Você está na página 1de 28

Por que os jovens estão fazendo pouco sexo?

Apesar do recuo dos tabus e da ascensão dos aplicativos de namoro, americanos


vivem recessão sexual

30.dez.2018 às 2h00

EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2018/12/30/)

KATE JULIAN

[RESUMO] Autora investiga por que, apesar da quebra de tabus


(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/tabu-do-corpo-nu-retorna-na-guerra-cultural-antimarxista-escreve-ze-

celso.shtml) eda ascensão dos aplicativos de namoro, o amor e o sexo vêm


perdendo espaço (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/cultura-permissiva-e-acesso-a-
pornografia-fazem-o-sexo-sair-de-moda.shtml) na vida de adolescentes e jovens adultos

(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/dupla-moral-sexual-ainda-faz-mulheres-esconderem-seus-corpos-e-

desejos.shtml).

 
Estes deveriam ser tempos de boom sexual
(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/sade-me-libertou-de-um-deus-corta-barato-diz-reinaldo-

moraes.shtml).
A parcela de americanos para quem o sexo entre adultos não
casados “não é nem um pouco errado” nunca foi maior. Nunca houve menos
novos casos de HIV nos EUA. A maioria das mulheres pode ter acesso a
anticoncepcionais gratuitos e não precisa de receita médica para obter a
pílula do dia seguinte.

Se você curte encontros passageiros e rápidos, o Grindr


(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/apos-denuncias-de-violencia-lgbts-criam-grupos-de-seguranca-e-buscam-

aulas-de-autodefesa.shtml) e o Tinder (https://www1.folha.uol.com.br/tec/2018/12/pessoas-estao-desconectadas-e-


solitarias-diz-chefe-do-tinder.shtml)oferecem
a possibilidade de sexo casual. A frase “se
uma coisa existe, há pornografia com ela” já foi um meme na internet; hoje, é
um truísmo. Podemos ver BDSM no cinema da esquina —mas para que ir até
lá? Há sexo no horário nobre da TV. O sexting se normalizou,
estatisticamente falando.

O poliamor (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/06/cartorios-sao-proibidos-de-registrar-unioes-
poliafetivas-decide-cnj.shtml)virou palavra do dia a dia. Termos carregados de vergonha,

como perversão, deram lugar a outros com som jovial, como “kink”. A Teen
Vogue (isso mesmo, Teen Vogue) chegou a publicar um manual sobre sexo
anal. Com a possível exceção do incesto e da bestialidade —e, é claro, da
relação não consensual—, nossa sociedade nunca foi mais aberta ao sexo do
que é hoje.

Apesar de tudo isso, porém, os adolescentes e adultos jovens americanos


andam fazendo menos sexo. Pesquisa dos Centros para o Controle e
Prevenção de Doenças, ou CDC, constatou que, entre 1991 e 2017, a
porcentagem de alunos do ensino médio que já haviam tido relações sexuais
caiu de 54% para 40%. No espaço de uma geração, o sexo passou de algo que
a maioria dos estudantes secundaristas já fez para algo que a maioria não
experimentou.

Enquanto isso, a taxa de gravidez de adolescentes nos EUA caiu para um


terço de seu pico dos tempos modernos. Quando essa queda começou, na
década de 1990, foi amplamente saudada, e com razão. Hoje, porém, alguns
observadores começam a se indagar se uma coisa inequivocamente positiva
pode ter sua origem em algo menos sadio. Há sinais crescentes de que o
adiamento do início da vida sexual pode ter sido o primeiro indício de um
recuo mais amplo da intimidade física —recuo que se estende até a idade
adulta.

Nos últimos anos, a professora de psicologia Jean M. Twenge, da San Diego


State University, vem publicando pesquisas sobre como e por que a vida
sexual dos americanos pode estar em declínio. Ela observa que é provável
que os adultos jovens de hoje tenham menos parceiros sexuais que os
membros das duas gerações anteriores. Pessoas que estão no início da casa
dos 20 anos têm 2,5 vezes mais chances de serem abstinentes sexuais do que
eram os membros da geração X nessa idade; 15% delas relatam que não
fizeram sexo desde que alcançaram a idade adulta.
Os membros da geração X e os “baby boomers” também podem estar
fazendo menos sexo atualmente do que faziam as pessoas de gerações
anteriores quando tinham a mesma idade. Do final da década de 1990 ao ano
de 2014, constatou Twenge, o número médio de relações sexuais dos adultos
passou de 62 vezes por ano para 54 vezes. Uma pessoa pode não se dar conta
dessa diminuição, mas, pensando em nível nacional, é muito sexo que deixou
de acontecer. 

Ilustração de capa da Ilustríssima - Tiago Elcerdo

Alguns cientistas sociais questionam certos aspectos da análise de Twenge.


Outros dizem que sua fonte de dados, apesar de ser respeitada, não é
adequada às pesquisas sobre sexo. Mas nenhum dos muitos especialistas que
entrevistei contestou a ideia de que o adulto jovem mediano de 2018 faça
menos sexo que aqueles de décadas passadas. Ninguém, tampouco,
questionou que essa realidade esteja fora de sintonia com a percepção
pública: a maioria de nós ainda pensa que as pessoas andam transando
muito mais do que de fato estão.

A antropóloga Helen Fisher, que estuda amor e sexo e é co-diretora da


pesquisa anual sobre solteiros feita pelo site de relacionamentos Match com
mais de 5.000 americanos, sinaliza que concorda comigo. “Eu sou baby
boomer. Parece que no meu tempo a gente transava muito mais que hoje.”

Como muitos outros especialistas, Fisher atribui o declínio da atividade


sexual a uma queda no número de jovens que formam casais. O número de
pessoas que se casam vem diminuindo há 25 anos, e as que o fazem
demoram mais a dar esse passo. Observadores achavam, a princípio, que a
queda se explicava pelo aumento no número de casais não casados —mas a
parcela de pessoas que dividem o mesmo teto sem formalizar o laço não
aumentou o suficiente para contrabalançar o declínio dos casados. 

Hoje, 60% dos adultos com menos de 35 anos vivem sem cônjuge ou
companheiro. Um em cada três dessa faixa etária mora com os pais —
arranjo que se tornou o mais comum para esse grupo específico. Quem vive
com um parceiro amoroso tende a fazer mais sexo, e morar com os pais
obviamente prejudica a vida sexual. Mas nem isso explica por que menos
jovens estão formando casais (casados ou não), para começar.

