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ANTROPOLOGIA

CONCEITO E OBJETO sistemas naturais que devem ser estudados religiosas, sua língua, sua psicologia,
segundo os métodos comprovados pelas suas criações artísticas.
1. Introdução: Adam Kuper relata que, ciências da natureza, e os que pensam,
em 1917, Robert Lowie declarou que o úni- PRÉ-HISTÓRIA DA
como Evans-Pritchard, que é preciso tratar ANTROOLOGIA
co assunto da antropologia é, na verdade, as sociedades não como sistemas orgâni-
cultura. Alguns antropólogos contestaram. cos, mas como sistemas simbólicos. Para 1. A descoberta do Novo Mundo: a
Para eles, o verdadeiro tema da sua disci- estes últimos, longe de ser uma “ciência gênese da reflexão antropológica é
plina é a evolução humana. A antropologia natural da sociedade” (Radcliffe-Brown), a contemporânea à descoberta do Novo
é uma disciplina jovem, cuja autonomia antropologia deve antes ser considerada Mundo. Com efeito, conforme relata Luiz
não é ainda universalmente reconhecida, uma “arte” (Evans-Pritchard). Gonzaga de Mello, o desenvolvimento
daí as disputas ou dificuldades em relação da antropologia deveu-se principalmente
à determinação de seu objeto de estudo. 4. Objeto teórico: de acordo com Laplatine, às grandes descobertas marítimas.
Para Lévi-Strauss, a antropologia não se hoje, o objeto teórico da antropologia con- Durante o século XVI a Europa foi inva-
distingue das outras ciências humanas e siste em: a) o estudo do homem inteiro; b) o dida por escritos e crônicas a respeito
sociais por um objeto de estudos que lhe estudo do homem em todas as sociedades, dos povos até então desconhecidos.
seja próprio. A história quis que a antropo- sob todas as latitudes, em todos os seus Chegou-se a duvidar da condição huma-
logia começasse pelas sociedades ditas estados e em todas as épocas. na do aborígine. A teoria monogenista
“primitivas”. Mas esse interesse é partilha- Áreas da antropologia: a antropologia foi posta em dúvida. Muitos foram os
do por outras disciplinas, notadamente o pode ser dividida em cinco áreas: a) antro- relatórios, comunicados e cartas que
direito, a psicologia social, a ciência política pologia biológica ou física: consiste no se ocuparam em descrever as novas
e a demografia. estudo de problemas como o da evolução terras e sua gente. Exemplos disso são
do homem a partir das formas animais; de as denominadas Relações Jesuítas,
2. Conceito: conforme Abbagnano, sua distribuição atual em grupos raciais, coletânea de relatórios enviados pelos
antropologia é a exposição sistemá- distinguidos por caracteres anatômicos ou missionários dessa congregação reli-
tica dos conhecimentos que se têm fisiológicos; b) antropologia pré-histórica: giosa aos seus superiores. São setenta
a respeito do homem. Nesse sentido consiste no estudo do homem por meio dos e três volumes repletos de descrições
geral, a antropologia faz parte da filo- vestígios materiais enterrados no solo; visa e opiniões a respeito dos novos povos,
sofia, mas, como disciplina específica reconstituir as sociedades desaparecidas, dos produtos da terra, dos seus hábitos
e relativamente autônoma, só surge no tanto em suas técnicas e organizações e costumes.
século XIX. Aliás, como bem observa sociais, quanto em suas produções culturais
o antropólogo François Laplatine (cuja e artísticas; c) antropologia lingüística: 2. Recusa e fascínio: Segundo Lapla-
obra Aprender Antropologia serviu de consiste no estudo dos dialetos e das tine, o contato com os povos das terras
modelo na elaboração deste guia), o técnicas modernas de comunicação; d) descobertas provoca, na Europa, o
projeto de fundar uma ciência do homem antropologia psicológica: consiste no aparecimento de duas ideologias: a) a
(antropologia), isto é, um saber científico estudo dos processos e do funcionamento recusa do estranho; e b) a fascinação
que toma o homem como objeto, só do psiquismo humano; e) antropologia pelo estranho.
começa a surgir no final do século XVIII. social e cultural: consiste no estudo de Recusa do estranho: implica a figura
tudo que constitui as sociedades humanas: do mau selvagem e do bom civilizado.
3. Ciência ou arte: os antropólogos não seus modos de produção econômica, suas Nesse sentido as seguintes manifesta-
estão de acordo sobre a possibilidade de técnicas, sua organização política e jurí- ções: a) Selpuvera: esse jurista espa-
o homem poder estudar cientificamente dica, seus sistemas de parentesco, seus nhol, em 1550, afirma que os europeus,
o homem. Há os que pensam, como sistemas de conhecimento, suas crenças por superarem as nações bárbaras em
Radcliffe-Brown, que as sociedades são

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prudência e razão, mesmo que não se- passam a vida na doçura, na tranqüilidade camente diferentes; c) que há raças
jam superiores em força física, são, por e gozam de uma felicidade desconhecida atrasadas e adiantadas, inferiores e
natureza, os senhores; portanto, será dos europeus. A fascinação pelo estranho superiores; d) que as raças atrasadas
sempre justo e conforme o direito natural estabelece a crença de que a forma mais e inferiores não são capazes, por
que os bárbaros (preguiçosos e espíritos perfeita de vida humana é a que existiu no exemplo, de desenvolvimento intelec-
lentos) estejam submetidos ao império primeiro período da humanidade (mito da tual e estão naturalmente destinadas
de príncipes e de nações mais cultas; idade de ouro), ou a que se observa nos ao trabalho manual, pois sua razão é
b) Gomara: esse historiador, em seu povos primitivos (mito do bom selvagem). muito pequena e não conseguem com-
livro História Geral dos Índios, escrito A figura do bom selvagem encontrará sua preender as idéias mais complexas e
em 1555, afirma que a grande glória dos formulação mais sistemática e mais radical avançadas; e) que as raças adiantadas
reis espanhóis foi a de ter feito aceitar em Rousseau, no século XVIII. e superiores estão naturalmente des-
aos índios um único Deus, uma única Choque de culturas: em relação à recusa tinadas a dominar o planeta e que, se
fé e um único batismo e ter tirado deles do estranho, vale lembrar que uma carac- isso for necessário para seu bem, têm o
a idolatria, o canibalismo, a sodomia, terística comum aos povos consiste em direito de exterminar as raças atrasadas
os sacrifícios humanos, e ainda outros expulsar da cultura aquilo com o qual não e inferiores; f) que, para o bem das raças
grandes e maus pecados, que o bom tenha havido identificação. Nesse sentido, inferiores e das superiores, deve haver
Deus detesta e que pune; c) Oviedo: em escreve Lévi-Strauss: “Ocorrem curiosas segregação racial (separação dos locais
sua História das Índias, de 1555, escre- situações onde dois interlocutores dão-se de moradia, de trabalho, de educação,
ve que as pessoas daquele “país”, por cruelmente à réplica. Nas Grandes Anti- de lazer etc), pois a não-segregação
sua natureza, são ociosas, viciosas, de lhas, alguns anos após a descoberta da pode fazer as inferiores arrastarem
pouco trabalho, covardes, sujas, de má América, enquanto os espanhóis enviavam as superiores para o seu baixo nível,
condição e mentirosas; d) Cornelius comissões de inquérito para pesquisar se assim como pode fazer as superiores
de Pauw: em seu livro Pesquisas sobre os indígenas possuíam ou não uma alma, tentarem inutilmente melhorar o nível
os Americanos, de 1774, refere-se aos estes empenhavam-se em imergir brancos das inferiores.
índios americanos como raça inferior, prisioneiros a fim de verificar, por uma Observa Chauí que as teorias racistas
insensíveis, covardes, inúteis, e a causa observação demorada, se seus cadáveres estão a serviço da vio-lência, da igno-
dessa situação seria a umidade do cli- eram ou não sujeitos à putrefação”. rância e da destruição. A biologia e a
ma. Ainda no século XIX, Stanley com- genética afirmam que as diferenças
para os africanos aos “macacos de um 3. Racismo: O racismo é uma doutrina na formação anatômico-fisiológica dos
jardim zoológico”. Esses comentários, segundo a qual todas as manifestações seres humanos não produzem “raças”.
dotados de caráter arbitrário, serviram histórico-sociais do homem e os seus valo- “Raça”, portanto, é uma palavra inven-
somente para dogmatizar preconceitos res dependem da raça; também segundo tada para avaliar, julgar e manipular
advindos das doutrinas racistas. essa doutrina existe uma raça superior as diferenças biológicas e genéticas.
