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Universidade Federal da Paraíba CNPJ/MF: 24.098.477/000 –10 Cidade Universitária – Campus I S/N° Castelo Branco João Pessoa PB – 58059 900 Fone/Fax: (83) 32167131/32167135 e 3216 7178 Coordenação do Curso de Matemática a Distância: (83) 32167434 Home page: www.virtual.ufpb.br Home page do curso: www.mat.ufpb.br/ead

Ficha Técnica

Reitor da UFPB Rômulo Soares Polari

Departamento de Matemática Fágner Dias Araruna

Coordenador da UFPB – Virtual Renata Patrícia Jerônymo Moreira Edson de Figueiredo Lima Junior

Arte, Design e Diagramação Romulo Jorge Barbosa Silva

Pró Reitor de Graduação Valdir Barbosa Bezerra

Centro de Ciências Exatas e da Natureza Antônio José Creão Duarte

Coordenador do Curso José Gomes de Assis

Revisão Técnica e Linguística Inaldo Barbosa de Albuquerque

S586u Silva, Antônio de Andrade e

Uma introdução axiomática dos conjuntos / Antônio de Andrade e Silva. – João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2011.

311 p.

1. Álgebra

CDU: 512

Sumário

Prefácio

iii

1 O Método Axiomático

 

1

1.1 Introdução Histórica

 

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1.2 Modelos Axiomáticos

 

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1.3 Caracterização de um Sistema de Axiomas

 

16

2 Conjuntos

35

2.1 Introdução Histórica

 

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2.2 Conjuntos

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2.3 Grácos e Famílias

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2.4 Funções

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3 Conjuntos Parcialmente Ordenados

 

101

3.1 Conjuntos Ordenados .

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3.2 Isomorsmos

 

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3.3 Elementos Notáveis e Dualidade

 

119

3.4 Conjuntos Bem Ordenados

 

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4 Axioma da Escolha e Aplicações

 

175

4.1 Axioma da Escolha

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4.2 Aplicações

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4.3 Princípio da Boa Ordenação

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SUMÁRIO

5 Os Números Naturais

219

5.1 Os Números Naturais .

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220

5.2 Aritmética dos Números Naturais

 

230

6 Números Cardinais

255

6.1 Conjuntos Equipotentes

 

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256

6.2 Números Cardinais

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. 267

6.3 Aritmética dos Números Cardinais

 

277

Bibliograa

301

Índice Remissivo

302

Prefácio

Este texto surgiu da experiência do autor quando este ministrou algu- mas vezes a disciplina para os cursos de Matemática e na Licenciatura em Matemática a Distância.

O principal objetivo deste texto é levar o leitor a compreender os axiomas

da Teoria dos Conjuntos, segundo “Zermelo-Fraenkel”, a ponto de aplicá-los em

diferentes contextos tais como o axioma da escolha, modelagem de situações- problema envolvendo o princípio do máximo de Hausdor, Lema de Zorn, conjuntos bem ordenados, construção dos números naturais e números cardi- nais.

O texto é dividido em seis capítulos, dos quais o primeiro é responsável

pela introdução do método axiomático e resultados utilizados em todo o texto. Em cada estudo especíco, busca-se a caracterização do objeto por meio de propriedades que possibilitem ao leitor estabelecer correspondências entre de- terminadas situações-problema da vida real e a espécie de função focalizada, objetivando sua utilização na construção de uma tradução matemática da respectiva situação.

É nossa expectativa que este texto assuma o carater de espinha dorsal de

uma experiência permanentemente renovável, sendo, portanto, bem vindas às críticas e/ou sugestões apresentadas por todos - professores ou alunos quantos dele zerem uso.

Para desenvolver a capacidade do leitor de pensar por si mesmo em termos das novas denições, incluímos no nal de cada seção uma extensa lista de exercícios, onde a maioria dos exercícios dessas listas foram selecionados dos livros citados no nal do texto. Devemos, porém, alertar aos leitores que os

iii

iv

SUMÁRIO

exercícios variam muito em grau de diculdade, sendo assim, não é necessário resolver todos numa primeira leitura. No capítulo 1 apresentaremos um pouco da história do surgimento do método axiomático na matemática, que serão necessárias para o entendimento dos próximos capítulos. No capítulo 2 apresentaremos, via método axiomático, os elementos básicos da Teoria dos Conjuntos através dos sete primeiros axiomas. Além disso, de- nimos as operações com conjuntos: união, interseção, complementar, diferença, grácos, famílias, produto cartesiano e algumas propriedades algébricas. No capítulo 3 estudaremos os problemas de aplicações ordinárias de mate- mática tais como: relação de ordem, conjuntos parcialmente ordenados, ele- mentos maximais e minimais, maior e menor elemento, supremo e ínmo de um conjunto. Além disso, estudaremos reticulados e conjuntos bem ordenados. No capítulo 4 apresentaremos as formulações clássicas do axioma da escolha dada por Zermelo e suas principais consequências. No capítulo 5 construiremos, formalmente, o conjunto dos números natu- rais, o qual será munido com todas as propriedades que são associadas com os números naturais do nosso pensamento. Além disso, com o “axioma da innidade” completaremos a Teoria Axiomática dos Conjuntos, segundo Zer- melo. Finalmente, no capítulo 6 apresentaremos o conceito de conjuntos equipo- tentes e o conceito formal de números cardinais via método axiomático. Tam- bém, veremos que o conjunto dos números cardinais possui quase todas as propriedades algébricas do conjunto dos números naturais. Agradecemos aos colegas e alunos do Departamento de Matemática que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho. Em particular, aos professores João Bosco Nogueira e Glauber Dantas Morais.

