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COMO TIR AR P ROVEI TO

D E S E US I N I MI G OS

COMO TIRAR PROVEITO DE SEUS INIMIGOS

Plutarco

Seguido de Da Maneira de Distinguir o Bajulador do Amigo

Prefácio e notas PIERRE MARÉCHAUX

Tradução ISIS BORGES B. DA FONSECA

Distinguir o Bajulador do Amigo Prefácio e notas PIERRE MARÉCHAUX Tradução ISIS BORGES B. DA FONSECA

SÃO PAULO 2016

Copyright © Éditions Payot et Rivages, 1993, para o aparelho crítico. Copyright © 1997, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, para a presente edição.

1.ª edição 1997 3.ª edição 2011 3.ª tiragem 2016

Esta obra foi traduzida do grego por ISIS BORGES B. DA FONSECA

Preparação do original Maurício Balthazar Leal Revisão gráfica Tereza Cecília de Oliveira Ramos Lilian Jenkino Produção gráfica Geraldo Alves Paginação Studio 3 Desenvolvimento Editorial

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Plutarco Como tirar proveito de seus inimigos ; seguido de Da maneira de distinguir o bajulador do amigo / Plutarco ; prefácio e notas Pierre Maréchaux ; tradução Isis Borges B. da Fonseca. – 3.ª ed. – São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2011. – (Clássicos WMF)

Bibliografia.

ISBN 978-85-7827-443-6

1. Plutarco – Crítica e interpretação 2. Plutarco – Ética I. Ma- réchaux, Pierre. II. Título. III. Título: Da maneira de distinguir o bajulador do amigo. IV. Série.

11-06749

CDD-171

Índices para catálogo sistemático:

1. Plutarco : Sistemas éticos : Filosofia moral 171

Todos os direitos desta edição reservados à Editora WMF Martins Fontes Ltda. Rua Prof. Laerte Ramos de Carvalho, 133 01325-030 São Paulo SP Brasil Tel. (11) 3293-8150 Fax (11) 3101-1042 e-mail: info@wmfmartinsfontes.com.br http://www.wmfmartinsfontes.com.br

Ín dic e

Not a p rel i min ar (da ed iç ão f ran ces a ) P ref ác io de Pi er re M ar éc ha u x Bi bl i o g rafi a su már ia C rono lo g i a

V I I I X XX X I XXXIII

C

omo t i rar p r ov e ito d e s e u s i ni mi g os

1

Da maneira d e d istingu ir o b aju lad or d o amigo

25

 

Not as

1 0 9

N ot a P re li mi na r

(d a e di ç ão fr a nc e s a)

O t e xt o g r e go qu e se gu imos é o d a C ol e çã o d a s Univ e r s id ad e s d e Fr ança : Ob ra s mo r a is, t om o I , 2.ª

p ar t e , Par is, B e lle s - Le tt r e s , 1 9 8 9 . Trab a lh am os i g u al-

me nt e com os Mor a lia, I , e d i tad os por W. R . Pa t on,

I. We ge h au pt e M . Poh lenz, Teu b ner, B. S. B., B. G. Teu b ner Ve rlagsge s e ll s ch aft, 1 9 7 4 .

Q u ant o às nota s, d e v e m os mu i to à e r u d i ção d e

Je a n Sir ine ll i e d e Rob e r t K l ae r. Para a trad u ç ã o, nã o

nos p r iva mos d e c ons u l ta r e d iç õ e s a ntig as d e Sa i x

(1537), d e La Porte d u Th eil (1772), d e Ricard ( 1 8 4 5 )

e d e Bé t olau d (1 8 7 0 ) .

V II

Prefá c io

A s I mp o s tu r as d e A l c ibíades ou

d o c a mal e ão ao s ábio e s tói c o

Em h on r a de M . Da n iel Mo u sse a u

A fi g u r a d e Plu tarco ( 6 6 - 1 2 0 d . C . ), c e l e b rad a p or

M ont aig ne e Rou sse au , ap ar e ce com o u m a d a s m a i s

a t r a e nt e s d a A nt i g u i d a d e t a r d i a . Es s e c ont e m p or â -

ne o d e Traj ano, nu tr id o d e pl atoni sm o e e s toi cism o, apresenta-se a nó s como u m polígrafo. Escreve eru - d itas b iografias elogiosas d e grand es personagens d o passad o, as Vidas dos homens ilustr es. Mas su a ativid ad e d e filó sofo afasta-o u m pou co d o sistema- tismo d e seu s pred ecessores, para se voltar para a ética. Os Moralia, grand e síntese sob re a moral anti- ga, evitam o estilo ab strato e imitam d e preferência

a lib erd ad e d a palavra espontânea. Os d ois tratad os

qu e nos ocu pam, Como tirar pr oveito de seus inimi- gos e Da maneira de distinguir o bajulador do amigo, ob ed ecem à regra. Plu tarco aí introd u z tod a a arte d e u m conversad or cu lto, mistu rand o oportu namen- te b rincad eiras, aned otas, mitos, d iscu ssõ es, em con- for mid ad e com os b ons u sos d a elegância, d a poli- d ez e d o rigor. Os Antigos interrogaram-se longa- mente sob re os perigos d o amor-pró prio e sob re as conseqü ências d essa cegu eira; Plu tarco mostra qu e

IX

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

u ma tal complacência para consigo d á ensejo à b a-

ju lação. Nu m catálogo d emonstrativo, revela tod os

os artifícios imagináveis d os lisonjead ores, explican-

d

o como é possível pô -los a d escob erto. Entretanto,

o

tratad o não põ e u m ponto final a essa casu ística

sem evocar longamente a qu estão d a franqu eza. Se

é

preciso aprend er a fru strar as cilad as d os b aju la-

d

ores, é preciso conju ntamente sab er aceitar a lin-

gu agem franca d os amigos. Nesse d omínio, as qu ei-

xas qu e a rejeição d a crítica faz nascer em nó s se assemelh am a recriminaçõ es d e meninos amimad os

a qu e se d eixam arrastar somente os fracos e os feli-

zes d este mu nd o. A fortiori d evem-se preferir as in- ju nçõ es d os inimigos aos elogios pru d entes e melí- flu os d aqu eles qu e nos são caros. Tal é o passo ini-

cial d o tratad o intitu lad o Como tirar pr oveito de seus inimigos, ob ra b reve e red igid a à pressa. Manifesta- mente d atad o d o ano 100, aproximad amente, este opú scu lo apresenta-se como u ma carta d irigid a a u m

h omem político d enominad o Cornélio Pu lqu ério. Plu -

tarco já tivera a oportu nid ad e d e refletir sob re qu es-

tõ es análogas em seu s Pr eceitos de gover no, qu e seu

prestigioso d estinatário conh ecia b em. Sem ser u ma repetição, o tratad o assemelh a-se a u ma síntese; fica com a aparência d e u ma improvisação qu ase oral

d itad a a u m secretário. E, d e certa maneira, põ e u m

ponto final à prob lemática plu tarqu iana d a b aju la- ção. A franqu eza, nó s o sab emos, pod e ser u ma b a- ju lação d issimu lad a. Por várias razõ es, ela ob stru i a amizad e porqu e soçob ra em d ois escolh os. Ora se

X

P r e f á ci o

apresenta comoárb itroe vem ferir d iretamente oami- go ou o pró ximo; ora faz o papel d as ad u lad oras e, em vez d e incriminar os verd ad eiros d efeitos, pren- d e-se a fu tilid ad es, a por menores complacentes. Ex- clu ind o a pru d ência, a solu ção consiste em conce- d er mais créd ito a seu s inimigos qu e a seu s paren- tes. A esse respeito, Como tirar pr oveito de seus ini- migos mostra ao h omem d e Estad o ou ao simples particu lar d e qu e maneira o verd ad eiro estrategista pod e u sar, nas circu nstâncias menos favoráveis, re- criminaçõ es, ad moestaçõ es ou calú nias d e seu s ini- migos pessoais, para melh orar e para vencê-los. O b aju lad or leva-nos à vigilância, tal é a lição d o De adulator e. Mas essa vigilância, completamente exte- rior, d iz respeito exclu sivamente a ou trem. Trata-se

d e se d esconfiar d as sed u çõ es d a alterid ad e. Ao con- trário, o inimigo ob riga-nos a u ma vigilância interior per manente; excita nosso demônio familiar – como reação, nó s nos aper feiçoamos, nó s somos exempla- res 1 , su portamos a injú ria 2 , aprend emos a d ominar 3 , somos generosos até com o inimigo 4 . Nu ma palavra,

a ad versid ad e é u m exu tó rio para o ma l e u m m o-

d elo p ar a o b e m . O De ad ul a tor e et a mi c o ( Da m ane i ra d e d i st i n- g u ir o b aju lad or d o a m i go) f oi d e d i c ad o a A nt í oc o

F ilopap o, c or e g o, d e poi s arcont e , a t e ni e nse d o sé -

cu lo I d e nossa e ra . A inte nç ão d e Plu t a rc o e s tá aí

mu it o c lara. Tra ta -s e d e org aniz ar u m a ti p ol og i a d os

d ife r e nt es b aj u l ad or e s e a r r ol ar as si tu aç õ e s e m qu e

a am b ig ü id ad e e ntr e b a j u l ação e a m i zad e a c h a u m a

X I

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

saíd a. Com efeito, o b aju lad or sab e maravilh osam e n- te fingir-se d e amigo. E o primeiro d ilema entrevisto

p or Plu tarco r e f e r e - s e à am b ig ü i d ad e d a ap a r ê nc i a.

Por qu e , qu e ixa -s e e l e e m s u m a , o h om e m h one s-

t o conce d e u ma c onf ia nç a i ng ê nu a e e sp ont âne a a

e sta ilu s ão d e ami za d e qu e é a b aju l a ç ã o? É qu e o

olh o é fe it o a p e na s par a o e ng a no. O b a j u l ad or o sab e, ele qu e ofu sca a vista com miragens, u ma m is -

c e l âne a d e e fe it os, u m log r o pi tor e sc o, e t c . Qu e m

ou cal e i d os c ó p i o. Pl ás-

t ic o e m su as me ta m or f os e s (υÔ γ ρ ο` ς µ ετ α βα´ λλε σθ α ι 5 ), t e nd o a f acu ld a d e d e m u d ar d e pe l e (τ η` ν χ ρ ο´ α ν τρ ε´ π ε σθ α ι 6 ) , mim é ti c o d o l u g a r e m qu e se e nc ontra

d iz b aj u lação d i z i d e olog ia

(συν αφ ο µ ο ιο υˆ τα ι τ ο ˆις υÔ π ο κ ει µ ε´ νο ις χ ωρ ´ιο ι ς 7 ) , o b aju -

l a d or é o me s tr e d e u ma im ag i nár i a a o me smo t e m-

p o d iscr e ta e sob r e c ar r e ga d a qu e se p a v one i a , se

e m pe rt ig a, oc u l ta a s v e rd ad e s i nv is í v e is, e ob e d e c e

à fe b r e

ele, tu d o começa por u ma insinu ação progressiva

qu e , se a v ít im a ou s a , s e t or na p r ofu são ga lop ant e , i nf la çã o d iab ó li ca ou pr ol if e ra çã o c anc e r osa . Se s e t r a t a d e e log io, por e x e mplo, c om r e c e i o d e p as sar

p

p

d o le i lã o e a o pr e s tíg io d o cr esc e nd o. C om

or lis onj e ad or gr os se i r o, o b a j u l ad or e m p r e g a rá a

r osop opé ia, p ond o os lou v or e s a s e u p a p al v o na

b oca d e ou trem 8 ; ou , então, cu mprimentand o a con - t ra rio, c e nsu rará as v ir tu d e s qu e não tê m os qu e e l e

e logi a 9 . Essa im ag i ná ria qu e c omeça tão su avemente acab a por avolu mar-se a ponto d e u m b aju lad or su -

b estimad oganh ar pou coa pou c o a e s ti ma d e su a v í-

t im a. Com e ça -se p or e sse b a i l ad o d e s om b ra s i l u s ó -

XII

P

r e f á ci

o

r i as , c u j o nom e p l atô ni c o e r a σκ ιαγρ α φι´α, ant e s d e

ab or d ar o r e ino d a c ons i st ê nc ia ; poi s tod a a té c ni c a

d o b aju lad or resid e nesta arte d e acomod ar-se 10 , qu e

é tamb é m u ma ar te d e e nla ça r-se, ou melh or, d e ar-

romb ar a fech ad u ra d a anu ência. A princípio o tem or

d e se r s u sp e ito ob r i g a o ad u lad or a p ar tir d o inf ini -

t e simal. Para lou v a r, e l e f al ar á c la r o, u sa nd o d e c e r- t a fr anqu e za, a qu e nã o v is a a d enu nciar senão os

d efeitos secu nd ários 11 , ou ent ã o, a r i g or, e l e s e s e r -

v i r á d e u m c u m p r i m e nt o m u d o 12 . Es sas p r e oc u p a-

ç õ es lh e v a le r ão u m acr é sc i mo d e reconh ecimento. Com efeito, a d iscrição, a pru d ênci a e t u d o o qu e é

c ons id e ra d o como ta l ac r e sce nt am à b aj u l a ç ão u m

v al or e x tr aord iná rio, qu e a d ou ra e a f a z r e s p l a nd e-

c e r. Pla tã o nã o se pr e oc u pa v a e m e l og i a r, e tod a a

su a d ou trina, qu e execrava os xaropes d e agrad o v i l ,

e s tab e lec ia a c iê ncia sé r ia cont ra a frí v ol a e c om p la-

c e nte ad u laç ão. Plu tarc o, s e m fa ze r apol og i a , r e a b i- l it a, p ara t or ná- la s ma is c onfu sas, essas rotinas d a

b aju lação 13 . De Alcib íad es, p r ínci p e d os b aju l ad or e s ,

e l e faz u m h e ró i-ca m ale ão, or a gu e r r e i r o, or a g r os-

s e ir ã o, ora e f e m inad o, or a e st rate gi sta . F a c h a d a se m

p al-

mi lh and o c om pas s os d i sc r e tos o c am inh o d e v e l u -

d o d o e str at ag e ma , c r i a pa ra se u s p ró pr i os f ins t od a

u m a t é c nic a d o d iv e r ti me nto, u m a aca d e m ia d e b a- j u l aç ão 1 4 ! Ad e p to d e u ma retó rica sem moral, d e u ma sed u ção sem limite, ele renu ncia à anagogia escarpa-

d a para ond e o leva seu mestre, pelas ru as insid io-

sas d a d emagogia. Essa inconstância lisonjeira já anu n-

i nt e r ior id a d e , o d isc ípu l o pr e f e rid o d e S ó c r a t e s,

X III

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

cia oretratod e u m e m b ai x ad or d o Gra nd e R e i com o mons t r o mu ltifor me , sob a pe na d e B a l t as a r Gra-

c i án:

Eles viram u ma carru agem qu e vinh a em su a d ireç ã o, d u as s e r pe nt e s pu xa v a m- na e u ma ra p os a a cond u - z i a. C riti lo pe rg u ntou s e e ra a Carru a ge m d e Ve ne z a , ma s a R a pos a Coch e i r o f ingia não t e r ou v id o e na d a respond ia; h avia d entro u m grand e monstro, ou , para melh or d izer, vários monstros u nid os nu m só , pois a p a- r e c i a or a b r anco e or a pr e t o, ora jov e m e ora v e lh o, ora h om e m e or a mu lh e r, or a r acional e or a a nimal. Por fim, aparecia tão mu ltifor me qu e Critilo ima gi nou qu e f oss e o fam os o Pr ot e u . (E l c rit i cón, c r is i 7 , Es pa- s a- Ca l pe , M ad ri , 1 9 7 5 , p . 6 1 )

L ançand o mã o d e tod os os me i os em se u p od e r,

o b aj u la d or nã o s ó u sa apa rê ncia s d o v e s t u á r i o ou

g

e st os mu d os d e c ort e si a, ma s fr e qü ent a o p a l áci o

d

a li ngu ag e m . Conf e i ta su as pal a v ras p ara e x c i t a r o

p

alad ar d os h om e ns cond i m e ntand o o ace p i p e d a s

c ois as ; e mpola se u s e píte tos; e m su a b oc a, u m na ri z

d

d

r oc e ssos qu e tira m o c a rá te r d e r e a lid ad e d o seu

ob jeto, o b aju lad or instala-se à força em seu g a b i ne-

t e má gic o d as v a id ad e s e d os p r estí gi os d e qu e fa l a

G r a ciá n e m se u r oma nc e a l e g ó r ic o. Ob r ig and o a to-

m ar a sé r io o qu e o G ór gia s ou a Re p ú bl ic a ti nh a m renegad o, ele trab alh a, tal como u m ocu lista astu to, na esfera d os espelh os d efor mantes e no mu nd o d os

p

e ág u ia é ré g io (το` ν δ ε` γρ υπ ο` ν βασ ι λικ ο´ ν 1 5 ), a c ov ar-

ia tor na-se pru d ência (δειλ´ιαν

, ασφα´ λειαν 16 )! Por ta i s

XIV

P r e f á ci o

f al sos r ef le xos. Um r e i qu e cant ar ol a s e t or na u m

A polo, u m p ote nta d o qu e se e m b r i ag a é fe i t o d e u s

d a s v inh a s, u m p rí nci p e na pal e stra t e m tu d o d e u m

Hércu les 17 . Uma espécie d e d ió ptrica mental nasce

d e s se s e x ag e r os: o b aj u la d or a i ns tau ra a o m e s m o

tempo qu e cria u ma arte d e pru d ência qu e joga c om as m ane ira s circu nstanc i ai s d o se r e o or na m e nt a com u ma finíssima pelícu la matizad a. Como u m na ri z ad u nc o s e tor na r e al? Bas ta ma scara r s u a e s sê nci a s ob u m v é u l e v e qu e su ge r e , p ar a m el h or e ng anar,

e o logro está consu mad o. É preciso ter a aparênc i a.

