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INTRODUÇÃO

Desfavorecido por uma série de fatores políticos, econômicos, ambientais e


sociais, o Nordeste, antes Norte, esteve vinculado ao longo da história a diversos
estereótipos que só aumentaram a desigualdade da região. Um desses estereótipos foi a
violência, cuja associação se deu naturalmente a questões como o mandonismo,
coronelismo e mais notadamente, o cangaço.

Antes da chegada do século XX, o Brasil se dividia entre Norte e Sul, não
esboçando ainda o que viria ser, a invenção da região a priori chamada Nordeste. O
antagonismo entre a divisão do trabalho dessas regiões se deu subjugando a decadência
das “Províncias do Norte” em relação a ascensão dos estados do Sul, pelo êxito cafeeiro
entre fins da monarquia e o começo da republica, estimulando para região setentrional
atividades econômicas voltadas ao ruralismo (NEVES, 2012, p.6-24).

Para o historiador Albuquerque Junior (1999), o conceito de Nordeste fora


moldado conforme uma elite sulista ainda na década de 20 do século passado, sobrepondo
sua conduta de perspectiva ocidental sobre os valores e costumes nordestinos. Devido
isso a região foi por muito tempo vista como uma grande unidade, não havendo assim
contrastes e nuances entre seus diferentes povos. Até aí as informações que circulavam
sobre a região eram bastante ofensivas e discriminatórias. Para dar exemplo, as crônicas
de viagem intituladas Impressões sobre o Nordeste em 1923 por Paulo Barros, da Folha
de S. Paulo, relatavam um lugar de hábitos e feições exóticas, enfocando a situação de
calamidade oriunda dos flagelos da seca. Além disso, o paulista também descrevia em
suas publicações, uma população onde se predominava fanáticos brossais e bandidos
facínoras, abrindo espaço para proposições de superioridade racial dos habitantes do sul,
que teriam uma suposta linhagem europeia (ALBUQUERQUE, 1999, p. 68).

Não tardou para que intelectuais Regionalistas como Amaury de Medeiros,


Gouveia de Barros e Ulysses Pernambucano, se unissem para dar uma resposta as
declarações vindas das terras baixas. O primeiro passo para mudança desse cenário de
superioridades locais, foi o Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre, lido pela primeira
vez em um encontro regional em Recife, em fevereiro de 1926. Nesse texto, Gilberto
Freyre não apenas respondia os maldizeres de Paulo Barros, como também reivindicava
um olhar compreensivo as peculiaridades locais do Nordeste, delimitando os contornos
regionais que fugiam da visão naturalista do século XIX (FREYRE, 1996, p. 47-75).
Tendo em mente os diferentes olhares sobre o conceito de Nordeste na
historiografia, conceito esse que continua sendo reatualizado conforme as conjunturas
políticas e econômicas (NEVES, 2012), o debate sobre as representações do cangaço, se
mostra um elemento pertinente para construção identitária da região.

O cangaço foi um movimento rural de atuação armada no nordeste brasileiro entre


os séculos XVII e XX, sendo responsável pela execução de roubos, assassinatos, estupros
entre outros crimes (MARCONDES e TOLEDO, 1991). Em contraponto existiram
também bandos conhecidos por fazerem “justiça com as próprias mãos”, pela ajuda nos
flagelos da seca de 1877, e até mesmo na resolução de casamentos (BANDEIRA, 2015).
Tudo indica que eram os roceiros e vaqueiros da comunidade sertaneja, geralmente muito
ligados ao vigor físico, fator possivelmente devido a pré-matura transição para a vida
adulta. (MARCONDES e TOLEDO, 1991). Os feitos de aventura vinculados a esses
cangaceiros instigaram a imaginação do sertanejo promovendo uma aura de heroísmo
sobre os grupos, que passaram a ser retratados na cultura popular disseminando assim as
façanhas de seus protagonistas (DANTAS, 2012, p. 25). Para Pernambucano de Mello,
a pluralidade desse fenômeno é variada e complexa, não se podendo dizer que houve um
cangaço, mas vários cangaços (MELLO, 2004). Outro ponto ambíguo, pelo menos para
aqueles que cogitam um cangaço ideológico, é que a constituição desses grupos
bandoleiros foi dada não somente pela parcela pobre sertaneja, mas também por
fazendeiros e integrantes de famílias abastadas, como é o caso dos cangaceiros Jesuíno
Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e tantos outros, que teriam sido inclusive
senhores de escravos (PERICÁS, 2010, p.43-46). Isso difere aliás de proposições vistas
em fins do século XX, de autores como Rui Facó e Cristina Mata Machado, que centram
as origens do cangaço nas lutas de classe, em uma perspectiva Marxista simplista
(OLIVEIRA, 2011, p. 71-72); (MELLO, 2004, p. 32).

Maria Isaura de Queiroz observa sociologicamente o fenômeno cangaceiro


indicando três principais formas de banditismo no movimento: a primeira concerne no
banditismo social, que representa as atuações onde somente os ricos são roubados, sob a
intensão de se distribuir os frutos do roubo entre os pobres, semelhante à figura do Robin
Hood; a segunda seria o cangaço vingador, geralmente por motivo de morte, e em
detrimento de uma vingança pessoal; e por último, o banditismo puro, caracterizado pelos
bandos simples, formados por grupos de ladrões e assassinos comuns (QUEIROZ. 1977.
p. 205, apud DANTAS, 2012, p. 29). Já Pernambucano de Mello distingui de forma
semelhante outros três tipos de atuação no cangaço: sendo desses o mais frequente, o
cangaço-meio de vida, estilo de vida que tem o banditismo enquanto um profissão e que
tem em Antônio Silvino e Lampião os principais representantes; um segundo tipo,
denominado cangaço de vingança, bem próximo do modo proposto por Queiroz (1977),
expresso por cangaceiros como Jesuíno Brilhante e Sinhô Pereira, que agiram fora da lei
até o momento da morte (como foi Jesuíno Brilhante), ou até a execução de sua vingança
pessoal (como foi Sinhô Pereira) (BANDEIRA, 2015); e o menos frequente os três tipos,
o cangaço-refúgio, forma de cangaço estratégico e defensivo, um paralelo entre as duas
formas apresentadas que tem como principal figura Ângelo Roque, comandante de um
dos subgrupos de lampião e também conhecido por Labareda (MELLO, 2004, p. 104-
136); (BANDEIRA, 2015 p. 136).

É importante ainda distinguir o cangaceiro do jagunço e do cabra, outros tipos


comuns do sertão. Começando pelo último: a figura do cabra ou capanga, podia assim
como o cangaceiro atuar na ação defensiva ou ofensiva dos fazendeiros, no entanto sendo
geralmente um empregado de confiança, um íntimo do patrão que muitas vezes chegava
a habitar no mesmo lar que esse, estando principalmente associado as questões de
segurança do seu senhor. (MELLO, 2004, p, 68); o cangaceiro tendo uma origem comum
com o capanga, teria surgido da profissão do “guarda-costas” em um período onde os
conflitos de resistência contra o colonizador já haviam sido amortecidos, o que
transformou os bandos já desassemelhados com o labor da honra, em trabalhadores
ociosos, ocasionando a demissão destes pelos fazendeiros. Isso levaria os capangas a se
tornarem cangaceiros, tendo como último recurso de sobrevivência a formação ou a
procura por bandos (Idem, 2004, p. 69); por último, o jagunço, diferenciado do cangaceiro
pela ação geralmente movida por um sentimento de honra, pode ser entendido como o
sertanejo comum, que julgando necessário o uso da violência no auxílio de um amigo,
não se recusa em pegar a arma de fogo ou o punhal, sem nada receber em troca (LINS,
1993, p. 87, apud BANDEIRA, 2015, p. 22).

Esse panorama geral sobre os diferentes tipos de cangaço permite que tenhamos
uma noção introdutória do que venha a ser o fenômeno em questão, apontando algumas
das suas características principais. É importante reforçar que o cangaço não foi uma
“resposta a violência dos coronéis” mas sim um fenômeno alicerçado em uma sociedade
que tem a violência amalgama ao seu sistema coletivo, consistindo em uma expressão
particular do nordeste brasileiro, o que não significa dizer que não houveram conflitos
latifundiários onde senhores de terra e pobres sertanejos eram opositores. Esses
confrontos surgem ainda nos primeiros séculos de colonização portuguesa, onde o
sedentarismo da monocultura de cana de açúcar, dá espaço ao nomadismo do ciclo do
gado. (MELLO, 2004, p. 32-33).

O banditismo e o cangaço nos sertões dos séculos XVII – XX

A partilha do território brasileiro no século XVI por D. João III e o seu plano de
colonização do Brasil, buscava direcionar uma organização feudal(?) ainda existente no
reino lusitano, todavia, de forma adaptada ao novo domínio. Os recebedores dessas terras
foram os donatários, que ainda seriam dotados de soberania civil e criminal (ALVES,
2003, p.3). Não demorou muito para que começassem os conflitos pela instalação do
homem e sua apropriação de terras. A respeito disso, Joaquim Alves (2003) informa que,
gozando de privilégios da corte, 4 donatários - João de Barros, Fernand’ Álvares, Ayres
da Cunha e Antonio Cardoso de Barros - receberam duzentas e sessenta e cinco léguas de
terra, cuja ocupação dos espaços não fora de início bem sucedida, somente apresentando
adensamento demográfico após a chegada de grupos secundários (Idem, 2003, p. 3-4).
Dentro das duzentas e sessenta e cinco léguas mencionadas anteriormente, estava a região
semiárida do Nordeste e o seu polígono das secas, castigado por longas e oscilantes
estiagens que impediam a estabilidade dos sertanistas, havendo ainda a presença de
grupos indígenas, a dificuldade com o transporte (MELLO, 2004, p.47), entre outros
fatores que retardavam ainda mais o povoamento da área, o que resultou em um afluxo
pequeno de portugueses do reino no Nordeste seco (Idem, 2003, p. 4).

Somente durante a segunda metade do séc. XVII, é que se intensifica a conquista


do sertão, principalmente em função da prática pecuarista (MEDEIROS, 2003, p.1), que
como atividade nascente e em detrimento da vegetação escassa, leva vaqueiros e
marchantes a abrirem novas matas para o gado (MELLO, 2004, p. 32), não obstante, foi
um processo acelerado por consequência da carta régia de 1701, que oriunda de
divergências entre plantadores de cana-açúcar e mandioca com os criadores de gado,
estabelece a atividade pecuarista à dez léguas de distância do litoral (MELLO, 2004, p.
56). Para Cascudo, “o sertão foi povoado [...] por gente fisicamente forte e etnicamente
superior [...] Enfrentava o índio quem não tinha medo de morrer nem remorso de matar”
(CASCUDO, 1975 apud MELLO, 2004, p. 78). Esse cenário de pouca estabilidade e
entrada no sertão seco desencadeou uma série de problemas, principalmente no que se
refere a convivência entre fazendeiros e indígenas (ALVES, 2003); (MELLO, 2004);
(CRUZ, 2018).

Sem noção do que viria a ser a “propriedade”, o indígena acostumado a caça e


sem meios para tal devido ao açoite das secas, passa a se alimentar do gado solto, já que
estes estavam em seu território comum. Isso engendrou na formação de bandos armados
a mando das capitanias, que procuravam conter os índios de corso, como os Icós, que
além de se apropriarem do gado, faziam também conflitos de reconquista ou de vingança.
(ALVES, 2003, p.32-33). Esses tapuias habitavam o semiárido nordestino sobrevivendo
da caça e coleta antes mesmo da invasão europeia, e segundo Cruz, passaram por grandes
modificações tecnológicas, culturais e políticas em fins do século XVII, sendo conhecidos
por suas habilidades no pastoreio de animais e no manuseio de armas de fogo. Essas,
adquiridas através da aliança com holandeses e “piratas estrangeiros” no rio Açu (CRUZ,
2018, p.47-48), que mais ao litoral, onde se predominava o plantio da cana, praticavam o
roubo de embarcações carregadas de açúcar, assassinando ou aprisionando quaisquer
autoridades que estivessem a bordo, o que dava grandes dores de cabeça a corte
portuguesa. O banditismo já era então, uma prática comum tanto no interior quanto na
costa marítima da colônia (BANDEIRA, 2012, p. 15-16).

Essas primeiras formas de atuação armada, dada a presença de estrangeiros,


enriqueceram o banditismo caboclo, que chegou inclusive a ser chefiado por holandeses
como Abraham Platman e Hans Nicolaes, este último, tendo agido na paraíba à frente de
um grupo com mais de 30 homens por volta de 1641. Três anos mais tarde, seria
mencionado em manuscritos holandeses, os boschloopers (batedores de bosque) liderados
por Pieter Piloot (MELLO, 2004, p. 93-94). Segundo Bandeira os primeiros bandidos
capturados no Brasil colônia, foram mandados a precária cadeia do Limoeiro em Portugal
(OLIVEIRA, 1970, p. 324-325, apud BANDEIRA, 2015, P.16 apud).

É importante dizer que além dos bandos mencionados anteriormente, grupos


bandeirantes que já estavam acostumados no aprisionamento de indígenas no sudeste,
foram também enviados as terras do norte da colônia para conter as tensões promovidas
por comunidades indígenas e quilombolas rebeldes. Movia esses bandeirantes o interesse
na partilha das terras tomadas de nativos, entre outros benefícios responsáveis pelo
estimulo das tropas (MEDEIROS, 2003, p. 1-2). Com interesses contrários, alguns
políticos da região nordestina que sugeriam uma “barreira indígena no sertão”, tentavam
evitar a aproximação das forças bandeirantes temendo o aumento pela concorrência de
terras, o que acarretaria em novos conflitos armados (CRUZ, 2018, p.125).

Emergia assim, desses aglomerados distintos de índios tapuias, negros fugidos,


bandeirantes desgarrados, corsários franceses e holandeses, remanescentes das tropas que
ocuparam a costa nordestina (PERICAS, 2010, p. 17), os primeiros bandoleiros que se
adaptariam ao ambiente seco e passariam a formar grupos mais tarde conhecidos por
cangaceiros (BANDEIRA, 2012, p.17) de modo geral e até aí, reconhecíveis pela
ambiência rural e a insubordinação a autoridades fora do bando (MELLO, 2004, p. 89).

Quanto a origem do termo cangaço, existem algumas proposições a respeito. Há


quem diga que o termo já era comum a população sertaneja por volta de 1830; Outros,
que durante o século XVIII era u tipo de alcunha para bandos a mando de colonizadores
para captura de índios. No entanto, essa visão é menos recorrente e aceita. Segundo Luís
Camara Cascudo, a palavra cangaço estaria situada em dicionários desde a década de 70
do séc. XIX, por medida de Domingos Vieira, significando “reunião de objetos menores
e confusos, utensílios das famílias humildes, mobília de pobre e escravo” (PERICÁS,
2010, p. 17-18). Franklin da Távora em O Cabeleira (1876) parece utilizar a palavra ainda
de forma introdutória, se pensarmos que o escritor a menciona apenas uma vez ao longo
da narrativa, definindo-a no glossário da obra como a “voz sertaneja. Quer dizer o
complexo das armas que costumam trazer os malfeitores. O assassino foi à feira debaixo
do seu cangaço — dizem os habitantes do sertão” (TÁVORA, 1876, P. 89). Qualquer
forma, nota-se que o termo já estava altamente difundido no Nordeste desde o começo do
século XX, sendo comum encontrá-lo em documentos oficias em alusão aos bandidos
sertanejos (PERICÁS, 2010, p.18). É possível ainda que essa denominação seja oriunda
da palavra canga, um tipo de equipamento voltado a tortura, ou cangalha, um objeto que
se alocava no lombo de animais de tração (Idem, 2010, p.18); (DANTAS, 2012, p.15).

Pode-se dizer que o primeiro bandido que fora associado ao cangaço atuou durante
a segunda metade do século XVIII. Trata-se de José Gomes, conhecido popularmente
pela alcunha de Cabeleira e eternizado pelo escritor cearense Franklin da Távora. José
Gomes teria entrado para o cangaço devido os maus ensinamentos do seu pai, Joaquim
Gomes, que também fazia parte do seu bando. Ambos ficaram bastante conhecidos em
Pernambuco pela prática de crimes nas redondezas da capitania, sendo pai e filho
enforcados em 1776 na praça das cinco pontas, em Recife (TÁVORA, 1876); (SOUZA,
2007); (MENEZES, 2012); (BANDEIRA, 2015). Chama ainda atenção que alguns dos
epítetos de personagens cangaceiros na narrativa de Távora, foram posteriormente
utilizados por integrantes do bando de Lampião e Antônio Silvino, como: Jararaca,
Corisco e Labareda. (DANTAS, 2012, p. 17), poderiam ter sido outros bandidos
históricos notados pelo autor? Pericás (2010) comenta que era comum o hábito entre
cangaceiros de aderirem o nome de bandidos antecessores como uma forma de os
lembrar. Isso justificaria a repetição de alcunhas como Alma de gato, Gato, Azulão,
Fiapo, Jiboião, entre tantos outros (BANDEIRA, 2015).

Devido à pouca documentação existente sobre o período de atuação do famigerado


Cabeleira , não se sabe ao certo quais era as características étnicas, sendo um assunto
bastante controverso. Há quem fale que ele era brancoso, ruivo, com olhos claros, cabelos
longos e encaracolados, como também quem diga que ele era mameluco ou mestiço
(PERICÁS, 2010, p. 148). Távora descreve não somente José Gomes, como também o
seu pai Joaquim e o comparsa Theodosio da seguinte maneira:

“Cabelleira podia ter vinte e dous annos. A


natureza o havia dotado com vigorosas
fôrmas. Sua fronte era estreita, os olhos
pretos e languidos, o nariz pouco
desenvolvido, os lábios delgados como os de
um menino. É de notar que a physionomia
deste mancebo, velho na pratica do crime,
tinha uma expressão de insinuante e jovial
candidez. Joaquim, que contava o duplo da
idade de seu filho, era baixo, corpulento e
menos feio que o Theodosio, o qual, posto
que mais entrado em annos, sabia dar,
quando queria, á cara romba e de cor fula
uma apparencia de bestial simplicidade em
que só uma vista perspicaz, e acostumada
aler no rosto as idéas e os sentimentos
Íntimos, poderia descobrir a mais refinada
hypocrisia” (TÁVORA, 1876, p.19-20).
Mais tarde no século seguinte, dessa vez no estado do Ceará, Manoel Martins
Chaves, um cangaceiro e coronel das ordenanças de Vila Nova, era conhecido pelos seus
mandos imbuídos de violência, que o levaram a receber ordem de prisão expedida pelo
Marquês de Aracati, então governador do estado colonial, Carlos Oyenhansem
(OLIVEIRA, 1970, p. 324-325, apud BANDEIRA, 2015, P.16). Algumas décadas depois
surge o notório Lucas da Feira. Descendente de escravos africanos, esse bandido perverso
fugiu da senzala onde vivia ainda aos 16 anos, juntamente com outros escravizados que
passaram a espalhar o terror pelas redondezas de Feira de Santana na Bahia entre 1828 e
1848 (RODRIGUES, 2006, p. 103). Conforme os registros, Lucas da Feira sequestrava e
estuprava mulheres que eram por ele amarradas em arvores e deixadas pra morrer após
sofrerem bizarras torturas. Suas ações hediondas chamaram tanta atenção, que antes de
ser executado em setembro de 1849, D. Pedro II teria solicitado conhece-lo sob certo
fascínio pelo criminoso (BANDEIRA, 2015). Ainda sobre Lucas Evangelista (o Lucas da
Feira), Nina Rodrigues influenciado pelas teorias de Lombroso, analisou a morfologia
craniana do bandido encontrando supostos traços de mestiçagem com “raças superiores”,
que segundo o professor de Medicina Legal, poderia (de forma hipotética) inocentá-lo
(RODRIGUES, 2006, p. 103-107).

Há de se notar então, que de início os chamados “pré-cangaceiros” (SOUZA,


2007, p. 8), ou até mesmo, os primeiros representantes do cangaço, como Manoel Martins,
Cabeleira, Joaquim Gomes e Lucas da Feira, não habitavam o ainda inóspito sertão
nordestino (BANDEIRA 2014, p.19-148), concentrando-se nas margens dos centros
litorâneos e agrestes, salvo os momentos de fuga da justiça que os levavam de certo, a se
refugiar nesses ambientes. Assim, a conquista do sertão por esses bandos, ao que parece,
foi acentuada de maneira progressiva, ganhando espaço ao passo em que se constituíam
os pequenos povoamentos de vaqueiros e sertanejos nas áreas desérticas da caatinga, e
como não poderia se desvincular, do domínio de fazendeiros e senhores de engenho
(MELLO, 2004).

Segundo o britânico Eric Hobsbawm o ápice do banditismo no Nordeste brasileiro


ocorreu após a terrível seca de 1877, perdurando até 1919, após outra forte seca em 1915.
(HOBSBAWM, 2010, p.24, apud DANTAS, 2012, p.18). É justamente nesse período
temos a formação de bandos chefiados por cangaceiros ilustres como Jesuíno Brilhante,
Antão godê, Antonio Dó, Sinhô Pereira e Lampião (BANDEIRA, 2015).
Mais precisamente, nos interessa aqui a história do bandido de alcunha Antônio
Silvino, apelidado “Rifle de Ouro” ou “Governador do Sertão” (PERICÁS, 2010);
(OLIVEIRA, 2011) cuja história é romanceada pelo escritor Paraibano Carlos D.
Fernandes, em Os Cangaceiros, romance de costumes sertanejos (1914), também a
segunda obra em enfoque na presente monografia.

Seu nome de batismo era Manoel Batista e nasceu em Afogados da Ingazeira-PE


em 02/11/1875. Tinha traços de caboclo e estatura de 1,83 cm de altura (BANDEIRA,
2015, p. 43). Tinha hábitos militares, sendo ainda primo do líder cangaceiro Antão godê
e sobrinho do coronel Silvino Ayres (OLIVEIRA, 2011, p.71). Silvino entrou para o
cangaço após ver sua mãe apanhando de soldados e ter seu pai assassinado em uma
emboscada feita pela família Ramos por questões de posse (BANDEIRA, 2015, p. 43).
Antônio Silvino passou a ser perseguido pela polícia após saquear a Villa dos Teixeira
em 1897 na companhia de seu irmão Zeferino, em grupo chefiado pelo seu tio Silvino
Ayres. Conforme notícia publicada pelo jornal A Republica:

“Em 1897, quando Presidente do Estado o Sr. Gama


e Mello, Antonio Silvino, cujo verdadeiro nome é
Manoel Baptista, em companhia de seu irmão
Zeferino, fez parte de um grupo de scelerados, que
chefiado por Silvino Ayres assaltou a Villa do
Teixeira com o fim de saqueal-a e matar o delegado
de policia. Providencialmente poude aquella
autoridade escapar, não sendo entretanto possível, em
vista da sorpreza no ataque, evitar as depredações de
toda a ordem que os vândalos commetteram:
arrombamento da cadeia, ferimentos por bala em
diversas pessoas, saque total na residência e
estabelecimento commercial do delegado” (A
República, 23 de outubro de 1907); (OLIVEIRA,
2011, p.67).

