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ESCOLA DE SAÚDE PÚBLICA DO CEARÁ – ESP / CE PAULO MARCELO MARTINS RODRIGUES

HASTANYA MARIA MENDONÇA LEITE

AUTO-IMAGEM NA PERSPECTIVA DO ENVELHECIMENTO

FORTALEZA

2007

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HASTANYA MARIA MENDONÇA LEITE

AUTO-IMAGEM NA PERSPECTIVA DO ENVELHECIMENTO

Monografia apresentada à Escola de Saúde Pública do Ceará, Paulo Marcelo Martins Rodrigues, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Gerontologia.

Orientadora:

Lucila Bomfim Lopes Pinto, Msc

FORTALEZA

2007

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HASTANYA MARIA MENDONÇA LEITE

AUTO-IMAGEM NA PERSPECTIVA DO ENVELHECIMENTO

Especialização em Gerontologia

Escola de Saúde Pública do Ceará

Aprovada em:

/

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Banca Examinadora:

Lucila Bomfim Lopes Pinto, Mestra

Orientadora

Rosita de Lina Paraguaçu Assumpção Professora examinadora I

Tulia Fernanda Meira Garcia

Professora examinadora II

Rosita de Lina Paraguaçu Assumpção Professora examinadora I Tulia Fernanda Meira Garcia Professora examinadora II
Rosita de Lina Paraguaçu Assumpção Professora examinadora I Tulia Fernanda Meira Garcia Professora examinadora II

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Dedico este trabalho em memória da minha amada mãe, Helenita Mendonça Leite, a qual não vi envelhecer. O que sinto hoje em meu coração existe porque essa pessoa tão especial olhou por mim, cuidou, acreditou, esteve e ainda permanece presente na trajetória de minha vida. Com suas suaves e sábias palavras e gestos acalentadores, ensinou-me a arte da compreensão, do carinho, respeito e amor. Ajudou-me a escolher o melhor caminho e segui-lo. Através do tempo e da distância, você faz muito mais do que possa imaginar. Muitas coisas deram certo Porque você sempre esteve e ainda está por perto. A você, minha eterna saudade, gratidão, admiração profunda e meu imensurável amor.

AGRADECIMENTOS

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A Deus, pelo equilíbrio, serenidade e conforto espiritual.

Aos meus pais, José Leite Furtado e Helenita Mendonça Leite, responsáveis pela minha existência, pelo carinho, amor e dedicação que sempre tiveram por mim.

Aos meus filhos, Patni, Idya e Adya, torcedores féis em todas as minhas conquistas. Vocês que são meus verdadeiros parâmetros profissionais e emocionais. São as razões especiais da minha vida. Obrigada pela compreensão, confiança e apoio imprescindíveis.

Ao meu amado irmão Halânio, pela maneira peculiar de estar presente em minha vida em todos os momentos. Aprendemos a nos respeitar pelas nossas pequenas diferenças e imensas semelhanças, e descobrir o verdadeiro sentido do amor fraternal.

Agradeço, de maneira especial, aos meus amados tios Tavares e Branca, pelo carinho, confiança e incentivo, fonte de intenso estímulo e esperança. Obrigada pela presença indispensável em minha vida, e por enfrentarem comigo todos os percalços nas horas mais difíceis e dolorosas.

A minha amiga Sissi, a quem agradeço a oportunidade de realização desse Curso de

Especialização. Minha gratidão pela confiança, carinho, sensibilidade, cumplicidade e fidelidade inabaláveis.

À minha terapeuta, Elusa Laprovitera, pela escuta atenta e respeitosa em minhas

reflexões, momentos de angústias e alegrias, sempre me transmitindo confiança e sabedoria, com paciência e dedicação.

Ao meu estimado amigo e terapeuta, Nelson Barros, por quem tenho verdadeiro carinho e admiração. Obrigada pelas orientações, apoio e carinho imprescindíveis.

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Às minhas queridas professoras da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Cláudia Jardim, Luíza Freitas, Patrícia Passos e Rosita Paraguassu. Vocês marcaram o começo desta trajetória, pelas sugestões valiosas de leituras responsáveis por grandes mudanças na minha vida.

A Maria Gomes de Queiroz, Coordenadora do Curso de Especialização, gerontóloga

dedicada, fonte de intenso estímulo e esperança. Admiro-a pela imensa capacidade

de doação.

À Prof.a Lucila Bomfim Lopes Pinto, minha orientadora, pela generosa disponibilidade, pronto acolhimento, discussão de textos e intercâmbio de experiências. Obrigada por ter apostado no meu trabalho, apesar do pouco tempo. Concedeu importantes contribuições para a elaboração e articulação das idéias aqui apresentadas.

A Guirlanda Ponte, coordenadora do Programa de Ação Integrada para o Aposentado

– PAI, e toda sua equipe, da qual recebi bastante apoio, confiança e espaço

privilegiado, em minha época de estágio. Lá aprendi muito sobre Gerontologia na convivência com os idosos e o prazer de tê-los junto a mim, nos momentos de trocas enriquecedoras e de descobertas.

A todos os professores do Curso de Especialização, que dedicaram seu tempo

atuando na área do envelhecimento. Agradeço-lhes pela riqueza de nossos encontros

e pela mútua experiência de transmissão de conhecimentos específicos, que

proporciona a mim um significativo aprendizado. Enfim, a todos que fazem parte da Escola de Saúde Pública do Ceará.

Aos colegas do Curso de Especialização, com os quais tive oportunidade de desfrutar do convívio agradável. Criamos laços de amizade que serão sempre lembrados. E, particularmente, à Neila, pessoa atenciosa e solidária. Concedeu importante contribuição para elaboração desse trabalho.

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Agradecimentos a todos aqueles que exprimiram o interesse e colaboraram direta e indiretamente na execução deste trabalho monográfico.

Obrigada muito especial a todos os idosos que participam do curso “Auto-estima- aceitação de si”, no Programa de Ação Integrada para o Aposentado – PAI, com os quais aprendi por meio de seus sofrimentos, medos, perdas, angústias, conquistas, alegrias e aquisições, o modo absolutamente singular de como estão envelhecendo e lidando com as transformações. No vínculo transferencial, pude trabalhar, de alguma forma, em prol de uma melhor qualidade de vida e de um melhor redimensionamento de suas existências, para que envelheçam vitalizados, com potência criadora, dignificando esta etapa do envelhecimento humano.

existências, para que envelheçam vitalizados, com potência criadora, dignificando esta etapa do envelhecimento humano.

Penso ser preferível para uma pessoa idosa continuar vivendo como se a vida não fosse acabar e aguardar o dia seguinte como se tivesse ainda muitos séculos pela frente. Então viverá de maneira adequada. Mas, quando a pessoa tem medo, quando deixa de olhar em frente e passa a olhar apenas para o passado, ela petrifica-se, torna-se hirta, e morre antes do tempo. Se ela continua vivendo na expectativa da grande aventura que tem pela frente, então viverá – e isto é o que o inconsciente pretende fazer.

Carl Gustav Jung

RESUMO

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Esta pesquisa de cunho bibliográfico tem como objetivo analisar a auto-imagem do idoso, constituída na perspectiva do envelhecimento em uma dimensão biológica e psicossocial, perante a cultura contemporânea. A cultura contemporânea conceitua representações específicas da velhice, de forma a tentar solucionar o problema social em que esta se transformou. A auto-imagem é uma elaboração complexa, prenhe de significados e interpretações, dependente de uma rede de informações, convenções e interações sociais que não opera de modo linear. Os significados não são fixos nem existe uma lógica especial, que permita interpretação determinante de seus sentidos. O envelhecimento é tomado como um tabu em nossa cultura atual do consumo e imagens, quando onde o corpo jovem é supervalorizado e sua vitalidade não tem limites, esquecendo-se que o jovem e o velho compreendem duas partes indissolúveis da totalidade da vida. Como resultado de toda experiência, outra perspectiva se fez necessária. Ao trabalhar com pacientes idosos, a busca por um reconhecimento de sua auto-imagem torna-se ainda mais marcante, mas, também, mais justificada, pois se reporta às inúmeras experiências de exclusão e de mal- estar vividos. Concluindo que a vida não pode ser pensada sem a morte; não, por acaso, os homens são chamados de “mortais”, numa constante relembrança daquilo que todos procuram ignorar, negar, camuflar ou mesmo desafiar. Trata-se, então, de fazer uma apologia do envelhecimento, contra o qual todos, lutam de formas diferentes, como de reconhecer as fronteiras e limites desta luta. As experiências, entretanto, passadas se repetem, são passiveis de se ressignificar, a serviço de um futuro. O idoso pode recuperar as reminiscências na tentativa de uma renovação, de uma reinscrição.

Palavras-chave: auto-imagem, velhice e contemporaneidade.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

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2.1 Gerontologia, Psicologia e Interdisciplinaridade

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2.2 O Narcisismo

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2.3 Velhice, mal-estar na cultura contemporânea ocidental

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2.4 Auto-imagem com suporte trabalho de grupo

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3 METODOLOGIA

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

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REFERÊNCIAS

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1 INTRODUÇÃO

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A velhice pode ser agregadora e bem humorada, interessante, porque interessada. A passagem do tempo não precisa deteriorar, mas pode expandir e refinar.

Lya Luft (2004)

A elaboração desta monografia, destinada ao Curso de Especialização em Gerontologia da Escola de Saúde Pública do Ceará, inicia-se com pesquisas no campo teórico, abordagens de conceitos do tema em foco, fundamentais na Filosofia, Sociologia, Antropologia e Psicologia, no enfoque gerontológico. Busca-se resposta no sujeito de como ele se reconhece diante da vida e na perspectiva de envelhecer, no mundo contemporâneo. Por esse motivo, o tema escolhido para o referido trabalho foi “Auto-imagem na perspectiva do envelhecimento”. A escolha do assunto ocorreu por meio de constatações de trabalhos em grupo e na clínica, anteriores e paralelos ao desenvolvimento desta pesquisa, na relação da imagem corporal que os idosos têm de si na cultura narcísica atual, que se soma ao hedonismo, à queda dos valores, de ideais políticos e religiosos, ao descompromisso com as práticas de solidariedade e cooperação, à banalização de referências éticas, morais, à sensação de vazio existencial, mal-estar. Tudo isto se adiciona à tirania do impacto incessante que, nos últimos tempos, não respeita limites, produzindo sintomas típicos do mundo contemporâneo, apontando para uma problemática premente que traz desafios para nossa clínica, no enfoque gerontológico, traçando um perfil da subjetividade intrinsecamente ligada à cultura.

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Este ensaio tem como objetivo geral analisar a auto-imagem do idoso, constituída na perspectiva do envelhecimento em uma dimensão biológica e psicossocial, perante a cultura contemporânea. São seus objetivos específicos:

compreender a ressignificação de valores relacionados à auto-

conhecer o narcisismo, o Mito de Narciso, relacionado à auto-imagem;

imagem; e

identificar como se processam os vínculos sociais e afetivos, nos

grupos na aceitação do envelhecimento dos idosos e sua relação com a auto-imagem nos dias atuais. Para alcançar os objetivos propostos, circunscrevem-se o seguinte campo epistemológico e o roteiro metodológico que se pretende percorrer: Para a fundamentação teórica, foram constituídos três capítulos relevantes para a finalidade desta pesquisa. No capítulo 2 foram introduzidas as concepções teóricas acerca da Gerontologia, interdisciplinaridade e Psicologia; o surgimento da Gerontologia, oriundo da necessidade do crescimento populacional geral e de pessoas idosas, e sua inserção como disciplina curricular nos cursos superiores, ações governamentais com implantação de políticas públicas de saúde e bem-estar para pessoas idosas. A Gerontologia estuda o idoso do ponto de vista científico, em todos os aspectos - físicos, biológicos, psicológicos e sociais -, sendo responsável pelo atendimento global do paciente. O assunto estudado direciona-se para a afirmação de que há muito tempo se vive sob o signo do narcisismo, a auto-imagem que o sujeito tem de si, desde a perspectiva da visão do outro. De forma breve serão apresentados os principais autores que influenciaram no tema, na seara da Psicologia. Será procedido a ligeiro histórico acerca da influência do mito do Narciso, relacionado à imagem e às identificações que cada pessoa elabora de si ao longo de toda história da humanidade. Depois disso, não é possível deixar de analisar as identificações do sujeito com seu mundo, por meio do corpo onde circulam os conflitos pulsionais e as representações recalcadas são traduzidas, por expressarem

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emoções e trocas com o mundo mediante de experiências pessoais, da relação com

o próprio corpo e o corpo do outro, o sujeito elaborando sua imagem corporal. Busca-se entender uma realidade que se vivencia na atualidade, “A velhice como um mal-estar na cultura contemporânea”, em que impera a falta de aceitação do idoso, gerando um mal-estar social no cotidiano, produzindo um esvaziamento e exclusão do velho na cultura. Pretende-se articular as relações entre auto-estima, imagem corporal e velhice. Como ficam hoje os velhos, numa sociedade que se criou para fins de consumo, uma supervalorização do belo, de forma que o culto ao belo e jovem transcende a temporalidade, rebelando-se contra os ataques da deterioração, decadência e morte? O mal-estar experimentado nesse momento de vida do sujeito idoso representa o visível, que esconde questões invisíveis da história de vida pessoal? Ainda discorrendo acerca desse sujeito biológico e psicossocial, a ênfase para o trabalho em “Grupos de Terceira Idade” poderá contribuir para a consciência que o sujeito tem de si e do outro, pois, consciente de si, a pessoa madura pode acolher o sentimento de estranheza, proporcionado pelos diferentes aspectos que constituem o envelhecimento, e poderá ter seu sofrimento amenizado. Portanto, embora o processo de envelhecimento seja conseqüência natural da vida, não se pode evitá-lo, procurando, no entanto, estabelecer bases para que,

nesse período, o idoso possa viver nas melhores condições possíveis de reconhecimento de si e do outro. Precisamente em busca de constituir uma forma com a qual o sujeito se manifesta. Diante do vazio, este o recobre com uma estética. Desta maneira, chega à estética como uma função, na realidade uma função dupla:

apaziguar a angústia, quando recobre o vazio e produz prazer quando circunscreve

o desejo. No tocante ao envelhecimento, pode-se ressaltar que a velhice promove alterações em cada sujeito que vive e essas podem ser de ordem, física, social e psicológica. O envelhecimento é genético e particular, ocorrente conforme cada personalidade e características individuais. Ao abordar os aspectos físicos, podem ser notadas mudanças que ocorrem no corpo orgânico de cada ser humano e essas modificações externas e internas caracterizam-se conforme há o envelhecimento.