Ao longo de conversas com pesquisadores, psicólogos, economistas,


sociólogos, terapeutas, educadores sexuais e adultos jovens, ouvi muitas
outras teorias sobre algo que acabei por encarar como uma recessão sexual.
Ouvi que o fenômeno pode ser consequência da cultura do sexo casual, de
pressões econômicas, dos índices crescentes de ansiedade, de fragilidade
psicológica, do uso de antidepressivos, da TV por streaming, de estrógenos
emanados por plásticos, da queda nos níveis de testosterona, da pornografia
digital, da era de ouro do vibrador, dos aplicativos de namoro, da inércia
resultante do excesso de opções, dos pais superprotetores, da ênfase
exagerada na carreira profissional, dos smartphones, do ciclo noticioso, da
sobrecarga de informações de modo geral, da privação de sono, da
obesidade. Basta citar uma praga dos dias de hoje e alguém, em algum lugar,
já estará a postos para culpá-la por estar prejudicando a libido moderna.

Ilustração - Tiago Elcerdo

Alguns especialistas propuseram explicações mais esperançosas. Os índices


de abuso sexual infantil vêm caindo nas décadas recentes, e o abuso pode
levar a comportamento sexual precoce e promíscuo.

Outra ideia: graças à consciência crescente a respeito de orientações sexuais


diversas, incluindo a assexualidade, as pessoas hoje podem sentir menos
pressão para fazer sexo quando não querem. Talvez mais pessoas priorizem
os estudos ou o trabalho em detrimento do amor e do sexo, ou talvez
estejam sendo mais cuidadosas na escolha de um parceiro —e, em caso
positivo, isso é ótimo.

Muitas dessas alternativas podem ser verdadeiras, talvez todas elas. Mas
algumas poucas explicações possíveis reapareceram inúmeras vezes em
minhas entrevistas e nas pesquisas que analisei. Cada uma delas traz
implicações profundas para nossa felicidade.

1. SEXO A SÓS
O recuo do sexo não é um fenômeno apenas americano. Os países que
tentam rastrear a vida sexual de seus cidadãos (todos ricos) andam
verificando um declínio da atividade sexual ou o adiamento do início da vida
sexual. 

Um dos estudos sexuais mais respeitados do mundo, o Natsal (Levantamento


Nacional Britânico sobre Atitudes e Estilos de Vida Sexuais), informou, em
2001, que pessoas na faixa dos 16 aos 44 anos faziam sexo, em média, mais
de seis vezes por mês. Em 2012, o índice caíra para menos de cinco vezes por
mês.

Mais ou menos no mesmo período, australianos em um relacionamento


passaram do sexo 1,8 vez por semana para 1,4. Na Finlândia, houve queda na
frequência das relações sexuais e aumento no índice de masturbação.

Na Holanda, a média de idade para a primeira relação sexual passou de 17,1


anos em 2012 para 18,6 em 2017, e até o primeiro beijo foi adiado. A notícia
foi saudada não com alívio, como nos EUA, mas com preocupação. Um
educador avisou que, se as pessoas passam por cima de uma fase crucial do
desenvolvimento —que abrange não apenas paquera e beijos mas também
corações partidos e decepções amorosas—, é possível que cheguem à idade
adulta sem estar preparadas para seus desafios.

Enquanto isso, a Suécia, país com um dos índices de natalidade mais altos da
Europa, iniciou uma pesquisa recentemente, alarmada por sondagens que
sugeriam que também os suecos estariam praticando menos atividade
sexual. O ministro da Saúde sueco escreveu, em artigo para justificar a
realização do estudo, que “se as condições sociais para uma vida sexual boa
tiverem deteriorado, por exemplo devido ao estresse ou outros fatores não
sadios, isso é um problema político”.

Isto nos conduz ao Japão, que vive uma crise demográfica e já virou uma
espécie de estudo de caso sobre os perigos da falta de sexo. Em 2005, um
terço dos solteiros japoneses de 18 a 34 anos de idade eram virgens; em 2015,
eram 43% nessa faixa etária, e a parcela das que diziam não pretender se
casar também havia aumentado. Não que o casamento seja garantia de
frequência sexual: 47% das pessoas casadas não haviam feito sexo no período
de um mês.

Há quase dez anos, ocidentais atribuem o desânimo sexual do Japão à


ascensão de uma geração de “shoushoku danshi” —literalmente, “rapazes
comedores de capim”. Esses “homens herbívoros”, como são conhecidos em
inglês, encarariam com ambivalência a procura de mulheres ou de sucesso
convencional. 

Inicialmente, a maioria dos relatos sobre esse fenômeno feitos no ocidente


deixava subentendida a pergunta “o Japão é meio maluco, não?”.

Essa insinuação vem dando lugar à consciência de que a experiência


japonesa talvez não seja tanto uma curiosidade quanto um conto moral.
Roland Kelts, escritor nipo-americano, descreveu “uma geração para a qual
as exigências imperfeitas ou apenas inesperadas dos relacionamentos com
mulheres na vida real são menos sedutoras que a libido virtual”.

O Japão é um dos maiores produtores e consumidores de pornografia


(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/10/um-sonho-de-sexo-envolvendo-mira-schendel-e-alexandre-

e está na origem de novos gêneros de pornô. Também é líder no


frota.shtml)

design de bonecas sexuais de alto padrão. O que talvez seja mais revelador,
porém, é como o país vem inventando métodos de estímulo genital que não
se dão mais ao trabalho de evocar o sexo à moda antiga, ou seja, com mais de
uma pessoa.

Em seu livro de 2015 “Romance Moderno - Uma Investigação sobre


Relacionamentos na Era Digital”, o sociólogo Eric Klinenberg e o humorista
Aziz Ansari (que caiu em desgraça depois de um encontro casual que deu
errado) descrevem uma viagem ao Japão para buscar insights sobre o futuro
do sexo.

Ansari constatou que os herbívoros “estão interessados no prazer sexual” —


só que “não pelos meios tradicionais”. Entre as inovações mais populares no
país, ele notou, há “um ovo de silicone para ser usado e descartado”. “O
homem o enche de lubrificante e se masturba dentro do ovo. É uma maneira
de você evitar se arriscar lá fora e ter uma experiência real com outra
pessoa”, escreve Ansari.

