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MONTANDO UM REPERTÓRIO DE
ABERTURAS DE XADREZ

GM Rafael Leitão
INTRODUÇÃO
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O repertório de aberturas de um enxadrista diz muito sobre sua personalidade. Defini-


lo não é das tarefas mais fáceis, já que isso implicará na determinação do próprio estilo de jogo,
que, na maioria das vezes, o seguirá por toda a vida nos tabuleiros.

Renomados grandes mestres são conhecidos justamente pelo seu repertório de


aberturas, como por exemplo Bobby Fischer, que abria quase sempre com o Peão Rei e Garry
Kasparov, grande especialista na Defesa Najdorf.

Outros jogadores não possuem um repertório bem definido, optando por variá-lo a cada
partida, em cada torneio, estratégia adotada pelo atual Campeão Mundial Magnus Carlsen.
Há, ainda, enxadristas que buscam variar seu repertório dentro de um
limite de escolhas previamente estabelecidas, hipótese na qual eu me 3
enquadro.

O inegável é que ter um bom repertório de aberturas auxilia na hora da


preparação para uma partida.

Pensando nisso, neste e-book selecionei 06 (seis) sugestões que


ajudarão enxadristas de todos os níveis durante este importante
processo, que é a definição e o aperfeiçoamento do repertório de
aberturas.
ESCOLHA SEU REPERTÓRIO
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DE ACORDO COM
SEU ESTILO DE JOGO
Enxadristas que aprendem a jogar xadrez desde criança em países de
grande tradição têm a facilidade de contar com treinamento 5
especializado desde o início, com um treinador que identifica seu estilo
de jogo e recomenda o repertório de aberturas mais adequado.

Mas essa não é a realidade brasileira, na qual a maioria dos praticantes


das arte de Caíssa precisam trilhar um caminho de autoconhecimento
para descobrirem seu estilo de jogo.

É então que a dificuldade surge: Como montar um repertório de


aberturas?

Inicialmente, é preciso conhecer o estilo de jogo com o qual você tem


mais afinidade e isso o ajudará na escolha.
Vejamos algumas dicas:

Se você tem um estilo mais agressivo, você pode escolher aberturas 6

mais agudas, como Sicilianas abertas (com ambas as cores), Najdorf e


Índia do Rei de pretas, dentre outras.

Se seu estilo é posicional, a opção mais natural seria o Peão Dama


ou Abertura Inglesa de brancas, Nimzo-Índia ou Índia da Dama e 1.e4
e5 de pretas.

Já se você possui um estilo intermediário, procure aberturas que são


um meio-termo entre as anteriores, a exemplo da Defesa Francesa de
pretas.

Definido o repertório, é hora de pôr a mão na massa e estudá-lo!


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CRIE UMA BASE DE DADOS


ESPECÍFICA NO CHESSBASE
O xadrez moderno está indissociado do computador. Eu diria que é
praticamente impossível ter um bom nível prático de jogo estudando 8
apenas por livros, sem a ajuda de programas de computador (o que não
exclui de modo algum o estudo da bibliografia clássica).

E o Chessbase é uma importante ferramenta no auxílio da sua


preparação e, consequentemente, no aperfeiçoamento do seu
repertório de aberturas.

Portanto, ao definir suas aberturas preferidas, crie uma base de dados


no ChessBase específica para análises de suas linhas de abertura.

Você pode se aprofundar no tema adquirindo os links para visualização


das duas Palestras Online que ministrei sobre o assunto: “Como Utilizar
o Chessbase – Parte I” (Acesse: http://bit.ly/1rVmbJb) e “Como Utilizar
o Chessbase – Parte II” (Acesse: http://bit.ly/1rVmjIC).
UTILIZE “BOOKS” DE 9

ABERTURA DE SOFTWARES
PARA MONTAR UM
“ESQUELETO” GERAL
Os ”books” de abertura de softwares servem para resumir o trabalhoso
processo de seleção das variantes mais importantes, uma vez que 10
apresentam um resumo de toda a história das variantes.

