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A formação do Estado Moderno I: o declínio do sistema feudal.


Prof. Dr. Edson Fasano

À medida que o riacho irregular do comércio se transforma em


corrente caudalosa, todo pequeno broto da vida comercial, agrícola e
industrial recebia sustento e florescia. Um dos efeitos mais
importantes do aumento no comércio foi o crescimento das cidades (
Huberman, 2010, p. 21).

Para uma pessoa nascida no século XX ou mesmo no século XXI, é difícil


imaginar o mundo politicamente organizado sem a presença dos Estados
Nacionais.

A ideia de uma língua comum, como elemento de unidade nacional, a


presença do sentimento de patriotismo manifesto em conflitos bélicos, por
exemplo, não podem ser sociologicamente compreendidos sem se recorrer aos
estudos históricos.

O estudo da história nos permite superar o senso comum, que reveste de


naturalidade as organizações humanas, agindo ideologicamente para legitimar
o poder hegemônico. Um dos objetivos fundamentais do estudo da história é a
construção de uma leitura de mundo, voltada à filosofia da práxis.

A teoria marxista, em suas diferentes abordagens, analisa historicamente


as organizações humanas, a partir das dimensões estruturais e
superestruturais. É importante destacar que existe entre ambas, uma
interdependência. Nos Cadernos do Cárcere ( 2014), Antonio Gramsci, assim
expressa a relação entre estrutura e superestrutura:

Unidade nos elementos constitutivos do marxismo. A unidade é


dada pelo desenvolvimento dialético das contradições entre o
homem e a matéria (natureza e forças materiais de produção).
Na economia, o centro unitário é o valor, ou seja, a relação
entre o trabalhador e as forças industriais de produção (os que
negam a teoria do valor caem no crasso materialismo vulgar,
colocando as máquinas em si – como produtoras de valor,
independentemente do homem que as manipula). Na filosofia,
é a práxis, isto é, a relação entre a vontade humana
(superestrutura) e a estrutura econômica. Na política, é a
relação entre o Estado e a sociedade civil, isto é, intervenção
do Estado (vontade centralizada) para educar o educador, o
ambiente social em geral. (GRAMSCI, 2014, vol. 1, p. 237).
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O estudo que se apresenta nesse texto e nas vídeo aulas, resgata


historicamente a relação estrutural e superestrutural que levou a constituição
dos Estados Nacionais.

Tem sido comum, nos últimos anos, afirmações veiculadas principalmente


pelos meios de comunicação de massa, que a defesa do Estado é uma
ideologia da esquerda. Será isso verdade? É necessário o aprofundamento de
tal reflexão.

O presente estudo organiza-se em dois textos didáticos, que se


complementam com as vídeo-aulas. No primeiro, analisamos as
transformações ocorridas no final da Idade Média, que criaram as condições
históricas para o surgimento do denominado Estado Moderno. No segundo
texto, discute-se as transformações superestruturais, decorrentes das
mudanças econômicas resultantes do surgimento da prática mercantil, ou seja
as questões jurídico-militares e o Estado.

A compreensão da formação dos Estados Nacionais, exige um estudo


complexo e que abrange pelo menos três grandes fases: O Estado Absolutista,
O Estado Burguês e o Estado Mínimo. A ênfase desse estudo está na primeira
fase de tal formação, ficando para os alunos o desafio para o aprofundamento
de tal conteúdo, nas demais temáticas que serão estudadas no curso de
Segunda Licenciatura em Ciências Sociais da UMESP.

Um manual didático de boa qualidade, publicado inicialmente em meados


do século XX, denominado História da Riqueza do Homem, de autoria de Leo
Hubeman (2010), afirma que não foi incomum a propagação de uma visão
romântica da Idade Média, centrada nos ideais de cavalaria, muito ligados a um
tipo específico de literatura. Para o autor em questão, torna-se necessário
refletir sobre a estrutura produtiva medieval, se de fato pretende-se entender
tal período histórico.