Antônio de Andrade e Silva.

Capítulo 1

O Método Axiomático

Quando falamos que um objeto pertence a outro objeto, queremos dizer, simplesmente, que o primeiro deles depende do segundo. Situações de per- tinência fazem-se presentes constantemente em nossa vida. Por exemplo, um ponto pertence a uma reta.

A partir de agora, você está convidado a nos acompanhar neste passeio pelo mundo dos axiomas e postulados. Juntos analisaremos detalhadamente as caracterizações de um sistema de axiomas e a independência de um axioma.

É importante salientar que alguma familiaridade com conceitos tais como:

conjuntos, conjuntos numéricos, espaço vetorial, grupo etc. é necessário para uma boa leitura deste capítulo.

No nosso dia-a-dia, os axiomas e postulados aparecem com mais frequência na Geometria Plana. Considere, por exemplo,

Se uma linha reta intercepta duas outras linhas retas formando ângulos interiores no mesmo lado menor do que dois ângulos retos, as duas linhas retas, se prolongadas indenidamente se interceptarão no lado em que a soma é menor que dois ângulos retos.

Este e outros axiomas da Geometria Plana serão tratados neste capítulo.

1

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CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

1.1 Introdução Histórica

Nesta seção apresentaremos um pouco da história do surgimento do método axiomático na matemática. O leitor interessado em mais detalhes pode con- sultar Tarski, A. [8] ou Wilder, R. L. [9]. Nos textos de Geometria Plana, visto no ensino fundamental, encontramos dois grupos fundamentais de armações, um chamado de axiomas e outro chamado de postulados. Formalmente:

Um axioma é uma armação que dispensa explicação, ou seja, é uma ver- dade universal.

Exemplo 1.1

1. O todo é maior do que cada uma de suas partes.

2. O todo é a soma de suas partes.

3. Coisas iguais a uma outra coisa são iguais entre si.

Um postulado é um fato geométrico simples e óbvio que podemos supor sua validade.

Exemplo 1.2

1. Dois pontos distintos determinam uma e somente uma reta.

2. Uma reta pode ser estendida indenidamente.

3. Se r é uma reta e P é um ponto fora de r , então existe uma única reta s paralela à reta r e passando por P .

Um teorema é uma verdade que não se torna evidente senão por meio de uma prova.

Observação 1.3 Um teorema é composto de duas partes:

1. a Hipótese - é o conjunto de suposições.

1.1.

INTRODUÇÃO HISTÓRICA

3

2. a Tese - é a consequência que o raciocínio deduz da hipótese, por meio de verdades já conhecidas.

Exemplo 1.4 (Teorema de Pitágoras) Em qualquer triângulo retângulo, a área do quadrado cujo lado é a hipotenusa é igual à soma das áreas dos quadra- dos que têm como lados cada um dos catetos. (Pitágoras, 569-480, a.C.)

Um lema é um teorema auxiliar. Finalmente, um corolário é uma proposição que é uma consequência de um teorema previamante provado. Esses agrupamentos de axiomas e postulados já eram conhecidos em Aristó- teles (384-321, a.C.) e em Euclides (330-260, a.C.) como noções comuns e postulados. A partir dessas armações e de um certo número de denições, Euclides demonstrou 465 teoremas em uma sequência lógica. Por exemplo, o quinto postulado de Euclides, em sua forma original, foi enunciado como:

E 5 - Se uma linha reta intercepta duas outras linhas retas formando ângulos interiores no mesmo lado menor do que dois ângulos retos, as duas linhas retas, se prolongadas indenidamente se interceptarão no lado em que a soma é menor que dois ângulos retos, conra Figura 1.1. Proclus (Proclus Lycaeus, 412-485, d.C, lósofo grego) descreveu a con- trovérsia que estava se formando com relação a esse postulado mesmo nessa época, sendo ele próprio a favor da eliminação do postulado por classicá-lo de ingênuo, plausível e sem carater de necessidade lógica. No período Renascentista (séculos XV e XV I ) iniciou-se novo período de controvérsias com relação ao quinto postulado a partir dos outros postulados, ou seja, demonstrá-lo a partir dos outros postulados e axiomas da geometria usando princípios da lógica. Vamos dar uma pausa para relembrar a denição de retas paralelas. Duas retas distintas r e s, em Geometria Plana, são chamadas de paralelas se elas não se interceptam, isto é, r 6= s e r s = . Assim, atualmente, o quinto postulado de Euclides é enunciado como:

E 5 - Dada uma reta r e um ponto P fora de r , existe uma e somente uma reta s que contém P e é parelela à reta r , conra Figura 1.2.

4

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

4 CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO Figura 1.1: Quinto postulado de Euclides. Figura 1.2: Geometria Euclidiana.

Figura 1.1: Quinto postulado de Euclides.