Entre 1992 e 2014, a porcentagem de homens americanos que relataram ter


se masturbado em uma semana dobrou, chegando a 54%, e a de mulheres
mais que triplicou, atingindo 26%. O acesso fácil à pornografia
(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/04/porno-humanista-e-strip-tease-sem-nudez-agitam-vida-cultural-de-

é parte da explicação. O vibrador também exerce um papel


nova-york.shtml)

importante: as marcas, os modelos e as características deles se


multiplicaram.

É uma mudança especialmente espantosa quando se considera que a


civilização ocidental sempre teve uma visão muito negativa da masturbação,
desde pelo menos a época de Onã. Como relatam Robert T. Michael e seus
co-autores em “Sex in America”, no final do século 19, o fabricante de cereais
matinais J.H. Kellogg incentivava os pais americanos a tomarem medidas
extremas para impedir seus filhos de se masturbarem, como circuncisão sem
anestesia e aplicação de fenol no clitóris.

A masturbação continuou a ser tabu por boa parte do século 20. Nos anos
1990, quando foi lançado o livro de Michael, referências à masturbação ainda
eram recebidas com “risadinhas nervosas ou com choque e repulsa”.

Hoje, receios sobre os efeitos da masturbação —acompanhados de


preocupação com a onipresença da pornografia digital— voltaram a ser
manifestados por uma gama estranha de pessoas, entre elas o psicólogo
Philip Zimbardo, diretor do famoso experimento da prisão de Stanford, que
se tornou ativista antipornografia.
Em seu livro “Man, Interrupted”, Zimbardo avisa que a “procrasturbação”
(procrastinação com masturbação) pode estar levando os homens jovens ao
fracasso acadêmico, social e sexual. Gary Wilson, dono de um site chamado
Your Brain on Porn, alega algo semelhante.

Numa palestra TEDx que inclui imagens de cópulas animais além de muitas
tomografias cerebrais (humanas), Wilson argumenta que a masturbação
diante da pornografia na internet é viciante, provoca alterações estruturais
no cérebro e está gerando uma epidemia de disfunção erétil.

Essas mensagens são ecoadas e amplificadas por uma organização sem fins
lucrativos sediada em Salt Lake City, chamada Fight the New Drug (combata
a nova droga) —sendo a “droga” em questão a pornografia—, que já realizou
centenas de apresentações em escolas e outras organizações pelos EUA
afora. 

O site NoFap (“sem punheta”), subproduto de um mural popular do Reddit,


oferece aos membros da comunidade um programa para abandonarem a
prática do “fapping”, ou seja, masturbação. Ainda mais longe do mainstream,
a organização de extrema direita Proud Boys tem uma política de “não
admissão de punheteiros”. O fundador do grupo, Gavin McInnes, também co-
fundador da Vice Media, diz que a pornografia e a masturbação estão
levando pessoas a “nem sequer quererem namorar”.

A verdade parece ser mais complicada. Há poucas evidências de uma


epidemia de disfunção erétil entre jovens. E nenhum pesquisador com quem
eu conversei viu indícios convincentes de que o consumo de pornografia gere
dependência dela.

Isso não quer dizer que não exista correlação entre uso de pornografia e
desejo de sexo na vida real. Ian Kerner, terapeuta nova-iorquino e autor de
vários livros populares sobre sexo, diz que, embora não considere o consumo
de pornografia prejudicial à saúde (e recomende certos tipos dela a alguns
pacientes), trabalha com muitos homens que “continuam a se masturbar
como se tivessem 17 anos”, em detrimento de sua vida sexual. “Isso amortece
o desejo”, comenta.
O sexo pode estar em declínio, mas a maioria das pessoas continua a praticá-
lo —assim como, durante uma recessão econômica, a maioria das pessoas
ainda tem emprego.

É claro que a metáfora da recessão é imperfeita. A maioria das pessoas


precisa ter emprego; não é esse o caso dos relacionamentos e do sexo.
Conversei com muitas pessoas solteiras por escolha própria. Mesmo assim,
me surpreendi com a quantidade de pessoas na casa dos 20 anos que estão
profundamente infelizes com a situação geral do sexo e do namoro. A
despeito da diversidade de suas histórias, alguns temas comuns vieram à
tona.

Como se poderia prever, um tema recorrente foi a pornografia. Muitas


mulheres heterossexuais me disseram que o fato de terem aprendido sobre
sexo com pornografia parece ter ensinado hábitos sexuais lamentáveis a
alguns homens (falaremos disso mais adiante). De modo geral, contudo, as
duas coisas —fazer sexo com um parceiro e assistir sozinho a vídeos pornô—
existem em planos distintos.

“Meu gosto em pornografia e meu gosto em matéria de parceiras são muito


diferentes”, me disse um homem de 30 e poucos anos, explicando que vê
pornografia mais ou menos uma vez por semana e não crê que isso tenha
grande efeito sobre sua vida sexual. “Assisto aos filmes com a consciência de
que são ficção”, disse uma mulher de 22 anos.

Pensei nesses comentários quando o Pornhub, o maior site de pornografia


na internet, divulgou sua lista de buscas mais feitas em 2017. Em primeiro
lugar pelo terceiro ano consecutivo, estava “lésbicas” (categoria apreciada
igualmente por homens e mulheres). Mas o novo segundo colocado na lista
foi “hentai” —animês e mangás pornográficos. É claro que a pornografia
nunca se assemelhou ao sexo real, mas o hentai nem é deste mundo; a
irrealidade está na base de sua atração. 

Em outras palavras, a maior categoria de busca de pornografia envolve um


tipo de sexo que metade da população não tem o equipamento necessário
para praticar; e a segunda colocada é menos carnal do que alucinatória.
Muitas das pessoas mais jovens com quem conversei enxergam a pornografia
como apenas mais uma atividade digital —uma maneira de aliviar o estresse,
uma diversão. Ela se relaciona à sua vida sexual (ou falta dela) mais ou
menos como as redes sociais e as maratonas de TV.

Mas mesmo gente que está em relacionamento disse que a vida digital parece
estar competindo com a vida sexual. Parece um contrassenso: nossa fome de
sexo seria teoricamente um instinto primal. Quem é que preferiria trocar
amassos na vida real por carícias online?

Adolescentes, para começo de conversa. Um estudo intrigante publicado no


ano passado no Journal of Population Economics examinou a introdução do
acesso à internet de banda larga, região por região, e concluiu que a chegada
da conexão rápida explica de 7% a 13% da queda na incidência de filhos
nascidos de mães adolescentes entre 1999 e 2007.

