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95 – O Fidalgo
1. O Fidalgo Dom Anrique é a primeira personagem que se apresenta no cais para embarcar, rumo à outra vida. Para ser
facilmente reconhecível e caracterizável, traz consigo adereços, elementos cénicos bem visíveis.
• Relendo com atenção toda a cena e o último parágrafo da didascália que inicia a peça (pág. 87), identifica os elementos cénicos
que acompanham o Fidalgo e explica o que simboliza cada um deles.
2. Descreve a movimentação da personagem em cena.
3. O estado de espírito de Dom Anrique vai-se alterando à medida que a cena se desenvolve.
• Caracteriza cada um dos momentos psicológicos da personagem.
4. Desde o início da cena que o Diabo vai fazendo saber ao Fidalgo o destino que o espera, usando, com frequência, a ironia.
Transcreve exemplos dessa ironia.
5. Entretanto Dom Anrique teima em salvar-se e, ao ser interpelado pelo Diabo e depois pelo Anjo, apresenta diferentes
argumentos para justificar a sua pretensão de entrada na barca do Paraíso.
5.1. Quais são esses argumentos?
5.2. De que forma poderão eles contribuir para a caracterização da personagem?
6. “E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer por que rezam lá por ti?” (ll. 26-28)
• Nesta fala do Diabo, está claramente implícita a crítica a uma certa forma de encarar a religião. Explicita essa crítica que Gil
Vicente terá pretendido fazer.
7. O Diabo insiste em mandar entrar o Fidalgo na barca do Inferno, referindo a semelhante entrada do seu pai.
• Qual será a intenção de Gil Vicente revelada através desta referência?
8. Depois de falar com o Anjo e ao regressar à barca do Inferno, o Fidalgo pede ao Diabo que o deixe ir ver a amante (“dama
querida”) e depois a mulher (ll. 109-130).
8.1 Como responde o Diabo a cada um destes pedidos?
8.2 Que características são atribuídas às mulheres, através das informações fornecidas pelo “arrais do inferno”?
9. Primeiro pelo Diabo, depois e definitivamente pelo Anjo, o Fidalgo é condenado ao Inferno.
9.1 Quais os crimes que lhe são imputados?
9.2 Caracteriza o Fidalgo Dom Anrique.
RESPOSTAS
1. Elementos cénicos: pajem, cadeira, manto. Representam o estatuto social de Fidalgo: o manto (a vaidade pela condição social),
o pajem (todos os que o servem e sobre os quais ele exerce a tirania) e a cadeira (os bens materiais e o poder).
2. Começa por parar junto à barca do Diabo, depois dirige-se à do Anjo e, finalmente, regressa à do Diabo.
3. No início da cena, o Fidalgo está muito descontraído e seguro, depois, quando se afasta da barca do Diabo, começa a revelar
preocupação e, ao mesmo tempo, irritação, pois chama e ninguém lhe responde.
Quando começa a falar com o Anjo, tenta recuperar a segurança, no entanto, ao perceber que não lhe é permitido entrar na barca
do paraíso, mostra-se desanimado e um pouco arrependido de ter confiado no seu “estado”. Perto do final, chega a mostrar-se
humilde perante o Diabo, implora-lhe que o deixe regressar à vida e, finalmente, mostra-se resignado com o seu destino.
4. Ironia: “Ó poderoso dom Anrique”(l. 1);
“Vejo-vos eu em feição / pera irao nosso cais…” (ll. 18-19);
“Embarqu’a a vossa doçura” (l. 103);
“todos bem vos serviremos” (l. 108).
5.1 Com o Diabo, usa o argumento de ter deixado na terra quem reze por ele; com o Anjo usa o argumento de ser fidalgo.
5.2 Defendendo-se com as rezas de outrem, mostra que viveu tão confiante da sua importância e tão habituado a que os outros
fizessem tudo por ele que nem lhe ocorre que as orações não seriam suficientes para o salvar. O argumento apresentado ao Anjo
mostra a arrogância e presunção do Fidalgo.
6. Gil Vicente pretende criticar a prática errada da religião dos que acreditavam que orações, missas e práticas superficiais eram
mais válidas do que as obras e a fé.
7. A alusão à condenação do pai do Fidalgo alarga a crítica à classe social, dando a entender que os nobres são condenados,
geração após geração.