Fascinação pelo estranho: implica (ariana ou nórdica) que se destina a dirigir o As teorias racistas não são científicas,
a figura do bom selvagem e do mau gênero humano. O fundador dessa doutrina são falsas e irracionais. Na verdade,
civilizado. Nesse sentido, as seguintes foi o francês Gobineau, no final do século correspondem a uma prática cultural,
manifestações: a) Las Casas: esse XIX. Depois da Primeira Guerra Mundial, os econômica, social e política para justi-
dominicano, em l550, opõe-se à clas- nazistas viram no racismo um mito consola- ficar a violência contra seres humanos.
sificação dos índios como bárbaros, dor, uma fuga para a depressão da derrota.
afirmando que eles têm aldeias, vilas, Hitler transformou o racismo no carro-chefe PROJETO DA
ANTROPOLOGIA
cidades, reis, senhores e uma ordem de sua política, cuja doutrina foi elaborada
política que em alguns reinos é me- por Alfred Rosenberg, que, em Mito do 1. Introdução: Século XVIII, é nesse
lhor que a dos europeus; b) Américo Século XX (1930), afirma um rigoroso de- período que se constitui o projeto de
Vespúcio: sobre os índios da América terminismo racial: qualquer manifestação fundar uma ciência do homem, ou seja,
afirma que se trata de pessoas bonitas, cultural de um povo depende de sua raça. no século XVIII aparece o primeiro esboço
de corpo elegante e que nenhum possui Esse determinismo será combatido por daquilo que se tornará uma antropologia
qualquer coisa que seja seu, pois tudo Franz Boas, considerado o fundador da social e cultural.
é colocado em comum; c) Cristóvão antropologia moderna, ao afirmar catego- Esboço do projeto: o projeto antropoló-
Colombo: sobre os habitantes do ricamente a sua principal hipótese: a raça gico envolve: a) construção de um certo
Caribe afirma que não há no mundo não determina a cultura. número de conceitos: em especial o
homens e mulheres e nem terra melhor; Para Marilena Chauí, as teorias racistas conceito de homem, não apenas como
d) La Hotan: em 1703, escreve que os pretendem provar: a) que existem raças; sujeito, mas como objeto do saber; b)
Hurons vivem sem prisões e sem tortura, b) que as raças são biológicas e geneti-
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constituição de um saber pela ob- antropólogo dos objetos do moralista e do dimensões: biológica, técnica, religiosa,
servação: é essencial observar, mas, historiador, ao estabelecer: “Quando se quer econômica, lingüística, psicológica. No
além disso, é preciso que a observação estudar os homens, é preciso olhar em torno século XIX: a) mudam os contextos
seja esclarecida; c) rompimento com o de si, mas, para estudar o homem, importa econômico e político: a revolução
cogito cartesiano: implica o princípio da que a vista alcance mais longe; impõe-se industrial inglesa e a revolução política
identificação com o outro e o da recusa de começar observando as diferenças, para francesa introduzem mudanças conjun-
identificação consigo mesmo; d) método descobrir propriedades” (Ensaio sobre a turais inéditas nas relações sociais, polí-
de observação e análise: o método indu- Origem das Línguas, Cap. VIII). ticas, jurídicas e econômicas; b) muda
tivo, que consiste na observação dos fatos o contexto geopolítico: é o período da
para extrair deles princípios gerais. Vários 3. Limitações do século XVIII: Laplatine conquista colonial.
teóricos concorreram na elaboração entende que o século XVIII teve um papel Conquista colonial: é no movimento
desse projeto, mas foi Rousseau quem essencial na elaboração dos fundamentos dessa conquista que se constitui a
traçou, em seu Discurso sobre a Origem de uma ciência humana, mas não podia antropologia moderna, ou seja, quando
e os Fundamentos da Desigualdade entre ir mais longe. Segundo ele, o obstáculo o antropólogo começa a acompanhar
os Homens, o programa que veio a se maior ao surgimento de uma antropologia de perto os passos do colono. Nessa
tornar o da antropologia clássica. científica concentra-se em dois motivos época, a África, a Austrália e a Nova
essenciais: a) distinção entre o saber Zelândia passam a ser povoadas por
2. Rousseau: “Tenho dificuldade de científico e o saber filosófico: ainda que um número considerável de emigrantes
conceber”, escreve Rousseau, como essa distinção tenha sido abordada, ela europeus. Uma rede de informação se
num século onde as pessoas se vanglo- não é realizada. O conceito de homem tal instala. São os questionários enviados
riam de conhecimentos grandiosos, não como é utilizado no século XVIII permanece por pesquisadores das metrópoles para
existem dois homens, um que sacrifique ainda muito abstrato, isto é, rigorosamente os quatro cantos do mundo e cujas
vinte mil escudos de seus bens, outro, filosófico. Para a pesquisa antropológica, o respostas constituem os materiais de
dez anos de sua vida para uma viagem objeto de observação não é o “homem”, e reflexão das primeiras grandes obras de
de volta ao mundo, com a finalidade de sim indivíduos que pertencem a uma época antropologia: a) Fustel de Coulagnes:
estudar não só pedras e plantas, mas e a uma cultura, e o sujeito que observa não publica em 1864 A Cidade Antiga; b)
pelo menos uma vez, os homens e os é o sujeito da antropologia filosófica, e sim MacLennan: em 1865 O Casamento
costumes. Em outro trecho, escreve: um outro indivíduo que pertence ele próprio Primitivo; c) Tylor: em 1871 A Cultura
“Toda a terra está coberta de nações, a uma época e a uma cultura; b) separação Primitiva; d) Morgan: publica em 1877
mas só lhes conhecemos os nomes, e entre discurso antropológico e discurso A Sociedade Antiga; e) Frazer: em
nos atrevemos a julgar o gênero huma- histórico: o discurso antropológico do sécu- 1890 os primeiros volumes de Ramos
no! Suponhamos um Montesquieu, um lo XVIII é inseparável do discurso histórico de Ouro.
Diderot, ou homens dessa têmpera, desse período, isto é, de sua concepção EVOLUCIONISMO
viajando para instruir seus compatriotas, de uma história natural, liberada da teolo-
observando e descrevendo, como eles gia e animando a marcha das sociedades Ciência da sociedade primitiva: todas
o sabem, a África, o Peru, o Chile, o no caminho de um progresso universal. as obras acima citadas caracterizam-se
México, o Paraguai, o Brasil e todas as Restará um passo considerável a ser dado por uma mudança radical de perspec-
regiões selvagens. Suponhamos que es- para que a antropologia conquiste sua tiva: nelas o indígena não é mais o
ses homens, de retorno dessas viagens, autonomia. Paradoxalmente, esse passo selvagem, tornou-se o primitivo, isto
escrevessem a história natural, moral e será dado no século XIX (em especial com é, o ancestral do civilizado. Assim, a
política do que viram; um mundo novo Morgan), a partir de uma abordagem mais antropologia, conhecimento do primitivo,
surgiria, então de sua pena, e assim marcadamente historicista: o evolucionismo. fica indissociavelmente ligada ao conhe-
aprenderíamos a conhecer o nosso”. LINK ACADÊMICO 1 cimento da origem da sociedade, ou
Para Lévi-Strauss, Rousseau é o funda- seja, das formas simples de organização
NASCIMENTO DA
dor da antropologia: a) no plano práti- ANTROPOLOGIA social e de mentalidade que evoluíram
co: porque o Discurso sobre a Origem para as formas mais complexas das
e os Fundamentos das Desigualdades Século XIX: conforme Laplatine, realiza- nossas sociedades, razão pela qual
entre os Homens constitui o primeiro se nesse período o que antes era apenas essa antropologia qualifica-se de evo-
tratado de antropologia clássica, onde empreendimento programático. É a época lucionista.
se coloca o problema das relações en- durante a qual a antropologia é constituída O evolucionismo é uma teoria que impli-
tre a natureza e a cultura; b) no plano como disciplina autônoma, uma ciência das ca a idéia de progresso, uma forma, por-
teórico: porque distingue, com clareza e sociedades primitivas em todas as suas tanto, otimista de encarar a realidade hu-
concisão admiráveis, o objeto próprio do
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mana. Alcança seu apogeu no século espécie humana idêntica, mas que se subdesenvolvidas que devem tornar-se
XIX, ligado aos nomes de: a) Charles desenvolve em ritmos desiguais, de acor- desenvolvidas.
