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INFORMAÇÃO: FENÔMENO E OBJETO DE ESTUDO DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 7

ARTIGO

Informação: fenômeno e objeto de estudo


da sociedade contemporânea

Information: phenomenon and research


subject in the contemporary society

Nair Yumiko KOBASHI1


Maria de Fátima Gonçalves Moreira TÁLAMO 2

RESUMO

O estudo da informação assume importância primordial na cultura contem-


porânea, sendo tema desenvolvido por várias áreas do conhecimento. Cada
disciplina deve, no entanto, identificar na informação o seu objeto específico,
para que uma atividade compreensiva sobre o assunto substitua a explicação
mecânica e funcionalista, largamente difundida, que não raro introduziu mais
dúvidas e imprecisões do que soluções. É objetivo deste artigo discutir tanto o
papel da Ciência da Informação no contexto das disciplinas que estão se
constituindo, quanto a sua relevância sócio-política e econômica. Enfatiza-se a
importância da elaboração conceitual para o entendimento do seu objeto e
para a proposição de alternativas compreensivas do fenômeno. Conclui-se
que a compreensão não se dá na amplitude do fenômeno geral, que está
presente em todos os contextos disciplinares; ao contrário, ela requer a
delimitação do contexto específico no qual a informação está sendo vista como
valor e produtora de valor. A partir daí, os traços simplificados e fragmentados
que a caracterizam serão consecutivamente analisados e substituídos através
de uma abordagem que considere a complexidade da informação.

Palavras-chave: ciência da informação, estudos de informação, conceito de


informação.

1
Doutora em Ciências, Docente, ECA/USP. Coordenadora, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Pontifícia
Universidade Católica de Campinas. Praça da Imaculada, 105, Vila Santa Odila, 13045-901, Campinas, SP, Brasil.
Correspondência para/Correspondence to: N.Y. Kobashi. E-mail: nykobash@puc-campinas.edu.br
2
Doutora em Ciências da Comunicação, ECA/USP. Docente, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Pontifícia
Universidade Católica de Campinas.

Transinformação, Campinas, 15(Edição Especial):7-21, set./dez., 2003


8 N.Y. KOBASHI & M.F.G.M. TÁLAMO

ABSTRACT

The information study has fundamental importance in contemporary culture,


being a subject in several areas of knowledge. However, each discipline must
identify in this phenomenon its specific subject, so that a comprehensive activity
about it come to replace the largely accepted mechanical and functionalist
explanation, which often has brought about more inaccuracies and doubts than
solutions. This article aims at discussing not only the role of Information
Science in the context of other disciplines that are being constituted, but also,
its social-political and economic relevance. It emphasizes the importance of the
concept elaboration, for a better understanding of its subject and for proposing
comprehensive alternatives of the phenomenon. It concludes that comprehension
does not take place at the ample level of the general phenomenon, which is
present in all fields of knowledge. Instead, comprehension requires delimitation
of the context in which a piece of information is being perceived as a value and
as a producer of value. Then, the simplified and fragmented aspects that
characterize it will be analyzed and consecutively replaced, through a method
that considers the information complexities.
Key words: information science, information studies, information concept.

INTRODUÇÃO para que uma atividade compreensiva sobre o


assunto substitua a explicação mecânica e
Na sociedade contemporânea, caracteri- funcionalista largamente difundida no campo, que
zada pelos fluxos da informação em escala não raro introduziram mais dúvidas e imprecisões
global, o direito à informação assume papel do que soluções. Talvez poucos se lembrem da
fundamental, não só por constituir-se crescen- obra coletiva organizada por Guéroult, em 1965,
temente como direito elementar, mas também na qual pesquisadores de áreas tão diversas
porque encontra-se integrado à base da ação na como a Física, a Matemática, a Biologia, a
esfera privada ou pública. Parece que, História, a Economia, discutiram o conceito no
especificamente, o acesso à informação impõe- contexto da ciência contemporânea. É objetivo
-se como um direito global e globalizante em deste artigo discutir o papel da Ciência da
relação aos demais. A expressão “cidadania Informação no contexto das disciplinas que estão
planetária” dá conta desse aspecto e não é de se constituindo associadas à relevância socio-
se estranhar, portanto, que as suas várias político-econômica da informação, enfatizando-
ocorrências sinalizem questões relativas à
se a importância da elaboração conceitual para
integração da oferta, do acesso e do uso da
o entendimento do seu objeto e para a proposição
informação no cotidiano.
de alternativas compreensivas do fenômeno.
Em face do afirmado, o estudo da infor-
mação, da sua produção, circulação e consumo,
assume importância primordial, sendo desen- INFORMAÇÃO E CIDADANIA
volvido por várias áreas do conhecimento. Assim,
ao lado da importância da informação se A cidadania plena pressupõe necessa-
reconhece também a complexidade de abordá- riamente o exercício de três direitos: os civis, os
la. Muitas são as disciplinas que a focam e, cada políticos e os sociais. Esses direitos garantem
uma deve nela, identificar o seu objeto específico ao indivíduo participar da sociedade, nela

