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PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

“SEMÂNTICA E LINGÜÍSTICA
TEXTUAL”
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SUMÁRIO
Prefácio.....................................................................................................................................................................3
UNIDADE 1 - SEMÂNTICA.................................................................................................................................4
UNIDADE 2 - LINGÜÍSTICA TEXTUAL.........................................................................................................22
ÚLTIMAS PALAVRAS........................................................................................................................................43
Referências..............................................................................................................................................................44
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PREFÁCIO

A Semântica e a Lingüística Textual são dois campos de estudo da lingüística


que se aproximam em muitos aspectos. A Semântica é a ciência do sentido e a
Lingüística Textual é o ramo da Lingüística que trata da construção do sentido no
texto. Daí a possibilidade de se apresentar em um mesmo material de estudo esses
dois campos do conhecimento.
Com relação à Semântica, podemos dizer que a preocupação com o sentido
das palavras e sua relação com o mundo datam da antiguidade. Os filósofos gregos
já manifestavam uma certa curiosidade com relação à motivação do sentido das
palavras e travavam longas discussões nas quais alguns defendiam que a relação
entre a palavra e seu significado não era arbitrária, que tinha razão de ser, outros
acreditavam que o sentido dado a uma seqüência sonora que configurava uma
determinada palavra era convencional, e arbitrária, portanto.
A Lingüística Textual, por outro lado, é uma ciência bastante nova tendo seus
desenvolvimentos iniciais já na segunda metade da década de 60 e primeira metade
dos anos 70. Durante seus primeiros anos, essa ciência ocupava um lugar marginal
nos estudos lingüísticos, que nessa época estavam voltados para a configuração
geral da linguagem. A preocupação com a questão do texto recebeu um maior
destaque somente nos 80 e, ainda nessa época, apareceram estudiosos
interessados no processamento cognitivo do texto, o que arranjou o cenário para o
surgimento de uma tendência que dominaria a década de 90, o sócio-cognitivismo.
O que se verifica ao estudar a história desses dois campos do conhecimento
lingüístico é que desde o seu aparecimento até a sua consolidação, a Semântica e a
Lingüística Textual percorreram um longo caminho e nesse percurso acabaram por
ampliar e modificar a forma com a qual os fenômenos lingüísticos eram tratados.
Sua contribuição para o desenvolvimento do conhecimento lingüístico foi tão
importante que fez com que elas se estabelecessem definitivamente no cenário dos
estudos da linguagem.
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UNIDADE 1 - SEMÂNTICA

Pode-se dizer que a Semântica é a ciência do significado. No entanto, para se


definir o objeto de estudos da semântica é preciso, antes, definir o conceito de
significado. Uma tarefa freqüentemente complicada, uma vez que o termo se aplica
a várias e variadas situações de fala: Se questionamos qual o significado de mesa,
queremos saber o significado de um termo; por outro lado, se a pergunta é “Qual o
significado de sua atitude?”, nossa questão perpassa pela intenção não-lingüística
do nosso interlocutor; nos questionamos ainda sobre o significado de um filme,
sobre o significado da vida ou sobre o significado de uma pichação na parede.
Enfim, há uma ampla gama de aplicação do termo “significado” em sentidos tão
dispersos que se torna praticamente impossível abarcar todas essas situações sem
que isso comprometa a validade de uma teoria científica sobre o significado.
Uma outra dificuldade relacionado a formulação de uma ciência do significado
está no fato de o tratamento da significação extrapolar as fronteiras da lingüística
indo se ancorar em questões relativas ao conhecimento. Na tentativa de responder a
de que forma atribuímos significado a uma seqüência de sons, chega-se a um ponto
fundamental que é a necessidade de se adotar um ponto de vista sobre a aquisição
de conhecimento. É justamente nesse campo, muitas vezes espinhoso, que os
semanticistas se debruçam na busca de uma resposta que esclareça a relação entre
linguagem e mundo, ou, sobre como é possível o conhecimento.
Se, como anteriormente afirmado, há várias formas de se conceber o
significado, há também várias semânticas, cada uma elegendo a sua noção
particular de significado. Cada uma dessas semânticas responde diferentemente à
questão da relação entre linguagem e mundo. O estruturalismo saussureano, por
exemplo, definia o significado como uma unidade de diferença, o significado se dá
numa estrutura de diferenças com relação a outros significados – a cadeira se define
por não ser sofá, nem mesa, nem banco. Assim, para esse ponto de vista, o
significado não tem nada a ver com o mundo, cadeira não é o nome de um objeto no
mundo, mas a estrutura de diferença com sofá, mesa, banco.
Ao estabelecer sua teoria, Saussure logo encontraria diversos seguidores que
fariam ecoar suas tendências no seio da sociedade cientifica, sofrendo um confronto
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por volta da década de 1930, com o surgimento das tendências da Sintaxe


Estrutural, de Martinet, na Escola de Paris. Nesse período, surgem, então, grandes
nomes e movimentos de estruturalistas da linguagem, dando suas contribuições
para um melhor entendimento da lingüística no período saussuriano. Por volta de
1914 na Escola de Genebra, encontramos Bally e, aproximadamente, em 1923, na
Escola de Moscou, temos como exemplo Propp, um estruturalista russo, cujos
estudos deram ênfase nos textos literários. Bally teve um papel de destaque nos
estudos semânticos ao propor conhecimentos voltados à estilística. Bally a definiria
como estudo dos elementos afetivos da linguagem, situada na sincronia e integrada
no problema da distinção entre a língua e a fala. Bally e seus seguidores procuraram
classificar o valor estilístico dos meios de expressão e determinar as razões da
escolha a empregar esta ou aquela opção. E assim, muitos nomes com
preocupações semelhantes no campo lingüístico assumem seus papéis de destaque
nos estudos que norteariam a consolidação da história da Semântica Geral.
Já para a Semântica Formal o significado é um termo complexo que se
compõe de duas partes, o sentido e a referência; o sentido de um nome é o modo de
apresentação do objeto/referência. Assim, nessa perspectiva, a relação da
linguagem com o mundo é fundamental.
Outra perspectiva, herdeira do estruturalismo, a chamada Semântica da
Enunciação, vê o significado como o resultado do jogo argumentativo criado na
linguagem e por ela. A principal diferença com relação ao estruturalismo é que na
Semântica da Enunciação, a palavra cadeira, por exemplo, significa as diversas
possibilidades de encadeamentos argumentativos das quais a palavra pode
participar. Seu significado é o somatório das suas contribuições em inúmeros
fragmentos do discurso. Já para a Semântica Cognitiva, cadeira é a superfície
lingüística de um conceito adquirido por meio de nossas manipulações sensório-
motoras com o mundo. É tocando objetos que são cadeiras que formamos o
conceito pré-lingüístico cadeira que aparece nas práticas lingüísticas como ‘cadeira’.
Esse conceito teria uma estrutura prototípica, ou seja, se definiria por um conjunto
de traços partilhados por todos os membros do conjunto – um objeto de quatro
pernas, por exemplo.
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Como se vê, a semântica é tratada dentro de mais de uma corrente teórica,


sendo a Semântica Formal, a Semântica da Enunciação e a Semântica Cognitiva as
três vertentes que compõe o atual quadro dos estudos do significado no Brasil.
Assim, buscaremos nas próximas seções apresentar uma descrição de cada uma
dessas perspectivas.

1.1. A Semântica Formal

A Semântica Formal foi um dos primeiros referenciais teóricos e partiu da


consideração de que as sentenças se estruturam logicamente. As bases para esta
forma de tratamento do significado estão nas relações lógicas desenvolvidas por
Aristóteles.
Aristóteles desenvolve um tipo de raciocínio dedutivo em que se evidencia a
existência de relações de significado que se dão independentemente do conteúdo
das expressões. Esse raciocínio, conhecido como silogismo, consistia no seguinte
processo: se formos capazes de garantir a validade de duas premissas, poderíamos
concluir a terceira. Um exemplo clássico de silogismo pode ser assim descrito:

(1) Premissa 1 – Todo homem é mortal;


Premissa 2 – Platão é um homem;
Premissa 3 – Logo, Platão é mortal.

A relação lógica (ou formal) expressa no exemplo acima está inserida, na


verdade, numa relação de conjuntos. O conjunto dos homens está contido no
conjunto dos mortais; se Platão é um componente do conjunto dos homens, então
ele é necessariamente um componente do conjunto dos mortais. Assim, estabelece-
se relações entre termos (homem/mortal) sem que se atente para o seu significado,
o que implica que independente das expressões que compõem as relações, o
raciocínio será sempre válido.
A Semântica Formal, tal como é concebida hoje, deve muito a um matemático
e lógico alemão chamado Gottlob Frege (1848-1925). As maiores contribuições de
Frege à semântica foram o estabelecimento da distinção entre sentido e referência e
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do conceito de quantificador. De acordo com esse autor, o estudo científico do


significado só é possível se diferenciarmos os seus diversos aspectos para reter
apenas aqueles que são objetivos. É com esse raciocínio que ele exclui da
semântica o estudo das representações individuais que uma dada palavra pode
provocar. Quando ouço a palavra árvore, por exemplo, formo uma idéia de árvore
que é apenas minha, pois tem a ver com minha experiência subjetiva no mundo;
minha árvore pode ser uma jaboticabeira, como a de uma outra pessoa pode ser a
de um ipê ou simplesmente a de uma árvore seca. Essas representações
individuais, não passíveis de inspeção, portanto, são transferidas à Psicologia e a
Semântica acaba por restringir seus estudos aos aspectos objetivos do significado.
O sentido de um nome próprio como ‘rainha dos baixinhos’ é o que nos
possibilita chegar a um certo objeto no mundo de conhecimento público, a Xuxa - a
referência. Dessa forma, tem-se que o sentido é o que nos permite chegar a uma
referência no mundo. É a partir dessa distinção apresentada por Frege que podemos
explicar a diferença entre:

(2) A rainha dos baixinhos é a rainha dos baixinhos.

(3) A rainha dos baixinhos é a estrela da globo.

