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ROTEIRO INDIVIDUAL

1. Análise da Capa

 A capa teve criação coletiva, tendo um resultado interessante com


alegorias do Brasil e traços tropicalistas.
o Cores verde e amarelo;
o Grupo em posição de um retrato patriarcal tradicional;
o Tom Zé de terno e mala na mão: migração nordestina;
o Rogério Duprat segurando um penico na mão como se fosse
uma xícara;
o Gilberto Gil um traje “inadequado” e de cores tropicais
segurando o retrato de formatura de Capinam;
o Os Mutantes mostrando as guitarras, símbolos de uma nova
musicalidade no Brasil;
o Caetano segurando foto da Nara Leão, que não pôde
comparecer;
o Gal Costa e Torquato Neto representando um típico casal
recatado do interior (penteado “caipira” da Gal e boina do
Torquato).
 Grafismo desenvolvido por Rubens Gerchman, artista plástico
brasileiro. Agregou à capa as suas famosas “Caixas de Morar”,
caracterizado pelos cortes laterais da capa.
o Gerchman era autor da obra “Lindonéia”, que incentivou Nara
Leão a pedir para Gil e Caetano que criassem uma música
inspirada na obra e assim surgiu a canção “Lindonéia”.
 A capa seria uma paródia do álbum “Sargent Pepper’s Lonely Hearts
Club Band” dos Beatles.
o O álbum teve grandes influências em “Tropicalia ou Panis Et
Circencis”: canções sucedendo-se de forma contínua, sem
interrupções; arranjos psicodélicos; efeitos sonoros;
 A contracapa traz uma espécie de roteiro de filme ou de teatro, cujos
personagens eram os próprios tropicalistas, trazendo um diálogo
totalmente confuso e sem nexo.
2. “Panis Et Circencis”

 “Panis Et Circensis” vem do latim e significa “pão e circo”, fazendo


uma crítica à política adotada pelo governo militar para manter a
população alienada;
 Um dos hinos do movimento tropicalista e que trouxe novidades à
música popular brasileira, tais como as guitarras elétricas e o
psicodelismo;
 A música sugere uma ruptura do cotidiano, dos costumes e das
tradições;
 A canção começa de forma bem harmônica e depois evolui para um
psicodelismo;
 Fragmentos de imagens fortes e feitas para chocar (“Soltei os panos,
sobre os mastros no ar / Soltei os tigres e os leões, nos quintais /
Mandei fazer / De puro aço, luminoso um punhal / Para matar o meu
amor, e matei”);
 A intenção de chocar é proposital exatamente para fazer a crítica
sobre a alienação das pessoas (“Mas as pessoas na sala de jantar /
São ocupadas em nascer e morrer”);
 O eu-lírico faz coisas absurdas e chocantes para chamar a atenção da
sociedade e aquelas pessoas ignoram, alienadas no seu mundo;
 “Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar”: alusão
alucinógena; referência à “Revolução dos Bichos” de George Orwel,
que menciona a “Granja Solar”;
 A vida não seria apenas nascer e morrer;
 Reproduz-se uma cena de jantar, onde se ouve vozes, talheres e
copos espatifando-se, numa metáfora sobre o rompimento com os
costumes.
 Faz citação sonora da música “Penny Lane” dos Beatles; traz um
arranjo de rock; valsa “Danúbio Azul” (música concreta).
TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENSES

Contexto Histórico

O ano de 1968 como diz Zuenir Ventura, não acabou, isso porque os fatos que nele
ocorreram estão até hoje por aí sendo estudados e referenciados, pois são de um significado
tão grande que ainda não foram de todo mensurados. Entre os inúmeros acontecimentos
marcantes daquele ano temos a revolta dos estudantes em Paris, a passeata dos cem mil no
Rio de Janeiro liderada por artistas e intelectuais, a decretação do AI 5 e o lançamento do LP
Tropicália ou Panis et Circenses, síntese de um movimento musical revolucionário que iria
mexer com a cabeça de muita gente.

Liderando a Tropicália estavam os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas e militantes
culturais que iriam modificar a estética da nossa canção e propor uma discussão que teria
como fonte inspiradora outro grande movimento cultural, a Semana de Arte Moderna de
1922. Vivíamos um período de profundas transformações e a juventude tomava as rédeas
dessas mudanças, no campo musical o som mais ouvido daquele ano era um álbum gravado
em meados de 1967 que estava fazendo muito sucesso pela sua concepção inovadora de não
ter interrupção entre as faixas, simular efeitos sonoros de gravação ao vivo e incluir ainda
citára, violino, orquestra e em algumas canções arranjos psicodélicos, tratava-se Sgt.
Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, um dos discos mais importantes de todos os
tempos.