Tu d o e s tá e m t e r a a parê nc ia . Pl u ta rco, C a s ti g li one ,

G rac iá n, L a B ru y è r e ob s e r v ar am tod os e s s e s b a ju la-

d or e s d e cort e , am b i e nte i r r e a l, qu i m é ri c o e i nc on-

qu e u m

s is te nt e . E ca d a u m e m s u a l í ngu a sab i a

ad u lad or d a tê m pe r a d e Al ci b í ad e s e r a o r e fl e x o d e

u m r e f le x o, u ma e x ib i çã o e nc ar nad a e m qu e o p a-

r e ce r su b me rg ia o se r, d im i nu i nd o- o ou ani qu i l a n-

d o-o. Entretanto, se Alcib íad es foi o príncipe d os b a-

j u lad or e s, f oi o se u me nos d e li cad o r e p r e se nta nt e . Esse b aju lad or h ab itu al, como o consid erou Plu tarco,

d eu os ú ltimos retoqu es nu ma arte d e agrad ar p a r a

s u b j u ga r. A s e d u çã o d e A lci b í ad es a ss e me l h a- s e a o

e nc anto i rr e v e r sív e l e a g r e s siv o d os m á g i c os . É u m a operação d e sentid o ú nico: exclu i a comu nh ão mú - tu a, a comu nicação qu e repou sa sob re este d u plo i n- flu xo d e id a e volta. É talvez por isso qu e A l ci b í ad e s , ma u b aj u lad or, te v e u m a c ar r e ira d e ma s i ad o fu l g u -

r a nt e . A o c ont r á r i o, o h á b i l s e d u t or d e c or t e , p or

e x e mp lo, d á a i lu s ão d e u m a r e c i pr oci d a d e . É p a r a

X V

Como Tirar Proveito de seus Inimigos

mais desviar o espírito que esse perspicaz impene- trável 18 deixa crer numa relação bilateral, enquanto evita a todo o preço a troca. Ele adivinha, sem ser adivinhado 19 , frustra o jogo de outrem sem permitir- lhe ler no seu próprio jogo 20 ; em suma, desfaz no outro a obra de artifício para aí reencontrar a ver- dade, mas é todo mistério sobre si próprio e aban- dona o outro em sua ansiedade. Nada de adulação passiva – o bajulador se deixaria apanhar em sua armadilha –, mas uma adulação ativa que consiste em dominar sem ser dominado, em compreender, pro- cedendo de modo que ele próprio seja mal com- preendido. Não se trata de induzir um amigo em er- ro, mas de enfeitiçar um tolo sob as aparências da amizade. O fim da bajulação, por conseguinte, tor- na-se prático, técnico e militante antes de ser imoral, pois que, para calcular sua imoralidade, ainda é preciso ver contra quem ela se declara. Como se po- de perder a vantagem no caso em que o astuto re- vele seu jogo, a consciência trabalha sem cessar pa- ra vigiar seus baluartes dominantes e consolidar sua cidadela inexpugnável. A consciência do bajulador, muito perspicaz, é consciência de falsa aparência: sa- be que seu servidor imediato é um impostor, não ignora que ele parece sem ser; ela quer naturalmen- te ter as primícias de uma tal conspiração consigo. Em outros termos, ela é ciência da ignorância, cons- ciência da inconsciência. E, por pouco que a relação se inverta, ela tem sempre em sua mochila algum engano proveitoso, alguma fraude inédita, que lhe

XVI

P r e f á ci o

p

e r mi t am faz e r p e nd e r a coor d ena çã o p ara s u b or-

d

inação e a igu ald ad e para d isparid ad e. Entretanto, e

é

o qu e Plu tarco não d iz, a b aju lação será qu ase i ne-

v

i táv e l e nqu anto se op u se r e m a p ond era çã o p a ss i o-

nal d o h omem h onesto e a leviand ad e ind iferente d o

b a j u la d or. Ex pli qu e mo-nos.

A b aju laçã o, e ssa coir mã d a ar te e d o te a tr o, é ape nas u ma d a s f il h a s d o ó cio. Com o a rt e e à s e m e- l h ança d a comé d ia , e l a só e x i s te qu and o a u rg ê nci a

v i t al não se f az s e ntir. Ent r e t anto, m u i t os e l e m e nt os

a d if e r e nciam d a a rte d a ce na: e nqu ant o a c om é d i a escrita se assemelh a a u m fogo d e palh a, a coméd ia

d a vid a oferece u m terreno d u rad ou ro e propíc i o a o

ab r as am e nto, por qu a nto o b aj u la d or b ri nc a c om o

fogo; u ma vítima aparece, ele vai vê-la, põ e-na a d e s -

c ob e r t o, im it a- a, e ngana -a , e x cita se u am or- p ró p ri o;

, se a ch ama d u ra ma is te m p o qu e os b e ns am b i- cionad os, nosso velh aco retira-se. E, su pond o-se qu e tenh a sid o d esvend ad o, enqu anto o pateta s e d eb a- te e soçob ram corpo e b ens no nau frágio d a d esilu - são, o b aju lad or, econô mico, não compromete se nã o

e

u

ma parcela d e su a alma no d esastre – a ou tra, at raí -

d

a por nov as is cas , j á e stá e m p é d e g u e r r a , m u i t o

a t ar e fa d a e m e stra té gi as pr e p ar at ó r i as . Econom i a e

D ip lom acia sã o, pois, a s d e u s as t u t e l a r e s d o b aju la-

d

or. A vítima plau sível envisca-se nela mesma – c om -

p

r a z- se e m most rar o alv o d e s e u s pont os f racos;

s u a pa ix ão d i lu i-s e a o long o d e u m d e t e r m i ni s m o

v i sív e l a tod os; a o c ontr ár i o, o b aj u l a d or s a b e tirar

a d ramaticid ad e d e su a tragéd ia interior; foi d e s co-

X VII

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

b e rt o? Par te e m b u s c a d e u m nov o p a te ta . B aj u la r é

f r u st r ar, isto é , fa r e ja r as ar m ad il h as d a a d v e rs id a d e ,

mas t amb é m d e s ap a ix onar- se ou d e spr e nd e r- s e d e

s i me s mo.

Se o b aju lad or sab e atrib u ir a cad a coisa su a par- te, se ele recu sa a tirania d o ponto d e vista ú nico, para ad otar u ma mu ltid ão d eles, a b aju lação proce-

d e, então, d e u ma arte d e tocar d e leve os seres e as

coisas. Caso aconteça qu e ela seja profu nd a, qu e ela se enraíze, é sempre nu m d esígnio astu cioso. Deve-

se d izer qu e a propensão à pond eração qu e caracte- riza a maioria d as vítimas qu e ela escolh e pod e tão-

somente favorecer su a manob ra d evastad ora. Há na psicologia d os grand es h omens cercad os d e u ma mu l-

tid ão d e

Antô nio, Dionísio, particu larid ad es constantes: tod os

su cu mb em ao imperialismo d e su as tend ências, às

grad açõ es d e su a natu reza passional, à exaltação d e seu s menores d esejos, à inclinação para o sonh o, a

u ma excessiva confiança em si qu e vai até ao extre-

mo d a cred u lid ad e. O mesmo se nota nas veleid ad es

e sp or t iva s d e Al e xand r e 2 1 , no e ntu si asmo d e Ptolo- meu Evergeta II pelas ampu taçõ es cirú rgicas 22 , na h i- pocond ria d oentia d e u m Tib ério aniqu ilad o pela es- magad ora responsab ilid ad e d oimpério(60 C), novo-

lu ptu oso sentimento d e Antô nio por Cleó patra (61 A),

b aju lad ores, Alexand re, Ptolomeu , Tib ério,

nas passageiras fantasias matemáticas d e Dionísio (52 D). Em tod as essas figu ras h istó ricas, u m impu l- so, entregu e a si mesmo, prolifera ind efinid amente,

a ponto d e ocu par tod o o espaço; longe d e d esapa-

XVIII

P r e f á ci o

recer espontaneamente, tor na-se vício arraigad o ou id éia fixa; transforma-se em circu nspecção e lentid ão.

é d otad o p r od i g i osa-

mente d e tod os os mecanismos regu lad ores qu e c om -

põ em au tomaticamente a h ipertrofia d os d esejos. Sa-

Q u a nt o ao li sonje a d or, e le

b

e l im it a r a ma ni f e staç ão e xce ss iv a d e s u a s p a i x õ e s

p

ara , nu m jog o sé r i o, e s ta r e m c onfor mi d a d e com a

d

os ou tros; pod e a qu alqu er momento organizar e m

si mesmo essa concorrência d os instintos qu e os s e r-

v i d or e s ime d ia t os d a v a id ad e , m onopol iza d os c om o

s ã o por im pu ls os d e m ai s im pe ri osos, não t ê m a c a-

p acid ad e d e fa ze r f u nc i ona r. Manti d o l onge d a ob -

s

e ss ão, o b a ju l ad or i nstal a e m si m e sm o e ss a toni-

c

id a d e d as inclinaçõ e s c ont rast a nt e s: ad a p t a- s e à s

c ircu nst ânci as , pod e ap r ov e i ta r, e m qu alqu er mo- mento, a ocasião favorável, vence facilmente o retar-

d amento patético d e seu coração. Em resu m o, e l e

nã o é d e s sas na tu r e zas g ra v e s, som b ri a s , i nf l e x í v e i s , qu e t om am f ie lme nte u m a at itu d e r e s e rv a d a p a ra

c

om se u s pr az e r e s e pa ix õ e s. Está l ong e d e g ab a r

e

s se

r ad ica lis mo d o c oraçã o qu e o tor na r i a v i si v e l-

me nt e v u lne rá v e l. Consi d e r a a s al m a s d e su as v í t i- mas como m od e los d e fr ag i l id ad e , c omo p r e sas fá- ceis para o infortú nio, porqu anto elas oferecem u m

v

a st o cu r so a su as m anob r as capci osas. A i r oni a d o

b

aju lad or, essa maravilh osa d isposiçãopara a viag e m

d

a alma qu e é recu sa d a inércia, consiste em não

a par e c e r inte g ra lme nte e m ca d a mani f es ta çã o: o b a-

j u lad or p ou pa se u s r e cu rs os , nã o t om a g ra nd e s a r e s t r ágic os a nã o se r d e e nc om e nd a e j a mai s s e d e i x a

X IX

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

p

r e nd e r na h iste ri a . Compr e e nd e qu e o p ont o f ra co

d

e su as v íti ma s r e sid e nu m a h i pe r e stes i a: e l as , ca-

p

aze s d e ama r e d e od i ar pe r d id a m e nte , d e ap a i x o-

nar- se por nã o im p or ta qu e m , d e f i car e m ce gas p or

a mor- pr ó p rio, nã o v iv e m ma is ao comp a s so d o d ia-

p a são, d a j u sta ob se r v aç ão d as c oi s as , d a lu ci d e z

c rítica, mas e nt r e g a m-se a e x al ta çõ e s c om p r om e t e-

d oras e d esmed id as. O b aju lad or d esenvolve, e ntã o,

em si u ma espécie d e pru d ência egoísta qu e o imu - niza contra d ilaceraçõ es d o extremismo sentiment a l .

Mantém a cab eça fria, conced end o a si o meio d e ja-

mais s e d e se nca nta r, e m r az ão d e s ó r e p r e se ntar a

c om é d ia d a se d u ç ão. E, s u pond o- se qu e se j a d e s-

masc ar ad o e su rpr e e nd id o pe l a m á s or te , a l i nh a d e

r e tir ad a pa ra a qu a l e l e r e cu ar á coi nc id i r á c om u m novoob jetod e b aju lação. Por mais qu e Plu tarcom os- t r e com o se d e sma s car a u m b aj u l ad or, s a b e qu e não se pod e su rpreend ê-lo em flagrante d elito d e d eses- pero, d e cu lpab ilid ad e ou d e remorso. Tod a d e s ola- ção está em su a ob ra já apazigu ad a: su a verd ad eira pessoa não está lá, está sempre alh u res, a menos qu e ela não esteja em parte algu ma O b a ju l a d or não é

u m me d íocr e p ar a s i ta s e me l h a nte a essas ad u lad o- ras d e Ch ipre qu e foram cognominad as escab elos

p or qu e se a b a ix a v a m d i ant e d a s e s pos as d os reis

para per mitir qu e elas su b issem em seu c ar r o 2 3 . Não,

ele assemelh a-se antes aos sofistas, a esses trapacei- ros qu e sempre têm razão no pormenor, sem ter ra- zão no conju nto, pois qu e são, como o mostra Berg- son, paralelistas, a meio caminh o entre d u as i d é i a s.