Enquanto a sentença expressa em (2) é uma verdade óbvia que independe


dos fatos no mundo, a sentença (3) apresenta uma relação de igualdade que
necessita ser verificada no mundo. Assim, se pudermos, de fato, estabelecer que
‘rainha dos baixinhos’ é o mesmo objeto que ‘estrela da globo’, aprendemos, então,
uma verdade sobre o mundo: que podemos nos referir à Xuxa de pelo menos duas
maneiras diferentes. A sentença (3) expressa uma verdade sintética, isto é, uma
verdade que só pode ser apreendida pela inspeção de fatos no mundo, por isso,
diferentemente da verdade expressa em (2) cujo grau de informatividade é zero, ela
pode nos proporcionar um ganho real de conhecimento.
É somente com a distinção entre sentido e referência que somos capazes de
explicar a diferença entre as sentenças (2) e (3), pois embora ambas tenham a
mesma referência, elas expressam pensamentos diferentes. Se o sentido é o
caminho que nos permite chegar à referência, quando descobrimos que dois
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caminhos levam à mesma referência, aprendemos algo sobre esse objeto,


adquirimos conhecimento sobre o mundo. Quando tomamos consciência da
igualdade, descobrimos dois sentidos para alcançar a mesma referência. Uma
mesma referência pode, pois, ser recuperada por meio de vários caminhos.
Considere, por exemplo, a cidade do Rio de Janeiro. Podemos nos referir a ela por
meio de diferentes sentidos: a cidade do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, Rio
de Janeiro, a capital do Estado do Rio de Janeiro.
Frege, ao apresentar a sua proposta sobre a distinção entre sentido e
referência, recorre a uma analogia que consistia num telescópio apontando para a
lua. A lua é a referência uma vez que sua existência e propriedades independem
daquele que a observa, no entanto, ela pode ser olhada a partir de diferentes
perspectivas e a cada ângulo de observação pode-se apreender algo novo sobre
ela. A imagem da lua alcançada pelas lentes do telescópio é comum a qualquer
pessoa, é a essa imagem compartilhada que é chamada sentido. Se, por outro lado,
mudamos o telescópio de posição, vemos uma face diferente da mesma lua,
alcançamos o mesmo objeto a partir de outro sentido.
É o sentido o que nos permite chegar a um objeto no mundo (uma referência),
mas é esse objeto no mundo que nos permite estabelecer um juízo de valor, ou seja,
avaliar se o que dizemos é verdadeiro ou falso. Assim, o que torna uma dada
premissa verdadeira não está na linguagem, mas nos fatos do mundo.
Para Frege, um nome próprio deve ter sentido e referência. Rio de Janeiro e
Capital do Estado do Rio de Janeiro são dois nomes próprios, porque têm sentido e
nos permitem falar sobre um objeto no mundo, a cidade do Rio de Janeiro. Os
nomes próprios são saturados porque expressam um pensamento completo e
podemos, a partir deles, identificar uma referência. No entanto, há expressões que
são incompletas e que, portanto, não nos permite chegar a uma referência. Esse é o
caso da expressão ‘ser capital de’. Esse termo, por não expressar um pensamento
completo, não serve para alcançarmos uma referência. Veja os exemplos abaixo:

(4) Belo Horizonte é a capital de Minas Gerais.

(5) Florianópolis é a capital de Santa Catarina.


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Essas duas sentenças são nomes próprios porque expressam um


pensamento completo e têm referência. Já o termo ‘a capital de’, que se repete nas
duas sentenças, é uma expressão insaturada. Para expressar um pensamento
completo, a oração deve ser preenchida tanto no espaço que a antecede quanto no
que a sucede. Esses lugares vazios são chamados argumentos e a expressão
insaturada chama-se predicado. Nesse caso, especificamente, tem-se um predicado
de dois lugares, porque há dois lugares a serem preenchidos por argumentos:
argumento 1 é a capital de argumento2.
Esse contraste entre funções incompletas, que precisam ser preenchidas por
argumentos, e funções completas diz respeito à capacidade de referenciação. Isso
quer dizer que uma oração insaturada precisa ser completada por argumentos para
ser um nome próprio e, com isso, ter como referência um valor de verdade.
O predicado pode ser preenchido por um nome próprio como ocorre nos
exemplos apresentados como pode também ser preenchido por um outro tipo de
argumento, a expressão quantificada ou quantificador. Uma oração quantificada é
aquele que apresenta uma expressão quantificada que indica certo número de
elementos, é o caso de:

(6) Todos os homens são mortais.

(7) Há uma garrafa dentro da geladeira.

As palavras grifadas exercem um papel de quantificação, isto é, traçam limites


à aplicação das propriedades expressas pelas demais palavras.
Um quantificador age sobre a informação aplicada a um predicado. Assim, em
(6), a sentença seria interpretada como uma informação de que a propriedade “se é
homem é mortal” tem uma aplicação universal, ou seja, o predicado ‘ser mortal’ se
aplica a todos os elementos que compõem o predicado ‘ser homem’. Por sua vez, a
sentença (7) seria interpretada como significando que há exatamente um objeto que
realiza a propriedade de ser garrafa e estar dentro da geladeira.
A interação dos quantificadores entre si, com a negação e com o plural, dá
origem a ambigüidades de um tipo particular, conhecidas como ambigüidades de
escopo. Considere a sentença: “O João não convidou só a Maria”. Essa sentença
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possui duas interpretações possíveis: (1) o João só não convidou a Maria ou (2) o
João não só convidou a Maria, mas também outras pessoas. A diferença entre as
duas interpretações ocorre devido a combinação dos operadores não e só: ou o não
tem escopo sobre o só, gerando não só, ou o só é que tem escopo sobre o não,
produzindo só não.
Um outro elemento importante com relação ao papel dos nomes próprios, diz
respeito às descrições definidas e indefinidas. As descrições são sintagmas
nominais que tem por núcleo um substantivo comum. Da mesma forma que os
nomes próprios, as descrições servem para constituir os objetos do mundo em
referentes. Muitos objetos não têm nome próprio, aí, freqüentemente, optamos por
utilizar as descrições. Também quando o objeto possui um nome próprio podemos
optar por usar as descrições, já que essas têm a vantagem de apontar
características relevantes dos próprios objetos.
A maneira mais comum de se fazer referência a algum objeto consiste
justamente em se usar uma descrição indefinida na primeira referência e descrições
definidas (ou pronomes anafóricos) nas referências seguintes. Veja o exemplo:

(8) Era uma vez um rei1 que tinha uma bela filha2. Certo dia, o rei1 chamou a
filha2 e falou...

Uma descrição se compõe, como pode se observar nos exemplos, de um


artigo (definido ou indefinido) e um substantivo comum. As descrições definidas são
aquelas que se iniciam por artigo definido, enquanto que as descrições indefinidas
são aquelas que começam com o artigo indefinido. O artigo definido carrega uma
marca de dêixis, o que significa dizer que ele remete à situação em que a sentença
é proferida.
Outra relação de sentido da qual tratou Frege, diz respeito à pressuposição.
Observe as orações abaixo:

(9) Pedro parou de bater na mulher.

(10) Pedro batia na mulher, no passado.

(11) Pedro não bate na mulher, atualmente.


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As orações (10) e (11) apresentam, separadamente, duas informações que


aparecem juntas na oração (9) e representam uma situação que ocorreu no passado
(Pedro batia na mulher) e outra situação que ocorre no presente (Pedro não bate na
mulher). Esses desdobramentos de interpretação da oração (9) são possíveis devido
à presença do verbo parar de, que acompanhado do verbo bater indica que num
dado momento do passado Pedro batia na mulher e que no momento atual isso não
ocorre.
Para Frege, essa pressuposição de existência faz parte das condições de
verdade da sentença, mas não do seu sentido. Isso quer dizer que uma sentença
como em (9) expressa um pensamento completo, mas para atribuirmos a ela um
valor de verdade pressupomos a existência de uma entidade da qual pressupomos
algo. Essa pressuposição existencial não é semântica, e como forma de defender
essa idéia, Frege levanta que se a pressuposição fosse semântica, a negação da
sentença seria ambígua. Então, uma sentença como “Pedro não parou de bater na
mulher” significaria, caso a pressuposição fosse semântica, que ou não existe um
Pedro ou o Pedro não parou de bater na mulher. No entanto, a negação não tem
escopo sobre o sujeito, isto é, não negamos a existência de alguém que é o Pedro,
mas negamos a afirmação de que ele parou de bater na mulher. Ou seja, a
pressuposição de que existe alguém que se chama Pedro se mantém inalterada na
negação, o que evidencia que essa não se confunde com o conteúdo da sentença.
Pensando, no entanto, na possibilidade da não-existência de um sujeito
(Pedro, no exemplo acima), Frege apresenta a seguinte solução: sentenças que se
referem a seres ou coisas que não têm existência real, ou seja, sentenças cuja
pressuposição de existência é falsa, têm sentido, mas não têm referência. Dessa
forma, elas não são nem verdadeiras e nem falsas.
Um outro estudioso, conhecido como Bertrand Russell, propôs uma outra
solução, a partir da consideração do artigo definido o enquanto quantificador.
Partindo da afirmação de que os quantificadores podem se combinar, ao se
considerar que o artigo definido é um quantificador, pode-se inferir que o operador
não incide sobre a proposição ou sobre parte da proposição, alterando-lhe o valor de
verdade, estabelecendo-se, então, relações de escopo.
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A noção de escopo ajuda-nos a compreender a negação como uma operação


significativa que não afeta necessariamente todos os conteúdos da oração em que
ocorre.
Apesar das diferentes formas de se abordar o fenômeno, a Semântica Formal
considera que há pressuposição quando tanto o valor de verdade quanto a falsidade
da sentença dependem da verdade da sentença pressuposta.
O estabelecimento do conceito de pressuposição foi marcante, principalmente
no que tange aos estudos do significado, o que levou, na década de 70, a uma
ampla gama de estudos sobre o tema. E, posteriormente, ao surgimento de um outro
modelo, a Semântica da Enunciação.

