Você está na página 1de 54

Esperança

Ricardo de Almeida Rocha


Carros ressoam no crepúsculo ao longo da Avenida
Atlântica atrás de mim. O oceano transmite a velha paz que
jamais consigo manter. Deus, eis-me aqui de novo
tentando. Pode ser o começo de uma história, de minha
história; até aqui nada além de sonhar e abortar sonhos.
Mas descalço na areia sinto que minha existência é real e
mais que isso, necessária. Sempre fui aquele que poderia
ter sido. Tudo o que fiz foram as coisas que deixei de fazer.
Um sonhador, prefiro considerar; um perdedor, será
irreversível admitir?

Pode estar para acontecer alguma coisa neste fim de


dia, parece vir de longe um prenúncio na brisa que respiro.
Alguns banhistas chocam-se com as ondas, eu mergulho.
Saio das águas, gotejando; ponho os cabelos para trás.
Enquanto caminho para casa, imagino o que está errado
comigo. Casais se beijam nos bancos. O homossexual
passeia com seu cão. Adolescentes em grupos na esquina.
Mães e suas crianças correndo. Há quanto tempo tenho
andado por essa trilha à beira da estrada? As luzes
começam a aparecer nas janelas. Desce a noite quente
sobre o Rio de Janeiro. É como se a vida me mostrasse um
sinal.

Minha mãe pediu para que eu levasse uma encomenda


que ela trouxe de Paris para sua amiga Teresa. Tomo banho
como quem tem pressa. Eu não tenho respostas. Visto a
camisa, vou à cozinha. Anatólia, a empregada, cantarola
“Último Desejo”. Faço um sanduíche de queijo, que como
bebendo uma coca. Tereza tem uma filha de minha idade.
Não vou suportar por muito tempo essas refeições rápida
sozinho e continuar me vestindo com destinos
circunstanciais. No saguão do prédio, hesito antes de entrar
na marcha da normalidade lá fora e fazer parte dos passos
das pessoas lá fora.

Vou a pé da rua Paula Freitas até a Sá Ferreira.


Quando Sara abre a porta, eu a vejo, Esperança. Ela
empurra com cuidado e carinho o velho na cadeira de
rodas. Oi, diz Sara. Oi, respondo; tudo bem? como tem
passado o seu pai? Um derrame é um derrame; o estado
dele não tem muitas alterações; eu e mamãe já
aprendemos a conviver com isso. O que se pode dizer numa
situação assim? Estou indo ao cinema, diz ela; porque não
diz que vem comigo? Esperança, que havia sumido no
corredor, volta, já não de branco, cumprimenta-me,
despede-se de Sara, passa por mim e pela porta, chama o
elevador. Já estou atrasado para um compromisso,
apresso-me em responder; outro dia a gente vai. Ah, vou
aproveitar o elevador.

Esperança vai me dizer seu nome. Você é a nova


enfermeira do Dr. Carlos? Sou, ela sorri. Sou amigo da
família. Muito prazer. Agora sei seu nome e ela o meu.
Vamos nos despedir, não sei como evitar. Estou enfeitiçado
pela luz nos seus olhos. Não há tempo para timidez. Digo
que vou ao cinema. Não gostaria de vir comigo? Estou um
pouco cansada; noutro dia a gente vai. Também estou
cansado, respondo com súbita firmeza; cansado de esperar
dias que nunca chegam. Que filme você vai ver? ela diz
após a pausa. Estamos parados na esquina. Eu estou no
paraíso.

Conheci Esperança em uma quinta feira, numa época


em que me determinara a nunca mais chorar ou me sentir
miserável, exceto pela visão de crianças miseráveis
chorando. Ela gostava de ópera, não todas nem toda uma,
mas aqueles trechos em que a contralto se esgoela,
desprendendo a alma pela garganta. Quanto a mim, só
mesmo os velho blues aquietavam meu espírito. A noite
arrefecera um pouco e a lua caminhava conosco. Os ônibus
passavam cheios. As pessoas caminhavam apressadas para
chegar em casa e não perder a novela. Nós andávamos
devagar e ainda não tínhamos nos decidido por um filme.
Naqueles momentos eu não era nem um sonhador nem um
perdedor, e estava realmente fazendo o que fazia,
partilhando com Esperança a sagração da vida, refletindo
Deus e os homens. Estou aprisionado numa nuvem de
pureza, glória e serenidade. Eis o lugar de Esperança, anjo,
e quando mulher, sem embelezamentos espirituais, se
mantém limpa de rosto; e limpa é a alma que expõe diante
de mim.

Eu não podia imaginar, como quem ama geralmente


não pode, haver no mundo alguma fealdade que pudesse
desafiar a beleza de nossa afeição, avançando com a noite
para a plena luz do amanhecer que combinamos
contemplar na praia. Nada existia que pudesse mudar o
que ela provocava em mim, sua singeleza e segurança, a
sensualidade sem astúcia. Ela era o cumprimento de
minhas idealizações. Quaisquer imperfeições fortuitas,
causadas por influencia de passado ou destino, não
poderiam, se existissem, afastá-la da força de meu amor.
Que lei ousaria proibir o que meu ser começava a sentir,
doce revelação súbita, a felicidade?

Esperança era alta e magra, acalentava sonhos sem


perder o chão, possuía um riso triste que me deixava
indefeso e comovia, seus olhos brilhavam além de minha
admiração, venerava a Virgem e seus cabelos negros
emolduravam-lhe o rosto evocando a própria Senhora.

No final da sessão, enquanto os créditos desciam na


tela, Esperança disse ter se identificado muito com a
personagem. Acabáramos indo ao Cinema Um, na rua
Prado Júnior. Ela sentia-se perfeitamente em casa num
ambiente por demais liberado, mas considerei isso apenas
mais uma virtude sua, a capacidade de adaptação. Fomos
ver um filme que conta a história de um garoto que teve
uma doença rara, que deformou o seu rosto, mas ele
superara os traumas e levara uma vida normal, era alegre,
inteligentíssimo, muito sensível e – não, não, disse
Esperança. Eu me referia à mae do garoto. Cher fazia o
papel, uma mulher no limite, sempre drogada – Você?

Claro que não. Droga é loucura. Esperança tornou-se


enfática. Umas, os pós, a bebida, tiram a gente da
realidade, o que é uma covardia fatal; outras (o ácido, a
maconha), nos fazem ir ao coração da realidade, mas
tirando-nos de nós, o que acaba dando no mesmo. Para ela,
atenção era a palavra-chave. Uma estrela desceu dos céus
e a seguimos. Sonhos vagavam no olhar de Esperança
ofuscando feridas abertas sobre as quais ela ainda não
falara. Não havíamos sequer dado as mãos.

Atenção. Simples assim. Repetia-se, segura. Quando


se está atento, pode-se usufruir a mesma intensidade
alucinógena, com a vantagem da temperança. Olhei para o
céu recortado pelo alto dos prédios, como a esperar que o
espírito me enviasse alguma luz, que então partilharia com
Esperança, mas tive apenas uma vontade louca de sair da
Barata Ribeiro, onde fomos tomar um café, e ir logo para a
beira do mar, e foi essa vontade o que compartilhei com
aquela a quem minha alma começava a se apegar de forma
tão desatenta.

Atenção é a chave de tudo. Desde a estrela cadente


que vimos até o quebrar dessas ondas; do tremeluzir da
cidade no mar ao som de nossa própria voz; e o cheiro, o
sal desprendendo-se da praia, o cachorro quente da
carrocinha. Atenção – e nossos pés vivificam o toque da
areia. Com toda essa introdução, foi natural o que se
seguiu: seguro-a pelos ombros e a viro para mim; usufruo a
aura de seu perfume e sua respiração em meu rosto, antes
do beijo e me debruço no sonho em seus olhos, vendo
enfim a luz que por toda a noite intuí.

Estamos na clara manhã de sexta-feira, entrando na


penumbra do prédio famigerado pela vida dupla da maioria
de seus moradores. Esperança está à vontade,
cumprimenta o porteiro com intimidade, a voz grave
despedaçando as sílabas com seu sotaque de anjo. Uma
amiga de Nova Friburgo, sua cidade natal, também
enfermeira, estava hospedando Esperança enquanto ela
não arranjava a própria casa. Não esse é o sonho de toda
mulher, ter um lar e no fim do dia um homem para partilhar
a noite dentro dele? A porta do elevador se abriu. No
corredor escuro do décimo quinto andar, um vulto procura
chaves na bolsa. Impossível descrever esse talhe; o
importante não está ali, mas em meu próprio coração. Uma
voz ecoa ao entramos. É você Esperança?

Sim, responde ela na volta do mesmo grito. Achei que


embora tão pequeno, o apartamento aproveitava bem o
espaço e disse que era mesmo um lugar bom de se morar
enquanto se prepara uma vida. Um lugar assim me
bastaria, diz ela. Sorrindo, eu digo que decerto ela não
pretendia ter filhos. Ela sorri também.

O sorriso de Esperança, impregnado de reticências e


mistérios, na verdade, percebo agora que não é
exatamente triste, só não possui a alegria que
normalmente sorrir faz supor – é um sorriso além da
tristeza e da alegria e talvez por isso tão próximo de
alguma coisa que, mesmo não identificada com precisão,
considerei muito rara; algo como um instante perfeito,
lídimo. Tinha a ver com o que eu pressentira na praia no dia
em que a conheci: um aceno da vida ao qual seria herético
não corresponder.