AXIOMÁTICO Figura 1.1: Quinto postulado de Euclides. Figura 1.2: Geometria Euclidiana. Note que esse postulado a

Figura 1.2: Geometria Euclidiana.

Note que esse postulado arma que retas paralelas existem. No século dezenove, Lobachevsky (Nikolai Ivanovich Lobachevsky, 1792- 1856, matemático russo) em 1820, Gauss (Carl Friedrich Gauss 1777-1855, matemático alemão) e Bolyai (János Bolyai, 1802-1860, matemático húngaro) em 1823, descobriam que poderiam obter uma teoria matemática “consistente” partindo de um postulado que arma a existência de innidade de retas parale- las contendo P .

1.1.

INTRODUÇÃO HISTÓRICA

5

Postulado de Lobachevsky-Gauss-Bolyai - Dada uma reta r e um ponto P fora de r , existem pelo menos duas retas s e t que contém P e são paralelas à reta r .

s e t que contém P e são paralelas à reta r . Figura 1.3: Geometria

Figura 1.3: Geometria Hiperbólica.

Um “modelo” para esta geometria é dado pelo o semiplano H, em que as retas são semi-retas e semicírculos perpendiculares à reta que determina o semiplano, conra Figura 1.3. Riemann (Georg Friedrich Bernhard Riemann, 1826-1866, matemático ale- mão), descobriu uma nova geometria partindo de um postulado que nega a existência de retas paralelas. Postulado de Riemann - Duas retas nunca são paralelas.

Postulado de Riemann - Duas retas nunca são paralelas . Figura 1.4: Geometria Esférica. Um modelo

Figura 1.4: Geometria Esférica.

Um modelo para esta geometria é dado pela esfera S 2 , em que as retas são os grandes círculos, ou seja, as interseções de S 2 com os planos π contendo o

6

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

centro de S 2 , conra Figura 1.4. Com esses postulados temos três tipos de geometrias. Em cada uma dessas geometrias é claro que precisamos de muitos outros postulados. Hilbert (David Hilbert, 1862-1943, matemático alemão), em 1899, no seu

célebre trabalho “Fundamentos da Geometria”, apresenta a ideia de que apenas um nome - axiomas - deve ser usado com relação às proposições fundamentais,

e que certos termos básicos como ponto e reta são deixados completamente indenidos. Embora esse trabalho de Hilbert seja reconhecido por muitos como sendo

o primeiro a tratar de método axiomático em sua forma moderna, devemos

reconhecer que ideias análogas também apareceram em trabalhos de outros estudiosos da época. Em 1882 apareceu a primeira edição do livro de Pasch (Moritz Pasch, 1843-1930, matemático alemão) “Vorlesungen über Neuere Geometrie.” Pasch baseou seu tratamento da geometria em um pequeno número de “conceitos nu- cleares” e “proposições nucleares” que são introduzidas respectivamente sem denição e sem demonstrações, mas que ele acredita ter uma base comum de aceitação pela nossa experiência. Depois que o sistema básico de proposições (axiomas) é introduzido, a dedução lógica das outras proposições do sistema

são obtidas de forma rigorosa. Suas ideias foram descritas por ele mesmo como

segue:

“Na realidade, se a geometria deve ser dedutiva, a dedução deve ser in- dependente do signicado dos conceitos geométricos, da mesma forma que

deve ser independente de diagramas; somente as relações especicadas nas proposições e denições (teoremas) empregadas podem ser usadas. Durante

a demonstração é útil e correto, mas de modo algum necessário, pensar no

signicado dos termos; aliás, se for necessário proceder desse modo a ineciên- cia da prova está clara. Se, entretanto, um teorema é rigorosamente derivado de um conjunto de proposições (os axiomas), a demonstração tem um valor que transcende o objetivo inicial. Pois se substituirmos os termos geométricos nos axiomas por outros termos certos, proposições verdadeiras serão obtidas, então fazendo substituições análogas nos teoremas obteremos um novo teorema sem termos que repetir a demonstração.”

1.2.

MODELOS AXIOMÁTICOS

7

1.2 Modelos Axiomáticos

Nesta seção apresentaremos alguns modelos axiomáticos que serão necessá- rios para o desenvolvimento deste texto. O modelo axiomático organiza as teorias de um modo sistemático a partir de proposições primitivas e denições, procedendo ao desenvolvimento por via dedutiva. Um sistema de axiomas é uma coleção formada pelos termos indenidos, axiomas e “teoremas.” Intuitivamente, um sistema de axiomas é construído como segue: primeiro escolhemos os conceitos básicos e procuramos explicá-los sua natureza da mel- hor maneira possível. Segundo escrevemos os axiomas para os conceitos. Agora, apresentaremos um sistema “parcial” de axiomas como uma amostra do modelo axiomático.

Exemplo 1.5 O sistema de axiomas E da Geometria Plana (Euclides).

Termos indenidos: Ponto e Reta.

E 1 - Toda reta é uma coleção de pontos.

E 2 - Existem pelo menos dois pontos.

E 3 - Se P e Q são pontos distintos, então existe uma e somente uma reta contendo P e Q.

E 4 - Se r é uma reta, então existe um ponto fora de r .