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8.1 Divertido, ri do Fidalgo, chama-lhe tolo e mostra-lhe como está enganado em relação ao desgosto da mulher e da amante.
8.2 Alarga-se a crítica às mulheres, atribuindo-lhes falsidade, hipocrisia e infidelidade e mostrando que o fingimento é transmitido
de mães para filhas.
9.1 O Fidalgo é acusado de ter vivido a seu prazer, de ser presunçoso e vaidoso e de ter sido tirano para o povo.
9.2 Dom Anrique é um fidalgo de solar, vaidoso e presunçoso da sua condição social. O longo manto e o pajem carregando a
cadeira revelam essa vaidade e ostentação, tal como a reação incial face ao Diabo e depois face ao Anjo revela a arrogância de
quem sempre esteve habituado a que obedecessem às suas ordens. É no estatuto de nobre que ele confia como razão para ser
salvo, tal como sempre confiou ao longo da vida. É por isso que, quando o Anjo o interpela, ele apresenta como único argumento
para a salvação o facto de ser “fidalgo de solar” e é também por isso que desdenha da barca a que chama “cortiço” e exige que o
tratem por “Vossa Senhoria”. Da vida sentimental ficamos a saber que além da mulher tinha uma amante, no entanto, sabemos
também que afinal, ele que era tão poderoso, era igualmente enganado por elas. O Fidalgo é uma personagem tipo, na medida em
que representa a nobreza e os seus vícios de tirania, presunção, arrogância e ostentação. É exatamente por isso que, tal como
aconteceu com seu pai, é condenado ao Inferno.
p. 100 – O Onzeneiro
O Onzeneiro, a segunda personagem a apresentar-se em julgamento, é prontamente recebido pelo “arrais do Inferno”.
1. “Oh! que má-hora venhais, / onzeneiro, meu parente!” (ll. 3-4)
1.1 Como justificas o tratamento que o Diabo dá a esta personagem?
1.2 Qual o recurso expressivo presente nesta primeira fala do “arrais do Inferno”?
1.3 Relaciona esse tratamento com as posteriores palavras do Diabo:
“Irás servir Satanás / porque sempre te ajudou”.
2. “Na safra do apanhar / me deu Saturno quebranto.” (ll. 7-8)
O Onzeneiro não se mostra satisfeito ao entrar em cena. De que se queixa?
2.1 Em que medida essa queixa é fundamental para a sua caracterização?
2.2 Que recurso expressivo utiliza no verso sublinhado?
3. Apesar da sua determinação em entrar na barca do Anjo, este recusa-lhe a passagem.
3.1 Com que argumentos?
3.2 Há uma íntima ligação entre a sentença do Anjo e o elemento cénico que a personagem transporta. Porquê?
3.3 Como interpreta o Onzeneiro a recusa do Anjo?
3.3.1 Está essa interpretação de acordo com a essência da personagem? Justifica.
4. Da vida pessoal do Onzeneiro nada sabemos. Apenas um traço do seu carácter é posto em evidência. Qual?
4.1 Como justificas essa pobre caracterização da personagem, no que diz respeito à intencionalidade da obra?
RESPOSTAS
1.1 Tratando o Onzeneiro por “parente”, o Diabo mostra que tem qualquer coisa em comum com ele, como se fossem dois
membros de uma mesma família.
1.2 Ironia.
1.3 Já que através das suas acções esteve sempre próximo do Diabo que o inspirou a fazer o mal, irá agora pagar-lhe a inspiração,
servindo- o no Inferno.
2. Queixa-se de não ter tido tempo para apanhar mais dinheiro e de ter vindo sem uma única moeda, nem sequer para pagar ao
barqueiro.
2.1 A queixa mostra bem como, para o Onzeneiro, o dinheiro é a maior preocupação, a coisa mais importante da sua vida.
2.2 Eufemismo de morte.
3.1 O Anjo recusa a passagem ao Onzeneiro, argumentando que o bolsão ocuparia todo o barco. E, quando ele diz que vai vazio, o
Anjo responde que o amor ao dinheiro continua a encher o coração do Onzeneiro.
3.2 Há uma íntima ligação entre a sentença do Anjo e o bolsão, pois o Onzeneiro é condenado por causa do amor ao dinheiro que
o levou a exercer uma atividade ilícita. Ora, a bolsa representa, precisamente, essa ligação obsessiva ao dinheiro.
3.3 O Onzeneiro pensa que o Anjo lhe recusa a entrada por não ter dinheiro para pagar.