XX

P r e f á ci o

D ifi cilme nt e se pe g a o b a j u l ad or na su a p r ó p r i a a r-

ma d ilh a por qu e e l e é l ite ralm e nt e p erf e it o. U m f u la-

no, u m d ia, ad ia ntou - se e m ple no se na d o e f i ng i u

d ir igi r ao imp e ra d or T i b é r io ce nsu r as v e e m e ntes. A

assistência imed iatamente fez silêncio. Ou viram-se, então, as precau çõ es d e u m h omem em d esespero:

qu and o, d eclarava ele em resu mo, T i b ér i o p ou p ar i a s u a saú d e e d e s ca ns ar ia, e le a qu e m cons u m ia m as

v i gília s e os c u i d a d os d e se u cargo 2 4 ? O u vind o essas ad moestaçõ es b enevolentes, o retor Cássio Severo afir m ou ir onic am e nte qu e u ma tal fra nqu e z a m at a- r i a se u h om e m. Entr e tanto, fica s e m pr e na b a ju la- ção o ú ltimo impu lso d a sincerid ad e, a ss i m como paira incessantemente acima d a incu lpação, ou d a

c ond e naç ão à morte , a p r e s u nçã o d e i nocê nci a. O

b a j u lad or s ab e -o b e m; qu anto m a is á gi l , m ai s s e t or-

na inat ing ív e l, qu a nto m e nos s u s pe i to, m e nos at i n-

g ív e l; como o e scam ote a d or d e Je rô ni mo B osc h , e l e

s ob r e ssai e m su t iliz ar u m ob stác u l o, e m m arca r a s

cartas, para fazer crer em su a d ed icação, em su a p r o- f u nd id ad e . A b a j u l ação pr oce d e d e u ma g r a v i d a d e

olú v e l . Enqu anto a pr e sa é a tr ae nt e , e la r e p r e s e n- t a o pa pe l d o a nc or ad ou r o; é ma i s r e al qu e a p r ó -

v

p

ria r e alid a d e , f i ng e se d e nta ri e d a d e , im ob i l i za - se ; o

p

ale r m a qu e f ic a ma ra v il h a d o, a ss i m como N a rcis o,

d

e e ncont rar u m ou tr o e g o e x pa nd e - se , ab r e os c or-

d

õ e s d e s u a b olsa a o me sm o te m p o qu e s e t or nam

i nf la d os os v é u s d e s e u a mor- pr ó p ri o. S e a navega- ção é d e cu rta d u ração, se a pob re rã h u m a na , d e s-

v a ir ad a d e r e c onh e c i me nto e c h e i a d e a u t o-satisfa-

X XI

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

ção, v e m a nau f ra g a r, se u a d u l ad or h a b i tu a l e sc a p a

p or u m d e sl iza me nto i ns e ns í v e l, e f az pi ru e tas, p a ra

não d iz e r s e p a v oneia , à e s p r e i ta d e u m nov o ol h a r

e

sb u gal h ad o. N e ssas as tú ci as d o b aj u la d or, já se r e conh e c e u

u

m tal e nt o p ró prio d a i nte lig ê nci a e qu e é t ão-s ó a

a rt e d e r e s v al ar. O b a j u l ad or é com o u m d anç ar i no

d e cord a qu e and asse na terra fir me em qu e rasteja m

os pa palv os , e sse s tar d í g rad os d o e spí ri t o. Long e d e

a d e r ir, longe d e pond e ra r, e l e a ti nge a e moçã o d o

ou tro com u m toqu e mu ito su til. Mesmo se fala v i g o- r osa me nt e com os d e sb oc ad os, é cont r a f e i t o qu e mu r mu ra a si me smo. C om o ator consu m ad o, d i v e r - t e - se com t od os os se nti me ntos qu e s eu a r se nal t e a-

t r a l lh e p e r mite ma sc a rar. Se m j a m ai s e x p l or a r o c o- r aç ão, e x plora a ca b e ç a; e , por pou c o qu e s e apro- xime d o apaixonad o, jamais se compromete a fu nd o, no seu íntimo ob viamente. Assemelh a-se a e ss e s b e-

b e r r õ e s qu e r e cu sa m e m b r ia g ar- se u ni c a m e nt e d o

m e s m o né c t a r, e qu e , e m v e z d e e s v a z i a r a g a r r a f a

a t é à b orr a, cr ia m pa ra s i u ma e mb ri a gu e z m u l t i co-

l or, sab or e and o com u ma me stri a d e enol og i s ta u m

g r a nd e nú me r o d e v i nh os . A lc ib ía d e s , e ss e Pa nu rgo gr e go, r e pr e s e nt av a os elegantes em Atenas, tinh a a cab eça rapad a em Es -

p

a r t a, t inh a m ane ir as g r oss e ir as na Trác i a, d e sc am -

b

av a na e fe mina çã o na Pé r si a 2 5

A l ci b ía d e s é o m o-

d

e lo su p r e m o d os b a j u l ad or e s (οÔ µε´ γιστο ς) ao m e s-

motempoqu e é od e mais agu çad a consciência: c ons -

c i ê ncia b u liç osa qu e , como Pr ote u , se su b d i v id e a o

XXII

P r e f á ci o

i nfinit o e e v it a a e s tu pid e z d o enrai za m e nt o, c ons-

c iê ncia e x t r e m a, qu e tor na ate nto p ar a o r e al e qu e

imu niza contra as estreitezas d e u ma emoção i nt ran-

s ig e nt e , cont ra a intole r ânci a d e u m fa na ti s m o e x-

c lu siv o. A e ss e e spír ito d e p i zzicato, ou d e u m l u -

d ião movente, Plu tarco censu ra seu d iletantismo, s u a

inconstância. Ora, a característica d o b aju lad or é e v i - t a r a r e pe t ição e nf ad onh a , e xce t o se é coa g i d o no exercício d e su a fu nção; é, portanto, com ju sta r az ã o qu e Alci b íad e s, pe rcorr e nd o o ca m i nh o qu e o le v a-

v a d e At e nas à cor te d e T iss af e r ne s, não s e d e t e v e

d u r ant e o t raj e to. Es s e t ri u nfo d o m ov i m e nt o a v an-

t e sob r e a ad e rê nci a aos cos tu m e s e aos d i s cu rs os t or nou -o im at e ri al , i ns e ns ív e l , d i sponí ve l e s u perior- mente incréd u lo, ao mesmo tempo senh or d os p o-

v os e d a s cois as . A b aj u la ção d e Al ci b ía d e s não p as-

s a r ia d a ir onia socr át ic a nov a me nt e c onv e r t i d a p a r a

i ns d e ad apt a çã o socia l; g ra ça s a e l a, o j ov e m c om-

f

b

at e nt e d e Pot id é ia aí far ia a d e scob e rt a d a p lu ra l i-

d

a d e ; se u s se nti me ntos, d e si s ti nd o d e s u a s ol i d ã o

s

e nh or ia l por v i zinh a nça s h u mi l h ante s, c oe x i s ti r ia m

c

om os d a m u l ti d ã o. Ne nh u m t e ma filosó f ic o é m ai s d i r e t am e nte i ns-

p ir ad o d o p e nsa me nto s of í s ti co qu e o d a b a ju l açã o,

na med id a em qu e aparência e oportu nid ad e são v a -

l or e s e sse ncia is a os ol h os d os sofi s ta s. D e ss e p onto

d e v is t a, o b aj u la d or a p ar e c e m enos c om o u m a for-

ç a ne gat iv a d o qu e sob o a s pe c to d e u m h om e m d e

a d a pt ação, nu m mu nd o d e i ns tab i li d ad e e d u p l i ci-

d a d e . Su a e xc e lê nc ia mani f e sta - s e por u m t ri p l o d o-

X XIII

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

mínio: e le d e t e r mina as apa rê nci as, acomod a as cir-

cu nstâncias, triu nfa d a mob ilid ad e. Primeir am e nt e , o

b aj u lad or sa b e r e cor r e r às ap arê ncia s e m s e u p r ó -

p rio f av or, mostra nd o- se e m qu a l qu e r ci rc u nst ânci a

s ob o a spe c to ma i s fe l iz . Assi m , só conc e d e s u a s

a t ençõ e s às na tu r e z as nob r e s , ge ne r os a s e b oas 26

qu e o acolh em calorosamente. Depois, p os su i a a r-

t e d e u t i lizar a s ci rcu ns tâncias, a pr ov e it a nd o a s oc a-

s i õ e s , s eg u nd o u m a té c ni ca qu e não é d e p r evisão, mas, antes, d e intu ição d a oportu nid ad e no moment o

e m qu e e st a se a pr e s e nta . Enf im , é h áb i l e m s e m o- ver no instável e no frágil. Essa facu ld ad e d e evolver no inapreensível e d e fazer d isso seu alim e nto d i á ri o

e v oca, b e m ant e s d o comple to d e se nv ol v i me nt o, a

f ilos of ia d e Pas ca l, p or qu anto u m a m esma i nt u i ç ã o

t rá gica d a fu ti lid a d e d e tod a b u sc a e d e t od a p os s e

a p r oxima a f riv oli d ad e se g u nd o Pl u t arco d o d i v e r ti- me nt o pascali ano.

Em su ma , e ss as h ab i l id ad e s e stão c ond ic i ona d a s

a u m r e c onh e ci me nto d o a r ti f íci o como u m p ri ncí- pio ú nico d a vid a social d o b aju lad or. O freio qu e

Plu t arc o opõ e a e ssa v i d a é o me d o d a na t u r e za , é

o

t e m or d o na t u ral , é o te r r or qu e a e s p ont a ne i d a-

d

e d o se ntime nt o ins pi ra. S ó a irru pção d e s s a s sol i-

c i t açõ e s qu e gu ia m o h ome m se m a rti f í ci o te m p or

efeitotor nar ob aju lad or pu silânime, pois qu e oa d u- l at o r é u m inc onsc ie nte : tu d o l h e é p e r m i t i d o, t u d o

lh e é possível. Qu alqu er pessoa pod e assemelh ar-s e

a ele, na cond ição d e renu nciar ao apelo d a natu rez a

XXIV

P

r e f á ci

o

(tend ências, paixõ es, apelod ocoração) e d e d ar se m - p r e pr e fe rê nc ia à a r te ou ao a rt if íci o.

Pod e r e ng a na d or nu m s e ntid o, a b aju la ção é t a m b é m ( Plu t arco nã o o d i z) u m p od e r qu e c a u s a j ú b ilo, p ois, à se me l h a nça d a perv e rsã o, t o r n a fe liz aqu e le qu e e la e ng ana . O põ e ao r e al , e s s e tr i s te de -

ce pt or, u m sim u l ac r o c i nti l ant e . S ob r ecarg a, e x ce s - s o, inf la ção d e p r e s e nça l ingu age i ra ou e s p ac i a l, a b aj u la çã o r e c u pe ra o qu e se a rr a sta na r e a l i d a d e , p ara lh e d a r u m r e c r e s c im e nt o d e v ol u m e . Sob s e u império, a mais miserável aparência existe noespaço,

ar

qu e ia o b u st o ta l como ma ta- m ou r os, p av one i a- s e

e

t e nd e p ara a e x ib iç ão com p l ace nte d e s u a for m a.

Es se tr i u nfo d a b a j u l ação su sc i ta u m a i nt e r r og aç ã o

s ob r e a ling u ag e m f ranca , p or qu e se o b a ju l ad or t e m e m nó s u ma p r e s a f áci l é qu e noss a s u f i c iê nc i a nos cega e nos tor na reb eld es à franqu eza d e nossos am ig os 2 7 . É pr e ci so s e r s i nce r o? Tod as as v e rd ad e s s ã o b oa s d e ou v ir?

Plu t arco r e sp ond e s e m r od e i os. A s i nce ri d a d e é em ab solu toincond icionalmente b oa, pois é nela qu e se nota a ocorrência instantânea d a coragem. D iz e r

a ve rd ad e a qu e m a m amos é o me s m o qu e t om ar a

d ecisão d e d iz e r o qu e somos. Nos d oi s c a sos, a as-

su nção efetiva d a verd ad e exige u m violent o e s f orç o

s ob r e si, u m a v i tó ri a s ob r e o inte r e s se. Em m a t é r i a d e li b e r d a d e d e pa la v ra (π αρ ρ η σ´ι α) , a ú ni ca oc as i ão qu e se j a d ad a a o a m i g o d e pr of e ri r u ma s e m i v e r d a- d e é a lít otes, essa pseu d ologia irô nica, qu e su põ e o

X XV

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

extremod esd ob ramentod a consciência. Posta por Plu -

tarco na categoria d as técnicas d e franqu eza 28 , ela não

é

f alsa; p r opõ e -nos some nte i nd u zi r- nos à v e r d a d e

p

e la v ia ind ir e ta d a s i mu la ção: longe d e manob rar

por egoísmo, ela nos experimenta par a ver se sab e- remos compreend er. A exemplod ociru rgiãoqu e não

engana o d oente escond end o-lh e o b i st u r i , p oi s qu e

é

p a ra seu b em, o h om e m d e ta to (οÔ χ αρ ´ιε ι ς) p od e

d

e ixa r e m su sp e nso su a i nt e nção d e falar a verd ad e,

a

menos qu e d ilu a em algu mas d oçu r as l i ng u ag e ira s

qu e e xigi rão d e ci fra ção e i nt e rp r e t a ç ã o 2 9 . A qu e s t ã o

d

a f r a nqu e z a d e l i ne i a u m a s e p araç ão e nt r e a m i z a-

d

e e ad v e rs id ad e , e ntr e b aj u lação h ipó crita e fran-

qu eza h ostil. Com efeito, a vigilância qu e o olh ar crí- tico d e u m ad versário nos i mp õ e e xi ge m a i s d e nó s qu e o d e sl e ix o c om o qu al ou v im os noss os p a r e n- t e s. O t r at ad o C om o tir a r pr ovei to de se u s i ni m ig o s

p

r opõ e -se m os tr ar, c omo d i ssemos, d e qu e maneira

u

m h omem d e Estad o (ou u m s impl e s c i d a d ã o) p o-

d

e ap r ov e it ar a s c e nsu ra s d e s e u s i ni mi g os p e s s oa i s

p

ara me lh orar, c omo conv e rte r á a s cr í t i cas qu e qu e r

m anif e st ar a ou tr e m e m inju nçõ es morais em face d e si mesmo, como su por tará pacientemente a injú ria,

como aprend erá a e xe rc e r o d om í ni o e c om o s e r á

e ne r oso p ara com s e u s a d v e r sári os. Re conh e c e -se a í u m a fid e li d a d e à fi l osofi a e s t ó i- ca qu e foi elab orad a qu atrosécu los antes d e Plu t a rc o,

g

a

pa r t ir d os anos 3 0 0 a nte s d e nossa e r a . O s nom e s

d

os g rand e s r e p r e s e nt ante s d e ss a corr e nt e d e p e n-

XXV I

P r e f á ci o

na ob r a

d e Plu tarco, qu e lera e med itara mu ito esses au tores,

mesmo no lu gar em qu e u ma escrita espontânea nã o p ar e cia e st ar se r v ind o d e b ase a u m a p r e c i sã o téc-

nica. Essa fid elid ad e a u ma d ou trina já antiga não d e-

v e cau sar ad m ira çã o; as f i l os ofias antig as tinh am o

impacto temporal d as religiõ es, emb ora f ossem re- servad as a elites intelectu ais. Compr e e nd e - se , e nt ã o, qu e nã o te nh am soçob r ad o na ob sol e sc ê nc ia , c om o seria o caso d e nossos sistemas contemporâneos qu e

v i ve m , como d iz ia Bar th e s, a e v ol u çã o d a “ p e qu e-

na h ist ó ria” . N o te mpo d e Pl u ta rco, e nt ã o, o e st oi-

c ismo se põ e a ind a o pr ob le m a d a fe l i ci d ad e e c on-

t i nu a a r e f le ti r sob r e o id e al s api e nci al . A r e s p e i to

d a ad v e rsi d ad e , o h om e m sáb i o não d e v e m a ni fe s-

t a r ne nh u m a inqu ie tu d e . Com e f e i to, a s e g u r a nça, summum d ob em qu e ele procu ra, ad qu ire-se por u m

t r ab alh o d e impr e gnação le nta; é s u f i ci e nte , à f or ç a

d e t r e ino e d e a sce s e , c onv e nce r- se d e qu e os s ofri-

ment os e a mor te não s ão nad a, e qu e a c om p r e e n-

s ã o d a a d v e r sid a d e , a inte g raç ão d o i nf ort ú ni o e m nossa p ró p ria v i d a , pod e m f ort al e ce r a se g u ranç a

i nt e r ior qu e p r ocu r am os . Entr e ta nto, Pl u ta rco não é

S ê ne ca e e le c once d e a me l h or pa rt e à a fe tiv idade

no mome nt o e m qu e o f il ó s of o lat i no t e nt a a b sol u -

t a m e nte e rra d i cá -la . O a fe to, s e g u nd o as i ns tâ nc i a s ma is r ad ic ais d o e s toi c is m o, nã o pa ss a d e u m a e x c i- tação local, u m fenô meno parasita qu e se enxerta e m nossos ju lgamentos, nad a em su ma qu e possa d es a -

f i a r os tr ib u na is d a Ra z ã o. Plu ta rco, como m e d i ad or,

s a me nt o sã o fr e qü e nte m e nt e m enci onad os

X XVII

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

acolh e a posição d e Aristó teles qu e h orroriza Sêneca:

d

e v e m- se mod e rar s u a s p ai xõ e s para u ti l i z á - l as e m

d

ose aceitável. Leiamos A constância do sábio, e v e r e-

mos qu e se trata d e extirpar d e nossa alma os imp u l-

s os m ais su spe i tos . Nã o v e jam os ne sse e m p r e e nd i-

ment o r e pr e s siv o u m a im pe tu os id ad e e x a c e r b a d a e

v inga d ora qu e pori a a m e nor v e le id ad e passional na impossib ilid ad e d e cau sar preju ízo. Consid eremos so- mente qu e d evemos aniqu ilar oafetonocasoem qu e possa ser mal refread o. Nossa alma não d eve em ne-

nh u m caso nu tr ir e m s e u se io e ssa v íb or a qu e , u m a

v e z r e animad a, iria picá- la inf al iv e l m e nte .

d a a d v e rsid a d e qu e é t a m b é m, no

s e nt id o d o tr at a d o d e Pl u tarco, cr í ti ca d e ou t r e m , o

e st oicismo d if e r e d e nó s e m nu m e r osos p ont os . Pri-

me ir o, Plu t arco, a e xe m plo d e S ê ne c a , é u ni v e r s a-

l is t a ao m e smo te m po qu e ind i v i d u al i st a . É i ss o qu e t or na su a posiç ão d i f í ci l d e com pr e e nd e r. Se g u nd o

e le , o s áb io d e v e c u m pr ir pe r f e itam e nt e s e u s d e v e- r e s , c e nt ra liza nd o su a a sce s e e m s i me sm o; i s so nã o imped e qu e ele fiqu e inexoravelmente ab erto à id é i a

d e u ma r az ão u niv e r s al , im pa rci al e qu e nã o fa z e s-

c olh a d as p e ssoa s. Cr e nd o se nsa to o d e se jo d o im-

possível, ele imagina qu e o h omem pod erá tir ar s u a

c onf ir mação d o i me ns o pod e r d a j u sti ç a e qü i t ativa e d a lei geral. Eis u ma opinião qu e contrasta c om a nos sa . N ó s c onsi d e r am os , c om o m od e r nos , qu e o

d esejosob ressai noh omem e qu e omu nd oé s om e n-

t e u m a soma d e cons ciê nci as d i fe r e nt e s qu e qu e -

Tr at a nd o-se

XXV III

P r e f á ci o

r e m aniqu i lar-s e por inv e j a, pr ose l i t i smo ou c onfor- mism o. O ra, Plu ta rco, como b om e stó i co, p õ e t od a

s u a e s pe r ança na p e r fe i ção d o m u nd o; te nta , p or-

t a nt o, u nif icar a v irtu d e (r e ce ita d a f e l i c i d ad e p e s-

soal) e a moral d os d everes para com ou trem. De s se ponto d e vista, ele compreend e qu e a per feição m o-

r a l não se m ant é m na i né rc ia; assi m , conc e b e a r e la-

ç ã o d o sáb io com se u inim i g o c om o u m e x e rc í ci o

no d e saf io qu e p e r m i te à v ir tu d e mante r- s e e m for- ma , p oi s e sta p od e pe r d e r- se , u ma v e z ad qu i ri d a, e

v olt ar at rás como u m a mola te nsa d e m a i s qu e s e

af r ou xas se .