1.2. A Semântica da Enunciação

Segundo Ducrot, um dos maiores estudiosos da Semântica da


Enunciação, a forma de tratamento da linguagem pela Semântica Formal é
inadequada, porque se baseia num modelo informacional em que o conceito de
verdade é externo à linguagem. Na Semântica Formal, a linguagem é um meio para
chegarmos a uma verdade que está fora da linguagem, o que nos permitiria tratar de
questões relativas ao mundo e, com isso, adquirir um conhecimento sobre ele.
Ducrot não acredita que o conceito de referência em Frege esteja realmente cercado
de realismo. Para ele, é o nosso conhecimento de lua que depende do sentido.
Fazendo uso da metáfora do telescópio de Frege, Ducrot apresenta sua crítica
dizendo que quando vemos a mesma lua a partir de pontos de vista diferentes, não
vemos luas diferentes. Embora sutil, essa diferença é necessária para a distinção
entre semânticas objetivas, que postulam uma ordem no mundo que dá conteúdo à
linguagem, e as semânticas relativistas, que acreditam que não há uma ordem no
mundo que seja dada independentemente da linguagem e da história. A Semântica
da Enunciação acredita que a linguagem constitui o mundo e, por isso, se insere na
perspectiva relativista.
Para a Semântica da Enunciação, a referência não é mais do que uma
ilusão criada pela linguagem. Para essa perspectiva, estamos sempre inseridos na
linguagem e se há elementos, como os dêiticos, termos referenciais (pronomes,
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artigo definido), que nos dão a sensação de estar fora da língua, essa sensação é
apenas ilusória. Para Ducrot, a linguagem é um jogo de argumentação enredado em
si mesmo; não falamos sobre o mundo, falamos para construir um mundo e a partir
dele tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade. Dessa forma, a verdade,
que na Semântica Formal era tida como um atributo do mundo, passa a ser relativa
à comunidade que se forma na argumentação. A linguagem, dessa forma, adquiri um
caráter dialógico ou argumentativo, uma vez essa passa a funcionar como um jogo
discursivo construído para convencer o outro de nossa verdade.
A Semântica da Enunciação, como temos descrito, apresenta uma
concepção de linguagem que a distancia sobremaneira da Semântica Formal. Essa
diferença de concepção tem conseqüências importantes quando se observa a forma
como o fenômeno lingüístico é tratado em uma e outra abordagem. Com relação à
pressuposição, por exemplo, a Semântica da Enunciação por considerar que a
linguagem não se refere, acredita que a pressuposição é criada pelo e no próprio
jogo de encenação que a linguagem constrói. É porque falamos de algo que esse
algo passa a ter a sua existência no quadro criado pelo próprio discurso, e é por isso
que atualmente o conceito de pressuposição é substituído no interior da abordagem
enunciativa pelo conceito de enunciador.
Na Semântica da Enunciação, um enunciado se constitui de vários
enunciadores que formam o quadro institucional que referenda o espaço discursivo
em que o diálogo vai se desenvolver. Um enunciador presente no enunciado situa o
diálogo no comprometimento de que o ouvinte aceite esse conteúdo pressuposto de
forma que negá-lo seria o mesmo que romper o diálogo.
Como forma de exemplificar a atuação da Semântica Enunciativa,
apresentamos novamente a sentença apresentada em (8) Pedro parou de bater na
mulher. O que foi descrito como pressuposição passa a ser chamado de enunciador.
Assim temos:

(12) Pedro parou de bater na mulher.


E1: Pedro batia na mulher, no passado.
E2: Pedro não bate na mulher, atualmente.
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Nessa enunciação, o locutor põe em cena um diálogo entre dois


enunciadores, apresentados acima como E 1 e E2, o que dá um caráter polifônico ao
enunciado. É como se duas vozes falassem: um enunciador que afirma que Pedro
batia na mulher, o que constitui o pressuposto, e, outro, que diz que ele não bate
mais na mulher, o posto.
Para a Semântica Formal, a negação de (12) não seria ambígua, porque não
há duas formas lógicas. Já para a Semântica da Enunciação, o problema da
ambigüidade estrutural pode ser tratada a partir do conceito de polissemia. O que
significa dizer que há diferentes tipos de negação, expressos por uma série de
enunciadores. No exemplo acima, pode-se dizer que se negamos a fala do primeiro
enunciador, o pressuposto, realizamos uma negação polêmica; já se negamos o
posto, a negação ganha outro caráter, passando a ser considerada uma negação
metalingüística. Há assim, a presença de uma série de enunciadores e diferentes
tipos de negação. Veja:

(13) O presidente do Brasil não é sociólogo.

(13’) E1: Há um presidente do Brasil.

E2: Ele é sociólogo.

E3: E1 é falsa.

(13”) E1: Há um presidente do Brasil.

E2: Ele é sociólogo.

E3: E2 é falsa.

A hipótese da Semântica da Enunciação é a de que entre as pressuposições


não há uma diferença estrutural, mas uma diferença entre tipos de negação. Assim,
a pressuposição passa a ser tratada tendo como base a hipótese da polifonia e,
portanto, da existência de diferentes enunciadores, e a ambigüidade se desfaz pela
determinação de diferenças de uso das palavras: o não-polêmico e o não-
metalingüístico.
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Além da negação polêmica e da negação metalingüística apontadas acima,


Ducrot distingue um terceiro tipo de negação, a negação descritiva. Nesse tipo de
negação, o locutor descreve um estado no mundo negativamente; portanto, na sua
enunciação não há um enunciador que retoma a fala de um outro enunciador
negando-a. Um dado de negação descritiva ocorre quando se descreve um estado
do mundo utilizando a negação: Não há um único pássaro no céu.
A negação fica, então, entendida como um fenômeno de polissemia que se
defini por identificar usos distintos que não relacionados.
Um dos pontos chave da Semântica da Enunciação está no fato de esta
possibilitar a descrição de fenômenos que envolvem gradação, os quais resistem ao
tratamento formal. Exemplos como:

(14) João comeu pouco.


(15) João comeu um pouco.

Não são passíveis de receber uma análise formal, por outro lado, percebemos
que as orações não se equivalem. Para a Semântica da Enunciação, a diferença
entre as duas orações ocorre devido a um encadeamento discursivo distinto. A
hipótese é a de que os dois operadores, pouco e um pouco, direcionam
diferentemente uma mesma escala de comer que vai de comer muito a não comer.

1.3. A Semântica Cognitiva

A Semântica Cognitiva é um modelo teórico bastante recente, tendo seus


primeiros desenvolvimentos datados da década de 1980. Foi a partir de então que
tomou-se consciência de que todo fazer é necessariamente acompanhado de
processos de ordem cognitiva.
Para esse modelo, o significado é central na investigação sobre a linguagem.
Assim, acredita-se que a forma deriva da significação, uma vez que é a partir da
construção de significados que aprendemos. Tal concepção acaba por inserir a
Semântica Cognitiva entre os estudos funcionalistas da linguagem.
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A Semântica Cognitiva, da mesma forma que a Semântica da Enunciação, se


opõe à Semântica Formal, a qual prega que o significado se baseia na referência e
no entendimento da verdade como correspondência com o mundo. A Semântica
Cognitiva acredita que o significado não tem nada a ver com a relação entre
linguagem e mundo, ao contrário, ela acredita que o significado é motivado. A
significação lingüística, nesse sentido, emerge de nossas significações corpóreas,
dos movimentos de nossos corpos em interação com o meio que nos circunda.
A Semântica Cognitiva, por não considerar a hipótese da referência, se
aproxima muito da abordagem proposta pela Semântica da Enunciação. No entanto,
a Semântica Cognitiva se distancia da abordagem enunciativa por não considerar
que a referência é constituída pela própria linguagem e que esta trata-se de um jogo
de argumentação.
George Lankoff, o criador e maior pesquisador dos aspectos cognitivos da
significação, define essa abordagem como realismo experiencialista, levantando
assim a hipótese de que o significado é natural e experencial. Ele sustenta essa
proposta através da constatação de que o significado se constrói a partir de nossas
interações físicas, corpóreas com o meio ambiente em que vivemos. Dessa forma, o
significado deixa de ter um caráter exclusivamente lingüístico.
Dentro desse referencial teórico, são nossas ações no mundo que nos
permitem apreender esquemas de imagem e espaço e são esses esquemas que
dão significado às nossas expressões lingüísticas. Assim, a criança, durante o
processo de aquisição, aprenderia primeiramente esquemas de movimento, isso
ocorreria quando, por exemplo, a criança se move várias vezes em direção a certos
alvos. Com esse esquema, surgido de nossa experiência corpórea com o mundo,
aporta o significado de nossas expressões lingüísticas sobre o espaço.
Nossos deslocamentos de um lugar para outro (ponto de partida – percurso –
chegada) que ocorrem ainda antes de aprendermos a falar estruturam um esquema
de imagem ou imagético. Esse esquema denominado por Lankoff de CAMINHO,
pode ser representado da seguinte forma:

A (fonte do movimento) B (alvo do movimento)


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Além do esquema CAMINHO, muitos outros esquemas seriam derivados


diretamente de nossas experiências corpóreas com o mundo. Por exemplo, o
RECIPIENTE, esquema de estar dentro e fora de algum lugar; o BALANÇO,
esquema aprendido durante nossos ensaios de estar de pé. Veja algumas sentenças
instanciadas por esquemas de CAMINHO e de RECIPIENTE:

(16) Fui da portaria à cobertura.


(17) Estou em São Paulo.

Para a abordagem cognitiva, o que dá sentido à sentença (16) é a presença


de um esquema imagético CAMINHO, e da mesma forma, o que daria sentido à
sentença (17) seria a presença do esquema imagético RECIPIENTE. Esses
esquemas guardariam uma memória de movimentação ou de experiência e seria
justamente essa memória o que ampararia nosso falar e pensar. Assim, o significado
deixaria de ser um fenômeno puramente lingüístico para ser tratado como uma
questão de cognição.
Os esquemas passam a ocupar um lugar central nos estudos da Semântica
Cognitiva, no entanto, nem todos os nossos conceitos seriam apreendidos a partir
de esquemas imagéticos. Haveriam, ainda, certos conceitos de domínio da
experiência que dependeriam de mecanismos de abstração. Dentre esses
mecanismos, dois seria prioritários: a metáfora e a metonímia. A metáfora
funcionaria como um mapa entre o domínio da experiência e outro domínio, como o
tempo, por exemplo. Assim em uma sentença como “De ontem pra hoje, esfriou
muito”, percebe-se um conceito de tempo que se estrutura a partir de um esquema
espacial de CAMINHO. Essa sentença seria metafórica porque nelas o tempo é
conceituado a partir de correspondências com o esquema espacial.
A metáfora, para a Semântica Cognitiva, é o processo cognitivo que nos
permite mapear esquemas, aprendidos diretamente pelo nosso corpo, em domínios
mais abstratos, cuja experimentação é indireta.
A propriedade fundamental da metáfora é preservar as inferências do domínio
fonte sobre o domínio alvo, desde que não haja violação da estrutura inerente ao
domínio alvo. Se mapearmos o esquema CAMINHO no tempo, podemos esperar
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que neste domínio se estabeleça uma organização espacial em que as inferências


do espaço se mantêm. Isso é tratado como Hipótese de Invariância.
Além de explicar as inferências, a Hipótese de Invariância procura justificar o
fato de que há aspectos que não são mapeados. Isso quer dizer que podemos
mapear o espaço no tempo, mas certas relações espaciais serão bloqueadas por
causa da própria estrutura do tempo. É por isso que não podemos dizer, por
exemplo, “chegou embaixo da hora”.
Um exemplo de análise a partir da Semântica Cognitiva, apresentado por
Oliveira (2004), é a descrição do conectivo mas. Essa descrição se inicia realizando-
se um levantamento das várias possibilidades de uso do termo. O passo seguinte é
fazer uma pesquisa etimológica com vistas à recuperação da história do conectivo.
Repare na sentença “Pedro não está triste, mas ensimesmado”. Etimologicamente,
mas deriva da expressão latina magis quam que estabelecia a comparação de
superioridade: isso é mais do que aquilo. Acreditando-se que os usos mais antigos
são mais próximos do físico, seria, então, o esquema corporal de BALANÇO que dá
sustentação ao mas: pesamos duas coisas e a balança pende para uma delas. No
exemplo a balança tenderia ao ensimesmado mais do que ao triste.
Além dos esquemas imagéticos, há outros elementos fundamentais aos
estudos semânticos de base cognitiva, são esses as categorias de nível básico.
Essa noção de categorias básicas é também cara a Semântica Formal. Para
esse modelo, um termo genérico, como homem, por exemplo, não se refere a um
indivíduo em particular, mas a todos os indivíduos que possam ser alcançados por
meio de certas propriedades. Assim, sabemos que Platão pertence à classe dos
humanos porque ele tem propriedades que só os humanos têm. Essas propriedades
recebem o nome de intensão e é o que nos permite chegar a uma classe de objetos
do mundo, a essa classe denominamos extensão. No exemplo (1), repetido abaixo:

Todo homem é mortal;


Platão é um homem;
Logo, Platão é mortal.
19

O termo homem tem como extensão os vários seres humanos no mundo, as


entidades extralingüísticas. Quanto à intensão, ou seja, as propriedades essenciais,
no entanto, surgem controvérsias. Afinal, quais seriam as características essenciais,
comuns, a todos os indivíduos que compõe a classe dos seres humanos? A
Semântica Formal apresenta as características ‘ser bípede’ e ‘ser implume’ como as
propriedades distintivas dos seres humanos. Essas propriedades realmente
parecem abarcar todos os seres humanos, mas, no entanto, a universalidade dessas
propriedades pode ser discutida, tendo em vista a possibilidade de existirem
humanos de apenas uma perna.
Quem tratou mais profundamente da questão das categorias foi o filósofo
Ludwig wittgenstein em um livro chamado Investigações Filosóficas. Esse filósofo
demonstra, a partir das inúmeras possíveis propriedades do conceito de jogo, que
uma única propriedade não é suficiente para delimitar uma classe. Foi com essa
constatação que ele propôs que as categorias se organizam por relações de
semelhanças de família. Os usos de uma mesma palavra se assemelham da mesma
forma que os membros de uma família, não é necessário, pois, que os membros de
uma mesma família, partilhem uma mesma propriedade.
Levando em conta essas constatações de Wittgenstein, a Semântica
Cognitiva se distancia da noção clássica de categoria e, então, aponta evidências
psicológicas que levam á conclusão de que não categorizamos por meio do
estabelecimento de propriedades necessárias e suficientes.
Para a Semântica Cognitiva, os conceitos se estruturam por protótipos. Isso
quer dizer que quando fazemos classificações, nos escoramos em casos que são
exemplares, ou seja, nos ancoramos naqueles casos que são mais reveladores de
categorias. É por isso que se pedirmos que alguém nos dê um exemplo de pássaro,
dificilmente alguém dirá pingüim. Dessa forma, tem-se que as categorias se
estruturam por meio de um caso mais prototípico que se relaciona via semelhanças
com os outros membros. O pingüim estaria, pois numa posição mais periférica
enquanto membro da categoria PÁSSARO e na posição central estaria
provavelmente o pardal ou o beija-flor.
A aquisição de categorias ocorreria, de acordo com a perspectiva cognitiva,
com as crianças adquirindo primeiro as categorias de nível médio, já que é com esse
20

tipo de categoria que temos contato físico direto. As categorias de nível básico,
diferentemente, são aprendidas diretamente por não indicarem categorias mais
abstratas e nem mais específicas. É por isso que adquirimos primeiro e diretamente
categorias como mesa e gato e, apenas mais tarde, adquirimos, através do processo
de metonímia, as genéricas como móvel e animal e as particulares como mesa de
centro e siamês.
Como vimos, a metáfora tem o importante papel de criar mapas sobre o
domínio da experiência e um outro domínio. Também a metonímia, exerce uma
função importante no processo cognitivo. É a metonímia o processo cognitivo que
permite criar relações de hierarquias entre conceitos. Assim, a metáfora e a
metonímia ocupam um lugar central na teoria, sendo responsáveis pela extensão
dos esquemas em direção à abstração.
Com relação à abordagem cognitiva das pressuposições, a hipótese é a de
que na interpretação formamos espaços mentais, estruturas conceituais que
descrevem como os falantes atribuem e manipulam a referência. Assim, na
sentença:

(18) A Rainha da França teve a cabeça cortada.

Criamos um espaço mental em que a Rainha da França se refere ao


personagem histórico. Se, por outro lado, a sentença é acrescida do termo ‘Em os
Três Mosqueteiro’, abrimos um novo espaço mental em que Rainha da França não
se refere ao personagem histórico, mas ao ficcional:

(19) Em os três Mosqueteiros, a Rainha da França teve a cabeça cortada.

Para Semântica Cognitiva a pressuposição não estabelece referência com


entidades no mundo e também não são procedimentos argumentativos. Para esse
modelo, as pressuposições são, antes, entidades mentais ou, ainda, significados
que se transferem de um espaço mental para outro. Assim, na sentença (9) Pedro
parou de bater na mulher, haveria dois espaços mentais: um em que está a
pressuposição de que Pedro batia na mulher e um outro em que ele parou de bater
21

na mulher. Nessa concepção, a negação agiria sobre a transferência ou não de um


espaço mental para outro: se negamos o primeiro espaço mental construindo, assim,
uma sentença como Pedro nunca bateu na mulher, a pressuposição não é
transportada para o segundo espaço mental. Por outro lado, se Pedro bateu na
mulher um dia, a pressuposição é carregada para o segundo espaço mental e a
negação incide sobre o fato de Pedro ter parado de bater na mulher.

1.4. Algumas Considerações

Nessa seção buscamos apresentar uma descrição das teorias semânticas


presentes nos estudos lingüísticos contemporâneos. Vimos que cada modelo teórico
apresenta como base uma diferente concepção de linguagem que implica em
diferentes formas de se conceber a relação entre linguagem e mundo. Enquanto
para a Semântica Formal essa relação se dá a partir da distinção entre sentido e
referência; para a Semântica da Enunciação, a linguagem constitui o mundo; e já
para a Semântica Cognitiva, o significado não tem nada a ver com a relação entre
linguagem e mundo, ao contrário, ele seria motivado.
A semântica, enquanto objeto de estudo, não é um tema fechado em si, mas,
pelo contrário, participa de estudos que, mesmo não tendo como foco base a
semântica, apresentam um componente semântico. É esse o caso dos estudos que
têm como fim a construção de gramáticas textuais.
A essa chamada semântica do texto cabe explicar a representação da
estrutura do significado de um texto ou de um segmento deste, particularmente as
relações de sentido que vão além do significado das frases tomadas isoladamente,
como ocorre na pressuposição, por exemplo.
É a essa interface entre o texto e a semântica que trataremos no tópico
seguinte.
22

UNIDADE 2 - LINGÜÍSTICA TEXTUAL

A Lingüística Textual é o ramo da lingüística que toma o texto como objeto de


estudo. Seu surgimento enquanto campo de estudos da lingüística, embora recente,
é difícil de ser definido. Isso porque essa ciência não passou por um
desenvolvimento homogêneo, ela, na verdade, surgiu de forma independente em
vários países e com propostas teóricas diversas. O que mais frequentemente tratado
quanto às fundamentações teóricas dessa disciplina é que houve pelo menos três
importantes momentos, sem que, no entanto, possamos estabelecer uma cronologia
que indique a passagem de uma proposta à outra.
Em um primeiro momento, os estudiosos do texto se interessavam
predominantemente pela análise transfrástica, ou seja, por fenômenos que não
conseguiam ser explicados pelas teorias sintáticas ou semânticas que ficassem
limitadas ao nível da frase.
Nesse tipo de análise, parte-se da frase para o texto. A principal preocupação
estava nas relações que se estabelecem entre as frases e os períodos de forma a se
construir uma unidade de sentido. A partir desse tipo de estudo, observou-se a
ocorrência de fenômenos que poderiam ser explicados através das teorias sintáticas
ou semânticas. Um desses fenômenos pode ser exemplificado através da co-
referenciação. Veja-se o exemplo abaixo:

(20) Joana foi ao teatro. Ela não gostou da peça.

Nesse trecho, a relação entre nome e pronome, na perspectiva textual, não é


de simples substituição. O uso do pronome está fornecendo ao ouvinte/leitor
instruções de conexão entre a predicação que se faz com o pronome (não gostou da
peça) e o próprio nome em questão. Esse movimento contribuiria para a construção
da imagem do referente (Joana) por parte do ouvinte. É por conta da coerência entre
as predicações que sabemos que o pronome ‘ela’ se refere a ‘Joana’. Porém, a
presença do mecanismo de co-referenciação, sozinho, não seria capaz de garantir a
interpretação da seqüência enquanto um texto.
23

Foi através de exemplos como o descrito acima que se percebeu que certos
fenômenos só poderiam ser tratados a partir da análise da relação entre orações.
Tendo como referência essa constatação, essa linha de pesquisas concentrou seus
estudos em fenômenos de ocorrência mais ampla que a de uma frase (fenômenos
transfrásticos) como a pronominalização, a seleção de artigos (definidos ou
indefinidos), a concordância entre tempos verbais, a relação tópico-comentário e
outros.
Vale ressaltar que nesse período o conceito de texto era o de “uma seqüência
pronominal ininterrupta” e sua principal característica era o múltiplo referenciamento.
No entanto, essa concepção de texto, e conseqüentemente os objetos de análise,
passou por modificações, uma vez que se percebeu a existência de conexão entre
enunciados realizada sem a presença de um conector. Observe as sentenças que se
seguem:

(21) Não fui ao seu casamento: enviei-lhe o presente.


(22) Não fui a seu casamento: tive um contratempo.
(23) Não fui a seu casamento: não posso dizer como foi a cerimônia.