Após me cumprimentar e afastar Esperança


sutilmente, Magda diz inaudivelmente para ouvidos não tão
acurados quanto os meus: Não é perigoso? Esperança olha
o relógio e fala. Você está atrasada. Magda é uma boa
moça, dessas que expressam a timidez pela extroversão e
fazem do paradoxo um estilo de vida. Será que eu posso ao
menos pentear o meu cabelo? Esperança não dá
importância à amiga mas entendo que ali ela é hóspede
também. Avisa para a amiga, na penteadeira segundo
imaginei, que agora ela é quem vai tomar um banho. Passa
em direção ao que deve ser a porta do banheiro. Eu
folheava as revistas sobre a mesinha de centro. Tchau,
despede-se Magda, súbita e rispidamente.

Esperança aparece na sala totalmente seca, com a


camiseta da noite sobre o corpo e as demais roupas que
vestia em algum lugar do quarto ou do banheiro. Um
balbucio dúbio. Aproxima-se do sofá onde eu estava e
ajoelha-se. Tira meus sapatos de camurça marrom e as
meias com desenhos em ponto-de-cruz. Meu cérebro
recebe a circunstância em crise aguda de limite e as
transporta para essas reflexões taquicárdicas que nunca
chegam a ser concluídas, transportadas que são para um
outro gênero de pensamento, obscuro e viajante, como
quando se fica na fronteira, antes de acordar e não mais no
transe do sono. Desabotoa minha camisa. Meus nervos
desfazem o que fazem as suas mãos e refazem tudo
segundo a estética de prazer captada pela poesia perdida
em seus dedos. Você está indo muito bem, diz ela ao abrir o
zíper da calça. É assim que deve ser, apenas dançar a
música que está tocando. Deve ser mesmo, concordei
humildemente, pois eu me sinto muito bem.
– É isso o que conta. Quero que se sinta bem; quero
que se sinta livre.

Das roupas já estou.

A gente não aprende a dançar senão dançando.


Minhas feridas estão assim tão abertas? Ela pode ler dentro
dos meus olhos. Mas, se hoje é tão diferente de mim, o que
nos atrai, é porque um dia foi tão igual, o que nos atrai
mais ainda.

A última peça sobre as outras roupas no sofá. Por que


eu devo conceituar seu comportamento? Ela me faz ser.
Me toma pela mão. O coração estressado da cidade lá
embaixo não parece sereno? Caos urbano, paz universal ou
minha alegre tranqüilidade. Eu decido o que as
circunstâncias ao redor serão, não o eterno inverso fatídico.

O chuveiro sobre a banheira. Esperança abre a água


com a mão direita e com a outra me leva para dentro do
boxe, mas não entra nem tira a camiseta. Quando estou
totalmente molhado, desliga a ducha, apanha o xampu e
lava os meus cabelos. O sabonete. Os ombros, a barriga.
Como Nicodemos, eu buscara respostas na noite cheio de
idéias próprias; mas numa dimensão maior sou levado ao
renascimento nas águas. Não sei de onde vem ou para
onde vai o vento mas, liberto da necessidade de saber,
posso enfim escuta-lo.

Ela entra na banheira. Ainda o sabonete. As costas, as


nádegas. Agacha-se. As pernas, as coxas. Vira-me. Deixa-
se. Prendo o ar. Fecho os olhos. Nada falávamos.

Torna a ligar a água e passa-a para a mangueira do


chuveirinho. Enxágua meus cabelos. A branca espuma no
ralo. Quando a noite terminará senão na certeza de que a
noite voltará? Esperança me entrega o xampu e o
sabonete. Estremeci quando ela puxou a malha por cima da
cabeça. Entra sob o jorro. Suas feições infantis contrastam
com a mulher imensa diante de mim, imenso também.

Seus cabelos ainda mais negros, a água escorre


abundante, como se a vestisse. Sobre mim as mudanças de
Esperança ao longo da vida, da pobre menina feia à bela
mulher independente. Acompanho as metamorfoses
contínuas que, quando eu chegava na suposição de
entende-las, ela ali já não estava. Essa é a própria essência
do prazer que me possui, o da impossibilidade. O sabonete
erra pela luz amarelada. Ela vira de costas e abriu os
braços, as palmas se apoiaram nos azulejos respingados.
Sombras e luzes em suas costas. É mais do que mereço,
mais do que podia esperar – o conhecimento restrito ao
sabor do momento que irreversivelmente passará e saber
de sua transitoriedade é eterniza-lo.
Quando desligo a água em definitivo, ela encosta a
cabeça em meu ombro num afago, e nosso abraço foi o das
partidas e dos reencontros.

Música no toca-discos. Erbaaaaaarme ditch. Anjos.


Pelas cortinas um profético fascínio purpúreo. Eu não tenho
duvidas. O tom que nos envolve introduziu-se em minhas
veias. Esperança, nua e tangível, real. Estou morta de fome,
diz. Eu também. Passos descalços na direção da cozinha.
Um certo frio, um elevador que se fecha no corredor, uma
geladeira aberta. Risos e olhares do amor mais inequívoco.
Ela em meu colo, comemos os mesmos sanduíches e
tomamos o refrigerante no gargalo.

Termo do suportável. Delicados preâmbulos sujeitam o


deleite. Toques tenros, afagos lentos. Murmúrios
ininteligíveis. Palavras desconexas, suspiros. Profundezas.
Infinitos. Umidade abissal e pulsação limítrofe. Ondas mais
fortes ameaçam nos molhar. Ainda não. Não há pressa. Não
há tempo no mundo; não há mundo lá fora. Assim. Visão de
paraíso. Esperança. Suave, ardente, morena como a virgem
em nuvem mágica de pureza. Assim. Atentamente, ah,
atenciosamente.

Uma fresta de manhã na volta ao quarto, ou de tarde


já talvez, divide a cama onde seu corpo começa a pousar.
Mãos apoiadas no lençol enrugado, enruga-se mais a toalha
branca. Um pedido da branca luz, a língua inquieta no
pescoço sinuoso, lábios que descem ao feixe do sol na
auréola, um vermelho mais vermelho e as mãos
multiplicadas, mãos em meus cabelos, gemidos, e outros a
esses apegados. Não há ombro como este, assim liso, nem
umbigo licoroso, ou costela, ou traços risonhos assim
entrevistos – o paladar e a consistência, os movimentos
vinculam o corpo a um desejo remoto e vago.

Que foi feito da noite? Está aqui, em sua síntese, plena


no dia, resumida, inteira no dia. Na luminosidade dos olhos
de Esperança, um espelho que pulsa em seu peito e me
reflete. Na suavidade e no silêncio, exceto pelo incenso do
coração longínquo da cidade lá embaixo. Na bondade, na
autenticidade, na respiração em meu rosto, no seio
suplicante, no pacto silente, na reticência de seu sorriso e
na poesia em seus dedos – a noite está aqui, o universo em
nós – nossas mãos falando nos lençóis, onde minhas
angústias?, amplidão de virtudes me enleva – assim, assim
– prendo o ar, fecho os olhos.

Estou enfim onde esperado.

Contornos sombrios na ponta da língua, lição de vida


ainda por vir, adivinhada, Esperança de olhos fechados e o
vale da voz sob o pescoço, sorri num momento e noutro
não sei mais se é um riso ou uma ordem a que obedecendo
não paro, ajoelhado; mas agora preciso me erguer, só um
pouco, e percebo o quanto a cama é alta e o quanto a flor
aberta me engole. O limite é onde o colchão acaba, nas
idas do reconhecimento úmido e róseo e nas vindas de um
tempo capaz de modificar os rostos e sentimentos, de
aplacar saudades ou tristezas e dar e retirar da alegria mais
ou menos vida.

Um grito, e mais um outro; quando os joelhos se


dobram lá no alto, há um relógio no pulso que se mantém
desde o cinema – resquício, analogia, testemunha. No balé
preciso, uma mudança na luz sobre o palco e a nova fala
não há que ser decorada. Ela enlaça meu pescoço nesse
arco, no abraço o calor dos seios trazem um mundo que só
prosseguirá na presença mútua, um mundo por instantes
abalado mas renovado após; e se vira sobre um corpo
estirado, sobre a forma pétrea que deve estar prestes a
partir desse ser nascido de mim e que não sei se ainda sou.

Tantas luzes se completam, marcam as mãos nas


carícias espalmadas, sombras que se espalham nas costas,
nas nádegas e nos cabelos, nenhuma superfície está imune.
Um beijo, longo e aturdido, uma nova pressão no abraço
deslumbrado antes que ela se vire e sente agora no corpo
estirado, as costas que obrigam o olhar que se pensava
exaurido, e sobe sobre uma destreza sequer imaginada, e
desce, e sobe, e ao fim a questão ainda se mantém, nada
está resolvido, donde talvez o novo apoio das mãos, sobre a
guarda da cama. Eu apenas me deixo guiar, o amor de
Esperança sabe tudo e entendo nada saber. Um céu sobre
suas costas, uma tarde inteira e logo a noite, odores,
ímpetos, e a incisão da lâmpada nos quadris. O espelho da
penteadeira devolve-me ainda seu rosto num gozo outro,
espectral, que se tardar perderá a necessária claridade,
sumindo na fina treva.

A noite está aqui, o universo em nós. Nossas mãos. As


minhas por trás, nos seios dela, as dela de novo nos
lençóis. Onde estão minhas angústias? Amplidão de
virtudes me enleva – assim, assim. Prendo o ar, fecho os
olhos, o mar desliza pela areia.

