Você está na página 1de 72

Tópicos em Direito 2

Sumário
TÓPICO 5 – Direito penal...............................................................................................07

1 Fontes do Direito Penal.............................................................................................07

1.1 Fonte material..........................................................................................................07

1.2 Fonte formal.............................................................................................................07

2 Analogia em Direito Penal.........................................................................................08

3 Aplicação da lei penal..............................................................................................08

3.1 Princípio da legalidade..............................................................................................08

3.2 Lei penal no tempo....................................................................................................09

3.2.1 Regra: tempus regit actum .................................................................................09

3.2.2 Funções extra-ativas da lei penal........................................................................09

3.2.3 Combinação de leis..........................................................................................10

3.2.4 Tempo do crime (art. 4º, CP).............................................................................11

3.3 Lei penal no espaço..................................................................................................11

3.3.1 Lugar do crime (art. 6º, CP)...............................................................................11

3.3.2 Extraterritorialidade da lei penal (art. 7º, CP).......................................................11

4 Contagem de prazo penal (arts. 10 e 11, CP)..............................................................12

5 Conflito aparente de normas......................................................................................12

6 Teoria Geral do Crime..............................................................................................13

6.1 Sujeito ativo.............................................................................................................13

6.2 Sujeito passivo..........................................................................................................13

6.3 Objeto do crime.......................................................................................................14

6.4 Conceito de crime.....................................................................................................14

6.4.1 Fato típico.......................................................................................................14

6.4.2 Ilicitude, ou Antijuridicidade..............................................................................19

6.4.3 Culpabilidade..................................................................................................20

7 Consumação...........................................................................................................22

8 Tentativa (art. 14, II, CP)............................................................................................23

9 Concurso de agentes (art. 29, CP)..............................................................................24

10 Sanção penal...........................................................................................................25

03
10.1 Pena......................................................................................................................25

10.1.1 Penas privativas de liberdade...........................................................................25

10.1.2 Penas restritivas de direitos..............................................................................28

10.1.3 Multa (art. 49, CP).........................................................................................29

10.2 Medidas de segurança.............................................................................................30

11 Concurso de crimes..................................................................................................30

11.1 Concurso material...................................................................................................30

11.2 Concurso formal (art. 70, CP)...................................................................................31

12 Suspensão condicional da pena (sursis).......................................................................31

13 Livramento condicional.............................................................................................33

14 Efeitos da condenação..............................................................................................34

15 Causas extintivas da punibilidade...............................................................................35

15.1 Conceito................................................................................................................35

15.2 Rol exemplificativo do art. 107, CP...........................................................................35

15.3 Prescrição..............................................................................................................35

1 Homicídio (art. 121, CP)...........................................................................................38

2 Auxílio, induzimento, instigação ao suicídio (art. 122, CP) ............................................39

3 Infanticídio (art. 123, CP)..........................................................................................39

4 Aborto (arts. 124 a 128, CP).....................................................................................40

5 Lesões corporais (ART. 129, CP).................................................................................41

6 Crimes de perigo individual.......................................................................................42

7 Crimes contra a honra..............................................................................................44

8 Dos crimes contra a liberdade individual.....................................................................46

8.1 Tráfico de pessoas.....................................................................................................46

9 Crimes contra o patrimônio.......................................................................................47

9.1 Roubo (art. 157, CP).................................................................................................48

9.2 Extorsão (art. 158, CP)..............................................................................................49

9.3 Extorsão mediante seqüestro (art. 159, CP) .................................................................50

9.4 Dano (art. 163, CP)..................................................................................................50

9.5 Apropriação indébita (art. 168, CP)............................................................................51

9.6 Apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP)....................................................52

9.7 Estelionato (art. 171, CP)...........................................................................................52

9.8 Receptação (Art. 180, CP)..........................................................................................53

04 Laureate- International Universities


10 Disposições gerais sobre crimes patrimoniais (arts. 181 a 183, CP)................................54

11 Dos crimes contra a dignidade sexual.........................................................................54

11.1 Estupro (art. 213, CP) e Estupro de vulnerável (Art. 217-A, CP)....................................54

11.2 Assédio sexual (art. 216-A, CP).................................................................................56

12 Crimes contra a Saúde Pública...................................................................................56

13 Crimes contra a Paz Pública.......................................................................................57

14 Crimes contra a Fé Pública........................................................................................57

14.1 Falsidade ideológica (art. 299, CP)...........................................................................58

14.2 Uso de documento falso (art. 304, CP)......................................................................59

15 Crimes contra a Administração Pública.......................................................................59

15.1 Peculato (art. 312, CP)............................................................................................60

15.2 Concussão (art. 316, CP).........................................................................................60

15.3 Corrupção passiva (art. 317, CP e Corrupção ativa (art. 333, CP)................................61

15.4 Prevaricação Art. 319, CP........................................................................................62

15.5 Resistência (Art. 329, CP); Desobediência (art. 330, CP)..............................................62

15.6 Desacato (art. 331, CP)...........................................................................................63

15.7 Descaminho (art. 334, CP) e Contrabando (art. 334-A, CP).........................................63

16 Legislação penal extravagante....................................................................................64

16.1 Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072/90) .............................................................64

16.2 Lei de Drogas (Lei nº 11. 343/06).............................................................................65

16.3 Lei de Tortura (Lei nº 9.455/97)................................................................................67

16.4 Crimes contra a Ordem Tributária (Lei nº 8137/90) ...................................................68

16.5 Crimes de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9613/98) ......................................................69

16.6 Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/16).........................................................................70

05
Tópico 5 Direito penal

I – Parte Geral

1 Fontes do Direito Penal


As fontes, no sentido jurídico, indicam a origem e a forma de manifestação da regra jurídica.
Podem ser: materiais ou formais.

1.1 Fonte material


A fonte material também denominada substancial ou de produção é o órgão competente para
elaborar o Direito Penal. Compete privativamente à União legislar sobre Direito Penal (art. 22, I,
CF), dessa forma o Poder Legislativo Federal é o órgão prolator do Direito Penal.

É importante salientar, contudo, que os Estados-membros poderão excepcionalmente legislar


sobre questões específicas em matéria penal, desde que autorizados por Lei Complementar
editada pelo Poder Legislativo Federal (art. 22, parágrafo único, CF).

1.2 Fonte formal


Fonte formal, ou de cognição, é a forma pela qual se exterioriza o Direito Penal. Divide-se em
imediata e mediata.

A imediata é sempre a lei em sentido estrito, ou seja, a que emana do legislativo competente
para editar a lei penal. Trata-se de uma decorrência do princípio da legalidade que será abor-
dado posteriormente.

As mediatas são os costumes e os princípios gerais de direito. Costumes são comportamentos


repetidos de forma constante, em razão de crença na obrigatoriedade. Os princípios gerais de
direito são vetores éticos que norteiam as leis.

As fontes mediatas sofrem limitação, em razão do princípio da legalidade. Assim, jamais


serão fontes de leis penais incriminadoras.

07
Tópicos em Direito 2

2 Analogia em Direito Penal


Analogia é forma de integração da lei, ou seja, diante de lacuna é possível aplicar lei prevista
a fato similar.

Não é possível a aplicação de analogia para incriminar fato não previsto, a chamada analogia
in malam partem. Diante da ausência de previsão legal, significa que se trata de fato permitido,
mais uma vez trata-se de decorrência do princípio da legalidade.

Todavia, é possível a analogia in bonam partem, ou seja, para beneficiar o agente. É decor-
rência dos princípios penais constitucionais que têm caráter garantista.

Saliente-se, entretanto, que analogia não se confunde com interpretação analógica. Interpreta-
ção analógica é espécie de interpretação extensiva, em que a própria lei determina que se amplie
o seu conteúdo ou alcance, fornecendo o critério para tal, no caso, a analogia em relação.

Admite-se interpretação analógica em relação a tipos penais incriminadores. Exemplo: art.


157, CP, o legislador prevê expressamente apenas dois meios executórios, a violência e a grave
ameaça, mas ao final determina “ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossi-
bilidade de resistência”, assim é possível acrescentar qualquer meio análogo aos dois previstos,
o legislador determinou os parâmetros para a inserção de outros meios.

3 Aplicação da lei penal

3.1 Princípio da legalidade


A legalidade penal é qualificada, não implica apenas no preceito geral de que ninguém é obri-
gado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei. Vai além disso, implica em que “[...]
não há crime nem pena, sem prévia cominação legal”.

Saliente-se que a palavra “crime” foi empregada em sentido amplo, englobando também as
contravenções penais.

Há duplo fundamento, art. 5ª, XXXIX da CF e art. 1ª, CP. A localização não é aleatória, dada a
relevância do princípio constitui garantia constitucional do cidadão contra o arbítrio do Estado,
além de ser princípio basilar de Direito Penal.

Trata-se de cláusula pétrea, de acordo com o art. 60, § 4ª da CF não pode haver emenda se-
quer tendente a abolir garantia constitucional.

Tal princípio constitui função política e jurídica simultaneamente. Política porque protege o cida-
dão do arbítrio do Estado. Jurídica porque ninguém poderá ser condenado por fato não previsto
previamente na lei.

A legalidade penal é composta de reserva legal mais anterioridade.

A reserva legal é a obrigatoriedade de previsão de crimes e penas na lei em sentido estrito, tal
como explicado no item referente às fontes. Dessa forma, as demais espécies normativas, leis de-
legadas, medidas provisórias, decretos legislativos, não podem veicular regras de caráter penal.
Quanto às medidas provisórias há vedação expressa no art. 62, §1º, I “b”, CF.

08 Laureate- International Universities


Mas não é só isso, para a observância de reserva legal é imprescindível destacar a forma pela
qual os crimes e as penas devem ser previstos na lei.

A forma pela qual o legislador deve prever os crimes e as penas na lei deve observar os princí-
pios da taxatividade e do mínimo de determinação. Taxatividade é a descrição detalhada do
fato na lei. Mínimo de determinação é a medida da taxatividade, assim a descrição do fato deve
ser detalhada apenas na medida em que se consiga individualizar minimamente o fato. Guarda-
das às devidas proporções o mesmo se diga em relação à cominação das penas.

É por conta do princípio do mínimo de determinação que é possível a existência de leis


penais incriminadoras incompletas, desde que haja a individualização mínima do fato na lei
penal, esta poderá estar incompleta.

São leis incriminadoras incompletas os elementos normativos e as normas penais em branco.

Elementos normativos são palavras ou expressões contidas nos tipos penais que demandam um
juízo de valor por marte do Magistrado, quando da aplicação da lei penal a fatos concretos.
Esses juízos podem ser jurídicos, sociais, históricos etc. Exemplo: art. 297, CP, crime de falsidade
de documento público, para que haja a correta aplicação da norma o Juiz deve buscar o sentido
jurídico da expressão “documento público”.

As normas penais em branco terão seu complemento estabelecido por outro ato normativo, po-
dem ser homogêneas ou em sentido amplo e heterogêneas ou em sentido estrito.

As homogêneas serão complementadas por outra lei de mesma hierarquia da lei penal. Exemplo:
art. 237, CP, a lei penal não menciona quais são os impedimentos absolutos para o casamento,
é o Código Civil que estabelecerá tais hipóteses.

As heterogêneas serão complementadas por outro ato normativo de hierarquia inferior a lei pe-
nal, tais como decretos, portarias. A despeito de o complemento não ser estabelecido por lei em
sentido estrito, não há violação da reserva legal, pois a lei penal individualizou minimamente o
fato. Exemplo: art. 33 da Lei nº 11.343/06, tráfico de drogas, a lei não diz quais são as drogas,
essa tarefa ficou relegada a Portaria 344/98.

A anterioridade determina que a lei que cria o crime e a respectiva pena deve ser anterior ao fato
que se pretende punir. Trata-se de questão de segurança jurídica.

3.2 Lei penal no tempo


3.2.1 Regra: tempus regit actum 
Regra geral, a lei do tempo rege o ato, ou seja, aplica-se ao fato a lei que está em vigor no
momento em que o fato foi realizado.

Esse preceito aplica-se a todos os ramos do Direito.

3.2.2 Funções extra-ativas da lei penal


O Direito Penal admite excepcionalmente a aplicação de extra-atividade penal, que implica
na possibilidade de aplicação de uma lei fora do seu período de vigência. Isso é possível nas
hipóteses de retroatividade e de ultra-atividade.

09
Tópicos em Direito 2

Retroatividade é a possibilidade de estender os efeitos de uma lei a fatos praticados antes de


entrar em vigor. Só é possível para beneficiar o réu, conforme os preceitos do art. 5º, XL, CF e
do art. 2º, CP.

O princípio da retroatividade da lei mais benéfica é também uma garantia constitucional e,


portanto, cláusula pétrea.

O art. 2º, CP estabelece duas hipóteses a abolitio criminis e a novatio legis in mellius, tam-
bém denominada de lex mitior.

A abolitio criminis, na tradução literal, significa abolição do crime, ou seja, o fato deixa de ser
considerado crime. Nesse caso, apagam-se todos os efeitos penais, atingindo inclusive a coisa
julgada, ou seja, é como se o agente nunca tivesse praticado ilícito penal. Todavia, os efeitos ci-
vis permanecem. Exemplo: art. 240, CP, o crime de adultério foi revogado pela Lei nº 11.106/05.

A novatio legis in mellius, tradução literal nova lei para melhor, também denominada lex mitior,
lei melhor, implica em lei posterior que estabelece algum benefício ao agente, mantendo a ili-
citude do fato. Os efeitos são idênticos aos apontados. Exemplo: art. 28 da Lei nº 11.343/06,
o porte de drogas para consumo próprio tem como punição principal apenas pena restritiva de
direitos.

Ultra-atividade é a possibilidade de estender os efeitos de uma lei além do seu período de


vigência, desde que o fato tenha sido praticado durante a vigência da lei. Aplica-se em três hipó-
teses: para beneficiar o réu, no caso de leis excepcionais e de leis temporárias.

A ultra-atividade em benefício do réu é decorrência do princípio da retroatividade da lei mais


benéfica. Assim, se uma lei jamais retroage para prejudicar o réu, a lei que será aplicada é a que
vigia ao tempo da prática do fato, podendo, se necessário, estender seus efeitos para a frente
no tempo.

As leis excepcionais são elaboradas por conta de alguma situação de anormalidade – calamida-
de pública ou guerra, por exemplo – e por isso tem prazo de vigência indeterminado. Já as leis
temporárias têm prazo determinado de vigência.

Dessa forma, para que haja efetividade das leis excepcionais e temporárias, é necessário que
tenham efeito ultra-ativo. Logo, todos os fatos praticados sob égide dessas leis submeter-se-ão a
elas, de acordo com o que preceitua o art. 3º, CP.

3.2.3 Combinação de leis


Discute-se a possibilidade de combinação de leis diversas, considerando-se apenas os preceitos
mais benéficos de cada lei. Dessa forma, a lei não seria considerada integralmente, mas sim
apenas o trecho mais benéfico.

O assunto é divergente. Há dois posicionamentos que se destacam em relação a esse assun-


to: 1, não é possível a combinação de leis diversas, pois dessa maneira haveria infringência
da tripartição dos poderes, fundamento do Estado Democrático de Direito, visto que o Juiz
ao combinar leis diversas estaria criando uma outra; 2, é possível em decorrência do sistema
constitucional das garantias fundamentais, posto que se é possível a retroatividade da lei mais
benéfica não haveria óbice relativo a eventual combinação de leis.

A atual Lei de Drogas suscitou tal discussão em relação à possibilidade de manter a pena do art.
12, da Lei nº 6368/76, com aplicação do benefício estabelecido pela Lei nº 11.343/06 no § 4º
do art. 33.

10 Laureate- International Universities


3.2.4 Tempo do crime (art. 4º, CP)
Considera-se o crime praticado no momento da execução do fato. É a partir desse momento
que haverá a incidência da lei penal. Adota-se a teoria da atividade.

Por exemplo, se o agente tem 17 anos na data em que desfere três golpes de faca contra uma
pessoa, com vontade de matar, mas a vítima morre apenas em data em que o autor do fato já
tem 18 anos, não se aplica o Código Penal a esse fato, em decorrência da teoria da atividade.

Em se tratando de crime permanente – aquele cuja consumação se protrai no tempo – é impor-


tante verificar se o fato se prolongou conscientemente após a maioridade penal, sendo que nesse
caso haverá aplicação do Código Penal.

Quanto ao crime continuado – modalidade e concurso de crimes – os fatos devem ser conside-
rados isoladamente.

Saliente-se que o art. 4º, CP não se aplica quanto ao termo inicial da prescrição. O termo ini-
cial da prescrição é regido pelo art. 111, CP.

3.3 Lei penal no espaço


Adota-se o princípio da territorialidade temperada ou relativa, de acordo com art. 5º, caput, CP.
Assim, aplica-se a lei brasileira aos crimes praticados dentro do espaço considerado território
nacional para fins jurídicos, respeitando-se disposições de tratados internacionais.

Considera-se território nacional para fins jurídicos: o território geográfico; o mar territorial (12
milhas marítimas, art. 1º Lei nº 8617/93); o espaço aéreo correspondente; subsolo correspon-
dente; os navios e aeronaves públicos, onde quer que se encontrem (art. 5º, §1º, CP), os navios
e aeronaves privadas, quando em alto-mar (art. 5º, § 1º, CP).

3.3.1 Lugar do crime (art. 6º, CP)


Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a execução do fato, no todo ou em
parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. Adota-se a teoria da
ubiquidade ou mista.

É importante destacar que o preceito referido se presta a identificar os lugares nos quais vai ha-
ver a incidência da lei penal, ou seja, ainda que o crime não ocorra integralmente no território
nacional haverá a incidência da nossa lei ao fato. Não se trata de regra para fixar a competência
para julgamento, matéria esta afeta à lei processual penal.

3.3.2 Extraterritorialidade da lei penal (art. 7º, CP)


Extraterritorialidade é a possibilidade de aplicação da lei penal brasileira a crimes praticados em
território estrangeiro.

Há duas hipóteses de extraterritorialidade: a incondicionada (art. 7º, I e § 1º, CP) e a condicio-


nada (art. 7º, II, §§ 2º e 3º, CP).

As hipóteses da incondicionada são mais relevantes, por essa razão o agente será submetido à
lei brasileira ainda que absolvido ou condenado no estrangeiro. Em geral, envolvem questões
relativas ao princípio real ou de defesa, exceto na hipótese do genocídio, em que se adota o
princípio da universalidade.

11
Tópicos em Direito 2

Na condicionada há necessidade do implemento das condições do § 2º, de forma cumulativa,


nas hipóteses previstas no inciso II, em que se adota os princípios da universalidade, da naciona-
lidade ativa e da bandeira. No caso da hipótese no § 3º, em que se adota o princípio da nacio-
nalidade passiva, devem estar presentes as condições do § 2º, mais as duas adicionais do § 3º.

4 Contagem de prazo penal (arts. 10 e


11, CP)
O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo
calendário comum.

Desprezam-se nas penas privativas de liberdade e nas restritivas de direitos, as frações de dia,
e na pena de multa as frações de real.

5 Conflito aparente de normas


O fato criminoso à primeira vista enquadra-se em dois ou mais tipos penais, contudo, como o
conflito é apenas aparente, encaixa-se em apenas um deles.

A solução do conflito resolve-se pela aplicação dos princípios da especialidade, da subsidiarie-


dade, da consunção e da alternatividade (para alguns doutrinadores).

Especialidade: lei especial é a que contém todos os elementos de outra (geral), e ainda
alguns elementos especializantes. Ex.: homicídio e infanticídio.
Subsidiariedade: a norma que prevê a ofensa maior do bem jurídico exclui a aplicação da
norma que prevê a ofensa menor desse bem. Pode ser expressa ou implícita. Ex.: expressa
art. 132, CP; implícita o crime de dano (art. 163, CP) é subsidiário ao furto qualificado por
rompimento de obstáculo (art. 155, § 4º, I, CP).
Consunção: também denominado da absorção, a descrição de um ilícito é meio, fase
normal de preparação ou execução, conduta anterior ou posterior de outro crime. Divide-
se em: crime progressivo (a prática de um crime pressupõe obrigatoriamente a do outro,
ex. lesão corporal é meio para o homicídio); progressão criminosa (num mesmo contexto
o dolo do agente sofre mutações, ex. após injuriar o agente resolve matar); antefato
impunível (um delito menos grave é fase normal de preparação ou execução de outro mais
grave, ex. o disparo de arma de fogo é absorvido pelo homicídio); e pós-fato impunível
(aquele que se insere no curso normal da intenção do agente, ex. o agente furta e após
vende a res).
Alternatividade: a aplicação de uma norma exclui a outra. Na realidade para a maioria
não há conflito.

12 Laureate- International Universities


6 Teoria Geral do Crime

6.1 Sujeito ativo


Sujeito ativo é, em regra, a pessoa física que realiza a conduta ilícita penal.

Quanto ao sujeito ativo, a classificação doutrinária divide os crimes em: comuns, próprios e de
mão própria.

Regra geral, os crimes são comuns, podem ser praticados por qualquer pessoa.

Os próprios só podem ser praticados pelas pessoas indicadas pelo legislador na descrição
típica, porém admite-se o concurso de pessoas tanto na modalidade coautoria quanto na par-
ticipação. Circunstâncias de caráter pessoal não se comunicam, salvo se elementares do tipo.
Dessa forma, o terceiro que não tem a condição de caráter pessoal, mas sabe da condição do
concorrente, responde pelo mesmo tipo penal, como ocorre, por exemplo, no crime de peculato.

Os de mão própria só podem ser praticados pela pessoa indicada pelo legislador, nesse caso
não se admite coautoria, apenas a participação. Ex.: falso testemunho ou falsa perícia, art.
342, CP.

Excepcionalmente, pessoa jurídica pode ser agente de crime, apenas se partirmos do pres-
suposto de que a teoria adotada é a da realidade, ou seja, que a pessoa jurídica é dotada de
vontade própria. Além disso, é importante considerar que apenas as de direito privado poderão
ser agentes, visto que as de direito público são sempre sujeito passivo formal ou constante. Atu-
almente, pessoa jurídica só pode ser sujeito ativo de crime ambiental, conforme os arts. 225, §
3º, CF e 3º, Lei nº 9605/98.

6.2 Sujeito passivo


Sujeito passivo é o titular do direito violado ou ameaçado de lesão pela conduta ilícita pra-
ticada pelo agente.

São espécies de sujeito passivo o formal ou constante e o material ou direto ou eventual. For-
mal ou constante é sempre o Estado. Material é o titular direto do direito violado.

É possível que o Estado seja o único sujeito passivo, nos crimes contra a Administração Pública,
por exemplo.

Morto não é sujeito passivo de crime, posto que não tem mais personalidade, logo não é
titular de direitos.

A mesma pessoa não pode ser sujeito ativo e passivo de uma mesma conduta. Mesmo no crime
de rixa, todos são sujeitos ativos e passivos, porque a conduta, por ser uma briga generalizada,
é de cada um contra todos.

