mariangêla, colega querida que tanto me
ensinou e ajudou durante a realização desse trabalho. À colega Caroline, por estar
sempre comigo nos momentos bons e ruins durante o Mestrado. Ao Ricardo, à
Manoeli, ao Israel e ao Marcos, por estarem ao meu lado tornando meus dias mais
agradáveis.
À Associação Brasileira de Expostos ao Amianto, por me receberem com
tanto carinho durante a realização do campo dessa pesquisa. Por fim, não menos
importante, à CAPES pela bolsa de estudos concedida.
“Que nunca se perca a vontade de ajudar
as pessoas, mesmo sabendo que muitas
delas são incapazes de ver, reconhecer e
retribuir ajuda”.
(Chico Xavier)
RESUMO

O avanço da industrialização comprometeu, e ainda compromete o meio ambiente. A


exploração dos recursos naturais, tanto renováveis, quanto não renováveis, ocorreu
a passos largos. A crise ambiental foi ocasionada por diferentes fatores. O
capitalismo irracional, o desenvolvimento industrial, o consumismo desenfreado, o
aumento da população, a finitude dos recursos naturais, tendo como resultado o
empobrecimento da maior parte da população, e o aumento das desigualdades. Em
se tratando de acúmulo de poder e capital, muitos são os interesses que fazem
corporações e Estados pactuarem em atividades danosas, produzindo vitimizações
em larga escala. A temática da exploração e comercialização do amianto se encaixa
exatamente nessa perspectiva. O Brasil manteve-se por muito tempo como o
terceiro maior explorador e exportador mundial de amianto e seus derivados.
Enquanto boa parte dos países do norte global já havia decretado o banimento da
fibra em razão dos danos à saúde e ao meio ambiente, no Brasil a decisão só se
concretizou em novembro de 2017, após anos de luta dos movimentos de vítimas. A
exposição ao amianto tem ocasionado milhares de mortes, além das numerosas
pessoas doentes. O presente estudo tem como tema central o dano social estatal-
corporativo e a vitimização ocasionada pela exposição ao amianto na cidade de
Osasco-SP. A questão que orienta a pesquisa aqui proposta é: como as pessoas
expostas pela indústria do amianto a) representam os danos causados a elas, à
sociedade e ao meio ambiente; b) significam a experiência da vitimização; e c)
percebem a responsabilidade do Estado e da indústria em relação a esses danos? O
objetivo central é compreender as experiências de vitimização e de danos sociais e
ambientais causados pela indústria do amianto, a partir dos relatos de pessoas
expostas ao amianto na cidade de Osasco – SP, onde esteve sediada uma das
maiores fábricas de cimento-amianto no Brasil, entre os anos de 1940 e 1993 Para
isso, o marco teórico deste trabalho utilizados é o da criminologia crítica, com foco
especificamente nos crimes dos poderosos e na criminologia verde, tendo como
objeto o dano social a partir da experiência da vitimização ambiental. A pesquisa é
do tipo qualitativo, empírico-exploratório descritivo, sendo utilizadas como técnicas
de pesquisa a entrevista qualitativa não estruturada, e a observação participante.
Para análise dos dados, foi utilizada a Teoria Fundamentada nos Dados, que
privilegia a indução pela construção de hipóteses. A conclusão aponta uma
percepção do dano por parte das vítimas ocupacionais e não ocupacionais como
uma perda que ultrapassa a saúde física, atingindo a saúde mental com a perda de
amigos e familiares. É ter suas capacidades privadas e a incerteza em relação a um
futuro diagnóstico. Além disso, é a falta de esperança na justiça exercida pelos
humanos em razão da apatia social.

Palavras-chave: Amianto. Dano social. Criminologia crítica. Criminologia verde.


Crimes dos poderosos. Vitimização ambiental.
ABSTRACT

The advance of industrialization has compromised, and still compromises the


environment. The exploitation of natural resources, both renewable and non-
renewable, has come a long way. The environmental crisis was caused by different
factors. Irrational capitalism, industrial development, rampant consumerism,
population growth, the finiteness of natural resources, resulting in the
impoverishment of the majority of the population, and increasing inequalities. In the
case of the accumulation of power and capital, many are the interests that make
corporations and states to engage in harmful activities, producing large-scale
victimization. The subject of the exploitation and commercialization of asbestos fits
exactly in this perspective. Brazil has long been the world's third largest exporter and
exporter of asbestos and its by-products. While many of the countries in the global
north had already decreed a ban on fiber because of harm to health and the
environment, in Brazil the decision was only made in November 2017, after years of
struggle by the victims' movements. Asbestos exposure has caused thousands of
deaths, in addition to numerous sick people. The present study has as its central
theme the state-corporate social harm and the victimization caused by exposure to
asbestos in the city of Osasco-SP. The question that guides the research proposed
here is: how the people exposed by the asbestos industry a) represent the harms
caused to them, society and the environment; b) means the experience of
victimization; and (c) perceive the responsibility of the State and industry for such
harms ? The main objective is to understand the experiences of victimization and
social and environmental harm caused by the asbestos industry, based on the
reports of people exposed to asbestos in the city of Osasco, SP, where one of the
largest asbestos cement plants was located in Brazil, between the years of 1940 and
1993. For this, the theoretical framework of this work used is that of Critical
Criminology, with a specific focus on the crimes of the powerful and in the green
criminology, having as object the social harm from the experience of the
environmental victimization. The research is qualitative, empirical-exploratory,
descriptive, using unstructured qualitative interviews and participant observation as
research techniques. To analyze the data, we used the Grounded Theory, which
favors induction by the construction of hypotheses. The conclusion points to a
perception of injury by occupational and non-occupational victims as a loss that goes
beyond physical health, reaching mental health with the loss of friends and family. It
is having your private capabilities and uncertainty regarding a future diagnosis. In
addition, it is the lack of hope in the justice exercised by humans because of social
apathy.

Keywords: Asbestos. Social harms. Criminology Critical. Criminology green. Crimes


of the powerful. Environmental victimization.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11
2 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRIMINOLOGIA VERDE: VITIMIZAÇÃO E
PRODUÇÃO DE DANOS SOCIAIS ESTATAL-CORPORATIVOS. ......................... 17
2.1 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRIMINOLOGIA VERDE: NOÇÕES
FUNDAMENTAIS ...................................................................................................... 17
2.1.1 Zemiologia: para além do entendimento de crime ...................................... 26
2.1.2 Criminologia verde e vitimização ambiental ................................................ 31
2.2 A EXPLORAÇÃO DO AMIANTO: ASPECTOS HISTÓRICOS E A CONCEPÇÃO
DO MATERIAL NO BRASIL ...................................................................................... 40
2.2.1 Ordem econômica e a exploração do Amianto no Brasil ........................... 44
3 DANO SOCIAL ESTATAL-CORPORATIVO UM ESTUDO SOBRE A
VITIMIZAÇÃO NA CIDADE DE OSASCO- SP ......................................................... 54
3.1 REFLEXÕES METODOLÓGICAS: A IMPORTÂNCIA DA INVESTIGAÇÃO
EMPÍRICA NO DIREITO EM CASOS DE VÍTIMAS AMBIENTAIS ........................... 55
3.2 RELATOS SOBRE AS EXPERIÊNCIAS DE VITIMIZAÇÃO E DE DANOS
SOCIAIS E AMBIENTAIS CAUSADOS PELA INDÚSTRIA DO AMIANTO ............... 64
3.2.1 Da experiência de exposição à manifestação dos danos relacionados ao
amianto: a fibra da morte........................................................................................ 65
3.2.2 Ambiguidade: o retrato da empresa a partir da subjetividade dos
indivíduos ................................................................................................................ 74
3.2.3 Holocausto estatal-corporativo: cadeia de responsabilidades pelos danos
sociais. ..................................................................................................................... 79
3.2.4 Marcas da memória: sentimentos em relação aos danos .......................... 89
3.2.5 Percepção de justiça em relação aos danos: efetividade da justiça
“divina” .................................................................................................................... 95
4 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 99
REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 104
APÊNDICE 1- TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ............ 117
APÊNDICE 2- TERMO DE CONFIDENCIALIDADE ............................................... 119
11

1 INTRODUÇÃO

Muitas foram as catástrofes ocorridas no Planeta Terra nos últimos dois


séculos. Com o desenvolvimento econômico e industrial dos países dominantes do
norte global, houve um crescimento da concorrência econômica e territorial entre as
nações. Intensificou-se a violência estrutural, gerando diversas atrocidades contra
seres humanos, não-humanos e o meio ambiente.
O atual contexto apresenta diversos conflitos criados em razão da conquista
dessas riquezas pelos países do norte global, enquanto simultaneamente à
submissão econômica, exploração e degradação do meio ambiente por parte de
grandes corporações multinacionais e transnacionais em países marginalizados do
sul global1 (BUDÓ, 2016).
O caso do amianto (ou asbesto) adentra exatamente nesta conjuntura. A
exploração e comercialização do amianto e seus derivados foi proibida em boa parte
dos países do norte global ainda na década de 1990, em razão dos seus malefícios
a saúde (GIANNASI, 2001). Essa fibra era regulamentada por lei e, portanto, sua
mineração, transporte e comercialização eram legais no Brasil até novembro de
2017. O mineral é considerado pela Organização Mundial da Saúde, como uma
substância extremamente prejudicial, pois a sua manipulação e utilização podem
causar vários tipos de câncer, fibrose pulmonar, asbestose, entre outras doenças
(INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL, 2008). O Brasil manteve-se por muito tempo como
o terceiro maior explorador e exportador mundial da fibra. Diante dos interesses
econômicos envolvidos, a omissão do Estado e das próprias empresas quanto aos
malefícios provocados pela utilização do amianto em âmbito nacional, tornou o país
uma zona de praticamente livre trânsito para a fibra. Em âmbito nacional, o uso
controlado do amianto foi permitido por muito tempo, em conformidade com a Lei n.
9.055/95. O amianto era utilizado para a fabricação de caixas d’água, telhas de
fibrocimento, lonas de freios, entre outros produtos.

1 Este trabalho sobre a exploração e marginalização de países do sul global por grandes corporações,
resultando na vitimização ocupacional e ambiental, faz parte de um projeto maior, desenvolvido a
partir da pesquisa de pós-doutorado da professora Doutora Marília de Nardin Budó. Nesta pesquisa,
foi examinada a exportação dos danos causados pela indústria do amianto de países do norte global
para o sul global. Os significados dos danos e da vitimização foram construídos a partir da
representação das vítimas. (BUDÓ, 2017a). Além disso, é importante salientar que o presente estudo
foi idealizado juntamente com a referida pesquisadora e em diversos momentos deste trabalho,
aquela pesquisa servirá de referência como forma de comparar, complementar e contrapor dados.
12

A invisibilidade de uma enorme quantidade de pessoas mortas e adoentadas


em razão da exposição ao amianto no país é um dos fundamentos que compõem a
relevância desta pesquisa, que busca compreender as experiências de vitimização e
os danos causados pela indústria do amianto na cidade de Osasco- SP. A cidade de
Osasco no estado de São Paulo foi sede da mais antiga fábrica de fibrocimento do
país (Eternit do Brasil cimento amianto S.A). A fábrica manteve suas atividades entre
1940 a 1993, sendo considerada como a maior produtora de cimento-amianto do
país. Em 1985, após uma auditoria fiscal do Ministério do Trabalho realizada por
Fernanda Giannasi, descobriu-se que 60% dos ex trabalhadores da fábrica Eternit
de Osasco apresentavam doenças em diversos estágios ligadas ao contato com o
amianto (INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL, 2008, p. 458).
Na área da saúde existem diversas pesquisas que demonstram a ligação da
exposição ao amianto e seus derivados, a diversas doenças (MARTIN-CHENUT;
SALDANHA, 2016, p. 144). Diante disso, os trabalhadores e as comunidades na
redondeza de fábricas e mineradoras ficam expostos ao pó da fibra, que se alastra
facilmente, causando grande impacto ambiental.
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Socioambiental do Brasil –
ISA, internacionalmente o uso do amianto já havia sido proibido em mais de 60
países, considerando os malefícios da exposição à fibra (INSTITUTO
SOCIOAMBIENTAL, 2008, p. 458). De acordo com a Organização mundial da
saúde, anualmente o número de mortes chega a 107 mil no mundo (WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2014).
No Brasil, inconformada com as condições das vítimas, a auditora fiscal do
Ministério do Trabalho Fernanda Giannasi colaborou para fundação da Associação
Brasileira dos Expostos ao Amianto – ABREA, que também fica localizada na cidade
de Osasco, sendo este outro fator que contribuiu para a escolha da cidade de
Osasco como campo de pesquisa. Assim, esta pesquisa tem como marco teórico a
criminologia crítica, a partir das contribuições trazidas pelos estudos sobre crimes
dos poderosos, criminologia verde e do dano social. A questão que orientará a
pesquisa aqui proposta é: como as pessoas expostas pela indústria do amianto a)
representam os danos causados a elas, à sociedade e ao meio ambiente; b)
significam a experiência da vitimização; e c) percebem a responsabilidade do Estado
e da indústria em relação a esses danos?
13

Como forma de desenvolver a problemática apresentada na pesquisa, tem-se


como objetivo geral é compreender as experiências de vitimização e de danos
sociais e ambientais causados pela indústria do amianto, a partir dos relatos de
pessoas expostas ao amianto na cidade de Osasco - SP.
O primeiro capítulo da pesquisa se dedica a alcançar dois objetivos
específicos: identificar os principais marcos conceituais no campo da criminologia
crítica e da criminologia verde sobre os processos de vitimização e da produção de
danos sociais estatal-corporativos e examinar os aspectos históricos do amianto sua
concepção e exploração no Brasil. O segundo capítulo se destina aos dois últimos
objetivos propostos: descrever a metodologia utilizada, bem como as reflexões que a
ela deram origem, e que dela derivaram, e a importância da investigação empírica
no direito em casos de vítimas ambientais; e analisar o cenário da vitimização social
e ambiental da cidade de Osasco - SP, a partir da representação dos cidadãos e
cidadãs expostos ao amianto e contrapor os dados ao objeto de estudo da
criminologia crítica e verde: crimes dos poderosos e conluio entre Estados e
Mercados
Para tanto, a pesquisa é do tipo qualitativa, empírica-exploratória descritiva,
sendo utilizadas como técnicas de pesquisa a entrevista qualitativa não estruturada,
e a observação participante. O método de abordagem que prevalece nessa pesquisa
e que serviu para a análise das ideias, informações e resultados foi o indutivo, porém
é importante salientar que por vezes o trabalho transita pelo método dedutivo, visto
que aqui trato de um fato parcialmente conhecido. Logo o caráter dedutivo
reaparece como forma de dar solidez as hipóteses geradas (CAPPI; BUDÓ, 2018, p.
35/36). Para a análise dos dados optei pela teoria fundamentada nos dados ou
teoria enraizada (grounded theory), que privilegia a indução, pela construção de
hipóteses, possibilitando analisar os significados obtidos no campo (LAPERRIÈRE,
2008, p.354). A metodologia utilizada para a análise dos dados será exposta no
subcapítulo 3.1.
A pesquisa se relaciona com a linha de pesquisa do PPGD/IMED –
mecanismos de efetivação da democracia e da sustentabilidade - pois contribui com
o campo na crítica aos limites do direito penal para dar conta da sustentabilidade, e,
simultaneamente, propicia, através de estudo empírico, a visibilidade às vítimas de
danos ambientais, ocultadas pela prevalência do estudo da criminalidade tradicional.
Além disso, a importância da pesquisa explica-se por diversos motivos: 1) tem
14

caráter interdisciplinar, mesmo tendo como marco teórico a criminologia crítica e


criminologia verde, o tema se relaciona com diversas áreas como medicina,
psicologia, sociologia ambiental e política criminal; 2) pela amplitude e interesse
público do tema, tendo em vista a vitimização massiva ocasionada pelo dano estatal-
coorporativo; 3) o empirismo da pesquisa, pois no Brasil ainda é predominante na
área do Direito a pesquisa bibliográfica, este estudo propõe a realização de
entrevistas e a observação participante.
A maior parte dos estudos sobre grandes corporações e ações estatais
realiza uma espécie de análise pautada pela racionalidade, narrando grandes
histórias de sucesso, e ocultando as consequências danosas de suas atividades
rotineiras (MEDEIROS, 2013). Essa concepção envolve o entendimento que
abrange, sobretudo, os crimes de colarinho branco, no conluio2 entre Estados e
Mercados. Apesar da magnitude dos danos sociais e ambientais causados nesse
contexto, o campo criminológico por muito tempo os desconsiderou como objeto de
estudo.
Após grandes discussões sobre qual deve ser o objeto de estudo da
criminologia, pesquisadores e pesquisadoras da área começaram estudos e
abordagens teóricas que buscam dar enfoque a este lado oculto dos Estados e das
grandes corporações, sobretudo dentro de um contexto que abrange os países
marginalizados. De acordo com esses estudos, a associação das corporações com
os Estados com fins voltados à exploração dos recursos naturais e humanos é capaz
de produzir os mais danosos efeitos para a sociedade em larga escala (HILLYARD;
TOMBS, 2005).
Apesar de as críticas a essa postura acadêmica ter sido uma constante
mesmo nos debates do campo criminológico crítico, é fato que a Criminologia, dentro
de seu sentido tradicional, é um campo do conhecimento que pouco tem
considerado tais danos como específicos objetos de pesquisa. A tradição da
criminologia de corte antropológico positivista influenciou na construção de seu
objeto nas condutas individuais dos ditos “criminosos”, como o grande problema da
criminalidade na sociedade, ao considerar, por exemplo, um perfil estereotipado dos

2 O termo conluio utilizado nesse estudo, é aquele utilizado por Budó (2016) para se referir à
associação entre os Estados e grandes corporações na realização de objetivos não revelados, e que
tem como consequência danos sociais cujas condutas causadoras não são necessariamente
proibidos por lei.
15

indivíduos de classe econômica baixa, e marcados pela realização diferenciadora do


homem branco europeu. Essa construção propicia, dialeticamente, a invisibilização
dos chamados “crimes de colarinho branco” (SUTHERLAND, 1940),
necessariamente cometidos pelos poderosos em detrimento da sociedade civil.
Dentro desse contexto, tem-se que uma Criminologia global deveria promover
a transformação do campo de estudos da criminologia para uma perspectiva mais
ampla e abrangente, de modo a produzir conhecimentos e alcançar resultados
quanto a problemas que não detinham até então um grande enfoque criminológico
(MORRISON, 2012).
Diante dessa ampliação do campo de análise da criminologia, áreas que
antes eram negligenciadas passam a ter uma maior atenção do pensamento
criminológico, possibilitando a realização de uma crítica da própria criminologia
crítica e do conceito de crime (SOARES, 2017). Esses desdobramentos do campo
criminológico têm trazido à tona danos sociais e vitimizações massivas ocasionados
por Estados em conluio com mercados (BERNAL et al, 2014; BUDÓ, 2015). Dessa
forma, o presente estudo se encaixa dentro de uma crítica epistemológica dos
objetos da criminologia, mesmo das vertentes críticas no país.
No bojo da criminologia crítica encontra-se no mesmo sentido a Criminologia
Verde (Green Criminology), a qual parte da análise de danos ambientais sob um viés
criminológico (SOUTH; WHITE, 2013). A criminologia verde aplica o pensamento
criminológico crítico em crimes cometidos contra o meio ambiente, em análise dos
danos sociais provocados ocasionados a humanos e não humanos (BOEIRA;
COLOGNESE, 2017).
A análise do dano social permite observar outros tipos de criminalidade que
não são visíveis a partir da construção social da criminalidade tradicionalmente
derivada do direito penal. Muitos dos danos sociais causados por essas grandes
corporações são negligenciados pelas autoridades estatais, centradas que estão na
criminalidade de rua e em interesses econômicos. As vítimas costumam ficar
ocultas, tanto no caso da criminalidade tradicional quanto nos casos de danos
sociais massivos.
A partir da ótica das criminologias crítica e verde, a criminalidade ambiental se
encontra dentro do conceito mais amplo de dano social, o que possibilita uma maior
visibilidade de suas vítimas. Uma das grandes críticas da criminologia verde é que
16

muitos estudiosos compreendem os crimes ambientais como abstratos, não


identificando vítimas concretas desses crimes, essa percepção geralmente parte da
ótica antropocêntrica (SKINNIDER, 2011).
Em virtude disso, esta pesquisa transcende as abordagens tradicionais,
levando em consideração as peculiaridades trazidas da perspectiva do dano social e
da vitimologia ambiental. Os estudos tradicionais sobre a vitimologia acabam
focando em crimes ordinários, invisibilizando vítimas de degradações ambientais
massivas de responsabilização estatal-corporativa como é o caso daquela
ocasionada pela exposição ao amianto.
Dessa forma, esse estudo possui fundamento na efetivação dos Direitos
Humanos, colaborando para o esclarecimento de problemas sociais, como o da
invisibilidade da vitimização massiva ocasionada por danos sociais estatal-
corporativos. A pesquisa também poderá compor mais uma produção enriquecedora
para o campo, auxiliando assim a sanar dúvidas criando padrões para outras
pesquisas cujos temas e as problemáticas estejam neste contexto.
Além disso, é importante destacar que mesmo tendo conhecimento da
impessoalidade recomendada nos textos acadêmicos-científicos e da prática do uso
da terceira pessoa em textos da área jurídica, optei pelo uso da primeira pessoa na
realização do presente estudo. As razões dessa escolha advém de pelo menos dois
motivos: 1) a presente pesquisa propôs a realização de entrevistas e observação
participante, as quais possuem autoria. O emprego da terceira pessoa estaria
colocando o pesquisador social e a sua responsabilização pelos dados na sombra
do positivismo científico, buscando ocultar a autoria do estudo, em busca de uma
pretensa, inalcançável e mesmo indesejável neutralidade axiológica ; 2) o estudo da
realidade social não deve ser reduzido diante do discurso objetivo da ciência, a
aplicação do positivismo científico nesse caso, estaria enrijecendo a compreensão
da realidade social proporcionada a partir da pesquisa qualitativa no campo das
ciências sociais (COLOGNESE, 2017; MEDEIROS 2013. BUDÓ, 2017a).
17

2 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRIMINOLOGIA VERDE: VITIMIZAÇÃO E


PRODUÇÃO DE DANOS SOCIAIS ESTATAL-CORPORATIVOS.

Este capítulo tem por objetivo apresentar o marco teórico deste trabalho, a
criminologia crítica, a perspectiva dos crimes dos poderosos e as contribuições da
criminologia verde e do dano social. Nesse sentido, no subcapítulo 2.1 busco
investigar os principais marcos conceituais no campo da criminologia crítica e da
criminologia verde, bem como as mudanças em seu objeto de estudo dentro do
campo para que enfim se consiga proporcionar uma maior visibilidade a danos
sociais e vitimizações massivas que não são perceptíveis por intermédio do estudo
dogmático penal. No subcapítulo 2.2 examino os aspectos históricos do amianto sua
concepção, a exploração no Brasil e seus desdobramentos.

2.1 CRIMINOLOGIA CRÍTICA E CRIMINOLOGIA VERDE: NOÇÕES


FUNDAMENTAIS

Durante a década de 1960, criminólogos e criminólogas iniciaram novos


estudos, a partir da análise econômico-política do desvio e da criminalidade
(BARATTA, 2002). Dentre esses estudos, a obra Outsiders do sociólogo norte-
americano Howard Becker, trouxe uma nova teoria denominada Labelling Approach
Theory, ou Teoria do Etiquetamento Social3 (BECKER, 2008, p. 179), essa teoria
impulsionou o rompimento com o paradigma etiológico, afirmando que: “[...] o desvio
e a criminalidade não é uma qualidade intrínseca da conduta ou uma entidade
ontológica pré-constituída à reação social e penal, mas uma qualidade (etiqueta)
atribuída a determinados sujeitos” (ANDRADE, 1995, p.28). Essa teoria impulsionou
a ruptura do paradigma etiológico para o da reação social. Dessa forma, nos últimos
anos da década de 1960, e nos iniciais da década de 1970 surgiram as novas
criminologias: radical com referência histórica nos EUA, nova na Europa e crítica,
considerada um estágio avançado das duas primeiras (ANDRADE, 2012, p.88/89).
De acordo com Baratta (2002, p. 160), a criminologia crítica é um avanço dos

3 De acordo com Becker (2008), a partir da interação social, pessoas são etiquetadas com base nos
atos cometidos, estereótipo e classe social.
18

estudos da criminologia, sendo considerada um salto qualitativo que separa a nova


da velha criminologia, evidenciando a superação do paradigma etiológico.
A Criminologia Crítica é pautada pela mudança do objeto de estudo e do
método de estudo desse objeto, da criminalidade para a criminalização; indo de um
dado ontológico para uma realidade construída. Desse ponto de vista, o crime é uma
qualidade atribuída a comportamentos das pessoas pelo sistema de justiça criminal,
constituindo-se por processos seletivos fundamentados por estereótipos,
preconceitos e outras características desencadeadas por índices sociais
relacionados à marginalização, desemprego, pobreza, dentre outros (BARATTA,
2002; BECKER, 2008). O estudo do objeto, assim, não parte do paradigma
etiológico das determinações causais de objetos naturais empregados pela
Criminologia tradicional, mas sim do paradigma da reação social, a partir de um
duplo método adaptado à natureza dos objetos sociais, responsável pela mudança
de foco do indivíduo para o sistema de justiça criminal (BARATTA, 2002). Segundo
Goffman (1980), o estigma é imposto pela sociedade, criando uma nova identidade
social, é um rótulo negativo para etiquetar alguns membros de um grupo social que
não necessariamente cometeram algum delito, mas que pertencem a algum grupo
social vulnerável a tal comportamento. Esse processo de categorização social pode
deteriorar a identidade de alguns indivíduos:

A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de


atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada
uma dessas categorias: Os ambientes sociais estabelecem as categorias de
pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de
relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um
relacionamento com "outras pessoas" previstas sem atenção ou reflexão
particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros
aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua
"identidade social" (GOFFMAN, 1980, p. 5).

O criticismo na criminologia é maturado quando o enfoque macrossociológico


se desloca do comportamento desviante para os mecanismos de controle social e
para os processos de criminalização (BARATTA, 2002; ANDRADE, 2012). Com a
teoria do etiquetamento, a análise criminológica se desloca de um paradigma
etiológico (causas da criminalidade) para o paradigma da relação social (ou seja, dos
19

processos de criminalização), provocando o dito crimonological turn4, com a


incorporação do referencial materialista alinhado à dimensão do poder (sistema de
controle social), passando a compreender que os processos de estigmatização estão
relacionados intimamente às relações de poder político e exploração econômica
advindos do próprio modo de produção capitalista (CAMPOS, 2013, p. 6; SILVA,
2016).

Diante das insuficiências do labelling e das teorias do conflito, apesar de


suas contribuições (etapas de superação), havia a necessidade de um novo
passo nos estudos criminológicos, de modo a sedimentar o “falecimento” da
visão positivista etiológica, momento em que se insere a criminologia crítica.
Valioso citar que o declínio da óptica positivista é reforçado pela experiência
europeia e mais especialmente norte-americana de meados dos anos
sessenta, tendo em vista a revelação de delitos cometidos pelas classes
médias e altas [...] sendo esses atos desviantes relevados, constituindo com
isso a denúncia do fracasso do pensamento etiológico que associava o
delito à pobreza (DIAS, 2018.p. 110).

A principal característica da Criminologia Crítica seria o seu enfoque


marxista, ao partir do pressuposto de que o Sistema Punitivo é construído com apoio
de uma ideologia relacionada às sociedades de classes, de modo que seu principal
objetivo estaria distante da defesa social ou da real preocupação com a criação ou
manutenção das condições para a promoção de um convívio harmônico entre os
indivíduos (ZAFFARONI, 1991; DIAS, 2018, p, 112). A influência marxista na
criminologia crítica pode ser percebida na análise da justiça penal burguesa e das
relações de desigualdades ocasionadas no capitalismo predatório, de modo que “[...]
análise do sistema penal como sistema de direito desigual, é constituído pela
passagem da descrição da fenomenologia da desigualdade à interpretação dela, ou
seja, ao aprofundamento da lógica da desigualdade” (BARATTA, 2002, p. 164),
levando em consideração a seletividade nos processos distintos de criminalização:
primário, secundário e terciário. Assim, o verdadeiro fim de todo o Sistema Penal
seria o atendimento às necessidades e interesses das classes dominantes, de modo
que qualquer instrumento de repressão e controle social seria uma atuação
opressiva das classes mais privilegiadas em detrimento das outras.
Para Baratta (2002), a Criminologia Crítica seria uma resposta ao fato de que
a Criminologia Positivista não servia mais para explicar a criminalidade. O método e

4”Crimonological turn” é um dos termos utilizados para se referir a “virada da criminologia” também
chamada de ruptura de paradigmas (CAMPOS, 2013, p. 6).
20

a lógica da produção dessa teoria vêm servindo como um amplo campo de estudo, a
partir da realização de investigações consideradas indispensáveis para que se
alcance a produção de pesquisas comprometidas com o “[...] vigor analítico e
compreensivo sobre os processos de criminalização” (PRANDO, 2018, p.80). Nessa
perspectiva, Carlen, ao discorrer sobre as perspectivas da criminologia crítica, afirma
que:

[...] atualmente, ela é utilizada para denotar qualquer posição teórica que,
ao dizer não a antigas formas de saber, também desafia os arranjos sociais
e políticos naturalizados que dão origem a desigualdades de riqueza,
conhecimento e poder, com seus acompanhantes sistemas de justiça
criminal exploradores (CARLEN, 2017, p.24).

