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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF

ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL – ESS

MARIA HELENA MARTINS GREGORIO COSTA

Trabalho: Emancipação ou Subordinação?


Apontamentos sobre a ideologia do trabalho no capitalismo a partir do empreendedorismo.

Niterói – RJ
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL – ESS

MARIA HELENA MARTINS GREGORIO COSTA

Trabalho: Emancipação ou Subordinação?


Apontamentos sobre a ideologia do no capitalismo a partir do empreendedorismo.

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Serviço Social da Universidade Federal
Fluminense como requesito parcial para a
obtenção do Grau Bacharel.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Javier Blank

Niterói – RJ
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL – ESS

MARIA HELENA MARTINS GREGORIO COSTA

Trabalho: Emancipação ou Subordinação?


Apontamentos sobre a ideologia do trabalho no capitalismo a partir do empreendedorismo.

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Serviço Social da Universidade Federal
Fluminense como requesito parcial para a
obtenção do Grau Bacharel.

Aprovado em Julho de 2016.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________
Prof. Dr. Javier Blank - Orientador
Universidade Federal Fluminense

________________________________________
Profª. Mª. Larissa Costa Murad
Universidade Federal Fluminense

________________________________________
Mª. Scheilla Nunes Gonçalves

Niterói – RJ
2016
AGRADECIMENTOS

A todos aqueles que me incentivaram durante esse conturbado processo: meus


professores, meu companheiro, minha família e meus amigos. Obrigada por tudo.
“Este caráter peculiar do significado social de
‘trabalho’ indica uma correlação universal no
mundo moderno. Palavra alguma é, à primeira
vista, mais cristalina e, à segunda vista, mais
turva do que esta.”

(ROBERT KURZ)
RESUMO

Essa pesquisa busca apresentar apontamentos sobre a centralidade do trabalho no


capitalismo, trazendo uma análise desde o seu surgimento até os dias atuais, buscando
compreender de onde surge e como se mantém essa positividade do trabalho na
contemporaniedade. Nesse contexto atual, a ideologia empreendedora surge como um forte
aliado do capitalismo no Brasil e no mundo, e faz-se necessário analisar tanto o seu discurso
como os meios de disseminação dessa ideologia empreendedora, principalmente no Brasil.
Palavras-chave: ideologia capitalista, trabalho, empreendedorismo.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1

CAPÍTULO I - O TRABALHO: O ANTES E O AGORA....................................................4

1.1 – As origens pré-capitalistas do trabalho. ......................................................................... 4

1.2 – Capitalismo e o “impulso” ao trabalho. ......................................................................... 8

1.3. O trabalho intensificado na reestruturação produtiva. ................................................... 13

1.4. E no Brasil? O trabalho e as consequências da crise.. ..................................... ..............19

CAPÍTULO II - EMPREENDEDORISMO NO BRASIL: UMA ALTERNATIVA?......27

2.1. O desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil...................................................27

2.2. O SEBRAE e o empreendedor individual: A venda de uma nova esperança...............34

2.3. O trabalhador empreendedor e suas amarras.................................................................41

CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................................47

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................53
1

INTRODUÇÃO

Através do presente estudo, busca-se contribuir para a discussão acerca do trabalho na


sociedade capitalista e de sua “ideologia de dominação” na atualidade, a partir do discurso de
incentivo ao empreendedorismo no Brasil, buscando analisar o seu surgimento, sua
disseminação, bem como sua importância para o momento atual do capitalismo.

Chama a atenção a quantidade de informação disponível relacionada ao trabalho,


críticas sobre a reestruturação produtiva e a consequente precarização e flexibilização desse
processo são encontradas facilmente, sobretudo, no meio acadêmico. Constantemente se
discute a degradação das condições de trabalho bem como na vida do trabalhador, realmente,
a discussão sobre a precarização das condições de trabalho é inquestionável, basta se olhar
para os lados com um pouco mais de atenção e será possível ver inúmeras pessoas reclamando
de suas condições de trabalho. Fala-se sobre o governo corrupto que quebrou o país, faliu as
empresas e fechou vários postos de trabalho, comenta-se sobre as crises mundiais (como
casos isolados) e inclusive, questiona-se o modo de produção que vem a cada dia destruindo o
trabalho, porém, há a falta de um questionamento fundamental: e o trabalho?

A constante repetição e investigação sobre as consequências sofridas pelo trabalho,


ainda que nem sempre mencionada ou de forma intencional, acaba por conceder ao trabalho
uma lugar natural e inquestionável na sociedade. Ainda que de modo claramente diferente,
constitui-se tanto na crítica como no senso comum uma positividade legítima a essa forma de
atividade, que de negativo só possuí a precarização ou exploração em que se encontra
atualmente. Então trabalhar para si mesmo seria uma solução cabível para evitar tal
exploração entre trabalhador e patrão? Será essa a alternativa para garantir a positividade
abalada do trabalho?

Buscando apontamentos que possam levar a responder essas questões, inicialmente, no


Capítulo 1, será feito o levantamento acerca da origem histórica do termo trabalho,
apresentando sua origem etimológica e trazendo alguns apontamentos do significado que o
termo remetia nas culturas greco-romanas, apresentando-se também as relações entre servos e
senhor com o intuito de comparar essas formas pré-capitalistas com o significado que o termo
assume na passagem para o modo de produção capitalista.

É possível perceber como o trabalho para além da satisfação das necessidades foi
ocupando todas as esferas da vida do sujeito, de acordo com o período ao qual estava ligado,
2

sobretudo, a partir das formas de organização do processo de trabalho no capitalismo.


Cabendo também alguns apontamentos não só sobre a organização do trabalho, mas também
do Estado, uma vez que essas esferas se encontram indissociáveis.

A intensificação do trabalho e a sua precarização, bem como a diminuição dos postos


de trabalho, são pontos fundamentais na discussão do estímulo ao empreendedorismo
individual, sobretudo ao se especificar as condições de trabalho no Brasil, no contexto dos
anos 90, as políticas públicas também serão levadas em consideração para compreender as
condições do trabalhador para além do trabalho, como também a abertura econômica do
Brasil nesse período e suas consequências a partir da crise estrutural do capital.

No Brasil, a partir de órgãos como o Sebrae, como também por iniciativas públicas, é
feito o estímulo a todo o momento à essa forma de atividade, sendo oferecidos cursos,
palestras, treinamentos, e até mesmo sua inserção nos espaços escolares. Para além de saberes
técnicos, a partir do foco dado a questões comportamentais tais iniciativas parecem ter o
intuito de conformar um novo consenso entre os indivíduos. Incentivando o trabalhador
“como dono de si mesmo” o discurso propaga a ideia de liberdade, porém longe de significar
emancipação, no capitalismo, “ser dono de si mesmo” só traz uma nova forma de
aprisionamento interno mais intenso.

No capítulo 2, será realizada uma análise tanto acerca do surgimento do Sebrae quanto
dos mecanismos do Estado para disseminação dessa expectativa, buscando o momento de
fortalecimento dessa vertente e de seu desenvolvimento, no Brasil, até a atualidade na
tentativa de entender como se dá essa forma de construção de subjetividade dos sujeitos
através desse processo, que usa como sua principal forma de disseminação, a chamada
educação empreendedora.

A formação técnica voltada ao trabalho autônomo também ganha força nesse processo,
através dos cursos oferecidos pelo PRONATEC e para aqueles que ainda precisam de um
incentivo a mais, programas televisivos, artigos, matérias em jornais e em revistas cooperam
para a constituição dessa nova ideologia de trabalho. Para tanto é necessário uma análise a
partir das documentações oficiais e de dados que apresentem como se dá a expansão desse
processo no Brasil e, para isso, o PNAD e o GEM serão as principais fontes de dados.

Por fim, ainda com o auxílio de dados e da pesquisa a partir de fontes bibliográficas
atuais se buscará entender o que, de fato, essa nova forma de relação dos sujeitos com o
3

mundo do trabalho muda na vida dos indivíduos, e até que ponto o trabalho e o capitalismo se
separam, e a partir de uma análise crítica das categorias que formam o capitalismo, entender
como se dá esse fetiche em torno da positividade do trabalho na vida dos sujeitos, sobretudo
daqueles que atuam por conta própria, buscando oferecer alguns apontamentos que possam
dar continuidade a discussão sobre essa vertente empreendedora do capitalismo, dada a
escassez de escritos que construam alguma crítica sobre o tema, tal discussão faz-se urgente.
4

CAPÍTULO 1 - O TRABALHO: ANTES E AGORA.

O trabalho, em tempos atuais, parece tão essencial à vida do sujeito que é praticamente
impossível pensar nele como algo diferente a natureza do homem, para além da sua utilidade
como meio de se atender as necessidades básicas de sobrevivência do indivíduo, o trabalho
ainda confere àquele que o possui um status positivo. Vive-se a todo o tempo uma busca por
pertencer a esse espaço, na categoria de trabalhador.

Não é preciso muito esforço para se encontrar inúmeros manuais e receitas que ajudem
a conquistar esse tão sonhado lugar, não apenas no que se refere à qualificação do sujeito, mas
também ao seu comportamento e, até mesmo, ao seu jeito de se vestir, a busca pela conquista
do trabalho/emprego se dá de forma tão desesperada que poderia se comparar a busca em
encontrar um grande amor como se vê nos romances, embora pareça exagero, essa
comparação possui em si um fundo de verdade, uma vez que o trabalho adquiriu tamanha
centralidade no cotidiano dos sujeitos, que todas as áreas da vida do sujeito passam a ser
voltadas para esse fim.

Crianças são educadas desde a primeira infância para a obtenção de habilidades que
garantam uma boa colocação no mercado de trabalho, longe de significar o desenvolvimento
de habilidades sociais e criativas, a educação se volta ao futuro (visto apenas como um futuro
profissional) de forma mecânica1, visando simplesmente o treinamento de futuros sujeitos
trabalhadores. A pressão, para um dia alcançar a tão sonhada ocupação começa a se dar cada
vez mais cedo na vida dos sujeitos. Programas de Tv somados aos mais variados livros de
autoajuda sobre o tema (isso sem falar dos Programas implementados pelo governo), se
utilizando dos mais sensacionalistas exemplos de sucesso, garantem que o sucesso é certo e
que há espaço para todos e que o insucesso nada mais é que a falta de interesse particular do
indivíduo. Sonha-se com o grande emprego, e se tem pesadelos só em pensar em não ser
capaz de consegui-lo. Além de natural, o trabalho então é visto tal como uma divindade nos
dias atuais, porém antes de chegar a sua forma contemporânea, cabe salientar que essa relação
entre sujeito e trabalho, não é natural e muito menos possuía tamanha positividade, pelo
contrário, o surgimento do trabalho tal qual ele se apresenta, tem seu surgimento datado e
possuí em sua origem um significado bem distinto ao conhecido atualmente.

1
Em 2014, um anúncio vinculado pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro deixa de forma clara o quão
mecânico o processo de educação se tornou, quando apresenta uma linha de produção, onde os alunos se
encontram em cima de uma esteira mecânica.
5

1.1 – As origens pré-capitalistas do trabalho.

Para compreensão inicial do trabalho em sua gênese, cabe buscar a origem etimológica
do termo, podendo usar para esse fim o resumo que o autor Franco Jr. traz sobre o termo
trabalho e também sobre o verbo laborar:

“Até fins do século XII, a palavra latina labor estava associada a dolor e sudor.
Pensava-se que, antes do pecado, o ser humano estivera encarregado de cuidar e
vigiar (operare et custodere) o Éden, e apenas depois, como punição [...] o homem
precisou trabalhar (laborare) para obter com esforço (sudor) o pão de cada dia.
Assim lavor (da qual derivaram em vernáculo labeur, lavoro, labor, labour)
significava esforço, pena, tributação, contrição, doença, penitência. [...] Mais
expressivo ainda, os termos neolatinos travail, travaglio, trabajo, trabalho, trebalh
decorreram do latim popular tripalium, que designava um instrumento de tortura.
Travailler, surgido por volta de 1170 ou 1180, manteve até o século XVI seu sentido
original de atormentar, penar, sofrer, referindo-se tanto ao esforço físico [...] quanto
moral” (FRANCO, 1998, p.84-86 apud MENEGAT, 2006, p. 327)2

Observa-se então, que a origem desses termos se distingue do sentido empregado hoje
em dia, tendo em si, naquele momento, uma negatividade inquestionável. Cabe salientar,
porém, que o termo e, por conseguinte a negatividade dada, não se encontrava ligada a
simples atividade manual realizada pelos sujeitos, mas sim a atividade realizada a partir de
uma imposição. Para exemplificar tal situação, pode-se analisar a atividade exercida pelos
camponeses que trabalhavam para realização de suas próprias necessidades e em contrapartida
o trabalho realizado pelos escravos escriturários, onde os segundos, embora realizassem
atividades intelectuais eram completamente estranhos aquilo que se produzia, pelo contrário
os camponeses, apesar do grande dispêndio de energia se identificavam de imediato com os
frutos do seu trabalho (Botelho, 2009, p.5). Parece então que o sentido principal não era o
fato de se tratarem de atividades de âmbito manuais ou intelectuais (não era a execução em
si), mas o motivo pelo qual elas eram realizadas.

Na filosofia clássica, exaltava-se o ócio, destacava-se que todo o cidadão deveria


evitar o trabalho mecânico (imposto), uma vez que esse servia apenas para limitá-lo e
degradá-lo, sendo tais trabalhos designados aos escravos. Ainda que o discurso contra o
trabalho seja exaltado na filosofia clássica, esse pensamento não era comum apenas aos
grandes filósofos, como afirma Botelho:

Entre as camadas mais pobres da população grega e também romana, a subsistência


deveria ser obtida de preferência sem a necessidade de se submeter a outros ou, pelo
menos, que a submissão não se estendesse durante muito tempo. (BOTELHO, M. L.
2009, p. 6)

2
Alguns autores também destacam que antes de denominar um instrumento de tortura, tripalium se referia
também a um instrumento usado para arar os campos.
6

Na sociedade feudal, uma vez que a principal fonte de poder passa a ser a posse de
terras e a economia passa a girar em torno da produção agrícola, formas diferentes de relações
são estabelecidas inclusive no que diz respeito ao modo de trabalho. O vínculo do homem
com a terra não se dá mais apenas para atender as suas necessidades, mas principalmente para
dar conta das suas obrigações com o senhor das terras ao qual estava vinculado, ficando o
homem preso àquele espaço.

Nesse momento, a relação estabelecida baseia-se na servidão3, através de uma relativa


troca de obrigações. O indivíduo em troca de terras e determinada proteção do senhor feudal,
lhe prestava os mais variados serviços de manutenção do feudo, como também tinha por
obrigação lhe entregar parte de tudo o que produzia na terra (Rubano e Moroz, 2003, p.137
apud Araujo e Sachuk, 2007, p.57). Embora a terra não lhe pertencesse, eram dos indivíduos
os meios de produção usados, atendendo ao ritmo necessário de produção determinado,
poderia executar as tarefas da maneira que lhe fosse mais propícia, conferindo-lhe certa
liberdade, liberdade essa apenas no sentido de poder por um ritmo ao seu trabalho, mas ainda
assim constituindo limitadas melhorias na condição de vida dos sujeitos. No que difere às
propriedades que surgiriam posteriormente, nesse período então a propriedade não era
exclusiva ou total (Kurz, 2002, p.2), ainda que pertencente ao senhor feudal, a possibilidade
de cultivo das terras e o domínio dos meios de produção pelos servos dava a esses a
possibilidade de se reconhecerem naquele espaço e no que ali se produzia, diferente ao que
posteriormente passará a acontecer já na passagem para o capitalismo.

Ainda no período feudal, o dinheiro surge e se constitui como um meio, onde a


produção se dava em sua grande maioria voltada a troca entre os sujeitos e possuía base
agrícola, expressa na formula geral M-D-M, ou seja, a mercadoria (M) aparecia tanto como
produto inicial para troca e o dinheiro(D) se constituía apenas como um meio para se
conseguir determinada mercadoria, porém, longe de representar o impulso central para a
transição ao modo de produção atual, essa relação de troca se dava sobretudo entre os
mercadores e sujeitos a margem dos feudos. Nesse período era dado ao dinheiro um lugar
bem menos essencial ao que se tem hoje em dia e diferente da afirmação que traz a troca e o
comercio entre os mercadores e burgos como responsável pela queda do sistema feudal e da
centralidade do dinheiro, segundo alguns autores, como bem destaca Kurz (1997), essa
ruptura com o sistema anterior e essa centralidade na forma dinheiro antes de representarem

3
O trabalho escravo não deixa de existir mas, nesse período, diminui significativamente.
7

um simples avanço, muitas vezes conotado como pacíficos e naturais, tem sua base
essencialmente na guerra, mais especificamente a partir do desenvolvimento armamentista do
período.