Preso o chefe do bando Silvino Ayres, o grupo continuou as atividades criminosas


sobre os mandos de Luís Mansidão. Esse era descendente de escravos e teria arrumado
diversos inimigos por conta do seu temperamento forte, principalmente na cidade de
Moxotó-PE. Não durou pois muito tempo sendo assassinado por um jovem que vingara
uma ofensa sobre sua mãe (QUEIROZ, 1077, apud OLIVEIRA, 2011, p. 67). Assumiria
então a chefia do bando cangaceiro, Antônio Silvino, devido suas qualidades de bom
sertanejo e as habilidades de atirador (OLIVEIRA, 2011, p. 67). O epiteto adotado como
nome do cangaceiro teria possíveis relações com o padroeiro da fazenda Colônia (onde
habitava), o Santo Antônio, em junção com Silvino, uma homenagem a seu tio que estava
preso (Idem, 2011, p. 68).

No início Manoel Batista, que sempre foi muito caridoso, adotara a postura de
bandido romântico, apresentando o discurso de “roubar para ajudar aos pobres e só matar
em defesa de si”, o que lhe rendia a admiração da comunidade sertaneja, que também via
no cangaço uma forma de fuga das condições de miserabilidade. As constantes estiagens
responsáveis pela destruição das plantações e pela morte do gado na época, afligia a
população nordestina provocando sua retirada da região. Segundo Facó, em 1900 a
situação de flagelo havia feito cerca de 40 mil pessoas migrarem do sertão, principalmente
em direção Amazônia, pela apresentava um desenvolvimento crescente devido a alta da
exploração da borracha (FACÓ, 1983, p. 31); (FURTADO, 2001, apud DINIZ, 2009, p.
234).

Se faz compreensível então que o cangaceiro tivesse uma personalidade altamente


revoltosa e que as populações mazeladas se sensibilizassem com suas ações, o acolhendo
e acoitando durante suas passagens (OLIVEIRA, 2011, p.71). Ao mesmo tempo não se
pode perder de vista que o sertanejo auxiliava o cangaceiro mais movido pelo medo do
que pela admiração (PERICÁS, 2010, p. 36). Muitos entravam para o cangaço a mando
de fazendeiros importantes e chefes políticos, ou por motivos de vingança. Essas relações
tinham uma lógica, porém aconteciam de forma inesperada e sem planejamentos, sendo
os embates de sociabilidade entre ricos e pobres ou entre pobres e ricos o que que
acarretava as representações sociais dos bandoleiros (OLIVEIRA, 2011, p.71). Existiram
assim três perceptíveis distinções “cronológicas” no cangaço: um defensivo, de ação
ocasional na guarda de propriedades rurais; outro Político, expressão de poder dos
grandes fazendeiros; e o seu último, Independente, de caracterização do próprio
banditismo (MARCONDES e TOLEDO, 1991).

Antonio Silvino teria papel importante nessa última modalidade de cangaço, pois
seria um dos precursores dela, já que detinha certa independência dos fazendeiros e
coronéis (OLIVEIRA, 2011, p. 70). Se antes o cangaço tinha uma incidência em
momentos de seca e desestabilidade econômica, a característica marcante nessa terceira
fase, é que as atuações dos cangaceiros já não eram realizadas em prol dos períodos de
seca e pobreza, o banditismo nesse período aconteceria em tempos chuvosos e de
prosperidade (DANTAS, 2012, p.22).

Para o sociólogo Eric Hobsbawn, o processo que origina esse tipo de prática
estaria associado a fatores derivados da marginalização e do afastamento dos deveres e
poderes do Estado. Fator este aliás, que justificaria talvez o próprio fim do movimento,
já que segundo o mesmo: “ [...] a “modernização” priva qualquer banditismo, inclusive o
social, das condições nas quais floresce” (HOBSBAWN, 2009, p. 38). Isso justificaria
alias os ataque de Antônio SilvinioPericás (2010), entra em acordo com Hobsbawn (2009)
ao apontar a modernização como um fator crucial para o fim do cangaço, entretanto o
autor acrescenta que a morte de Lampião na chacina de 1938, contribuiu em muito para
o decaimento da autoestima no banditismo. Isso estaria visível no alto número de
cangaceiros que se renderam à volante após o cerco do Angico. Lampião, figura intitulada
Rei do Cangaço, representava a imagem e os valores do movimento e como não havia
outro para assumir o seu lugar, seu assassinato teria forte papel na extinção dos bandos
cangaceiros (DANTAS, 2012, p. 24).

Pernambucano de Mello,

O cangaço (ou os cangaços) foi assim um dos principais temas do nosso período
histórico, assim como possivelmente, o principal, quando se trata da região Nordeste
(MENEZES, 2010, p. 10), sendo responsável pela publicação de um considerável número
de trabalhos de pesquisa, principalmente nos campos disciplinares da história, literatura
e arqueologia. Dentre essa larga produção, chama atenção um confronto entre cangaceiros
e volantes que persiste, mesmo que sem a utilização de armas brancas ou de fogo. São as
batalhas de memória, embates de representação que se perpetuam até os dias atuais
reafirmando ou modificando percepções acerca desse fenômeno (SÁ, 2008; 2009).

Fernando de Araújo Sá em seu texto Memórias do Cangaço no sertão do São


Francisco, busca através do registro oral de cangaceiros e volantes que atuaram nos
estados de Alagoas e Sergipe, além de pessoas que tiveram contato com ambos, refletir o
modo como esses indivíduos se colocam subjetivamente na identidade da região.
Chegando à seguinte conclusão:

“[...] o cangaço não se tornou história, é ainda


memória, campo de confrontos simbólicos entre os
diferentes sujeitos históricos resultando em distintas
memórias em torno da problemática do cangaço,
demarcando-o, contudo, como elemento constitutivo
da identidade regional. Terreno privilegiado do
imaginário social, o cangaço aparece nas entrevistas
como um leque de representações a partir do
desdobramento de um mesmo símbolo, revelando a
disputa mnemônica entre a “memória volante” e a
“memória cangaceira” (SÁ, 2009, p. 139).

Não somente, o irredentismo cangaceiro tem sido tomado como um símbolo de


luta por diferentes grupos sociais, principalmente nos embates pelo latifúndio. Muitos
relacionam a luta do cangaço a questões de ideologia social, ressaltando a luta contra o
domínio de fazendeiros e coronéis nas questões de posse, apesar de pesquisas mais
recentes desmentirem tal afirmação (MELLO, 2004); (PERICÁS, 2010, p. 184).

Sendo assim o presente trabalho buscou explorar o potencial informativo dos


artefatos identificados nos romances O Cabeleira (1876) e Os Cangaceiros, romance de
costumes sertanejos (1914), tendo em mente o papel do arqueólogo como um agente
vivificador da cultura material, que tempera sua ciência com humanidades (DAVIES,
2002, p.22). Para isso, entende-se que a literatura é uma fonte interpretativa que permite
ao arqueólogo superar limitações informacionais de contextos específicos, auxiliando em
sua narrativa sobre as sociedades passadas (HINES, 2012).

Todavia, estudos do cangaço com base em literatura são relativamente recentes


nas ciências humanas, havendo nos últimos anos um número de publicações considerável
e que de antemão nos permitem conhecer o fenômeno do cangaceirismo por diferentes
abordagens.

Na tese de doutorado Entre a fé cega e a faca amolada: representações ficcionais


do cangaço, Wagner de Souza desnuda a relação ambígua dos personagens ficcionais de
narrativas cangaceiras, que conotam uma dualidade psicológica que reduz hora a religião
(cega); hora, à violência (amolada). Os romances analisados situam-se nas tendências do
romantismo e do realismo, observado nos principiais romances que tratam do cangaço,
publicados entre fins do século XIX e XX, entre eles O cabeleira de João Franklin da
Távora, Os Cangaceiros de José Lins Rego da década de 30; e Os desvalidos (1996), de
autoria do escritor riachãoense, Francisco Dantas. Souza destrincha elementos da
narrativa de Franklin da Távora que remetem as formas literárias convencionais do
romance histórico, apontando o pouco êxito do autor na construção do romance, que
tripudia entre uma proposta e outra sem necessariamente se definir (SOUZA, 2007, p.16-
29). Já a dissertação de mestrado de Aline Jesus de Menezes, intitulada Tensões, aridez e
realidade em O cabeleira, de Franklin Távora (2012), apresenta um apanhado geral da
obra, demonstrando a proposta educacional do escritor cearense, precursor da chamada
“literatura do norte”, que buscava apontar dilemas, contradições e problemáticas sociais
da região. Além disso, ao tratar da figura do sertanejo, Távora substitui o símbolo nacional
vigente (o índio), contrapondo-se a representatividade da literatura idealizada pela elite
da corte, reivindicando o Norte como berço cultural do pais (MENEZES, 2012).

No artigo Memórias de um tempo brabo: O cangaço em Francisco J. C. Dantas


(2010), Antônio Fernando de Araújo Sá, analisa a representação do cangaço nas obras do
escritor sergipano, autor de Os desvalidos (1993) e Cabo Josino Viloso (2005), fazendo
um diálogo entre a literatura, memória e história. Sá apresenta a ideia de que pelo fato
dessas obras se tratarem da memória, partisse da premissa que a mesma se vincula ao
conceito de cultura, delimitando sentidos e referencias que por sua vez, produzem
“esquemas de percepção, apreciação e ação” (CARDIM, 1998 apud SÁ, 2010, p. 104).
Não somente, a memória reside no intermédio entre as estruturas sociais, individuais e
coletivas, sendo também materializada através de livros, filmes, musicas, etc. Dessa
forma, entende-se que tais suportes interagem sobre a memória social, não sendo essa
contrária ao discurso histórico, mas complementar (DAVALLON, 1999, apud SÁ, 2010,
p. 104). Na verdade, o que mais chama atenção, é que o foco narrativo em Os desvalidos,
se figura em primeira pessoa, diferenciando-se das produções literárias de temática
cangaceira a posteriori, como é o caso das obras tratadas no presente trabalho. Isso é
interessante porque não se produz um distanciamento entre o enunciador e o personagem,
ambos resultam na “perspectiva do cangaceiro ou do desvalido” (SOUZA, 2007, p. 115-
116, apud SÁ, 2010, p. 104).

Arqueologia, História e Arqueologia Histórica

A arqueologia histórica é uma subdisciplina da Arqueologia ainda em formação,


podendo ser conceituada de diferentes maneiras, seja como o estudo dos povos
subsequentes a expansão colonial; enquanto uma arqueologia do capitalismo; da relação
palavra, objeto, texto e artefato; ou das sociedades letradas. Fora das américas, no entanto,
existe a tendência entre pesquisadores que estudam contextos subsidiados por
documentos, de utilizar termos periódicos como arqueologia medieval, ou
“regionalizantes” como na arqueologia egípcia e grega, não havendo menção ao
chamado arqueólogo histórico (SILLIMAN, 2006, p.1). Conforme Silliman, que propõe
uma arqueologia do mundo moderno “[…] It is also in this context that debates about
historical archaeology’s disciplinary alignments flare, as practitioners variably propose
allegiances to anthropology or history (SILLIMAN, 2006, p.2).

Com exceção da arqueologia americana, a qual é considerada parte da


antropologia, há uma longa tradição presente entre arqueólogos e historiadores de
considerar a arqueologia uma disciplina auxiliar da história, possível reflexo de definições
restritivas, da história como responsável por interpretar fontes escritas; e da arqueologia
por se encarregar de artefatos coletados e objetos artísticos. A arqueologia é no entanto,
uma ciência independente ligada intimamente a história e a antropologia, e como tal, tem
crescentemente seguido a orientação destas, o que acontece de maneira reciproca, já que
ambas reconhecem o potencial da investigação arqueológica na formação do
conhecimento histórico. Além disso, é de consenso que a história constituí parte vital da
interpretação arqueológica e que arqueólogas(os) devem unir o uso de artefatos ao estudo
da documentação escrita. Todavia se debatem formas de se encontrar um meio termo
entre o relativismo e objetivismo absolutos dessas áreas (FUNARI, 1998, p.7-11).

Tal aproximação entre as disciplinas História e Arqueologia, teria um primeiro


passo com a criação da Revista dos Annales encabeçadas por Lucien Febvre e Marc Bloch
na primeira metade do século XX. Esse historiadores criticavam o modelo positivista da
historiografia tradicional francesa propondo alterações significativas no repertório de
fontes, propondo um debate multidisciplinar à cerca do método científico. Fundava-se na
França em 1929, o movimento conhecido como a Nouvelle Histoire, que se posicionou
de forma contrária a Escola Metódica, pondo em enfoque uma “história problema”
(FARIAS et ROIZ, 2006, p. 121-126); (GAFFO, 2013, p. 4).

Ainda nos anos 50 historiadores Marxistas começam a exercer a publicação dos


primeiros textos e artigos referentes a “história vinda de baixo”. Havendo novas
modificações duas décadas depois com o surgimento da chamada História Cultural, que
passa a analisar os fenômenos da sociedade em seus aspectos sociais, políticos e
econômicos, conferindo um enfoque multifacetado e ampliando ainda mais o leque
historiográfico das fontes, sendo fundamental para isso a publicação da obra “Nova
História” de Jaques Le Goff e Pierre Nora, comentada por Ferreira (2009):

“Ao proporem a dilatação do território temático do historiador


– que passou a abranger objetos tais como o inconsciente, o
cotidiano, a língua, a literatura, o mito, a infância, a juventude,
a festa, os meios de comunicação, entre outros- os novos
historiadores também estimularam a pesquisa de novos
documentos – escritos, sonoros, visuais.” (FERREIRA, 2009,
p. 64, apud GAFFO, 2013).

Essa aproximação entre arqueologia e a história se dá de forma mais incisiva após


o conceito braudeliano de longa duração (BRAUDEL, 1969, p. 103; Carandini, 1979, p.
66-69, apud FUNARI, 1998, p. 8). Ferdinand Braudel ao propor diferentes
temporalidades históricas, também propunha um objetivo comum entre a História e as
demais Ciências sociais, que vinham desde as décadas de quarenta e cinquenta em uma
crise geral oriunda dos progressos individuais de cada disciplina, ambas sufocadas pela
acelerada produção de conhecimento; pela falta de uma práxis coletiva já bastante
discutida em seu tempo, mas ainda pouco executada, e que sugeria a necessidade de um
projeto de “História Total” agregador de diferentes formas de conhecimento humano com
uma mesma finalidade; pela carência na organização inteligente desses saberes, que
refletia no desenvolvimento do item anterior; e por fim, pelo humanismo retrógado que
já não seria adequada como parâmetro (CRACCO, 2009, p.73-74). A Arqueologia até
então, como as outras ciências sociais, estaria ainda vinculada ao tempo histórico de curta
duração, considerada por Braudel como positivista. Nas palavras dele: “Seja passada ou
atual, uma clara consciência dessa pluralidade de tempo social é indispensável para uma
metodologia comum das ciências humanas’’, sendo esse o seu principal argumento (Idem,
2009, p.75).

No entanto, essa unificação entre a história e as ciências humanas, parece ter sido
assimilada de maneira mais eficaz na América do Norte. Pedro Paulo Funari aponta a
persistência de um problema de comunicação entre as disciplinas arqueologia e história
na América latina, ao dizer que os historiadores sul americanos prestam pouca atenção as
informações arqueológicas, que por sua vez “parecem falar uma outra língua” (FUNARI,
1998, p. 14-16). Pode-se ainda dizer que o acúmulo mais que suficiente de informações
documentadas sobre grande parte dos temas do passado recente, culmina muitas vezes,
em uma produção historiográfica independente, que não dialoga com os remanescentes
arqueológicos, diferentemente das pesquisas referentes ao período antigo, que
normalmente dependem do auxílio de artefatos, e por esta razão, da arqueologia
(FUNARI, 2014).

Segundo Collin Renfrew, o uso que fazemos do ambiente material, da fala e da


escrita, são aspectos cruciais da existência humana. Logo texto e artefato estão desse
modo intrinsecamente associados, e a informação que ambos podem oferecer deve ser
enfocada em complementaridade. O uso de fontes documentais são assim essenciais para
a interpretação arqueológica, sendo os povos com escrita (ou que foram escritos) o foco
da subdisciplina arqueologia histórica (RENFREW, 2005, p. 103). Para Beaudry, o uso
dessas fontes constituem, parte integral da análise da vida material no período histórico,
codificando os seus elementos contextuais. Esses elementos por sua vez indicam a
concepção e localização dos significados no tempo passado, o que é fundamental para a
percepção dos processos sociais de significação da cultura material (BEAUDRY, 2007).

Nesse sentido, ao lidar com o texto, o arqueólogo se aproxima do historiador,


fazendo uso de diferentes tipos de documentos. Do mesmo modo, essa relação de
interdisciplinaridade se manifesta do lado do historiador, que também se utiliza da cultura
material na análise histórica (FUNARI, 1998, p. 8).

Arqueologia documental

Por mais que arqueólogo e historiador se utilizem de documentos na produção do


conhecimento histórico, o primeiro não confundir-se-á com o segundo, pois tende a
centrar-se na cultura material, seja ela concreta ou representada. Isso significa dizer que
o arqueólogo histórico deve sugerir seu próprio problema de pesquisa, selecionando quais
questões lhe chamaram atenção, caso queira este, prover uma contribuição significativa
para a ciência (BEAUDRY et al, 2002, p. 1). Segundo Mary Beaudry, existem duas
tendências responsáveis por uma produção de saber tautológica entre arqueólogos que
analisam fontes documentais: uma, refere-se ao uso de sítios históricos para geração de
modelos interpretativos da pré-história; e a outra, a verificação da correspondência entre
o registro arqueológico e as fontes documentais. Ambos refletindo práticas pouco
produtivas para quem deseja estudar seriamente o passado do novo mundo (Idem, 2002,
p.1).

Sabendo que o registro histórico não se configura enquanto um suporte finito de


informações especializadas, sendo antes, uma acumulo de percepções sobre o passado,
Anne Yentsch (2002) analisa um conjunto de lendas sobre antigas casas norte-americanas
dos séculos XIX e XX, enquanto formadoras de um conteúdo ideológico que é
transportado para o meio físico dos objetos, que por sua vez, informam as relações entre
os indivíduos do contexto. Percebendo assim, a cultura material se comportaria como um
agente ativo mediante a qual a mitologia de um povo é conservada e repassada as gerações
subsequentes (YENTSCH, 2002, p.4). Yentsch ao se utilizar dessas fontes orais,
demonstra como as propriedades herdadas por mulheres durante esse período nos Estados
Unidos recebiam um significado diferente em relação as posses masculinas, evidenciando
como essas lendas e contos excluíam mulheres e outras minorias. Conforme a
pesquisadora, isso promoveria uma seleção altamente tendenciosa da memória,
privilegiando casas de posse masculina em detrimento das propriedades de mulheres
(Idem, 2002, p. 3-6).

Garry Wheeler Stones em seu texto Artefatos não são suficientes (2002), sugere o
uso intensivo e crítico de fontes documentais na resolução de problemas arqueológicos.
Nesse trabalho é apresentado um argumento convincente para o uso complementar de
fontes que abranjam a totalidade de bens materiais de uma dado contexto, e não apenas
os remanescentes arqueológicos passíveis de escavação. Isso se justifica porque ao
utilizar testemunhos escritos somente associados ao registro arqueológico, se limita o
potencial interpretativo dos significados culturais desses vestígios, não alcançando
relevância no tratamento de questões históricas mais profundas (STONES, 2002, p.68).
O argumento de Stones subsidia aliás, a metodologia usada na presente monografia, de
modo que a inventariação da cultura material representada nos romances O cabeleira de
Franklin da Távora e Os cangaceiros: romance de costumes sertanejos, de Carlos D.
Fernandes, apresenta-se como uma alternativa interessante para a proposição de uma
arqueologia do cangaço e das sociedades sertanejas, cujos indícios materiais são escassos
ou de baixa visibilidade (ABREU E SOUZA, 2017).
Arqueologia e Literatura

O campo de investigação da arqueologia e literatura tem como proposição


aproximar as representações da cultura material contida nas fontes literárias com o
significado do registro arqueológico, incorporando as características ideológicas
intrínsecas aos objetos de um determinado contexto (HINES, 2011).

Existem poucos exemplos de pesquisas dessa natureza na bibliografia


arqueológica, sendo destaque a publicação de Hilda R. Ellis Davidson na década de 50,
intitulada The Hill of the Dragon: Anglo-Saxon Burial Mounds in Literature and
Archaeology, que foca a construção folclórica da antiga literatura nórdica, em associação
aos contextos funerários situados na Colina do Dragão, no condado de Oxfordshire na
inglaterra (DAVIDSON, 1950). Em A Distant Prospect of Wessex: Archaeology and the
Past in the Life and Works of Thomas Hardy, de Martin J. P. Davies (2002). Analisa-se a
vida e a obra do escritor inglês Thomas Hardy (1840-1928), atentando-se a relação do
romancista com a ciência arqueológica, que teria sido base para produção das suas
narrativas ficcionais sobre o antigo reino anglo-saxão de Wessex (DAVIES, 2002).

Mais recentemente Jonh Hines em Literary Sources and Archaeology (2011),


demonstra como essas fontes textuais possibilitam ao arqueólogo(a) entender, ou pelo
menos vivificar a motivação e o significado de práticas passadas refletidas no registro
material. Hines, semelhantemente a Davidson (1950), utiliza-se de poemas e crônicas do
período anglo-saxão para interpretar arqueologicamente o passado nórdico. Para o autor,
a mediação entre a literatura e a cultura material é limitada; no entanto, o mesmo aponta
que: “A literary source typically offers an individual, reflective, and often quite
imaginative response to real events or situations” (HINES, 2011, p. 4). Além disso, é
valido mencionar também a dissertação de Mestrado de Diana Sofia da Silva Marques,
Excalibur: A Espada na Bruma (2013), que demonstra a importância representativa da
espada excalibur enquanto símbolo de autoridade e soberania no território britânico,
utilizando para isso um estudo comparado entre literaturas arturianas. Visando entender
as representações simbólicas, a pesquisadora recorre a registros históricos e
remanescentes arqueológicos, passando pelas culturas celtas, anglo-saxônicas, até os
Cavaleiros medievais. (MARQUES, 2013).
No Brasil Tania de Andrade Lima se utiliza das obras de escritores como Machado
de Assis, José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, em complementaridade com os
remanescentes arqueológicos, fazendo uma reflexão sobre o consumo de louças e
baixelas, que foram incorporadas como emergência do modo de vida burguês no século
XIX. Outra exemplo, foi a inovadora abordagem do trabalho de iniciação científica
Arqueologia e Literatura: cultura Material na representação do Cangaço, vinculado ao
projeto Persigas e brigadas: arqueologia das práticas bélicas do cangaço, que
desenvolvi entre os anos de 2016-2017, e que se lançou à análise da representação
material do cangaço na literatura oral dos folhetos de cordel, sob orientação do Prof.
Leandro Domingues Duran. (FALAR DA PESQUISA!)