O Brasil respirava o clima dos festivais e sentia uma forte pressão da ditadura que tentava a
todo custo calar a voz dissonante dos jovens que lhe faziam oposição, nesse contexto a
rebeldia tropicalista tomava corpo e tornava-se o assunto mais badalado da época, faltava
apenas o seu manifesto oficial que amadurecia a cada instante, e que viria se materializar na
gravação de um disco, que além de Caetano, Gil, Gal Costa e Tom Zé, contava ainda com as
participações especiais de Nara Leão e dos Mutantes.

O Disco

Com produção de Manoel Berenbein e arranjos do maestro Rogério Duprat, incluía tiros de
canhões, em "Coração materno", de Vicente Celestino, interpretada por Caetano Veloso,
faixas ininterruptas, simulação de um jantar ao vivo em "Panis et circenses" e sons de rua
em "Geléia geral", demonstrando nesses aspectos que o disco recebia forte influencia do
trabalho dos Beatles. Seu repertório tinha por objetivo sintetizar o pensamento dos artistas
tropicalistas e também do próprio movimento como um todo.

Gravado em maio de 1968 o LP trazia doze faixas, destacando-se "Parque industrial", de


Tom Zé, título herdado de um livro de Patrícia Galvão, a Pagu, líder comunista e agitadora
cultural nos anos vinte e trinta, onde temos um retrato bem satírico do Brasil, misturando,
bandeirolas no quintal; céu de anil; aeromoças; jornal popular que não se espreme porque
pode derramar; a lista dos pecados da vedete e o bordão "made in Brazil". Ao lado de
"Geléia geral", de Gilberto Gil e Torquato Neto, formavam as músicas mais panfletárias do
disco, sendo que esta última retrata o Brasil de forma alegórica, onde não faltam um bumba-
iê-iê-boi; Mangueira onde o samba é mais puro; Pindorama, país do futuro; as relíquias do
Brasil dentre outras representadas por uma doce mulata malvada e até um LP de Sinatra. A
influencia aos intelectuais da semana de 22 esta no verso, "alegria é a prova dos nove"
retirada do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. Em "Lindonéia", de Caetano
Veloso, canção feita a pedido de Nara Leão, inspirada num quadro de Rubens Gershman,
temos um bolero com uma letra pessimista e não convencional, aliás, desconstruir o formal
era uma das características do grupo, onde não faltavam imagens como, policiais, sangue e
cachorros mortos nas ruas despedaçados e atropelados.

Em meio a tudo isso acrescente-se um jantar ao vivo em "Panis et circenses" incluindo na


música a simulação de um disco interrompido no toca discos, dando um efeito muito
interessante e que deve ter assustado muita gente, uma poesia concreta em "Bat macumba"
e a celebração final com o "Hino ao Senhor do Bonfim".

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Gravado em maio de 1968, o disco seria lançado entre julho e agosto daquele ano. Seguindo
a concepção de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, a estrutura musical é o de uma
polifonia, ou longa suíte, as faixas sucedem-se sem haver interrupções, com a abertura
recapitulada no final. Cada canção funciona como se dialogasse uma com a outra, mesclando
no final uma metáfora alegórica do Brasil. O seu protesto como mensagem é
comportamental, não politicamente engajado em movimentos da época, não há a
demarcação lírica da Bossa Nova, muito menos o protesto épico das músicas contra o
sistema político vigente e à opressão da ditadura instaurada.

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“O disco é estruturado, musicalmente, como uma polifonia, ou longa suíte; as


faixas sucedem-se sem interrupção, com a abertura, recapitulada no final. Esta
concepção é a de SERGEANT PEPPER’S dos Beatles. Por sua vez, cada música
mantém uma relação dialógica [conforme conceito bakhtiniano] com as demais e é
estruturada, letra, música e arranjo, como montagem de fragmentos (referências
musicais, sonoras, litarárias, diálogos, manipulações eletroacústicas, etc).
Compostos segundo a linguagem de mistura, cada música e o conjunto levam à
metáfora terminal, que alegoriza o Brasil.”