Embora pouco comentado, o desenvolvimento armamentista no período feudal, com a


criação de canhões e armas de fogo causaram uma verdadeira revolução naquele período. Isso
porque, colocadas a serviço da nobreza e da burguesia nascente foram responsáveis por
grandes ataques ao senhores feudais naquele período, sendo infinitamente mais eficientes que
as cavalarias montadas que se encontravam a disposição dos feudos, como também bem mais
fortes que qualquer muralha que se colocasse em seu caminho. Ainda que, de modo geral,
esse desenvolvimento e esse enfrentamento aparentemente só representasse a mudança do
poder de mãos (e ainda assim mantida “de cima”) esse desenvolvimento traz atrelado outros
fenômenos muito mais importantes. Primeiramente porque na criação, por exemplo, dos
canhões, devido a sua complexidade para a época, já não era possível que esses fossem
produzidos nos mesmos locais que outrora eram feitos os instrumentos de combate utilizados
pelos cavaleiros nos feudos, assim além do desenvolvimento nos meios de produção, surgem
grandes fábricas que se tornam especializadas na produção desse tipo de artilharia4, em
resposta a esse desenvolvimento tem-se também o avanço no que diz respeito ao
fortalecimento das muralhas para suportar tamanha força. Junto ao desenvolvimento na
produção de artilharia se tem também o desenvolvimento da arquitetura voltada a defesa dos
feudos, inicia-se então uma constante corrida armamentista sem previsão de fim.

Esse período também é responsável pela criação do exército enquanto instituição,


apartada da sociedade civil, uma vez que o alto custo do armamento impedia que os
guerreiros se armassem por conta própria se tornando dependente dos reis para fornecimento
de equipamento, como destaca Kurz:

Em lugar dos cidadãos mobilizados caso a caso para as campanhas ou dos senhores
locais com as suas famílias armadas surgiram os "exércitos permanentes": nasceram
as "forças armadas" como grupo social específico, e o exército tornou-se um corpo
estranho na sociedade. O oficialato transformou-se de um dever pessoal de cidadãos
ricos numa "profissão" moderna. A par dessa nova organização militar e das novas
técnicas bélicas, também o contingente dos exércitos cresceu vertiginosamente: "As
tropas armadas, entre 1500 e 1700, quase decuplicaram" (Geoffrey Parker). (KURZ,
1997, p. 2)

4
Devido ao alto custo dessa produção, uma vez que necessitavam não só de um grande local para produção mas
também de uma mão de obra mais especializada, não é por acaso que o seu poderio estava nas mãos de reis e
príncipes.
8

Esse aumento vertiginoso levou também ao aumento imensurável nos gastos


unicamente voltados a guerra, assim eles passaram a depender da mediação do dinheiro.
Produção de mercadorias e economia monetária como elementos básicos do capitalismo
ganharam impulso no início da era moderna por meio da liberação da economia militar e
armamentista (KURZ, 1997, p. 2) e uma vez que o exército, agora apartado da sociedade civil,
passa a atuar não apenas por obrigação ou vocação mas agora tornam-se soldados, passando a
receber pela atividade exercida, como destaca Kurz, eles foram os primeiros "assalariados"
modernos que tinham de reproduzir sua vida exclusivamente pela renda monetária e pelo
consumo de mercadorias. O alto custo dispensado então não era mais resumido apenas ao
armamento mas também aos soldados “empregados”, levando a um incrível aumento nos
tributos5, que para acompanhar o requisito do desenvolvimento armamentista, passaria a ser
pago também em dinheiro pelos indivíduos, a partir disso, o dinheiro passa a ser compulsório
na manutenção da vida, uma vez que é imposto de cima para baixo, tanto pela nobreza que ali
se instaura quanto pelo exército, que a serviço dessa nobreza, evita que haja qualquer tipo
de insurgência a essa determinação. E ainda:

[...] do mesmo modo que os "soldados", como artesãos sanguinários da arma de


fogo, formam os protótipos do assalariado moderno, assim também os comandantes
de exército e "condottieri" "multiplicadores de dinheiro" foram os protótipos do
empresariado moderno e de sua "prontidão ao risco". [...] Como livres empresários
da morte, os "condottieri" dependiam porém das grandes guerras dos poderes
estatais centralizados e de sua capacidade de financiamento. A relação moderna de
reciprocidade entre mercado e Estado tem aqui a sua origem. (ibid, p. 3)

Observa-se, que assim como a centralidade do trabalho, a importância do dinheiro,


nada tem de natural ou são representantes de um simples desenvolvimento do homem, antes
disso, são marcas claras de grande opressão e imposição “de cima”, bem como a ruptura com
o modelo feudalista que em nada têm a ver com os camponeses e artesões, esses inclusive
passam a ser os mais afetados pelo modo que ali surge.

1.2 – Capitalismo e o “impulso” ao trabalho.

Já com os primeiros sinais do modo de produção capitalista, o discurso ideológico da


classe dominante que ali surgia falava da liberdade do sujeito através do trabalho em
contraponto a lógica de servidão existente anteriormente no modelo feudal. De acordo com a
sociedade capitalista que ali dava seus primeiros passos, o sujeito se encontrava livre para
vender a sua força de trabalho e não estava mais preso à terra como na sociedade feudal. Na

5
Ainda segundo Kurz, entre os séculos 16 e 18, a tributação do povo nos países europeus cresceu em até
2.000% (Ibid., p. 3)
9

realidade, não se tratava de um movimento natural de libertação do sujeito e nem de um


avanço na relação dos sujeitos com o trabalho, mas sim algo imposto, como Marx destaca ao
lembrar que, embora houvesse sim, um determinado caráter libertador, uma vez que o sujeito
não estava mais preso à terra como no período feudal, esse movimento traz grandes
consequências, uma vez que só é gerado à medida que:

[...] esses recém-libertados só se tornam vendedores de si mesmos depois que todos


os seus meios de produção e todas as garantias de sua existência, oferecidas pelas
velhas instituições feudais, lhes foram roubados [...] A expropriação da base
fundiária do produtor rural, do camponês, forma a base de todo o processo.[...] A
expropriação e a expulsão de parte do povo do campo liberam, com os
trabalhadores, não apenas seus meios de subsistência e seu material de trabalho para
o capital industrial, mas criam também o mercado interno. (MARX, 1984, p.341-
367)

A partir dos arrendamentos dos campos e das diversas leis impostas para tomada das
propriedades e dos meios de produção tanto das mãos dos indivíduos, tanto os servos (agora
sujeitos livres) quanto os camponeses e artesões autônomos se encontravam sem alternativa, a
não ser sua transformação em trabalhadores assalariados, os então “trabalhadores livres”, são
“empurrados” para as cidades em busca de um espaço de trabalho nas fábricas, servindo,
naquele momento, como peça chave para o crescimento das cidades e da sociedade que ali se
estabelecia, estando esses sujeitos a sorte das condições (por piores que fossem) que lhes
oferecessem. Aos sujeitos que não conseguiam uma ocupação (seja por falta de oportunidade,
por falta de adaptação com a nova forma de trabalho, seja pela falta de vontade), diversas leis
foram sendo elaboradas, com o passar do tempo, para dar resposta a esses sujeitos, agora
intitulados como vagabundos, sendo a grande maioria das leis marcada pelo uso da violência
(Marx, 1984, p.356-363). Nesse período, o “impulso” dado aos trabalhadores para se
inserirem nas indústrias era realizado, sobretudo, através da coerção, como se já não bastasse
à necessidade de venda de força de trabalho para a própria sobrevivência.

Essas mudanças, tanto na compulsão repentina pelo trabalho quanto na punição


àqueles que não se inseriam nessa lógica não aconteceram por acaso, uma vez que o trabalho
seria central na sociedade que ali surgia, tais mudanças eram fundamentais para a sua
manutenção e desenvolvimento.

Diferente do movimento realizado pelo dinheiro ainda na transição para a sociedade


capitalista, representado pela fórmula geral M-D-M, já comentada anteriormente, com a total
instituição e aprofundamento da sociedade capitalista a lógica se inverte, não são mais as
mercadorias o objetivo final nas relações de troca, mas sim a obtenção de mais dinheiro, como
10

vê-se no D-M-D’ e a obtenção desse mais dinheiro, ou seja, de capital só pode ser realizada a
partir do valor agregado as mercadorias.

Nessa lógica, o motor principal de desenvolvimento não é mais a satisfação das


necessidades dos sujeitos, mas a acumulação de valor, onde o capitalismo tem como único
intuito o acúmulo de mais valor, buscando sempre se expandir.

A realização das necessidades dos sujeitos aparece apenas em segundo plano, sendo
um mal necessário no processo de acúmulo do capital. Para garantia desse processo, para
além das necessidades básicas dos indivíduos, a cada dia novas necessidades são criadas,
levando muitas vezes a um consumo com fim ao simples consumo e não a satisfação de uma
necessidade real, tem-se a necessidade de consumir por si só.

Em meio a esse sistema, o trabalho aparece como central na medida em que a


produção de mercadorias só se realiza a partir do emprego da força de trabalho, os meios de
produção (já apartados dos sujeitos), nada conseguem executar sem a intervenção do trabalho
dos sujeitos, trabalho esse, responsável não só pela criação das mercadorias, mas também por
agregar valor as mesmas. Na lógica do capital, o valor, enquanto abstração, é responsável por
garantir uma equivalência entre as mais variadas mercadorias, diferente do que ocorre nas
sociedades anteriores, onde os produtos eram criados unicamente para sua utilização e, já ao
final da sociedade feudal onde surge a partir da necessidade e utilidade dos produtos, na
forma capitalista, os produtos agora transformados em mercadorias, não mais são feitos a
partir da necessidade do sujeito que o produz e muito menos valem pela sua utilidade mas
sim, agora, passam a receber o valor, esse que se dá pela quantidade de tempo socialmente
gasto em sua produção, cria-se, na sociedade moderna, também o dinheiro como equivalente
universal. Não havendo mais a predominância das trocas de uma mercadoria pela outra, mas
sim de todas as mercadorias por dinheiro, como já destacado acima, nessa inversão as
mercadorias aparecem como um meio e não um fim. Cabe ressaltar, que na medida em que os
sujeitos não possuíam mais os meios de produção, com a venda da sua força de trabalho, eles
eram expropriados de tudo o que produziam, sendo esses pertencentes aos capitalistas
detentores dos meios de produção.

Quanto mais os sujeitos se submetiam a situação de trabalhador assalariado, maior era


o desenvolvimento econômico da sociedade, porém em uma sociedade baseada na obtenção
de valor e no controle dessa riqueza socialmente produzida nas mãos de poucos, cada vez
mais crítica se tornava a situação dos trabalhadores, a pauperização se acentua e nunca antes a
11

pobreza cresceu diretamente relacionada ao aumento da riqueza social, levando a uma


pauperização absoluta. Embora todas as sociedades anteriores apresentarem sempre um grupo
que usufruía do esforço alheio, nunca antes as condições dos expropriados fora tão difícil
como no modo de produção capitalista. A junção das coerções exercidas sobre os
trabalhadores agregada com a situação de extrema pobreza foram o ponto de partida para as
primeiras revoltas da população com a situação que ali se apresentava, exigindo da burguesia
mais que coerção.

Para a consolidação do capital é necessário também o domínio ideológico dos sujeitos,


parecendo ser esse um dos pontos marcantes para transformação do trabalho em positividade,
não basta só obrigar o indivíduo ao trabalho, mas sim incentivá-lo para que esse permaneça
nessa atividade. A partir das escritas liberais e sobre a lógica protestante, o trabalho vai se
transformando e ganhando um sentido completamente inverso ao apresentado anteriormente,
fala-se da importância do trabalho para a dignificação do homem e para o progresso da
sociedade, e a preguiça e o ócio passam a ser vistos como inimigos do sujeito, classificado
inclusive como pecado, interessante observar como de forma de castigo por um pecado, o
trabalho passa então a forma de redenção.

Obscurecidos por essa lógica, os sujeitos se submetem cada vez a mais horas de
trabalho, e à medida que se agravam as formas de expropriação do sujeito e que se aumenta a
produção, o indivíduo perde pouco a pouco sua identidade não só com aquilo que produz, mas
consigo mesmo, como destaca Araújo e Sachuk:

A supremacia da máquina sobre o trabalhador e a transformação deste em um


apêndice, resultado da hegemonia desses valores capitalistas então instaurados,
ocasionaram um empobrecimento do trabalho e a transformação do trabalhador em
apenas um meio para o alcance do fim maior: o produto e, consequentemente, o
lucro. (Araujo e Sachuk op. cit., p.60.)

A primeira fase do capitalismo é marcada, então, por extensas jornadas de trabalho e


pelas péssimas condições de vida dos indivíduos. Como se sabe, nesse período, não havia
nenhum tipo de regulamentação que servisse para proteger os sujeitos ou que limitasse os
proprietários com relação àqueles que poderiam ser contratados. Era comum a preferência dos
proprietários por contratar mulheres ou crianças, devido a maior facilidade de controle, esses
lhes pareciam mais “dóceis” que os homens e no caso das crianças, ainda havia a vantagem
de, devido a seu tamanho e tipo físico, essas conseguiam alcançar partes das engrenagens que
12

adultos não conseguiriam por exemplo, facilitando a manutenção do maquinário, sendo


gritante as péssimas condições de vida dessas crianças 6.

Embora parte do proletariado, de fato, se deixasse influenciar pelo discurso burguês de


“trabalho digno”, grande parte do proletariado se via indignada com tais condições de vida.
Seria mentira afirmar que os trabalhadores aceitavam tamanha humilhação de bom grado e
nesse período se tem o surgimento da luta dos trabalhadores por melhores condições de vida.
Para além do exemplo icônico dos ludistas, que destruíam os maquinários das fabricas como
forma de protestos, outros vários movimentos de trabalhadores que, já dotados de uma visão
política e estratégica, também buscavam lutar contra suas condições de exploração e também
pela conquista de direitos.

Não se pode negar, então, a importância dos movimentos dos trabalhadores contra as
condições de trabalho nem as melhorias que ocorreram na vida do trabalhador a partir desses
movimentos, resultando, nesse momento, na redução da margem de lucro do capital, bem
como numa real redução da exploração sofrida pelos indivíduos. Ao tratar da questão das
melhorias salariais e desse suposto sucesso alcançado pelos trabalhadores, Marx alerta para o
perigo dessas “conquistas”, pois ainda que:

[...]assim como melhor vestuário, alimentação, tratamento e um pecúlio maior não


superam a relação de dependência e a exploração do escravo, tampouco superam as
do assalariado. (Marx, 1984, p. 251)

Ao que parece, longe de atrapalhar, os avanços obtidos pela classe trabalhadora


favorecem também aos interesses do capitalismo, uma vez que proporcionam um certo acordo
entre os trabalhadores e o capital (ajudam a “acalmar os ânimos” dos trabalhadores). Embora
exista um horizonte de transformação, a partir dessas conquistas, em muitos casos o sucesso
dos movimentos acaba dando a ilusão de que existe uma maneira de se “negociar” com o
capitalismo através da pressão dos trabalhadores, perde-se por muitas das vezes o horizonte
de transformação e acaba por se buscar apenas melhorias, reformas no modo de produção
capitalista.

Ainda que, o discurso conservador sempre diga o contrário, de modo geral as


mudanças alcançadas em nada (ou em muito pouco) afetaram a lógica de acumulação
capitalista. Se dado o exemplo também da redução da carga horária de trabalho, é possível
observar que sua redução veio acompanhada da intensificação das atividades (se produz o

6
Vários acidentes ocorreram devido essa “atribuição” dada pelos proprietários às crianças, era comum o registro
de casos de criança com membros mutilados ou mortas entre as engrenagens.
13

mesmo, ou até mais, do que se produzia com carga horária anterior). Pode-se concluir, então,
que a cada passo para frente da classe trabalhadora (nesse caso a diminuição da carga horária)
o capitalismo estaria dando dois! Uma vez que além do impulso a intensificação das
atividades, ainda é garantido o consenso do sujeitos por um espaço de tempo, já que com a
obtenção de seus interesses, há uma mudança no trato dos trabalhadores com o capital, onde a
relação de dependência do capital reveste-se de formas suportáveis [...] “cômodas e liberais”
(Marx, 1984, p. 150).

No final das contas, a melhoria na situação do trabalhador não se modifica de forma


tão significativa, se comparada ao capital, que se metamorfoseia cada vez mais para a
manutenção do seu intuito único de máxima acumulação.

1.3. O trabalho intensificado na reestruturação produtiva.

Quanto mais a sociedade se enraíza, mais formas de intensificação surgem, buscando


manter o horizonte infinito de expansão do capitalismo. Tais formas, não agem apenas no
controle da atividade produtiva dos indivíduos mas, na medida que se tornam mais
complexas, atuam também no controle e construção da subjetividade destes para além do
espaço laboral.