Diante disso, a literatura aparece como uma importante fonte de pesquisa para o
estudo do fenômeno cangaceiro, inclusive para arqueologia. No entanto, é importante ter
a noção de que a arqueologia e Literatura é um tipo abordagem complementar, possuindo
limitações interpretativas, que a torna de certo modo, dependente de comparações com
dados arqueológicos, provenientes de coleções de acervos públicos e privados e relatórios
de intervenções diretamente no contexto, nesse caso, de sítios sertanejos, efêmeros ou de
transição (ABREU E SOUZA, 2017, p.41) (FERREIRA, 2016, p.297). Assim, a presente
monografia tem como proposição integrar e fomentar o desenvolvimento de projetos de
pesquisas, como: mapeamentos e classificações de acervos, estudo das táticas de
confronto do cangaço, prospecções, análises de registro documental e oral, como proposto
pelo arqueólogo Leandro Domingues Duran (DURAN, 2014, p.2).

O projeto da “Literatura do Norte” e o Romance Regional nordestino entre fins do


séc. XIX e o começo do XX

Quando se trata de analisar um documento histórico existe a necessidade de se


identificar os propósitos intrínsecos deste ao seu momento, pois eles por sua vez
influenciavam a condição de outros textos imprimindo neles características próprias
(GABBO, 1985, p. 20). O texto reflete elementos sociais causando efeitos em quem os
lê, efeitos de mudança: de imediato em nossa forma de conhecer o mundo através de
crenças, valores e costumes. Já em longa duração, pode-se dizer que o texto sedimenta e
constrói novos padrões de identidade na sociedade, colocando o indivíduo como
consumidor de determinados produtos ou formando sua identidade de gênero. Por meio
do texto pode se começar uma guerra; proporcionar transformações na educação; nas
relações industriais; no comercio e por aí vai (MAGALHÃES, 2004, p. 114, apud
FAIRCLOUGH, 2003, p. 8).

Dentro desta perspectiva, o cangaço foi um movimento do banditismo rural


brasileiro que deu origem e fomentou um elevado número de manifestações literárias que
expunham suas características e problemáticas, mesmo durante períodos de perseguição
(SILVA, 2013), haja vista que se por um lado os bandos eram considerados sinônimos de
desobediência social para os coronéis; por outro, eram acolhidos pelas classes mais
humildes da população sertaneja, que muitas vezes tinham os bandidos como heróis
(PERICÁS, 2010) em detrimento do escudo ético, observado por Mello (2004) como a
necessidade da justificativa social do banditismo cangaceiro.

Observando essa ambivalência entre o cangaceiro e o sertanejo, utilizo como


referência arqueológica básica as pesquisas vinculadas ao projeto Persigas e Brigadas:
Arqueologia das práticas bélicas do cangaço, em conjunto com a tese de doutorado Um
lugar na caatinga: consumo, mobilidade e paisagem no semiárido do nordeste brasileiro
(2017), a qual denota uma arqueologia sertaneja (ABREU E SOUZA, 2017, p.55-62).

Sertanejas e sertanejos: dos hábitos vaqueiros, dos cultos religiosos, das cantigas
populares, da insubmissão dos cangaceiros - e de outros tantos modos de vida que não os
representam em menos, adaptaram seus costumes as possibilidades da paisagem
semiárida, unindo conhecimentos notadamente entre indígenas e africanos (NOVAIS,
1997, p.33); (SILVA et al, 2017, p.3).

Essas populações que habitaram e habitam o espaço dito por Gilberto Freyre “berço da
cultura brasileira” no seu manifesto regionalista (FREYRE, 1926) ou dos traços
genuinamente brasileiros (TÁVORA, 1876, p.4), merecem, assim como outros povos
também marginalizados pelo seu tom europeu esmaecido, ou pela inclinação em se
contrapor a modernidade eurocêntrica como no episódio da revolta dos quebra-quilos na
Paraíba), uma maior visibilidade, já que sobre o chamado sertão nordestino foram fixados
estereótipos desfavoráveis aos seus, pela impossibilidade de narrativas que não fossem
de seca e miséria, e que demonstram como um colonialismo inerente se perpetua em um
discurso arqueológico de perspectiva ocidental (ABREU E SOUZA, 2017, p.59).
OBJETIVOS

Pretende-se aqui, investigar de forma arqueológica as obras O Cabeleira e Os


cangaceiros: romance de costumes sertanejos, almejando analisar o papel da
representação da cultura material relevante na construção da identidade do cangaço, tal
como, verificar a aproximação existente entre arqueologia e literatura, de forma a assumir
de vez a legitimidade da fonte documental e literária na ciência arqueológica.

OBJETIVO GERAL

Discutir como a cultura material representada nos livros abordados, atuam na constituição
de uma valoração ideológica sobre o fenômeno cangaceiro.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

I. Analisar a cultura material móvel representada nos romances de modo qualitativo, por
meio da correlação e interpretação dos dados; e quantitativo, com auxílio da confecção
de planilhas e gráficos estatísticos, avaliando o potencial arqueológico dos artefatos
representados;

II. Verificar quais são os mecanismos de conservação da desigualdade social inseridos


nas narrativas e quais referenciais simbólicos e ideológicos sedimentam esse processo,
evidenciando as contradições sociais ocultadas pelas expressões culturalmente aceitas,
reforçando assim, o papel de uma arqueologia crítica (ORSER, 1992);
III. Contribuir em termos de metodologia para o aprimoramento de futuras pesquisas em
arqueologia e literatura, conforme sejam observadas ou não deficiências no modo de
abordagem das obras.

Desenvolvimento

Esse breve experimento de arqueologia histórica consistiu na realização da leitura


intensivas das obras O Cabeleira (1876) e Os Cangaceiros, romances de costumes
sertanejos (1914), explorando de maneira sistemática as representações ficcionais do
cangaço e os possíveis caminhos para se pensar uma arqueologia desse fenômeno através
da literatura, o que implica em uma abordagem fenomenológica. Segundo Marques:

“A fenomenologia define que o método a ser


utilizado é o de ir até a “coisa” como ela se
manifesta, num exercício que leva à verdade.
No trato da literatura, o método se complica,
pois como diz A. A. Mendilow, ela se
configura como uma leitura ilusória da
realidade, que é algo criado por quem faz sua
leitura e que não existe de fato: o que existe,
é a ilusão de que se construiu uma verdade”
(MARQUES, 2009, p.24).

Incutir de forma laboriosa no campo da análise documental, além de possibilitar


uma observação “panorâmica” do objeto de estudo, também é um modo de conceber os
fatos sociais em sua ampla complexidade, desconfiando dos pressupostos da fonte e não
os compreendendo mediante uma sociologia ingênua, que se engana ao tentar apreender
as significações dos protagonistas sociais de maneira intuitiva, sem perceber que na
verdade é esbarrada contra a projeção da própria subjetividade, “[...] é ainda dizer não «à
leitura simples do real», sempre sedutora, forjar conceitos operatórios, aceitar o carácter
provisório de hipóteses, definir planos experimentais ou de investigação (a fim de
despistar as primeiras impressões, como diria P. H. Lazarsfeld)” (BARDIN, 1977, p.27).

Dessa forma, esta abordagem foi uma adaptação da presente pesquisa com base
no método de Analyse du contenu de Laurence Bardin (1977), uma forma de
processamento manual de dados textuais, bastante usado nas ciências humanas para
decifrar qualquer “transporte de significação codificado” de um emissor para um receptor
(1977, p.32)

Em detrimento da já mencionada escassez de pesquisas enviesadas na


Arqueologia e literatura, ou Arqueologia na ficção, exponho abaixo um breve esquema
do que foi feito, em termos gerais, para fins de visualização do método em questão, e da
sua aplicabilidade no âmbito da Arqueologia Documental.

Análise da cultura material em fontes literárias

Tratamento
dos
Exploração
Pré análise resultados:
do Material
Inferência e
interpretação

(Esquema baseado em Bardin, 1977)

A etapa inicial da análise, consiste na elaboração de um esquema de trabalho, que


embora bem definido, deve ainda estar flexível a possíveis adaptações circunstanciais.
Nela, o pesquisador deve realizar a chamada "leitura flutuante", um primeiro contato com
as fontes, precedido da delimitação dos fatores norteadores da pesquisa. Durante essa
fase, para exemplos de adaptação no esquema de trabalho, foi alterada a proposta inicial
de escolha do segundo romance para o corpus da pesquisa. Isso foi necessário porque a
obra inicialmente selecionada, O quinze, de Rachel de Queiroz, se demonstrou pouco
pertinente e não homogênea, no que tange a temática cangaceira aqui em enfoque. Por
isso a obra foi substituída pelo romance de costumes Os Cangaceiros, do paraibano
Carlos Dias Fernandes. É válido mencionar que não somente a homogeneidade; e a
pertinência foram critérios definidores dessa etapa, mas também, a representatividade da
fonte, isto é, a autonomia da amostra enquanto representante de características gerais do
universo que se pretende inferir. Seriam estes, alguns dos requisitos fundamentais para Commented [L1]: O que siginica homogeneidade? O que
significa pertinência? O que significa representatividade.
validação dos resultados e seu posterior adjunto na formulação de hipóteses e inferências
conforme Bardin (1977, p. 96-102).

Num segundo momento, passamos a exploração do material, que consiste por sua vez
na leitura intensiva e sistemática das obras, tal como na escolha de unidades de
codificação e classificação do material em formas de registro ou recorte. Para isso, deve-
se estabelecer regras de contagem e enumeração, além da
escolha das categorias de classificação, geralmente classes compostas por elementos
semelhantes do ponto de vista léxico ou sintático.

As regras elaboradas para tratamento do corpus textual na presente pesquisa, foram:

I. Os artefatos contabilizados na análise serão registrados conforme as


quantidades semanticamente interpretadas no corpus textual.
II. Qualquer atributo diferencial verificado em objetos similares (ex:faca, faca de
arrasto) implicará na contabilização distinta desses elementos, mesmo que o
seu sentido semântico indique unicidade.
III. Qualquer objeto que não esteja claramente vinculado a um personagem da
narrativa, será direcionado a um “fundo geral”, chamado aqui de “cenário” ou
pela sigla“CN”.
IV. Objetos identificados como figura de linguagem não serão considerados.
V. O que classifica um artefato é a ação por detrás dele, a qual faz parte. Assim,
um mesmo tipo de objeto pode ser classificado em diferentes categorias, desde
que lhes seja empregado diferentes usos.
Para inserir tais itens em tais categorias, é necessário antes estabelecer seus fatores
de classificação. Nisso, a identidade social dos personagens através da construção dos
seus estereótipos pelo autor, e consequentemente da cultura material que lhe foi fixada
pelo mesmo, buscou-se enquadrar em diferentes classes e grupos sociais. Dessa forma,
os personagens considerados mais próximos das características sobreditas, foram
tomados enquanto referenciais, ou pelo menos, como representantes da percepção dos
escritores sobre esses atores sociais. Isso possibilitou que a cultura material pudesse ser
vista de forma particular em cada grupo representado na ficção.

I. Bélica: Quaisquer artefatos vinculados as ações de violência (ataque,


defesa, caça ativa e passiva);
II. Religiosa: objetos de uso ou simbologia religiosa;
III. Indumentária, as vestimentas e acessórios atribuídos aos personagens;
IV. Utensiliar os objetos de uso cotidiano doméstico ou do trabalho.

Por fim, chegamos no tratamento dos resultados, onde acontece a passagem do estado
bruto dos resultados para um estado de significado e validez das informações. São feitas
aqui relações estatísticas simples (ou complexas), representações gráficas e quadros
comparativos, que visam subsidiar possíveis hipóteses e inferências (BARDIN, 1977, p.
96).

O método difundido por Laurence Bardin tem, então, como objetivo, evitar a
generalização de ideias por meio da simples leitura, e consequentemente, enriquecer a
mesma, mediante a amostragem de conteúdos e estruturas que confirmam (ou não) o que
se deseja demonstrar, visando facilitar o surgimento de hipóteses provisórias e inferências
sobre o conteúdo (BARDIN, 1977, p.27).

Foram feitos, além do inventário dos elementos artefatuais integrados ao enredo


das literaturas, uma série de gráficos que apontam para a quantidade de itens presentes
em cada categoria, assim como a sua distribuição artefatual entre personagens, classes
sociais, gêneros, e no que se refere aos tipos de cada matéria prima, verificável nesses
objetos. Além disso, foram elaborados também, mapas que representam o perímetro onde
se concentraram as narrativas ficcionais. Esses, por sua vez possuem elementos mistos
que incluem referenciais tanto de natureza literária (como as áreas de atuação do bando
de Cabeleira descritos na obra de Franklin da Távora), quanto histórica e arqueológica,
como as três principais rotas de vaqueiros no semiárido pernambucano entre os séculos
XVIII e XIX; e os sítios arqueológicos de habitação sertaneja identificados na mesma
região por Abreu e Souza (2015).

Dada as implicações metodológicas e teóricas descritas até o momento, resta antes


da apresentação dos resultados, demonstrar a relação existente entre a teoria semiótica e
o estudo da cultura material pela disciplina arqueologia.

De maneira prévia, é importante ter clara a noção de que esse tipo de abordagem
semiótica não significa uma formula pronta para se alcançar as estruturas de significação
que constituem o texto, pois mesmo que embasada em uma única concepção de
linguagem, a maioria dos achados interpretativos se referem apenas aos contextos onde
foram identificados (FERRAZ, 2004, p.47).

Trata-se de compreender que o caráter simbólico intrínseco aos vestígios de


atividade humana, são de fato estruturas dotadas de signos, já que a cultura segundo
Geertz, é um fenômeno essencialmente semiótico (1978, p.10). Esses signos variam
conforme o momento e a circunstância em que são observados, o que torna a abordagem
linear, de simplesmente relacionar o significante ao significado, inapta para a percepção
de um fenômeno social em sua totalidade. Na busca de ultrapassar essa limitação,
utilizam-se alguns preceitos da semiótica peirceana, entendendo que essa vertente pode
apreender as relações de significado de maneira mais completa (NETTO, 2015, p.10).

Quando lemos um código verbal (nesse caso, o artefato), buscamos transformar o


simbólico (a palavra) em um icone, de forma que a representação situada no texto
presentifique o seu objeto, isto é, o torne presente (Idem, 2004, p.47-49). Mas como é de
se imaginar, o texto literário é um signo complexo, já que se constitui por outras dúzias
de signos, que podem ainda ser divididos na tricotomia: ícone, símbolo e índice.

Considera-se ícone, a alusão imediata ao objeto real; refere-se a símbolo, sua


associação arbitrária e convencional, entende-se por índice, os elementos que aproximam
ou que indicam a presença do objeto. O modo como percebemos e nos relacionamos com
os símbolos, interpretando o mundo, são chamadas relações simbólicas. Após a posse do
presidente eleito Jair Messias Bolsonaro, a então ministra dos Direitos Humanos Damares
Alves, disse: “Começou uma nova era: meninos vestem azul e meninas vestem rosa.”
Demonstrando sua relação simbólica reacionária. Outro ponto, é que a identificação de
um signo como objeto é sempre ilusória e parcial – uma selfie pode se apresentar enquanto
a imagem de alguém em determinado tempo, porém jamais a definirá enquanto pessoa -
e portanto, no que tange a expressão concreta da linguagem, os signos são icônicos, e não
ideais (FERRAZ, 2004, p.47-49).

Indo um pouco além, o que se distingue por ícone pode ser ainda mais atomizado,
dividindo-se em outras três categorias da semiótica peirceana, que nada mais são do que
suas formas de representação. Essas representações são: Imagem, a reprodução mimética
das qualidades do objeto; o diagrama, que expressa uma organização indexal (em índice)
das associações ao objeto; e a metáfora, entendida com o aspecto simbólico da
representação, ou ainda no paralelismo de uma coisa com a outra (FERRAZ, 2004, p.49
apud PEIRCE, 1990, p.64).

A matéria prima da literatura é o símbolo (a palavra), porém a forma como o


artista a insere no texto é dotada de certa particularidade, uma verdadeira projeção do
icônico sobre o verbal, a qual Jakobson exprimiu em seus estudos sobre funções poéticas,
como a projeção do eixo da similaridade sobre o eixo da contiguidade (JAKOBSON,
1969 apud FERRAZ, 2004, p.49).

Utilizarei como exemplo dessa projeção icônica sobre o verbal a obra abordada,
a qual irei chamar figurativamente de Sítio O Cabeleira (1775-1876), em alusão a
terminação arqueológica sítio e ao período estabelecido entre o contexto da narrativa e a
publicação do romance, entendo suas páginas como os meus níveis artificias, as quais irei
escavar mais à diante. Pois bem:

Em determinado momento cronológico do sítio, o indivíduo/personagem Joaquim


Gomes, dá a seu filho José Gomes (que na circunstancia tinha 9 anos) uma arma branca.
Nota-se que a forma como Franklin da Távora aborda esse objeto, se encaixa na definição
exposta acima, de projeção icônica sobre o verbal:

“[...] Joaquim fez de uma folha de facão velho um punhalzinho e, chamando o filho,
entregou-lhe a nova arma, mediante este discurso: — Sabes para que fim te dou este
ferro, José? [...] Toma o ferro.” (TÁVORA, 1876, p.24).

Vendo isso, Joana, mãe do garoto, diz:


“[...] os homens bons não trazem consigo armas. Dá-me o punhal.” (TÁVORA, 1876,
p.24).

Os grifos acima (folha de facão, punhalzinho, ferro, arma e punhal) remetem


ambos a um mesmo objeto, porém expresso de formas léxicas diferentes. Essa relação de
proximidade e distância entre os materiais linguísticos usados na representação do ícone
punhalzinho e dos índices ferro, arma e punhal, pode ser entendido aqui como exemplo
do caráter paradigmático do que Geckeler (1976) se refere por campo lexical, o qual se
utiliza de Saussure para conceitua-lo:

“No interior da mesma língua, todas as palavras que expressam ideias similares são
mutuamente limitadas: sinônimos como temor e receio, têm seu próprio valor apenas por
sua oposição: se o receio não existisse, todos seu conteúdo iria para os concorrentes (apud
GECKELER, 1976, p.104 apud LEONEL, 2000, 287).

Ou seja, os índices temor e receio, ou retomando o exemplo anterior, ferro, arma e


punhal, podem ser entendidos como oposições funcionais de significação, analisáveis em
seus traços distintos (como se cada qualidade específica do conteúdo das palavras se
unissem enquanto propriedade dos ícones que se pretende representar). O presente dado
a José Gomes pelo seu pai Joaquim, é dessa forma convencionalmente interpretado aqui
como: um objeto de ferro/ de função equivalente a uma arma/ um punhal pequeno/ um
punhalzinho. Essa distinção se faz importante, tanto por justificar a regra II do tratamento
do corpus de pesquisa, quanto como um elemento da análise do discurso do autor, pois
do ponto de vista da definição de campo lexical de Saussure, a escolha de cada elemento
léxico denota uma opção do enunciador.
O Cabeleira (1876) – Franklin da Távora

Narrado em terceira pessoa, O Cabeleira é um romance que se insere em


características comuns ao naturalismo, onde a objetividade da enunciação é reflexo de
um determinismo científico, que observa o homem como um produto da tríade: raça, meio
e momento. Trata-se de um “Romance-tese”, uma análise social em digressão, onde o
autor procura explicar os desvios de conduta praticados por bandoleiros, tomando fatores
socialmente patológicos para isso, aproximando-se das teorias de J. J. Rousseau, que
associam a perda da boa natureza do indivíduo pela sociedade que o corrompe
(SIQUEIRA, 2007).

Conta a saga de um dos primeiros cangaceiros de que se tem notícia, José Gomes
(o Cabeleira), bandido da segunda metade do século XVIII. O enredo se passa
predominantemente na capitania de Pernambuco, sob o governo do General João Cesar
de Menezes, concentrando-se entre a zona da mata (litoral) e a porção agreste (ver mapa
I). Uma paisagem de vastas plantações de cana-de-açúcar; engenhocas produtoras de
cachaça e rapadura; senzalas e fazendas espaçadas; brejos isolados; gado solto pelos
pastos sem divisão; rotas de vaqueiros, ambientes desérticos sob o sol escaldante da
caatinga. Ainda assim, isso não quer dizer que essas paisagens sejam geograficamente
reconhecíveis (CHIAPINNI, 1995, p. 153-159). Nesse período, marcado pela terrível seca
de 1776 e a epidemia de varíola que a seguiu, o escritor paraibano relata um tempo onde
os homens eram dominados por suas “paixões canibais” e pela violência, mais pela
ignorância que o cercava, do que pela sua condição natural.

A história começa com a organização de um ataque a cidade de Recife por


cabeleira e seu bando, que era composto por seu pai Joaquim Gomes e o facínora
Teodósio. É uma parte da obra marcada pelo jorrar de sangue, pelo furto de armazéns
comerciais, o roubo das esmolas que seriam distribuídas entre os pobres por D. Tomás e
a fuga do bando utilizando uma canoa. Na sequência o grupo segue em direção ao agreste
como forma de refúgio, onde se esconde com a ajuda do coiteiro Timóteo, que conhecia
José Gomes desde pequeno.

As notícias do ataque efetuado pelo bando a cidade de Recife, chegam até o


governador João Cesar, que logo ordena a formação de uma tropa miliciana para captura
dos foragidos. Um negro coiteiro chamado Gabriel vai até a taverna de Timóteo, onde
estavam os bandidos para avisar da aproximação das tropas, por medo de que o bando
pudesse o fazer mal. Na nova fuga, os criminosos tentam roubar o cavalo do informante
que acabara de ajuda-los. No entanto, sendo o negro um bom arremessador de facas,
resiste ao roubo, lutando intensamente contra cabeleira em um duelo de armas brancas,
até ser surpreendido com um tiro de bacamarte pelas costas dado por Joaquim Gomes.

Franklin então, retorna temporalmente a infância do protagonista, afim de


justificar a vida criminosa de José Gomes, que segundo a narrativa, entrou no cangaço
devido o mal exemplo do pai, um homem cruel e sanguinário, que tentava ensinar o filho
a matar através da captura de pequenos animais com artimanhas indígenas. Em
contraponto, a mãe de José Gomes, Joana, tentava ensinar o filho através de ensinamentos
religiosos, o caminho do bem, travando uma batalha constante com o pai do garoto pela
formação da personalidade da criança, “entre a fé cega e a faca amolada” (SOUZA, 2007).
Percebendo que Joana amansava o temperamento do filho, Joaquim Gomes decide ir
embora com o menino, seguindo uma vida de bandido nômade. Antes de ser levado, o
pequeno José Gomes ainda se despede de sua amiga de infância, Luísa, e os dois se
prometem casar quando mais velhos.