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No módulo número 3, fez-se rápido roteiro metodológico, mostrando os principais referenciais estudados. No segmento 4, referente às considerações finais, conclui-se, delineando principais resultados da presente investigação. Segue-se a lista de autores/obras embasaram, quer do ponto de vista teórico, quer sob o prisma empírico, as discussões e achados desta pesquisa.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

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2.1 Gerontologia, Psicologia e Interdisciplinaridade

O que passou não conta? Indagarão as bocas desprovidas. Não deixe de valer nunca. O que passou ensina com sua garra e seu mel.

Thiago de Mello (1984)

A descoberta de interdisciplinaridade na Gerontologia trouxe muitos benefícios a esse campo de saber, uma vez que é caracterizada pela intensidade de trocas e pelo real nível de integração das disciplinas que, não sendo um agrupamento, exige uma aprendizagem que leva a uma atitude nova, sem a qual não poderia existir. A questão do envelhecimento constitui grande desafio político e social, pois apesar de haver ocorrido esse aumento na expectativa de vida da população, ainda há carência de recursos humanos, econômicos e materiais ao atendimento das necessidades do idoso. Portanto, a transformação da velhice em problema social não pode ser encarada apenas como decorrente do aumento demográfico da população idosa. Desde o início da década de 1960, o mundo inteiro começou a tomar consciência de um novo fenômeno de expansão do envelhecimento populacional geral. Esse moto demográfico fez gerar mudanças de atitudes da sociedade, a fim de proporcionar meios, os mais variados, para atender às necessidades e solucionar problemas cotidianos de vida das pessoas maiores de sessenta anos. Surgiu a necessidade de criação e/ou reformulação de políticas que atendam as demandas da população idosa, pois, com o aumento da expectativa de vida dos indivíduos, modifica-se, também, o seu perfil de saúde. Neste sentido, o envelhecimento constitui severo desafio político-social, pois, malgrado ter ocorrido

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este aumento na expectativa da população, ainda existe carência de recursos humanos, econômicos e materiais para o atendimento das necessidades do idoso. Os últimos censos populacionais refletem as mudanças ocorrentes em termos de distribuição populacional nas diferentes sociedades, e estas, por condições diversas, estão deixando de ser sociedades em que predominavam populações jovens e maduras, para se transformarem em sociedades cada vez mais envelhecidas. Ramos (2001) relata que

O interesse pela velhice, nas últimas décadas, necessariamente

passou pela compreensão de alguns aspectos relacionados à dimensão demográfica desse segmento etário. A proporção de idosos em nosso país, em relação ao total da população, atinge, atualmente, níveis superiores aos de qualquer outra época da história. Em países desenvolvidos, esse índice situa-se em torno de quinze por cento e com tendência a um crescimento superior ao de qualquer outro setor

da população. (P. 67).

Em 04 de janeiro de 1994, na perspectiva de atender as necessidades dos idosos, o Governo instituiu a Lei nº. 8.842, onde criando o Conselho Nacional do Idoso, como também dispõe sobre a Política Nacional do Idoso. Tal lei foi regulamentada em 03 de julho de 1996, pelo do Decreto-Lei nº. 1.984. Em decorrência dessa regulamentação, emergiu o Plano de Ação Governamental Integrado para o Desenvolvimento de Política Nacional do Idoso (BRASIL, 1997). Estas conquistas impulsionaram o Ministério da Saúde a levar em consideração, além do que previa a Lei 8.842, as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Somente desde então, elaborou o Programa de Atenção à saúde do Idoso – PAI, objetivando “Garantir, em articulação com as Secretarias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, a atenção integral a saúde do idoso, entendida como conjunto das ações e serviços que visam à promoção, prevenção e recuperação da saúde nos diversos níveis de complexidade do Sistema Único de Saúde, bem como estimular a participação do idoso nas diversas instâncias de controle social do “Sistema Único de Saúde”. Para tanto, foram definidas as seguintes estratégias de ação: promoção, prevenção e recuperação da saúde, organização da rede de serviços, políticas de recursos humanos e estudos de pesquisa.

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Nos últimos anos, se assiste a um constante aumento do número de idosos e a projeção feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, é de que esta população cresça vertiginosamente até 2050. Particularmente no Brasil, 15 milhões de pessoas, representando 8,6% da população, já ultrapassam os 60 anos de idade. Esta proporção chegará a 14%, em 2025, com 32 milhões de idosos, ou seja, o dobro de idosos existentes atualmente. Para a OMS - Organização Mundial de Saúde – o país que apresenta o índice percentual de mais de 7% de idosos em sua população é considerado um país idoso (IBGE, 2002). Estudos da Organização Mundial de Saúde apontam a tendência de um crescimento acentuado da população idosa no Brasil, prevendo-se que crescerá 16 vezes, considerando a projeção de 1950 a 2025. O Brasil passará, então, segundo estimativas da ONU, a ser o país mais envelhecido da América Latina, com o maior contingente populacional de pessoas idosas. Os dados demográficos divulgados pela Organização Mundial de Saúde em 1992 indicavam que havia mais de 416 milhões de idosos, sendo que a estimativa para o ano 2025 era de que 12% da população mundial teriam mais de 60 anos. Nos Estados Unidos, a expectativa média de vida passará de 72,1 anos, em 1990 para 76,4 anos em 2050, para os homens, e de 79 anos para 83,3 anos para as mulheres. A expectativa de vida aos 65 anos passará de 15 para 17,7 anos, no mesmo período para os homens, e de 19,4 para 22,7 anos para as mulheres. Quanto à América Latina, a previsão era de que a expectativa de vida passaria de 64,1 anos, encontrada entre 1980 e 1985, para 71,8 anos, em 2025. No Brasil, esses dados projetavam que o número de idosos passaria de 6 milhões, em 2025 (IBGE, 2002). As demandas citadas há pouco, referentes ao crescimento demográfico, demarcam a necessidade de criação e/ou reformulação de políticas que atendam a população idosa, pois, com o aumento da expectativa de vida, modifica-se, também, seu perfil de saúde. Além da responsabilidade do Governo, a sociedade não pode mais se isentar da participação na melhoria da qualidade de vida das pessoas de terceira idade. Já existem vários projetos para melhor atendê-las, dando-lhes condições e motivos para voltarem a integrar a sociedade e sentirem-se preparadas para o reingresso no mercado de trabalho.

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Para Foucault (1987), a consolidação da velhice é marcada pela decadência física e pela perda de papeis sociais:

Contra as formas de dominação (étnica, social e religiosa); contra as formas de exploração que separam os indivíduos daquilo que eles produzem; ou contra aquilo que liga o indivíduo a si mesmo e o submete, deste modo, aos outros (lutam contra a sujeição, contra as formas de subjetivação e submissão. (P. 235).

De acordo com Lima (1999), apud Lopes (2000, p.5), “ao lado da variabilidade relativa à periodização das fases da vida em diversas sociedades culturais, observar

a transformação de novas formas de pensar o ciclo da vida através da história revela

o quanto esta periodização se torna significativa nas sociedades ocidentais”. A velhice não poderá ser confinada em um sistema assistencial inevitavelmente precário. Aos idosos, deve-se dar a oportunidade de oferecer sua disponibilidade, a experiência, todos os seus talentos e sentimentos em contrapartida à solidariedade à qual têm direito. Será graças a essa reciprocidade que as sociedades poderão conservar ou reencontrar sua unidade. Birman (1994 p. 30) diz que “a velhice não tem concepções, mas interpretações sobre o percurso da existência, e como interpretações, estas concepções se transformam historicamente”. Até a década de 1970, o Brasil foi considerado um país de jovens. Naquela ocasião, as próprias características demográficas da população brasileira foram utilizadas pela ideologia do regime político vigente, para reforçar a idéia discriminatória em relação ao velho. Assim, a imagem da velhice, presente no imaginário das pessoas em geral, foi se impregnando de valores estigmatizadores, nos quais foram evidenciados os aspectos negativos do envelhecimento, tendo como parâmetro a imagem do jovem. Desta forma, a doença, a inatividade, o abandono, as rugas, a flacidez do corpo, a solidão constituem algumas das características que definem o "ser velho". As qualidades opostas a estas foram creditadas como bonificações pertencentes aos jovens. Nesse sentido, a palavra “velho” é carregada de preconceitos, como se o homem não envelhecesse desde o dia de sua concepção. Sendo, portanto, o envelhecimento um processo que percorre toda a vida, logo, o ser humano envelhece enquanto vive. Desta forma o envelhecimento não é estático, mas

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processual, concerne a todos os sujeitos, independentemente de qualquer idade cronológica. A caracterização da palavra ‘velho’, para os dicionários, não trata somente do ser humano, mas também de objetos para a significação de ‘velho’, todavia a população se apropria se desses conceitos e passa a adotá-los para nomear as pessoas idosas. Além dessas dimensões , trazidas pelos respectivos dicionários, apresentam-se outras. Conseqüentemente, o homem é levado a rejeitar a própria velhice, passando a designá-la de terceira idade, como forma de ameninar o peso dos anos, não lhe atribuindo um lugar de destaque em suas reflexões, mantendo a morte à distância. A equivocada utilização desse termo será uma forma de negação de existência do processo inexorável do envelhecer concernente a todos os sujeitos? Para Veras (1996, p. 37),

Terceira idade é um termo em uso pela mídia e pelos falantes de línguas para caracterizar os indivíduos em processo de envelhecimento, ou seja, que já ultrapassam a fase adulta da vida, acima de 65 anos. Essa expressão tem origem francesa para o título de lês universités du Troisiene Age. A França utiliza atualmente o termo Quarta idade para pessoas acima de 80 anos.

Ressalta esse autor citado acima que o preconceito de idade contra a velhice é determinado “etarismo”. Há anos os etaristas não aceitavam a Gerontologia como disciplina ou ciência a ser cultivada no Brasil, pois afirmavam que não havia problemas nessa área do idoso, por possuir apenas 5,3% de pessoas idosas superior a 60 anos. O sentimento de juventude permanece no íntimo das pessoas e as mudanças na aparência, que vão se operando ao longo do tempo, passam desapercebidas para o indivíduo. É o olhar do outro que dá a exata dimensão da passagem dos anos que Simone de Beauvoir retratou na seguinte frase: "O indivíduo idoso sente-se velho através do outro, sem ter experimentado sérias mutações; interiormente não adere à etiqueta que se cola a ele: não sabe mais quem é". (1990, p.358). A crise de valores por que passa a sociedade produz indefinição do atual momento e a necessidade de novos paradigmas provoca ansiedade e modificações no comportamento das pessoas e, em especial, nos idosos e, conseqüentemente,

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nas organizações educacionais direcionadas para atender esse público cada vez mais presente.