O norte-americano Frederick Winslow Taylor, a partir de um trato científico sobre o


processo de trabalho, e da realização de estudos técnicos, apresentou a intensificação do
trabalho a partir de uma reorganização do espaço de trabalho, uma maior divisão do trabalho
(quebrando com os laços de solidariedade entre os indivíduos) e um controle de tempo mais
rigoroso, com a intenção de acabar com os tempos desperdiçados durante a produção. Taylor
levava todos os seus estudos baseados na reorganização do trabalho sem a necessidade de
uma mudança nas condições de maquinário já existentes nas empresas. E como Botelho
destaca:

O que há de realmente revolucionário não é a mera aquisição e internalização de um


conhecimento determinado pelas “coisas sociais” (Marx), mas o fato de que a
compreensão das necessidades da maquinaria e a cientificização da produção levam
à reelaboração, desenvolvimento e aplicação dessas determinações para um âmbito
muito mais amplo que o da mera fábrica. (BOTELHO, 2009, p. 79)

Taylor, com o seu processo de organização do trabalho busca um controle total não só
do trabalho, mas do trabalhador, desvinculando deste qualquer sentido que poderia ter o
trabalho executado, em suas próprias palavras, na organização taylorista:
14

A tarefa é sempre regulada, de sorte que o homem, adaptado a ela, seja capaz de
trabalhar durante muitos anos, feliz e próspero, sem sentir os prejuízos da fadiga [...]
à primeira vista parece que o sistema tende a convertê-lo em mero autômato, em
verdadeiro boneco de madeira [...] o treinamento do cirurgião tem sido quase
idêntico ao tipo de instrução e exercício que é ministrado ao operário sob a
administração científica, e permite realizar trabalhos elementares de mecânica em
ambiente mais agradável, de interesse mais variado e recebendo salários mais
elevados [...] Este trabalho é tão grosseiro e rudimentar por natureza que acredito ser
possível treinar um gorila inteligente e torná-lo mais eficiente que um homem no
carregamento de barras de ferro. [...] Um dos primeiros requisitos para um indivíduo
que queira carregar lingotes de ferro como ocupação regular é ser tão estúpido e
fleumático que mais se assemelhe em sua constituição mental a um boi (TAYLOR,
1990, pp. 42; 92; 43; 53 apud BATISTA, 2008, p. 6).

Tem-se nesse processo a busca por um controle total do sujeito para a obtenção de sua
máxima exploração e na supressão de qualquer tempo desperdiçado durante o trabalho
exercido, ocorrendo um verdadeiro “adestramento” que ultrapassa as barreiras do espaço de
trabalho.

Já o fordismo aparece seguinte ao taylorismo, não mais focando na intensificação pela


reorganização do trabalho, mas sim no maquinário utilizado, é no modelo fordista que se tem
a utilização das esteiras na linha de produção. Criado por John Ford e tendo como primeiro
espaço de utilização na própria fábrica da Ford, o fordismo busca a produção em massa, cada
sujeito então era responsável por uma etapa da produção e também por manter o ritmo ditado
pela esteira, sendo necessário um esforço ainda maior de autocontrole do trabalhador
(Botelho, 2009, p. 79-81). Se incitava então, além da responsabilidade individual dos sujeitos
ainda a competitividade entre os mesmo, como o próprio Ford afirma:

Queremos completa responsabilidade individual [...] onde a responsabilidade se acha


fragmentada e dispersa por uma série de serviços, rodeado por sua vez de um grupo
de subtitulares, é realmente difícil encontrar alguém que seja realmente responsável
[...] o jogo do empurra, que certamente nasceu nas empresas de responsabilidade
fragmentada [...] O espírito de competição leva para a frente o homem dotado de
qualidades [... ] não dispomos de postos ou cargos, e os homens de valor criam por
si mesmos as suas posições [...]A pessoa em questão vê-se de repente num trabalho
diverso com a particularidade de um aumento de salário (FORD, 1967, p. 74-76
apud BATISTA, 2008, p. 4).

Para dar conta dessa produção em massa, o consumo em massa também era
estimulado, onde os próprios trabalhadores das fábricas eram os grandes consumidores
daquilo que eles mesmos produziam, uma vez que uma das “políticas” de Ford era o
pagamento de altos salários como “compensação” da quantidade exacerbada de trabalho
realizada pelos indivíduos.
15

Ford também traz eu seu discurso a “preocupação” com o saber técnico instrumental,
trazendo em si uma grande carga ideológica que fortalece o discurso do trabalho positivo
como destacado no seguinte trecho:

Para nossa escola não se selecionam os rapazes porque sejam hábeis ou promissores.
Escolhem-se os necessitados de dinheiro e oportunidades [...] Outorgamos bolsas a
fim de que possam prover ao sustento de suas mães enquanto cursam a escola [...]
Todo o trabalho executado na escola é adquirido pela nossa empresa e isto faz que a
escola se mantenha por si mesma, além de que acentua nos alunos o senso da
responsabilidade. (FORD, 1967, pp. 314-315 apud Batista, 2008, p. 4).

Tal como ocorrido no taylorismo, através desse discurso parece claro que as mudanças
ocorridas no mundo do trabalho, para além de ocorrerem só nas fábricas ocorriam também nas
relações sociais dos indivíduos ali envolvidos, pois traziam consigo um grande discurso
ideológico de progresso e de esperança através do trabalho.

Combinado com o modelo taylorista, o fordismo obteve sua maior expansão durante a
“Era de ouro” do capitalismo, uma vez que as condições dadas no modelo keynesiano de
Estado, com o pleno emprego somado ao alargamento das políticas sociais, garantia ao sujeito
a satisfação de suas necessidades básicas, dando a esse condição para manter o consumo em
massa do fordismo se realizando a todo vapor. Cabe lembrar que outro ponto importante com
relação a intervenção estatal para a realização desse “sucesso” econômico se encontrava na
infraestrutura fornecida pelo Estado. Tal intervenção do Estado, através do fornecimento de
infraestrutura, por muitas vezes é esquecida ao se analisar o papel do Estado na sociedade
capitalista, restringindo sua atuação apenas à disseminação de consenso através das políticas
sociais e a sua intervenção no âmbito econômico. Acerca do papel do Estado na garantia da
“prosperidade” fordista, destaca Lohoff:

O consequente adeus do Estado vigilante passivo foi, portanto, inevitável


para fomentar o boom fordista, pois a extensão das novas indústrias exigia
uma infraestrutura social abrangente que não poderia, ou poderia apenas de
um modo muito limitado, receber a forma de mercadoria, com vistas à
geração de lucros. Como poderia ter se desenvolvido uma florescente
indústria automobilística se o Estado não tivesse despendido imensos
recursos na construção de estradas? Como os eletrodomésticos e os
aparelhos eletrônicos de entretenimento poderiam se impor vitoriosamente
sem enormes investimentos para o fornecimento de energia em larga escala –
que é uma mercadoria não-lucrativa – senão por meio da gestão estatal? Em
sentido amplo se encontra nesse contexto também a criação de medidas de
proteção do Estado de bem-estar social, necessariamente estatais, com
prestações de serviços antecipadas ou simultâneas. (Lohoff, 2000, p.8-9)

Nesse período, o Estado também intervém de modo mais significativo no que diz
respeito a questão financeira, onde:
16

No nível da empresa, no alvorecer da era fordista, os custos antecipados da


utilização do trabalho já eram tão altos que não podiam ser cobertos apenas pelos
lucros regulares da valorização do capital. Já aí se tornava necessário o poder de
compra adicional dos Estados, para além das receitas fiscais correntes e, sobretudo,
uma vasta ampliação da margem de ação para o crédito. (ibid, p.8)

Nota-se que, desde o surgimento do capitalismo, seja através da coerção, seja através
da disseminação de consenso (com os avanços sociais), seja pela infraestrutura, seja pela via
economia monetária, o Estado teve – e continuará tendo – um papel fundamental no modo de
produção capitalista, atuando de diferentes formas a partir das necessidades do modo de
produção naquele momento, sendo impossível imaginar o Estado sem capitalismo e vice-
versa.

A partir dos anos 70, esse Estado de bem-estar social começa a dar seus sinais de
esgotamento, um grande período de estagnação combinado com crescentes taxas de inflação
se instaura, e uma vez que a crise se inicia, já não há mais mercado consumidor para dar conta
dos grandes estoques produzidos. O neoliberalismo, que já vinha há anos tentando “derrubar”
o modelo keynesiano, agora ganha força, na medida em que põe os gastos com as políticas
sociais como o principal motivo da crise, sugerindo principalmente uma maior liberdade dos
mercados, a privatização e a diminuição com os gastos sociais, levando a um retrocesso no
que diz respeito aos avanços sociais nos países desenvolvidos e a uma enorme taxa de
desemprego.

Nesse cenário, alteram-se também os modos de organização do processo de trabalho,


agregando algumas das características citadas nos modelos anteriores, o toyotismo, fundado
pelo engenheiro japonês Taiichi Ohno da empresa Toyota, tem como uma grande “novidade”
o foco no aumento do controle dos trabalhadores, como observado, na medida em que:

Incorporando os conhecimentos da administração científica às correntes


comportamentais da psicosociologia, apropriaram-se da subjetividade da força de
trabalho como forma de internalizar na “alma” do trabalhador a suposta relação de
cooperação e interesses comuns entre “patrão e empregado”. (BATISTA, 2008, p.9)

Mais uma vez destacando o caráter ideológico presente no modelo de produção e


também no modo de trabalho, sendo fundamental para o momento ali vivido pela sociedade
capitalista. Não era mais a produção em massa para consumo em massa o foco, mas sim era o
consumo que ditava o ritmo da produção evitando o desperdício, o toyotismo para além de
agregar a necessidade de um trabalho individualizado conseguiu também garantir o trabalho
em equipe, o rodízio das atividades exercidas garantia o surgimento de um trabalhador
flexível que pudesse exercer as mais distintas funções e uma vez que o incentivo a “parceria”
17

entre trabalhador e patrão era disseminada, o sujeito aparecia como seu próprio supervisor
(ibid, p. 10-11). Longe de representar uma solução para a crise do fordismo, essa nova
reestruturação acabou por aprofundar ainda mais a crise, prejudicando sobretudo os
trabalhadores, como destaca Botelho:

Quanto às alterações socioeconômicas para além do ambiente produtivo, a produção


flexível implica na desconcentração industrial, na terceirização, na subcontratação e,
portanto, num certo grau de horizontalização. Os efeitos mais visíveis para a força
de trabalho é a segmentação do seu mercado, polarizando-o em torno dos
“trabalhadores centrais”, relativamente bem remunerados, integrados ao processo
produtivo tanto em termos de planejamento como de execução (superação da divisão
do trabalho manual e intelectual) e dos trabalhadores periféricos, informais,
precarizados, que enfrentariam uma série de dificuldades e obstáculos eliminados
pelo Estado do Bem-estar Social nos gloriosos trinta anos (pelo menos para os
empregados dos setores monopolistas). Entre esses dois polos, comparecem uma
série de grupos diversos, mesclando trabalho precário, subcontratação, terceirização,
alta tecnologia etc. (BOTELHO, M. L. 2009, p. 95)

Isso porque, associado a essa reestruturação na produção e a esse caráter claramente


ideológico, tem-se o desenvolvimento da microeletrônica, que para além das mudanças nos
meios de produção (uma vez que, embora de forma precária, já havia no período fordista a
introdução de computadores para a intensificação do trabalho) também levou a expansão da
flexibilização aos mais diversos campos de trabalho (ibid, p. 101), causando grande impacto
não só no setor industrial (como antes ocorria) mas também no que diz respeito ao setores
burocráticos-administrativos. É possível ver, através desse processo de flexibilização somado
a microeletrônica, um grande aumento na produção e uma diminuição no número de
trabalhadores empregados, uma vez que é cada vez menor a quantidade necessária de
trabalhadores para a execução e para o alcance de determinada produção. Assim, a crise que
outrora se pretendia combater, a partir dessa associação se aprofunda ainda mais levando,
sobretudo, a consequências permanentes na vida dos trabalhadores, pois:

A expansão da produtividade não vem acompanhada de um expansão dos mercados


capaz de compensar os efeitos racionalizadores aí desenvolvidos, o que gera
desemprego crescente. O grande problema enfrentado pela empresa monopolista no
auge de seu desenvolvimento nos pós-guerra é agora um aspecto estrutural da
produção capitalista e avança para todos os campos em que a microeletrônica é
empregada − o que significa que mesmo os setores competitivos são agora
suscetíveis ao desemprego tecnológico. (ibid, p. 104)

Uma vez que, apesar de servir como um agente facilitador para o trabalho, os avanços
tecnológicos nesse sistema, como demonstrado na citação acima, passam a ser um agente
racionalizador, diminuindo a quantidade de trabalhadores exigidos (e com isso o gasto com o
trabalho vivo empregado) e buscando o constante aumento de lucratividade. É possível notar
nesse sistema uma determinada irracionalidade, já que ao mesmo tempo que se criam meios
18

de produção capazes de facilitar o trabalho dos indivíduos (a microeletrônica) se tem o


aumento da exploração, e um agravamento nas condições de trabalho, desses mesmos
indivíduos que agora se dividem em várias atividades (trabalhadores polivalentes). Esse
movimento leva a um problema constante, pois apesar do aumento da produção se tem a
diminuição de mercado para dar vazão ao que é produzido, limitando o processo de circulação
e assim, prejudicando a acumulação de capital.

Vale destacar que o advento da microeletrônica proporcionou, sim, um


aprofundamento bem significativo da crise, mas (como já se viu) não foi só esse atual
descompasso o responsável pelos problemas econômicos enfrentados pelo modo de produção
capitalista. Já nos tempos fordistas, como destacado anteriormente, o alto custo da produção
era incapaz de se manter apenas com a valorização real do capital e o crédito do Estado era
necessário para cobrir qualquer “prejuízo” ou desvalorização.

Longe de significar a resolução do problema, o crédito fornecido pelo Estado só serviu


para amenizar a crise por determinado período, mantendo-se estável durante os Anos de Ouro,
mas a partir do momento em que a antecipação fornecida pelo Estado não conseguia mais ser
ressarcida parcial ou totalmente pelos devedores, ocorre um aprofundamento da dívida estatal
que não poderia mais dar conta das demandas de produção. É necessário então que esse apoio
estatal através de capital fictício seja superado pela dinâmica de criação privada de capital
fictício, com isso, o cálculo coletivo da riqueza privada se tornou a base da economia e a real
utilização do trabalho existe somente como apêndice da valorização do capital fictício
(Lohoff, 2000, p.18).

Na verdade, o aprofundamento da crise de produção nesse momento só torna mais


indispensável a valorização do capital através desse subterfúgio ilusório, já que não é mais
possível ao capital dar conta desse descompasso gerado pela microeletrônica através do
processo de produção, ganha força o capital fictício, que se realiza através da especulação
fantasiosa sobre o real sucesso e reais ganhos das empresas, garantindo a valorização das
ações destas e obscurecendo o insucesso no processo de acumulação de capital real, porém
longe de significar apenas um mero movimento virtual esse processo se mistura ao
movimento real, na medida que:

[...]arrasta consigo uma produção real e receitas fiscais reais «sem chão debaixo dos
pés». Desta maneira, a crise económica mundial vai sendo adiada pelo processo
especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só
pode ser a antecipação da futura utilização real de trabalho (numa escala
astronómica) – que nunca virá a acontecer -, então o embuste objectivado terá
19

forçosamente de se desmascarar após um certo tempo de incubação. (GRUPO


KRISIS, 2003, p.18)

A crise ainda que possa ser adiada, não pode ser impedida, diferente ao que costuma-
se relatar através dos grandes meios de comunicação ou pelos próprios organismos do Estado,
não há crises pontuais (como se dá o exemplo sobre a crise imobiliária dos EUA) mas sim
uma constante crise que se aprofunda a cada nova tentativa de superação do capital sendo,
esses fatos pontuais, momentos de “pico” desse ciclo. Esse aprofundamento constante da
crise, causa danos irreversíveis na vida dos indivíduos, sobretudo àqueles que dependem de
um trabalho para sobreviver, sendo essa situação ainda mais grave nos países que se
encontram à periferia do grande capital. Se a intensificação da crise leva a constante
diminuição das condições de vida dos trabalhadores e dos direitos sociais adquiridos nos
países centrais, tirando destes parte de tudo àquilo que fora “conquistado” nos Anos de Ouro
do capitalismo, deixando-os em péssimas condições, que rebatimentos essa crise teria então
nos trabalhadores dos países periféricos que o máximo que ganharam dos Anos de Ouro dos
países centrais foi a esperança de um futuro melhor?