Esperança adormecera em meus braços, em sua


cama. O ambiente a ela familiar me evoca ainda as
expectativas do desconhecido. Eu permanecia desperto
porque acreditava ser um desperdício algumas horas de
descanso físico que poderia ter quando voltasse ao tempo.
Ela dormindo, eu respirava uma outra aura, não menos
partilhável ainda que noutra dimensão. Esperança
adormecida me oferece sua ignorância de mim, reparte
comigo todo o ser que em comunhão consciente comigo me
completava mas também excluía, na perfeita contemplação
dos matizes da cortina, ou os desenhos do papel de parede,
nas suas roupas sobre a cadeira (uma visão semelhante a
de seu corpo nu). Então absorvo todo um halo primaveril
dela exalado. Esperança dormindo é a porta esperançosa,
fechada, confiando-me sublimes esponsais; o trânsito
distante, distantes gemidos de animais pré-históricos; as
vozes de vizinhos falando coisas incompreensíveis de um
mundo no qual eu nascera e ao qual não pertencia; e,
sobretudo, Esperança, acordada, ela mesma, na integridade
de sua consciência, me estava vedada, era velada a visão
de sua alma quando falava ou calava, gesticulava, quando
olhava ou evitava olhar.

Talvez sacudida pela minha contemplação, virou-se de


costas para mim e se encolheu, o braço para fora do lençol,
no movimento descobrindo ombro e seio, e eis-me de novo
dividido, não mais basta a contemplação, mas minhas mãos
e lábios são os instrumentos gentis do que me basta e logo
a ação deles introduz-se nos desejos do despertar lento de
Esperança. Renúncia das plenitudes que um sono me
ofertava. Corpos se encontram nas doces limitações
amorosas. Sussurrei. A que horas Magda volta?

O turno dela é 24 por 48, um bom horário. Só voltará


de manhã. O telefone toca baixinho, como já tinha
acontecido diversas vezes ao longo do dia. Aroma de
cabelos limpos e uma pergunta. Você nunca atende as
ligações? Só em nuncas como hoje, responde. Se Magda
precisasse falar alguma coisa urgente, elas tinham um
código de toques. Agora ela pede que eu, por favor, apenas
continue, assim.

Ficamos pois assim, mexendo de quando em quando,


assim quietos, sem perguntas nem respostas, até o dia
terminar, quando exaustos terminamos também. Cortinas
abertas, amada luz noturna. As pessoas lá embaixo
derramam-se dos prédios comerciais no sentido da Central
do Brasil. Sete e dez no grande relógio da estação. Se eu
estivesse lá embaixo, voltando para casa depois de um dia
de trabalho, a posição dos ponteiros teria um doce
significado para mim, o que agora é irrelevante. Se já
conhecesse Esperança, essa janela, vista lá debaixo, entre
tantas e igual a todas, serie única. Vou fazer uma janta
decente para nós, nada de sanduíches, diz ela.

Num pequeno beijo, fiz a pergunta. O que é que se faz


quando chega o dia que não chegava nunca, aquele que
cansado estávamos de esperar? Não faça nada, diz ela num
carinho. Fica comigo.

Na penumbra do quarto, na quietude da madrugada,


nas pardacentas luminosidades da memória, na noite
infinita da alma – eu me envergonhava de meus temores,
remorsos e timidez. O que você disse? – perguntou
Esperança. Olhei-a. Ela dorme. Suspira. Me enterneço. O
relógio – 4h40 – tictactictac – testemunha a chegada de
boas ações que eu fizera pela existência, disposições
benfazejas para com os que me cercavam – reparti o meu
pão, dei meu agasalho, chorei com o que chorava – o bem
em toda intenção. 4h50. Agora, em Esperança amo toda
uma humanidade à qual revoltas inúteis me ensinaram a
desprezar. Um fluxo de luz enche minha alma.

Uma nova consciência: nem o esquecimento nem a


retenção de todas as coisas. 4h 53. Tudo tem o seu lugar.
4h56. Eu não poderia resistir muito num relacionamento de
amor com uma mulher abençoada pela Virgem com o dom
da liberdade, estando eu próprio preso a espíritos em mim,
5h08. Lembrar e esquecer vinculam-se à sabedoria e o
discernimento provém do olhar. O filamento nervoso de um
abajur só agora percebido rege as nuances dos fios de seu
cabelo. Um clarão do terror do que se quer alcançar e se
alcança.

5:14.

Mas, assim como passamos a noite sem nos tocar,


assim como falamos sobre Deus e cinema, assim como
introduzimos o clima do primeiro beijo, assim como vimos o
sol nascer, assim com passamos a madrugada sem comer e
comemos sanduíches no almoço e bife com batatas à noite,
assim como preparamos o amor e fizemos amor, e
dormimos e tornamos a fazer em outras posições, a
satisfação precederia sempre, no amor, um novo desejo e
não o tédio. Amar uma mulher, descobri, será continuar
amando, e ainda renovando, as mesmas coisas que fizeram
nascer esse amor.
– Seja o que for que estiver pensando – diz Esperança
ao recostar a cabeça no meu peito – a gente descobrirá
junto. Agora dorme um pouco.

Sempre existem horizontes quando o sol está para


nascer.

5h38.

Amanhecia.

Despertei com a visão da foto de Esperança sentada


num carrinho de mão cheio de flores, um cântaro no colo e
um chapéu de palha na cabeça, nos olhos o surpreendente
sorriso sem nuvens. Todavia a foto, que me havia
enternecido no dia anterior, era justamente daquela época
do mundo fechado em angústia terrível do qual me falara,
não da moça desprendida que se tornara no Rio e eu
conhecera. Em seguida Esperança entrou e seu rosto na
foto, até então sua única presença ali, retornou a seu lugar
no passado, deixando-me com aquela nova encarnação
dela no robe, olhos apertados em conformidade com o tom
que ilumina o quarto. Nosso café, disse ela, colocando na
cama a bandeja com as xícaras, os pães, a manteiga, o
suco e a omelete de queijo.

Digo que, desse jeito, ela está me acostumando mal. E


a Magda? Ela me repreende. Mas será que você não pode
esquecer a Magda? Moça adorada.
Segunda-feira seria feriado. Haveria uma festa no
domingo – Esperança me conta. Poderíamos passar o
sábado juntos, ir à praia talvez, mas por volta das seis e
meia ela teria de estar no serviço, na casa de Tereza,
horário em que saía uma das outras enfermeiras – não está
recitando um poema? A mão nas costas de minha mão. No
silêncio, paz e cansaço. Será assim. Eu a deixarei na Sá
Ferreira no final da tarde, quando se iniciará o rito de minha
saudade, amparado pela certeza de que, lá pelas dezoito e
trinta do domingo, eu a reencontraria.

Quando Magda chegou, sonolenta e cansada,


estávamos prontos para sair. A amiga não demonstra mais
precauções quanto à minha presença, o que de alguma
forma tornou-a uma mulher diferente e trouxe outro tipo de
aura. Quase gostaria que ela chegasse como saiu, pois
também devolveria os ainda incertos instantes em que eu
não sabia tudo o que estava por acontecer nas horas
seguintes com Esperança, o prazer da expectativa, um quê
de mistério e até a própria manhã anterior, para a qual sua
reação serviu de referência. Isso realmente acontecerá
mais tarde. Mas por agora me senti bem em compreender
que o Rio é uma cidade violenta, todos os dias os noticiários
exibem casos escabrosos, portanto nada mais natural que a
cautela anterior de Magda, dissipada com todos os meus
constrangimentos. Ela pergunta bocejando. Onde vocês
vão?
Arpoador. As ondas deslizam ao longo do limo na
pedra. Um recanto de privacidade no monte que sobe do
parquinho infantil. Ali passamos a tarde ao sol; ali nos
divertimos, conversando e cantando, em prelúdio de nós. O
zíper de novo aberto. Como eu posso lhe dizer que não? O
pôr-do-sol começa a avermelhar tudo ao redor. Esse cântico
será um dia mais um fenômeno mnemônico. A mulher
capaz disso, sem qualquer embaraço, há de ser, imagino,
guiada por um verdadeiro amor. Mas não se engane
comigo, diz Esperança subitamente séria. Eu não amei
nunca. Quero te amar, mas não sei se serei capaz. Ela havia
criado essa resistência, diz, sua alma foi como que
cauterizada, criou bloqueios que achou necessários para a
manutenção da liberdade. E amar fragiliza, quanto mais
verdadeiro, mais o amor expõe ao sofrimento. E, nem
mesmo por amor, concluiu, eu quero sofrer mais.

Não é necessariamente sofrer.

Sim, necessariamente. Como a madrugada é mais


escura imediatamente antes da manhã. Embora a gente se
alegre pela perspectiva do sol, ainda assim é treva e não
luz.

É luz, se a gente vive na luz, e não na treva exterior.

Nem sempre a gente consegue viver na luz interior. É


grande o fascínio das trevas.

– Você é tão bonita...

– Sei que tenho coisas bonitas em mim e também que


será difícil não me deixar cativar por você: sua alma é
nobre e seu corpo paciente. Mas quando te encontrei já
havia me decidido por uma vida e quando decidi não
imaginava que ainda poderia ser capaz de amar.

–Mas se amar, essa decisão fica automaticamente


cancelada...