Com isso, a utilização de “books” de abertura de softwares com Fritz,


Houdini etc. para montar um “esqueleto” geral do seu repertório de
aberturas revela-se uma excelente estratégia.

Atualmente, também é possível utilizar a colaboração online, feita pelo


playchess em integração com o Chessbase, utilizando a opção “live
book”.

Os detalhes sobre como utilizar essas ferramentas foram revelados nas


duas palestras que ministrei sobre a utilização do Chessbase. Acesse a
loja do site e adquira os links para visualização: http://bit.ly/1rVmjIC.
SELECIONE PARTIDAS MODELO
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DAS VARIANTES
DO SEU REPERTÓRIO
O estudo dos clássicos é fundamental na preparação de um enxadrista.
E isso também vale para o processo de definição e aperfeiçoamento do
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repertório de aberturas.

Portanto, em uma base separada, selecione partidas modelo das


variantes do seu repertório. Aqui, como esse trabalho toma bastante
tempo, sugiro escolher algum "jogador modelo" para as linhas do seu
repertório, concentrando-se, inicialmente, apenas em suas partidas.

Exemplo: se você que jogar 1.e4 e5, comece vendo só partidas do


Grande Mestre Levon Aronian; se você quer jogar a Najdorf, comece
pelas partidas dos lendários Bobby Fischer e Garry Kasparov.
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SELECIONE POSIÇÕES
CRÍTICAS NAS VARIANTES
QUE VOCÊ JOGA
Para ter uma preparação de alto nível é preciso ir além das 4 sugestões
anteriores e o passo seguinte é selecionar posições críticas nas 14
variantes que você joga.

Esta seleção pode ocorrer de várias formas: alguma posição que está
muito na moda; uma posição que tem colocado problemas à sua
variante; uma posição em que você queira achar alguma novidade etc.

Uma vez selecionadas as posições críticas, é hora de analisá-las e o


passo a seguir indicará como fazer isso de uma forma otimizada.
FAÇA ANÁLISES 15

INDEPENDENTES DAS
POSIÇÕES CRÍTICAS
SELECIONADAS
Se você tiver um parceiro de análise, fica mais fácil. Ambos discutem a
posição e depois checam as análises com o computador.

Mas se você estuda sozinho, utilize esta fórmula (que pode ser usada 16
sempre que você quiser analisar com os programas de análise):

 Monte a posição crítica no tabuleiro e, ao mesmo tempo, coloque-


a no computador;

 Ligue o programa de análise, minimize a tela do ChessBase (para


não ficar olhando o que ele sugere) e analise a posição por algum
tempo (sugiro 15 minutos). Pode analisar mexendo as peças.

 Passado esse tempo de análise individual, verifique as sugestões


do computador. Em seguida, minimize a tela novamente e repita
a análise individual, analisando as ideias da máquina.

 Repita o processo até obter uma análise satisfatória.

Vejamos um exemplo da minha prática:


Leitão,R (2623) - Leon Hoyos,M (2579) [A59]

Olimpíada Istambul - 2012

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1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.d5 b5

O temido Gambito Benko (também conhecido como Gambito Volga)!

4.cxb5 a6 5.bxa6

Há uma máxima que diz que a melhor forma de refutar um gambito é


aceitá-lo. Quem sou eu para discordar?

5...g6 6.Cc3 Bxa6 7.e4!

Considero este sistema o mais incômodo para as pretas, pelo menos


no estágio atual da teoria de aberturas.