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3.3.1 Ajusta-se, pois o Onzeneiro dá tanta importância ao dinheiro que está sempre a pensar nele e pensa que ele pode resolver
tudo.
4. A ganância.
4.1 No Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente pretende criticar grupos sociais e não indivíduos e, por isso, as suas personagens são
personagens tipo. Sendo assim, elas não podem apresentar traços que as individualizem.

p. 104 – O Parvo
Joane, o Parvo, é a terceira personagem que se apresenta no cais de embarque e que, desde o início, nos diverte com as suas
graças.
1. Através de que processos é conseguido o cómico? (Consulta a ficha “Ridendo castigat mores”, pág. 86)
2. Ao contrário do que aconteceu com as personagens precedentes, no diálogo entre o Diabo e o Parvo não há referência à vida
passada da personagem. Porquê?
2.1 Também contrariamente aos outros, o Parvo não transporta consigo qualquer símbolo cénico. Porquê?
3. Distinguindo-se sempre dos outros, Joane não usa nenhum argumento para convencer o Anjo a deixá-lo entrar. Como o
justificas?
3.1 O Anjo não lhe recusa a entrada; além disso, manda-o esperar pelo embarque.
Quais as razões que estão na base de tal posição do arrais do Céu?
4. “Quem és tu? / Samica alguém.” (ll. 62, 63)
• Em que medida esta apresentação se relaciona com o destino da personagem?
5. Caracteriza Joane, o Parvo.
RESPOSTAS
1. Cómico de situação (por ex., o Parvo pergunta se deve entrar a pular ou a voar); cómico de linguagem
(nas falas do Parvo (“de caganeira. / De quê? De cagamerdeira”);
Cómico de carácter (de certa forma, poderemos considerar que a própria personagem apresenta traços de carácter cómicos).
2. Numa peça cujo argumento se centra no julgamento da vida das personagens e cuja intenção é a crítica à sociedade, o passado
só interessa para revelar os pecados cometidos.
Se o Parvo não pode ter cometido nenhum pecado, porque não age com consciência do mal, não faria sentido referenciar o seu
passado.
2.1 Os símbolos cénicos estão relacionados com a vida terrena, ao nível dos pecados cometidos. Se o Parvo não pecou, não
transporta qualquer símbolo. (Os símbolos também ajudam a caracterizar a personagem, mas o Parvo seria, com certeza,
identificável pelo vestuário).
3. Nem chega a ter oportunidade de argumentar, pois o Anjo não lhe recusa a entrada, além disso, para ele, embarcar para o Céu é
tão simples e natural que nem precisa de se esforçar.
3.1 Porque Joane é um simples, um pobre de espírito que nunca pecou (“porque em todos teus fazeres / per malícia não erraste”).
4. A autoapresentação revela a simplicidade, relacionando-se com o destino final, a salvação.
5. O PARVO é uma personagem de exceção no Auto. Apresenta-se sem nada e, com graça, simplicidade e ingenuidade, diz-se
tolo. Descontraído, queixa-se por ter morrido, e só se irrita quando o Diabo o quer levar para o Inferno, insultando-o, revelando o
carácter descomedido e sem autocensura, próprio de um pobre de espírito. Ao Anjo afirma ser talvez alguém (samica alguém =
quase ninguém), apresentação sintetizadora da sua simplicidade.
Salva-se porque não há maldade nos seus atos. Este Joane (assim se chamavam normalmente os Parvos, personagem tipo do teatro
medieval) é a concretização do preceito cristão, “bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos Céus”.

p. 109 – O Sapateiro
Depois do Parvo, é a vez de uma quarta personagem procurar a barca que o leve à outra vida – o Sapateiro.
1. À semelhança do que se passara com o Fidalgo e o Onzeneiro, ao ser interpelado pelo Diabo, o Sapateiro usa uma
argumentação de defesa que justifica a sua pretensão de entrada na barca do Paraíso.
1.1 Quais os argumentos apresentados?