1.4. E no Brasil? O trabalho e as consequências da crise.

Sabe-se que o capitalismo não se realizou de forma igual em todos países, e apesar de
seus rebatimentos a medida que se desenvolve afetarem a todos, seus problemas são sentidos
de forma diferenciada em cada país a partir das condições particulares da formação de cada
um. No caso especifico do Brasil, essas condições em nada “amorteceram” as consequências
dessa crise constante que é o capitalismo desenvolvido, pelo contrário, tal crise só serviu para
agravar ainda mais as mazelas já existentes no país.

Primeiramente cabe lembrar, mesmo que de forma resumida, a formação do país


enquanto colônia de exploração portuguesa, tendo como objetivo único a exportação com fins
mercantis. Como bem resume Prado (1963) acerca dessa constituição, o Brasil foi organizado
com o intuito de:

[...] fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes;
depois algodão, e em seguida café, para comércio europeu. Nada mais que isto. É
com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a
considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organização a
sociedade e a economia brasileira. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem
como as atividades do país. Virá o branco europeu especular, realizar um negócio,
inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra que precisa: indígenas ou negros
importados. Com tais elementos articulados numa organização puramente produtora,
industrial [...] (Prado, 1963, p. 25-26)
20

Acerca da chegada e da invasão dos portugueses no país, outro ponto também se faz
central para a análise, trata-se da visão de trabalho, da ideologia de trabalho que advém dos
europeus, ideologia essa que já se faz presente nos primeiros “contatos” com os nativos, na
medida em que esses se constituíram como a primeira mão-de-obra “empregada” pelos
exploradores para a extração das matérias primas aqui existentes, sobretudo, do pau-brasil. Já
nesse primeiro momento a partir da visão e do sentido do trabalho – diga-se da ideologia do
trabalho – bem como da repulsa ao ócio já disseminada na Europa, os índios e o seu modo de
vida são vistos como negativos e primitivos aos olhos dos exploradores. Goettert (2002)
destaca que mesmo com a atuação fundamental do índio na extração do pau-brasil, a
construção de sua imagem diante do europeu não retirou a pecha de diferente e inferior,
sendo a vadiagem sua representação, onde do ponto de vista dos portugueses

[...] aquela indiada louçã, de encher os olhos só pelo prazer de vê-los, aos homens e
às mulheres, com seus corpos em flor, tinha um defeito capital: eram vadios,
vivendo uma vida inútil e sem prestança. Que é que produziam? Nada. Que é que
amealhavam? Nada. Viviam suas fúteis vidas fartas, como se neste mundo só lhes
coubesse viver. (Ribeiro, 1995, p. 45 apud Goettet, 2002, p. 105)

Isso porque, segundo o autor:

A representação e atribuição de vadios aos índios estava associada ao seu “estágio”


de “desenvolvimento civilizatório” (hoje “tecnológico”!) e não à possível negação
do trabalho na extração do pau-brasil ou mesmo em outras atividades. [...] Em outras
palavras, a “vadiagem” dos índios relacionava-se a sua “incapacidade” de progresso
e evolução, nos termos europeus. (idem)

Nota-se como a ideia de progresso e desenvolvimento costuma surgir como uma das
justificativas do esforço contínuo ao trabalho, fato que já se dava nesse momento e que se
mantém até os dias atuais, sendo atribuído ao sujeito que não trabalha – independente do
motivo que o leva a isso – a culpa pela falta de progresso, seja local, ou até mesmo nacional7.

Ainda, nesse contexto, devido à grande lucratividade alcançada a partir do tráfico


negreiro, os negros aprisionados chegam a Brasil para servir como “mão-de-obra”, porém
diferente da situação dos índios, os negros eram submetidos ao trabalho escravo. E ainda que
houvesse, sim, resistência por parte dos índios, a “preferência” pelo trabalho dos negros
escravizados, segundo Goettet (ibid., p. 106) teve seu embasamento prático fincado sobre

7
A popular frase “É por isso que o Brasil não vai para a frente” comumente usada para criticar uma situação ou,
sobretudo um sujeito em particular pode se configurar como um exemplo tanto da “positividade inquestionável”
do progresso e, ainda, sobre a culpabilização dos sujeitos. Em tempo atuais, visto os constantes ataques às
políticas sociais, tal expressão é muito usada ao se falar acerca dos beneficiários dos programas de transferência
de renda – diga-se o Bolsa Família – onde parte dos indivíduos, que não se encontram inseridos no mercado de
trabalho, são rotulados como os culpados pelo “atraso” do país, devido aos recursos que se destinam a esses
programas.
21

interesses econômicos advindos do próprio tráfico intercontinental de escravos, assim sendo,


a:

[...] adoção do trabalho escravo se deveu, nesse contexto, à necessidade de


maximizar os lucros através, por um lado, da superexploração de uma forma de
trabalho compulsório limite — pois eram apropriados o trabalho e o trabalhador – e,
por outro, às grandes vantagens comerciais que advinham do tráfico (SOUZA, 1990,
p. 61 apud Goettet, 2002, p.16).

Desse modo, a diminuição nos lucros obtidos e os altos gastos, a medida que a mão-
de-obra escrava se tornava cada vez mais custosa, sobretudo, devido à escassez de escravos
que aqui chegavam, se configurou como um fator importante para a gradativa perda da
centralidade do trabalho escravo no Brasil8.

Na medida que o trabalho escravo vai perdendo a sua força, o trabalho livre começa a
se estabelecer enquanto central na sociedade brasileira, em princípio, a partir do uso de mão-
de-obra imigrante. Com a libertação dos escravos, assim como índio, o negro também passou
a ser rotulado também como vadio, assim:

De sujeito indispensável para o trabalho durante mais de três séculos, o negro


escravo passou a ser representado justamente por práticas que assumiu nesse longo
tempo enquanto resistência à compulsoriedade do trabalho: o negro é lento no
trabalho, indolente, sabotador e mais afeito à festa. Desprovido de hábitos de
disciplina ao trabalho, pouco afeito ao mando e à ordem (já que a desobediência e as
fugas eram constantes), o negro escravo passa a ser representado como atrasado e
inapto para o trabalho livre. (ibid, p. 107)

Como forma de “combater” essas práticas consideradas de sujeitos vadios e também


como forma de “impulsionar” ao trabalho, é em 1941 que a chamada lei da vadiagem é
estabelecida, trata-se do artigo 59 da Lei de Contravenções penais, que considera vadiagem
“entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda
que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante
ocupação ilícita”, e aquele que se encaixasse nesse perfil poderia ser preso por vadiagem,
podendo ficar detido de 15 dias a até 3 meses. Bastava a ausência de um documento que
comprovasse um vínculo empregatício, para que o indivíduos fosse levado preso em
“flagrante”9. Foi só a partir dos anos 80 que tal lei deixou de vigorar, porém, a essa altura a
positividade do trabalho já havia se enraizado na cultura nacional, e a positividade do homem
de bem trabalhador em contraposição ao vadio desempregado se manteve10. O uso de leis

8
Outros fatores também foram parte desse processo, as pressões externas advindas, sobretudo, com a Revolução
Industrial (e o impulso ao trabalho “livre”), assim como os movimentos abolicionistas e as leis que foram se
estabelecendo ao longo das décadas, foram essenciais.
9
Em dezembro de 1975, as estatísticas da polícia militar do Rio de Janeiro concluíram que o “crime de
vadiagem” era o segundo mais “praticado” na região metropolitana. (Villela, 2014)
10
Inclusive, a “apresentação” de documentos, assim como a necessidade de um vínculo empregatício continuam
22

parece se constituir como um fator semelhante e comumente usado para o “impulso” ao


trabalho livre.

Porém, no Brasil outras particularidades são encontradas, diferente ao que ocorreu nos
países centrais, nunca houve um Estado de Bem Estar Social, onde fosse possível à população
desfrutar de plenos direitos sociais. No caso do Brasil, os direitos sociais começaram a ganhar
atenção a partir de 1930, ligados ao populismo do governo da época. Sua formação foi,
sobretudo voltada aos direitos trabalhistas e previdenciários e que além de focalizados (uma
vez que, nesse primeiro momento, não agregavam nem os trabalhadores agrícolas e muito
menos os trabalhadores autônomos) ainda traziam em si um forte ar de “favor”. Como ainda é
possível observar atualmente, desde sua gênese, os direitos sociais no Brasil não eram tratados
como reais direitos dos sujeitos, mas como uma benesse dada pelo Estado, servindo aos
políticos como uma moeda de barganha eleitoral.

Ainda no âmbito social, é importante destacar que, ainda que tardiamente os


movimentos sociais bem como a pressão popular tiveram um importante participação na
consolidação dos direitos nacionais. A Constituição Federal de 1988 (a chamada Constituição
Cidadã) reflete esse movimento dos trabalhadores onde foi possível, a partir da Constituição,
o desenvolvimento de outras legislações que pudessem garantir aos brasileiros a conquista de
direitos sociais mais completos e menos focalizados, essa Constituição tem como foco o
conceito de Seguridade Social que abrange os campos da saúde, assistência social e
previdência.

A primeira legislação a ser sancionada, dois anos após a Constituição, foi a Lei
Orgânica de Saúde que estabelece a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e o direito a
saúde de forma universal (garantindo a todos os sujeitos independentemente de qualquer tipo
de contribuição ou posição que possua na sociedade). Tal legislação regulamenta todo o
sistema de saúde, buscando uma atuação não só a partir do momento em que o indivíduo
chegava até a assistência médica, mas sim mais abrangente, visando não só a recuperação mas
também a proteção do indivíduo e também a promoção em saúde, promovendo ações
informativas e medidas junto à comunidade que pudesse evitar, ou diminuir, a proliferação de
doenças. Também por essa legislação se regulamentava a gestão administrativa do Sistema
Único de Saúde nos âmbitos municipais, estaduais e federal.

sendo usados como balizadores de “inocência” por parte da polícia militar.


23

No ano seguinte a legislação de saúde, foi decretada e sancionada a lei que dispõe dos
Planos de Benefício da Previdência Social essa, diferente da legislação que regulamenta a
saúde e a assistência social, a previdência social tem sua abrangência limitada àqueles que
contribuem mensalmente com uma determinada quantia (essa variante de acordo com os
salários e cargos dos trabalhadores) ao INSS (Instituto Nacional de Assistência Social). Tal
política atua, principalmente, no seguro à perda ou redução de salário do trabalhador,
protegendo o assegurado e sua família em diversos casos, como doença, invalidez,
desemprego, morte, entre outros. A conquista da previdência foi considerada um importante
passo na vida dos trabalhadores no Brasil.

Em 1993 foi a vez da regulamentação da assistência social através da Lei Orgânica de


Assistência Social (LOAS), tal lei dispõe das ações necessárias para combater e evitar riscos e
vulnerabilidade sociais dos sujeitos, assim como a Lei Orgânica de Saúde, a LOAS não faz
necessário nenhum tipo de contribuição, sendo o acesso aos serviços disponibilizados a todos
àqueles que se encontrem em estado de vulnerabilidade. O tripé da Seguridade Social se
forma então, com vistas a garantir uma abrangente proteção dos brasileiros.

Dado tais fatos, parece incoerente a afirmativa de um país com pouca ou quase
nenhuma proteção social - se bem que, em comparação aos países europeus o
desenvolvimento das políticas públicas ainda foi muito restrito – mas o que importa destacar,
de fato, e o que faz toda a diferença no que tange a realização dos direitos sociais no Brasil, se
encontra no período em que tais direitos foram “alcançados”. Ao que parece, como num
“golpe de azar”, a implementação dos direitos sociais no Brasil ocorreu no mesmo momento
em que ocorria a completa abertura nacional para o capital externo, o processo de
globalização do capital desenvolvido e assim a entrada massiva do capital internacional e,
com ele também a entrada de suas políticas de austeridade econômica, com isso, apesar de
muito bem redigidas e pensadas, as políticas não tiveram nem a oportunidade de se
materializar conforme previstas e acabaram, já em sua implementação, sofrendo com os
rebatimentos da precarização e sucateamento dos serviço públicos estatais.

No que diz respeito ao desenvolvimento industrial, o país foi marcado por um


capitalismo tardio, extremamente defasado, como destaca Menegat:

A verdade é que as bases técnicas do desenvolvimento do capitalismo no Brasil


sempre foram defasadas em relação aos países centrais, porém, durante muito tempo
foi possível compensar esta diferença com salários baixos e restrições de direitos
(como o de greve na ditadura militar). Estas condições nunca foram superadas, entre
24

outros motivos, devido as bases restritas de acumulação interna de capital, de tal


modo que, quando a competição passou a ser direta e a privilegiar as bases
tecnocientíficas da produção, as vantagens relativas do salário baixo desapareceram
como pó. (MENEGAT, 2015, p.2)

Em dado momento, nem os baixíssimos salários puderam ser mantidos, levando a um


grande número de demissões, nos anos 90 o número de postos de trabalho fechados passou de
10 milhões. Essa situação terá uma determinada melhora a partir do anos 2000 através da
exportação de matéria prima, na tentativa de equilibrar as perdas no setor industrial (Menegat,
2015, p.3). Ainda como afirma Menegat (2015, p. 2), essa possibilidade de equilíbrio através
dos ganhos não se deu nem pelos ganhos diretos na produção nem pela demanda, ainda que
essas possuíssem alguma parcela de responsabilidade, mas, sobretudo, através da especulação
que possibilitou uma ascensão aos céus desses preços.

Explica-se daí parte da abertura de 21 milhões de novos postos de trabalho na primeira


década do anos 2000 (Pochman, 2012, p. 27), sobretudo, no setor de serviços, sendo
responsável também por esse crescimento a descoberta do pré-sal em 2007. Apesar do crash
da bolsa de valores americana em 2008 e, consequentemente, a crise com relação a
exportação de commoditties, devido a descoberta do pré-sal e também somado a nova onda de
especulação forjada sob o mercado imobiliário, graças a realização da Copa e das Olimpíadas
de 2016 no Brasil, os impactos da crise, no primeiro momento, puderam ser “controlados”
porém isso não durou muito.

O Brasil possui, atualmente, cerca de 90 milhões de pessoas ocupadas11, porém,


através do nível de ocupação12 é possível ver como nos últimos anos a porcentagem de
pessoas ocupadas em relação as pessoas em idade de trabalho tem caído significativamente,
sendo o menor registrado nos últimos 10 anos (gráfico 1). Nesse período de 10 anos, a
quantidade de pessoas ocupadas aumentou em média cerca de apenas 5%, já o aumento de
pessoas em idade de trabalhar alcançou aproximadamente 10,5% e o de pessoas desocupadas
aumentou em 4,7 (comparando só 11,2 – 6,5 sem tirar média dos 10 anos só comparando o
resto), mas o que realmente chama atenção é a média de crescimento daqueles chamados

11
Segundo a metodologia do Pnad: São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que,
nesse período, trabalharam pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos,
mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento etc.) ou em trabalho sem remuneração
direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou, ainda, as pessoas que tinham trabalho
remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.
12
É a porcentagem de pessoas ocupadas em relação as pessoas em idade de trabalhar (pessoas acima de 14 anos
de idade).
25

“fora da força de trabalho” que foi cerca de 20,4 (gráfico 2), diminuindo a taxa de
participação.

GRÁFICO 1: Nível de Ocupação Nacional (%), 2006/2016.

66

64

62

60

58

56

54

52

50
2006 2007 2008 2009 2011 2012 2013 2014 2015 2016

Fonte: PNAD – Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio

GRÁFICO 2 – Pessoas na força de trabalho e pessoas fora da força de trabalho, 2006-


2016(em milhares).

180000
160000
140000
120000
100000
80000
60000
40000
20000
0
2006 2007 2008 2009 2011 2012 2013 2014 2015 2016

Na força de trabalho fora da força de trabalho

Fonte: PNAD – Programa Nacional de Amostra por Domicílio

É possível notar que não houve o começo ou fim de uma ou de outra crise, mas sim
altos e baixos da crise constante do capital e do desemprego estrutural tão importante nesse
sistema, assim como ocorre nos países centrais, porém com um gravidade maior, devido as
condições já precárias que os trabalhadores se encontravam.
26

Não houve antes e não há agora postos de trabalho para todos e a tendência é a
diminuição constante desses postos, sobretudo nos países periféricos do capital (como é o
caso do Brasil), porém é muito arriscado ao capitalismo assumir essa condição a uma
quantidade cada vez maior de sujeitos sedentos por um espaço nesse mercado13. E assim
como já é utilizado desde o surgimento desse modo de produção, o culto ao trabalho continua
firme e forte para o controle ideológico, não mais com o incentivo a busca por um posto de
trabalho, mas ao assumir a falta desse, estimula-se o sujeito a criar o seu próprio trabalho.

Apesar da iminente crise, “vende-se” a esperança da autonomia, essa em parceria com


a meritocracia ajuda a criar um novo lugar de consenso das massas. Já não há mais postos
para todos, mas ainda assim há a chance de se trabalhar para si mesmo.