– Não sei – disse ela. –Realmente não sei.

Fica então apenas assim, Esperança, sua cabeça em


meu colo. Fica então apenas assim, pousada em mim como
um pássaro ferido. O sol se põe, um flamejante disco-
voador. Ali, descendo sobre as lajes da favela. Vamos,
mostrarei a você no caminho razões para você me amar.

O crepúsculo atrás de nós concedia-lhe magenta


majestade quando a olhei pela última vez antes que ela
fosse na direção do prédio onde o Dr.Carlos sobrevivia.

Nessa época, eu costumava passar a maior parte de


meu tempo em casa, tocando violão e compondo em meu
quarto, só saindo para as refeições. Na terça-feira porém,
esse cotidiano, já afetado pelo conhecimento de Esperança,
deveria se modificar mais, pois começaria num emprego
em uma biblioteca. Em meu quarto, por todas as paredes,
havia fotos, razão quase única de minhas saídas de casa,
para pegar as cenas do nascer do sol e do poente, como
esses pescadores, essas turistas, esses jogadores de
futevôlei, esses corredores no calçadão. Fotografava ainda
crianças, mendigos, feirantes, e todo tipo de figura exótica
do velho Rio. Às vezes conseguia captar um rosto de
mulher como esse, também colado na divisória que me
guarda do mundo apreendido.

Mas há uma janela e além agora Esperança. Na


direção dela, os acordes de uma nova canção.

– Oi.

Cantando eu, distraído na lembrança de Esperança,


esvoaçando na lembrança de minha vida de reveses agora
resgatada, e eis que Sarah entrou no quarto sem bater,
sorridente, crepitante.

– Será que hoje sai nosso cinema? – pergunta ao


colocar a bolsa na cama e me beijar com uma intimidade
que não tínhamos. –Agora não vai me convencer com a
desculpa da pressa para um compromisso.

Lá fora vadiava um vento veemente de presságios.

Eu não queria acreditar, mas a vida é assim. Tantas


vezes desejei Sarah, na deliciosa elegância de seu corpo
bronzeado, quando vinha com Tereza para ir à praia com
minha mãe, mas por algum bloqueio relacionado decerto a
essa mesma relação de nossas famílias, por medo do
ridículo de me declarar e ser rejeitado, nunca fui além da
imaginação. Até o dia em que, com um pretexto perfeito,
determinado bati em sua porta, com a força acumulada
pelo longo tempo de solidão. E vi Esperança. Ela me
preencheu como desejo, preencheria logo minha vida –
desvanecida estava em mim a imagem de Sarah desde
aquela noite. E aqui está ela, extrovertida, elegante, um
olhar inequívoco. Sempre cantando e tirando fotos, seu
grande vadio, diz, olhando minhas paredes.

– Vivo por coisas que perdurem.

– O Ricamar está passando Subway. Um grande filme


deixa sempre uma recordação que não se apaga. Vamos?

– Muito cultuado para minha atual simplicidade.

–No Art está passando The Rose.

–Trágico demais. Estou vivendo um momento feliz.

Sempre que desejo entender o que se passou comigo


naqueles dias e como mudariam minha vida, ouço de novo
o comentário incrédulo de Sarah àquela minha declaração.
Agora você é simples e feliz, disse ela. O cara mais
complicado e angustiado do bairro? Então não posso deixar
de lhe dar razão e me torno um pouco menos arrogante
com relação a essas mudanças, revendo os lábios de Sarah
pronunciarem essas palavras enquanto o vento continuava
a soprar pela janela.

Mas na hora não me dei por vencido e repliquei. Você


me conhece tanto assim? É que às vezes sua mãe fala de
você.

– Minha mãe às vezes fala demais.

Bem, se eu não queria ir ao cinema, podíamos fazer


umas fotos. Perguntei se ela também gostava de fotografar.
Gosto de posar, diz ela. Não sabia que trabalho como
modelo?

–Não falo tanto assim com sua mãe.


–Eu sim. Ela diz que faríamos um belo par.

Justo agora que não fazemos mais, ela vem me dizer


isso? Então, prosseguiu Sarah, ao cinema ou às fotos?
Podemos fazer uns belos nus.

– Ao cinema.

Sarah apanha a máquina na cômoda e coloca-a em


minhas mãos. Segura a barra do vestido vermelho, os
polegares por dentro; cruzando os braços por cima da
cabeça, tira-o e o coloca no espaldar da cadeira. As mãos
descem pelo caminho das costas, já desligando o sutiã,
criteriosamente colocado junto ao vestido. O mesmo com a
calcinha do conjunto vermelho. Equilíbrio elogiável nos
sapatos altos. Deita-se em minha cama e coloca a mão
direita na cintura, numa pose provocante. Clic. Pergunto se
minha mãe não está em casa. Sarah responde que não,
virando-se um pouco mais de lado. E Anatólia também não.
Estava saindo quando ela entrou. Clic.

Algum dia esse tipo de coisa acaba, e não mais a lei da


carne trará o homem sujeito. Algum dia a criatividade e a
arte não mais operarão em favor da vaidade e do mero
prazer, clic, e não se invocará mais a culpa como consolo.
Ela agora está de bruços, sorri insinuante e dá uma
piscadinha.

Clic.

Coloco a máquina de volta na cômoda. O fogo é o


único elemento que não existe, que só existe sob certas
circunstâncias e não há, exceto o inferno, um lugar
constantemente em chamas. Sara abrira as cartas e
recolocava as roupas. Eu não estava prevenido – fui testado
e falhei. Mas um dia tudo isso acaba. Não sei quando. Um
dia.

Sara liga para casa e avisa à mãe onde está e irá


jantar. Esperança atende. Sabê-la em contato com a sala de
minha casa perturba-me e aproveito a campainha para
abrir a porta, o mais naturalmente, como se o telefonema
em nada me afetasse. Minha mãe entra, Sarah desliga,
abraçam-se – Como vai, querida? – três beijinhos, essas
coisas. Sentam-se e minha mãe começa a falar sobre a
visita que fizera – Minha filha, como estão bem de vida! – e
sua ida ao shopping – Meu Deus, como as roupas estão
caras!... – etc. Anatólia também já voltara e poe a mesa do
jantar. Atendendo a um pedido, Sarah liga a TV a pedido. A
cada cena gargalham, amaldiçoam as personagens
malvadas ou comentam maliciosamente a beleza do galã.
Prefiro seu filho. Ao comentário, minha mãe me olha com
olhos brilhantes e deslumbrado sorriso e diz que sim,
faríamos um belo par. Eu já falei isso hoje com ele, conclui
Sarah.

Depois do jantar minha mãe perguntou se íamos sair.


Pretextando interiormente a nobre intenção de contar a
Sarah sobre Esperança (a razão por que não poderíamos
formar o belo par sonhado por nossas famílias), eu mesmo
tomei a iniciativa de dizer que sim. Vai que ainda desse
para nos despedirmos num dos motéis da Glória.

Era cerca de onze horas e estávamos prontos para


sair. Divirtam-se, diz minha mãe. Sarah quis entrar em seu
carro, eu disse não, vamos de ônibus e a gente pode voltar
a pé. Sarah naturalmente não era mulher de estrelas ou
grandes caminhadas, mas aceitou, acredito eu por puro
estímulo da novidade. Pegamos o ônibus e, não fosse pelo
motivo que deveria quebrar nossa noitada, seria por outra
coisa qualquer. Não daria certo.

No vídeo-bar não havia clima para conversas sérias.


Vimos “O ultimo concerto de Rock”, bebendo vinho branco
que, para minha surpresa, não trouxe imediatas nem
posteriores náuseas. Dali fomos para um lugarzinho
aconchegante também nos quarteirões noturnos de
Botafogo. A baía não tão distante, imagináveis barcos
ancorados, cheiro de sábado nas esquinas. Aqui, a casa
onde morei na infância. O que exatamente estou querendo?
Sarah empresta ao vestido de minha mãe sua própria
exuberância. A cada clique da bolsinha prateada, dedos
carnudos trazem com os cigarros a atmosfera sensual de
uma sessão de fotos.

Quando enfim caminhávamos de volta, ao lado do


cemitério, em direção ao túnel por onde sairíamos em
Copacabana, satisfeito o fascínio de uma noitada com
semelhante mulher, lembrei-me da razão de ter decidido
sair com ela. Sarah, eu disse. E contei-lhe sobre Esperança.

Fúria, deboche e desprezo. Agora eu venho dizer que


amava outra? Depois de termos dormido juntos e namorado
a noite toda? Carros estrondeando interrompem de quando
em quando a voz estridente e colérica dentro do túnel.
Quem eu pensava que ela era para usa-la assim? Usa-la?

– Você despiu-se diante de mim e não era exatamente


para posar!

– Porque você deixou que eu acreditasse que queria


consolidar nossa relação, não por uns minutos de prazer
que aliás nem tive!

Desse jeito. Quer dizer: se eu nada fizesse além das


fotos, ela iria dizer que eu era bicha, espalharia isso por
nossas famílias. Como não fiz, era um...

– Calhorda!

Mulheres... E se eu tivesse feito e agora caísse a seus


pés, ela me acharia ridículo, bonzinho, antiquado, que para
um bom sexo não é preciso amor. A imagem de Esperança
insinua-se como o brilho de um diamante na lama do
arrependimento. Amor, preciso desesperadamente de você,
de juntar minha vida à sua. Esperança. Ela precisava
cancelar decisões anteriores a mim.