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integrar-se e nela intervir. Como observa Pinsk e ção, armazenamento, distribuição, acesso, troca
Pinsk (2003, p.10) a cidadania não é um conceito e uso. Nesse sentido, qualquer bem necessário
estanque, varia no tempo e no espaço. Isso que não participa desse sistema gera carência
significa que existe alteração significativa do e desigualdade na sociedade.
exercício da cidadania segundo as coordenadas Ao integrar o alimento no conjunto dos
espaço-temporais. bens, pode-se afirmar simultaneamente, que o
A informação é, de fato, um dos elemen- alimento existe e que a sua distribuição é parcial.
tos básicos para a inteligibilidade dos processos Afirma-se, portanto, que a fome associa-se a
sejam eles naturais ou culturais. Por isso uma distribuição ineficiente do alimento. No
mesmo, enfrenta-se dificuldade crescente para entanto, dada a definição de sistema de bem,
abordá-la nocionalmente. Sabemos que, observa-se que a questão apresenta outras
dependendo do contexto, haverá uma variação variáveis. De fato, uma vez resolvida a
conceitual acentuada, cujos efeitos de sentido, distribuição, nada garante o fluxo de alimentos,
não raro, induzem significados fracamente à medida que este só pode ser concretizado na
discriminatórios que distorcem o entendimento troca que envolve moeda de conversão específica.
das principais questões em jogo. Ao lado da Então, a fome passa a ser interpretada tanto
complexidade da informação instala-se a como resultado de fluxo impróprio de alimentos
extrema fragilidade do termo. Ambas acabam quanto como ausência, falta de acesso, má
sendo o grande desafio a ser superado por uma distribuição da moeda de conversão.
organização mais coerente dos campos de A informação, como o alimento, é um
estudo a ela dedicados. bem. Do mesmo modo que a carência de alimen-
O passo fundamental para propiciar a to provoca a fome, a carência da informação
aludida compreensão é o de explorar os traços provoca a ausência do conhecimento. Observe
característicos da informação na contempora- que foi afirmado carência e não escassez, uma
neidade. É o que faremos a seguir, valendo-nos vez que a carência não se encontra, como vimos,
de um argumento analógico. em relação de causalidade necessária com a
A fome mundial tem sido há décadas escassez.
objeto de discussão e de especulação da mídia, Para superar situações de carência e de
dos órgãos internacionais e governamentais e escassez, a sociedade organiza seus estoques
das associações da sociedade civil. Entre as de informação e estabelece estratégias especí-
miríades de posicionamentos frente ao fato, ficas para colocá-los em ação, para transformá-
destaca-se aquela que relaciona a fome, não à -los em fluxo, tendo em vista um único objetivo:
escassez de alimento, mas à ausência de que o sujeito os capture, promovendo a ação de
modos de distribuição adequados. Esta pers- conhecer.
pectiva impõe, de imediato, a associação do Ao contrário do bem material, a informa-
alimento ao bem material, conferindo-lhe as ção é um bem simbólico, porque se elabora,
propriedades inerentes a este universo. organiza e circula no interior da linguagem. Ainda
O bem, independentemente de sua ao contrário do bem material, o uso da informa-
natureza material ou simbólica, define-se como ção não a esgota. Mas tanto o bem material
um objeto - material ou imaterial - que responde como o simbólico necessitam de um elemento
pela satisfação das necessidades físicas e de troca. Para se ter a informação, como para
culturais do homem. Por isso os conjuntos de se ter o alimento, é preciso uma moeda de
bens integram necessariamente o sistema conversão sem a qual a informação não se
estruturado pelos seguintes elementos: produ- transforma em conhecimento e o alimento não

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se transforma em energia que aplaca a fome. da significação assumidas por esta última. É,
No primeiro caso o elemento de troca é a este aspecto que coloca dificuldades para a
cognição e o capital cultural e, no segundo, a mensuração da informação através de métodos
moeda propriamente dita. estatísticos, como ingenuamente se procurou
fazer no processo de constituição da Ciência da
Informação, nas décadas de 50 e 60 do século
INFORMAÇÃO COMO OBJETO
DE PESQUISA DA CIÊNCIA passado. A problemática da informação, na
DAINFORMAÇÃO Ciência da informação, aproxima-a do campo
teórico da Teoria da Comunicação, precisamente
A informação - sua natureza, proprieda- porque ambas operam com o sentido. Pode-se
des, produção, circulação e consumo, seja ela afirmar, nessa perspectiva, que a informação
massiva ou direcionada para grupos específi- documentada é objeto material da Ciência da
cos – vem se transformando em objeto de estudo Informação, enquanto os processos de sua
de diversas disciplinas. As Ciências da estruturação para o fluxo e a recepção são seu
Comunicação e a Teoria da informação, por
objeto formal.
exemplo, constituíram-se, em torno delas. É
necessário, portanto, explorar os conceitos antes A ampliação dos campos que se inte-
de discutir o estatuto de uma Ciência, a da ressam pela informação parece relacionar-se,
Informação, que reivindica, tal como as duas igualmente, ao fato de ela se configurar como
anteriores, a informação e o seu fluxo, portanto recurso estratégico não apenas para a organiza-
sua comunicação, como seus objetos legítimos. ção e o controle sociais, mas principalmente para
a produção de bens. Como observa Burke:
Abril (1997) afirma que a Teoria da Infor-
mação, de Shannon e Weaver, constituiu-se com Estamos imersos hoje, ao me-
objetivos instrumentais: os de obter a máxima nos segundo alguns sociólogos,
economia de tempo, de energia e portanto de em uma “sociedade do conheci-
recursos financeiros, nos processos de trans- mento” ou “sociedade da infor-
missão de informação. A informação aqui é sinal mação”, dominada por espe-
cialistas e seus métodos cientí-
que deve ser submetido a controle, configurando-
ficos. Segundo alguns economis-
-se como processo energético de codificação e
tas, vivemos em uma “economia
decodificação de sinais, não havendo lugar, nesta
da informação”, caracterizada
teoria, para as questões relativas ao significado
pela expansão das atividades
das mensagens. relacionadas com a produção e
A Teoria da Comunicação opera, no regis- a difusão do conhecimento. Por
tro contemporâneo, com a dimensão simbólica outra parte, o conhecimento
da interação, com a heterogeneidade dos converteu-se em um problema
político de primeira ordem,
sujeitos e da cultura. A informação é processo
centrado na questão de se a
de troca de mensagens que supõe a construção
informação deveria ser pública ou
de sentidos. Desse modo, emissão e recepção
privada, tratada como mercadoria
de informação são atos interdependentes que ou bem social (BURKE, 2002,
requerem interpretação para que seja efetiva a p.11).
comunicação.
É este aspecto multifacetado da informa-
Os conceitos de informação, adotados na ção que desafia os que se propõem a discuti-la
Teoria da Informação e na Teoria da Comuni- e a torná-la socialmente apropriável. Nota-se que
cação distinguem-se, portanto, pelas questões a discussão sobre sua produção e circulação,