Darwin: na sua famosa obra A Origem do com as populações, passando pelas No século XX, os filósofos, analisando
das Espécies, expõe o conjunto de suas mesmas etapas, para alcançar o nível final, as mudanças científicas, passaram a
idéias a respeito da evolução de todas que é o da civilização. A civilização ocidental negar as idéias de evolução e progres-
as espécies, trata da seleção natural da aparece como a expressão mais avançada so. Nesse sentido, quando os filósofos
sobrevivência dos mais fortes e fixa os da evolução das sociedades humanas, e compararam a geometria euclidiana
conceitos de evolução, de sobrevivência os grupos primitivos, como “sobrevivência” (que opera com o espaço plano) com
e de função; b) Saint-Simon: afirma que de etapas anteriores, cuja classificação a geometria topológica (que opera com
há uma seqüência evolutiva por meio fornecerá, simultaneamente, a ordem de o espaço tridimensional), perceberam
da qual deve passar toda humanidade, aparição no tempo. O evolucionismo encon- que não se tratava de duas etapas ou
distinguindo-se três fases de atividade tra sua formulação mais sistemática e mais de duas fases sucessivas da mesma
mental: a conjetural, a semiconjetural e elaborada na obra de Morgan (Sociedade ciência geométrica, e sim de duas
a positiva; c) Augusto Comte: sustenta Antiga), que se tornará o documento de re- geometrias diferentes, com princípios,
que todas as sociedades atravessam ferência adotado pela maioria dos antropólo- conceitos, objetos completamente
três etapas progressivas, indo da su- gos do final do século XIX. Morgan distingue diferentes. Não houve, enfim, evolução
perstição religiosa (estado primitivo), três estágios de evolução da humanidade: e progresso de uma para a outra, pois
passando pela metafísica e a teologia, selvageria, barbárie e civilização. são duas geometrias diversas e não
para chegar, finalmente, à ciência posi- geometrias sucessivas. O mesmo foi
tiva, ponto final do progresso humano; 2. Críticas ao evolucionismo: como dito, observado quando se comparou a física
d) Herbert Spencer: entende que o no século XIX, filósofos e antropólogos de Newton com a física de Einstein, e em
progresso reveste todos os aspectos da entenderam que a ciência e a sociedade outras áreas do saber.
realidade. No seu ensaio Progresso, es- evoluem e progridem. As noções de evo- Verificaram-se, portanto, uma desconti-
creve: “quer se trate do desenvolvimento lução e de progresso partem da suposição nuidade e uma diferença temporal entre
da Terra, do desenvolvimento da vida, de que o tempo é uma linha reta contínua e as teorias científicas como conseqüên-
da sociedade, do governo, da indústria, homogênea. Conforme esclarece Marilena cia não de uma forma mais evoluída ou
do comércio, da língua, da literatura, da Chauí, para esses teóricos, o tempo seria mais progressiva de fazer ciência, e sim
ciência, da arte, no fundo de todo pro- uma sucessão contínua de instantes, mo- como resultado de diferentes maneiras
gresso está sempre a mesma evolução mentos, fases, etapas, períodos, épocas, de conhecer e construir objetos científi-
que vai do simples ao complexo, através que iriam se somando uns aos outros, acu- cos, de elaborar os métodos e inventar
de diferenciações sucessivas”. mulando-se de tal modo que o que acontece tecnologias. O filósofo Gaston Bachelard
depois é o resultado melhorado do que criou a expressão ruptura epistemoló-
1. Antropologia e evolucionismo: em- acontece antes. Enfim, ao longo do tempo gica para explicar essa descontinuidade
bora a preocupação dos evolucionistas haveria um processo de aperfeiçoamento no conhecimento científico. O filósofo
fosse estabelecer as linhas gerais do das sociedades e suas instituições. Thomas Kuhn designa esses momentos
progresso material, espiritual e cientí- Evolução e progresso exprimem uma cren- de ruptura epistemológica e de criação
fico das sociedades, acreditavam que, ça na superioridade do presente em relação de novas teorias com a expressão
voltando os olhos ao passado, teriam ao passado e do futuro em relação ao pre- revolução científica.
subsídios para determinar como a his- sente. Assim, os europeus civilizados seriam
tória da cultura humana se comportaria. superiores aos índios e aborígines. Evolu- 3. Críticas ao evolucionismo antropo-
A evolução humana era considerada ção e progresso também supõem uma série lógico: as objeções de que foi objeto o
um dado, restando, portanto, a tarefa linear de momentos ligados por relações de pensamento antropológico evolucio-
de descobrir como isso ocorria. Não causa e efeito, em que o passado é causa e nista podem se organizar em torno de
procuravam exatamente comprovar a o presente, efeito, vindo a tornar-se causa duas séries de críticas: a) sociedade
existência do progresso humano. Mais do futuro. Na idéia de evolução e progresso européia como critério de avaliação:
do que isso: procuravam descobrir encontra-se uma concepção segundo a qual mede-se o atraso das sociedades primi-
as leis gerais da evolução cultural do o futuro já está contido no ponto inicial de tivas tomando como critério de avaliação
homem. Nessa trilha, o antropólogo um ser ou sociedade, cuja história ou cujo a sociedade européia do século XIX.
James Frazer postulava três etapas de tempo nada mais é do que o desdobrar O progresso técnico e econômico da
evolução pelas quais passam todas as ou o desenvolver pleno daquilo que já era sociedade européia é considerado como
sociedades: magia, religião e ciência. potencialmente, motivo pelo qual fala-se de a prova da evolução histórica da qual
Em linhas gerais, o evolucionismo sociedades primitivas que precisam evoluir se procura simultaneamente acelerar o
antropológico entende que existe uma para sociedades civilizadas, sociedades
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processo e reconstituição de estágios. análise dos processos de evolução, que no mais alto grau, estes caracteres
Define o acesso à civilização em função compreendem as ligações entre as rela- duráveis, sistemáticos e contínuos, até
dos valores da época: produção econô- ções sociais, jurídicas e políticas. A ligação na mudança, que dão ocasião à análise
mica, religião monoteísta, propriedade entre esses diferentes aspectos do campo científica.
privada, família monogâmica, moral vito- social estabelece as características de um O papel da teoria da evolução: para
riana; b) justificação do colonialismo: determinado período da história humana. Kuhn, não há conheci-mento científico
efetuando o pesquisador, de um lado, a A novidade radical da sociedade arcaica possível sem que se constitua uma
definição de seu objeto de pesquisa por é dupla: a) nova concepção: toma como teoria servindo de paradigma, isto é, de
meio do campo empírico das sociedades objeto de estudo fenômenos que até então modelo organizador do saber. A teoria
ainda não ocidentalizadas, e, de outro não diziam respeito à História. Qualificando da evolução cumpre esse papel deci-
lado, identificando-se as vantagens as sociedades de arcaicas, reintegra-las sivo, imprimindo um grande impulso na
da civilização à qual pertence, faz do pela primeira vez na humanidade inteira; e construção da antropologia como saber
evolucionismo uma justificação teórica ao acento sendo colocado sobre o desen- científico. Não obstante o papel decisivo
da prática do colonialismo. volvimento material, o conhecimento da da teoria da evolução, os antropólogos
LINK ACADÊMICO 2 história começa a ser posto sobre bases do século XX introduzirão uma ruptura
ANTROPOLOGIA
totalmente diferentes das do idealismo filo- em relação a esse paradigma, criando
NO SÉCULO XIX sófico; b) novos elementos: os elementos novos modelos de construção do saber
da análise comparativa não são mais cos- antropológico.