No exemplo (21), pode-se perceber, mesmo em a presença o conectivo mas,


a relação adversativa expressa. Em (22) sabemos que é a relação explicativa,
implicada pelo conector porque, a que se estabelece entre o primeiro e o segundo
enunciado. Em (23), sabemos que é a relação conclusiva, normalmente expressa
pelo conector portanto, a que se estabelece entre os enunciados.
A ausência dos conectores nos exemplos de (21) a (23) sem prejuízo do
sentido fez com que passasse a se considerar que nesses casos é o ouvinte/leitor
que constrói o sentido global da seqüência, estabelecendo mentalmente as relações
argumentativas adequadas entre os enunciados. A necessidade de se considerar o
conhecimento intuitivo do falante/ouvinte na construção do sentido global do
enunciado e o fato de nem todo texto apresentar o fenômeno da co-referênciação
fez com que se inaugurasse uma nova linha de pesquisa dentro dos estudos do
texto, como o objetivo de elaborar gramáticas textuais.
24

Esse segundo momento da Lingüística Textual, provocado principalmente pela


ascensão da gramática gerativa proposta por Chomsky, teve como objetivo a
descrição da competência textual do falante, ou seja, a construção de gramáticas
textuais.
Nas primeiras propostas de elaboração de gramáticas textuais, o objetivo era
o de transformar o texto no objeto da Lingüística. Apesar da ampliação do objeto de
estudos da ciência da linguagem, ainda se acreditava na possibilidade de se mostrar
que o texto possuía propriedades que diziam respeito ao próprio sistema abstrato da
língua. Dessa forma, as primeiras gramáticas textuais representavam um projeto de
reconstrução do texto como um sistema uniforme, estável e abstrato. O texto, nesse
período, era considerado como uma unidade teórica formalmente construída, o que
o colocava em lugar de oposição ao discurso, unidade funcional, comunicativa e
intersubjetivamente construída.
A principal inovação causada pelos autores desse período foi a consideração
de que não há uma continuidade entre frase e texto porque há, entre eles, uma
diferença de ordem qualitativa e não quantitativa, já que a significação de um texto
constitui um todo que é diferente da soma das partes.
O texto passou a ser visto, então, como a unidade lingüística mais elevada, a
partir da qual seria possível chegar, por meio da segmentação, a unidades menores
a serem classificadas. A segmentação e a classificação de um texto em unidades
menores deveria sempre considerar a função textual dos elementos individuais, ou
seja, que tipo de papel cada elemento desempenha em uma dada configuração
textual.
Passou-se a postular, também, a existência de uma competência textual à
semelhança da competência lingüística chomskyana. Todo falante nativo de uma
língua teria a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado
incoerente de enunciados, competência que é especificamente lingüística. Em
outras palavras, qualquer falante é capaz de parafrasear, de resumir um texto, de
perceber que está completo ou incompleto, de atribuir-lhe um título, ou de produzir
um texto a partir de um título dado.
Nesse contexto, acredita-se que todo falante possuiria três capacidades
textuais básicas: a) capacidade formativa – que permitiria a produção e
25

compreensão de textos inéditos, além de possibilitar a avaliação quanto à formação


de um texto; b) Capacidade transformativa – permitiria a reformulação de um texto,
seja através da paráfrase ou do resumo; c) capacidade qualificativa – permitiria a
tipificação de um texto, ou seja, a classificação em descrição, narração,
argumentação, etc.
As tarefas básicas de uma gramática do texto, segundo Koch (2006: 5) seriam
as seguintes:
a) verificar o que faz com que um texto seja um texto, ou seja, determinar
seus princípios de constituição, os fatores responsáveis pela sua
coerência, as condições em que se manifesta a textualidade;
b) levantar critérios para a delimitação de textos, já que a completude é uma
de suas características essenciais;
c) diferenciar as várias espécies de textos.

Essas tarefas constituíram a base da construção das gramáticas textuais. No


entanto, durante o trabalho prático de realização desse ambicioso projeto, as tarefas
enumeradas não conseguiram ser executadas a contento, apesar de todos os
esforços de vários lingüistas.
A maior contribuição dessa linha de pesquisa se concentrou, no entanto, na
possibilidade de deslocamento da questão: do tratamento formal à constituição de
uma teoria. Ao invés de se ocupar em dar um tratamento formal ao objeto ‘texto’, os
estudiosos começaram a elaborar uma teoria do texto, que, ao contrário das
gramáticas textuais, cuja preocupação era meramente descritiva, propõe a
investigação da forma como se dá a constituição, o funcionamento, a produção e a
compreensão dos textos em uso.
Nesse terceiro momento da teoria, o texto passa a ser estudado dentro do
seu contexto de produção, passando esse a ser entendido não como um produto
acabado, mas como um processo, resultado de operações comunicativas e
processos lingüísticos em situações sociocomunicativas.
O âmbito de investigação, nessa linha de estudo, estende-se do texto ao
contexto, entendido como o conjunto de condições externas da produção, recepção
e interpretação de textos. Segundo Marcurschi, um dos maiores estudiosos da
Lingüística Textual, no final da década de 70, a palavra de ordem não era mais a
26

gramática do texto, mas a noção de textualidade, definida como um modo múltiplo


de conexão ativado toda vez que ocorrem eventos comunicativos.
Nesse novo quadro, a Lingüística Textual passa a ser entendida como uma
disciplina essencialmente interdisciplinar.
Se o objeto da Lingüística Textual é essencialmente o texto, torna-se
fundamental que se trave uma discussão a respeito do conceito de texto.

2.1. Conceito de Texto

Como buscamos mostrar na seção anterior, a Lingüística Textual passou,


durante seu processo de evolução, por constantes reformulações. Cada uma dessas
reformulações, além de alterar o objeto e a metodologia de estudos, carregava em
seus fundamentos alterações que diziam respeito à concepção de texto. Nessa
seção, buscaremos, então, apresentar algumas dessas concepções que
acompanharam o processo de evolução da teoria até o conceito mais reconhecido e
atual no que tange aos estudos da Lingüística Textual.
Os conceitos de texto durante os períodos da análise transfrástica e das
gramáticas textuais variaram desde “unidade lingüística superior à frase” até
“complexo de proposições semânticas”. A concepção de texto que subjazia a todas
essas definições era a de um texto como uma estrutura acabada e pronta, como um
produto de uma competência lingüística.
A melhor definição de texto, para esse período, seria a de um termo que
abrange tanto textos orais quanto escritos que tenham como extensão mínima dois
signos lingüísticos, sendo que um pode ser suprimido pela situação, no caso de
textos de uma só palavra. Dessa forma, percebe-se uma maior ênfase no aspecto
material formal do texto.
O texto era tido como uma unidade que, apesar de teoricamente poder ser de
tamanho indeterminado, é, normalmente, delimitada, com um início e um fim mais ou
menos explícitos. E o objeto privilegiado de estudos era a coesão, muitas vezes
equiparada à coerência.
No segundo momento da Lingüística Textual, o texto não é mais encarado
como uma estrutura acabada, mas como parte de atividades mais globais de
comunicação. A definição de texto passa, então, a considerar que é a produção
27

textual é uma atividade verbal, o que significa dizer que os falantes, ao produzir um
texto, estão realizando atos de fala. Todo ato de produção de enunciados produz no
interlocutor um determinado efeito, pretendido ou não pelo locutor.
Também considera-se que a produção textual é uma atividade verbal
consciente, ou seja, uma atividade por meio da qual o falante dará a entender seus
propósitos, sempre levando em conta as condições em que tal atividade é
produzida. Nessa concepção, o sujeito falante possui um papel ativo na mobilização
de certos tipos de conhecimentos, de elementos lingüísticos, de fatores pragmáticos
e interacionais, ao produzir um texto.
Essa concepção de texto leva, ainda, em consideração a atividade
interacional que envolve a produção textual, isto é, os interlocutores estão
obrigatoriamente envolvidos nos processos de construção e compreensão de um
texto.
Na verdade, o que buscamos demonstrar nessa seção é que há uma certa
dificuldade na conceituação da unidade “texto”, havendo, assim, um grande número
de definições de se divergem por momento histórico da matéria como também por
diferentes intenções com relação ao objeto. Podemos, no entanto, transcrever
resumidamente algumas dessas concepções apresentadas por Koch (2006: XII):

1. texto como uma frase complexa ou signo lingüístico mais alto na hierarquia
do sistema lingüístico (concepção de base gramatical);
2. texto como signo complexo (concepção de base semiológica);
3. texto como expansão tematicamente centrada de macroestruturas
(concepção de base semântica);
4. texto como ato de fala complexo (concepção de base pragmática);
5. texto como discurso “congelado”, como produto acabado de uma ação
discursiva (concepção de base discursiva);
6. texto como meio específico de realização da comunicação verbal (concepção
de base comunicativa);
7. texto como processo que mobiliza operações e processos cognitivos
(concepção de base cognitivista);
28

8. texto como lugar de interação entre atores sociais e de construção


interacional de sentidos (concepção de base sociocognitiva-interacional).

2.2. A construção textual do sentido

Nesta seção, serão apresentados sete critérios de construção textual do


sentido, dois centrados no texto: a coesão e a coerência; e cinco centrados no
usuário: situacionalidade, informatividade, intertextualidade, intencionalidade e
aceitabilidade.

2.2.1. A Coesão textual

Designa-se por coesão a forma pela qual os elementos lingüísticos presentes


na superfície textual se interligam, se interconectam, por meio de recursos também
lingüísticos, de modo a formar uma unidade de nível superior à da frase, que dela
difere qualitativamente.
Comumente se postula a existência de cinco formas de coesão: a referência,
a substituição, a elipse, a conjunção e a coesão lexical. Veja abaixo a descrição
dessas formas de coesão:

1. Referência – em que um signo lingüístico se relaciona a um objeto


extralingüístico. Ela pode ser situacional e textual.
A textual pode ser:
- anafórica: quando retoma algo que já foi dito.
- catafórica: quando antecipa algo que ainda não foi expresso.
Ex.: Isto eu te digo: não trabalho de graça.

2. Substituição – colocação de um item no lugar de outro ou de uma oração.


Pode ser nominal (feita por meio de pronomes pessoais, numerais, indefinidos,
nomes genéricos como coisa, gente, pessoa) e verbal (o verbo ‘fazer’ é substituto
dos causativos, ‘ser’ é o substituto existencial).
Ex.: Vá buscar as crianças na escola. Elas saem às 17h.
29

3. Elipse – omissão de um item lexical recuperável pelo contexto, ou seja, a


substituição por zero (Ø). Pode ocorrer elipse de elementos nominais, verbais e
oracionais.
Ex.: As meninas preferiram sorvete. Os meninos não (Ø).