É indiscutível a relevância das atividades educacionais, socioculturais, de

lazer e integração dirigidas aos idosos. Para exemplificar, o movimento das universidades abertas à terceira idade experimenta incremento substancial, nos últimos anos, difundindo conceitos e experiências práticas que representam nova

forma de promover a saúde da pessoa idosa. Portanto, é relevante chamar a atenção para a emergência de novos modelos de atenção ao idoso, sintonizados com políticas de saúde que levem em consideração outros âmbitos - social, cultural, psíquico, educacional, intelectual e esportivo. A Gerontologia, ramo científico que compreende a interdisciplinaridade, carece até hoje de estudos aprofundados, de políticas públicas, ou seja, de materialização e enfretamento concreto da realidade em que se encontram os idosos nos dias atuais. Lenoir (1989), apud Lopes (2000), comenta que a transformação do envelhecimento em objeto científico põe em jogo múltiplas dimensões; do desgaste e do prolongamento da vida ao desequilíbrio demográfico e custo financeiro das políticas sociais.

A pluralidade de especialistas e abordagens da Gerontologia não impede a

constituição de um saber claramente delimitado, em que as disciplinas, cada uma a sua maneira, contribuem para definir a última etapa da vida como categoria de idade autônoma, com propriedades específicas dadas naturalmente pelo avanço da idade, a qual exige tratamentos especializados, como, por exemplo, o desgaste físico pelos médicos, a ausência de papéis sociais, pelos sociólogos, a solidão, pelos psicólogos, a idade cronológica, pelos demógrafos, os custos financeiros e as ameaças à reprodução das sociedades, pelos economistas e especialistas na Administração Pública.

O papel da Gerontologia, em sua constituição, incorpora subsídios técnicos e

científicos de outros ramos afins que os transcendem. Ao responder a algumas necessidades, a Gerontologia desenvolve um trabalho interdisciplinar em sua gênese, no fundamento da própria produção do saber e da própria ação interventiva.

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Dessa forma, este texto ressalta a importância da Gerontologia como área de conhecimento relevante para a atuação interdisciplinar, bem como a sua pertinência para as diversas áreas de conhecimento, aqui, em especial, a Psicologia, destacando o processo de envelhecimento no contexto biológico e psicossocial. A interdisciplinaridade e a Gerontologia se estabelecem como temática atual indispensável para a formação do profissional pós-graduado na área do envelhecimento, ao instrumentalizar o discente com a necessária fundamentação, que o impulsionará e o qualificará para a inserção competente no trabalho com o idoso e o envelhecimento, ao mesmo tempo em que engendra a maximização de suas ações no ambiente da práxis, da pesquisa e produção científica. A interdisciplinaridade pode ser definida como um ponto de cruzamento entre atividade (disciplinares e interdisciplinares) com lógicas diferentes. Leis (2005) assinala que a interdisciplinaridade pode ser entendida como uma condição fundamental no ensino e pesquisa na sociedade contemporânea. O conhecimento interdisciplinar não se restringe à escola formal, pois ele ultrapassa e se fortalece na medida em que anfere amplitude de vida e/ou econômica. Para o educador, este cenário de práxis pode estimular as suas competências, apresentando-se como possibilidade de reorganização dos saberes. Pode-se garantir, portanto, que a Gerontologia não sucede por meio de uma incorporação mecânica de teorias. Trata-se de um processo em elaboração, que é contínua, de estruturas sempre novas. No caso a Medicina, o Serviço Social e a Sociologia desenvolvem seus conhecimentos específicos no campo de velhice. Esses conhecimentos desdobram-se para um novo campo de saber, que é capaz de reconstruir e elaborar a síntese desses conhecimentos, incorporando aqueles já formulados em sua práxis. Não se trata, portanto, da redução das ciências a um denominador comum, mas da cooperação dos conteúdos em curso e uso, configurando-se como uma nova totalidade, com um estatuto de coerência cientifica, ou seja, com atividades racionais e caminhos próprios para chegar ao conhecimento de um objetivo. Néri (2001) assinala que a importância da interdisciplinaridade no campo do saber gerontológico não deve restringir a análise da velhice aos seus aspectos biológicos, pois, pensar a velhice de maneira não total é estabelecer uma determinação do biológico sobre os outros.

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A evolução dos conhecimentos em Gerontologia, assim como o grande número as disciplinas que, de forma direta ou indireta, a compõem, situa o profissional de saúde diante de vários conceitos, termos ou expressões que, embora tenham importância fundamental para aprofundar os conhecimentos, podem ser motivo de confusão dentro de uma equipe interprofissional. É preciso, portanto, que se comece a exercer a interdisciplinaridade pela busca de um “idioma comum”. Dourado (2000) expressa que, no campo da Psicologia, até metade do século XX, o estudo do desenvolvimento do adulto da metade de vida acima quase não teve atenção dos estudiosos da época. A maior parte da Psicologia se concentrava na juventude, com base nas idéias de Sigmund Freud de que a personalidade se forma na infância e permanece relativamente idêntica durante a fase adulta. Freud não conviveu muito bem com sua velhice. Para ele, a velhice se fixava em torno dos 50 anos. Acometido de muitas perdas narcísicas durante a sua vida, como a morte de seu pai, de alguns filhos (ele tivera seis filhos), netos e amigos queridos, aos 67 anos descobre que está com câncer na boca e mandíbula. Sentia dores contínuas que lhe causavam grandes sofrimentos. Submeteu-se a 33 cirurgias para deter o câncer que se expandia ao longo dos anos. Freud expressa que, ao corpo como uma das fontes de sofrimento permanente para os homens, que este para sempre será uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e realização, mas que este reconhecimento não deveria ter um efeito paralisador, na medida em que o homem pode mitigar este sofrimento, em parte (inclusive com o avanço da ciência), mas nunca totalmente. Contrapõe, ainda, o esforço narcísico, que busca ludibriar a morte, transformando o homem em um “deus da prótese” (ou seja, apontando seu caráter de engodo) ao mal-estar próprio do desejo. Dourado (2000) lembra que Freud (1919) relata sua estranheza na velhice, ao defrontar-se com a própria imagem:

Estava eu sentado sozinho no meu compartimento no carro-leito, quando um solavanco do trem, mais violento do que o habitual fez girar a porta do toalete anexo, e um senhor de idade de roupão e boné de viagem, entrou. Presumi que ao deixar o toalete, que ficava entre os dois compartimentos, houvesse tomado a direção errada e entrado no meu compartimento por engano. Levantando-me com a intenção de fazer-lhe ver o equívoco, compreendi imediatamente, para espanto meu, que o intruso não era senão o meu próprio

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reflexo no espelho da porta aberta. Recordo-me ainda que antipatizei totalmente com a sua aparência ( 2000, p.309).

Em O mal-estar na civilização (1930/2000), ao pensar sobre as três fontes de sofrimento permanente para os homens, Freud explica que,

O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo podem dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente de nossos relacionamentos com os outros homens. (IDEM, p 95).

O paradoxo da beleza para a vida anímica dos indivíduos continua a intrigar Freud, quando o criador da Psicanálise se interroga sobre as fontes da felicidade. Considera que a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente aos sentidos e ao julgamento – a beleza das formas e dos gestos humanos, a dos objetos naturais, das paisagens e das criações artísticas e mesmo científicas. A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuamente intoxicante. Freud prossegue sua especulação, marcando a dicotomia que parece atravessar o “significante” beleza. Neste momento, a polarização identificada por Freud opõe a “reverência” à beleza que se espera do homem civilizado, à não- “lucratividade” dos objetos estéticos. Freud (1930/2000, p. 90) refere que a beleza era um atributo derivado do sexual. “O que parece certo é sua derivação do campo do sentimento sexual. O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidade

Beleza e atração são originalmente, atributos do objeto sexual”. Assim, para Freud (1930), beleza e atração representam atributos idênticos e referidos ao objeto do desejo sexual. Então o sujeito, principalmente o feminino, é aquele que se define por exercer a atração. Ser belo é uma imposição para condição e uma imposição para uma posição subjetiva. O horror e a discriminação dirigidos à mulher designada como feia decorre da castração que se mostra com a queda da

[

]

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máscara do desejo. O escultor tem razão quando assegura que não é a beleza que falta aos nossos olhos e sim o desejo que ausenta de nosso olhar. Rodin disse certa vez (apud MEDEIROS, 2005):

Não era a beleza que faltava aos nossos olhos, mas estes é que falhariam em não percebê-la. Interessante pensar na feiúra como uma “falha” do olhar. A feiúra não seria então a falta de beleza e sim

a incapacidade de percebê-la. Talvez o artista nos ajude a

compreender o estranho fenômeno do horror e da discriminação que

se atribui a tudo que possa ser designado como feio (p, 68).

Freud começa a formular idéias sobre o assunto. Observou o narcisismo em

pacientes psicóticos e perversos, nos quais o narcisismo seria o ponto comum, que era seu aspecto totalitário no qual as emoções corporais são perdidas na admiração de si mesmo por parte do homem. A abordagem mais detalhada sobre o narcisismo em Freud e outros autores será feita na próxima seção. Carl Gustav Jung foi um dos maiores psiquiatras do mundo. Fundador da Escola Analítica de Psicologia, ele introduziu termos como extroversão, introversão e

a expressão inconsciente coletivo. Ampliou as visões psicanalíticas de Freud,

interpretando distúrbios mentais e emocionais como uma tentativa do indivíduo de

buscar a perfeição pessoal e espiritual. Jung (1991) lançou os alicerces de uma psicologia do adulto ao expor a idéia

de individualização, processo por meio do qual as pessoas se tornam seres humanos completos que estão destinados a ser. Para ele todo indivíduo possui tendência para a individuação ou autodesenvolvimento. Individuação significa tornar- se um ser único, homogêneo. Pode-se traduzir individualização como “torna-se si mesmo”, ou “realização de si mesmo”. Quanto mais consciente de si, por meio do autoconhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível

e pessoal do Eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de

interesses objetivos. Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade da vida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses primários centravam-se em realizações externas, no

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"emergir" como indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisando os mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma razoável, estes tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do que pelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique. Jung (1991) referia-se às depressões que ocorriam tanto nos homens quanto nas mulheres por volta da meia-idade. Segundo o autor, esta fase tem início com uma mudança modesta e sutil, muitas vezes despercebida. Às vezes, uma transformação lenta do caráter da pessoa; outras vezes, são traços esquecidos da infância que voltam à tona. Antigas inclinações e interesses habituais começam a diminuir e são substituídos. Com muita freqüência, os princípios que norteavam a vida da pessoa até então se modificam radicalmente. Da mesma forma como não conseguiram se libertar da infância, também agora os adultos se mostram incapazes de renunciar à juventude. Temem os pensamentos sombrios da velhice que se aproxima de tarefas desconhecidas e perigosas, sacrifícios e perdas que não têm condições de assumir. Beauvoir (1990) assegura que a velhice, como todas as situações humanas, tem uma dimensão existencial: modifica a relação do individuo com o tempo e, portanto, com o mundo e com a própria história. Por outro lado, o homem não vive nunca em estado natural, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade a que pertence. Bobbio (1997) refere que, na velhice, não se consegue escapar à tentação de refletir sobre os próprios passados, que existe com o peso das recordações surgidas após anos de desaparecimento. O presente é fugidio e o futuro pertence à imaginação, reduzindo-se até o completo desaparecimento. No desafio da crise, pesam diferentes fatores, como o grau de satisfação da insatisfação com o que foi obtido, o teor de confiança em si mesmo e as expectativas de sucesso; a auto-estima; a capacidade de correr riscos e conviver com incertezas. As mudanças físicas, nessa fase, provocam efeito significativo do ponto de vista psicológico. Com o envelhecimento, pensamentos, sentimentos a respeito das idades corporais, falhas de memória e de capacidade de raciocínio são mais freqüentes. Preocupações com o disfarce à idade podem ser observadas, e, muitas vezes, provocam uma busca de cirurgias plásticas ou longos períodos em academias, o que pode ser excessivo. Muitas vezes, o isolamento é utilizado como

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mecanismo de defesa contra a pressão e ansiedade geradas pelas relações interpessoais ou grupais. A pressão para que o idoso desempenhe papéis com suas habilidades e interesses pode levá-lo a não conseguir encontrar motivos em seu meio ambiente para continuar se relacionando, aniquilando suas potencialidades residuais para uma vida autônoma. Mesmo assim, os idosos continuam no interior de suas casas, sem desenvolver, no entanto, os valores essenciais e concretos de intimidade protegida, tão necessária ao bem-estar e à segurança dos indivíduos. Baltes (1990) apud Néri (2001) demonstra que doenças, perdas ocupacionais e perdas afetivas têm maior probabilidade de ocorrência para os idosos do que para os adultos jovens; podem ocasionar diferentes graus de ansiedade, dependendo da história pessoal, da disponibilidade de suporte afetivo, no nível social e dos valores de cada um. Na perspectiva de (1997), em sua dimensão social, o envelhecimento pode apresentar dois elementos importantes nessa discussão: a solidão, como estado emocional suscitado pela carência de vínculos afetivos, e o isolamento, como carência de contatos e atividades sociais. Estes elementos apontam para o fato de que, em suas comunidades naturais, o idoso pode não mais conseguir estabelecer relações de trocas sociais e afetivas, como se no interior desses grupos os interesses e desejos passassem a ser diversos, antagônicos e excludentes. Um problema que se pode afirmar claramente seria, sem dúvida, a atitude da família perante esse ser que apresenta constante crise, que oscilando entre o respeito, a proteção e a intolerância, por vezes conduzindo à separação do grupo familiar. Diante do exposto, a Psicologia nada faria sem a interdisciplinaridade, pois aí vários campos de saberes encontram um meio para atingir o mesmo fim, no caso, o bem-estar do idoso, para que possa vivenciar sua vida com qualidade. Com efeito, Miller e Shalomi (1996, s/p) acentuam que “devemos iniciar a terceira idade da mesma maneira como entramos no último ano da faculdade:

antecipando a realização”. Os anos da velhice podem nos levar a atingir os elevados valores que não conseguimos sentir, os insights que se perdem, a sabedoria que se ignora. De fato, são anos de formação, ricos em possibilidades de desaprender as

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tolices de toda uma vida, perceber as próprias ilusões, aprofundar a compreensão e a compaixão, ampliar o horizonte da franqueza, refinar o sentido de justiça. O lugar do olhar e da imagem, presentes nesta monografia, incita a retornar a questão do narcisismo. Será oportuno e indispensável comentar sobre o mito de Narciso, bem como falar de velhice na cultura contemporânea, que proclama a todo instante a ditadura do corpo esbelto, jovem e belo.