O D e a dul a to r e e o D e c a p ienda ex ini m icis ut i-

l it at e d e pe nd e m f i na lm e nt e d o m e sm o t e m a e p o-

d e m f acilme nte j u st ifi c ar u m a pu b l i caç ão conju nt a.

O s d ois int e r e ssa m -s e pe l a qu e stão d as a p ar ê nc i a s

e int e r r oga m- se sob r e a at it u d e d o h om e m qu e a

v i d a soc ial põ e c onst ante me nte em l u t a cont ra a i l u -

s ã o. Q u a nd o o p ol í ti co é o p at e ta d o b a j u l ad or, e l e

c e d e às b e la s a p a r ê nc ia s, e ntr a d e r ep e nt e ne ss a me t a m or f os e d os v ol u m e s e d a s for m as qu e l h e f az

v e r o r e al s ob o p r is m a d e au me nto d o am or- p r ó -

p

r io. I nv e rs am e nte , qu a nd o u m ini m i go o d e sp r e za

e

o rid icu lariza , e le r e cu sa a c r í tica e põ e e m d ú v i-

d

a su a v e ra cid a d e . Ai nd a u m a v e z seu am or- p ró -

p

rio o log ra, t or nand o- o inc ap a z d e v e r a fa l h a qu e

s e d e nu ncia ne le . D e tod os os l ad os, a s f orç a s d a

fil á uci a, e ssa paixã o inv e t e ra d a d e si me s m o, im p e-

d em o h omem d e ter u m olh ar ju sto sob re as coisas;

X XIX

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

elas falseiam su a visão, confu nd em seu ju lgam e nt o e f a v or e ce m s u a d iv agaç ão nu m m u nd o e m qu e tu d o

j á é le v a d o a e ng a ná -lo, e m qu e as sim i li t u d e s i l u -

d

em. Plu t arc o e nc ontr a u m a s ol u ção p a r a e s ta g i-

g

ant e s ca “f alca t ru a ” qu e é a v id a s oci al . Ex cl u ind o

t od a m or os id ad e , m os tr a qu e é possív e l g u i ar s u a

v id a ao r e v é s d a s a par ê nc ia s, i sto é , t om and o o s e n-

t id o opos to. Se a r e c u sa d o lou v or é o p r i m e i r o p a s -

s o qu e c ond u z à b u sc a

d a i d e nt id ad e , d e i x a nd o d e

olh ar p ara s i m e sm o e pa ra s e u s ca p ri c h os, o r e s-

p eit o d a s cr ít ica s d e ou t r e m e o r e conh e c i m e nt o d e

s u a le gitimid a d e se rão o me i o su pr e m o d e ch e g ar à

v e r d ad e d e s e jad a . Em l u g ar d e ins ta u r ar u m a m or al

oci al nov a na h i stó r i a d a f il os of i a, Plu t a rc o p r ov a qu e a euth ym ia, e s s a se r e ni d a d e d o e s t ó i c o, e st a

s

a

rte d os com p r om is s os e d a s p r op or çõ e s, p e r m i t e

c

onciliar ao m e smo te m po as m ai s contr ad i tó ri as

noç õ e s : o pu r o e o im p u r o, o a m or e a i nt i m i d ad e , a fr anqu e za e o t a t o. Nu m te mpo d e c oab i ta ção p o- lítica e d e d isparid ad e social, não seria d esejável qu e

s

e u pe nsame nto, d e s afi and o o a nacr oni s m o, p u d e s-

s

e se r v i r d e b a la u st ra d a p ar a a s c orte sã s d os p r í nc i-

p es e pa ra as r iv a li d ad e s d os a mb i ciosos ?

XXX

B i b li o gr a fi a Su m á r ia

A

u lot t e , R . Pl uta r q u e e n Fr a nc e au X VI e s iècle, Pa- r is, K linck s ie ck , 1 9 7 1 .

B

ab u t , D. Pl u ta r q u e e t l e sto ïc i s m e, Par i s , 1 9 6 9 .

B

ar r ow , J . Pl u ta r q u e a n d t hi s Time, Lond r e s , 1 9 6 7 .

B

r u nt , P. A . “ S toic ism a nd th e Pr inci pate ” , P a p er s o f th e B ritis h Sc hoo l a t Rom e, XLI I I , 1 9 7 5 , p p . 7 - 3 5 .

D r onk e r s, A . I . De c om p a ra t i onib us et m et a p ho r i s apud Pl uta r c hu m, Ut r e c h t, 1 98 2 .

F r aiss e , J .-C . P hi l ia, Par is, Vr in, 19 7 4 . Fu h r mann, F. Les images de Plutar que, tese d e d ou to- r a d o a pr e se nt ad a à Uni v e r si d ad e d e Par i s, Pari s,

1 9 6 4 .

Greard , O. La morale de Plutar que, Paris, 1866. Gu th rie, W. K. C. The Sophists, Camb rid ge Universi t y Pr e ss, 1 9 7 1 . Trad . f ranc. Pay ot, r e e d . 1 9 8 8 . H ar tman, J. J. De P l uta r c ho s c ri p tor e e t p h i l os op ho, Le y d e , 1 9 1 6 . Hein, G. Quaestiones plutar cheae, Berlim, 1916. Inwood , B. Et hi c s a n d Hum a n A ctio n i n E ar ly S to i- ci s m, O x ford , 1 9 8 5 . Jones, R. M. The Platonism of Plutarch, Ch icago, 1 9 1 6 .

X XXI

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

Long, A. A. e Sed ley, D. N. The Hellenistic Philoso- p h ers, v ol. I: T ra ns la t io ns of the P r incip al S our ce s w it h Ph il os op h ic a l C om m en ta ry ; v ol . I I : Gr ee k and Latin Texts with Notes and Bibliography, Cam- b r id ge U ni v e rsi ty Pr e s s, 1 9 8 7 . Pu ech , B. Le cercle de Plutarque, 1979, tese d e tercei- r o ciclo d e Pa ris -IV.

R e noir t e , Th . Le s c on s eil s p ol iti qu es de P lu ta r q u e, Lou v a in, 1 9 5 1 .

Ziegler, K. Plutar chos von Chair oneia, Stu ttgart, 1949.

XXX II

C ro nol og i a

e a imprecisão d as d atas

relativas à vid a d e Pl u t a rc o d a m os a se g u i r a l g u ma s i nf or m a- çõ es coletad as por Vad im Valentinovitch Nikitin, especialmente para esta ed ição, sob re a vid a e a ob ra d este au tor, mas fu gin- d o aos pad rõ es qu e h aviam sid o estab elecid os para esta cole- ção. Qu ase tod as as d atas são aproximad as, d aí a necessid ad e d e virem preced id as d e c. (cerca d e).

O Ed i t or

Em razão d a escassez d e d ad os

Plu tarconasceu em c. 46 d .C., em Qu eronéia, cid a- d e d a Be ó cia p ró xi ma a De l f os , e aí t a m b é m v e i o a

f ale ce r, e m c. 1 2 0 . Filh o d e família ab astad a e influ ente, estu d ou em Qu eronéia e d epois em Atenas, ond e aos vinte anos já ou via as liçõ es d o méd ico Onesícrates, d o orad or Emiliano e d o filó sofo platô nico Amô nio. Dirigiu -se então ao Egito (apenas Alexand ria?) e d e lá à Itália, ond e viveu por vinte anos (c. 75-c. 95). Em Roma terá certamente fu nd ad o u ma escola. No fim d esse péri- plo cu ltu ral e d iplomático, em meio a u m Império Romano qu e h avia já integrad o a si a Grécia, Plu tar- co retor na à terra natal, ond e passa a ocu par altos cargos mu nicipais. Sab e-se qu e Plu tarco pertenceu ao colégio d e sacerd otes em Delfos. O Suídas, gran- d e léxico grego compilad o no final d o sécu lo X, in- for ma qu e Trajano, imperad or romano d e 98 a 117, o elevou à d ignid ad e d e cô nsu l. Eu séb io (sécu lo III-IV), au tor d e u ma “crô nica” qu e é fonte d e grand e parte d e nosso conh ecimento sob re as d atas e os eventos na h istó ria grega e romana até 325 d .C., pretend e qu e

X XXIII

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

Ad riano, imperad or romano d e 117 a 138, tenh a en- carregad o Plu tarco d e gover nar a Grécia. Mas tod o e qu alqu er registro d a vid a d e Plu tarco d eve ser lid o sempre à lu z d ifu sa d as conjetu ras. Foi só d e v ol ta a Qu e r oné i a qu e Plu ta rco p ô s- s e

a r e d igir a m ai or p a rt e d as aproximad amente d u zen-

tas ob ras qu e lh e são atrib u íd as, d as qu ais mu itos tra- tad os constitu am talvez reelab oração d e su as conf e- rências. Essa grand e prod u ção está organizad a em

d u a s se ç õ e s:

1 ) Um a sé rie d e Vi da s d e h ome ns ilus t r e s, ou Vi-

d as p a ra l el a s, e scr it as e ntr e c . 1 0 5 -c. 11 5 , qu e sã o,

e xce t o qu atr o b iog r a f ia s i sola d as , v inte e d u a s b i o-

g r a f ias d u p la s na s qu ai s a v i d a d e u m r om ano i l u s- t r e (e st ad ist a ou s ol d a d o) é cotej ad a à v i d a d e u m

g r e go ilu st r e ( R ô mu lo a Te se u , F á b i o M áx i m o a Pé- ricles, César a Alexand re, Cícero a Demó stenes, e tc . ) .

Costu ma-se d izer qu e os critérios d e comparação u t i - l i z ad os por Pl u t a rco p a ra animar tai s cot e j os f or a m

a nt e s os d e u m mor a lis ta qu e os d e u m h i s tori ad or, pois tinh am comoob jetivoapreend er e d ar a ver m a i s

os car acte r e s qu e os fa tos ou a s a ç õ e s d e se u s b i o- grafad os, mais os aspectos morais qu e os eventos p o- l í tic os e nv olv i d os no te m a. S h ak e spe a r e b ase ou -s e na tr ad u ç ão ingle s a d as Vi da s (d e S i r Th om a s N or th , 1579, feita a partir d e u ma versãofrancesa d e A m y ot )

p a r a com p or su a s tr ê s pe ças r omanas , J ú lio C és a r,

A n t ô ni o e Cl eóp a tr a e C or io l a no . 2) Uma série d e aproximad amente sessenta e c i n-

c o t rat ad os e sp a rs os , nos qu a is Mont ai g ne p ar e c e

XXX IV

r o n o l o g i a

C

t e r se insp ira d o par a e sc r e v e r se u s En s ai os, r e u ni- d os s ob o t ítu lo d e Mor a l ia . Os a s su ntos d e ss e s t ra -

t a d os , m ais c onh e c id os por s e u s tít u l os l a t i nos, s ã o e x t r e m am e nte v a ria d os , r e c ob ri nd o ét i c a , r e l i g i ã o, f i losof ia , lit e ra t u ra e assu ntos nor te a d os p or u m a apu rad a cu riosid ad e eru d ita, sempre nu m estilod e sa- f e t ad o e p le no d e pe rs onal id ad e . Faze m p a r t e d essa seção d as ob ras d e Plu tarco os textos aqu i e d i ta d os ,

C o mo tir ar p r o v eito de s eus i n imigos (c . 1 0 0 ) e D a

maneira de distinguir o bajulador do amigo, este ú lti- mo d ed icad o a Antíoco Filopapo, arc onte a t e ni e ns e d o sé cu l o I.

X XXV

COMO T I RA R PROVEI TO DE SEU S I NI M IGOS

De di c atóri a: a a dminis tr a çã o p olít ica , fo nte fe c un da de i ni miz a de s e d e ód ios .

. Ve j o, Cor né li o Pu l qu é r i o 1 , qu e e scolh e st e a ma- ne ir a m ais d oce d e g ov e r nar o Est ad o: s e m p r e a t e

1

e

s f orçar e s e m se r v i r a c omu ni d ad e , most r a s u m a

g

r and e b e ne v olê nci a pa ra com a qu e l e s qu e e m p a r-

t i cu lar t e d ir ig e m s ol i ci ta çõ e s 2 . Pod e - se c e r ta m e nt e

e nc ont r ar u m paí s ond e não h a ja a nim a i s f e r oz e s,

c omo, e nt r e ou t ra s c oi s as , se f a la a r e s p e i t o d e C r e- ta 3 , mas já se viu u ma ad ministração política qu e nã o t e nh a e x post o a qu e l e s qu e a e x e rci am a o c i ú m e d e

s e u s r iv a i s, à inv e j a e à c onc orr ê nc i a, pai x õ e s m u i to f é r t e is e m i ni mizad e s (aliá s, na f al ta d e ou t r as c au -

s a s, a s amiza d e s r e se r v am- nos i nim iz a d e s. Tal e r a a

opinião d o sá b i o Qu íl on 4 , qu a nd o e l e p e rgu nt av a

u m h om e m qu e se v a ng loriav a d e não t e r i ni m i g o

s e t am b é m nã o t inh a a mi g o) ? A s me d it a ç õ e s d e u m

h om e m d e Estad o d e v e m a poi ar-s e , p ar e c e - m e , na

a

qu e st ão d os inimi gos e nc arad a s ob t od as e s sa s fa c e- t a s; e d ev e -se t e r a t ri b u íd o u m v i v o i nt e r e s s e a e s ta

3

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

s e nt e nça d e X e nofonte 5 : qu e “ é pró pr io d e u m h o-

me m pond e ra d o t ir a r p r ov e i to d e s eu s i ni m i g os ” . Em cons e qü ê ncia , a s conv e rs as qu e t i v e r e c e nt e- mente sob re essa matéria, reu ni-as aproximad amente nos mesmos termos e envio-as a ti. Tantoqu antop os-

s í v e l, ab s ti v e -me d e i ns e r ir o qu e t i nh a e sc r i to e m meu s P r ec ei to s p o l íti cos 6 , poi s v e j o qu e t e ns f r e- qü e nte m e nt e e s se tr a tad o e ntr e as m ãos .