Análise da Capa

A capa foi realizada em São Paulo na casa do fotógrafo Oliver Perroy que fazia trabalhos para
a Editora Abril e a sua criação foi coletiva, todos davam sua opinião e no final um resultado
característico daqueles tempos de "underground" a la Andy Warrol, com pitadas tropicalistas
tupiniquins como o terno e a valise de Tom Zé, o penico nas mãos de Rogério Duprat
segurando como se fosse uma xícara, o Sgt. Pepper, Gilberto Gil, a saia e o penteado caipira
de Gal Costa, o retrato de formatura do curso normal de Capinan, a seriedade dos Mutantes,
ou será os The Mammas & the Papas? A boina de Torquato Neto e o rosto solitário de
Caetano segurando o retrato de Nara Leão. Na contra-capa o texto de um suposto roteiro
cinematográfico escrito por Caetano Veloso onde os personagens são os próprios
tropicalistas travando um diálogo confuso e irreverente que mistura Celly Campelo,
Pixinguinha, Jefferson Airplane, a maçã, butique dos Beatles e João Gilberto.

Capinan e Nara Leão não puderam ir, por isso colocaram-se fotos representando-os.

O grafismo foi desenvolvido pelo Rubens Gerchman e pode-se notar no disco as suas
famosas “Caixas de Morar”, que são quadrados em geral, com os cortes nas laterais. Ele
inseriu os artistas dentro de sua própria obra.

Um disco verde amarelo, tropical, revolucionário, brasileiro, universal e eterno.

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Imaginada como uma paródia do álbum dos Beatles, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club
Band”, a capa adquiriu um formato final do underground tropicalista, coberta de alegorias do
Brasil. Se percorrermos um olhar rápido, encontramos o grupo à maneira dos retratos
patriarcais tradicionais. Caetano Veloso aparece ladeado pelos Mutantes (Sérgio Dias, Rita
Lee e Arnaldo Batista), que trazem uma expressão séria e carrancuda, empunhando as
guitarras, símbolos de uma nova musicalidade. O baiano, de olhar atrevido e cabeleira a
tomar conta, traz na mão o retrato de Nara Leão, que participa do disco, mas não da
fotografia da capa. Na extrema direita dos Mutantes aparece Tom Zé, de terno e mala de
couro na mão, representando a alegoria da migração nordestina. Sentados lado a lado,
aparecem Rogério Duprat, que segura um penico na mão, como se segurasse uma xícara,
significa Duchamp; Gal Costa e Torquato Neto, ela com penteado modesto, ele com uma
boina, ambos representam o casal recatado do interior. Finalmente, à frente de todos, está
um ostensivo Gilberto Gil vestido de toga com cores tropicais, segurando o retrato da
formatura do curso normal de Capinam. Feito o retrato, ele é emoldurado por faixas
compostas pelas cores nacionais, verde, azul e amarelo, dando a brasilidade necessária à
arte final.

Após visitarmos a emblemática fotografia, vamos encontrar na contra capa do álbum o texto
de um suposto roteiro cinematográfico feito por Caetano Veloso, em que as personagens são
os próprios tropicalistas a travarem um diálogo irreverente e sem nexo. No diálogo surgem
Celly Campelo, João Gilberto e Pixinguinha, entre muitas referências dissonantes.

Análise de “Panis Et Circenses”

A política do pão e circo (Panis et Circensis) foi criada pelos antigos romanos, que estavam
preocupados com a falta de alimento e principalmente de diversão do povo. Segundo os
antigos romanos, sem estas duas coisas, era impossível se ver em sociedade e a insatisfação
do povo perante os governantes só aumentaria.

Conta a história que sangrentas lutas entre gladiadores foram criadas para divertir o povo,
que também recebia pão gratuito durante as lutas.

A canção Panis Et Circensis, composta por Gil e Caetano se tornou o grande hino do
movimento Tropicália, que estourou no Brasil no final da década de 1960 e conseguiu
universalizar a linguagem da música popular brasileira com a introdução da guitarra elétrica,
do rock psicodélico e das correntes jovens do mundo na época. Foi a união do pop, com o
psicodelismo e a estética que deram à música brasileira uma essência que influenciou toda a
cultura nacional.

Panis Et Circensis,interpretada pelos músicos psicodélicos dos Mutantes traz a mensagem do


que o movimento pretendida. Com uma letra que diz que as pessoas estão muito
acomodadas e não lembram mais que a vida não é apenas nascer e morrer, deram um
choque em toda a sociedade. Além disso, o teclado e a guitarra elétrica contribuíram para
mostrar que a música brasileira precisava sair um pouco do patamar banquinho-violão,
gerando grande euforia e alegrias nos jovens.

A música que leva o nome do disco “Panis et Circenses” foi considerada pela revista Roling
Stone como a sétima melhor canção brasileira e o disco, como segundo melhor.