2.2 O Narcisismo

a ditadura do corpo esbelto, jovem e belo. 2.2 O Narcisismo Narciso, foste caluniado pelos homens,

Narciso, foste caluniado pelos homens, por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor, a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso. Narciso, eu sei que não sorrias para o vento, dentro da onda: sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso

Cecília Meireles

Não se poderia falar de auto-imagem, sem abordar o tema narcisismo, seu mito e sua constituição na vida do sujeito. Sem pretender realizar uma discussão mais ampla sobre esse fenômeno, busca-se fazer aqui uma investigação e uma discussão sobre o narcisismo, mais especificamente acerca das relações narcísicas ao longo da vida do sujeito. Freud (1914) informa que foi Havelock Ellis, em 1898, quem fez a primeira alusão ao mito de Narciso, a propósito das mulheres cativadas por sua imagem no espelho. Foi Paul Näcke, no entanto que, em 1899, introduziu pela primeira vez o termo ‘narcisismo’ no campo da Psiquiatria, para designar um estado de amor por si mesmo, o que constituia uma nova categoria de perversão. Para melhor compreender o que Freud ensina sobre o narcisismo, convém partir do que ele chama de narcisismo primário e originário, hipotético, inicial da vida

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humana; um estado característico pela ausência de relações com o meio externo e indiferenciação entre o ego e o outro. Sabe-se que o ego não está presente desde o nascimento e, por isso, tem que ser desenvolvido para se estruturar como uma unidade. A criança, no inicio de sua vida, não experiencia a sensação de um corpo unitário, tomando como objeto total, mas sim como corpo fragmentado, constituído por um aglomerado de objetos parciais, no qual as pulsões parciais investem de forma auto-erótica, encontrada em cada zona erógena correspondente. Os objetos investidos são as próprias partes do corpo, com predomínio de sexualidade infantil, marcada pela parcialidade do modo de funcionamento. Em 1914, Freud exprimiu que a primeira maneira de satisfação da libido é o auto-erotismo, ou seja, o prazer de um órgão em si mesmo, que corresponde à inscrição mediante sexualidade no corpo biológico, processo este resultante da erogeinização do corpo por parte do grande Outro materno, no estado de dependência absoluta. Na concepção freudiana, esse estado é aquele em que a mãe, por intermédio do carinho, afeto, acolhimento, proteção, cuidados, de seu caráter desejante, bem como mediante sua “sedução”, subverte o corpo erógeno, pulsante. As pulsões parciais se satisfazem independentes uma das outras. Freud designa o narcisismo primário como um estado de desenvolvimento do ego, em que a criança investe libidinalmente em si mesma, tomando a si própria como objeto de amor, antes de recorrer a objetos exteriores. O narcisismo em sua dimensão primitiva e primária corresponde à constituição do eu mediante o olhar do outro, nomeadamente a mãe. Assim, o outro é investido como objeto, na proporção em que satisfaz as demandas narcísicas do psiquismo infantil. Comentando Birman (1994) quando diz ser na infância que a imagem que a criança tem de si é ainda muito fragmentada, ela é dependente física, material e emocionalmente da mãe, isto porque lhe falta a coordenação motora mínima para atingir o seio da mãe, quando surge a necessidade de mamar (narcisismo primário), quando a mãe pode ajudar seu filho a sair deste estádio e permitir a entrada do pai na relação, facilitando as relações simbólicas, duais, que será o primeiro passo para no futuro entrar no Édipo. É a mãe a responsável por esse momento.

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O narcisismo, que também é um dos estádios evolutivos da criança, que se situa entre o auto-erotismo e o amor objetal, é o complemento libidinal ao instinto de autopreservação, é a retirada da libido do objeto e a fixação desta no ego. Segundo Lowen (1993), o narcisismo descreve uma condição psicológica e cultural. No plano individual, indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self. Em adultos, porém, um nível razoável de narcisismo saudável permite que um indivíduo equilibre a percepção de suas necessidades em relação às de outrem. Freud fundamentou o conceito de narcisismo antes de situá-lo em Introdução ao Narcisismo (1914), onde o articula mais profundamente na teoria psicanalítica. O termo narcisismo aparece em sua obra pela primeira vez em Três Ensaios sobre a Sexualidade (1905), em que explica a escolha de objeto nos homossexuais. Freud afirmou que estes tomam a si mesmos como objeto sexual, já que procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como suas mães o amaram. O conceito de narcisismo fundamenta um tipo de identificação, quando, ante a perda de um objeto, o ego se transforma na imagem e semelhança daquele. No Caso Schreber (1911), Freud propôs o narcisismo como uma fase da evolução intermediária do auto-erotismo e o amor de objeto. O sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu corpo, como objeto de amor. Aqui o narcisismo aparece também como um ponto de fixação das psicoses, denominadas “neuroses narcísicas”. E, finalmente, na obra social, quando escreve Totem e Tabu (1912), Freud correlaciona a evolução dos povos primitivos à evolução do psiquismo da criança, encontrando como características comuns a sensação de onipotência no pensamento, crença na reflexão mágica, a megalomania, a prática da magia e como uma série de atitudes, estados e traços atribuídos ao narcisismo. Thiers (1992) relata, em Introdução ao Narcisismo (1914), que o conceito de narcisismo é inserido no conjunto da teoria psicanalítica, do ponto de vista dos investimentos libidinais. No caso da psicose (neurose narcísica), por exemplo, Freud discute a possibilidade que a libido tem de reinvestir o ego, desinvestindo o objeto. O narcisismo também aparece no campo da transferência e do trabalho analítico, no que se refere à insusceptibilidade à influência de certos pacientes, causada por alto grau de narcisismo. É estabelecido um equilíbrio entre a “libido do ego” (investida no

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ego) e “libido objetal”: quanto maior o investimento no objeto, mais se dá a retirada da libido sobre o sujeito e vice-versa. Amaral (2001) mostra que a modalidade de narcisismo contemporâneo dificulta a individualização e a intimidade, favorecendo o isolamento e daí os obstáculos para o amor, a sexualidade, a intimidade:

Privando o narcisismo – concebido essencialmente por Freud como um processo universal e necessário à constituição e formação do ego – do seu objeto primordial de investimento, localiza o auto- erotismo como um amor anobjetal. Ele chega a considerar o narcisismo como uma transição entre o auto-erotismo e o amor objetal. Desta forma, com a constituição do narcisismo, o sujeito pode tomar a si como objeto de amor. (IDEM, p. 18).

A leitura da constituição do corpo narcísico se enriquece com a contribuição oferecida por Jacques Lacan, no seu trabalho sobre o “Estádio do Espelho”, o qual marca o esboço do caráter imaginário do ego. Representa a constituição do ego narcísico com suporte numa imagem corporal totalizada, uma gestalt de seu próprio corpo.

Lacan (1961) apud Vilaça (1998) assinala a função da imagem do corpo como forma e contorno, a qual se constitui com base na imagem do outro, que captura e fascina o sujeito; fascinação essencial para a constituição do eu, na medida em que confere ao corpo despedaçado das pulsões uma primitiva unidade. O suporte simbólico (campo dos significantes), no entanto, é crucial, pois é a presença do terceiro que confirma o valor dessa imagem. Aliás, Lacan alerta para a noção de que, quando se fala de subjetividade, pode-se cair na armadilha de empobrecer o sujeito. Ao vestir o real, a imagem protege o sujeito do encontro com o vazio. O real indica que é o fracasso do simbólico que o imaginário quer preencher. A capacitação do eu é o que caracteriza o narcisismo. A estrutura egóica e o corpo narcísico se organizam com base nesta externalidade, representada pela figura dos pais que investem libidinalmente na criança. É a imagem ideal de si mesma, através do processo de identificação, na concepção lacaniana. Relata Lacan (1961), apud Vilaça (1998), que o narcisismo não resulta apenas do investimento na imagem de si mesmo (assim como em Freud), mas também da formação dessa imagem, quer dizer, a constituição mesma da imagem

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do eu. Nesse ponto, ele presenteou com o “Estádio do espelho”,através do qual enfatiza a relação entre o olhar que foi, inicialmente, dirigido ao sujeito e a formação

da imagem do eu como identificação. O eu é heterônomo. Lacan faz uma referência,

em “De nuestros antecedentes” (1966), com base em dois eixos da teorização

freudiana: a imagem do corpo (narcisismo) e a teoria das identificações. Desde então, formula sua teoria do sujeito: um produto, não uma causa. O

sujeito é efeito do significante: “o significante representa o sujeito para outro significante” o que é possível porque há um lugar no Outro, como lugar simbólico, que avaliza a palavra do sujeito. Isto diferencia o homem do animal. O eu do sujeito é normalmente falado desde o lugar do Outro. Lacan (1961), apud Vilaça (1998),

comenta:

O homem se distingue dos outros mamíferos por um desequilíbrio existencial com sua natureza biológica, instabilidade que ele designa de estádio do espelho, ou seja, uma relação problemática com a própria imagem, o que leva a retocar seu corpo de múltiplas maneiras: por deformações, mutilações, tatuagens, escarnificações, maquiagens, cosméticos, vestimentas, cirurgia estética. Talvez esse impulso de plasmar-se tenha origem biológica. O homem nasce prematuramente com a pele muito frágil, necessitando de proteção artificial de natureza física e, mais ainda, simbólica, pois é simbolicamente que se processa sua passagem à identidade individual e comunitária. O homem está permanentemente exposto nas duas acepções do termo: aos perigos e aos olhares. (IDEM, p.

37).

Segundo Lowen (1993), Os narcisistas não amam a si mesmos nem aos

outros. Ele explica que o narcisismo na verdade, resulta da "negação de sentimento"

e da rejeição do verdadeiro self. As causas do narcisismo ele atribui à

predominância dessa doença contemporânea a uma sociedade que substitui por valores superficiais - poder, status, sucesso - realidades importantes, como o amor,

a família e a estrutura da comunidade. Wilhelm Reich, apud Lowen (1993), ressalta a importância da primeira

infância na formação do amadurecimento psicológico. Insiste na interação da mente

e do corpo, combinando a rigorosa análise freudiana com a avaliação física e com exercícios especiais, destinados a relaxar a tensão muscular rígida que os narcisistas apresentam por negar e reprimir seus sentimentos.

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Na interpretação freudiana, o que vem abalar a imagem narcísica e ilusória em torno do ego é o Complexo de Édipo, momento em que há a interdição paterna, ou seja, a entrada do pai como representante da lei, de autoridade, para barrar o desejo incestuoso, promovendo a ruptura da relação dual entre mãe-bebê. Trata-se da castração, marcada por operação simbólica de corte necessário à identificação com a figura paterna, constituindo triangulação edípica. Com origem nessa identificação, a criança assimila e internaliza, introjeta a lei paterna, podendo ser inserida no registro simbólico e ter acesso à linguagem. Nas palavras de Birman (1994, p. 158),

A angústia de castração se destaca na série das angústias de perdas e a phallus se destaca como objeto parcial justamente porque está no fundamento do Complexo de Édipo, que marca a diferença de sexos e a descontinuidade das gerações, onde a relação com a ordem simbólica se insere no primeiro plano da experiência psíquica. Assim, a figura do pai como representação da ordem simbólica é a mediação que se impõe entre a figura materna e a figura do infante, reiterando para a mãe a transcendência da ordem simbólica e introduzindo o infante nessa ordem. A figura paterna é a interpolação que se instaura entre o corpo da mãe e o corpo do infante, ordenando o desejo materno para o reconhecimento da alteridade do corpo do infante, para não torná-lo como um mero prolongamento de seu corpo.