O campo da Criminologia Crítica, conforme a própria denominação indica, se


ocupa de tecer críticas fundamentadas ao punitivismo tradicional: isso não significa
que as condutas criminosas individuais seriam desimportantes, mas sim que a
atuação estatal com o apoio mercantil poderia produzir prejuízos significativos em
larga escala (BUDÓ, 2015; FERREIRA, 2016; SOARES, 2017). A criminalidade seria
uma espécie de “bem negativo” com uma distribuição não equitativa de acordo com
a hierarquia dos interesses fixados em um sistema socioeconômico com base na
desigualdade social entre os indivíduos (BARATTA, 2002). Baratta (2002) é o
principal autor que defende essa concepção, contemplando que a partir da
Criminologia Crítica residiu a transformação de um importante enfoque nos estudos
criminológicos, de modo que o sistema penal passa a ser analisado através da
produção, da aplicação da pena e da execução penal.
A Criminologia Crítica passou a ganhar força na América Latina na década de
1970, sobretudo na Venezuela com os estudos de Rosa Del Olmo e Lola Anyar de
Castro, sobre a influência dos estudos desenvolvidos por Alessandro Baratta,
culminando no desenvolvimento de uma espécie de criminologia crítica latino-
americana. Em seu bojo as autoras e autores reconheciam que os sistemas penais
dos países que compõem essa região haviam importado os modelos de controle
penal europeus e as concepções positivadas das ideologias correcionalistas de
tratamento (FERREIRA, 2016, p.174/175). Essa “herança” deveria ser reconhecida
para que se consolidasse uma oposição dos criminólogos da América Latina à
21

reprodução dos modelos positivistas e autoritários, sendo indispensável refletir sobre


a atuação política mais adequada para cada país (FERREIRA, 2016, p.175).
No Brasil, autores como Heleno Fragoso, Roberto Lyra Filho, Juarez Cirino
dos Santos, Nilo Batista, Vera Malaguti Batista e Vera Regina Pereira de Andrade
são alguns dos principais nomes da Criminologia Crítica (ANDRADE, 2012, p. 79-
89). Essa corrente teórica que poderia ser chamada de criminologia crítica brasileira,
entretanto, ainda estaria em formação, representando as “[...] reflexões realizadas
sobre o controle penal e a justiça criminal, considerando-se, para tal, especialmente,
os impactos da construção de um Estado Democrático de Direito fundado em
perspectivas político-criminais ainda muito conservadoras” (FERREIRA, 2016, p.
180).
A partir da abordagem do estudo crítico, delitos que eram invisíveis com base
no exame jurídico penal, tornam-se perceptíveis:

A criminologia crítica recupera, portanto, a análise das condições objetivas,


estruturais e funcionais que originam, na sociedade capitalista, os
fenômenos de desvio, interpretando-os separadamente conforme se tratem
de condutas das classes subalternas ou condutas das classes dominantes
(a chamada criminalidade de colarinho branco, dos detentores do poder
econômico e político, a criminalidade organizada, etc.) (ANDRADE, 2015,
p.217)..

A partir de uma perspectiva macro, a criminalidade de rua não atinge tantas


pessoas como nos casos de crimes (ações e omissões), de Estados e mercados
(HILLYARD; TOMBS, 2005; BERNAL et al, 2014). O Estado, nesse sentido, deveria
agir para modificar os paradigmas atuais de desigualdades, pobreza e violência
estrutural, porém não o faz, em razão de interesses econômicos não revelados,
essas práticas rotineiras são imunizadas e invisibilizadas pelos próprios poderosos
causadores de danos (BUDÓ, 2015).
Para que tais práticas possam ser vistas, ouvidas, compreendidas e
prevenidas, o campo da Criminologia Crítica deveria ampliar o seu enfoque
investigativo, que muitas vezes é limitado à justiça penal e aos processos de
criminalização de rua (BERNAL et al, 2014; BUDÓ, 2015). Os crimes de colarinho
branco (White colar crime) são menos explorados nos estudos criminológicos
(MEDEIROS, 2013, p. 41). Nesse sentido, para que eu contextualize a criminologia
crítica e a criminologia verde com base nos objetivos propostos para o
22

desenvolvimento do presente estudo, cumpre também analisar o que consistem os


crimes de colarinho branco, para que se possa entender os crimes corporativos.
A temática dos crimes do colarinho branco não é recente, Sutherland utilizou
o termo White colar crime pela primeira vez durante seu discurso na American
Society of Sociology em 1939 enquanto era presidente, tendo o termo se tornado
parte do vocabulário norte-americano (MEDEIROS, 2013, p. 42). De acordo com
Sutherland (1940), a terminologia se refere aos crimes cometidos por pessoas
respeitáveis, e de alta posição e de grande status social de Estado, no exercício dos
seus ofícios (SUTHERLAND, 1940, p. 1/2).

Economistas estão familiarizados com as estratégias de negócios, mas não


estão acostumados a considerá-las do ponto de vista criminal; e os
sociólogos estão familiarizados com o crime, mas não estão acostumados a
considerá-lo em sua expressão no mundo dos negócios (SUTHERLAND,
1940, p. 1)5.

Os crimes de colarinho branco são crimes cometidos por homens de


negócios e respeitados, em contraponto aos crimes na classe baixa, composto pelas
pessoas de baixo nível socioeconômico (SUTHERLAND, 1940; VERAS, 2010, p.
47). Os crimes de colarinho branco podem ser caracterizados como atos ilegais e/ou
antiéticos, que desrespeitam a responsabilidade fiduciária do monopólio público,
sendo que tais atos devem ser cometidos necessariamente por um indivíduo ou uma
organização costumeiramente no desempenho de uma atividade profissional
legítima (MEDEIROS, 2013, p. 50). Os agentes dessas ações ou omissões são
pessoas que possuem uma posição social elevada e que contam com o respeito da
sociedade, com o intuito de alcançar ganhos pessoais e ou organizacionais
(SUTHERLAND, 1940; VERAS; 2010).

Já em seu clássico artigo White-collar ciminality, Sutherland (1940)


mostrava, com apoio de dados extraídos das estatísticas de vários órgãos
americanos competentes em matéria de economia e comércio, a
impressionante proporção das infrações a normas gerais praticadas neste
setor por pessoas colocadas em posição de alto prestigio social, bem como
analisava as causas do fenômeno, sua ligação funcional com a estrutura
social e os fatores que explicavam a sua impunidade (ANDRADE, 2015, p.
260).

5 Economists are familiar with business strategies, but they are not accustomed to considering them
from the criminal point of view; and sociologists are familiar with crime, but are not accustomed to
consider it in their expression in the business world. (Tradução nossa).
23

Sutherland foi considerado um dos proeminentes sociólogos do século XX e,


por tal motivo, recebeu grandes críticas ao seu conceito do crime de colarinho
branco, uma vez que não pautou seu entendimento com base nos aspectos
jurídicos, mas sim da Sociologia (VERAS, 2010). Para ele, o comportamento
criminoso não seria fruto especificamente da pobreza, pois a causa do crime
habitaria as relações sociais e interpessoais, por vezes em uma associação com a
pobreza e por vezes em associação com a riqueza (ou ambas), não sendo o crime
um fenômeno determinado pelo fator classe (SUTHERLAND, 1940; VERAS, 2010).
Contemporaneamente, a temática tem sido tratada pelos criminólogos e
criminólogas como crimes dos poderosos6 (BARAK,2015). Com a globalização no
século XXI, e os interesses do capital global, a vitimização em massa se tornou uma
prática rotineira em nome dos bons negócios, além disso, a neutralização das ações
e omissões se perpetuam em nome dos interesses corporativos e das elites estatais
capitalistas (BARAK, 2015, p. 105). Dessa maneira, como forma de compor um
estudo criminológico global foi sendo criado um rol de crimes dos poderosos:

Finalmente, os crimes dos poderosos foram recentemente classificados em


sete conjuntos de atividades agrupadas ou em desenvolvimento para fins de
organização do manual internacional, como segue: (1) crimes de
globalização, (2) crimes corporativos (3) crimes ambientais, (4) crimes
financeiros, (5) crimes de estado, (6) crimes estatais e corporativos e (7)
crimes rotineiramente estaduais. Ao mesmo tempo, essas formas
sobrepostas e semi-autônomas dos crimes dos poderosos, coincidem com
uma ou mais das outras formas7 (BARAK, 2015, p. 108).

De acordo com Medeiros (2013, p.59/60), os crimes corporativos abarcam


ações e ou omissões que não necessariamente são ilegais, mas que prejudicam a
sociedade. Os danos ocorrem a partir das interações dos atores ligados a estruturas

6 Budó, ao dissertar sobre Friedrichs e sua explicação sobre os crimes de colarinho branco, verifica
que a terminologia crime dos poderosos seria uma categoria específica dentro da categoria mais
ampla de crimes de colarinho branco, sendo esta última utilizada em diversas situações, inclusive em
casos em que os agentes não possuem grande poder aquisitivo, mas que mesmo assim cometem
ilícito em virtude de serem subordinados de quem detém poder econômico (BUDÓ, 2015, p. 257 ).
7 Finally, the crimes of powerful have recently been classifed into seven clustered or developing sets

of activities for the purposes of organizing the international handbook, as follows: (1) crimes of
globalization, (2) corporate crimes (3) environmental crimes, (4) fnancial crimes, (5) state crimes, (6)
state-corporate crimes, and (7) state-routinized crimes. At the same time, these overlapping and
semiautonomous forms of the crimes of the powerful ofen coincide with one or more of the other
forms. (Tradução nossa).
24

organizacionais e os interesses de uma ou mais corporações. “Os resultados dessa


ação ou omissão são negativos, trazendo prejuízos sociais, físicos, financeiros,
psicológicos, ecológicos, colocando a sociedade e o meio ambiente em condições
de risco, dano ou perda” (MEDEIROS, 2013, p. 60).
Os crimes corporativos normalmente são aqueles que violam direitos, grupos
sociais mais vulneráveis, como, por exemplo, os mais pobres, trabalhadores e o
meio ambiente criando prejuízos de forma ampla (BERNAL et al, 2014). De acordo
com Costa e Wood Jr (2012), os agentes por detrás dos crimes e fraudes
corporativas avaliam algumas questões antes de iniciarem suas ações ou omissões
criando um sistema operacional: 1) componentes ambientais, quer dizer avaliam a
cultura, história, educação, setor de atividades das demais indústrias e também
como funciona o sistema de controle social a lei e a sua aplicação; 2) organização,
refere-se à análise da governança corporativa da região, quem são os agentes com
predisposição a cometer os atos criminosos e a inclusão desses indivíduos ao
sistema fraudulento; e 3) processo, é a etapa da verificação da oportunidade,
recursos, implementação e mobilização para iniciar a ação criminosa e ou
fraudulenta.
Crimes e fraudes corporativas podem ocorrer em qualquer em nível
organizacional, para Payne (2012) os crimes corporativos podem ser resultado de
um conflito de normas, ausência de regulação moral e/ou conflitos estruturais de
uma sociedade. “Os sistemas legais dos diferentes países reagem à criminalidade
corporativa a seu modo e, em muitos países, ainda prevalece a ideia de que
corporações não cometem crimes” (MEDEIROS, 2013, p. 21).
Além disso, outro aspecto considerável a ser mencionado neste estudo, e que
influencia diretamente nos objetivos deste trabalho “[...] é o caráter invisível à maior
parte das pessoas, por serem raramente referidos e discutidos sob esse enfoque
pelos meios de comunicação e mesmo nos mais diversos ambientes” (BUDÓ, 2015,
p. 258). Em relação aos grandes meios de comunicação, grande parte das vítimas
dessas violações ocasionados por crimes de Estados, como, por exemplo,
genocídios ocorridos em países marginais, são deixados de lado, como nota
Zaffaroni (2007, p.19/20). Não se trata simplesmente de uma falta de informação,
mas sim, de uma “indiferença moral” em relação aos fatos. Nesse contexto, Zaffaroni
ainda explica que quando se trará de fatores midiáticos e vitimizações em massa, as
lentes de noticiários se voltam apenas para países com grande poder econômico
25

(ZAFFARONI, 2007). Em relação aos discursos criminológicos da mídia, Dias (2018,


p. 133) afirma que: “a criminologia midiática consolida um quadro estranho e por
vezes esquizofrênico, pois se declara como apoio à população na luta contra o crime
e ao mesmo tempo se alimenta disso constantemente, produzindo e reproduzindo
violência”.
Ademais, geralmente a abordagem dos meios de comunicação hegemônicos,
possui a tendência ao entendimento da necessidade de uma macrocriminalização, e
da utilização do direito penal de forma preventiva e seletiva: “a criminologia midiática
joga com imagens, selecionando as que mostram os poucos estereótipos que
delinquem e em seguida os que não cometeram crimes ou que só incorreram em
infrações menores” (ZAFFARONI, 2012, p. 307). De acordo com Budó (2013, p. 97),
as fontes da notícia geralmente são ligadas a instituições formais da sociedade, ou
seja, possuem ligação com poderes políticos e econômicos, gozando da
credibilidade que vem de sua posição.
Na atualidade, os indivíduos em especial os mais pobres, estão vivendo e
sofrendo minimizações do Estado, enquanto há uma grande expansão dos
mercados (BERNAL et al, 2014, p. 65). Os estudos sobre as violações de Direitos
Humanos por Estados não são novos, Cohen (1996), já havia concluído, com base
nos textos de resposta aos relatórios de Direitos Humanos, que os países mais
desumanos se fecham nas suas próprias ideologias internas sem abertura para
nenhum tipo de diálogo não reagindo bem às críticas externas. Já no caso de outros
países que fazem parte de Organizações Mundiais e mesmo assim violam Direitos
Humanos, no momento em que são descobertos, realizam justificativas com diversos
tipos de explicações, como, por exemplo: a negação literal - nada aconteceu - a
negação interpretativa - o que aconteceu é outra coisa - a negação implícita - o
acontecimento é justificado (COHEN, 1996).
Nessa perspectiva, Budó, ao demonstrar como Zaffaroni tratou sobre as
violações causadas pelos Estados e mercados afirma que:

Ao tratar sobre o tema, Zaffaroni estava interessado sobretudo nos crimes


de Estado, desde aqueles de guerra até os das ditaduras militares latino-
americanas do século XX. Cabe, porém, ampliar essa análise e chegar aos
Mercados que, junto dos Estados corruptos, fracos ou negligentes,
provocam danos à saúde e ao meio ambiente tão ou mais gravosos que as
próprias guerras (BUDÓ, 2016, p.129).
26

O interesse de grandes corporações é o lucro, e que, a partir disso, existem


interesses não revelados em associação com o Estado (HILLYARD; TOMBS, 2005),
o que instiga a analisar os efeitos que estas ações podem causar no mundo humano
e não humano. Na atualidade, com a expansão das sociedades capitalistas e
industrializadas, grande foi o crescimento da concorrência econômica e territorial
entre as nações, o que intensificou a disseminação da violência para com o planeta
e todos os seres do ecossistema (LATOUCHE, 2012, p.45), em nome de interesses
econômicos.
Em relação aos danos em larga escala, ocasionados pelas grandes
corporações, Tombs e White defendem que a única solução seria a sua abolição,
pois a criminalidade seria algo inerente ao formato dessas organizações na
atualidade: “[..] é possível e necessário começar a imaginar um mundo sem
corporações. Este último argumento é inapelável quando os efeitos reais da
atividade empresarial começam a ser analisados”8 (TOMBS; WHYTE, 2015, p. 45;
BUDÓ, 2017a, p. 192).
Logo, várias discussões sobre o objeto de estudo da criminologia têm surgido,
na forma de uma crítica à própria criminologia crítica, tendo por objetivo abarcar
danos sociais ocasionados por Estados e Mercados que ficam invisibilizados a partir
do conceito de crime (BERNAL et al., 2014; HILLYARD; TOMBS, 2005). Nesse
sentido, no subitem 2.1.1 tratarei sobre a Zemiologia, disciplina que aborda a
superação do conceito de crime para o enfoque no estudo do dano social.

2.1.1 Zemiologia: para além do entendimento de crime

As teorias da criminologia crítica, radical e nova foram culminantes para a


realização de denúncias no campo das ciências sociais. Inicialmente serviu para
revelar que os Estados ocidentais usam da justiça criminal como um mecanismo
político de controle para a realização de interesses não revelados. Além disso, serviu
para a autocrítica da criminologia, que há tempos estava reiterando a seletividade
por intermédio da produção do conhecimento (LUNA, 2013, p. 187).

8[...] sea posible y necesario empezar a imaginar un mundo sin corporaciones. Este última argumento
se demuestra inapelable en cuanto los efectos reales de la actividad empresarial empiezan a ser
analizados (Tradução nossa).
27

Mesmo após a ruptura de paradigma no campo criminológico, que


ultrapassou o paradigma etiológico para a recepção do paradigma de reação social,
a criminologia ainda se manteve ligada à concepção hegemônica de crime (BERNAL
et al,. 2014; HILLYARD; TOMBS, 2005). Para muitos cientistas sociais, a renovação
dos objetos de estudo da criminologia estava inacabada, o seu foco ainda era os
processos de criminalização dentro do sistema jurídico penal, de modo que “[...] a
palavra Criminologia vincula o próprio nome ao estudo do crime, sendo assim,
automaticamente relacionado às ciências penais” (FRANÇA et al., 2015, p. 6).
O estudo da criminologia se manteve inerte em razão da dificuldade de se
desprender dos discursos voltados à reforma da justiça criminal. Muitos discursos
criminológicos metaforicamente se assemelham a “remédios para o crime”
(PANTAZIS et al., p. 64). Esse fato fez com que lesões sociais mais graves
recebessem menos atenção, o foco em comportamentos oficialmente definidos
como crime invisibiliza noções de vitimização não defendidas por fontes oficiais (Lei),
por exemplo, em casos de vítimas ambientais (HALL, 2012, p. 373).
Para Pemberton (2005), enquanto criminólogos e criminólogas têm se
dedicado a aprofundar o conhecimento do crime, negligenciam diversos casos de
sofrimento humano. É a isso que se referem Bernal et al. (2014, p. 62): “Mortes de
milhares de crianças, diariamente, por desnutrição, acesso restrito a medicamentos
e aumento de enfermidades curáveis, pobreza, pauperização, declarações de
responsáveis políticos que geram pânico econômico”9. Para Hillyard e Tombs (2005),
essa omissão ocorre em razão do vínculo da criminologia crítica com o direito penal.
Uma das maiores críticas desses cientistas sociais é a inexistência ontológica
da categoria crime. Não há nenhum incidente de fato que comprove e defina
exatamente o crime ou criminoso. De acordo com Hillyard e Tombs (2005, p. 7),
crime é um “mito da vida diária”. Existe uma definição de atos, ações ou omissões
(criminalidade de rua), as quais se deve reagir e a reação é a punição, porém é
sabido pela própria criminologia que o direito penal falha ao capturar os danos mais
prejudiciais (BERNAL et al,. 2014; HILLYARD;TOMBS 2005).
Além disso, o conceito de crime e punição serve de ferramenta para sustentar
a ilusão de segurança jurídica e a as relações de controle e poder (ANDRADE,

9 Muertes de miles de niños diariamente por malnutrición, acceso restringido a medicamentos y


expansión de enfermidades curables, pobreza, pauperización, declaraciones de responsables
políticos que generan pánico económico (Tradução nossa).
28

2015). A lei penal teria condições de denunciar e capturar ações e omissões


danosas causadoras de vitimizações coletivas, mas não o faz, centra-se em
criminalidades menores individuais e de rua. Conforme Hillyard e Tombs (2005, p.
13), “[...] a indústria do controle do crime é agora uma força poderosa em sua própria
maneira; tem um interesse pessoal em definir eventos como crime” 10, faz parte do
sistema de invisibilização da justiça criminal.
Após muitas violações de direitos humanos por Estados, o retorno do
terrorismo, o 11 de setembro de 2001, guerras, genocídios em larga escala,
corrupção e assassinatos seletivos pelos meios de controle social (BERNAL et al,.
2014; ZAFFARONI 2007), era necessária a superação do conceito de crime.
Criminólogos e criminólogas adotaram a zemiologia e a perspectiva do dano social
como forma de atender as novas demandas sociais, proporcionando uma análise
mais precisa dos desequilíbrios cotidianos da sociedade capitalista (HILLYARD;
TOMBS 2005; PEMBERTON, 2005, p. 70).
A zemiologia surge como uma como proposta de ampliação do estudo
criminológico, considerando não apenas os comportamentos que violam a lei, mas
também a possibilidade de refletir sobre questões mais amplas do que a
normatividade e as reações contra infrações normativas (NAUGHTON, 2003, p 5). A
palavra zemiologia etimologicamente é de origem grega “logos” que significa estudo
e “zemia” que quer dizer dano (BERNAL et al, 2014, p. 63; WILSON, 2015, p. 77).
Conforme Soares (2017), a proposta para um novo objeto de estudo da
criminologia surgiu durante uma Conferência em Dartington, na Inglaterra, nomeada
de “Zemiology: Beyond Criminology?” no ano de 1999, a fim de: “a) definir dano, os
contextos em que ocorriam mais frequentemente, seus padrões e extensões e as
características das pessoas que mais o sofriam; b) entender porque a criminologia
era tão impermeável às críticas que lhe eram feitas há tantos anos” (SOARES, 2017,
p. 199/200).
A zemiologia como disciplina é descrita como uma tentativa de romper com
paradigmas sócio legais (NAUGHTON, 2001), busca analisar, confrontar e dar
visibilidade a uma série de danos graves como:

10[...] the crime control industry is now a powerful force in its own right; it has a vested interest in
defining events as crime. (Tradução nossa).
29

[...] (sociais, psicológicos, físicos e / ou financeiros) que têm impactos e


efeitos profundos sobre os cidadãos modernos que não podem ser
conceituados por perspectivas sócio legais e / ou criminológicas
convencionais. Danos assim conceituados incluem acidentes de trabalho,
golpes de seguro, negligência ambiental e de saúde pública, e assim por
diante11 (NAUGHTON, 2001, p.1).

A perspectiva de dano social descrita por Hillyard e Tombs (2005), possui a


intenção de englobar uma grande e ampla variedade de interferências que afetam o
ciclo vital dos indivíduos. A abordagem do dano social é multidisciplinar, possui
potencial de abordagem que foge dos limites baseados no conceito de crime, ao
qual a criminologia esteve aprisionada por muitos anos (PANTAZIS et al, 2005):

O dano pode ser traçado e comparado no tempo. Enquanto o crime é


traçado temporalmente e, cada vez mais, espacialmente, é raramente
comparado com outros eventos danosos. Portanto, as estatísticas criminais
produzem uma imagem muito distorcida do total de dano presente na
sociedade, gerando medo de um tipo específico de dano e perpetuando o
mito do crime12. (HILLYARD; TOMBS 2005, p. 17).

O estudo do dano social permite que os e as cientistas sociais aproveitem as


experiências de profissionais de outras áreas, por exemplo, médicos, psicólogos,
políticos, economista, sindicatos, advogados e grupos sociais (PANTAZIS et al,
2005). Essa proposta possibilita uma análise a partir das origens sociais e das
estruturas que causam os danos sociais, por exemplo, questões ligadas com a má-
apropriação de recursos pelo Estado que pode ter impactos associados a saúde e
nas oportunidades de vida de uma pessoa iniciando uma cadeia de danos
(NAUGHTON; 2001; PANTAZIS et al, 2005).
Muitas das ações e omissões causadoras de danos sociais não são
necessariamente proibidas por lei, sobretudo no que diz respeito a atividades de
exploração do capitalismo, a busca por poder e lucro por grandes corporações
(MICHALOWSKI, 2015). Um grande exemplo é o uso de agrotóxicos: “não por
acaso, a seletividade enraizada na operacionalização real do sistema penal se vê
legitimada diariamente, enquanto as atividades econômicas rotineiramente violentas

11 […] (social, psychological, physical and/or financial) that have profound impacts and effects upon a
modern citizenry that are unable to be conceptualised by conventional socio-legal and/or
criminological perspectives. Harms thus conceptualised include accidents at work, insurance scams,
environmental and public health malpractice, and so on.
12 Harm could be charted and compared over time. While crime is charted temporally and, increasingly

spatially, it is seldom compared with other harmful events. Hence, crime statistics produce a very
distorted picture of the total harm present in society, generating fear of one specific type of harm and
perpetuating the myth of crime. (Tradução nossa).
30

e danosas permanecem imunizadas e suas vítimas invisibilizadas” (BUDÓ, 2017b, p.


196).

A invisibilidade dos danos sociais causados pelos mercados em conluio com


os Estados é uma característica dominante quando analisada a forma como
tanto o sistema de justiça quanto a criminologia se preocupam com os
crimes de rua e não com aquelas condutas que efetivamente provocam as
mortes e desastres mais dolorosos para as comunidades. Diante disso,
cabe à criminologia crítica, com seu objetivo transformador e crítico do
capitalismo e das condições de reprodução social das desigualdades que o
próprio sistema de justiça criminal efetiva, trazer a lume a danosidade social
das condutas dos poderosos (BUDÓ, 2015, p. 281).

Dentro da perspectiva macro de danos sociais, aqueles relacionados ao meio


ambiente são os mais negligenciados e invisibiizados, em razão de dois aspectos: a)
em virtude de serem legalizados na maior parte dos casos; e b) e por causa da
capacidade do meio ambiente de absorver as evidências dos danos até a sua total
degradação (SOUTH; WHITE, 2013). Ainda nesse sentido, Natali (2015) afirma que:

Alguns dos impedimentos no caminho para o reconhecimento dos danos


ambientais podem ser: a habilidade que a natureza tem de absorver os
danos sofridos sem manifestar suas consequências destrutivas, e mais
evidente, se não após um longo período de tempo; Além disso, mesmo que
os danos já sejam visíveis e perceptíveis, a atribuição causal pode ser
extremamente complexa - pense na relação entre a exposição a agentes
químicos e doenças de trabalhadores e / ou aqueles que vivem perto das
áreas contaminadas; finalmente, atores poderosos podem exercer sua
influência para retardar e / ou mitigar a resposta legislativa 13 (NATALI, 2015,
p. 88).

Focar na análise do dano, ao invés de crime, possibilita uma série de


vantagens em relação às tentativas de apurar os impactos ao meio ambiente, como
a poluição ambiental, mudanças climáticas e ameaças a espécies não humanas
(HALL, 2012, p. 375). O estudo do dano ambiental denuncia que na maioria dos
casos a responsabilidade pelos danos está ligada à instalação de grandes
corporações e suas práticas de exploração (JOHNSON, 2017).

13 Alcuni degli impedimenti sulla strada del riconoscimento di un danno ambientale possono essere: la
capacità che la natura possiede di assorbire i danni subiti senza manifestarne le conseguenze
distruttive, e più evidenti, se non dopo un esteso arco temporale; inoltre, anche qualora i danni siano
già visibili e percepibili, l’attribuzione causale può risultare estremamente complessa – si pensi ala
relazione tra l’esposizione ad agenti chimici e le malattie di operai e/o di chi abita vicino alle zone
contaminate; infine, gli attori potenti possono esercitare la loro influenza per ritardare e/o attenuare la
risposta legislativa. (Tradução nossa).
31

De acordo com Hall (2011), as vitimas de danos ambientais raramente têm a


oportunidade de falar sobre as consequências de sua vitimização, dessa forma o
crescente número de vítimas requer uma maior atenção, possibilitando a abordagem
dos efeitos da destruição ambiental. Na contemporaneidade, a temática ambiental
vem sendo abordada de forma mais específica pela Criminologia verde (green
criminology) e pela vitimologia ambiental. Nesse sentido, no 2.1.2, tratarei sobre
essas duas temáticas.

2.1.2 Criminologia verde e vitimização ambiental

As propostas de mudanças epistemológicas no âmbito da criminologia


possibilitaram uma autocrítica e novos questionamentos por parte dos estudiosos,
“[...] e quanto a: Mulheres? Crimes corporativos? Crimes de classe média?
Racismo? Crimes de guerra? Crimes políticos? Crimes de Estado? Crimes
Ambientais?” (CARLEN, 2017, p. 23). Com as diversas problemáticas na seara
ambiental no início da década de 1990, surgem os estudos críticos relacionados aos
crimes ambientais (WHITE; HECKENBERG, 2014).
Embora o meio ambiente venha sendo tópico de interesse por parte de muitas
disciplinas científicas, a própria criminologia por muito tempo não tratou desse
assunto e seus reflexos na sociedade (NATALI, 2014). A partir da chamada
consciência verde, a Green Criminology surge como uma área emergente, aberta e
múltipla de enfoque criminológico que permite o encontro de uma grande variedade
de abordagens teóricas, reunindo uma série de questões de crucial importância
(SOUTH, 2014):

[...] poluição e sua regulação; o crime corporativo e seus impactos no meio


ambiente, empregados e consumidores; crime organizado e corrupção no
mercado de eliminação de resíduos tóxicos; aplicação e impactos militares
no meio ambiente e nas populações; ferimentos em animais silvestres
terrestres e aquáticos e danos aos seus ambientes naturais; e, de forma
relacionada, o policiamento de tais ofensas 14(SOUTH, 2014,p. 6).

14[…] pollution and its regulation; corporate crime and its impacts on the environment, employees and
consumers; organized crime and corruption in the toxic waste disposal market; enforcement and
military impacts on the environment and populations; injury to land-based and aquatic wildlife and
damage to their natural environments; and, relatedly, the policing of such offences. (Tradução Nossa).
32

Ruggiero e South (2013, p. 123) apontam que a criminologia verde (ou green
criminology) é uma disciplina que segue preceitos intelectuais empíricos e políticos,
ocupando-se do estudo de danos primários e secundários, crimes e ofensas
criminais que impactam de modo prejudicial o meio ambiente e as espécies
humanas e não humanas englobando todo o ecossistema. Essa disciplina não
estabelece nenhuma teoria particular, mas sim introduz uma perspectiva que pode
orientar trabalhos empíricos sobre tal campo da Criminologia (RUGGIERO; SOUTH,
2013, p. 123). Assim, a criminologia verde torna-se o termo empregado ao estudo
específico de danos ambientais e como eles se conectam com a economia política
do capitalismo, esse estudo é baseado em três teorias que devem ser consideradas
de forma conjunta: 1) justiça ambiental: parte da ideia de que os direitos ambientais
são derivados dos direitos humanos e direitos sociais, a fim de melhorar a qualidade
de vida humana; 2) justiça ecológica: o reconhecimento de que os seres humanos
fazem parte de ecossistemas complexos que se complementam, e que devem ser
preservados a partir da ideia de direitos do meio ambiente; e 3) justiça das espécies:
percebe a construção dos danos praticados pela espécie humana em lugares não
humanos, reconhecendo o direito desses lugares e espécies não humanas de não
sofrerem (WHITE, 2008).
A criminologia verde também possui origem em mais três aspectos, derivada
do: 1) ecofeminismo o que significa que os danos ambientais atingem mais mulheres
do que homens; 2) racismo ambiental, que explica que alguns grupos étnicos são
mais atingidos que outros como, por exemplo, indígenas, negros e a população mais
pobre; e 3) socialismo ambiental que defende a igualdade na utilização dos recursos
naturais, bem como estuda as razões de determinados grupos usufruírem em maior
quantidade dos recursos naturais e dos lucros derivados deles (WALTERS, 2010).
Os danos ambientais ainda podem ser subdivididos em três categorias
(SOUTH; WHITE, 2013, p. 16/17): 1) Brown issues (questões marrons) que tratam
de problemas na vida urbana, por exemplo, poluição do ar, águas fluviais urbanas,
poluição de praias e de pesticidas; 2) Green issues (questões verdes) tratam de
áreas selvagens e de preservação, por exemplo, extração de florestas, chuvas
ácidas, perda da vida selvagem e perda da camada de ozônio; e 3) White issues
(questões brancas) refere-se aos impactos das novas tecnologias e laboratórios
científicos, por exemplo, irradiação de alimentos, organismos modificados
geneticamente, doenças transmissíveis relacionadas com o ambiente e nano
33

tecnologia. Também é importante ressaltar que a criminologia verde é uma


derivação da criminologia crítica, pois conforme Hall (2011) os danos decorrentes de
crimes ambientais afetam alguns grupos sociais mais do que outros, como, por
exemplo, pessoas de classes sociais mais baixas.