Vis t o q ue é i m pos s í vel nã o ter inim ig o , é p r ec is o s a ber tir a r p r ov eito de s sa s it ua ç ã o.

2 . O s p rim e ir os h om e ns l im i tav a m - se a nã o cai r e n-

t r e as garr as d e se r e s s e l v ag e ns d e u m a e s p é ci e d i f e-

r e nt e d a su a , e a í e st av a o ob je ti v o d os comb at e s

qu e e le s t rav av a m c om a ni ma is se l v ag e ns. D e p oi s ,

s e u s d e sce nd e nt e s ap r e nd e ram a u ti li z á -l os; a l i á s , não t ir a m pr ov e ito d i ss o, qu a nd o se ser v e m d e su a

c a r ne pa ra se a lime ntar, d e s e u pê l o pa r a s e v e st i r,

d e se u f el e d e s e u coal h o pa ra s e tr atar, d e se u c ou -

r o par a se ar ma r? Em conse qü ê nci a, se os a ni m a i s

f e r oze s tiv e s se m v i nd o a f a lt ar à raça h u m a na , é d e

r e c e ar qu e s u a v id a s e ti v e ss e t or na d o s e lv a ge m , i n-

d

ige nt e e b árb a ra 7 . Por c ons e g u i nte , v i st o qu e os

h

om e ns comu ns se li mi ta m a e v itar a má v ont ad e d e

s e u s inim igos, e qu e os p ond e ra d os, nod i ze r d e X e-

nofont e 8 , t ir am p r ov e i to d e se u s ad v e rs ár i os , nã o p onh am os su a p ala v r a e m d ú v id a, m as p r ocu r e m os

u m m é t od o, u ma a rte , g r aç as aos qu ai s os s e r e s

4

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

i ncapaz e s d e v iv e r s e m i ni mi g os ti rarã o a l gu m e x- p e d ie nt e v antaj oso.

O la v ra d or nã opod e tor na r f ecu nd a qu al qu e r á r-

v or e , ne m o caç ad or, d oma r o pri m e i r o anim al qu e

c h e gar ; e le s pr ocu r am , e ntã o, ou tr os me i os d e ti r a r proveito, oprimeiro, d a esterilid ad e vegetal; osegu n- d o d a selvageria animal. A águ a d o mar é p ou c o p o- t á v e l e te m ma u g os to; m as su ste nta os p e i x e s, fav o- r e ce os t raj e t os e m t od os os s e nti d os , é u m a v i a d e acesso e u m veícu lo para aqu eles qu e a u tilizam 9 .

Q u and o o sát ir o cont e mpl ou pe la pri me i r a v e z o fo-

g o, d e se j ou b e ij á -lo e a b r aç á- lo; e nt ã o, Pr om e t e u l h e d isse:

“ De t u a b arb a d e b od e c h or ará s a pe r d a . ” 1 0

O fogo qu eima qu em o toca; mas for nece lu z e

calor, serve a u ma infinid ad e d e u sos para aqu eles qu e sab em u tilizá-lo. Examina igu almente teu inimi- go: esta criatu ra, d e u m ou tro lad o, nociva e intratá- vel, não d á, d e algu ma maneira, ensejo d e ser apa- nh ad a? Não pod e prestar-se a algu m u so particu lar? Não é ú til? Mu itas coisas são igu almente penosas, d etestáveis, h ostis, qu and o se encontram no nosso caminh o. Entretanto, notas qu e certos h omens con- verteram su a d oença nu ma d oce inação física. Mu i- tos ou tros se fortificaram e se tor naram resistentes sob o império d as provocaçõ es qu e tiveram d e so- frer, ao passo qu e a perd a d e su a pátria e a privação d e seu s b ens cond u ziram raros eleitos a u m lazer

5

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

d ed icad o ao estu d o e à filosofia. Foi a d ireção qu e tomaram Dió genes 11 e Crates 12 . Zenon 13 , ao contrário, sab end o qu e o navio fretad o por ele tinh a nau fraga- d o, exclamou : “Fazes b em, fortu na, em me recond u - zires ao b u rel d os filó sofos!” É a mesma coisa para esses animais cu jo estô mago é d os mais encorread os e cu ja saú d e é d as mais vigorosas; não engolem e não d igerem serpentes e escorpiõ es? Aliás, ou tras espécies se nu trem d e seixos e d e conch as, transfor- mand o-os pela força e pelo calor d e seu sopro vital. Em compensação, os ind ivíd u os d elicad os e d oen- tios têm d ificu ld ad es em su portar u m pou co d e pão ou d e vinh o sem ter vontad e d e vomitar. Assim os imb ecis maltratam su as amizad es, enqu anto os h o- mens sensatos sab em d irigir para seu proveito mes- mo as inimizad es.

Vis to q ue nos s o i ni m i go obs erv a cu r ios a m en t e no s s a s a ç õ es , é n ec es s á r i o q ue est ej a m o s a ten tos a n ós m e s m o s , e e ss a v ig ilâ ncia t ra n s fo r m a -s e in s e ns i ve lme n te em h á b it o d e v i rt ude. A e m u l a ç ã o é u m a co nt en ç ã o m o r al .

3 . Em p rim e ir o lu ga r, par e ce -m e qu e o m ai s p r e ju -

d icial na inimizad e pod e tor nar-se o mais proveitos o, s e s e qu e r ate nt ar nis so. E d e qu e m ane i r a ? É qu e t e u inimig o, c ont inu a me nte a te nto, e spi a t u a s açõ e s; na e xpe ct ativ a d a m e nor f al h a , f ica à e sp r e i ta, e m t or no d e tu a v id a, nã o v e nd o s om e nte “ a t rav é s d os

6

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

c a r v alh os” , c om o f a zi a L ince u 1 4 , ne m “ at r av é s d e p e-

d ras e te lh as” , ma s ta mb é m at ra v é s d e te u am i g o,

t e u d omé st ico, e t od os aqu e l e s com qu e m t i v e r e s

f am iliar i d ad e , par a apanh ar d e s u rpr e s a, t antoqu an-

t o lh e f or possív e l, o qu e farás, e ap r of u nd a r ou

s ond ar t u a s r e solu çõ e s 1 5 . Com e fe i to, ac onte ce f r e- qü e nt e me nt e qu e nossos am igos ad oe ce m e ag oni-

z a m, s e m qu e sa ib am os , e nqu anto l h e s d a m os p r o-

v a d e d e sinte r e s se e d e ne g l i gê nc ia. Tr at a nd o- s e d e nossos i ni migos, ao contr ário, v am os qu a s e e m b u s-

c a d e se u s sonh os. D oe nça s, d í vi d as ou b r i g a s c on-

j u gais e s cap am mai s f acil m e nte à m e mó r i a d e s e u s

s

e rv id or e s ime d i atos qu e à d e se u ad v e r sá ri o. M a s é

s

ob r e t u d o aos e rr os qu e e ste s e pr e nd e, e v ai a o se u

e ncal ço; e d a m e sma m ane ira qu e os a b u tr e s sã o

at raíd os pe lo od or d as c arc aç as p ú tr i d a s , m as nã o

s e nt e m o od or d os c or pos s ãos e v i gor osos, as s i m

t a mb é m as p a rt e s d e nos sa v i d a qu e s ã o d oe nt ia s , f r aca s, afe t ad a s a t r a e m nos s o i ni m i g o; d e f a t o, os

qu e nos d e m ons t r a m a v e r s ã o i nv e s t e m c ont r a e l a s a p a s s os l a rg os , t om a m - na s d e a s s a l t o e d e s p e d a -

ç

a m - na s . É i s s o e nt ã o u m a c oi s a e f e t i v a m e nt e ú t i l ?

S

i m , s e m ne nh u m a d ú v i d a . I s s o ob r i g a a v i v e r c om

a u t e l a , a p r e s t a r a t e nç ã o e m s i , a na d a f a z e r ne m nad a d iz e r e st ou v a d a e irr e f le t id a m e nt e, m a s a m a n- t e r c ont i nu a m e nt e s u a v i d a r e s g u a r d a d a d e u m a

c

e

v e nt u a l c r í t i c a , c om o s e s e t r a t a s s e d e ob s e r v a r

u m r e g i m e d r a c oni a no. D e f a t o, e s s a m a ne i r a r e -

s e r v a d a , qu e r e p r i m e a s p a i x õ e s d a a l m a e r e f r e i a os d e s v i os d o r a c i oc í ni o, i ns p i r a o c u i d a d o e a

7

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

v ont a d e d e v i v e r d e m a ne i r a v i r t u os a e i r r e p r e e ns í -

v e l 1 6 . C om e f e i t o, a s c i d a d e s , qu e g u e r r a s d e v i z i - nh a nç a e c ont í nu a s e x p e d i ç õ e s m i l i t a r e s t or na r a m

s e ns a t a s , c h e g a m a a m a r b oa s l e i s e u m a política salu tar: d a mesma maneira os h omens, c om p e l i d os

p or c e r t a s i ni m i z a d e s a l e v a r u m a v i d a s ó b r i a , a

r e s i s t i r à f a c i l i d a d e e à p r e s u nç ã o, a a t r i b u i r u m f i m

ú t i l a c a d a u m a d e s u a s a ç õ e s , s ã o l e v a d os , s e m

s

a b e r, r u m o à i nf a l i b i l i d a d e , e s e u s c os t u m e s a d qu i -

r

e m u m a r e g u l a r i d a d e e d i f i c a nt e , p or p ou c o qu e a

r

a z ã o v e nh a e m s e u a u x í l i o. O p e ns a m e nt o:

“Q u e pra z e r p ara Pría mo e os f ilh os d e Pr í am o!” 1 7

qu and o o temos sempre no espírito, d esvia, afasta,

d istancia d e tu d o o qu e pod e alegrar os inimigos e

su scitar seu riso. Consid era os artistas qu e figu ram

nas Dionisíacas: nó s os vemos relaxad os e ind olentes em representaçõ es d esprovid as d e rigor, qu and o no

teatro estão apenas entre eles; mas tod as as vezes qu e h á concu rsoe rivalid ad e com ou tros gru pos, eles red ob ram a atenção não só na interpretação d e seu s papéis, mas tamb ém nou sod os instru mentos d e mú - sica: afinam-nos, cu id am mais minu ciosamente d a

h armonia d oconcertoe d oacompanh amentod as flau -

tas 18 . Em conseqü ência, aqu ele qu e sab e qu e seu ini- migo é u m concorrente, tanto no plano d a cond u ta como no d a repu tação, presta mais atenção em si, olh a o efeito d e seu s atos com circu nspecção, regu la melh or su a cond u ta. Com efeito, é igu almente u ma

8

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

particu larid ad e d o vício ter mais vergonh a d os inimi- gos qu e d os amigos, qu and o se age mal. Dond e esse d ito d e Nasica 19 , qu and o pessoas pensavam e d iziam qu e o pod erio romano estava d oravante fora d e peri- go, apó s a d estru ição d e Cartago e a su jeição d a Gré- cia: “Pois b em! É agora”, d isse ele, “qu e estamos em perigo, porqu e não d eixamos a nó s mesmos rivais qu e possam inspirar-nos temor ou vergonh a.”

A i nvej a de nos s o s inim i gos é um co nt r a pes o à no s s a n egl i gê nc i a . Além dis s o, nó s no s vi ng am os uti l mente de u m i ni m i go a f li gin d o - o c o m o no s s o p r óp ri o a p er feiç oam en to m or al .

4 . Ac r e sc e nt a a ind a a i sso a r e s posta d e D ió ge ne s,

t ã od igna d e u m f iló sofoe d e u m h ome m d e Es tad o:

“C om o m e d e f e nd e r e i c ont ra me u i nim i g o? – Tor- na nd o- t e t u pr ó p r i o v i r tu oso.” 2 0 S e v ê e m qu e s ão ap r e ciad os os c av a los d e s e u ini m ig o e e l og i a d os s e u s c ã e s, a s p e ssoas la me nta m- s e . S e v ê e m s u a s t e r r as b e m c u ltiv a d a s e se u j a rd i m f l ori d o, e x p e ri- me nt a m u ma g r and e tr is te z a. Qu e su c ed e r á , e m t u a op inião, se d á s p r ov a d e e qü id ad e , d e b om s e ns o, d e s olic it u d e , d e p r ob i d a d e nos d i s cu rs os , d e i nt e- g r id ad e e m te u s a t os , d e d e c ê nci a e m tu a c ond u t a, “colh e nd o os fr u tos e m te u c oração d os e nor m e s s u lc os, te a tr od e c r e s ci me ntod e nob r e s d e s í gnios ” 2 1 ?

“Vencid os, os h omens são acorrentad os a seu mu tismo” 22 , d iz Pínd aro; essa ob servação não é nem

9

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

ab solu ta nem válid a para tod os, mas concerne aos qu e se vêem vencid os por seu s inimigos em vigilância, em civismo, em grand eza d e alma, em b eneficência e em

h u manid ad e. Eis o qu e “paralisa a língu a”, como d iz

Demó stenes, “fech a a b oca, su foca, faz calar” 23 .

“S ê d i fe r e nt e d os mau s , is so d e pe nd e d e t i.” 2 4

Q u e r e s mort if ic ar a qu e l e qu e te od e i a? N ã o o

t r at e s d e h omoss e x u a l, d e e fe minad o, d e d i ss ol u to,

d e t r u ão ou d e m e s qu i nh o; m as comp or ta- te r e al-

ment e c om o h ome m , s ê mod e r a d o, d i z a v e rd a d e ,

p r oce d e h u m ana me nte e c om ju st i ça c om a qu e l e s

qu e e ncont ras. M a s s e cr ê s qu e é s ob ri g ad o a ch e-

g

ar às i nj ú r ia s, a fas ta -t e o mais p os sí v e l d as d e sor-

d

ens qu e lh e a tr ib u is . Sond a o â m a go d e tu a a l m a,

e xamina su as fa lh a s , par a não te e xpor e s a ou v i r

d ize r b a ix i nh o, por a l gu m v í ci o ocu l to nã o se s a b e

ond e e m ti me s mo, e s te v e rso d o poe ta t r ág i c o:

“Qu e r e s c u ra r ou t r e m, qu a nd o r e gu rg ita s d e ú l ce r a s!” 25

Tu o trat as d e ignor ant e ? Re d ob ra em t i o ard or

p

e lo t r ab a lh o e o gos to pe l as c iê nci a s. D e c ov a r d e ?

R

e av iv a t u a au d á ci a e tu a b ra v u ra . D e l a s c i v o e d e

d

iss olu t o? Apa g a d e tu a a lm a tod o v e s tí g i o d e t e n-

d

ê nc ia à v olú pia qu e e l a pod e te r c onse r v a d o s e cr e-

t am e nt e . C om e fe i to, na d a s e ri a ma i s v e rg onh os o ne m m ais mort if ic ante qu e v e r r e cai r sob r e s i a c e n-

s u r a qu e se t e ria f e i to a ou tr e m ; m as os olh os f r ac os

1 0

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

p ar e ce m se r f e rid os m ais v i v amente p ela r e v e rb e ra -

ç ã o d a lu z, e os acu sa d or e s pe l a s ac u s a ç õ e s qu e a

v e r d ad e f az r e ca ir sob r e e l e s . Exat ame nt e c om o o

v e nt o d o norte r e ú ne as nu v e ns, u m a c ond u t a m á at rai a si j u st a s c e nsu r as.

Nã o a tr ib ua m os a o ut r em

d ef ei t os que p os suím os .

5. Tod as as vezes qu e Platão se tinh a encontrad o no meio d e h omens d e costu mes d issolu tos, costu mava ao d eixá-los d izer a si mesmo: “Não sou eu pró prio, por acaso, u m d e seu s semelh antes?” 26 Se aqu ele qu e censu rou amargamente a cond u ta d e u m ou tro exa- minar logo a su a e a refizer, d and o-lh e u m d esvio e

u ma d ireção em sentid o inverso, colh erá os fru tos d e su as injú rias. De ou tra maneira, elas parecerão ser inú teis e vãs, e, com efeito, são. A mu ltid ão comu - mente ri, sem d ú vid a, se vê u m calvo ou u m corcu n-

d a d ifamar ou escar necer u m ou tro sob re su as d efor-

mid ad es, mas é ab solu tamente rid ícu lo ou sar fazer ao pró ximo u ma censu ra qu e ele pod e fazer voltar con- tra nó s. Assim, Leão d e Bizâncio, inju riad o por u m corcu nd a a propó sito d e su a vista fraca, respond eu -

lh e: “Atrib u is-me a responsab ilid ad e d e u ma d esgraça mu ito h u mana, qu and o trazes sob re tu as costas as marcas d a vingança celeste.” Não acu ses, portanto,

u

m h omem ad ú ltero se és lou co pelos jovens, nem

u

m ser d issipad or d e su a fortu na se és avaro.