Rua Siqueira Campos, saída do túnel, clarões. Um sinal


escandaloso para um táxi, uma bolsinha luzindo. O veludo
estremece o corpo de Sara, seus cabelos parecem a chama
de uma vela soprada. O carro diminuiu a marcha. Perguntei
se ela me amava. O táxi parou, ela se virou para mim e
gritou. Pode ter certeza que jamais amaria um idiota como
você.

De que se queixa então? Por que está tão furiosa?

– Não estou furiosa com você! Quem é você para que


eu estivesse? Mas por não ter conseguido fazer você deixar
de ser um otário, por desperdiçar meu tempo com você,
babaca!

O chofer nos olha paciente. Desliga o motor. Está


sorrindo. Imaginei que a noite não poderia ter sido
semelhante suplício para ela, mas não tinha certeza.
Mantinha uma certa serenidade, porque Sara era uma
mulher educada, de muito espírito, decerto sua notável
finura não demoraria a fazê-la ver que não era para tanto.
Tudo bem, digo então, a gente não se ama mas passamos
bons momentos.

– Você passou bons momentos! Eu não gozei, não


gostei do filme, odiei seu papo!

O pior é que eu também não passara bons momentos,


a concupiscência, a vaidade e o vinho passara-os em mim,
na minha completa desatenção. Ela entra no táxi e bate a
porta. Pingos começam a tamborilar no metal. Abre a janela
e grita novamente, com a cabeça para fora. Você e aquela
putinha se merecem! O motorista engata rapidamente a
marcha. Ela continua gritando mas a distância e o ruído do
motor arrefecem suas imprecações.
O táxi dobra a Avenida Atlântica. A deusa da
tempestade cobre a noite com seu véu.

Grossos pingos chegam a doer mas só sinto a dor de


ter eclipsado a sublimidade de minha história com
Esperança. A chuva cai reta, o vento não sopra mais. A paz
em fuga outra vez. Caminho na direção de casa. Grandes
ondas cuspidas pelos automóveis da madrugada de
domingo, da grande poça que se tornara a margem do
asfalto, respingam em minha calça. Como eu fora
insensato! Talvez sentisse orgulho em falar com alguém de
nossa extraordinária ligação, sem levar em conta que nossa
ligação não era extraordinária exceto para nós, como uma
criança quer mostrar a boa nota que tirou na escola –
Esperança afinal era mesmo isso, minha aprovação para a
felicidade, apesar de todos os meus fracassos anteriores na
matéria.

Escuto. A respiração de Esperança dormindo no quarto


contíguo ao do Dr. Carlos. Pernas compridas, dobradas
numa cama estreita. Sonhos em quem sabe eu esteja.
Dedos de pés graciosos e fortes, uma brisa pela janela,
passos no corredor, a única lâmpada acesa na sala que dá
para a subida da favela. Braços abraçam o travesseiro. Um
dia tive aulas particulares de matemática ali, Dr. Carlos me
salvou de pelo menos duas repetições de ano. Um homem
bom e tão simples. Onde estão na mulher e em sua filha
aquela doce generosidade e eterna benignidade? Sara
chega, ferida e furiosa, passando pela porta de Esperança.
Mas todos dormem, logo estará ela dormindo também, de
manhã acordará curada. É solteira e experiente, fui apenas
um pequeno elo.

No dia seguinte, estaria tudo bem. Não havia por que


me inquietar.

Chego em casa ensopado, com muita dor de cabeça,


espirrando. Faço um chá de limão e tomo com duas
aspirinas. Um banho quente e um sono rápido, bem
coberto. Não posso estar gripado no domingo da festa com
Esperança.

Não dormi logo. Quantas pessoas se arrastavam pela


madrugada sem ter para onde ir, ansiando um lugar sem
volta, prisioneiros de suas opções ou da falta delas.
Mendigos, jovens drogados, prostitutas baratas,
acompanhantes, prostitutas de um homem só e aliança.
Loucos, inocentes no cárcere, vítimas de toda sorte de
violência, mulheres assediadas, mulheres estupradas, a
banalização da violência, corrupção, a reinação da injustiça
em tudo – o silêncio da noite é síntese de todo desespero e
solidão. E crianças miseráveis, ali mesmo na esquina,
dormindo sobre papelões ou na areia da praia,
pequenininhas algumas, os narizes escorrendo – que
sentido fazia eu e Esperança felizes para sempre?
Pela manhã não pensava em nada disso mas em
abrigar-nos do mundo num mundo nosso. Nem uma única
criança miserável passou em meu caminho quando à
tardinha fui esperar Esperança na esquina de nosso
primeiro dia.

O ônibus circular. A saída do túnel na Raul Pompéia.


Ainda falta quase uma hora para que ela saia. Passos lentos
até o final da rua, na Francisco Otaviano. Lindas e
elegantes mães cuidam dos filhos e dos boatos. É
impressão minha ou aquela está mesmo me olhando? Um
refrigerante no bar em frente ao parquinho. O dinheiro no
balcão. Obrigado.

Na tarde esvoaçam expectativas que pairam defronte


do cartaz do cinema Studio. Uns segundos, vozes, luzes,
cheiros de bar, barulhos de mercado e o súbito peso do
vento contrário. Dobrei na Francisco Sá, e uma das
mulheres me olhou maternalmente. Sim, a senhora ainda é
muito desejável. Circundo o quarteirão, passo a Souza Lima
e chego na Sá Ferreira pelo outro lado. Já estou aqui te
esperando, amor.

Ei-la. O vestido de alças, uma nuvem de crepe.


Esperança. Abraçamo-nos longamente, lento pranto
silencioso, refugiados um no outro, arrebatados da rua. Fui
despedida, diz ela. Pergunto-lhe o motivo. É que Dona
Tereza não pode mais pagar três enfermeiras; ela gosta de
mim mas sou a mais nova etc. Hei! Não fique com essa
cara! Ela estava mesmo pensando em deixar o emprego.
Aliás, pensara também sobre nós. Mas agora vamos para
Santa Tereza e não se fala mais nisso até o fim da festa. Na
ladeira sinuosa, a casa iluminada. Gélidos vácuos de lua. O
calor de sua mão me leva entre o desejo súplice do que era
e do que seria e assim entramos na sala sacudida e
incensada. É a casa de Sandra, amiga de Esperança que a
trouxera para o Rio havia quatro anos para trabalhar em
seu restaurante vegetariano, quando Esperança fez o corso
de enfermagem. Um drinque. Móveis afastados: o cento da
sala vazio. Uma dança. Êxtase.

Uma jovem a chama e se afastam abraçadas. Onde ela


estava, no balanço da música, surge uma loura de blusa
escura. Joga os braços para o alto e sacode os quadris.
Quando eventualmente os abre, seus olhos encontram os
meus. Pulsações dum interesse casual. Matiz após matiz ao
ritmo da música. Esperança me chama e me aproximo da
janela. Passando. O cheiro forte e almiscarado foge para as
constelações. Ao atravessarmos a sala, as mãos dadas tem
também um efeito em meu coração. Só não diga mais que
me ama, sussurra, fico sensível demais nessas horas. Não
direi. Mas naturalmente ela escuta isso em meus olhos.

A rua lá fora era estreita e a hera subia pelos muros.


Sandra e Esperança foram arrumar o quarto das
crianças para nós. O casal tinha duas filhas que dormiam
profundamente no quarto dos pais durante a festa. Keko e
eu conversávamos na varanda. Pergunto se eles tinham o
costume de dar festas como aquela. Respondeu que na
verdade nem gosta de festas, mas sempre lhes cabe
alguma despedida. Há algum tempo tinha sido para uma
amiga dele, que trabalhava no curso de idiomas onde era
professor. Ela foi para a Itália. Distraído não entendi que,
portanto, aquela era uma outra despedida. A última foi para
o antigo namorado dela. Ele foi para Angola. Você gostaria
dele, diz Keko. Acha-nos parecidos. A última vez que
escreveu, estava em Portugal, escrevera um livro. No
começo, estava entusiasmado. Depois parece que
desanimou, pelas dificuldades da publicação. Uma pena
porque para Keko o livro poderia ter lhe servido como
redenção. Refleti a respeito. Ele procurou nas gavetas e me
passou umas folhas datilografadas. Segurei o manuscrito.
Também gostei mas permaneceu a dúvida quanto à
redenção mencionada.

Eu e Esperança a sós no quarto, nossa festa particular.


Talvez pelo vinho, minha paixão ainda no meio da música
quando os espasmos dela pararam. Abraça-me forte, quase
dormindo. Que gostoso, diz. E depois de um tempo: Você
gozou? Gozei com teu gozo, respondi. Ah, querido, diz, e
pergunta onde eu andava e onde estava na festa de seus
quinze anos. Virada de costas, dois bichinhos. Acordo ainda
daquele jeito, já sem o efeito do vinho, exceto por uma leve
dor de cabeça. Ela acorda também. Um carinho.

Um relógio. Uma hora. A cortina filtra a tarde. Vozes


de crianças na sala. Amor, vamos tomar café. Depois um
lugar onde a gente possa conversar. Ah, mas eu não quero
sair de casa. Então teremos de expulsar o Keko e a Sandra.
Será possível? Provavelmente nem será preciso. Eles
costumam sair nos feriados com as crianças. Você nem
sabe: eles são separados, Keko não mora aqui. Saímos do
banheiro e as meninas caíram em cima de Esperança.
Esperança, olha... Esperança, eu aprendi a... Brinca com a
gente de... Sandra teria a teria livrado, se Esperança
quisesse. Saiu do quarto e disse, Queridas, deixem a
Esperança em paz. Mas Esperança não quer essa paz. Olha
o desenho de Tanja, escuta o que Chezy aprendeu e ensina-
lhe mais a respeito, brinca com elas de...