O meio ambiente como objeto de estudo científico não é uma preocupação


que surgiu recentemente. Não obstante, a Criminologia ainda resiste em sua
esfera de observação. Em razão disso, a Green Criminology emergiu como
um novo campo a questionar uma série de problemas recorrentes que
envolvem crimes, danos e desastres ambientais, assim como formas de
injustiça ambiental e injustiça ecológica [...] em suma, prevalece na
criminologia verde uma ampla definição do conceito de crime ambiental, que
abrange as dimensões de injustiça e dano social ("social harm"), muitas
vezes esquecido pelo sistema de justiça criminal (BOEIRA; COLOGNESE,
2017, p. 159).

A criminologia verde trabalha com a análise dos objetivos dos poderosos


(grandes corporações e Estados), bem como as estruturas que esses agentes estão
inseridos, verificando quais seriam os meios cabíveis para cessar e responsabilizar
as ações ou omissões danosas realizadas por esses agentes com base nos
preceitos fundamentais da sustentabilidade concebidos na atualidade (CAO NGOC;
WYATT, 2016, p. 123).
Boeira e Colognese (2017) apontam que a Criminologia Verde é um conceito
ainda pouco explorado no Brasil, porém é algo que deve começar a ser discutido por
criminólogos e criminólogas do país. O marketing ecológico, greenwashing e
diversas estratégias15 de invisibilização de danos migraram juntos com
multinacionais e transnacionais para o Brasil (NATALI, 2014; BUDÓ, 2015; BOEIRA;
COLOGNESE, 2017). “Esses gerentes se esforçarão para forjar bons contatos com
funcionários do governo, empregando consultores profissionais para aconselhá-los
sobre como retratar uma imagem de ser ambientalmente amigável”16 (RUGGIERO;
SOUTH, 2010, p. 253). Isso possibilita que as corporações possam violar a lei de
forma sistemática e consciente sem que a população perceba.

15 As estratégias corporativas incluem slogan e propagandas que defendendo a proteção do meio


ambiente e a sustentabilidade ambiental, mas que servem como subterfugio para encobrir atividades
de exploração e degradação ambienta (NATALl, 2014, p. 14/15).
16 These managers will strive to forge good contacts with government officials, employing professional

consultants to advise them on how to portray an image of being environmentally friendly. (Tradução
Nossa).
34

Nesse sentido, ciminólogos e criminólogas verdes também tem trabalhado no


estudo e na construção de meios sustentáveis para auxiliar no combate da
degradação do meio ambiente. Lynch e Boggess (2015) têm trabalhado com a
abordagem das ecocidades que trata de um esforço coletivo para mudar as grandes
cidades e torná-las ecologicamente sustentáveis. Em teoria “as ecocidades
procuram reduzir as injustiças e desigualdades econômicas, sociais e políticas
intensificando, expandindo e redistribuindo o acesso a recursos que facilitam a
criação de capital humano”17 (LYNCH; BOGGESS, 2015, p. 310).
Dentro desse contexto, diversos autores (como Natali, 2014; Ruggiero e
South, 2013) abordam a Criminologia Verde como uma espécie de guarda-chuva
conceitual, sob o qual devem ser repensadas e examinadas as consequências
biofísicas e socioeconômicas das diferentes fontes causadoras dos danos
ambientais, como a poluição, deterioração dos recursos naturais não renováveis,
perda de biodiversidade e as mudanças climáticas. Para Ruggiero e South (2013)
um dos princípios fundamentais da Criminologia Verde consiste no ponto de
encontro inter e multidisciplinar, envolvendo áreas como ciência, política, economia,
psicologia, teorias organizacionais e a conservação das ciências ambientais.

Muitos estudos chamaram a atenção para esta vitimização ambiental de


comunidades pobres e impotentes devido à frequência com que suas
localizações podem ser locais de, por exemplo, indústria poluidora, usinas
de processamento de resíduos ou outras instalações perigosas para o meio
ambiente18 (RUGGIERO; SOUTH 2010, p. 252).

Em razão do seu caráter multi e interdisciplinar, outro campo de estudo que


está ligado à criminologia verde de forma indispensável é o da vitimologia, visto que
não existem crimes ambientais sem vítimas, sejam elas humanas ou sejam elas não
humanas (POTTER, 2010; RUGGIERO; SOUTH, 2013). O estudo da vitimologia
como ciência teve seu surgimento no pós 2ª Guerra Mundial, juntamente com a
Declaração de Direitos Humanos, e assim como a criminologia passou por diversas

17 In theory, eco-cities accomplish these goals in a number of ways. Ecoscities seek to reduce
economic, social and political inequities and inequalities by intensifying, expanding and redistributing
access to resources that facilitate the creation of human capital (Tradução nossa).
18 Many studies have drawn attention to this environmental victimization of communities of the poor

and powerless due to the frequency with which their locations may be the sites of, for example,
polluting industry, waste processing plants or other environmentally hazardous facilities (Tradução
nossa).
35

modificações em seu objeto de estudo durante o século XX (CORTEZ, 2009, p. 16).


A vitimização sempre existiu, mas inicialmente não era tida como foco de estudo, era
considerada apenas como um complemento. No direito penal, a vítima era o sujeito
passivo da ação ou omissão do agente, e na criminologia clássica e positivista a
vítima ficava em segundo plano em relação ao crime e ao criminoso. (KOSOVISKI,
2014, p. 27).
Um dos primeiros estudos de maior proeminência sobre o papel da vítima foi
de Hans Von Hentig, no ano de 1948, que trouxe uma abordagem sobre as noções
fundamentais sobre a vítima: foi um dos primeiros a afirmar que a vítima pode
começar sendo criminoso ou desviante, ou que pode ser as duas coisas ao mesmo
tempo; vítima latente que aborda o caso de indivíduos que tem predisposição em
tornarem-se vítimas e possuem fragilidade pelo criminal, por exemplo, pessoas
frágeis fisicamente; e a relação vítima e opressor nesse caso as próprias vítimas
podem desencadear a vitimização existindo uma troca nos papéis (BERISTAIN,
2000, p.84).
Um ponto importante dentro da história da vítimologia é a representação
dentro do direito penal e do movimento de lei e ordem. De acordo com Zaffaroni
(2012), houve um “confisco da vítima”. ”Deixaram aos juízes a função de árbitros
desportivos, porque uma das partes (a vítima) foi substituída pelo senhor (Estado ou
poder político). O senhor começou a selecionar conflitos e, frente a eles afastou as
vítimas afirmando a vítima sou eu” (ZAFFARONI, 2012, p. 63), esse confisco foi
endossado pelas vítimas, que apoiaram um sistema de controle social mais rígido e
punitivista.
Esse fato contribuiu para que o poder político e o poder punitivo não
precisassem mais contar com a participação da vítima na maioria dos casos. As
sentenças prolatadas não servem para atender aos interesses das vítimas, mas sim
aos interesses do poder (ZAFFARONI, 2012; LARRAURI; RAMÍREZ, 1993). Além
disso, atualmente existe o papel midiático da vítima: ocorre em determinados casos
onde existem maiores especificidades, e a vítima é usada como atriz principal
enquanto for oportuno, o chamado populismo penal midiático (GOMES; ALMEIDA,
2013).
Nos estudos da criminologia, após mudanças estruturais, modificações das
formas de violência, sobretudo na área privada, e o início do posicionamento crítico
social, a vitimologia ganhou novas abordagens de estudo por intermédio da
36

criminologia feminista durante as décadas de 60 e 80. As novas abordagens


trouxeram outras representações de vitimização que ainda não haviam sido
estudadas como, por exemplo, violência conjugal, maus tratos a crianças,
adolescentes e idosos (MACHADO; GONÇALVES, 2004).
As novas abordagens da vitimologia e os estudos das novas relações de
violência contribuíram para uma perspectiva diferente sobre o que seria crime
(CORTEZ, 2009, p. 18). Na América Latina um dos primeiros estudos nesse sentido,
foi da criminóloga Lola Aniyar de Castro, que, em sua tese de doutorado, em 1969,
investigou e ilustrou o objeto de estudo da vitimologia: estudo do subconsciente
personalidade de vítimas delinquentes e de vítimas de outros tipos de danos;
estudos das razões que aproximam as vítimas de seus opressores chamada
receptividade vitimal; o estudo do comportamento da vítima em caráter isolado sem
que haja interferência de terceiros como, por exemplo, em casos de suicídio; estudo
estatístico das tendências de indivíduos se tornarem vítimas e por fim, meios de
tratamentos e prevenções (ANYAR DE CASTRO, 1969).
No Brasil, a criminóloga Ester Kosovski foi uma das precursoras, ao abordar o
assunto de forma interdisciplinar. A criminologia e a vitimologia tornaram-se
disciplinas convergentes, a interdisciplinaridade das duas ciências contribuíram para
uma nova perspectiva sobre o que seria crime. “A vitimologia é filha da criminologia,
muito mais que do direito penal” (BERISTAIN, 2000, p. 88).

Dentro do círculo da política criminológica, que é consequência de outro


círculo concêntrico maior de política social geral, a vitimologia deve
proclamar-se uma ciência para a liberdade e a libertação moral e material
de todo tipo de vitimados (delinquentes marginalizados e submergidos
sociais), que engloba também atingidos pelos acidentes de trabalho, sem
esquecer da sociedade, ou grande parte dela, quando se trata do abusivo
poder governamental, econômico, religioso, acadêmico ou jornalístico
(BERISTAIN, 2000, p.89).

De acordo com Kosovski (2014), as vítmizações coletivas são as mais sérias


e que causam os maiores danos. Esse tipo de vitimização é violadora de direitos e
garantias fundamentais dos indivíduos, como o direito à vida e ao meio ambiente
saudável: “crimes do colarinho branco, crimes econômicos (corrupção,
medicamentos, alimentos, financeiros) que lesam vítimas coletivas e em geral
contam com a impunidade. São os crimes mais graves e pouco punidos”
(KOSOVSKI, 2014, p. 32).
37

É nesse âmbito que trabalha a criminologia verde e a vitimilogia ambiental.


Atualmente ocorrem muitos danos ecológicos, como extrações massivas de recursos
naturais e acréscimos de risco ao meio ambiente, como, por exemplo, a poluição
(JOHNSON, 2017). Essas práticas resultam em um grande número de vítimas. Logo,
a criminologia verde se ocupou do estudo das experiências de vitimização:
“vitimologia identifica, define e descreve os problemas que as vítimas enfrentam, ao
mesmo tempo em que avalia a dimensão da Vitimologia, o tratamento das vítimas e
outras questões em relação com as vítimas”19 (SAZDOVSKA; IVANOV, 2011, p. 62).
A identificação de vítimas de danos ambientais é mais complexa, pois há uma
dificuldade do reconhecimento dessas pessoas em razão da falta de entendimento
dos danos ambientais como crimes (SAZDOVSKA; IVANOV, 2011). Além disso, é
difícil aplicar o status de vítimas quando a própria não se reconhece como tal
(NATALI, 2015). Johnson (2017) sinaliza que as maiores vítimas de danos
ambientais são as pessoas de baixa renda e negras, pois esse grupo teria uma
maior probabilidade de morar perto de ambientes poluídos. Para Johnson, os fatores
econômicos e raciais são pontos determinantes para tipificar as vítimas de riscos
ambientais.
Outro ponto chave levantado pala criminologia é que a maior parte das
atividades destrutivas do meio ambiente são sancionadas e promovidas pelos
Estados (HALL, 2014). De acordo com Hall (2014), essa devastação ambiental
ocorre muitas vezes por meios legais e tem o consentimento da sociedade, em
razão dos interesses e necessidades econômicas.
As vítimas desses tipos de danos possuem algumas características
específicas (HALL, 2014; SKINNIDER, 2011): as vítimas não conseguem perceber o
fato de terem se tornado vítimas; na maior parte dos casos, a vítima só se
conscientiza da vitimização muito tempo depois; as vítimas não têm certeza de quem
são os responsáveis pelos danos ou quem as vitimou e, por fim, o processo de
vitimização pode incluir ofensas que se repetem.
Para Natali (2015), para que seja possível compreender as complexidades e
narrativas das vítimas de danos ambientais é necessário que seja feito um estudo a
partir de perspectivas subjetivas, como questões simbólicas e culturais expressadas

19 Victimology identifies, defines and describes the problems that the victims are facing, at the same
time assessing the dimension of Victimology, treatment of victims and other questions in a relation
with the victims. (tradução nossa)
38

por parte dos atores e atrizes sociais. As experiências de vitimização geralmente são
constituídas de ambiguidades, pois em alguns casos existe a possibilidade de as
próprias vítimas aceitarem as justificativas de negação das responsabilidades. As
experiências de sofrimento sempre são sobrecarregadas de dúvidas, medos e
esperanças (NATALI, 2015, p. 90). “As vítimas são essas testemunhas que sem
deixar esquecer o mal, não exigem vingança, pois elas sabem que a linguagem da
vingança reduz possibilidades de dar conta do que aconteceu, bem como de
organizar outra coisa diferente” (ANITUA, 2015, p. 849).
Sazdovska e Ivanov (2011) apontam para a ingenuidade e inexperiência nos
casos de vítimas ambientais, sendo que muitas vítimas tomam atitudes que podem
prejudicar os processos de responsabilização dos agentes. A inexperiência em áreas
políticas e econômicas também é um fator que contribui para a predisposição em se
tornar uma vítima ambiental. Em relação às predisposições em se tornar vítima
ambiental Sazdovska e Ivanov ainda verificam mais algumas características:

As vítimas desse tipo de crime são caracterizadas por predisposições


apropriadas para se tornar uma vítima, tais como: ignorância, impotência,
distância da fonte de vitimização, falta de percepção da vítima na situação
real, sem esperança em termos de melhoria da posição como resultado de
longa existência do problema, incompetência e incapacidade de responder
apropriadamente, falta de desenvolvimento material e espiritual, ou falta de
consciência ambiental e cultura20 (SAZDOVSKA; IVANOV, 2011, p. 66).

Tipologias de vítimas como: passiva, desconhecido ou sem rosto e vítimas


inocentes também são abordadas por Sazdovska e Ivanov (2011). As vítimas
passivas seriam aquelas que conforme os autores não lutam e permanecem inertes,
mas sofrem; desconhecido ou sem rosto seria nos casos em que não existe nenhum
tipo associação pessoal com o opressor e a vítima não sente dor; e a vítima inocente
é aquela que em nenhum momento contribui para a existência do dano e que está
associado a pessoas poderosas (SAZDOVSKA; IVANOV, 2011, p 68).
Além disso, fatores geográficos também devem ser levados em consideração,
pois os fatores podem ser endêmicos, e influenciar nos riscos ambientais, como, por
exemplo: países de áreas costeiras, baixa altitude, desertificados, áridos e

20 Victims of this type of crime are characterized by appropriate predispositions for becoming a victim
such as: ignorance, powerlessness, distance from the source of victimization, the victim's lack of
insight in the actual situation, hopeless in terms of improvement of the position as a result of long
existence of the problem, incompetence and inability to respond appropriately, lack of material and
spiritual development, or lack of environmental awareness and culture. (Tradução nossa).
39

semiáridos e ou sujeitos a secas ou inundações são mais vulneráveis a vitimização


ambiental (HALL, 2014, p. 9). Porém, não se pode deixar que as desigualdades
ambientais ocasionadas por questões geográficas invisibilize questões mais
complexas da vitimização ambiental, como a econômica e cultura (SOUTH; WHITE,
2013).
Em casos de vitimizações ambientais, geralmente existe a influência de
poderosos que retardam e mitigam as respostas legislativas, mesmo em casos em
que os danos sejam visíveis. Um grande exemplo são os casos de exposição a
produtos químicos, doenças funcionais ou de pessoas que moram próximas de
áreas contaminadas, como no caso do amianto (NATALI, 2015; BUDÓ, 2015).
Poucos são os estudos realizados na área da vitimização ambiental, sobretudo, no
Brasil. A vitimologia ambiental é uma disciplina crítica e interdisciplinar que caminha
juntamente com a zemiologia que possibilita a visibilidade de questões que vão além
da definição de crime, e com os direitos humanos e direitos intergeracionais que
possibilitam uma forma de proteção e prevenção das pessoas vulneráveis aos danos
(HALL, 2014). A pesquisa realizada por Colognese (2017) se assemelha ao presente
estudo. A pesquisadora realizou estudo empírico analisando os danos sociais
ocorridos na cidade de Mariana-MG, após o rompimento da barragem de Fundão. O
caso foi marcado pela imperícia, imprudência e negligência tanto da empresa
mineradora Samarco quanto das autoridades competentes para a realização da
fiscalização sobre a empresa. O descaso em face da preservação e do respeito ao
meio ambiente produziu consequências graves de maneira imediata, provocando
grandes impactos socioambientais. Além disso, Colognese (2017) tinha como
objetivo de pesquisa examinar as experiências de vitimização a partir da voz dos
indivíduos que sofreram com a danosidade do fato.
Outro trabalho que devo mencionar nesse sentido é a pesquisa empírica
realizada por Medeiros (2013) intitulada “Inimigos públicos: crimes corporativos e
necrocorporações”, defendida como tese de doutorado. Em sua tese Medeiros
defende que grandes corporações multinacionais e transnacionais se ocupam do
poder econômico e ideológico para interferir na sociedade e subjugar pessoas à
morte, visando à prática de exploração do capital, acumulo econômico e do poder.
Para chegar nesses resultados, Medeiros entrevistou ex-trabalhadores de duas
multinacionais. Logo, utilizarei ambos trabalhos como referência em diversos
momentos desse estudo como forma de comparar, contrapor e complementar dados
40

sobre danos sociais e vitimização ambiental ocasionados por grandes corporações


em conluio com o Estado, colaborando para futuros estudos criminológicos sobre o
assunto.
Além disso, grande parte dos trabalhos realizados na área da vitimização
ambiental têm por propósito dar voz às próprias vítimas em razão dos desafios
metodológicos de identificar e extrair dados dos que são prejudicados por atividades
danosas ao meio ambiente (HALL, 2014, p. 14). Esses estudos possibilitam apurar
em profundidade detalhes de como esses indivíduos representam a realidade em
que são encontrados. Nesse sentido, Natali (2015) propõe alguns questionamentos
relevantes:

[...] como as pessoas vivem e dão significado às suas experiências em


lugares contaminados? Que relação existe entre consciência dos riscos, a
experiência do sofrimento e da injustiça ambiental vivida pelos moradores e
pela inação coletiva diante das ameaças ao meio ambiente e a saúde
experimentada em primeira pessoa?21 (NATALI, 2015, p. 89).

O caso da exposição ao amianto se enquadra exatamente nesse tipo de


estudo. A maior fábrica de cimento-amianto esteve localizada durante anos na
cidade de Osasco-SP. De acordo com o dossiê sobre o amianto no Brasil, realizado
em 2010 pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da
Câmara dos Deputados, estima-se que 240.000 trabalhadores foram expostos ao
produto apenas nas indústrias, não considerando os expostos não ocupacionais
(CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2010).
Logo, torna-se de suma importância a realização de investigações empíricas
como essa, como forma de ampliar as bases de conhecimento em relação à
vitimização ambiental que é tão pouco explorada no país. Assim, este trabalho
possibilitará ouvir e dar voz aos atores sociais por intermédio de dimensões
simbólicas, memória e imaginação.

2.2 A EXPLORAÇÃO DO AMIANTO: ASPECTOS HISTÓRICOS E A CONCEPÇÃO


DO MATERIAL NO BRASIL

21[...] in che modo le persone vivono e danno senso alle proprie esperienze in luoghi contaminati?
Che relazione intercorre tra la conoscenza dei rischi, le esperienze di sofferenza e ingiustizia
ambientali vissute dagli abitanti e l’inazione collettiva di fronte a minacce all’ambiente e alla salute
sperimentate in prima persona?(Tradução nossa).
41

Inúmeros são os fatores que contribuem para os problemas ambientais, mas


um dos marcos que desenfreou a poluição terrestre teve início com a revolução
industrial, pois as fábricas e indústrias começaram a emitir grandes cargas de
poluição na superfície terrestre. Além dessas condições, “[...] é comum assinalar que
a crise ambiental começou com a Revolução Industrial na Inglaterra, em 1950, e deu
origem ao que mais tarde seria conhecida como civilização industrial” (SAAVEDRA,
2014, p. 59).
Porém, as discussões sobre o tema ambiental na agenda política mundial só
iniciou a partir da conferência sobre o Meio Ambiente realizada pela ONU em
Estocolmo em 1972 e pela conferência de 1992 no Rio de Janeiro, viabilizada pela
Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, sendo esta última, uma
das conferências mais importantes, em especial, para os países da América Latina
(SAAVEDRA, 2014, p. 15). Mesmo com a discussão ambiental em pauta, os
problemas ecológicos se agravaram, pois a busca desenfreada pelo crescimento
econômico tornou-se habitual, e, como consequência, ocasionou o aumento da
poluição terrestre (LATOUCHE, 2012, p. 45). No Brasil, a lógica de desenvolvimento
sustentável desaparece diante do “[...] triunfo da lógica do mercado e com situações
de extrema desigualdade no acesso e distribuição dos recursos naturais,
econômicos e políticos entre as classes mais desprivilegiadas do anárquico mundo
do capital” (FRITZ; FARIA, 2011, p. 47).
A exploração do amianto no mundo compõe um dos casos que contribuíram e
ainda contribuem para a poluição do meio ambiente e para a vitimização ambiental.
Denomina-se amianto a variedade fibrosa de minerais metamórficos utilizados em
diversos produtos comerciais e processos produtivos, sendo um material que
apresenta entre suas propriedades uma grande flexibilidade e resistência no sentido
químico, térmico e elétrico (DEMENT; BROWN, 1994). Também é compreendido
como um conjunto de minerais fibrosos de grande valor comercial. É constituído de
fibras, as quais são separáveis umas das outras, produzindo pó composto de
partículas pequenas que assumem presença no ar e aderem-se a tecidos, sendo
que tais partículas podem ser inaladas ou engolidas, acarretando possíveis
problemas de saúde (JANELA; PEREIRA, 2016).

Amianto ou asbestos são os termos genéricos ou nomes comerciais de um


conjunto de minerais fibrosos, pertencentes a dois grupos: dos anfibólios,
composto pelas variedades amosita, antofilita, actinolita, crocidolita e
42

tremolita; das serpentinas, sendo a crisotila (ou asbesto branco) sua única
variedade. O amianto é dotado de propriedades que lhe conferem valor
comercial, dentre as quais se destacam a de ser resistente à tração,
comparando-se ao aço, e a de não ser combustível (BORGES;
FERNANDES, 2014, p.181).

Na concepção histórica do amianto, a literatura refere que o material foi


descoberto e passou a ser explorado no Chipre, país próximo ao mediterrâneo, há
cerca de 5000 anos, tendo sua utilização inicial na produção de pavios, lamparinas
de azeite, chapéus, sapatos; e na antiguidade egípcia, sendo o material amplamente
utilizado para o processo de embalsamento dos faraós nos sarcófagos (JANELA;
PEREIRA, 2016). A historicidade envolvendo o amianto em âmbito global é
fundamental para o entendimento acerca da vitimização do material como um todo,
em razão dos prejuízos à saúde (RUFF, 2008).

No campo da medicina, não são poucos os estudos que, há pelo menos um


século, vêm comprovando a relação direta entre a exposição do ser humano
às fibras do amianto e diversas doenças, sendo as mais citadas a asbestose
– fibrose pulmonar- e o mesotelioma – um tipo de câncer na pleura (BUDÓ,
2015, p. 264).

Cientificamente, os minerais asbestiformes podem ser divididos em dois


grupos, serpentina e anfíbola. No grupo serpentina está o mineral chamado crisotila
(asbesto branco), muito usado na indústria, e no grupo anfíbola estão os minerais
amosite (asbesto castanho) e crocidolite (asbesto azul), que são pouco usados
industrialmente (JANELA; PEREIRA, 2016).
Para analisar a vitimização e os danos sociais ocasionados pelo amianto em
âmbito nacional também é necessário considerar os mecanismos e a forma como a
matéria prima é manuseada. A fibra do amianto é extraída quando rochas são
esmagadas e peneiradas, separando-a de outros materiais pesados (SOUZA, 2015).
Em muitos países, o material é amplamente utilizado devido a sua versatilidade e
baixo custo principalmente pelas indústrias de cimento-amianto que produz telhas e
caixas d'água na atualidade (FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE
SÃO PAULO, 2009).
Um dos principais motivos da utilização do amianto é a sua resistência
mecânica, visto que é tão resistente quanto o aço; sua resistência às altas
temperaturas, visto que o material não é inflamável; além de boa qualidade isolante,
durabilidade, flexibilidade, indestrutibilidade e facilidade de tecer. Além disso, o
43

material é amplamente resistente a ácidos e bactérias (SCLIAR, 1998). Porém,


desde 1907 existem pesquisas médicas que atribuem ao amianto a causa de
diversas doenças como, por exemplo, a fibrose pulmonar entre outras disfunções
com efeitos a longo prazo (MENDES, 2001).

Em razão dos danos comprovados à saúde do trabalhador, ao meio


ambiente e à saúde pública, o amianto vem sendo banido pouco a pouco no
mundo todo, sendo hoje já oficialmente proibido em mais de 60 países,
como já o foi em toda União Europeia, em 2005, e em alguns países latino-
americanos, como a Argentina, o Uruguai e o Chile (BUDÓ, 2015, p.266).

Mundialmente, um dos casos que ganhou grande visibilidade sobre


vitmizações em larga escala ocasionadas pela indústria amiantífera ocorreu na Itália,
mais especificamente na cidade de Casale Monferrato. A cidade foi considerada
uma das maiores fabricantes de produtos contendo amianto em toda a Europa, a
fábrica da Eternit manteve suas funções na cidade de 1907 a 1986: “na primeira
metade do século XX, Casale Monferrato chegou a ser conhecida como “la città
bianca”, em razão de que o pó do amianto e do cimento estava por todas as partes”
(BUDÓ, 2017a. p. 196).
De acordo com Rossi (2010, p.49/50), em Casale o primeiro caso de uma
doença relacionada ao amianto foi descoberto em 1947 pelo INAIL – Instituto
Nacional de Seguros contra Acidentes de Trabalho, mas o que ocorreu foi o
reconhecimento da invalidez do trabalhador. Nos casos subsequentes, o que ocorria
eram trocas de setores para outros com menos pó, atribuição dos sintomas ao
tabaco, ou até mesmo o desligamento da empresa (ROSSI, 2010, p.50; BUDÓ,
2017a, p. 197).

Só a partir da década de 70 tornou-se claro que trabalhar lá dentro poderia


custar a vida. E até diversos dirigentes, que anteriormente negavam
irritados a existência de qualquer nexo causal entre amianto e tumores,
ficaram preocupados, sobretudo, ao constatarem que a morte não fazia
distinção entre os colarinhos brancos (chefes) e os colarinhos azuis
(operários). O mesotelioma levara embora um ex-diretor do estabelecimento
que teve a péssima ideia de morar na fábrica e, em seguida, atingiu vários
outros, entre funcionários e dirigentes da Eternit de Casale (ROSSI, 2010, p.
53).

Casale foi assolada pela indústria amiantífera, sendo que o banimento


ocorreu somente em 1992, após muita luta dos movimentos sociais, associações e
familiares de vítimas (BUDÓ, 2017a, p.199). Mesmo após o banimento, as
44

associações e demais movimentos sociais de Casale seguem na luta para dar


visibilidade a danosidade do amianto e também a suas vítimas como o objetivo de
auxiliar em um banimento a nível mundial, visto que países marginalizados do sul
global ainda exploram e mercantilizam produtos com amianto (BUDÓ, 2017a).
Após diversos países da Europa aderirem o banimento, e pesquisas
científicas evidenciarem os malefícios do amianto, iniciou-se uma série de debates
acerca da vitimização pelo amianto em diversos países, sobretudo naqueles no qual
a utilização do material não é proibida. Fatores em prol do lucro motivaram e
motivam interesses políticos e econômicos, deixando de lado os riscos causados à
saúde proporcionados pela utilização do amianto (BORGES; FERNANDES, 2014).
Além disso, “[...] por mais que o amianto tenha sido banido na Europa e em mais de
sessenta países, o fato é que sua produção, fabricação e comercialização está
aumentando, tendo se deslocado para o sul global”, cada vez que o produto é
banido, a indústria migra para outros países ainda mais marginalizados (BUDÓ,
2016, p. 131).
A partir dessas concepções e fundamentações, torna-se imprescindível
aprofundar o entendimento sobre os danos sociais de grande magnitude e a
responsabilização estatal-corporativa no caso da exposição ao amianto na
contemporaneidade, propondo uma reflexão sobre os processos de vitimização no
Brasil. Dessa forma, no item 2.2.1 tratarei sobre a ordem econômica e as
concepções legais que as indústrias multinacionais se apoiaram para exercer a
exploração do amianto em âmbito nacional, também abordarei como se deu os
desdobramentos da exploração do amianto no Brasil.