1 1

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

“ De u ma m u l h e r h om i ci d a 2 7 és i r mão p e l o s an-

g u e ” 2 8 , d izia A lc me ã o a Ad r as to. Qu e l h e r e sp ond e u

e le ? C e ns u r ou -lh e não o c ri m e d e u m ou t r o, m a s o s e u pr ó p rio crime :

“Por t u a mã o p e r e c e u a mãe qu e te f ez na sc e r. ” 2 9

D om í c i o d i z a C r a s s o: “ E t u , nã o é v e r d a d e qu e ,

qu a nd o m or r e u u m a l a m p r e i a qu e m a nd a v a s a l i - m e nt a r nu m v i v e i r o, c h or a s t e ? ” O ou t r o e nt ã o r e t or - qu i u : “ M a s t u , nã o é v e r d a d e qu e , p or oc a s i ã o d o e nt e r r o r e s p e c t i v o d e t u a s t r ê s m u l h e r e s , nã o d e r r a - m a s t e u m a l á g r i m a ? ” 3 0 C r ê s qu e p a r a t e r d i r e i t o d e c e ns u r a r b a s t a s e r h om e m d e e s p í r i t o, f a l a r c om v oz f or t e e t om c a t e g ó r i c o? N ã o, é p r e c i s o e s t a r r e s -

g u a r d a d o d e t od a a c u s a ç ã o e d e t od a

e f e i t o, a ne nh u m ou t r o, p a r e c e , o d e u s r e c om e nd a t a nt o a p r á t i c a d o “ c onh e c e - t e a t i m e s m o” c om o a o h om e m qu e s e i nt r om e t e e m c e ns u r a r ou t r e m , r e - c e a nd o qu e , d i z e nd o t u d o o qu e l h e a g r a d a , s e e x - p onh a a ou v i r c oi s a s qu e l h e d e s a g r a d a m . C om e f e i t o, s e g u nd o S ó f oc l e s , “ a c ont e c e c om u m e nt e ” qu e t a i s p e r s ona g e ns

c e ns u r a . C om

“nã o se d om ina nd o e m su a v ã t ag ar e lic e , ou v e m e mp r e g ar c ontra a su a v onta d e a l i ng u a g e m qu e t inh a m manti d o c om pra ze r s ob r e u m ou tr o” 3 1 .

1 2

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

M a neir a s de r ec e be r a s cen sura s de o utr e m .

6 . Ei s o qu e h á d e ú ti l e d e pr ov e itoso na s a d m oe s- t a çõ e s qu e se f az e m a u m i ni mi go; m as o f a to não é

menos v e rd ad e i r o e m se nti d o contr ár io: qu a nd o se

é ví t im a d as i nj ú ri as e d as c r ít ic as d e s e u s ini m i g os . Por i sso, Antíste ne s d i z ia c om razã o qu e , p a r a os qu e se p r e se r v am , h á ne ce s s id ad e d e am i g os s i nc e-

r os e inimig os a rd e nte s: u ns nos afasta m d o m a l p or

s u as ad v e rt ê nc ia s, os ou tr os , por su a ce ns u r a 3 2 . Ma s

i st o qu e h oj e a a mizad e só e l e v a fracam e nte a v oz , qu a nd o se tr ata d e fal ar com franqu eza, e qu e, ver-

v

b

osa na lisonja, é silenciosa nos conse l h os , é d a

b

oca d e nos sos ini mi gos qu e nos é pr e c i s o ou v ir a

v

e r d ad e. Com e fe i to, as si m como Té le f o, não p o-

d end o s e r tra tad o p e l os se u s, e ntr e gou se u fe ri m e n-

t o à lança d o inim i g o, as s im t am b é m aqu e l e s qu e

nã o pod e m u su f ru i r a d v e r tê nci as fav orá v e i s d e v e m

f orçosa me nte e scu tar com pa ci ê nci a a s c e ns u r a s d e

u m inimigo 3 3 , se e l e d e nu nci a e r e pr i me se u s v í c ios ,

e d e t e r-se me nos na m á i nt e nç ão qu e o d i ri g e d o qu e no se rv iço r e al qu e e l e l h e s pr e sta . U m h om e m

qu e r ia f az e r pe r e c e r Pr om e te u , o Te ss ál i o 3 4 . F e r i u - o

c om s u a e sp a d a e fu r ou u m fl e gm ão, d e s or t e qu e

l h e salv ou a v id a , li v r and o- o d e sse a b ce s s o qu e s e

a b r iu . Tal é mu it a s v e z e s o e fe i t o d e u m a m a l e d i-

c ê ncia d it ad a p e la c ó l e r a ou p e l a ini m i z ad e : e l a c u ra nossa al ma d e u ma d oe nça i ns u s pe i ta qu e t í nh a mos

ne glige nc iad o. M as a s p e ssoa s, e m su a m ai or p art e ,

qu a nd o são c e nsu ra d a s, não pr ocu r am sab e r s e e s-

1 3

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

s a s r e pr im e nd a s tê m f u nd am e nto, m a s u s a m r e c r i- minaçõ e s e ac u s am se u a gr e s sor d e u m v í c io d i f e-

r e nt e . I mita m ni ss o a a rt im anh a d e l u t a d or e s e m

c

om b at e com a poe i r a: no lu g ar d e se l i v ra r e m p e s-

s

oa lm e nte d os d e fe i tos e sti g ma tiza d os p or s e u s i ni-

migos, b orrifa m-s e m u tu am e nte com el e s, d e s or te qu e , na pe le j a e m qu e su cu mb e m alte r nad am e nte ,

s e ac h a m e ntão e nod oa d os e e ne g r e c i d os . N ã o s e -

r i a m a i s r a z oá v e l , ne s s as oc as i õ e s , corr i g ir o v í c i o qu e nos ce nsu ra m, c om ma ior c u i d ad o d o qu e s e t i -

r ásse m os d e nosso manto u m a nó d oa qu e nos t iv e s-

s e m m ost ra d o? S e nos atri b u e m d e f ei t os qu e nã o

t e m os , d e v e m os p r oc u r a r a c a u s a d e s s a c a l ú ni a , e

a p l i c a r- nos , a p od e r d e v i g i l â nc i a e a p r e e ns ã o, e m nã o c om e t e r, s e m s a b e r m os , u m a f a l t a s e m e l h a nt e ou a ná l og a à qu e l a qu e nos c e ns u r a m . A s s i m , L a -

c i d e s , o r e i d e A rg os , c om o s u a c a b e l e i r a e r a p e n-

c om e x -

t e a d a c om d e m a s i a d o c u i d a d o, e a nd a v a

c e s s i v a d e l i c a d e z a , t or nou - s e s u s p e i t o d e f r ou x i -

d ão: omesmoaconteceu com Pompeu 35 , qu e t i nh a o

c os t u m e d e c oç a r a c a b e ç a c om u m d e d o s ó ; e nt r e -

t a nt o, e l e e s t a v a m u i t o l ong e d e m os t r a r - s e e f e m i - na d o ou u m d e v a s s o d e s e nf r e a d o. A c u s ou - s e C r a s -

s

o 3 6 d e m a nt e r u m a l i g a ç ã o c om u m a d a s v i rg e ns

s

a g r a d a s 3 7 p or qu e , d e s e j a nd o c om p r a r- l h e

u m a b e l a

p r op r i e d a d e , l h e f a z i a u m a c or t e a s s í d u a , s e m t e s -

t e m u nh as , e a c u mu l av a d e a m ab i l i d a d e s. Pos tú m i a ,

mu itopronta para rir e ou sad a d emais para falar c om os h om e ns , f oi d e s a c r e d i t a d a a p ont o d e s e r a c u s a - d a d e i m p u d i c í c i a . É v e r d a d e qu e f oi i noc e nt a d a ;

1 4

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

m a s , a o t e r m o d a a b s ol v i ç ã o, o g r a nd e p ont í f i c e Es -

p ú r i o M i nú c i o f ê - l a l e m b r a r- s e s u b s i d i a r i a m e nt e d e

qu e t i nh a d e s e r t ã o r e s e r v a d a e m s e u s d i s c u r s os qu a nt o e m s u a c ond u t a . Q u a nt o a Te m í s t oc l e s , qu e f oi r e c onh e c i d o i noc e nt e , t or nou - s e s u s p e i t o d e t r a i ç ã o e m v i r t u d e d e s u a a m i z a d e c om Pa u s â ni a s

e

d a s c a r t a s f r e qü e nt e s qu e e l e l h e e nv i a v a 3 8 .

ã o s e de ve m des p r ez ar a s cens ur a s ,

N

m es m o que e l a s n ão s e j am fund a da s .

7

. Em conse qü ê nci a, s e se d iz d e ti al g o fal so, nã o

d e v e s d e sp r e z á-lo ou ne g li g e nc i á-l o, por s e r me nt i- r a . Exam ina a o contr ári o e m tu as pal avr a s , t u a con- d u t a, t u a s ati v id ad e s d e p r e d il e ção, tu as r e l açõ e s, t u d ooqu e pô d e se rv i r d e pr e t e xtoà c al ú ni a, d e p oi s r e sg u ard a -t e d iss oe f og e ! Com e fe i to, se ou tr os , v í ti- ma s d e inf ort ú ni os im pr e v is tos, ti r ar am d a í li ç õ e s p r ov e it osas , a ss im c om o e ns ina Mé r ope :

“O i nf ort ú ni o, é v e rd ad e , d e u -me a sa b e d or i a , mas ao preço d e seres caros, ob jetos d e minh a ternu ra” 39 ,

qu e nos im pe d e d e t om ar a s li çõ e s g rat u i t as d e u m i nim igo e tirar p art i d o d i ss o pa r a a pr e nd e r u m a p a r- c e la d o qu e nos e s ca pa? De fa to, e m m u i t os p ont os

a c lar iv i d ê nci a d o i ni mi go é m ai or qu e a d o a m i g o

– “ o amor é c e g o a r e spe it o d o qu e e le a m a” 4 0 , com o d iz Plat ão; o ó d io u ne a inte m pe ra nça d a l í ng u a a o

1 5

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

gosto d os tagarelas. Hieron foi censu rad o por u m d e seu s inimigos por ter mau h álito; d e volta a casa, d isse à su a mu lh er: “Qu e significa isto? Por qu e não me falaste jamais a respeito d e tal coisa?” Mas ela, qu e era tãosimples qu antocasta, respond eu -lh e: “Ach ava qu e tod os os h omens ch eiravam d a mesma maneira.” Assim, é por nossos inimigos mais qu e por nossos amigos e familiares qu e pod emos tomar consciência d e nossas manias, d e nossas fraqu ezas corporais e d e nossos d efeitos mais d iretamente perceptíveis.

É pr ec is o s up or ta r c o m do ç ura a s b rinc a de ir a s e a s ma l edic ênc ia s: e s s a p a c i ênc i a é u m m e io m uito e fic a z d e a pr ender a dom ina r sua lín g u a .

8. Mas d eixemos essa qu estãopara tratar d od omíni o qu e se d e v e e xe rce r s ob r e a p r ó p ri a l í ng u a : nã o es- tá aí u ma parte d iminu ta d a virtu d e. Ora, ficar-se-á i mposs ib ili ta d o d e m a nte r s u a l í ng u a sob o c ontr ol e

e a au t orid a d e d a r az ão s e , a p od e r d e e x e rc í c i o e

d e t r ab a lh o assí d u o, não se t ri u nfou d a s ma i s d e t e s- t áv e is p aixõ e s t a is como a c ó le ra, por e x e m p l o. O d isc u r s o qu e jorra i nv ol u nt ar ia mente , a

“ pa la v ra qu e d os d e nte s tra nspô s a b ar r e ir a ” ,

e o f at o d e qu e

“c e rta s e x p r e s s õ e s le v a nt a m v ô o e s ponta ne a m e nt e ” 41 ,

1 6

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

i sso acont e ce g e ral m e nte aos e spí ri tos c om u ns qu e segu em su a inclinaçãoe flu tu am aosab or d e su a p u -

s ilanim id a d e , d e s e u j u l g am e nt o d é b i l, d e s u a c on-

d u t a ir r e f l e tid a . Or a, a pal av ra, coi sa v ol atil í s s i m a,

e x põ e - nos , como nos e ns i na o d i v i no Pl a t ã o, aos

mais pe sa d os ca st ig os qu e d e u s e s e h om e ns p od e m

i nf ligir 4 2 . M a s o sil ê nci o j am ai s te m cont as a d ar ; não

s ó não c au sa s e d e , como o d iz Hipó cr at e s 4 3 , m as d á ao h ome m d if a ma d o u m tr aço d e nob r e z a, u m a ma rca socr át ic a, ou mais e x atam ente u ma qu al i d a d e

h e ra cliana, se é v e rd a d e qu e e sse h e ró i

“nã o se i nqu ie t av a ma is c om a s ca lú ni a s d o qu e c om

[ u m a mosc a zu m b i d ora” 4 4 .

Nad a é mais nob re, segu ramente, nad a é mais b e l o

qu

e e ss a at itu d e t ra nqü il a d i ante d os i nsu l tos d o i ni-

mi

go:

“Su p ort am - s e m u i ta s gr a çola s pa s sa nd o

c om o u m m ar inh e ir o ao largo d os e s colh os” 45 ,

mas o e xe rc íci o a í le v a d o a e fe i to te m mai or m é r i t o. Um a v e z ac os tu ma d o a su porta r e m si lê nci o a s i njú -

r i as h ost is, su p or ta rás m ai s f ac ilm e nte os ar r e b ata - me nt os d e u ma mu lh e r qu e te i nju r i a, ou v i r ás se m

e moç ão as p al av r as of e ns iv as d e u m a m i g o ou d e

u m ir m ã o; e qu and o te u p a i ou tu a m ãe t e d e r e m

p anca d as ou te la nç ar e m a l g u m ob j et o no r os t o,

a ce it ar ás a of e ns a se m c ó l e r a e se m r e ss e nt i me nt o.

1 7

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

S ó cr at e s su p ort av a X ant ipa 4 6 , qu e e ra i rri t áv e l e acr i- moniosa, a fim d e qu e o h á b i to qu e c om i s s o ad qu i-

r is se o tor na sse ma is d oce aos ou tr os. Entr e tant o, é

mais b e l o qu e se j a c ont ra inim i gos e es tr a nh os qu e nos e xe rcite m os e m s u p or tar com se r enid ad e a s i n-

s olê ncias , os arr e b at am e nt os , os m ot ejos, os u l t r a-

j e s, par a h ab i tu a r nos s o h u mor a pe r m ane ce r t ran- qü ilo e a não s e ir ri t ar c om as i nj ú ri as .

A g ener o s id a de p a r a c om um i ni m ig o é u m a p r o p ed êut ic a p a ra a gr andez a m or al.

9. Doçu ra e tolerância: eis oqu e ostentamos em nos-

sas inimizad es. Acrescento qu e nossa retid ão, nos sa

r and e z a d e al ma , nos sa b ond ad e p od e m a í ma ni- festar-se melh or aind a qu e em nossas amizad es: s e m

g

d

ú v id a h á m e nos m é rito e m pr e sta r u m se r v i ç o a

u

m amigo d o qu e vergonh a em recu sá-lo, se ele te m

ne ce ss id ad e . S e m d ú v i d a não se v i ng ar d e u m i ni- m igo, qu and o a oca s ião se a p r e se nt a, é h u ma ni d a-

d e! M a s c omp a d e c e r-s e d e le qu a nd o es tá p r os tr ad o

e assi st i- lo qu a nd o e st á na mi s é ri a, te r a t e nç õ e s p a r a

c om se u s filh os e oc u pa r- s e d e s e u s i nte r e ss e s qu e

p

eri clit am, o h om e m qu e nã o se nt e a ge ne r os i d a d e

d

e u ma tal cond u ta, qu e nãolou va essa virtu d e, e ss e ,

“d e a ç o ou d e f e rr o é f or j a d o se u c or a çã o ne g r o” 4 7 .