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1.2 Como reage o Diabo aos argumentos de Joanantão? Porquê?
1.3 O Fidalgo havia recorrido a um argumento da mesma natureza para se defender.
Qual?
1.4 Apesar disso, as personagens acabam por ser condenadas. Como justificas esse desfecho, do ponto de vista da intenção crítica
do autor, relativamente à forma como os católicos do seu tempo encaravam a prática da religião?
2. O Anjo recusa a entrada do Sapateiro. Porquê?
2.1 Que relação poderás estabelecer entre os pecados imputados ao Sapateiro e os símbolos cénicos que traz consigo?
RESPOSTAS
1.1 O Sapateiro usa como argumentos para ser salvo o facto de se ter confessado, comungado, ter ouvido muitas missas e ter dado
ofertas à igreja.
1.2 O Diabo contrapõe, como motivo de condenação, os roubos que o Sapateiro praticou.
1.3 Tal como o Sapateiro, o Fidalgo confiava que as rezas se poderiam sobrepor aos pecados, afirmando, em sua defesa, que
deixava na vida quem rezasse por ele.
1.4 A condenação das personagens que pecaram, apesar das rezas que fizeram ou mandaram fazer, encerra uma crítica à forma
superficial como muitos católicos praticavam a religião, pensando que as rezas, as missas, as comunhões tinham mais valor do que
a prática do bem.
2. Porque o Sapateiro pecou ao roubar os clientes.
2.1 Os símbolos cénicos do Sapateiro são o avental e as formas que representam exatamente a sua profissão. Uma vez que o
Sapateiro é condenado por ter roubado os clientes, há uma relação direta entre os símbolos e os pecados que lhe são imputados.

p. 117 – A Alcoviteira
Brízida Vaz, a Alcoviteira, é a sexta personagem que chega ao cais e é prontamente recebida pelo arrais do Inferno.
1. Qual a reação do Diabo ao saber que o passageiro que chama é Brízida Vaz?
1.1 Por que razão reage ele assim?
2. Como elementos cénicos, a Alcoviteira traz uma enorme bagagem.
2.1 O que simbolizam esses elementos?
2.2 Para enumerar os objetos, ela usa repetidamente palavras do campo semântico da mentira. Indica-as.
2.2.1 Relaciona a utilização desse campo semântico com o carácter da personagem.
3. Quando o Diabo a convida a entrar, o que lhe respondeu Brízida Vaz?
4. A tática utlizada para abordar o Anjo é diferente. Qual é?
5. Repara nas palavras que a Alcoviteira usa ao falar com o Anjo e que fazem parte de um vocabulário de cariz religioso.
5.1 Faz o seu levantamento.
5.2 Com que intenção usa ela esse vocabulário?
6. Brízida Vaz acha que tem direito a salvar-se.
6.1 Quais os seus argumentos?
6.2 O que pensas deles?
7. Faz a caracterização de Brízida Vaz.
8. Em tua opinião, através desta cena, Gil Vicente visava apenas criticar a actividade da Alcoviteira ou, pelo contrário, tinha como
intenção criticar outros setores da sociedade? Justifica a tua resposta. (Lê, a propósito, o texto que se segue)
RESPOSTAS
1. O Diabo fica muito contente.
1.1 Porque tem a certeza de que é mais uma passageira para a sua barca.
2.1 Um enorme carregamento – virgos postiços, arcas de feitiços, armários de mentir, cofres de enleios, roubos, joias, guarda-
roupa d’encobrir, casa movediça, estrado de cortiça, coxins de encobrir, moças que vendia – símbolos da actividade ligada à
prostituição.

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2.2 postiços, feitiços, mentir, enleios, alheios, encobrir.
2.2.1 A personagem é hipócrita e mentirosa hábil que tenta fazer-se de vítima inofensiva para convencer os outros daquilo que lhe
interessa.
3. Diz que não entra sem Joana de Valdês, depois diz simplesmente, com alguma arrogância, que não quer entrar.
4. Começa por adular, depois faz-se de vítima e implora humildemente.
5.1 “Peço-vo-lo de giolhos”, “anjo de Deos”, “cónegos da Sé”, “fé”, “apostolada, angelada, martelada”, “divinas”, “Santa
Ursula”,” converteo”,
“Aquele do Céo”.
5.2 Ela tenta usar uma linguagem que lhe parece a das pessoas boas, para parecer boa, aos olhos do Anjo.
6.1 O facto de já ter sido punida com açoites pela justiça, na terra.
Ao Anjo, ela argumenta que serviu o clero, entregando raparigas aos cónegos da Sé e que salvou muitas raparigas, arranjando-lhes
“dono”.
7. A Alcoviteira é caracterizada por si própria (nem o Diabo nem o Anjo fazem qualquer afirmação sobre ela). Ela fala tanto sobre
a sua actividade que não é necessário lembrar-lhe os seus pecados. Na enumeração dos símbolos cénicos, ela revela que se
dedicava a atividades ligadas à prostituição e à prática de alguma feitiçaria, provavelmente relacionada com os amores. Ao Anjo
revela que os membros do clero eram seus clientes. A par desta caracterização direta, é fácil analisar o comportamento e as
palavras de Brízida Vaz em cena e fazer uma caracterização indireta que confirma completamente a primeira. Assim, quando
descreve os objetos que transporta, utiliza tantas palavras do campo semântico da mentira, que ficamos imediatamente a saber que
enganar os ou tros era a sua profissão, o que é confirmado ainda pela forma hipócrita como se dirige ao Anjo para conseguir que
ele a deixe entrar na barca do Paraíso.
8. Gil Vicente visava criticar a actividade da Alcoviteira, mas também os seus clientes, sobretudo os clérigos que recorriam aos
favores destas mulheres para arranjarem raparigas.