2.2.1 Ordem econômica e a exploração do Amianto no Brasil

Antes de poder tratar sobre a temática da exploração do amianto no Brasil, é


importante compreender em que concepções legais as grandes corporações
multinacionais e transnacionais se apoiaram para exercer suas atividades de
exploração e comercialização do amianto e seus produtos derivados no país. No
final da década de 70, muitos países da América Latina passavam por uma grande
crise econômica e social devido as antigas técnicas desenvolvimentistas praticadas
pelos Estados (CARNEIRO, 2012, p.15). Uma das saídas para crise idealizada na
época, foi o apoio e a atuação da classe empresarial, que instaurou a discussão
45

sobre a necessidade de uma economia de mercado efetiva, “[...] o discurso liberal


radical, combinado com a abertura da economia e o processo de privatizações
inaugura o que poderíamos chamar da ‘Era Liberal’ no Brasil” (FILGUEIRAS, 2000,
p.84).

Esse processo, que culminou com a afirmação do projeto político neoliberal


e a construção de um novo modelo econômico, redefiniu as relações
políticas entre as classes e frações de classes que constituíam a sociedade
brasileira. A vitória desse projeto expressou, ao mesmo tempo em que
estimulou, um processo de transnacionalização dos grandes grupos
econômicos nacionais e seu fortalecimento no interior do bloco dominante,
além de exprimir, também, a fragilidade financeira do Estado e a
subordinação crescente da economia brasileira aos fluxos internacionais de
capitais (FILGUEIRAS, 2006, p. 183).

O liberalismo decorre do individualismo, e tem como fundamento a garantia


da propriedade privada. Já o termo neoliberalismo torna-se significativo durante a
década de 70 em um contexto onde acontecia a privatização de empresas estatais e
a globalização dos mercados (DRAIBE, 1993). A ascendência do neoliberalismo
também trouxe outros reflexos:

A defesa do mercado como modelo para a maior parte da ordem social


(incluída a maioria das operações estatais sobreviventes), defesa dos
empreendimentos comerciais como modelo para a atividade individual e
organizacional, e idealização do empresário como o paradigma de
autogovernança individual; A promoção de relações de profissionalismo,
especificamente a formação de relações contratuais ou quase contratuais,
como “parceiras” entre agências estatais e não-estatais (O’MALLEY,
2017,p. 136).

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, as questões de ordem


econômica se concretizaram através do disposto no artigo 170: “a ordem econômica,
fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social” (BRASIL,
1988). O artigo ainda traz um rol de princípios em seus incisos como, por exemplo,
soberania nacional e livre concorrência. Mas para esse trabalho o princípio mais
importante a ser mencionado é o do inciso VI, que trata sobre a defesa do meio
ambiente e dos impactos ambientais.
A livre iniciativa e o trabalho humano visam garantir a todos uma existência
digna, o direito econômico deve respeitar os princípios basilares da Constituição
Federal de 1988, sob pena de cometer um ilícito e sofrer sanções penais e
46

administrativas (COMPARATO,1989, p.39). Os meios utilizados para alcançar as


grandes metas do desenvolvimento econômico a muito tempo tem prejudicado o
meio ambiente, “[...] a sobrevivência do business, dos lucros e dos privilégios é mais
importante do que a sobrevivência do planeta ou, em todo caso, da maioria da sua
população” (LATOUCHE, 2012, p.45).
Nesse mesmo sentido, Eros Grau afirma que:

Não pode haver promoção do bem de todos ou da justiça social sem o


respeito da dignidade da pessoa humana, o que não se dá sem o
reconhecimento da função social da propriedade e sem que a utilização dos
recursos do ambiente seja sustentável (GRAU, 1999, p. 2018).

Deve-se reconhecer a importância do desenvolvimento econômico de uma


sociedade, mas no Brasil, as diversas formas de poder sobre a ordem econômica,
fazem com que todo esse desenvolvimento seja dependente de estruturas
corporativas, criando monopólios (BOLAÑO, 1996). De acordo com Carneiro, o
neoliberalismo no Brasil deixou passar a oportunidade de privatizar os grupos
nacionais, o que poderia criar uma maior competitividade no mercado mundial e um
fortalecimento da moeda brasileira (CARNEIRO, 2002, p.21).
Esse fato contribui para que corporações multinacionais continuem tendo o
domínio do mercado e da economia, “[...] Num mundo globalizado, são as grandes
empresas internacionais que ditam as regras de sobrevivência” (PERIN, 2003, p.
146). Com a globalização, as estratégias das grandes corporações são: “ocupar os
mercados de periferia adquirindo empresas já existentes para ajustar as metas e
linhas de produção e uma estratégia global formada fora do país” (CARDEIRO,
2002, p. 22).
Em nome da livre iniciativa privada promove-se uma forma descontrolada de
concorrência, com a criação de modelos de autonomia contratual e de governança
empresarial emprestadas pelas grandes corporações (PAFFARINI, 2017). Trata-se
de um processo de padronização do ato negocial, que reduz a margem de
autonomia do consumidor/usuário, assim como a capacidade do pequeno e médio
produtor, isto é, a base tradicional da economia nacional. Os Estados cujas classes
politicas não entenderam a carga desestabilizadora deste processo – como no caso
brasileiro – estão vivenciando uma crise do modelo democrático, devido a
desconfiança da população sobre a capacidade dos tradicionais órgãos
47

representativos de lidar com a crise. No entanto, a necessidade de manutenção dos


investimentos estrangeiros no território nacional, ainda mais à luz da necessidade de
recuperação da dívida pública, aumenta a “alavanca negocial” das corporações
(PAFFARINI, 2017):

Como demonstrado por alguns estudos comparativos, o princípio da


autonomia privada foi impulsionado como um padrão comum para a
regulação do mercado global. Não há campo de investimentos
internacionais em que as empresas não tenham insistido em regulamentar
suas atividades no Estado anfitrião, bem como qualquer disputa decorrente.
Ao mesmo tempo, mesmo reconhecendo essa grande pressão da elite
industrial e financeira, a distinção entre “regulação econômica (auto)” e
“governança” ainda é crucial para a implementação dos direitos humanos e
do crescimento sustentável no Brasil. (PAFFARINI, 2017, p. 38) 22.

Diante das mudanças da era globalizada e modificações das estratégias de


mercado, a criminologia passou a preocupar-se com os danos sociais ocasionados
pelos monopólios corporativistas (CSOHNGEN et al, 2017). A temática sobre a
exploração do amianto em âmbito nacional se encaixa nessa perspectiva.
A utilização do amianto já havia sido banida de boa parte dos países
industrializados do norte global ainda na década de 90 (BUDÓ, 2016). Em âmbito
nacional, a proibição da exploração, distribuição e mercantilização só se
confirmaram em 29 de novembro de 2017, quando a presente pesquisa já estava em
andamento. Os ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal em sua maioria
votaram pela inconstitucionalidade do artigo 2º da Lei Federal 9.055/1995 que
permitia o uso controlado do amianto do tipo crisotila (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DOS EXPOSTOS AO AMIANTO, 2018).
A decisão foi tomada durante a sessão de julgamento de duas ações diretas
de inconstitucionalidade as ADIs 3406 e 3470, propostas pelo CNTI - Confederação
Nacional dos Trabalhadores da Indústria, que tinha como objetivo opor-se a Lei
3.579/2001 do estado do Rio de Janeiro, que trata sobre a substituição de produtos
com amianto. A CNTI-Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria,
alegou que a Lei do Rio de Janeiro é incompatível com o princípio da livre iniciativa

22 As shown by some comparative studies, the principle of private autonomy has been boosted as a
common standard for the global market regulation. There is no field of international investments where
corporation have not insisted on regulating their activities in the host State, as well as any dispute
arising from. At the same time, even acknowledging this great pressure by the industrial and financial
élite, the distinction between “economic (self)regulation” and “governance” is still crucial in order to
implement human rights and sustainable growth in Brazil. (Tradução Nossa).
48

(SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2017). A decisão dos ministros e ministras foi


erga omnes tendo efeito vinculante, valendo para todas as demais ações que
tratavam sobre o tema, podendo resultar em grande impacto no mercado global,
visto que o Brasil era um dos maiores produtores e exportadores de amianto no
mundo (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS EXPOSTOS AO AMIANTO, 2018).
Porém, antes do banimento uma série de debates foram fomentados no país
sobre as contestações dos efeitos do amianto sobre a saúde humana, sendo tais
debates permeados por interesses econômicos. O Brasil produzia anualmente cerca
de 500 toneladas de amianto, se posicionava como o terceiro maior produtor no
mundo, ficando atrás da Rússia e China (SOUZA, 2015, p. 56).
As explorações do amianto no Brasil tiveram início em 1940, juntamente com
a instalação da empresa Eternit e suas associadas: SAMA S.A. – Minerações
Associadas; Precon Goiás Industrial Ltda; e Tégula Soluções para Telhados Ltda
(SOUZA, 2015, p. 30). A SAMA – Minerações associadas está situada na cidade de
Minaçu-GO, uma das áreas de maior abundância mineral de amianto no país. A
SAMA é uma das maiores mineradoras de amianto crisotila no mundo e atualmente
controla a economia da cidade de Minaçu, incluindo gerenciamento de escolas e
hospitais (MARTIN-CHENUT; SALDANHA, 2016, p. 150). “A mineradora se
apresenta também como financiadora de atividades de cultura e lazer locais e se
destaca na falada população como a possibilidade da obtenção de um emprego
legal e com salários acima da média para a região” (CENTRO DE TECNOLOGIA
MINERAL BRASIL, 2016, p. 249).
De acordo com Martin-chenut e Saldanha (2016), em 2013 a mineradora
havia investido a quantia de 6,34 milhões de reais em inovações, tecnologia e
infraestrutura, atuando como uma grande defensora do uso do amianto no país. Em
pesquisa realizada em 2016 pelo Centro de Tecnologia Mineral do Brasil, foi
verificado que grande parte da população de Minaçu consideram a mineradora e
suas práticas como um patrimônio, avaliam o crescimento econômico da cidade, a
geração de empregos e o bom nível de vida das famílias, entre outras diversas
formas de apoio ao uso do amianto (CENTRO DE TECNOLOGIA MINERAL
BRASIL, 2016, p. 250).
A Precon Goiás Industrial Ltda é uma empresa localizada na região Centro-
Oeste do país, produtora de telhas de fibrocimento, e a Tégula Soluções para
Telhados Ltda é uma empresa líder em produção de telhas de concreto que possui 6
49

filiais distribuídas nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste (SOUZA,


2015, p. 30). As características peculiares do amianto influenciaram no amplo uso do
mineral no país, e nos interesses econômicos do Estado e do mercado: “[...]
demonstrando a prevalência de políticas estatais dirigidas e praticadas para
preservar os interesses econômicos, em detrimento dos problemas de saúde e
ambientais que o amianto provoca” (MARTIN-CHENUT; SALDANHA, 2016, p. 149).
O alto potencial lucrativo da exploração do amianto movimenta milhões de
dólares anualmente, tanto no consumo interno quanto nas exportações, além dos
altos lucros obtidos pelo Estado através da tributação (SOUZA, 2015, p.65). Diante
da busca desenfreada pelo lucro, os interesses políticos e econômicos acabam se
sobrepondo a muitos valores humanos e de proteção para com o meio ambiente,
causando uma grande gama de danos sociais (BERNAL et al, 2014, p.66).

A utilização do amianto se proliferou nos últimos 100 anos, acompanhando


a industrialização e participando do processo produtivo de 3 mil produtos em
todo o mundo. Enfrentado a princípio como um problema do trabalho,
relacionado exclusivamente aos trabalhadores expostos, logo o risco
passou a ser entendido como um problema de Saúde Pública, em que a
ameaça ultrapassava os limites da fábrica, atingindo a população
indiscriminadamente (CASTRO et al,. 2003,p. 904).

Diante das denúncias e do banimento principalmente na Europa, houve um


processo de reestruturação da indústria do amianto, que passou a investir em
mercados de países marginais na América Latina (BUDÓ, 2016). Além disso, foram
exportadas as diversas formas de silenciar as mortes dos trabalhadores e as
diversas indenizações obtidas pelos trabalhadores expostos ao amianto nos países
que antes eram consumidores internacionais do amianto (BUDÓ, 2015). No Brasil a
exploração do amianto ganhou força na década de 70 durante o regime de ditadura
militar, enquanto que em países do norte global já existiam discussões sobre os
malefícios da fibra, a Organização Mundial da Saúde - OMS já recomendava o não
uso do amianto desde a convenção 162 realizada em 1986 (CASTRO et al., 2003, p.
904). Estima-se que “mais de 107.000 pessoas morrem a cada ano por câncer de
pulmão, mesotelioma e asbestose resultante de exposições ocupacionais”
(CASTRO, 2012, p. 103).
Em âmbito nacional, os primeiros casos de doenças relacionadas ao amianto
foram registrados em 1956, quando 6 trabalhadores da mineração de Minas Gerais
foram diagnosticados com mesotelioma e asbestose (GIANNASI, 2001, p.21/22).
50

Porém, na época as doenças eram pouco conhecidas e foram relacionadas ao uso


do tabaco, muito usado na época, nesse caso o verdadeiro nexo causal foi
invisibilizado (WUNSCH FILHO et al,. 2001,p. 259/260). As primeiras investigações
iniciaram em 1985 com auditoria fiscal do Ministério do Trabalho realizada na cidade
de Osasco- SP na maior fábrica de cimento amianto da América Latina (INSTITUTO
SOCIOAMBIENTAL, 2008, p. 458). A confirmação do nexo causal em relação as
doenças dos trabalhadores aconteceu ainda no ano 1987, quando o diretor médico
da Eternit admitiu e a existência de 6 casos de asbestose, e mais 32 suspeitas de
fibrose pulmonar em trabalhadores da Eternit Osasco (GIANNASI, 2001, p. 21).
O diretor médico da Eternit ainda relatou que os seis casos de asbestose
diagnosticados na época, por decisão da direção da empresa não haviam sido
comunicados a Previdência para que fossem reconhecidos como casos de doenças
profissionais, e os trabalhadores foram demitidos (GIANNASI, 2001, p. 21). Além
disso, de acordo com Giannasi (2001) durante as investigações foi descoberto que a
empresa Eternit só começou a realizar registros médicos dos trabalhadores da
empresa em 1978, os registros de 1940 a 1977 são desconhecidos.
Após os escândalos envolvendo a empresa Eternit e as diversas ações
indenizatórias, em 1993 houve o fechamento da fábrica e a fusão entre a Eternit e
Brasilit, originando a Eterbrás administrada pela empresa Francesa multinacional
Sanit-Gobain (INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL, 2008, p. 458; GIANNASI, 2001). A
partir do fechamento da fábrica, várias batalhas judicias foram travadas, a
Associação Brasileira de Expostos ao Amianto- ABREA foi fundada em 1995 e teve
um papel fundamental na luta pelo banimento do amianto no Brasil (SOUZA, 2015,
p.24).
Os movimentos pró–amianto, defendiam a tese do uso controlado do amianto
do tipo crisotila. De acordo com o Instituto Brasileiro de Crisotila, a qualidade de
amianto crisotila seria o tipo menos agressivo do mineral, justificavam que esse
amianto é um tipo natural sem contaminação de anfibólios e em razão disso não
existiriam tantas vítimas no país (INSTITUTO BRASILEIRO DE CRISOTILA, 2017).
Cabe mencionar que durante muito tempo a indústria amiantífera manipulou os
dados em relação a nocividade do amianto nos discursos científicos, a partir de
lobbys que financiavam pesquisas (BUDÓ, 2016, p. 131/132). Esse fator contribuiu
para a inivisibilização dos danos causados pela fibra.
51

Além disso, defendiam que: a) a exploração do amianto a nível nacional era


capaz de criar cerca de 2.680 postos de trabalho em cada fábrica; b) a exploração
do amianto no Brasil era exercida de maneira responsável diferente do que tinha
ocorrido na Itália; c) o uso do amianto era um problema meramente ocupacional e
não de saúde pública, e que tudo poderia ser resolvido com o uso de equipamento
de proteção individual- EPI, e boa higiene industrial; d) a substituição do amianto
crisotila por outro tipo de fibra seria caro demais, o que ocasionaria um impacto no
ramo de construções dificultando que populações de baixa renda conseguissem
adquirir esses materiais; e) de nada adiantaria a substituição, pois as fibras
alternativas seriam tão nocivas quanto o amianto; f) o risco de contrair doenças
poderia ser eliminado a partir do uso controlado do crisotila; g) a extração no
amianto no Brasil era controlada, pois a única jazida no país era de Cana Brava em
Minaçu em Goiás; h) e por fim a troca por fibras alternativas gerariam desemprego
na mineração (GIANNASI, 2001, p. 6-15; BLATT; SALDANHA, 2007, p.4-6).
A partir desses argumentos, verifica-se que a exploração do amianto no Brasil
sempre foi alvo de grandes interesses econômicos pelas grandes corporações em
conluio com os mercados (BUDÓ 2015).

[...] é perceptível que a economia é o valor protegido pela tese do uso


controlado, já que são poucos países responsáveis pelo comércio mundial
do produto. Diante de estudos contundentes no sentido da nocividade das
fibras de amianto, não é possível sustentar-se que o mesmo não oferece
risco algum. Dessa forma, sob o manto do uso controlado, busca-se
perpetuar tanto os lucros como as receitas tributárias da atividade, ainda
que em detrimento do meio ambiente e da saúde (BLATT; SALDANHA,
2007, p. 4).

Os movimentos pró-banimento são constituídos pelas associações de vítimas


do amianto no Brasil as ABREAs. Durante as lutas pró-banimento esses movimentos
contestavam todas as justificativas pró-amianto das corporações: a) quem gerou
desempregos foram as próprias empresas que com a fusão dos grupos e a criação
da Eterbrás demitiu cerca de 2000 trabalhadores só na região de São Paulo; b) não
é verdade que a exploração do amianto era feita de forma responsável, de acordo
com as vítimas na maioria das vezes as empresas não forneciam equipamento de
proteção individual- EPI, e quando forneciam o equipamento era de péssima
qualidade; c) a exploração do amianto não era um problema meramente ocupacional
e sim de saúde pública, pois a substância se espalha facilmente pelo ar
52

contaminando o meio ambiente e a população externa das fábricas; d) existem


outros tipos de produtos para o ramo de construção também baratos e acessíveis a
população de baixa renda como fibras naturais de palmeiras, tenhas de zinco,
cerâmicas e argamassa ou concreto; e) os produtos alternativos não são nocivos
como amianto, os mais usados como fibras de palmeiras e fibras de celulose são
produtos naturais não proporcionando danos a saúde ou ao meio ambiente; f) impor
um limite mínimo controlado do amianto não adiantaria, os riscos de asbestose ou
mesotelioma ocorrem a partir de qualquer tipo de exposição mesmo que em
pequena quantidade; g) não existe só a jazida de Cana Brava em Minaçu, os
estados de Alagoas, São Paulo e Minas Gerais também possuem jazidas de amianto
de pequeno e médio porte, não havendo fiscalização e ou controle nenhum sobre as
atividades de extração; h) as fibras alternativas não gerariam desemprego, pelo
contrário possibilitariam novas oportunidades de capacitação no ramo da indústria
(GIANNASI, 2001, p. 6-15; BLATT; SALDANHA, 2007, p.4-6; CENTRO DE
TECNOLOGIA MINERAL BRASIL, 2016).
Além disso, todo esse amianto ainda hoje encontra-se em instalações e
equipamentos espalhados em diversos ambientes, ultrapassando os locais de
trabalho e tornando toda a população brasileira exposta aos riscos do amianto em
diferentes níveis (CASTRO, 2012). Até novembro do ano de 2017 o Brasil persistiu
como o terceiro maior produtor de amianto em todo o mundo, com consumo de
quase 1kg de asbesto por habitante anualmente (INSTITUTO BRASILEIRO DE
CRISOTILA, 2017).

A exportação da produção de amianto crisotila gera divisas da ordem de


US$ 50 milhões por ano. Quaisquer restrições ao uso do amianto crisotila
causariam prejuízos elevados à balança comercial brasileira, da ordem de
US$ 180 milhões/ano com a importação de PVA, celulose e microssilica
utilizados como substitutos. Além disso, o país ficaria refém das variações
cambiais da moeda norte-americana e das oscilações do mercado
petrolífero. E veria ainda o preço total da construção civil aumentar cerca de
30% em relação a mesma cobertura contendo amianto crisotila, com uma
durabilidade dos produtos reduzida em mais de 60% (SACRAMENTO
FILHO, 2007, p. 11).

A Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto – ABREA retrata o descaso


em relação aos danos sociais e vitimizações massivas ocorridas no Brasil, enquanto
que no norte global o uso do amianto era abordado como uma questão de saúde
pública. No Brasil por muito tempo insistiu-se em tratar a questão como um problema
53

tão somente relacionado ao mundo do trabalho, não permitindo a participação de


outros segmentos e impactados desse processo, como, por exemplo, os danos ao
meio ambiente e os danos físicos e psicológicos vividos pelas vítimas de exposição
ao amianto (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS EXPOSTOS AO AMIANTO, 2017). A
negligência por parte das autoridades judiciais prejudicou as vítimas do amianto que
por muitos anos permaneceram sem nenhum auxílio, para que pudessem realizar
algum tipo de tratamento. Cada ação indenizatória movida pelas vítimas demora em
torno de 8 a 11 anos para ser julgada, enquanto isso as vítimas sofrem com a falta
de medicamentos e tratamentos médicos, pois as doenças relacionadas ao amianto
não possuem cura, apenas tratamento e cuidados paliativos (NOVELLO, 2012, p.
105).
De acordo com Castro, Giannasi e Novello (2003), os movimentos brasileiros
anti-amianto detêm grande importância, no século XXI justamente pelo descaso das
organizações brasileiras quanto a responsabilização pelos danos e vitimizações
(CASTRO et al, 2003). “Sobre expostos ao amianto no Brasil paira sobre esta
problemática uma densa bruma que é proporcionada pela desinformação, pela
negligência e lobby do empresariado, pela ausência de uma postura rígida do
Estado e governantes“ (NOVELLO, 2012, p. 17). Dessa forma, a luta dos
movimentos pelo fim da utilização do amianto e dos inúmeros danos sociais e
ambientais, se fez legítima na busca da construção de uma sociedade mais justa,
igualitária e saudável. De acordo com a Associação Brasileira de Exposto ao
Amianto – ABREA, após o banimento da exploração e mercantilização do amianto
no Brasil, o novo desafio é a realização da desamiantização de forma segura, coletar
os materiais e resíduos de amianto que ainda estão expostos ao meio ambiente.
Além disso agilizar as indenizações as vítimas afetadas e dar início a recuperação
dos ambientes que foram degradados pela mineração (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DOS EXPOSTOS AO AMIANTO, 2018).
54

3 DANO SOCIAL ESTATAL-CORPORATIVO UM ESTUDO SOBRE A


VITIMIZAÇÃO NA CIDADE DE OSASCO- SP

No capítulo anterior, procurei realizar uma revisão da literatura nos marcos da


criminologia crítica, do dano social, da criminologia verde e da vitimização ambiental,
bem como os aspectos gerais e históricos sobre o amianto no Brasil. A compreensão
teórica e a averiguação sobre danos sociais estatal-corporativos são de suma
importância, tendo em vista o crescimento de vitimizações massivas derivadas do
contexto político e econômico da atual fase de desenvolvimento do capitalismo,
especialmente no sul global. Em especial, pesquisas qualitativas de cunho empírico
podem orientar as denúncias de impasses da contemporaneidade, ouvindo e dando
voz a essas vítimas.
Dar visibilidade aos danos sociais por intermédio da representação das
vítimas possibilita uma investigação de especificidades, o que possibilita entender o
contexto da realidade microssocial de indivíduos que são atingidos por esses danos,
contribuindo para a defesa e assistência dos seres humanos e do meio ambiente.
Na atualidade, as corporações exercem um grande poder sobre o Estado e a
sociedade, força e influência nas ações políticas do mundo inteiro, sendo impossível
apurar suas fronteiras (KEY; MALNIGHT, 2010). As corporações estão presentes em
quase todos os âmbitos da vida moderna, vive-se em um momento em que o
“homem persiste mais preocupado com a transformação do que com a compreensão
da realidade” (COLOGNESE, 2017, p. 73).
O lado sombrio das corporações é encoberto pelos benefícios da
modernidade e a produção de novos bens, criação de empregos e de preços mais
baixos (CAREY, 2011). Porém, por detrás disso existe a ambiguidade de esforços de
trabalhadores e trabalhadoras explorados por esses grandes grupos que controlam
o poder econômico nas mãos de poucos, forçando a maior parte desses
trabalhadores e trabalhadoras a aceitarem todo e qualquer tipo de condições de
trabalho (PEARCE; TOMBS, 1999).
A partir disso, no próximo subcapítulo 3.1 irei apresentar as reflexões
metodológicas e a importância da investigação empírica no direito em casos de
vítimas ambientais. No 3.2, discutirei os resultados da análise do material empírico
para a compreensão criminológica e sociológica dos danos sociais estatal-
corporativos ocasionados pela exposição ao amianto. A análise será feita a partir do
55

marco teórico da criminologia crítica e criminologia verde, especificamente na


perspectiva dos crimes dos poderosos na abordagem do dano social e da
vitimologia, para assim alcançar uma perspectiva crítica da realidade social e de
seus atores e atrizes.

3.1 REFLEXÕES METODOLÓGICAS: A IMPORTÂNCIA DA INVESTIGAÇÃO


EMPÍRICA NO DIREITO EM CASOS DE VÍTIMAS AMBIENTAIS

A pesquisa empírica no direito ainda é algo pouco explorado por acadêmicos


e acadêmicas, pois o formalismo e o positivismo dogmático sempre foi uma
característica da área. Esse fator afasta o direito das percepções e análises do
contexto social que se modificam diariamente (IGREJA, 2017, p.11). O contexto
acadêmico do direito carece de um ensino que vá além do estudo teórico de
materiais secundários. O estudo empírico proporciona uma visão transdisciplinar do
saber (BOMFIM, 2017, p.4).

O mundo jurídico é estabelecido e legitimado, internamente, como uma


esfera à parte das relações sociais, ocorre que, em realidade, o Direito não
pode ser estudado de forma dissociada do seu campo social de atuação
porque ele é parte do controle social. Em sendo assim, o Direito não pode
ser visto como um saber “monolítico” (BAPTISTA, 2008, p. 6).

Existe uma falta de produções do direito que emanem de fontes primárias em


razão de dois fatores: 1) do receio que se criou sobre as especialidades desse tipo
de pesquisa, como, por exemplo, a questão temporal para coleta dos dados e a
realização da análise; e 2) em razão da falta de estímulo para a realização da
pesquisa empírica (MENDES; SILVA; 2013). Os primeiros estudos empíricos na área
do direito se relacionavam com formas de analisar o sistema judiciário, agências
administrativas e os papéis exercícios dentro da máquina do poder judiciário,
deixando de fora as vivências dos indivíduos que sofrem com o controle social
exercido pelo direito (IGREJA, 2017, p. 13). De acordo com Bourdieu (2008), os
pesquisadores e pesquisadoras das ciências sociais não são mestres do
pensamento, devemos parar, escutar, pesquisar, e colaborar elaborando métodos
que auxiliam em áreas onde há omissão dos órgãos responsáveis nos colocando a
serviço de todos e todas utilizando linguagem simples e “não violenta” (BOURDIEU,
2008, p. 695).
56

Parece complexo desnaturalizar verdades inquestionáveis impostas pelo


direito, porém, a realidade deve ser valorizada. A antropologia, por exemplo, é uma
disciplina que se vale do reconhecimento dos interlocutores da vida real, dando
visibilidade ao saber desses atores e as diversas representações sociais
(BAPTISTA, 2008, p.5). A realização de pesquisas empíricas é fundamental como
método de inclusão de resultados primários atualizados nas revisões de literatura de
qualquer natureza, e os resultados dessas revisões são importantes para que se
coloque em prática a conclusão desses resultados (MAGALHÃES, 2013).

Na pesquisa empírica, a voz dos operadores do campo e dos cidadãos é


ouvida e o objeto do estudo internaliza a concepção teórica produzida pelos
juristas de forma articulada com o mundo prático, dos cartórios e dos
tribunais, normalmente, olvidado pelos teóricos do dever-ser. (KANT DE
LIMA; BAPTISTA, 2010, p. 07).

A pesquisa é um princípio científico e educativo que deve dialogar com a


realidade e teorizá-la, visto que toda pesquisa possui associação com questões
práticas, sobretudo na área do direito (BOMFIM, 2017). Além disso, toda a pesquisa
tem por objetivo proporcionar benefícios diretos e ou indiretos para seres humanos e
não humanos.
A necessidade de realizar pesquisa empírica surgiu após o meu contato em
profundidade com a criminologia crítica e seus desdobramentos. Percebendo a
invisibilidade de grupos sociais marginalizados que eram vítimas de grandes danos
ocasionados por Estados e Mercados, senti que precisava contribuir de alguma
forma para que essas pessoas tivessem voz para contar suas experiências.
Nesse sentido, tais aspectos evidenciam a minha escolha para a realização
da presente pesquisa empírica. O caso escolhido como objeto de pesquisa foi
desenvolvido em três momentos: o primeiro foi a fase de elaboração do projeto de
pesquisa onde reuni o conjunto inicial bibliográfico do marco teórico da criminologia
crítica e criminologia verde e informações e aspectos gerais sobre o amianto; No
segundo momento, no dia 05 de dezembro 2017 fui a campo para coleta dos dados
na cidade de Osasco-SP, onde permaneci durante 10 dias, e tive a oportunidade de
conviver e entrevistar 15 pessoas que sofreram danos diretos e indiretos devido a
exposição a matéria prima do amianto; No terceiro momento, realizei a transcrição e
análise dos dados contrapondo-os com autores e autoras do referencial teórico.
57

Além disso, é importante apresentar as técnicas, metodologia e


procedimentos empregados para a realização do presente estudo empírico. O
método de abordagem utilizado na pesquisa é o qualitativo, que permite responder
questões específicas relacionadas a realidade social, “[...] o ser humano se distingue
não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro
e a partir da realidade vivida e partilhada pelos seus semelhantes” (MINAYO, 2009,
p. 21). Dessa forma, será possível relacionar o marco teórico da criminologia crítica
e criminologia verde com a realidade empírica, aprofundando-se nos atos dos
indivíduos, de grupos, organizações e ambiente em que vivem.