Talvez o instinto sexual humano seja mais frágil do que pensávamos.

 
2. ENCONTROS E PAIS-HELICÓPTERO
Entrei no ensino médio em 1992, mais ou menos a época em que os índices
de gravidez e parto em adolescentes chegaram aos níveis mais altos em
décadas e quando a idade média de início da vida sexual caiu ao patamar
mais baixo dos tempos modernos, 16,9 anos.

Mais adiante na década de 1990, o índice de gravidez precoce começou a cair.


A novidade foi bem recebida, apesar de os especialistas não conseguirem
chegar a um acordo sobre o porquê de aquilo estar acontecendo. Os
adolescentes estavam começando a fazer mais uso de métodos
anticoncepcionais, mas não tanto para que isso pudesse constituir a única
explicação da mudança. Os grupos pró-abstinência sexual também tentaram
levar o crédito.

A tendência continuou: cada onda de adolescentes passou a iniciar a vida


sexual um pouco mais tarde, e o índice de gravidez continuou a cair. Mas
nada disso poderia ser apreendido diante das reações, no final dos anos
1990, contra a cultura dos “hookups”, ou encontros casuais. O New York
Times, por exemplo, anunciou em 1997 que o sexo casual “parecia ter
chegado ao auge” nas universidades.

Desde então as pessoas andam superestimando quanto sexo casual os


estudantes fazem (pesquisas revelam que até os próprios jovens o
superestimam). Nos últimos anos, porém, vários estudos e livros sobre a
cultura dos “hookups” começaram a corrigir essas estimativas. Um dos mais
meticulosos é “American Hookup: The New Culture of Sex on Campus”
(encontro americano: a nova cultura do sexo no campus), de Lisa Wade,
professora de sociologia no Occidental College.

Wade classifica os jovens que analisou em três grupos. Cerca de um terço dos
estudantes eram o que ela descreveu como “abstencionistas” —optaram por
fugir da cultura dos “hookups”. Um pouco mais de um terço eram
“experimentadores”: tinham encontros casuais ocasionais. Menos de um
quarto eram “entusiastas”, que partiam para “hookups” com prazer. Os
estudantes restantes estavam em relacionamentos longos.

Esse retrato condiz com as conclusões de um estudo de 2014 segundo as


quais os universitários da geração do milênio não estavam fazendo mais sexo
ou tendo mais parceiros sexuais que seus predecessores da geração X.

Também condiz com dados de um levantamento feito entre 2005 e 2011, com
20 mil universitários, que concluiu que o número médio de encontros
casuais ao longo de quatro anos de faculdade era cinco —sendo que um
terço desses encontros envolveu só beijos e carícias. A maioria dos
estudantes entrevistados disse que queria ter mais oportunidades de
encontrar namorado ou namorada firme.

Wade disse que a queda da atividade sexual entre adolescentes e jovens na


casa dos 20 anos não a surpreende. Para ela, os jovens sempre tenderam a
fazer sexo no contexto de um relacionamento. “Volte ao ponto da história em
que o sexo antes do casamento ficou mais comum e às condições que
levaram a isso”, ela explicou, aludindo à ansiedade decorrente da falta de
homens após a Segunda Guerra Mundial, que fez as garotas adolescentes no
final dos anos 1940 e da década de 1950 buscarem relacionamentos mais
sérios.
“Foi nessa época que as mulheres jovens inovaram com o namoro firme”,
disse Wade, explicando que os pais não reagiram bem ao novo costume —
eles teriam preferido o modo de cortejar praticado antes da guerra, com
encontros casuais e não exclusivos. “Se você sai com uma pessoa por uma
noite, vocês podem trocar carícias, alguns beijos quentes, mas o que vai
acontecer se você passar meses com a pessoa? E, assim, 1957 foi o ano que
teve a maior porcentagem de filhos nascidos de mães adolescentes na
história dos EUA.”

Já nas décadas mais recentes, o namoro entre teens parece ter se tornado
menos comum. Em 1995, o grande estudo longitudinal conhecido como Add
Health constatou que 66% dos rapazes e 74% das garotas de 17 anos haviam
tido “um relacionamento romântico especial” nos 18 meses anteriores. Em
2014, quando o Centro Pew de Pesquisas perguntou a jovens de 17 anos se “já
tinham saído, tido um encontro casual ou tido outro tipo de relacionamento
romântico” —categoria mais ampla que a anterior—, 46% responderam que
sim.

O que frustrou o namoro teen? A adolescência mudou tanto nos últimos 25


anos que é difícil saber por onde começar. Como escreveu Jean Twenge, a
porcentagem de adolescentes que informa ter ido a encontros românticos
diminuiu, assim como o índice dos que relatam outras atividades ligadas ao
ingresso na idade adulta, como beber álcool, ter um trabalho remunerado,
sair sem os pais e tirar carteira de motorista.

Essas novidades coincidem com outra grande mudança: a ansiedade


crescente dos pais em relação às perspectivas educacionais e econômicas de
seus filhos. Sobretudo entre os ricos e os com alto nível de instrução, essa
ansiedade levou a uma grande mudança no que se espera dos adolescentes. 

Sob a direção da professora de psicologia Alexandra Solomon, a disciplina


Casamento 101 é um dos cursos mais populares entre alunos de graduação na
Northwestern University. Virou também uma tentativa de combater o que
ela vê como o atrofiamento romântico e sexual de uma geração. Um dos
trabalhos que Solomon pede aos alunos é convidar outra pessoa para sair,
algo que muitos nunca fizeram.
A professora chegou a conclusões diversas sobre os “hookups”, ou algo que
poderia ser descrito como a cultura da falta de relacionamentos. Para ela,
essa cultura é tanto causa quanto efeito do atrofiamento social. Ou, como lhe
disse uma aluna: “Procuramos encontros casuais porque não temos
habilidades sociais. Não temos habilidades sociais porque temos encontros
casuais”.

Outra coisa é que, na medida em que seus alunos optam entre sexo casual ou
sexo nenhum, eles o fazem porque uma terceira opção evidente —o sexo
dentro de um relacionamento— é vista por muitos deles como algo não
apenas inalcançável mas também potencialmente irresponsável.

Solomon crê que muitos estudantes tenham absorvido a ideia de que o amor
tem importância secundária em relação ao sucesso acadêmico e profissional.
“Meus alunos vivem me dizendo que fazem muita força para não se
apaixonarem na faculdade, imaginando que isso atrapalharia seus planos.”