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que vinha sendo abordada dominantemente pela nossos conhecimentos.... O


Ciência da Comunicação e da Informação, conhecimento só é conhecimento
incorpora-se de forma crescente aos modelos enquanto organização, relaciona-
propostos pela Administração e a Informática, do com as informações e
em particular a partir dos anos 1990. Nesses inserido no contexto destas. As
contextos, procura-se estabelecer as caracte- informações constituem parcelas
rísticas do conceito segundo seu alcance dispersas de saber. Em toda
operacional: no âmbito dos sistemas de parte, nas ciências, como nas
mídias, estamos afogados em
informação gerencial procura-se manipulá-la
informações. O especialista da
como instrumento de apoio à gestão; nas
disciplina mais restrita não chega
modernas teorias organizacionais, informação e
sequer a tomar conhecimento
conhecimento são ativos que potencializam a
das informações concernentes a
competitividade (NONAKA; TAKEUCHI, 1997).
sua área. Cada vez mais, a gi-
A discussão requer, portanto, delimitar o gantesca proliferação de conhe-
âmbito no qual a informação é vista como valor e cimentos escapa ao controle
como produtora de valor. Parece adequado humano.
vinculá-la a uma formação histórica específica, No campo da Ciência da Informação, área
que recebe denominações variadas: Sociedade tradicionalmente vinculada ao tratamento e
da Informação, Sociedade pós-industrial,
difusão de conteúdos convertidos em informação
Sociedade do conhecimento. Independente-
organizada, observa-se igualmente o desloca-
mente da denominação atribuída, tal formação
mento gradual da perspectiva patrimonialista, que
é, para Abril (1997), simultaneamente, informa-
caracterizava, e em larga medida ainda
cional, informada e informativa. É informacional
caracteriza as instituições de memória, sejam
no sentido de incluir aspectos operacionais e
elas bibliotecas, centros de informação ou
técnicos em que a linguagem e o conhecimento
arquivos, para as questões informacionais e
são tratados para serem transmitidos à distância,
comunicacionais, promovendo e estimulando sua
com a neutralização simultânea do espaço e do
reformulação teórica. Do que foi dito, pode-se
tempo. É informada na medida em que a produ-
sintetizar os aspectos relevantes da sociedade
ção e a recepção de conhecimentos científicos
contemporânea passíveis de integrarem os
assumem proporções gigantescas. É informativa
estudos da informação no âmbito da Ciência da
por ser sociedade na qual circulam numerosos
Informação, conforme o que segue:
e variados discursos informativos; o acesso a
eles converte-se em valor fundamental indicador 1. A informação, que antes era tida como
de participação política, de cidadania, de estoque a ser preservado e tinha seus estudos
identidade. calcados unicamente nas formas de registro
segundo os parâmetros do conhecimento cientí-
Nessa mesma perspectiva, Morin afirma
fico, é tomada agora no seu sentido dinâmico.
que (2002, p.16):
Nele os processos de circulação assumem
Por detrás do desafio global e do importância social, determinando que a distri-
complexo, esconde-se um outro buição e o acesso à informação sejam tratados
desafio: o da expansão descon- como questões sócio-político-econômicas, de
trolada do saber. O crescimento
natureza pública portanto. A informação não se
ininterrupto dos conhecimentos
apresenta mais como uma questão individual, é
constrói uma gigantesca torre de
um problema social.
Babel, que murmura linguagens
discordantes. A torre nos domina 2. A tecnologia da informação projetou as
porque não podemos dominar condições instrumentais para a consolidação do

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aspecto informacional e comunicacional da de modo a reverter a formulação simplista da