A pesquisa qualitativa se define por uma série de métodos técnicas que


podem ser empregados com o objetivo principal de proporcionar uma
análise mais profunda de processos ou relações sociais. Seu uso não
objetiva alcançar dados quantificáveis, ao contrário, objetiva promover uma
maior quantidade de informações que permita ver o seu objeto de estudo
em sua complexidade, em suas múltiplas características e relações.
(IGREJA, 2017, p. 14).

Na pesquisa qualitativa, a comunicação e a subjetividade do pesquisador e ou


pesquisadora é importante na realização do campo, é parte do processo e da
composição da produção do conhecimento: “as reflexos dos pesquisadores sobre
suas próprias atitudes e observações em campo, suas impressões, irritações,
sentimentos, etc., tornam-se dados em si mesmo, constituindo parte da
interpretação” (FLICK, 2009, p. 25). Além disso, o método qualitativo é apropriado
para diversas fases da pesquisa social, e uma delas é a capacidade de realizar a
interpretação de acontecimentos culturais e históricos, dando voz a grupos sociais
marginalizados, e a partir disso criar novos conceitos e teorias (MAGALHÃES,
2013).
O método de abordagem que prevalece nessa pesquisa e que serviu para a
análise das ideias, informações e resultados foi o indutivo, partindo de dados
particulares para se chegar a considerações gerais e conclusões mais amplas. De
acordo com Yin (2016), uma das tendências da abordagem indutiva é a
possibilidade de criação de novos conceitos e teorias. Porém, é importante que eu
esclareça aqui que por vezes a pesquisa transita pelo método dedutivo, visto que:

De forma análoga, em uma pesquisa prevalentemente indutiva, parte-se da


observação de um fenômeno, com alguns postulados, para que uma (ou
mais) hipótese(s) ou afirmações sejam geradas. Contudo, estas hipóteses
58

serão imediatamente testadas para conferir-lhes certa solidez:


reencontramos a vertente dedutiva do movimento. Logo, o caráter
prevalentemente dedutivo ou prevalentemente indutivo da pesquisa se deve
à escolha do lugar de partida num processo concebido, necessariamente,
como circular (CAPPI, BUDÓ, 2018, p. 35/36).

A abordagem predominante indutiva é a mais apropriada nos casos de


pesquisas qualitativas, pois auxilia no processo de criação de conceitos e teorias.
“Observe que, embora os conceitos sejam abstrações, eles não são
necessariamente representações de grandes teorias. Por isso, a interligação não
precisa ser uma tarefa hercúlea” (YIN, 2016, p. 85), logo as teorias e conceitos
devem ser de fácil alcance do conhecimento e de pesquisa.
Para a análise dos dados optei pela teoria fundamentada nos dados (TFD)
também chamada de teoria enraizada (grounded theory). Criada por Glaser e
Strauss em 1967 tem como objetivo: “[...] a construção de teorias empiricamente
fundamentadas, a partir de fenômenos sociais a propósito dos quais poucas análises
foram articuladas” (LAPERRIÈRE, 2008, p. 354). A teoria enraizada insiste na
importância dos atores sociais e no processo de interpretação das condições em que
se encontram esses agentes. Uma das prioridades da teoria fundamentada é o
campo e os dados, constitui-se uma ferramenta importante para a realização de
pesquisas de caráter empírico, possibilitando produções teóricas por intermédio do
campo (CAPPI, 2017, p. 391). “A TFD deve ser gerada por meio do pensamento
indutivo, o que implica na necessidade de sensibilidade do pesquisador para que
este tenha condições para perceber como um dado fenômeno induz a outro(s)”
(HOGA; BORGES, 2016, p. 91).
Uma das grandes críticas em relação à teoriazação enraizada é a questão da
possibilidade de criar teorias, “[...] até que ponto os pesquisadores e pesquisadoras
dela adeptos tenham gerado teorias” (COLOGNESE, 2017, p. 89). Nesse sentido,
Cappi (2017) esclarece que a possibilidade de realizar abstrações dos dados se
encontra ao alcance de qualquer pesquisador e ou pesquisadora de todos os níveis
acadêmicos, e que os conceitos isolados criados a partir teoria fundamentada “[...]
não constituem ainda uma ‘teoria’, no sentido pleno da palavra” (CAPPI, 2017, p.
393). Logo, não tenho por objetivo que os leitores e as leitoras da minha pesquisa a
examinem a partir da leitura ambiciosa da palavra “teoria”. Além disso, optei pela
teoria fundamenta por permitir compreender fatos sociais pouco estudados como,
59

por exemplo, a perspectiva do dano social e da vitimização ambiental, e também por


possibilitar verificar “o invisível por trás do visível” (CAPPI, 2017, p. 394).
A coleta de dados ocorreu a partir de entrevistas e observação participante,
de modo que “[...] os investigadores da teorização enraizada reterão a necessidade
de enraizar a teoria na realidade, para o avanço das disciplinas científicas e a
importância da observação in situ para compreensão dos fenômenos”
(LAPERRIÈRE, 2008, p. 355). As entrevistas foram em profundidade não
estruturadas, não possuindo nenhum tipo de lista rígida de questionamentos. Elas
transcorreram a partir de alguns tópicos iniciais que possibilitaram o
desenvolvimento das interações com os participantes da pesquisa. Os
questionamentos foram verbalizados a partir de uma concepção mental do estudo
pelo entrevistador, além disso, o comportamento e as propostas realizadas pelo
pesquisador ou pesquisadora podem variar de acordo com o contexto geral e
ambiente da entrevista (XAVIER, 2017). A pesquisa qualitativa não estruturada
adere a um modo convencional, tornando a entrevista uma qualidade de
relacionamento social: “no modo não convencional os participantes podem variar na
franqueza de suas palavras, sendo sinceros em alguns pontos, mas recatados em
outros, e o pesquisador precisará saber distinguir os dois” (YIN, 2016, p. 120). Nesse
sentido, as técnicas de entrevistas abertas podem trazer diversos benefícios:

As técnicas de entrevista aberta e semi-estruturada também têm como


vantagem a sua elasticidade quanto à duração, permitindo uma cobertura
mais profunda sobre determinados assuntos. Além disso, a interação entre
o entrevistador e o entrevistado favorece as respostas espontâneas. Elas
também são possibilitadoras de uma abertura e proximidade maior entre
entrevistador e entrevistado, o que permite ao entrevistador tocar em
assuntos mais complexos e delicados, ou seja, quanto menos estruturada a
entrevista maior será o favorecimento de uma troca mais afetiva entre as
duas partes. Desse modo, estes tipos de entrevista colaboram muito na
investigação dos aspectos afetivos e valorativos dos informantes que
determinam significados pessoais de suas atitudes e comportamentos
(QUARESMA, 2005, p. 75).

Cada entrevista deu a oportunidade aos participantes de expressar de formas


diferentes as realidades vivenciadas. A entrevista “[...] tem o objetivo de construir
informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem do entrevistador,
de temas pertinentes com vistas a este objetivo” (MINAYO, 2009, p. 64), além de
possibilitar uma interação social com a mesma dinâmica existente na sociedade.
60

A observação participante também foi outro meio de coleta de dados, de


suma importância para a pesquisa qualitativa. “[...] A observação participante é a
necessidade que todo pesquisador social tem de relativizar o espaço social de onde
provém, aprendendo a se colocar no lugar do outro” (MINAYO, 2009, p.70),
permitindo a realização de uma pesquisa qualitativa sem prejulgamentos a priori. A
observação participante possibilita conhecer melhor o campo da pesquisa, é um
procedimento que auxilia na criação da intimidade entre o pesquisador e ou
pesquisadora e as pessoas participantes: “trata de um método que implica na
convivência e na imersão do pesquisador no campo, em um prazo relativamente
longo, com o propósito de desenvolver um entendimento cientifico sobre aquele
grupo determinado” (BAPTISTA, 2017, p. 93).
O pesquisador ou pesquisadora deve observar o contexto cultural, as
atividades diárias do grupo e participar de atividades do cotidiano, além disso, deve
manter focado na interação humana a partir da perspectiva das pessoas que fazem
parte do ambiente específico do campo (HOGA; BORGES, 2016, p. 41). Um dos
objetivos da observação participante é manter a “localização no aqui e agora das
situações e dos ambientes da vida como o fundamento da investigação e do método
uma forma de teoria e de teorização que enfatiza a interpretação e a compreensão
da existência humana” (FLICK, 2009, p. 207).
Primeiramente, gravei as entrevistas em um gravador portátil, com o
consentimento dos entrevistados e entrevistadas, e depois foram transcritas para
possibilitar a realização da análise dos dados coletados. Em um diário de campo
foram transcritas todas as informações observadas como o comportamento das
pessoas, ambiente interno e externo do domicílio, linguagem dentre outras questões
que me auxiliaram durante a realização da análise qualitativa.
O processo de análise ocorre em quatro etapas: 1) transcrição e codificação
inicial, onde transcrevi as entrevistas na integra e analisei os textos atribuindo
códigos iniciais; 2) codificação focalizada, onde realizei a sintetização dos códigos
mais frequentes em forma de categorias e subcategorias; 3) codificação axial, onde
realizei o reagrupamento das categorias e as subcategorias para que a análise
possuísse maior coerência; 4) por fim realizei a Codificação teórica, onde estabeleci
as relações entre as grandes categorias e o marco teórico (HOGA; BORGES, 2016,
p. 94/95).
61

Como forma de aprimorar a análise, utilizei o software Weft QDA para melhor
organização do material. A partir dele foi possível a seleção de partes do texto
permitindo a criação de categorias e subcategorias criando um processo de
codificação das informações facilitado o cruzamento de dados. O programa auxiliou
na análise textual, detalhamento do material empírico e abstração das ideias e
conceitos.
A interação com as pessoas afetadas pela exposição ao amianto possibilitou
a compreensão da experiência de vitimização estatal-corporativa, sendo cada
participante de suma importância para pesquisa. Cada sujeito contribuiu com
diferentes especificidades e experiências, fazendo o estudo fugir de análises
meramente teóricas ou mesmo empíricas quantitativas.
A cidade de Osasco – SP foi escolhida como campo de análise dessa
pesquisa qualitativa porque, durante muitos anos, comportou a primeira e mais
antiga fábrica de fibrocimento do país: a Eternit do Brasil cimento amianto S.A. A
fábrica fazia uso da matéria prima do amianto para a produção de caixas d’água e
telhas, além de outros produtos em geral utilizados na construção civil
(FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2009).
Outro fator importante para a escolha desse campo foi que a Associação
Brasileira dos Expostos ao Amianto – ABREA, também fica localizada na cidade de
Osasco, e promove a luta pelo banimento do amianto no mundo. Além disso, possui
o objetivo de unir os trabalhadores e os expostos ao amianto em geral; realizar o
cadastramento de expostos e vítimas; encaminhar expostos a exames médicos;
conscientizar a população em geral sobre os riscos do amianto e por fim realizar a
integração com outros movimentos nacionais e internacionais que sejam pró-
banimento do amianto (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS EXPOSTOS AO
AMIANTO, 2018).
Os sujeitos dessa pesquisa são pessoas que foram expostas ao amianto de
forma ocupacional ou não-ocupacional, familiares de pessoas que tenham
desenvolvido alguma doença relacionada a essa exposição, e pessoas que foram
expostas, mas que até o momento não desenvolveram nenhum tipo de doença. Não
houve nenhuma distinção entre idade e gênero dos entrevistados e entrevistadas,
tendo como único pré-requisito residir na cidade de Osasco- SP.
A vitimização ocorre de forma coletiva em razão dos vários sentimentos que
ela ocasiona no atingido e em toda a família. A escolha abrangente de sujeitos
62

afetados direta e indiretamente possibilitou a compreensão de diversas perspectivas


dos danos sofridos e das incertezas sobre o dano. O acesso a esses sujeitos
ocorreu por intermédio da Associação Brasileira de Expostos ao Amianto – ABREA,
localizada em Osasco-SP.
A Associação possui um cadastro de vítimas e expostos ao amianto, o que
facilitou a verificação da disponibilidade dos participantes da pesquisa. Durante a
realização das entrevistas tive o cuidado de tentar construir um ambiente tranquilo,
sem formalidades para que todos e todas se sentissem à vontade. As entrevistas
ocorreram na própria casa de alguns participantes e nas instalações da Associação
Brasileira de Expostos ao Amianto – ABREA.
Poucos são os estudos empíricos no Brasil, pesquisas como as de Budó
(2017a), Colognesse (2017), são pioneiros ao analisarem danos sociais estatais-
corporativos e a vitimização ambiental. Quase não há dados qualitativos em
profundidade que detalhem a vivência de pessoas que moram e ou trabalham em
lugares contaminados por produtos tóxicos, e demonstre o que pensam e sentem
em relação a esse ambiente (NATALI, 2014).
De acordo com South (2014), as vitimizações coletivas por intermédio de
danos ambientais tendem a aumentar em razão das ações humanas e a excessiva
exploração do ambiente em que vivemos. A exploração e degradação ambiental se
tornou algo aceitável socialmente. Para Hall (2012, p. 386), inicialmente a saída para
esses problemas seria uma reunião entre estudiosos e profissionais de diversos
ramos para realizar investigações sobre os fatos, possibilitando um preenchimento
intelectual sobre o assunto e a visibilização dos danos através da voz das vítimas,
sendo estes objetivos dessa pesquisa.
Para a realização da presente pesquisa foi necessária a participação de seres
humanos como participantes de entrevistas e observação, tornando relevante a
importância da ética para a concretização dos processos de investigação
desenvolvidos ao longo do trabalho, considerando o bem-estar e identidade dos
participantes. A resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL,
2012), define que toda pesquisa que envolva seres humanos direta ou indiretamente
deve ser pautada de parâmetros éticos que fornecem orientações para o agir
humano.
O projeto de pesquisa foi registrado na Plataforma Brasil sob o código CAAE:
73086117.2.0000.5319. Dessa forma, só dei inicio a pesquisa após a aprovação do
63

Comitê de Ética em Pesquisa IMED (CEP-IMED), que considerou todos os padrões


éticos observados na resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. As
pessoas participantes foi dada a oportunidade de desistência em qualquer etapa da
pesquisa. Também foi garantida a liberdade de acesso a todas as informações em
relação aos direitos à participação voluntária, segurança de que não haveria
identificação, de acordo com Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 23 e do
Termo de confidencialidade a serem assinados antes do início da coleta de dados.
As entrevistas foram marcadas após a aprovação do projeto pelo Comitê de
Ética em Pesquisa IMED (CEP-IMED). O Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (APÊNDICE 1) foi assinado em duas vias, uma ficando sob a posse
dos/das participantes e outra comigo. A identificação das pessoas participantes no
banco de dados foi feita a partir de codinomes, sendo que esses dados foram
destinados única e exclusivamente para a fundamentação desta pesquisa conforme
Termo de Confidencialidade (APÊNDICE 2).
Após a conclusão da pesquisa, todo o material foi armazenado em minha
residência, rua Independência, nº 181, apartamento 31, Centro, Passo Fundo - RS –
Brasil, sob minha posse exclusiva. Após cinco anos, os materiais armazenados
serão incinerados.
Também é importante ressaltar que este estudo ofereceu riscos de
desconfortos sentimentais e psicológicos às pessoas participantes, pois tratou de
conteúdos que geram desestabilidades emocionais. Insegurança, ansiedade,
angústia e incerteza foram alguns dos sentimentos notados durante a realização das
entrevistas. Se estimou pela preservação e o “respeito ao participante da pesquisa
em sua dignidade e autonomia, reconhecendo sua vulnerabilidade, assegurando sua
vontade de contribuir e permanecer, ou não, na pesquisa, por intermédio de
manifestação expressa, livre e esclarecida” (BRASIL, 2012).
Quanto aos benefícios da pesquisa para os participantes, foi uma grande
oportunidade de acesso ao discurso para os sujeitos entrevistados e entrevistadas
de relatarem os danos sociais sofridos através da vitimização ocasionada pela

23O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido- TCLE é um “[...] documento no qual é explicitado o
consentimento livre e esclarecido do participante e/ou de seu responsável legal, de forma escrita,
devendo conter todas as informações necessárias, em linguagem clara e objetiva, de fácil
entendimento, para o mais completo esclarecimento sobre a pesquisa a qual se propõe participar”,
evitando quaisquer tipos de fraudes ou erros. Disponível em:
<http://www.conselho.saude.gov.br/docs/Resoluçoes/reso196.doc>. Acesso em: 16 jun. 2017.
64

exposição ao amianto. Os sujeitos da pesquisa possuíam relação com a luta pelos


direitos de todas as pessoas que de alguma forma foram prejudicadas pelas ações
ou omissões da indústria do amianto no país. A pesquisa possibilitou que as
pessoas expressassem necessidades, percepções e expectativas em relação ao
tema, além de ser uma grande oportunidade de escuta por parte do pesquisador.
Na área do Direito, poucas são as pesquisas que proporcionam a visibilidade
de indivíduos que sofrem danos sociais massivos. A pesquisa empírica possibilita
que exista essa representatividade de grupos que geralmente são silenciados. A
pesquisa aborda as violações ocasionadas pelo Estado e grandes corporações em
nome de atividades econômicas predatórias que acarretam vitimizações massivas,
se relacionando com questões de saúde pública contribuindo para o banimento do
amianto no mundo.

3.2 RELATOS SOBRE AS EXPERIÊNCIAS DE VITIMIZAÇÃO E DE DANOS


SOCIAIS E AMBIENTAIS CAUSADOS PELA INDÚSTRIA DO AMIANTO

Após a aprovação do meu projeto de pesquisa pelo comitê de ética da


Faculdade Meridional, entrei em contato por telefone com a Associação Brasileira de
Expostos ao amianto-ABREA, com o intuito de explicar minha pesquisa e agendar
uma visita na sede de Osasco-SP. Ao realizar o telefonema tive a oportunidade de
conversar com Dirceu de Castro presidente da Associação. Ao explicar minha
pesquisa, Dirceu se demonstrou muito interessado e solícito marcando minha visita
para o início do mês de dezembro de 2017. No dia 05 de dezembro 2017 cheguei
ao Estado de São Paulo e de imediato encaminhei-me à cidade de Osasco. Ao
chegar à cidade, instalei-me no hotel, ansioso para nos dias seguintes iniciar as
entrevistas referentes ao meu tema de pesquisa de dissertação de mestrado.
Durante a noite, diversos questionamentos me surgiram: como eu seria recebido por
essas pessoas? como os participantes e as participantes reagiriam às minhas
instigações? Qual era o quadro emocional dessas pessoas que sofreram tantos tipos
de danos? Que noção essas pessoas tinham desses danos?
No dia 06 de dezembro de 2017, acordei-me cheio de expectativas para o
primeiro dia de entrevistas. Marquei com senhor Dirceu Castro, presidente da
Associação Brasileira de Expostos ao Amianto – ABREA, duas entrevistas pela parte
65

da manhã em uma das sedes da associação. Ao chegar na sede da associação, o


senhor Dirceu já me aguardava na entrada do prédio de forma muito receptiva.
Subimos até o andar da sala da associação, onde esperava o senhor
Reginaldo Ferreira, que, assim como o senhor Dirceu, também participaria da
entrevista. Ao me sentar, ambos começaram a me questionar de onde eu era
exatamente, e o que eu estudava. Então, expliquei de onde eu era, sobre o que
estudava e especificamente sobre o que se tratava a pesquisa. Antes de
começarmos as entrevistas, os senhores Dirceu e Reginaldo começaram a me falar
um pouco dos demais membros da associação. Relataram que grande parte dos
fundadores da associação já haviam falecido em razão de alguma doença
relacionada à exposição ao amianto. A partir daí, dei início às primeiras entrevistas.

3.2.1 Da experiência de exposição à manifestação dos danos relacionados ao


amianto: a fibra da morte

De acordo com os estudos da vitimologia (HALL, 2014), a maior parte das


pessoas que sofrem vitimização ambiental não possuem consciência de terem sido
vitimizadas. No caso das vítimas do amianto participantes deste estudo não é
diferente. Os entrevistados e entrevistadas afirmaram que por muito tempo não
possuíam ideia dos danos que estavam sofrendo. Hall (2012, p. 337), ao classificar
os impactos dos danos ambientais a partir da zemiologia, coloca a saúde dos seres
humanos em primeiro lugar, pois todo dano causado ao meio ambiente implica em
algum tipo de reação no corpo humano, que, conforme Hall (2012), geralmente são
cientificamente verificáveis facilmente. Entretanto, no caso das vítimas do amianto a
manifestação dos danos à saúde pode ficar encoberto durante anos (SACOVANE,
1997), o que dificulta os diagnósticos, esse é o caso da maioria dos/das
participantes do presente trabalho.
Dessa maneira, como forma de apurar as experiências de vitimização e as
manifestações de danos relacionados à exposição ao amianto, criei duas
subcategorias que observam as narrativas dos sujeitos expostos a fibra: a) as
formas de exposição dos trabalhadores do amianto e a extensão dos danos a
família; b) o uso de equipamento de proteção individual- EPI; c) os diagnósticos de
doenças relacionadas ao amianto.
66

A) as formas de exposição dos trabalhadores do amianto e a extensão dos


danos à família: O ambiente de trabalho pode ser mais nocivo do que parece,
sobretudo quando se trata de corporações transnacionais que possuem um grande
número de trabalhadores e trabalhadoras. Tombs (2005) verifica que muitos
trabalhadores morrem diariamente de doenças e lesões crônicas derivadas de suas
atividades ocupacionais.

A escala dessa matança de rotina - as mortes ocorrem em todos os setores,


todos os tipos de empresas - é quase incompreensível. Dito isto,
relativamente pouco se sabe sobre o número de pessoas mortas por
atividades de trabalho. Essa notável falta de conhecimento diz muito sobre
as prioridades das sociedades em que vivemos24. (TOMBS, 2005, p. 41).

A maior parte dos indivíduos participantes da pesquisa foram expostos ao


amianto como matéria-prima a partir de suas funções de trabalho, em sua maioria
homens. Muitos deles começaram a trabalhar muito cedo na fábrica da Eternit na
cidade de Osasco -SP. O primeiro entrevistado, o senhor Reginaldo Ferreira, de 80
anos, começou a trabalhar ainda muito jovem na fábrica: “eu trabalhei 2 vezes na
fábrica da Eternit em Osasco trabalhei dos 14 aos 15 anos de 53 a 54 depois eu
voltei em 69 e trabalhei até 86. A primeira vez, era menino era aprendiz, aí quando
eu voltei, voltei como mecânico de manutenção” (Reginaldo Ferreira, 2017).
O senhor Reginaldo mencionou que a exposição à matéria-prima era muito
grande dentro da fábrica, visto que o pó do amianto era muito fino e se espalhava
facilmente pelo ar, alcançando todos os ambientes da fábrica: “a exposição era
grande porque mesmo que eu trabalhava como mecânico eu andava pela fábrica e
como chefe da mecânica eu também andava a fábrica inteira então tinha muito pó
na fábrica!” (Reginaldo Ferreira, 2017). Josivaldo da Silva de 77 anos também ex
trabalhador da fábrica, relatou um pouco sobre a sua experiência no ambiente de
trabalho e o manejo com a matéria-prima do amianto:

Eu trabalhava lá e fazia peneiramento do amianto. No laboratório a gente


fazia a classificação da fibra do amianto. Saber qual era o tamanho da fibra
maior menor. Fibra um, dois e três. O quanto tinha de pó! E esse
peneiramento era feito em um lugar todo fechado e sem proteção nenhuma.
Quando fazia os peneiramentos, a seção ficava como uma neve, aquela

24The scale of this routine killing – deaths occur across all industries, all types of companies – is
almost incomprehensible. That said, relatively little is known about the numbers of people killed by
work activities. This notable lack of knowledge says a great deal about the priorities of the societies in
which we live. (Tradução nossa).
67

fumaça, aquele "pózinho" que você não via a olho nu, só via aquela fumaça,
mas aquilo era tudo pó do amianto, porque era feito no peneiramento numa
máquina elétrica lá, escapava aquele pouquinho de pó, que já era suficiente
pra contaminar toda a sala onde fazia o teste.(Josivaldo da Silva, 2017).

Outra forma de exposição relatada durante os diálogos dos entrevistados e


entrevistadas foi a de tipo não ocupacional, especialmente com esposas e filhas e
filhos de ex-trabalhadores das fábricas de cimentoamianto.
Maria do Carmo Santos de 82 anos, contou-me que sua exposição ao
amianto se deu por intermédio do esposo, ex-trabalhador da fábrica Eternit e
falecido por asbestose, doença derivada da exposição ao amianto. Maria do Carmo
relatou que eram distribuídos aos funcionários da fábrica feixes de fibra de amianto e
tapetes velhos cobertos de cimento amianto que cobriam as máquinas: “o contato
que eu tinha era familiar né, porque ele trabalhava na firma e quando chegava,
usava aqueles tapete no maquinário, e quando não precisava mais que ela tava dura
de cimento, então eles distribuíam”. (Maria do Carmo Santos, 2017).
Além disso, Maria do Carmo relatou que produzia utensílios para a casa com
as fibras e feixes de amianto. Mencionou que isso era uma prática muito comum nas
famílias dos trabalhadores da fábrica: “então o que que a gente fazia, todo mundo de
casa [...] então, a gente cortava aquilo lá, batia, batia, batia, batia no chão até sair
todo o cimento, lavava, lavava, depois cortava, tingia, fazia tapete, tinha gente que
fazia até cobertor” (Maria do Carmo Santos, 2017).
O senhor Reginaldo Ferreira relatou que sua filha e seu filho também tiveram
contato com os rejeitos de amianto que eram distribuídos na fábrica:

Às vezes chegava em casa cá roupa suja, abraça as crianças, brincava,


levava [...] a empresa doava um tipo de feltro impregnado de amianto e a
gente levava pra casa. Fazia como passadeira no chão, eu fiz até uma
casinha pra minha filha brincar impregnada de amianto. Eu não sabia, eles
sonegavam, nunca ninguém falou dentro da empresa que o amianto
matava. (Reginaldo Ferreira, 2017).

Dirceu de Castro contou-me que também era de costume ao final do


expediente os trabalhadores limparem os seus setores, e que podiam levar os
rejeitos de amianto para casa: “a gente ainda limpava o encanamento de pó que a
gente abria e o que saía a gente levava pra casa pra fazer tapete. Eu mandei para
Minas Gerais pra minha sogra, minhas cunhadas”. Além disso, Dirceu contou-me
que os rejeitos da fibra eram vendidos à população da redondeza da fábrica, e que
68

muitos usavam os rejeitos para fazer o calçamento no pátio das residências. Esse
fato também ocorria na fábrica da Eternit Italiana em Casale Monferrato. De acordo
com os relatos colhidos na pesquisa de Budó (2017 a, p. 198), a empresa vendia e
às vezes doava os rejeitos de amianto para a população utilizar em pavimentações
da cidade.

O uso de produtos da Eternit era generalizado no mundo inteiro e, mais


ainda em Casale, onde tantas pessoas haviam aproveitado das obras de
materiais que a empresa punha generosamente a disposição de todos os
cidadãos. Agora alguém começava a perceber que aquele brinde nada mais
era do que um cavalo de Troia que introduzia o perigo de morte para dentro
dos muros das casas, nos telhados, calçadas, nos jardins que constituíam a
moldura da vida cotidiana (ROSSI, 2010, p. 64).

Sobre a exposição e contaminação de pessoas que não trabalhavam na


fábrica de Osasco, a entrevistada Isabel Tedesco de 57 anos, viúva de um ex-
funcionário da fábrica relatou que: “[...] muita gente já faleceu, principalmente aqui
em Osasco, mesmo pessoas que a gente descobre que não trabalhou, mas que
morou na redondeza da fábrica, né. Já várias pessoas faleceram... Então dano,
assim... É muito grande!”. (Isabel Tedesco, 2017). É importante salientar que as
pequenas fibras de amianto que se soltam no ar, atingindo até um metro de altura,
levam em torno de 24 horas para chegar ao chão, o que aumenta o risco de
exposição e contaminação de pessoas que não necessariamente trabalhem
diretamente com o material (ROSSI, 2010, p. 63). O participante Josivaldo Silva
explica ainda a exposição das pessoas da família:

Muitas vezes essas pessoas, também tão contaminada, porque, essas


esposas lavaram a roupa de todo mundo, todos os ex-trabalhadores,
inclusive a Eternit, vendia uns feltro, que usavam, que vendiam lá pra fazer
as chapas, a massa né... que corria nas máquinas, aquilo lá eram os feltros
de lã, aquilo, uns feltro até novo, eles cortavam, quebravam, arrebentavam
lá na máquina e o que que eles faziam eles vendiam, aqueles feltro pro
pessoal fazer tapete na sua casa, eu mesmo levei pra casa e fiz tapete com
aquilo lá, quando tirava o tapete aquilo de lá tava grosso de pó, de baixo do
tapete tava cheio de pó, e eu não sabia que ele fazia mal, e eu usando o
tapete, varria, passava a vassoura por cima daquele tapete, cheio de
amianto, de pozinho do amianto, que é tão fininho, e ali só fica o pó fininho
mesmo, não fica a fibra do amianto, só fica o pó mesmo, e é o que é mais
cancerígeno, né... o pó é o maior veneno! (Josivaldo da Silva, 2017).