p. 120 – O Judeu
Depois de Brízida Vaz ter, finalmente, entendido que o seu destino era a barca do Inferno, é a vez de entrar em cena uma sétima
personagem – o Judeu.
1. Tendo recebido todos os passageiros com alegria, o Diabo manifesta uma diferente disposição em face desta personagem.
Como justificas este facto?
2. O Judeu, no entanto, insiste em ir na barca do Inferno.
2.1 Porque não tenta ir na barca da Glória?
2.2 De que modo tenta ele entrar na barca do Diabo?
2.2.1 Que significado poderemos atribuir a esse meio utilizado pelo Judeu, ao nível da sua caracterização?
3. Tal como os outros réus, o Judeu vem acompanhado por um elemento cénico (neste caso o bode) do qual recusa separar-se.
3.1 O que simboliza o bode?
3.2 Como interpretas a recusa do Judeu em deixar o bode em terra?
4. O Parvo provoca, verbalmente, o Judeu, colaborando na sua condenação.
4.1 De que o acusa ele?
4.2 Interpreta essa acusação, em termos de contexto histórico.
RESPOSTAS
1. Este desagrado do Diabo é uma forma de mostrar que, aos judeus, nem o Diabo os queria.
2.1 Analisando do ponto de vista do Judeu, porque ele sabe que não será aceite na barca da Glória já que, em vida, nunca foi
aceite nos lugares dos cristãos.
Do ponto de vista cristão, porque os judeus eram de tal modo mal considerados, que nem sequer poderiam admitir a hipótese de
encaminhar a personagem para a barca do Anjo.
2.2 Tenta entrar através do seu dinheiro.
2.2.1 É uma forma de mostrar uma das características sempre atribuídas aos judeus, a sua forte ligação ao dinheiro.
3.1 Simboliza a religião judaica.

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3.2 Recusa deixar o bode em terra para mostrar que os judeus nunca deixariam de o ser.
4.1 Insinua que o Judeu roubou a cabra e acusa-o de ter cometido várias ofensas à religião católica, como ter profanado a igreja e
não ter respeitado o jejum.
4.2 No seu ódio aos judeus, os cristãos acusavam-nos de diversas ações criminosas, nomeadamente de enriquecerem à custa de
roubos de natureza diversa. Além disso, e mais grave que tudo, acusavam-nos de atentar contra a religião católica, cometendo as
mais variadas profanações.