E 5 - Se r é uma reta e P um ponto fora de r , então existe uma e somente uma reta s contendo P e paralela à reta r .

Observação 1.6 Seja E o sistema de axiomas da Geometria Plana (Euclides)

1. Ponto e reta em E desempenham o mesmo papel que as variáveis em equações algébricas, por exemplo,

(x + y ) 2 = x 2 + xy + yx + y 2 ,

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CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

com x e y representando qualquer objeto (número, matriz, etc.) de um certo conjunto especicado.

2. Note que o axioma E 1 em E estabelece uma relação entre os termos indenidos ponto e reta.

3. Vamos mostrar, com um exemplo, que o sistema de axiomas E não

é adequado para a Geometria Plana. Seja C uma cidade com duas bi- bliotecas distintas,

C = {b 1 ,b 2 } ,

em que os termos indenidos são: “livro = ponto” e “biblioteca = reta.” Note que o axioma E 3 não é satisfeito, enquanto os outros o são.

4. Seja Z uma comunidade formada de quatro pessoas

e seis clubes

Z = {a, b, c, d }

ab, ac, ad, bc, bd e cd,

em que os termos indenidos são: “pessoa = ponto” e “clube = reta.” Então todos os axiomas são satisfeitos.

Teorema 1.7 Todo ponto pertence a pelo menos duas retas distintas.

Prova. Seja P um ponto qualquer. Pelo axioma E 2 existe um ponto Q distinto de P . Pelo axioma E 3 existe uma e somente uma reta r contendo P e Q. Além disso, pelo axioma E 4 existe um ponto R fora de r . Novamente, pelo axioma E 3 existe uma reta s contendo P e R .

Finalmente, pelo axioma E 1 temos que r 6= s, com r s = {P }. ¥

1.2.

MODELOS AXIOMÁTICOS

9

1.2. MODELOS AXIOMÁTICOS 9 Figura 1.5: Esboço da Prova. Corolário 1.8 Toda reta contém pelo menos

Figura 1.5: Esboço da Prova.

Corolário 1.8 Toda reta contém pelo menos um ponto.

Prova. Primeiro note que pelo axioma E 2 existe um ponto P e pelo Teorema 1.7 existem duas retas distintas r e s contendo P . Agora, suponhamos, por absurdo, que exista uma reta t sem pontos. Então, por denição, r e s são paralelas à reta t. Como P está fora de t temos, pelo axioma E 5 que existe uma e somente uma reta u contendo P e paralela à reta t, o que contradiz o

fato de r e s serem paralelas à reta t.

¥

Teorema 1.9 Toda reta contém pelo menos dois pontos.

Prova. Seja r uma reta qualquer. Então, pelo Corolário 1.8, r contém um ponto P e pelo Teorema 1.7, existe uma reta s distinta de r contendo P . Logo, pelo axioma E 1 , existe um ponto Q tal que

(Q r e Q / s) ou (Q / r e Q s).

Se Q r , então o Teorema está provado. Se Q s, então, pelo axioma E 4 existe um ponto R fora de s. Assim, temos duas possibilidades: se R r , então o Teorema está provado. Se R / r , então pelo axioma E 5 existe uma e somente uma reta t contendo R e paralela à reta s. Armação. r t 6= . De fato, se r t = , então a reta t é paralela à reta r . Logo, r e s são retas contendo P e paralelas à reta t, o que contradiz o axioma E 5 . Seja X r t. Então X é um ponto distinto de P , pois P / t. Portanto,

r contém pelo menos dois pontos P e X .

¥

10

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

10 CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO Figura 1.6: Esboço da Prova. Corolário 1.10 Toda reta fi

Figura 1.6: Esboço da Prova.

Corolário 1.10 Toda reta ca completamente determinada por quaisquer dois de seus pontos que sejam distintos.

Prova. Seja r uma reta qualquer. Então, pelo Teorema 1.9, a reta r contém dois pontos distintos P e Q. Portanto, pelo axioma E 3 , a reta r é completa-

mente determinada pelos pontos P e Q.

¥

Teorema 1.11 Existem pelo menos quatro pontos distintos.

Prova. Pelo axioma E 2 existem pelo menos dois pontos distintos P e Q. Pelo axioma E 3 existe uma única reta r contendo P e Q. Além disso, pelo axioma E 4 existe um ponto R fora de r e, pelo axioma E 5 , existe uma única reta s contendo R e paralela à reta r . Finalmente, pelo Teorema 1.9, s contém um ponto S distinto de R . Por- tanto, existem pelo menos quatro pontos P , Q, R e S . ¥

S distinto de R . Por- tanto, existem pelo menos quatro pontos P , Q ,

Figura 1.7: Esboço da prova.

1.2.

MODELOS AXIOMÁTICOS

11

Teorema 1.12 Existem pelo menos seis retas distintas.

Prova. Pela prova do Teorema 1.11, existe uma reta r contendo P e Q; uma reta s paralela à reta r contendo pontos distintos R e S . Logo, pelo axioma E 3 existem retas u e v contendo Q e S ; P e R , respectivamente. Note que Q / v , pois se Q v , então v = r e R r , o que é impossível. De modo inteiramente análogo, prova-se que S / v e P, R / u. Novamente, pelo axioma E 3 existem retas t e x contendo P e S ; Q e R , respectivamente. Observe que Q / t e S / x. Portanto, r , s, t, u, v e x são retas distintas. ¥

r , s , t , u , v e x são retas distintas. ¥ Figura

Figura 1.8: Esboço da prova.