sociedade contemporânea. Mas, ao mesmo informação que induz uma interpretação
tempo, estabeleceu e disseminou a relação equivocada do seu trajeto na sociedade.
ambígua entre o meio e a mensagem. Decorre
dessa ambigüidade a falsa idéia de que a
tecnologia não é apenas um instrumento de A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
produção mas uma máquina inteligente. Ao NO PARADIGMA DA
P Ó S-M O D E R N I D A D E
tornar mecânica a produção da informação, esta
passa a submeter-se de forma crescente ao
O divórcio entre teoria e prática, discurso
processo de mercantilização: fala-se em grande
e experiência, a fragmentação do campo
quantidade de informação, afirma-se que, embora
científico em diferentes especializações, caracte-
seja grande a oferta da informação, a sociedade
rísticas da ciência moderna, são postos em
dispõe de pouco conhecimento. Afinal o que
questão na pós-modernidade. Segundo Harvey,
significam, de fato, tais proposições? Seria essa
os questionamentos e mudanças subseqüentes
analogia entre informação e mercadoria a mais
“por certo foram afetadas pela perda da fé na
apropriada para o desenvolvimento de uma
interpretação adequada dos fluxos de informa- inelutabilidade do progresso e pelo crescente
ção? Semelhante contexto, a nosso ver, apenas incômodo com a fixidez categórica do pensa-
favorece a afirmação da quantificação simplista mento iluminista” (HARVEY, 1994, p.37). Nesse
da informação, que a distancia da abordagem contexto, a ciência, a forma por excelência do
comprometida com a sua organização simbólica. processo de conhecer da modernidade, aquela
que até então mais suscitara confiança e
3. A importância da informação e do
credibilidade, começa a ter suas bases abaladas.
conhecimento na contemporaneidade vincula-se
Nos anos 1980, os movimentos de refundação
largamente à relação de pressuposição recíproca
de inúmeras disciplinas, tanto no âmbito das
que mantêm. De um lado, isto evidencia que a
ciências ditas exatas, como no das ciências
sociedade contemporânea não se caracteriza
sociais e das humanidades, ao se distanciarem
pela importância, sobejamente reiterada, que
dos princípios da ciência moderna, passam a
atribui à informação e ao conhecimento, impor-
tância de resto facilmente atestada em vários ser referidas como ciências pós-modernas.
outros momentos históricos; e de outro, permite Estabelecer, pois, fronteiras rígidas entre
observar que os termos que se encontram disciplinas é uma impossibilidade assumida no
originalmente relacionados passam a ter uso trabalho de construção do conhecimento. Afir-
sinonímico, isto é, são intercambiáveis em ma-se a interdisciplinaridade como forma de
praticamente todos os contextos. Observe-se a organizar o trabalho científico, cujas dificuldades,
expressão usual “sociedade da informação ou no entanto, são um campo minado. Segundo
sociedade do conhecimento”. Este uso sinoní- Barthes (1988, p.99):
mico não só oculta a distinção original dos termos
O interdisciplinar de que tanto se
“informação” e “conhecimento”, associados
fala não está em confrontar
respectivamente à natureza social do primeiro e
disciplinas já constituídas das
subjetiva do segundo, mas também introduz
quais, na realidade, nenhuma
distorções teóricas no entendimento da relação
consente em abandonar-se. Para
que mantêm entre si.
se fazer interdisciplinaridade, não
A constituição interna - teórica e pragmá- basta tomar um “assunto” (um
tica - que vem experimentando a Ciência da tema) e convocar em torno duas
Informação, como veremos, promove uma forma ou três ciências. A interdiscipli-
de abordagem dos três aspectos assinalados, naridade consiste em criar um

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objeto novo que não pertença a categorias aptas a circular nas várias esferas da
ninguém. sociedade. Considera-se, assim, a presença de
Ao conceito de interdisciplinaridade um sistema que elabora mensagens (o sistema
associa-se, via de regra, o de multidisciplinarida- de informação documentário) e o enunciatário (o
de. Segundo Machado, na multidisciplinaridade usuário) que as recebe e as interpreta. A
“...os interesses próprios de cada disciplina são transferência de informações requer, portanto, a
preservados, conservando-se sua autonomia e elaboração de mensagens (representações) que
seus objetos particulares” (MACHADO, 1995, propiciem interpretações produtivas. Nesse
p.193). Dito de outro modo, não se busca a sentido, informação é fundamentalmente “estru-
interação nos níveis metodológico ou de tura significante” capaz de gerar conhecimento
conteúdo, havendo fundamentalmente a (BARRETO, 1994). Evoca-se, assim, a idéia de
justaposição dos vários saberes em um espaço que a informação é produto de labor humano.
compartilhado. A interdisciplinaridade caracteri- A operação com a informação no campo
za-se, ao contrário, pela “intercomunicação da Ciência da Informação parece, portanto,
efetiva entre disciplinas” (MACHADO, 1995, requerer a adoção de dois paradigmas, em
p.194). Trata-se, portanto, de um processo princípio opostos: a Teoria da informação para
dialógico que requer interpenetração metodo- lidar com sua dimensão formal (como estrutura
lógica e uma (meta)linguagem compartilhada. O e como sinal) e a Teoria da comunicação para
conhecimento produzido distingue-se, nessa dar conta da mensagem e sua recepção (como
medida, daquele existente nas disciplinas de significado).
origem.
Wersig (1993) aponta novos caminhos ao
Em texto considerado clássico, Saracevic estabelecer como ponto de partida uma crítica
(1995) afirma que a Ciência da informação se radical sobre as questões pretensamente
define, como outros campos do conhecimento, “paradigmáticas”, tradicionalmente discutidas no
pelos problemas a que se dedica e pelos campo. Segundo o autor, a busca de soluções
métodos que utiliza para solucioná-los. Três são para os problemas da recuperação da informa-
as suas características fundamentais: a ção, em face de sua crescente produção, são
interdisciplinaridade, sua relação necessária com questões de superfície que não promovem a
as tecnologias da informação e seu papel na constituição de um campo científico. São apenas
constituição da sociedade da informação. Este respostas práticas para problemas sociais
último aspecto a define como uma ciência que concretos. Essa perspectiva, associada de forma
apresenta forte dimensão social e humana. dominante à dimensão técnico-profissional, é
Semelhante dimensão associa-se à solução dos responsável pelo abandono da reflexão específica
problemas de acesso à informação gerada e sobre as formas da circulação social da
estocada socialmente. Com efeito, a Ciência da informação e do conhecimento. Wersig propõe,
Informação preocupa-se com a pesquisa científi- desse modo, a discussão da Ciência da
ca e a prática profissional relativas à comunica- Informação no quadro das mudanças do papel
ção, necessidades e uso da informação em do conhecimento na sociedade contemporânea.
contextos sociais, institucionais e individuais. Quatro aspectos são considerados relevantes
Informação e comunicação são as palavras-chave nessa discussão: a despersonalização, a
de sua proposição. fragmentação, a confiabilidade e a racionalização
O ato de informar, na Comunicação em do conhecimento.
geral, e também na comunicação documentária, A despersonalização do conhecimento
supõe a organização prévia da informação em associa-se ao desenvolvimento das tecnologias