Conforme Laplatine, o que importa aos tumes considerados bizarros, e sim redes
evolucionistas do século XIX não é a de interação formando “sistemas”, termo 2. Características: os seguintes temas
antropologia enquanto prática intensiva que utiliza para as relações de parentesco. são considerados como características
de conhecimento de uma determinada Por essas duas razões, compreende-se a da antropologia nascente: a) estudo das
cultura, é a tentativa de compreensão, a influência de Morgan sobre o marxismo, e populações mais arcaicas do mundo,
mais extensa possível, de todas as cultu- particularmente sobre o escrito de Engels em especial os aborígines da Austrália;
ras, em especial das “mais longínquas” Origem da Família, da Propriedade e do b) estudo do parentesco; c) estudo
e das “mais desconhecidas”. É preciso Estado. da religião. Parentesco e religião são,
ter em conta que os pesquisadores do Elogio de Marx e Engels: no prefácio à nessa época, as duas grandes áreas da
século XIX não tinham nenhuma for- primeira edição (1884) de Origem da Fa- antropologia, ou, mais especificamente,
mação antropológica (Morgan, Bacho- mília, da Propriedade e do Estado, Engels as duas grandes vias de acesso privile-
fen, Maine, Maclennan eram juristas), faz as seguintes observações a respeito de giado ao conhecimento das comunida-
mas colocaram o problema maior da Morgan: “Marx dispunha-se a expor, pesso- des primitivas.
antropologia: explicar a universalidade almente, os resultados das investigações Comunidades primitivas: segundo
e a diversidade das técnicas, das ins- de Morgan em relação com as conclusões Evans-Pritchard, os primeiros a consi-
tituições, dos comportamentos e das da sua análise materialista da história, derar as sociedades primitivas como
crenças, comparar as práticas sociais para esclarecer assim, e somente assim, tema interessante por si mesmo foram
das populações infinitamente distantes todo o seu alcance. Na América, Morgan McLenan, Tylor e Morgan. Esses inves-
umas das outras no espaço e no tempo. redescobriu, à sua maneira, a concepção tigadores extraíam informações acerca
Unidade da espécie humana: o mérito materialista da história – formulada por das sociedades primitivas realizando
dos evolucionistas foi o de ter extraído Marx, quarenta anos antes – e, baseado uma ampla seleção de escritos das
essa hipótese mestra sem a qual não nela, chegou, contrapondo barbárie e civili- mais diversas classes. Apresentaram-na
haveria antropologia, mas apenas etno- zação, aos mesmos resultados essenciais de forma sistemática e estabeleceram
logias regionais: a unidade da espécie de Marx. O grande mérito de Morgan é o de assim as bases da antropologia social.
humana. Foram eles que mostraram, ter encontrado nas uniões gentílicas a chave Em suas obras aparece o estudo direto
pela primeira vez, que as disparidades para decifrar importantíssimos enigmas da das sociedades primitivas com a teoria
culturais entre os grupos humanos não História antiga”. conjetural sobre a natureza das institui-
eram de forma alguma a conseqüência Fundador da antropologia social: para ções sociais.
de predisposições congênitas, mas ape- Lévi-Strauss, Morgan fundou simultanea- Aborígines da Austrália: segundo
nas o resultado de situações técnicas e mente a antropologia social e os estudos de Elkin, a Austrália ocupa um lugar de des-
econômicas. parentesco, explicando por que aquele deve taque na constituição da antropologia,
atribuir tanta importância a este. De todos porque é lá que se pode apreender o
1. O Legado de Morgan: com Morgan os fatos sociais, os que dizem respeito ao que foi a origem das nossas instituições.
o objeto da antropologia passa a ser a parentesco e ao casamento manifestam, Desde a época de Morgan, a Austrália

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continua sendo objeto de muitos escri- espírito humano, pela qual todas as raças da quando se quer integrar conhecimentos
tos. Várias gerações de pesquisadores humanidade passaram, ou estão passando, relativos a grupos vizinhos; b) histórica:
expressaram sua estupefação diante da para se dirigir para a religião e a ciência. quando visa reconstituir o passado de
simplicidade da cultura material desses uma ou várias populações; c) sistemá-
ANTROPOLOGIA
povos, os mais “primitivos” do mundo, NO SÉCULO XX tica: quando se isola, para lhe dar uma
vivendo na idade da pedra sem meta- atenção particular, determinado tipo de
lurgia, sem cerâmica, sem tecelagem, No século XX concretiza-se o sonho de técnica, de costume ou de instituição.
sem criação de animais e a extrema Rousseau. O estudo antropológico põe A etnologia, portanto, compreende a
complexidade de seus sistemas de fim à repartição de tarefas, até então ha- etnografia como seu passo preliminar,
parentesco baseados sobre relações bitualmente divididas entre o observador e constitui seu prolongamento.
minuciosas entre aquilo que é localizado (viajante, missionário, administrador), en- Etnologia e Antropologia: durante
na natureza (animal, vegetal) e aquilo tregue ao papel subalterno de provedor de muito tempo considerou-se que a duali-
que atua na cultura: o “totemismo”. informação, e o pesquisador erudito, que, dade etnografia/etnologia bastava em si
Parentesco: no estudo do sistema de tendo permanecido na metrópole, recebe, mesma. O passo ulterior da síntese era
parentesco, os pesquisadores do século analisa e interpreta essas informações. O deixado a outras disciplinas (sociologia,
XIX procuram principalmente evidenciar próprio pesquisador toma para si a tarefa história, filosofia). Ao contrário, nos paí-
a anterioridade histórica dos sistemas de colher informações, realizando o que se ses que utilizam os termos antropologia
de filiação matrilinear sobre os sistemas denomina de trabalho de campo. social ou cultural, os conhecimentos
patrilineares. Segundo Laplatine, por Por conta da ampliação das tarefas do estão ligados a uma segunda e última
deslize do pensamento, imagina-se antropólogo, Lévi-Strauss estabelece as etapa da síntese, tomando por base
um matriarcado primitivo, idéia que diferenças entre: a) etnografia, etnologia as conclusões da etnografia e da et-
exerceu tal influência que ainda hoje e antropologia; b) antropologia cultural e nologia. A antropologia visa, portanto,
alguns continuam inspirando-se nela, antropologia social; c) antropologia e socio- a um conhecimento global do homem,
em especial Evelyn Reed, em Feminis- logia e entre antropologia e história. abrangendo seu objeto em toda a sua
mo e Antropologia, um dos textos de Etnografia: é o trabalho de campo. É o extensão histórica e geográfica; aspi-
referência do movimento feminista nos primeiro estágio da pesquisa antropológica, rando a um conhecimento aplicável ao
Estados Unidos. Franz Boas entende envolve observação e descrição. A etnogra- conjunto do desenvolvimento humano,
que os fatos não autorizam nenhuma fia engloba também os métodos e as técni- desde os hominídeos até os modernos,
reconstrução histórica tendente a afirmar cas de classificação, descrição e análise dos e tendendo para conclusões válidas
a anterioridade histórica das instituições fenômenos culturais particulares (armas, para todas as sociedades humanas,
matrilineares sobre as patrilineares. instrumentos, crenças ou instituições). No desde a grande cidade moderna até a
Segundo ele, se é possível, e mesmo caso de objetos materiais, estas operações menor tribo melanésia. Pode-se, pois,
provável, que a estabilidade inerente às prosseguem geralmente no museu, que dizer, neste sentido, que existe entre
instituições matrili-neares as tenha fre- pode ser considerado, sob este aspecto, a antropologia e a etnologia a mesma
qüentemente conduzido, onde existem, como um prolongamento do campo. Esse relação que se definiu acima entre esta
a se transformar em instituições patrili- trabalho de campo é considerado a própria última e a etnografia.
neares, disso não resulta de nenhuma fonte da pesquisa, não se tratando, portanto, Etnografia, etnologia e antropologia:
maneira que, sempre e por toda parte, de conhecimento secundário apenas para não constituem três disciplinas diferen-
o direito materno tenha representado a ilustrar uma tese. tes, ou três concepções diferentes do
forma primitiva. Etnografia e Etnologia. Etnografia realiza mesmo estudo. São, de fato, três etapas
Mitos, magia e religião: para Laplati- observação e análise de grupos humanos ou três momentos de uma mesma pes-
ne, a obra Ramos de Ouro, de Frazer, considerados em sua particularidade quisa, e a preferência por este ou aquele
representa a melhor síntese de todas as (freqüentemente escolhidos entre aque- termo exprime somente uma atenção
pesquisas do século XIX sobre “crenças” les que mais diferem do nosso). Visa à predominante voltada para um tipo de
e “superstições”. Segundo ele, nessa reconstituição, tão fiel quanto possível, da pesquisa, que não poderia ser exclusivo
obra gigantesca, publicada em doze vida de cada um deles; ao passo que a dos dois outros.