1 8

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

Q u and o C é sa r ord e nou qu e foss em r e e rg u i d as

as e st á tu as tr iu nf a is d e Pompe u qu e t i nh a m s i d o

l anç ad as por t e rra , Cí ce r o d i s se - l h e : “ Re e rg u e nd o a s

e

s tát u as d e Pompe u , cons ol i d a s te as t u a s . ” 4 8 Em

c

ons e qü ê ncia , não se d e v e s e r a v ar o d e l ou v or ou

d e h om enag e m a se u ini mig o, qu and o e l e m e r e ce a

r e pu t açã o qu e s e qu e r atri b u ir-l h e . Os qu e e x a l ta m

s ã o m ai s e x a lt ad os; e a s ce ns u ra s d iri g i d as a u m

d esse s u m a ou t ra v e z i ns pi ram m ai s c onf i a nç a , v i st o

qu e p ar e ce m d itad a s nã o pe l o ó d i o d o h om e m , m as

p e la r e pr ov a çã o d e s u a cond u ta . M as o qu e h á d e

mais b e lo e d e ma i s ú ti l é qu e , tom a nd o o h á b it o d e l ou v ar nossos inimi g os , d e nos d e fe nd e r d e t od o

r a ncor e d e tod a tort u r a à v i s ta d e s e u s u c e ss o, nos

afast amos ma is d e s sa i nv e j a qu e e xc i ta m e m nó s

c

om m u ita fr e qü ê ncia a f e li ci d a d e d e noss os a m i g os

e

o su ce ss o d e nos s os f am il i ar es . Or a , qu e ou t r o

e

x e rc ício é ma is ú ti l pa ra a a lm a, e m e lh or a d isp õ e ,

qu e aqu e le qu e e x ti ngu e e m nó s tod o i ns t i nt o d e

r

i v alid ad e e inv e j a ? Com e f e i to, a ss i m com ona gu e r-

r

a h á t od as a s e sp é ci e s d e ne c e ssi d ad e s , a l i á s m á s,

qu e , t or nad as c ost u m e s e te nd o for ça d e l e i , nã o

p od e m se r fa ci lme nte s u p rim i d as , m e sm o qu and o

nos contr ariam; d o me s m o m od o a i nim i z a d e , p e l a

ú

nic a r az ão d e int r od u z ir e m nó s, ju ntam e nt e c om o

d io, u m s e nt im e nt o d e i nv e j a , d e i xa e m d e p ó si t o na s u a p a ss age m a d e s conf i anç a e o r e g oz i jo qu e vêm d oinfortú niod os ou tros, orancor enfim 49 . A l é m

ó

d

isso, qu a nd o a ma l d a d e , a a stú c i a, o gost o d a i nt ri-

g

a, qu e não p ar e ce m s e r coi sa s cond e náv e i s ou i ní-

1 9

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

qu a s com r e s pe i to a u m i nimi go, s e i ns i nu a m e m nos sa alma, aí p e r ma ne c e m s e m qu e p os sa mos nos

d

e sf aze r d e l e s; e o h áb it o faz qu e , não sab e nd o nos

p

r e se r v ar d e ta is d e f e itos c om r e sp e it o a nos s os i ni-

migos, os e mpr e gu e mos me sm o contra nos sos a m i-

g os . S e e nt ão Pitá goras 5 0 ti nh a razão qu a nd o, e m

s e u d e sej o d e h a b i tu ar os h om e ns a s e a b st e r e m d e

t od a a v iolê ncia e d e tod a e xi g ênci a cú p i d a d i a nte

d os animais pri v ad os d e razã o, ob ti nh a d os p ass ar i-

nh e i r os por s e u s p e d i d os, e d os pe s cad or e s p e l a

c om pr a d e s u a s p r e s as, a li b e r d ad e d os p ás sar os e

d os pe ixe s qu e e l e s t inh am ca ptu ra d o, e p r oib i a

mat ar t od o anima l d om é stic o, é ce rta m e nt e b e m

mais h onr oso a ind a, nas d i sc u s sõ e s e na s ri v al i d a-

d e s qu e inst iga m os h ome ns, se r u m ini m i g o g e ne-

r oso, j u sto e l e al , r e prim i r s e u s m au s i mp u l s os , b ai-

x

os e perv e r sos, d e pr e c i á- los, a fim d e fi ca r i na b a lá-

v

e l na s r e laç õ e s com os amigos, e a b s te r- s e d e t od o

p r e j u ízo contr a e le s. Esc au r o, i ni m i g o d e D om í c i o,

i nst a u r ou u m p r oc e s so contra e l e . U m s e rv id or d e D om íci o v e io pr oc u r á -l o, a nte s qu e ocorr e ss e o v e - r e d ict o, p ar e ce nd o te r pa ra r e v e l ar- l h e a lg u m f a t o qu e e s t e não conh e c ia. Es cau r o não o d e i x ou p r o- nu nciar u ma ú nic a p al av r a, f e z qu e o d e t i v e ss e m e o m and as se m a s e u se nh or 5 1 . Ca t ão acu s av a Mu r e na

d

e t r ama polític a. Enqu a nto r e col h i a a s p r ov as , a s

p

e s soas, se gu nd o o c ostu me , a com panh a v am - no

p

a ra ob s e rv ar se u s a tos e não p ar av a m d e l h e p e r-

g u ntar se e le t inh a a i nte nçã o d e faze r na qu e l e d i a

a l gu m a inv e st ig a çã o r e l ati v a à acu sa ção. Se r e sp on-

2 0

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

d ia pela negativa, retiravam-se plenamente confian-

tes. Era como d ar-lh e u ma d emonstração manifesta

d

o consid erável conceito qu e se tinh a d e su a prob i-

d

ad e. Mas h á u m testemu nh o aind a maior e o mais

b

elo d e tod os: é qu e, qu and o nos h ab itu amos a ser

ju stos mesmo para com nossos inimigos, ficamos

certos d e qu e jamais seremos acu sad os d e inju stiça e

d e má-fé para com nossos íntimos e nossos amigos.

P r e s ta r h om ena ge m a o m ér it o d e seus ini m igo s

é p r es ta r ho m ena ge m a o s eu p r óp r i o m é ri t o e ha bitu a r-s e a nã o ver c om in vej a a sup e r io r id ade de s eu s am i go s . É p r e c is o s e r m os gener os o s com

n o s s o s inim ig os , a f i m de v ir m os a s ê- l o, c o m ma i s p ra zer e m a i s a s s i du id a de, c om a q ue le s q u e a ma mos . E m su m a , o s i ni m i gos s ão u m ex u tório

p a ra o m al e um m o de lo p ar a o bem .

1 0 . M a s p oi s qu e , s e g u nd o S i m ô ni d e s , “ t od a c ot o-

v i a p ou p u d a d e v e t e r s e u p e na c h o” 5 2 , e qu e t od a

na t u r e z a h u m a na c om p or t a e m s i m e s m a r i v a l i d a -

d e , c i ú m e e i nv e j a “ qu e c or t e j a os v i s i oná r i os ” 5 3 ,

nã o s e r i a p r e s t a r a s i m e s m o u m m e d í oc r e s e r v i ç o

a p r e nd e r a s e l i b e r t a r d e s s a s p a i x õ e s , l a nç a nd o- a s

s ob r e s e u s i ni m i g os , e d e s v i a r, p or a s s i m d i z e r, s e u

f é t i d o e s c oa m e nt o 5 4 p a r a l ong e d e nos s os c om p a - nh e i r os e d e nos s os í nt i m os . É o qu e p a r e c e t e r

c om p r e e nd i d o u m h om e m p ol í t i c o d e nom e D e m o;

a p ó s u m a r e v ol u ç ã o qu e t i nh a t r a z i d o o t r i u nf o d e

2 1

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

s e u s p a r t i d á r i os , a c ons e l h ou - l h e s nã o b a ni r t od os os cid ad ãos qu e ti nh am p r ofe s s ad o op ini õ e s c ont r á - rias, mas pou par algu ns d eles, “para qu e”, d izia, “não começássemos a qu estionar com nossos amigos qu a n-

d o nos t iv é sse mos l i v r ad o d e tod os os nos sos ad v e r-

sários”. Paralelamente, se extingu ir mos em nó s essas paixõ es, excitand o-as contra nossos inimigos, impor-

t

u na r e m os m e nos nos s os a m i g os . C om e f e i t o, nã o

é

p r e c i s o “ qu e o ol e i r o qu e i r a m a l a o ol e i r o” 5 5 , s e -

g

u nd o H e s í od o, ne m “ c a nt or a o c a nt or ” ; e nã o é

p r e c i s o t a m b é m s e nt i r m os i nv e j a d e u m v i z i nh o, d e

u

m p a r e nt e , d e u m i r m ã o “ a p r e s s a d o e m f a z e r f or -

t

u na ” e qu e e nc ont r a a p r os p e r i d a d e . M a s s e nã o

t

e ns ne nh u m m e i o d e l i b e r t a r t u a a l m a d a s d i s p u -

t

a s , d a s i nv e j a s , d a s r i v a l i d a d e s , h a b i t u a - t e a s e nt i r

m or d e d u r a s a p e na s d o s u c e s s o d e t e u s i ni m i g os .

Erg u e c ont r a e l e s o d a r d o d e t u a a m a rg u r a , a m ol a - o e a g u ç a - o. D e f a t o os b ons j a r d i ne i r os , c om a

i nt e nç ã o d e e m b e l e z a r r os a s e v i ol e t a s , p l a nt a m e m

s u a p r ox i m i d a d e a l h o e c e b ol a s qu e a t r a e m a s u b s -

t

â nc i a c u j o m a u c h e i r o e a m a rg or p od e r i a m p r e j u -

d

i c á - l a s . D o m e s m o m od o, qu a nd o s e l a nç a m s ob r e

u

m inimigosu a inveja e su a mald ad e, serena-se d ian-

te d os a m i g os e s e nt e - s e m e nos a ng ú s t i a c om s e u

s u c e s s o. É a i nd a p or e s s a r a z ã o qu e g os t a m os d e

competir com nossos inimigos em gló ria, pod er, p r o-

v e i t os h one s t os , s e m nos l i m i t a r m os a e s s e d e f i nh a -

m e nt o d o d e s p e i t o, s e e l e s t ê m a l g u m a s v a nt a g e ns

a m a i s qu e nó s , e e m p e nh a nd o- nos e m u l t r a p a s s á -

l os e m v i g i l â nc i a , e m e ne rg i a l a b or i os a , e m t e m p e -

2 2

Co mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

rança e em au tocontrole, à semelh ança d e Temísto- cles qu e d izia qu e a vitó ria d e Milcíad es em Maratona

não o d eixava d or m i r 5 6 . A qu e l e qu e s e c r ê u l t r a p a s -

s

a d o p e l o s e u i ni m i g o no f or o, na s f u nç õ e s p ú b l i -

c

a s , na g e s t ã o d os ne g ó c i os d o Es t a d o, ou j u nt o d e

s

e u s a m i g os e d os p od e r os os , d e i x a - s e a r r a s t a r a o

r

a nc or e a o c om p l e t o d e s e nc or a j a m e nt o, e m v e z d e

a g i r e os t e nt a r r i v a l i d a d e s : p a r a t e r m i na r, e l e s oç o-

b r a na oc i os i d a d e e s t é r i l d o h om e m i nv e j os o! A o

c

ont r á r i o, a qu e l e qu e nã o f i c a c e g o d i a nt e d e u m

i

ni m i g o e x e c r á v e l , m a s s u b m e t e a u m e x a m e e qü i -

t

a t i v o s u a v i d a , s e u s c os t u m e s , s u a s p a l a v r a s , s e u s

a

t os , r e c onh e c e r á qu a s e s e m p r e qu e e s s a s u p e r i or i -

d

a d e , i nv e j a d a p or e l e p r ó p r i o, p r ov é m d a r a p i d e z ,

d

a p r e v i d ê nc i a e d a s a b e d or i a d a c ond u t a d e s e u

a

d v e r s á r i o. Ent ã o, p a r a s e r i g u a l a e s t e e m a m or d a

g

ló r ia e d o b e lo, e le r e d ob r ará os e sforç os e la nç a r á

p a r a l ong e a i nd ol ê nc i a e a m ol e z a .

O s v íc i os dos in imigo s tor n a m n os s a s vir t udes m ai s car a s .

1

1 . S e , ao c ontr ár io, é por li s onj a s, a rt i fí c i os , c or ru p -

ç

õ e s ou t ra iç õ e s qu e nos s os ini m i gos p ar e c e m t e r

c

onqu ist ad o, na corte d os pr ínci pe s e no gov e r no,

u m pod e r l e gít imo e e s ca nd a loso, não nos a f l i g i r e-

mos com se u c r é d i to; e se r á a nte s u m a s at is f aç ã o p ara nó s c omp a ra r s u a cond u ta c om a nos sa p ró p r i a

2 3

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

i nd e pe nd ê nc ia , e u m a v i d a pu ra , i s e nta d e c e ns u r a s . Com efeito, “tod ooou roqu e está sob re a terra e s ob a t e r r a tem me nos v a l or qu e a v ir tu d e ” 5 7 , d i z Pl atã o,

e

d e v e -s e t e r s e mp r e no e s pí r it o e st e s v e r sos d e

S

ó lon:

“ Pe l os b e ns d o mu nd o tr oca r a v irt u d e ?

N ã o, j am a is !” 5 8

A c r e s c e nt a r e i : “ ne m p e l a s a c l a m a ç õ e s c om qu e nos i nc e ns a m os p a r a s i t a s no p a l c o d a v i d a , ne m

p e l a s h onr a r i a s e p r e e m i nê nc i a nos c í r c u l os d e e u -

nu c os , d e d e v a s s os e d e s á t r a p a s a o s e r v i ç o d os p o- tentad os”. Com efeito, nad a é invejável, nad a é b e l o,

s e na s c e d a d e s onr a . M a s , p oi s qu e “ o a m or é c e g o

p a r a o qu e e l e a m a ” 5 9 , c om o d i z Pl a t ã o, e v i s t o qu e

nos s os i ni m i g os nos f a z e m b e m m a i s s of r e r a t or p e -

z a d o v í c i o p or s e u s p r ó p r i os d e s r e g r a m e nt os , nã o

d e v e m os d e i x a r e s t é r e i s ne m o p r a z e r qu e nos d ã o

s e u s e r r os , ne m o d e s g os t o l ú g u b r e qu e s e u s b ons

êxitos excitam em nó s; em conseqü ência, apoiemo- nos nesse d u ploexemplopara nos tor nar mos melh o- res qu e eles evitand o su a perversid ad e, e para rivali- zar com seu s su cessos sem imitar su as mald ad es.

2 4

D A M A NEI R A DE DIS T I N G UI R O BA JUL A DO R D O AM I G O

O a m or-p r óp r io é o c om eç o da bajulação, prática irr eligiosa por excelência.

1

. Qu and o u m h ome m d á s e m c e ssar, e m p al a v r a s ,

p

r ov as d e amor-p r ó p r i o, m e u c a r o Antí oco F i l op a-

p

o 1 , Platão ob s e rv a qu e t od os o d e sc u l p a m ; e ntr e-

t a nt o e ss e se nt ime nto, acr e s c e nta e l e, e nt r e u m a

p let ora d e v í cios mu itod if e r e nt e s, cont é m u m m u i to

i m por t ant e qu e imp e d e qu e el e te nh a s ob r e s i mesmo u m j u lga me nto ínte gr o e i m parc i al . “ C om

e fe ito, o am ante é c e g o a r e sp e i to d o qu e e l e a ma ” 2 , a m e nos qu e t e nh a apr e nd id o, por u m e s t u d o e sp e-

c ia l, a h ab itu a r-s e a a p r e c i ar e pr ocu ra r o b e l o, d e

p

r e f e r ê ncia a o i na t o e a o f am i li ar. N o s e i o d a a m i z a-

d

e e is qu e se a b r e a o b a j u lad or u m v a s t o c a mp o d e

a ção: noss o a mor-p r ó pr io é pa ra e l e u m t e rr e no d e

a c e sso int e ira me nt e pr opí ci o à i nv e sti g açã o s ob r e nó s; por cau sa d e s se s e nt im e nt o, cad a u m d e nó s é

o p r im e ir o e o m ai or a d u la d or d e si p r ó p r i o, nã o

h esitand o em confiar no b aju lad or estranh o d e qu e m

e s pe r a t e r a a pr ov aç ão par a confir ma r su a s c r e nça s

2 7

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

e d e se j os. Com e f e i to, aqu e le qu e é ac u s ad o d e g os-

t ar d a b aj u laçã o nã o pas s a d e u m h om e m p e r d i d a-

me nt e e namora d o d e s i 3 , qu e , pe l a pai x ão qu e a s i me sm o d e d ica , d e s e ja e cr ê p os s u i r tod a s as qu a l i-

d ad e s; ora, se o d e se j o é natu ra l, a c r enç a é , e ntr e-

t ant o, arris cad a e r e clam a b a sta nte ci rc u nsp e c ç ã o.