Note, nas provas dos resultados acima, que as Figuras nos ajudam a me- morizar os vários símbolos

(r, s, P, Q, )

bem como, seus signicados de maneira mais fácil. Não obstante, nenhum signicado especial foi dado aos termos “ponto” e “reta”, e, consequentemente, são válidas se substituirmos pessoas por pontos e duas pessoas por reta. Além disso, é claro que não provamos acima todos os teoremas possíveis. Finalizaremos esta seção apresentado mais um exemplo de um sistema de axiomas para denirmos um “corpo.”

12

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

Exemplo 1.13 O sistema de axiomas F formado por um conjunto não vazio K de objetos (corpo).

Termos indenidos: Objetos (Conjunto e Pertinência).

O conjunto K é munido com duas operações binárias:

+ : K × K−→K b e · : K × K−→K

(a, b) 7−→ a +

(a, b) 7−→ a · b

chamadas adição e multiplicação tais que os seguintes axiomas são satis- feitos:

F 1 - Sejam a, b, c, d K . Se a = c a operação + está bem denida.

e b = d, então a + b = c + d, isto é,

F 2 -

a + (b + c)=(a + b) + c, para todos a, b, c K .

F 3 -

Existe 0 K tal que a +0=0+ a = a, para todo a K .

F 4 - Para cada a K , existe a K tal que a + (a)=(a) + a = 0.

F 5 -

a + b = b + a, para todos a, b K .

F 6 - Sejam a, b, c, d K . Se a = c e b = d, então a · b = c · d, isto é, a operação · está bem denida

F 7 -

a · (b · c)=(a · b) · c,

F 8 - Existe 1 K tal que

para todos a, b, c K .

a · 1=1 · a = a,

para todo a K .

F 9 - K possui pelo menos dois elementos. Neste caso, o elemento 0 é diferente do elemento 1.

F 10 -

Para cada a K , existe a 1 K tal que a · a 1 = a 1 · a = 1.

F 11 - a · b = b · a, para todos a, b K .

1.2.

MODELOS AXIOMÁTICOS

13

F 12 - A operação binária + é distributiva sobre a operação binária · , isto é,

a · (b + c) = a · c + a · b e (a + b) · c = a · c + b · c, a, b, c K.

Teorema 1.14 Sejam K um corpo e a, b, x K .

1.

Se

a + x

= a, então

x = 0.

2.

Se

b 6= 0

e b · x = b,

então x = 1.

3.

Se

a + b = 0, então b = a.

4.

A equação a + x = b possui uma única solução x = (a) + b.

5.

Se b 6= 0, então a equação b · x = a possui uma única solução x = b 1 · a.

6.

x · 0=0 · x = 0.

 

7.

x = (1)x.

8.

(a + b)=(a)+(b).

9.

(x) = x.

10.

(1) · (1) = 1.

11.

Não existe y K tal que 0 · y = 1.

Prova. Vamos provar apenas os itens (1), (6), (8)e(11): (1) Usando sucessi- vamente, os axiomas F 3 , F 4 e F 2 , obtemos

x

= 0+ x

= [(a) + a] + x

= (a)+(a + x) hipótese

= (a) + a = 0.

(6) Pelo axioma F 3 , 1=1+0. Logo, pelo axioma F 6 ,

x · 1 = x · (1 + 0).

14

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

Assim, pelos axiomas F 8 e F 12 , x = x + x · 0. Portanto, pelo item (1), x · 0=0. (8) Pelo item (7), (a + b)=(1)(a + b). Pelo axioma F 12 ,

(1)(a + b)=(1)a + (1)b.

Novamente, pelo item (7),

(1)a + (1)b = (a)+(b).

Portanto, (a + b)=(a)+(b).

(11) Pelo item (6), 0 · x = 0, para todo x K . Suponhamos, por absurdo, que exista y K tal que 0 · y = 1. Então 0=0 · y = 1, o que contradiz o

¥

axioma F 9 .

EXERCÍCIOS

1. O sistema de axiomas V formado por um conjunto não vazio V de “ve- tores” (espaço vetorial).

Termos indenidos: Vetores.

O conjunto V é munido com duas operações:

+ : V × V−→V (u, v ) 7−→ u + v

e · : K × V−→V (a, u) 7−→ a · u

chamadas adição e multiplicação por escalar tais que os seguintes axiomas são satisfeitos:

V 1 - Sejam u, v, w, t V . Se u = w e v = t, então u + v = w + t, isto é, a operação + está bem denida.

V 2 -

V 3 - Existe 0 V tal que u +0=0+ u = u, para todo u V .

u + (v + w )=(u + v ) + w , para todos u, v, w V .

1.2.

MODELOS AXIOMÁTICOS

15

V 4 - Para cada u V , existe u V tal que

u + (u)=(u) + u = 0.

V 5 - u + v = v + u , para todos u, v V .

V 6 - Sejam a, b K e u, v V , em que K é um corpo. Se a = b e

u = v , então a · u = b · v , isto é, a operação · está bem denida.