volumes, de 1890 a 1915, Frazer retraça etnologia utiliza, de modo comparativo (e Antropologia social e antropologia
o processo universal que conduz, por com finalidade que será preciso determinar cultural: ambas cobrem exatamente o
etapas sucessivas, da magia à religião, em seguida), os documentos apresentados mesmo programa. Nesse sentido, quer
e, depois, da religião à ciência. Para pelo etnógrafo e elabora o primeiro passo a antropologia se proclame “social”, quer
Frazer, a magia representa uma fase em direção à síntese. Essa síntese pode se proclame “cultural”, aspira sempre
anterior, a mais grotesca da história do operar-se em três direções: a) geográfica: a conhecer o homem total, encarado,

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num caso, a partir de suas produções, do trabalho. A cultura se manifesta como estudos antropológicos, alguns autores
no outro, a partir de suas representa- vida social, como criação das obras de entendem que existe na antropologia
ções. Compreende-se assim que uma pensamento e de arte, como vida religiosa uma área específica denominada an-
orientação “culturalista” aproxime a e vida política. tropologia simbólica ou antropologia
antropologia da geografia, da tecnologia dos sistemas simbólicos, cujo objeto
e da pré-história, enquanto a orientação 1. Surgimento da cultura: uma preocupa- de estudo é a região que compreende
“sociológica” lhe cria afinidades mais ção fundamental da antropologia consiste a linguagem, que chamamos símbolos,
diretas com a arqueologia, a história e em determinar em que momento e de que e que é o lugar de múltiplas significa-
psicologia. Em ambos os casos há uma maneira os seres humanos se afirmam ções, que se expressam em especial
relação com a lingüística, uma vez que como diferentes da natureza, fazendo surgir, por meio das religiões, das mitologias
a linguagem é ao mesmo tempo o fato desse modo, o mundo cultural. Vale dizer, a e da percepção imaginária do cosmos.
cultural por excelência (distinguindo o antropologia procura uma regra ou norma Essa área também envolveria o estudo
homem do animal) e é o instrumento humana que seja aceita como universal de lendas, música, cantos, máscaras e
por intermédio do qual todas as formas (válida para todos os homens e para toda outros objetos culturais.
de vida social se estabelecem e se comunidade), capaz de estabelecer o mo-
perpetuam. mento da separação homem-natureza, o 3. Pluralidade de culturas: até o século
Antropologia e sociologia: a antro- instante do surgimento das culturas. Alguns XIX, movidos pela idéia de uma História
pologia distingue-se da sociologia na antropólogos entendem que a diferença universal das civilizações, os teóricos
medida em que tende a ser uma ciência homem-natureza surge quando os humanos entenderam que haveria uma única
social do observado, ao passo que a decretam uma lei que, quando transgredida, grande Cultura em desenvolvimento,
sociologia tende a ser a ciência social implica a pena de morte do transgressor, da qual as diferentes culturas seriam
do observador. exigida pela comunidade: a lei da proi- apenas fases ou etapas. No século
Antropologia e história: a diferença bição do incesto, desconhecida pelos XX, porém, movidos pela idéia de que
fundamental entre antropologia e história animais. Para outros a diferença também é a História é descontínua, passou-se a
não é de objeto, de objetivo, tampouco estabelecida quando os humanos definem entender que não existe apenas uma
de método; têm o mesmo objeto, que é uma lei que, se transgredida, causa a ruína Cultura, mas culturas diferentes. Existe
a vida social; o mesmo objetivo, que é da comunidade e do indivíduo: a lei que uma pluralidade de culturas, porque a
uma compreensão melhor do homem; separa o cru do cozido, desconhecida dos lei, os valores, as crenças, as práticas
e um método onde varia apenas a animais. Há, ainda, aqueles para os quais o e as instituições variam de formação
dosagem dos processos de pesquisa. que distingue a sociedade humana da so- social para formação social. Os estudos
Elas se distinguem pela escolha de
ciedade animal é a forma de comunicação antropológicos distinguem dois grandes
perspectivas complementares: a história
por meio da troca de símbolos. tipos de culturas: a das comunidades e
organizando seus dados em relação às
a das sociedades.
expressões conscientes; a antropologia,
2. Cultura e Sistema Simbólico: é im- Comunidades: são grupos pequenos
em relação às condições inconscientes
portante ressaltar que a lei não é apenas onde as pessoas se conhecem, com-
da vida social.
um comando que estabelece proibições e partilham os mesmos sentimentos e
LINK ACADÊMICO 3
obrigações. Mais do que isso, é a afirmação idéias e possuem um destino comum.
CULTURA E SÍMBOLO de que os humanos são capazes de criar Os agrupamentos indígenas ou aborí-
uma ordem de existência simbólica e, por- gines, por exemplo, são comunidades;
Com as palavras de Marilena Chauí,
tanto, cultural. A cultura é, nesse sentido, internamente unos e indivisos, portanto.
cultura é o modo próprio e específico
a invenção de uma ordem simbólica, pela O tempo nas comunidades possui um
da existência dos seres humanos. Os
qual os humanos atribuem à realidade ritmo lento, as transformações são
animais são seres naturais; os huma-
nos, seres culturais. A cultura é criação significações. Os humanos são, portanto, raras e, em geral, causadas por um
coletiva de idéias, símbolos e valores usuários de símbolos que lhes permitem acontecimento externo que as afeta (por
pelos quais uma comunidade ou socie- pensar, comunicar, representar e escolher. exemplo, a colonização imposta pelos
dade define para si mesma o justo e o Usar símbolos significa planejar a ação em europeus aos índios e aborígines). Por
injusto, o bom e o mau, o belo e o feio, o vez de apenas reagir a estímulos. Além isso se diz que as comunidades estão
verdadeiro e o falso, o puro e o impuro, disso, os símbolos surgem tanto para repre- na História ou no tempo, mas não são
o sagrado e o profano, o espaço e o sentar quanto para interpretar a realidade e históricas. As comunidades baseiam-se
tempo. A cultura se realiza porque os permitem refletir sobre um mundo abstrato, em mitos fundadores ou em narrativas
humanos têm o atributo da lin-guagem, um mundo que é apenas simbólico. que explicam suas origens. Os mitos
Dada a importância dos símbolos para os capturam o tempo e oferecem expli-

7
cações satisfatórias para todos sobre FRANZ BOAS da tribo que os pratica, acrescido de
o presente, passado e o futuro. Uma um inquérito que tenha por objeto sua
comunidade cria a mesma cultura para Franz Boas é conhecido como o pioneiro da repartição geográfica entre as tribos vizi-
etnografia. No campo, ensina Boas, tudo nhas, permite determinar, de uma parte,
todos os seus membros.
deve ser anotado nos mínimos detalhes, as causas históricas que conduziram
Sociedades: são coletividades inter-
desde os materiais constitutivos das casas à sua formação, e, de outra parte, os
namente divididas em grupos e clas-
até as notas das melodias. Tudo deve ser processos psíquicos que os tornaram
ses sociais e nas quais há indivíduos
objeto de descrição meticulosa. Nesse possíveis.
isolados uns dos outros. Cada classe sentido, é preciso anotar detalhadamente
social é antagônica à outra ou às outras, Fenômenos lingüísticos e culturais.
as diferentes versões de um mito, ou os Para Lévi-Strauss, é a Boas que cabe
com valores e sentimentos diferentes mais diversos ingredientes da composição
e mesmo opostos. Nas sociedades as o mérito de ter, com lucidez admirável,
de um alimento. Para Boas, não há objeto definido a natureza inconsciente dos
relações não são pessoais, mas sociais, nobre nem objeto indigno da ciência. As fenômenos culturais. Segundo Boas,
isto é, os indivíduos, grupos e classes se piadas são tão importantes quanto a mito- a diferença essencial entre fenômenos
relacionam pela mediação de institui- logia que expressa o patrimônio metafísico lingüísticos e outros fenômenos cultu-
ções sociais, como a escola, a empresa, do grupo. Em especial, deve ser levada em rais é que aqueles jamais emergem da
o comércio, os partidos políticos e o consideração a maneira pela qual as socie- consciência clara, ao passo que estes,
Estado. As sociedades são históricas, dades tradicionais, na voz dos mais humil- a despeito de ter a mesma origem in-
ou seja, para elas as transformações des entre eles, classificam suas atividades consciente, elevam-se freqüentemente
são constantes e velozes, causadas mentais e sociais. Boas foi um dos primeiros até o nível do pensamento consciente,
pelas lutas e pelas divisões internas. a mostrar não apenas a importância, mas produzindo, assim, raciocínios secundá-
Numa sociedade, cada classe social também a necessidade, para o antropólogo, rios e novas interpretações.