Porém José Gomes com o passar do tempo, havia se tornado o famigerado


Cabeleira, com uma vida de crimes que amedrontava a todos que ouvissem o seu nome.
Certo dia, enquanto Luísa estava em um rio apanhando água, um homem aparece
pretendendo deflora-la. Luísa implora ao sujeito que não a faça mal, até que o homem se
aproxima e a reconhece. Era Cabeleira, tomado de espanto pelo encontro repentino que o
destino lhe impelia. Luísa no entanto, não o reconhece, e continua a implorar que o
desconhecido não a machuque. José Gomes tenta explicar que não a fará mal, até que
aparece Florinda, uma viúva que adotara Luísa ainda pequena. Florinda trabalhava nos
serviços da lavoura, e era conhecida por ser a mulher mais forte daquela redondeza.
Ouvindo os pedidos de socorro da filha, ela parte para luta com Cabeleira portando um
facão e um cacete. No entanto, o bandido a mata apenas com um golpe de coronha. Logo
após os lamentos de Luísa, ao ver o corpo da mãe morto em sua frente, o assassino houve
tiros vindo dos lados de onde estava acampado com seu bando e avisa a Luísa que a espere
naquele local para que ele possa voltar e seguir com ela, após ajudar os companheiros.
Segundo Wagner de Souza, que analisa as influências de Franklin da Távora no romance,
o fato de Cabeleira matar a mãe da amada, consistiria na reafirmação do clichê romântico
“o amor supera todas as coisas” (SOUZA, 2007, p. 23).

Os tiros que Cabeleira havia ouvido, eram do fazendeiro Liberato, que procurava
vingar a morte de seu irmão Gabriel, assassinado por Cabeleira e seu pai. Liberato havia
reunido um grupo formado por seus filhos e um genro (já que os vizinhos dele haviam se
recusado a fazer parte da ação), e tentava emboscar o bando que se escondia em sua
propriedade. Porém, um dos vizinhos que havia se negado a fazer parte do cerco, relata
os planos do fazendeiro aos bandidos, que fazem então uma cilada para o fazendeiro e
seu grupo, tendo os matado após um longo conflito mais uma vez encerrado pela
selvageria de Joaquim Gomes, que mata Liberato com vários golpes de facão e faca.

Luísa, amedrontada com o antigo amigo, decide carregar o corpo de sua mãe até
a fazenda mais próxima, que por acaso, era a pequena engenhoca de Liberato, onde estava
Rosalina, esposa do fazendeiro, suas filhas e uma nora. Luísa e Florinda são abrigadas
por Rosalina, que esperava fervorosa em seu oratório a chegada do esposo Liberato e de
todos os outros, que não mais voltariam.

Passada algumas horas de aflição para todos que estavam na casa, os cachorros do lado
de fora da propriedade começam a latir, Rosalina se alegra pensando que seria Liberato,
no entanto, era o bando que o havia assassinado, e que agora, pretendiam ainda sequestrar
as mulheres da fazenda. Após perceber que a casa estava cercada pelos bandidos, Rosalina
decide permanecer trancada na residência. Os facínoras ameaçam atear fogo a casa, caso
elas não saíssem. Rosalina, em um ato de fé, decide continuar rezando em seu santuário
mesmo após os bando incendiar a casa. Somente Luísa foge da casa já em chamas sendo
pega pelos cangaceiros. Cabeleira luta com seu pai Joaquim que pretendia abusar de
Luísa, o que leva o bando a se fragmentar.

Daí para frente a história narra a perseguição das milícias ao bando de Cabeleira.
E a fuga de Cabeleira com Luísa que buscavam se refugiarem na mata. Dois milicianos
chamados Alexandre e Valentim, capturam o coiteiro Timóteo e o fazem dizer onde o
grupo estava escondido. Valentim consegue efetuar em seguida a prisão de Teodósio e
Joaquim Gomes.

Enquanto isso, Cabeleira agora com a amada, planejava abandonar o crime e viver
uma vida justa. Passava o personagem por uma profunda mudança de conduta, que se
caracterizava pelo sentimento de culpa que os ensinamentos religiosos e benévolos de
Luísa haviam aflorado em sua consciência. Porém os planos de José Gomes são
interrompidos pela morte repentina de sua amada, que havia sido ferida no incêndio a
casa de Liberato. O mancebo já sem esperanças de uma vida feliz, é cercado e capturado
pelas tropas milicianas em um canavial em Pau d’alho-PE, sendo levado a Recife, onde
foi enforcado na praça das cinco pontas, tendo antes de sua morte, se arrependido de todos
os seus crimes conferindo o pesar de todos que assistiam o seu destino.
Gráfico I. Cultura Material total em O Cabeleira (1876)

Percentual e número de artefatos por


categoria

Utensília, 111,
31% Bélica, 185,
52%

Indumentária,
35, 10%
Total:357

Religiosa, 26,
7%

Bélica Religiosa Indumentária Utensília

No gráfico acima temos a relação proporcional da totalidade de artefatos, que


indica uma considerável diferença entre a categoria mais representada (bélica) e as
demais. Segundo o método de Bardin (1977), é importante considerar, quando possível,
elementos da análise aos respectivos conceitos presentes no corpus textual. Tomando por
exemplo, as armas, temos um enunciado de interlocução referente a personagem Joana,
que diz: “As armas só servem para excitar à prática de crimes; os homens bons não
trazem consigo armas” (TÁVORA, 1876, p.24). O que confere um traço ideológico do
narrador.

A presença acentuada de itens belicosos, é um reflexo da predominância da


violência no banditismo ficcional de Távora, que o põe como elemento definidor da
identidade do grupo. De 185 elementos identificados nessa categoria, 77 estão fixados
sobre o protagonista Cabeleira, que em comparação aos demais cangaceiros citados
(Joaquim Gomes, Teodósio, Manuel Corisco, Maracajá, Miguel Mulatinho, Jurema,
Jacarandá e Gavião), é o único que apresenta elementos de todas as categorias. Isso se
justifica porque Cabeleira é o exemplo patológico utilizado pelo autor para contribuir com
o seu “Romance tese”. Assim, José Gomes, não fosse a má influência do pai que o colocou
na vida do crime, seria o único integrante do bando apto a possibilidade de outros
caminhos, que não a vida de bandoleiro.

Ainda sobre a categoria bélica, o cangaço é representado no romance com 63,2%


desses artefatos, sendo 17,8 % relativos ao CN (cenário) e o restante distribuído entre
personagens específicos. Desse modo, a presença de armas também se revela em outros
grupos representados, como nos personagens milicianos Valentim e Alexandre. Porém
nesses casos, as armas aparecem de forma bem menos expressiva, com apenas 5,4%.
Além disso, a ação desses objetos a uso das forças volantes, de forma contrária aos
bandidos, vem acompanhada de um sentido de justiça, não havendo por exemplo menção
de mortes provocadas por milicianos, que na estória sempre apreendem os bandidos de
maneira justa. É artefato definidor do caráter bélico miliciano, a espada (de ponta direta)
e a faca. Indo para subdivisões, as armas de fogo aparecem com percentual de 17,8%;
armas brancas, 42,1%; armas de projeção, 1%; armas de choque, 7,5%; armadilhas, 7%;
e não identificadas, 20%.

Passando a segunda categoria de análise, chama atenção como a cultura material


religiosa aparece de forma pouco expressiva, não somente aos cangaceiros, mas aos
personagens do gênero masculino. O que parece contradizer a personalidade do sertanejo
devoto, que tem forte ligação com a religião.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a formação da crença religiosa dos sertanejos
se deu através de capuchinhos e franciscanos que desenvolveram por ali as chamadas
“missões”, constituindo a base dos princípios cristãos dos povos do sertão (TAVARES,
2013, apud, BAUERMANN, 2016, p.22). Consolidando-se tais princípios nos valores do
sertanejo, este passa a rejeitar tudo quanto fosse alheio a sua religião, considerando
satânicos os pastores protestantes da Europa e da América do Norte que visitaram o
nordeste no século seguinte. Os principais livros usados para doutrinação dessas
comunidades era o Lunário, cuja interpretação dos textos feitas pelos lunaristas
“iluminados” se dava de maneira bastante mística, com profecias e adivinhações. Além
da Missão abreviada, que contava com o registro de Beatos e profetas (PÉRICAS, 2010,
apud, BAUERMANN, 2016, p.22).
Outro aspecto religioso do imaginário dos sertanejos, era a esperança do retorno
do antigo rei de Portugal, D. Sebastião, que desapareceu em Alcacér-Quibir em 1578
durante um confronto bélico. D. Sebastião retornaria da África - conforme a crença
popular, e ajudaria os aflitos e desesperados da região. Tal crença engendrou em um
momento posterior, na fusão entre as figuras D. Sebastião (rei de Portugal) e São
Sebastião, (santo católico) (PÉRICAS, 2010, apud, BAUERMANN, 2016, p.23).

No romance de Távora, o único personagem do gênero masculino que apresenta


o uso de itens religiosos, é Cabeleira, mesmo assim, com apenas 11,5% do total. Além
disso, essa categoria aparece pouco diversificada, sendo basicamente mencionados 3 tipos
de objetos, ou estruturas religiosas: terço do rosário, 46%; cruz de pau, 34,6; e o oratório,
com 15,3%. Um outro elemento, é o castiçal de prata, associado ao personagem histórico
D. Tomás, porém, como será mostrado mais a frente, esse é um caso particular.

Desse modo, além de uma baixa quantidade de elementos religiosos, esses


também apresentam, uma diminuta variação, concentrada na representação do gênero
feminino.

Tendo em mente que durante os séculos XVIII e XIX, as roupas dos cangaceiros
se assemelhavam a de um sertanejo comum, não surpreende a falta de detalhes observados
nos personagens de O Cabeleira. Nesse período, existem relatos de bandidos maltrapidos
e esfarrapados. Isso porque os primeiros cangaceiros eram indígenas, escravizados
fugidos ou mulatos submissos aos senhores de engenho e das grandes fazendas.

Um elemento que poderia identificar um cangaceiro seria o lenço no pescoço, cuja


cor indicaria a mando de quem estava o mancebo. No entanto, o lenço no pescoço não é
representado no romance em questão, pelo menos não aos bandoleiros.

O chapéu aparece como único elemento em comum entre os personagens


cangaceiros, estando fixada também na figura do marchante. Sobre este último, não
representa apenas a figura do vaqueiro, pois sobre ele são fixados um número considerado
de itens indumentários, com presença de matérias primas caras, como prata e ouro. O
gibão aparece em 3 menções, duas referidas ao Taverneiro Timóteo e uma para o
marchante. Não somente, outros artefatos em couro, como cintas, cintos e botas aparecem
como caracterização do sertanejo. No mais, temos a repetição do vestido azul em dois
personagens do gênero feminino, o que pode estar associados a uma ideia de requinte, já
que as peças estão fixadas sobre Luísa (o amor de José Gomes), e a nobre esposa de um
dos capitães-mores, e os cabeções de renda e lençóis brancos sobre a cabeça delineiam
vagamente os trajes femininos da cidade de Recife.

Já a categoria utensilia com pouco mais de um terço dos artefatos, apresenta-se


bastante plural, contendo desde ferramentas de uso doméstico e do trabalho, até
instrumentos musicais, canoas e jangadas.

Conforme as informações apresentadas, podemos estabelecer uma relação de hierarquia


entre as categorias de triagem da cultura material em O Cabeleira da seguinte maneira:

Cultura Material – Pirâmide invertida

Bélica

Utensíliar

Indumentária

Religiosa

Gráfico II
Número de "tipos" de artefato por
matéria prima
N. identificado 2
Madeira 47
Metal 34
Couro 15
Fibra 8
Tecido 15
Lítico 2
Ouro 1
Ceramica 6
Prata 5
Vegetal 1
0 10 20 30 40 50

No que tange as matérias primas identificadas, o gráfico II demonstra o grande


número de artefatos trabalhados em madeira e metal, contrastando a chamada civilização
do couro, fortemente engendrada pela economia agropecuarista no período
(REFERENCIA). O emprego do couro aparece ao lado do tecido, como terceiro elemento
mais presente notadamente para o âmbito das indumentárias. No entanto, sabe-se que a
produção de couro na época era de grande importância para a cultura sertaneja. No
contexto de O Cabeleira, durante a segunda metade do século XVIII, a produção de couro
chegou a ser tão importante, que donos de fábricas de atanados, que possuíam terras e
gado, o exportavam de Recife para Lisboa.

Os ferreiros da região nordeste, não fundiam metal utilizando minério bruto,


extraído da natureza, em vez disso, para fabricação de armas e ferramentas, se valiam dos
poucos recursos que lhe dispunham. Logo, como estratégia econômica, seria natural forjar
laminas de facas estreitas e de pouca espessura.

Segundo Lamartine:
“Agora eu compro o trilho, boto no fogo e quando
está vermelho vai para a safra, onde é aberto em tiras.
O forjador vai forjando as peças (Lâmina e espiga).
Depois um outro operário vai limar a peça que depois
vai para o encabador, encabar. Os cabos sou eu
mesmo que faço: Serro, furo e monto o encabo”
(LAMARTINE, 1988, p. 26).

A aparição de metais de alto valor como ouro e prata possuem, apesar do baixo
número de peças, uma relação quase restrita a figura do Marchante, o que pode ser um
ponto de partida para alguns questionamentos referentes aos motivos dessa representação
material. Por que o marchante é o personagem mais bem representado pela categoria
indumentária no romance? Qual a razão para encontrarmos nele vestes ornadas com
botões de ouro, botas com espora de prata, além de um punhal de prata,

Sabe-se que os marchantes disputavam o mercado de venda de carne verde, sendo


um trabalho bastante lucrativo. Esse comercio foi bastante presente no sertão de
Pernambuco suprindo a necessidade das cidades litorâneas. Assim como os tropeiros,
locomoviam-se abrindo as matas pelo sertão, podendo em situações propícias, se
encarregar do repasse tanto de mensagens como de cargas legais e ilegais (CAMPELLO,
2010).

Gráfico III
Distribuição dos artefatos por gênero ou CN

122, 34%
210, 59%

25, 7%

Masculino Feminino CN

É tendência no romance histórico, o afastamento da mulher das ações centrais do


enredo. Em o Cabeleira, por exemplo, o papel feminino limita-se a ações benévolas e
românticas, quando não permeada de fragilidades (SOUZA, 2009, p. 27-29). Isso justifica
a pouca expressividade da cultura material fixada a personagens do gênero feminino.
Nota-se que os artefatos vinculados as mulheres, de forma geral, remetem as atividades
religiosas, como também são mais comumente associadas a mobílias e baixelas. No
tocante a indumentária, além das duas menções a vestidos azuis citadas na discussão
anterior da referida categoria, a mãe de José Gomes, Joana, contrasta ao aparecer vestida
somente em um lençol branco durante o enforcamento do filho, conferindo-lhe um
aspecto flagelado e penitente. Com exceção de Florinda, que na narrativa tenta salvar a
filha das mãos de José Gomes com um facão e um cacete, nenhuma outra personagem
apresenta características bélicas nem do trabalho na lavoura. O papel da mulher
representado no romance, é dessa maneira imbuído principalmente de referências
religiosas e domésticas.

Já entre os homens, com mais da metade da cultura material representada no livro,


a função religiosa é praticamente inexpressiva. Com maior predominância de artefatos
bélicos e utensílios, indicando ações voltadas a violência e ao trabalho.

Gráfico IV. Panorama geral


CM - bélica / CM - religiosa /
personagem personagem
CN 32 CN 12
P12 10
P11 2 P10 7
P9 7
P7 6 P8 2
P6 10
P3 10 P5 2
P2 30
P1 77 P1 3

0 50 100 0 5 10 15

CM - indumentária / CM - utensilia /
personagem personagem
CN 66
CN 10
P12 2
P12 5
P11 1
P11 8
P8 3
P8 2 P7 1
P5 1 P5 1
P4 1 P4 8
P3 1 P3 5
P2 1 P2 5
P1 7 P1 19
0 5 10
0 50 100

(Legenda de cores: Sertanejos Marchante Bandidos Milicianos Taverneiro)


LEGENDA:

1.Recife-PE
2.Esconderijo de Teodósio
3.Cutelaria -Facas do Pasmado(1781)
4.Rio Capibaribe
5.Engenhoca de Liberato
6.Rio Tapacurá
7.Sítio da família do cabeleira
8.Goiânia-PE
9.Cidade natal de Cabeleira
10.Cidade onde Cabeleira foi preso

Caminho de Cabeleira
Rota dos vaqueiros
Perímetro de O Cabeleira

BASE:

Google Earth Base Pro 2018

TÍTULO:

Mapa da Área Arqueológica em O


Cabeleira (1775-1876)
MAPA DO PERÍMETRO EM O CABELEIRA (1775-1876)

Data: 10/01/2018
Responsável:
José Luciano da C. Júnior
Projeto: TCC II
0
5
10
15
20
25
30
35
40
45

27
Arma

1
Arapuca

21
Bacamarte
Bala
Bala de Botoque
Botoque
Cacete
Clavinote
Chicote
Chuço

2 1 1 2 1 1 2 1
Chumbo

4
Espingarda

9
Espada

3
Espada de ponta direita
Espeto

1 1
Espetinho de cabuatão
41

Faca
Faca nua

2 1
Faca de arrasto
13

Facão
10

Ferro
Folha de aço
1 1

Fuzil
Forca
5 4

Fojo
Graveto
Gráfico V. Itens da cultura material bélica

Lamina
1 2 2

Mundéu
3
Cultura Material Bélica - O Cabeleira (1876)

Pau
6

Parnaíba
Pedra
1 2

Peia
Pistola
3 3

Punhal
Punhal de prata
Punhalzinho
Quixó
Raiz de Gameleira
1 1 1 2 1

Bainha
Gráfico VI. Itens da cultura material religiosa

Cultura Material Religiosa - O Cabeleira (1876)


8

7
7

4 4
4

3 3
3

2
2

1 1 1
1

0
Rosário Conta Conta de Cruz Cruz de pau Oratório Santuário Terço Castiçais de
Rosário prata
Gráfico III Commented [L2]: Qual indumentária está associada a
qual personagem? Como isso indica seu status social, sua
função social?

Cultura Material Indumentária - O Cabeleira


(1876)
6
5
5
4
4
3 3
3
2 2 2
2
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
1

0
Cabeção de Renda
Chapéu
Capote

Gibão
Calça
Camisa

Lenço

Relógio
Ceroula
Botões de Ouro

Chapéu de couro

Vestido Azul
Espora

Véstia de Couro
Lenço Branco
Lençol
Cinta
Cinto de couro
Bota

Esporas de Prata
Chapéu de palha
10
12
14

0
2
4
6
8

1
Perfumaria

2
Embira
Anéis (algemas)

1 1
Casca De Sapucaia
Cama

2 2
Machado

3
Facho

11
Corda
Jangada
Grilhões
Pacote

1 1 1 1
Latada

3
Corneta

1
Cocho

3
Forno

2
Alguidar
Rodo

1 1
Roda

2
Prensa
Quicé

1 1
Cepo

5
Caçuá
Enxada
Batuque
Algema
Gráfico IV

Dicionário

1 1 1 1 1
Tambor

2
Foice

1
Relógio
3

Lençol
Maço de patacões 1
2

Vasilha
Pote
Botija
1 1 1

Colher de prata
4
Cultura Material Utensília - O Cabeleira

Copo
Panela de Barro
Gadanho
Ancoreta
1 1 1 1

Gaveta
12

Canoa
3

Cabresto
1

Cachimbo
2

Gamela
1

Tripeça
4

Cangalha
Ratoeria
Rede
Surrão
Saco
1 1 1 1 1

Peça de Pano
6

Viola
P1 - Cabeleira:

José Gomes –o Cabeleira - é o protagonista do Romance Histórico abordado.


O mancebo teve uma infância dividida entre as influencias benévolas e religiosas da sua
mãe, Joana, e a má conduta do pai, Joaquim Gomes, o qual carregava na cacunda uma
série de crimes hediondos. Tudo teria mudado para o personagem quando ainda criança,
Joaquim o separou da sua mãe, arrastando-o para uma vida marcada pela violência do
banditismo.

Características:
- Bandido – Violeiro – Assassino – Ladrão -

percentual/categorias (P1)

19, 18%

77, 73%
7, 6%

3, 3%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS


P1 BÉLICO N° RELIGIOSO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°
01
. Bacamarte 11 Rosário 1 Chapéu de palha 3 Lençol 1
02
Parnaíba 2 Contas 2 Véstia de couro 2 Caçuá 2
03
Facão 5 Camisa 1 Saco 1
04
Faca 18 Calça 1 Peça de pano 1
05
Pistola 1 Cangalha 2
06
Punhal 2 Viola 6
07
Bala 1 Casca de sapucaia 1
08
Chumbo 1 Bainha 1
09
Botoque 1 Corda 3
10
Quixó 1 Anéis (algema) 1
11
Mundéu 1
12
Arapuca 1
13
Punhalzinho 1
14
Ferro 3
15
Arma 14
16
Lamina 1
17
Faca de arrasto 1
18
Espingarda 1
19
Raiz de gameleira 2
20
Fuzil 1
21
Folha de aço 1
22
Clavinote 1
23
Peia 2

Fojo 4

TOTAL 77 TOTAL 3 TOTAL 7 TOTAL 19


P2 - Joaquim Gomes:

Joaquim era um sujeito descrito pela prática dos mais violentos crimes, “feroz por
natureza e sanguinário por longo hábito ... obcecado desde a mais tenra idade na prática
das torpezas e dos crimes.”. Dentro do bando Joaquim assemelha-se a figura do líder,
temido pela sua ignorância e violência desembestada.

Características:
- Bandido – Assassino - Ladrão

percentual/categoria (P2)
5, 14%

1, 3%
30, 83%
0, 0%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS


P2 Bélico N° Indumentário N° Utensílios N°
01
Bacamarte 4 Chapéu de couro 1 Lençol 1
02
Parnaíba 3 Facho 1
03
Facão 3 Rede ‘de dormir’ 1
04
Faca 8 Surrão 1
05
Arma 4 Embira 1
06
Ferro 2
07
Pedra 1
08 Espetinho de
Cabuatã 1
09 Bala de
botoque 1
10
Espeto 1
11
Pistola 1
12
Forca 1
13
TOTAL 30 TOTAL 1 TOTAL 5
P3 - Teodósio:

Era companheiro de Joaquim e de Cabeleira nas ações criminosas. Dotado da esperteza,


era um dos cabeças do bando, atuando como bandido e informante. Este pode ser
entendido como uma sugestão do autor sobre a falta de valores como honra e a propea
trapaça entre os bandidos, visto que durante a história, Teodósio trapaceia os próprios
companheiros ao surrupiar o dinheiro que havia sido roubado pelo grupo.