Outra questão que foi mencionada em entrevista pelo Deputado Estadual de


São Paulo Constantino Pires, é o fato de que boa parte da tubulação de água da
região da cidade de Osasco é feita de amianto: “aqui a tubulação é de amianto. As
69

cidades vizinhas todas e uma parte de São Paulo também. A rede é velha! com
tempo de vida útil já superado e a tubulação não permite a pressão. Não aguenta a
pressão!” (Constantino Pires, 2017). Esse relato do Deputado demonstra que muitas
pessoas ainda estão sendo expostas a rejeitos de amianto, especialmente no
Estado de São Paulo que foi sede da maior fábrica de cimento amianto do país a
Eternit.
A Lei 12.684/2007 que proibiu o amianto no estado de São Paulo foi um
projeto de Lei proposto pelo Deputado Estadual Constantino Pires em seu primeiro
mandato, entrando em vigor em janeiro de 2008. Constantino Pires me relatou que
apesar de várias tentativas até o momento nada foi feito em relação a troca da rede
velha de encanamento da região metropolitana de São Paulo.
A partir das declarações dos entrevistados e entrevistadas em relação às
formas de exposição, notei uma característica comum entre todos e todas. A
ingenuidade e simplicidade dos ex-trabalhadores ao falarem de suas funções na
fábrica, e de como acabaram tendo contato com a fibra do amianto. Eles sempre se
referiam ao fato de trabalharem em uma grande empresa como algo bom,
demonstrando que exerciam suas funções com muita boa vontade e empolgação. A
ingenuidade dos/das participantes da pesquisa foi um fator que influenciou na
demora do processo de responsabilização e visibilização dos danos causados pela
exposição ao amianto.
As esposas dos ex-trabalhadores ao falarem do seu contato com os rejeitos
das fibras, demonstravam uma grande ingenuidade ao dizerem que faziam tapetes e
cobertores com os feixes de amianto que eram doados na fábrica. Demonstravam a
partir de suas falas e expressões corporais que aquilo parecia algo muito bom na
época, afinal, os empregadores além de pagarem um bom salário aos seus
respectivos esposos, ainda auxiliavam doando a matéria prima do amianto para que
se pudesse produzir utensílios para casa.
Esses fatos se assemelham ao ocorrido em Casale Monferrato na Itália. Ao
longo da década de 1980 descobriu-se que em praticamente todos os conjuntos
habitacionais da cidade de Casale haviam doentes com tumores relacionados a
exposição ao amianto (ROSSI, 2010, p. 63/64). A contaminação ambiental em
Casale era tão grande que os rios da cidade eram repletos de rejeitos de amianto
descartados de forma irregular pela fábrica Eternit, muitas pessoas da cidade se
banhavam nas “praias brancas ao longo do Rio pó” (BUDÓ 2017 a, p.198). Medeiros
70

(2013, p. 67), ao analisar os reflexos dos danos causados por grandes corporações,
afirma que: “[...] os custos dos crimes corporativos envolvem perdas financeiras
enormes, prejuízo para a saúde de trabalhadores e consumidores, danos ao meio
ambiente”.
Esses resultados corroboram com a descrição de Sazdovska e Ivanov (2011),
de que a ingenuidade é uma característica comum entre vítimas ambientais,
inclusive esse é um fator que em muitos momentos pode prejudicar o processo de
responsabilização dos agentes, exatamente como no caso em análise. Além disso,
conforme Tombs (2005, p. 45) os Estados farão o mínimo para colocar em prática
leis da saúde e segurança, é sempre necessário muitas crises públicas e agitações
sindicais para que esse tipo de projeto seja executado.
B) o uso de equipamento de proteção individual- EPI: como a maior parte das
pessoas participantes dessa pesquisa foram expostas ao amianto no ambiente de
trabalho, era importante que eu instigasse um diálogo sobre os equipamentos de
proteção individual. Também é importante pontuar que a regulamentação sobre o
uso desses equipamentos está presente na Lei de número 6.514 de dezembro de
1977, Consolidação das Leis do Trabalho no seu capítulo V. O artigo 166 da referida
lei diz que:

A empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente,


equipamento de proteção individual adequado ao risco e em perfeito estado
de conservação e funcionamento, sempre que as medidas de ordem geral
não ofereçam completa proteção contra os riscos de acidentes e danos à
saúde dos empregados. (BRASIL, 1977).

O acontecimento de “ocorrências perigosas” é algo comum em ambientes de


trabalho. Essas ocorrências podem causar ferimentos ou não, as investigações
dessas ocorrências e dos métodos preventivos é algo primordial para que esses
fatos sejam corrigidos (TOMBS, 2005, p. 52). Na maioria dos casos de ocorrências
perigosas, os equipamentos de proteção não haviam sido disponibilizados. De
acordo com Tombs (2005), considerando o número de trabalhadores existe
pouquíssima fiscalização no ramo das grandes corporações. Conforme os relatos
dos ex-trabalhadores da fábrica Eternit Osasco, foram poucas as vezes que houve
algum tipo de fiscalização.
Josivaldo da Silva relatou-me que durante o tempo em que trabalhou na
fábrica não era oferecido aos funcionários nenhum tipo de equipamento de proteção:
71

“eles não davam nada, nem máscara, apenas davam uma capa de cor cinza pra
pessoa trabalhar. [...] E a gente usava essa roupa em cima da roupa própria que a
gente ia trabalhar e vestia essa capa por cima e todo pó que pegava ficava no
corpo” (Josivaldo da Silva, 2017). Já em outras entrevistas, a maior parte dos ex-
trabalhadores mencionou que o único equipamento de proteção fornecido pela
fábrica era uma máscara de qualidade muito baixa que não barrava a penetração do
pó de amianto. “A Eternit dava uma máscara, parecia um ninho de passarinho [...]
Coloca aqui, e aperta aqui, aquilo lá não refrescava nada, e às vezes você estava
sujo, você ia trocar, e não tinha no estoque, você tinha que pegar o mesmo e
colocar”. (Alberto Pereira, 2017).

Era aquelas mascaras né. De pó né. Aquilo lá nem pra pó simples. Se vai
na rua já passa né. Já imaginou você num pó que você pisava e chegava
afundar o pé no pó né. E eu cortava. E meu problema mais e nem era eu
pisar. Eu trabalhava numa máquina que cortava o tubo do amianto. Os
tubos eu cortava em tamanho né. Por peça pequena né. É então eu pegava
o tubo de ali de cinquenta por cinquenta cortava um por um. Quanto maior o
tubo mais grosso maior era o pó que ia cortando o disco o pó era mais né. O
pó subia muito mais entendeu. Então aquela mascarazinha era só para
enganar. Só para dizer que eles davam né. Entendeu? Mas que tinha
fundamento pra alguma coisa não iria ter. Para aquele serviço que a gente
fazia não. Entendeu? Então enjeria muito pó mesmo! (Pedro Correia de
Andrade, 2017).

Isabel Tedesco contou-me que o esposo falecido reclamava muito da


máscara fornecida na empresa, que o equipamento sufocava, e que ele acabava
não usando da máscara. Ela também relatou que “a roupa era horrível pra lavar,
vinha dura de amianto, dura de cimento! A meia você usava dois três dias, depois
tinha que jogar fora, porque não tinha condição de lavar”, (Isabel Tedesco, 2016).
Para Josivaldo da Silva mesmo que a empresa tivesse fornecido um equipamento
melhor, teria sido em vão, tendo em vista a nocividade do amianto: “eles começaram
a fornecer algum tipo de equipamento, mas mesmo não resolvia, porque o pó do
amianto é tão fino que só servia para acumular mais o pó ainda! Fazia mais mal
ainda pra saúde do ser humano! Porque pro amianto não tem proteção!”. (Josivaldo
da Silva, 2017). Esses fatos evidenciam que a proteção dos trabalhadores não era
uma grande preocupação dos empregadores da fábrica.
C) diagnósticos de doenças relacionadas ao amianto: os diagnósticos de
doenças relacionadas ao amianto começaram a aparecer no Brasil a partir de 1991,
72

quando a maior fábrica de fibrocimento amianto da América Latina ainda funcionava


(SACOVANE et al, 1999, p. 117). Doenças como mesotelioma, um tumor maligno e
raro que se manifesta na pleura, e a asbestose, que também atinge os pulmões e o
sistema gastrointestinal, são doenças profissionais ligadas ao amianto e ambas
possuem latência de até 30 anos (SACOVANE, 1997). Na época do aparecimento
das doenças, ainda não havia reconhecimento do nexo causal com as atividades de
trabalho e as instituições profissionais das vítimas, havia uma grande inabilidade
médica na época, as doenças ainda não possuíam CID, e poucos eram os médicos
e médicas especialistas em medicina do trabalho (SACOVANE et al, 1999, p. 118).
Em razão do tempo de latência, a maior parte das doenças foram
diagnosticadas quando os indivíduos já não tralhavam mais na fábrica. A criação da
Associação Brasileira de Expostos ao Amianto - ABREA, auxiliou na localização e
cadastramentos das vítimas:

Foi logo que nasceu a ABREA a gente foi fazer exame na fundacentro e
depois de um tempo as placas pleurais pelos médicos pelos peritos, falavam
que placas pleurais não era doença. Eu sempre discordei disso, sempre
falei que placas pleurais era um projeto de asbestose. E eu estava certo,
porque essas placas pleurais transformou-se numa asbestose, hoje eu
tenho asbestose. Os dois pulmões meus estão impregnados de amianto.
Tenho muita dificuldade pra respirar, não subo escada ando com dificuldade
(Reginaldo Ferreira, 2017).

O nexo causal entre as doenças e as atividades de trabalho só teve


visibilidade após o Ministério do Trabalho de São Paulo fazer um levantamento de
casos de ex-trabalhadores de fábricas de fibrocimento doentes (INSTITUTO
SOCIOAMBIENTAL, 2008). A maior parte das pessoas participantes da pesquisa,
reclamaram-me da invisibilidade dessas doenças e da dificuldade do diagnóstico:
“fazer o diagnóstico da doença do amianto geralmente as pessoas morrem com falta
de ar, e é problema do amianto. Aí falam que é bronquite, ou fala que é asma, ou
fala que é outra doença aí. Fala que é do cigarro!” (Josivaldo da Silva, 2017). Para
Josivaldo, os médicos e médicas da fundacentro25 foram os únicos com o
conhecimento necessário para diagnosticar as doenças.

25 A Fundacentro- Fundação Jorge Duprat e Figueiredo, é uma instituição governamental ligada a


Ministério do Trabalho e tem por função social a proteção e segurança da saúde de trabalhadores e
trabalhadoras. Além disso, primam por um desenvolvimento sustentável, equidade e proteção do
meio ambiente. (FUNDACENTRO, 2018).
73

De acordo com a Secretaria Internacional para Banimento do Amianto – IBAS


(2012, p. 12), era uma prática reiterada da Eternit usar os diagnósticos das doenças
dos trabalhadores a favor da empresa. A maior parte dos diagnósticos acusava a
doença de bronquite crônica que era associada ao tabagismo, quando o diagnóstico
acusava câncer associavam ao fator genético e a predisposição natural de ter a
doença. No caso investigado por Budó (2017a), em Casale e Monferrato na Itália, as
vítimas também tiveram problemas com os diagnósticos das doenças. Assim como
no Brasil, a causa das doenças sempre era atribuída a outros fatores que não os
ocupacionais: “na época, o mesotelioma dificilmente era diagnosticado, e a causa da
morte nas certidões de óbito mascarava o problema” (BUDÓ, 2017a, p. 205).
Os ex-trabalhadores da Eternit Osasco-SP, relataram-me que as primeiras
deconfianças sobre a nocividade do amianto começaram a surgir quando os
empregadores da fábrica exigiam a realização de exames de raio X, porém, nunca
entregavam os resultados. “Todo esse tempo que eu fiquei lá eu nunca fiquei
sabendo o resultado de uma chapa! Nunca me deram uma chapa na minha mão
para dizer: ‘sua chapa tá normal!’” (Josivaldo da Silva, 2017). Josivaldo e Dirceu
disseram-me que os trabalhadores que se sentiam mal ganhavam laudo da empresa
e do nada eram dispensados.
A auditoria fiscal do Ministério do Trabalho, realizada por Fernanda Giannasi
iniciou as investigações. Na época em que a fábrica foi fechada, em 1993, muitas
pessoas contaminadas não possuíam conhecimento de sua situação:

Encaminhados à Fundacentro, os primeiros diagnósticos foram desoladores.


De 12 trabalhadores avaliados: 4 tinham asbestose, 7 placas pleurais e o
trabalhador que teve leitura normal da radiografia de pulmão veio a falecer 4
meses após, vítima de câncer de peritônio. (GIANNASI, 2001, p. 22).

Além disso, um fato que chamou a atenção durante as investigações do


Ministério Público do Trabalho foi que muitas mulheres foram diagnosticadas com
asbestose e mesotelioma, sendo que, na época, mulheres não podiam ter contato
com trabalhos insalubres, como era o caso do trabalho nas fábricas de amianto
(INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL, 2008). Esse fato demonstrou que a extensão dos
danos relacionados ao amianto se perpetuavam muito além dos muros da fábrica, e
que era necessária uma maior conscientização da população metropolitana de São
Paulo (SACOVANE et al, 1999).
74

3.2.2 Ambiguidade: o retrato da empresa a partir da subjetividade dos


indivíduos

Uma característica muito perceptível do grupo participante dessa pesquisa é o


fato de sempre se referirem à empresa a partir de dois pontos de vista. Ao mesmo
tempo que muitos demonstravam raiva ao falarem sobre a sua instituição de
trabalho, eles e elas também sempre tinham algo de bom para mencionar: “uma
imagem da nossa amizade que a gente tinha que trabalhava lá dentro, os amigos
trabalhavam lá dentro era como uma família. Então todo mundo se dava bem com
todo mundo”. (Reginaldo Ferreira, 2017).
Em relação aos equipamentos de proteção individual, apesar de os
equipamentos serem precários e inadequados, conforme a fala das pessoas
participantes, percebi sempre uma ambiguidade em suas falas em relação à postura
da empresa. Antes de falarem sobre a precariedade dos equipamentos eles e elas
sempre mencionavam o fato da empresa sempre pagar os salários em dia. “A Eternit
sabe, ela sempre foi uma empresa que pagou direito os funcionários! Sempre
pagava direito! Só que nessa parte da saúde da pessoa eles nunca se manifestam
em nada!” (Josivaldo da Silva, 2016). Dessa forma, a ambiguidade está relacionada
à postura da empresa em preocupar-se com os salários pagos em dia, porém, não
cumprindo com as Leis do Trabalho e a obrigatoriedade do uso de equipamentos de
proteção individual.
Sempre que eu instigava a fala sobre o ambiente de trabalho, tanto dos ex-
trabalhadores como das viúvas e filhos entrevistados e entrevistadas, era
mencionado o ambiente fraterno que existia dentro da fábrica entre os colegas de
trabalho, e até mesmo com os empregadores. Isabel, ao me contar sobre como o
esposo já falecido se referia ao ambiente de trabalho, disse-me: “quanto ao
ambiente, era ótimo! Eles não sabiam, né. Que isso ia ocorrer futuramente, né.
Tantas mortes desse jeito, né? Mas ele não tinha assim problema, o ambiente era
legal, era bom”. (Isabel Tedesco, 2017).
Os participantes sempre expressavam uma nostalgia ao falarem das relações
dentro do ambiente de trabalho. Muitos deles me contaram acontecimentos
engraçados vividos com os colegas. Falaram-me que o ambiente dentro da fábrica
sempre foi muito amigável, e que sempre tinham confraternizações, jantas e jogos
75

de futebol entre os funcionários: “Eu trabalhei durante 33 anos, eu era garoto, tinha
15 anos, entrei na Eternit [...]. Fiz SENAI em marcenaria [...] o tempo foi passando,
as nossas amizades eram muito boas, eu fui ficando, e a Eternit foi nos enganando
né! Enfim, trabalhei lá 33 anos”. (Alberto Pereira, 2017).
Após mencionarem o ambiente fraterno existente na fábrica sempre aparecia
o contraponto, a menção de que a empresa era aproveitadora. Para os ex-
trabalhadores, viúvas e filhos, a empresa se aproveitava da fraternidade que existia
no ambiente de trabalho para invisibilizar a nocividade do amianto.

Então, pra gente perceber a irresponsabilidade dessas empresas como elas


trabalham, como ela enganou, como ela conseguiu nos ludibriar com a falta
de informação né a gente também não tinha noção de nada, mas eles
usaram todos os artifícios pra nos ferrar. Isso ta provado hoje, a gente
depois da década de 70 em diante a empresa fazia nosso raio x dentro da
fábrica de todos os trabalhadores, isso era feito mais ou menos de ano em
ano, a gente da sessão ia lá né, a gente fazia esse raio x e ela registrava
isso toda fábrica fazia todo trabalhador fazia era uns dois três dias um ia
outro ia. Saia da sessão fazia e voltava a trabalhar, mas nós nunca vimos
essa chapa! (Dirceu de Castro, 2017)

Quando realizei a entrevista do senhor Dirceu de Castro o seu ex colega de


trabalho Reginaldo Ferreira também estava junto, pois eu o entrevistaria na
sequência. Percebi que ao passo em que o senhor Dirceu me contava as histórias
do ambiente de trabalho, ambos começaram a se emocionar devido à lembrança
dos amigos que já haviam partido. Os senhores estavam diante de mim com os
olhos lacrimejados. Ao mesmo tempo em que o sentimento era de emoção, também
percebi a raiva ao pronunciarem as palavras. Sentiam-se enganados pela empresa,
por trabalharem tantos anos sendo bons funcionários e nunca saberem que o
amianto era prejudicial à saúde:

A empresa usufruía disso para esconder a causa do amianto. Olha o outro


lado que eu tenho é que ela sonegou, matou, feriu, mutilou, porque eu vi
muitos amigos meus, mas muitos mesmo não foi um nem dois que
morreram amarrado em um bujão de oxigênio. (Reginaldo Ferreira, 2017).

O senhor Reginaldo, durante sua entrevista, fazia questão de evidenciar o


fato de que a empresa se aproveitava do fato de existir um clima amigável entre
todos, para poder ocultar os malefícios de ficarem expostos a fibra. Ambiguidade
também sempre aparecia nas falas em relação aos salários: todos os ex-
empregados entrevistados contaram-me que os salários oferecidos pela empresa
76

eram muito bons. Além disso, os empregadores sempre pagavam em dia. Para os
entrevistados, essa era mais uma forma de “ludibriar” os empregados em relação
aos danos que o amianto causava.

Então essas histórias que são fato real que eu tô colocando aqui pra você,
justifica a forma da empresa nos tratá, pagá bem, pagá certo de dar um
aumento melhor do que o sindicato conseguia. Ela fazia tudo isso, mas isso
era uma forma que ela ganhava muito, mas muito dinheiro que o produto
era muito barato. E ela ganhava muito dinheiro é porque a Eternit de
Osasco é bom que registra foi uma das maiores fábricas do mundo de
amianto! Maior da América Latina! Aqui trabalhou de oito a dez mil
trabalhadores. Tem uma massa de moradores próxima da fábrica que
geralmente foram contaminados, não tem dúvida disso, que já tem registro
né. (Dirceu de Castro, 2017).

Apesar de a raiva ser um sentimento constante nas falas dos ex-


trabalhadores, existe um reconhecimento da importância da Eternit na vida de cada
um, no sentido de dependência econômica. “Não vou dizer que a Eternit foi uma
firma miserável, porque não foi! Foi lá que eu trabalhei, que consegui estudar meus
filhos, só que na parte social ela deve, ela deve pra gente, deve muito, porque
danificou as nossas vidas!” (Sebastião Vasconcelos, 2017). A Eternit foi uma das
primeiras multinacionais a se instalar na região em 1940, influenciando no
desenvolvimento socioeconômico da região, grande parte da (INSTITUTO
SOCIOAMBIENTAL, 2008).
O representante do Movimento de Saúde dos Trabalhadores da cidade de
Osasco, Ricardo Esteves Batista, em entrevista, contou-me que é comum grandes
empresas causadoras de danos oferecerem bons salários e bons planos de saúde.
Essa prática de grandes corporações é mais uma forma de invisibilizar
irregularidades e manter a mão de obra, tendo em conta os danos ocasionados aos
trabalhadores.

Eles vêm e enganam com um convênio e um bom salário! Um bom


refeitório, um bom médico dentro do chão da fábrica, mas na verdade isso é
só pra enganar o trabalhador que trabalha ali depois morre e não tem nem
como saber por que morreu. Isso é o mais revoltante! (Ricardo Esteves
Batista, 2017).

De acordo com Bauman (1999) a estratégia das grandes corporações para


alcançar o sucesso de mercado, como, por exemplo, poder, lucro e influência é
77

seduzir os consumidores e os próprios empregados, ocorrendo um aprisionamento


mental desses indivíduos. “As empresas modernas se apropriam de aspirações
contraditórias, transformando espaços organizacionais em clubes raros, os quais os
indivíduos sentirão orgulho de pertencer” (MEDEIROS, 2013, p.18), essa estratégia
também serve como forma de gerenciamento para o aumento da produtividade e
também como forma de acalmar os seduzidos. É dessa forma que se sustenta o
sistema capitalista, devem existir bons trabalhadores para bons consumidores
(SOROS, 2001).
De acordo com Santos (2018), a ambivalência psicológica é uma
característica comum dentro do contexto de exploração do capitalismo,
considerando o fator submissão dos indivíduos em razão de suas necessidades.
Esses fatores justificam os/as participantes em alguns momentos das entrevistas se
preocuparem com o destino da empresa: “[...] procurem não fechar essas empresas
pra não prejudicar os trabalhadores, porque não é desse jeito, mas que trabalhem
com outro produto que não prejudique a saúde. Que venha trabalhar todo mundo os
novos que tão chegando”. (Pedro Correia de Andrade, 2017). Por se tratarem de
pessoas de baixa renda, os fatores necessidade versos submissão são frequentes
nas falas das pessoas participantes.

O sistema capitalista contemporâneo quer indivíduos bem adaptados e


cativos a um modo de produção que os aliena e que resume a vida à sua
manutenção, alimento e sono. Interessa-lhe também a fetichização dos
objetos de consumo que ganham o sentido de realização e que, graças à
sua obsolescência, induzem a um desejo cíclico de aquisição perpétua,
detendo o vivente numa inércia sob a aparência de novidade (SANTOS,
2018, p. 85).

Em outras pesquisas da área criminológica, semelhantes ao presente estudo,


também foi possível constatar essa característica. No caso do rompimento da
barragem de Bento Rodrigues subdistrito de Mariana-MG, a pesquisadora
Colognese (2017), ao analisar a vitimização ambiental a partir da perspectiva do
dano social, verificou que as vítimas possuíam um conflito de dependência
econômica e de emprego em relação à mineradora Samarco. Trata-se da chamada
mão invisível do mercado, que transforma as vítimas em escravas do sistema:

As vítimas reconhecem a existência do dano causado pela mineração, estão


cientes das suas implicações morais, e mesmo assim convivem com ela. E
mais: faltam alternativas à mineração, embora existam mecanismos para
construir tais alternativas, como por exemplo, o potencial turístico da região.
78

O problema, pois, não radica em torno da invisibilidade da atividade da


empresa. A mineração é visível e sistemática, e é precisamente essa
repetição que representa o desafio para quem resiste em reconhecer seus
danos (COLOGNESE, 2017, p. 114).

Esses fatores também são explicados na pesquisa de Medeiros (2013), na


tentativa de examinar e compreender os crimes corporativos por intermédio dos
relatos das vítimas. A pesquisadora apurou que nesses casos há um consentimento
das ações e omissões das corporações por parte das vítimas e da população em
razão da questão econômica: “o consentimento da população, tanto trabalhadores
como comunidade, é obtido pelo poder das corporações, que coloca a seus pés
governos e outros organismos mundiais” (MEDEIROS, 2013, p. 261).
Esse contexto se parece com as histórias narradas pelos ex-trabalhadores da
fábrica Eternit: “e esses que tem esse problema na empresa tá trabalhando na
empresa não porque quer. É obrigado porque precisa do salário dele para viver com
a família dele. [...] É obrigado porque tem a necessidade de sobreviver do pão
daquela empresa” (Pedro Correia de Andrade, 2017).
Assim como ocorreu em âmbito nacional, no caso de Calase Monferrato, na
Itália, os empregadores pagavam um bom salário, diferenciando-se das demais
empresas da região na época. Também ofereciam pequenos adicionais como forma
de incentivo para aqueles operários que trabalhavam diretamente com a matéria
prima do amianto (ROSSI, 2010, p. 48). Ademais, em Casale “trabalhar na fábrica
era motivo de orgulho para todas as famílias dos operários, que deixavam de ser
agricultores e carregavam consigo o ideal de progresso tão desejado no início do
século” (BUDÓ, 2017a, p. 196). Os ex-trabalhadores da Eternit Osasco quando me
contavam histórias da época em que desconheciam a nocividade de trabalhar com o
amianto, também demonstravam exaltação. De acordo com pesquisa realizada pelo
Centro de Tecnologia Mineral do Brasil, em 2016 esse era um fato que também
ocorria na região de Minaçu- GO, onde está instalada a Mineradora SAMA. A
população da cidade possuía orgulho de ter a empresa operando no território, já que
a SAMA financiava atividades culturais e educacionais:

O fato de as atividades desenvolvidas pela mineradora de amianto serem


responsáveis pela maior oferta de empregos no setor privado e por grande
parte da arrecadação municipal se afigura como o argumento-chave
mobilizado pelos representantes dos trabalhadores locais na defesa do uso
controlado do mineral (CENTRO DE TECNOLOGIA MINERAL BRASIL,
2016, p. 250).
79

Dessa forma, percebi que é algo caraterístico das vítimas defenderem os


seus opressores quando dependem economicamente deles. Esses fatos também
aparecem no caso de Casale, de acordo com os dados empíricos examinados por
Budó (2017a, p. 206), as relações no trabalho também eram muito fraternas: “[...] os
operários tinham a fábrica em grande consideração, por serem reconhecidos,
receberem bem, ganharem presentes para a família, terem frequentes
confraternizações”.
No caso dos ex-trabalhadores de Osasco, mesmo sabendo da dependência
econômica que tinham da empresa, hoje em dia se sentem enganados, explorados e
usados pela empresa. A ambiguidade sempre foi uma característica que apareceu
em relação ao ambiente de trabalho e a empresa, os participantes em nenhum
momento desassociaram os prós e contras de terem trabalhado na fábrica. Além
disso, a partir das falas do grupo participante percebi que uma característica sempre
relacionada à empresa é a dissimulação. Essa dissimilação se refere à
invisibilização da nocividade do amianto e dos danos que ele causa, e o
favorecimento que os empregadores obtinham ao ocultarem essa informação.

3.2.3 Holocausto estatal-corporativo: cadeia de responsabilidades pelos danos


sociais

Nesta categoria, trouxe a ideia de holocausto estatal-corporativo para me


referir a cadeia de responsabilidades pelos danos sociais massivos ocasionados
pela exposição ao amianto. A associação entre o holocausto e as vitimizações
ocasionadas pela exposição do amianto, apareceu na fala de um dos participantes
da pesquisa. Quando instiguei a fala de Dirceu de Castro sobre sua percepção sobre
as responsabilidades dos danos sociais ele proferiu a seguinte fala: “Então eu
chamo esses donos da empresa de amianto hoje, de Hitlers do amianto! Chamo os
parceiros do Hitler da Segunda Guerra Mundial!”. Dirceu ainda questionou a
diferença entre vítimas de uma guerra e vítimas que morrem por exposição a algum
produto tóxico o amianto:

E o pior de tudo a maioria deles sabia que tava matando e fizeram questão
de mata, então eu pergunto qual a diferença de matar numa guerra e matar
com produto químico? E sabe o que é pior que o cara fica no mínimo uns
80

três meses um ano ai morrendo até chegar a hora do destino final que o
corpo não aguenta mais que ele se elimina a vida dele! E a família sofrendo
muito mais, porque pensa uma família ver um pai ver um irmão morrer.
Então esses caras não têm escrúpulos, são uns bandidos dos bandidos do
amianto da morte no mundo! (Dirceu de Castro, 2017).

Na obra intitulada Modernidade e Holocausto do sociólogo Zygmunt


Bauman, faz um grande apanhado das análises sociológicas já feitas sobre o
Holocausto: “o Holocausto tem mais a dizer sobre a situação da sociologia do que a
sociologia é capaz de acrescentar, no seu estado atual, ao conhecimento que temos
do Holocausto” (BAUMAN, 1998, p.15). Etimologicamente a palavra Holocausto vem
das palavras gregas holos (todo) e Kaustro (queimado), referindo-se aos sacrifícios
oferecidos ao Deus dos antigos hebreus (REGERT, 2009, p. 2). Após a 2ª Guerra
Mundial, a palavra Holocausto passou a ser usada para se referir ao massacre de
judeus, mulheres, crianças, negros, homossexuais e todos aqueles e aquelas que
não pertenciam a raça ariana (REGERT, 2009).
A tese de Bauman é de que o Holocausto não foi um fato isolado antissemita,
mas sim um produto da lógica da dominação moderna, sua organização, burocracia
e planejamentos, pois o chamado Estado jardineiro, que separa o joio do trigo,
“[...]nasceu como uma força missionária, proselitista, de cruzada, empenhado em
submeter as populações dominadas a um exame completo de modo a transformá-
las numa sociedade ordeira, afinada com os preceitos da razão” (BAUMAN, 1999a,
p. 29).
Além disso, uma das teorias trazida por Bauman classifica o Holocausto como
uma ampla categoria de casos semelhantes que envolvem preconceitos ou
agressões que dependem de fatores sociais, ideológicos e estruturais (BAUMAN,
1998, p.16). É nessa perspectiva que a teoria de Bauman se cruza com o objeto de
estudo da presente pesquisa, a exploração do capitalismo por grandes corporações
em conluio com os Estados e a vitimização massiva ocasionado pelos danos sociais
produzidos por essas instituições (TOMBS; WHYTE, 2016; BUDÓ, 2016).
Como forma de abranger a cadeia de responsabilidades, criei subcategorias
para cada um dos responsáveis citados nas falas dos/das participantes: a)
Empresas Eternit/ SAMA; e b) Estado.
A) Empresas Eternit/SAMA: a partir dos relatos coletados nas entrevistas
percebi que para grande maioria dos/das participantes a maior culpada pelos danos
e pela vitimização massiva é a empresa Eternit. Alguns dos argumentos mais citados
81

foi a omissão e invisibilização dos danos que o amianto pode causar. “Eu não sabia,
eles sonegavam nunca ninguém falo dentro da empresa que o amianto matava”.
(Reginaldo Ferreira, 2017).

Sobre riscos de amianto, nós nunca tivemos a mínima informação. Nunca


ninguém falava nada. Ninguém sabia de nada. Eles faziam de conta que
isso aí não afetava em nada a vida do ser humano. Nunca ninguém
comentou nada sobre o risco. [...] E nem falavam assim: evitem ficar nessa
poeira aí que você pode ficar doente. Nunca ninguém falou nada disso.
Como se isso aí não fizesse mal para a pessoa. (Josivaldo da Silva, 2017).