4. Conjunção – tem natureza diferente das outras relações coesivas por não
se tratar simplesmente de uma relação anafórica. Os elementos conjuntivos são
coesivos não por si mesmos, mas indiretamente, em virtude das relações
específicas que se estabelecem entre as orações, períodos e parágrafos. Essas
diferentes relações conjuntivas possuem uma série de equivalentes estruturais.
Os principais tipos de elementos conjuntivos são: advérbios e locuções
adverbiais; conjunções coordenativas e subordinativas; locuções conjuntivas,
preposições e locuções prepositivas; itens continuativos como então, daí etc.
Para se obter a coesão, é importante a escolha de conectivo adequado para
expressar relações semânticas; o mesmo conectivo pode expressar relações
semânticas diferentes: é, pois, preciso saber reconhecê-las. A omissão de
conectivos, embora admissível, só deve ser feita quando a relação semântica estiver
bem clara para evitar a ambigüidade (a não ser que seja intencional).
Ex.: O ladrão saiu correndo do banco. Depois vieram os policiais.

5. Coesão lexical – é obtida pela reiteração de itens lexicais idênticos ou que


possuem o mesmo referente. Inclui-se aí também o uso de nomes genéricos cuja
função coesiva está no limite entre as coesões lexical e gramatical, nomes esses
que estão a meio caminho do item lexical, membro do conjunto aberto e do item
gramatical, membro de um conjunto fechado. Gramaticalmente, (determinante +
nome geral) funcionam como itens de referência anafórica; lexicalmente, são
membros superordenados (hiperônimos) agindo como sinônimos de itens a eles
subordinados (hipônimos).
Ex.: Comprei violetas e petúnias. As flores estão enchendo a sala de perfume.
30

As definições acima apontadas perduraram durante muito tempo nos estudos


da textualidade. No entanto, alguns desses elementos sofreram alterações recentes.
A distinção entre referência e substituição, por exemplo, era bastante questionável.
Esses fatos levaram à classificação dos recursos coesivos em dois grandes grupos,
responsáveis pelos dois grandes movimentos de construção do texto: a
remissão/referência e a coesão seqüencial, realizada de forma a garantir a
continuidade do sentido. No primeiro grupo ficaram incluídas a referência, a
substituição e a elipse, bem como parcela significativa da coesão lexical; ao passo
que o segundo passou a englobar a outra parcela da coesão lexical.
A necessidade de dividir a coesão lexical pelos dois grupos deve-se ao fato
de ela envolve dois mecanismos: a reiteração e a colocação. A reiteração, que se
realiza por meio de repetição de um referente textual pelo uso dos mesmos itens
lexicais, sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos e expressões nominais, tem a
mesma função dos demais recursos de remissão textual; já a colocação, permite
que se faça o texto progredir, garantindo, simultaneamente, a manutenção do tema.
A coesão seqüencial diz respeito aos procedimentos lingüísticos por meio dos
quais se estabelecem diversos tipos de relações semânticas e/ou pragmático-
discursivas entre os segmentos do texto, à medida que o texto progredi. Esta
interdependência é garantida, em parte, pelo uso dos diversos mecanismos de
seqüenciação existentes na língua e, em parte, pelo que se denomina progressão
tópica.

2.2.2. A Coerência textual

A noção de coerência textual ganhou mais enfoque a partir do momento em


que se percebeu que o sentido do texto não está no texto em si, mas depende de
fatores de ordem diversa: lingüísticos, cognitivos, socioculturais, interacionais. Esses
elementos acabaram por demonstrar que não há textos incoerentes em si, porque
não há regras de boa formação de textos, como há para as frases, que se apliquem
a todas as circunstâncias. A textualidade de um texto vai depender muito mais dos
usuários de um texto, locutor e receptor, e da situação.
31

Charolles, um dos maiores estudiosos do texto, defende que a coerência de


um texto é um princípio de interpretabilidade, o que significa dizer que todos os
textos seriam, em princípio, aceitáveis. Um texto poderia ser incoerente, porém, se
não estivesse de acordo com determinada situação comunicativa. Dessa forma, o
texto seria incoerente se seu produtor não soubesse adequá-lo à situação, levando
em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros
elementos da situação, uso de recursos lingüísticos etc.
O conhecimento da situação comunicativa mais ampla contribui para a
focalização, que pode ser entendida como a perspectiva pela qual as entidades
evocadas no texto passam a ser vistas. Essas perspectivas afetam não só aquilo
que o produtor diz, mas também o que o leitor/ouvinte interpreta.

2.2.3. Considerações: Coerência e Coesão textuais

Qualquer falante de uma determinada língua consegue distinguir um texto


coerente de um aglomerado incoerente de enunciados.
Se sabemos intuitivamente não só distinguir entre textos e não-textos mas
também que nossa produção lingüística se dá com textos e não com palavras
isoladas, não sabemos, porém, definir intuitivamente o que faz com que um texto
seja um texto, e nem há unanimidade quanto à essa questão.
O termo “texto” pode ser tomado em duas acepções: Texto em sentido amplo,
designando toda e qualquer manifestação da capacidade textual do ser humano
(uma música, um filme, uma escultura, um poema etc.), e, em se tratando de
linguagem verbal, temos o discurso, atividade comunicativa de um sujeito, numa
manifestação de comunicação dada, englobando o conjunto de enunciados
produzidos pelo locutor (ou pelo locutor e interlocutor, no caso dos diálogos) e o
evento de sua enunciação.
O texto consiste, então, em qualquer passagem falada ou escrita que forma
um todo significativo independente de sua extensão. Trata-se, pois, de um contínuo
comunicativo contextual caracterizado por fatores de textualidade dentre eles, a
coesão e a coerência.
32

Coesão e coerência constituem fatores importantes da textualidade. Há


autores que distinguem dois níveis de análise, correspondendo a coesão e a
coerência, embora a terminologia possa ser diferente (coesão/coerência, coerência
microestrutural/coerência macroestrutural - Charolles).
Há autores que consideram a coerência e a coesão em níveis diferentes de
análise. A coesão, manifestada no nível microtextual, refere-se aos modos como os
componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão
ligados entre si dentro de uma seqüência.
A coerência, por sua vez, manifestada em grande parte macrotextualmente,
refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, os conceitos
e as relações subjacentes ao texto de superfície, se unem numa configuração, de
maneira reciprocamente acessível e relevante. Assim a coerência é o resultado de
processos cognitivos operantes entre os usuários e não mero traço dos textos.
Assim, coesão e coerência constituem fenômenos distintos pelo fato de:
 Poder haver um sequenciamento coesivo de fatos isolados que não tem
condição de formar um texto (a coesão não é suficiente nem necessária para formar
um texto). Um exemplo da fala de uma criança:
(24) O pai da Maria trabalha num supermercado.
O supermercado que minha mãe vai é longe.
Eu gosto de ir ao supermercado porque minha mãe me deixa empurrar o
carrinho.

Nesse caso não temos um texto, apesar de haver uma coesão relativamente
forte no encadeamento das sentenças, mas as relações de sentido não unificam
essa seqüência.
Outro fator que implica distinção entre coesão e coerência é o de:
 Poder haver textos destituídos de coesão, mas cuja coerência se dá ao nível
da coerência:

(25) Mariana é artista de circo.


Alice é uma das dez dançarinas brasileiras que fazem parte do Bolshoi.
João é violinista.
Todos os filhos de Madalena são artistas.
33

Isso nos permite chegar a algumas conclusões:


1) A retomada de elementos não é o único meio de se constituírem relações
interfrásicas (não é condição necessária para a coerência).
2) A coerência não deve ser buscada unicamente na sucessão linear dos
enunciados, mas, sim, numa ordenação hierárquica. No exemplo dado, o último
enunciado, de ordem superior, garante a textualidade.
3) A coerência não é independente do contexto pragmático no qual o texto está
inserido, isto é, não é independente de fatores, tais como, escritor/locutor,
leitor/alocutário, lugar e tempo do discurso, ou, como diz Marcuschi, “o texto deve
ser visto como uma seqüência de atos de linguagem e não como uma seqüência de
frases de algum modo coesa”.

2.2.4. Situacionalidade

A situacionalidade, segundo Koch (2006), pode ser considerada em duas


direções: da situação para o texto e do texto para a situação.
Na direção da situação para o texto, a situacionalidade refere-se ao conjunto
de fatores que tornam um texto relevante para uma situação comunicativa em curso.
Nesse caso, busca-se determinar em que medida a situação comunicativa, tanto o
contexto imediato de situação, como o entorno sócio-político-cultural em que a
interação está inserida, interfere na produção/recepção do texto. É essa situação
comunicativa que determina escolhas em termos de grau de formalidade, regras de
polidez, variedade lingüística a ser empregada, tratamento a ser dado ao tema, além
de outros da mesma ordem.
No sentido do texto para a situação, percebe-se que o texto tem reflexos
importantes sobre a situação. Ao construir um texto, o produtor reconstrói o mundo
de acordo com suas experiências, seus objetivos, propósitos, convicções, crenças.
O interlocutor, por sua vez, interpreta o texto tendo como parâmetro seus propósitos,
convicções e perspectivas. O texto estabelece, assim, uma mediação entre o mundo
real e o mundo reconstruído no texto.
34

2.2.5. Informatividade

A informatividade se refere à distribuição da informação no texto e, também,


ao grau de previsibilidade (redundância) com que a informação nele contido é
veiculada.
Quanto à distribuição da informação, é preciso que haja um equilíbrio entre
informação dada e informação nova. Um texto em japonês para um falante de
português, por exemplo, tem grau de informatividade de 100% e, por isso, se torna
incompreensível. Nesse caso, faltam âncoras necessárias para o processamento, a
leitura é cognitivamente impossível. A organização ideal do texto se faz pela
combinação de dois movimentos: um de retroação, por meio do qual se retoma a
informação anteriormente introduzida; e um de progressão, que se ancora na
informação dada (retroação) para introduzir a informação nova.
Quanto ao grau de previsibilidade da informação, tem-se que um texto será
menos informativo o quanto for previsível a informação que traz. Há, assim, graus de
informatividade: um texto em que a informação seja toda apresentada de forma
previsível terá baixo grau de informatividade; se a informação é introduzida de forma
menos esperada, haverá grau médio de informatividade; e se toda a informação for
apresentada de maneira imprevisível, o texto terá um grau máximo de
informatividade e exigirá um grande esforço de processamento, podendo parecer
pouco coerente.