M as, s u p ond o-se qu e a v e r d a d e se j a d i v i na e s e j a,

s e gu nd o Pla tão, o pr inc í p io “ d e tod os os b e ns p a ra

os d e u se s e d e t od os os b e ns p ara os h om e ns ” 4 , o

b aju lad or está mu itoarriscad oa ser inimigod os d e u -

s e s e sob r e t u d o d o d e u s Pí ti c o, p oi s nã o d e i x a d e

e st ar e m c ont rad i çã o com o “ c onh e ce - t e a t i me s-

mo”, i lu d ind o ca d a u m qu anto à s u a pró p ri a p e ss oa

e

tor nand o-o ce g o, no qu e d iz r esp e i to a si m e s m o,

e

às v ir t u d e s e aos v íci os qu e l h e conc e r ne m , p oi s

t

or na as prime ir as im pe r fe ita s e i nacab ad as , os ou -

t

r os, t ot alme nte incu r áv e i s.

O b a ju l ad or, es s e p a r a sita da s na t ur eza s no br e s , e s t á a t ent o a os r eve s es d a s or t e.

2 . S e ne ss as c ond iç õ e s o b aju l ad or, c om o qu al qu e r

ou t r a cor j a, ata ca s se ord i na r i am e nte ou e s se nci al- mente as natu rezas vu lgares e med íocres, seria m e nos

t e m ív e l, e m ai s f a c i lm e nte nos d e fe nd er í am os d e l e . Mas, assim comoos ver mes penetram d e preferênc i a nas mad eiras tenras e od oríferas, d a mesma maneir a sãoos coraçõ es generosos, h onestos e b ond osos qu e

a colh e m o b aj u la d or e o nu tr e m , qu a nd o se p r e nd e

2 8

Da M a n e i r a d e D i s t i n g u i r o B a j u l ad o r do Am igo

a

e le s . Nãoé t u d o: c om od is se Sim ô nid e s , “ a cr i aç ã o

d

os cav a los nã o su põ e u ma Z aci nto m as t e r ras f é r-

t e is” 5 ; a ssim a b a ju l aç ão e v i d e nte me nt e nã o a c om-

p

anh a os ind i ge nt e s, os anô ni mos ou os d e s p r ov i-

d

os d e r e cu rs os , ma s f az qu e pe r ic l i tem e s e d e s-

t ru am as casas e as e mp r e sas i mpor ta nt e s , c h e g an-

d o m e sm o, com f r e qü ê nc i a, a d e rru b ar as r e al e z as e

os imp éri os . A ssi m , não é u ma qu e st ão i r ri s ó r i a a

e x igir ap e nas u m a m i gal h a d e pr e v id ê nci a o e s p r e i- t a r s u as ma nob ra s p ara a panh á- l a e m f l ag r ante e

i mpe d i- la d e pr e j u d ic ar e d e tor nar s u s p e i ta a a m i-

z a d e . Os p aras itas , com e f e i to, a fast am- s e d os m or i-

b u nd os e a b a nd onam os cad áveres em qu e se coa-

gu la o sangu e d e qu e se nu tr e m; qu ant o a os b a ju la-

d or e s , e le s d e sd e nh am o r e l ac ionam e nt o c om o qu e

e

x is te d e árid o e g l ac i al , m as , se d u z i d os p e l a g l ó r i a

e

pe lo pod e r, farta m -s e d is s o e fog e m o m a is d e-

p

r es sa p ossív e l , qu and o a r od a d a for tu na m u d a d e

p

osi ção 6 . Mas d eve-se evitar esperar até a realização d essa

experiência, qu e é inú til, ou , antes, preju d icial e perigosa: é triste, qu and o ch ega o momento d e re- correr a seu s amigos, perceb er qu e não são amigos

e qu e não é possível trocar u m coração d esonesto e pu silânime por u m coraçãosinceroe constante. Ora,

o amigo é como peças d e moed a: é preciso pô -lo à

prova antes d e recorrer a ele, e não esperar qu e seja esse recu rso qu e nos d esilu d a 7 . Com efeito, não é

apó s ter sid o enganad o, mas precisamente para não sê-lo, qu e d evemos pô r à prova e d esmascarar o b a-

2 9

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

ju lad or; sem isso teremos a mesma sorte qu e aqu eles

qu e d egu stam antecipad amente venenos mortais e só

ju lgam seu efeito à cu sta d e su a saú d e e su a vid a 8 . D e f a to, não lou v amos e ss e s im pr u d e nt e s as s i m

c omo nã o a pr ov a m os aqu e le s h om e ns 9 qu e , ad m i- t ind o por princí pio qu e u m am igo d e v e u ni c a m e nte

b u s car o h one st o e o ú t il , cr ê e m , qu and o s e d á p r o-

v a d e am e nid a d e na s relaçõ es com as pessoas, qu e

se receb e imed iatamente a acu saçãod e ser b aju lad or.

U m am igo não p od e ria se r ne m d u r o, ne m i ntratá-

vel, e nãoé a acrimô nia nem a au sterid ad e qu e fa z e m

s s a d i g ni d a d e

a nob r e za d a a mi za d e . A o c ontrá rio,

me sm a e e s sa b e l e za qu e a car acte r i z am c ons i s te m e m s u a d oçu ra e e m se u s e nc antos.

e

“É pe rt o d e la qu e as G r aç as e o De se jo h a b it a m” 1 0 ,

a liás não é s om e nte pa ra os inf e l i ze s, com o d i z Eu - r íp id e s,

“qu e é d oce, fitand o seu amigo, encontrar seu s olh os” 11 ;

mas a amizad e acrescenta tantoprazer e encantoaos s u ce s sos qu ant o ti ra sof ri m e nto e e mb ara ços d os r e v e se s. E, s e g u nd od is s e Ev e no, assi m c omoofog o é o m e lh or d os cond i m e ntos 1 2 , d a m e sm a m ane i ra, mistu rand o a amizad e à vid a, a d ivind ad e espalh ou b rilh o, d oçu ra e ternu ra por tod a a parte em qu e a ami- zad e colab ora com o prazer. Com efeito, se a am iz a-

d e não m ostr asse ne nh u ma c ond e sc e nd ê nci a e m

3 0

Da M a n e i r a d e D i s t i n g u i r o B a j u l ad o r do Am igo

s u a r e lação c om o a gra d áv e l, se ria d if í ci l c om p r e e n-

d er por qu e o b a j u l ad or pr ocu ra ri a i nsi nu ar- se e nt r e

nó s at r a v é s d os pr az e r e s. M as , d e fa to, a e xe m p l o

d o ou r o fa ls o ou d o me tal d e b ai xo qu i l a t e , e ss e s

s u ce d âne os d o b ri l h o e d as ci nt il açõ e s d o ou r o v e r-

d ad e ir o, o b aj u l ad or, imi ta nd o a d oçu ra e a b oa

v ont ad e d o am igo, c u i d a d e par ece r se m p r e d i v e r t i-

d

o e e xpansiv o: nã o s e opõ e a nad a, ja m a is c ontr a-

d

iz. N ão s e d e v e , e ntão, d e sd e qu e a l g u é m nos l ou -

v e , su sp e it ar d e qu e d e se j a nos b aju l ar, p oi s o e l o-

g io é t ão conv e ni e nt e par a a a mizad e qu a nto a cen- su ra no momento oportu no. Digo mais: u m e x cesso

d e acrimô nia ou d e azed u me não se concilia ne m

c om a am iza d e ne m com a u r b a ni d a d e . A o c ontr á-

r i o, qu a nd o a b e ne v ol ê nc ia c once d e com l ib e ral i d a-

d e e solicit u d e os e log ios d e v id os aob e m , r e ce b e m -

s e pa cie nte me nte e se m tris te z a ad moe s t a ç õ e s e

r e pr ime nd as p le na s d e fr anqu e z a, qu e são ou v i d a s

c

om conf ia nça e a col h i d as com r e conh e c i m e nt o, na

c

onv icção d e qu e s ão ne c e ssár i as , pois qu e v ê m d e

u m h om e m qu e lou v a tã o pra ze r os ame nte qu a nt o

c

e nsu r a contra su a v ontad e .

É d i fí c il d ist ing uir do a migo o hábil b aj ul ad or.

3

. “ É , porta nt o, d ifí c il ” , pod e d i ze r a l gu é m, “d i s ti n-

g

u ir d o a mi g o o b a j u l ad or” , se ne m o p ra z e r ne m o

e l ogio sã o o c ri té r i o d isti nt iv o ent r e el e s , p oi s e m mat é ria d e a ma b i l id ad e s e p e qu e na s l i b e rd a d e s a

b aj u la çã o e v id e nt e me nte v ai m ai s l onge qu e a a m i-

z a d e ; r e s p ond e r e mos: Por qu e e ntã o? Nã o é u m t ra-

3 1

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

b

alh o d e f ô le go i r no e ncal ço d o v e r d a d e ir o b a ju la-

d

or, d aqu e le qu e s a b e e xe rc e r se u ofí ci o c om t a l e n-

t o, com o h ome m h áb il , e não pr od i g al i z a r e s se no- me , como fa z a ma ior pa rte d os h ome ns, a e s se s

“ p ar asit as” , a e s se s “ p apa- j antar e s” ou a e ss a s p e s-

s

oa s qu e , como d izi a al gu é m, faze m ou v ir su a v oz

s

om e nt e apó s a a b l u ção d a s mã os 1 3 ? Es sas p e s s oas ,

não e st a mos incl inad os a olh á- l as como b aj u l a d o- r as: o avi ltam e nt o d e se u car át e r m ani f e st a -s e d e s d e op r im e ir ose rv i ço, apó s op ri me ir ocop o, a t rav é s d e

a lgu m a pi lh é ria ou a lg u ma ind ecê nci a. Te r i a si d o

i nú t il, por e x e mplo, d e sm as c ar ar M e l ânt i o, p a r as i t a

d e Ale x and r e d e Fe ra s, qu e qu a nd o l h e p e rg u nt a-

v a m d e qu e ma ne i ra Al e x and r e ti nh a si d o a p u nh a- l ad o não se e nv e rg onh av a d e r espond e r : “ com u m

g olpe qu e lh e atra v e ss ou o f l anco e qu e v i s a v a a o

me u e st ô m ag o” 1 4 ; o m e smo a conte ce c om e s s e s a s-

s e d iad or e s 1 5 qu e g iram s e m c e s sa r e m tor no d e u m a

me sa b e m pr ov id a , e qu e “ ne m a ch a ma , ne m o f e rr o, ne m o b r onze pod e r i am af a star d e u m j ant a r ” ; ou e nt ão a ind a com e ss as ad u l ad or as ci p ri ota s qu e ,

a pó s t e r e m passa d o pe la S í ria , fora m ap e l i d a d a s

e scab el o s 1 6 , por qu e v e rg av a m a e sp inh a p ar a a ju d a r

a

s e sposa s d os r e is a su b i r e m no car r o.

O s m a i s h á b eis s ã o o s q ue sa b em d i s s imu l a r :

di f ic i l m ente s ã o i dent ifi ca d os .

4

. Q u al é e nt ão o b aj u la d or d e qu e m s e d e v e d e s -

c

onf iar ? Se r ia a qu e l e qu e não qu e r pa r e ce r ne m s e

3 2

Da M a n e i r a d e D i s t i n g u i r o B a j u l ad o r do Am igo

c

onf e s sa r tal, a qu e le qu e não é j a m ai s su rp r e e nd i d o

e

m f u rt os e m v ol ta d a s cozi nh as , qu e nã o é a p anh a-

d o d e impr ov is o e nqu anto me d e as som b r a s e cal-

c u la a h ora d o j ant ar, qu e não c a i m ort o d e b ê b e d o

na pr ime ir a oca sião? De f a to, o v e rd a d e i r o b a ju la-

d or, na m ai or pa rt e d o t e mp o, c u l ti v a a a b s ti nê nc i a

ao me sm o t e mp o qu e a i ntri g a: crê d ev e r i m i s cu i r-

s e e m v os sa s a tiv id ad e s, qu e r p arti l h a r v os s os s e g r e-

d os; e m su ma , d e se mpe nh a s eu p a pe l d e a m i g o

c omo t rá gico e nã o como b u fão 1 7 ou a tor c ô m i c o.

C om e f eito, d iz Platã o 1 8 , “o cú mu l o d a i nj u s ti ça é

qu e r e r p as sar por j u sto se m s e r” . De v e -s e i g u al m e n-

t e consid e r ar qu e a mai s pe r ni ciosa b a ju la ç ão nã o é a qu e s e most ra , m as a qu e se oc u l t a , ne m a qu e

d iv e r t e , ma s a qu e é sé ria: pois e l a tor na s u s p e i ta a

v e r d ad e ir a a mizad e , com a qu al a c ontec e f r e qü e nte-

ment e c onf u nd ir-s e , se não s e tom a cu i d a d o. Gó -

b ri as, nu m d ia e m qu e pe r se g u ia o Ma go, ca i u nu m

c ô mod o e s cu r o e tr av ou - se aí u m d u e lo á r d u o; or a,

v e nd o qu e Da ri o s e m ant inh a l á, na e x pe c ta ti v a , gri-

t ou - lh e qu e d e sf e r i ss e g ol pe s, me s m o c om o ri s c o

d e pe r fu rar os d oi s 1 9 . Mas nó s, qu e não p od e mos d e

mane ir a al g u m a a d ota r o pr ov é r b i o p e r eç a o am i go co m o in im igo 2 0 , se d e s e jam os a rrancar d o b a ju l ad or

e s sa m ásc ar a d e a m iz ad e qu e é para e l e a p ar e nt e-

me nt e c ons u b st a nci al , t e mos d e te me r s ob r e tu d o

d ois risc os: r e pe li r o ú ti l a o m esm o te m p o qu e o

mau ou expor-nos a algu m d issab or, pou pand ooob -

j e t o d e nossa a fe iç ã o. De fa to, a ss im com o d e t od a s

a s se m ente s se l v age ns qu e , na p e ne i r a , s e a ch a m

mist u r ad as ao f ru m e nto, a s ma is d i fí cei s d e s e p a r ar

3 3

o mo Ti r a r Pr o v e it o de se u s I nim i g os

C

s ã o as qu e se a ss e me lh am a e l e por s u a f or ma e s e u

t amanh o (v is to qu e não cae m s epara d a m e nte s e os

orifíc ios d a pe ne ir a são mu i to e str e i tos , e qu e p as-

s a m com o r e st o, se a s malh as sã o d e m a i s f l e x í-

v e is 2 1 ), d a m e sma m ane ira é mu i to d i fí c il f aze r d is-

t inção e ntr e u ma e ou tr a, a tal ponto a b a ju l aç ã o qu e r t om ar pa rte e m cad a e m oção, cad a m ov i m e n-

t o, ca d a p rát ica e ca d a h áb i to d a am iz a d e .

A s túc ia s d o b aj ula d or.

5. A amizad e é o qu e h á d e mais d oce no mu nd o e nad a nos traz mais alegria; eis por qu e o b aju lad or

u

sa d os prazeres para fins d e sed u ção e é o h omem

d

os prazeres. É igu almente porqu e a vontad e d e

ob sequ iar e d e se tor nar ú til caminh a na esteira d a

amizad e (a ponto d e u m amigo, d iz-se, ser mais in-

d ispensável qu e o fogo e a águ a) qu e o b aju lad or,

entregand o-se aos b ons ofícios, se d ed ica sem cessar

a ostentar zelo, d iligência e prontid ão. O qu e fu nd a- menta antes d e tu d o a amizad e é a id entid ad e d os