procura explicar a origem da sociedade do acesso à língua da cultura na qual traba-
e de suas mudanças e, conseqüente- lha. As tradições que estuda não lhe pode- 1. Outras contribuições: conforme
mente, há diferentes explicações para o riam ser traduzidas. Ele próprio deve reco- Stockin, a Franz Boas não interessavam
surgimento, a forma e a transformação lhê-las na língua de seus interlocutores. dissertações teóricas sobre a natureza
social. Os grupos dominantes narram a Mudanças culturais: segundo Adam da cultura, mas em muitos de seus
história da sociedade de modo diferente Kuper, para Adolf Bastian, assim como as trabalhos estão implícitos vários elemen-
raças, as culturas são híbridas. Não existem tos centrais do conceito antropológico
e oposto à narrativa dos grupos domi-
culturas puras, distintas e permanentes. moderno de cultura – historicidade,
nados. Numa sociedade as diferentes
Toda cultura recorre a diversas fontes, de- pluralidade, determinismo comporta-
classes sociais produzem culturas
pende de empréstimo e está em constante mental, integração, relativismo. Stockin
diferentes e mesmo antagônicas, motivo
mudança. O empréstimo é o mecanismo identificou o uso do termo cultura no
pelo qual as sociedades conhecem um primário da mudança cultural. E como as
fenômeno inexistente nas comunidades: plural, como o principal marcador da
mudanças culturais são resultado de pro- idéia antropológica moderna. Em vez de
a ideologia. cessos locais imprevistos – pressões am-
Antropólogos do século XX: como cultura, os antropólogos, seguindo Boas,
bientais, migrações, comércio –, a história, começaram a escrever sobre culturas.
dito, a partir do século XX, a etnografia conseqüentemente, não tem um padrão Dentre as contribuições de Franz Boas
é incorporada à antropologia, ou seja, fixo de desenvolvimento. Franz Boas, aluno à antropologia, podem ainda ser desta-
o próprio pesquisador toma para si a de Bastian, introduziu essa abordagem na cadas: a) crítica à noção de estágio:
tarefa de realizar o trabalho de campo. antropologia americana. A tese fundamental para Boas as sociedades são conside-
A nova geração de antropólogos realiza boasiana consiste em afirmar que a raça radas em si e para si mesmas, cada
missões de pesquisas etnográficas não determina a cultura. É a cultura que uma delas adquire o estatuto de uma
com estadas prolongadas entre as molda os homens, e não a biologia. Os totalidade autônoma. Foi o primeiro a
populações do mundo inteiro: Radecliffe- homens se tornam o que são ao crescer formular a crítica às noções de origem
Brown estuda os habitantes das ilhas num determinado ambiente cultural. Isso e de reconstituição dos estágios, mostra
Andaman; Evans-Pritchard estuda os quer dizer que podemos nos transformar que um costume só tem significado se
Azandés e os Nuer; Margaret Mead em algo melhor e talvez aprender a ser for relacionado ao contexto particular no
estuda os insulares da Nova Guiné. tolerantes e equilibrados como o povo de qual se insere; b) união do observador
Merecem destaque Franz Boas e Bro- Samoa ou de Bali. e do teórico: apenas o antropólogo
nislaw Malinowski. Causas históricas e processos psíqui- pode elaborar uma monografia, isto
LINK ACADÊMICO 4 cos: Para Boas, o estudo detalhado dos é, dar conta cientificamente de uma
costumes, e de seu lugar na cultura global

8
universal e humano; Nesse sentido, tal como o historicismo,
microssociedade, apreendida em sua
b) busca, sobretudo, explicar as seme- apresenta, também, uma abordagem de
totalidade e considerada em sua au-
lhanças existentes entre as culturas culturas particulares, cada uma vista, na
tonomia teórica. Pela primeira vez, o
particulares. Segundo Werner Stark, a expressão de Franz Boas, como uma
teórico e o observador estão reunidos.
palavra historicismo denota uma teoria unidade singular e como um problema
A etnografia profissional não se contenta
segundo a qual a essência dos fenômenos individual, uma vez que a cultura é por
mais em coletar materiais à maneira dos
da sociedade e da cultura consiste no seu demais complexa para permitir um levan-
antiquários, mas procura detectar o que
caráter dinâmico e de desenvolvimento. tamento histórico completo e de caráter
faz a unidade da cultura que se expressa
Isso deve ser nitidamente distinto de outra universal.
por meio desses diferentes materiais.
doutrina superficialmente semelhante. O A delimitação do estudo antropológico,
Novas concepções: a partir de 1920,
evolucionismo é uma teoria da natureza, transformando cada povo primitivo (clã,
por influências de seus alunos Sapir,
mais do que da sociedade e da cultura. tribo) em unidade de estudo, possibilitou a
Ruth Benedict e Margaret Mead, Boas
Este pensa em termos de uma lei natural criação de um leque mais amplo de temas
sugeriu que as culturas fossem estu-
da evolução; o historicismo põe, ao invés, de estudo. Isso permitiu o aprofundamen-
dadas como sistemas ativos, como
o destaque sobre a realidade humana e to do estudo e a ampliação de temas, que
“todos” orgânicos e que uma abordagem
sobre o trabalho humano. O evolucionismo contribuíram para a teoria antropológica
sincrônica e funcionalista poderia até
dá importância ao fenômeno da invenção; o no que se refere à produção de pesquisas
mesmo representar uma alternativa
historicismo enfoca o fenômeno da difusão de campo e à soma de material coletado.
para a compreensão histórica. Mas,
e dos contatos entre os povos, motivo pelo Nas palavras de Franz Boas, “O material
conforme Kuper, apenas em 1930 Boas
qual advogam uma mudança nos métodos para a reconstrução de cultura é sempre
apresentou oficialmente uma concepção
da antropologia; fragmentário porque os mais amplos e
antropológica moderna da cultura como
c) preocupa-se em tornar os métodos mais importantes aspectos de cultura
um sistema integrado de símbolos,
da antropologia cultural mais rigorosos, não deixam traços na terra; linguagem,
idéias e valores. Boas é tido como o
mais científicos. Isso fez com que a pes- organização social, religião – em resumo,
principal mentor das escolas antropo-
quisa de campo fosse desenvolvida com tudo o que não é material – desaparecem
lógicas norte-americanas conhecidas
intensidade considerável, dando grande com a vida de cada geração. A informa-
co-mo difusionismo ou historicismo e
impulso à etnografia. Para alguns, era ção histórica é avaliada apenas através
configuracionismo.
urgente coletar dados e informações sobre das fases mais recentes de vida cultural
HISTORICISMO E os povos primitivos antes que os mesmos e é restrita àqueles povos que possuem a
CONFIGURACIONISMO desaparecessem ou fossem atingidos pela arte de escrever e cujo registro podemos
civilização. Por esse motivo, a coleta de ler. Mesmo esta informação é insuficiente
1. Historicismo ou Difusionismo: o
dados torna-se mais importante do que a porque muitos aspectos de cultura não
historicismo, também conhecido como
explicação do fenômeno cultural; encontram expressão em literatura”.
difusionismo, engloba várias tendências
d) enfoca as culturas particulares e a Ruth Benedict e Sapir: Ruth Benedict
teóricas da antropologia cultural. São,
pesquisa de campo. Por conta disso, a e Sapir são considerados os represen-
conforme observações de Luiz Gon-
antropologia desenvolveu várias técnicas tantes mais conhecidos do configura-
zaga de Mello, características gerais
de pesquisa, principalmente a observação cionismo. Sapir ocupou-se do estudo da
do historicismo:
participante. Esse fato proporcionou o in- linguagem. Assim ele descobriu que cada
a) trata-se de um movimento de reação
cremento da lingüística como outro ramo língua possui uma maneira de ser, uma
à orientação evolucionista dominante
da antropologia cultural. forma integrada ou uma habilidade carac-
na antropologia desde o seu nasci-
terística que lhe permite expressar certas
mento. Essa reação atinge não só a
2. Configuracionismo: o configuracionismo coisas melhor do que outras. Segundo
orientação geral teórica, mas também
constitui, de certo modo, um prolongamento ele, a cultura também forma um todo
os procedimentos metodológicos. O
do historicismo. Nesse sentido, Franz Boas, com uma configuração inconsciente que,
difusionismo, entretanto, não rejeita
na introdução ao livro de Ruth Benedict, es- geralmente, não é comunicada à mente.