Características:

- Bandido – Trapaceiro – Ladrão

percentual/categoria (P3)
5, 31%

10, 63%

1, 6%

0, 0%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P3 Bélico N° Indumentário N° Utensílios N°


01
. Bacamarte 3 Chapéu de Palha 1 Lençol 1
02
Parnaíba 1 Cangalha 2
03
Pistola 1 Pacote 2
04
Arma 1
05
Faca 3
06
Espada 1
07
TOTAL 10 TOTAL 1 TOTAL 5
P4 - Timóteo:

Timóteo era o proprietário da taverna dos Afogados, local as margens do Rio Capibaribe
onde os bandidos costumavam se esconder sobre a tutela do taverneiro, que além de
conhecer José Gomes desde que este era adolescente, comprava dos bandidos os objetos
de seus furtos. Era ex-marido de Chica, mulher que o Cabeleira matou espancada com
um raiz de gameleira, primeiro assassinato atribuído ao protagonista da história.

Estereótipo:
- Taverneiro – Coitero - Colono

percentual/categoria (P4)
0, 0%
1, 11%
0, 0%

8, 89%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P4 Indumentário N° Utensílios N°
01
Gibão 1 Botija 1
02
Colher de prata 1
03
Copo 4
04
Panela de barro 1
05
Gadanho 1

TOTAL 1 TOTAL 8
P5 - Joana:

Joana era a mãe infeliz de José Gomes, e durante a infância deste, tentou inutilmente
livrá-lo do mal caminho, até ser separada do garoto por medida de Joaquim, seu marido.
“Joana, exemplo vivo e edificante pela ternura, pela bondade, pelo espírito de religião
que a caracterizava” (TÁVORA, 1876, p.20).

Características:
- Mulher – Religiosa

percentual/categoria (P5)
0, 0%

1, 25%

2, 50%

1, 25%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P5 Religioso N° Indumentário N° Utensílios N°


01
Contas 1 Lençol 1 Cama 1
02
Rosário 1
03
TOTAL 2 TOTAL 1 TOTAL 1
P6 - Gabriel:

Gabriel é um sujeito que por medo de ser maltratado por Cabeleira e seu pai, decide ajudá-
los avisando que as milícias estavam indo a região para apreendê-los. No tempo em que
os bandidos estavam a fugir, Gabriel e Cabeleira tem um duro combate de facas. Gabriel
que não queria ter o cavalo roubado pelo mancebo, por ser o animal seu único bem e
considerar injustiça que lhe roubassem logo após ter lhes ajudado, lutou então com
cabeleira até que Joaquim aparecesse e o matasse com uma arma de fogo.

Características:
Informante – Jagunço – Negro

percentual/categoria (P6)

0, 0%
0, 0%

10, 100%

0, 0%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P6 Bélico N°
01
Faca nua 1
02
Faca 5
03
Lamina 1
04
Ferro 2
05
Espada 1
06
TOTAL 10
P7 – Florinda:

Florinda era descrita como “a mulher mais forte de toda aquela ribeira.” Era boa nas
atividades domesticas, assim como de ótima aptidão para as tarefas do campo e da roça.
Tentando salvar Luísa das mãos de José, que queria deflora-la, lutou inutilmente contra
o malfeitor, o qual com um único golpe de coronha a matou.

Estereótipo:
- Curiboca - Mulher – Lavradora -

percentual/categoria (P7)
1, 14%

0, 0%

0, 0%

6, 86%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P7 Bélico N° Utensílios N°
01
Cacete 2 Machado 1
02
Facão 3
03
Arma 1
04
TOTAL 6 TOTAL 1
P8 – Luísa:

Luísa foi a dona do coração de Cabeleira. Ela o conhecia desde pequeno, e os dois haviam
se prometido em casamento antes de Joaquim desprover o menino da tutela da mãe.
Porém se encontram quando mais velhos.

Estereótipo:
Mulher - Jovem – Religiosa -

percentual/categoria (P8)
0, 0%

2, 28%

3, 43%

2, 29%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P8 Religioso N° Indumentário N° Utensílios N°


01
Terço 1 Vestido azul 1 Vasilha 2
02
Contas de Rosário 1 Lenço branco 1 Pote 1
03
TOTAL 2 TOTAL 2 TOTAL 3
P9 – Liberato

Estereótipo:
- Lavrador – Proprietário de engenhoca – Jagunço – Negro –

Liberato era o dono de uma engenhoca e irmão do injustiçado Gabriel.


Durante emboscada organizada pelos bandidos, Liberato liderava uma campanha contra
o bando que se escondia em sua propriedade. Foi um conflito sanguinário, onde restando
em aparente somente Cabeleira e Liberato no duelo, surge Joaquim de forma repentina e Commented [L3]: Onde restando em aparente???????

o mata a golpes de faca e facão.

percentual/categoria (P9)
0, 0%
0, 0%
0, 0%

7, 100%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P9 Bélico N°
01
Faca 3
02
Chuço 2
03
Espingarda 1
04
Facão 1
05
TOTAL 7
P10 – Rosalina:

Era a esposa de Liberato. A tônica desta situa-se, assim como na maioria dos personagens,
na forma perversa de como morreu. Preferindo rezar em seu santuário junto as enteadas
do que sair para fora da casa, onde estavam os malfeitores. Morreram queimadas sob a
ordem de Joaquim ao seus, de incendiar a casa com fachos.

Estereótipo:
- Mulher – Negra - Religiosa

percentual/categoria (P10)
0, 0%

0, 0% 0, 0%

7, 100%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS

P10 Religioso N°
01
Oratório 3
02
Terço 3
03
Santuário 1
04
TOTAL 7
P11 – Marchante:

Marchante é um personagem póstumo. Cabeleira que o matara durante um dos seus


roubos, acampava no local do crime, quando acometido por tamanha fome que lhe
provocava alucinações, avistou o marchante o fitando enquanto segurava nas mãos um
chicote. É interessante observar que a figura do marchante é descrita por uma visão de
nobreza, sendo fixados sobre o personagem, os mais requintados objetos.

Estereótipo:
- Marchante

percentual/categoria (P11)
1, 9% 2, 18%

0, 0%

8, 73%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS


P11 Bélico N° Indumentário N° Utensílios N°
01
Punhal de prata 1 Chapéu 1 Maço de patacões 1
02
Chicote 1 Gibão 2
03
Botas 1
04
Esporas de Prata 1
05
Botões de Ouro 1
06
Relógio de Algib. 1
07
Esporas 1

TOTAL 2 TOTAL 8 TOTAL 1


P12 – Valentim:

Valentim foi um miliciano responsável pela prisão do taverneiro Timóteo e dos bandidos
Joaquim e Teodósio.

Estereótipo:
- Miliciano - Espadachim

percentual/categoria (P12)
2, 12%

5, 29%

10, 59%

0, 0%

BÉLICO RELIGIOSO INDUMENTÁRIA UTENSÍLIOS


P12 Bélico N° Religioso N° Indumentário N° Utensílios N°
01
Espada 3 Capote 2 Corda 2
02
Espada direita 2 Cinto de couro 1
03
Arma 2 Chapéu de palha 1
04
Ferro 1 Cinta 1
05
Faca 1
06
Faca nua 1
07
TOTAL 10 TOTAL 0 TOTAL 5 TOTAL 2
Percentual/Categoria - CN

33, 27%

66, 55%

12, 10%

9, 8%

Bélico Religioso Indumentária Utensílias


CN Bélico N° Religioso N° Indumentária N° Utensílios N°
01
Espada 4 Rosário 1 Ceroula 1 Cama 1
02
Bacamarte 3 Conta 1 Lençol 2 Machado 1
03
Faca 3 Cruz de pau 2 Vestido azul 1 Facho 2
04
Arma 5 Cruz 7 Cabeção de renda 1 Corda 6
05
Espingarda 2 Castiçais de prata 1 Lenço 1 Grilhões 1
06
Mundéu 1 Cinta 1 Pacote 1 Commented [L4]: ????
07
Pau 3 Capote 2 Ancoreta 1 Commented [L5]: ?????
08
Graveto 1 Relógio 1 Commented [L6]: ??????
09
Ferro 2 Gaveta 1
10
Facão 1 Canoa 12
11
Punhal 1 Cabresto 3
12
Bala 1 Cachimbo 1
13 Espada de ponta
direita 1 Gamela 2 Commented [L7]: Fez algum sentido o que lhe enviei
sobre isso?
14
Forca 4 Tripeça 1
15
Bainha 1 Cangalha 2 Commented [L8]: isto não tem haver com a espada?
16
Ratoeira 1
17
Jangada 1
18
Latada 1
19
Corneta 3
20
Cocho 1
21
Forno 3
22
Alguidar 2
23
Rodo 1
24
Roda 1
25
Prensa 2
26
Quicé 1
27
Cepo 1
28
Caçuá 3
29
Enxada 1
30
Batuque 1
31
Algema 1
32
Dicionário 1
33
Tambor 1
34
Foice 2
35
Xícara 1
36
Perfumaria 1
37
TOTAL 33 TOTAL 12 TOTAL 9 TOTAL 66
Os cangaceiros (1914) – Carlos Dias Fernandes

A fase em que se encontrava Carlos Dias Fernandes, se insere no contexto da


literatura de permanências, essa caracterizada pela inclusão de tímidas modernizações
na forma e no conteúdo da escrita, todavia, conservando alguns traços do romantismo do
século XIX, como o parnasianismo de Olavo Bilac, o naturalismo e o regionalismo de
Távora (GALVINIA, 2013, p.61). Por esse motivo, a narração em terceira pessoa
observada em O Cabeleira, também se encontra nesta obra.

O cenário aborda a região semiárida fronteiriça entre os Estados de Pernambuco


e Paraíba (ver mapa II), num período que provavelmente abarca os anos de 1897 (início
da vida de Antonio Silvino no Cangaço) e 1910 (quando o bandido passa um tempo longe
do movimento). A paisagem engloba um sertanejo devoto e contraditório, que vai as
missas em dias festivos e que se emocionando ao ouvir a pregação dos “profetas” que o
condenam em pecado, onde sua consciência envolvida na lembrança dos próprios atos
pecaminosos se encharca de culpa e medo. Mesmo assim, isso não impede que após a
saída da igreja, o mesmo caia em sua realidade, se esquecendo rapidamente das palavras
que acabara de ouvir. Era então, um tempo de messianismos, onde a resistência de
canudos inspirava e enchia de fé e esperança a vida sofrida do sertão. Talvez por isso,
Carlos Dias traz a intertextualidade a sua ficção com o personagem Frei Antão das
sextilhas de Gonçalves Dias, poeta romântico do século anterior, simbolizando nele a
figura de Antônio Conselheiro.

O romance inicia com a descrição de uma vida pacata na fazenda de Zuza, com
seu filho Minervino, a esposa Dona Catarina, e alguns vaqueiros que por lá trabalhavam.
É um momento de descrição extensa sobre o trato do sertanejo com os animais na prática
da vaquejada, sobre o convívio harmônico entre o fazendeiro e os demais habitantes
daquelas cercanias e a celebrações vaqueiras entre estes. É também nesses capítulos
iniciais que surge a personagem Nazinha Pombo, por quem Minervino se casaria.

O enredo segue com a descrição cotidiana típica dos romances de costume e das
etnografias sertanejas, mostrando a produção artesanal dos famosos beijus do Catolé,
feitos por Dona Catarina e seus empregados, a vida na lavoura, no pastoreio, o habito da
caça em Minervino. Na sequência a narrativa passa a representar a venda dos produtos da
fazenda de Zuza na feira comercial da cidade de Floresta-PE. Essa parte é marcada pela
descrição de vários produtos diferentes expostos nas malas de feira, contendo desde
armas brancas exóticas como as Cimitarras largas encabadas em chifre até alguidares
vidrados ou de argila branca; frutas, queijos e artefatos para montaria.

Essa pacatez é interrompida no romance após a descoberta da imoralidade de


Nazinha Pombo, ao descobrirem que essa havia casado com Minervino já desvirginada.
Nazinha que após se casar passou a conviver com a família de Minervino, passa com seu
filho que acabara de nascer, por um ostracismo motivado pelo repúdio as condutas não
cristãs de Zuza e Dona Catarina. O peso do julgamento é tão pesado para a personagem,
que essa mata a si e ao seu filho, causando um terrível clima sob a fazenda. A situação
piora, quando um apadrinhado da justiça, forja documentações que dizem que a
propriedade de Zuza, é dele, fazendo com que o fazendeiro que trabalhou tantos anos na
propriedade receba uma ordem de despejo. Enfurecido e desacreditado de Deus e da
Justiça, Zuza decide resistir aos meirinho que vão lhe desapropriar a terra. Esses,
assustado pela postura de defesa armada do vaqueiro, relatam aos superiores sua
insubmissão, o que com uma pequena ajuda das fofocas, engendra a história de que Zuza
munido de cem homens armados e passaria a saquear as cidades próximas. O boato faz
com que um tropa de soldados vá até sua propriedade, sendo o vaqueiro é preso, torturado
e assassinado. Minervino foge com sua mãe, do sertão de Pernambuco para a zona agreste
da paraíba, onde seu tio, o coronel Idelfonso ayres os acolheria em sua fazenda em Ingá-
PB. Mas antes disso, comete seu primeiro assassinato de vingança por seu pai, matando
o capitão que destruiu sua família.
Percentual e número de artefatos por
categoria
63, 22%
19, 7%

165, 59% 35, 12%

Total:282

Bélica Religiosa Indumentária Utensilia

O gráfico acima aponta a predominância de artefatos utensílios no romance em


relação as categorias bélica, indumentária e religiosa. Isso é interessante porque
demonstra uma diferença essencial entre Franklin da Távora e Carlos Dias Fernandes: o
cangaço descrito pelo escritor de Os cangaceiros, é um cangaço que principalmente se
caracteriza pelo aspecto da vingança, passando posteriormente, e de forma não
intencional a um banditismo social, onde Minervino não rouba para si, mas para ajudar
os pobres e manter o próprio bando, que crescia em número pelos sertanejos que movidos
por um sentimento de honra e justiça passavam a atuar em seu bando. Já em O Cabeleira,
o motivo que leva José Gomes ao crime, é a má educação do pai, Joaquim, sendo o seu
cangaço um meio de vida, composto por um aglomerado de bandidos da maior
perversidade. A figura do cangaceiro herói construído por Carlos Dias é antes de
bandoleiro, um sertanejo, vaqueiro, lavrador, dotado dos saberes do campo e do trabalho
duro.
Número de "tipos" de artefatos por
matéria prima
Papel 11
Tecido 28
Vidro 6
Vegetal 9
Prata 1
Ouro 2
Ceramica 12
Louça 4
Fibra 9
Couro 20
Metal 48
Madeira 41
Não identificado 13
0 10 20 30 40 50 60
Distribuição de artefatos por genero ou CN*

76, 27%

180, 64%

26, 9%

Masculino Feminino CN*


CM - Bélica / CM - Religiosa /
personagem personagem
CN* 42
Ildelfonso Alves CN* 17
2
D. Catarina 2 Nazinha Pombo 1
Minervino 16
Zuza D. Catarina 1
1
0 50 0 10 20

CM - Indumentária / CM - Utensília /
personagem personagem
CN* 13 CN* 108
Nazinha Pombo 8 Trajano Bento 6
D. Catarina Nazinha Pombo 8
3
D. Catarina 3
Minervino 4 Minervino 15
Zuza 8 Zuza 24
0 10 20 0 100 200
LEGENDA:

B1.Floresta-PE – Feira
B2.S. José Bel Monte –PE – Zuza
B3.Campo Grande-PB – Ildefonso A.
B4.Ingá-PB – Fazenda de Ildefonso
B5.Itabaiana-PB

Sítios de habitação sertaneja


Cidades atacadas / A. Silvino

Caminho de Minervino
Rota dos vaqueiros
Perímetro de O Cabeleira

BASE:

Google Earth Base Pro 2018

TÍTULO:

Mapa da Área Arqueológica em Os


Cangaceiros (1890-1914)
Data: 13/02/2019
MAPA DO PERIMETRO EM OS CANGACEIROS (1890-1914)

Responsável:
José Luciano da C. Júnior
Projeto: TCC II
10
12

0
2
6
8

1
Cimitarras largas encabadas…

10
Faca

1
Trinchante

2
Punhais

1
Laminas

1
Aço

4
Arma

1
Flecha

1
Moringue
3
Sabre
Flandres 1
2

Rebenque
8

Bala
2

Espingarda
4

Bacamarte
6
Gráfico I

Rifle
2

Gatilho
3

Carabina
3

Projétil
1

Espada
1

Revolver
Cultura Material Bélica - Os Cangaceiros

Mosquetões
1

Facões
1

Fuzis
1

Clavina
1

Cartucheira
flandres não é menção a um tipo de metal?
Commented [L9]: O que são moringue e rebenque?
Gráfico I

Cultura material Religiosa - Os Cangaceiros


2.5
2 2 2
2

1.5
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
1

0.5

0
0
1
2
3
4

0.5
1.5
2.5
4.5

3.5
Chapéu
Manto
Espora
Perneira
Véstia
Cinto
Tunica de burel
Espora de aço
Touca
Alpercatas
Sapatinho de criança
Touca cor de rosa
chapéu jalne de couro
Chapelão
Gráfico I

Traje de caçador
Esporas de prata
Anéis de ouro
Casaco de chita preta
Casaca
Saia
Roupão
Chapéu de palha
Bogari crestado
Cultura Material Indumentária - Os Cangaceiros

Vestido de noiva
Botões
Saia de cós estreiro
Saia justa
Camisa
0
1
2
3
4
5
6
8

1
Relho

4
Lombilho
Cilha

1 1
Terrina

2
Travessa

6
Mesa

2
Corda
Ferro (de ferrar)

1 1
Relho chato 7
Rédeas

1
Harmonia

4
Viola
Roldana
Polia
Vara para cerca de faxina
Palma de catolé
Prensa
Fuso
Gamela
Cocho
Forno de tijolos vermelhos
Gráfico I

Rodo
Sacos de algodão
Couro seco de boi
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

Algodão
2

Sementes
1

Bainha - couro preto com botão…


2

Grão
1

Bornais de couro
5
Cultura Material Utensilia - Os Cangaceiros

Sacos
Garrafa de Le Roy
Récua
Louça de barro vermelho
Alguidares vidrados
1 1 1 1 1

Alguidares de argila branca


2

Balaio
Malas de feira
Ganchos de ferro
Bridas
1 1 1 1

Picadeiras
0
1
2
4
5
6

2
Estribo
Níquel
Sacos brancos
Potes
Jarros
Louça
Rede atada num cabo
Freios

1 1 1 1 1 1 1 1
Cachimbo curto

2
Loro
5

Arreio
Cortina

1 1
Gaiola
2
Prato
Bule de café
Chavena
Tamborete
Livro
Ouro
Latão
Carretilha
continuação

Forno
Martelo
Esteio
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

Ramo decoativo
3

Enxada
Ancinho
Soleira
Mesa redonda
1 1 1 1

Colcha bordado
3

Travesseiros
Docel de chita cor rosa
1 1

Sofá
4

Berço
Escritura
Papeis
Procuração
Cigarro de palha
1 1 1 1 1

Cabaço
0
1
2
3

0.5
1.5
2.5
3.5

2
Corneta
Cacos de louça

1 1
Botijas

2
Foices desencabadas
Borralho
Viveres

1 1 1
Tabaco
óculos

2 2
Garrafa de agua ardente
Rede
Facão Mateiro

1 1 1
Panacu
3

Carta
Sela
Badana
Sobrecincha
Rédeas de sedenho
Relho de barbicacho
Corda de coro
Corda de coro cru
Bola de cebo
continuação

Cachimbo de barro
Cordas de tabaco fresco
Pau
Guardanapo
Fogueira
Chapa
Urna
Tição
Fogão
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

Lençol
2

Bilro
3

Almofada
Esteira
Baralho
Rei de paus
1 1 1 1

Valete
P13. Zuza / Pedro Rufino Batista

É um fazendeiro, pai de Minervino, que ao perder sua propriedade para a justiça, resolveu
contrapô-la. O que originou o boato na cidade de Floresta-PE de que “o velho fazendeiro
havia resistido a justiça com um bando de cem homens”. Querendo coibi-lo, a justiça
enviou soldados para mata-lo.