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da comunicação. Estas últimas ao possibilita- Hoje estamos imersos, ao


rem a comunicação à distância promovem menos segundo alguns sociólo-
simultaneamente a ausência crescente de gos, em uma “sociedade do
contatos pessoais. Os diversos ensaios de conhecimento” ou “sociedade da
personalização, via recursos de interatividade informação”, dominada por
mediados pelas tecnologias da informação, não especialistas profissionais e
têm, necessariamente, permitido aos indivíduos seus métodos científicos.
Segundo alguns economistas,
superar tal despersonalização. Nesse contexto,
vivemos em uma “economia da
Wersig refere-se à confiabilidade do conheci-
informação”, caracterizada pela
mento. Esta última apoiou-se, durante um longo
expansão das atividades rela-
período, nas possibilidades oferecidas pela
cionadas à produção e difusão
observação e experimentação diretas. Atual-
do conhecimento. Por outro lado,
mente, no entanto, o conhecimento apóia-se na
o conhecimento converteu-se em
confiança que se pode atribuir aos processos um problema político de primeira
de manipulação de dados por meios ordem, centrado na questão da
tecnológicos. informação como bem público ou
A fragmentação do conhecimento e sua privado, tratada como mercadoria
especialização derivam, em larga medida, da ou como bem social. Não será
autonomização das esferas de ação, fenômeno nada estranho se os historiado-
também estreitamente associado à racionaliza- res futuros se referirem ao
ção e ao cálculo. A percepção da impossibilidade período em torno do ano 2000
de aplicar padrões e calcular certos fenômenos como o da “idade da informação”.

promove a busca de novos paradigmas de Para Garcia Gutiérrez (1999) a área da


racionalidade. informação requer abordagem científica de seu
O conjunto de características acima itinerário. Deve, nessa medida, aderir ao modelo
exposto fundamenta o paradigma informacional da complexidade, dizendo não à mera intuição
de Wersig: o de que a informação é conhecimen- e aos paradigmas tecnicistas nos quais muitas
to para a ação. Com efeito, na sociedade vezes mergulha e se perde. Urge, nesse movi-
contemporânea, o comportamento racional mento de re-fundação, redimensionar o papel da
demanda conhecimento e o papel da Ciência tecnologia:
da Informação é exatamente o de auxiliar O marco tecnológico é indisso-
pessoas – os atores – que se encontram em ciável e indispensável na teoria e
situação problemática em relação ao uso do nas práticas informacionais,
conhecimento. não somente pelos aspectos
pragmáticos de ambas, mas
Essa idéia, no entanto, tem raízes mais também porque sua ausência
antigas. Segundo Burke (2002, p.80): “a reforma torna inservível qualquer propos-
das bibliotecas fora incluída na reforma baconiana ta de ação. A tecnologia é
do ensino empreendida na Inglaterra em meados elemento conceitual constitutivo
do século XVII. Segundo John Durie, um dos do corpus epistemológico [da
reformadores, os bibliotecários deveriam ser Ciência da informação], a tal
ponto que, atualmente, não é
“agentes a serviço do fomento do saber universal”.
possível a pesquisa de
O conhecimento é também tematizado procedimentos informacionais
por Burke (2002, p.11) em seu estudo sobre a fora desse quadro (GARCÍA
historia social do conhecimento: GUTIÉRREZ, 1999, p.52)

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Por serem as práticas de informação C I Ê N C I A D A I N F O R M A Ç Ã O:


aspectos indissociáveis da cultura contem- ALGUMAS QUESTÕES
PROGRAMÁTICAS
porânea, não se pode subestimar o fato de que
a forma da sociedade contem- Uma ciência que opera sob as condições
porânea é basicamente tecnoló- expostas acima deve, necessariamente, rever
gica, o que equivale dizer que a seus fundamentos e sua agenda de pesquisa.
relação do sujeito humano com Para Barreto (1997), a Ciência da Informação,
a realidade passa hoje predo- em particular quando esta enfatiza em suas
minantemente pela tecnologia... análises a “tecnologia da informação”, impede a
Dá-se aqui uma verdadeira elaboração de sínteses que promovam a
mutação antropológica em que construção de sua dimensão teórica.
se alteram os modos de
Verifica-se que a maior parte dos
perceber, a constituição psíquica
nossos cursos de pós-gra-
e as formas lógicas do humano
duação é orientada para a
(SODRÉ, 2002, p.96).
análise das questões técnicas
No entanto, as práticas de organização relacionadas com o processar,
são limitantes e limitadas porque, segundo armazenar e recuperar a informa-
García Gutiérrez (2002, p.13), a área está ção. Considero essa atividade
fundamental no processo de
“historicamente acostumada a resolver esses
geração do saber para a socieda-
problemas acumulando escassa bagagem
de, mas de (...) mecanismo
teórica”. inibidor, pela sua própria natu-
Semelhante situação vem sendo enfrenta- reza, do pensamento acadêmico
da com sucesso pelas idéias acima referen- (BARRETO, 1997).
ciadas que superam a idéia ingênua de que a O fascínio pela inovação tecnológica, ou
Ciência da Informação é uma disciplina interdisci- “tentação tecnicista”
plinar - junção de várias outras disciplinas, como é considerar que, à medida em
a Psicologia, a Estatística, a Lingüística etc. - , que avança o saber, diminui a
que visa sobretudo propor respostas práticas a distância entre objeto “verda-
problemas concretos, na ausência, portanto, de deiro” e o conhecimento, sendo
quadro teórico-referencial específico. o real, portanto, presumidamente
esgotável pelo conhecimento
Inscrita no paradigma da pós-moderni- técnico. Nasce daí uma ideologia
dade, a Ciência da Informação instaura seu teórica, que atribui às bases
objeto – a informação – no seu universo simbólico técnicas em si mesmas o poder
original – distinguindo objeto material – conteúdo de impulsionar a acumulação do
documentado – e objeto formal – processos de capital numa sociedade deter-
elaboração de estruturas significantes (formas minada (SODRÉ, 2002, p.101).
sintéticas), passíveis de integrarem fluxos Esta crítica ao Programa Sociedade da
sociais e de serem apropriadas subjetivamente. Informação (Socinfo) cujos objetivos são a
A abordagem do seu objeto é interdisciplinar, expressão de “simulacros cibernéticos”
já que esta é uma exigência das temáticas (TAKAHASHI, 2000, p.104), soma-se à opinião
que trata, mas a Ciência da Informação de outros pesquisadores que vêem com ceticismo
enquanto tal constitui campo específico – uma os objetivos de integrar, coordenar e fomentar
disciplina. ações para a utilização de tecnologias da