Sandra se horroriza com o caos em que sua cozinha se


tornara sob a luz implacável do dia, para onde convergem
todas as festas. Meus Deus, acabaram com tudo, não temos
nem para o almoço. Keko precisa acordar o Paolo e pedir a
chave do carro para irem ao supermercado. O japonês, de
pijama, aproximando-se informa que Paolo e Rosalice não
haviam dormido ali. Não? Ah, Meu Deus...

Ofereço-me para ir, quero comprar o jornal que trará


um suplemento de fotografia com o regulamento de um
concurso de que quero participar. Sandra olha para
Esperança como a pedir a permissão dela. Esperança sorri.
Tudo bem, disse, ele gosta de fazer compras sozinho, a pé.
Como ela sabe, se sabe, não sei. Sandra pede que eu
espere pelo menos ela fazer o café. Não se preocupe, bebo
num bar.

Fui como estava, com uma bermuda vermelha de


Esperança e uma camiseta branca de Keko. Ela tinha
quadris e ele não tinha ombros. As coisas que Sandra
queria, eu podia encontrar num mercadinho próximo, mas
meu jornal apenas no centro da cidade. Comprarei tudo lá.
Tomei o bondinho pelo estribo. Na volta, nos arcos da Lapa,
praticamente suspenso no ar, o jornal debaixo do braço e
as sacolas nas mãos, protegido por meus sonhos, passei a
viver por alguns dias como uma folha que será deixada na
janela perfeita antes de seguir seu curso no vento até a
relva.

Depois do almoço, Keko e Sandra saíram com as


crianças. Esperança solta os cabelos e senta-se no sofá. Vai
me contar suas conclusões a nosso respeito. Pois é, pensei
muito sobre nós. Conforme ela fala, vou calando, calando.
Tem sido uma jornada dura para mim, diz. Foi difícil abrir
mão da infância e da adolescência, da menina em mim. Do
lar que ela queria. Do desejo de filhos. Enfim. Essas coisas
de mulher que ainda não sofreu o quinhão reservado à
maioria das mulheres.
– Passaram os quinze anos e você não apareceu com
essa carinha de menino carente e a fragilidade que tanto te
expõe. E a delicadeza de me amar, mesmo sem me
conhecer, sem saber quem sou na verdade.

– O que importa o que você foi sem mim? importa o


que é comigo.

– Este é o ponto. Sem você, com você.

Quanto prazer, diz ela, eu posso dar a uma mulher! E


quanta insegurança! Esperança fizera seus planos e neles a
segurança e a independência vinham em primeiro lugar. De
repente, eu chego, inseguro, dependente de minha mãe, e
pior, diz Esperança: – Me fazendo dependente de você.

Amanhã começarei num bom emprego. Em breve, logo


mesmo,vou me mudar da casa de minha mãe. Tenho até
um apartamento em vista.

– E a música?

– Não tenho pretensões quanto à música.

– Não? – diz ela, decepcionada. – Um músico com tua


qualidade?
Digo que não estou gostando do rumo da conversa,
que não gosto de preâmbulos de elogios, geralmente são a
preparação de algum mas. Não para algum mas, diz ela, e
sim para mais: m-a-i-s. Quero que você venha a Friburgo
comigo; vou passar a semana santa; preciso refletir sobre
muitas coisas e esse é o tempo ideal. Pergunto e quanto a
meu emprego. Ela diz que Magda conhece metade dos
médicos do Rio e arranja um atestado para você. Se
puderam ficar a vida toda sem você, completa, poderão
ficar uns dias MAIS. Dá uma risadinha. É o que eu estava
querendo com meu preâmbulo: te chamar para MAIS uns
dias num ambiente bucólico e na Páscoa teremos a decisão
acertada.

Não entendi. Decidir o quê? Ficarmos juntos? Já


estávamos. Mas logo me dei conta de que instantes antes
esperava de seus lábios uma palavra qualquer de
separação – meu silêncio passou então da dor ao alívio.
Mais. À alegria. Minha alma está rasgada mas não sangra. A
perspectiva de uns dias longe do Rio, num lugar idílico
como Esperança dissera ser o sitio onde ela passou a
infância, com ela, por que não?

Antes do anoitecer, num crepúsculo abissal, descemos


de bondinho. Quando atravessávamos os arcos, Esperança
recostou a cabeça em meu ombro.
Ao chegar em casa para fazer as malas, encontrei um
clima estranho.

Minha mae e minha tia caminham de um lado para o


outro, inquietas cochichando, e evidentemente o assunto
me diz respeito. Fecham-se num quarto. Entro no meu. Não
consigo me concentrar na escolha das roupas. A
meteorologia previu frio na serra. O que está acontecendo?
Enfio as roupas de qualquer jeito na bolsa. Mal o faço, as
duas irmãs entram. Já sabemos, meu filho. Já sabiam? Sim,
e até entendiam. Mas por que não me disse? Ergo olhos
abobalhados para minha mãe, que continua falando. Sei
que nunca conversamos muito e nesses casos não há muito
que possa ser feito, mas...

Eu podia imaginar que Sara , como arranjara um meio


de fazer com que Tereza demitisse Esperança, não se
calaria tampouco com minha mãe. Mas aonde a levava
isso? O que pretendia alcançar? Que vantagem, que
vingança, que volúpia? Fazer-se de vítima? Jogar minha
mãe contra mim? Fazê-la me deserdar? Obrigá-la a me
fazer romper com Esperança e ficar com ela, com Sarah?
Insana... E sei, meu filho, diz minha tia, que você entende
que não pode mais ficar na casa de sua mãe e – Já estou
mesmo saindo. Ela retrucou. Está zangado conosco?

– Ora essa! eu é que devia estar zangada com você!


Sei que falhei muito como mãe mas sempre te amei e fiz
tudo pelo seu bem.
Eu também amava minha mãe mas não parecia mais
possível erguer uma ponte sobre nosso abismo de mundos,
aprofundado agora pelo estranho mal-entendido que
ricocheteava pelas palavras. Meu Deus! O que estou
fazendo neste teatro grotesco? Fecho a bolsa. Mãe, não
vamos discutir. A vida é minha. Tenho direito de vivê-la
como quiser. Ela franze as sobrancelhas, passa a mão nos
cabelos, sim, a vida é sua, diz minha tia, fazendo-se porta-
voz das lágrimas de minha mãe. E a morte também será.
Morte? Mas você não tinha, meu filho, o direito de mentir.
Que loucura é essa? – pensei. Mas apenas disse: Mentir?

Barulhos fora do prédio. Uma mulher lavando roupas.


Sim, mentir, sobre o emprego. Ah. Quisera como todo
mundo simplesmente correr para os braços de minha mãe
e abraçá-la. Não é natural esse sentimento rancoroso de
parte a parte. Então ela abriria os braços quando eu
entrasse em casa, a qualquer tempo e circunstância. Mas é
tudo o que ouço, uma reprimenda e um suspiro de enfado.
E com o resto das pessoas ela é tão generosa. Não menti,
mãe. Apenas adiei o início para resolver um imprevisto.
Bem, vou embora. Mal escuto a voz de minha mãe. Diz que
eu sei que não começarei nesse emprego nem nunca terei
outro. O gato se enrosca em minha perna. Talvez, digo.
Talvez eu viva da música. Estão vendo? Estou levando o
violão.

– Meu filho...

– Mãe, vou passar uns dias em Nova Friburgo. Na


volta, vou ficar na casa do Sérgio.
– Aquele rapaz que vinha jogar xadrez com você?

– Ele mesmo. Agora tenho de ir.

Fiz menção de beijá-la. Ela afastou o rosto tão


instintivamente que me assustou. Uma punição um tanto
forte por eu amar Esperança e não querer ficar com a Sarah
e, seja, te-la usado aquele dia. Mas a gente não reflete
muito quando está feliz e os próprios aborrecimentos só
fazem aumentar a felicidade, pelo contraste. Eu tinha sido
infeliz, mórbido, ansioso, tímido, covarde, suicida, e a cena
com minha mãe, em quem tudo aquilo estava centrado, me
levava ao que não era, ao que seria, livrando-me de tudo o
que representava.

Saí.

Só mais tarde, quando voltasse para buscar o resto de


minhas coisas, entenderia que Sarah não limitara a
mexericos. Não tinha portanto motivos para continuar
pensando a respeito. Agora, de novo o hall do prédio. A rua.
Encontrar Esperança. Não posso me recusar esse dom. A
noite. Um coração que transborda de amor assim
suavemente.

A meteorologia não se enganara quanto ao frio em


Friburgo. Descemos antes da rodoviária, na casa da mãe de
Esperança. Belas pessoas. Abraçam e beijam a filha e irmã
com efusiva ternura. O abraço que a senhora me dá é
quente e sincero. À tarde fomos para o sítio. A tia de
Esperança era a caseira do lugar e vivia com a mãe. Os
donos raramente apareciam e não daquela vez. Vendo
Esperança cuidar da avó, dar-lhe banho, injeção, comida,
levá-la ao banheiro, trocar suas roupas e ainda dialogar
com os delírios dela, sabendo que o fazia desde a
adolescência, discerni que a única coisa acrescentada pelo
curso de enfermagem no Rio foi um diploma – a saber,
nada.