Por fim, há ainda o denominado crime vago, que tem como sujeito passivo um ente sem per-
sonalidade jurídica, como os delitos que atentam contra a coletividade ou a família.

13
Tópicos em Direito 2

6.3 Objeto do crime


O objeto do crime pode ser jurídico ou material.

Jurídico é o bem jurídico sobre o qual recai a tutela penal. Ex.: vida, patrimônio, administração
pública.

Material é a coisa ou pessoa sobre a qual recai a conduta do agente. Ex.: na lesão corporal a
pessoa, no furto a coisa móvel.

6.4 Conceito de crime


O conceito formal está contido no art. 1º, LICP, em que havia a pretensão de se conceituar
crime, contudo não se logrou êxito. O referido artigo apenas estabelece as espécies de pena
pertinentes aos crimes e às contravenções, contudo esse dispositivo encontra-se obsoleto, tendo
em vista que, por exemplo, atualmente há crimes cuja pena principal é restritiva de direitos, o
porte de drogas para consumo próprio, art. 28, Lei nº 11.343/06.

A diferença entre crimes de contravenções não é de essência, pois ambos são espécies de infra-
ção penal. A diferença é quantitativa, crimes são mais graves que as contravenções, dessa forma
haverá punições mais severas para aqueles.

Conceito material é um conceito doutrinário. Assim, crime é a lesão ou ameaça de lesão a


um bem jurídico tutelado pelo Direito Penal.

O conceito analítico é o principal, pois estabelece os elementos constitutivos do crime.

Adotamos a teoria finalista, contudo os autores divergem, uns adotam a tripartida, outros a
bipartida.

Se tripartida, o crime é um fato típico, antijurídico e culpável.

Se bipartida, crime é um fato típico e antijurídico, sendo que a culpabilidade é pressupos-


to de aplicação da pena.

A despeito da diferença teórica, sob o ponto de vista prático o impacto de se adotar uma
ou outra é diminuto.

Assim, desenvolveremos o estudo levando em conta a tripartida.

6.4.1 Fato típico

6.4.1.1. Conduta. Comportamento. Vontade. Erro de tipo


É o primeiro elemento do fato típico.

Conduta é todo comportamento dirigido por uma vontade, levando-se em conta a teoria
finalista da ação. As formas são ação e omissão. Em matéria Penal, a vontade se expressa por
dolo, culpa e preterdolo, a serem abordados mais adiante.

Os crimes praticados por ação implicam em comportamento positivo, um fazer, que aparece no
verbo núcleo do tipo, são denominados crimes comissivos.

14 Laureate- International Universities


Os praticados por omissão constituem comportamento negativo, um não fazer, podem ser
omissivos próprios ou puros e omissivos impróprios ou impuros ou comissivos por omissão.

Os próprios são os crimes cujo comportamento negativo está contido no núcleo do tipo pe-
nal, o legislador descreve o fato dessa forma. Ex.: art. 135, CP; art. 269, CP.

Os impróprios são os crimes em que a omissão do garante implica na possibilidade de respon-


der pelo resultado, caso possa e deva agir para impedi-lo. São garantes as pessoas elencadas no
art. 13, §2º, CP. Ex.: mãe que deixa de amamentar o próprio filho, podendo fazê-lo, não ministra
alimento alternativo, ocasionando a morte da criança por inanição.

A forma principal de vontade é o dolo. Dolo é a vontade livre e consciente de produzir o


resultado ou ao menos assumir o risco de produzi-lo.

O art. 18, I, CP, primeira parte, adota a teoria da vontade, a parte em que o agente quer
produzir o resultado jurídico. Essa teoria é complementada pela teoria do assentimento ou do
assentimento, referente à hipótese em que o agente assume o risco de produzir o resultado,
contida na parte final do dispositivo referido.

Levando-se em conta a teoria finalista o dolo é o natural. Não se adota mais o dolo normati-
vo, em que se exigia a consciência da ilicitude, de acordo com a teoria clássica.

As principais espécies de dolo são: direto, indireto, genérico e específico.

O agente no dolo direto direciona a conduta desde o início num único sentido. Já no indireto,
não há direcionamento único, se subdivide em alternativo e eventual. No alternativo o agente
pratica conduta capaz de produzir resultados diversos, sendo que se contenta com qualquer de-
les. No eventual, o sujeito ativo pratica conduta capaz de produzir o resultado ou não, mesmo
assim continua a realizar a conduta, sem desvia-la, assumindo o risco de produzir o resultado.

O dolo genérico é a vontade de praticar a conduta principal contida no núcleo, sendo que o tipo
não exige finalidade especial, ex. art. 121, caput, CP. O dolo específico é a finalidade especial
exigida no tipo, que deve existir no caso concreto, no momento em que o agente pratica a condu-
ta, sob pena de atipicidade da conduta ou enquadramento em outro tipo penal, ex. art. 159, CP.

A culpa em sentido estrito é segunda forma de vontade na esfera penal e depende da cumula-
ção dos seguintes elementos:

1º conduta inicial voluntária;

2º quebra do dever objetivo de cuidado, por imprudência, negligência ou imperícia.


A imprudência é conduta positiva afoita, descuidada, ex. dirigir em alta velocidade.
Negligência é comportamento negativo descuidado, não acionar o freio de mão em
logradouro íngreme. Imperícia é a inobservância de regra técnica no exercício profissional.
Ex.: cálculos errados realizados por engenheiro mal preparado;

3º resultado involuntário;

4º nexo causal entre a conduta inicial voluntária e o resultado involuntário;

5º previsibilidade objetiva: possibilidade de o homem médio prever o resultado.


Homem médio é um parâmetro abstrato, uma ficção jurídica que constitui pessoa de
cautela mediana;

6º tipicidade. Só há crime culposo se houver previsão legal expressa.

15
Tópicos em Direito 2

Há quatro espécies de culpa: a inconsciente, a consciente, a própria e a imprópria.

Na inconsciente o agente não prevê a possibilidade de ocorrência do resultado no caso concre-


to. Na consciente o agente prevê a possibilidade do resultado, contudo espera sinceramente que
não ocorra.

Na própria, o agente não quer o resultado nem assume o risco de produzi-lo. Na imprópria, o
agente, após prever o resultado, realiza a conduta por descriminantes putativas, na verdade o
agente age com dolo, contudo em razão de política criminal responde por crime culposo.

Saliente-se que não existe compensação de culpas na esfera penal. A conduta da vítima não
elide a responsabilidade penal do autor.

Por fim, há ainda o preterdolo, última forma de vontade. É uma das espécies de crime qualificado
pelo resultado (art. 19, CP). Só é possível se houver previsão expressa. No crime preterdoloso
ou preterintencional, o agente tem dolo no antecedente e culpa no consequente. Ex.: art.
129, § 3º, CP.

Erro de tipo é a falsa percepção da realidade, diante de uma situação fática, que pode in-
terferir na vontade do agente. Dessa forma, como no Direito Penal a vontade é absolutamente
importante, qualquer vício pode trazer consequências.

Há quatro espécies de erro de tipo: o essencial, as descriminantes putativas, o erro deter-


minado por terceiro e o erro sobre a pessoa.

O erro de tipo essencial é o engano do agente quanto a elementar do tipo (art. 20, caput,
CP). Elementar é toda palavra ou expressão contida no tipo que se eliminada mentalmente faz
com que o crime desapareça.

Pode ser escusável, perdoável ou inevitável ou inescusável, imperdoável ou evitável. O critério


para aferir se o erro é perdoável ou não é o do homem médio, assim será perdoável se nem
o homem médio, diante de determinada situação fática seria mais cuidadoso. Se perdoável,
exclui o dolo e a culpa. Se imperdoável exclui apenas o dolo, permitindo a punição por
culpa, se prevista em lei.

As descriminantes putativas são situações em que o agente imagina que incorre num tipo
penal permissivo, diante de situação concreta, mas na realidade não está (art. 20, § 1ª,
CP). Se justificável que imagine dessa forma, o agente fica isento de pena. Se injustificável,
responde o agente por culpa, se prevista em lei. O critério novamente é o do homem médio.

O erro determinado por terceiro implica na hipótese do agente se valer de outra pessoa
como mero instrumento para praticar o fato ilícito (art. 20, § 2º, CP). Nesse caso, só res-
ponde quem determinou o erro.

O erro de tipo acidental é o equívoco irrelevante do agente, este responde como se tivesse
praticado o fato como pretendia. Pode ser sobre objeto, sobre pessoa (error in personae),
sobre o nexo causal (aberratio causae) e na execução (aberratio ictus).

O sobre objeto incide sobre a coisa que se almejava atingir. Ex.: o agente furta corrente dourada
pensando ser de ouro, mas era bijuteria.

No sobre a pessoa o agente confunde a pessoa que pretendia atingir (art. 20, § 3º, CP). O
agente responde como se tivesse realizado seu intento. Ex.: o agente desfere golpes de faca na
escuridão em pessoa que acreditava ser seu pai.

No erro sobre o nexo causal, o agente imagina que o resultado adveio de determinada causa,
contudo sobrevém de outra. Mas é importante afirmar que o sujeito ativo praticou as duas cau-

16 Laureate- International Universities


sas. Ex.: o autor do fato pretende matar alguém por disparos de arma de fogo, contudo a vítima
ao se esquivar cai num precipício e morre, o agente responde pelo resultado de qualquer forma.

6.4.1.2. Resultado jurídico e naturalístico


Resultado é a consequência da conduta perpetrada pelo agente. Há duas espécies de resul-
tado: o jurídico e o naturalístico.

O jurídico é a violação ou ameaça de violação a um bem jurídico tutelado pelo Direito Pe-
nal. Assim, pode-se afirmar que todo crime tem resultado jurídico.

O naturalístico é a modificação do mundo físico, resultante da conduta do autor do fato.


Trata-se de modificação perceptível no objeto material do fato. Pode-se afirmar que nem todo
crime tem esse tipo de resultado.

Há uma classificação doutrinária dos crimes, quanto ao resultado, que divide os crimes em ma-
teriais, formais e de mera conduta.

Os materiais só se consumam com a ocorrência do resultado naturalístico. Ex.: homicídio, lesão


corporal, roubo.

Os formais se consuma antes da ocorrência do resultado naturalístico. Ex.: ameaça, extorsão


mediante sequestro.

Os de mera conduta se consumam com a simples atividade do agente, não há sequer previsão
legal de resultado naturalístico. Ex.: violação de domicílio na forma simples.

A identificação dessa classificação decorre da observância do tipo penal, ou seja, o legislador


ao descrever o fato define a classificação apontada.

O resultado naturalístico, portanto, apenas será elemento do fato típico se forem crimes
materiais ou omissivos impróprios. Não será elemento se forem crimes formais, de mera
conduta e omissivos próprios.

6.4.1.3. Nexo causal


Nexo causal é o liame (ligação) entre a conduta e o resultado naturalístico. Dessa forma,
só tem relevância o estudo do nexo causal se em relação aos crimes materiais ou omissivos im-
próprios.

Repise-se que nos crimes materiais e omissivos impróprios o fato típico é composto por
quatro elementos: conduta (dolo, culpa e preterdolo), resultado naturalístico, nexo causal
e tipicidade. Nos formais, de mera conduta e omissivos impróprios há dois elementos:
conduta (dolo, culpa e preterdolo) e tipicidade.

A teoria adotada pelo Código Penal no art. 13, caput, é a da equivalência dos antecedentes,
também denominada da conditio sine qua non. Todas as causas que contribuem de alguma
forma para a produção do resultado são consideradas e tem valor equivalente.

Há dois filtros para se evitar o regressum ad infinitum decorrente dessa teoria. O primeiro se de-
nomina eliminação hipotética de Thyrén (professor sueco que deu nome à teoria) e o segundo
é o elemento subjetivo.

O primeiro se aplica da seguinte forma: volta-se em cada causa antecedente e se pergunta men-
talmente se sem ela o resultado teria ocorrido, se a resposta for afirmativa pode ser retirada, pois
não interferiu na produção do resultado.

O elemento subjetivo é a vontade do agente. A causa que vai compor a conduta, elemento do
fato típico, será aquela praticada com a vontade de produzir o resultado.

17
Tópicos em Direito 2

Há autores que acrescentam um terceiro filtro denominado imputação objetiva, que trabalha
com a teoria do risco. Contudo, não há consenso quanto à admissibilidade desse filtro, seja
porque não há previsão legal, seja porque não há unanimidade acerca dos seus parâmetros de
aplicação.

Superveniência causal é a quebra do desdobramento causal da conduta por outra causa. Pode
ser por causa absolutamente independente ou por causa relativamente independente.

As causas absolutamente independentes não têm a menor relação entre si. Pode ser que a
causa que produziu o resultado seja a preexistente (praticada primeiro), concomitante (se as cau-
sas são simultâneas) ou superveniente, se for a causa posterior a produzir o resultado.

Idêntica situação ocorre se forem causas relativamente independentes, porém nesse caso as
causas têm relação entre si, uma não corre sem a outra.

Excepcionalmente, adota-se a teoria da causalidade adequada, no art. 13, § 1º, CP, sem-
pre que uma causa por si só produziu o resultado.

6.4.1.4. Tipicidade. Princípio da insignificância


Tipo penal é a descrição do fato na lei realizada pelo legislador. Fato concreto é o fato da
vida real.

Tipicidade é a subsunção – o enquadramento – do fato concreto na lei em abstrato, no tipo


penal.

A despeito de alguns doutrinadores apontarem diferença entre tipicidade e adequação típica,


parta-se do pressuposto, como a maioria, de que são a mesma coisa.

Há duas modalidades de adequação típica: por subordinação imediata ou direta e por su-
bordinação mediata ou indireta.

A primeira dá-se, como a própria denominação diz, quando a adequação entre o fato e a lei
penal incriminadora é imediata, ou seja, não é necessário que se recorra a nenhuma norma
de extensão do tipo, o enquadramento ocorre num único tipo penal. Ex.: pessoa que desfere
dois golpes de faca com vontade de matar, o enquadramento do fato se amolda perfeitamente
ao art. 121, caput, CP.

Na segunda, o encaixe não ocorre diretamente, faz-se necessário a utilização de uma norma
de extensão. Ex.: pessoa que desfere dois golpes de faca em outrem com vontade de matar, mas
por circunstâncias alheias à vontade do agente a vítima não morre. Nesse caso, a subsunção só
será possível se se recorrer a uma norma de extensão, no caso o art. 14, II, CP.

É ainda importante mencionar os elementos do tipo. São eles: objetivos, subjetivos e normativos.

A regra é que os tipos penais sejam compostos apenas por elementos objetivos, ou seja, sejam
descritos por palavras ou expressões que sejam de compreensão simples, basta identificar o
significado da palavra para compreender.

Elementos subjetivos são finalidades especiais inseridas no tipo pelo legislador que devem
ocorrer no caso concreto no momento em que o agente realiza o núcleo do tipo. A ausência da
finalidade no caso concreto pode culminar na atipicidade da conduta ou enquadramento em
tipo penal diverso. Ex.: no furto a finalidade é que o agente subtraia a coisa “para si ou para
outrem”, sem essa finalidade a conduta é atípica.

Elementos normativos são palavras ou expressões contidas no tipo que demandam um juízo
de valor por parte do Magistrado, quando da aplicação da lei penal ao caso concreto. Esse

18 Laureate- International Universities


juízo de valor pode ser social, cultural, histórico ou jurídico. Ex.: a expressão “indevidamente” na
prevaricação, “documento público” no crime de falsificação de documento público.

Há uma excludente da tipicidade denominada princípio da insignificância ou da bagatela.


O STF de forma reiterada decidiu que para a aplicação desse princípio é necessário observar os
seguintes requisitos: mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade
social da conduta, reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e inexpres-
sividade da lesão jurídica provocada.

Diante desses requisitos, pode-se afirmar que a aplicação da bagatela não se restringe aos cri-
mes patrimoniais.

Saliente-se que não há previsão legal expressa admitindo a aplicação desse princípio e que a
jurisprudência reluta em aplicá-lo de forma geral.

6.4.2 Ilicitude, ou Antijuridicidade


Ilicitude, ou antijuridicidade, é a contrariedade da conduta ao ordenamento jurídico pe-
nal. Assim, é possível que haja fato típico que seja lícito, basta que haja a caracterização de
alguma excludente de ilicitude.

Causas excludentes da ilicitude ou causas excludentes da antijuridicidade ou causas de justifi-


cação ou tipos penais permissivos podem ser legais e supralegais. As legais se subdividem em
gerais (art. 23, CP) e especiais (previstas em alguns tipos penais, ex. art. 128, CP). As supralegais
não estão na lei e constituem assunto divergente, a mais aceita é o consentimento do ofendido.

As legais gerais se aplicam a todos os fatos típicos. São elas: estado de necessidade, legítima
defesa, exercício regular de um direito e estrito cumprimento do dever legal.

O estado de necessidade está previsto nos arts. 23, I e 24, CP. Requisitos: situação de perigo,
atual ou iminente (admitido de forma ampla na doutrina, a despeito de ausência de previsão
legal expressa), não provocado por vontade do agente (de forma dolosa para a maioria), direito
próprio ou alheio, conduta lesiva necessária, razoabilidade do sacrifício, ausência do dever de
enfrentar o perigo e conhecimento da situação justificante. Espécies principais: próprio, de ter-
ceiro, real ou putativo (imaginário).

É importante consignar que se o agente escolhe o bem menos valioso para salvaguardar, haverá
crime, por ausência de razoabilidade do sacrifício, contudo poderá incidir redução de pena, de
acordo com o art. 24, § 2º, CP.

A legítima defesa está prevista nos arts. 23, II e 25, CP. Requisitos: agressão humana injusta,
atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, reação moderada, com meios necessários e co-
nhecimento da situação justificante. Legítima defesa não é vingança. Assim, em geral o ataque
pelas costas não constitui a excludente. Espécies principais: própria, de terceiro, real, putativa
(imaginária) e sucessiva (reação legítima ao excesso punível).

Não se admite legítima defesa recíproca, ou seja, simultânea, desde que seja real. Nesse caso,
ou ambos os agentes praticam agressões injustas ou um injusta e o outro justa.

O exercício regular de um direito é a excludente diante de situações permitidas nos outros


ramos do direito, art. 23, III, CP. Ex.: exercício do poder familiar, direito desportivo.

Há divergência se os ofendículos são legítima defesa preordenada ou exercício regular de um


direito. Ofendículos são aparatos ou aparelhos predispostos para a proteção do patrimônio. Ex.:
cerca elétrica, alarme. Independentemente do posicionamento não haverá crime, desde que haja
moderação na utilização desses objetos.

19
Tópicos em Direito 2

Estrito cumprimento do dever legal é a excludente diante de situações que decorrem do exer-
cício funcional, regulado em lei, de algumas pessoas, art. 23, III, CP. Ex.: policial que executa
mandado de prisão, oficial de justiça que apreende veículo.

6.4.3 Culpabilidade
A culpabilidade é o terceiro elemento do conceito analítico de crime. A culpabilidade não
se confunde com a culpa em sentido estrito, esta é elemento de vontade da conduta e compõe
o fato típico.

São elementos da culpabilidade: imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigi-


bilidade de conduta diversa.

6.4.3.1. Imputabilidade. Inimputabilidade. Semi-imputabilidade


Imputabilidade é a capacidade de autodeterminação do agente, capacidade de entender
o que faz.

A lei penal prevê apenas as hipóteses em que não há imputabilidade, assim os imputáveis são
identificados por exclusão.

O menor de dezoito anos é inimputável, arts. 228, CF, 27, CP e 104, ECA. Trata-se de pre-
sunção absoluta, sendo que o critério utilizado pelo legislador nesse caso foi o biológico.

Os doentes mentais podem ser inimputáveis, de acordo com o art. 26, caput, CP. Porém,
nesse caso o critério legal é o biopsicológico, ou seja, deve haver uma causa biológica que
desencadeia, no momento da prática da conduta ilícita, perturbação psicológica tal que retire
por completo o discernimento. A acepção doente mental é utilizada de forma ampla, podendo
incluir os silvícolas, os surdos-mudos, os alcoólatras, os dependentes químicos, as doenças men-
tais propriamente ditas.

Cabe asseverar que no caso apontado é necessária a realização de laudo pericial para aferir
em cada caso se há discernimento, ausência ou discernimento parcial.

A embriaguez (por álcool ou drogas) proveniente de caso fortuito ou força maior se completa
implica em inimputabilidade penal.

A embriaguez voluntária não exclui a imputabilidade penal. Nesse caso, desloca-se a aferi-
ção da imputabilidade para o momento anterior à ingestão da substância inebriante, aplicando-
-se a teoria da actio libera in causa, ação livre na causa. Ressalte-se que a aplicação da refe-
rida teoria não pode implicar em responsabilidade objetiva do agente, vedada na esfera penal,
por isso deve-se observar a presença dos demais elementos do crime, principalmente os relativos
à vontade.

A emoção e a paixão não excluem a imputabilidade penal, art. 28, I, CP. Emoção é senti-
mento fugaz, ex. euforia, e a paixão, sentimento duradouro, ex. ódio. A emoção pode apenas
interferir na quantidade de punição.

A inimputabilidade gera presunção absoluta de periculosidade. Dessa forma, o agente inim-


putável é absolvido, mas trata-se de absolvição imprópria, pois implica na aplicação de medida
de segurança.

A semi-imputabilidade é o discernimento parcial do agente. Nesse caso, o agente é condena-


do, com aplicação de pena reduzida (art. 26, parágrafo único, CP), apenas se comprovada a pe-
riculosidade no caso concreto, a pena reduzida poderá ser substituída por medida de segurança.

20 Laureate- International Universities


6.4.3.2. Potencial consciência da ilicitude. Erro de proibição
Potencial consciência da ilicitude é a possibilidade, mediante um juízo leigo, de o agente
ter acesso à informação acerca da ilicitude do fato.

Erro de proibição é o equívoco do agente, quanto à ilicitude do fato. Pode ser: escusável,
perdoável ou inevitável ou inescusável, imperdoável ou evitável. O critério para aferir se o erro
é perdoável ou não leva em conta as condições pessoais do agente, diferente da regra geral.

Os efeitos do erro de proibição estão no art. 21, CP, se perdoável implica em exclusão da cul-
pabilidade, se imperdoável em redução de pena.

6.4.3.3. Exigibilidade de conduta diversa. Causas de inexigibilidade de


conduta diversa
A exigibilidade de conduta diversa é a exigência do Estado de que, diante de situações
normais, as pessoas se abstenham de praticar crimes.

São causas de inexigibilidade de conduta diversa, situações anormais, admitidas expressa-


mente no art. 22, CP: a coação moral irresistível e a obediência hierárquica.

Na coação moral irresistível, o coator obriga o coacto a praticar um crime mediante a promessa
de praticar mal, injusto, grave e possível de realizar em futuro próximo, contra o coacto ou al-
guém de seu relacionamento. Só responde pelo crime o coator. Ex.: sequestrar filho de gerente
de joalheria, para constrangê-lo a auxiliar na subtração de joias.