V 7 - a(b · u)=(ab) · u, para todo u V e a, b K .

V 8 - (a + b) · u = a · u + b · u, para todo u V e a, b K .

V 9 - a · (u + v ) = a · u + a · v , para todos u, v V e a K .

V 10 - 1 · u = u, para todo u V e 1 o elemento identidade de K .

(a)

Mostre que o vetor 0 é único em V .

(b)

Mostre que o vetor u é único em V .

(c)

Mostre que existe um único x V tal que u + x = v , para todos

u,

v V .

(d)

Mostre que se u + u = u, então u = 0.

(e)

Mostre que a · 0=0, para todo 0 V e a K .

(f)

Mostre que 0 · u = 0, para todo u V e 0 K .

(g)

Mostre que se a · u = 0, então a = 0 ou u = 0, onde u V e a K .

(h)

Mostre que u = (1)u, para todo u V .

(i) Mostre que (a) · u = a · (u) = (a · u), para todo u V e a K .

2. Mostre que o conjunto dos números complexos

C = {a + bi : a, b R e i 2 = 1}

satisfaz o sistema de axiomas V com as operações usuais, onde K = R.

3. O sistema de axiomas G formado por um conjunto não vazio G de objetos (grupo).

16

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

Termos indenidos: Objetos.

O conjunto G é munido com uma operação binária:

· : G × G−→G (a, b) 7−→ a · b

chamada produto tais que os seguintes axiomas são satisfeitos:

G 1 - Sejam a, b, c, d G. Se a = c e b = d, então a · b = c · d, isto é, a operação · está bem denida.

G 2 -

G

G 4 - Para cada a G, existe a 1 G tal que a · a 1 = a 1 · a = e.

a · (b · c)=(a · b) · c,

para todos a, b, c G.

3

- Existe e G tal que a · e = e · a = a, para todo a G.

(a)

Mostre que o elemento e é único em G.

(b)

Mostre que o elemento a 1 é único em G.

(c)

Mostre que para quaisquer a, b G, as equações a · x = b e y · a = b possuem soluções únicas x, y G.

(d)

Mostre que as funções L c : G−→G e R c : G −→ G denidas como L c (x) = c · x e R c (x) = x · c, respectivamente, são bijetoras, para todo c G xado.

4. Seja M 2 (R) o conjunto das 2 × 2 matrizes com entradas em R. Mostre que o conjunto das matrizes invertíveis

GL 2 (R) = {A M 2 (R) : det(A) 6= 0}

satisfaz o sistema de axiomas G , com a operação usual de multiplicação de matrizes.

1.3 Caracterização de um Sistema de Axiomas

Quando os termos indenidos e os axiomas forem selecionados, como pode- remos garantir que o sistema de axiomas obtido é adequado aos propósitos

1.3.

CARACTERIZAÇÃO DE UM SISTEMA DE AXIOMAS

17

para que foi estabelecido? Se, por exemplo, ele foi estabelecido para servir de base para os fundamentos da Geometria Plana, então desejaríamos saber de alguma maneira se de fato os axiomas estabelecidos são sucientes. Outra questão que poderíamos abordar, é sobre a “independência” dos axiomas; algum dos axiomas pode ser provado a partir dos outros, e caso isto ocorra, não deveríamos enunciá-lo como um teorema para ser depois demonstrado? A experiência tem mostrado, entretanto, que uma questão mais fundamen- tal é a seguinte: o sistema implica teoremas contraditórios? Se isto ocorre, então é claro que alguma coisa está errada, e teremos então que eliminar este defeito antes de abordarmos qualquer outro aspecto. Consideraremos portanto esta questão em primeiro lugar. Seja Σ um sistema de axiomas. Diremos que Σ é consistente se ele não im- plicar teoremas contraditórios. Caso contrário, diremos que Σ é inconsistente.

Observação 1.15 Como cada axioma é implicado pelo sistema de axiomas temos, em particular, que um sistema de axiomas consistentes não pode ter axiomas contraditórios.

Exemplo 1.16 Se acrescentarmos o axioma, E 6 - “Existe no máximo três pontos”, ao sistema de axiomas E da Observação 1.6, então E é inconsistente, pois, contradiz o Teorema 1. 11, “Existem pelo menos quatro pontos.”

Seja Σ um sistema de axiomas. Uma interpretação de Σ é uma atribuição de signicados aos termos indenidos do sistema, de modo que os axiomas se tornem simultaneamente proposições verdadeiras para todos os valores va- riáveis (por exemplo, pontos e retas no sistema E ).

Exemplo 1.17 O conjunto Z de quatro pessoas é uma interpretação para o sistema de axiomas E da Observação 1.6.

Exemplo 1.18 O conjunto dos números reais R é uma interpretação para o sistema de axiomas F do Exemplo 1.13.

Seja Σ um sistema de axiomas. Um modelo para Σ é o resultado de uma interpretação. Assim, o conjunto dos números reais R é um modelo do sistema

18

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

de axiomas F , e a coleção de quatro pessoas Z é também um modelo para o sistema E . Em geral, quando fazemos uma interpretação I de um sistema de axiomas Σ, o modelo resultante da interpretação será representado por M (I ). Para alguns modelos de um sistema de axiomas Σ, alguns axiomas do sistema podem ser verdadeiros por vacuidade, isto é, axiomas da forma “se

” (p q ), que chamaremos de “axiomas condicionais ”, podem

ser verdadeiros quando interpretados simplesmente porque a parte condicional

, então

“se

” não é satisfeita pelo modelo.