3. A MIRAGEM DO TINDER
Não faltou sexo na faculdade para Simon, pós-graduando de 32 anos que se
descreve como baixinho e careca (“se eu não fosse engraçado, estaria
perdido”, diz). Pouco antes de se formar, ele começou um relacionamento
que durou sete anos. Quando o namoro terminou, em 2014, Simon sentiu
como se tivesse saído de uma máquina do tempo, já que, antes do
relacionamento, não havia Tinder nem iPhones. 

“Meu primeiro instinto após o término foi ir a bares”, ele contou. Mas,
quando o fazia, voltava para casa sozinho. Simon teve a impressão de que,
em um período de tempo curto, paquerar tinha passado de comportamento
normal a algo quase assustador ou repulsivo. Seus amigos criaram uma conta
para ele no Tinder. Mas, para cada 300 mulheres pelas quais ele mostrou
interesse no aplicativo, Simon conversou com apenas uma.

Existe uma ideia, ao menos entre quem não usa apps de relacionamento, de
que eles facilitam o sexo casual, com eficácia sem precedentes. Na realidade,
a não ser que você seja excepcionalmente bonito, o que os apps de namoro
talvez façam melhor é desperdiçar tempo.
Em 2014, a última vez em que o Tinder divulgou esse tipo de dado, o usuário
médio entrava no site 11 vezes por dia. Os homens passavam 7,2 minutos por
sessão, e as mulheres, 8,5 minutos, totalizando cerca de uma hora e meia por
dia. Mas não recebiam grande retorno.

Hoje, a empresa diz que recebe 1,6 bilhão de “deslizar de dedos” por dia e
registra apenas 26 milhões de “matches”. E, a julgar pela experiência de
Simon, a grande maioria deles não leva a sequer uma troca de mensagens de
texto, muito menos a um encontro, muito menos ainda a sexo.

Então por que as pessoas continuam a usar esses apps? Simon explicou que
conhecer alguém offline parece ser cada vez menos provável. Seus pais se
conheceram em um coral após a faculdade, mas ele não se enxerga fazendo
algo semelhante. “Jogo vôlei”, comentou. “Dois anos atrás havia uma garota
no time que eu achava bonitinha, e a gente tinha trocado uns beijos.” Simon
quis convidá-la para sair, mas acabou concluindo que seria uma situação
“desajeitada”, até “uma grosseria”.

Perguntei-me se Simon não estaria sendo cuidadoso em excesso ou mesmo


paranoico. Mas, conversando com mais pessoas, comecei a pensar que ele
estava descrevendo uma realidade cultural emergente. “A paisagem do
namoro mudou. Hoje é menos provável que alguém convide você para sair na
vida real ou mesmo converse com você”, comentou uma mulher de 28 anos
de Los Angeles que disse estar solteira há três anos.

Essa mudança de hábitos (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/08/mundo-das-artes-e-sexista-


diz-curadora-de-exposicao-sobre-mulheres.shtml) parece
estar se acelerando em meio à
cobrança nacional por acusações de agressão e assédio sexual, com seu
deslocamento concomitante de limites. Segundo sondagem
Economist/YouGov de novembro de 2017, 17% dos americanos na faixa dos 18
aos 29 anos acreditam que um homem convidar uma mulher para um
drinque “sempre” ou “geralmente” constitui assédio sexual (porcentagens
muito menores dos grupos mais velhos pensam a mesma coisa).

Laurie Mintz, da Universidade da Flórida, ministra um curso universitário


sobre a psicologia da sexualidade. Para ela, o movimento #MeToo
(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/09/comediantes-stand-up-propoem-humor-de-resistencia-e-
conscientizou seus alunos sobre as questões ligadas ao
autoafirmacao.shtml)

consentimento. Mas há reações menos sadias, como evitar quaisquer


convites românticos por temer que não sejam bem-vindos. Homens e
mulheres com quem conversei falaram de uma nova hesitação e cautela.

Mencionei a várias pessoas que conheci meu marido em um elevador, em


2001. Fiquei fascinada ao ver como isso levava outras mulheres a suspirar e
dizer que adorariam conhecer alguém desse jeito. No entanto, várias
afirmaram que, se um homem qualquer começasse a conversar com elas no
elevador, ficariam assustadas.

Como é possível que vários aplicativos de namoro sejam tão ineficientes e,


ainda assim, tão amplamente usados? Para começo de conversa, muitas
pessoas parecem usá-los como diversão, com poucas expectativas de
encontrar alguém cara a cara. Como me disse amargamente Iris, 33: “Eles
fizeram a interação virar um game. A maioria dos homens no Tinder apenas
desliza para a direita em cima de todo o mundo. Eles dizem sim, sim, sim
para todas as mulheres.”

Muitas críticas aos serviços de namoro online, como “A Million First Dates”,
de Dan Slater, destacam a ideia de que o excesso de escolhas pode levar a
uma “sobrecarga de opções”, o que, por sua vez, conduziria à insatisfação.
Slater argumentou que os candidatos a encontros online podem sentir a
tentação de voltar ao app sempre em busca de experiências com pessoas
novas; o compromisso e o casamento sairiam prejudicados.

O sociólogo Michael Rosenfeld, de Stanford, questiona essa hipótese. Sua


pesquisa concluiu que os casais que se conhecem online tendem a se casar
em menos tempo que outros, fato que está longe de sugerir indecisão.

Talvez a sobrecarga de opções ocorra de maneira um pouco diferente do que


Slater imaginou. O problema pode estar não nas pessoas que saem com
várias outras, mas naquelas que se sentem tão intimidadas que não chegam a
sair do sofá.

Lisa Wade desconfia que os formados pela cultura do “hookup” colegial ou


universitário podem saudar o fato de os aplicativos online eliminarem um
pouco da ambiguidade da procura de um parceiro (nós dois optamos por
usar o app, então eu estou pelo menos um pouco interessado em você).

Anna, que concluiu a faculdade três anos atrás, me contou que tinha
dificuldade em interpretar as intenções das pessoas. Hoje, os apps de
namoro são uma ferramenta útil. “Não há ambiguidade”, explicou. O
problema é que, quanto mais ela usa os apps, menos consegue se imaginar
vivendo sem eles. “Nunca aprendi como conhecer gente na vida real.”