13
Ainda que seja possível ver o aumento do desemprego todo dia nos noticiários, sabe-se que essa
“preocupação” longe de questionar o modo de produção existente trata-se, sobretudo, da “contribuição”
midiática no jogo político partidário. No exemplo mais que atual do impeachment da Presidente Dilma Rousseff,
com relação as falas de parte esmagadora dos deputados contra os desempregados (ditos “vagabundos”), tais
discursos deixam bem claro quais as verdadeiras preocupações dos políticos ao denunciarem o desemprego
brasileiro.
27

CAPÍTULO 2 – O EMPREENDEDORISMO INDIVIDUAL NO BRASIL: UMA


ALTERNATIVA?

Uma vez já desgastadas as tradicionais relações entre os sujeitos com o trabalho e


como resultado do enxugamento dos postos de trabalho, em todo mundo se notam mudanças
no discurso hegemônico e o empreendedorismo e a iniciativa individual aparecem como
novas formas de resposta, ainda que limitadíssimas, da realidade apresentada, sobretudo no
sentido de obscurecer a real crise que perpassa toda a sociedade.

O incentivo desmedido ao trabalho autônomo é rodeado de exageros e qualquer


atividade diária ou hobbies, nessa lógica, passa a valer como uma grande oportunidade de
empreendimento e já não parece mais desculpa reclamar da falta de oportunidades no
mercado formal, “só não trabalha quem não quer” dizem o tempo todo! E “exemplo” é o que
não falta no discurso para justificar tais “oportunidades”, como o Grupo Krisis destaca sobre o
discurso usado:

A imprensa econômica há muito que deixou de fazer segredo da perspectiva que


idealiza para o futuro do trabalho: as crianças do terceiro mundo, que limpam os
para-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o luminoso exemplo de
«iniciativa empresarial» que deve orientar, tão solicitamente quanto possível, os
desempregados da nossa sociedade, supostamente «carenciada de prestação de
serviços» (GRUPO KRISIS, 2003, p. 3)

Não há como desconsiderar as questões materiais/monetárias que perpassam a relação


entre sujeito e trabalho, na lógica capitalista, até o mais essencial para a sobrevivência do
homem se transforma em mercadoria, como Wood destaca (2001, p. 79) acerca do surgimento
do capital, a emergência do mercado como determinante da reprodução social pressupôs sua
penetração na produção da necessidade mais básica da vida: o alimento, de forma objetiva,
nessa lógica “quem não trabalha não come”, mas se faz necessário também buscar uma
compreensão dessa dependência que mantém a positividade do trabalho atualmente, sobretudo
com relação à forma ideológica que o sustenta e incentiva a partir da vertente empreendedora.

2.1 – O desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil.

Ainda que o incentivo a micro e pequenas empresas já ocorra desde as décadas de 70-
80, é só a partir dos anos 90 que o empreendedorismo ganha força e espaço na sociedade
brasileira. E isso não acontece por acaso, uma vez que é possível observar, através do gráfico
abaixo, que embora a taxa de desemprego se mostre oscilante, e já tendo ocorrido um pico no
ano de 85, é só a partir dos anos 90 que a taxa de desemprego toma proporções alarmantes,
28

inclusive em comparação com os demais países do mundo. Como já comentado


anteriormente, esse processo se dá, sobretudo, a partir das mudanças ocorridas na
reestruturação produtiva do capitalismo, somada a abertura econômica ocorrida no Brasil a
partir desse período. Com relação a diferenciação com os demais países, é possível notar
através do gráfico, também as diferentes sequelas da crise estrutural do capitalismo com
relação aos postos de trabalho e, ainda que o Brasil se destaque com relação ao demais países,
o crescimento do desemprego pode ser observado em todos eles.

GRÁFICO 1 – Mundo: evolução da taxa de desemprego da força de trabalho (%), 1975 – 1999

Fonte: POCHMAN, 2001 apud RAIMUNDO, 2007 p. 30.

O desemprego então, torna-se um dos pontos mais importantes no discurso de


incentivo ao empreendedorismo, longe de questionar a lógica por trás do processo, o que se
pretende, então, é uma adaptação dos sujeitos a esses novos tempos e a busca pelo auto-
emprego além de necessária, se configura como uma grande vantagem nesse momento, como
se observa no livro do principal fomentador do empreendedorismo no Brasil, o Sebrae:

Se, por um lado, pode-se questionar quais as perspectivas de uma nova empresa,
criada neste contexto da economia globalizada, por outro é preciso enfrentar a
escassez de empregos promissores e seguros. Assim, a tendência é de que cada vez
mais pessoas tenham que gerar suas próprias oportunidades de trabalho. Estamos
vivendo a nova era do auto-emprego e, por ser pioneiro e precursor, o empreendedor
que nela está ingressando já parte com vantagens. (DIAS, 2009, p. 22 apud
SEBRAE, 1995, p. 26).

De acordo com tal trecho, a taxa de desemprego crescente, naquele momento, não
parece ser um grande problema, mas sim uma oportunidade para o empreendedor que ali
29

começa a surgir, o desemprego então aparece como um problema que simplesmente poderia
ser resolvido a partir da iniciativa individual dos sujeitos que, para isso, precisariam apenas de
um determinado “treinamento” a fim de desenvolver suas habilidades empreendedoras para
dar continuidade ao ideal de abrir seu próprio negócio. Esse discurso, como muitos outros que
serão apresentados a seguir, tem como uma de suas principais bases teóricas a educação
empreendedora através das chamadas pedagogia empresarial e pedagogia empreendedora.

A primeira delas, a pedagogia empresarial, tem seu surgimento nos anos 80 com o
surgimento de cursos universitários que discutiam a temática (Melo e Wolfi, 2014, p. 193),
nesse momento, tendo seu objetivo voltado ao:

[...] treinamento dos empregados nas organizações empresariais, que envolviam


cursos, projetos e programas, o que foi se aperfeiçoando no decorrer do processo,
tendo em vista a preocupação das empresas em alcançar maior produtividade, para o
que era necessário construir equipes comprometidas com a educação a ser
desenvolvida dentro das organizações. (idem)

Tal teoria é voltada aos pedagogos, entendendo que esses teriam um papel
fundamental dentro das empresas para melhoria no desempenho dos sujeitos. A proposta,
então, era que os pedagogos munidos de um conhecimento mais aprimorado sobre a realidade
contemporânea, poderiam instruir os trabalhadores da empresa para que esses se adaptassem
da melhor maneira as mudanças que viessem a ocorrer na sociedade e também com as
necessidades das empresas ao qual estavam vinculados.

Segundo um dos autores que defende esse pensamento, tal teoria teria como função
contribuir para que as empresas desenvolvam esses seus grandes “diamantes” – o ser
humano, os trabalhadores, nos seus aspectos intelectual, social e afetivo (Lopes, 2008 apud
ibid, p. 194). Tal trecho, ao tratar dos sujeitos enquanto “diamantes” a serem desenvolvidos –
lapidados – mostra a clara visão que se tem dos trabalhadores como um simples objeto da
empresa, que deve se moldar, independentemente de qualquer coisa, aos seus caprichos14.
Coloca-se em questão, qual tipo de “desenvolvimento” seria esse proposto, na verdade, a
intencionalidade desse projeto sugere uma tentativa de controle da subjetividade dos
trabalhadores, de forma que esses se tornem cada vez mais dóceis aos ditames das empresas.
Essa intencionalidade fica mais evidente ao se falar das atribuições dos pedagogos onde:

A atividade do pedagogo na empresa, afirmam os autores vinculados à pedagogia


empresarial, é integrar o funcionário na organização, avaliar seu desempenho,

14
É comum observar em autores que tratem tanto da pedagogia empresarial quanto da pedagogia
empreendedora, o uso constante de termos como “inapto” e “adaptar” sempre se referindo, consecutivamente,
aos sujeitos que antes e depois de serem submetidos a tal forma de ensino.
30

estimular e motivá-lo a permanecer na empresa, com vistas a uma promoção, assim


como capacitá-lo para um melhor desempenho da sua função atual. (ibid, p.195)

Cabe salientar, que tal atuação voltada à adequação dos funcionários também é
exigida, por parte das empresas, aos assistentes sociais. Segundo Cesar:

O assistente social, pelo reconhecimento de seu trabalho integrativo, é requisitado a


atuar na área de RH para satisfazer “necessidades humanas”, contribuindo para a
formação de um comportamento produtivo compatível com as atuais exigências das
empresas. Essas exigências sugerem que o Serviço Social é considerado, pelas
empresas, como um instrumento promotor da adesão do trabalhador às novas
necessidades destas. [...] Esta função do Serviço Social permanece associada ao
tratamento de questões de natureza psicossocial, que não se relacionam diretamente
com o processo de trabalho, reiterando a representação histórica do caráter
humanitário da profissão. (César, 2010, p.126)

O assistente social é chamado15 para intervir nos problemas que interferem na


produtividade e, por muitas vezes, intervindo em questões que extrapolam o espaço de
trabalho do funcionário, como é o caso da ambígua intervenção no orçamento dos
funcionários endividados, esses são chamados/acompanhados pelos assistentes sociais com o
objetivo de reeducação financeira, onde, até planilha de gastos e controle de orçamento é
realizado com a “ajuda” do assistente social16.
Na década de 90, surge a chamada pedagogia empreendedora no Brasil, assim como
na pedagogia empresarial, os autores que compactuam desse pensamento acreditam na
necessidade do desenvolvimento de algumas características nos indivíduos, nesse caso,
características empreendedoras. Porém sua maior diferença se encontra no “público” a que se
destina, que seria não mais dentro das empresas mas na educação básica17, onde busca-se a
introdução do ensino do empreendedorismo em todos os estágios da formação dos indivíduos,
já na Educação Infantil, recomendando inclusive, sua entrada como disciplina obrigatória no
currículo escolar. Para esses autores, o empreendedorismo é uma característica que
geralmente nasce com o sujeito, necessitando que seja estimulada e, quando não, é necessário
que ela seja “aprendida” o mais cedo possível.
É importante destacar que não se trata puramente de um ensino voltado a atividade
material18, sobretudo, como qualifica o precursor dessa metodologia no Brasil Dolabela

15
Importante lembrar que a atuação do assistente social, assim como a do pedagogo nas empresas não se limita
ou se define apenas a esse tipo de atuação acrítica à serviço da empresa, há sim a possibilidade de uma atuação
crítica junto aos funcionários que ali se encontram, porém essa irá depender principalmente do tipo de atuação de
cada profissional e não de uma exigência da empresa, por exemplo.
16
Tal intervenção financeira tem como justificativa a preocupação da empresa com a saúde do trabalhador, mas
até que ponto tal “preocupação” não interfere na autonomia do indivíduo sobre a sua vida?
17
Compreende desde a Educação Infantil até o Ensino Médio.
18
Não se tem o foco na produção ou no ensino técnico de alguma ramo ou atividade especifica de trabalho.
31

(2004, p.2) o empreendedorismo é uma “forma de ser”, segundo o autor a pedagogia


empreendedora:

[...] desvincula o conceito de empreendedor de uma atividade específica e o


relaciona a uma forma de ser — algo ligado a estilo de vida, visão de mundo,
protagonismo, inovação, capacidade de produzir mudanças em si mesmo e no meio
ambiente, meios e formas de buscar a auto realização, incluindo padrões de reação
diante de ambiguidades e incertezas. (idem)

Como já comentado anteriormente, o sujeito é ensinado a se adaptar a qualquer


situação. Tal discurso usa como principal forma de persuasão – sedução – argumentos
relacionados a “realização de sonhos”, diz o autor (idem) que é empreendedor, em qualquer
área, alguém que sonha e que busca transformar seu sonho em realidade, e completa:

O sonho a que refere o conceito é o sonho estruturante, assim chamado porque pode
dar origem e organização a um projeto de vida, articulando sinergicamente desejos,
visão de mundo. Tal concepção abrange todos os tipos de empreendedores — o que
atua na empresa, no governo, no terceiro setor, seja na posição de empregado, seja
na de dirigente, autônomo ou proprietário —, pois o toma como uma forma de ser,
independentemente da área em que possa atuar, valores, competências, preferências,
autoestima. Sonho estruturante é o sonho que se sonha acordado, capaz de conduzir
à auto realização. (ibid, p. 2-3)

Não se pode deixar enganar, continua-se aqui falando de trabalho! Ainda que se saiba,
como já anteriormente destacado, que o incentivo ao trabalho tenha se dado de várias maneira
durante toda a história do capitalismo, é impressionante ver nessas falas e nos demais autores
que defendem esse projeto, como o trabalho é tratado. Como o trabalho no capitalismo,
necessário como meio de subsistência do sujeito, fundamental para a produção de
mercadorias, deixa de ser algo totalmente compulsório aos indivíduos e se torna, de modo
romantizado, apenas um sonho. A necessidade de trabalhar e a falta permanente de postos de
trabalho suficiente, é desprovida de qualquer base analítica e, não por acaso, aliás, de que
outro modo seria possível manter os indivíduos dóceis diante da realidade caótica ao qual
estão inseridos?

Outro autor, ao se direcionar especificamente aos professores, esses que seriam


responsáveis pela disseminação dessa forma de “ensino”, não deixa restar dúvidas quanto ao
interesse por um ensino acrítico baseado nessa “busca por sonhos” e de forma incisiva,
questiona os professores com relação a sua “postura”:

Mas diante deste grande desafio, como torná-lo atingível se o encarregado de


conduzir esse trabalho, o professor, está ainda enredado com padrões de uma cultura
que não exercita a habilidade de sonhar e tornar esse sonho em realidade? Ou seja,
deixar de reclamar e partir para a realização? (Oliveira, 2010, p. 58)
32

Parece que, longe de “reclamar” – diga-se, criticar - sobre a sua realidade, o professor
também teria que se render a essa lógica de se adaptar à realidade como algo dado e sugere
também que o professor que atua a partir dessa visão também se propõe a ser empreendedor
em sala de aula, porque não estará diante da tarefa de transferir informações, mas de
desenvolver potenciais, levando em conta a natureza peculiar e a visão de mundo de cada
aluno (idem).

Também é importante destacar, ainda que de forma bem generalizada19, a metodologia


de ensino implicada nessa teoria. Alguns parágrafos acima se comentou sobre o “aprender a
ser” e essa juntamente do “aprender a aprender” seriam, em suma, a base dessa metodologia,
que tem como intenção uma “autonomia” maior dos indivíduos no processo de aprendizagem,
porém sobre que autonomia estamos falando? Segundo os autores que criticam esse modo de
ensino,

[...] as pedagogias do “aprender a aprender” estabelecem uma hierarquia valorativa,


em que o aprender por conta própria consiste em um aprendizado mais elevado,
desvalorizando o ensino e o papel do professor, bem como dos conteúdos clássicos
historicamente acumulados. (MELO e WOLFI, 2008, p. 195)

E ainda, criticando o papel atribuído aos professores nessa metodologia destaca que:

Aos educadores caberia conhecer a realidade social não para fazer a


crítica a essa realidade e construir uma educação comprometida com as
lutas por uma transformação social radical, mas sim para saber melhor
quais competências a realidade social está exigindo dos indivíduos. (DUARTE,
2008, p. 12 apud MELO e WOLFI, 2008, p. 195)

Portanto, a metodologia nos moldes da pedagogia empreendedora, como bem


caracterizada acima pelos autores que a criticam, busca por uma educação completamente
adequada aos interesses do capitalismo contemporâneo.

Ainda, a partir da pedagogia empreendedora, há também a “atenção” voltada à


comunidade ao qual estão inseridos os sujeitos, na medida que esses “empreendedores”
seriam um agente transformador para o desenvolvimento local, os autores que defendem tal
teoria destacam que o papel da escola também seria “ajudar” no desenvolvimento da
comunidade a sua volta, em suma, além da culpabilização por suas condições, caberiam aos
alunos também a responsabilização sobre as condições locais em que vivem. Mais um vez, o
macro é completamente deixado de lado e, em momento nenhum, se fala acerca da

19
Uma vez que o aprofundamento em tal assunto extrapola tanto o objetivo do trabalho, quanto os próprios
conhecimento teóricos acumulados que seriam necessário para uma profunda análise sobre metodologias
educacionais.
33

responsabilização do Estado e nem da falta de políticas públicas - que seriam só a “ponta do


iceberg” – tratando isoladamente os locais aos quais os sujeitos estão inseridos.