O mito de Narciso, ligado às representações da imagem corporal, é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semideuses e heróis (todas elas são criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. Na mitologia grega, Narciso era um jovem de beleza rara, própria dos deuses, filho do rei Céfiso e da rainha Liríope. Após o seu nascimento, o adivinho Tirésias profetizou que ele deveria viver sem ter conhecimento de sua beleza. Na versão de Ovídio, que veremos a seguir, é nas águas puras e límpidas de um rio que Narciso vai se dessedentar e descobrir a própria imagem. Ao defrontar sua imagem refletida no espelho das águas, primeiramente, não se

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reconhece. No primeiro instante, que é de não-reconhecimento, ele encantado e capturado pelo fascínio da propria imagem; fica prisioneiro de imaginário. Vernant (1999, p.172) comenta que,

Em grego, mithos, que precede o discurso lógico ou logos, designa originalmente uma palavra formulada (“de fórmula”, de modelo, preceito) que poderia referir-se uma narrativa a um simples diálogo, com os quais um conhecimento de natureza religiosa e secreta, relativa aos deuses e aos heróis; era compartilhado por alguns indivíduos. Essa palavra organizada em forma de “discurso secreto’ referia-se a eventos que teriam ocorrido no início dos tempos e precisavam ser repetidas para manterem-se preservados na memória do grupo. Essa repetição reforçava a coesão social e a ordem tradicional das instituições e condutas.

É necessário deixar bem claro, nesta tentativa de conceituar o mito, que este não tem aqui a conotação costumeira de fábula, lenda, invenção, ficção, mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as impropriamente denominadas culturas primitivas, nos quais mito é o relato de um acontecimento no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento. Diel (1991 p. 37) define o conceito de Mitologia:

Um conjunto de mitos compõe uma mitologia, que se define como uma pré-ciência psicológica, enquanto sistema simbólico institucionalizado, enquanto conduta verbal codificada que organiza e estrutura, num todo coeso, os mitos de uma determinada sociedade.

Talvez se pudesse definir mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung, como a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas mediante as quais o inconsciente se manifesta.

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Compreende-se por inconsciente coletivo a herança das vivências das gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressa a identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido. Segundo Jung (1986), “as raízes da mitologia, encontram-se no inconsciente coletivo, que parece ser constituído de algo semelhante a temas ou imagens de

Toda mitologia seria uma espécie de projeção do

inconsciente coletivo”. (P. 90). CampbeII (1990), refere que a parábola de Narciso é uma grande fonte de inspiração para os artistas há pelo menos dois mil anos, começando com o poeta Romano Ovídio (livro III das Metamorfoses). Isto foi seguido em séculos mais recentes por outros poetas como John Keats, e - pintores Caravaggio, Nicolas Poussin, Turner, Salvador Dalí e Waterhouse. No romance de Stendhal, Le Rouge et le Noir (1830), há um narcisista clássico na personagem de Mathilde. Diz o príncipe Korasoff a Julien Sorel, o protagonista, sobre a sua amada:

“Ela olha para ela em vez de olhar para ti, e por isso não te conhece. Durante as duas ou três pequenas explosões de paixão que ela se permitiu a teu favor, ela, por um grande esforço de imaginação, viu em ti o herói dos seus sonhos, e não tu mesmo como realmente és”. Howe (1967) apud Bohadana (1988) comenta que herói mítico é, portanto, aquele que viola proibições sociais. Sua ação representa uma ruptura dessas proibições. No meio dela, o herói encontra uma solução, uma saída para a situação com a qual se debate, o indivíduo comum. Ao romper com os tabus, resolve simbolicamente o conflito existencial do mundo. Nos rituais, esses momentos de suspensão do tempo comum, que não celebram, antes reproduzem em acontecimento, a vida do individuo é dramatizada, convertendo-se ele mesmo em herói.

Nas Metamorfoses, Ovídio conta a história de uma ninfa bela e graciosa chamada Eco que amava Narciso em vão. A beleza de Narciso era tão inigualável que ele pensava que era semelhante a um deus, comparável à beleza de Dioníso e Apolo. Como resultado disso, Narciso rejeitou a afeição de Eco até que, desesperada, ela definhou, deixando apenas um sussurro débil e melancólico. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis condenou Narciso a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza,

natureza mitológica. [

]

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Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água. As ninfas construíram-lhe uma pira, mas, quando foram buscar o corpo, apenas encontraram uma flor no seu lugar: o narciso.

O mito de Narciso, tão conhecido e debatido na psicanálise, cantado

por Ovídio (711-771 d.C.): “Filho de Cefiso, que quer dizer, aquele

que inunda, e da ninfa Liríope, a voz macia. Por sua beleza é cobiçado por deusas, ninfas e mortais. Sua mãe, preocupada com

o tempo que ele viveria, resolveu consultar o vidente Tirésias, que

laconicamente, lhe responde: “Se ele não se vir”- sin non se viderit. Entre as várias apaixonadas por Narciso, encontra-se a ninfa Eco, que por sua tagarelice, prestava-se a entreter Hera, enquanto Zeus dava seus passeios amorosos. Ao descobrir que Eco acobertava os amores de Zeus, Hera a castiga, retirando-lhe a fala e deixando-lhe apenas a capacidade de repetir os últimos fonemas das frases. Apaixonada por Narciso, Eco costumava seguí-lo, até o dia que ele, fazendo uma caçada com amigos, se perde, pondo-se a gritar. Eco, que a tudo assistia, não consegue atender-lhe aos chamados, por não poder criar frases. Rejeitada por Narciso isola-se e definha, até

virar uma pedra. Irritadas com a atitude de Narciso, as demais Ninfas pedem vingança a Nêmesis, que condena Narciso a um amor impossível. Ao se debruçar sobre as águas, vê seu reflexo, apaixona-se pela própria imagem. (HAMILTON, apud BOHADANA, 1988, p.58).

Lowen (1993) comenta que a personagem Eco que aparece no mito (uma ninfa apaixonada por Narciso) representa a alteridade, e alter quer dizer outro. Observando o desenvolvimento da libido, o desejo amadurece no sentido do amor e dá ao indivíduo a possibilidade de desejar o outro, na sua peculiaridade, na sua diferença. Caso contrário, deseja-se a si no outro e mergulham-se mãos no lago, procurando algo inexistente. O mito persiste por suas imagens, que podem ser expressas por meio dos símbolos verbais de qualquer linguagem. Para Vernant (1999), “o símbolo verdadeiro vale por si mesmo, por sua dinâmica interna, seu poder de desenvolvimento indefinido, sua capacidade e por um aspecto da experiência humana ressonância com todo o universo”. (BOHADANA,1988, p. 55). Spalding (1965) fala sobre o reflexo de Narciso na água e refere-se à palavra “reflexo”, que vem do latim e quer dizer retorno, (re-flectere; re = retornar e flectere = curvar-se. Portanto, o reflexo de Narciso é a imagem que retorna para a coisa Narciso, por estar vinculada a ela. Ele percebia aquela imagem como coisa, como

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outro. Por não ser, no entanto, possível a imagem substituir a coisa, não havendo interação das duas coisas (onde na realidade só havia uma), se tornou inviável. O tema do espelho, como imitação da vida origina-se na Antigüidade e relaciona-se quase sempre ao próprio conhecimento, aquele de si. Afirma Merleau-

é o instrumento de uma magia universal que transforma as

coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, o eu em outro e o outro em mim”.

Ponty (1964, p. 24); “(

)

Entre os gregos, os olhos eram como espelhos, dos quais, como de um sol, emanavam os raios de luz. Em Platão (132-133 ac) apud Bohadana (1988, p. 55), encontra-se:

Quando olhamos para o olho de alguém que está à nossa frente, nosso rosto se reflete no que chamamos de pupila como um

Assim, quando o

olho considera outro olho, quando fixa seu olhar na parte deste olho

que é a melhor, aquela que vê, ele vê a si mesmo.

espelho: aquele que se olha vê sua imagem (

).

No mito, as imagens estão sempre vinculadas às coisas, e por esta ser incompleta, está sempre próxima à outra coisa. Uma leitura possível do mito de Narciso é a de este, ao ver sua imagem refletida na água, pensou estar vendo uma coisa, outro corpo, já que no mito a experiência que o homem tem é de Mim e não de Eu. Portanto, o corpo não é percebido como algo externo a si mesmo. Narciso, então, se apaixona pela auto-imagem, que por ele é imaginada como outra coisa que não é ele mesmo. Esta pseudocoisa, por ser uma imagem, estava indissoluvelmente vinculada à coisa (no caso Narciso), não deixando que ele dali se afastasse. Portanto, Narciso só poderia perceber aquela imagem como coisa, como um outro, mas, por não ser possível a imagem substituir a coisa, a interação que poderia existir das duas coisas (se isso fosse verdadeiro) tornou-se inviável. Bohadana (1988, p. 58), menciona que,

Com o passar dos tempos, o Mito foi perdendo sua importância no Ocidente, a partir do século VII a.C., e começa a surgir uns homens duais, dotados de corpo e alma, começando então, outra modalidade de produção de imagens, já citada anteriormente. Pensando no homem como dualidade, coloca-o em duas modalidades: o corpo-visível, mortal. A alma – imortal e indissolúvel anseia libertar-se do corpo.

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Para Platão, a alma teria visto as essências verdadeiras, porém, ao ganhar um corpo, ela se torna prisioneira deste, e assim esquece o que havia visto. Por isso, torna-se necessário libertar-se. O corpo é equiparado ao que é multiforme e desprovido de inteligência, enquanto a alma se assemelha ao divino, imortal e indissolúvel. Era importante que, mesmo em vida, o homem procurasse libertar-se da prisão do corpo. Platão, citado por Vergez (1980) apud Bohadana (1988, p. 72), diz que

Receei-me de tornar-me completamente cego da alma dirigindo os meus olhos para as coisas e esforçando-me por estar em contato com elas por cada um dos meus sentidos. Pareceu-me indispensável refugiar-me ao lado das idéias e procurar ver nelas a verdade das coisas.

Sócrates e Platão, diante das adversidades que a realidade concreta apresentava, optaram por se refugiar no mundo das idéias e das formas, acentuando que não se pode chegar à verdade pelo exame, por meio dos sentidos, do universo exterior sensível; mas, apenas pelo pensamento puro, pela atividade da alma isolada do corpo que, segundo eles, só faz perturbar e impedir o pensamento. Bohadana (1988), por meio das iniciações religiosas, inaugura outro jogo dual entre o visível e invisível, pois se voltam para a causa da existência humana, constituindo a problemática da Filosofia. No mito, a ordem do visível se dá à coisa provida de corporeidade, contudo, a ordem existente não se tornava uma abstração, uma vez que vinculada à coisa visível, ganhava uma croncretude que a mantinha incompleta e parcial. Nenhuma coisa pode ser pensada como entidade de si mesma. A crença na ordem invisível como causa das coisas visíveis conduziu o homem a criar representações das coisas. Em se tratando da imagem corporal que vai constituindo o sujeito ao longo da sua vida, seu corpo,na velhice, é o lugar privilegiado de desilusão narcísica, prometido à decadência e à morte e palco do adoecimento, empurrando o sujeito a enfrentar o desafio de manter a aposta na vida. Embora o narcisismo não se afigure como defesa contra a pulsão de morte, o papel da ilusão para lidar com as “asperezas da vida” é inegável. Por outro lado, é abrindo mão da completude ilusória que o desejo encontra sua possibilidade de movimento.

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O corpo do desejo, que se expressa através da fala e gestos, com uma parte ou com o todo, com intenção ou não. Através do contato com o mundo e das experiências que o corpo se transforma, pois, seus atos expressam emoções, sensibilidade, sexualidade e muitas outras manifestações que mantem o corpo vivo. Quando ele se torna velho trás consigo toda a carga emocional do seu passado, utilizando diversas maneiras de demonstração, que podem ser conscientes ou não. O corpo revela os meandros e as curvas da história pessoal: os segredos, os traumas e os triunfos de dias passados. (GAIARSA IN SIMÕES,

1998, P.62).