Além de ajudar as pessoas a fugir dos potenciais constrangimentos da


paquera à moda antiga (mas também de seus momentos de alegria), os apps
são úteis para as pessoas que estão em algo que os economistas chamam de
“mercados magros” —aqueles em que o número de participantes é
relativamente baixo.

Membros de minorias sexuais, por exemplo, costumam usar serviços de


namoro online muito mais que pessoas hétero. (Michael Rosenfeld, cuja
pesquisa exagerou de propósito na amostra de LGBTs para compensar a
escassez de levantamentos sobre as experiências de namoro deles, concluiu
que “gays e lésbicas sem parceiros parecem ter substancialmente mais
encontros que héteros”. Essa disparidade levanta a possibilidade de a
recessão sexual ser um fenômeno principalmente heterossexual.)

Em todos os mercados de relacionamentos, os apps parecem ajudar mais as


pessoas que são muito fotogênicas (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1941699-com-
impacto-na-circulacao-de-obras-instagram-influencia-artistas-e-museus.shtml).
Como me disse com
tristeza Emma, virgem de 26 anos que às vezes se arrisca a buscar namoro
online, “os apps de relacionamento facilitam as coisas para as pessoas
bonitas —que já têm a vida mais fácil”.

Um estudo da Universidade de Michigan e do Instituto Santa Fe constatou


que pessoas de ambos os sexos que procuram namoro online tendem a
buscar potenciais parceiros que sejam 25% mais desejáveis que elas mesmas.
Pelo visto, não é uma estratégia que dá muito certo.

4. SEXO RUIM (RUIM DE DOER)


Debby Herbenick e eu passeávamos com seu bebê em um parque de
Bloomington, Indiana, quando ela compartilhou comigo um conselho que às
vezes oferece a seus alunos na Universidade de Indiana, onde é pesquisadora
sexual de renome. “Se você está com uma pessoa pela primeira vez, não a
asfixie, não ejacule na cara dela, não tente fazer sexo anal com ela. Todas
essas coisas dificilmente serão bem recebidas.”

Eu havia procurado Herbenick em parte porque estava intrigada com um


artigo que ela escrevera para o Washington Post propondo que o declínio na
atividade sexual pode ter um aspecto positivo. Herbenick indagara se
poderíamos estar assistindo, entre outras coisas, a uma diminuição na
incidência de sexo forçado ou indesejado. Afinal, poucas décadas atrás o
estupro conjugal ainda era legalmente aceito em muitos estados americanos.

Ela aventou a ideia de que uma das causas da recessão sexual talvez seja uma
reação saudável ao sexo ruim —um subconjunto de pessoas “que estariam
deixando de fazer sexo que não querem mais fazer”. “Pessoas se sentindo
mais empoderadas para dizer ‘não’.”

Bloomington é a capital extraoficial das pesquisas sexuais nos EUA, status


que remete aos anos 1940, quando o campo foi inaugurado pelo biólogo
Alfred Kinsey. A Universidade de Indiana conserva essa posição graças à
produtividade de seus cientistas e à escassez de pesquisas sobre sexo de
outras instituições. Em 2009, Herbenick e seus colegas lançaram o NSSHB
(Levantamento Nacional de Saúde e Comportamento Sexual), que continua
em curso. É apenas a segunda sondagem nacional a fazer um exame
detalhado da vida sexual dos americanos —e a primeira a tentar mapeá-la ao
longo do tempo.

Perguntei a Herbenick se as conclusões do NSSHB lhe dão algum indício do


que pode ter mudado desde a década de 1990. Ela mencionou a popularidade
dos brinquedos sexuais e o aumento do sexo anal heterossexual. Em 1992,
20% das mulheres no final da casa dos 20 anos tinham experimentado o sexo
anal; em 2012, foi o dobro dessa incidência.

Segundo Herbenick, novos dados sugerem que, comparados com as gerações


anteriores, os jovens de hoje têm tendência maior a praticar
comportamentos sexuais comuns na pornografia, como os que ela
desaconselha que seus alunos tentem com parceiros sem aviso prévio. Ela
acha que tudo isso pode estar assustando algumas pessoas e contribuindo
para o declínio da atividade sexual. “Se você é uma jovem, está fazendo sexo
e o parceiro tenta asfixiá-la, não sei se tão cedo você vai querer tentar de
novo.”

A parte mais preocupante das pesquisas está ligada à prevalência do sexo


com dor. Em 2012, 30% das mulheres disseram ter sentido dor na última vez
em que haviam feito sexo vaginal, e 72% tinham tido dor com o sexo anal.
Além disso, a maioria das mulheres não revela aos parceiros quando sente
dor. J. Dennis Fortenberry, diretor de hebiatria na escola de medicina da
Universidade de Indiana e um co-líder da NSSHB, acredita que muitas
meninas e mulheres interiorizaram a ideia de que o desconforto físico faz
parte da condição feminina.

Em minhas entrevistas com mulheres jovens, ouvi incontáveis versões de


“ele fez uma coisa que não gostei e que fiquei sabendo mais tarde que é
comum em vídeos pornô”, sendo o asfixiamento um exemplo muito citado. 

Como me disse Marina Adshade, professora da Universidade da Colúmbia


Britânica que estuda a economia do sexo e do amor, “os homens fazem sexo
ruim e sexo bom”. “Mas, quando o sexo é ruim para a mulher, é muito, muito
ruim. Se as mulheres andam evitando fazer sexo, será que o que estão
tentando evitar é o sexo muito ruim?”

O sexo leva tempo para ser aprendido mesmo nas melhores das
circunstâncias, e estas não são as melhores circunstâncias. Basear seu
comportamento em algo visto numa tela pode levar as pessoas a agir como
se estivessem se exibindo para um espectador —algo que os pesquisadores
sexuais William H. Masters e Virginia E. Johnson postularam muito tempo
atrás que seria prejudicial ao funcionamento sexual. 

Aprender a fazer sexo no contexto de encontros casuais que não se repetem


tampouco está ajudando. As pesquisas sugerem que, para a maioria das
pessoas, o sexo casual tende a ser menos prazeroso que o sexo com um
parceiro constante. Paula England, socióloga da NYU que estudou a cultura
dos “hookups”, atribui esse fato em parte à importância de saber o que seu
parceiro aprecia. Isso pode variar muito, especialmente no caso das
mulheres.

Um estudo concluiu que apenas 31% dos homens e 11% das mulheres chegam
ao orgasmo em encontros casuais com um parceiro novo. Contrastando com
isso, quando perguntados sobre a relação sexual mais recente dentro de um
relacionamento, 84% dos homens e 67% das mulheres disseram que haviam
tido um orgasmo. Outros estudos tiveram resultados semelhantes.