Dona Letícia, a tia, sugeriu que fôssemos dar uma


volta. Não tinha cabimento as visitas ficarem trabalhando.
Deixa, menino, eu lavo a louça. A cachoeira agora deve
estar bem bonita. Na trilha, as folhas secas rangiam, as
aves pipilavam, a brisa gemia entre as árvores um lamento
longínquo. Sentamos na pedra. As águas caindo murmuram
uma canção de paz no hiato as águas, um pequenino lago
antes de despencarem no bosque lá embaixo e seguirem
seu sinuoso e decidido caminho que mais cedo ou mais
tarde desembocaria no mar distante. Nosso recanto de
amor, naquela tarde e nas demais. Na verdade não me
lembro de em minha vida inteira ter ficado tão
continuamente excitado. Tardes. Não existem palavras.
Jamais será aplacada a paixão?

Os anões do jardim observam-nos entrar. Dona Letícia


preparou o quarto. O único além do dela na habitação.
Duas camas, uma de casal, mas ela arrumou a de solteiro
para Esperança, por recato ou gozação. Tudo bem.
Deitávamos separados, a porta aberta e, quando
acordávamos juntos, ela nunca estava perto para ver.
Quando chegava para almoço, estávamos na varanda,
descascando legumes ou escolhendo verduras da horta. À
mesa havia quatro cadeiras. Dona Letícia acha graça até de
sua mãe, entre a catatonia e o delírio. A princípio eu me
choco mas ora, a idosa não parece sofrer e a vida segue.

Assim por muitos dias, deixe-me ver, umas duas


semanas. Um pouco mais à tarde íamos à cascata. À noite,
protegidos com mantas de nossas ardências na friagem,
ouvíamos música. Esperança me mostrou sua coleção de
óperas e o fascínio sobre mim foi instantâneo. Mas prefiro,
disse um dia, que você cante suas próprias canções, agora
blues de rio e baladas de lago.

Além das galinhas, dos patos e do feroz Papa, filho do


velho pastor da adolescência de Esperança, havia na casa a
gata Mitsy, que Dona Letícia encontrara abandonada havia
um ano. Nas refeições, sentada ao pé da mesa, Mitsy
lançava um olhar fixo de súplica. Vem, Mitsy, vem cá. Ela
brunnnn pula e ronrona. Quando eu dava sua comida,
iaunnnnnn, ela agradecia antes de comer. Na surdina
aplicada à noite pelo sono geral, o motorzinho pede para
entrar dentro dos cobertores. Ali permanecia conosco até
de manhã.

Batem à porta. Magda agitada abraça Esperança e


derrama-se em prantos. Bateram à porta. Magda, ao ouvir a
pessoa dizer quem era, abriu sem maiores cuidados.
Finalmente entendeu o que estava acontecendo,
paralisada. O grito morreu na garganta, a grande mão
sobre os seus lábios, a voz de ameaças. É um homem
pequeno de pequenas ambições. Ela tentou fugir mas não
havia possibilidade e agora a voz, as mãos, os sons do
prédio e da noite, tudo a amaldiçoa. Um animal devora sua
caça.

Indo e vindo as palavras, entendi. O agressor de


Magda havia sido Luciano. Quem era Luciano? Procurava
Esperança, eram amigos de infância e a aparição de Magda
vestida de branco provocou recaídas. Entre, Luciano, tudo
bem? Luciano, companheiro de Esperança nos piques e
brincadeiras de médico. Uma tarde de sol, o sino ao longe.
A multidão na Central do Brasil. O súbito gesto. O que é
isso? Vizinhos, vozes, ninguém escuta? O que Magda ainda
não tinha contado: Luciano está morto. David o matou.
Tinham aceito que mantivessem ambos namoradas, mas
não suportou o estupro. Não entendeu.

Uma jovem dança na minha frente na festa, loura, de


blusa escura. Está inconsolável, quem não ficaria?
Namorava Luciano para se manter próxima de David.
Quando chegaram as noticias de homossexualismo, estupro
e assassinato, Vanessa jurou que nunca mais assumiria um
compromisso afetivo em sua vida. Setembro costuma
mesmo ser um mês de decisões em sua vida. Não é mulher
que se deixe abater ou ficar paralisada. No dia seguinte
apronta as malas e vai para Paris.
Dois dias depois Magda voltou para o Rio. Um homem
entroncado, de seus cinqüenta anos, com acentuado
sotaque nordestino, veio buscá-la. Não perguntei a
Esperança quem era ele nem ela me disse. No domingo de
Páscoa, caminhando pelas trilhas da serra, ali sua suave
forma avermelhada, aqui um chão donde brotam
perspectivas, desenham-se as dores e consolos do Horto.

Segunda-feira após o domingo de Páscoa, às 17h30,


no trânsito congestionado do fim de feriados, eu e
Esperança voltamos ao Rio. No ônibus, em meio a meu
desejo de só falarmos sobre futuro após o regresso, na
certeza de que seria isso falar sobre nossa vida em comum,
aquele que eu era não encontra aquele que deveria ser,
claro, mas tudo bem, é só uma questão de horas, e um
otimismo nada comum vem em meu socorro. Ao chegar no
belo anoitecer à janela, estou pensando. É lindo, e linda
essa a meu lado, recortada no apaixonado céu.

Amanhã, já estabelecido na casa de Sérgio, buscarei


com Magda o atestado, que insistiu, embora eu não a
quisesse aborrecer depois de tudo por que passou. Nada,
meu amigo, não é incômodo, a vida precisa continuar.
Precisa. E eis o tempo exato para mim. Irei encontrar
Esperança. Dará tudo certo.

P4B; C3BR; P4BD; P3R. Sérgio espera bastante por


minha jogada seguinte que é mesmo a óbvia saída de
bispo. A contemplação absorta da estética do tabuleiro não
é o meio mais eficaz de controlar o meio e ganhar o jogo,
mas eu perdera o poder de concentração, vital para a
realização do melhor movimento. B2C também para as
brancas. A Tijuca é um bairro alegre, escuta-se sons de
alegria vindos do Borel. A janela dá para lá. Demorei a
perceber a jogada e a responder ainda mais. Sérgio acende
um cigarro, liga baixinho a Tv. Roco e retorno ao amanhã.
Eu estava pensando em vida em comum, eu estava
pensando em Esperança, na dificuldade de encontrar um
bom apartamento barato para alugar no Rio de Janeiro. Não
parei de pensar nisso desde a chegada de Friburgo. Pensara
em confidenciar alguma coisa a Sérgio, tão amigo tinha ele
se mostrado. Mas sua mulher me olha com um quê de
reprovação, não me sinto à vontade, não com ela por perto.
Agora vai dormir, mas ainda assim reprimo esse desejo
vago de confidência. Meu parceiro, mesmo um minuto
antes distraído pelo noticiário, C3BD, retruca rápido.
Incomoda-me também que pensem que eu seja bissexual e
viciado em drogas injetáveis, segundo a confissão que eu
não fizera a Sara. P3D. Uma chuva a tamborilar. Não creio
que Sérgio pudesse compreender toda a história. Acho que
nem eu. Aids! Sarah fora realmente longe demais. Tirarei
satisfações? P5D. Quietude súbita. Pensando bem... A
demissão de Esperança provocara nossa viagem. Mentindo
para minha mãe, Sara precipitou o que eu já deveria ter
feito há muito tempo, sair da casa de minha mãe. P4R.
Viver minha própria vida.
Conheci Sérgio na praia, na quarta-feira antes de
Esperança. Aproximei-me por causa do pequeno tabuleiro
em que estudava de partidas do recente campeonato
mundial. Olhar fixo, absorto. Deus dos movimentos
reluzindo ao sol. Lá longe um cruzeiro num navio. Sentei e
perguntei se estava a fim de uma partida. Assim, quando o
sol se punha e ele entrava no carro e os matizes do Leme
ao Posto 6 prenunciavam o crepúsculo, a necessidade
mútua de desabafo (eu minha solidão e ele a crise no
casamento) dá-nos camaradagem suficiente para que me
convide para passar um fim de semana com ele e a esposa
Cristina. Temos, disse-me, uma amiga com quem penso
que você se dará bem. Caso fosse preciso, quem sabe eu
até pudesse passar uns dias na casa dele, pois tinham um
quarto nos fundos.

Minha jogada. C(5C)4R. Levanto para esticar as


pernas. Dedos entre os discos na estante. A dedicatória de
Cristina, pelo último aniversário do marido. Olhos de novo
para Sérgio. Está de olhos fechados. Agora, o casal mal se
fala. Ela está sozinha com o bebê no quarto. Choro de
criança. Vizinhos. Um prédio a cujos barulhos estou
desacostumado. Estará ele chorando?

Um jornal na estante.

– Xeque – declarou na minha distração.


Ah, Esperança... Seus lábios são quentes, seus braços
aconchegantes, de fazer estremecer, de causar dor. Oh
meu Deus. A torre branca maquinalmente se interpõe entre
a dama e meu rei. Em negrito, o anúncio, no pé da página,
um anúncio pessoal. Um nome, o nome dela, o verdadeiro
nome dela. Tantas ilusões, tantas expectativas... E essa
súbita falta de ar, e essa raiva – ou será tristeza? A
desamparada mão se move pelo tabuleiro. D8T+; R3C;
D8R; R3T. Antes que Sérgio dê o novo cheque, abandono a
partida, com a mão estendida de perdedor.