Cada ser humano é proprietário de sua corporeidade, da sua história, como unidade, ser único do seu tempo, constituído pelas experiências vividas na sua existência, que vão sendo registradas em seu corpo. A corporeidade é um repensamento do ser humano como um todo, não

apenas físico, mas a razão, a emoção e o espírito. Nela o sujeito é considerado um ser biológico e psicossocial. Lowen (1993) relata, ainda, que um corpo ao envelhecer envolve um estilo de interpretação, renovação e adaptabilidade. Salienta, entretanto, que a não- percepção destas mudanças pode acarretar transtornos físicos, sociais e emocionais. Neste sentido, acredita-se que programas de atividades adequadas podem contribuir para ampliar o contato dos idosos consigo mesmos e com o mundo. O passado aparece como sedimentação da existência, ou seja, ele constituía

base para estruturar o tempo, atual e futuro

recriar o tempo. Infelizmente a velhice que está sendo produzida na contemporaneidade é muito diferente da que ocorria nas sociedades tradicionais, quando as estruturas simbólicas de parentesco eram estáveis e davam aos sujeitos, ao longo de suas vidas, um nome, um lugar, um destino. Nessas, a velhice tinha um lugar positivo, os velhos eram respeitados, donos do saber, e suas produções e histórias, fazeres e dizeres davam significados e sentidos à vida. Hoje, isso não mais acontece, pois não há referências fixas de tempo e de espaço, de presente e futuro. Na atualidade, fazem-se necessário os laços sociais, fim de convocar os sujeitos a fazerem uso do pensamento como mediador de suas relações, de suas

Relembrar o passado é reviver ou

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diferenças e de responsabilidades, mediante de buscas que reinventem outros modos de convivência, que não excluam os velhos, recolocando-os num lugar positivo na sociedade em que vivem. Bobbio (1997) reporta-se à velocidade com que as correntes de pensamento

e de idéias se alternam na atualidade e as compara às modas, pelo que ambas têm

de efêmero. Ele contrapõe à maior agilidade mental que essa velocidade exige do

velho, à lentidão dos movimentos do corpo e da mente, que, na velhice, requerem tempos cada vez mais prolongados. Segundo ele, o velho lida com essa angústia, buscando refúgio na memória viva de um tempo estável e equilibrado, de modo a permanecer fiel a valores aprendidos e interiorizados durante a vida; e mantém seus hábitos como forma de resistência às mudanças, ao tempo do futuro, não porque não o entenda, mas por falta de vontade, de motivação e velocidade psíquica para compreendê-lo. Esse movimento repetitivo da pulsão, inerente à condição da memória e da história do sujeito, faz-se questionar se essa permanência do velho preso a um automatismo, à compulsão à repetição, só podendo lidar com ele e não dando lugar para o novo, iria de algum modo contra o movimento próprio da vida. Mesmo sabendo que os hábitos têm seu lado positivo porque reproduzem uma história, dando lugar ao medo de sofrer diante do que é estranho ao corpo, envelhecendo simbólico e ou fisiológico ou um medo do desconhecido. Merleau-Ponty (1964), em sua visão filosófica e contemporânea do corpo, buscou nova forma de compreender o corpo que evitasse os extremos fisiológicos de um lado, e o psíquico vitalizasse do outro, os quais, para o autor, distorcem a existência humana. Segundo ele, tais abordagens reduziram a experiência do corpo

a representações ou imagens mentais ou a fatos psíquicos resultantes de eventos

objetivos ocorridos no corpo, levando a explicações inadequadas das experiências

reais.

O mal-estar gerado na velhice dentro dos parâmetros atuais passe por uma remodelação quanto a sua condição e representatividade social, além de ganhar um estatuto negativo e depressivo. Falar-se à sobre esse assunto a seguir.

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40

2.3 Velhice, mal-estar na cultura contemporânea ocidental

Colher os frutos da sabedoria que os anos trazem e transmitir um legado às gerações

futuras (

)

este

é o envelhecimento puro e simples.

Miller e Shalomi (1996)

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), velhice “é o prolongamento e término de um processo representado por um conjunto de modificações fisiológicas e psicológicas ininterruptas à ação do tempo sobre as pessoas”. Na visão contemporânea, a palavra “velho” ficou associada à incapacidade para o trabalho e para a produção; o indivíduo pobre e inativo. A caracterização da palavra ‘velho’, para os dicionários, não trata somente de ser humano, mas também de objetos para a significação de ‘velho’, todavia a população passa a adotar tais conceitos para nomear as pessoas idosas. Além dessas definições, trazidas pelos respectivos dicionários, apresentam-se outras. Pode-se dizer que a velhice é o estado de espírito que vive o sujeito. Como diz Veras (1996, p.25), “nada flutua mais do que os limites da velhice em termos de complexidade fisiológica, psicológica e social”. Segundo Bueno (1996, p. 672), “velhice caracteriza um estado ou condição daquele que é velho, e velho é “avançado em idade; existe há muitos anos; gasto pelo uso, antiquado”. Na década de 1960, influenciados pela França, no Brasil, a palavra “velho” é substituída por idoso, porém, permanecendo com o mesmo significado. Para o Minidicionário Cultural da Língua Portuguesa (BUENO, 1996, p. 672), idoso significa “velho que tem muita idade”. Essa mudança segue formalmente como a maneira de amenizar o nome velho, de conotação bastante forte. O problema é que, em português, o termo usado para designar esse processo biológico inevitável é formado pelo radical “velho”

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Traz logo a imagem de algo decrépito, decadente, que perdeu o uso ou a validade, que já está na hora de ser descartado. “Quem louva a velhice não a teve diante dos olhos”, diz Bobbio (1997 p.45). Sem de dúvidas, a velhice remete à idéia de fim e é, constantemente, empregada para assinalar a decadência de uma civilização, de um povo, de uma cidade ou de uma raça. Não causa estranheza, então, que na dicotomia velho/jovem, o último represente o pólo positivo. O novo representa o progresso enquanto o velho é associado retrocesso. Velhice representa a lentidão, inclusive física, e tal lentidão é penosa não apenas para os outros como para o próprio velho. “O velho está naturalmente destinado a ficar para trás, enquanto os outros avançam”. (BOBBIO, 1997, p.47). Tal situação agrava-se, não só pela rapidez das transformações, em razão do progresso científico e tecnológico, como também pelo imediatismo e rápida obsolescência de produtos, idéias e valores que norteiam a sociedade de consumo: o novo logo fica velho e o tempo que resta para a assimilação é cada vez mais curto. Enquanto o mundo dos jovens é o futuro, o dos velhos é a memória. Certos de que as lembranças ficam cada vez mais distantes e apagadas, elas ainda trazem o sentido de historicidade do sujeito, carregam ainda tradições e antigos valores, o que, de certa forma, se apresenta como incompatível nos tempos atuais. Nas sociedades tradicionais e mais estáticas, o velho apresenta-se como aquele que reúne em si o patrimônio cultural da comunidade, seja na esfera da ética, seja na dos costumes. Em nossa sociedade, com transformações cada vez mais rápidas, o velho passa a ser aquele que nada sabe, em relação aos jovens. Destituído de seu lugar de sabedoria, em uma sociedade onde tudo se compra e se vende, também a velhice pode ser transformada em mercadoria. As clínicas de repouso e/ou asilos, a geriatria ramo da Medicina em expansão, os grupos de atendimento ao idoso e as práticas corporais direcionadas ao “não-envelhecimento” apontam para a inclusão do velho na lógica do consumo. Como aponta Mendlowicz (2003), é numa sociedade globalizada, dividida entre ganhadores e perdedores e sem ideais, que os sujeitos se entregam às compulsões. Nessa urgência, qualquer espera equivale ao desespero, causado por enorme intolerância com aquilo que o atrapalhe em sua busca pela perfeição. E nada mais distante da perfeição, na sociedade atual, do que a velhice.

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Freud fala de castração, e todos os pensadores da contemporaneidade citados batem na tecla da negação da falta, do engodo que a sociedade de consumo promove ao fornecer a ilusão de que os objetos tamponariam as faltas. No âmago da questão, parece estar a antiga aspiração humana da negação da finitude do homem. Finalmente, o medo de ser estigmatizado aparece para alguns, quando dizem não querer ficar velho, outros, sobretudo, aqueles que dizem conviver com os jovens, parecem não se importar em ser taxados de “novos”, estando essa característica associada à vaidade e cuidado pessoal.

Na concepção de Pinheiro (2004),

A sociedade de consumo nos oferece uma profusão de imagens como modelos de ideais de eu, imagens sem nenhuma consistência:

se tivermos o carro tal, usarmos a roupa tal, então entraremos no reino da felicidade. A felicidade que consiste na esperança e na aposta depositada no ideal do eu torna-se um mero punhado de coisas, de imagens estáticas sem nenhum valor social embutido

Na sociedade de consumo os objetos são oferecidos

como ornamentos fundamentais para a construção da imagem de ideal, este deixa de ser um modelo de como o sujeito deseja ser no futuro para passar a ser o que ele precisa ter para ser uma imagem. A composição do ideal do eu deixa de ser uma imagem que contém uma subjetividade, que contém valores, para passar a ser um mero

nelas [

].

ícone. (P.02).

O corpo responderá a uma soma de solicitações da vida social mediante de gestos, sensações ou sentimentos que o inserem em uma lógica de significações - é esta subordinação relativa à ordem social que dá ao corpo à possibilidade de ser o suporte essencial à vida do sujeito, sem que a vontade deste seja, constantemente, convocada para todas as manifestações da vida cotidiana. No seio de uma mesma comunidade cultural, os indivíduos dispõem de um registro somático comum (sensações, sentimentos, gestos etc.), que regula as trocas sociais. O homem, como aponta Le Breton (1985), não pode viver e habitar um universo que ele não compreende; e o corpo é o lugar de encontro entre a existência do sujeito e o seu environment. Os órgãos sensoriais são o termostato ou filtro, que regulam as trocas com este meio ambiente. Daí o autor acentuar que "o

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corpo é o operador semântico sobre o qual se funda a condição humana e, conseqüentemente, o redutor da angústia por excelência”. (LE BRETON,1985 p.37). O corpo é uma construção social da mesma forma que a linguagem ou o pensamento, e sua relação com a própria comunidade é de ressonância mútua - um jogo de espelhos infinito, onde um faz eco ao outro. Em uma cultura, com cada vez mais telas e menos páginas, as imagens passam a constituir, por si sós, a realidade em vez de retratá-la, reproduzí-la e representá-la. A imagem toma o lugar do sujeito e, sem perspectiva de si mesmo, não há identidade possível - torna-se estrangeiro em seu próprio corpo, alienado em si mesmo, pois ele é, somente, como imagem. Processa-se a padronização das subjetividades e os indivíduos passam a consumir, passivamente, imagens. Birman (2001) ressalta que:

A cultura da imagem é o correlato essencial da estetização do eu, na medida em que a produção do brilharesco social se realiza fundamentalmente pelo esmero na constituição da imagem pela individualidade. Institui-se assim a hegemonia da aparência, que define o critério fundamental do ser e da existência em sua evanescência brilhosa. (P. 167).

A maior dificuldade para se caracterizar a velhice consiste em ela não ser unicamente um estado, mas “um constante e sempre inacabado processo de subjetivação em que a maior parte do tempo não existe um “ser velho” e sim, um ser envelhecido”. (GOLDFARB, 1998, p.104). Na representação de “terceira idade”, pode-se assinalar que o curso da vida contemporânea ou pós-moderna é marcado por comportamentos tidos como adequados às diferentes categorias de idade. O conceito de “terceira idade”, entretanto, implica, na verdade, a descronologização da vida, uma vez que a juventude deixa de fazer parte de um grupo etário específico, transformando-se em um bem a ser adquirido através de estilos de vida e formas de consumo adequadas. A velhice é percebida como um estádio deprimente do desenvolvimento humano; então ser velho e acometido por doenças, como a demência, por exemplo, é uma trapaça armada pelo destino que dar boas-vindas à morte e ao esquecimento. Como explica Boechat, (2000, p.42), “a sabedoria que os anos trazem pode ser esquecida numa cultura que valorize somente a vitalidade do corpo jovem”.

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Debert (1998) denuncia a onipresença da mídia. Esta pela exposição excessiva da imagem, falsifica a experimentação real do mundo, posicionando os indivíduos como espectadores, consumidores passivos de imagens. Em suas palavras,

quanto mais ele (o individuo) contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes de

(

)

necessidades, menos compreende sua própria existência e seu

próprio desejo (

casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte.(P. 24).

É por isso que o espectador não se sente em

).

Na sociedade capitalista, marcada pelo consumo de imagens padronizadas, o

brilhantismo desmedido e o esmero exagerado da auto-imagem causam conseqüentemente um autocentramento, configurando o excesso de exterioridade. No relato de Birman (1994, p.48),

O individualismo produzido pela modernidade, num mundo marcado pela morte de Deus e perpassado pela racionalidade do social, conduziu a um desamparo inédito e a um masoquismo devastador. Porém, se a forma do masoquismo se constrói pela oferta do poder sobre si mesmo a um outro, que pode gozar sobre seu corpo, é inevitável que possamos encontrar o parceiro do masoquista na figura de uma individualidade caracterizada pelo auto-centramento e pelo narcisismo, mas que supõe em sua auto-suficiência.