A obediência hierárquica ocorre sempre que subalterno cumpre ordem de superior hierárquico,
desde que não seja manifestamente ilegal. Só responde pelo crime o superior. Ex.: delegado que
ordena recolhimento de preso ao cárcere, sem que haja justa causa para tanto.

Pode-se esquematizar o conceito analítico de crime, para a teoria finalista tripartida, em se tra-
tando de crimes materiais e omissivos impróprios:

Fato típico

»» conduta (dolo, culpa e preterdolo)

»» resultado naturalístico

»» nexo causal

»» tipicidade

Antijurídico

Culpável

»» imputabilidade

»» potencial consciência da ilicitude

»» exigibilidade de conduta diversa

21
Tópicos em Direito 2

Pode-se esquematizar o conceito analítico de crime, para a teoria finalista tripartida, em se tra-
tando de crimes formais, de mera conduta e omissivos próprios:

Fato típico

»» conduta (dolo, culpa e preterdolo)

»» tipicidade

Antijurídico

Culpável

»» imputabilidade

»» potencial consciência da ilicitude

»» exigibilidade de conduta diversa

7 Consumação
Diz-se o crime consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição
legal (art. 14, I, CP).

Os crimes materiais consumam-se apenas com a ocorrência do resultado naturalístico. Os for-


mais antes da ocorrência do resultado naturalístico. Os de mera conduta se consuma com a
simples atividade do agente, não há previsão de resultado naturalístico.

São fases do iter criminis:

Cogitação é a primeira fase. É a fase interna em que o agente concebe a ideia acerca da
prática delitiva. Trata-se de fase impune.

Atos preparatórios, fase externa, em que o agente se cerca de aparatos necessários


para a prática delitiva. Em regra, não são puníveis, contudo serão puníveis se constituírem
crime autônomo, ex. associação criminosa.

Atos executórios são atos capazes de lesar o bem jurídico tutelado. Prepondera o
entendimento de que se iniciam os atos executórios a partir do momento que o agente
pratica ato capaz de ofender o bem jurídico que esteja descrito no tipo. A partir desse
momento é possível a punição, ao menos por tentativa.

Consumação é a consecução integral da conduta típica.

O exaurimento não faz parte do iter criminis. Nesse caso, o agente pratica atos além dos
necessários para a consumação do crime. Ex.: a ocorrência do resultado naturalístico, nos crimes
formais, é mero exaurimento do fato.

22 Laureate- International Universities


8 Tentativa (art. 14, II, CP)
Tentativa é a interrupção dos atos executórios por circunstâncias alheias à vontade do
agente.

Os crimes unissubsistentes não admitem tentativa, pois a execução e consumação se dão num
único ato.

Os crimes plurissubsistentes admitem tentativa, pois se realizam por mais de um ato executório.

São espécies de tentativa: a perfeita ou acabada, a imperfeita ou inacabada e a branca ou


incruenta.

Na perfeita, o agente esgota todos os atos executórios possíveis para o caso concreto, mas
por circunstâncias alheias a sua vontade a consumação não ocorre.

Na imperfeita, o agente inicia a realização dos atos executórios, mas não consegue realizar
todos os possíveis, pois ocorre a interrupção, por circunstâncias alheias à sua vontade.

Na branca o agente não consegue atingir o objeto material do delito (coisa ou pessoa).

Não admitem tentativa: os crimes culposos, os preterdolosos, os unissubsistentes, os de


mera conduta, os habituais (composto por uma reiteração de atos), crimes omissivos pró-
prios e as contravenções penais (art. 4º, Decreto-Lei nº 3688/41 – Leis das Contravenções
Penais).

O art. 14, parágrafo único, CP determina que se pune a tentativa com a pena do crime con-
sumado, reduzida de um a dois terços, salvo disposição em contrário. O critério para a maior
redução é inversamente proporcional à proximidade da consumação.

Não constituem tentativa: desistência voluntária, arrependimento eficaz, crime impossí-


vel e arrependimento posterior.

A desistência voluntária está prevista no art. 15, primeira parte do CP. Nesse caso, o agente inicia
a realização dos atos executórios, mas podendo continuar a execução do fato, para de realizá-
-los voluntariamente. O agente só responde pelos atos praticados.

O arrependimento eficaz está previsto no art. 15, in fine, CP. O autor realiza todos os atos execu-
tórios possíveis, se arrepende, e, de forma eficaz impede que a consumação se efetive. O agente
responde apenas pelos atos praticados.

No arrependimento posterior, o sujeito se arrepende após a consumação do fato. Constitui causa


geral de diminuição de pena, desde que preenchidos os requisitos do art. 16, CP.

Diz-se o crime impossível quando, por ineficácia absoluta do meio ou do objeto, a consumação
jamais ocorrerá (art. 17, CP). Não se trata de tentativa, porque o bem jurídico tutelado jamais
sofreu perigo de lesão.

23
Tópicos em Direito 2

9 Concurso de agentes (art. 29, CP)


É a reunião de duas ou mais pessoas para a prática de um mesmo fato ilícito, levando-se
em conta crimes unissubjetivos, que em geral podem ser praticados por apenas uma pessoa.

O concurso de pessoas aqui referido é o eventual e não o obrigatório ou necessário. Neste a


prática do crime por mais de uma pessoa é exigência legal, são os chamados crimes plurissub-
sistentes. Ex.: art. 137, art. 288, ambos do CP.

O CP adota, em regra, a teoria monista ou unitária que preceitua que todos que contribuem
para a prática de uma mesma conduta respondem pelo mesmo tipo penal.

Excepcionalmente, o CP adota a teoria pluralista ou pluralística, em que cada agente que


contribui para uma mesma conduta responde por tipo penal diverso. Ex.: arts. 124 e 126; 317
e 333; todos do CP.

O Brasil não adota a teoria dualista, que estabelece tipo penal diverso para autores e partícipes.

Requisitos: pluralidade de condutas, relevância causal das condutas, vínculo subjetivo,


colaboração anterior à consumação do fato.

Formas de concurso: coautoria e participação. Coautor é todo aquele que pratica a conduta
principal, contida no núcleo do tipo, prevalece o entendimento que adotamos a teoria restritiva.
Partícipe pratica conduta secundária, que consiste em induzimento (faz surgir a ideia), instigação
(estimula a ideia do autor) e auxílio (fornece os meios).

A maioria da doutrina admite a aplicação da teoria do domínio do fato apenas nas hipóte-
ses de autoria mediata. A autoria mediata não constitui modalidade de concurso de pessoas,
pois nesse caso uma pessoa se vale de outra como instrumento para a prática do delito, isso é
possível: 1. Quando alguém se vale de inimputável para praticar o fato; 2. No erro provocado
por terceiro; 3. No caso de coação moral irresistível.

Admite-se apenas coautoria em relação aos crimes culposos para a maioria da doutrina.
Assim, os trabalhadores de uma obra que lançam uma tábua e matam um transeunte respondem
por homicídio culposo em coautoria.

A participação de menor importância ou dolosamente distinta está prevista do art. 29,


§§ 1º e 2º, CP. Se um dos autores quis praticar crime menos grave, será aplicada a pena
deste, contudo se o resultado mais grave era previsível, a pena é aumentada de metade.

Não se comunicam aos concorrentes as circunstâncias ou condições de caráter pessoal,


salvo quando elementares do tipo (art. 30, CP). Ex.: peculato, só pode ser praticado por fun-
cionário público, mas o terceiro responde pelo mesmo crime por ser elementar, desde que saiba
dessa condição.

A participação não é punível, salvo disposição expressa em contrário, se o crime não che-
ga, ao menos, a ser tentado (art. 31, CP).

A autoria colateral não constitui espécie de concurso de pessoas. Ocorre quando dois agentes
realizam atos de execução do mesmo delito, um desconhecendo o comportamento do outro.
Cada um responde pela sua própria conduta.

O mesmo ocorre na autoria incerta. Só que, nesse caso, os agentes realizam a conduta simul-
taneamente, sendo que não é possível identificar quem produziu o resultado. Ambos respondem
por tentativa.

24 Laureate- International Universities


10 Sanção penal
Sanção penal é a consequência da infração penal. Sanção penal é gênero do qual penas
e medidas de segurança são espécies.

10.1 Pena
Pena é a sanção aplicável aos imputáveis e aos semi-imputáveis que não têm periculosida-
de. Podem ser privativas de liberdade, restritivas de direitos ou multas.

São princípios aplicáveis às penas: dignidade da pessoa humana; legalidade; retroativida-


de da lei mais benéfica; individualidade, personalidade ou intranscendência da pena (a
pena não passará da pessoa do condenado, art. 5º, XLV, CF); individualização da pena,
art. 5º, XLVI, CF (tanto na lei quanto na sentença e na execução); proporcionalidade (im-
plícito, arts. 5º, XLVI e XLVII, 98, I, e 227, § 4º, CF).

São penas proibidas, art. 5º, XLVII: a. de morte, salvo em caso de guerra declarada; b. de
caráter perpétuo; c. pena de banimento (expulsão do nacional), o brasileiro nato ou naturali-
zado não pode ser expulso do país; e, d. trabalhos forçados (não se confunde com o dever de
trabalhar do preso).

O entendimento que predomina é o de que os princípios e as proscrições anteriores se estendem


às medidas de segurança.

Nossa CF traz ainda as seguintes previsões: a. art. 5ª, XLVIII, a pena será cumprida em esta-
belecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado; b.
art. 5º, XLIX, é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; e, c. art. 5º, L, às
presidiárias serão asseguradas condições para que possam permanecer com seus filhos durante
o período de amamentação.

10.1.1 Penas privativas de liberdade


São espécies de penas privativas de liberdade: a reclusão e a detenção (art. 33, caput,
CP). A reclusão é mais grave e admite, em regra, o cumprimento nos três regimes penitenciários,
fechado, semiaberto e aberto. A detenção é mais branda, admitindo os regimes semiaberto e
aberto.

Regime penitenciário é a forma pela qual a pena será executada. O fechado (art. 87, LEP) é
cumprido em penitenciárias. O semiaberto (art. 91, LEP) é cumprido em colônia industrial ou
agrícola. O aberto (art. 93, LEP) é cumprido na casa de albergado, onde houver.

O regime disciplinar diferenciado não constitui espécie de regime, mas sim sanção disci-
plinar. Os requisitos para a aplicação estão no art. 52, LEP.

A fixação do regime inicial de cumprimento de pena é realizada com base em critério que leva
em conta a quantidade de pena aplicada in concreto na sentença e reincidência do agente. Con-
tudo, o Juiz deve sempre fazê-lo fundamentadamente.

Faz-se necessário explicar antes de explicitar as regras de fixação dos regimes iniciais a reinci-
dência. Reincidência é a prática de novo crime após o trânsito em julgado da sentença
penal condenatória por crime anterior, no Brasil ou no estrangeiro, art. 63, CP. Assim se a
condenação anterior for pela prática de contravenção penal, o condenado não será considerado
reincidente.

25
Tópicos em Direito 2

O art. 64, I, CP estabelece que não haverá reincidência se entre a data do término do
cumprimento da pena ou sua extinção decorrer período superior a cinco anos, o chamado
período depurador, computado o período de prova da suspensão ou livramento condicional, se
não ocorrer revogação. É o denominado tecnicamente primário.

O art. 64, II, CP estabelece ainda que para efeitos de reincidência não se consideram os crimes
militares próprios e os políticos.

Passemos as regras de fixação de regime. O condenado à pena de reclusão:

1. Inicia no fechado sempre, em se tratando de condenado pela prática de crime hediondo,


independentemente da quantidade de pena aplicada na sentença (art. 2º, § 1º, Lei nº
8072/90);

2. Inicia no fechado o reincidente, independentemente da quantidade de pena aplicada


na sentença. Pode iniciar no semiaberto, se favoráveis as circunstâncias do art. 59, CP,
Súmula 269, STJ;

3. Inicia no fechado o primário, se condenado a pena superior a oito anos (art. 33, §
2º, “a”, CP);

4. Inicia no semiaberto o primário, se condenado a pena superior a quatro e não


exceda a oito anos (art. 33, § 2º, “b”, CP);

5. Inicia no aberto o primário, se condenado a pena igual ou inferior a quatro anos


(art. 33, § 2º, “c”, CP).

Inobstante as regras anteriores, o Juiz pode fixar regime mais severo que a pena aplica-
da, desde que haja motivação idônea (Súmula 719, STF). A gravidade do crime não cons-
titui motivação idônea (Súmula 718, STF).

O condenado à pena de detenção:

1. inicia no semiaberto, desde que reincidente, independentemente da quantidade de


pena aplicada na sentença;

2. inicia no semiaberto o primário, se condenado à pena superior a quatro anos;

3. inicia no aberto o primário, se condenado à pena igual ou inferior a quatro anos.

O cumprimento da pena privativa de liberdade é sempre de forma progressiva, de acordo


com o art. 33, § 2º, CP.

Regra geral, após o cumprimento de um sexto da pena no regime mais rigoroso e bom com-
portamento carcerário, atestado pelo Diretor do estabelecimento prisional, pode o condenado
progredir de regime (art. 112, LEP). É vedada a progressão per saltum (por salto), por ex. pro-
gressão do fechado diretamente para o aberto.

Exceto se a condenação for pela prática de crime hediondo, nesse caso, após o cumprimento
de dois quintos da pena, se primário, e de três quintos, se reincidente (art. 2º, § 2º, Lei nº
8072/90). Embora não haja previsão expressa, prevalece o entendimento de que se exige tam-
bém bom comportamento carcerário.

O condenado por crime contra a Administração Pública terá a progressão de regime con-
dicionada à reparação do dano que causou ou a devolução do produto do ilícito, com os
acréscimos legais (art. 33, § 4º, CP).

26 Laureate- International Universities


A execução da pena ficará sujeita à forma regressiva quando o condenado praticar crime do-
loso ou falta grave (art. 50, LEP), sofrer nova condenação que com a unificação torne incabível
o regime, de acordo com o art. 118, LEP.

O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá se beneficiar da


remição da pena, por trabalho ou estudo, de acordo com o art. 126, LEP. Regra geral, se
desconta um dia da pena a cada 12 horas de frequência escolar, divididas no mínimo em três
dias; o desconto é de um dia de pena para cada três de trabalho.

Havendo superveniência de doença mental no curso da execução da pena, o condenado


deve ser transferido à hospital de custódia e tratamento psiquiátrico ou a outro estabelecimento
adequado (art. 41, CP).

Detração penal é o cômputo do tempo de prisão provisória na pena privativa de liberdade (art.
42, CP).

O tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 30 anos, de
acordo com o art. 75, CP. Trata-se da unificação das penas. Contudo, ressalte-se que o limite
é de 30 anos para cada unificação, assim sobrevindo condenação por fato posterior ao início
do cumprimento da pena, será feita nova unificação, desprezando-se o período decorrido, nesse
caso é possível alguém ficar preso mais de trinta anos.

O CP adota o sistema trifásico para o cálculo dosimétrico da pena privativa de liberdade:

1ª fase) Fixação da pena-base, levam-se em consideração as circunstâncias judiciais


elencadas no art. 59, CP.

A lei não fixa expressamente o quanto de aumento ou de diminuição para cada


circunstância desfavorável ou favorável, fica a critério do Juiz. Contudo, a jurisprudência
normalmente considera um sexto.

Nesta fase, a pena não pode sair dos patamares cominados em abstrato na lei.

A Súmula 444, STJ veda a utilização de inquéritos policiais e ações penais em curso para
agravar a pena base, em razão de maus antecedentes.

2ª fase) Cômputo das circunstâncias legais. As agravantes (arts. 61 e 62, CP) constituem
um rol taxativo. As atenuantes (arts. 65 e 66, CP) um rol exemplificativo.

O art. 67, CP estabelece as circunstâncias preponderantes, as relativas à reincidência, motivos


e a personalidade do agente (ter o agente menos de 21 e mais de 18 na data do fato).

Nesta fase, o legislador também não estabelece o quanto de aumento e de diminuição,


novamente a jurisprudência considera um sexto ou um quarto, se preponderante.

Ademais, nesta fase a pena não pode ultrapassar os limites legais.

3ª fase) Cômputo das causas gerais e especiais de aumento ou de diminuição de


pena.

O legislador estabelece o aumento ou a diminuição expressamente. Além disso, a pena


pode sair dos limites cominados em abstrato.

No concurso de causas de aumento ou de diminuição previstas na parte especial, pode


o juiz limitar-se a um só aumento ou a uma só diminuição, prevalecendo, todavia, a que
mais aumente ou diminua (art. 68, parágrafo único, CP).

27
Tópicos em Direito 2

10.1.2 Penas restritivas de direitos


Pena restritiva de direitos é a sanção autônoma e substitutiva da pena privativa de li-
berdade, mediante o preenchimento dos requisitos legais, que implica da restrição ou
supressão temporária de um direito do condenado.

Contudo, apesar de ser em regra pena substitutiva, no art. 28, Lei nº 11.343/06 é punição
principal. Mencione-se também que nos crimes previstos no CTB a restritiva de suspensão ou
proibição de dirigir veículo é prevista cumulada ou alternativamente com multa no preceito se-
cundário dos tipos penais.

O art. 43, CP elenca as espécies:

a) Prestação pecuniária (art. 45, § 1º, CP). Consiste no pagamento em dinheiro à vítima,
seus dependentes ou entidade pública ou privada com destinação social, de valor fixado
pelo Juiz, não inferior a um nem superior a 360 salários mínimos. Tal valor será deduzido
de eventual reparação civil.

Se houver aceitação do beneficiário, a prestação pecuniária pode consistir em prestação


de outra natureza, denominada pela doutrina de prestação inominada (art. 45, § 2º,
CP), na prática o Juiz determina o pagamento de cestas básicas.

b) Perda de bens e valores (art. 45, § 3º, CP). Dá-se em favor do Fundo Penitenciário
Nacional, e seu valor terá como teto – o que for maior – o valor do prejuízo causado ou
do provento obtido pelo agente ou por terceiro, pela prática do crime.

c) Prestação de serviços à comunidade ou às entidades públicas (art. 46, CP). Consiste


na atribuição de tarefas gratuitas ao condenado em entidades assistenciais, hospitais,
escolas, orfanatos e congêneres, desde que a condenação seja superior a seis meses de
privação da liberdade.

As tarefas serão atribuídas conforme a aptidão do condenado, devendo ser cumpridas


à razão de uma hora de tarefa por dia de condenação, desde que não haja prejuízo à
eventual jornada de trabalho.

Se a pena substituída for superior a um ano, é facultado ao condenado cumprir a


substitutiva em menor tempo, nunca inferior à metade da privativa de liberdade fixada,
todavia haverá a compensação em horas, ou seja, aumenta-se o tempo de tarefa por dia.

d) Interdição temporária de direitos (art. 47, CP). São: proibição do exercício de cargo,
função ou atividade pública, bem como de mandato eletivo; proibição do exercício de
profissão, atividade ou ofício; suspensão de autorização ou habilitação para dirigir veículo
(em se tratando de crime do CTB há disposições especiais); proibição de frequentar
determinados lugares; e, proibição de inscrever-se em concurso, avaliação os exames
públicos.

e) Limitação de fim de semana (art. 48, CP). Consiste na obrigação de permanecer,


aos sábados e domingos, por cinco horas diárias, em casa de albergado ou outro
estabelecimento adequado, durante a permanência poderão ser ministrados ao condenado
cursos e palestras ou atribuídas atividades educativas.

28 Laureate- International Universities


São requisitos objetivos para a substituição (art. 44, I, CP):

a) crimes dolosos: condenação igual ou inferior a quatro anos, desde que o crime não
tenha sido praticado com violência ou grave ameaça à pessoa.

b) crimes culposos: não há restrições.

São requisitos subjetivos (art. 44, II, III e § 3º, CP):

a) o réu não ser reincidente específico em crime doloso, se genérico pode desde que a
medida seja socialmente recomendável.

b) a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado,


bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que a substituição seja suficiente.

Uma vez realizada a substituição, deve o Juiz se valer de critérios para realizar a substituição
(art. 44, § 2º, CP): se a condenação for igual ou inferior a um ano, substitui-se por uma multa
ou uma restritiva de direitos; se a condenação for superior a um ano, substitui-se por uma
multa e uma restritiva ou por duas restritivas.

A pena restritiva de direitos converte-se, obrigatoriamente, em privativa de liberdade quando


ocorrer o descumprimento injustificado da restrição imposta, respeitando-se um saldo míni-
mo de 30 dias (art. 44, § 4º, CP). A constitucionalidade desse saldo mínimo é duvidosa.

Haverá conversão facultativa se ocorrer condenação posterior a pena privativa de liber-


dade por outro crime (art. 44, § 5º, CP).

10.1.3 Multa (art. 49, CP)


A pena de multa consiste no pagamento ao Fundo Penitenciário Nacional da quantia fi-
xada na sentença e calculada em dias-multa (art. 49, CP).

A multa pode ser a cominada em abstrato, cumulativa ou alternativamente com a pena priva-
tiva de liberdade, no preceito secundário dos tipos penais, ou substitutiva da pena privativa de
liberdade, se a pena aplicada não for superior a seis meses (art. 60, § 2º, CP).

A pena de multa é calculada em duas fases:

1ª fase) Cômputo da quantidade de dias-multa. Será, no mínimo, de dez e, no máximo,


de 360.

O critério para fixar a quantidade de dias-multa leva em conta as circunstâncias judiciais,


segundo a maioria da doutrina.

2ª fase) Fixação do valor de cada dia-multa, não podendo ser inferior a um trigésimo
nem superior a cinco vezes o salário mínimo.

O critério para aferir o valor leva em conta a situação econômica do réu (art. 60, CP).
A multa pode ser aumentada até o triplo, se o juiz considerar que, em razão da situação
econômica do réu, é ineficaz (art. 60, § 1º, CP).

A multa é considerada dívida de valor, por essa razão não pode ser convertida em pena priva-
tiva de liberdade, em razão do não pagamento.

29
Tópicos em Direito 2

10.2 Medidas de segurança


Medida de segurança é a sanção penal aplicável aos inimputáveis, por conta de pericu-
losidade social presumida, e, eventualmente, aos semi-imputáveis, caso seja comprovada
a sua periculosidade.

São espécies de medidas de segurança a detentiva e a restritiva (art. 96, CP). A detentiva im-
plica em internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, sendo que é aplicável se
o fato praticado é apenado com reclusão (art. 97, CP). A restritiva em sujeição a tratamento
ambulatorial, aplicável a fatos apenados com detenção (art. 97, CP).

A internação ou o tratamento ambulatorial será por tempo indeterminado, perdurando


enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a cessação da periculosidade. O prazo
mínimo é de um a três anos para a realização de nova perícia, a critério do Juiz (art. 97, § 1º,
CP).