completamente os conceitos básicos
pecifica: “Nós devemos entender o indivíduo Benedict tomou emprestados os concei-
constituídos e construídos pelo evolu-
como vivendo em sua cultura; e a cultura tos de Nietzsche e classificou as culturas
cionismo; há, evidentemente, pontos
como vivida pelos indivíduos. O interesse por em dois tipos principais: a) apolíneo:
divergentes, mas existem também
estes problemas sócio-psicológicos não é de corresponderia àquelas culturas extro-
pontos convergentes, uma vez que
modo algum oposto à abordagem histórica”. vertidas, acentuando formas externas de
ambos, de certa forma, repousam em
O configuracionismo opta pelo estudo de áre- comportamento, ritualistas, conformistas,
bases teóricas comuns, já que os dois
as delimitadas e, de preferência, pequenas. desconfiadas do individualismo, evitando
explicam a cultura como fenômeno

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excessos, mostrando comedimento; b) Malinowski inverte essa relação. Para ele, desenvolvimento de pesquisas muito
dionisíaco: corresponde às culturas in- a antropologia supõe uma identificação com mais intensas do que as até então
trovertidas, intensamente individualistas, a alteridade, não mais considerada como realizadas. O objetivo a ser atingido era
agressivas, apreciadoras da experiência forma social anterior à civilização, e sim o conhecimento da totalidade cultural;
violenta, motivadas mais pelo indivíduo como forma contemporânea, mostrando- tudo, portanto, era significativo e nada
do que pelo grupo. As características nos em sua pureza aquilo que nos faz podia ser desprezado.
dos indivíduos deveriam ser idênticas às tragicamente falta: a autenticidade. Assim
características da cultura na qual estão sendo, a aberração não está mais do lado 2. Funcionalismo: Malinowski entende
inseridos. Assim como no indivíduo, não das sociedades “primitivas”, e sim do lado que uma sociedade deve ser estudada
existem separadamente princípios reli- da sociedade ocidental. enquanto uma totalidade, tal como fun-
giosos, econômicos, políticos, jurídicos ciona no momento em que é observada.
etc., mas uma resultante, uma configu- 1. Fato e totalidade: ao contrário de Entende ainda que o antropólogo deve
ração de todos os princípios, também na Boas, que procurava estabelecer repertó- analisá-la de uma forma intensiva e
cultura existe um todo harmonioso, uma rios exaustivos, Malinowski entende que contínua, sem se referir à sua história.
configuração, um estilo de ser que dirige convém mostrar que, a partir de um único Malinowski não pergunta: “Como uma
e conforma o comportamento de todos costume, ou mesmo de um único objeto sociedade chegou a ser o que é?”. Ele
os membros de uma determinada cultura. (uma canoa, por exemplo) aparentemente pergunta o que é uma sociedade em
LINK ACADÊMICO 5 muito simples, aparece o perfil do conjunto si mesma e o que a torna viável para
de uma sociedade. Para alcançar o homem os que a ela pertencem, observando-a
BRONISLAW MALINOWSKI em todas as suas dimensões, é preciso no presente por meio da interação dos
Malinowski é considerado o fundador dedicar-se à observação de fatos sociais aspectos que a constituem. Isso repre-
da antropologia científica moderna. aparentemente minúsculos e insignificantes, senta uma ruptura com o evolucionismo
Segundo Laplatine, Malinowski dominou cuja significação só pode ser encontrada e o difusionismo.
incontestavelmente a cena antropológi- nas suas posições respectivas no interior Ruptura: Malinowski instaura uma
ca de 1922, ano de publicação de sua de uma totalidade mais ampla. Assim, as ruptura com: a) a teoria da evolução:
primeira obra, Os Argonautas do Pací- canoas trobriandesas são descritas em esta distingue estágios de desenvol-
fico Ocidental, até sua morte, em 1942. relação ao grupo que as fabrica e utiliza, vimento das sociedades, das formas
Trabalho de campo: Malinowski rompe ao ritual mágico que as consagra, às re- mais simples para as mais complexas;
os contatos com o mundo europeu, gulamentações que definem sua posse. e b) a teoria difusionista: esta postula
passando a viver com as populações Malinowski, ao analisar essas canoas a existência de centro de difusão de cul-
por ele estudadas e a recolher materiais (transportando de ilha em ilha colares de tura, a qual se transmite por empréstimo,
de seus idiomas. Procura reviver nele conchas vermelhas, pulseiras de conchas ou seja, o difusionista se preocupa em
próprio os sentimentos do outro, interio- brancas, efetuando em sentidos contrários compreender o processo de transmis-
rizando suas reações emotivas, ou seja, percursos invariáveis, passando necessa- são dos elementos de uma cultura para
procura penetrar na cultura que estuda e riamente de novo pelo seu local de origem), outra; assim, diante de vários agrupa-
compreender, de dentro, o que sentem mostra que estamos diante de um processo mentos, é escolhido o mais rico e mais
os homens e mulheres que pertencem de troca generalizado, irredutível à dimen- complexo, como representando a forma
a ela. Escreve: “Um dos refúgios fora são econômica apenas, pois nos permite primitiva da sociedade, e consignará sua
dessa prisão mecânica da cultura é o encontrar os significados políticos, mágicos, origem na região do mundo em que se
estudo das formas primitivas da vida religiosos, estéticos do grupo inteiro. encontra melhor ilustrado, considerando
humana, tais como existem ainda nas Conforme Paul Mercier, para Malinowski, todas as ou-tras formas como resultado
sociedades longínquas do globo. A uma cultura deve ser encarada como uma de migrações ou empréstimo a partir
antropologia, para mim, pelo menos, totalidade coerente de todos os aspectos daquele foco comum.
era uma fuga romântica para longe de que apresenta: parentesco, economia, po- Funcionalismo: com Malinowski a
nossa cultura uniformizada”. lítica, religião etc. Tais aspectos, pois, não antropologia se torna uma ciência da
Civilização ocidental x civilização podem ser interpretados separadamente. alteridade (ser outro, colocar-se como
primitiva: para Laplatine, os antropó- Apresentou exemplos que se tornaram clás- o outro), afasta-se do empreendimento
logos da era vitoriana identificavam-se sicos, sobre a maneira de evocar por inteiro evolucionista de reconstituição das
totalmente com a sua sociedade, isto é, uma cultura tendo em vista tão-somente um origens da civilização e se dedica aos
com a “civilização industrial”. Em relação de seus aspectos. Malinowski, sem empre- estudos das lógicas de cada cultura. Os
a esta, os costumes dos povos “primi- gar a palavra, utiliza a noção de fato social costumes dos povos ditos “primitivos”
tivos” eram vistos como aberrantes. total. Esse método levaria forçosamente ao têm significação e coerência; são siste-

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mas lógicos perfeitamente elaborados que ela desempenha na vida social como vação de três regras básicas: a) os fatos
e não vestígios de uma cultura que não um todo e, portanto, a contribuição que faz sociais são “coisas” que só podem ser
evoluiu. para a manutenção da continuidade estru- explicadas quando relacionadas a ou-
Conforme Laplatine, a fim de pensar tural. O conceito de função tal como é aqui tros fatos sociais; b) na explicação dos
essa coerência interna, Malinowski definido implica, pois, a noção de estrutura fatos sociais devem-se afastar todos os
elabora uma teoria (funcionalismo) que constituída de uma série de relações entre preconceitos; c) é preciso definir com
tira seu modelo das ciências da nature- unidades, sendo mantida a continuidade da precisão o objeto da investigação, procu-
za: o indivíduo sente um certo número estrutura por um processo vital constituído rando agrupar aqueles que manifestam
de necessidades, e cada cultura tem das atividades integrantes. Pela definição características comuns.
precisamente como função satisfazer aqui dada, função é a contribuição que Antropologia religiosa: em virtude
à sua maneira essas necessidades determinada atividade proporciona à das investigações de Durkheim sobre
fundamentais. Cada uma realiza isso atividade total da qual é parte”. Como se o totemismo, o sagrado e o profano,
elaborando instituições (econômicas, nota, Radcliffe-Brown utiliza não apenas o Lévi-Straus o considera, ao lado de
políticas, jurídicas, educativas), forne- conceito de função, mas também o de es- Tylor e Frazer, um dos fundadores da
cendo respostas coletivas organizadas, trutura. O funcionalismo desse antropólogo antropologia religiosa.