Exemplo 1.19 Sejam p a sentença “dois ângulos opostos pelo vértice” e q a sentença “dois ângulos congruentes.” Então comprove intuitivamente a tabela da sentença p q sendo verdadeira se pudermos desenhar o diagrama dos ângulos, caso contrário, falsa, conra Figura 1.9.

ângulos, caso contrário, falsa, con fi ra Figura 1 . 9 . Figura 1.9: Tabela de

Figura 1.9: Tabela de Verdade.

p

q

pq

(p) q

V

V

V

V

V

F

F

F

F

V

V

V

F

F

V

V

Seja Σ um sistema de axiomas. Diremos que Σ é satisfatório se ele admitir uma interpretação.

Exemplo 1.20 Os sistemas de axiomas E e F da Observação 1.6 e do Exem- plo 1.13, respectivamente, são satisfatórios.

1.3.

CARACTERIZAÇÃO DE UM SISTEMA DE AXIOMAS

19

Vamos determinar um método de vericarmos a consistência de um sistema de axiomas Σ. Para isso, vamos relembrar dois princípios da lógica clássica (Aristoteliana). Seja p uma sentença (ou proposição). Então:

1. Princípio da contradição. Se p é verdadeira, então p é falsa, isto é, dadas duas proposições contraditórias uma delas é falsa. Em símbolos,

[p (p)].

2. Princípio do terceiro excluído. p ou p é sempre verdadeira, isto é, dadas duas proposições contraditórias pelo menos uma delas é sempre verdadeira. Em símbolos,

p(p).

Exemplo 1.21 Seja p a proposição “hoje é quarta-feira.” O princípio da con- tradição vale, pois hoje não pode ser ambos quarta-feira e quinta-feira. O princípio do terceiro excluído arma p ou p é sempre verdadeira.

Exemplo 1.22 Seja A um conjunto e P (x) uma propriedade “a qual é signi- cativa para cada elemento x em A.” O princípio do terceiro excluído arma ou existe um x A tal que P (x) é verdadeira ou ao contrário, P (x) é falsa, para todo x A.

Seja Σ um sistema de axiomas. Uma Σ-proposição é uma proposição que pode ser expressa com base nos termos indenidos e universais de Σ.

Exemplo 1.23 Os axiomas e teoremas de Σ são Σ-proposições.

Vamos enunciar mais dois princípios da lógica aplicados ao sistema de axiomas Σ.

L 1 Todas as proposições implicadas pelos axiomas de Σ, são verdadeiras para todos os modelos de Σ.

L 2 O princípio da contradição se aplica a todas as proposições sobre um modelo de Σ, desde que elas sejam Σ-proposições cujos termos técnicos tenham os signicados dados na interpretação.

20

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

Sejam Σ um sistema de axiomas e I uma interpretação de Σ. Uma (Σ, I )- proposicão é o resultado de atribuirmos aos termos técnicos de uma Σ-proposi- ção seus signicados em I . Assim, os princípios (L 1 ) e (L 2 ) podem ser enunci- ados como seguem:

L 1 0 Toda (Σ, I )-proposição, tal que a correspondente Σ-proposição é impli- cada por Σ, é verdadeira para M (I ).

L 2 0 (Σ, I )-proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras para M (I ).

Teorema 1.24 Seja Σ um sistema de axiomas. Se Σ é satisfatório, então ele é consistente.

Prova. Suponhamos, por absurdo, que Σ seja inconsistente. Então existem duas Σ-proposições contraditórias em Σ. Como Σ é satisfatório temos que existe uma interpretação I para Σ. Logo, pelo princípio (L 1 0 ), essas proposições podem ser vistas como (Σ, I )-proposições e são ambas verdadeiras para M (I ),

o que contradiz o princípio (L 2 0 ). Portanto, Σ é um sistema consistente. ¥

Observação 1.25 Seja Σ um sistema de axiomas. A existência de uma in- terpretação em Σ garante a sua consistência.

Exemplo 1.26 A interpretação I = R garante a consistência do sistema de axiomas F do Exemplo 1.13.

Sejam Σ um sistema de axiomas satisfatório e A 1 ,

,A

n os axiomas de Σ.

Diremos que um axioma A j é independente em Σ se o sistema de axiomas

(ΣA j )+(A j )

for satisfatório, ou seja, o sistema de axiomas Σ excluindo o axioma A j mais

a negação do axioma A j é satisfatório.

,A n os axiomas

de Σ. Se A j for provado pelo sistema de axiomas Σ A j , então A j não é independente. Neste caso, todo modelo que satisfaça Σ A j satisfaz necessari-

Observação 1.27 Sejam Σ um sistema de axiomas e A 1 ,

amente A j (prove isso!) e, portanto, não podemos achar uma interpretação para Σ A j , que não seja interpretação de A j .

1.3.

CARACTERIZAÇÃO DE UM SISTEMA DE AXIOMAS

21

Exemplo 1.28 O axioma E 5 do sistema de axiomas E do Exemplo 1.5 é in- dependente.