A despeito de o CP determinar de forma expressa, como apontado, que a medida tem prazo
indeterminado, prevalece o entendimento de que o prazo máximo corresponde ao máximo
da pena cominada em abstrato, tendo em vista que a CF veda sanções de caráter perpétuo.

A perícia médica deverá ser realizada a primeira vez, de acordo com o prazo mínimo realizado,
após deverá ser repetida de ano em ano, ou a qualquer tempo, se o determinar o Juiz da execu-
ção (art. 97, § 2º, CP).

A desinternação, ou a liberação, será sempre condicional devendo ser restabelecida a situa-


ção anterior se o agente, antes do decurso de um ano, pratica fato indicativo de persistência de
sua periculosidade (art. 97, § 3º, CP).

Em qualquer fase do tratamento ambulatorial, poderá o Juiz determinar a internação do agente,


se essa providência for necessária para fins curativos (art. 97, § 4º, CP).

11 Concurso de crimes
O concurso de crimes é a prática, de uma ou mais condutas, por um só agente, produzindo
duas ou mais infrações penais.

São espécies de concurso de crimes: o material, o formal e o crime continuado.

11.1 Concurso material


O concurso material é prática de mais de uma conduta, por um só agente, produzindo
mais de uma infração penal (art. 69, CP). É residual em relação ao crime continuado, pois
preenchidos os requisitos, este prevalece.

Pode ser homogêneo ou heterogêneo. Homogêneo se os crimes praticados forem idênticos.


Heterogêneo, se diversos.

Aplica-se o sistema do acúmulo material, no que concerne à aplicação da pena privativa de


liberdade.

30 Laureate- International Universities


11.2 Concurso formal (art. 70, CP)
O concurso formal implica na prática de uma única conduta, por um só agente, produzin-
do dois ou mais crimes (art. 70, CP).

Pode ser homogêneo, se os crimes praticados forem idênticos, ou heterogêneo, se diversos.

Pode ser ainda próprio ou perfeito ou impróprio ou imperfeito. No próprio o agente, mediante
uma única conduta, produz dois ou mais crimes sem o propósito de produzir todos. No im-
próprio o agente, mediante uma única conduta, pratica os crimes com desígnios autônomos.

O sistema aplicado para o concurso formal próprio é o da exasperação, aplica-se a mais gra-
ve das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, aumentada de um sexto até a metade
(causa geral de aumento de pena). O critério leva em conta a quantidade de crimes praticados.
Contudo, aplica-se o concurso material benéfico, caso pela aplicação da exasperação a pena
seja maior do que se houvesse a aplicação do acúmulo material (art. 70, parágrafo único, CP).

O sistema aplicado para o impróprio é o do acúmulo material, pois os resultados advêm de


desígnios autônomos (art. 70, caput, in fine, CP).

Crime continuado (art. 71, CP)
 O crime continuado consiste na prática de mais de uma con-
duta, por um só agente, produzindo dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condi-
ções de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes
ser havidos como continuação do primeiro (art. 71, CP).

Pode ser homogêneo ou heterogêneo. Homogêneo se os crimes praticados forem idênticos.


Heterogêneo, se diversos.

Classifica-se em comum ou simples (art. 70, caput, CP), presentes os requisitos anteriores; ou,
específico ou qualificado (art. 70, parágrafo único, CP), quando além disso tratar-se de crimes
dolosos, praticados com violência ou grave ameaça à pessoa e contra vítimas diversas.

Aplica-se o sistema da exasperação. No simples, aplica-se a pena de um só dos crimes, se


idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada de um sexto a dois terços. No específico,
aumenta-se a pena de um só dos crimes, se idênticos, ou a mais grave, se diversos, até o triplo.
O critério para o aumento leva em conta a quantidade de crimes perpetrados. Também aqui
aplica-se o concurso material benéfico.

12 Suspensão condicional da pena (sursis)


É a suspensão condicional da execução da pena privativa de liberdade, mediante o preenchi-
mento dos requisitos legais, sendo que o condenado, sujeita-se a um período de prova, no qual
cumpre as condições impostas pelo Juiz. Se não houver revogação extingue-se a punibilidade.

O sursis é concedido pelo Juiz na sentença condenatória. Entretanto, as condições são impos-
tas pelo Juiz da Execução Penal em audiência admonitória.

É importante asseverar que o Juiz ao prolatar a sentença condenatória, na parte da aplicação da


pena, deve seguir os seguintes passos: 1. Calcula a pena privativa de liberdade e fixa o regime
inicial de cumprimento; 2. Verifica a possibilidade de substituir a pena privativa de liberdade por
restritiva de direitos; 3. Na impossibilidade do item anterior, verifica a possibilidade de aplicação
de sursis.

31
Tópicos em Direito 2

São requisitos objetivos e subjetivos (art. 77, CP):

a) Condenação não superior a dois anos na regra geral. Tratando-se de sursis etário
(condenado maior de 70 anos de idade) ou humanitário (condenado com doença grave),
pena não superior a quatro anos. No caso da idade, deve ser aferida na data da sentença
ou acórdão, por analogia aos arts. 65, I e 115, CP.

b) O condenado não seja reincidente em crime doloso.

c) A culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem


como os motivos e as circunstâncias autorizem a concessão do benefício.

d) Não seja cabível a aplicação de pena restritiva de direitos.

É importante destacar que a condenação anterior à pena de multa não impede o benefício (art.
77, § 1º, CP).

São espécies: o simples e o especial. No simples o condenado deixa, sem motivo justo, de
reparar o dano causado, dessa forma no primeiro ano de suspensão deverá prestar serviços
à comunidade ou submeter-se a limitação de final de semana (art. 78, § 1º, CP). No especial,
o condenado reparou o dano, dessa forma pode o Juiz dispensá-lo da exigência anteriormente
apontada (art. 78, § 2º, CP).

As condições estão elencadas no art. 78, § 2º, CP: proibição de frequentar determinados lu-
gares; proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do Juiz; e, compare-
cimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades.
Sem embargo dessas pode o Juiz impor outras condições (art. 79, CP). Além disso, lembre-se
que a depender de ser o simples haverá o cumprimento no primeiro ano das restritivas acima
enumeradas.

Período de prova é o lapso temporal, no qual o condenado cumprirá as condições impostas.


Regra geral, tem duração de dois a quatro anos ou de quatro a seis, em se tratando do etário
ou do humanitário. O prazo fica a critério do Juiz, todavia se fixar mais tempo que o mínimo
deverá fundamentar sua decisão.

São hipóteses de revogação obrigatória, se no curso do prazo, o beneficiário (art. 81, I, II e III, CP):

a) é condenado, em sentença irrecorrível, por crime doloso.

b) frustra, embora solvente, a execução de pena de multa ou não efetua, sem motivo
justificado, a reparação do dano.

c) Descumpre a condição do § 1º do art. 78, CP.

São hipóteses de revogação facultativa (art. 81, § 1º, CP):

a) se o condenado descumpre qualquer outra condição;

b) se o condenado é irrecorrivelmente condenado, por crime culposo ou contravenção penal,


a pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos.

Em caso de revogação, o condenado deverá cumprir por inteiro a pena imposta na sentença.

Prorroga-se o período de prova (art. 81, §§ 2º e 3º, CP):

32 Laureate- International Universities


a) se o beneficiário está sendo processado por outro crime ou contravenção, até o julgamento
definitivo;

b) quando facultativa a revogação, o Juiz pode, ao invés de decretá-la, prorrogar o período


de prova até o máximo, se este não foi fixado.

O benefício perde o efeito, é cassado, antes de seu início, se o beneficiário não comparece,
injustificadamente, à audiência admonitória; se renunciar ao benefício; se condenado irrecorri-
velmente à pena privativa de liberdade não suspensa; e, se é aumentada no Tribunal, superando
o patamar de dois anos (art. 161, LEP).

Expirado o prazo sem revogação ou cassação, considera-se extinta a punibilidade (art. 82, CP).

13 Livramento condicional
Livramento condicional é a antecipação da liberdade do condenado, mediante o preenchimen-
to dos requisitos legais, desde que o agente cumpra as condições impostas, durante o restante
da pena.

Requisitos objetivos e subjetivos (art. 83, CP):

a) Condenação a pena privativa de liberdade igual ou superior a dois anos.

As penas que correspondem a infrações penais diversas devem somar-se para efeito do
livramento (art. 84, CP).

b) Cumprimento de mais de um terço da pena, se o condenado não for reincidente em crime


doloso e tiver bons antecedentes.

c) Cumprimento de mais da metade, se o condenado for reincidente em crime doloso.

d) Cumprimento de mais de dois terços da pena, se a condenação for por crime hediondo,
tortura, tráfico de drogas e terrorismo, se o apenado não for reincidente específico em
crimes dessa natureza.

e) Comportamento carcerário satisfatório, bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído
e aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho honesto.

f) Reparação do dano causado, salvo efetiva impossibilidade de fazê-lo.

Para o condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, a con-
cessão do benefício fica também subordinada à constatação de condições pessoais que façam
presumir que o liberado não voltará a delinquir (art. Art. 83, parágrafo único, CP).

A falta grave não interrompe o prazo para a obtenção de livramento condicional (Súmula 441, STJ).

O benefício é concedido durante a execução da pena privativa de liberdade.

O período de prova corresponde ao tempo do restante da pena. Tem início com a audiência
admonitória, realizada no estabelecimento prisional (art. 137, LEP).

As condições podem ser legais ou judiciais. As legais estão previstas no art. 132, § 1º, LEP. As
judiciais no art. 132, § 2º, LEP.

33
Tópicos em Direito 2

São hipóteses de revogação obrigatória, se o condenado vem a ser condenado à pena priva-
tiva de liberdade, em sentença irrecorrível por crime cometido durante a vigência do benefício;
ou, por crime anterior (art. 86, CP).

Na primeira hipótese anterior, há três efeitos: não se computa o tempo em que esteve solto,
não se concederá novo livramento em relação à mesma pena e o restante da pena cominada
ao crime, não podendo soma-se à nova pena para efeito de novo livramento (art. 88, CP e art.
142, LEP).

Na segunda: o período de prova é computado como tempo de cumprimento de pena e possível


a concessão de livramento condicional (art. 141, LEP).

Haverá revogação facultativa se o liberado deixar de cumprir qualquer das obrigações im-
postas, ou for irrecorrivelmente condenado, por crime ou contravenção, a pena que não seja
privativa de liberdade (art. 87, CP).

Ocorrerá a prorrogação do período de prova enquanto não passar em julgado a sentença em


processo a que responde o liberado, por crime cometido na vigência do livramento (art. 89, CP).

Se até o término o livramento não é revogado, extingue-se a punibilidade (art. 90, CP).

14 Efeitos da condenação
Além da sanção penal, há outros efeitos, ditos secundários ou acessórios, da sentença conde-
natória.

Os efeitos genéricos ou automáticos estão previstos no art. 91, CP. São eles:

a) obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;

b) perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou do terceiro de boa-fé: dos


instrumentos do crime, desde que consistam em coisas de fabrico, alienação, uso, porte
ou detenção constitua fato ilícito; do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que
constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso.

Poderá ser decretada a perda de bens ou valores equivalentes ao produto ou proveito do crime
quando estes não forem encontrados ou quando se localizarem no exterior (art. 91, § 1º, CP).
Nessa hipótese, as medidas assecuratórias previstas na legislação processual poderão abranger
bens ou valores equivalentes do investigado ou acusado para posterior decretação de perda (art.
91, § 2º, CP).

Os efeitos específicos da condenação não são automáticos, devem ser declarados motivada-
mente na sentença (art. 92, CP). São eles:

a) perda de cargo, função pública ou mandato eletivo, desde que tenha pertinência com o
fato ilícito praticado: quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou
superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para
com a administração pública; e, quando for aplicada pena privativa de liberdade por
tempo superior a quatro anos nos demais casos;

b) a incapacidade para o exercício do poder familiar, tutela ou curatela, nos crimes dolosos,
sujeitos à pena de reclusão, cometidos contra filho, tutelado ou curatelado;

34 Laureate- International Universities


c) a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime
doloso.

15 Causas extintivas da punibilidade

15.1 Conceito
São causas que sobrevêm à prática delitiva que inibem a aplicação de pena ao agente.

Não se confunde com as escusas absolutórias, estas são causas anteriores à prática do fato
ilícito e inibem o nascimento do direito de punir. Ex.: art. 181, CP.

15.2 Rol exemplificativo do art. 107, CP


Morte do agente, anistia, graça, indulto, abolitio criminis, decadência (instituto processual pe-
nal), perempção (instituto processual penal), renúncia ao direito de queixa (instituto processual
penal), perdão do ofendido (instituto processual penal), retratação, perdão judicial e prescrição.

A anistia, a graça e o indulto são formas de clemência soberana.

A anistia é a exclusão de um ou mais crimes, mediante lei de competência do Congresso Na-


cional. É irrevogável após a concessão. Produz efeitos ex tunc, ou seja, apaga todos os efeitos
penais, atinge inclusive a coisa julgada.

Indulto é o perdão de caráter coletivo, concedido mediante Decreto Do Presidente da República,


que extingue ou reduz a pena. Limita-se às disposições do Decreto, persistem os demais efeitos
penais.

Graça é perdão individual, total ou parcial da pena, concedido pelo Presidente da República,
mediante requerimento do interessado.

Retratação é o ato pelo qual o acusado se desdiz e recompõe a verdade dos fatos. Admissível
apenas diante de previsão legal expressa. Ex.: art. 145, CP.

Perdão judicial é o ato pelo qual o Juiz, na sentença, deixa de aplicar a pena ao réu, desde que
haja previsão legal expressa. Ex.: 121, § 5º, CP.

15.3 Prescrição
É a perda da pretensão punitiva ou executória pelo decurso do tempo.

Regra geral, todos os crimes são prescritíveis. Exceto, racismo (art. 5º, XLII, CF) e ação de
grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático
(art. 5º, XLIV, CF).

São espécies de prescrição: prescrição da pretensão punitiva (propriamente dita, retroa-


tiva e intercorrente ou superveniente) e prescrição da pretensão executória.

35
Tópicos em Direito 2

A propriamente dita regula-se pela pena máxima cominada em abstrato. A retroativa e a superve-
niente pela pena concreta aplicada na sentença recorrível. A executória pela pena concreta definitiva.

Prescrevem em (art. 109, CP):

a) vinte anos, se a pena é superior a doze anos;

b) dezesseis anos, se superior a oito e não excede a doze;

c) doze anos, se superior a quatro e não excede a oito;

d) oito anos, se superior a dois e não excede a quatro;

e) quatro anos, se igual ou superior a um e não excede a dois;

f) três anos, inferior a um ano.

Reduz-se pela metade o prazo prescricional, se o agente, na data do fato, era menor de vinte
e um anos e maior de dezoito, ou, se o agente, na data da sentença era maior de setenta (art.
115,CP).

O termo inicial da prescrição da pretensão punitiva (art. 111, CP):

a) data da consumação do crime;

b) dia em que cessou a atividade criminosa, no caso de tentativa;

c) dia em que cessou a permanência, nos crimes permanentes;

d) data em que o fato se tornou conhecido, nos crimes de bigamia e de falsificação ou


alteração de assentamento de registro civil;

e) data em que a vítima completar dezoito anos, salvo se a esse tempo já houver sido
proposta a ação penal, nos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes.

Termo inicial na prescrição da pretensão executória (art. 112, CP):

a) dia em que transita em julgado a sentença condenatória, para a acusação, ou a que


revoga a suspensão condicional da pena ou o livramento condicional;

b) dia em que se interrompe a execução, salvo quando o tempo da interrupção deva


computar-se na pena.

A contagem do prazo prescricional resulta da combinação dos possíveis termos iniciais


com as causas interruptivas. Essa contagem obedece à forma do art. 10, CP.

Causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva no procedimento dos crimes de com-


petência do Juiz singular (art. 117, CP):

a) recebimento da inicial acusatória;

b) publicação da sentença ou acórdão condenatório recorríveis;

c) trânsito em julgado da condenação.

Causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva no Tribunal do Júri (art. 117, CP):

36 Laureate- International Universities


a) recebimento da inicial acusatória;

b) pronúncia;

c) decisão confirmatória da pronúncia;

d) publicação da sentença ou acórdão condenatório recorríveis;

e) trânsito em julgado da condenação.

Causas suspensivas (art. 116, CP):

a) enquanto não resolvida, em outro processo, questão de que dependa o reconhecimento


da existência do crime.

b) enquanto o agente cumpre pena no estrangeiro.

c) depois de passada em julgado a sentença condenatória, a prescrição não corre durante


o tempo em que o condenado está preso por outro motivo.

Trata-se de rol exemplificativos, há outras causas suspensivas: art. 53, §§ 3º, 4º e 5º, CF; art.
89, § 6º, Lei nº 9099/95; art. 366, CPP.

O cálculo da prescrição da pretensão punitiva propriamente dita é feito com base no máximo da
pena cominada em abstrato e enquadra-se na tabela do art. 109, CP, encontrando-se o prazo
prescricional. Verifica-se posteriormente se entre cada causa interruptiva foi ultrapassado o lapso
referente à prescrição.

Já a prescrição da pretensão punitiva retroativa se baseia na pena aplicada na sentença recorrível,


identifica-se om prazo prescricional na tabela do art. 109, CP, encontrando-se o prazo prescricional.
Após, volta-se no tempo, nas mesmas causas interruptivas, para verificar se ocorreu a prescrição.

A intercorrente é idêntica à anterior, mas verifica-se se houve prescrição entre a data do trânsito
em julgado para a acusação e a data da publicação do acórdão.

A executória é regulada pela pena definitiva e deve ser computada do trânsito em julgado para a
acusação e início ou continuação do cumprimento da pena. Em caso de reincidência, devidamen-
te reconhecida na sentença, o prazo prescricional aumenta-se de um terço (art. 110, caput, CP).

A prescrição da pena de multa ocorrerá em dois anos, quando for a única cominada, ou no
prazo da prescrição da privativa de liberdade, quando cumulativamente aplicada (art. 114, CP).

No caso do concurso de crimes, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada


um, isoladamente (art. 119, CP).

37
Tópicos em Direito 2

II – Parte Especial e Legislação Penal


Extravagante

Crimes contra a vida

1 Homicídio (art. 121, CP)


Conceito: é a eliminação da vida humana (extrauterina) praticada por outrem. Se praticado em
atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente ou se enquadrar-
-se como homicídio qualificado, é crime hediondo (Lei nº 8072/90).

Objeto Jurídico tutelado: vida humana.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa.

Conduta: matar (é o núcleo do tipo); crime de ação livre.

Elemento Subjetivo: dolo (animus necandi). Há previsão da forma culposa (art. 121, §3º, CP).

Consumação/tentativa: Consuma-se com a morte da vítima. A tentativa é possível

Formas:

a) simples (caput);

b) privilegiado (§ 1º): Há diminuição de pena (1/6 a 1/3) se o crime for cometido por sujeito
imbuído de relevante valor social, moral ou sob domínio de violenta emoção logo após
injusta provocação da vítima. Ex.: matar o estuprador da própria filha.

c) qualificado (§2º): casos em que os motivos, meios ou recursos empregados demonstram


periculosidade da agente e menor possibilidade de defesa da vítima, tornando o fato mais
grave. Pode haver a incidência de mais de uma qualificadora. Ex.: matar por motivo fútil
e com o uso de fogo; matar porque queria a vaga de emprego da vítima com o uso de
veneno. Note-se que o crime contra a mulher por razões da condição de sexo feminino é
chamado de feminicídio (121,§ 2º-A,CP)

d) culposo (§3º): possível aplicar o perdão judicial (§ 5º). Em caso de homicídio culposo
praticado na direção de veículo automotor deve-se aplicar o Código de Trânsito Brasileiro
(CTB), pois é lei especial.

e) homicídio privilegiado-qualificado: desde que as qualificadoras sejam objetivas (não


digam respeito ao motivo, mas ao modo ou meio de execução).

Causas de aumento de pena: (§§ 4º a 7º): aumenta-se a pena em 1/3 se o crime for doloso e
a vítima for menor de 14 ou maior de 60; se for culposo e resulta de inobservância de regra téc-
nica de profissão, arte ou ofício ou se o agente deixar de prestar socorro imediato, não procurar
diminuir as consequências ou fugir para não ser preso em flagrante; de 1/3 até 1/2 se o crime for
praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por gru-
po de extermínio; no caso de feminicídio (121, VI, CP), de 1/3 até 1/2 se o crime for praticado

38 Laureate- International Universities


durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto, contra pessoa menor de 14 ou maior
de 60 anos ou com deficiência ou na presença de descendente ou de ascendente da vítima.

Súmula vinculante 45 do STF: a competência constitucional do tribunal do júri prevalece sobre


o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual. Os
crime dolosos contra a vida são de competência do júri, conforme estabelece artigo 5º, XXXVIII,
CF. No entanto, prevalece o foro por prerrogativa de função caso este também esteja previsto na
Constituição Federal (ex.: membros do Ministério Público, art. 96, III, CF); se estiver estabelecido
na Constituição Estadual, prevalece a competência do júri.

Ação penal: pública incondicionada.

2 Auxílio, induzimento, instigação ao


suicídio (art. 122, CP)
Conceito: suicídio é a deliberada destruição da própria vida. Não é ilícito penal. O crime existe
quando alguém auxilia, induz ou instiga outrem ao suicídio.

Objeto jurídico tutelado: vida humana.

Conduta: auxiliar (auxílio material, como emprestar um objeto, por exemplo); induzir (auxilio
moral; criar a ideia); instigar (auxílio moral; fomentar, dar força à ideia daquele que quer se
suicidar). O auxílio pode ser concedido antes ou durante a prática do suicídio, mas é acessório.
Se o sujeito ativo passa a realizar atos executório, comete homicídio (tentado ou consumado);
assim, por exemplo, num caso de “pacto de suicídio”, o sujeito que realizar o ato executório
(atirando, esfaqueando ou abrindo a torneira de gás, por exemplo) responde, caso sobreviva,
por homicídio. É crime de ação livre. A conduta é dirigida sempre contra pessoa determinada.

Sujeitos: Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer
pessoa, desde que tenha capacidade de resistência e discernimento (se a vítima não tem tal ca-
pacidade, como doentes mentais ou crianças: homicídio).

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa. Consumação/tentativa:


consuma-se caso a conduta resulte em morte, lesões corporais graves ou gravíssimas. Caso não
ocorra nenhum destes resultados, a conduta é atípica.

Causas de aumento de pena: vítima com capacidade de resistência diminuída: por qualquer
causa (embriaguez, idade, enfermidade etc.); se a resistência for anulada, é caso de homicídio.

Ação penal: pública incondicionada.

3 Infanticídio (art. 123, CP)


Conceito: é a eliminação da vida do ser nascente (que está nascendo) ou neonato (recém-nasci-
do) pela própria mãe, que se encontra sob influência do estado puerperal (elemento essencial).