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A proposta tropicalista começa a esquentar na terceira faixa, “Panis et Circencis” (Gilberto


Gil – Caetano Veloso), interpretada pelo grupo Os Mutantes. A letra da canção sugere a
ruptura entre o cotidiano secular e o desejo de liberdade, o contraste entre o nascer e o
morrer, não só dos costumes e tradições, como dos sonhos e das utopias juvenis. Gilberto
Gil e Caetano Veloso criam aqui um prelúdio do que seria a parceria dos dois que culminaria
com “Divino, Maravilhoso”. Os costumes estão presos na sala de jantar, assim como a
passagem para a liberdade que se quer fazer alcançar. A canção inicia-se com o coro da
banda, em uma estrutura harmônica com uma sutil dissonância. Por fim a canção evolui para
o psicodelismo absoluto. De repetente a música é interrompida, sendo recriado um jantar,
ouve-se vozes à mesa, ruídos de talheres e a valsa “Danúbio Azul” ao fundo. O psicodelismo
é crescente, com ruídos de copos a espatifarem-se, numa metáfora do rompimento com os
costumes. A música encerra-se com um corte súbito. Sua eternidade na MPB atingiria vários
intérpretes ao longo das quatro décadas que se passaram desde o seu lançamento. Mas
nenhuma interpretação alcançaria o clima que esta versão original de Os Mutantes alcançou.

PANIS ET CIRCENCIS
0:00 - Introdução - coro canta o motivo básico da canção, repetindo os intervalos
básicos, cuja estrutura harmônica não apresenta tensão. Na sequência, as vozes
fazem ornamentos melódicos, passeando pela escala. Nota-se um sutil dissonância
0:45 - Trumpete solo, imita o timbre de clarim, numa citação sonora dos BEATLES
(“PENNY LANE”)
1:15 - “Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar...”, alusão “alucinógena”
ao Solar da Fossa, pensionato dos artistas recém chegados ao Rio de Janeiro
1:55 - A rotação da música cai a zero, assumindo o caráter discográfico da canção.
MÚSICA ELETRÔNICA
2:00 - Clima psicodélico, com efeitos eletroacústicos
2:20 - Surge uma música incidental, à base de um arranjo de ROCK (baixo, bateria,
guitarra, teclado), com instrumentos eletrificados e distorcidos
3:05 - A música incidental é interrompida. Ouve-se vozes à mesa, ruídos de
talheres, a valsa “DANÚBIO AZUL” ao fundo. MÚSICA CONCRETA.
3:25 - Um efeito ELETROACÚSTICO aumenta de intensidade ao mesmo tempo que
ouve-se um crescente ruído de vidros (copos) espatifando.
3:30 - Corte súbito

Análise de “Bat Macumba”

Quero dar destaque para a música Bat Macumba, que ao escutá-la pelas primeiras vezes,

não se encontra talvez, o ponto alto que ela traz consigo: ela é um poema concreto

musicado, com uma frase que vai perdendo uma sílaba de cada vez, até chegar ao mínimo

de uma sílaba, para então voltar a ser reconstruída, de forma simétrica. A canção traz um

elemento da cultura pop, o Batman, e relaciona-o com um elemento típico do sincretismo

religioso brasileiro, a macumba. Merece destaque a disposição da letra da canção, o que

reforça seu caráter visual e a relação do Tropicalismo com o Concretismo. Temos ali uma

meia bandeira do Brasil? Ou talvez a de São João? Vale o pensamento inquieto sobre ela:

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba

Bat Macumba ê ê, Bat Macum

Bat Macumba ê ê, Batman

Bat Macumba ê ê, Bat


Bat Macumba ê ê, Ba

Bat Macumba ê ê

Bat Macumba ê

Bat Macumba

Bat Macum

Batman

Bat

Ba

Bat

Bat Ma

Bat Macum

Bat Macumba

Bat Macumba ê

Bat Macumba ê ê

Bat Macumba ê ê, Ba

Bat Macumba ê ê, Bat

Bat Macumba ê ê, Batman

Bat Macumba ê ê, Bat Macum

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá!