A sociedade medieval dividia-se, socialmente, em três grupos: cléricos,


senhores feudais (exército), e servos (trabalhadores), sendo que os dois
primeiros grupos, eram sustentados pelo último.
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O historiador Perry Anderson (1985), assim descreve a organização da


sociedade medieval:

O feudalismo como modo de produção definia-se por uma


unidade orgânica de economia e dominação política,
paradoxalmente distribuída em uma cadeia soberania
parcelares por toda a formação social. A instituição do trabalho
servil, como mecanismo de extração de excedente, fundia a
exploração econômica e a coerção política legal, no nível
molecular da aldeia. O senhor, por sua vez, tinha normalmente
o dever de vassalagem e do serviço militar para com o seu
suserano senhorial, que reclamava a terra como o seu domínio
supremo. Com a comutação generalizada das obrigações,
transformadas em rendas monetárias, a unidade celular da
opressão política e econômica do campesinato foi gravemente
debilitada e ameaçada de dissolução ( o final desse processo
foi o trabalho livre e o contrato salarial) (...) ( ANDERSON,
1985, p. 19).
A terra como domínio supremo, na Idade Média, dividia-se em parcelas
autônomas, denominadas como feudos. Em cada feudo existia apenas uma
aldeia, cercada por porções parcelares de terras. Como se subdividiam as
terras no interior de cada feudo? Huberman (2010), ajuda-nos a conhecer tal
subdivisão:

Pastos, prados, bosques e ermos eram usados em comum,


mas a terra arável se dividia em duas partes. Uma, de modo
geral a terça parte do todo, pertencia ao senhor e era chamada
de seus “domínios”; a outra ficava em poder dos camponeses,
que, então, trabalhavam a terra. Uma característica curiosa do
sistema feudal é que as terras não eram contínuas, mas
dispersas em faixas. (2010, p. 4).
Como é possível se observar, a unidade produtiva era a terra, não existia
centralidade política em razão da relação entre suserania e vassalagem,
decorrente disso, inexistia um sentimento de nação e muito menos uma língua
comum.

A citada relação de suserania e vassalagem, estabelecida entre os


senhores feudais, consistia em troca de deveres e obrigações, que além de
fragmentar o domínio territorial, dificultava a centralização política.

O feudo em si podia ser a única propriedade de um cavaleiro


ou uma pequena parcela de um grande domínio que constituía
parte de um feudo ou uma imensa concessão de terra. Alguns
nobres possuíam vários feudos, outros alguns domínios, e
outros possuíam vários feudos espalhados por lugares
diferentes. (HUBERMAN, 2010, p. 9).
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As obrigações geradas entre suseranos e vassalos, centrava-se na


composição dos exércitos, ou seja, no serviço militar (defesa), daí a expressa
“cavalaria”, logo, cavaleiro medieval.

Nessas breves linhas não se pode deixar de mencionar a Igreja Católica


como a maior proprietária de terras do período medieval. Diferente da nobreza
que subdividia suas terras, logo o seu poder político (relação de suserania-
vassalagem), a Igreja concentrava suas terras e aumentava cada vez mais
seus domínios e poder.

O capital , durante a Idade Média, era estático, fosse para a Igreja, ou para
a nobreza. Por essa razão, a moeda quase não era utilizada. Vários fatores
dificultavam a prática comercial em uma grande escala:

Outros obstáculos retardaram a marcha do comércio. O


dinheiro era escasso e as moedas variavam conforme o lugar.
Pesos e medidas também eram variáveis de região para
região. O transporte de mercadorias para longas distâncias ,
sob tais circunstâncias, obviamente era penoso, perigoso, difícil
e extremamente caro. Por todos esses motivos, era pequeno o
comércio nos mercados feudais locais. ( HUBERMAN, 2010, p.
14).
A história não é linear, pois as dimensões estruturais e superestruturais,
também não o são. A história é fundamentalmente dialética, logo movimenta-se
pelas contradições. Nesse aspecto, a ação católica denominada de Cruzadas,
cujo principal objetivo foi a ampliação do poder da Igreja Católica, por meio do
avanço para as terras orientais do Globo, a longo prazo acabou, também, por
abalar tal poder. A aproximação do ocidente com o oriente, por meio das
Cruzadas, ampliou as práticas comerciais, colocando em risco o capital estático
( centrado na terra), por conseguinte, contribuindo para a abertura de fissuras
no denominado sistema feudal.