De acordo com os relatos, sempre houve uma invisibilidade dos danos


causados a saúde. Todos os anos a empresa encaminhava os seus empregados
para fazerem exames de raio x dos pulmões, porém, os empregados nunca tinham o
retorno do resultado desses exames.

Nós não sabíamos de nada. Todo ano vinha a SESI. O SESI vinha com um
caminhãozinho um baú fazer chapa raio x. Todo ano vinha, encostava em
um canto da firma lá. E ia um por vez lá, e fazia a chapa lá e tal. O
relacionamento nosso com o gerente com todo mundo era ótimo. Só que
ninguém abria a boca. Ninguém conscientizava de nada. O que nos revolta
hoje é isso aí. Nós fomos enganados [...] nunca peguei um. Acho que
fizeram uma fogueira muito boa, porque o que tinha de... Tinha uns três mil
funcionários né. Teve época lá que era... Nunca devolviam. Quando alguém
sentia alguma coisa, às vezes o médico falava que o coração tava inchado,
isso aconteceu comigo, né! (Alberto Pereira, 2017).

Muitos me relataram que muitas vítimas faleceram sem sequer saber qual era
o seu diagnóstico. Rita de Cássia das Neves de 48 anos, filha de um ex-trabalhador
já falecido contou-me que a razão da morte do pai nunca ficou esclarecida. O pai
trabalhou 25 anos na fábrica da Eternit Osasco, e foi diagnosticado com placas
pleurais em 2012: “ele sempre se queixou de sentir a garganta "pegando" né! Um
certo desconforto lembro sim! Vinte e cinco anos é muito tempo né!” (Rita de Cássia
das Neves, 2017).
Rita disse que o pai faleceu em 2015 e que de acordo com os médicos a
morte teria sido em decorrência de uma pneumonia, mas Rita acredita que a morte
foi em decorrência das placas pleurais derivadas da exposição ao amianto. A falta
de um diagnóstico preciso para comprovar o nexo causalidade, impossibilitou que
Rita e a família ingressassem com qualquer tipo de ação indenizatória contra a
empresa. “Acho que a população foi durante muito tempo negada a ela o
82

conhecimento do problema que era realmente o amianto né! Problema de saúde que
causava né! E agora a gente tá vendo isso por aí né acontecer!” (Rita de Cássia das
Neves, 2017). Os/as participantes mencionaram que a empresa realizava diversos
lobbys como forma de invisibilizar os danos sociais ocasionados pela exposição ao
amianto:

Embora tivesse parentes contaminados, muitas vezes não se sabia que


estava doente. Qual o tipo de contaminação que as pessoas tinham, porque
a empresa tinha um poder muito grande de lobbys. Na imprensa, na mídia e
também nos Tribunais, nos Ministérios e isso dificultava as pessoas. Porque
nós não tínhamos instrumentos de informação de massa, para poder fazer a
população intender e saber dos riscos. (Constantino Pires, 2017).

As grandes corporações possuem grande poder de mobilidade, usam de


estratégias e recursos para atingir o domínio global, por exemplo, preços baixos,
distribuição de matéria-prima, parcerias com outras corporações e organizações de
poder e até mesmo lobbys (PEARCE; TOMBS, 1999).

Então esses caras fizeram isso de consciência plena, é tanto que se você
pegar os dados do lobby, eles fizeram um trabalho muito bem feito que
funcionou, por exemplo, com relação a culpar o tabaco que é o cigarro o
fumo pelas mortes do amianto. O cara morreu porque fumava! Isso
funcionou demais, os advogados diziam ele morreu porque fumava e o juiz
dizia é verdade! (Dirceu de Castro, 2017).

Para Dirceu de Castro e Constantino Pires, a rede de lobbys feita pela


empresa envolveu juízes, promotores e políticos: “cada prefeito de plantão com
lobby da indústria ficavam favorável à indústria. E as vítimas estavam aqui na cidade
contaminados sem assistência médica sem amparo nenhum sem informações”
(Constantino Pires, 2017). Para ambos, os lobbys são a razão pela qual a
comercialização do amianto ter durado tantos anos.
Por muito tempo o amianto continuou sendo comercializado no país mesmo
em estados onde já havia lei proibindo como, por exemplo, no estado de São Paulo.
De acordo com Jorge Maciel, setenta e um anos e ex-trabalhador da Eternit, nunca
existiu fiscalização do transporte do amianto entre os estados: “Eu acho um absurdo
pelo seguinte. Que a lei favorece transportar e acabou! Eu vejo muitos carros a noite
vindo de Curitiba trazendo telhas e eu acho um absurdo! Se baniu acabou! Não
pode ter o lobby”. (Jorge Maciel Viana, 2017).
83

Onde é que tá fiscalização? Tanto estadual como Federal? E postos


rodoviários? Passou parou! E é o seguinte prende o carro! Prende o carro e
pronto! Como é que fica? Agora chega aqui e coloca no deposito de manhã
ninguém tá vendo nada. Não adianta se fizer um levantamento o deposito tá
vendendo aí abertamente. Agora não sei como vai ficar. Eu acho que
deveria ser mais rígido né. É lei é lei e acabou! Pra todo mundo. Porque
muitas vezes o depósito abusa. E vendi direto. (Jorge Maciel Viana, 2017).

O Deputado Constantino Pires relatou-me que logo após a descoberta da


nocividade do amianto e da criação da Associação Brasileira de Expostos ao
Amianto – ABREA, a cidade de Osasco tornou-se um campo de guerra. Uma das
funções da Associação sempre foi a de tentar dar visibilidade para os danos
causado pelo amianto, porém: “cada materiazinha que saia no jornal da cidade a
indústria pagava uma matéria contrariamente do que saia. Visitava os jornais fazia
Lobby nos jornais para não deixar sair nada contra o amianto.” (Constantino Pires,
2017), essa foi uma prática da indústria que se reiterou até o banimento total do uso
do amianto a nível nacional.
Isabel Tedesco relatou-me o fato de a empresa ter tentado suborná-la quando
o seu esposo estava doente: “ofereceram terminar minha casa, porque assim, eu era
uma pessoa muito simples, humilde, né. E fiquei com duas crianças, dez e quatro
anos na época. Eles ofereceram, cinco mil reais, dez mil reais [...] não aceitei!”
(Isabel Tedesco, 2017).
Os/as participantes também responsabilizaram a empresa pela contaminação
do meio ambiente e da exposição de pessoas que não trabalhavam diretamente com
a matéria prima do amianto. De acordo com os relatos, muitas pessoas ao redor da
fábrica em Osasco morreram em condições semelhantes a muitos trabalhadores que
faleceram de asbestose e mesotelioma. “Muita gente já faleceu, principalmente aqui
em Osasco, mesmo pessoas que a gente descobre que não trabalhou, mas que
morou na redondeza da fábrica, né. Já várias pessoas faleceram! Então dano, assim
é muito grande, né, muito” (Isabel Tedesco, 2017).
De acordo com a fala de Josivaldo Pereira a exposição e a contaminação ao
amianto é muito maior do que muitos imaginam. A Eternit de Osasco vendia e as
vezes distribuía os seus rejeitos para a comunidade ao redor da fábrica poder fazer
o calçamento dos seus pátios e calçadas de suas casas. O próprio pátio da empresa
era causado com cimento amianto, que com a movimentação dos caminhões
levantava muito pó e se espalhava por toda a redondeza. O senhor Josivaldo ainda
84

afirmou que em média saiam da fábrica de 100 a 120 caminhões por dia. Relatou
que ainda há muitas pessoas que irão adoecer na cidade de Osasco por conta da
exposição ao amianto tendo em vista o tempo de latência para manifestação das
doenças.
As/os participantes também mencionaram o fato da empresa utilizar de
medidas protelatórias para não pagar as indenizações, lobbys e financiamentos de
campanhas de parlamentares e pesquisas científicas para defender a utilização do
amianto: “daí a importância de pensar qual é o papel do discurso científico
claramente comprado pela indústria na ocultação e propagação dos danos causados
pelos Mercados, em casos como este.” (BUDÓ, 2016, p.131).

Olha a responsabilidade dela, ela sabe que ela tem uma responsabilidade
grande e por sinal quando ela acha que sabe que a pessoa tá enferma na
hora da morte ela faz de todos os meios pra não pagar indenização.
Conheço muitas pessoas aí. Quando ela sabe ela manda uma coroa. Isso é
um absurdo! Será que a justiça não sabe nada disso? Que ela sabe que a
pessoa morreu tudo! Ela quer dizer tô livre de um processo. (Jorge Maciel
Viana, 2017).

Payne (2012), ao classificar as consequências de crimes corporativos relata


que uma das práticas comuns são as fraudes, falsificações e lobbys como forma de
acabar com a concorrência de outras economias sociais e a necessidade de maquiar
os danos causados por ela. A ligação entre as grandes corporações e pesquisas
cientificas, está relacionada às tentativas de defesa de acusações de danos socais
causados pelas suas ações e omissões (BUDÓ, 2016).

Com o objetivo de se proteger de preocupações públicas, muito dinheiro


tem sido investido no financiamento de pesquisas, as quais, contudo, são
na origem condicionadas à obtenção de resultados favoráveis aos
provedores. Nos contratos com seus financiadores, em geral os próprios
pesquisadores são obrigados a manter em sigilo quaisquer riscos que
encontrem à saúde pública. Minimiza-se possíveis resultados que
comprovem os danos, e, simultaneamente, ataca-se as perspectivas
científicas contrárias aos interesses econômicos da indústria (BUDÓ, 2016,
p. 132).

Maria do Carmo da Silva relatou que a empresa fazia contratos de acordo


com alguns doentes, ofereciam alguns convênios de planos de saúde para que a
pessoa não entrasse com nenhuma ação judicial indenizatória. Maria do Carmo
disse que o esposo falecido foi uma dessas pessoas. “Ele morreu em 2005, mas
85

assinou tal convenio que a firma ofereceu [...] Deu esse convênio aí, que não durou
o que, não durou acho que um ano, que foi no fim, não é, e perdeu todos os direitos”
(Maria do Carmo da Silva, 2017).

O que eu penso o que eu enxergo é a grande maldade. Os cara eles não


pensa em outra coisa ele só pensa na maldade. Ele só pensa no dinheiro.
Porque quando a empresa vem e se instala em um país né, pra usar um
produto que vai adoecer e matar e aí depois ele esconde toda a verdade pra
não cuidar desses trabalhadores e depois junta o que tem e vai embora pra
mim? Isso é bandidagem! Isso não é coisa humana é bandidagem! Por que
as empresas o intuito delas era abandonar esses trabalhador que do jeito
que eles prepararam que ficasse todo mundo inocente e ir embora. (Ricardo
Esteves Batista, 2017).

A responsabilização da SAMA- Mineração de Amianto Ltda, foi a menos


citada pelas pessoas participantes. No entendimento de Belmira Ramos de 65 anos,
esposa de um ex trabalhador da Eternit, a mineradora é a responsável pelos danos:
“Os responsável com certeza a própria mineradora né! Porque se não existisse a
mineradora não existiria o amianto” (Belmira Ramos, 2017).
No ano de 2001 a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -
FAPESP, descobriu que a SAMA- Mineração de Amianto Ltda, havia doado cerca de
R$ 976 mil reais ao projeto sobre o uso do amianto realizado pela Universidade de
Campinas -UNICAMP: “Ericson Bagatin, especialista em saúde ocupacional,
analisou os organismos de 4 mil trabalhadores de Minaçu, em Goiás. No fecho do
trabalho, Bagatin afirma que a mineração não provoca danos graves à saúde”
(FIGUEIREDO, 2002, p. 25).
Na época a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo –
FAPESP, se posicionou dizendo que houve interesse nos resultados da pesquisa,
porém a Universidade de Campinas -UNICAMP nunca se posicionou sobre o
assunto (FIGUEIREDO, 2002, p. 25). Conforme Budó (2016, p. 132), “existem atores
que muitas vezes não são tratados como tais e que desempenham um dos papéis
mais importantes: o da difusão do conhecimento”, os interesses econômicos
atingiram a credibilidade das pesquisas científicas.

Então o maior responsável são as empresas que fizeram vista grossa né.
Eles sabiam da existência do câncer. Meu marido logo que ele saiu foi
constatado que o amianto é cancerígeno. Altamente cancerígeno né. E
mesmo assim eles continuaram (Belmira Ramos, 2017).
86

Para Geraldo Ramos 66 anos esposo de Belmira e ex trabalhador da fábrica


Eternit, a responsabilidade de todos os danos também é da mineradora SAMA-
Mineração de Amianto Ltda. Ele relatou que ninguém na Eternit tinha conhecimento
da onde vinha a matéria prima do amianto, e que só tiveram conhecimento sobre a
mineradora quando no momento em foi fundada a Associação Brasileira de
Expostos ao Amianto- ABREA.
Uma das considerações em comum entre os/as participantes da pesquisa em
relação a responsabilização das empresas é a fator predatório e a busca incessante
por lucro. Os danos sociais ocasionados por grandes corporações são justificados
como fatalidades, acidentes, tragédias, desastres ou falhas, porém esses danos
ocorrem dentro de uma lógica de procedimentos da corporação e servem como
plano de fuga da empresa (MEDEIROS, 2013; BUDÓ, 2015; COLOGNESE, 2017).
Segundo Medeiros (2013), essa lógica de procedimentos é previamente pensada e
estabelecia para alcançar os objetivos da corporação, especialmente aqueles
relacionados a estabilidade no mercado, poder e maiores lucros.
De acordo com Tombs e Whyte (2015), as atividades de grandes corporações
causam diversos efeitos colaterais como empobrecimento, danos à saúde e
degradação ambiental, porém essas corporações dificilmente pagam pelos efeitos
de suas atividades danosas. Os Estados não consideram os danos a longo prazo no
momento em que permitem a instalação de uma multinacional no país, essas
grandes corporações omitem em seus balanceamentos e demonstrações financeiras
qualquer tipo de produto que seja nocivo (TOMBS; WHYTE, 2015, p. 34). Quando
esses danos acontecem eles recaem sobre os indivíduos, como no caso de
enfermidades derivadas das atividades laborais, os indivíduos pagam duas vezes
com a perda da saúde e de forma econômica tentando recupera-la, em razão de
questões políticas e econômicas todo esse processo acaba sendo sancionado pelos
Estados (HALL, 2014; BERNAL et al, 2014).
Mesmo havendo denúncias contra as ações e omissões corporativas,
sobretudo da área da sociologia e criminologia, essas corporações continuam com
suas práticas, demonstrando a existência dependência social, cultural e econômica
do Estado, “indicando que o seu poder está acima do Estado soberano”
(MEDEIROS, 2013, p. 22). As vítimas ficam completamente desamparadas tornando
os movimentos sociais o único meio de luta social e política, como no caso da
Associação Brasileira de Expostos ao amianto.
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B) Estado: a responsabilização do Estado apareceu em segundo plano nas


falas dos/das participantes. O Estado sempre aparece como omisso, irresponsável e
conivente com os atos da empresa: “O Estado foi omisso, muito omisso ele agora
depois que apareceu que ABREA nasceu que a gente começou a falar ele veio
vindo mais. Eu acho que só a fundacentro ajudou nóis” (Reginaldo Ferreira, 2017).
Existe um sentimento de abandono por parte das vítimas, que por muitos anos foram
invisibilizadas. Para eles e elas era impossível que os entes de fiscalização do
Estado não tivessem conhecimento de todos os danos que as empresas de
fibrocimento amianto estavam causando.

Eu acho que os governantes é que são muito irresponsáveis de saber que


isso ai é um caso mundial, se fosse aqui no Brasil só era diferente, mas isso
aí é mundial, todos eles estão sabendo, e eles, todos eles são, eu acredito
que todos esses que toma conta do nosso Estado, nosso Brasil, eles sabem
do perigo que o amianto traz, mas eu acho que o dinheiro fala mais alto.
(Josivaldo da Silva, 2017).

Para Colognese (2017), a omissão do Estado nos casos de vitimizações


ocasionadas por grandes corporações ocorre por duas razões: primeiro pela falta de
capacidade e poder político e econômico para realizar fiscalizações, principalmente
no caso de países marginais, e segundo para que não ocorra o rompimento de força
econômica e de produção com grandes corporações, assim acaba por não impor
nenhuma regulamentação mais dura de fiscalização. “A invisibilidade de grande
parte da vitimização massiva como resultado de ações ou omissões do Estado,
reacende a investigação em matéria de criminalidade estatal, haja vista a interação
entre o ente púbico e a responsabilidade corporativa” (COLOGNESE, 2017, p.145).
O caso da vitimização da indústria amiantífera se enquadra nos estudos realizados
por Cohen (1996), sobre violação de Direitos Humanos por Estados, pois por muito
tempo as autoridades Brasileiras foram coniventes com as atividades das empresas,
permitindo o uso controlado do amianto em diversos estados do país, havendo a
negação literal dos danos.
Os/as participantes denunciaram o conluio entre o Estado e a empresa a
partir de suas falas: “a Enternit, convencem esses deputados, esses ministros, e
acaba convencendo isso aí, e pra não aprovar as leis, pra não banir, que o amianto
já era pra ser banido á muitos anos atrás já, não agora, já tá muito tarde” (Josivaldo
da Silva, 2017). De acordo com Bauman (1999b), em razão de muitas influências
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econômicas sociais houve um distanciamento dos Estados na modernidade, que


pouco exercem a função de interventor para assumir o papel de garantidor da
estabilidade econômica e política. Esse distanciamento dos Estados ocorreu a partir
das privatizações de empresas públicas e das políticas de livre comércio que se
espalharam mundialmente (BAUMAN, 1999b, p. 63-80).

Não é exagerado dizer que o Estado tornou-se um aparato utilizado por um


bloco de poder, como, por exemplo, corporações de uma determinada
indústria, para assegurar, manter e ampliar seu domínio sobre a economia,
política e sociedade, bem como sobre as agências reguladoras. Nesse
sentido, as corporações se utilizam de variados recursos e estratégias para
alcançar o domínio global, como o abastecimento de matéria-prima a preços
mais baixos e a criação de parcerias com outras corporações (MEDEIROS,
2013, p. 16).

Para Ricardo Esteves Batista, o culpado pela cadeia de danos é o Estado.


Existe uma responsabilidade do Estado para com seus cidadãos e cidadãs que
sustentam as bases econômicas do país. “O cidadão sustenta o Estado que é um
Estado muito forte né! Mas na verdade a gente vê um Estado trabalhando em prol
dos patrões! Infelizmente o poder do Estado é usado para os patrões! Os patrões
eles usam isso esse poder!” (Ricardo Esteves Batista, 2017).
Ricardo Esteves Batista acredita que a privatização da saúde é um dos
fatores que agravam severamente a situação dos trabalhadores e trabalhadoras do
Brasil. A partir dessas privatizações, tornou-se mais difícil os diagnósticos e os
tratamentos de doenças ocupacionais: “o próprio Estado é usado para beneficiar
esses patrões que vem para arrebentar a saúde do povo do trabalhador! Por
exemplo, os convênios tira o trabalhador de um serviço público, que ele poderia ter
procurado [...] mas ai ele é enganado!” (Ricardo Esteves Batista, 2017). Nesse
ponto, o entrevistado se referiu a um conluio entre o Estado e os convênios
particulares, pois há uma precarização dos serviços públicos de saúde, e um
incentivo ao Neoliberalismo e ao livre mercado (BUDÓ, 2015, p, 278).
Com o distanciamento do Estado e as privatizações de empresas públicas
(BAUMAN, 1999b), as corporações passaram a possuir uma maior mobilidade,
poder de escolha de suas localizações e operações afastando restrições e limitações
(SOROS, 2001, p.199). “E assim, o Estado perdeu as forças no papel de mediação
entre o mercado e a sociedade” (MEDEIROS, 2013, p. 18). Para Budó (2015), em se
tratando da indústria do amianto no Brasil, os danos e as vitimizações são derivados
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de uma violência organizacional. “O poder econômico aliado ao poder político


garantem a persistência da permissão do risco aos trabalhadores e todas as
pessoas expostas ao amianto no Brasil” (BUDÓ, 2015, p, 280), esses danos são
oriundos de decisões que foram tomadas propositalmente a partir de violências
estruturais e o desrespeito de direitos fundamentais.

3.2.4 Marcas da memória: sentimentos em relação aos danos

Dentre muitos, o caso da vitimização ocasionada pela exposição ao amianto


foi invisibilizado por muitos anos. Conforme os relatos dos/das participantes durante
muito tempo não se sabia nada sobre a nocividade da fibra e muitos foram os
mecanismos usados pelas empresas juntamente com ações e omissões do Estado
que contribuíram para essa invisibilização da vitimização em larga escala. Foi a
partir da memória desses indivíduos que consegui acessar e compreender as suas
experiências de vitimização.
Desde o momento em que aceitei o desafio de realizar este trabalho, eu
soube que iria lidar com muitas situações que envolveriam fortes emoções dos
indivíduos. O fato de relatarem os acontecimentos fez com que muitos dos/das
participantes revivessem seus sentimentos em relação aos danos sofridos. Dessa
forma, é importante que essas subjetividades apareçam no presente estudo.
Como forma de melhor elucidar a presente categoria criei duas subcategorias
com base nos sentimentos relatados pelos participantes a) Perda, revolta e luta pelo
banimento e b) Angustia e medo da morte.
A) Perda, revolta e luta pelo banimento: Uma característica específica do
grupo participante que ficou evidente a partir dos relatos foi o dano psicológico de
todos e todas em relação a perda de entes queridos. A convivência com as doenças
e a morte marcou e vida desse grupo: “[...] é uma história difícil pra você ficar
comentando com os filhos, às vezes eles perguntam, eles não gostam, porque eles
viram o sofrimento do pai” (Isabel Tedesco, 2017).
Isabel me relatou que por anos viu o esposo já falecido ter que dormir sentado
para poder respirar fazendo o uso de bombinha, disse que o esposo pesava entorno
de 86 kg e faleceu pesando 30 kg. Maria do Carmo da Silva também perdeu o
marido ex trabalhador da fábrica Eternit em condições parecidas:
90

Mas o que mais sentiu e fica marcado dentro da gente. Cê sabe quantas
pessoas sofreu. Foi a falta de ar que ele sentia e o modo dele dormi. Era
isso aí. Foi um sofrimento, isso foi anos, e anos e anos, porque ele entrou lá
acho que com 14 anos, trabalhou 30 anos, foi uma vida, né? E quando ele
morreu, com um pulmão duro né. Pedrado que falam, então é isso aí, quer
dizer, atacou de cheio o pulmão né? Pelo sofrimento dele, eu acho assim,
porque ele começou, praticamente na infância né. Menino né. E ficar a vida
inteira assim, sofreu bastante, sofreu bastante (Maria do Carmo da Silva,
2017).

As duas senhoras se emocionaram muito ao falarem do sofrimento dos


maridos falecidos, Isabel me relatou o sentimento de abandono em relação aos
acontecimentos por parte dos donos da fábrica: “eu não tive apoio nenhum, só
tinham apoio deles quando ele trabalhava, quando ele era um funcionário, mas
depois que ele faleceu, eu não tive apoio nenhum” (Isabel Tedesco, 2017). Maria do
Carmo da Silva me contou que se sentia impotente diante da situação no marido:
“ele punha os remédios, ali na cama, ele tomava, ele acordava, ele não acordava
ninguém, a gente acordava, mas ele não queria. Que não precisava, e então você
ficava somente observando a coisa acontecer né” (Maria do Carmo da Silva, 2017).
Outro ponto que foi muito mencionado e também muito marcante durante as
entrevistas foi as falas dos ex trabalhadores da fábrica sobre a perda dos amigos e
colegas de trabalhos, posso dizer que essas foram as falas mais emocionantes que
presenciei durante a pesquisa: “eu acompanhei alguns dos meus amigos, com a
mangueirinha no nariz, né, o botijão lá na cozinha, e ele preso feito um cachorrinho,
é desagradável”(Alberto Pereira, 2017). Quando entrevistei Dirceu de Castro e
Reginaldo Ferreira ao final das entrevistas percebi a necessidade de ambos de me
contarem as histórias vivenciadas dentro da fábrica junto dos parceiros de trabalho.
Mostraram-me fotos da época de trabalho nomeando os amigos já falecidos.
Quando entrevistei Josivaldo da Silva, ele se emocionou muito no momento
em que falou dos colegas já falecidos. Notei um engasgo no momento em que ele
disse que muitas esposas de trabalhadores morreram devido a exposição aos
rejeitos do amianto que eram levados para casa na roupa de seus maridos e que ele
mesmo comprava rejeitos da fibra para levar para casa e fazer tapetes que
liberavam muito pó. Nesse momento percebi o senhor muito emocionado,
transparecia um certo sentimento de culpa em seu rosto por ter levado os rejeitos
pra casa.
Para os ex-trabalhadores, a memória da morte dos colegas e a imagem das
pessoas adoentadas também se tornou um motivo de luta pelo banimento de
91

produtos que causam danos a saúde. “Contra o passado esquecido ergue-se e


resiste à memória política, as vítimas esquecidas retornam e exigem justiça, uma
justiça impossível (por definição, em sua plena realização), mas estratégica em suas
exigências do presente”26(RIVERA, 2011, p.47) Além disso, tornou-se uma forma de
superar a tristeza da perda dos entes queridos:

A indignação de ver os companheiros morrer e saber que hoje a gente


conseguiu acabar com isso é muito mais forte. A imagem é muito ruim. Ficar
pensando isso. Por isso que nós se joga na luta! Porque ficar pensando isso
é pior não vai resolver nada e vai maltratar muito mais. Então vamo brigar
contra essa desgraça pra acabar com isso e outros produtos contra
benzeno, contra mercúrio, contra o pó da china dos companheiros lá de
Santos a gente tá tudo ligado a essas luta hoje né. Cada dia que passa a
gente integra mais o movimento social contra os produto químico que mata
o ser humano mais ou menos isso (Dirceu de Castro, 2017).

Nesse caso, assim como na proposta de Rivera (2014), a memória coletiva


desse grupo se tornou uma forma de não esquecimento e também uma ferramenta
para que esse tipo de violência não ocorra com as futuras gerações: “olha o
sentimento é grande, deixa a gente revoltado e da forças pra gente lutar né. Articular
com os outros trabalhador tentar esclarecer a realidade né.” (Ricardo Esteves
Batista). Os ex-trabalhadores fundaram a Associação Brasileira de Expostos ao
Amianto –ABREA, no ano de 1995 com o intuito de conscientizar a população; fazer
os registros das vítimas e encaminhá-las ao atendimento médico especializado e
também lutarem pelo banimento do amianto a nível nacional. Sobre o início das
atividades da Associação Constantino Pires me relatou que:

Primeiro a gente precisava organizar. As pessoas estavam indo para casa


doente e sozinhos não tinha sequer uma ferramenta uma associação pra se
defender. Então nós passamos a fazer registros de nomes e homenagens
as pessoas que estavam lutando e demos o nome a uma praça do Aquino
Alves dos Santos que é o primeiro que morreu do amianto. Nós demos o
nome dele em uma praça. Aqui perto do centro de Osasco que era perto de
onde ele morava. A praça que uma vez por ano nós fazemos um ato
ecumênico lá que nós registramos uma semana de conscientização. De
politização e de coleta das pessoas que tiveram contato em outras
empresas, para que essas pessoas também procurem e a gente
encaminhava para advogados para as indenizações (Constantino Pires,
2017)

26Contra el pasado olvidado se levanta y resiste la memoria política, las víctimas olvidadas retornan y
exigen justicia, una justicia imposible (por definición, en su realización plena) pero estratégica en sus
reclamos del presente (Tradução nossa).
92

Após anos de luta no dia 29 de novembro de 2017 o Superior Tribunal


Federal declarou a inconstitucionalidade da Lei Federal 9.055/90 que no seu artigo
2º regulamentava a utilização e exploração do amianto de forma controlada, não
sendo mais possível a extração e comercialização do amianto no Brasil (SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL, 2017). Ao falarem da decisão do Supremo os/as participantes
expressaram um sentimento de dever cumprido: “Tá sendo gratificante. O pessoal
hoje em dia que estão recorrendo. Tão conseguindo alguma coisa. Só o fato do
supremo ter banido o amianto pra nós já é uma vitória. Tá sendo gratificante!” (Rita
de Cássia das Neves, 2017). Sobre os próximos passos a após o banimento, Dirceu
de Castro presidente da Associação Brasileira de Expostos ao Amianto - ABREA me
disse que irão se dedicar ao descarte apropriado dos rejeitos de amiantos “nosso
trabalho hoje aqui é preventivo”.

[...] ainda bem que baniu agora, porque, pelo menos essa juventude de
agora já vai diminuir as consequências, não vai passar pelo o que nós
passamos né, já vai sair fora de sofrimento e agora e única coisa que tem é
a gente tomar uma atitude, pra eles recolherem esse material né. Recolher
esse material, por que é um lixo perigoso né. Isso aí tinha que ter um
tratamento especial, porque, as pessoas que tem a caixa d'água, tem um
telhado na casa dele, vai tirar o telhado na caixa de água, ele não vai ter
condições de dar um destino próprio, destino correto pra esse material né.
Que vai acontecer, vai jogar numa caçamba, vai jogar nas viela, nas ruas aí
e nas praças! Isso aí vai contaminar muita gente (Josivaldo da Silva, 2017).

Mesmo com a proibição da extração e comercialização do amianto no país,


aqueles que tiveram contato com o amianto continuam com a incerteza de como
será o seu futuro: conviver com a doença, medo de um possível diagnóstico e de
morrer subitamente.
B) Angústia e medo da morte: De acordo com Natali (2014, p. 13), a memória
coletiva tem a capacidade de despertar em vítimas ambientais dimensões
complexas, pois a partir do acesso à memória remonta-se um passado sofrido,
lugares que mudaram ou que não existem mais. Além disso, para Natali (2015), o
estudo das experiências relacionadas a contaminações são inestimáveis, os
indivíduos são contaminados individualmente, mas os reflexos são em perspectiva
macrossocial:

Ao empreender investigações empíricas dessa magnitude, será essencial


questionar concepções simplistas sobre como as vítimas se relacionam com
a "verdade desconfortável" da contaminação, observando com que
frequência elas discordam sobre a definição e interpretação dessa
93

realidade. Ao contrário do que a literatura científica dominante destaca, as


experiências sociais de sofrimento (físico e psicológico) "ambientais" são
repletas de dúvidas, desavenças, suspeitas, medos e esperanças27(NATALI,
2015, p. 90).