Esse isolamento, porém, não se dá inversamente, ou seja, nesse discurso o sujeito pode
até ser “ensinado” a se ver como apartado da sociedade – onde, suas condições são culpa dele
mesmo e não da lógica em que vive – mas no âmbito econômico, esse sujeito – diga-se aluno
– faz parte sim da sociedade, e ainda se mostra um “investimento” lucrativo. Um estudo
realizado pelo Ipea, há alguns anos, mostra claramente essa “vantagem” de investir na
educação:

Realizando as simulações detalhando por tipo de gastos dentro da área social,


observa-se que no que tange ao multiplicador do PIB, o gasto social em educação
tem o maior multiplicador dentre os agregados que se investigou. […] Tudo mais
constante, ao gastar R$ 1,00 em educação pública, o PIB aumentará em R$ 1,85,
pelo simples processo de multiplicação da renda que essa atividade propicia.
Enquanto isso, R$ 1,00 de produtos agropecuários ou oriundos da indústria extrativa
de minérios que são exportados gera R$ 1,40 de PIB para o país. (BRASIL, 2011, p.
10 apud Souza, 2012, p. 88 -89).

Soma-se, nesse processo educacional, tanto vantagens no sentido de controle


ideológico como no sentido de lucros econômicos, elucidando mais uma das razões pela
preocupação urgente com a educação – de preferência, empreendedora. Assim como tudo na
sociedade capitalista, a educação também se converte como mais uma das mercadorias, e os
autores que se vinculam a essa pedagogia empreendedora deixam isso bem claro em seus
artigos. Como já comentado antes, o precursor dessa teoria no Brasil e bem como o fundador
e responsável pela disseminação dessa metodologia em âmbito nacional, em seu artigo
(Dolabela, 2004) não se restringe a apresentar a metodologia por ele criada, mas também a
acaba por vender, na medida em que até o material didático que devem ser usados tanto pelos
professores quanto pelos alunos é fornecido e escrito por ele20.

Busca-se então, um treinamento vitalício do sujeito para garantir sua total adaptação
ao sistema capitalista, sobretudo com relação ao aprofundamento da crise e ao desemprego
estrutural, que a partir dessa vertente é visto enquanto um problema que pode ser superado a
partir tanto da vontade própria, quanto da capacitação necessária, sugere-se que a
“transformação” ou “resolução” desses problemas, de modo macro, não seria possível e a
superação dessas questões se daria de forma individualizada. Longe de ser uma questão
estrutural, o desemprego aparece em cena, no máximo, enquanto um problema conjuntural, a
ser enfrentado. Nesse contexto, o empreendedorismo surge enquanto habilidade a ser
20
Parece que, se não fossem pelos autores que usam essa metodologia como referência, tais livros ficariam
restritos ao âmbito da autoajuda e essas formações se converteriam em palestras motivacionais.
34

desenvolvida – a habilidade de empreender – e, inclusive para aqueles que ainda não se


convenceram de seguir por conta própria, o empreendedorismo desenvolveria também a
empregabilidade21, onde se tornar “empregável” também seria uma serie de habilidades a
serem trabalhadas. A culpabilização do sujeito fica evidente na medida que dá a entender que
a única coisa que impede o indivíduo de trabalhar, para outro ou para si próprio, é ele mesmo
e que nenhuma situação externa influenciaria em tal situação.

Em suma, a busca pelo trabalho, como outrora já comentada, além de se constituir


historicamente, a partir dessa vertente empreendedora ganha um novo espaço na educação
formal, não só para aquele que deseja “ser seu próprio chefe” mas também para aquele que
deseja ser empregado. Devido a sua romantização, o trabalho enquanto um grande objetivo a
ser alcançado, para além de uma simples procura por oportunidades, para a garantia do
sucesso (seja numa empresa alheia ou de forma autônoma) precisa ser desenvolvido durante
toda a vida, não é por acaso que cada vez mais projetos e cursos são criados com o intuito de
capacitar e treinar os indivíduos para o mercado de trabalho. A educação torna-se então um
solo fértil para a disseminação dessa ideologia empreendedora, que não se limita tão somente
aos autônomos mas aos sujeitos no geral. Nesse contexto, a partir dos mais variados projetos
para os mais diversos grupos, o Sebrae possui um papel de destaque como disseminador
desses ideais no Brasil.

2.2 – O Sebrae e o empreendedor: A venda de uma nova esperança.


O Sebrae tem sua origem em 1972, a partir da criação do ainda Cebrae (Centro
Brasileiro de Assistência Gerencial a Pequena Empresa) com “C”, sendo uma iniciativa do
BNDE e do Ministério do Planejamento, que surge com o objetivo de dar suporte as
demandas do então empresariado que ali se formava, sobretudo, no que diz respeito a
consultoria gerencial com o objetivo de combater a grande inadimplência dos contratos entre
as empresas e os bancos devido a má gestão nos negócio, como afirma o próprio site do
Sebrae.

21
Em 2011 o site do Uol Empregos (disponível em: https://goo.gl/1IlJdF) elencou dez “qualidades” necessárias
para manter a “empregabilidade”, são elas: capacitação técnica, visão do todo, estar bem informado, ter
facilidade com tecnologia, ter domínio sobre a internet e redes sociais, possuir outros idiomas, se manter em
constante formação e aprimoramento e, ainda, ser elegante e cordial, ter “bons valores” e também ter no
currículo experiências como voluntário, que evidenciaria essa preocupação com os “bons valores”. E, antes
disso, em 1995 na Política de Qualificação Profissional, a empregabilidade é descrita como um conjunto de
conhecimentos, habilidades, comportamentos e relações que tornam o profissional necessário não apenas para
uma, mas para toda e qualquer organização. Onde, segundo o documento, mais importante do que apenas obter
um emprego é tornar-se empregável, manter-se competitivo em um mercado em mutação. Preparar-se inclusive
para várias carreiras e diferentes trabalhos – às vezes, até simultâneos. (TEM/SEFOR, 1995, p.12 apud
Linhares e de Orlanda, 2015, p. 15).
35

Sua mudança para Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas


Empresas) só vai ocorrer nos anos 90, a partir do Decreto 99.570, cabendo ao Sebrae
planejar, coordenar e orientar programas técnicos, projetos e atividades de apoio às micro e
pequenas empresas, em conformidade com as políticas nacionais de desenvolvimento,
particularmente as relativas às áreas industrial, comercial e tecnológica, a partir desse
decreto também, o Sebrae desvincula-se da administração pública tornando-se serviço
autônomo. Não por acaso, é nesse período também que o SEBRAE passa a adotar também a
concepção do empreendedorismo como grande oportunidade do sujeito superar a crise que ali
se constituia.

A partir de 1993 o Sebrae assume no Brasil a aplicação do projeto denominado


Empretec, tal projeto tem sua origem nos EUA já nos anos 60 e na década de 80 esse projeto
passa a ser incorporado pela ONU, no Brasil ele chega em 1991 mas seu desenvolvimento só
acontece a partir do momento que é assumido pelo Sebrar. Trata-se de uma metodológia com
abordagem psicologizante, que busca incutir aos seus participantes uma série de
comportamentos tidos como comuns aos empreendedores de sucesso, comportamentos esses
que são divididos em três “conjuntos”, onde cada conjunto parece representar uma fase do
processo de empreendimento, são eles:

Conjunto de Realização: Busca de oportunidades e iniciativa; exigência de qualidade e


eficiencia; correr riscos calculados; persistencia e comprometimento.

Conjunto de Planejamento: Estabelecimento de metas; busca de informações e


planejamento e monitoramento sistemático.

Conjunto de Poder: persuasão e rede de contatos e indepêndencia e auto confiança.

Nota-se, a partir desses “conjuntos”, bem como a partir da metodologia como um todo,
um processo claramente etapista, que a partir de uma “receita” comportamental irá garantir o
sucesso do empreendedor, mais uma vez, servindo como mais um exemplo de
responsabilização individual e posteriormente, levando a culpabilização do sujeito caso esse
não consiga um resultado satisfatório através da metodologia. Interessante observar também,
que as caracteristicas apresentadas, principalmente as do primeiro conjunto, são um exemplo
claro do que se busca não apenas em um empreendedor mas também no trabalhador flexível
que surge a partir do toyotismo, levando a questionar se o tal empreendedor seria, de fato, tão
diferente do perfil de trabalhador que se encontra no mercado de trabalho. De acordo com o
36

Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, tal projeto se constitui como o


mais bem avaliado na história do Sebrae22.

Para além do Empretec, atualmente, o Sebrae conta com diversos projetos de


incentivo ao empreendedorismo para as mais variadas faixas etárias e em sintonia com a
pedagógia empreendedora (denominada nos documentos da instituição como educação
empreendedora) , a instituição também vê no ambiente escolar um espaço privilegiado para a
construção do individuo empreendedor. Assim, o Sebrae, possui como público alvo não
apenas adultos, mas também crianças a partir dos 9 anos de idade. Segundo seus
idealizadores, parece que quanto mais cedo ocorrer o incentivo as habilidades
empreendedoras melhor, uma vez que esse incentiva tais habilidades no ensino fundamental,
como observa-se no trecho ao qual se trata da importância da introdução ao
empreendedorismo já na infância:

As crianças aprendem, por meio de oficinas lúdicas, noções sobre planos de


negócios, como a importância de controlar o dinheiro – essa conscientização ainda
na infância vai ajudar, no futuro a valorizar práticas como o controle de fluxo de
caixa, por exemplo. (Sebrae, 2013, p. 13)

Nota-se quão tamanha é a alienação que se pretende alcançar a partir dessas


iniciativas, “treinando” os indivíduos desde a infância. O projeto do qual se refere o trecho
citado acima e destinado ao público infantil é o JEPP (Jovem Empreendedor Primeiros
Passos), esse projeto iniciou-se em São Paulo no ano de 2001 e em 2011se tornou um projeto
nacional do Sebrae e, atualmente, alcança quase todos os estados do país23. O JEPP possui
temáticas e atividades especificas direcionadas para cada ano do Ensino Fundamental,
sendo24:

1º Ano : O mundo das ervas aromáticas – [...] os alunos poderão adquirir


informações sobre ervas aromáticas e sobre como montar uma loja. Os alunos verão
no exemplo da Filomena uma boa oportunidade para aprender fazendo[...]
2º Ano: Temperos Naturais – [...] os alunos serão convidados a refletir sobre cuidados
com o planeta, alimentação saudável e conhecerão melhor o que envolve a atividade
do agronegócio.
3º Ano: Brinquedos ecológicos – Os alunos desenvolverão uma oficina de brinquedos
ecológicos como oportunidade empreendedora [...] aprenderão a importância da

22
Documento disponível em: http://www.mdic.gov.br/arquivos/dwnl_1218827740.pdf
23
Segundo vídeo institucional do Sebrae SP, disponível em: https://goo.gl/B9Dvzz
24
Informações do folder que acompanha material de apoio do projeto JEPP, disponível em:
http://goo.gl/AcWRZO
37

sustentabilidade para o planeta, percebendo que é possível empreender e que também


pode ser muito divertido.
4º Ano: Locadora de produtos – Os alunos serão convidados a refletir sobre as
vantagens que a locação de produtos representa em algumas situações. Os alunos
aprenderão a importância de identificar a preferência de futuros clientes, a
necessidade de planejar e pensar no que é necessário para a realização de uma
atividade.
5º Ano: Sabores e cores – Ressaltando a importância dos alimentos e cuidados com a
higiene, os alunos serão estimulados a desenvolver um espaço gastronômico,
privilegiando o oferecimento de alimentos saudáveis, saboros e que valorizem a
cultura local.
6º Ano: Ecopapelaria – [...] os alunos serão estimulados a perceber a importância
dos cuidados com o meio ambiente, reconhecendo a oportunidade de desenvolver uma
atividade empreendedora para reutilizar papéis que seriam descartados como lixo.
7º Ano: Artesanato sustentável – Somando esforços e exercitando a criatividade e a
cidadania, os alunos desenvolverão a atividade empreendedora de elaborar produtos
artesanais com práticas sustentáveis. Os alunos perceberão que, sem organização e
mobilização, nada acontece.
8º Ano: Empreendedorismo social – Observando e refletindo sobre a realidade que os
cercam, os alunos serão estimulados a desenvolver uma atividade empreendedora
social, analisando os impactos e benefícios alcançados, bem como as dificuldades que
surgirem. Aprenderão na prática que empreender traz beneficios para toda a
sociedade.

Já de imediato, ao se observar a descrição das temáticas aplicadas para cada ano de


ensino, é possível notar que o projeto é um exemplo perfeito do tipo de atuação que se busca a
partir dos preceitos da pedagogia empreendedora. No Brasil a média de idade de um aluno do
1º Ano do Ensino Fundamental é de 6 anos e é absurdo imaginar que uma criança ainda nessa
idade já seja exposta dessa forma às demandas do capital. É até dificil entender como
funciona essa lógica tão incoerente, ora, se só é permitido a uma criança começar a trabalhar –
como aprendiz! – com no mínimo 14 anos de idade25, como se permite que uma criança com
menos da metade dessa idade possa já ser submetida a uma lógica que busca incutir nela o

25
De acordo com o Art. 403 da CLT, é proibido qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo os casos de
trabalho como aprendiz, a partir dos 14 anos.
38

desejo de empreender, trabalhar por conta própria desde tão cedo? No discurso disseminado
pelo projeto a “busca pela realização dos sonhos” também é usado para obscurecer essa forma
de incentivo.

No decorrer de todas essas temáticas apresentadas é possível observar pelo menos um


termo ou conceito que remonte ao mercado e a produção – fala-se até sobre agronegócio - e
principalmente nas atividades direcionadas aos alunos do 8º ano, responsável por tratar sobre
o “empreendedorismo social” onde eles, segundo o projeto, aprenderão na prática que
empreender traz benefícios para toda a sociedade26, se tem como exemplo como sutilmente é
“dado” ao sujeito a responsabilidade não mais apenas pela sua própria situação mas também
pelo restante da sociedade. Frases como essas aparecem por toda a exposição do projeto
servindo para reafirmação dessa ideologia, como na própria frase que aparece em destaque
ao fim do folder do projeto, onde se lê que quanto mais cedo você aprende essa lição, mais
cedo se constrói o futuro do país27, a atividade do empreendedor (e a responsabilidade que se
busca dar a ela), longe de ser um peso, parece ser apresentada como uma honra, pois seria
através dessa atividade empreendedora que seria possível se conquistar sonhos e também
desenvolver o país.

Seguindo a mesma linha do JEEP, o Sebrae conta com três projetos bem parecidos no
Ensino Médio, o Formação de Jovens Empreendedores (FJE), o Despertar (voltado às escolas
públicas) e o Crescendo e Empreendendo, na apresentação do site, a respeito da
caracterização de cada um dos projetos, é possível identificar em ambos o uso de termos
como comportamento empreendedor e vocação para designar o que será desenvolvido no
decorrer do projeto, mais uma vez, o sucesso do empreendimento parece ser alcançado
simplesmente através da vontade e do comportamento adequado de cada um, a escassez das
oportunidades de trabalho também são apresentadas enquanto algo natural que deve ser aceito
e “enfrentado” de maneira criativa, com a geração do próprio emprego.

No Ensino Superior, o Sebrae em parceria com universidades, oferta uma disciplina


livre, aberta a todos os cursos, do mesmo modo procurando desenvolver no âmbito
universitário o comportamento empreendedor de forma indiscriminada, visando, nessa etapa,
não só o “ensino” do empreendedorismo mas também a produção de conhecimento passa a
ser um dos objetivos do Sebrae, servindo como potencializador para a disseminação dessa
ideologia empreendedora no Brasil. A consolidação desse tipo de parceria é feita através de

26
Idem folder.
27
Idem.
39

concurso, onde todo ano o Sebrae lança um edital convidando às universidades a enviar
projetos de trabalho com o objetivo de criar tal vinculo. As universidades vencedoras recebem
além da ajuda com relação a gestão do projeto que será implementado, cada projeto ainda
recebe do Sebrae um incentivo financeiro de R$ 200.000,0028.

Outra iniciativa voltada para a graduação é o Desafio Universitário Empreendedor29,


competição voltada para disseminação do empreendedorismo no espaço universitário, não
apenas para os alunos, mas também para professores e instituições, ao final da competição os
participantes melhores colocados nos Rankings serão recompensados por sua dedicação e
desempenho o que facilita a popularidade e grande procura pela competição, bem como
garante o objetivo de disseminação do empreendedorismo e também incentiva a meritocracia
(esse inseparável) através do sistema de “recompensas”, pode-se falar aqui também da
recompensa como outra forma de “adestramento” dos sujeitos.

No Ensino Técnico, o Sebrae também disponibiliza uma disciplina chamada Pronatec


Empreendedor para aqueles que participam de determinados cursos oferecidos através do
Pronatec, sobretudo, aqueles que possibilitam aos sujeitos trabalharem de forma autônoma.
Na assistência social, ações de capacitação e inserção produtiva são implementadas nos
Centros de Assistencia Social, ações essas que:

Caracterizam-se como projetos de enfrentamento da pobreza conforme estabelecido


no Art. 25, Inciso V da Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS; compreendem o
investimento econômico e social nos grupos populares, buscando subsidiar,
financeira e tecnicamente, iniciativas que lhes garantam meios, capacidade produtiva
e de gestão, para melhoria de condições gerais de subsistência, elevação do padrão
de qualidade de vida, preservação do meio ambiente e sua organização social.