p. 128 – O Corregedor e o Procurador


O Corregedor e o Procurador são as duas personagens que, depois do Judeu, chegam ao cais para embarcar.
1. “Oh amador de perdiz”. (l. 6)
• Como interpretas este cumprimento do Diabo? (Para responderes corretamente, deverás ler a nota 3, na pág. 125
2. Repara na forma altiva como o Corregedor inicia o diálogo com o Diabo.
• De qual das personagens anteriores o aproxima essa atitude de altivez?
3. O Corregedor usa repetidamente o Latim. Porquê?
3.1 Com que intenção o Diabo lhe responde em Latim macarrónico?
4. “Há’qui meirinho do mar?” (l. 30)
• Sabendo que meirinho significa oficial de justiça, o que revela a pergunta do Corregedor?
5. Qual a acusação que lhe faz o Diabo?
5.1 Como se defende o réu?
5.2 O que pensas do argumento usado como defesa?
6. “Irês ao largo dos cães / e verês os escrivães / coma estão tão prosperados”. (ll. 69-71)
6.1 Interpreta as palavras do Diabo, no que diz respeito ao alargamento da crítica.
6.2 Indica outras cenas em que Gil Vicente tenha recorrido a processo semelhante para extravasar a crítica, de um indivíduo, para
um grupo social.
7. Sendo o Procurador um funcionário que trata de negócios da Coroa e de entidades privadas, por que razão o colocará Gil
Vicente na situação de ser julgado em simultâneo com o Corregedor?
8. Os dois réus falam sobre a confissão.
8.1 O que nos revela o seu diálogo?
8.2 Não é a primeira vez que, neste auto, se põe a nu uma certa prática superficial da religião. Indica as cenas em que isso
acontece.
9. Como reage o Anjo à aproximação do Corregedor e do Procurador?
10. Mais uma vez, o Parvo intervém, corroborando a condenação. Qual é a acusação que, desta vez, dirige aos réus?
11. Ao entrar na barca do Inferno, o Corregedor dialoga com Brízida Vaz. Porquê?
12. Aponta, no texto, exemplos de ironia e eufemismo.
RESPOSTAS
1. Como a perdiz era um símbolo da corrupção dos juízes, chamar ao Corregedor “amador de perdiz” é chamar-lhe corrupto.
2. A altivez do Corregedor aproxima-o do Fidalgo.
3. É a língua usada nas leis.
3.1 O Diabo está a ridicularizar a linguagem jurídica, dando a entender que as leis são só conversa e a sua aplicação é adulterada.
4. Revela que ele está habituado a mandar, a ter subalternos que fazem o trabalho por ele.
5. O Diabo acusa-o de ter recebido subornos, mesmo das mãos dos judeus.
5.1 O réu desculpa-se com a mulher, responsabilizando-a pela aceitação das ofertas.
6.1 Estas palavras do Diabo alargam a crítica ao grupo social, na medida em que mostram que o Inferno já está cheio de homens
de leis.
6.2 Cenas do Fidalgo e do Frade.
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7. Este julgamento em simultâneo é uma forma de mostrar a cumplicidade existente entre a Justiça e os negócios dos poderosos.
8.1 Revela que não a levavam muito a sério, pois o Corregedor não confessava a verdade e o Procurador só se confessaria em
momentos de aperto.
8.2 Cenas do Fidalgo, do Frade, do Sapateiro e da Alcoviteira.
9. O Anjo reage com desdém e irritação à aproximação das duas personagens, de tal forma que até lhes roga uma praga, atitude
pouco própria do Anjo. Depois, muito sumariamente, condena-os em nome da justiça divina que sobrepõe à justiça humana.
10. O Parvo corrobora a condenação, acusando-os de roubo, ou seja de se terem indevidamente apropriado de coelhos e perdizes.
No fundo, acusa-os de corrupção. Também lhes dirige uma acusação semelhante à que dirigiu ao Judeu, de terem profanado as
igrejas, talvez para sublinhar a cumplicidade com os judeus porque estes tinham dinheiro.
11. Mostra que se conheciam em vida.
12. Ironia – “Dai cá a mão!”, “gentil cárrega trazês”, “Ora, pois, entrai. Veremos que diz i nesse papel...”, “Que serês bom
remador”, “Ora estás bem aviado”.
Eufemismo – “lago dos cães”, “terra dos danados”.

p. 132 – O Enforcado
Enganado em vida por Garcia Moniz que o levou a acreditar que seria salvo através da condenação terrena, o Enforcado acaba por
não reagir negativamente ao convite do Diabo para entrar na barca do Inferno.
1. Que relação poderemos estabelecer entre uma e outra atitude do condenado?
1.1. A partir daí, como o caracterizas?
2. O facto de este quadro, relativo a um condenado pela justiça dos tribunais terrenos, surgir imediatamente a seguir ao do juiz
Corregedor, será por acaso ou, pelo contrário, haverá alguma intenção nesta sequência? Justifica.
3. Que pretenderia Gil Vicente criticar através deste Enforcado? Expõe a tua interpretação deste quadro.
RESPOSTAS
1. Ambas as atitudes são reveladoras de uma certa ingenuidade do Enforcado que acredita em tudo o que lhe dizem ou mandam
fazer.
1.1 O Enforcado é, talvez, a personagem mais difícil de caracterizar de todo o auto. É um homem que acabou de morrer na forca,
não sabemos porquê, e a quem convenceram que ser enforcado o livraria do Inferno. Ingenuamente acreditou, e essa ingenuidade
torna a cena ainda mais estranha. Afinal, por que razão é este homem condenado ao Inferno? Por ter sido um grande criminoso?
Não podemos sabê-lo.
2. Esta cena, relativa a um condenado pela Justiça, complementa, de certa maneira, a cena do Corregedor, mostrando os dois lados
da aplicação da Justiça.
3. Não chegamos a perceber muito bem se Gil Vicente pretende criticar o Enforcado, o que parece pouco plausível já que não
fornece nenhuma informação sobre a sua vida e o seu presumível crime, ou se pretende criticar os que o fizeram acreditar no
absurdo da santificação pela forca.