2.2.6. Intertextualidade

A intertextualidade corresponde às diversas maneiras pelas quais a


produção/recepção de um dado texto depende do conhecimento de outros textos por
parte dos interlocutores. Nesse sentido, a intertextualidade diz dos diversos tipos de
relações que um texto tem com outros textos.
A intertextualidade será implicada quando, no próprio texto, é feita a menção
à fonte do intertexto (texto inserido em outro texto), como acontece nas citações,
menções, resumos, resenhas e traduções.
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A intertextualidade pode também ser utilizada para ridicularizar ou argumentar


em sentido contrário. Nesse caso, é comum se introduzir no texto intertexto alheio,
sem qualquer menção de fonte. Exemplos desse tipo de uso são muito comuns em
paródias e/ou ironias. Nesse tipo de intertextualidade implícita, a percepção do
intertexto torna-se crucial para a construção do sentido. Veja-se, como exemplo de
intertextualidade, o seguinte texto de Chico Buarque:

Bom Conselho
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado: quem espera nunca alcança
Venha meu amigo, deixa esse regaço
Brinque com meu fogo, venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corre atrás do vento, vim não sei de onde
Devagar é que não se vai ao longe
Eu semeio o vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade.

Nesse texto, Chico Buarque faz uma re-interpretação de provérbios populares


como “quem espera sempre alcança” ou “devagar se vai ao longe” com a intenção,
provavelmente, de criticar a aplicabilidade desses ditos populares.

2.2.7. Intencionalidade

A intencionalidade compreende os diversos modos como os sujeitos usam


textos para prosseguir e realizar suas intenções comunicativas, mobilizando, para
tanto, os recursos adequados à concretização dos objetivos. De forma mais precisa,
a intencionalidade refere-se à intenção do locutor de produzir uma manifestação
lingüística coesa e coerente, ainda que essa intenção não se realize integralmente.
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2.2.8. Aceitabilidade

A aceitabilidade é a contraparte da intencionalidade. Refere-se à


concordância do parceiro em participar de um jogo de atuação comunicativa e agir
de acordo com suas regras, fazendo o possível para levá-lo a um bom termo, visto
que a comunicação humana é regida pelo Princípio da Cooperação. Em sentido
restrito, refere-se à atitude dos interlocutores de aceitarem a manifestação lingüística
do parceiro como um texto coeso e coerente, que tenha para eles alguma
relevância.

2.3. Formas de progressão textual

As formas de progressão textual constituem uma das questões que têm


permeado as reflexões dos lingüistas de texto desde os primeiros momentos.
A progressão textual pode realizar-se por meio de atividades construtivas, de
formulação, em que o locutor optar por introduzir no texto recorrências de variados
tipos: reiteração de itens lexicais, paralelismos, paráfrases, recorrência de elementos
fonológicos, de tempos verbais, etc.
A reiteração traz ao enunciado um acréscimo de sentido que ele não teria se
fosse usado somente uma vez, já que cada um deles traz novos sentido que se
acrescentam às do termo anterior. Veja:

(26) Ela olhava ansiosa pela janela. Mas chovia, chovia, chovia...

Já o paralelismo se dá com a utilização das mesmas estruturas sintáticas,


preenchidas por itens lexicais diferentes.

(27) Se era dia, ela dormia. Se era noite, ela acordava.


Já a paráfrase é inversa ao paralelismo, ou seja, na paráfrase, um mesmo
conteúdo semântico é apresentado sob formas estruturais diferentes. A cada
alteração na apresentação do conteúdo leva, na maioria das vezes a ajustamentos,
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reformulações, desenvolvimentos, síntese ou precisão maior do primeiro sentido. No


português, há uma gama de expressões introdutoras de paráfrase: isto é, ou seja,
quer dizer, ou melhor, em outras palavras, em resumo etc.

(28) Quando afirmamos algo em desacordo com a realidade, isto é, quando


mentimos...

No caso da recorrência de recursos fonológicos, há uma invariante fonológica,


como igualdade de metro, ritmo, rima, assonâncias, aliterações etc.

(29) Sou bravo


Sou forte
Sou filho do norte
Meu canto é de morte...

A recorrência de um mesmo tempo verbal, enquanto uma forma de garantir a


progressão textual, traz indicações ao ouvinte/leitor sobre se a seqüência deve ser
interpretada como comentário ou como relato, se a perspectiva é retrospectiva ou
prospectiva, se se trata de um primeiro ou segundo plano, no relato. No exemplo
abaixo, o primeiro parágrafo estabelece o segundo plano da narrativa (verbos no
pretérito imperfeito do indicativo) e, no segundo parágrafo, o uso do pretérito perfeito
assinala a mudança para o primeiro plano:

(30) O luar iluminava a paisagem fantástica. Ouvia-se o coaxar dos sapos e o


trilar dos grilos. O ar embalsamado e o cintilar das estrelas convidavam ao romance.
De súbito, vindo não se sabe de onde, um grito cortou a magia da noite.

Os elementos de recorrência têm sobre o texto o efeito de intensificação, o


que acaba por tornar a mensagem mais forte na memória do ouvinte/leitor. Esse é
um recurso muito comum em textos de apelo publicitário.
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Além dos elementos que indicamos até aqui como formuladores da


progressão textual, há outros elementos que são também capazes de garantir a
continuidade de sentido do texto. Alguns desses recursos são:
- uso de termos pertencentes a um mesmo campo lexical;
- encadeamento de enunciados, que pode ser por justaposição, com ou sem
articuladores explícitos; ou por conexão, com a presença de conectores;
- progressão temática, que se realiza de diversas maneiras: progressão com
tema constante, progressão linear, progressão com tema derivado, progressão por
substituição, progressão com salto temático;
- progressão tópica. Após o fechamento de uma seqüência tópica, tem-se
continuidade, quando ocorre a manutenção do tópico em andamento.

2.4. Gêneros Textuais

Podemos entender os gêneros textuais como produtos da atividade de


linguagem em funcionamento permanente, nas formações sociais em função de
seus objetivos, interesses e questões específicas. Essas formações elaboram
diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis
(justificando-se que sejam chamadas de gêneros de texto) e que ficam disponíveis
no intertexto como modelos indexados, para os contemporâneos e para as gerações
posteriores.
Inferimos que os textos são produtos culturais e, em função disso, as
produções textuais são representações da articulação de situações de ação com
motivos e intenções socialmente construídos, e essas representações, por sua vez,
manifestam regularidades configuradas nos gêneros de textos vigentes nessa
cultura. Em suma, todo texto pertence a um gênero, em função da situação de ação
de que se origina e de que, dialeticamente, é uma resposta.
Segundo Marcuschi (2002), a conceituação de gênero é de natureza sócio-
comunicativa, baseada em parâmetros pragmáticos, visto que sua sedimentação se
dá através de práticas sociais desenvolvidas e testadas, para atingir propósitos
comunicativos. Esses propósitos contemplam a concepção de que a utilização da
língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que
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emanam dos integrantes duma ou outra esfera da atividade humana. O enunciado


reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma destas esferas, não
só pelo conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada
nos recursos da língua - recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais – mas
também e, sobretudo, por sua construção composicional.
Faz-se necessário que os diversos contextos sociais sirvam-se de múltiplos
gêneros textuais para responder aos anseios de determinados grupos sociais. Para
Bronckart (1999), a espécie humana caracteriza-se pela diversidade e pela
complexidade de suas formas de organização e de suas formas de atividades.
Essas peculiaridades fazem com que se considere as ações humanas em suas
dimensões sociais e discursivas. Decorrente dessa colocação, justifica-se o estatuto
da linguagem humana como uma esfera de produções interativas associadas às
atividades sociais resultantes do meio em que as atividades se desenvolvem. Nessa
abordagem, assim como a atividade social pode ser enfocada sob o ângulo
psicológico da ação, a atividade lingüística também pode ser vista como ação de
linguagem. Essa manifestação, condicionada a um emissor concreto, se materializa
através de gêneros textuais.
Sendo as esferas de utilização da língua extremamente heterogêneas,
também os gêneros apresentam grande heterogeneidade, compreendendo desde o
diálogo cotidiano até a tese científica. Por esse motivo, Bakhtin distingue gêneros
primários de gêneros secundários. Os gêneros primários são aqueles constituídos
em situações de comunicação ligadas a esferas sociais cotidianas de relação
humana (diálogo, e-mail etc), já os secundários estão ligados a esferas públicas e
mais complexas muitas vezes mediada pela escrita.
É importante ressaltar que a concepção de gênero subjacente a essa idéia é
a de que o gênero não é estático. Como qualquer outro produto social, o gênero está
sujeito a mudanças, decorrentes não só de transformações sociais, como também
devidas ao surgimento de novos procedimentos de organização e acabamento da
arquitetura verbal, em função de novas práticas sociais que os determinam. Um
exemplo do caráter dinâmico do gênero é o currículo vitae; há a alguns anos, um
currículo poderia ter inúmeras páginas, quanto maior fosse o currículo, mas eficiente
deveria ser o candidato. Nos dias de hoje um currículo deve ser curto, de poucas
40

páginas, um candidato a um emprego tem que além de ter boas atividades


profissionais saber selecionar as informações mais relevantes de sua carreira de
forma a não transformar seu currículo num conjunto maciço de informações
desnecessárias e pouco relevantes.
É, ainda, importante que se estabeleça a diferença entre gênero e tipo de
texto. A noção de tipo de texto está relacionada não apenas ao texto, mas à
estruturação, conteúdo e estilo das diversas classes de textos. Como tipos de textos
temos o narrativo, o descritivo, o expositivo, o injuntivo e o argumentativo. Dessa
forma, pode-se inferir que o tipo de texto está relacionado ao evento no interior do
qual a atividade verbal está situada, os quais possuem estrutura e conduzem-se em
conformidade com um estilo.

2.5. Lingüística Textual e contexto

A Lingüística Textual parte do pressuposto de que todo fazer (ação) é


necessariamente acompanhado de processos de ordem cognitivo, de modo que o
agente dispõe de modelos e tipos de operações mentais. No caso do texto,
consideram-se os processos mentais de que resulta o texto. De acordo com KOCH
(2006), nessa abordagem “os parceiros da comunicação possuem saberes
acumulados quanto aos diversos tipos de atividades da vida social, têm
conhecimentos na memória que necessitam ser ativados para que a atividade seja
coroada de sucesso”. Essas atividades geram expectativas, de que resulta um
projeto nas atividades de compreensão e produção do texto.
A partir da noção de que o texto constitui um processo, freqüentemente se
definem quatro grandes sistemas de conhecimento, responsáveis pelo
processamento textual:
Conhecimento lingüístico: corresponde ao conhecimento do léxico e da
gramática, responsável pela escolha dos termos e a organização do material
lingüístico na superfície textual, inclusive dos elementos coesivos.
Conhecimento enciclopédico ou de mundo: compreende as informações
armazenadas na memória de cada indivíduo. O conhecimento do mundo
compreende o conhecimento declarativo, manifestado por enunciações acerca dos
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fatos do mundo (“O Iguatemi é o maior shopping da América Latina”) e o


conhecimento episódico e intuitivo, adquirido através da experiência (“Não dá para
encostar o dedo no ferro em brasa.”).
Ambas as formas de conhecimento são estruturadas em modelos cognitivos.
Isso significa que os conceitos são organizados em blocos e formam uma rede de
relações, de modo que um dado conceito sempre evoca uma série de entidades. É o
caso de novela, ao qual se associam: atores, televisão, figurino, enredo, cenário etc.
Aliás, graças a essa estruturação, o conhecimento enciclopédico transforma-se em
conhecimento procedimental, que fornece instruções para agir em situações
particulares e agir em situações específicas.
Conhecimento interacional: relaciona-se com a dimensão interpessoal da
linguagem, ou seja, com a realização de certas ações por meio da linguagem.
Divide-se em:
conhecimento ilocucional: referentes aos meios diretos e indiretos utilizados
para atingir um dado objetivo;
conhecimento comunicacional: ligado ao anterior, relaciona-se com os meios
adequados para atingir os objetivos desejados;
conhecimento metacomunicativo: refere-se aos meios empregados para
prevenir e evitar distúrbios na comunicação (procedimentos de atenuação,
paráfrases, parênteses de esclarecimento, entre outros).
Conhecimento acerca de superestruturas ou modelos textuais globais:
permite aos usuários reconhecer um texto como pertencente a determinado gênero
ou tipo.