A respeito do que foi ora citado, acima, observa-se que o mundo

contemporâneo é marcado por uma moralidade pautada no modo de ser narcísico de viver que glorifica e enaltece o reino das aparências, o êxtase das encenações, a

supremacia e sedução das imagens, configurando-se, aqui, o que se pode denominar de cenário espetacular e narcísico, no qual o sujeito acredita ser livre, onipotente e soberano para desejar e consumir.

Os primeiros sinais de envelhecimento são denunciados no corpo, que passa,

inevitavelmente, por transformações com o passar dos anos, mas, não é apenas o corpo que revela por si só o envelhecer. O que produz realmente inquietação é o estigma que carrega, pois a sociedade caracteriza a velhice com atributos negativos, corpo imperfeito, enrugado e enfraquecido.

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Kehl (2002) comenta que, nas sociedades tradicionais, o sujeito tinha um lugar, um nome, um destino, no qual a velhice tinha um lugar positivo e respeitoso, de sabedoria sentida à sua vida. Atualmente, no sistema capitalista, que cumpre a promessa do sujeito contornar o desejo por intermédio do acúmulo de bens, não como resposta à suas necessidades, mas pelo valor imaginário que tem numa sociedade de consumo, o prazer está no quanto a pessoa possui, o sujeito vale pelo que tem em detrimento do que é. Com base nesse pressuposto, os corpos são definidos ou alterados pelo efeito do que se diz sobre eles. Esse silenciamento sobre os corpos não harmonizados com o projeto canônico que cronifica o seu estatuto de dissonante mostram que os corpos não são independentes da rede discursiva em que estão inseridos, como não são independentes da rede de trocas — trocas de olhares, de

toque, de palavras e de substâncias — que se estabelecem. “(

Se a comunidade

em que o sujeito vive única referência capaz de confirmar a sua existência, o reconhece como morto, ele se desorganiza subjetiva e também fisicamente. A integridade do corpo físico não resiste à dissolução da personalidade social”.

(NOVAES, 2003, p. 247). Delineia-se, no horizonte dessa questão, o vazio inserido nesse mundo

desencantado, experimentado pelas angústias, futilidades no sentimento de existir e

o mal-estar nascido pela falta de princípios éticos, morais e de crenças. Instalam-se aí as certezas no mundo das incertezas, o que importa é o prazer por instantes. Borges (1994) indica que há uma especificidade, tanto da relação saúde/ doença, bem como do corpo, que se encontra intimamente associada à experiência individual, que não pode estar submetida ao social e ao mal-estar do cultural, mas sim ao pensamento freudiano. O encontro de Freud com a histeria e seus sintomas

é o momento de ruptura com a objetividade médica, uma vez que ultrapassa o

biológico do corpo, lançando luz à verdade do sofrimento, ao valor simbólico dos sintomas, e introduzindo a subjetividade. Por meio dos processos psíquicos, o corpo adquire dupla valência: alvo da somatização, de processos orgânicos e terreno da subjetividade, passando a adquirir status de corpo libidinal, pulsional, trabalhando em busca do próprio destino.

)

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Atualmente, criou-se, para fins de consumo, uma supervalorização do belo, de forma que o culto à estética transcende a temporalidade, rebelando-se contra os ataques da deterioração, decadência e morte. Lidar com a velhice e o corpo torna-se difícil porque tanto o próprio velho como os outros estigmatizam, rejeitam e isolam. Deste modo, o contato que o velho tem com o seu corpo é medroso e cheio de vergonha, porque este corpo denuncia sua condição de mortal, o limite, restando perguntar com perplexidade e estranheza sobre quem é este outro parecido comigo, mais velho que um ideal conservado na lembrança. Será que ser velho, no entanto, é ficar paralisado em um tempo passado de realizações e perdas, fazendo com que o futuro se torne apenas um borrão indefinido, morrendo-se um pouco a cada dia para despistar a morte? No desafio da crise, pesam diferentes fatores, como o grau de satisfação da insatisfação com o que foi obtido, o grau de confiança em si mesmo e as expectativas de sucesso; a auto-estima; a capacidade de correr riscos e conviver com incertezas. Villaça (1998) refere que a nossa cultura exibe corpos, principalmente o feminino, onde a sua imagem se justapõe à beleza, e, como segundo corolário, à de saúde e juventude. As imagens refletem corpos supertrabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro, ou corpos “medicalizados”, lutando contra

o cansaço, contra o envelhecimento, ou mesmo contra a constipação. Implícita está

a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender os mais antigos desejos do ser humano. O vazio e a falta de identificações subjetivas estão entrelaçados com a perda de pontos referenciais duradouros, consistentes e bem demarcados. Vive-se numa sociedade sem herança, individual, apontando para doenças da contemporaneidade como, por exemplo, a depressão. Pode-se caracterizar a depressão como uma doença "do indivíduo como um todo", que compromete seu corpo, humor e pensamento. Ela afeta a forma como o indivíduo se sente em relação a si próprio e como está situado no mundo. Também não é sinal de fraqueza ou uma condição que possa ser superada pela vontade ou com esforço.

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Fédida (2002) define a depressão como doença humana, constitutiva da existência e que tem uma positividade. Afinal, todos vivenciam estados depressivos, mesmo que passageiros, ao longo da vida, e passam por contrariedades, decepções, lutos etc; no entanto, a temporalidade da vida psíquica que implica um tempo de poder lembrar, representar, desejar, projetar no sujeito deprimido esse tempo, aparece como que congelada na imobilidade do corpo. A depressão é o afeto que implicar essa alteração do tempo, nessa perda da comunicação intersubjetiva e num empobrecimento da vida subjetiva. Paradoxalmente, o sujeito se desvincula da angústia de viver, e, sobretudo, de se eximir de qualquer responsabilidade no que tange às próprias atitudes e destinos pulsionais. O que busca, incessantemente, é eliminar, a todo custo, a sensação de mal-estar que habita o individuo internamente, em vez de se interrogar qual o sentido dessa inquietude. É fundamental aprender a valorizar o que se foi, e compreender que no presente se tem a liberdade de fazer escolhas para o amanhã. O futuro está entreaberto com todos os seus possíveis. Bobbio (1997) refere-se à velocidade com que as correntes de pensamento e de idéias se alternam na atualidade e as compara, pelo que ambas têm de efêmero. Ele contrapõe, à maior agilidade mental que essa velocidade exige do velho, a lentidão dos movimentos do corpo e da mente, que, na velhice, requerem tempos cada vez mais prolongados. Segundo o autor, velho lida com essa angústia, buscando refúgio na memória viva de um tempo estável e equilibrado, de modo a permanecer fiel a valores aprendidos e interiorizados durante a vida. Garante que, na velhice, não se consegue escapar à tentação de refletir sobre os próprios passados, que existe com

o peso das recordações surgidas após anos de desaparecimento. O presente é fugidio e o futuro pertence à imaginação, reduzindo-se até o completo desaparecimento.

O envelhecimento do corpo biológico, aquele sobre o qual não há palavra que se imponha ordem, mostra a imagem não mais condizente com o ideal que guarda.

A imagem do espelho não corresponde à imagem da memória, pois antecipa ou

confirma a velhice, ao passo que a imagem da memória quer ser uma imagem

idealizada que remeta a um mesmo Eu.

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De acordo com Beauvoir (1990), a velhice, como todas as situações humanas, tem uma dimensão existencial: modifica a relação do individuo com o tempo e, portanto, com o mundo e com própria história. Por outro lado, o homem não vive nunca em estado natural, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade a que pertence. Para tanto, cabe ao sujeito dar o mesmo sentido relacional a uma série de experiências, embora tenham acontecido em tempos diferentes, uma vez que a história do sujeito é a história das marcas relacionais de dor e emoção em seu corpo; esta é sua identidade. A história que ele escreve, atribuindo sentidos a estas marcas, é uma história que jamais se completa. O capítulo que vem a seguir se propõe fazer uma articulação entre a imagem que o sujeito tem de si, sua auto-estima e a importância do trabalho de grupo na ressignificação da auto-imagem, dos valores, na importância da comunicação, hoje um aspecto que se destaca por sua relevância na qualidade de vida dos idosos.

destaca por sua relevância na qualidade de vida dos idosos. 2.4 Auto-imagem com suporte no trabalho

2.4 Auto-imagem com suporte no trabalho de grupo.

Primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagoas, lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo já havia predito ao belo Narciso que ele valeria apenas enquanto a si mesmo não se visse Sim, são para se ter medo os espelhos.

Guimarães Rosa

O trabalho em grupo possibilita ao idoso atividades que o auxiliarão na convivência social, na relação com seus componentes familiares e/ou acompanhantes. Favorece o reconhecimento de sua própria imagem, do outro, na fuga do isolamento, da solidão e na busca do acolhimento. Para realizar atividades em grupo, será necessário ver o humano como ser social e inserido em grupos, de acordo com sua cultura. Sugere-se que o trabalho

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realizado com o idoso seja em grupo, pois pode haver uma aproximação e uma maior convivência de pessoas da mesma faixa etária, proporcionando ao idoso consciência de si, mas também do outro, e observar que, como ele, existem outras pessoas idosas na comunidade em que vive, conforme apresenta Zimermam (2000, p. 74):

Na utilização do processo de grupo, através das múltiplas relações que são entre os seus componentes, visando à integração do indivíduo no grupo, possibilitando sua extensão individual como membros operantes de seu grupo, de sua família, de sua comunidade.

Em uma alegoria de José Saramago (1973) que ficou na memória, um grupo são dez ou doze pessoas assustadas, sentadas ao redor de saco de medos: o medo da solidão, do passado, do presente e do futuro, gerador das angústias de todo dia. Aquelas dez ou doze pessoas de Saramago transformam-se em grupos desde o instante em que cada uma delas passa a se afetar pelos outros indivíduos do grupo, ou seja, quando se manifesta o fenômeno da interação. Galliano (1981) assinala que, em Sociologia, um grupo é um sistema de relações sociais, de interações recorrentes de pessoas. Também pode ser definido como uma coleção de várias pessoas que compartilham certas características, interagem uns com os outros, aceitam direitos e obrigações como sócios do grupo e compartilham uma identidade comum. Para haver um grupo social, é preciso que os indivíduos se percebam de alguma forma afiliados ao grupo. Os idosos que permanecem no grupo devem ser sempre encorajados a manter seus contatos com os outros e buscar outros grupos. Zimermam (2000 p. 75) comenta sobre este fato:

Os grupos com idosos têm suas peculiaridades. À medida que os anos vão passando, as perdas de pessoas aumentam e os grupos exigem uma maior reestruturação. O que acontece com muitos velhos é que por uma série de razoes, eles acabam refazendo seus contatos e ficando sem seus grupos, sejam familiares, de trabalho, de lazer ou outros. Há uma grande necessidade de fazê-lo participar de novos grupos e ajudá-los a se enquadrar naqueles que mais satisfação vão lhe dar.