Solução. Seja E 6 o seguinte axioma: “existe uma reta r e um ponto P fora de r tal que não existe nenhuma reta s contendo P e paralela à reta r .” Armação. E 6 =E 5 e (E E 5 ) + E 6 é um sistema de axiomas satis- fatório. De fato, seja M o conjunto de três moedas distintas, em que “moeda = ponto”

e

“par de moedas = reta.” Então é fácil vericar que os axiomas E 1 , E 2 , E 3

e

E 4 de E são satisfeitos, mas o axioma E 5 não é satisfeito. Assim, M é uma

interpretação para (E E 5 ) + E 6 . Portanto, (E E 5 ) + E 6 é satisfatório e E 5

¥

é independente em E .

Exemplo 1.29 O axioma F 10 do sistema de axiomas F do Exemplo 1. 13 é independente.

Solução. Seja F 13 o axioma: “para algum a K , não existe a 1 K tal que a · a 1 = a 1 · a = 1.” Armação. F 13 =F 10 e (F F 10 ) + F 13 é um sistema de axiomas satisfatório. De fato, o conjunto dos números inteiros Z, com as operações usuais de adição e multiplicação, é uma interpretação para (F F 10 )+ F 13 . Portanto, (F F 10 )+ F 13 é satisfatório e F 10 é independente em F . ¥

Exemplo 1.30 O axioma F 5 do sistema de axiomas F do Exemplo 1.13 não é independente, ou seja, F F 5 implica F 5 .

Solução. Devemos provar que F 5 é uma consequência do sistema de axiomas F F 5 . Primeiro vamos desenvolver (a + b) (1 + 1) de duas maneiras: Pelos axiomas F 12 , F 8 e F 2 , obtemos

(a + b) (1 + 1) =

(a + b) · 1+(a + b) · 1

= (a + b)+(a + b)

= a + (b + a) + b.

22

CAPÍTULO 1. O MÉTODO AXIOMÁTICO

Por outro lado, pelos axiomas F 12 , F 8 e F 2 , obtemos

Logo,

(a + b)(1 + 1) =

a(1 + 1) + b(1 + 1)

= (a + a)+(b + b)

= a + (a + b) + b.

a + (b + a) + b

= a + (a + b) + b.

Portanto, pelos axiomas F 3 , F 4 e F 2 , obtemos

a + b =

[0 + (a + b)] + 0

=

(a)+[a + (a + b) + b]+(b)

=

(a)+[a + (b + a) + b]+(b)

=

[0 + (b + a)] + 0

=

b + a,

que é o resultado desejado. Faça outra prova desenvolvendo (1 + a) (1 + b) de

¥

duas maneiras.

Sabemos que com o sistema de axiomas E não podemos provar todos os teoremas da Geometria Plana. Na realidade vimos uma interpretação para o sistema E com apenas um número nito de pontos. É claro que isto não deveria ocorrer se fosse um sistema adequado para o estudo da Geometria Plana. Agora, vamos iniciar a noção de completividade de um sistema de axiomas, com a ideia de serem os axiomas desses sistemas sucientes para provarmos todos os teoremas, podemos armar que se encontrarmos um teorema tal que, tanto ele como sua negação não podem ser provados no sistema, então esse “teorema” é um candidato a um novo axioma do sistema. Seja Σ um sistema de axiomas. Diremos que Σ é independente se todos os axiomas de Σ o são.

Exemplo 1.31 O sistema de axiomas F do Exemplo 1.13 não é independente.

1.3.

CARACTERIZAÇÃO DE UM SISTEMA DE AXIOMAS

23

Seja Σ um sistema de axiomas. Diremos que Σ é completo se não existir uma Σ-proposição p tal que p seja um axioma independente em Σ + p, isto é, os sistemas de axiomas Σ + p e Σ + (p) sejam satisfatórios.

Observação 1.32 Seja Σ um sistema de axiomas. Vimos que Σ é completo se for impossível adicioná-lo um novo axioma independente. Neste caso, os termos indenidos devem permanecer os mesmos.

Exemplo 1.33 O sistema de axiomas E do Exemplo 1.5 não é completo. Pois se E 6 é o axioma: “existe no máximo quatro pontos”, então E + E 6 e E +(E 6 ) são satisfatórios, um vez que, o primeiro admite a interpretação das quatro pessoas e o segundo admite a interpretação da Geometria Plana.

Sejam Σ um sistema de axiomas e M 1 , M 2 dois modelos para Σ. Diremos que M 1 é isomorfo a M 2 se existir uma função bijetora de M 1 sobre M 2 que preserva as Σ-proposições.

Exemplo 1.34 Sejam E 6 o axioma: “existe no máximo quatro pontos” e E 0 =

E + E 6 um sistema de axiomas. Então os modelos M 1 = M (I 1 ) e M 2 = M (I 2 )

para E 0 são isomorfos, onde I 1 = conjunto de quatro pessoas e I 2 = conjunto de quatro moedas.

Com a denição de isomorsmo à nossa disposição, podemos determinar um método que nos permita vericar a completividade de um sistema de axiomas. Este método baseia-se no seguinte conceito:

Seja Σ