Objeto jurídico tutelado: vida humana (especialmente do ser nascente e do neonato).

Conduta: matar; mas desde que a vida eliminada seja a do filho, por sua própria mãe. É crime
de ação livre. Ainda a conduta deve se dar durante o parto ou logo após, sob influência do es-
tado puerperal.

39
Tópicos em Direito 2

Estado puerperal: puerpério é o período que vai do deslocamento e expulsão da placenta até
a volta do organismo às condições anteriores à gravidez. No estado puerperal, há desnormali-
zação psiquíca (mas não se deve confundir com psicose puerperal ou depressão pós-parto). Há
muita divergência quanto à duração do estado puerperal (para alguns, dura dias; para outros, de
seis a oito semanas). A questão da duração do estado puerperal é importante para que se defina
o que pode ser entendido por “logo após o parto”, pois só pode-se considerar infanticídio se o
sujeito ativo agir durante ou logo após o parto e, ao mesmo tempo, estiver em estado puerperal.
Caso não esteja sob influência do estado puerperal, será homicídio.

Sujeitos: a) ativo: crime próprio, é a mãe, sob influência do estado puerperal. Admite concurso
de agentes, segundo a doutrina majoritária, pois estado puerperal é elementar do tipo penal
(um terceiro que auxilie uma mãe a matar o filho nas condições descritas no artigo 123 do CP,
responde por infanticídio) ; b) passivo: o próprio filho.

Elemento Subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa.

Consumação/tentativa: consuma-se com a morte da vítima. A tentativa é possível.

4 Aborto (arts. 124 a 128, CP)


Conceito: é a interrupção dolosa da gravidez, com a consequente destruição do produto da
concepção; é a eliminação da vida intrauterina.

Objeto jurídico tutelado: vida humana (intrauterina); se praticado sem o consentimento da


gestante, também a vida e a integridade física desta.

Conduta: no art. 124, CP, são condutas: provocar (dar causa, origem ao aborto) e consentir
(aceitar, concordar). Nos arts. 125 e 126 do CP, provocar. A conduta deve ser realizada antes do
parto. Crime de ação livre.

Sujeitos: a) ativo: no artigo 124, CP, é a gestante (só ela pode provocar em si mesmo ou consen-
tir que outrem provoque nela o aborto; é crime de mão própria). Nos arts.125 e 126, CP, crime
comum, qualquer pessoa pode praticar; a mãe que consente no aborto responde pelo crime
descrito no art. 124, CP); b) passivo: é o embrião ou feto (produto da concepção); no aborto
cometido sem o consentimento da gestante ela também é vítima.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa.

Consumação/tentativa: consuma-se com a interrupção da gravidez (a expulsão do feto do ven-


tre materno é irrelevante). Exige-se apenas prova de que, no momento da conduta, havia vida.
É possível a tentativa.

Formas: a) autoaborto (provocar em si mesma) ou consentido (artigo 124, CP); b) praticado por
terceiro com o consentimento da gestante (consentimento válido, que deve durar durante toda a
prática); c) praticado por terceiro sem o consentimento da gestante;

Causas de aumento de pena: (art. 127, CP): causas aplicáveis aos arts. 125 e 126 do CP: au-
mento de 1/3 se resultar em lesão corporal de natureza grave ou gravíssima na gestante sofrer;
serão duplicadas se sobrevier a morte da gestante.

Causas excludentes de ilicitude (art. 128, CP):

Aborto necessário ou terapêutico (I): praticado pelo médico e sua equipe, quando houver
risco à vida da gestante e inexistir outro meio para salvá-la.

40 Laureate- International Universities


Sentimental, humanitário ou ético (II): possível quando a gravidez decorre do estupro.
Neste caso, precisa do prévio consentimento da gestante ou do representante legal.

Aborto de feto anencéfalo: não está descrito em lei como causa legal de exclusão de ilicitude,
mas o STF já entendeu que neste caso não há crime, por ausência do bem jurídico tutelado, qual
seja a vida (resultado do julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental
(ADPF) 54 pelo STF.

Ação penal: pública incondicionada.

5 Lesões corporais (ART. 129, CP)


Conceito: ofensa à integridade física, fisiológica ou mental do indivíduo, sem animus necandi.

Objeto jurídico tutelado: integridade do indivíduo (física e mental).

Conduta: ofender, atingir a integridade. Crime de ação livre. O consentimento do ofendido, a


princípio é irrelevante, mas pode excluir a ilicitude (caso de lesões esportivas ou tatuagem, por
exemplo), bem como o princípio da adequação social (ex.: furar orelha para colocar brinco).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa
(nas hipóteses do § 1º ,IV e 2º, V, CP, deve ser mulher grávida).

Elemento subjetivo: dolo. Há previsão de modalidade culposa (129§ 6º, CP).

Consumação/tentativa: consuma-se com a ofensa à integridade. É possível a tentativa. Haven-


do dúvida quanto à qual tipo de lesão era intencionada pelo agente, este responderá por lesão
leve.

Formas:

a) Leve (caput):

b) Lesão Grave (§ 1º) : I) Incapacidade para ocupações habituais por mais de 30 dias
(necessária a realização de dois exames periciais: o de constatação e o complementar,
que constata a duração da incapacidade para ocupações habituais); II) Perigo de vida
(necessidade de perigo concreto); III) Debilidade permanente de membro, sentido ou
função (diminuição, enfraquecimento da capacidade; IV) Aceleração de parto (expulsão
precoce do feto, que nasce e sobrevive; se morre, é hipótese de lesão gravíssima).

c) Lesão gravíssima (§2º): I) Incapacidade permanente para o trabalho (para todo e qualquer
trabalho); II) Enfermidade incurável: doença (física ou mental); III) Perda ou inutilização
de membro, sentido ou função (perda é a extirpação de uma parte do corpo; inutilização
refere-se à inaptidão do órgão em relação a sua função especifica, à perda funcional.
Havendo membro ou órgão duplo, a supressão de um deles traz diminuição da função:
caso de lesão grave, de acordo com a jurisprudência majoritária); IV) Deformidade
permanente (dano estético de certa monta e irreparável; a idade, gênero, profissão,
condição pessoal da vítima são relevantes); V) Aborto (caso em que o sujeito ativo tenha
conhecimento do estado de gravidez, mas não queira produzir o aborto).

d) Lesão seguida de morte (§3º): Agente pretende lesionar mas causa a morte da vítima
(resultado preterdoloso);

41
Tópicos em Direito 2

e) Lesão privilegiada (§4º): Diminuição de pena (1/6 a 1/3) se o crime for cometido por
sujeito imbuído de relevante valor social, moral ou sob domínio de violenta emoção logo
após injusta provocação da vítima;

f) Lesão culposa (§6º): Não há distinção quando à gravidade das lesões. Em caso de lesão
culposa, cabível perdão judicial (129, §8º, CP). Em caso de lesão culposa praticada na
direção de veículo automotor, aplica-se o CTB CTB e não o CP.

Causas de substituição da pena (§5º): em caso lesão privilegiada ou lesões recíprocas, desde
que, em qualquer hipótese, sejam leves.

Causas de aumento de pena (§7º): aumento de 1/3 se a lesão culposa resultar de inobser-
vância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixar de prestar imediato
socorro à vítima, não procurar diminuir as consequências do seu ato, ou fugir para evitar prisão
em flagrante. Em caso de lesão dolosa, haverá aumento de o crime for praticado contra pessoa
menor de 14 ou maior de 60 anos. Haverá aumento de 1/3 até 1/2 se o crime for praticado por
milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança ou por grupo de extermínio.

Violência doméstica (§9): em caso de violência doméstica contra a mulher, aplica-se a legisla-
ção específica: Lei nº 11340/06 (Lei Maria da Penha) e há procedimento específico. Uma carac-
terística importante e específica desta lei é a possibilidade de concessão em favor da vítima de
medidas protetivas de urgência, em 48 horas a contar do registro da ocorrência (art. 12, Lei nº
11340/06). O art. 5º da mencionada Lei estabelece as situações em que se configura violência
doméstica e familiar contra a mulher. Doutrina e jurisprudência majoritárias são no sentido de
que a Lei Maria da Penha se aplica somete à vítima mulher.

Lei de tortura (9455/97): não se trata de lesão corporal e sim do delito de tortura (delito he-
diondo) a hipótese em que o sofrimento físico ou mental seja praticado nas circunstancias do art.
1º da Lei nº 9455/97.

Relação com os arts. 131 e 132, CP: os delitos de perigo de contágio de moléstia grave e pe-
rigo para a vida ou saúde de outrem são de perigo e subsidiários, ou seja, configuram-se com
a mera exposição do bem jurídico tutelado a perigo, mas desde que não se se configure efetiva
lesão corporal ou morte.

Relação com o artigo 137, CP: o crime de rixa pune as pessoas envolvidas em luta generaliza-
da, desordenada, que envolve troca agressões – salvo se o fazem para separar os contendores.
Necessário que haja mais de duas pessoas envolvidas (ou será lesões corporais recíprocas). Se
ocorre morte ou lesão de natureza grave ou gravíssima, aplica-se, pelo fato da participação na
rixa, a pena de detenção, de seis meses a dois anos.

Ação penal: pública incondicionada (art. 129, §1º, 2º ou 3º, CP). Condicionada à representa-
ção se for leve (caput) ou culposa (129, §6º,CP), conforme disposto no art. 88 da Lei nº 9099/95.
Note-se que a lesão leve é crime de menor potencial ofensivo (art. 61 da Lei nº 9099/95).

6 Crimes de perigo individual


Crimes de perigo individual (arts. 130 a 136, CP)

Art. 130,CP. Crime de perigo de contágio de moléstia venéria: Conduta: expor alguém, por
meio de relações sexuais ou qualquer ato libidinoso (conjunção carnal ou qualquer outro ato
direcionado à satisfação sexual), a contágio de moléstia venérea (sexualmente transmissível), de
que sabe ou deve saber que está contaminado. Formas: a) simples (caput); b) qualificada (se
é intenção do agente transmitir a moléstia). Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa

42 Laureate- International Universities


pode praticar (desde que portador da doença) b) passivo: qualquer pessoa (desde que não porta-
dora da mesma doença). Consumação/tentativa: basta a mera exposição a perigo, não sendo
necessário o efetivo contágio pela moléstia venérea (havendo efetivo contágio, estará caracteri-
zada a lesão corporal ou homicídio); é possível tentativa.

Art. 133, CP. Abandono de incapaz. Conduta: abandonar (deixar sem assistência, desampara-
da) pessoa que está sob seu cuidado, guarda, vigilância ou autoridade e, por qualquer motivo,
incapaz de defender-se dos riscos resultantes do abandono (o abandono é o que cria a situação
de perigo). Sujeitos: a) ativo: crime próprio, é aquele que tem o dever de zelar pela vítima; b)
Passivo: pessoa que se encontre sob cuidado, guarda, vigilância ou autoridade de outrem e que
esteja incapaz de se defender dos riscos advindos do abandono. Formas: a) simples (caput); b) e
qualificada (§ 1º e 2, CP). Causas de aumento de pena (§3º): Aumenta-se em 1/3 se a vítima
for abandonada em local ermo (vazio, abandonado, inóspito). Deve estar relativamente ermo
no momento do delito (se for e estiver totalmente ermo, pode-se configurar homicídio); b) se o
agente for ascendente ou descendente, cônjuge, irmão, tutor ou curador da vítima.; c) se a vítima
é maior de 60 anos. O abandono de idoso em casa de saúde, hospital, de repouso ou congê-
neres, é crime do art. 98 do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003). Consumação/tentativa:
consuma-se com o abandono que crie situação de perigo; é possível tentativa.

Art. 134, CP. Exposição ou abandono de recém-nascido: Conduta: expor ou abandonar re-
cém-nascido, para ocultar desonra própria; forma específica de abandono de incapaz, pois há
um motivo específico: ocultar desonra própria (para proteger sua “reputação”, conceito aberto,
que deve ser interpretado historicamente, mas cite-se de exemplo a situação da mulher que
abandone o fruto de seu relacionamento sexual com o próprio irmão). A exposição a perigo ou
abandono faz com que a vítima fique desamparada (seja por removê-lo de local onde lhe é pres-
tada assistência ou por deixar de prestar a assistência devida; trata-se de abandono físico que
cria situação de perigo concreto. Formas: a) simples (caput) e qualificada (§1º e 2º). Sujeitos: a)
ativo: crime próprio – é a mãe (para alguns dourinadores, o pai também pode ser sujeito ativo),
que age para ocultar “desonra própria”; b) passivo: o recém-nascido (o limite de tempo para
que seja assim considerado é controverso na doutrina e jurisprudência). Consumação/tentativa:
consuma-se com o abandono; a tentativa é possível.

Arts. 135. Omissão de Socorro. Conduta: deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo
sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, à pessoa inválida ou ferida, ao desam-
paro ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública
(ex.: policiais, bombeiros). Crime omissivo puro, configura-se pelo não fazer do agente quando
este tinha o dever de agir. Há neste caso o dever de todos à mútua assistência. Incidirá o art. 304
do CTB se o condutor do veículo, na ocasião do acidente, deixar de prestar imediato socorro à
vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da au-
toridade pública. Incidirá o art. 97 do Estatuto do Idoso (Lei nº 10741/03) se a vítima for idosa.
Causas de aumento de pena: se da omissão resultar lesão grave ou gravíssima (1/2) ou morte
(triplicada). Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: criança
abandonada (o agente encontra a criança já nesta situação; criança extraviada (perdida); pes-
soa inválida (por qualquer motivo); pessoa ferida (não se exige gravidade da lesão); em grave
e iminente perigo (em perigo concreto). Se há dolo de praticar homicídio ou lesão e não presta
o socorro, não responde por omissão; se de forma culposa, responde pelo homicídio ou lesão,
com aumento de pena pela omissão (121 § 4º, CP e 129 § 7º,CP). Se vários agentes estão pre-
sentes e não agem para prestar assistência, todos respondem pelo delito; se um deles presta so-
corro, os demais estão eximidos somente se este socorro for suficiente. Consumação/tentativa:
consuma-se com a omissão, com o deixar de fazer; por ser crime omissivo, não admite tentativa.

135-A, CP. Condicionamento de atendimento médico-hospitalar emergencial. Conduta: exi-


gir cheque-caução, nota promissória ou qualquer garantia, bem como o preenchimento prévio
de formulários administrativos, como condição para o atendimento médico-hospitalar emergen-
cial (figura específica de omissão de socorro). Causas de aumento de pena: se resultar lesão
corporal de natureza grave ou gravíssima (até o dobro); se resultar morte (até o triplo). Sujei-

43
Tópicos em Direito 2

tos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: o próprio enfermo que
necessita de atendimento, como alguém a quem é exigida a garantia. Consumação/tentativa:
consuma-se com a exigência da garantia ou preenchimento prévio de formulários administrativos
como condicionantes do atendimento. Não admite tentativa.

136, CP. Maus-tratos: Conduta: expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autorida-
de, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a
de alimentação (supressão relativa de alimentos e com certa habitualidade. Se priva de alimentos
totalmente, é caso de homicídio) ou cuidados indispensáveis (higiene pessoal, vestuário etc.),
quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado (deve-se considerar a idade da vítima),
quer abusando de meios de correção ou disciplina (abuso físico ou moral. A exposição a intenso
sofrimento físico ou mental pode caracterizar crime de tortura, nos termos da Lei nº 9455/97).
Formas: a) simples (caput); b) qualificada (se resultar lesão corporal grave, gravíssima ou morte).
Causas de aumento de pena: se o crime for praticado contra pessoa menor de 14 anos (1/3).
Se a vítima for idosa, incide o art. 99 do Estatuto do Idoso (Lei nº 0741/03). Sujeitos: a) ativo:
crime próprio, é aquele que detém a pessoa para fins de educação, ensino ou tratamento. b)
passivo: aquele sob guarda, autoridade ou vigilância para tais fins (há vínculo de subordinação).
Consumação/tentativa: no momento em que houver exposição ao perigo concreto. No caso de
privação de cuidados, alimentos e trabalho excessivo, há crime permanente; no abuso da corre-
ção, em regra, há crime instantâneo.

Observações comuns aos crimes de perigo individual:

Objeto jurídico tutelado: incolumidade física e saúde das pessoas. Nos artigos 133 e
134 do CP, em relação às pessoas determinadas pelo legislador.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de conduta culposa.

Ação penal: No art. 130,CP, pública condicionada à representação (130, § 2º,CP). Nos demais,
pública incondicionada.

7 Crimes contra a honra


Arts. 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144 e 145, CP

Difamação (art.
Delito Calúnia (art. 138, CP) Injúria (art. 140, CP)
139, CP)

Caluniar: imputar
Injuriar alguém,
falsamente fato definido Difamar: imputar a
ofendendo sua
como crime, ou seja, alguém fato ofensivo
dignidade (atributos
Conduta imputar a alguém a à sua reputação. Não
morais) ou o decoro
prática de um fato importa a veracidade
(atributos físicos ou
criminoso, sabendo-o da informação.
sociais).
inocente.
Honra objetiva
Honra subjetiva
Objeto
(reputação, imagem Honra objetiva. (autoestima, conceito
tutelado
pública, conceito perante de si próprio).
a sociedade).
Elemento Dolo; não há previsão de
Idem. Idem.
subjetivo conduta culposa.

44 Laureate- International Universities


a) ativo: crime
a) ativo: crime comum, a) ativo: crime comum,
comum, qualquer
qualquer pessoa pode qualquer pessoa pode
Sujeitos pessoa pode praticar;
praticar; b) passivo: praticar; b) passivo:
b) passivo: qualquer
qualquer pessoa. qualquer pessoa).
pessoa.
Consuma-se
Consuma-se quando
quando terceiros No momento em que
terceiros tomem ciência
tomem ciência das a própria vítima toma
Consumação/ das imputações feitas
imputações feitas conhecimento da
tentativa contra a vítima. Admite
contra a vítima. ofensa. Tentativa: idem
tentativa quando
Tentativa: idem calúnia.
plurissubsistente.
calúnia.
a) simples (caput);

Formas a) simples (caput). a) simples (caput). b) qualificada: injúria


real (§2º); injúria racial
(3º).
Cabível em
Cabível em determinadas
Exceção da determinadas
situações: art. 138,§ 3º, Incabível.
verdade situações: art. 139,§
CP.
único, CP.
Cabível; feita antes da Cabível; feita antes
sentença e cabal.. É da sentença e cabal.
Retratação
causa de extinção de É causa de extinção Incabível.
(art. 143, CP)
punibilidade (art. 107, de punibilidade (art.
VI, CP). 107, VI, CP).
Acusação falsa pode
Outros delitos:
configurar outros delitos:
• Lei nº 7716/89 (Lei
a) autoacusação falsa
do Racismo): crimes
(341, CP);
inafiançáveis,
imprescritíveis e
b) denunciação
Observações de ação pública
caluniosa (339,CP);
incondicionada.
c) falso testemunho
Discriminação dos
(art. 342,CP).
portadores do vírus HIV
e doentes de aids: Lei
• É punível a calúnia
nº 12.984/2014.
contra os mortos.

Quanto ao sujeito passivo da calúnia e difamação: divergência doutrinária a respeito da pessoa


jurídica.

Causas de aumento de pena: Art. 141, CP

Exclusão de Crimes: Não há injúria ou difamação nos casos definidos no art. 142, CP Nos
casos dos I e III, responde pela injúria ou pela difamação quem lhe dá publicidade.

Pedido de explicações: é peça preparatória e facultativa para oferecimento da queixa-crime.


Aquele que se recusa a dá-las ou, a critério do juiz, não as dá satisfatórias, responde pela ofensa
(não significa condenação).

45
Tópicos em Direito 2

Ação Penal: em regra, privada será pública no caso do 140, § 2º (injúria real) se resultar lesão
corporal grave ou gravíssima. Será pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça, no
caso de crime praticado contra pessoas mencionadas no art. 141, I, CP). Será pública condicio-
nada à representação do ofendido, se praticado contra funcionário público, em razão de suas
funções (art. 141, II, CP) ou em caso de injúria racial (art. 140, §3º, CP).

8 Dos crimes contra a liberdade


individual
Art. 149-A, CP

8.1 Tráfico de pessoas


Conceito: agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoa,
mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de remover-lhe
órgãos, tecidos ou partes do corpo; submetê-la a trabalho em condições análogas à de escra-
vo; submetê-la a qualquer tipo de servidão; para fins de adoção ilegal ou exploração sexual.
Trata-se de nova figura penal, inserida na legislação 2016. Com a entrada em vigor do artigo
ora tratado, foram revogados os artigos 231 e 231 A do CP. Tais artigos revogados tratavam
do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. O novo tipo penal, artigo 149 A do CP
ampliou a proteção legal, na medida em que prevê punição para o tráfico de pessoas cometido
com outras finalidades.

Objeto jurídico: a liberdade das pessoas.

Conduta: agenciar (representar, negociar), aliciar (conquistar, seduzir, persuadir), recrutar (alis-
tar, reunir), transportar (conduzir, levar de um lugar a outro), transferir (mudar, remover), comprar,
alojar (acomodar) ou acolher pessoa, mediante grave ameaça (violência moral), violência (vio-
lência física), coação (constrangimento ilegal, intimidação), fraude (engano) ou abuso, com uma
das finalidades estabelecidas no tipo penal.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa,
podendo ser tanto a pessoa que é agenciada, aliciada, recrutada, transportada, transferida,
alojada ou acolhida como aquela que sofre a violência ou grave ameaça (não necessariamente
a mesma pessoa). Ex.: mãe sofre violência e seu filho é transportado).

Consumação/tentativa: consuma-se com a prática de um dos verbos, sendo comprovada a


finalidade do sujeito ativo. Crime de ação livre. Trata-se, ainda, de crime formal, ou seja, os
resultados pretendidos pelo sujeito ativo não precisam ocorrer para que o crime se consume; o
crime estará consumado com a prática de um dos verbos descritos no tipo penal, ainda que o
sujeito ativo não consiga, efetivamente, explorar a vítima sexualmente ou realizar qualquer uma
das finalidades especificadas no tipo penal. É possível a tentativa. Observe-se que submeter,
induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (de-
zoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento
para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone é crime previsto no artigo
218-B, CP (favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou
adolescente ou de vulnerável).

Elemento subjetivo: dolo; não existe previsão de conduta culposa.

46 Laureate- International Universities


Causas de aumento de pena: (§1º). A pena é aumentada de um terço até a metade se: I – o cri-
me for cometido por funcionário público no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las;
II – o crime for cometido contra criança, adolescente ou pessoa idosa ou com deficiência; III – o
agente se prevalecer de relações de parentesco, domésticas, de coabitação, de hospitalidade, de
dependência econômica, de autoridade ou de superioridade hierárquica inerente ao exercício de
emprego, cargo ou função; IV – a vítima do tráfico de pessoas for retirada do território nacional.