7...Bxf1 8.Rxf1 d6 9.g3 Bg7 10.Rg2 0–0 11.Cf3 Cbd7


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Esta é uma posição importante para esta abertura. As posições críticas


nesse estágio do jogo são conhecidas como "tabiyas". Fiz um estudo
bastante completo dessa tabiya antes de enfrentar meu adversário. É
preciso ver partidas modelo, estudar os clássicos, checar variantes com
o computador. Tudo isso aumenta não apenas seu conhecimento
específico de uma determinada posição, mas todas as estratégias
típicas de um sistema de jogo, como veremos nessa partida. Em um
aspecto mais amplo, o trabalho fará de você um jogador mais forte,
com um entendimento mais completo do jogo.
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12.a4

Peões passados devem ser avançados! Este é um lance temático,


garantindo o controle da casa b5.

12...Ta6

O plano das pretas é jogar Da8 e depois Tc8, c4 ou então romper em e6.

12...Cg4 Esse lance também é temático, mas durante minha preparação


concluí que ele é prematuro.

13.Dc2 Da8 14.Ta3!


Outro lance importante que só entendi depois de estudar o sistema por
horas: a torre pode ser extremamente útil na terceira fila.

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14...e6?

Muito otimista. Melhor seria 14...Tc8, que foi jogado recentemente e


certamente é o lance mais importante para o futuro desta linha. Dentro
da minha metodologia de estudo de aberturas, essa é uma típica
Posição Crítica.

15.dxe6 fxe6 16.Te1 Cg4?

Outro lance superficial, deixando as pretas em uma posição muito difícil.

16...d5 17.exd5 exd5 18.Cb5±; 16...c4 17.Cb5 com pequena vantagem.

17.Cb5 Db7

17...Dc6? 18.Dc4 Te8 19.Cc7+–


18.Bf4 d5?!

18...Cge5 19.Bxe5 Cxe5 20.Cxe5 Bxe5 21.Td3±

19.exd5 exd5 20.Bd6 21

20.h3 Cgf6 21.Te7±; 20.De2+–

20...Tc8 21.Te7!
E agora a vantagem branca já é decisiva. O estudo sistemático das
partidas modelo, com análises de computador nas posições críticas,
permitiu que eu obtivesse rapidamente vantagem decisiva contra um
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forte adversário. Ofereço o restante da partida, com breves análises,
mas o mais importante já foi dito.

21...Bf8 22.De2!+– Bxe7 23.Dxe7 Cgf6 24.Cg5 d4+ 25.Tf3 Te8

25...Rh8 26.Be5+–; 25...Tf8 26.Ce6 Dxf3+ (26...Tf7 27.Dxf7+)


27.Rxf3 Cd5+ 28.Cxf8 Cxe7 29.Cxd7+–

26.Df7+ Rh8 27.Cc7 Taa8 28.Cce6

28.Be7+–
28...Txe6

28...Tg8 29.Dxh7+! Cxh7 30.Cf7#

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29.Cxe6 Tg8 30.Cxc5

30.Be7! Dxf3+ 31.Rxf3 Ce5+ 32.Rg2 Cxf7 33.Bxf6++–

30...Dc6 31.Cxd7 Cxd7 32.Dxd7 Dxd7 33.Be5+ Dg7 34.Bxg7+


Rxg7 35.b4 Td8 36.Rf1 Tc8 37.a5 Tc1+ 38.Re2 Tb1 39.Ta3

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Na seção “Mídia” do site da Academia, você encontrará um vídeo no


qual demonstro “Como Treinar Xadrez com o Computador”. Acesse:
http://bit.ly/1tx1a2b
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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A definição de um repertório de aberturas é um processo que, além de otimizar a sua


preparação para partidas, o ajudará a compreender melhor seu estilo, o que, certamente, o auxiliará
na busca por um bom nível prático de jogo.

Agora, com seu repertório bem definido e com as técnicas corretas para aperfeiçoá-lo,
é hora de encarar o tabuleiro e começar um árduo trabalho.

Boa sorte!

GM Rafael Leitão
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A Academia de Xadrez Rafael Leitão é


um espaço virtual onde os amantes do
jogo de xadrez podem conhecer um
pouco mais sobre minha carreira, ter
acesso a materiais educativos
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books que ajudarão a melhorar o nível
de jogo, descobrir novas técnicas de
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