Podemos concluir, desse acordo, que embora os venezianos


estivessem desejosos de ajudar a marcha dessa Cruzada, “por
amor de Deus”, não permitiam que tão grande amor os
cegasse quanto a melhor parte da pilhagem. Eram grandes
homens de negócios. Do ponto de vista religioso, pouco
duraram os resultados das Cruzadas, já que os mulçumanos
retomaram o reino de Jerusalém. Do ponto de vista do
comércio, entretanto, os resultados foram tremendamente
importantes. As Cruzadas ajudaram a despertar a Europa do
seu sono feudal, espalhando sacerdotes, guerreiros,
trabalhadores e uma crescente classe de comerciantes por
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todo o continente; intensificaram a procura de mercadorias


estrangeiras; arrebataram a rota do Mediterrâneo da mãos dos
mulçumanos e a converteram, outra vez, na maior rota
comercial entre o Oriente e o Ocidente, tal como antes. (
HUBERMAN, 2010, p. 17).
O surgimento das cidades, não apenas como aldeias ou vilas rurais (típicas
do feudalismo), se efetivaram com o crescimento do comércio. Huberman
(2010), analisando tal aspecto, explica que as palavras, mercador e burgensis
(burgueses), etimologicamente possuem o mesmo significado: aqueles que
habitam as cidades.

Com o comércio e o ressurgimento das cidades, a perspectiva da vida e do


pensamento estático, típico de feudalismo, coloca-se em contradição com a
mobilidade necessária à prática mercantil.

A população das cidades desejava algo mais que a liberdade:


desejava a liberdade da terra. O hábito feudal de “arrendar” a
terra de fulano que, por sua vez, a arrendava de beltrano, não
era de seu agrado. O homem da cidade via a terra e a
habitação sob um prisma diferente daquele do senhor feudal. O
homem da cidade poderia de repente, precisar de algum
dinheiro para investir em negócios, e gostava de pensar que
poderia hipotecar ou vender a sua propriedade para obtê-lo,
sem pedir permissão a uma série de proprietários. A própria
escritura pública de Lorris tratava do assunto, nestes termos: “
Qualquer cidadão que desejar vender sua propriedade terá o
privilégio de fazê-lo.” ( HUBERMAN, 2010, p.23).
Tais transformações econômicas (estruturais), exigiram outra organização
superestrutural que pudesse responder as novas demandas da vida comercial
– urbana, desenvolvendo um novo sistema de leis ( jurídico), de impostos, de
segurança, logo uma nova ordem política.

Perry Anderson (1985) compreende que as mudanças que se efetivaram na


passagem do mundo medieval para o mundo moderno, de alguma forma,
responderam as necessidades de proteção, da própria nobreza, que se via
ameaçada pelas transformações comerciais. Como se pode observar, mais
uma vez, identifica-se a contradição no processo histórico, uma vez que o
mercantilismo e o surgimento do Estado Nacional irão romper com a economia
feudal e ao mesmo tempo, proteger a nobreza, por meio do denominado
Estado Absolutista.
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O poder de classe dos senhores feudais estava assim


diretamente em risco com o desaparecimento gradual da
servidão. O resultado disso foi um deslocamento da coerção
político-legal no sentido ascendente, em direção a uma cúpula
centralizada e militarizada – O Estado Absolutista. Diluída no
nível da aldeia, ela tornou-se concentrada no nível nacional. O
resultado foi o aparelho reforçado de poder real, cuja função
política permanente era a repressão das massas camponesas
e plebeias na base da hierarquia social (...) ( ANDERSON.
1985, p.19).
Ao analisarem o mesmo período histórico, Anderson ( 1985) e Huberman
(2010), compreendem de forma diferente o processo de organização dos
Estados Nacionais. Para Huberman, o surgimento do Estado Nacional, levou
um rompimento completo com o sistema feudal e sua organização social,
enquanto para Anderson, foi um processo de transformação, mas que, em um
primeiro momento, respondeu as necessidades de defesa da própria nobreza.

REFERÊNCIAS:

ANDERSON, Perry. Linhagens do estado absolutista. Trad. João Roberto


Martins Filho. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Trad. Waltensir Dutra. 22


ed. Rio de Janeiro, LTC, 2010.