Caracteristicas: Sertanejo - Fazendeiro – Vaqueiro – Lavrador - Abastado – Conservador

percentual/categoria (P13)
1, 3%
0, 0%

24, 73% 8, 24%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA


P13 BÉLICO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°
01 Chapéu jalne de
. Bacamarte 1 couro 1 Sela 1
02
Chapéu 3 Mesa 1
03
Chapelão 1 Badana 1
04
Sobrecincha 1
05
Rédeas de sedenho 1
06
Relho de barbicacho 1
07
Corda de coro 1
08
Lombilho 2
09
Perneira 1
10
Espora de aço 1
11
Bola de cebo 1
12
Corda de coro cru 1
13
Cachimbo de barro 1
14
Arreio 1
15 Garrafa de agua
ardente 1
16
Loro 1
17
Enxada 1
18 Cordas de tabaco
fresco 1
19
Pau 1
20
Guardanapo 1
21
Camisa 1
22
Fogueira 1
23
Chapa 1
24
Urna 1
25
Tição 1
26
Semente 1

TOTAL 1 TOTAL 5 TOTAL 27


P14. Minervino / Antônio Silvino

Protagonista na história, o vaqueiro entra para o cangaço após a injustiça cometida contra
sua família, passando a roubar não para si, mas para os necessitados e o seu bando.
Características: Sertanejo – Vaqueiro – Lavrador -“Justiceiro” – Caçador – Jovem - De
família abastada - Bandido

percentual/categoria (P14)

15, 43% 16, 46%

0, 0%

4, 11%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA


P14 BÉLICO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°
01
Espingarda 1 Traje de caçador 1 Corda 1
02
Faca 3 Esporas de prata 1 Arreio 2
03
Bacamarte 2 Anéis de ouro 2 Estribos 1
04
Armas 1 Rédeas 3
05 Garrafa de agua
Rifle 4 ardente 1
06
Punhal 1 Enxada 1
07
Balas 2 Berço 1
08
Clavina 1 Rede 1
09
Cartucheira 1 Facão Mateiro 1
10
Panacu 1
11
Cartas 1
12
Grão 1
13
TOTAL 16 TOTAL 4 TOTAL 15
P15. D. Catarina

Mãe de Minervino, fugiu de São José do Belmonte-PE após o assassinato do seu marido,
junto com o filho e um vaqueiro, que os guiou até o refúgio na fazenda do Tio de
Minervino, Ildefonso Alves;

Estereótipo: Mulher - Sertaneja – Lavradora – Cozinheira – Conservadora –

percentual/categoria (P15)

3, 33%
2, 22%

1, 11%

3, 34%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA


P15 BÉLICO N° RELIGIOSO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°
01
Sabre 2 Terço 1 Casaco de chita preta 1 Mesa 1
02
Casaca 1 Fogão 1
03
Saia 1 Lençol 1
13
TOTAL 2 TOTAL 1 TOTAL 3 TOTAL 3
P16. Nazinha Pombo

Esposa de Minervino que mata a si e ao filho após a família do marido descobrir de que
o filho não era dele.
Características: Mulher – Bela – Costureira - Jovem

percentual/categoria (P16)
1, 6%

0, 0%

8, 47%

8, 47%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA

P16 RELIGIOSO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°


01
Cruz 1 Roupão 1 Bilro 3
02
Chapéu de palha 1 Almofada 1
03
Bogari crestado 1 Esteira 1
04
Vestido de noiva 1 Balaio 1
05
Botões 1 Lençóis 1
06
Saia de cós estreiro 1 Berço 1
07
Saia justa 1
08
Camisa 1
13
TOTAL 1 TOTAL 8 TOTAL 8
P17. Trajano Bento

Senhor com fama de trapaceiro, que engana Minervino e Nazinha Pombo fazendo com
que eles se casem.
Estereótipo: Trapaceiro – Apostador -

percentual/categoria (P17)

0, 0% 0, 0%

0, 0%

6, 100%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA

UTENSÍLIOS N°

Carta 2

Mesa 1

Baralho 1

Rei de paus 1

Valete 1

TOTAL 6
P18. Ildefonso Alves - Ayres

Características: Abastado – Coronel – Cangaceiro –

É o tio de Minervino, que habitava em Campo Grande-PB e refugia o sobrinho e a


cunhada em sua fazenda em Ingá-PB. Era homem de influencia onde morava,
defendendo de todas as formas os próprios interesses.

percentual/categoria (P18)

0, 0%

0, 0%

0, 0%
2, 100%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA

P18 BÉLICO N°
01
Bala 1
02
Faca 1
03
TOTAL 2
percentual/categoria (CN*)

42, 23%

108, 60%

17, 10%

13, 7%

BÉLICA RELIGIOSA INDUMENTÁRIA UTENSILIA

OBS: acho que precisamos desenvolver mais nossas análises. A questão do


percentual geral da tipologia artefatual para cada personagem é importante,
mas precisamos refinar em algumas coisas, principalmente na questão bélica,
por exemplo: que tipo de material bélico está associado a cada personagem?
Existe uma identidade bélica para cada um (daqueles onde esse tipo de item é
importante)? O mesmo pode ser pensado para a religiosidade.
Será importante, também, fazermos uma comparação entre os romances no
que se refere às diferenças ou semelhanças dos tipos artefatuais em cada
categoria. A religião está manifestada da mesma forma em ambos, ou não? O
mesmo para a questão bélica e utensiliar? Pelo que lembro são períodos
próximos e deveria haver mais uma sobreposição? Como a vida do autor pode
ter influenciado em eventuais diferenças? Mas mesmo em períodos próximos,
pode haver grandes mudanças, como por exemplo, no armamento, roupas e
utensílios, com a vinda de novos produtos e o desenvolvimento do capitalismo
no sertão.
CN BÉLICO N° RELIGIOSO N° INDUMENTÁRIO N° UTENSÍLIOS N°
01 Pedestal do
. Bacamarte 1 cruzeiro 1 Chapéu 1 Relho 1
02
Crucifixo 1 Manto 1 Lombilho 2
03
Tablado 1 Espora 2 Cilha 1
04 Baldaquino de
setineta azul celeste 1 Alpercatas 1 Terrina 1
05
Púlpito 2 Perneira 1 Travessa 2
06
Cadeira 2 Véstia 1 Mesa 3
07
Sinos da torre 1 Cinto 1 Corda 1
08
Imagem de cristo 1 Túnica de burel 1 Ferro (de ferrar) 1
09
Cruz 1 Touca 1 Relho chato 1
10
Altar 1 Alpercatas 1 Rédeas 4
11
Rosário 1 Sapatinho de criança 1 Harmonia 1
12
Turibulo 1 Touca cor de rosa 1 Viola 4
13
Incenso 1 Roldana 1
14 Estampa da
Conceição 1 Polia 1
15
Figura da mãe de Vara para cerca de
jesus 1 faxina 1
16
Palma de catolé 1
17
Prensa 1
18
Fuso 1
19
Gamela 1
20
Cocho 1
21 Forno de tijolos
vermelhos 1
22
Rodo 1
23
Sacos de algodão 1
24
Couro seco de boi 1
25
Algodão 1
26
Sementes 1
27 Bainha - couro preto
com botão sabonete
e pala de marroquim 1
28
Grão 1
29
Bornais de couro 1
30
Sacos 5
31
Garrafa de Le Roy 1
32
Récua 1
33 Louça de barro
vermelho 1
34
Alguidares vidrados 1
35 Alguidares de argila
branca 1
36
Balaio 1
37
Malas de feira 1
38
Ganchos de ferro 1
39
Bridas 1
40
Picadeiras 1
41
Estribo 1
42
Níquel 1
43
Sacos brancos 1
44
Potes 1
45
Jarros 1
46
Louça 1
47 Rede atada num
cabo 1
48
Freios 1
49
Cachimbo curto 1
50
Loro 1
51
Arreio 1
52
Cortina 1
53
Gaiola 1
54
Prato 2
55
Bule de café 1
56
Chavena 1
57
Tamborete 1
58
Livro 1
59
Ouro 1
60
Latão 1
61
Carretilha 1
62
Forno 1
63
Martelo 1
64
Esteio 1
65
Ramo decorativo 1
66
Enxada 1
67
Ancinho 1
68
Soleira 1
69
Mesa redonda 1
70
Colcha bordado 1
71
Travesseiros 3
72 Docel de chita cor
rosa 1
73
Sofá 1
74
Óculos 2
75
Berço 2
76
Escritura 1
77
Papeis 1
78
Procuração 1
79
Cigarro de palha 1
80
Cabaço 1
81
Corneta 2
82
Cacos de louça 1
83
Botijas 1
84
Foices desencabadas 2
85
Borralho 1
86
Viveres 1
87
Tabaco 1

TOTAL 42 TOTAL 17 TOTAL 13 TOTAL 108


Discussões e resultados:

Com base nas informações quantitativas apresentadas na etapa anterior, pode-se


fazer uma distinção clara entre os discursos materiais de Franklin da Távora e Carlos D.
Fernandes na representação do cangaço. Isso se dá principalmente pelo ponto central que
ambos tomam para escrever seus “romances tese”. Távora, dotado de certo
conservadorismo e de eminente “racismo científico”, explora um cangaço insurgente,
distanciado da civilização das cidades pelo confinamento no campo, lugar propício as
torpezas do homem degenerado e marginalizado, principalmente mamelucos, mestiços e
negros. Por outro lado, Carlos Dias Fernandes descreve um cangaço civilizado, onde o
líder do bando, também de origem cabocla, é respeitado pelas qualidades de bom
sertanejo, notavelmente a honra, os princípios cristãos e o vigor físico expresso em suas
habilidades perante o tiro e a lida com o ambiente hostil. Essa notável distinção relativa
as percepções de cada autor sobre o mesmo fenômeno são, de modo paradoxal, próximas
em pelo menos três pontos: espacialmente, se pensarmos na regionalidade de ambos;
temporalmente, se atentarmos a diferença de 38 anos entre as publicações; e em termos
de escrita, se entendermos os dois autores como parte de uma mesma proposta literária,
nesse caso, como expoentes da “literatura nortista” do próprio Távora, que buscava dar
espaço as peculiaridades da cultura sertaneja usando como plano de fundo o banditismo
cangaceiro.

No primeiro romance temos como já dito, uma cultura material majoritariamente


bélica, representada por 52% dos itens em relação a 31% utensiliar; 10% indumentária e
7% religiosa. Isso implica em uma representação material cuja tônica se situa nas ações
de violência que tendem a ser naturalizadas pelo autor. Nota-se ainda o prevalecente
número de armas brancas em relação às armas de fogo, projeção e choque, o que sugere
a grande relevância dessas ferramentas/armas no cotidiano cangaceiro e sertanejo, seja de
forma simbólica ou material.

Dada a perspectiva positivista de Távora, que constrói seu “romance-tese”


influenciado por Rousseau (SIQUEIRA, 2007) creditando a degeneração do sertanejo
transformado em bandido a fatores de raça, meio e sociabilidade (SOUZA, 2007);
(BARIANI, 2008), é importante termos uma noção clara de como o autor fixa esses
padrões através dos personagens. O fator raça encontra-se no indígena atrelado a figura
do ‘bom índio” portador dos saberes da natureza e decifrador dos caminhos; os negros
possuem um comportamento unilateral, e dependente da circunstância podem tanto levar
a vida no crime, quanto uma vida justa; os brancos sempre de boas qualidades, são imunes
ao ambiente hostil e apresentam distinta racionalidade em relação aos demais; já o
mestiço ou mameluco, propício a selvageria, são representantes dos horrores, sendo as
figuras mais malévolas. No que se refere o determinismo do meio, vemos o isolamento
no sertão como símbolo de sobrevivência física e de luta contra a natureza indômita; o
meio interage com os personagens os tornando rudes, ao tempo em que se distanciam das
cidades. Sobre isso, nota-se que a primeira coisa que José Gomes e seu pai Joaquim fazem
quando decidem rumar a vida no cangaço, é se internar no mato. Já a sociabilidade, torna-
se um aspecto presente pela falta de oportunidade de educação de José Gomes, ou até
mesmo a falta de elementos de religiosidade em seu bando (BARIANI, 2008, p. 1-5).
Para o Professor Edison Bariani:

A maldade presente nas ações do protagonista é


deveras chocante e, muitas vezes, embora motivada
por ações alheias, sua reação é desproporcional às
circunstâncias. Pressionado pelo pai e pelo contexto,
Cabeleira não é deliberadamente mal, não exerce a
maldade com volúpia e finalidade, não se guia – pode-
se dizer, teleologicamente – pelo mal, responde aos
estímulos de modo quase instintivo e, sem dúvida,
atroz (BARIANI, 2008, p. 2)

Pode-se supor mediante as correlações supracitadas e a intensidade das ações


violentas em O Cabeleira, que o uso especifico de armas brancas fixa atributos de
selvageria aos cangaceiros, pois o combate bélico com objetos perfuro cortantes
necessariamente sugerem um aspecto de frieza psicológica aos personagens José Gomes
e Joaquim Gomes, à medida de que resulta na precisão e na violência do contato físico,
também elencando suas habilidades de peritos na função de matar (TÁVORA, 1876, p.
50). Temos assim um cenário de combates sertanejos onde se predominou o embate corpo
a corpo ou risca faca, traço que também pode ser atribuído a desconfiança do sertanejo
no bom desempenho das armas de fogo, ou ainda a sua má portabilidade. Menciona o
vendedor de facas citado por Lamartine (1988): “O freguês depende da arma, da pólvora,
da espoleta, e da pontaria. E no ferro frio ele só depende dele mesmo”
(LAMARTINE,1988, p.14). Além disso, deve-se frisar que o preço elevado das armas de
fogo fazia com que nem todos pudessem ter acesso a esse tipo de armamento, sendo as
armas brancas uma boa saída para as classes mais humildes. Durante o Brasil colônia, era
hábito comum ter e portar facas, tendo elas diferentes destinos e utilidades. Campello
menciona que, conforme os registros de embarcação, haviam facas que custavam entre
50 CRs e 100 CRs, demonstrando a variabilidade de peças. Esses e outros artefatos eram
aliás bastante recorrentes no escambo com indígenas e na remuneração dos serviços
prestados por colonizadores (CAMPELLO, 2010, p. 135).

A identidade material bélica concedida aos personagens bandoleiros de Távora,


está situada essencialmente nos itens: Bacamarte, pistola, faca e Parnaíba ou faca de
arrasto. Sendo esses elementos comuns ao bando, como explicitado no fragmento: Os três
malfeitores traziam comsigo bacamartes, parnahybas, facas e pistolas (TÁVORA, 1876,
p. 19). Havendo variações quanto a pujança conferida ao protagonista Cabeleira, elencada
não apenas no porte de um vasto complexo de armas (7 vezes maior em relação aos
demais bandidos) como também na presença da famosa faca de Pasmado, elemento de
notória distinção do personagem, além da menção a tecnologia do fuzil, item anacrônico
na obra.

Não se pode esquecer que no sertão do século XVIII, como mencionado no


capitulo introdutório desta monografia, os tapuias já eram conhecidos por suas
habilidades com as armas de fogo (MELLO, 2004); (CRUZ, 2018). Atentando à essa
informação, nota-se em O Cabeleira uma quantidade considerável de técnicas de caça
indígena, o que condiz, se pensarmos que as etnias que habitavam o sertão eram grupos
caçadores coletores (Idem, 2018).

As armadilhas são itens muito presentes na descrição da infância de Cabeleira,


sendo a forma que Joaquim encontra para procura à virilidade e o instinto assassino do
personagem:

“ [...] o péssimo pai ralhou com Joana em


quem por um triz não bateu; e para completar
a lição e o exemplo pernicioso, prometeu a
José que o primeiro preá que o fojo pegasse
havia de ser sujeito a um gênero de morte
que ele ainda não conhecia.

[...] O menino mal pôde dormir aquela noite.


Nunca desejou tanto que a armadilha lhe
desse caça. A curiosidade de conhecer a
nova forma de matar os animais, prometida
ao primeiro que tivesse a sorte de se deixar
apanhar, o teve por muito tempo na maior
excitação e vigília. Pela manhã correu José
ao fojo, onde encontrou, em lugar de preá,
um coelho.” (TÁVORA, 1876, p.21).

Varnhagen (1860) associa esses artifícios à prática de caçadores não profissionais,


quando não, crianças, sendo elas práticas apenas opcionais e de pouca estima para a figura
do bom caçador. Já Julio Bello em Memórias de um senhor de engenho (1948), ao relatar
sua infância vivida em fins do século XIX em Pernambuco, conta que os “meninos livres
e escravos saíam para caçar juntos pequenos animais como raposas e guaxinins e
capturavam pássaros com alçapões e arapucas” (ALMEIDA, 2015, p.114). Essa alusão
com aspectos culturais indígenas e afro-indígenas, pode ser entendida aqui como
elemento apropriado por bandos cangaceiros sob forma de adaptação ao modo de vida
nômade, identificando ações conscientes que ressignificam a história desses grupos
enquanto sujeitos históricos.

A religiosidade é um elemento que não aparece inserido no cangaço, e com


exceção de José Gomes, que durante a infância esteve dividido entre a influência cristã
da mãe e a violência do pai, os demais personagens do bando de Cabeleira não possuem
artefatos de cunho religioso. Essa escassez de símbolos religiosos poderia indicar um
distanciamento entre o sertanejo e as instituições religiosas. No entanto, Em Cangaceiros
e Fanáticos, Rui Facó observa uma relação interessante entre o cangaço (grupos ativo) e
o messianismo grupos inicialmente passivos e que com o estabelecimento da figura de
um líder, conselheiro, monge ou beato, incrementou-se como um grupo de ação. Para
Facó:

O capanga pode ter sido cangaceiro, vice-


versa, como qualquer deles pode tornar-se
adepto de um conselheiro ou monge, e então
é o "fanático". Mas, do ponto de vista social,
há uma diferença flagrante sobretudo entre
capanga e cangaceiro, identificando-se
muito mais o cangaceiro com o "fanático"
(FACÓ, 1963, p. 58).

Nesse sentido o estigma do cangaceiro estaria mais associado a um perfil de sertanejo


religioso, o que não condiz com a imagem do cangaceiro descrita no romance. Um
exemplo disso, é que na narrativa Joaquim Gomes chega a ser ameaçado pelo pároco de
Vitória do Santo Antão, que promete pô-lo na fogueira caso continuasse a fazer seus atos
de heresia. Na década de 70 do século XIX, mesmo período da publicação do romance O
Cabeleira, Antônio conselheiro já era perseguido por arcebispos e outras autoridades da
Igreja Católica, que dizia que o “líder dos fanáticos” estaria enfraquecendo a consciência
dos párocos do sertão. A igreja funcionaria nesse momento como um tipo de polícia
ideológica, antecipando a repressão aos desvios da conduta cristã (FACÓ, 1963, p. 51-
53). Fato é que Távora esboça através de um discurso unilateral, um cangaço de homens
abomináveis e que para ele não fazia sentido vincular o cangaço ao religioso, caso não
fosse para antagoniza-lo.

Por sua vez a baixa quantidade de elementos utensiliares, inclusive de facas para
usos não belicosos, refletem a falta de disposição dos cangaceiros às atividades
domésticas e laborais. Desse modo, o cangaceiro não sabe, ou pelo menos não pratica ou
praticou a agricultura, a pecuária, a vida doméstica, sendo sua cultura material
predominantemente associada ao belicismo. No tocante à propensão dos bandidos às
atividades laborais, a narrativa de Franklin da Távora apresenta fragmentos textuais
contraditórios. Essa incongruência de informações sugere que o autor ao desassociar o
caráter vaqueiro e lavrador dos cangaceiros, deprecia-os, colocando os bandidos na
condição de sujeitos naturalmente malfeitores:

“Para maior confusão destas, tinha sido visto mais de


uma vez o Joaquim, ora de companhia com o filho,
ora cada um sozinho, montado no seu cavalo,
vendendo legumes, macaxeiras, farinha, açúcar pelas
povoações, e fazendo compras no Recife; o que
deixava, pelo menos supor que eles se davam ao
trabalho da lavoura, e passavam a vida honestamente
à custa do suor de seu rosto” (TÁVORA, 1876, p.25).
Contradição:

“[...] a região que se lhe oferecia à vista não era de


todo desabitada; ali brilhavam vestígios da mão do
homem; ali havia o cunho de um esforço de que ele
nunca fora capaz, o cunho do trabalho” (TÁVORA,
1876, p.65).

“Olha, Luisinha. Os homens me deixarão logo que eu


não os ofender mais. Não sei ainda trabalhar, mas hei
de saber. Tu me ensinarás, e eu aprenderei.” (Idem,
1876, p.65).

Como visto no fragmento acima, o narrador parece se contradizer, demonstrando


de forma involuntária o caráter ambíguo do cangaceiro, dividido entre a vida na lavoura
e o cangaço. Assim, o cangaceiro de Franklin da Távora dificilmente sobreviveria na
caatinga, pois seu comportamento naturalmente mal, voltado sempre à avareza com o
outro; a distância do trabalho com a terra, procurando sempre o caminho mais fácil para
saciar sua fome através do roubo. Como pode-se observar no seguinte diálogo com
Luizinha:

“— Para que traz você estes frutos consigo?


perguntou-lhe Luísa. Eles não nos
pertencem, e não podemos apossar-nos,
contra a vontade de seu dono, daquilo que
não é nosso. — Que vamos comer?
perguntou muito naturalmente o mancebo.
— Comeremos o que nos der o mato. Deus
está em toda parte, e não se esquece dos que
invocam a sua proteção” (TÁVOTA, 1876,
p. 63).

São itens utensiliares do bando de Cabeleira objetos que se vinculam ao modo de


vida nômade, sendo relativos à formação dos acampamentos na mata: as redes de dormir,
fachos destinados a iluminação dos assentamentos temporários, peça de pano e lençóis;
ao transporte de materiais, cangalhas, surrão, saco, caçuá e pacote; havendo ainda dois
itens associados à instrumentação da caça de animais de pequeno porte, que são as cordas
e a embira (tipo de corda feita de fibra retirada da casca de arvores). Tratando dos
acréscimos naturalmente concedidos a Cabeleira, protagonista da história, encontramos
um item peculiar ao cangaço, a viola, segundo Távora, elemento fidedigno do facínora,
que teria sido segundo suas fontes um exímio tocador. Sobre esse ponto, chama atenção
o transporte desse instrumento musical para os esconderijos, o que poderia ser visto como
algo prejudicial ao bando por lhes revelar a posição, como vemos no seguinte trecho:

“[...] o viram pegar da viola, seu instrumento querido


que, não só a elle, mas também a todos os do couto
proporcionava, nas mãos do inspirado tocador,
momentos de prazer e consolação.
[...] Aos sons da viola puzeram-se uns a cantar, outros
a dansar, como brincam saltando as crianças na
campina. De repente Manoel-corisco fez signal para
que se calassem. — Estou vendo alli em baixo um
homem que vem na direcção da grota, disse elle aos
camaradas (TÁVORA, 1876, p. 156).

Ainda a respeito desses assentamentos temporários, Távora descreve:

“Tinham elles assentado o seu arraial ao pé de um


olho-d'agua que não seccava ainda no rigor do verão.
Este arraial compunha-se de meia dúzia de ranchos
abertos por todos os lados e unicamente cobertos de
palhas de pindoba. Dos caibros pendiam surrões,
vestias e chapéus de couro. Algumas redes estavam
armadas dentro das palhoças. Á noite alumiavam-se
ordinariamente com fogueiras; tinham porém sempre
em quantidade fachos de que se serviam nas suas idas
e voltas por dentro da mata, quando fazia escuro.
Tudo annunciava que o ponto era sempre provisório,
e podia ser deixado de um momento para outro sem
prejuízo nem saudades”

Sobre os elementos materiais que constituem o acampamento cangaceiro descrito


acima, nota-se a proximidade ao olho d’água como referência, o que assim como a viola
de José Gomes, não seria uma boa estratégia para o modo de vida no cangaço, dada a
presença de grupos rastejadores, como os relatados pelo Frei Manuel Calado no século
XVII, que os descrevia como os homens mais espertos da região, acostumados na tomada
de rastros de perigosas facções, além de ótimos espingardeiros (MELLO, 2004, p. 91).
Observa-se ainda a presença de palhoças abertas, cobertas por palha de pindoba em
caibros, indicando uma forma de habitação temporária de arquitetura indígena,
semelhante às descritas por Johan Van Legen na Amazônia (2013).

Imagem retirada do livro Arquitetura dos Índios da Amazônia, Johan Van Legen. 2013.

Vemos também a presença da rede, outro item indígena utilizado pelo bando.
Sobre esse elemento, é interessante notar que entre os séculos XVI e XIX a rede era vista
como sinônimo de preguiça, um objeto associado ao pecado, o berço indígena
(CASCUDO, 1983); (FREYRE, p. 204-207, apud BRANDÃO, 2010, p. 50). Mescla-se ao
cenário do arraial cangaceiro o tom amarronzado do couro dos gibões e chapéus,
ressaltando a indumentária sertaneja comum entre os vaqueiros.

Aliás, os itens indumentários que representam os cangaceiros em O Cabeleira são:


o gibão, a véstia de couro, e o chapéu de palha ou de couro. O sertanejo, de forma geral,
será representado da mesma maneira, como visto nos personagens marchante e Timóteo,
porém o taverneiro sem a presença do chapéu, um símbolo do irredentismo cangaceiro e
vaqueiro, do hábito de viver livre e solto pelos cantos do sertão apenas embaixo do
chapéu; “sem lei nem rei” (MELLO, 2004).

