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Português para Estrangeiros: Territórios e fronteiras.

A pontualidade e o uso dos conectivos temporais em PL2E: entendendo a cultura


para entender a gramática

Adriana ALBUQUERQUE (PUC-Rio, Rio de janeiro – Brasil)

1. Introdução

O processo de ensino e aprendizagem que envolve a utilização dos conectivos temporais,


introdutórios de orações subordinadas, apresenta complicadores não só para o aprendiz de
português como segunda língua no Brasil (PL2E), mas também para os professores envolvidos na
tarefa de explicar o emprego de tais conectivos. Não há dúvidas que existem regras gramaticais
que estabelecem critérios para o emprego dos tempos verbais do subjuntivo e/ou do indicativo.
Contudo, estes critérios que orientam o aprendiz para a escolha dos tempos verbais de acordo
com o uso de determinados conectivos têm apresentado casos de flutuação. Neste trabalho,
tecemos algumas considerações acerca dos parâmetros que norteiam os casos de flutuação,
levando em consideração à idéia de tempo relacionado a padrões culturais que envolvem o
conceito de pontualidade para o brasileiro.

2. Objetivos

O objetivo macro das reflexões apresentadas nesta comunicação é uma tentativa de


direcionar o aprendiz e, sobretudo, o professor de português para estrangeiros para
particularidades que envolvem o universo funcional dos conectivos temporais empregados em
orações que demandam o uso ora do modo indicativo, ora do modo subjuntivo.
A descrição do uso sistematizado e dos casos de flutuação das regras dos conectivos
temporais nos permite desenvolver, conscientemente, atividades que se aproximam do uso real
que os brasileiros realizam na escolha destes conectivos durante a interação verbal. Aprimorar as
atividades didáticas nos exercícios elaborados para os aprendizes de português como L2,
interligando gramática e cultura, é uma tarefa que demanda pesquisa, observação, análise e,
conseqüentemente, proposta de aplicação efetiva em sala de aula. Portanto, este trabalho, ainda
que em fase inicial, pretende iniciar um caminho longo de desenvolvimento de estudos que
ofereçam subsídios, teóricos e práticos, para o profissional inserido na área de ensino e
aprendizagem de PL2E.

3. Sistematização de uso dos conectivos temporais

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Na construção de estruturas realizadas com a utilização de conectivos temporais, tais
como antes que, até que, quando, assim que, sempre que, logo que e enquanto, podemos
observar dois grupos diferenciados: a) aquele que obriga o uso do subjuntivo, a saber, antes que
e até que e b) aquele que permite o uso dos modos subjuntivo e indicativo, tais como, quando,
assim que, sempre que, logo que, depois que e enquanto.
Nesta divisão, observa-se que os conectivos que obrigam o uso do subjuntivo aceitam,
apenas, o presente do subjuntivo quando se pretende indicar os valores semânticos de presente
ou de futuro.
Exemplos:

1) Peça para que ele venha falar comigo antes que saia.
2) Não vou embora até que consiga falar com o chefe.

No caso dos conectivos que não obrigam o uso do subjuntivo, quando se deseja expressar
o tempo futuro, utiliza-se apenas o futuro do referido modo.
Exemplos:

3) Viajarei assim que sair de férias.


4) Faça o relatório depois que terminar a reunião.

Se não desejamos exprimir a idéia de futuro, não utilizamos o subjuntivo. Vejamos:

5) Quando tenho tempo, viajo com a família.


6) Depois que chego em casa, não quero saber de trabalho.

Contudo, têm-se observado, em diversos tipos de textos, orais e/ou escritos, o emprego
dos conectivos temporais que não obrigam o uso do subjuntivo com o tempo presente do referido
modo verbal. São estes casos de flutuação da regra que trazem dúvidas, para o aprendiz e para o
professor, e que não são, muitas vezes, apresentados nas aulas e no material didático de PL2E. A
seguir, alguns exemplos desta flutuação.

4. Casos de flutuação

Os casos de flutuação das regras de uso dos tempos do subjuntivo com os conectivos
temporais que, em princípio, não aceitariam o presente do subjuntivo, têm sido uma constante em
diversos contextos situacionais. Em trabalho recente, sobre a descrição e a análise de um
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conjunto de conectivos que permitem ou não casos de flutuação (cf. ALBUQUERQUE, 2007),
observamos que os fatores que podem determinar a escolha do presente do subjuntivo em
ambientes em que se espera encontrar o futuro do subjuntivo podem ser:

a) o tipo de modalidade da linguagem - oral e escrita;


b) o tipo de registro de linguagem - formal e informal;
c) a tipologia semântica dos verbos; e
d) a escolha do conectivo temporal de acordo com a idéia de posterioridade (depois que,
logo que), simultaneidade (enquanto) e habitualidade (sempre que).

Para esta comunicação, pesquisamos a possibilidade de encontrarmos casos de flutuação


com os conectivos temporais que obrigam o uso do subjuntivo. Contudo, não encontramos no
levantamento de dados realizado através dos mecanismos de pesquisa do Google nenhum caso
de flutuação com os conectivos ANTES QUE e ATÉ QUE.
Por outro lado, com os conectivos temporais que não obrigam o uso do subjuntivo, tais como,
quando, assim que, depois que, logo que, sempre que e enquanto a freqüência de casos de
flutuação é bastante comum.Vejamos os exemplos a seguir:

7) Processaremos a encomenda assim que recebamos a informação do seu cartão de...