Nesse âmbito são incluidas não só as ações com vistas ao emprego formal mas
também as que se destinam ao trabalho por conta própria, onde, para além dos cursos de base
técnica que abarcam essas duas modalidades de trabalho, são oferecidos e criados por
diversos CRAS cursos e oficinas que incentivam o empreendedorismo. É importante destacar,
que assim como já comentado nos projetos anteriores vinculados a outros orgãos, nesse
projetos implementados pelo CRAS também não há uma preocupação voltada principalmente
ao ensino de saberes instrumentais para realização de uma atividade autônoma, mas mantém-
se a difusão do empreendedorismo baseado no desenvolvimento de potencialidades e
comportamentos empreendedores, que seriam fundamentais para o resgate da auto-estima e

28
A quantidade de projetos aprovados podem variar em cada estado, no último ano o Sebrae RJ forneceu apenas
três vagas enquanto o Sebrae RS disponibilizou dez (mantendo sempre o mesmo valor de incentivo).
29
Essa atividade é compulsória a todas as instituições que realizarem a parceria com o Sebrae naquele ano.
40

também superação da condição ao qual se encontravam, podendo através de uma atividade


autônoma se “emanciparem” dos programas de transferência de renda.

Como forma de regularizar tais atividades, que por muitas vezes acabam sendo
realizadas de maneira informal, em 2010, foi criada a categoria denominada MEI
(microempreendedor individual) responsável por formalizar os trabalhadores “por conta
própria” como empreendedores, garantindo a esses sujeitos o chamado emprego decente.

Ainda que o mesmo sujeito não passe por todas os projetos e programas, devido ao
recente surgimento e também a pequena abrangência de alguns deles, é possível observar
como é criada uma rede de amarras quase inescapáveis que acabam por incutir nos sujeitos e,
claramente, vender a ele a ideia de empreendorismo como “salvação” em meio ao caos que se
encontra o mercado de trabalho e, ainda, àqueles que não se encaixarem e/ou fracassarem no
auto-emprego, a partir de tantos “treinamentos comportamentais” que perpassam todos os
projetos, esses se transformarão nos trabalhadores polivalentes, obedientes e “adaptados” as
demandas do capital, eles terão desenvolvido a sua empregabilidade.

Assim lembrando o processo do ganho de positividade do trabalho, no começo do


capitalismo, nota-se nesse momento, como a questão de dignidade e honra aparecem também
para garantir a popularidade, aceitação e,inclusive, a naturalização das mudanças que ocorrem
na organização do trabalho dentro do capitalismo.

Observa-se, em alguns discursos sobre o tema, a habilidade empreendedora – que


seria a qualidade de se responder, de forma inovadora, as necessidades que surgem diante do
sujeito – como um grande impulsionador da história, já que o homem nascido com essa
habilidade pôde responder, de forma criativa, às suas demandas e se desenvolver. Cabe aqui
salientar o quão curioso é o uso da história do surgimento do homem para reafimar ou
estabelecer essa ou aquela teoria, sobre esse tipo de uso da história como afirmação, um
trecho do Botelho se faz urgente ao esclarecer:

É um fato conhecido que toda sociedade produz em seu imaginário, conforme suas
necessidades, uma narrativa do passado. Sua história pregressa não é meramente
uma ficção mas a reconstrução do passado é feita de modo a salientar aspectos,
obscurecer elementos, contornar problemáticas e interpretar eventos segundo o
cânon estabelecido. As determinações da atualidade moldam e configuram um
passado que, explicado a partir das categorias do presente, permitem a legitimação
do que está dado e abrem caminho para o vir-a-ser aí inscrito. (Botelho, 2009, p.1)

O passado, então, serve como um poderoso aliado para justificar qualquer teoria que
dele queira fazer indevido uso, nesse caso, a teoria empreendedora. Contudo, não é só a
41

história passada que é usada enquanto “validador” dessa teoria, a naturalizando, mas também
as tecnologias, usadas equivocadamente, que estão justificando o empreendedorismo
enquanto natural e, até biológico.

Foi de junho desse ano, a divulgação de um teste em ratos, realizado em um


laboratorio da Universidade de Princeton, nos Estados Unidas, a descoberta de um gene que
seria responsável pelo empreendedorismo30, segundo o divulgado, os camundongos que
tinham o gene Nr2b duplicado acharam a saída de um labirinto muito mais rápido do que os
animais sem a presença dele, ou seja, responderam mais rapidamente as necessidades que
lhes foram colocadas. Segundo a pesquisa, tal gene só seria encontrado em 3% dos seres
humanos e, ainda, ao final da matéria divulgada se destaca que para aqueles que não possuem
tal caracteristica, essa poderia ser desenvolvida. A verdade é que parece que, a facilidade dos
camundogos terem saído do labirinto mais rapidamente, poderia ter recebido qualquer nome,
mas nesse caso, resolveram chamar de atitude empreendedora.

Somado a isso, casos empreendedores bem sucedidos são apresentados


constantemente pela mídia sensacionalista, abrangendo assim grande espaços de disseminação
de cultura, se garante o incentivo ao “espírito empreendedor” como principal alternativa de
sucesso, onde a força de vontade e, em alguns casos até a fé31, seriam responsáveis pelo
alcance desse “sonho”.

E, ainda que um tanto recente, tal estratégia de dominação já apresenta seus sinais na
vida dos sujeitos. Segundo o Mei, atualmente, cerca de 6,1 milhões de brasileiros já se
formalizaram como microempreendedor individual, e cerca de 3,1 milhões de estrangeiros
também aderiram a esse tipo de formalização aqui no Brasil. Visto tudo o que já foi discutido
até aqui, fica evidente nessa quantidade de empreendedores individuais o alcance que a
ideologia empreendedora tem alcançado e também, tal ideologia se reflete a partir do
momento que o terceiro maior sonho do brasileiro é “ter seu próprio negócio”32.

2.3– O trabalhador empreendedor e suas amarras.

Até aqui, se destacou o que essa ideologia empreendedora busca incutir nos sujeitos
através da educação empreendedora e suas promessas, agora faz-se necessário levantar
algumas questões sobre ditos empreendedores.

30
Segundo matéria publica no site do G1, disponível em: http://goo.gl/bRtpGy
31
Merece destaque o grande alcance que a famosa doutrina cristã, denominada teologia da prosperidade, possui
atualmente.
32
Fonte: GEM 2015 – Relatório Executivo.
42

Atualmente, o Brasil conta com cerca de 23 milhões de trabalhadores por conta-


própria33, oque equivale a aproximadamente 25,5% do total de trabalhadores ocupados no
país. Ano após ano o crescimento do trabalho por conta própria é apresentado pelo governo,
assim como pelos organismos que compactuam dessa teoria empreendedora, como uma
vitória alcançada pelos individuos, mas na realidade tal informação só têm mostrado a
diminuição constante de postos de trabalho formais. Nesse contexto, antes de esclarecer, os
dados são apresentados como uma forma de esconder o agravamento da crise do capitalismo e
do desemprego estrutural, aqui, o discurso ideológico apresenta o papel crucial de resignificar
os dados apresentados, e esses são “entregues” aos individuos como sinonimos de melhorias
e não de agravamento, a “criação” do próprio emprego se torna fundamental nesse momento
para tirar de vista a extinção de postos de trabalho formais e garantir o consenso.

De acordo com o GEM34, no ultimo ano cerca de 36% dos empreendedores nascentes
recorreram a essa via por necessidade, representando um crescimento de 20% com relação ao
ano anterior, dando sinais obvios do agravamento da crise, porém, assim como já comentado
acima o discurso apresentado também se distancia de qualquer crítica ao sistema e repassa o
problema a questões conjuturais e a falta de incentivo dado pelo governo através de ações
afirmativas. Em contraponto ao empreendedorismo por necessidade, o GEM também usa
como conceito o empreendedorismo por oportunidade, mas cabe indagar, visto a ideologia
empreendedora que cerca a sociedade, até que ponto houve uma oportunidade real ou se
essa oportunidade não passa de mais uma subjetividade incutida nos individuos e, inclusive, o
que seria essa oportunidade35?

Outra questão importante é sobre a tamanha responsabilidade que a ideologia


empreendedora repassa ao indíviduo, pois além de ser responsável por si ele seria um agente
de mudança local e seria responsável por gerar empregos naquela localidade, porém, apesar
dos discursos apresentarem essa “capacidade” de geração de emprego como certa de
acontecer, na realidade não é bem assim. No Brasil, no ano de 201536, mais da metade dos
empreendimentos (61%) não contavam com nenhum funcionário, 36% contavam com 1 a 5
funcionários e a quantidade de empreendimentos que contavam com mais de 20 funcionários

33
Fonte: PNAD Contínua.
34
Fonte: GEM 2015 – Relatório Executivo.
35
Segundo a metodologia ela designaria a quantidade de indivíduos que, mesmo empregados, identificaram uma
oportunidade de empreendimento e investiram nela, mas isso não serve para dar conta do real apresentado. Dada
as condições de precarização que se encontra grande parte dos trabalhadores e a ideologia disseminada, fica
difícil saber se ela não foi só uma “miragem” de um indivíduo já em desespero ou encantado pela lógica
empreendedora.
36
Fonte: GEM 2015 – Relatório Executivo.
43

não alcançava nem 0,5% da quantidade de empreendimentos. A “tarefa” da geração de


empregos, então, que foi repassada do Estado para o empreendedor não se realizou e ainda
que possa, sim, proporcionar uma melhora na vida dos empreendedores em si, o tal “impacto
social” que o discurso apresenta não acontece.

A essa altura, o a realidade social – diga-se, a crise estrutural – sequer é lembrada e a


culpa recai sobre os empreendedores e seus empreendimentos, segundo a pesquisa, esse
resultado se dá devido a maioria dos empreendimentos no Brasil possuirem pouca ou
nenhuma das caracteristica inovadora37, e é desejável que se persiga uma maior inovação do
negócio para que os empreendimentos fossem capazes de realizar o impacto social desejado,
porém, é ponderado na pesquisa que em geral esses empreendimentos requerem maior volume
de capital e estão associados a empreendedores com maior nível de escolaridade (GEM,
2015), visto as condições apresentadas por grande parte dos individuos que acabam
recorrendo ao emprego por conta-própria, ao que parece a situação está fadada a permanecer
desse jeito, não seria possível ao empreendedor alcançar o grande sonho – como é
apresentado pela mídia sensacionalista - e, muito menos promover esse impacto social que
tanto se espera.

E ainda, com relação ao sucesso do empreendimento como sonho, em detrimento ao


emprego formal, segundo a PNAD, a média salarial do trabalhador formal é superior – cerca
de 30% a mais – que a do trabalhador por conta própria, além de reafirmar a falta de
possibilidade de crescimento apresentada acima, é possível pressupor que os salários mostram
o empreendedorismo não como vantagem sobre os trabalhadores formais e sim como única
38
opção e que, nem sempre é alcançada ou mantida por muito tempo, não é por acaso que o
saber lidar com frustrações se constitui enquanto uma das chamadas caracteristicas
empreendedoras.

Parece tratar-se de uma constante venda de um ideal e como tal, os individuos


responsaveis por sua disseminação se constituem como verdadeiros vendedores tentando, a
qualquer custo, convencer o seu público-alvo de estar fazendo um bom negócio, sutilmente a
ideologia capitalista do empreendedorismo vai sendo tomada enquanto estilo de vida
individual dos sujeitos, e os problemas ocorridos na realidade são vistos como uma espécie de

37
Segundo a metodologia existem 6 características inovadoras e a quantidade de características acumuladas pelo
empreendimento definiria sua maior chance de sucesso ou não.
38
Na medida em que a média salarial do trabalhador por conta própria é inferior e, visto os gastos que um
empreendimento pressupõe, por que motivos uma pessoa se esforçaria e recorreriam tanto ao trabalho por conta
própria se não pela inexistência de postos de trabalho?
44

obstáculo pessoal e ainda, a tentativa de superá-lo pode acabar se tornando um


aprisionamento ainda mais profundo.

Durante todo o discurso voltado ao empreendedorismo, se fala que para o alcance do


“sucesso” seria preciso apenas o desenvolvimento de habilidades e comportamentos
considerados “empreendedores”, desconsiderando qualquer dependência material/monetária
que a abertura de um empreendimento implica, porém essa necessidade financeira é o
primeiro e principal problema que o sujeito se depara a partir do momento que resolve abrir
seu próprio negócio.

Primeiramente, para aquele sujeito que já possui algum vínculo financeiro, a opção
seria a de manter o emprego e iniciar o empreendimento no tempo livre que resta-se, uma das
matérias39 sobre o assunto dá como sugestão a realização das atividades ligadas ao
empreendimento à noite, nos fins de semana e, até mesmo, no horário de almoço do trabalho
formal do individuo. Se propõe uma vida voltada ao trabalho dia e noite, falando muito
pouco ou nada sobre a saúde do sujeito nesse processo, na verdade, ao invés de destacar os
riscos autodestrutivos inerentes a essa prática, tais problemas são deixados de lado e ganham
destaque mais uma vez os casos – diga-se as exceções – de sucesso que servem para justificar
tamanho sacrifício.

Em segundo lugar, e a mais perigosa das opções, é o financiamente bancário. Por


muitas vezes o emprego formal não consegue dar conta dos gastos que um empreendimento
exige e considerando que, no ultimo ano cerca de 36% dos novos empreendedores40
ocorreram ao empreendedorismo por necessidade41, é importante lembrar que ainda há a
consideravel parcela da população que já se encontra desempregada, e para esses a obtenção
de financiamento através de empréstimos se torna a única possibilidade para investir em um
negócio próprio.

Para atender a essa demanda por financiamento, no Brasil, desde 2005 foi instituido o
Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), que promove o

39
Essa matéria foi encontrada no site do Pequenas Empresas Grandes Negócios, essa se constitui também como
um grande disseminador do “sonho de empreender” no Brasil, tanto com relação ao programa transmitido pela
tv, como também pelo site e pela revista impressa. Disponível em: http://goo.gl/m4CkfX
40
De acordo com a metodologia aplicada pelo GEM, empreendedores nascentes seriam aqueles que estão
envolvidos em um empreendimento mas esse ainda não gerou nenhum tipo de remuneração ou renda aos
proprietários por mais de 3 meses e novos seriam aqueles que o empreendimento gerou algum tipo de renda por
mais de 3 meses e menos de 42 meses e ainda, como já visto, há a distinção entre empreendedorismo por
necessidade ou oportunidade.
41
Segundo GEM 2015 e, ainda, essa taxa é a mais alta desde 2010 anos, tendo um salto de 13 para 36% de 2014
pra 2015. Ainda com relação aos trabalhadores novos, essa porcentagem também cresce!
45

microcrédito através de taxas de juros mais baixas, menor burocracia e maior prazo, contando
com a participação tanto de bancos públicos quanto privados.

Em 2011, para ampliar tal programa foi criado o Programa Crescer também do
Governo Federal, com o objetivo de garantir essa forma de empréstimo tambem aos
empreendedores tanto formais quanto informais que possuíssem faturamento anual de até 120
mil, por meio dos bancos públicos federais42 (Banco do Brasil, Caixa Econômica, Banco da
Amazônia e Banco do Nordeste). No âmbito dos bancos públicos federais, dos quatro bancos
citados, o Banco da Amazônia apresenta a menor taxa de juros, 5% ao ano, enquanto a Caixa
Econômica Federal apresenta a maior taxa, com juros superiores a 41% ao ano.

Com relação aos valores, o crédito disponibilizado varia de R$ 100,00 à R$15.000,00,


a depender da necessidade do empreendedor e, sobretudo, da avaliação, por parte do banco,
das condições reais do empreendimento arcar com a dívida. Uma equipe de profissionais é
enviada aos estabelecimento tanto para avaliar as condições do estabelecimento quanto para
oferecer consultoria aos empreendedores com relação a melhores forma de aplicar o
investimento recebido naquele local. Os valores podem ser usados tanto para material quanto
para equipamento. Cada banco possuí seus críterios de garantia, sendo comum o uso de
“fiador” para emprestimos de menor valor e podendo chegar até, para as transações de maior
valor, ao uso de bens adquiridos como garantia. A popularidade e aceitação, por parte dos
empreendedores, é constatada na medida em que desde 2008, o PNMPO realizou 25,1
milhões de operações , atendendo mais de 25,4 milhões de clientes, com volume concedido
superior a R$ 56 bilhões43.