p. 135 – Os Quatro Cavaleiros


Após todo um desfilar de réus irremediavelmente condenados (exceto o Parvo), surgem os quatro Cavaleiros.
1. Quando entram entoam uma cantiga.
1.1 Que mensagem é transmitida por essa cantiga, no que diz respeito à vida?
1.2 Quem é o destinatário dessa mensagem?
1.3 Poderemos dizer que, na cantiga dos quatro Cavaleiros, está contida a moralidade da peça? Justifica.
2. Ao contrário das muitas personagens que os precederam, os Cavaleiros nem sequer foram acusados pelo Diabo e merecem
entrar na barca do Anjo.
• Por que razão são eles salvos?

RESPOSTAS
1.1 A cantiga lembra aos mortais a transitoriedade da vida e a necessidade de ter sempre presente a inevitabilidade de comparecer
naquele cais e ser julgado.
1.2 Os homens, seres mortais e pecadores.
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1.3 A cantiga contém a moralidade da peça, na medida em que equaciona a questão da transitoriedade da vida e da inevitabilidade
do destino final concordante com a forma como se viveu a vida terrena.
2. Porque morreram a combater pela fé de Cristo contra os infiéis, o que os livrou, automaticamente, de todos os pecados. Esta
cena é reveladora de uma mentalidade, ainda muito medieval, de apologia do espírito de cruzada.

Para uma síntese • Análise Global (p.141)


Analisada cada uma das cenas do Auto da Barca do Inferno, é o momento de proceder a um estudo global da obra.
1. Estrutura externa
Os textos dramáticos organizam-se, habitualmente, em atos que contêm diversas cenas. Tal não acontece no Auto da Barca do
Inferno, embora não seja difícil dividir em cenas esta peça de Gil Vicente.
• Processa essa divisão. (Consulta a ficha “Texto Dramático”, na pág. 79)
2. Estrutura interna • Ação
A ação do drama deverá, segundo as normas convencionais, construir-se através da sucessão de três momentos:
– a exposição (apresentação breve das personagens e da situação);
– o conflito (desenvolvimento da ação, com momentos de tensão, expectativa e clímax);
– o desenlace (desfecho).
2.1 Está o Auto da Barca do Inferno organizado segundo este esquema?Justifica.
2.2 Apresentando um conjunto de personagens que não têm qualquer relação entre si, o Auto da Barca do Inferno não tem
unidade de ação. No entanto, a peça não é também apenas uma sucessão de quadros desligados, como acontecia em muitas
representações medievais.
• Como consegue Gil Vicente conferir unidade a este auto?
2.3 Expõe o argumento desta peça de Gil Vicente.
3. Personagens
Caracterização
3.1 Indica os processos de caracterização (direta/indireta) que são usados no Auto da Barca do Inferno.
Conceção
3.2 As personagens do Auto da Barca do Inferno são tipos. Porquê? (Consulta a ficha da página 86)
3.3 São planas ou modeladas? Justifica.
3.4 Quanto ao Diabo e ao Anjo, poderemos dizer que são personagens alegóricas. Porquê?
Percurso cénico
3.5 Mostra, esquematicamente, o percurso cénico de cada personagem. Justifica as exceções à regra. Assim:
Símbolos cénicos
3.6 Estabelece a relação entre os símbolos cénicos que cada personagem transporta consigo e os motivos da condenação.
4. Linguagem
Um dos fatores de modernidade da obra de Gil Vicente é a capacidade que ele tem de nos oferecer um teatro rico de sugestão, em
que cada personagem usa, predominantemente, a variedade linguística própria da classe a que pertence.
4.1 Refere os diferentes registos de língua utilizados neste auto.
4.2 Apresenta exemplos de utilização de variedades de natureza profissional (gírias profissionais).
5. O cómico
Tal como acontece na maioria das suas peças, Gil Vicente recorre ao cómico.
5.1 Quais os tipos de cómico presentes neste auto?
5.2 Por que razão recorre Gil Vicente tão insistentemente a este processo?
6. Forma poética
Indica a organização estrófica, a métrica e os tipos de rima que predominam no Auto da Barca do Inferno.