Causas de diminuição de pena: (§ 2º): redução de 1/3 a 2/3 se o agente for primário e não
integrar organização criminosa (cujo conceito é estabelecido pela Lei nº 12850/13).

Ação penal: pública incondicionada.

9 Crimes contra o patrimônio


Conceito: subtração (retirada, diminuição) de coisa (objeto) alheia (de outrem) móvel (que pode
ser transportado sem separação destrutiva do solo); retirada do bem sem o consentimento do
proprietário ou possuidor. Crime de ação livre.

Objeto Jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade).

Conduta: subtrair, retirar sem consentimento do possuidor ou proprietário, a coisa alheia móvel
(objeto material do delito). A coisa deve ter valor patrimonial, ou seja, ser possível de avaliar-
-se economicamente. Não pode ser objeto de furto, por não constituir nem propriedade nem
estar sob posse de alguém: a) res nullius (coisa sem dono); b) res derelicta (coisa abandonada);
c) res deperdita (coisa perdida). Se o sujeito subtrai o bem para usá-lo, mas sem finalidade de
assenhoreamento permanente, pode-se configurar o “furto de uso”: conduta atípica (desde que
haja devolução intacta e em curto espaço de tempo). O “furto famélico” também é conduta atí-
pica; não há crime se o sujeito furta alimentos para saciar sua fome ou de outrem em casos de
extrema miserabilidade (estado de necessidade). Se a subtração é de coisa comum e é realizada
pelo coerdeiro ou sócio, para si ou para outrem (crime próprio), haverá furto de coisa comum,
crime do art. 156, CP (não há crime se a subtração for de coisa comum fungível, cujo valor não
exceda a quota a que tem direito o agente). Neste caso, a ação penal é pública condicionada à
representação.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa.

Elemento Subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa.

Consumação/tentativa: com a subtração, ou seja, com a retirada do bem da disponibilidade


da vítima. É possível a tentativa, se o sujeito inicia a consumação mas não consegue, por cir-
cunstâncias alheias à sua vontade, retirar o bem do domínio do titular. Note-se quanto ao tema
a Súmula 567, STJ: Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por exis-
tência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a
configuração do crime de furto.

Formas:

a) simples: caput;

b) noturno (§ 1º): praticado durante o repouso noturno (período de descanso noturno da


comunidade).

c) privilegiado (§ 2º): sujeito for primário, de bons antecedentes e o valor do bem furtado for
de pequeno valor (que não ultrapassa o valor do salário mínimo vigente). Não confundir

47
Tópicos em Direito 2

com coisa de valor ínfimo, ninharia, caso em que, pela aplicação do Princípio da Bagatela,
a conduta pode ser considerada atípica.

d) de energia (§ 3º): energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico (ex.:
telefone, tevê a cabo);

e) qualificado (§ 4º) se o crime for cometido: com destruição ou rompimento de obstáculo à


subtração da coisa; com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
com emprego de chave falsa; mediante concurso de duas ou mais pessoas; se a subtração
for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o
exterior; se a subtração for de semovente domesticável de produção, ainda que abatido
ou dividido em partes no local da subtração.

f) privilegiado – qualificado: possível; Súmula 511 do STJ: é possível o reconhecimento


do privilégio previsto no art. 155, § 2º do CP nos casos de crime de furto qualificado, se
estiverem presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora
for de ordem objetiva).

Ação penal: pública incondicionada.

9.1 Roubo (art. 157, CP)


Conceito: subtração de coisa alheia móvel, para si ou para outrem, mediante violência (física),
grave ameaça (moral) ou após reduzir a vítima à incapacidade de resistência).

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade) e a integridade física das pessoas.

Conduta: subtrair, retirar sem consentimento do possuidor ou proprietário, a coisa alheia móvel
(objeto material do delito). A coisa deve ter valor patrimonial Se a subtração se dá mediante o
emprego de violência grave ameaça ou violência, há roubo próprio; se empregada logo depois
de subtraída a coisa, para assegurar a impunidade do crime ou detenção da coisa, há roubo
impróprio. Note-se que há ameaça no conduta, mas direcionada para uma finalidade específica
(para subtração da coisa) e por isso se configura a figura especial do roubo e não o delito de
ameaça, que é delito subsidiário (artigo 147 , CP).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa.

Consumação/tentativa: consuma-se o delito quando o bem é retirado mediante emprego de


violência ou grave ameaça. É possível a tentativa. Quanto ao tema, a Súmula 582, STF esta-
belece: consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem mediante emprego de
violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em seguida à perseguição imediata
ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo prescindível a posse mansa e pacífica ou
desvigiada.

Formas:

simples (caput) próprio ou impróprio;

roubo qualificado pela lesão corporal de natureza grave ou gravíssima (§ 3º, 1ª parte);

roubo qualificado pela morte (latrocínio; § 3º, 1ª parte): do emprego da violência


física contra a pessoa com o intuito de subtrair a res ou assegurar impunidade no crime/

48 Laureate- International Universities


detenção da coisa, ocorre morte da vítima. Súmula 610 do STF: há crime de latrocínio,
quando o homicídio se consuma, ainda que não realize o agente a subtração de bens da
vítima. Majoritariamente, entende-se que, havendo subtração patrimonial consumada e
homicídio tentado, está configurada a tentativa de latrocínio. Trata-se de crime hediondo
(Lei nº 8072/90).

Causas especiais de aumento de pena: I- Emprego de arma (qualquer tipo de arma); II)
Concurso de duas ou mais pessoas; III – vítima em serviço de transporte de valores (e o agente
conhece tal condição); IV – veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado
ou para o exterior; V – Se o agente que mantém a vítima em seu poder (roubo com restrição da
liberdade da vítima).

9.2 Extorsão (art. 158, CP)


Conceito: constranger alguém, mediante violência, e com o intuito de obter para si ou para ou-
trem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa.
É forma de constrangimento ilegal, acrescida de uma finalidade especial do agente, consubstan-
ciada na vontade de auferir vantagem econômica.

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade), a vida, a integridade pessoal e a


liberdade pessoal.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: aquele que sofre
a violência ou grave ameaça; aquele que faz, deixa de fazer ou tolera que se faça algo; aquele
que sofre o prejuízo econômico.

Conduta: coagir, compelir, obrigar alguém a fazer, a deixar que se faça ou deixar de fazer al-
guma coisa. É crime de ação livre. É forma específica de constrangimento ilegal, com finalidade
específica determinada pelo legislador (obtenção da vantagem indevida) e por isso se configura
a figura especial da extorsão e não o delito de constrangimento ilegal, que é delito subsidiário
(art. 146, CP).

Elemento subjetivo: dolo, sendo necessário um especial fim de agir, consistente no intuito de
obter vantagem econômica. Não há previsão de modalidade culposa.

Consumação e tentativa: consuma-se no momento em que a vítima é coagida (ainda que não
obtenha a vantagem indevida). De acordo com a Súmula 96 do STJ: extorsão é crime formal ou
de consumação antecipada. O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção
da vantagem indevida.

Formas: a) simples (caput); b) qualificada (159, §2º, CP): se praticada mediante violência (apli-
ca-se o disposto no art. 157, §3º, CP) ou se o crime for cometido mediante a restrição da
liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica
(“sequestro-relâmpago”. Difere do roubo, pois aqui a privação de liberdade é condição neces-
sária para que o delito ocorra); se resultar lesão corporal grave, gravíssima ou morte (art. 159,§
3º,CP). É crime hediondo (Lei nº 8072/90).

Causas de aumento de pena: se o crime for cometido por duas ou mais pessoas, ou com em-
prego de arma (qualquer arma) aumenta-se a pena de 1/3 até 1/2.

49
Tópicos em Direito 2

9.3 Extorsão mediante seqüestro (art. 159, CP)


Conceito: é modalidade específica de extorsão. O sujeito sequestra pessoa com o fim de obter,
para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate. A privação da
liberdade da vítima tendo por fim a obtenção de vantagem, como condição ou preço do resgate.

Objeto jurídico: patrimônio (posse e propriedade), a vida, a integridade pessoal e a liberdade


pessoal.

Conduta: sequestrar, ou seja, privar a vítima de liberdade. Difere do art. 148, CP (crime de se-
questro ou cárcere privado) pela vontade de obter vantagem como condição ou preço do resgate
e pelo objeto jurídico tutelado. Difere da privação da liberdade que configura o crime de redu-
ção à condição análoga à de escravo (art. 149, CP) em razão da diferença quanto à finalidade
e objeto jurídico.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: passivo: tanto a
pessoa que sofre a lesão patrimonial como a que é sequestrada.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão da modalidade culposa.

Consumação e tentativa: consuma-se no momento em que a vítima é privada de sua liberdade


(por tempo juridicamente relevante). É crime formal, consumando-se com a privação da liberda-
de da vítima e independentemente da obtenção da vantagem indevida (se houver obtenção, é
mero exaurimento do delito). É crime permanente, o que significa que sua conduta se prolonga
no tempo, ou seja, a conduta perdura enquanto perdurar a privação de liberdade da vítima
(permite a prisão em flagrante delito; não se inicia a contagem de prescrição). Permite, portanto,
a aplicação da Súmula 711: A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime
permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência. É pos-
sível a tentativa (se o agente não logra privar a vítima de sua liberdade por circunstâncias alheias
à sua vontade, provada a sua intenção específica de obter vantagem econômica).

Formas: a) simples (caput); b) qualificadas (§ 1º, 2º e 3º): se o sequestro por mais de 24 horas;
se a vítima é menor de 18 ou maior de 60 anos ou se é cometido por associação criminosa; se
resulta em lesão corporal de natureza grave ou gravíssima; se resulta em morte. Em todas as
hipóteses, trata-se de crime hediondo (Lei nº 8072/90).

Causa de diminuição de pena: delação eficaz ou premiada (§ 4º). São requisitos: que o crime
tenha sido cometido em concurso e o delator seja coautor ou partícipe; b) a eficácia da delação.
O quantum da redução será decidido pelo magistrado e varia de acordo com a maior ou menor
contribuição da delação para a libertação do sequestrado.

9.4 Dano (art. 163, CP)


Conceito: destruição, inutilização ou deterioração dolosa de coisa alheia (de outrem e que tenha
valor patrimonial).

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: o proprietário e/ou
possuidor da coisa que sofre a ação do agente.

50 Laureate- International Universities


Conduta: destruir (demolir, desmanchar, fazer desaparecer); inutilizar (tornar inútil, sem serven-
tia); deteriorar (estragar, reduzir o valor da coisa). O objeto material deste delito é coisa alheia,
móvel ou imóvel (coisa, com valor patrimonial, pertencente a outrem). Não há crime em caso
de res nullius, ou seja, coisa de ninguém. Crime de ação livre. A ofensa é dirigida contra o di-
reito de propriedade, objetivando apenas prejudicar o legítimo dono, sem o intuito de vantagem
econômico-financeira. Note-se que há outras figuras danosas que configuram outros delitos, por
exemplo, danificar sepultura (art. 210, CP).

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão da modalidade culposa. Observe-se que a ofensa é
dirigida contra o direito de propriedade, objetivando apenas prejudicar o legítimo dono, sem o
intuito de vantagem econômico-financeira.

Consumação/tentativa: com a efetiva destruição, inutilização ou deterioração da coisa alheia.


Consuma-se com o dano efetivo ao objeto material, total ou parcialmente. É possível a tentativa.

Formas: a) simples (caput); b) qualificada: (§ único).

9.5 Apropriação indébita (art. 168, CP)


Conceito: apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou detenção.

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: aquele que experi-
menta o prejuízo.

Conduta: apropriar-se de algo que não é seu, tomar para si. O agente tem legitimamente a
posse da coisa, transferida de forma livre e consciente, mas, em momento posterior, inverte esse
título, passando a agir como se dono fosse. Nesse momento se configura a apropriação indé-
bita. É o verbo que difere esta conduta do furto e do roubo (nos quais há subtração, retirada);
ademais, não há emprego de violência, ameaça ou fraude por parte do agente para conseguir a
posse ou detenção da coisa. O objeto material é a coisa alheia móvel (mas o condômino, sócio
ou proprietário podem praticar o crime em tela, se tomam para si a coisa comum).

Elemento Subjetivo: dolo; não há previsão da modalidade culposa.

Consumação/tentativa: consuma-se no momento em que o agente transforma a posse ou de-


tenção em domínio. A tentativa é possível, exceto na modalidade negativa de restituição.

Formas: a) propriamente dita: consuma-se com o ato de disposição; sujeito toma para si; b)
negativa de restituição: consuma-se com a não restituição do bem uma vez vencido o prazo para
a sua entrega; c) privilegiada (art. 170, CP).

Causas de aumento de pena: aumenta-se a pena em 1/3 se: I) depósito necessário (aquele que
se faz no desempenho de obrigação legal); II) se o sujeito ativo é tutor, curador, síndico, liquida-
tário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial; III) se a coisa é recebida em razão de
ofício, emprego ou profissão.

51
Tópicos em Direito 2

9.6 Apropriação indébita previdenciária (art.


168-A, CP)
Conceito: deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes,
no prazo formal legal ou convencional.

Objeto jurídico tutelado: patrimônio de todos os cidadãos que fazem parte do sistema previ-
denciário.

Sujeitos: a) ativo: crime próprio; é aquele que tem o dever legal de repassar à Previdência Social
as contribuições recolhidas dos contribuintes (ex.: dono de uma empresa; os agentes públicos
também podem praticar tal delito); b) passivo: o Estado, em especial o órgão da Previdência
Social.

Conduta: crime omissivo puro. A conduta criminosa é deixar de repassar para a Previdência
aquilo que foi descontado do contribuinte. É norma penal em branco, (necessária complemen-
tação por outra norma para que se entenda o que são as contribuições previdenciárias). Por ser
delito de natureza tributária, aplica-se a Súmula 24 do STF: exige-se prévio esgotamento da via
administrativa, com constituição de crédito tributário para que se possa falar em delito.

Elemento subjetivo: dolo, consistente na vontade e consciente de recolher as contribuições e


não repassar à Previdência Social. Não há previsão da modalidade culposa.

Consumação/tentativa: consuma-se no momento em que se exaure o prazo legal ou conven-


cional assinalado para o repasse das contribuições recolhidas. Não é possível tentativa, pois é
crime omissivo puro (ou há o repasse, ou não).

Formas: a) simples: caput; b) assemelhadas (§1º, I a III); c) privilegiada (170, CP).

Causa de diminuição de pena: (§3º): o juiz pode deixar de aplicar a pena ou aplicar somente
a de multa se o agente for primário e de bons antecedentes, desde que tenha promovido, após
o início da ação fiscal e antes de oferecida a denúncia, o pagamento da contribuição social pre-
videnciária, inclusive acessórios; ou o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja
igual ou inferior àquele estabelecido pela previdência social, administrativamente, como sendo
o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais.

Causa extintiva da punibilidade: (§ 2º): se o agente, espontaneamente, declara, confessa e


efetua o pagamento das contribuições, importâncias ou valores e presta as informações devidas
à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação fiscal.
O parcelamento da dívida é causa de suspensão do processo e do curso do prazo prescricional,
desde que feita de acordo com a lei vigente.

9.7 Estelionato (art. 171, CP)


Conceito: é a obtenção, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio.

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: qualquer pessoa
(aquela que sofre o prejuízo patrimonial).

52 Laureate- International Universities


Conduta: induzir (levar a) ou manter alguém em erro, mediante o emprego de artifício ou ardil
ou qualquer outro meio fraudulento. Artifício é a fraude no sentido material (o agente se utiliza
de um aparato para modificar o aspecto da coisa). Ardil é fraude no sentido imaterial (dirigido
à inteligência da vítima). Deve haver idoneidade do meio fraudulento empregado; só há estelio-
nato quando o meio fraudulento for apto a iludir o ofendido. Erro consiste na falsa percepção da
realidade, provocando uma manifestação de vontade viciada; a vítima acredita em uma situação
que não existe. Deve haver, ainda, vantagem ilícita e prejuízo patrimonial alheio.

Consumação/tentativa: consuma-se com a obtenção da vantagem ilícita indevida em prejuízo


alheio (crime material). É possível haver tentativa. Observe-se ainda que, em caso de falsidade
para cometimento do estelionato, incide a Súmula 17 do STJ: quando o falso se exaure no es-
telionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.

Elemento subjetivo: dolo, direcionado para a obtenção da vantagem ilícita. Não há previsão
de modalidade culposa.

Formas: a) simples (caput); b) privilegiada (§ 1º); c) equiparadas (I a VI, CP). Quanto à emissão
de cheque sem suficiente provisão de fundos ou frustação de seu pagamento: para que se confi-
gure é necessário que o sujeito tenha agido de má-fé quando da emissão do cheque. A Súmula
246 do Supremo Tribunal Federal estabelece: Comprovado não ter havido fraude, não se
configura o crime de emissão de cheque sem fundos. Como cheque tem natureza jurídica de or-
dem de pagamento à vista, qualquer atitude que lhe retire esta característica afasta a incidência
do crime; é o caso, por exemplo, da emissão de cheque pré-datado ou do cheque dado como
garantia de dívida. Observe-se ainda a Súmula 521 do STF: o foro competente para o processo
e julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade de emissão dolosa de cheque sem
provisão de fundos, é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado. Na mesma
linha, a Súmula 244 do STJ: compete ao foro do local da recusa processar e julgar o crime de
estelionato mediante cheque sem provisão de fundos.

Causas de aumento de pena: 171, § 3º, CP.

9.8 Receptação (Art. 180, CP)


Conceito: adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa
que sabe ser produto de crime ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte
(produto de crime anterior, portanto). É pressuposto que haja crime anterior.

Objeto jurídico tutelado: patrimônio (posse e propriedade).

Sujeitos: quanto ao sujeito ativo, crime comum, qualquer pessoa pode praticar (exceto o autor,
coautor ou partícipe do crime antecedente, pois estes já respondem pelo roubo, furto ou outro
que tenha dado origem à posterior receptação). Sujeito passivo é a vítima do crime antecedente.

Conduta: adquirir (obter domínio de forma onerosa ou gratuita), receber (qualquer forma de ob-
ter a posse da coisa), transportar (deslocar coisa de um local para outro), conduzir (dirigir trans-
porte que é produto de crime) ou ocultar (esconder), influir (influenciar decisivamente, estimular)
para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte o objeto material do delito que é a coi-
sa que sabe ser produto de crime (crime, não contravenção). As condutas ter em depósito e expor
à venda são permanentes. Há também as condutas ter em depósito (ter consigo, guardado), des-
montar, montar, remontar, vender, expor à venda e utilizar de qualquer forma. Observe-se que
adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito ou vender, com a finalidade de
produção ou de comercialização, semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou
dividido em partes, que deve saber ser produto de crime é crime previsto no artigo 180-A do CP.

53
Tópicos em Direito 2

Elemento subjetivo: dolo; admite modalidade culposa (180, §3º, CP) – parte da doutrina en-
tende ser dolo eventual.

Formas: a) simples e própria (caput, 1ª parte); b) imprópria (caput, 2ª parte); c) (§ 1º, CP): não
é necessária a atividade comercial regular, posto que a ela se equipara qualquer atividade de
comércio, ostensiva ou clandestina, mesmo irregular, ainda que exercida em residência (§ 2º);
culposa (§ 3º): se deveria presumir ter sido a coisa obtida por meio criminoso (pela análise do
preço ou pessoa do vendedor, por ex.); d) privilegiada (art. 180, § 5º, parte final); e) de semo-
ventes (art. 180-A, CP).

Causa de aumento de pena (§ 6º): pena em dobro em caso de bens e instalações do patrimô-
nio da União, Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de
economia mista.

10 Disposições gerais sobre crimes


patrimoniais (arts. 181 a 183, CP)
Isenção de pena (art. 181, CP): há isenção de pena quando o sujeito comete um crime patrimo-
nial em prejuízo do cônjuge, na constância da sociedade conjugal; de ascendente ou descen-
dente, seja o parentesco civil ou natural, desde que não se trade de delito praticado com grave
ameaça ou violência à pessoa (ex.: há isenção de pena em caso de estelionato ou furto, mas
não em caso de roubo). A isenção de pena não se aplica ao terceiro que participa do crime ou
se o delito for praticado contra vitima com 60 anos ou mais (art. 183,CP). É imunidade absoluta.

Ação penal (art. 182, CP): em regra, pública incondicionada. Será condicionada à representa-
ção, se o crime for cometido contra cônjuge judicialmente separado, irmão, tio ou sobrinho, com
quem o agente coabite. Imunidade relativa.

11 Dos crimes contra a dignidade sexual

11.1 Estupro (art. 213, CP) e Estupro de


vulnerável (Art. 217-A, CP)
Conceitos iniciais: ato de libidinagem é todo ato tendente à satisfação sexual. O ato de libidi-
nagem pode ser a conjunção ou relação sexual (cópula vagínica) ou o ato libidinoso (qualquer
outro que não a cópula vagínica. Ex.: sexo anal).

São crimes hediondos, em todas as suas formas (Lei nº 8072/90).

54 Laureate- International Universities


Estupro de vulnerável (art. 217-
Delito Estupro (art. 213, CP)
A, CP)

Constranger mediante violência ou


grave ameaça a ter conjunção carnal Ter conjunção carnal ou praticar
Conduta
ou a praticar ou permitir que com ele outro ato libidinoso com a vítima.
se pratique outro ato libidinoso.
Objeto jurídico Dignidade e a liberdade sexual. Idem.
Ativo: crime comum, qualquer
pessoa.

Passivo: pessoa vulnerável:


menor de 14 anos ou que por
Ativo: crime comum, qualquer enfermidade ou deficiência
Sujeitos
pessoa; b) passivo: qualquer pessoa. mental não tem o necessário
discernimento para a prática do
ato, ou que, por qualquer causa,
não pode oferecer resistência.
Ex.: pessoa em coma (art. 217-A,
caput, e §1º).
Elemento Dolo; não há previsão de
Idem.
subjetivo modalidade culposa.
Consuma-se com a prática, mediante
violência ou grave ameaça, da
Consumação/ Com a prática da conjunção
conjunção carnal (completa ou
tentativa carnal ou a outro ato libidinoso.
não) ou com a prática de outro ato
libidinoso. É possível a tentativa.
a) Simples (caput);
a) Simples (caput);
b) Qualificada (§1º) se resulta
Formas lesão grave, gravíssima ou b) Qualificada (§3º e §
vítima maior de 14 e menor de 4º);se resulta lesão grave,
18 anos; se resultada morte gravíssima ou morte.
(§2º)
Art. 226, CP: 1/4, se o crime for
cometido com o concurso de 2 ou
mais pessoas; 1/2, se o agente é
Causas de ascendente, padrasto ou madrasta,
aumento de tio, irmão, cônjuge, companheiro, Idem.
pena tutor, curador, preceptor ou
empregador da vítima ou por
qualquer outro título tem autoridade
sobre ela.
Art. 225, CP: pública condicionada
à representação. Pública Art. 225, I, CP: Pública
Ação Penal
incondicionada se a vítima é menor incondicionada.
de 18 anos.