Durante os séculos XVIII e XIX, o cangaceiro era ainda portador de uma


vestimenta tímida e andrajosa, por se tratar geralmente de pobres sertanejos, indígenas e
negros fugidos (OLIVEIRA, 2011, p. 84). O perseguidor miliciano, de mesmo modo,
também se confundira aos bandidos, não sendo muitas vezes identificado pelas roupas, e
nem pelas ações que eram em muito semelhantes (PERICÁS, 2010, p. 106) (OLIVEIRA,
2011, p. 84-86). Até aí o cangaço não trazia outra diferença nas roupas que não fosse a
presença do complexo de armas que o acompanhava. Suas vestes eram geralmente trajes
simples de vaqueiro como os descritos por Henri Koster no começo do século oitocentista,
sendo essa tendência modificada somente em fins do mesmo século, com a influência da
moda cavalheiresca; e novamente na década de 20, com o estilo “lampionico”
(OLIVEIRA, 2008).

Gravura de Henry Koster, 1816, Recife-PE.

“Seu vestido consistia em longas pantalonas


ou leggings, de couro bronzeado, mas
despido, de uma cor marrom enferrujada,
[...] Ele tinha uma pele de bode bronzeada
sobre o peito, que estava amarrado por trás
de quatro cordas e, portanto, feito de couro,
que geralmente é jogado sobre um ombro;
[...] ele tinha chinelos slip-calçados da
mesma cor, e esporas de ferro sobre os
calcanhares nus, -As tiras que vão sob os pés
prevenir o risco de perder os chinelos. Um
longo chicote de tangas torcidas. ele tinha
uma espada ao seu lado pendurada num cinto
por cima do ombro; sua faca estava em seu
cinto e seu cachimbo sujo e curto estava em
sua boca” (KOSTER, 1816).
Em comparação Carlos D. Fernandes não parece fixar uma identidade bélica ao
cangaço de forma específica, como se percebe em O Cabeleira, não existindo um padrão
cangaceiro na categoria. Tomando como exemplo Minervino, protagonista e único
bandoleiro da narrativa com descrição mais detalhada, não só na categoria armamentista
como nas demais, observa-se a presença pouco variada do seu complexo de armas, se
comparado com os cangaceiros do romance anterior, registrando-se os itens: Espingarda,
Faca, Bacamarte, Rifle, Punhal, Balas, Clavina e Cartucheira. Dentre esses, uma maior
presença do Rifle (4 menções), Bacamarte (2 menções) e a Faca (3 menções). A
persistência do Bacamarte pode indicar uma dificuldade tecnológica no que se refere ao
armamento do cangaço, já que representa um equipamento ultrapassado. Em contraponto
o Bacamarte é uma arma bastante popular no Brasil, principalmente no Nordeste, onde
temos festividades como os bacamarteiros de Caruaru-PE (LIMA, 2013), sendo seu uso
mais recreativo do que bélico. Pode-se tratar ainda de um item representativo da
identidade sertaneja. Sobre isso, vale citar a percepção tida pelo arqueólogo Rafael Abreu
e Souza sobre a “musealização” de uma suposta memória sertaneja em objetos antigos e
exóticos:

“A valorização do antigo e do que era


classificado como "indígena", do outro
exótico pertencente ao passado recuado,
quase como tipologia relacionada a coisas de
produção não-industrial, batia de frente com
o modo com que muitas comunidades e
cidades do interior dos estados pelos quais
passei musealizavam (se é que esta seria a
palavra) seu patrimônio (outra questão
controversa), doando, aos museus regionais,
objetos que os representavam ou que
expressavam momentos de uma memória e
uma identidade muitas vezes chamadas por
eles mesmos de sertaneja” (ABREU E
SOUZA, 2017, p.56).

Nota-se ainda uma outra diferença, dessa vez funcional entre Távora e Dias.
Objetos perfuro-cortantes são representados, enquanto arma / ferramenta, no caso: Faca
e punhal / Facão mateiro. Essa diferença reforça a origem sertaneja e rural do cangaceiro,
que provem não somente das classes exploradas e marginalizadas da sociedade, mas
também de família abastada e conhecida na região, sendo inclusive patrão de
funcionários. Esse discurso ganha mais peso se pensarmos na principal diferença entre as
representações artefatuais do cangaço para os dois autores analisados: A hegemonia de
objetos utensiliares na narrativa de Carlos Dias. E a hegemonia dos objetos bélicos em
Távora.

Os utensílios de Antônio Silvino remetem em maioria às funções de vaqueirar e


de lavrar, sendo geralmente peças de montaria: cordas, panacu, arreios, estribos e rédeas;
elementos da lavoura: enxada, facão mateiro, grão. Outros elementos são fixados à esfera
doméstica, como berço e rede. Minervino é descrito ainda como um apostador no jogo de
cartas, e tem associado aos hábitos de consumo uma garrafa de agua ardente (feita com
raiz de gengibre e semente de embira macerada).

Mesmo sendo descrito como vaidoso, Minervino possui poucos elementos


relativos a indumentária, somando apenas 3 itens, que de qualquer modo se distinguem
pela pujança da moda cavalheiresca. Um perfil do cangaceiro típico do período de 1900
à 1926, quando temos as roupas ornadas de lampião. São os itens de Minervino: anéis de
ouro e esporas de prata, elementos de estima e diferenciação social, sendo sua véstia um
traje de caçador, que revela não só o hábito da caça, mas uma atividade especializada.
Sobre isso é valido mencionar que a caça com armas de fogo era uma prática comum
entre famílias mais abastadas, sendo relatado por Varnhagen em meados do século XIX
que alguns animais já estavam ameaçados de extinção naquela época, Varnhagen aliás
escreveu como já mencionado um manual de caça, onde descrevia desde a roupa ideal,
ao equipamento necessário para caça profissional, o que já demonstra na época uma
necessidade de aburguesamento, de livros que expliquem como os civilizados devem se
comportar, como assim faziam os romances e manuais de etiqueta no mesmo século
(LIMA).

As descrições não fogem do que representou o rifle de ouro para muitos de seus
contemporâneos, que o viam de forma bastante respeitosa, como expressa a seguinte
notícia do Jornal A Imprensa:

“Antonio Silvino sempre creu em Deus e respeitava muito, em sua rude ignorância, a S.
S. Virgem. Tinha também, ás vêses, sentimentos bem manifestos de alguma humanidade:
commovia-se, não raro, diante da indigência, de velhos e mulheres fracas. Não era uma
fera, inteiramente deshumana e selvagem. Temia a morte, fugindo sempre da imminencia
de ser tragado por Ella em algum combate singular. Vemos nisto não somente um natural
instincto de conservação, sinão também o temor das penas sobrenaturaes que elle
comprehendia reservadas aos seus crimes” (A Imprensa, 08 de Dezembro de 1914)

Finalizando, é pertinente observar que as limitações estéticas e literárias que recaem nas
obras de Franklin da Távora e Carlos Dias, segundo críticos como Wagner de Souza
(2007) e Ernani Sátyro (1975), não representam limitação aparente no que tange a
abordagem arqueológica, tendo em conta que os resultados obtidos na pesquisa foram
considerados satisfatórios. O que demonstra o potencial interpretativo das obras
independentemente dos parâmetros mencionados. Semelhantemente, acredito que a
pesquisa apresentou discussões independentes ou pelo menos distintas a produção
historiográfica, não resultando em um conhecimento histórico tautológico como apontado
por Beaudry (2002) como uma das dificuldades do arqueólogo que lida com contextos
subsidiados por documentos. Essa abordagem inovadora, do ponto de vista dos estudos
do cangaço, constituí uma proposta agregativa e válida a luz do pensamento arqueológico.
Franklin da Távora (1842-1888) Carlos Dias Fernandes (1874-1942)

Bandidos - Cangaceiros

Bando: pobres, ignorantes, desleais, Bando de cangaceiro: pobres, abastados,


ladrões, bandidos, assassinos, vaqueiros, lavradores, ladrões, justiceiros,
estupradores, nômades, desprovidos de assassinos, bandidos, nômades, que
normas e ritos religiosos. seguem normas de conduta e moral cristã.
Zona de atuação: Faixa litorânea e Zona de atuação: Semiárido nordestino,
agreste de Pernambuco, além dos estados sertão de Pernambuco e da Paraíba.
da Paraíba e Rio Grande do Norte. Antônio Silvino: Caçador, Vaqueiro,
José Gomes: Atirador, arremessador de lavrador, Jogador de cartas, ladrão,
facas, ladrão, de família pobre, assassino, vaidoso, de família abastada, justiceiro,
sanguinário, instintivo, estuprador, conduta moral, valente, vigor físico.
violeiro, cantador, conduta moral. - Motivações: Assassinato de seu pai,
perda de propriedades para apadrinhados
- Motivações: Influencia paterna, instinto, da “justiça”, injustiça, subsistência do
ignorância, dinheiro. bando, ajudar os necessitados, guarda de
propriedades e interesses políticos.
- Cangaço: meio de vida, refúgio. - Cangaço: Meio de vida, refúgio,
vingança.
Oficiais de Justiça

General: Governador, Justo


Comandante: injusto, interrogador
Sargento mor: justo, perito em
perverso.
interrogar.
Soldados: assassinos, injustos, covardes.
Milicianos: Valente, espadachim,
Galfarro
justiceiro.
Meirinhos: amedrontados.
Piquetes: soldados de infantaria

Sistema prisional e punitivo precário Sistema prisional e punitivo precário

Belicismos

As armas tiveram papel muito significativo na evolução das sociedades, pois com
o cada vez maior domínio de determinados recursos e bens, nasceu a necessidade defesa.
O excesso de produção devia ser mantido e por conseguinte, protegido. Desta necessidade
surgem as primeiras muralhas, assim como conflitos mais complexos e violentos.
Começam então a aparecer indivíduos que se destacam em determinadas situações de
confronto e ganham papel de maior relevo, dentro das comunidades, pois a capacidade de
proteger aquelas e os seus bens, foi valorizada e enaltecida. A este sucesso está também
ligada a eficácia do armamento que tais sociedades possuíam (TRISTÃO, 2012, p. 42).

ARMAS DE FOGO

O Cabeleira (1876):

No contexto do cangaceiro Cabeleira, segunda metade do século XVIII, o


mecanismo de ativação dos armamentos de fogo mais comuns, era o sistema de
pederneira, que consiste em “uma pedra muito dura, que produz faíscas, quando ferida
com um fragmento de aço, sílex, pedernal, pedra-de-fogo” (WIESEBRON, 1994, p.136).

Armas do exército brasileiro, séculos XVI-XVIII. Fonte: História da polícia Militar.


1938, p. 105.

1. Mosquete de mecha, séc. XVI,


2. Mosquete de rodete, séc. XVII,
3. Pistola de rodete, séc. XVII,
4. Pistola de pederneira, séc. XVIII,
Bacamarte:
Ao longo do tempo, foi uma arma de uso tanto militar quanto civil, porém se
popularizou mais sobre o último, devido a amplitude que o seu disparo alcança
(FERREIRA, 2017, p.55). No Brasil, a sua utilização foi tão presente, que até hoje
existem manifestações e festejos populares que se utilizam desses itens (LIMA, 2013).
É uma arma de fogo de cano curto e largo, reforçada na coronha. Há controvérsias
sobre sua origem e não se sabe com exatidão se é originalmente brasileira, tampouco
como chegou à nossa região. O que sabemos é que ela foi modificada e se adaptou ao uso
dos folgazões; antes era usada com o chumbo, mas atualmente é usada a pólvora, que
produz mais barulho e fumaça (LIMA, 2013, p.13).

i. Bacamarte com fecho de pederneira. 1670-1800.

(Figura:X. Bacamarte, modelo francês 1670-1800. Fonte: FERREIRA, 2017).

A arma acima, apresenta características dos modelos franceses, em pelo menos dois
aspectos, o sistema de pederneira e a morfologia da coronha (FERREIRA, 2017, p.55).
Já o modelo abaixo, é de origem portuguesa, notadamente pela forma vasada da coronha.
No entanto a pederneira se assemelha a de origem, podendo ser uma adaptação ou
modificação (Idem, 2017, p.56).

ii. Bacamarte com fecho de pederneira. Fins do séc. XVII ao começo do XIX.
(Figura:X. Bacamarte, provavelmente português. 1670-1800. Fonte: FERREIRA, 2017).
Clavinote: “pequena clavina (WIESEBRON, 1994, p.136).
Obs: Nos acervos utilizados na pesquisa, não foram encontrados equipamentos com esta
designação. Ver Clavina na seção abaixo de Os cangaceiros (1914).

Espingarda: “arma de fogo portátil de cano longo” (WIESEBRON, 1994, p.136).

Espingarda Lazarina. Séc. XVIII.

(Figura:X. Espingarda Lazarina, provavelmente português. Fins do séc. XVIII. Fonte:


FERREIRA, 2017).

A arma acima, está vinculada a produção do famoso armeiro português Braga


Lazaro Lazarino. É um tipo de equipamento comumente empregado a caça de pequeno
porte (FERREIRA, 2017, p. 66).
Pistola: “arma de fogo portátil”(WIESEBRON, 1994, p.136).

A invenção do mecanismo de rodete no século XVI possibilitou o surgimento das


pistolas, armas leves e curtas que poderiam substituir as armas brancas. Quanto ao
surgimento do termo, existem duas hipóteses geralmente aceitas. A primeira relaciona a
invenção desses equipamentos da cidade pistois, na Itália. A outra atribui a um reino da
Bohemia, onde haveriam pequenas armas de mão chamadas de pistala ou pipa
(FERREIRA, 2017, p.77-81).

i. Pistolas de uso Militar. Séculos XVIII-XIX.

(Figura:X. Pistolas de uso Militar. Séc. XVIII-XIX. Fonte: FERREIRA, 2017).


Da esquerda para direita: Pistola de percussão convertida a sistema pederneira. Nota-
se a ausência do martelo oriundo dessa alteração. A segunda arma, também teve o sistema
de percussão convertido, no entanto, preservou-se o martelo. (FERREIRA, 2017, p. 72).

ii. Pistolas de uso civil, sistemas de percussão e pederneira. Séculos XVIII.

(Figura:X. Pistolas de uso Civil e Militar. Séc. XVII-XIX. Fonte: FERREIRA, 2017).

Da esquerda para direita: Fecho de pederneira, com miquelete (tipo de trava


snaplock) e cão de patilha; arma convertida de sistema de pederneiras para percussão.

Fuzil:
A presença desse item indica um anacronismo de Franklin da Távora, pois este
tipo armamento só foi produzido no século seguinte ao de Cabeleira (FERREIRA, 2017).
Consiste em um “arma portátil de repetição, de cano longo, cujo carregador se coloca e
retira facilmente” (WIESEBRON, 1994, p.136).

Bala e chumbo:
Referentes a munição. Segundo o manual de caça de Varnhagen, 1860:
O chumbo, desde a bala a escumilha, deve ser bem redondo e de tamanho igual [...] O
chumbo leva-se de ordinário em uma bolsa couro. Tendo varias divisões parallelas para
os diferentes tamanhos da munição, cruzada a tiracol do lado opposto, e cujo bocal é a
medida da carga” (VARNHAGEN, 1860, p.34).
Os cangaceiros (1914):

Durante o século XIX, houveram modernizações significativas na produção


armamentistas,

Armas do exército brasileiro, 1830-1860. Fonte: História da polícia Militar. 1938, p. 106.

1. Espingarda ou granadeira, Tower ou Barnett,


2. Baioneta triangular,
3. Carabina para caça,
4. Espada-baioneta,
5. Clavina de pederneira,
6. Pistola de pederneira,
Armas do exército brasileiro, 1830-1870. Fonte: História da polícia Militar. 1938, p. 107.

1. Espingarda, sistema Minié,


2. Baioneta triangular,
3. Carabina, sistema Minié,
4. Sabre-baioneta,
5. Clavina, sistema Minié,
6. Pistola fulminante,

Armas do exército brasileiro na guerra contra o Paraguai. Fonte: História da polícia


Militar. 1938, p. 107
Bacamarte:
“Os ladrões e os assassinos repelem-se a bacamarte” (Zuza) p. 77.

i. Bacamarte com fecho de pederneira.1790 – 1830.

(Figura:X. Bacamarte, provavelmente português. 1790-1830. Fonte: FERREIRA, 2017).

Coronha, fecho e cão, de modelo francês (FERREIRA, 2017, p. 57).

ii. Bacamarte com fecho de percussão (convertido). Fins do séc. XVIII a XIX.

(Figura:X. Bacamarte, provavelmente português. 1790-1830. Fonte: FERREIRA, 2017).

Fecho de percussão convertido e coronha estilo ibérica (FERREIRA, 2017, p. 59).


Espingarda: “arma de fogo portátil de cano longo” (Idem, 1994, p.136),

Espingarda SMLE "Lee-Enfield MKIII"

(Figura:X. Espingarda Lee Enfield MKIII. Fonte: FERREIRA, 2017).

De calibre 7,7mm, essas armas foram utilizadas por britânicos e os Corpos


Expedicionários portugueses durante a Grande guerra. O modelo acima data de 1916
(FERREIRA, 2017, p. 67).
Carabina/Clavina: “espingarda estriada; fuzil” (Idem, 1994, p.136).

i. Carabina Mauser 1895

(Figura:X. Fuzil Comblain. Fonte: MORAES JUNIOR, 2008, apud Cayo?2018).

De funcionamento similar ao Fuzil Mauser 1895, porém com um cano mais curto (17
polegadas), mira traseira menor e bolt curvo para baixo (MASTERTON, 2015, apud
CAYO, 2018).

ii. Carabina Mauser 1907

(Figura:X. Fuzil Comblain. Fonte: MORAES JUNIOR, 2008, apud Cayo?2018).

Adquirido no Brasil em pequenas quantidades (REYNOLD & OLIVEIRA, s.d. apud, CAYO,
2018).
Mosquetão: “fuzil pequeno usado pelos soldados de cavalaria e de artilharia” (Idem,
1994, p.136).

i. Enfield Pattern 1853 (Mosquete)

(Figura:X, Mosquete Enfield Pattern 1853. Fonte: Neto, 2012, apud Cayo?2018)

ii. Mosquetão Winchester 1873

(Figura:X, Mosquetão Winchester 1873. Fonte: Neto, 2012, apud Cayo?2018)

Assim como o revolver Colt, essa arma foi conhecida por muito tempo pelo jargão "The
Gun That Won The West" (NETO, 2012, apud CAYO, 2018). De calibres 40-44 mm.ou
44 W.C.F.44, os mosquetões winchester 1873 possuem um sistema de trava de disparos
que a torna um equipamento seguro. A caixa de culatra compõe-se de duas tampas laterais
móveis possibilitando uma fácil limpeza (NETO, 2013, apud CAYO, 2018).

Rifle:
Rifle Winchester 1873

(Figura:X. Rifle Winchester 1873. Fonte: NETO, 2013, apud Cayo?2018).

Considerada uma arma precisa, forte e leve, essa arma foi uma das mais utilizadas
armas de fins do século XIX ao começo do século XX. Possui um Sistema de trava que a
torna um equipamento seguro. A caixa de culatra compõe-se de duas tampas laterais
móveis possibilitando uma fácil limpeza (NETO, 2013, apud CAYO, 2018).
Essa arma, igualmente ao Mosquetão Winchester 1873, tornou-se bastante
conhecida como a “papo amarelo”, devido a presença de uma superfície lisa feita de metal
latão, que serve para evitar que poeira ou outras impurezas penetrem no interior da arma
(Idem, 2013, apud CAYO, 2018).

(Figura:X. Rifle Winchester 1873. Fonte: NETO, 2013, apud Cayo?2018).


Fuzil: “arma portátil de repetição, de cano longo, cujo carregador se coloca e retira
facilmente” (Idem, 1994, p.136).

i. Fuzil Comblain

(Figura:X. Fuzil Comblain. Séc. XIX. Fonte: MORAES JUNIOR, 2008, apud Cayo?2018)

Esse fuzil, retrorecarregável, de tiro unico e sistema drop block action, que
permite abrir a culatra puxando-a para baixo, carrega-la ou trava-la puxando para cima,
era alimentada por cartuchos metálicos de pólvora negra comum e chumbo de 31,5 g em
calibre 11x50mmR (ou 11x42 em relação as carabinas) (MELLO, 2014; REYNOLDS &
OLIVEIRA, s.d. apud CAYO? 2018).
Teve uso regular na infantaria do exército brasileiro, sendo abandonada após o
fim da Guerra de Canudos. Todavia, o seu uso persistiu em grupos militares (polícia
militar da Paraíba) e paramilitares (força publica do Rio de Janeiro) até a década de 30
do século passado. Foram elas as principais armas antes da chegada dos fuzis Mauser
1908 no nordeste (CARVALHO, 2008, apud CAYO?, 2018).

ii. Fuzil Mauser 1894

(Figura:X. Fuzil Mauser 1894. Fonte: NETO, 2011a, apud Cayo?2018)


iii. Fuzil Minié

(Figura:X. Fuzil Minié, fabricação Belga. Fonte: Neto, 2012, apud Cayo?2018)

Exemplo de fuzil utilizado pelo cangaço, pelo bandoleiro Jesuíno Brilhante na


segunda metade do século XIX. Foi também amplamente difundida na infantaria do
exército brasileiro durante a guerra contra o Paraguai (CAYO?, 2018, p. 37).

iv. Fuzil Mauser 1908

(Figura:X. Fuzil Mauser 1908. Fonte: REYNOLDS & OLIVEIRA, s.d., apud Cayo?2018)

Em 1908 o Governo brasileiro decidi substituir os fuzis Mauser 1984 pelos


modernos Mauser 1908, mais reforçados e com calibre 7mm x 57mm, sendo usado como
armamento padrão da Polícia Militar de diversos estados (CARVALHO, 2008; NETO,
2011a; REYNOLDS & OLIVEIRA, s/d.; SMITH & SMITH, 1948, apud CAYO?, 2018).
Revolver: “arma de fogo, de porte individual, de um só cano, com calibres variados,
dotada de tambor ou cilindro giratório, com várias culatras, onde são colocados os
cartuchos, e pode-se disparar tantos tiros quantas sejam as culatras desse tambor” (Idem,
1994, p.136).

i. Revólver Modèle 1892 cal. 8mm

(Figura:X. Revólver Modèle 1892 cal. 8mm. Fonte: DANIEL?2018).


Arma curta de calibre 8mm, com tambor giratório de 6 camaras sistema de ação duplo e
percussão intrínseca. Feita em aço carbono com cabo emadeirado. Arma de uso militar.
(DANIEL?2018).

ii. Revólver Smith & Wesson .44 Double Action produzido de 1881 e 1913.

(Figura:X. Revólver Smith & Wesson .44 Double Action produzido de 1881 e 1913. Fonte: DANIEL?2018).