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A melhoria da estética corporal, da auto-imagem e auto-estima, a melhoria da integração e socialização, a diminuição de alguns aspectos cognitivos fazem parte dos benefícios relacionados ao aspecto psicológico. E uma integração e socialização é a inserção maior em grupo social. Não se podendo esquecer a importância da comunicação interpessoal, que cria pontes. Criar pontes entre as pessoas parece uma maneira simples de compreender a questão. Quanto mais pontes se criam, mais opções de terem por onde transitar, lembrando sempre que cada qual passeia pelas pontes sem aprisionar ninguém em seu “território” nem abandonar o seu em detrimento do outro. Este ir-e-vir entre as pessoas é, em verdade, a base do trabalho de grupo. Quando as pessoas convivem dentro deste trânsito, parece haver naturalmente harmonia e entendimento. O primeiro passo é interferir na sociedade e instaurar, em definitivo, a harmonia nas relações, é investir na comunicação, praticar a arte do diálogo e recuperar a dignidade que pode ter sido perdida ao longo do tempo. Na velhice, é necessário que o idoso procure tudo quanto beneficie a sua saúde física e psíquica, como, por exemplo, ter estilos de vida ativa, integrar exercícios físicos ao seu cotidiano, ter alimentação saudável, espaço para o lazer, realizar atividades prazerosas, ter bom relacionamento familiar e, sobretudo, investir em si próprio, cuidar de si e valorizar-se. O trabalho de grupo favorece a comunicação, expressão corporal, pois é preciso considerar o poder que as palavras exercem sobre as pessoas. Quando se ouve um elogio, há um bem-estar que invade e influencia as ações. Da mesma maneira, quando se ouve uma ofensa, se reage de acordo com ela, e se passa a comportar também de acordo. Esse simples exemplo evidencia a importância que as palavras têm no convívio social. Mediante a expressão corporal, há um verdadeiro relato de inscrições de representações do sujeito. O corpo não expõe apenas o traço do passar do tempo, mas também o que esse corpo representa e significa. Com suas marcas, revela a história vivida, pois tem uma expressão histórica, movimento de mudança permanente. Não se poderia falar em grupo de idosos sem discorrer sobre auto-estima e como esta favorece o sujeito na relação consigo e com os outros. Auto-estima é, pois, a capacidade que o sujeito tem de si, de se sentir capaz para poder enfrentar

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os desafios da vida. É expressar de forma adequada, para si e para os outros, as necessidades e os desejos; é ter amor próprio. Auto-estima significa gostar de si mesmo, apreciar-se. Não se trata, porém, de um excesso de valorização de si, de arrogância ou egocentrismo, mas de gostar daquilo que se é, aceitando o equilíbrio entre as habilidades, potencialidades e as limitações. Está intrinsecamente relacionada com a confiança nas capacidades para enfrentar as dificuldades ou as crises defrontadas e fazer os reparos e ajustes necessários para prosseguir vivendo de forma equilibrada e serena, gerenciando a própria existência. Merleau-Ponty (1964) fala de um corpo vivido, que aparece na noção de uma consciência perceptiva solidária, maneira pela qual, diz, há a instalação no mundo, ganhando e doando significação. Um corpo que olha para todas as coisas, mas que também se olha e se reconhece naquilo que vê, ou seja, ele se vê, vendo, ele se toca-se, tocando. Muitas vezes, o isolamento social é utilizado como mecanismo de defesa contra a pressão e ansiedade geradas pelas relações interpessoais ou grupais. A pressão social para que o idoso desempenhe papéis incompatíveis com suas habilidades e interesses pode levá-lo a não conseguir encontrar motivos em seu meio ambiente para continuar se relacionando, aniquilando suas potencialidades residuais para uma vida autônoma. Mesmo assim, os idosos continuam no interior de suas casas sem desenvolver, no entanto, os valores essenciais e concretos de intimidade protegida, tão necessária ao bem-estar e à segurança dos indivíduos. Os grupos são de grande ajuda para a convivência entre as pessoas, pois, por meio desses grupos de formação, pode haver integração, compreensão, cumplicidade, apoio e segurança, entre outros. Assim, buscam por um mesmo ideal para alcançar um determinado fim comum. Segundo Kachar (2003, p. 45), “às vezes, a crise é muito forte e a pessoa não se encontra em condições de enfrentá-la sozinha”.

3

METODOLOGIA

3 METODOLOGIA A juventude é o momento de estudar a sabedoria; a velhice é o momento

A juventude é o momento de estudar a sabedoria; a velhice é o momento de praticá-la.

Jean-Jacques Rousseau

O desenvolvimento do estudo referente ao tema: “Auto-imagem na perspectiva do envelhecer”, inicia-se com a da fundamentação teórica, por intermédio de pesquisa bibliográfica, constituída principalmente de livros, revistas, artigos de periódicos e atualidade com material disponibilizado na internet, caracterizando a pesquisa bibliográfica. A pesquisa bibliográfica é o passo inicial na elaboração efetiva de um protocolo de investigação, quer dizer, após a escolha de um assunto, é necessário fazer uma revisão bibliográfica do tema apontado. Essa pesquisa auxilia na escolha de um método mais apropriado, assim como num conhecimento das variáveis e na autenticidade da pesquisa. Minayo (2002, p. 23), vendo por um prisma mais filosófico, considera a pesquisa como

Atividade básica das ciências na sua indagação e descoberta de

realidade. É uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente. É uma atividade de aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota, fazendo uma combinação particular entre teorias e dados.

elaborada a partir de material já publicado, constituído

]quando [

principalmente de livros, artigos, de periódicos e atualidade com material disponibilizado na internet.

O atual trabalho monográfico tem como maior referencial leituras acerca dos pressupostos em Freud no que diz respeito ao narcisismo, por também ser um dos poucos psicanalistas a se reportarem à própria velhice. Algumas considerações foram feitas a Jacques Lacan sobre o “Estádio do espelho”, como também não se poderia deixar de referenciar Joel Birmam, pois se destacou na abordagem do tema

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do estudo, expressando em seus posicionamentos teóricos reflexões sobre a cultura do narcisismo. Outros autores que se debrussaram em estudos sobre os problemas da atualidade no âmbito social objeto deste experimento foram: Maria Rita Kehl, Carl Jung, Merleau-Ponty, Estella Bohadana, Alexander Lower, entre outros. A referência é somente ao âmbito cultural e social, apesar de ser da amplitude do acervo bibliográfico referente ao tema velhice. A leitura desta pesquisa deteve-se principalmente no cunho psicanalítico, porque ajunta fundamentos para a compreensão da senescência, direcionando a discussão para essa perspectiva. O trabalho de pesquisa durou um ano, havendo começado em julho de 2006, porém, desde o início do curso, não se teve dúvida sobre o assunto pesquisado e confirma-se que ainda se tem muito a buscar a cerca dessa temática. Indiscutivelmente, o aprendizado está sendo a cada dia, a todo momento, com leituras, experiências vividas, que oferecem subsídio para elaboração do envelhecimento, da autora, pois, diante da vida, se precisa sempre reformular idéias, reinventar a própria vida, questionar papéis, ter espaço de sonhos, de ternura, criar um lugar de escuta e a presença de alguém para ouvir o que ele tem a dizer sobre seu desamparo, conflitos e inquietações existenciais.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

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De tudo ficaram três coisas: a certeza de que se

está sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

) (

Fernando Pessoa

As reflexões esboçadas no transcurso deste trabalho monográfico sobre a “Auto-imagem na perspectiva do envelhecimento” remetem à constatação de que um corpo envelhecido nessa cultura narcísica, marcada pelo padrão de beleza jovial, geralmente, causa recusa, e, portanto, os sinais de envelhecimento estão sendo combatidos, eliminados. Vive-se no mundo das imagens, que celebra o comportamento, os valores, a aparência e a moda dos jovens. A ideologia vigente é o corpo esbelto, bonito, bronzeado, ágil, saudável, que deve ser exibido com prazer e satisfação. É este o padrão estético do mundo contemporâneo que supervaloriza o novo, pois se vive a era dos descartáveis que preconiza o belo e o jovem. No mundo de hoje, o tempo tem horizonte curto. Constrói-se hoje para usufruir, no máximo, amanhã, e a expectativa é de fortes gozos. A imagem parece poder dizer tudo, pois ela é por si só uma totalidade, um êxtase. É mais comum pensar num corpo como vitrine do que num corpo como processo vivo e inacabado, numa busca árdua e constante de experiências e significados. Em decorrência das mudanças inexoráveis do envelhecimento, perde- se o corpo que seduz e isto é algo ameaçador, fonte de angústia. A dinâmica do envelhecimento recebe influência da singular representação do corpo que declina, sobre uma involução, mas, não de um corpo por onde circulam os conflitos pulsionais, se traduzem as representações recalcadas, se expressam as

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emoções, os afetos, as trocas com o mundo externo, corpo veículo como fonte de prazer na busca incessante de satisfação e gozo. E, assim, o idoso, em muitos

casos, não se sente ou não se vê mais como objeto de desejo, impressão confirmada pela sociedade que a todo instante lhe sinaliza o quanto ele é agora “velho”, feio, improdutivo, inútil.

A perda do corpo jovem deveria ser um dos lutos que o sujeito ao longo de

sua vida aprenderia a elaborar e enfrentar, pois é fundamental que os idosos aprendam a lidar com as transformações de seu corpo, que possam compreender que essas modificações fazem parte do envelhecimento, bem como aprender a tirar proveito de sua atual condição, prevenindo e mantendo em bom nível de sua

independência e plena autonomia. É possível ao idoso, o exame retrospectivo de ressignificação de sua existência. Avaliar o que planejou, aprendeu, as conquistas e realizações pode trazer alegria e sentimento de felicidade. É alguém que cumpriu sua tarefa de tecer um feixe de sentidos e significados, criando o mundo e atribuindo-lhe uma configuração, sendo, portanto, uma relação ativa, afetiva e dinâmica.

A dimensão temporal é construção e movimento; nesse sentido, passado,

presente e futuro estão intrinsecamente relacionados. As experiências se repetem, são passíveis de ressignificação, a serviço de um futuro. Não se trata, porém, de apenas mera repetição. O idoso pode recuperar

as reminiscências, na tentativa de uma renovação, de uma reinscrição, ou seja, algo é resgatado e se estrutura. O passado não é somente acúmulo de recordações, de lembranças, agradáveis ou não, e de saudade do que se foi, mas sim tem um significado do que já foi vivido que passa a ser acolhido, propiciando engajamento em novos projetos. Quer-se dizer com isso que abre as perspectivas para o novo, o futuro.

O futuro projetado que não pertence às pessoas, a não ser na expectativa e

na esperança, ainda não é, mas poderá vir a ser.

A velhice é um contínuo de reconstrução, que se faz com sabedoria, beleza,

sonhos, desejos e curiosidades. Para isso, é preciso uma preparação interna. Ter projetos e colorir a existência com novos matizes após os sessenta anos é possível, apesar das frustrações, vivências traumáticas e dos dissabores. Viver significa fazer planos para o amanhã.

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Buscar uma vida ativa com qualidade e o não-aniquilamento da capacidade de amar a si e ao outro são as principais alavancas do bem-estar, da felicidade, da longevidade e, conseqüentemente, do não-adoecimento.

O cuidado pessoal e de quem se gosta são importantes indicadores de uma

auto-estima elevada e que envolve muito mais do que tentarmos manter uma aparência jovem. Os valores sociais contemporâneos e os preconceitos acerca do

envelhecimento exercem impacto negativo sobre a auto-estima dos idosos. Por esse motivo, a procura por grupos direcionados a essa fase de desenvolvimento tem sido de grande ajuda para a convivência de idosos, pois, por meio desses grupos de formação, pode haver integração, compreensão, cumplicidade, apoio, segurança, entre outros. Assim, buscam por um mesmo ideal para alcançar determinado fim comum.

O tempo poderá ser vivido com maior plenitude e com a liberdade de fazer

novas escolhas para, assim, talvez, reencontrar o eixo de si mesmo. Estão todos envolvidos nessas lutas e esse trabalho só fará sentido se animado pela esperança e pelo compromisso com a mudança; mudança não apenas daquele que procura o profissional no curso de seu sofrimento, mas das práticas do cuidar.

Cuidar de si, cuidar do outro, cuidar das relações de cada qual implica combater o consumo que consome o ser humano e fazer valer o cuidado com a vida. Se, por um lado, novos saberes e novas tecnologias ampliam e aprofundam os poderes na sociedade disciplinar em que se vive, por outro, sujeitos cada vez mais conscientes lutam contra as forças que tentam reduzí-los a objetos, contra as múltiplas formas de dominação sempre criativas e renovadas. Por intermédio deste estudo, foram contemplados momentos significativamente ricos de reflexão, pois, por dessa experiência, teve-se a oportunidade de perceber e sentir a grandeza que é conhecer as questões essenciais do ser humano no seu tempo e no mundo em que habita. Algumas vezes, houve dificuldades em elaborar e entender as questões apresentadas, desse sujeito que faz parte de um tempo de perdas. Por meio da aquisição de estudos teóricos no campo do saber da Psicologia e Gerontologia, nos processos de supervisão, elaboram-se melhor idéia do quanto é importante à relação com o conteúdo estudado para poder entender o processo da

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auto-imagem do sujeito, principalmente na velhice, e poder mediante o trabalho digno e respeitoso com idosos, aprender a ouvir, aceitar, acolher, intervir, poder constituir uma relação de autenticidade fundamental no desenrolar do processo. A procura pela Gerontologia veio pelo viés do interesse em trabalhar com pessoas idosas. Precisava-se compreender melhor a atitude dos clientes na clínica, desta autora também, buscando sentido e significado nos sentimentos que se presenciava e se sentia. Muitas vezes se sofre junto a eles, tendo-se a sensação de sufocamento, mas se procura identificar os afetos, pois a sensação é de se que precisa estar ali sem perder nada, apesar da dificuldade em presenciar as questões que trazem para os encontros terapêuticos. Tem-se também momentos de festas, alegrias e descontração significativas. Enfim, na contribuição para atribuir de novos significados aos estádios mais avançados da vida, estes passam a ser tratados como momentos privilegiados para novas conquistas guiadas pela busca do prazer, satisfação e realização pessoal. Precisa-se, pois, elaborar melhor as perdas recorrentes ao longo da vida, tentar mostrar que as experiências vividas e os saberes acumulados são ganhos que propiciam a oportunidade de explorar novas identidades, realizar projetos abandonados em outras etapas, além de estabelecer relações mais profícuas com o mundo dos mais jovens e dos mais velhos.

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