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informação e comunicação, de forma a contribuir uma nova semente, digamos, um


para a inclusão social de todos os brasileiros na novo medicamento ou um novo
nova sociedade e, ao mesmo tempo, contribuir procedimento médico.

para que a economia do País tenha condições A esfera de informação encontra-se de


de competir no mercado global (TAKAHASHI, tal forma tecnologizada, não sendo incomum
2000, p.10). confundir os meios das mediações. Sobre este
Conhecimento, informação e tecnologias fato, Morin (2000) observou que somente uma
da informação articulam-se como elementos posição epistemológica que incorpore a
fundamentais de uma Economia do tecnologia como meio, e não como fim, poderá
Conhecimento. Conforme Bolaño (19 – –): livrar-nos da submissão à tecnosfera.
Se podemos chamar esta nova Além dos aspectos econômicos asso-
situação de Economia do Conhe- ciados às atividades de informação, não se pode
cimento é porque houve uma dissociá-las do campo da Cultura, tomado aqui
mudança radical em relação à em sentido amplo, já que a informação é
forma como o conhecimento elemento constitutivo fundamental do processo
científico se incorporava ao
de conhecer o mundo. Numa perspectiva teleoló-
processo produtivo no período
gica, portanto, cabe à Ciência da Informação
anterior. Isto pode ser visto ao se
pensar e propor modos de organizar o caos
analisar a estrutura das cadeias
de valor. O caso das biotecono- informacional próprio das sociedades complexas.
logias é, nesse aspecto, muito Configura-se, portanto, como campo que explica
similar ao das indústrias cultu- os processos de comunicação nos quais
rais, como as da publicação em intervém a informação registrada, tornada
geral, em que o processo parte documento.
de um ato de criação que gera
A informação é concebida, desse modo,
uma matriz a partir da qual se
dará a produção em massa das como mensagem inscrita que nasce na socieda-
mercadorias que serão distri- de e a ela retorna, o que faz Otlet, aquele que
buídas ao público através da lançou as bases de nosso campo científico,
venda direta ao consumir final ou propô-la como disciplina que lida com objetos e
pela intermediação das indús- fenômenos sociais. Rayward (1994) recorda que
trias. uma contribuição importante do documentalista
O que se passa, portanto, como belga assemelha-se aos documentos hiper-
se sabe, na Economia da textuais produzidos nos modernos sistemas de
Comunicação e da Cultura, informação. Com efeito, no Traité de 1934,
passa em toda a Economia do portanto dez anos antes do surgimento das
Conhecimento. Assim, o trabalho
propostas de Bush sobre o Memex, e ao menos
científico, inclusive no que se
trinta e cinco anos de Ted Nelson, Otlet propõe
refere à ciência pura, crescen-
princípios de integração, através de um método
temente ‘market oriented’, produz
padronizado, as informações provindas de
elementos de conhecimento que,
diferentes fontes e sob diferentes formas (OTLET;
se chegam a ter uma aplicação
tecnológica, como é o objetivo, WOUTERS, 1934). Essa proposta ficou conhe-
levará à produção de uma matriz, cida como “princípio monográfico” e, em larga
como se pode ver, se ficamos no medida, inspira a construção das modernas
exemplo das biotecnologias, bases de dados de documentos hipertextuais.

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INFORMAÇÃO: FENÔMENO E OBJETO DE ESTUDO DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 17