Análise de Geléia Geral

“Geléia Geral” (Torquato Neto – Gilberto Gil). Esta música, ao lado de “Parque Industrial”,
formava o núcleo das canções panfletárias do disco. Se em “Parque Industrial” há uma sátira
do Brasil, “Geléia Geral” traz um retrato alegórico do país. É a canção matriz da Tropicália, a
canção que resume toda a proposta do disco, mostrando a raiz do seu manifesto, é a porta-
voz do movimento. Aqui todas as propostas musicais são condensadas, arrematando o
repertório do álbum, sintetizando a sua proposta. Na interpretação magnífica de Gilberto Gil,
o Brasil vai desfilando pela canção, trazendo os seus ícones e relíquias de uma cultura
pulsante: o bumba-meu-boi, a doce mulata malvada, Oswald de Andrade, a “Carolina” de
Chico Buarque. Numa certa altura, Gilberto Gil canta “Tropicália, bananas ao vento”,
definindo sinteticamente o que é o movimento. A canção termina com um acorde citando a
introdução de “Disparada”, de Geraldo Vandré, numa tentativa sutil de conciliação dos
tropicalistas com o seu maior opositor e com um breve flerte com a canção de protesto.
Encerra-se a primeira parte do manifesto musical.

O título da canção já dá as cartas do que é o Tropicalismo, um movimento diretamente


ligado à antropofagia de Oswald de Andrade, ao misturar elementos da cultura brasileira de
raiz com guitarra elétrica e cabelos compridos. O Tropicalismo, assim como o Modernismo de
1922, gosta de colocar a miscigenação, seja ela étnica, religiosa ou artística, no ponto
central da cultura brasileira.

A letra faz uma série de referências, muitas em tom de paródia, a representações do Brasil e
da nossa cultura. Tem o Manifesto Antropófago do Oswald, ao falar de "Pindorama" e citar "A
alegria é a prova dos nove". Tem a Canção do Exílio, ao dizer "Minha terra é onde o sol é
mais limpo". Tem até o Hino à Bandeira, em "Salve o lindo pendão dos seus olhos". Aí
mistura tudo com o Canecão (casa de espetáculos carioca), a TV, a mulata, o Frank Sinatra,
o barroco baiano, a carne-seca, a Mangueira e a Portela, um refrão com bumba-meu-boi, e
está feita a geleia. É como um desfile de carnaval em que os carros alegóricos mostram, de
forma fragmentária, as múltiplas faces e contradições do país.

A “geleia geral”, expressão do poeta Décio Pignatari, que virou título da canção-manifesto de
Torquato Neto e Gilberto Gil, apresentava-se na forma de um país cuja sociedade dividida e
contraditória vivia no limiar da modernidade (formiplac, televisão, Jornal do Brasil), mas
ainda presa à tradição (bumba-meu-boi, Mangueira, céu de anil).

A música “Geléia Geral” (Gilberto Gil – Torquato Neto), sofreu o veto da censura por ser
considerada de conteúdo política contestatória, além de segundo os censores, fazer um
retrato equivocado da situação pela qual passava o país.

GELÉIA GERAL
0:10 - Violão percutivo e baixo, prepara o efeito sincopado (“embolada”?)
0:28 - “Ê bumba iêiê boi...” (citação BUMBA MEU BOI, dança dramática brasileira)
0:50 - “Alegria é a prova dos nove”, citação famosa de Oswald de Andrade
1:27 - “As relíquias do Brasil”, frase cantada por Gil, prepara a sequência de
citações sonoras, funcionando como uma “suite”.
1:30 - Trecho de “IL GUARANY”, de Carlos Gomes, num andamento e coloração de
CHORO
1:35 - Trecho de “ALL THE WAY”, sucesso de Frank Sinatra
1:45 - Batuque de ESCOLA DE SAMBA
2:27 - “CAROLINA...” , citação da personagem poética da canção de Chico Buarque.
3:10 - “TROPICÁLIA, bananas ao vento”, frase síntese do disco e do “movimento”
3:35 - Naipe de sopros faz um acorde de conclusão, citando a introdução de
“DISPARADA”, de Geraldo Vandré, canção síntese da CANÇÃO DE “PROTESTO”
brasileira.

GONÇALVES DIAS, em Geléia Geral (diluição):


No disco: Minha terra onde o sol é mais linpo/E Mangueira onde o samba é mais
puro
No original (“Canção do Exílio”): Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá...

DÉCIO PIGNATARI, em Geléia Geral (apropriação do termo que dá o título da


canção):
No original (num dos Manifestos da Poesia Concreta): Na geléia geral brasileira,
alguém tem de exercer as funções de medula e osso

OSWALD DE ANDRADE, em Geléia Geral (paráfrase)


Alegria é a prova dos nove (Manifesto Antropófago)
Brutalidade jardim (livro “Serafim Ponte Grande”)