Art. 234-B, CP: trâmite em segredo de justiça.

55
Tópicos em Direito 2

11.2 Assédio sexual (art. 216-A, CP)


Conceito: constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, preva-
lecendo-se (valer-se, aproveitar-se) o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascen-
dência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função (esfera pública ou privada).

Objeto jurídico tutelado: a dignidade e a liberdade sexual.

Conduta: constranger (obrigar, compelir, forçar).

Sujeitos: a) ativo: crime próprio, o agente deve ser superior hierárquico da vítima ou ter as-
cendência sobre ela, em razão do exercício de emprego ou função (ex.: o diretor da empresa e
relação à secretária, o gerente em relação à balconista); b) passivo: inferior hierárquico, pessoa
subordinada, ainda que indiretamente (ex.: chefe de outro setor da empresa). Não configura o
delito o mero flerte, paquera ou convite para sair; só há crime se o sujeito constranger, ou seja,
insiste para que a vítima se sinta obrigada.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de modalidade culposa. Há um especial fim de agir:
obter vantagem ou favorecimento sexual e não qualquer outra vantagem.

Consumação/tentativa: com o constrangimento. Não é necessário que o agente consiga a van-


tagem ou favorecimento sexual pretendidos (crime formal).

Causas de aumento de pena (§2º) se a vítima é menor de 18 anos (aumenta-se até 1/3). Ha-
verá aumento de 1/4 se o crime for cometido com o concurso de duas ou mais pessoas.

Ação penal: pública condicionada à representação. Será pública incondicionada se a vítima for
menor de 18 anos (ex.: vítima é menor aprendiz em determinada empresa).

12 Crimes contra a Saúde Pública


Falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou
medicinais (art. 273, CP).

Conceito: trata-se da falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a


fins terapêuticos ou medicinais.

Objeto jurídico tutelado: dolo. Admite a modalidade culposa (273, § 2º, CP).

Conduta: falsificar (criar o falso, imitar enganosamente, corromper (estragra, infectar), adulterar
(modificar, piorando a coisa) alterar (mudar, modificar o produto destinado a fins terapêuticos
ou medicinais (xx). O art. 273,§1º, CP prevê ainda como conduta criminosa: importar, vender,
expor à venda, ter em depósito para vender ou, de qualquer forma, distribuir ou entrega a con-
sumo o produto falsificado, corrompido, adulterado ou alterado. O objeto material: o produto
terapêutico ou medicinal, os medicamentos, as matérias-primas, os insumos farmacêuticos, os
cosméticos, os saneantes e os de uso em diagnóstico. São condutas, criminosas, ainda (§ 1º B):
importar, vender, expor à venda, ter em depósito para vender ou, de qualquer forma, distribuir
ou entrega a consumo produtos em qualquer das condições previstas nos incisos I a IV (ex.: co-
mercializar aparelho de raio x sem o registro no órgão competente).

Sujeitos: quanto ao sujeito ativo, crime comum, qualquer pessoa pode praticar; sujeito passivo:
é a coletividade (crime vago).

56 Laureate- International Universities


Consumação/tentativa: consuma-se com a prática de uma das ações nucleares. A tentativa é
possível.

Causas de aumento de pena: o art. 285, CP determina a aplicação do art. 258 CP: se o crime
for doloso, aumento de 1/2 se dele resultar lesão corporal de natureza grave ou gravíssima; se
resultar morte, é aplicada em dobro. Nos casos culposos, se do fato resulta lesão corporal, a
pena aumenta-se de 1/2; se resultar morte, aplica-se a pena cominada ao homicídio culposo
(detenção de 1 a 3 anos) aumentada de 1/3.

Ação Penal: pública incondicionada.

13 Crimes contra a Paz Pública


Associação criminosa (art. 288, CP) e Constituição de milícia privada (288-A, CP).

Conceito: associarem-se três pessoas ou mais pessoas, para fim específico de cometer crimes.

Objeto jurídico tutelado: tutela-se a paz pública.

Sujeitos: Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: a coletivi-
dade.

Conduta: associar (união estável ou permanente; é o que diferencia este delito da coautoria).
Deve ser composta por três ou mais pessoas e a lei exige um especial fim de agir: cometer crimes
indeterminados. Ex.: associação criminosa para roubo a bancos.

Consumação/tentativa: consuma-se no instante em que a associação é formada, ainda que


nenhum outro crime seja cometido. A consumação se protrai no tempo enquanto perdurar a as-
sociação. Não se admite tentativa: simples associação já consuma o crime, independentemente
de crime ou não.

Causas de aumento de pena: Parágrafo único. A pena aumenta-se até a 1/2 se a associação
é armada ou se houver a participação de criança ou adolescente

Obs.: associação criminosa para cometimento de crimes hediondos ou equiparados recebe re-
primenda mais severa (art. 8º Lei nº 8072/90. Neste caso, aplica-se também a delação premia-
da (art. 8º, § único da Lei nº 8072/90).

14 Crimes contra a Fé Pública


Falsidade documental: Arts. 297 (falsificação de documento público), Art. 298 (falsificação de
documento particular), Art. 299 (falsidade ideológica), Art. 304 (uso de documento falso).

Objeto jurídico tutelado: a fé pública, ou seja, a credibilidade da Administração Pública (pre-


sumem-se verdadeiros e legítimos os documentos emitidos).

57
Tópicos em Direito 2

Delito Art. 297, CP Art. 298, CP

Falsificar, no todo ou em parte, Falsificar, no todo ou em parte,


Conceito documento público, ou alterar documento particular ou alterar
documento público verdadeiro. documento público verdadeiro.
Falsificar (criar o documento falso)
ou alterar (modificar) o verdadeiro. Idem, em relação ao documento
Conduta
A falsificação deve ter capacidade particular.
para iludir o homem médio comum.
Documento público, (emitido por
Documento particular (emitido
autoridades públicas; ex.: certidão
por particulares; ex.: contrato).
de óbito). São documentos públicos
Objeto Por expressa disposição do art.
o original, cópia autenticada; o
material 298§ único do CP, equipara-se a
emitido por autoridade estrangeira e
documento particular o cartão de
os equiparados (mencionados no art.
crédito ou débito.
297, §2º, CP).
Elemento Dolo; não há previsão de forma
Idem.
subjetivo culposa
Consuma-se com a falsificação ou
Consumação/e alteração do documento, sendo Idem, mas quanto ao documento
tentativa desnecessário o uso efetivo. particular.
A tentativa é possível
Formas: a) simples: caput; b)
equiparada: documento público
previdenciário (art. 297, § 3º, CP); c)
Formas
majorada: se o agente é funcionário
público (art. 327, CP), e comete o
crime prevalecendo-se do cargo.

14.1 Falsidade ideológica (art. 299, CP)


Conceito: omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou
nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de
prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.

Conduta: omitir (deixar de; crime omissivo) ou inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa
da que deveria constar (conduta ativa). Nos crimes dos arts. 297 e 298, CP temos uma falsidade
material, ou seja, do documento em si (parte exterior do documento, aspecto físico), seja pela
criação de documento, seja pela alteração do que já existe. Na falsidade ideológica a falsida-
de diz respeito ao conteúdo que deveria ser inserido no documento (o documento, sob aspecto
material, é verdadeiro, mas a ideia ou as declarações que contêm são falsas). É crime de ação
múltipla (vários verbos no núcleo do tipo penal). Trata-se de crime formal e estará consumado
com a práticas das condutas descritas no tipo penal, ainda que o agente não consiga prejudicar
direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: Estado.

Consumação/tentativa: consuma-se com a omissão ou a inserção da declaração falsa ou di-


versa do que deveria constar. A tentativa é possível nas modalidades inserir e fazer inserir e
inadmissível na conduta omissiva.

58 Laureate- International Universities


Causa de aumento de pena (art. 299,§ único, CP): aumento de 1/6 da pena se o agente é fun-
cionário público (art. 327, CP), e comete o crime prevalecendo-se do cargo ou se a falsificação
ou alteração é de assentamento de registro civil (ex.: certidão de nascimento).

14.2 Uso de documento falso (art. 304, CP)


Conceito: utilizar qualquer dos papéis falsificados a que se referem os arts. 297 a 302 do CP.

Conduta: fazer uso do documento público, particular, certidões e atestados públicos ou atestado
médico falsificados ou alterados (falsificação material ou ideológica). Fazer uso significa efeti-
vamente utilizar, não bastando o mero porte do documento (deve, por exemplo, apresentar a
certidão falsa; enquanto não é apresentado pelo agente, não há crime do art. 304, CP).

Sujeitos: a) ativo: crime comum, qualquer pessoa pode praticar; b) passivo: o Estado.

Consumação/tentativa: consuma-se com o efetivo uso do documento falso. Não é necessária


a obtenção de qualquer vantagem, bastando que o agente dele se utilize dele uma única vez.

Note-se que em alguns casos o crime de uso de documento falso é utilizado como crime-meio e é
absorvido pelo crime-fim. Ex.: aquele que apresenta guia de recolhimento falsa, para sonegar tri-
butos, responde de acordo com a Lei nº nº 8137/90. Outros exemplos: crimes contra o Sistema
Financeiro Nacional (Lei nº 7.492/86) e crime falimentar (Lei nº 11.101/2005) e estelionato (art.
171, CP). Quanto ao tema, há a Súmula 17 do STJ: Quando o falso se exaure no estelionato,
sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.

Súmula 546 STJ: a competência para processar e julgar o crime de uso de documento falso
é firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento público, não
importando a qualificação do órgão expedidor.

Observações comuns aos crimes de falsidade documental.

Objeto jurídico tutelado: tutela-se a fé pública.

Elemento subjetivo: dolo; não há previsão de conduta dolosa.

Ação Penal: pública incondicionada.

15 Crimes contra a Administração Pública


Considerações

Administração Pública: conjunto de funções exercidas pelos vários órgãos do Estado em bene-
fício do bem-estar e desenvolvimento da sociedade (daí a necessidade de sua proteção).

Objeto jurídico tutelado: probidade, moralidade, eficácia da Administração Pública.

Sujeitos: a) ativo: crimes próprios (sujeito ativo ser funcionário público é essencial e elementar).
Um particular pode responder por crimes desta natureza se é coautor ou partícipe e conhece esta
condição do sujeito ativo; b) passivo: Estado e pessoa lesada pela conduta.

Funcionário público para fins penais: conforme definição dada pelo art. 327, CP.

59
Tópicos em Direito 2

Causas de aumento de pena: (art. 327§ 2º, CP): a pena será aumentada de 1/3 quando os au-
tores dos crimes previstos neste Capítulo forem ocupantes de cargos em comissão ou de função
de direção ou assessoramento de órgão da administração direta, sociedade de economia mista,
empresa pública ou fundação instituída pelo Poder Público.

Ação Penal: pública incondicionada.

15.1 Peculato (art. 312, CP)


Conduta: é o apossamento ou desvio de coisa móvel, pública ou particular, de que o funcionário
público tem posse em razão do cargo em proveito próprio ou alheio. São condutas:

a) peculato – apropriação (1ª parte caput); é pressuposto que haja anterior posse lícita,
legitima, da coisa móvel (deve preexistir ao delito e deve ser exercida pelo agente em
nome do Poder Público (caso contrário haverá peculato – furto ou furto) em decorrência
do cargo exercido (posse resultante da lei ou de praxe não proibida pela lei). Nesta
hipótese o sujeito toma para si a coisa móvel, pública ou particular, de que tenha posse
em razão do cargo (ex. Policial que toma para si bem apreendido em diligência policial).

b) peculato – desvio (2ª parte, caput): alterar o destino natural, dar aplicação diversa da
determinada, em proveito próprio ou alheio. Consuma-se com o efetivo desvio, mesmo
que não seja auferido o proveito desejado. Observe-se que o desvio de verba pública sem
finalidade de obtenção de proveito pessoal, enquadra-se no art. 315, CP.

c) peculato furto (§1º): agente não tem a posse da coisa; mas a subtrai ou concorre para que
outrem o faça, valendo-se da facilidade que lhe proporciona a qualidade de funcionário
público (ex.: Oficial de Justiça em cumprimento de mandado que se aproveita de ter
entrado em coisa alheia e toma para si um objeto).

d) peculato culposo (§2º): o agente concorre culposamente e para o crime de outrem


(funcionário público ou não). Não se trata de concurso de agentes (pois não pode haver
participação culposa em crime doloso). É possível extinção da punibilidade ou redução
de pena mediante reparação do dano (§3º).

Objeto material: dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel (pertencente ou não à Adminis-
tração Pública).

Consumação/tentativa: consuma-se com a apropriação ou desvio. A tentativa é possível. O


proveito pode ser de qualquer natureza e a posse não pode advir de violência ou fraude e nem
de erro (em caso de erro, incidirá o 313,CP peculato mediante erro de outrem).

15.2 Concussão (art. 316, CP)


Conduta: exigir (ordenar, impor como obrigação), para si ou para outrem, direta ou indireta-
mente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida.
Assemelha-se à extorsão, mas em situação específica. O agente (funcionário público) se vale
de sua posição na Administração, de sua autoridade, para incutir temor na vítima. Não precisa
haver ameaça (ex.: fiscal da Prefeitura que exige dinheiro para não recolher bens do vendedor
ambulante). O agente pode estar exercendo sua função ou não (férias, licença etc.) ou pode
nem tê-la assumido ainda, embora já nomeado. O objeto material é a vantagem indevida, de
qualquer natureza, exigida para si ou para outrem.

60 Laureate- International Universities


Formas: a) caput ; b) qualificadas: no § 1º, excesso de exação; no § 2º, desvio.

Consumação/tentativa: crime formal, consuma-se com a exigência, ainda que não consiga
a vantagem indevida; admite tentativa somente em caso de conduta plurissubistente (ex.: faz a
exigência por escrito e ela não chega até a vítima).

15.3 Corrupção passiva (art. 317, CP e


Corrupção ativa (art. 333, CP)
Ambas as condutas são crimes contra a Administração Pública. No entanto, a passiva é crime
próprio, já que o sujeito ativo é o funcionário público. A ativa é crime comum, qualquer pessoa
pode praticar.

A corrupção não é necessariamente bilateral, não precisando existir a corrupção passiva para
existir a ativa e vice-versa.

Conduta: oferecida a vantagem indevida, pelo particular, configura a corrupção ativa (333 CP),
que independe da aceitação do funcionário. Por outro lado, se o funcionário público solicitar, re-
ceber ou aceitar a promessa de vantagem indevida há o corrupção passiva. Nada impede, sendo
até comum, que haja, ao mesmo tempo, corrupção ativa ou passiva. Mas são delitos autônomos
e independentes um do outro.

Classificação: a) própria (sujeito ativo pratica ou deixa de praticar o ato de ofício para beneficiar
alguém; o ato é ilegítimo, ilícito (ex.: funcionário público solicitar dinheiro para “dar sumiço” no
inquérito policial) ou imprópria (se o ato do sujeito ativo for legítimo, lícito (ex.: dar prioridade
ao cumprimento de um mandado judicial expedido); b) antecedente ou subsequente: conforme
a vantagem seja entregue antes ou depois da ação/omissão do funcionário público. A subse-
quente é inadmissível na corrupção ativa (333,CP), pois neste caso é o particular que oferece a
vantagem indevida.

Conduta: Na corrupção passiva: a) solicitar (pedir). Consuma-se com a solicitação, ainda que
nenhuma vantagem seja auferida (crime formal); b) receber (aceitar, tomar posse); crime mate-
rial, consuma-se com o efetivo recebimento. Da vantagem indevida. Neste caso, é condição para
que o crime se configure que haja anterior crime de corrupção ativa, ou seja, o oferecimento
(333, CP) c) aceitar promessa de recebê-la: basta que o funcionário público concorde com a
proposta de recebimento da vantagem; não há o efetivo recebimento. Também é essencial, para
que se configure, que haja anterior delito de corrupção ativa. Na corrupção ativa: particular
oferece a vantagem indevida.

Consumação/tentativa: na corrupção passiva, com a solicitação, aceitação da promessa (casos


em que há crime formal; o efetivo recebimento é mero exaurimento, mas constitui causa de maior
punibilidade (317, §1º CP) ou recebimento (crime material; precisa haver efetivo precebimento
para a consumação). Em tese é possível a tentativa.

Formas: a) simples (caput); privilegiada (317, §2º, CP).

Reembolso de despesas, gratificação de pequena monta e pequenas doações ocasionais, como


as de final de ano (ex.: caixa de bombons): não configuram delito.

Há situações específicas que ensejam a configuração de outros delitos: a) fiscal de rendas:


art. 3º, II, Lei nº 8137/90; Testemunha, perito, tradutor ou intérprete judicial (oficiais ou não):
342, §2º CP.

61
Tópicos em Direito 2

15.4 Prevaricação Art. 319, CP


Conceito: retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício ou praticá-lo em des-
conformidade com a lei, para satisfazer interesse pessoal. Infidelidade ao dever de ofício (ato,
administrativo ou judicial, para o qual o sujeito tem competência).

Conduta: retardar (atrasar) ou deixar de praticar (por omissão: somente possível se houver lei
determinando, obrigando a que faça). Ex.: deixar de dar andamento a um processo para pre-
judicar um desafeto. Exige o tipo penal que o sujeito tenha a finalidade de satisfazer interesse
ou sentimento pessoal. Não se trata de corrupção, não podendo haver intervenção alheia). Sem
este especial fim de agir, pode-se caracterizar o art. 11, Lei nº 8429/92 (Lei de Improbidade
Administrativa).

Possibilidade de configuração de outros delitos, previstos em leis especiais: Código Eleitoral


(345, Lei nº 4737/65); Crime contra Sistema Financeiro (23, Lei nº 7492/86); Política Nacional
do Meio ambiente (art. 15, §2º, Lei nº 6938/81).

15.5 Resistência (Art. 329, CP); Desobediência


(art. 330, CP)
Delito Resistência (art. 329, CP) Desobediência (art. 330, CP)

Opor-se à execução de ato legal,


Desobedecer a ordem legal de
mediante violência ou ameaça a
funcionário público. “Resistência
Conduta funcionário competente para executá-lo
pacífica”, sem violência contra
ou a quem lhe esteja prestando auxílio.
pessoa.
(violenta, direcionada à pessoa.
a) ativo: crime comum, qualquer pessoa
Sujeitos pode praticar; b) passivo: Estado e a) ativo: idem; b) Estado.
pessoa que sofre a agressão.
Com emprego de violência, ameaça.
Crime formal (Se o ato, em razão da
Desobedecer, não atender.
resistência, não se executa, é forma
Consumação/ Não há violência. O delito de
qualificada).É possível tentativa (ex.:
tentativa desobediência é absorvido pela
vai dar uma paulada mas é impedido).
resistência.
Aplica-se também a pena da violência
(concurso material)
Desobediência a decisão judicial
sobre perda ou suspensão de
Se a violência for empregada com
direito: delito do art. 359, CP (se
Outros finalidade fuga, após ter sido efetuada
for específica violação quanto a
delitos prisão, haverá o delito do art. 352 CP.
suspensão ou proibição de obter
(evasão).
permissão ou habilitação para
dirigir: art. 307, CTB).

Na resistência: a violência ou ameaça deve ser exercida durante a prática do ato funcional (se
anterior ou posterior será outro delito como ameaça, lesão etc.). Ex.: pontapés no policial que
está cumprindo o mandado.

62 Laureate- International Universities


Médico e advogado: não cometem crime de desobediência ao não atenderem à ordem de for-
necer informações a respeito do cliente ou paciente (sigilo profissional). Quanto ao médico, ob-
servar se a ação está relacionada com prestação de socorro médico ou moléstia de notificação
compulsória (art. 269, CP).

Recusa do bafômetro, fornecer sangue ou DNA, exame grafotécnico. Não há crime de desobe-
diência: aplicação do Princípio da não obrigatoriedade de produzir prova contra si. Reprodução
simulada: pode ser obrigado a comparecer (260, CPP), mas não a participar.

Se agente é funcionário público no exercício de suas funções: não comete este crime se o cum-
primento da ordem estiver no contexto de suas funções, haverá prevaricação (art. 319, CP).
Mas se a ordem legal não se relacionar com suas funções específicas, o crime será mesmo de
desobediência. Tratando-se de ordem judicial a tendência dos tribunais é enquadrar também o
funcionário público na desobediência (igualando-o ao particular).

15.6 Desacato (art. 331, CP)


Conduta: desacatar funcionário público no exercício de suas funções ou em razão dela (não
necessariamente, dentro da repartição pública). Desacatar: atos ou palavras que impliquem em
causar vexame, humilhação, desrespeito ao sujeito passivo. Pode consistir em lesões ou vias de
fato. Necessário que seja na presença do funcionário público, ainda que não “face a face” (se
não, crime contra a honra ou outro, como ameaça). Ex.: petição de advogado com ofensas ao
promotor ou juiz.

Desacato e injúria ou difamação: como são apenados de maneira mais leve do que o desacato,
são por ele absorvidos. No caso de calúnia: concurso formal de crimes.

Desacato e lesão: se grave, não há consunção (concurso formal); se leve ou vias de fato: absor-
vidos pelo desacato.

Desacato e resistência: é absorvido pela resistência.

15.7 Descaminho (art. 334, CP) e Contrabando


(art. 334-A, CP)
Descaminho: iludir, no todo ou em parte, o pagamento de direito ou imposto devido pela en-
trada, saída ou consumo de mercadoria lícita. Fraude empregada para iludir o pagamento de
imposto de importação, exportação ou consumo (também cobrado antes do desembaraço da
mercadoria importada). Ex.: declara que está importando tecido quando está importando apa-
relhos eletrônicos. Consuma-se com a liberação da mercadoria sem os pagamentos devidos.
Consumação/tentativa: com o não pagamento do valor devido de imposto; tentativa é possível.
Formas: a) simples (caput); equiparadas (§1º). Equipara às atividades comerciais (para os efeitos
deste artigo) qualquer forma de comércio irregular ou clandestino de mercadorias estrangei-
ras, inclusive o exercido em residências; c) qualificada (§3º): pena em dobro. Possibilidade de
aplicação do Princípio da Insignificância: aplicável. Lei nº 10522/02 – débitos com a União
inferiores a R$20.000,00 não serão cobrados. Ação penal: pública incondicionada.