Os sistemas de informação, enquanto que se opõe ao da redução/separação, próprio


expressões da memória coletiva, operam em da ciência moderna. Preserva-se a complexidade
distintos espaços, assumindo aspectos contra- na medida em que o conhecimento, seja ele,
ditórios: a informação é ora bem cultural à qual físico ou biológico, se encontre
deve-se garantir acesso universal, ora é produto enraizado numa cultura, numa
com valor comercial, alvo de disputas legais para sociedade, numa história, numa
sua proteção e apropriação privada. Sob o humanidade. A partir daí, cria-se
paradigma tecnológico, contudo, informação é a possibilidade de comunicação
sinal e mensagem. entre as ciências, e a ciência
transdisciplinar é a que poderá
Este cenário complexo impõe operações
desenvolver-se a partir dessas
conceituais para a discussão do objeto da Ciência
comunicações, dado que o antro-
da Informação e a identificação de limites, ou
possocial remete ao biológico,
interfaces com outras áreas do conhecimento. que remete ao físico, que remete
Wersig e Windel (1985) já afirmaram que ao antropossocial (MORIN, 2001,
a Ciência da Informação necessita de uma teoria p.139).
que balize as “ações de informação”. O acesso Semelhante programa de pesquisa requer
à informação configura-se como o aspecto também a reflexão sobre o método. Se a ciência
central de tais ações. Nessa medida, a Ciência moderna baseia-se metodologicamente no
da Informação, ao refletir sobre tais ações, abre- princípio cartesiano das idéias simples e claras,
se para o diálogo produtivo com as disciplinas uma ciência pós-moderna, cuja característica
que possam, a cada momento e em cada fundamental é a de adotar como paradigma o
contexto, fornecer conceitos, modelos, métodos. princípio da complexidade, deve igualmente
Evita-se, desse modo, a importação irrefletida
buscar novos caminhos para construir-se
de conceitos de outras áreas, questão apontada
enquanto saber. Para Morin,
por Wersig (1993), como um dos problemas
na perspectiva clássica, o método
teóricos a ser enfrentado pela Ciência da
não é mais do que um corpus de
Informação.
receitas, de aplicações quase
Pode-se retomar, a partir dessa hipótese, mecânicas, que visa excluir todo
as idéias sobre a interdisciplinaridade, sem cair sujeito de seu exercício. O
nas concepções tradicionais veiculadas na método degrada-se em técnica
bibliografia da área, que, por estarem distan- porque a teoria se tornou um
ciadas da necessária reflexão sobre o processo programa. Pelo contrário, na
histórico que caracteriza um campo do saber, perspectiva complexa, a teoria é
desconhece a identidade disciplinar como engrama, e o método, para ser
condição para o diálogo efetivo com outras estabelecido, precisa de estraté-
disciplinas. gia, iniciativa, invenção, arte
(MORIN, 2001, p.335).
É necessário, também, recuperar a própria
história do desenvolvimento da ciência ocidental A adoção de uma nova forma de autonomi-
que, segundo Morin (2001, p.136), é “desde o zação, portanto, parece ser mais adequada para
século XVII, não apenas disciplinar, mas também o desenvolvimento de um campo do conhe-
transdisciplinar”. Este último aspecto – a cimento que nasce no interior de um movimento
transdisciplinaridade -, é visto por Morin como o de desdogmatização da ciência e de retomada
princípio da comunicação entre disciplinas, da experiência (SANTOS, 1995, 2000). Nesse
preservando-se o paradigma da complexidade, sentido, são tarefas da Ciência da informação,

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enquanto campo disciplinar autônomo, delimitar talmente, da busca de soluções para problemas
suas fronteiras, constituir sua metalinguagem, práticos; não estão delimitadas as fronteiras entre
desenvolver técnicas apropriadas ao seu objeto, a ação teórica e a ação prática, sua metalingua-
construir modelos, conceitos, teorias. Ao lado gem é rudimentar, seus métodos se reduzem à
disso, é fundamental manter aberto o diálogo com aplicação de receitas. Permanecem, portanto,
outras disciplinas para renovar continuamente os os desafios: como estabelecer a dimensão
modos de olhar seu objeto. teórica como fundamento da prática e a prática
Da mesma forma, rever criticamente o como campo de teste de teorias e de emergência
processo de sua constituição, ou seja, adotar a de novos problemas teóricos? Como estabelecer
perspectiva histórica é um passo não só relações transdisciplinares ou interdisciplinares
necessário, mas fundamental para redimen- entre a Ciência da informação e outros campos
sionar o campo. A interdisciplinaridade proposta do saber sem o risco de sua dissolução?
distancia-se, portanto, da dissolução da Ciência A discussão epistemológica poderá
da Informação em campos conexos, tais como propor novos espaços de reflexão para os que
a Teoria da informação, as Ciências da se dedicam à construção do conhecimento e
Comunicação, as Ciências cognitivas, a Teoria simultaneamente suscitar a renovação das ações
de Sistemas. Ao contrário, propõe-se um de informação. Por outro lado, o lugar onde se
percurso que adote simultaneamente a abertura dá a reflexão complexifica-se em razão da
e o fechamento disciplinares, reconhecendo os emergência das tecnologias da informação (Tis)
campos com os quais estabelece relações que operam mudanças radicais em diversos
preferenciais e solidárias. aspectos da vida social. Tais tecnologias afetam
Acredita-se, por fim, que as relações de modo particular não só as formas de
disciplinares se estabelecem contextualmente, estabelecer os fluxos de informação, como
na medida que as ações de informação não se também, os modos de organizá-la e instituciona-
fazem dentro de fronteiras pré-delimitadas. Ao lizá-la, na medida em que os espaços de interlo-
contrário, elas atravessam os campos da cução e de construção do conhecimento tornam-
atividade humana e, como tais, são condiciona- -se “virtuais” (LÉVY, 1993).
das pelas relações de poder presentes nas
formações econômico-sociais ou, como propõe À G U I S A D E C O N C L U S Ã O:
González de Gómez (1996), ancoram-se em REFUNDANDO O OBJETO
“regimes de informação”. Ao se aceitar tal DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
formulação, redimensionam-se igualmente os
campos nos quais intervêm as ações de No paradigma da pós-modernidade,
informação. Com efeito, as políticas de como vimos, a Ciência da Informação apresenta
informação poderão ser interpretadas no quadro o seu objeto substituindo os traços simplificados
dos “regimes de informação” em que se e fragmentados que o caracterizavam. A com-
inscrevem. preensão da informação não se dá mais na sua
amplitude de fenômeno geral presente em todos
Uma Ciência da Informação ancorada
os contextos disciplinares, mas na sua comple-
epistemologicamente no campo das Ciências
Sociais aplicadas apresenta, seguramente, a xidade no contexto específico deste domínio.
dimensão teórica necessária para ser pensada O conceito de sistema de bens materiais
no interior de regimes de informação. Seme- e simbólicos possibilita interpretar, através de
lhante compreensão é por ora incipiente, já que um número maior de possibilidades, as questões
a pesquisa na área gira em torno, fundamen- usualmente propostas em relação aos vários