Enquanto eu estava escrevendo esta reportagem, várias pessoas me disseram


que estão tirando um descanso, dando um tempo sem sexo ou sem sair com
ninguém. Isso corresponde aos resultados da pesquisa de Lucia O’Sullivan,
segundo a qual, mesmo depois de os adultos jovens terem iniciado sua vida
sexual, frequentemente passam por longos períodos de inatividade. Algumas
pessoas disseram estar numa fase de dormência sexual e romântica
provocada por agressão ou depressão; outras falaram da decisão de se abster
de sexo como se estivessem tirando licença sabática de um emprego que não
lhes dá prazer.

5. INIBIÇÃO
“As pessoas da geração millenial não gostam de ficar nuas”, disse à
Bloomberg no ano passado o fundador da consultoria de branding Redscout,
Jonah Disend. “Hoje em dia, quando você vai à academia, todo mundo que
tem menos de 30 anos se esconde atrás da toalha para vestir a roupa de
baixo. É uma transformação cultural enorme.” Ele disse que o design das
suítes de casal está evoluindo pelo mesmo motivo: “As pessoas querem seu
banheiro e closet individuais, mesmo quando fazem parte de um casal”.

O artigo concluiu que por mais que as pessoas da geração do milênio possam
ser “digitalmente desinibidas” —uma possível alusão ao sexting—, “nos
contatos cara a cara, são pudicas”. Academias de ginástica pelo país afora
estariam reformando seus vestiários em resposta às demandas de seus
clientes mais jovens. “O pessoal mais velho, gente de mais de 60 anos, não
tem problema com os chuveiros coletivos”, disse ao New York Times um
arquiteto de academias, explicando que os millenials exigem privacidade.
Alguns observadores sugerem que o novo desconforto com a nudez talvez se
deva ao fato de que, desde meados da década de 1990, a maioria dos colégios
de ensino médio parou de exigir que os estudantes tomassem banho após as
aulas de educação física. Faz sentido: quanto menos tempo você passa nu,
menos você se sente à vontade com a nudez.

Mas também é possível que as pessoas tenham passado a se preocupar mais


com a aparência de seu corpo nu. Um conjunto grande e crescente de
pesquisas constatou, entre homens e mulheres de modo igual, uma
correlação entre uso de redes sociais e insatisfação com o próprio corpo. 

E um grande estudo holandês concluiu que, entre os homens, a frequência


com que assistem a materiais pornográficos está ligada à preocupação com o
tamanho do pênis. Segundo pesquisas de Debby Herbenick, a visão que as
pessoas têm de sua própria genitália é um fator indicativo de seu
funcionamento sexual —e algo entre 20% e 25% das pessoas têm uma visão
negativa dela, que pode ser influenciada pela pornografia ou pelo marketing
de cirurgias plásticas.

Como se poderia imaginar, sentir-se à vontade com o próprio corpo beneficia


nossa vida sexual. Uma revisão de 57 estudos que se debruçaram sobre a
relação entre a imagem corporal das mulheres e seu comportamento sexual
sugeriu que uma imagem corporal positiva está ligada a uma vida sexual
melhor. Em sentido oposto, o fato de alguém não se sentir bem na própria
pele dificulta sua vida sexual.

Nos últimos 20 anos, a visão dos pesquisadores sobre desejo e excitação se


ampliou, passando do foco inicial sobre o estímulo para uma visão que
abrange a inibição como sendo igualmente importante, ou até mais. (O
termo inibição, neste contexto, significa qualquer coisa que atrapalhe ou
impeça a excitação, podendo ser desde autoimagem negativa até distração).

Em seu livro “Come As You Are”, Emily Nagoski, que estudou no Instituto
Kinsey, compara o sistema de excitação do cérebro ao acelerador de um
carro, enquanto o sistema de inibição seria o freio. O primeiro faz você
querer sexo; o segundo esfria seu interesse. As pesquisas sugerem que, em
muitas pessoas, o freio pode ser mais sensível que o acelerador.
A julgar pelas entrevistas que conduzi, a inibição parece ser a companheira
constante de muitas pessoas que estão abstinentes há muito tempo. A
maioria delas descreveu a abstinência não como algo de sua própria escolha
(motivada pela fé religiosa, por exemplo), mas como algo no qual elas se
viram encurraladas em decorrência de trauma, ansiedade ou depressão. Fato
desanimador mas que não chega a ser surpreendente, muitas mulheres que
disseram ter deixado de fazer sexo por opção própria evocaram agressões
sexuais sofridas.

Os dois outros fatores tampouco são inesperados: os índices de ansiedade e


depressão vêm subindo há décadas nos EUA e, segundo alguns relatos,
aumentaram mais recentemente entre adolescentes e jovens na casa dos 20
anos. E, em um “ardil 22” infeliz, tanto a depressão quanto os antidepressivos
empregados para combatê-la podem reduzir o desejo sexual.

Uma mulher de 28 anos, April, me escreveu: “Faço terapia, e esse é um dos


principais problemas que estamos trabalhando”. Ela explica que, devido à
sua ansiedade grave, nunca teve relações sexuais nem relacionamento
amoroso com ninguém. “Já troquei alguns beijos, e nunca foi muito bom para
mim.” April não é assexuada (ela curte seu vibrador Magic Bullet), mas tem
pavor de intimidade. De tempos em tempos, sai com homens que conhece
através de um app ou de seu trabalho na indústria de livros, mas entra em
pânico quando há contato físico.

E mencionou um conto da escritora britânica Helen Oyeyemi que descreve


uma autora de romances que é virgem, mas esconde o fato. “Ela não tem
ninguém e está em um beco sem saída. Parece um pouco um conto de fadas:
mora no sótão de uma mansão antiga, escrevendo histórias românticas sem
parar, mas nada acontece para ela, nunca. Penso nela o tempo todo.”

Em conversas como essas, chamou minha atenção como a infelicidade e a


abstinência sexual podem criar um círculo vicioso paralisante. Os dados
mostram que o sexo deixa as pessoas mais felizes (pelo menos até certo
ponto). Mas a infelicidade inibe o desejo, e, nesse processo, nega uma fonte
potencial de alegria a pessoas que já vivem sem ela. Estão os índices
crescentes de infelicidade contribuindo para a recessão sexual? É quase
certo que sim. Mas o declínio do sexo e da intimidade não estará também
gerando infelicidade?