Arma curta de calibre 44 com tambor giratório de 6 camaras. Feita em aço carbono
com sistema de ação duplo e percussão intrínseca. utilizada pelas forças volantes no
combate contra o cangaço (DANIEL?2018).

iii. Colt (revólver)

(Figura 24: Colt Police Positive. Fonte: CARVALHO, 2008, apud CAYO?, 2018).

O revolver mais utilizado no cangaço do início do século passado, era o Colt


Police Positive que surge no mercado em 1907. A munição em cartuchos .32 e .38 SPL
eram os mais utilizados no contexto do Cangaço (CARVALHO, 2008, apud CAYO,
2018); (MILLER, 2008, apud, CAYO?, 2018).

Bala e projétil: Munição,


Gatilho: peça da arma responsável pelo disparo.
Anatomia de armas Winchester

Fonte: (CASSIANO, 2018, apud, CAYO?, 2018).

Anatomia de armas longas da Mauser

Fonte: (CASSIANO, 2018, apud, CAYO?, 2018).


ARMAS BRANCAS
Em determinados grupos, os ferreiros assumiam um status de certo prestígio
social, considerado por vezes artesão ou até mesmo um ‘mágico’, visto que a constituição
do metal por vezes, passava por um certo incremento de elementos estranhos, complexos
em termos de formula. Por sua vez fundido, o metal era transferido para moldes,
retrabalhado e encabado (CAMPELLO, 2015, p.10).

As informações obtidas através de escavações arqueológicas são escassas devido


ao custo benefício de sua reciclagem desses itens e a alta propensão do material a
processos corrosivos. Hábito comum - aquele de alocar objetos em contextos funerários
- a maior parte desses artefatos é oriundo do tumulo de reis, chefes tribais, feiticeiros e
sacerdotes. Dado isso, nota-se a raridade dessas ferramentas de uso do popular durante
boa parte da história (CAMPELLO, 2015, p.10).

No Brasil, o primeiro registro do ofício de ferreiro que tive notícia, data de 1554,
e é atribuída ao colono Mateus Nogueira, que forjava facas, anzóis, cunhas e machados
em Piratininga, São Paulo (LAMARTINE, 1988, p.12).

Esboço de forno típico do século XVI – Figura de Fernando José Gomes Landgraf

Os oficiais mecânicos - artesões, escultores, ferreiros entre outros trabalhadores


da Colônia – desempenhavam seus papeis de forma irregular com o auxílio de
aprendizes/ajudantes muitas vezes menores de idade. Mesmo assim estes não eram
necessariamente aprendizes, tendo-se em mente que o ensino dos trabalhos não se dava
de modo intencional ou preciso, diferentemente do que acontecia no continente europeu,
onde os “mestreiros” possuíam quantidades fixas de aprendizes remunerados, e que
recebiam por sua vez um ensino de forma intencional e sistêmica (CUNHA, 1978, p.33).

Em edital emitido pela coroa portuguesa destinado ao arquipélago de Açores no


ano de 1746, com o intuito de recrutar povoadores para o Brasil Colônia, oferecia-se para
cada casal que migrasse ao novo mundo: “uma espingarda, duas enxadas, um machado,
uma enxó, um martelo, um facão, duas facas, duas tesouras” (CAMPELLO, 2015, p.10-
11).

O baixo número de facas concedidas a esses estrangeiros conota um alto custo e


uma decorrente baixa produção desses itens. Qualquer forma, a que fim foram levadas
essas facas trazidas para o Brasil colonial?

Ao que tudo indica diferentes tipos de laminas foram difundidas pelo vasto
território brasileiro desde lá, como as facas gaúchas que se aproximam bastante das facas
produzidas na Argentina, Uruguai e Paraguai. Ou ainda como as adagas sulinas que
seguiam o padrão das pontas de lança farroupilha (CAMPELLO, 2015, p.24).

Atendo-se as facas nordestinas, estas parecem ter sua origem no formato das
adagas por apresentaram um gume duplo. Em contrapartida, suas laminas são mais
estreitas, assemelhando-se mais a geometria dos punhais (CAMPELLO, 2015, p.28).

Os paroaras - caboclos amazonenses de origem nordestina – parecem ter sido


influenciados por laminas de grande comprimento como as machettes francesas, que
eram além de longas e largas, de um formato curvo, sendo substituído com o passar do
tempo por laminas retilíneas. Conta-se também que em decorrência de um melhor
manuseio dentro de pequenos barcos, utilizava-se preferencialmente facas menores, mais
parecidas com as atuaisn peixeiras (CAMPELLO, 2015, p. 29).
Machette Francesa com medidas ignoradas. Possivelmente oriunda do séc. XVIII. Figura retirada do livro
Facas brasileiras, 2015.

No norte e nordeste brasileiro, a ocorrência de adagas é praticamente ínfimo,


sendo destacável o alto número das facas de ponta nordestina, e em menor escala, o
Trinchete nordestino, uma espécie de cutelo com ponta. Campello chama atenção ainda
para o curioso tipo de sabre ou espada reduzida denominada Terçado, utilizado no
amazonas como arma civil e posteriormente aderida ao militarismo. (CAMPELLO, 2015,
p. 29).

Destaque para a confecção desses ferros de corte nordestino, foram os estados do


Rio Grande do Norte e Ceará, esse último, de onde saíram algumas versões nomeadas de
acordo com o local de feitura, como a desaparecida Canindé, um tipo de facão estreito
com ponta curva (LAMARTINE, 1988, p.24).

Relatos do Padre Manoel Aires Casal em 1781, remetem a produção em larga


escala das facas de ponta no litoral Pernambucano, nas proximidades do notável
aldeamento do Pasmado, que fora habitada por um grande número de serralheiros. Essas
laminas tiveram considerável fama, sendo provavelmente produzidas até meados do séc.
XIX (LAMARTINE, 1988, p.14).
Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem do Pasmado-PE. Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço,
Denis Arthur Carvalho 2016.

As facas de ponta do Pasmado, por terem no período dos personagens José Gomes
e Antonio Silvino, considerável popularidade, proximidade cronológica e geográfica com
o espaço-tempo dos romances O Cabeleira (1876) e Os Cangaceiros (1914), é um ponto
chave para se pensar uma correlação entre a cultura material representada e a sua
correspondência material, já que os seus escritores eram por necessidade, “estudiosos”
das peculiaridades locais (ver mapa I). Henri Koster em sua viagem a Pernambuco em
1816, relata que era possível ouvir a certa distância da aldeia dos Pasmado, o som dos
golpes de martelo bigorna que se chocavam nas tendas de ferreiro de lá.

Segue abaixo algumas aproximações com a representação das armas brancas nos
romances supracitados:
O Cabeleira (1876):

Faca/ Faca de pasmado/Faca nua Punhal/ Punhal de prata/ Punhalzinho (?)

i. Faca do Pasmado

Faca do pasmado Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.

A imponência dessa afamada faca é ressaltada no romance de Franklin da Távora,


no momento em que narra o acanhamento do taverneiro Timóteo frente a presença da
arma nas mãos de José Gomes:

“Quis Timóteo acudir à companheira na apertada conjuntora que se lhe desenhou aos
olhos com as negras cores de um desastre, ou vergonha para o lar e bodega onde nunca
sofrera afronta igual ou que com esta se parecesse. Mas quando apercebia o ânimo para
dar o arriscado passo, descobriu na mão de José uma faca de Pasmado que o reteve à
respeitosa distância” (TÁVORA, 1876, p.11)

É no mínimo curioso, o fato que anteriormente a cena supracitada, uma


personagem de nome Chica, põe a alcunha em José Gomes de amarelo de goiana
enquanto reclamava com ele por ter deixado o cavalo solto próximo da sua horta. O que
já indicaria de antemão, a presença ou notoriedade de algum elemento vinculado a cidade
de Goiana-PE, que nesse caso, seria a faca de Pasmado.
Parnaíba/ Faca de arrasto

ii. Parnaíba ou “Faca de arrasto”

Faca Parnaíba ou de Arrasto Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.
iii. Faca Jardineira

Faca Jardineira. Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.
iv. Faca Lambedeira

Faca do Lambedeira. Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.

No trecho seguinte do livro O cabeleira, o interlocutor, se apossando do personagem


Taverneiro, que menciona o fato de Cabeleira ter matado o personagem Gabriel em um
duelo de facas, parece se utilizar de uma metáfora como recurso de sua narrativa, criando
um efeito de transferência de significado (OLIVEIRA E PAIVA, 2010, p.7-19) entre as
palavras lambeu e lambedeira:

“— Bem estou vendo, disse Timóteo. Mas sempre lhes quero dizer: o crioulo Gabriel
sabia muito bem jogar a espada, e melhor a faca, mas o Cabeleira o lambeu (TÁVORA,
1876, p.54).

No entanto, tal correspondência é uma ideia vaga e subjetiva, que não se trata de
uma verdade, mas de suposição.
Faca Baixa verde

Faca Baixa verde. Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.

Espada/ Espada de ponta direita

“a espada sempre foi associada aos guerreiros mais abastados e 63 prestigiados, sendo o
símbolo da coragem e do poder de quem a possuísse. Passou também a estar ligada à
soberania porque as espadas mais ricas encontradas em achados arqueológicos eram
quase sempre propriedade de reis ou chefes de tribos. Deste modo, a espada surge aqui
como símbolo da soberania do território inglês, reservada somente a quem a merecesse”
(MARQUES, 2013, p. 63-64).
Armas do brancas das tropas coloniais e do exército brasileiro, séculos XVI-XVIII. Fonte: História da
polícia Militar. 1938, p. 112.

1. Espada Rapieira do século XVI,


2. Espada Milíciana do século XVIII. Lamina do século XVII com punho feito no interior do Brasil.
3· Espada de oficial de Infantaria, época de D. Maria I,
4. Sabre de cavalaria, 1820 a 1840,
5. Sabre de cavalaria, 1860 a 1870,
6. Chilfarote de Infantaria, 1800 a 1880.

Bainha
As bainhas também eram caprichosamente elaboradas, quase sempre por
terceiros, podendo ser de couro ou metal.
Folha de aço/ Lamina
Os Cangaceiros (1914):

Facas/ Facões/ Trinchante/Punhais/ Flandres

i. Pajeuzeira

Faca Jardineira. Fonte: Livro Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.
ii. Faca Caroca

Faca Caroca. Fonte: Os Punhais do Cangaço, Denis Arthur Carvalho 2016.

sabres, espada, flandres e aço


Cimitarras largas encabadas em chifre
Centraram-se as raízes históricas da faca brasileira na cutelaria portuguesa e na espanhola,
ou numa cutelaria ibérica para depois ampliar o leque para o Marrocos. A rigor não se
deve excluir também: franceses, holandeses, belgas, alemães, ingleses. Todos foram
parceiros comerciais de Portugal e Espanha, todos estiveram por aqui, ou aqui
mantiveram negócios. (BARRETO, 2010, p.143)

Funcões práticas e simbólicas


Desde extrair um dente, este objeto servia-lhe ainda para “picar o fumo de corda e emparelhar
a palha de milho do cigarro, como cortar uma vergôntea de pau, sangrar uma rês, tirar um couro,
descarnar, retirar um estrepe ou espinho” (LAMARTINE, 1988, p. 32)

Cabe salientar que o formato e tamanho de lâmina - 30 a 40 cm em média - da “faca de ponta”,


contribuiu para a versatilização deste artefato em detrimento a outros itens mais específicos,
tais quais a “faca de arrasto” que tinha longa lâmina propícia ao desmatamento, ou o punhal,
que se configurava mais como uma arma por não conter geralmente gume, mas somente
“ponta”.
ARMAS DE PROJEÇÃO

O Cabeleira (1876):

Bodoque

Bodoque Kadiwéu. Fonte: HEBERTS, 1998.

Os Cangaceiros (1914): Flecha.

ARMAS DE CHOQUE
Os Cangaceiros (1914): Moringa, rebenque.
ARMADILHAS

O Cabeleira (1876):
Arapuca: arapuca ~ rapuca – s.f. (< Tupi ara'puka; f.hist. 1776 guira puca, 1865 arapuca
>)H. ‘Armadilha para caçar pequenos pássaros; ger. Uma pirâmide feita com pauzinhos
ou talas de bambu; urupuca’. “Usa é armadia, bota o cachorro na ispera. Cum arco e
frecha tamém, fica, ispera até vê a caça. Bota arapuca; a arataca, pá pegá viado” (CUNHA
E SOUZA, 2011, p. 3).

Quixó e Mundéu: quixó – s.m. (< Segundo Nascentes etim. prov. tapuio, por causa da
terminação >)H. ‘Espécie de mundéu (‘armadilha’) para pegar preás, mocós etc’. “E
aquele que a gente num consegue pegá, a gente pranta o jiqui na boca do buraco, o quixó,
e no otro dia pode i que ele ta lá. Pode dexá a panela pronta”.

Fojo:

Os Cangaceiros (1914): Não se aplica.

Religioso

Estruturas
Objetos

Dos elementos mencionados, o terço do rosário apresenta um maior valor quantitativo. A


aparição dos rosários, remetem ao mesmo século de Cabeleira, quando segundo as
narrativas eclesiásticas, o então cônego Domingos de Gusmão na frança, o recebe da
virgem Maria, iniciando assim uma batalha contra os hereges do continente europeu
(LINS DE OLIVEIRA, 2009, p.83-84).
Indumentárias

Gravura de Henry Koster, 1816, Recife-PE.

Adornos

Chapeis

Roupas e calçados

Utensiliar

Abordar pequenas unidades domésticas, cortiços, senzalas e caminhos, é uma


prática presente entre arqueólogos históricos nas ultimas décadas (LIMA, 2002, apud,
THOMASI, 2010). Essa prática demonstra o amadurecimento da arqueologia enquanto
ciência, possibilitando o acesso a atividades quotidianas cujo anonimato se distancia dos
acervos de cultura material dos museus, que quase sempre exaltam de maneira
tendenciosa a memória das classes dominantes (TANIA, 1997, p. 93-127). Assim, inferir
na cultura material utensiliar, mesmo que de maneira representativa (como é o caso),
constitui uma prática importante para interpretação desses espaços.

A categoria utensiliar na presente pesquisa, é a classificação onde temos um maior


número de amostras representativas da cultura material, estando mais vinculada a segunda
obra do que a primeira. Esses objetos remetem geralmente a representação das atividades
de trabalho, quase sempre nas adjacências da unidade habitacional, apontando para
relações sociais decorrentes do plantio da lavoura, da lida com animais, e da produção
artesanal de alguns alimentos. A narrativa ficcional, estabelece um diálogo com o real,
possibilitando compreender a representação dos modos de viver no sertão. Citando Jonh
Hines: “A fonte literária normalmente oferece uma resposta individual, reflexivo, e muitas
vezes bastante imaginativa de eventos reais ou situações” (HINES, 2012, p.5).

Abreu e Souza, ao comentar sobre as unidades habitacionais sertanejas, comenta


que o terreiro é um espaço de socialização, funcionando como uma extensão da casa.
Dessa forma, a atividade doméstica e as ocupações do sítio ou da fazenda, se entrelaçam,
sendo um local para diferentes ações simultâneas. Fazendo um paralelo com O Cabeleira:

“Felisberto não estava em casa à chegada dos dois matutos. Havia ido à vila a negócio e
ninguém sabia quando ele estaria de volta.
Eles tiraram para a casa de farinha, que ficava a um lado da casa de morada, e apresentava
nesse momento um aspecto que não era o usual. Estava-se fazendo farinha para ser a toda
pressa mandada ao Recife, onde a grande falta que havia deste gênero, assegurava pingue
lucro ao vendedor.

[...]

Era quase noite, e ainda chegavam animais com caçuás cheios de mandiocas que eram
despejados nas tulhas já formadas destas raízes. Mulheres sentadas pelo chão ou em
cepos, ao pé dessas tulhas, tiravam as mandiocas uma a uma, e as iam raspando a quicé,
e atirando depois dentro de cestos que eram conduzidos para junto das rodas a fim de
serem elas passadas pelos ralos que circulam estas.

A casa de farinha não era mais do que um vasto alpendre aberto por todos os lados e
coberto de palhas de pindoba. No centro via-se o forno onde tinha de ser cozida a massa
já apertada pela prensa e livre da manipueira. Parte dela porém, tanto que saía do pé das
rodas, era lavada em gamelas e alguidares onde deixava o resíduo ou goma para os beijus
e tapiocas. A prensa estava armada a um dos lados do alpendre; no outro viam-se as duas
rodas que não cessavam de girar. Quando cansavam os matutos ou escravos que as
moviam, eram logo substituídos por gente fresca” (TÁVORA, 1876, p. 71).

O processamento da mandioca, também é descrito em Os Cangaceiros, sendo


representada a tradição das casas de farinha:

O pátio da fazenda era um longo estendal de varges crepitantes e à noite, o velho Zuza
entregava-se pachorrrentamente a sua tarefa de entretecer as cordas do tabaco fresco que
ia enrolando no pau.
Começou-se em princípios de agosto o desmanchamento da farinha. Raspavam-se as
mandiocas e empilhavam num grande monte, entre o banco do rodete e cepo inclinado da
roldana. Essa tarefa de raspagem era comum a todos e até mesmo as crianças dos
rendeiros que recebiam depois do adjutório um grande beiju de massa da privativa
indústria de D. Catarina.
Dois sertanejos hercúleos impeliam a roldana que tinha um eixo com dois mainés. A polia
cilíndrica do relho cru punha o ralo em movimento e de encontro a este desmanchavam-
se em polme branco os grossos tubérculos seivosos, que a feiosa Rufina, uma serva
durázia opunha jeitosamente ao rotativo aparelho.

Rafael de Abreu e Souza, em sua tese de doutorado, reflete sobre a espacialidade das
habitações sertanejas, discorrendo sobre como as ações incorporadas a ela:

“Adentrar no terreiro de uma casa sertaneja de barro é estar próximo, mas não dentro, do
convívio efetivamente privado e cuja simbologia é pouco notada pelos que são de fora. É
no terreiro que ocorrem diversas atividades diárias e de socialização, e onde pessoas,
plantas, animais e elementos abióticos são convidados a participar, em distintas escalas,
da esfera particular. Pode-se ou não entrar, estar e conviver neste espaço e, para isso, a
ordenação espacial e a escolha do que especializar são elementos importantes” (ABREU
E SOUZA, 2015, p.143).

Mobília

Ferramentas de trabalho

O termo quicé parece ter origem diversa do: caxerenga; (e respectivas variantes) um seria
de origem africana o outro de origem tupi. A discussão, também neste caso, está aberta.
De resto o que se encontra são referências específicas a: ”uma quicé”. Parece-me que aqui
se tem um tipo definido de lâmina.
O que seria diferente de uma caxerenga que, pode ser um objeto em fim de vida útil, teria
esta denominação. Como seria descrita uma quicé? Arriscando: lâmina de formato
triangular, estreita, fina, um gume, lâmina com 8 a 10 centímetros de comprimento, fora
o cabo. (CAMPELO, p.34)

Instrumentos musicais
REFERENCIAS:
QUINTELA, H. F. A Segunda Pele: A linguagem das roupas, seus signos e a configuração da
identidade social através do vestuário. In: Seminário Nacional da Pós-Graduação em Ciências
Sociais - UFES, 2011, Vitória. Imagens do outro e imagens de si, 2011.

“nós possuímos um ser dual: estruturalmente somos bipolares, essa incerteza, esse ter e
não ter, o desejo de possuir algo que não se pode possuir em sua totalidade é a engrenagem
do homem. Nesse sentido, dentre outras coisas, o vestuário também tem uma natureza
bipolar, contraditória, e cumpre o duplo papel de aproximar e afastar, de agrupar e
separar, de assemelhar e distinguir” (SIMMEL, 2000, apud QUINTELA, 2011, p. 2).

Hines, John. Literary Sources and Archaeology. The Oxford handbook of Anglo-Saxon
archaeology. 2011. p. 968-985.

CARVALHO, H. V. Classificação de criminosos. Revistas USP. São Paulo. 1952,


p.293-304).

“[...] o grande Gall, em 1825, propunha uma classificação em dois grupos — 1. por paixão
e 2. por instintos inatos; logo Lombroso aumentou o número para 4, as suas bem
conhecidas classes de criminosos — 1. natos, 2.loucos, 3. por paixão, e 4. de ocasião;
sucede-lhe Ferri, e, de 4, passa para 5, acrescentando o grupo dos criminosos que ele
chama de hábito; vem depois Colajanni, e já não bastam 5, havendo necessidade de mais
um, e lá vem o grupo dos criminosos políticos; e assim ir-se-ia somando a lista com
criminosos religiosos, econômico-sociais, com repugnância ao trabalho metódico,
"normais", e — que sei eu mais — tudo quanto a mente humana possa forjar, inventar,
induzir, deduzir e por ai além” (CARVALHO, 1952, p. 299) 293-304).

As cabanas são pequenas e são construídas de barro, mas oferecem abrigo bastante
suficiente em um ambiente tão fino; elas são cobertas com telhas [...] ou como é mais
geral, por folhas da Carnaúba. Normalmente, as redes suprem o lugar das camas e são de
longe mais confortáveis, e estas são igualmente frequentadas. A maioria dos melhores
tipos de cabanas contém uma mesa, mas a prática usual é a de se agachar sobre um tapete,
em círculo, com as tigelas, pratos ou cabaças no centro. Comam as suas refeições no chão.
Facas e garfos não são muito conhecidos, e não são de todo usados pelas classes mais
baixas. (Tradução: HENRY KOSTER, 1816, p. 144)

Ainda segundo Henry Koster, era costume naquele tempo, a presença de cuias, bacias ou
louças preenchidas com água e acompanhadas de um pano de algodão grosseiro, que
serviriam para se lavar e secar as mãos após as refeições (KOSTER, 1816, p. 144).

Muitos destes eram conhecidos por seus nomes e pessoas, e uma vez por outra faziam
sortidas sobre os povoados, saqueavam as vendas, perpetravam mil desatinos, e
escapavam sempre à ação da justiça, ineficaz naquele tempo, como ainda o é hoje a nossa
polícia nos povoados longínquos, para não dizermos nas próprias capitais segundo
sabemos.

A mais exigente, mas em última análise, a abordagem mais gratificante para as


correspondências entre literatura e arqueologia é relacionar como ambos se expressam,
superficialmente, eles coincidem ou não, a um nível mais profundo da estrutura e prática
cultural. A justificativa mais forte para a interdisciplinaridade como estratégia crucial
para a compreensão do comportamento humano e de sua experiência, é que a
interdisciplinaridade é a condição prévia para a história da cultura que substitui e é de
fato indiferente às divisões modais entre os tipos de provas que são refletidas nas
especializações disciplinares da história, do texto e da crítica literária, da história da arte,
arqueologia, filologia, e assim por diante. (HINES, 2011, p. 6-7)

A importação de lâminas semi-acabadas também ocorre no Nordeste no final do século


XIX e início do XX. CAMPELLO.

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