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fluxos que integram a sociedade. De fato, os bens - elaborando estruturas significantes cada
problemas podem estar em qualquer elemento vez mais adequadas para integrar fluxos. Basta
da estrutura do sistema de bens e por isso a observar o avanço experimentado pelas pro-
resposta a eles dependerá simultaneamente do postas de estruturação de informação e de
elemento abordado e da estrutura. linguagens documentárias, ontologias e taxono-
No caso específico da informação, po- mias, em particular. A construção destas últimas,
de-se indagar, por exemplo, sobre a sua através de metodologias que integram as
produção, isto é, se os estoques estão organi- linguagens dos documentos, dos usuários e
zados para a sua distribuição ou se o público políticas institucionais permite identificar com
dispõe de capital simbólico para ativá-los. Pode- clareza qual seja o valor social da informação,
-se ainda afirmar que existem estoques de isto é, o fato de ela poder participar de diferentes
informação suficientes, mas que não concreti- estruturas significantes, segundo o segmento de
zam fluxos porque não foram organizados para usuários considerados.
tanto. Pode-se observar também que estoques Compete portanto à Ciência da Informa-
organizados não cumprem sua função, não por ção estabelecer os princípios e as práticas
consequência de falha interna, mas porque não relacionadas à produção da informação, sua
participam de processos de distribuição ou não distribuição e formas de acesso. Ela responde
oferecem acesso adequado aos segmentos também por parte da operação de troca, pois
populacionais a que se dirigem. esta etapa se concretiza apenas com a
Na perspectiva adotada, afirma-se, portan- intervenção da moeda de conversão do usuário.
to, que nenhum bem pode ser analisado ao largo Os sistemas de informação podem estar cada
do sistema que o institui como tal. Como bem vez mais organizados para responder às ações
imaterial ou simbólico, a informação projeta um que conferem valor à informação, mas jamais
fluxo de relações constantes: na produção, a poderão responder isoladamente pela geração
relação entre o conteúdo registrado e a forma da do conhecimento. Portanto, a Ciência da
informação; na disseminação, a relação entre Informação tem o papel fundamental não só de
os produtos informacionais e os segmentos de responder pelas etapas do processamento social
usuários; no acesso, as formas significantes da informação mas também o de promover a idéia
compatíveis simultaneamente com a linguagem de que o conhecimento depende tanto da
do sistema e a linguagem do usuário; na troca, informação quanto das habilidades e
a relação entre o capital cultural dos segmentos competências integradas em moedas de
populacionais e a forma simbólica do estoque conversão que permitem interação entre o
informacional e no uso, a relação entre a informa- homem e o sistema de informação no sentido
ção disponível socialmente e o conhecimento estrito.
subjetivo dos segmentos sociais. Estas exem- A informação, que se apresenta como
plificações evidenciam então que a informação objeto da Ciência da Informação, é uma estrutura
como bem torna-se fluxo através de estruturas significante que sintetiza os conteúdos dos
relacionais. Então, em nível abstrato a documentos, sob formas diversas, segundo
informação é um objeto cuja forma relacional políticas e segmentos de usuários. Os sistemas
tem duas faces, social e subjetiva, que se de informação são, portanto, criados para o uso
complementam. humano. O valor da informação consiste,
Como foi afirmado, a Ciência da Informa- conforme já afirmado, em gerar conhecimento.
ção chama a si a responsabilidade da produção Seguindo a proposta aqui desenvolvida,
da informação - aspecto social do sistema de além dos aspectos já apontados anteriormente,

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é oportuno enunciar algumas questões suscita- respeito às clivagens informacionais segundo um


das pela captura que faz a área da sociedade recorte social pré-existente - condição pro-
contemporânea e apontar alguns equívocos fissional, econômica, escolaridade, etc. A
nocionais que as sustentam. importação irrefletida de tais critérios apenas
Atualmente, sob a denominação “me- perpetua a distribuição da cultura segundo o
diação” impõe-se a abordagem dos fluxos de recorte tradicional que responde pela
informação com a pretensão de viabilizar desigualdade social. Ao contrário, ao perseguir
contínuas relações entre circulação de informa- o valor da informação, a Ciência da Informação
deve contemplar o modo pelos quais conteúdos
ção e produção de conhecimento. Embora seja
podem ser acessados, manejados e entendidos.
esta uma ação importante, ao privilegiá-la
O trajeto a ser seguido impõe a busca pela
isoladamente, o campo da Ciência da Informação
relação fundadora da constituição do sentido: o
nega a sua especificidade. Como bem, a
documento, o seu conteúdo, as possibilidades
informação contempla o seu valor social desde
de tratamento e os segmentos variados da
que seja elaborada para tanto. Em larga medida,
população.
ao se voltar para práticas de mediação, que não
raro são entendidas genericamente, substituem- Finalizando, é preciso ressaltar que a
-se os problemas específicos do campo relativos reboque das seduções da tecnologia, a área tem
se calado sobre os modos de recepção que lhes
à produção da informação. Se aceito que à Ciên-
são próprios. Referimo-nos aqui ao uso social
cia da Informação compete elaborar informação
dos equipamentos culturais. Com a crescente
para integrar fluxos sociais, a ela cabe a me-
privatização do consumo da cultura, os rituais
diação externa, inscrita nos produtos informa-
coletivos de recepção próprios das bibliotecas e
cionais. Caso contrário, dissemina-se a idéia de
dos museus, por exemplo, tendem a desapa-
que a presença do mediador neutralizará
recer. Associada à refundação do conceito de
imperfeições do sistema de informação e de que
informação, a discussão sobre a expansão e a
este exerce apenas uma função patrimonialista.
função dos equipamentos surge como prioridade,
Outra questão que merece destaque, mesmo porque eles se constituem instrumentos
resultante, possivelmente, da visão mecanicista importantes de inclusão, da democratização da
que exerceu e ainda exerce fascínio na área, diz cultura e da cidadania plena.

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