As pesquisas disponíveis sobre adultos sexualmente inativos sugerem, além


disso, que esperar demais pode ser prejudicial para aqueles que querem ter
vida sexual. Entre as pessoas que chegam aos 18 anos sem ter experiência
sexual, cerca de 80% terão se tornado sexualmente ativas antes dos 25. Mas
aquelas que não tiverem experiência sexual quando chegam a mais ou menos
essa idade têm muito menos chances de adquiri-la em outro momento da
vida.

Pesquisa de Michael Rosenfeld, de Stanford, confirma que a condição solteira


é uma situação muito mais estável na idade adulta do que a maioria de nós
imagina. Ele constatou que, ao longo de um ano, apenas 50% das mulheres
solteiras heterossexuais na casa dos 20 anos têm um encontro romântico —e
a probabilidade de mulheres mais velhas saírem com parceiros é ainda
menor.

Outras fontes de inibição sexual estão relacionadas ao modo como vivemos


hoje. Por exemplo, a privação de sono inibe fortemente o desejo sexual —e a
qualidade do sono é prejudicada hoje por práticas que se tornaram comuns,
como checar o celular durante a noite. 

Como podem coisas tão pequenas —uma noite mal dormida, pequenas
distrações— derrotarem algo tão fundamental quanto o sexo? Uma resposta
que ouvi de várias fontes é que nosso apetite sexual se extingue facilmente
por uma questão natural. A raça humana precisa de sexo, mas os humanos,
individualmente, podemos prescindir dele.

Uma das contradições de nossos tempos é que vivemos em condições de


segurança física sem precedentes, mas alguma coisa na vida moderna muito
recente desencadeou reações autônomas associadas ao perigo: ansiedade,
sono interrompido, o hábito de olhar em volta constantemente. Nessas
circunstâncias, a sobrevivência fala mais alto que o desejo. Como Emily
Nagoski gosta de apontar, ninguém jamais morreu por falta de sexo:
“Podemos morrer de fome, de desidratação, e até por falta de sono. Mas
ninguém até hoje morreu por não conseguir transar.”
Existem motivos reais de preocupação. Não há como contestar o fato de que
o índice de natalidade vem caindo há uma década nos EUA. Em 2017, o índice
de natalidade americano chegou ao patamar mais baixo da história pelo
segundo ano consecutivo. A taxa está caindo entre as mulheres na casa dos
30 anos, justamente a faixa etária em que todos supunham que as mulheres
milenárias teriam filhos.

A média prevista de filhos por mulher americana caiu de 2,1 (o chamado


índice de substituição, ou seja, o nível de fertilidade necessário para
conservar a população em nível estável sem imigração) para 1,76. Se essa
tendência não se inverter, as consequências demográficas e fiscais de longo
prazo serão significativas.

Uma preocupação mais imediata envolve as consequências políticas da


solidão e da alienação. Tome-se por exemplo o ódio online e a violência na
vida real travada pelos chamados “incels” —homens que se dizem
“celibatários involuntários”. Suas queixas, que são ilegítimas e repulsivas,
servem para nos lembrar que jovens isolados são vulneráveis a todos os tipos
de extremismo.

Tome-se o caso também da insatisfação populista que está conturbando a


Europa, alimentada em parte por adultos que não conseguiram até agora
alcançar os marcos tradicionais da idade adulta. Na Itália, hoje, metade dos
adultos de 25 a 34 anos ainda vive com seus pais.

Sim, é verdade que ninguém jamais morreu por não transar, mas fazer sexo
se mostrou algo adaptativo ao longo de milhões de anos: fazemos porque é
prazeroso, porque nos vincula uns aos outros, porque nos deixa felizes.

É evidente que uma vida sexual plena não é imprescindível para se ter uma
vida boa, mas muitas pesquisas confirmam que ela contribui para isso. A
relação entre sexo e bem-estar é uma via de mão dupla, fato que talvez não
deva surpreender: quanto mais você está de bem com a vida, melhor será sua
vida sexual, e vice-versa. Infelizmente, o inverso também é verdade.

Como as recessões econômicas, a recessão sexual provavelmente vai se


desenrolar de maneiras injustas e desiguais. As pessoas que já são
favorecidas por contar com beleza, dinheiro, resiliência psicológica e redes
de apoio social fortes continuam a estar bem posicionadas para encontrar o
amor, fazer sexo bom e, se quiserem, tornar-se pais. Mas a intimidade pode
ficar mais e mais fora do alcance de quem tem situação menos estável.

O sexo parece ser mais tenso e complicado hoje em dia. Esse problema não
tem uma origem única —o mundo mudou de inúmeras maneiras e muito
rapidamente. Com o tempo, talvez repensemos algumas coisas: a situação
abismal da educação sexual, algo que no passado foi motivo de chacota, mas
que hoje, na era da pornografia, é uma vergonha. A relação disfuncional que
muitos de nós temos com nossos celulares e com as redes sociais. Os esforços
para “proteger” os adolescentes de quase tudo, incluindo o romance,
deixando-os despreparados para as dores e também para as alegrias da idade
adulta.

Em outubro, quando eu estava concluindo este artigo, voltei a conversar com


April, a mulher que se sentiu consolada pelo conto sobre a romancista que
escondia o fato de ser virgem. Ela me disse que conhecera um homem no
Tinder de quem gostou de verdade, e eles saíram várias vezes. Apesar de ter
pavor de intimidade física e emocional com outra pessoa, April descobriu,
para seu próprio espanto, que adorou: “Nunca imaginei que eu pudesse me
sentir tão à vontade com outra pessoa.”

Com o avanço do relacionamento, April achou que devia contar ao parceiro


que nunca tinha tido uma relação sexual completa. A revelação não foi bem
recebida. “Ele terminou comigo. Antes, eu pensava que aquilo seria a pior
coisa que poderia me acontecer. E então aconteceu.” Ela fez uma pausa,
voltando a falar quando sua voz estava mais firme outra vez. “Mas ainda
estou aqui.”

Kate Julian é repórter da revista The Atlantic, onde este texto foi originalmente publicado.

Ilustrações de Tiago Elcerdo.

Tradução de Clara Allain.

ENDEREÇO DA PÁGINA
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/por-que-os-jovens-
estao-fazendo-pouco-sexo.shtml

Você também pode gostar