O processamento do texto depende não só das características internas do


texto, como do conhecimento dos usuários, pois é esse conhecimento que define as
estratégias a serem utilizadas na produção/recepção do texto. Todo e qualquer
processo de produção de textos caracteriza-se como um processo ativo e contínuo
do sentido, e liga-se a toda uma rede de unidades e elementos suplementares,
ativados necessariamente em relação a um dado contexto sócio-cultural. Dessa
forma, pode-se admitir que a construção do sentido só ocorre num dado contexto.
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É o contexto cria efeitos que permitem a interação entre informações velhas e


novas, de modo que entre ambas se cria uma implicação. Essa implicação só é
possível porque existe uma continuidade entre texto e contexto.
O sentido de um texto e a rede conceitual que a ele carrega emergem em
diversas atividades nas quais os indivíduos se engajam. Essas atividades são
sempre situadas e as operações de construção do sentido resultam de várias ações
praticadas pelos indivíduos, e não ocorrem apenas na cabeça deles. Essas ações
são conjuntas e coordenadas: o escritor / falante tem consciência de que se dirige a
alguém, num contexto determinado, assim como o ouvinte/leitor só pode
compreender o texto se o inserir num dado contexto.
O sentido de um texto é construído na interação entre o texto e os sujeitos e
não como algo prévio a essa interação. A coerência, por sua vez, deixa de ser vista
como mera propriedade ou qualidade do texto, e passa a ser vista ao modo como o
leitor/ouvinte, a partir dos elementos presentes na superfície textual, interage com o
texto e o reconstrói como uma configuração veiculadora de sentidos.
Essa nova visão acerca de texto, contexto e interação resulta, inicialmente, de
uma contribuição relevante, proporcionada pelos estudiosos das ciências cognitivas:
a ausência de barreiras entre exterioridade e interioridade, entre fenômenos mentais
e fenômenos físicos e sociais. De acordo com essa nova perspectiva, há uma
continuidade entre cognição e cultura, pois esta é apreendida socialmente, mas
armazenada individualmente.
Ressalta-se, também, a evolução da noção de contexto. Para a análise
transfrástica o contexto era apenas o co-texto (segmentos textuais precedentes e
subseqüentes, a um dado enunciado). Já para a Gramática de Texto contexto é a
situação de enunciação, conceito que foi ampliado para abranger, na Lingüística
Textual, o entorno sócio-cultural e histórico comum aos membros de uma sociedade
e armazenado individualmente em forma de modelos cognitivos. Atualmente, o
contexto é representado pelo espaço comum que os sujeitos constroem na própria
interação.
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ÚLTIMAS PALAVRAS

Vimos, durante nosso estudo sobre os estudos de Semântica e Lingüística


Textual, que esses dois campos do conhecimento estão relacionados, uma vez que
a última trata da construção do sentido no texto e a primeira estuda,
especificamente, questões relativas ao sentido.
A Semântica, assim como o significado, não é uma noção única, pelo
contrário, essa ciência se subdivide em várias, cada uma elegendo uma definição de
significado que acaba por representar uma relação particular entre a linguagem e o
mundo. Para o estruturalismo, o significado é uma unidade de diferença e não tem
nada a ver com o mundo. Para a Semântica Formal o significado é um termo
complexo que se compõe de duas partes, o sentido e a referência; o sentido de um
nome é o modo de apresentação do objeto/referência. Já a Semântica da
Enunciação, vê o significado como o resultado do jogo argumentativo criado na
linguagem e por ela. E para a Semântica Cognitiva, os conceitos são adquiridos por
meio de nossas manipulações sensório-motoras com o mundo.
A Lingüística Textual parte do pressuposto de que todo fazer (ação) é
necessariamente acompanhado de processos de ordem cognitiva, de modo que o
agente dispõe de modelos e tipos de operações mentais. No caso do texto,
consideram-se os processos mentais de que resulta o texto.
Para essa ciência, o texto surge da relação necessária entre um locutor e um
interlocutor. Nesse processo de construção de sentido que constitui a formação do
texto muitos elementos (coerência, coesão, situacionalitade, intertextualidade...) são
utilizados com o fim de criar pistas para que o interlocutor chegue ao sentido
esperado ou desejado pelo locutor. Essas atividades acabam por gerar expectativas,
de que resulta um projeto nas atividades de compreensão e produção do texto.
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REFERÊNCIAS

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Introdução à lingüística textual. São Paulo: Martins
Fontes, 2006.
ILARI, R. & GERALDI, J. W. Semântica. São Paulo: Ática,1999.
MUSSALIM, Fernanda & BENTES, Anna Christina. (Orgs.) Introdução à Lingüística:
domínios e fronteiras, v. 1 e v. 2. São Paulo: Cortez, 2004.

Indicações de Leitura

BENVENISTE, E. Problemas de Lingüística Geral. São Paulo, Ed. Nacional, 1976.

FIORIN, L.; SAVIOLI, P. Lições de texto: leitura e redação. SãoPaulo: Ática, 1996.

GUIMARÃES, E. A articulação do texto. São Paulo: Scipione, 1990.

______. História da semântica, Campinas, Pontes. 2003.

KOCH, Ingedore G. Villaça. Texto e Coerência. São Paulo: Cortez, 1989.

______. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

MARCUSCHI, L. A lingüística de texto: o que é como se faz. Recife: Editora da


UFPE, 1983.
______. Aspectos lingüísticos, sociais e cognitivos da produção de sentido. 1998,
(mimeo).

Orlandi, E. P. Língua e conhecimento lingüístico. São Paulo, Cortez. 2002.


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AVALIAÇÃO

QUESTÃO 01
Em que consiste a Semântica?
a. ( ) Nos estudos fonológicos.
b. ( ) No estudo do significado.
c. ( ) Na ciência que trata da relação entre discurso e sentido.
d. ( ) No ramo da lingüística responsável pelo estudo da gramática.

QUESTÃO 02
Como o estruturalismo saussureano define o significado?
a) ( ) como uma unidade de diferença, que se dá numa estrutura de diferenças com relação a
outros significados.
b) ( ) como um termo complexo que se compõe de sentido e referência.
c) ( ) como um conceito.
d) ( ) como uma palavra de significado ambíguo.

QUESTÃO 03
Para a Semântica Formal:
a) ( ) a relação entre linguagem é mundo é fundamental.
b) ( ) o significado é resultado de um jogo argumentativo.
c) ( ) os conceitos são adquiridos por meio de nossa experiência sensório-motora.
d) ( ) a relação entre linguagem e mundo não interessa.

QUESTÃO 04
O significado é considerado o somatório das suas contribuições em inúmeros fragmentos do
discurso, para:
a) ( ) a Semântica Cognitiva.
b) ( ) a Semântica Formal.
c) ( ) a Semântica Estruturalista.
d) ( ) a Semântica da Enunciação.

QUESTÃO 05
Como a Semântica Formal explica a diferença entre as seguintes sentenças: (1) A estrela da
manhã é a estrela da manhã; e (2) A estrela da manhã é a estrela da tarde.
a) ( ) A sentença expressa em (1) é uma verdade óbvia que independe dos fatos no mundo, a
sentença (2) apresenta uma relação de igualdade que necessita ser verificada no mundo.
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b) ( ) A primeira sentença é verdadeira, enquanto a segunda é falsa.


c) ( ) Não há diferença entre as duas sentenças.
d) ( ) A primeira sentença não condiz com a realidade dos fatos.

QUESTÃO 06
Segundo a Semântica Formal, é o sentido que nos permite chegar à referência; quando
descobrimos que dois caminhos levam à mesma referência, aprendemos algo sobre o mundo.
Dessa forma, qual dos seguintes termos NÃO tem como referente a cidade de São Paulo:
a) ( ) São Paulo.
b) ( ) cidade maravilhosa.
c) ( ) terra da garoa.
d) ( ) capital do Estado de São Paulo.

QUESTÃO 07
Qual dos termos grifados abaixo NÃO pode ser considerado um quantificador:
a) ( ) Nem tudo são flores.
b) ( ) Toda a água do rio secou.
c) ( ) Encontrei uma chave perdida na rua.
d) ( ) O João só convidou a Maria para ir ao cinema.

QUESTÃO 08
Como é entendida a negação para a Semântica da Enunciação:
a) ( ) Como um operador que freqüentemente causa ambigüidade.
b) ( ) Como um advérbio modificador de um substantivo.
c) ( ) Como um fenômeno de polissemia.
d) ( ) Como um item de escopo amplo.

QUESTÃO 09
Com relação à Lingüística Textual, tem-se que a análise transfrásica se preocupa com:
a) ( ) a relação entre os itens que compõem uma frase.
b) ( ) a identificação do sentido de cada item de uma frase.
c) ( ) a descrição dos processos que constroem o sentido de uma frase.
d) ( ) as relações que se estabelecem entre as frases e os períodos de forma a se construir uma
unidade de sentido.

QUESTÃO 10
Qual era o objetivo que serviu de base para a elaboração das gramáticas textuais:
a) ( ) a constituição de um material para o estudo de peculiaridades textuais de obras literárias.
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b) ( ) mostrar que o texto possuía propriedades que diziam respeito ao próprio sistema abstrato
da língua.
c) ( ) obter um tipo de gramática diferenciado, em que se buscava estudar o uso de itens
gramaticais através de textos.
d) ( ) construir um material que servisse de base para o estudo do texto.

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