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7. Contexto histórico
Num texto cuidado, elabora uma exposição, partindo da afirmação seguinte:
Friso composto pelas várias classes sociais do Portugal de 1500, o Auto da Barca do Inferno é um espelho triste onde Gil Vicente
reflete o rosto de uma nação em crise.

RESPOSTAS
1. O auto contém doze cenas, sendo a primeira aquela em que o Diabo e o Companheiro preparam a barca e seguindo-se uma nova
cena, sempre que uma personagem chega ao cais.
2.1 Não. Tem diversas exposições, conflitos e desenlaces, tantos quantas as personagens em julgamento.
2.2 O auto apresenta unidade, através do argumento – o julgamento das onze personagens, acabadas de morrer e presentes no cais
de embarque para o outro mundo, onde são julgadas pelo Diabo e pelo Anjo, de acordo com a vida que levaram.
A circunstância em que se encontram, o espaço e o Diabo e o Anjo são os elementos de ligação e continuidade.
2.3 Argumento – No cais de embarque para a outra vida, o Diabo e o Anjo aguardam a chegada de passageiros que serão levados
por um ou por outro, consoante a vida que levaram. Chegam sucessivamente onze personagens, representantes de diversas classes
e grupos, que são julgadas, se defendem quase todas, e são quase todas condenadas à barca do Diabo, com exceção de um Parvo
pobre de espírito e de Quatro Cavaleiros que morreram na luta contra os mouros.
3.1 Todas as personagens são caracterizadas, desde logo, através dos símbolos cénicos que transportam e que indiciam identidade
e conduta.
São também caracterizadas diretamente através do que o Diabo e o Anjo dizem da vida que levaram e também através do que elas
dizem sobre si próprias. São caracterizadas indiretamente, através das suas atitudes durante o julgamento, dos argumentos e da
linguagem que usam.
3.2 São tipos, porque sintetizam e representam classes ou estratos sociais ou grupos profissionais.
3.3 São personagens planas, porque, para funcionarem como tipos, representando todo um grupo ou uma classe, não podem
apresentar traços profundos e individuais.
3.4 Sim pois representam o mal e o bem, o inferno e o paraíso.

3.5 Diabo➔Anjo➔Diabo: Fidalgo, Onzeneiro, Sapateiro, Frade, Alcoviteira, Corregedor, Procurador

Diabo➔Anjo: Parvo
Diabo: Judeu, Enforcado
Anjo: Cavaleiros
O Parvo não regressa à barca do Diabo porque é salvo pelo Anjo; o Judeu e o Enforcado nem sequer se dirigem ao Anjo pois
sabem que não serão aceites; os Cavaleiros seguem diretamente para a barca do Anjo, porque sabem que a sua morte os livrou
do inferno.
3.6 Há sempre uma relação entre os símbolos e a condenação, pois eles representam a atividade, a condição ou a característica que
está na origem da sentença.
4. Linguagem
4.1 Ex.: o Sapateiro e a Alcoviteira usam um registo popular, o Corregedor, o Fidalgo ou o Frade usam um registo mais cuidado;
já o Parvo usa sistematicamente o calão também usado pelo Sapateiro.
4.2 O Sapateiro usa termos da gíria dos sapateiros; o Corregedor e o Procurador usam linguagem jurídica.
5. O cómico
5.1 Ex.: cómico de linguagem na cena do Parvo e do Corregedor/ Procurador; cómico de situação nas entradas em cena do Parvo
e do Frade; cómico de carácter na personagem Parvo.
5.2 Porque, por um lado, era um teatro de corte, representado para divertir em contexto de festas palacianas e, por outro, porque a
utilização deste processo tornava mais aceitável a crítica a todas as classes sem exceção, mesmo aos mais poderosos.
O teatro de Gil Vicente é sobretudo satírico, adotando o lema latino “Ridendo castigat mores”.
6. Forma poética
 Estrofes de 8 versos (oitavas);
 versos de redondilha maior (7 sílabas);
 esquema rimático predominante abbaacca (rima emparelhada e interpolada).

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7. Contexto histórico
Deve ser respeitada a estrutura:
 Introdução (apresentação do tema)
– no Auto da Barca do Inferno estão presentes as diversas classes sociais, representadas através de personagens tipo.
 Desenvolvimento (os vários tipos presentes; o que simbolizam; defeitos apontados; desenlace.)
 Conclusão (os defeitos apresentados pelos representantes de todas as classes revelam uma sociedade em crise, dominada
pela vaidade, a falsidade, a tirania, a corrupção).

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