Pedro Correia de Andrade, ex-trabalhador, me relatou ter medo de morrer


subitamente: “cada vez que você tira um exame desses e te altera e você sabe que
tem esse problema que qualquer momento ele pode leva a morte! Morte porque ele
manifesta rapidinho ele tá quieto mas ele se manifesta como um câncer!” (Pedro
Correia de Andrade, 2017). Assim como Pedro Correia de Andrade, os demais ex
trabalhadores contaminados com amianto que entrevistei também relataram a
angústia e do medo de morrerem subitamente por causa da doença: “eu tenho
quase que plena certeza que hoje eu falo cansado, porque eu não vou conseguir
escapar desse bujão [...] Os dois pulmões meus estão impregnados de amianto.
Tenho muita dificuldade pra respirar” (Reginaldo Ferreira, 2017).
Dos 8 ex trabalhadores que foram entrevistados, 7 possuem doenças ligadas
à exposição ao amianto: asbestose, mesotelioma ou placas pleurais. O sentimento
que ambos compartilham, é o medo de terminarem suas vidas como os amigos já
falecidos, sem poder respirar e fazendo uso diário de um cilindro de oxigênio: “fui
visitar muitas pessoas dentro de casa em tubo de oxigênio né, não dava nem pra
poder respirar, aquilo é um absurdo” (Jorge Maciel Viana, 2017). Dos ex-
trabalhadores, Geraldo Ramos é o único que não possui nenhuma doença, porém
me relatou que vive a angústia e com medo de um possível diagnóstico. Em razão
disso, Geraldo Ramos faz exames periodicamente. “Em março agora vou ter que
fazer, vou ter que fazer em março espirometria, vai ter que fazer mais dois exames,
né, que em abril está previsto pra mim fazer, tá marcado pra mim fazer, aquele...
Ultrassonografia” (Jorge Maciel Viana, 2017).
Maria do Carmo da Silva, também compartilha do sentimento de angústia de
um possível diagnóstico, pois ela passou anos lavando as roupas de trabalho do
esposo falecido, e teve contato direto com o pó de amianto. Hoje em dia, ela, assim
como Jorge Maciel Viana, faz exames periodicamente por medo de um possível

27Nell’intraprendere indagini empiriche di questa portata sarà essenziale mettere in dubbio concezioni
semplicistiche su come le vittime si rapportano alla “scomoda verità” della contaminazione,
osservando come spesso esse stesse non siano d’accordo sulla definizione e sull’interpretazione di
quella realtà. Diversamente da quanto evidenzia la letteratura scientifica dominante, le esperienze
sociali di sofferenza (fisica e psicologica) “ambientale” sono costellate di dubbi, disaccordi, sospetti,
paure e speranze. (Tradução nossa).
94

diagnóstico, considerando o espaço temporal entre a exposição e o aparecimento de


alguma doença que pode levar décadas para se manifestar.

[...] em um belo dia, que não faz tempo, não faz 1 ano ainda, eu tive um
negócio assim de madrugada querendo (som de engasgar), ah e depois
daquilo, gritei, assim desesperada veio meu filho, as meninas que estavam
lá em casa, já correu e já pegou a bombinha de bronquite que ele usava e
me trouxe, depois de uns dois, três minutos assim (sem ar), voltou ao
normal, não é! Aí depois eu comecei a pensar, será que eu não peguei
também? (Maria do Carmo da Silva, 2017).

A presunção da morte é um sentimento que assombra os indivíduos


contaminados com amianto, pois não existe cura para asbestose e mostelioma as
doenças são progressivas, o que existe, são tratamentos que auxiliam no aumento
da sobrevida como quimioterapia e radioterapia (JANELA; PEREIRA, 2016). “A
gente vendo o que tá acontecendo com os colegas de trabalho da gente! [...] isso aí
a gente vai pondo na mente e a gente vai ficando muito aborrecido em saber disso,
porque a gente não sabe o dia de amanhã como essa doença vai evoluir!” (Josivaldo
da Silva, 2017). Josivaldo me relatou que o que conforta é a união que existe na
Associação.

E os meus colegas que foram embora né teve muitos que nem sabiam do
problema né. E foram embora não tiveram direito a nada. A família não teve
direito a nada. E foram embora com esse problema do amianto né que
ninguém sabia. Quando foram descobrir já tinha ido embora. Ou já tava com
um problema seríssimo, não tem recurso pra isso né. A pessoa geralmente
quando não espera tá indo embora com esse problema do amianto né. Dai
a gente fica com essa preocupação. Fica em mim e fico pelos meus colegas
também que tá com esse mesmo problema do amianto né (Pedro Correia
de Andrade, 2017).

Conforme demonstram os relatos, a história do grupo participante tem um


ponto em comum: a memória das experiências de vitimização. De acordo com Veras
(2010), a vitimização coletiva ocasionada pelos poderosos é a de cunho mais grave,
pois geralmente suas vítimas são as mais desfavorecidas financeiramente
dificultando a realização de tratamentos médicos, psicológicos e a realização de
exames, acarretando uma perpetuação dos danos nas vidas dessas pessoas. Essa
é uma característica presente nos relatos dos/das participantes dessa pesquisa,
mesmo com o banimento do amianto e luta pelos seus direitos e indenizações,
esses indivíduos continuam a conviver com os efeitos danosos da vitimização
diariamente, sejam eles físicos ou psicológicos.
95

De acordo com o criminólogo Iñaki Rivera Beiras, a categoria memória deve


ser utilizada como ferramenta de trabalho para documentar os danos sociais
ocasionados por Estados e Mercados (RIVERA, 2014). A memória como elemento
de estudo não permitirá que atrocidades massivas passem despercebidamente,
como ocorreu anteriormente diante do pensamento criminológico, dessa forma
Rivera propõem que:

Aqui é interessante ressaltar que o desenvolvimento de uma disciplina que


realmente procure abordar em sua epistemologia a produção de sofrimento,
vitimização e danos causados na civilização, deve contemplar dois dos
maiores produtores de tais processos: Estados e Mercados (RIVERA, 2014,
p. 267)28.

Para Anitua (2015, p.837), a memória é útil para que se possa prever e evitar
irracionalidades, medos, angústia racional e novas tragédias. “O testemunho e a voz
das vítimas farão parte da ‘memória’ para uma criminologia respeitosa dos direitos
humanos. Isso parece geralmente aceito pelos pensamentos criminológicos do
começo do XXI” (ANITUA, 2015, p. 849). Assim como no presente estudo, na
investigação empírica criminológica realizada por Medeiros (2013), a memória
também foi um fator importante. A memória é uma ferramenta do poder coletivo de
preservação da identidade, pode ser usada não só na escrita de livros, mas também
por meios informais como na fala, é a principal ferramenta contra o esquecimento da
história, além disso, é uma forma de resistência (MEDEIROS, 2013, p. 121).

3.2.5 Percepção de justiça em relação aos danos: efetividade da justiça


“divina”

Ao instigar os/as participantes sobre o que seria justiça em relação aos


danos, Sebastião Vasconcelos relatou-me que justiça seria o pagamento de uma
boa indenização para que ele pudesse comprar seus remédios e ter uma boa
alimentação, porém Sebastião disse não acreditar na “justiça dos homens”: “a justiça

28Aquí interesa señalar que el desarrollo de una disciplina que pretenda de verdad abordar en su
epistemología la producción de sufrimiento, de victimización y de daño causado en la civilización,
debe contemplar a dos de los grandes productores de semejantes procesos: los Estados y los
Mercados. (Tradução nossa).
96

de Deus vai fazer! Que todo esse crime que ela cometeu com a gente seja reparado
né!” (Sebastião Vasconcelos, 2017).

[...] eu não aguento pegar um peso de jeito nenhum. Tô com fé em Deus!


Eu tenho fé em Deus a justiça dos homens é falha! Mas a justiça divina não
vai falhar! Tô aposentado desde 82, mas tô grato a Deus e confio nele, e ele
que vai fazer a justiça! (Sebastião Vasconcelos, 2017).

Para Reginaldo Ferreira, a justiça aconteceu quando o Supremo Tribunal


Federal decidiu pala inconstitucionalidade do dispositivo que permitia a extração e
comercialização do amianto no país. No momento em que me relatou esse fato,
Reginaldo Ferreira associou a responsabilidade pelo banimento a sua crença
religiosa: “isso foi uma dádiva de Deus que mexeu na cabeça de algumas pessoas
que conseguiram banir o amianto do Brasil e eu quero que ele seja banido da face
da terra, porque assim as futuras gerações não vão sofrer o que estamos sofrendo”
(Reginaldo Ferreira, 2017). Para Clementina Vieira dos Santos, viúva de ex-
trabalhador da Eternit, a justiça começou a ser feita a partir da decisão do Supremo
“[...] tá sendo gratificante! O pessoal hoje em dia que estão recorrendo! Tão
conseguindo alguma coisa! Só o fato do Supremo ter banido o amianto pra nós já é
uma vitória!”, assim como Reginaldo Ferreira, Clementina Vieira dos Santos atribuiu
essa conquista a “Deus”.
Na pesquisa empírica realizada por Colognese (2017), com as vítimas
atingidas pelos rejeitos das barragens em Mariana-MG, o fator religioso também
apareceu como uma forma de superação e também um meio de união entre as
vítimas. “A tentativa de manter os laços culturais e sociais é um trabalho que vem
sendo feito pelos movimentos sociais. [...] Existe um trabalho muito forte para que as
vítimas reencontrem isso. Especialmente os festejos religiosos” (COLOGNESE,
2017, p. 127). No discurso de uma das participantes da pesquisa realizada por Budó
(2017a), do caso italiano em Casale Monferrato, o fator religioso também apareceu
relacionado à esperança de cura de uma das vítimas diagnosticadas com
mesotelioma: “nos sete meses desde o diagnóstico até a sua morte, mesmo de
licença do trabalho, viveu normalmente, o que alimentava a fé na cura”(BUDÓ,
2017a,p. 205).
De acordo com pesquisas da área da saúde, crenças e práticas religiosas são
facilitadoras do enfrentamento de situações pós-traumáticas: “a religião é um
97

instrumento de explicações que ajudam a dar significado às experiências de doença


e morte” (BAUSSUNO et al., 2011, p.400). Jorge Maciel Viana gostaria que o Poder
Judiciário fosse mais célere no pagamento de indenizações, ele relatou que muitos
dos colegas faleceram antes de conseguirem receber os seus direitos. Além disso,
ele disse que parte da justiça foi feita com o banimento da exploração e
comercialização do amianto no Brasil: “[...] ninguém fazia nada! Então nós
montamos a Associação e graças a Deus nós vencemos a batalha né! Que hoje em
dia o amianto ta banido! Agradecer primeiramente a Deus e depois a gente aqui!”
(Jorge Maciel Viana, 2017).
Isabel Tedesco disse-me não confiar na justiça feita no país, também
reclamou da celeridade da justiça em relação aos pagamentos das indenizações. “O
que eu vou te dizer sobre a justiça, ela é muito lenta no Brasil! Conheço pessoas
aqui dentro da ABREA que está com o processo há vinte e três, vinte e quatro anos
e não ganhou! [...] Mas Deus é maior né! E sabe o que faz!” (Isabel Tedesco, 2017).
Diferentemente da maioria dos/das participantes da pesquisa, Josivaldo da Silva e
Dirceu de Castro possuem percepções diferentes sobre a ideia de justiça em relação
aos danos ocorridos. Para Josivaldo da Silva que foi diagnosticado com asbestose,
nunca haverá justiça, pois para ele não há indenização que pague a sua falta de
saúde:

Justiça, a gente não tem mais o que fazer viu! Porque a justiça é o seguinte,
eu acho que não tem dinheiro que pague a saúde da gente! Não tem coisa
melhor do que a saúde! E depois que você perdeu a saúde, a gente entra
com processo como eu entrei com processo, ganhei o processo, já fazem
13 anos mais ou menos e até agora não recebi nada, mas não é isso aí o
problema! O problema é a saúde da gente, o dinheiro não paga
saúde!(Josivaldo da Silva, 2017).

Já Dirceu de Castro, presidente da Associação Brasileira de Expostos ao


Amianto-ABRE, a justiça só se concretizaria com a prisão dos donos da empresa:
“então esses caras não tem escrúpulos são uns bandidos dos bandidos do amianto
da morte no mundo, esses cara merecia ta na cadeia pelo resto da vida entendeu!
Pagando!” (Dirceu de Castro, 2017), os donos da empresa ganharam muito dinheiro
se aproveitado dos seus empregados e jamais irão pagar o que realmente é devido.
As vítimas representam suas ideias de justiça de formas distintas, mas o que
percebi é que na maior parte das opiniões houve menções relacionadas a fatores
religiosos. “Estudos mostram que as medidas de religiosidade e espiritualidade se
98

comportam como fatores preditivos de bem-estar e suporte social” (PERES et al.,


2007, p.85). Apesar de mencionarem os desejos de pagamentos de indenizações,
pena de reclusão e o banimento total do amianto e seus rejeitos a nível nacional, o
fator religioso e a espera de uma justiça divina sempre apareciam como a forma
mais efetiva de justiça para essas pessoas.
Apurar o sentimento de injustiça pode ser muito complexo, a compreensão de
sofrimento é cheia de especificidades, não sendo possível calcular o sofrimento de
cada pessoa. Justiça seria uma forma de resposta ao sofrimento de cada pessoa
que sofreu algum tipo de dano (KOSOVSKI, 2004), porém existem fatores que
dificultam a efetividade dessa resposta, como por exemplo, a falta de empatia e o
enrijecimento dos entes que proferem essa resposta, o estudo da vitimologia deveria
ser sempre de caráter interdisciplinar (KOSOVSKI, 2004, p. 129).
99

4 CONCLUSÃO

No campo do direito, ainda são poucas as pesquisas de cunho empírico que


se proponham a descrever a realidade social a partir da interação e observação dos
atores sociais. Eu mesmo, até a realização do presente estudo, só havia realizado
pesquisas de exploração bibliográfica. As particularidades da pesquisa de campo
propõem importantes exercícios de reflexão para os pesquisadores e pesquisadoras:
sobre o seu lugar na pesquisa, de se colocar no lugar do outro, interpretação e
transformação dos dados.
São muito ricas as compreensões e a aprendizagens proporcionadas por
esse tipo de pesquisa, o olhar, o ouvir, o sentido que as pessoas dão para suas
experiências cotidianas. As ações, razões e motivos que constroem as bases
epistemológicas dos marcos teóricos utilizados em nossas pesquisas. Logo, a
realização do presente estudo se caracterizou como um desafio inovador onde pude
desenvolver e abordar teorias e metodologias já utilizadas por outros autores e
autoras alindo-as, aos significados e experiências de danos sociais e de vitimização
estatal-corporativa ocasionada pela exposição ao amianto que me foram relatados
pelos participantes. A questão que orientou a pesquisa proposta foi: como as
pessoas expostas pela indústria do amianto a) representam os danos causados a
elas, à sociedade e ao meio ambiente; b) significam a experiência da vitimização; e
c) percebem a responsabilidade do Estado e da indústria em relação a esses
danos?
Dessa forma, pude apurar que: a) para as vítimas, o dano significa a perda da
saúde física, mental, de amigos, familiares e de um meio ambiente saudável; b) a
experiência de vitimização para essas pessoas é ter suas capacidades privadas e a
incerteza em relação a um futuro diagnóstico, é sofrimento e falta de esperança na
justiça exercida pelos humanos em razão da apatia social; e c) a percepção das
responsabilidades em relação aos danos para as pessoas participantes da pesquisa
é de um Estado omisso e conivente com as práticas predatórias da indústria do
amianto.
No primeiro capítulo, ao realizar a exploração da literatura da criminologia
crítica e da criminologia verde pude apurar que: deslocar os conceitos de crime para
o de dano social, vítima criminal para vítima ambiental e de justiça criminal para
100

justiça ecológica, possibilitam a ampliação no debate sobre interferências sociais


causadoras de vitimizações massivas humanas e não humanas. Esses enfoques
não são abarcados pela criminologia tradicional e pelo estudo dogmático penal.
Por muito tempo, a própria criminologia se absteve de tratar sobre essas
temáticas, mas com novos rumos em direção à construção de uma criminologia
global, criminólogos e criminólogas iniciaram a renovação do pensamento crítico e o
compromisso com a justiça social. A denúncia tornou-se um instrumento utilizado
pelos cientistas sociais no combate aos danos sociais e as vitimizações em larga
escala.
As perspectivas do dano social e da vitimização ambiental, visibilizam o
descaso e a exploração massiva do meio ambiente dos Estados e das grandes
corporações. As consequências são graves, impactos socioambientais, prejuízo
significativo das necessidades e da qualidade de vida das gerações futuras e
também a produção de morte em larga escala.
A propagação do capitalismo global torna insustentável todos os tipos de
relações, bem como a manutenção dos recursos naturais, impedindo que haja uma
convivência harmônica entre os seres vivos na Terra. O Capitalismo desenfreado e a
busca incessante pelo desenvolvimento visam como prioridade o lucro, fazendo com
que isso se sobreponha a todos os valores humanos, a democracia e também a
proteção ambiental.
A privatização, o incentivo à competitividade e a concorrência entre os
mercados impulsionaram exploração e degradação dos recursos naturais por
grandes corporações, que violam direitos e garantias fundamentais da sociedade
com ações ou omissões danosas. As corporações multinacionais e transnacionais se
tornaram predominantes em países marginalizados do sul global como no caso do
Brasil, em virtude dos privilégios e imunidades que aqui desfrutam. A realização de
práticas de encobrimento e de invisibilização de danos em países pobres. Essas
corporações possuem poder político e econômico para determinar as vidas das
pessoas: o que se veste, o que se come e o que se compra. Esses poderes
emergem do conluio com os Estados e a realização de lobbys com parlamentares
influenciando diretamente nas legislações que podem afetá-los.
Em se tratando de estudos em âmbito nacional, poucos são os autores e
autoras que trabalham com a análise de atividades ocultas e interesses não
101

revelados de grandes corporações, o que vemos são relatos sobre os grandes feitos
e seus impactos na economia do país. O estudo sobre a indústria do amianto se
enquadra nessa perspectiva. Mesmo com a exploração e mercantilização do
amianto tendo sido banida em diversos países do norte global ainda na década de
1990. A decisão de banir a fibra em âmbito nacional só se concretizou em novembro
de 2017.
As estratégias utilizadas pela indústria amiantífera juntamente com os
governos e outras corporações, preservaram suas as práticas de exploração:
descumprimento de leis que tratam da proteção de trabalhadores; atos protelatórios
em processos judiciais indenizatórios; o financiamento de pesquisas que falassem a
favor do uso do amianto crisotila e influenciassem os processos judiciais; o suborno
de trabalhadores da indústria amiantífera para se posicionarem a favor das grandes
corporações Eternit, Brasilit, SAMA entre outras.
As doenças ocasionadas pela exposição ao amianto mesotelioma, asbestose
e placas pleurais não possuem cura, e apresentam o quadro de latência em até 30
anos. Esse fato demonstra que muitas mortes ainda ocorrerão no país, considerando
o banimento recente da exploração e mercantilização da fibra, e também o fato de
que agora o novo desafio é a destinação dos rejeitos e produtos com amianto que
ainda estão expostos pelo país. Se considerarmos o caso de Casale e Monferrato na
Itália ainda teremos muita luta pela frente, pois após o banimento as ações de
reparação e prevenção foram colocadas em segundo plano após o banimento.
Nesse ponto, a atuação dos movimentos sociais de vítimas expostas ao
amianto tem sido de extrema importância. As associações de vítimas proporcionam
amparo e atenção para aqueles e aquelas que possuem doenças relacionadas ao
amianto, e também aos familiares dessas vítimas. Essas associações também
exercem o papel de: informar e conscientizar aqueles e aquelas que não possuem
conhecimento sobre a nocividade do material; encaminhar os doentes a médicos
especializados como os da Fundacentro; e auxiliar na compreensão dos direitos das
vítimas e nos processos indenizatórios.
No momento, as associações brasileiras lutam para que sejam feitos
descartes adequados dos rejeitos e materiais de amianto ainda expostos no país.
Também trabalham e contribuem para o banimento do amianto em nível mundial,
visto que a indústria amiantífera ainda explora e mercantiliza a fibra em países como
102

a Índia, Paquistão e China. Nesse sentido, o olhar científico a partir da criminologia


tem muito a contribuir com a luta de pessoas que são lesadas diariamente por danos
sociais ocasionados por Estados e grandes corporações. O que torna a realização
de pesquisas como está primordial no campo do direito.
No segundo capítulo, busquei verificar as reflexões metodológicas e a
importância da investigação empírica no direito em casos de vítimas ambientais. E
por meio da metodologia e técnicas escolhidas analisei o cenário da vitimização
social e ambiental da cidade de Osasco - SP, a partir da representação dos cidadãos
e cidadãs expostos ao amianto e contrapus os dados ao objeto de estudo da
criminologia crítica e criminologia verde. Assim, de forma detalhada segui os
métodos de extração dos dados criando diversas categorias que ao final
constituíram um fenômeno maior o da vitimização pela indústria do amianto.
O elemento da memória foi fundamental, pois foi a partir das memórias dos
participantes que tive acesso a todas as experiências de vitimização que foram
vivenciadas pelos participantes em interação com os acontecimentos do cotidiano. O
acesso às memórias por vezes despertava desconforto nas vítimas por fazê-las
reviverem certas situações, mas também é um mecanismo precioso quando se trata
de casos onde há o silenciamento de violações de direitos fundamentais.
Assim como no caso de Casale os administradores e empresários da Eternit
Osasco se aproveitaram do ambiente fraterno construído pelos os operários para
invisibilização da nocividade da matéria prima do amianto. Conforme o estudo da
vitimologia características como ingenuidade é comum nesses casos tendo em vista
as necessidades e dependência econômica das vítimas. Além disso, havia o fator
dos “benefícios” oferecidos pelos empregadores que doavam e as vezes vendiam
rejeitos de amianto para que os trabalhadores levassem para casa. Fato que
intensificou as formas de vitimização.
As pessoas vítimizadas enquanto estavam sendo expostas a matéria prima
do amianto, não possuíam ideia dos danos que ela poderia causar. Ficou claro
diante dos discursos das vítimas que os chefes por detrás do nome da grande
corporação Eternit, se aproveitaram da ingenuidade dos trabalhadores e do
ambiente fraterno na fábrica para encobrir essas informações. Não podemos ignorar
o fato de que mesmo existindo a entidade corporação, são pessoas que a dirigem,
pessoas tomam as decisões, pessoas projetam sentimentos e objetivos sobre ela e
103

também são pessoas que criam as leis, o que justifica a imunização das práticas
rotineiras dos poderosos.
Essas questões justificam a ambiguidade na fala das vítimas quando
instigadas a falarem sobre a empresa. O aprisionamento mental é uma das
estratégias das grandes corporações se apropriando das aspirações dos indivíduos
para que eles se sintam parte da organização. A exploração do capital exercida por
essas grandes corporações instrumentaliza a vida das pessoas a qualquer custo em
razão da acumulação do poder e do capital. A vitimização ocorrida em Osasco se
assemelha aos casos de Casale Monferrato, Mariana e a tantos outros que ainda
seguem invisibilizados pelas articulações do poder. Dessa forma, a pesquisa de
observação participante bem como a análise criminológica a partir da perspectiva do
dano social, pode contribuir na visibilização e no empoderamento das vítimas
através dos seus discursos.
104

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dispositivo que permitia extração de amianto crisotila. Notícias STF 27 de
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117

APÊNDICE 1- TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Projeto de Pesquisa: Dano social estatal-corporativo e a vitimização ocasionada


pela exposição ao amianto na cidade de Osasco-SP: um estudo criminológico a
partir da representação das vítimas
Local da coleta de dados: cidade de Osasco – SP.
Pesquisador: Alexandre Marques Silveira Telefone para contato: (55) 991792376
E-mail: alexandremarquessilveira@gmail.com
Endereço: Rua Independência número 101, apto 31 – Passo Fundo –RS CEP
99010-041
Orientadora: Marília de Nardin Budó Telefone para contato: (55) 991233762
E-mail: marilia.denardin@imed.edu.br
Endereço: Rua Senador Pinheiro, número 304, sala 404, prédio B, 4º andar – Passo
Fundo – RS CEP 99070-220
Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Meridional Telefone: (54) 30459240
E-mail: cep@imed.edu.br
Endereço: Rua Senador Pinheiro, número 304, sala 408D, prédio B, 4º andar –
Passo Fundo – RS CEP 99070-220

Eu, Alexandre Marques Silveira, responsável pela pesquisa “Dano social


corporativo e a vitimização ocasionada pela exposição ao amianto: uma análise a
partir da representação das vítimas”, o/a convidamos a participar como voluntário/a
deste estudo. Esta pesquisa pretende analisar o modo como as pessoas expostas
ao amianto, ou familiares de pessoas expostas ao amianto significam o processo de
vitimização pela indústria, os danos sociais causados e a cadeia de
responsabilidades. Acreditamos que ela seja importante, pois pretende conhecer a
maneira como as vítimas do amianto têm percebido a relação entre a conduta dos
dirigentes das fábricas e as próprias empresas e os danos causados individualmente
a cada uma delas e seus reflexos na comunidade.
Para sua realização, será utilizada a entrevista não-estruturada e a
observação participante. Sua contribuição nesse estudo inclui a participação em
entrevistas em que irá falar livremente sobre sua experiência, e a observação de
aspectos do seu cotidiano que envolvam o processo de exposição/vitimização pelo
qual você ou seu familiar passou.
É possível que aconteçam os seguintes desconfortos ou riscos como:
inquietude ou ansiedade, ao remetê-los para a vivência de momentos tristes como a
descoberta de doenças e mesmo a experiência de exposição à fibra. Os benefícios
esperados a nível individual são diretos e indiretos, na medida em que haverá
oportunidade para reflexão e diálogo nas entrevistas e, ao mesmo tempo a
visibilização dos danos sofridos, caso seja do interesse do entrevistado e; em nível
coletivo, a contribuição se dá para o conhecimento sobre a maneira como as
experiências de vitimização pelo amianto ainda vêm ocorrendo em outros países, e
crescendo no Brasil. A grandiosidade dos danos ocorridos no norte global irá auxiliar
na compreensão dos processos que vêm se desenvolvendo no sul global. Trata-se
118

também de obtenção de documentação para auxiliar na busca pelo banimento do


amianto no Brasil.
Durante todo o período da pesquisa você terá a possibilidade de tirar qualquer
dúvida ou pedir qualquer outro esclarecimento com o pesquisador. Para amenizar os
riscos em caso de algum problema ou desconforto relacionado com a pesquisa, a
entrevista poderá ser suspensa a qualquer momento. Você tem garantida a
possibilidade de não aceitar participar ou de retirar sua permissão a qualquer
momento, sem nenhum tipo de prejuízo pela sua decisão.
As entrevistas serão gravadas com auxílio de um gravador portátil e
posteriormente transcritas. As informações desta pesquisa serão confidenciais e
poderão divulgadas, apenas, em eventos ou publicações, sem a identificação dos
voluntários, a não ser entre os responsáveis pelo estudo, sendo assegurado o sigilo
sobre sua participação. Fica, também, garantida indenização em casos de danos
comprovadamente decorrentes da participação na pesquisa.
Autorização
Eu,________________________________________________________, após
a leitura ou a escuta da leitura deste documento e ter tido a oportunidade de
conversar com a pesquisador responsável, para esclarecer todas as minhas dúvidas,
estou suficientemente informado/a, ficando claro que minha participação é voluntária
e que posso retirar este consentimento a qualquer momento, sem penalidades ou
perda de qualquer benefício. Estou ciente também dos objetivos da pesquisa, dos
procedimentos aos quais serei submetido, dos possíveis danos ou riscos deles
provenientes e da garantia de confidencialidade, bem como de esclarecimentos
sempre que desejar. Diante do exposto e de espontânea vontade, expresso minha
concordância em participar deste estudo.

___________________, ____ de ____de 2017.

_________________________ __________________________
Assinatura do(a) informante Alexandre Marques Silveira
Pesquisador responsável

___________________________
Marília de Nardin Budó – Coordenadora/ orientadora da pesquisa
119

APÊNDICE 2- TERMO DE CONFIDENCIALIDADE

Título do projeto: Dano social estatal-corporativo e a vitimização ocasionada pela


exposição ao amianto na cidade de Osasco-SP: um estudo criminológico a partir da
representação das vítimas
Pesquisador: Alexandre Marques Silveira Telefone para contato: (55) 991792376
E-mail: alexandremarquessilveira@gmail.com
Endereço: Rua Independência número 101, apto 31 – Passo Fundo –RS CEP
99010-041
Orientadora: Marília de Nardin Budó Telefone para contato: (55) 991233762
E-mail: marilia.denardin@imed.edu.br
Endereço: Rua Senador Pinheiro, número 304, sala 404, prédio B, 4º andar – Passo
Fundo – RS CEP 99070-220
Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Meridional Telefone: (54) 30459240
E-mail: cep@imed.edu.br
Endereço: Rua Senador Pinheiro, número 304, sala 408D, prédio B, 4º andar –
Passo Fundo – RS CEP 99070-220.
Os pesquisadores do presente projeto se comprometem a preservar a
confidencialidade dos dados dos participantes desta pesquisa, cujos dados serão
coletados por meio de Entrevista Não-estruturada e Observação Participante no
domicílio do participante. Informam, ainda, que estas informações serão utilizadas,
única e exclusivamente, para execução do presente projeto.
As informações somente poderão ser divulgadas de forma anônima e serão
armazenadas na sala 404 B, 4º andar localizada no prédio B da Faculdade
Meridional, na Rua Senador Pinheiro, 304 - Passo Fundo - RS – Brasil, sob posse
exclusiva deste pesquisador e da orientadora desta pesquisa Profª. Drª. Marília de
Nardin Budó. Após cinco anos os materiais armazenados serão incinerados
Este projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
IMED em 15/09/2017.

Osasco-SP ____de_____________de 2017

_____________________________________
Marília de Nardin Budó – Coordenadora/ orientadora da pesquisa

__________________________________
Alexandre Marques Silveira - Pesquisador responsável