Um momento por que não esperava passar. Sete horas


no relógio da Central. A casa que já não será o cenário que
desejei. O percurso da casa de Sérgio à de Magda se nutre
dum misto de amor e ódio, ou apenas auto-estima ferida.
Aqui estarei com Esperança. O mesmo corredor do primeiro
dia, que precedeu nosso banho e o amor; mas não parece o
mesmo lugar. É o ciúme que insiste comigo para que
visualize essas cenas? A mesma sala do primeiro dia – a
mesma Esperança? Pergunto. Por que você não me disse?
Uma lágrima. Chegou a correr?

Esperança tem esse jeito de falar olhando nos olhos.


Por que não disse? Conversaríamos hoje, lembra? Sim, a
Virgem. Morena. 1m78. Sexy. Discreta. Apenas senhores
educados. Era a mágoa contra o pai, o rancor contra os
homens? Não. Apenas o dinheiro. A independência. Casa,
viagens, segurança financeira. Não sei se entendo o porquê
de tanta franqueza.
Quando nos encontramos, ela já havia decidido sua
vida. Quando decidiu, não se julgava capaz de amar. Ela
tem um passado, e bem recente. Será que vou sobreviver?
Quero ainda glorificar o dia de hoje. A noite é linda, calma.
Preciso. Eu a conheci como enfermeira, não por um
anúncio. Esperança sustenta um olhar terno. Se não é de
amor,o amor não existe.

Eis a origens de todos aqueles telefonemas...

Ela está respondendo que não dava o número de


Magda, usava uma caixa postal de voz, preferia assim, o
incidente com Luciano provara que ninguém estava acima
de suspeitas e então perdi contato com sua voz ao levar em
conta que ela tampouco havia atendido as ligações,
orgulhoso, subentendendo da reação de Magda à minha
aparição que eu apenas tivera o privilégio de seu endereço.
Eu havia sido o único.

Mas e essa dor?

Lágrimas umedecem suas palavras. Sempre me


lembrarei de você. Estou chocado pela crueza da
determinação dela. Em meus braços. Eu amo você, de
verdade, mas... Calar seus lábios em meu peito. Esperança
não podia entrar assim em minha vida, vira-la do avesso, e
depois partir. Não posso voltar às minhas trevas. Eu a
impediria. E a ensinaria a realmente me amar. Não fale
mais por favor, se realmente me ama.

Na sala dos luminosos matizes há o conforto da lenta


janela... cansaço, futuro, solidão. Súbito a rua e a noite.
Sombras. As fachadas dos prédios em frente decrépitas,
fantasmas. Esperança não é uma mulher comum; talvez eu
não seja um homem comum. Em relação à felicidade, é
naturalmente um impasse. Olha-me contra a luz. Luz em
seus olhos.

Em uma cidade do Nordeste, uma mulher encontrou


um garoto na rua, na miséria. Levou-o para casa e se
afeiçoou dele, acabou cuidando dele como se fosse fruto de
seu ventre. Adotou-o. O marido resmungava: Num lugar
como aqui, já pensou se você for trazer para casa todo
menino-de-rua que achar por aí? A mulher respondeu. E se
a gente, em vez de trazer para cá, construísse uma casa
para eles? O marido disse Você está louca! e no dia
seguinte tomou as providências. Começou assim. Hoje a
casa não é tão pequena. Tem ala de meninas. Professoras,
médicas, todo tipo de serviço voluntário. É albergue,
creche, escola, posto de saúde. Tudo mantido por aquele
marido, tio de Magda. Estão precisando de uma enfermeira.
Magda não quer ir. Diz que não tem vocação. Está
querendo casar.

E quanto a Esperança? Tinha vocação?

Não sabe. Está subitamente triste e eu não queria que


ela hesitasse. Olha sem ver as paredes. A noite é suave,
imponente, e o perfume da noite tem um peso em minha
alma, assim, olhando os olhos de Esperança e ouvindo
canções de infância. O que posso lhe dizer? O que ela
acaba de falar não faz sentido, mas nada faz sentido nesta
vida.

Talvez um dia nos encontrássemos e ficássemos


juntos, mas essa perspectiva nada significa diante do
demorado abraço na rodoviária.

No ponto de táxi, Magda disse que já estava se


esquecendo e me deu o atestado. Meneei a cabeça
sorrindo, peguei o papel, junto veio uma foto, que ironia.
Rasguei um e outra, cuidadosamente ocultando Sarah de
Magda. Desculpe o incômodo, eu disse. Já não era preciso.
Não vou mais pegar esse emprego.

– Não? E o que vai fazer?

– Vou trabalhar. Seguir a minha vocação.

Agradeço a garoa de aplausos e deixo o palco. Guardo


o violão. Saio do clube e entro em Paris. Faubourg Saint-
Denis. Acompanho a multidão sob os toldos. Essa jovem
indo para seu lugar com muito porte, assim reta e
orgulhosa; esse silêncio é o silêncio que precede o sino,
todas as coisas em suspenso. Rostos sem nome, o arco, os
pequenos prédios, a cidade caminha comigo. Dormi,
acordei e continuo sonhando. A passagem do metrô. Meu
rosto no vidro do trem. Eu existo: minha existência é
necessária. Minha estação. Agora.

Não sei se minha mãe ainda pensa em mim com Aids e


bissexual, que importa? Aliás essas frescas francesas e as
turistas aqui na Place de Vosges talvez imaginem mesmo
homossexualismo. Desculpem meninas, mas não posso
mais imaginar sexo sem Esperança. Há eunucos que assim
nasceram e há eunucos que se fizeram assim por Deus, e
outros a quem os homem fizeram, e há eu sem Esperança.
Sim, doce querida amiga, eu me lembrarei sempre de você.

Ontem na carta disse a ela do meu contrato e das


apresentações nesses lugarzinhos. Acredito ter sido a
melhor opção. Dá pra viver razoavelmente bem. Falei de
Julia Vorontsova, que tem sido de grande dedicação.
Também mencionei Andréa Sanches, que encontrei aqui e é
quase minha vizinha. Ela se casou com um espanhol, gente
muito boa. Quanto a Vanessa, bem, não lamenta que David
não tenha vindo, talvez tenham acabado antes. Estuda em
Saint-Denis.

Estarei tentando fazer ciúmes?

Quanto à ópera, está bem avançada, amiga.

O marido de Andréa tem a minha idade, é musico


também; tem me colocado em contato com esse nosso
jovem mundo anacrônico – não há nada errado conosco.
Ah, gosto de Marais, das pessoas misturadas sobre a
grama, mas o que realmente adoro é tomar um café e
voltar para casa, deixando lá fora os passos da marcha e
meu destino circunstancial. É quando dedilho meu poema
de posteridade e encho páginas com um cântico imortal.

Não via a hora de acabar o show para abrir a carta de


Esperança. Nossa, ela é mesmo minha amiga... Também se
sente bem, realizada. Acredito que a distância seja o lugar
onde está mais perto de mim. Nas sua ausência talvez sua
presença seja mais completa. Não há sentimento de posse
ou a inquietação de um desejo constante.

É verdade que uma voz interior me desmente, diz que


estou totalmente errado, louco e me enganando. Que nosso
relacionamento era perfeito e poderia continuar a ser.
Enfim. Mas não somos pessoas comuns, como as invejo! A
elas é dado mar e deixar de amar, juntarem-se e
separarem-se. A nós restou amar e nos separar e amarmo-
nos ainda mais. O desenvolvimento natural das coisas
substituído por um equivalente transcendental.

De resto, ao lado de Esperança talvez eu não tivesse


condições de criar minha obra como tenho feito. Porque o
gozo é efêmero e a alegria alienada. Ao lado de Esperança,
eu criança, não poderia fugir da felicidade. E como se pode
ser plenamente realizado e feliz quando apenas isso se
busca ser? Como se pode buscar a felicidade pessoal num
mundo de tanto sofrimento? Num mundo que é meio e não
fim, exista ou não um outro além. Felicidade: as pessoas
comuns não crescem – não, não as invejo.

Em meu quarto, olho a janela. Lá fora uma estrela. O


vento sopra, passam as nuvens. Eu não voltarei mais mas
estou aqui agora. Luz. Além, muito além dos sons de meu
violão, que como uma oração o gravador repete. Além do
libreto em minha mesa, dos poemas, além de minha
história. A vida apenas vivida passa; os sentimentos
registrados permanecem.
Lá fora uma estrela, Esperança. Seu destino a levou
para, ao cuidar das mazelas de crianças pobres, curar as
suas e refazer a infância e adolescência, e crescer, crescer,
Esperança plena, inatingível como a estrela, mesmo para os
anos-luz do melhor de mim – ou quem sabe um dia. O
amanhã, só ele próprio se conhece. De qualquer modo,
nosso primeiro beijo na praia foi mesmo um marco de
eterno amor.

É noite, agora também no Brasil, e posso vê-la,


Esperança, em algum lugar desse pequeno mundo errante
na vastidão infinita, ouvindo um blues apaziguador baixinho
sob seu travesseiro, o brilho de seus olhos aceso na noite
por uma saudade serena. Insone a luz do abajur de meu
quarto, não choro nem me sinto miserável.

FIM