(www.astro.com/prod/pr_trade_p.htm - 25k)

8) Vamos produzir outro, logo que tenha um tempinho. Agora estou no Congresso,
tomando o pulso do dia, logo mais farei isso. (oglobo.globo.com/online/blogs/ tereza)

9) Efetue o lance apenas quando queira comprar realmente o produto ...


(www.mercadolivre.com.br)

10) Com o fim de facilitar esse objetivo, os albergues deverão proporcionar


estacionamento prolongado sempre que seja possível.
(www.hostel.org.br/home.php?secao=missao - 38k)

Do ponto de vista da enunciação, todos estes conectivos expressam valores temporais


simultâneo ou posterior ao momento da fala, ou seja, após o ponto dêitico enunciativo. É este fator
que nos permite apontar a idéia de que a construção e a aceitabilidade dos casos de flutuação
apresentados podem envolver aspectos não só de natureza gramatical, mas, sobretudo, de

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natureza cultural, envolvendo questões relacionadas à tolerância do brasileiro em situações de
não-pontualidade.

5. O brasileiro e o conceito de pontualidade

Para o brasileiro, a formação do pensamento conceitual sobre pontualidade difere


significativamente de outras culturas. A tolerância ou não para o atraso faz parte do universo
sócio-cultural que envolve as relações, sobretudo, profissionais e/ou pessoais no Brasil. Segundo
Lantolf (2000), há evidências que mostram que é possível apropriar-se de uma segunda cultura e,
neste processo de aculturação, sobretudo em casos de imersão, é necessário aprender a
“funcionar” em uma nova cultura sem comprometer a sua própria identidade ou a sua visão do
mundo. Aceitar, portanto, a não-pontualidade do brasileiro, em algumas situações, não significa
perder o conceito de pontualidade que o aprendiz traz da sua própria cultura. Neste caso, o
desenvolvimento do pensamento conceitual é o mais importante porque governa todas as facetas
de nossas atividades diárias. Este pensamento estrutura o que nós percebemos, o modo como
nos colocamos no mundo e como nos relacionamos com o outro.
Seguindo esta linha de reflexão, acreditamos, pois, que é importante notar que existe no
Brasil uma “tolerância” lingüística para a aceitação dos casos de flutuação com os conectivos
temporais e que nos parece estar relacionada à questão da (não) pontualidade do brasileiro
expressa por meio de um tipo de tolerância que funciona em nível sócio-cultural. Santos (2007),
apresenta várias situações que demonstram que o tempo de tolerância para os atrasos no Brasil
difere de acordo com inúmeras situações sociais, profissionais, pessoais e familiares em que
estamos envolvidos.
Por sua vez, o emprego dos conectivos temporais está também relacionado a diferentes
tipos de situações, o que nos permite observar que há regras sistematizadas para os casos de
flutuação também. Os conectivos que obrigam o uso do subjuntivo, por exemplo, não aceitam a
flutuação. As idéias introduzidas por estes conectivos estão localizadas ANTES ou ATÉ o ponto
dêitico da enunciação. Encontros profissionais, por exemplo, que demandam mais pontualidade,
ou seja, apresentam uma tolerância menor para atrasos longos, estão diretamente relacionados à
idéia semântica da anterioridade (antes) ou da pontualidade (até). Portanto, parece-nos haver,
nesta situação, uma relação implícita direta entre gramática e cultura que nos permite
compreender os mecanismos que norteiam a não-aceitabilidade dos casos de flutuação em
estruturas formadas com os conectivos antes que e até que.
Por outro lado, as idéias que são introduzidas pelos conectivos que aceitam a flutuação
são realizadas simultânea ou posteriormente ao ponto dêitico da enunciação (enquanto, quando,
sempre que, depois que, logo que, assim que). A funcionalidade destes conectivos em situações

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que não exigem anterioridade ou pontualidade é realizada sem a necessidade rígida do emprego
das regras estabelecidas para a utilização dos tempos presente ou futuro do subjuntivo.

6. Considerações finais

Para que entendamos e aceitemos as situações de não-pontualidade e os casos de


flutuação das regras que estabelecem o emprego dos conectivos, é preciso considerar os
parâmetros que norteiam a relação estabelecida entre a língua e a cultura. Portanto, acreditamos
que o ensino e a aprendizagem de segunda língua (L2) devem estar associados diretamente à
aquisição da segunda cultura (C2) da língua alvo (cf. Lantolf,2000).

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE, A. F. de S. (2007). “Algumas considerações sobre o emprego dos conectivos


temporais em aulas de PL2E”. Texto apresentado no 16º Intercâmbio de Lingüística Aplicada,
realizado na Universidade de São Paulo, SP.
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Nacional,1994.
CUNHA, C. & CINTRA L. (2001). A nova gramática do Português Contemporâneo.Rio de Janeiro:
Nova Fronteira,
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LANTOLF, J. P. 2000 [1999]. “Second culture acquisition: cognitive considerations” In: HINKEL, E.
(ed.) Culture in second language teaching and learning. 2a. ed. Cambridge, UK: Cambridge UP,;
Pp. 28-46
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“quando” na língua portuguesa. Dissertação de mestrado defendida no programa de Estudos da
Linguagem da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
PERES, J. A. (1984). Elementos para uma gramática nova. Coimbra: Almedina.
PERINI, M. A. (1994). Gramática Descritiva do Português. São Paulo, Ática.
SANTOS, D. T. (2007). Tempo intercultural: o conceito de pontualidade na cultura brasileira e o
ensino/aprendizagem de PL2E.Tese de doutorado defendida no programa de Estudos da
Linguagem da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
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