Contrabando: importar ou exportar mercadoria proibida (norma penal em branco). Consuma-


ção/tentativa: com a entrada/saída da mercadoria proibida – ultrapassada a zona de fiscali-
zação (ex.: cigarros falsos). Utilizar-se de meios escusos, quando/para ultrapassar a fronteira
nacional (marítima, terrestre ou aérea). Obs.: zona contígua (mais 12 milhas marítimas, além

63
Tópicos em Direito 2

do mar territorial – não é mar territorial, mas se permite a atuação policial para repressão de
infrações aduaneiras, fiscais e de imigração). Consumação/tentativa: com a entrada/saída da
mercadoria proibida – ultrapassada a zona de fiscalização. Utilizar-se de meios escusos, quan-
do/para ultrapassar a fronteira. É possível a tentativa. Formas: a) simples; b) equiparada (§ 1º);
c) qualificada (§3º). Também se equipara às atividades comerciais, para os efeitos deste artigo,
qualquer forma de comércio irregular ou clandestino de mercadorias estrangeiras, inclusive o
exercido em residências. (§2º). Outros delitos: em caso importação ou exportação ilegal de ar-
mas, incide o Estatuto do Desarmamento – art. 18 da Lei nº 10826/03; de drogas ilícitas, art.
33 da Lei de Drogas (11343/03). Ação penal: pública incondicionada. Súmula 560, STF: a ex-
tinção de punibilidade, pelo pagamento do tributo devido, estende-se ao crime de contrabando
ou descaminho, por força do art. 18, § 2º, do Decreto-Lei 157/67.

REsp 1.640.084, julgado pelo STJ em dezembro de 2016: a 5ª Turma do Superior Tribunal
de Justiça entendeu que a tipificação do crime de desacato à autoridade é incompatível com o
artigo 13 da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) e
afastou a aplicação do crime tipificado no Código Penal. Muito embora a decisão valha apenas
para o caso julgado, abre precedente para casos semelhantes.

16 Legislação penal extravagante

16.1 Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072/90)


A lei prevê um rol dos delitos que são considerados hediondos (de maior gravidade). Hediondo
significa repugnante, bárbaro ou asqueroso) e os equiparados, prevendo para tais delitos um
tratamento jurídico mais severo.

São crimes hediondos, consumados ou tentados (rol taxativo), todos os descritos no art. 1º da
Lei nº 8072/90;

Também se considera hediondo o crime de genocídio (Lei nº 2.889/1956), em todas as suas


formas. É crime de competência do Tribunal Penal Internacional (TPI), nas hipóteses previstas no
Estatuto de Roma.

São equiparados aos hediondos: tráfico, tortura ou terrorismo (ou seja, aplica-se o tratamento
mais gravoso, previsto na Lei nº 8072/90).

De acordo com o art. 5º, XLIII, CF, os crimes hediondos e equiparados são inafiançáveis e in-
suscetíveis de graça (também indulto) ou anistia.

Cumprimento de pena (art. 2º, §1º, CP): inicialmente em regime fechado.

Progressão de regime (art. 2º, §1º, CP): com o cumprimento de 2/5 da pena, se o condenado
for primário, e 3/5 se reincidente. Em caso de decretação de prisão temporária (Lei nº 7.960/89),
o prazo é 30 dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade.

Liberdade provisória: de acordo com o entendimento do STJ e STF, a vedação de liberdade


provisória para crimes hediondos e delitos assemelhados provém da própria Constituição, que
prevê sua inafiançabilidade (art. 5º, XLIII e XLIV, CF). Não obstante, a Súmula 697/STF, estabe-
lece: A proibição da liberdade provisória nos processos por crimes hediondos não veda o relaxa-
mento da prisão processual por excesso de prazo.

64 Laureate- International Universities


Liberdade condicional (art. 83, CP): cumprimento de mais de 2/3 da pena, nos casos de conde-
nação por crime hediondo, prática da tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, e ter-
rorismo, se o apenado não for reincidente específico em crimes dessa natureza (em crimes hedion-
dos ou equiparados). Em caso de reincidência específica, não se permite a liberdade condicional.

Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direito: possível. A proibição


expressa da substituição foi revogada (desde que se enquadre nas hipóteses do art. 44, CP).

Delação Premiada (art. 8º, § único): o participante e o associado que denunciar à autoridade a
associação criminosa (crime do artigo 288, CP) possibilitando seu desmantelamento, terá a pena
reduzida de 1/3 a 2/3. Obs.: a Lei nº 8072/90 fala em “bando ou quadrilha”, mas atualmente
se trata do delito de associação criminosa.

16.2 Lei de Drogas (Lei nº 11. 343/06)


Conceito de Drogas: (art. 1º, § único): substâncias ou os produtos capazes de causar dependên-
cia, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder
Executivo da União (norma penal em branco).

Proibição das drogas (Art. 2º), bem como seu plantio, a cultura, a colheita e a exploração de
vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas. Pode haver autori-
zação legal para tanto, desde que para fins medicinais ou científicos, em local e prazo deter-
minados e mediante fiscalização) e uso estritamente ritualístico-religioso (ex.: caso ayahuasca
– Resolução nº 1/2010-Conad, de 25/01/2010).

“Porte de drogas” para consumo próprio (art. 28):

• As penas cominadas são restritivas de direitos e ser aplicadas isolada ou


cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público
e o defensor. O mesmo (§ 1º) vale para aquele que semeia, cultiva ou colhe plantas
destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de
causar dependência física ou psíquica. Consumo pessoal: para determinação, leva-se
em conta a natureza e quantidade da substância apreendida, local e condições em que
se desenvolveu a ação, bem como as circunstâncias sociais e pessoais, conduta e aos
antecedentes do agente (critérios subjetivos). As penas serão aplicadas pelo prazo máximo
de cinco meses; em caso de reincidência, pelo prazo máximo de 10 meses. Prescrevem
em dois anos (art. 30).

• Garantia do cumprimento das penas: sucessivamente, admoestação verbal e multa


(entre 40 e 100 dias-multa, no valor de 1/30 até três vezes o valor do maior salário
mínimo; enviados para o Fundo Nacional Antidrogas).

• É crime de competência do Jecrim, por ser de menor potencial ofensivo, salvo se houver
concurso com os crimes previstos nos arts. 33 a 37.

Tráfico ilícito (art. 33): condutas previstas no caput e §1º. Crime hediondo. As demais condutas
criminosas desta Lei não são considerados crimes hediondos. Mas é possível a conversão em
restritivas de direitos (a vedação foi julgada inconstitucional pelo STF).

Indução, instigação ou auxílio ao uso indevido (art. 33, § 2º): não há sem o fornecimento da
substância ilícita entorpecente).

Tráfico “eventual” (art. 33,§ 3º): eventual, sem objetivo de lucro e para juntos consumirem;
crime de menor potencial ofensivo; aplica-se, além da detenção e multa, as penas do art. 28.

65
Tópicos em Direito 2

Tráfico privilegiado (art. 33§ 4º): causa de diminuição de pena (1/6 a 2/3) para os delitos
definidos no art. 33 caput e § 1º desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não
se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa. Súmula 512,STF: A
aplicação da causa de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 não
afasta a hediondez do crime de tráfico de drogas.

Associação (art. 35): associação de duas ou mais pessoas para o fim de praticar crimes dos arts.
33 e 34. Forma específica de associação criminosa (não incide o art. 288, CP).

Financiamento: (art. 36): financiamento ou custeio de qualquer dos crimes previstos nos arts.
33, caput e § 1º, e 34 desta Lei. A pena é maior que a do tráfico, tendo em vista que o financia-
mento é o que propicia o tráfico. No entanto, não é considerado crime hediondo.

Causas de aumento de pena: art. 40 (1/6 a 2/3): crime de tráfico internacional de drogas;
se o agente praticar o crime prevalecendo-se de função pública ou no desempenho de missão
de educação, poder familiar, guarda ou vigilância; III – a infração tiver sido cometida nas de-
pendências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes
de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de
trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza, de
serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades militares
ou policiais ou em transportes públicos (há divergência sobre o conceito de “imediações”) se tiver
sido praticado com violência, grave ameaça, emprego de arma de fogo, ou qualquer processo
de intimidação difusa ou coletiva; caracterizado o tráfico interestadual; se a prática envolver
ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha, por qualquer motivo, diminuída ou
suprimida a capacidade de entendimento e determinação; se o agente financiar ou custear a
prática do crime.

Tratamento jurídico-penal mais severo: os crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 a
37 são inafiançáveis e insuscetíveis de sursis, graça, indulto, anistia e liberdade provisória.

Delação premiada (art. 41, CP). O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com
a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais coautores ou partícipes
do crime e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá
pena reduzida de um terço a dois terços.

Dosimentria da pena (art. 42) Segue o sistema trifásico previsto no art. 68, CP. Mas na análise
de circunstâncias judiciais (art. 59, CP) preponderará a natureza e a quantidade da substância
ou do produto, a personalidade e a conduta social do agente.

Livramento condicional (art. 44, § único): após o cumprimento de 2/3 pena, vedada a conces-
são ao reincidente específico.

Causas de diminuição de pena: além da hipótese do “tráfico privilegiado”, há diminuição de


1/3 a 2/3 se por força das circunstâncias previstas no art. 45 o agente não possuía, ao tempo da
ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-
-se de acordo com esse entendimento (semi-imputabilidade).

Instrumentos de investigação, mediante autorização judicial:

a) infiltração de agentes (art. 53, I): possível em qualquer fase da persecução criminal;

b) flagrante diferido ou postergado (art. 53, II): não atuação policial com a finalidade
de identificar e responsabilizar maior número de integrantes de operações de tráfico e
distribuição, sem prejuízo da ação penal cabível. É possível, desde que sejam conhecidos
o itinerário provável e a identificação dos agentes do delito ou de colaboradores.

66 Laureate- International Universities


16.3 Lei de Tortura (Lei nº 9.455/97)
Brasil é signatário da Convenção Internacional contra a Tortura e outros Tratamentos e Punições
Cruéis, Desumanos e Degradantes adotada pela ONU em 1984, ratificada pelo Brasil em 1989.

Disposições constitucionais a respeito: art. 1º, III, CF: a República Federativa do Brasil tem
como fundamento a dignidade da pessoa humana (conceito que abrange a liberdade e a inte-
gridade física); art. 5º, III, CF: ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano
ou degradante; art. 5º, XLIII, CF: a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça
(também o indulto) ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas
afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes,
os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem. O art. 1º, §6º da Lei da Tortura traz a
mesma disposição.

Crime de tortura (art. 1º da Lei nº 9455/97): Constitui crime de tortura:

constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento


físico ou mental com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou
de terceira pessoa; para provocar ação ou omissão de natureza criminosa; em razão
de discriminação racial ou religiosa; trata-se de crime comum, qualquer pessoa pode
praticar;

submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou
grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo
pessoal ou medida de caráter preventivo; trata-se de crime próprio – somente quem tem o
dever legal (ex.: pais em relação a seus filhos, diretor do presídio em relação aos presos).

Aplica-se a mesma pena para que submete pessoa presa ou sujeita a medida de segurança, a
sofrimento físico ou mental, por intermédio da prática de ato não previsto em lei ou não resul-
tante de medida legal.

Respondem pela tortura também os que tenham dever de dever de evitá-las ou apurá-las (deten-
ção de um a quatro anos).

Pode ser praticada por ação ou omissão (art. 13 §2º do CP trata da omissão penalmente rele-
vante; vide art. 1º, §2º da Lei da Tortura).

Elemento subjetivo: dolo; não existe modalidade culposa.

Classificação do crime de tortura:

a) tortura-pena ou tortura-castigo: como castigo ou medida de caráter preventivo. Difere


do crime de maus tratos (136, CP, pois este se aperfeiçoa com a simples exposição a
perigo a vida ou saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, em razão dos
excessos nos meios de correção ou disciplina, não havendo, necessariamente, lesões de
ordem física ou mental. A finalidade da conduta é a repressão da indisciplina, enquanto
na tortura é causar o padecimento da vítima (desvinculada do objetivo de educação).

b) tortura racial ou discriminatória (exige especial motivação do agente); tortura do


encarcerado (quando a vítima é pessoa recolhida a cárcere (qualquer que seja o motivo)
ou sujeita à medida de segurança e o sofrimento físico ou mental ocorra em decorrência
de ato não previsto em lei ou não resultante de medida legal. Não se considerará como
tortura as dores ou sofrimentos que sejam consequência unicamente de sanções legítimas
ou que sejam inerentes a tais sanções ou delas decorram (ex.: sofrimento pela privação
da liberdade em razão de prisão preventiva, por exemplo).

67
Tópicos em Direito 2

Causas de aumento de pena (art. 1º, §4º): se é cometido por agente público (ex.: carcereiro);
contra criança, adolescente, pessoa maior de 60 anos, gestante ou portador de deficiência, física
ou mental); cometido mediante sequestro (sequestro como crime-meio).

Condenação: além das penas cominadas, é efeito automático da condenação: perda do cargo,
função ou emprego e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada (art.
1º, §5º). A pena é cumprida em regime inicial fechado.

Extraterritorialidade (Art. 2º): aplica-se a Lei da Tortura ainda que o crime não tenha sido
cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontrando-se o agente em local
sob jurisdição brasileira.

16.4 Crimes contra a Ordem Tributária (Lei nº


8137/90)
Art. 170, CF: proteção da ordem econômica.

Crimes contra o ordem tributária:

arts. 1º e 2º: crimes comuns, qualquer pessoa pode praticar;

art. 3º: crimes próprios, somente funcionário público;

- é comum que seja praticado por intermédio de pessoa jurídica (ex.: falsificação de guia
de ICMS).

Observe-se que pagar atrasado ou dever tributo não é crime. As condutas típicas dizem respeito
à declaração falsa, omissão de declaração que deveria contar, falsificação de guia etc. O que
configura o delito é a fraude precedente ou a apropriação indébita do valor cobrado ou descon-
tado com a intenção de não pagamento. Ex.: falsificar guia DARF para fingir o pagamento de
um tributo que na verdade não foi pago. O crime pode se dar em relação à obrigação tributária
principal ou acessória. Pode ser cometido por ação (ex.: fazer declaração falsa) ou omissão (ex.:
não emitir nota fiscal).

Competência: justiça comum, estadual. Será de competência federal caso se enquadre em uma
das situações descritas no art. 109, CF (ex.: sonegação de imposto federal).

Condição de procedibilidade: término do processo administrativo; a ação é pública incondicio-


nada, mas sem o término do procedimento administrativo se pode falar em lançamento definitivo
e existência de crédito tributária (municipal, estadual ou federal). Quanto ao tema:

art. 83 da Lei nº 9.430/96 . A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes
contra a ordem tributária (arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/90) e crimes contra a Previdência
Social, previstos nos arts. 168-A, CP, será encaminhada ao Ministério Público depois de
proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito
tributário correspondente.

Súmula vinculante 24 do STF: Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto
no art. 1º, I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo.

Concurso de crimes: possível concurso material com o art. 288, do CP (associação criminosa).
O estelionato (171, CP), falsidade ideológica (299, CP), petrechos de falsificação de títulos e
papéis públicos (art. 294 CP) são absorvidos (crimes-meio);

68 Laureate- International Universities


Elemento subjetivo: dolo (jurisprudência: dolo genérico de praticar uma das condutas descritas
em lei); não há previsão de modalidade culposa;

Denúncia: não se admite denúncia genérica contra todos os sócios ou diretores da pessoa jurí-
dica, sendo necessário identificar as condutas.

Extinção de punibilidade e prazo prescricional

art. 9º, Lei nº 10.684/2003: suspensão do processo e do prazo prescricional em razão do par-
celamento; extinção da punibilidade pelo pagamento integral dos débitos oriundos de tributos e
contribuições sociais, inclusive acessórios. 

Lei nº 12.382/11: extinção da punibilidade pelo pagamento integral dos débitos oriundos de
tributos, inclusive acessórios, que tiverem sido objeto de concessão de parcelamento desde que
o referido parcelamento tenha sido feito antes de do recebimento da denúncia. Por se tratar de
questão relativa aos cofres públicos, esta disposição pode mudar (antes da vigência desta norma
o pagamento e o parcelamento podiam ser feitos a qualquer tempo, desde que antes do trânsito
em julgado da sentença penal.

Delação premiada (art. 16): se o delito contra a ordem tributária for praticado em concurso de
agentes ou associação criminosa, o coautor ou partícipe que através de confissão espontânea
revelar à autoridade policial ou judicial toda a trama delituosa terá sua pena reduzida de 1/3 a
2/3 (é causa de diminuição de pena).

Princípio da Insignificância: Discussão doutrinária e jurisprudencial. A Lei nº 10522/02


(art. 20) estabelece a possibilidade do arquivamento dos autos das execuções fiscais de débi-
tos inscritos como Dívida Ativa da União de valor consolidado até R$20.000,00. Assim, se por
medida de economia e de política institucional, o Estado-credor reputa que valores abaixo do
patamar de R$20.000,00 não justificam a persecução judicial dos débitos tributários, não há
razão para se admitir a tutela penal dos mesmos fatos.

16.5 Crimes de Lavagem de Dinheiro (Lei nº


9613/98)
Lavagem de dinheiro/branqueamento de capitais/money laundering. A Lei nº 9613/98:
dispõe sobre os crimes de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores; a prevenção da
utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de Controle
de Atividades Financeiras (COAF) e dá outras providências.

Métodos e fases da “lavagem:

Colocação: os valores ilícitos são introduzidos no Sistema Financeiro, através de depósitos ou


compras de ativos; b) Ocultação: valores são transferidos sistematicamente entre contas ou en-
tre as aplicações em ativos de maneira a despistar o tráfego e ao mesmo tempo, concentrar os
valores, aglutinando-os progressivamente; c) Integração: valores são introduzidos na economia
formal, sob a forma de investimentos.

O objetivo da lavagem de dinheiro não é o lucro, mas a dissimulação da origem ilícita dos
valores, o que pode acarretar custos. Assim, os lavadores podem fazer negócios que seriam con-
siderados “muito ruins” ou “desaconselháveis”.

Crimes (art. 1º): ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimen-
tação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de

69
Tópicos em Direito 2

infração penal (qualquer crime ou contravenção). Os parágrafos 1º e 2º trazem outras condutas


criminosas.

Causas de aumento de pena (art. 1º, § 4º): Aumento de 1/3 a 2/3 se os crimes forem cometi-
dos de forma reiterada ou por intermédio de organização criminosa.

Delação Premiada (art. 1º, § 5º): autor, coautor ou partícipe que colaborar espontaneamente
com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam à apuração das infrações penais,
à identificação dos autores, coautores e partícipes, ou à localização dos bens, direitos ou valo-
res objeto do crime poderá ter a pena reduzida de 1/3 a 2/3, cumpri-la em regime aberto ou
semiaberto; ainda, poderá o juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la, a qualquer tempo, por pena
restritiva de direitos,

Competência e Julgamento: (art. 2º): a) independem do processo e julgamento das infrações


penais antecedentes, ainda que praticados em outro país; b) há hipóteses de competência da
Justiça Federal (art. 2º, III); Observe-se que não se aplica o art. 366, CPP (processo segue, com
nomeação de defensor dativo).

Sobrevindo o trânsito em julgado de sentença penal condenatória: juiz decretará a perda dos
valores depositados na conta remunerada e da fiança; dos bens não alienados antecipadamente
e daqueles aos quais não foi dada destinação prévia; dos bens não reclamados no prazo de 90
dias após o trânsito em julgado da sentença condenatória, ressalvado o direito de lesado ou
terceiro de boa-fé. Alienação antecipada de bens (art. 4º – A § 13): possibilidade.

Além das normas de natureza penal, a Lei prevê outras de caráter administrativo (art. 9º). Ex.:
bancos devem manter registro com a identificação de seus clientes e manterão cadastro atuali-
zado, e manterão registro de toda transação em moeda nacional ou estrangeira, títulos e valores
mobiliários, títulos de crédito, metais, ou qualquer ativo passível de ser convertido em dinheiro,
que ultrapassar limite fixado pela autoridade competente e nos termos de instruções por esta
expedidas.

16.6 Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/16)


Regulamenta o art. 5º, XLIII, CF; é insuscetível de graça, indulto ou anistia a prática da tortura
e inafiançável; é crime equipado a hediondo (Lei nº 8072/90).

Conceito (arts. 2º, 3º, 5º): prática por um ou mais indivíduos dos atos abaixo, por razões de
xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com
a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a
paz pública ou a incolumidade pública:

usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases
tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de
causar danos ou promover destruição em massa;

sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou


servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo
temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações
ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos,
instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de
geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino
e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;

atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa;

70 Laureate- International Universities


promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a
organização terrorista:

Não se considera terrorismo a conduta individual ou coletiva de pessoas em


manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de
categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando
a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias
e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei.

realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal


delito; recrutar, organizar, transportar ou municiar indivíduos que viajem para país distinto
daquele de sua residência ou nacionalidade; ou fornecer ou receber treinamento em país
distinto daquele de sua residência ou nacionalidade.

Receber, prover, oferecer, obter, guardar, manter em depósito, solicitar, investir, de qualquer
modo, direta ou indiretamente, recursos, ativos, bens, direitos, valores ou serviços de qualquer
natureza, para o planejamento, a preparação ou a execução dos crimes previstos na lei antiterr-
rismo ou para financiar, total ou parcialmente, pessoa, grupo de pessoas, associação, entidade,
organização criminosa que tenha como atividade principal ou secundária, mesmo em caráter
eventual, a prática dos demais crimes previstos na lei antiterrorismo.

Causas de aumento de pena (art. 7º): salvo de elementar da prática de qualquer crime de
terrrorismo (ou seja, for essencial à configuração do delito, como por exemplo “atentar contra
a vida”), se de algum deles resultar lesão corporal grave ou gravíssima, aumenta-se a pena de
1/3; se resultar morte, aumenta-se 1/2.

Competência (art. 11): competência federal.

Art. 12: Possivel haver decretação de medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores do
investigado ou acusado, ou existentes em nome de interpostas pessoas, que sejam instrumento,
produto ou proveito dos crimes de terrorismo e a alienação antecipada.

Aplicam-se, para todas as hipóteses de terrorismo, as disposições da Lei das Organizações


Criminosas (Lei nº 12850/13), ou seja, possível haver, em qualquer fase da persecução penal
(fase de inquérito policial ou ação penal): I- colaboração premiada (causa de perdão judicial,
redução de até 2/3 da pena ou substituição por restritiva de direitos, prevista nos arts. 4º a 7º
da Lei nº 12850/13); II captação ambiental de sinais eletromagnéticos, ópticos ou acústicos;
III - ação controlada (arts. 8º e 9º da Lei nº 12850/13); IV - acesso a registros de ligações tele-
fônicas e telemáticas, a dados cadastrais constantes de bancos de dados públicos ou privados e
a informações eleitorais ou comerciais (arts. 15 a 17 da Lei nº 12850/13); V – interceptação de
comunicações telefônicas e telemáticas, nos termos da legislação específica (Lei nº 9.296/96);
VI - afastamento dos sigilos financeiro, bancário e fiscal, nos termos da legislação específica (Lei
Complementar nº 105/2001); VII - infiltração, por policiais, em atividade de investigação (arts.
10 a 14 da Lei nº 12850/13), VIII – cooperação entre instituições e órgãos federais, distritais,
estaduais e municipais na busca de provas e informações de interesse da investigação ou da
instrução criminal.

71