Ainda, como incentivo a contratação desses recursos, quando se fala de empréstimo


para investimento, se tem um discurso voltado à chamada dívida boa44, não só para os
empreendedores iniciais mas também para os empreendedores estabelecidos, que busca dar
positividade ao ato de contrair uma dívida na medida que essa tenha como objetivo o
investimento no desenvolvimento do empreendimento e na obtenção de mais lucro, e não no
pagamento de dividas outrora adquiridas pelo estabelecimento, que seria a dívida ruim.

Inicialmente, cabe pensar em até que ponto o incentivo ao empréstimo com vistas ao
desenvolvimento – seja no discurso da boa dívida, seja através da consultoria fornecida pelo

42
Disponível em: http://goo.gl/BTfwDG
43
De acordo com o Portal Brasil, disponível em: http://goo.gl/hFsYzi
44
Um exemplo seria uma matéria recente feita pelo presidente do Sebrae SP, disponível em:
http://goo.gl/nmmTw6. Outras matérias do tipo também são encontradas, facilmente no site do próprio Sebrae,
como no PEGN, por exemplo.
46

bancos do PNMNO – visam, de fato, o sucesso dos sujeitos ou apenas tentam manter
minimamente um controle acerca da inadimplência nos empréstimos? Travestidos de boa
intenção, tais discursos e iniciativas longe de se preocuparem com os sujeitos ali envolvidos,
visam simples e puramente a obtenção de lucro.

Porém, ainda mais eficaz que a obtenção de lucros a partir dos empréstimo, é o
controle de subjetividade que é possível através da dívida. A dívida - o ato de se endividar -
tem a capacidade de afetar profundamente a subjetividade dos indivíduos, como destaca
Lazzarato (2012) a dívida tem uma moral própria, diferente e complementar à do trabalho. A
dupla esforço-recompensa da ideologia do trabalho se vê passada p/ trás pela moral da
promessa (honre sua dívida) e da culpa (de tê-la contraído), criam-se subjetividades
culposas. Assim, são reforçados nos sujeitos comportamentos que o ajudem a dar conta
desses compromissos, e é nesse momento que os ditos comportamentos empreendedores,
parecem, num momento de desespero do indivíduo, a única alternativa para que ele saia da
situação em que se colocou.

Como na lógica da liberdade do trabalho no capitalismo, onde o sujeito só é livre para


vender sua força de trabalho e se sujeitar a outro, na lógica da dívida o sujeito só pode ser
livre na medida em que seu modo de vida permite que esteja “em dia com seus
compromissos” (Lazzarato, 2012) e, ainda que, nesse momento do artigo o autor se volte aos
governos, tal constatação também pode ser usada perfeitamente com relação aos
comportamentos submetidos aos individuos endividados, onde diz acerca do capitalismo :

[...]o capitalismo se apodera do futuro. Ele pode assim prever, calcular, medir e
estabelecer equivalências entre os comportamentos atuais e os comportamentos
futuros, enfim, criar uma ponte entre o presente e o futuro. Assim, o sistema
capitalista reduz o que será ao que é, o futuro e suas possibilidades às relações de
poder atuais. A estranha sensação de viver em uma sociedade sem tempo, sem
possibilidades, sem ruptura possível – os “indignados” denunciam outra coisa? –
encontra na dívida uma de suas principais explicações. (idem)

O controle ideológico, se constitui como um componente fundamental do modo de


produção capitalista, pois, sem ele não seria possível manter os individuos inertes tanto à
exploração quanto à situação de colapso ao qual o mundo se encontra. Parece que a verdade
vai sendo velada a cada novo discurso e a crítica a todas as “oportunidades” apresentadas por
essa lógica se fazem sempre necessárias.
47

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Ano após ano o empreendedorismo no Brasil, e no mundo, vem ganhando cada vez
mais espaço, no caso específico brasileiro, segundo estimativas (GEM, 2016) a taxa de
empreendedorismo vem crescendo constantemente desde 2011 e é a maior alcançada nos
últimos 14 anos. Não por menos, o empreendedorismo, e cabe dizer, o culto ao trabalho é
disseminado por toda parte e sem restrições.

Crianças com menos de 10 anos já são ensinadas e influenciadas a empreender, o faz


de conta, a construção de criatividade através de sonhos comuns à uma criança – ser um herói,
ter poderes mágicos ou coisas desse tipo – se perde na medida em que essas são induzidas a
acreditar que sonham em construir um negócio, sonham em trabalhar, fala-se do aprender a
empreender brincando, o lúdico parece se transformar, então, numa forma de treinamento
para o futuro – não muito distante – que espera aquela criança.

Assim como, nessa lógica, não há idade para se começar a pensar em trabalho,
tampouco há idade para se pensar em parar de trabalhar, e é possível achar artigos e matérias
que incentivem o indivíduo a trabalhar mesmo após a aposentadoria. Obviamente, visto as
condições atuais de aposentadoria e do alto custo de vida, o primeiro ponto a ser citado por
esses discursos focam na complementação de renda, mas além disso o discurso remete a um
certo status que seria dado ao idoso que permanece ativo, o descanso – ainda que na velhice –
é visto como algo passível de inferioridade e de culpa e o retorno ao trabalho seria a melhor
opção dada ao indivíduos já idosos. O trabalho, longe de se apresentar como um meio para se
alcançar algum objetivo, parece se constituir como o único fim da vida, se cresce e morre
pensando sobre ele!

Tamanha obsessão não se dá por acaso e nem tampouco é natural ao homem, como
visto anteriormente, devido a centralidade que o trabalho possui na lógica capitalista como
fonte criadora de valor, desde a sua gênese o capitalismo fez uso dos mais variados artifícios
para “impulsionar” os indivíduos ao trabalho – a vender sua força de trabalho, a ser explorado
– e, pior ainda, o capitalismo os convenceu a gostar e perseguir essa condição.

O uso da violência, como ocorreu durante a expropriação dos meios de produção dos
sujeitos e que se faz presente até hoje, bem como as condições materiais necessárias para a
sobrevivência dos indivíduos, são fatores determinantes para garantir que os sujeitos se
rendam ao trabalho, porém é através da ideologia disseminada que tal relação entre o sujeito e
48

o trabalho é positivada, obscurecendo a realidade e, assim garantindo a exploração e


controlando a crítica ou revolta à essa ordem.

Como já mencionado, durante toda a sua existência o capitalismo passou por inúmeras
metamorfoses que o proporcionasse “seguir em frente” – ainda que isso significasse apenas o
adiamento da crise –, o desenvolvimento dos meios de produção, foi fundamental para que o
capitalismo continuasse a se desenvolver, assim como a disseminação da ideologia capitalista
para que pudesse além de garantir a exploração ainda à facilitar, cabe salientar que essa
também se transformava a fim de garantir a manutenção do sistema, sobretudo, através da
lealdade dos sujeitos ao trabalho. Pode-se dizer então que essas são inseparáveis e a medida
que a realidade se modifica, também é necessário que o discurso seja alterado – ainda que
sempre mantenha seu real intuito – com o objetivo de dar conta de justificar a realidade
apresentada.

Dado o aprofundamento da crise do capitalismo, o grande aumento do desemprego


estrutural, com a extinção de grande quantidade de postos de trabalho, e com a intensificação
da pobreza, visto o aumento constante daqueles indivíduos que sequer estão no mercado de
trabalho, já não é mais possível ao discurso dominante manter a busca pelo trabalho como
forma de distração. A busca pelo trabalho se transforma em criação de trabalho.

O discurso voltado ao empreendedorismo, a partir da intensificação da culpabilização,


do individualismo e também da meritocracia, surge com o intuito de promover o auto-
emprego e dar conta da realidade apresentada.

O seu crescimento não só no que diz respeito ao quantitativo de empreendedores mas


também com relação aos espaços que esse discurso tem ocupado na sociedade, como é o caso
da chamada educação empreendedora, constatam o sucesso desse discurso e também, visto as
condições reais em que se encontram os indivíduos ditos empreendedores, como já citado
anteriormente, e apesar disso tudo, a permanência do culto ao trabalho, chama a atenção para
uma questão fundamental da lógica capitalista que por muitas vezes é esquecida.

O auto-emprego pressupõe dos indivíduos a sua autodisciplina, onde este indivíduo


torna-se chefe de si mesmo, porém longe de significar a liberdade e, ainda que não haja a
tradicional relação de exploração entre trabalhador e patrão/proletário e capitalista, esse
indivíduo não se afasta da lógica capitalista de exploração, pelo contrário, essa condição do
indivíduo só obscurece ainda mais essa lógica.
49

Habitualmente, leva-se a crer que o capitalismo e, consequentemente sua exploração,


são resultado de uma relação social entre os indivíduos detentores dos meios de produção e
aqueles que só dispõem da venda da sua força de trabalho como meio de sobrevivência, dessa
forma os detentores dos meios de produção – os capitalistas – seriam a personificação da
exploração e único responsável por ela, ora, sem eles não existiria exploração,
consequentemente, expropriação de mais valia, os lucros cessariam e assim o sistema entraria
em colapso, porém, a relação de exploração e controle através do trabalho apresentada ao se
observar os chamados empreendedores parece não ser abrangida por essa caracterização,
assim, levando a crer que as relações de exploração, bem como toda a lógica capitalista se
realizam de forma autônoma aos sujeitos e sobre eles. Acerca da singularidade do sistema
capitalista Wood destaca ao caracterizar já em seu surgimento:

Esse sistema singular de dependência do mercado acarreta requisitos e compulsões


sistêmicos específicos, que não são compartilhados por nenhum outro modo de
produção: os imperativos da competição, da acumulação e da maximização de lucro.
E esses imperativos, por sua vez significam que o capitalismo pode e tem que se
expandir constantemente, de maneiras e em graus que não se parecem com os de
nenhuma outra forma social. Ele pode e tem que acumular constantemente, buscar
constantemente novos mercados, impor constantemente seus imperativos a novos
territórios e novas esperas da vida, a todos os seres humanos e ao meio ambiente
natural. (Wood, 2004, p. 78-79)

E ainda, acerca da autonomia que o mercado possui nesse modo de produção, observa:

Depois que o mercado se estabelece como uma “disciplina” ou um “regulador”


econômico, depois que os agentes econômicos passam a depender do mercado para
obter as condições de sua própria reprodução, até os trabalhadores que são donos
dos meios de produção, individual ou coletivamente, ficam obrigados a responder
aos imperativos do mercado – a competir e a acumular, a deixar que as empresas não
competitivas e seus trabalhadores vão a falência, e a se tornarem exploradores, eles
mesmos. [...] sempre que os imperativos de mercado regulam a economia e regem a
reprodução social, não há como escapar da exploração. (ibid, p. 127)

Assim, os imperativos do mercado capitalista se sobrepõe as vontades dos sujeitos e


rege as relações sociais de exploração, Jappe (2013) vai dizer porém que isso não exime a
responsabilidade que cada indivíduo possui – caso contrário, estariam todos fadados a esse
sistema eternamente – porém essa responsabilidade conta menos que a lógica de todo o
sistema.
50

Entendendo tamanha autonomia do modo de produção, no que tange o trabalhador


empreendedor, parece ser possível chegar à conclusão de que o trabalhador como dono de si
mesmo mas atuando a partir dos imperativos do mercado acaba por se auto explorar. De fato,
é bem mais simples e habitual que o enfrentamento dos indivíduos ao sistema seja
personificada na forma do capitalista, porém é bem mais difícil enfrentar a si próprio e faz-se
necessário pensar até que ponto essa lógica de exploração se encontra também no explorado, e
de que maneira ele reproduz essas atitudes inerentes ao sistema, se auto regula e permanece
inerte a essas relações de exploração “não tão obvias”.

Longe de procurar uma conclusão acerca do discurso empreendedor e do


empreendedorismo na sociedade capitalista, tal esforço feito até o momento busca contribuir e
chamar a atenção para a discussão acerca dos trabalhadores por conta própria, e da exploração
que eles executam contra si mesmos.

Tal discussão se faz necessária, inclusive, no que se refere aos discursos proferidos
pelos assistentes sociais que acabam no contato com usuário, sem perceber, repetindo
algumas dessas ideias inerentes ao empreendedorismo já citadas ou exigindo dele algumas das
chamadas habilidades empreendedoras. De fato, não há como negar que em grande parte dos
casos, mesmo que minimamente, uma atividade artesanal ou o que quer que seja feito de
forma autônoma pode influenciar positivamente nas condições materiais/monetárias daquele
indivíduo que ali se encontra, porém esse não deve ser dado enquanto fim ou solução.

E, no que tange o âmbito do Serviço Social, a profissão em sua origem surge com o
fim de auxiliar a manutenção da sociedade capitalista, sua atuação socioeducativa a serviço do
capital na disseminação do consenso e sua importância na reprodução da força de trabalho a
partir da operacionalização das políticas públicas mostram, então, o Serviço Social como
fortalecedor dessa lógica, porém, a partir do seu amadurecimento enquanto profissão e da sua
aproximação das leituras que fazem crítica a essa ordem, hegemonicamente, os profissionais
passam a se ver como iguais aos usuários, como parte dos trabalhadores e não mais como
educadores ou superiores a esses usuários, e, para aqueles que compreendem a lógica
destrutiva desse sistema bem como as consequências que ele gera aos indivíduos, cabe um
constante questionamento acerca de todo e qualquer discurso que soe como natural nessa
lógica, inclusive – e principalmente – com relação ao discurso do trabalho, não somente o
ligado ao empreendedorismo, mas também sobre todas as suas formas, para que sejam
evitados discursos que acabem reafirmando essa lógica.
51

É possível notar, durante todo o discurso empreendedor que se fala de emancipação,


autonomia do indivíduo, desenvolvimento do sujeito, transformação social, educação de
qualidade, entre outros comuns aos discursos da profissão, porém, apesar do uso das mesmas
palavras tais termos apresentam um significado completamente distinto ao apresentado pelo
discurso dos profissionais do Serviço Social, parecendo que tal apropriação é feita para
garantir a disseminação e aceitação dessa lógica de forma mais fácil, na medida em que, se
analisado de modo geral, os discursos podem acabar por se confundir.

É muito comum observar em centros de emprego, de cursos profissionalizantes e em


outros espaços que ofereçam algum tipo de assistência aos indivíduos, o uso comum da ideia
de autonomia e emancipação ligadas ao provérbio de que o importante não é dar o peixe, mas
sim ensinar a pescar mas de que adianta saber pescar num sistema que já extinguiu todos os
peixes? O modo como esse provérbio é usado, assim como o discurso empreendedor,
disfarçados de emancipadores, apenas representam a intensificação do individualismo e da
culpabilização no capitalismo, como comentado acima, na medida em que a busca pelo
emprego já não é mais possível, o indivíduo tem que se tornar praticamente autossuficiente e
o seu “fracasso” diz respeito somente a ele mesmo, a partir dessa intensificação do
individualismo e da culpabilização os indivíduos se acusam daquilo de que são vítimas
(Forrester, 1997,p.11).

Atualmente, dada a popularidade que esse discurso empreendedor ganhou na vida dos
sujeitos, o assistente social, na sua atuação, acaba por se deparar a todo o momento com
questões que envolvam tal ideologia, não só através do contato com o usuário empreendedor
mas, sobretudo, através do fornecimento de informações e na viabilização de programas
governamentais que forneçam algum tipo de oficio ao indivíduo, como é o caso da atuação
dos assistentes sociais nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras)45 e a
viabilização dos cursos do Pronatec, bem como na supervisão de diversos programas que,
esporadicamente, surgem para oferecer cursos de geração de renda como vias ao
desenvolvimento social e, ainda assim, durante toda a pesquisa foi notória a dificuldade em se
encontrar material acadêmico que discutisse o empreendedorismo no Brasil, através de
profissionais e alunos do Serviço Social e, quando encontrados, tais conteúdos quando não
elogiavam o desenvolvimento dessas atividades empreendedoras junto aos usuários, apenas

45
É importante destacar que a atuação do assistente social nos Cras vai muito além dessa atividade mas, no
cotidiano, é possível observar essa atribuição dada pelo Estado aos profissionais.
52

faziam a crítica ao aprimoramento da força de trabalho para atender ao capital46 e não


levantavam nenhum tipo de questão com relação a positividade do trabalho e nem como a
subjetividade dos sujeitos poderia ser capturada através desses espaços que, longe de
desenvolverem apenas habilidades técnicas do sujeitos, buscam construir uma nova
subjetividade. Assim, é fundamental a compreensão e a crítica a essa forma social que se
impõe a todos os indivíduos e, sobretudo, a essa nova roupagem que o discurso capitalista
apresenta a partir do empreendedorismo, e se torna urgente o seu enfrentamento, e a busca por
identificar os modos como essa ideologia se dissemina pela sociedade procurando evitar
reproduzir os seus discursos, seja no trato com os usuários, como também dentro da academia.

46
Especificamente, nos estudos realizados a partir dos cursos com base técnica, como é o caso dos cursos do
Pronatec.
53

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