que constituem, cada uma a seu modo, segue uma linha de explicação sociológica, Totemismo: crença no totem, ou orga-
soluções originais que permitem atender motivo pelo qual sua orientação teórica está nização social fundada nessa crença.
a essas necessidades. Escreve Mali- impregnada das idéias de Emile Durkheim. O termo totem foi extraído do idioma
nowski: “As necessidades orgânicas LINK ACADÊMICO 6 dos índios norte-americanos e depois
do homem (alimentação, reprodução, passou a indicar o fenômeno (presente
ÉMILE DURKHEIM
proteção) fornecem os imperativos em todos os povos primitivos) de trans-
fundamentais que conduzem ao desen- Indubitavelmente, as contribuições de formar uma coisa (natural ou artificial)
volvimento da vida social”. Boas e Malinowski foram decisivas, mas em emblema do grupo social e em
Mito e funcionalismo: Malinowski vê a antropologia precisava ainda elaborar garantia de sua solidariedade. O totem
no mito a justificação retrospectiva dos instrumentos operacionais que permitissem é, assim, apenas o símbolo de uma
elementos fundamentais que constituem construir um verdadeiro saber científico. As força sagrada e impessoal, emanada
a cultura de um grupo. O mito, para ele, ciências sociais exigem, para alcançar sua do grupo. Foi Durkheim quem mais
não é uma simples narrativa, nem uma elaboração científica, a constituição de um enfatizou esse caráter do totem, vendo
forma de ciência, nem um ramo de arte quadro teórico, de conceitos e modelos que nele a expressão da unidade do grupo
ou história, nem uma narração explicati- sejam próprios da investigação do social, social em sua inteireza e, portanto, nas
va. Cumpre a ele uma função sui generis isto é, independentes tanto da explicação inter-relações dos clans em que o grupo
intimamente ligada à natureza da tradi- histórica (evolucionismo) ou geográfica (di- se divide.
ção, à continuidade da cultura e à atitude fusionismo), quanto da explicação biológica Sagrado e profano: o totemismo dos
humana em relação ao passado. A (funcionalismo) ou psicológica (psi-cologia Aruntas, tribo australiana, foi tomado
função do mito é, em resumo, reforçar a clássica). Durkheim e Mauss forneceram à como a forma mais simples de ma-
tradição e dar-lhe maior valor e prestígio, antropologia o quadro teórico e os instru- nifestação religiosa. A partir dessa
vinculando-a à mais elevada, melhor e mentos que lhes faltavam. Com Durkheim manifestação, Durkheim elaborou três
mais sobrenatural realidade dos aconte- a sociologia conquista sua autonomia em hipóteses: a) a vida do grupo é a fonte
cimentos iniciais. Nesse sentido, o mito relação às demais ciências, ao estabelecer geradora e a causa da religião; b) as
não se limita ao mundo ou à mentalidade como objeto de estudo o fato social. idéias e práticas religiosas referem-se
dos primitivos. É indispensável a qual- Fato social: é toda maneira de atuar, fixa ou ao grupo social ou o simbolizam; c) a
quer cultura. Cada mudança histórica não, suscetível de exercer sobre os indiví- distinção entre o sagrado e o profano
cria sua mitologia, que, no entanto, tem duos uma coerção exterior; ou mais ainda, é universalmente encontrada e tem
relação indireta com o fato histórico. O que é geral na extensão de uma sociedade conseqüências importantes para a vida
mito é acompanhamento constante da fé dada, apresentando uma existência própria, social como um todo. O sagrado é aquilo
viva, que precisa de milagres, da norma independente das manifestações individu- que o profano não deve nem pode tocar
moral, que exige sanção. ais. O fato social, portanto: a) é exterior às impunemente.
Radcliffe-Brown: esse antropólogo consciências individuais; b) exerce coerção
apresenta a seguinte definição de fun- sobre os indivíduos; c) apresenta generali- 1. Estudo sobre o suicídio: em sua
ção: “A função de qualquer atividade dade no meio do grupo. obra O Suicídio: um estudo sociológico,
periódica, tal como a punição de um Regras do método sociológico: o estudo Durkheim demonstra a importância
crime, ou uma cerimônia fúnebre, é parte sociológico do fato social implica a obser- dos fatos sociais na determinação da

11
probabilidade de suicídios. O suicídio, a pessoa à comunidade, o que, portanto, que convém apreender em sua inte-
segundo Durkheim, sempre será uma implica alta solidariedade. Ao passo que gralidade. Essa totalidade não suprime
escolha pessoal, e há todo tipo de razão ser solteiro, não ter filhos e ter educação o caráter específico dos fenômenos,
psicológica que levará uma pessoa a in- superior implica baixa solidariedade. Os que permanecem ao mesmo tempo
vestir contra a própria vida. Contudo, até registros apontaram que a taxa de suicídio, jurídicos, econômicos, religiosos e até
mesmo nessa escolha extremamente de fato, era maior entre as pessoas soltei- mesmo estéticos, morfológicos; de tal
individual atuam fatos sociais, ou seja, ras, do sexo masculino, sem filhos e com modo que ela consiste, em suma, na
a taxa (alta ou baixa) de suicídio numa instrução superior. rede de inter-relações funcionais entre
sociedade influencia a probabilidade de Alta solidariedade: Durkheim também ve- todos estes planos. Enfim, as condutas
suicídio de um indivíduo. rificou que em comunidades com altíssima humanas devem ser apreendidas em
Causa do suicídio: para Durkheim, a solidariedade a taxa de suicídio aumentava, todas as suas dimensões.
causa determinante da taxa (alta ou bai- o que revelou, portanto, que a relação entre Mauss entende que os fenômenos so-
xa) de suicídio é outro fato social, que ele solida-riedade social e taxas de suicídios é ciais são em primeiro lugar sociais, mas
de-nomina solidariedade social. Assim, curvilinear, isto é, as taxas são mais eleva- também fisiológicos e psicológicos. Os
em comunidades com alta solidariedade das nos dois extremos. Também verificou fatos sociais não são redutíveis a frag-
social a taxa de suicídio deve ser menor que as taxas de suicídios aumentam em mentos esparsos, eles são vividos por
do que nas comunidades com baixa so- épocas de mudanças sociais e também homens e essa consciência subjetiva,
lidariedade social. Para testar sua teoria, em épocas de depressão econômica ou bem como seus caracteres objetivos,
Durkheim analisou os registros sobre períodos de rápida prosperidade. é uma forma de sua realidade. Para
suicídio de várias províncias européias. Tipos de suicídios: a) egoístas: ocorrem Mauss, o essencial é o movimento do
Fator religioso: Durkheim dividiu as em virtude da baixa solidariedade social; b) todo, o aspecto vivo, o instante fugidio
províncias em católicas e protestantes. altruístas: ocorrem em virtude da altís-sima em que a sociedade toma, em que os
Como o protestantismo ressalta a rela- solidariedade social; c) anômicos: ocorrem homens tomam consciência de si mes-
ção individual com Deus e o catolicismo em virtude de mudanças sociais, que levam mos e de sua situação perante outrem.
salienta a Igreja como uma comunidade o indivíduo a um estado de anomia (ausên- Para compreender um fenômeno social
integrada que reverencia Deus em cia de regras); d) fatalistas: ocorrem em vir- total, é preciso apreendê-lo totalmente,
conjunto, as províncias protestantes de- tude de mudança súbita na vida da pessoa: isto é, de fora como uma “coisa”, mas
veriam apresentar uma taxa de suicídio aumento ou diminuição repentina do status. também de dentro como uma realidade
maior. De fato, os registros revelaram A teoria de Durkheim influenciou todo tipo de vivida. É preciso compreendê-lo alterna-
que a taxa de suicídio era maior entre análise de estatísticas: taxas de natalidade, damente, tal como o percebe o observa-
os protestantes. Assim, pode-se afir- mortalidade, aborto, divórcios etc. dor (etnólogo), mas também tal como os
mar que a probabilidade de suicídio é LINK ACADÊMICO 7 atores sociais o vivem. Malinowski (Os
maior entre protestantes do que entre MARCEL MAUSS Argonautas do Pacífico Ocidental) faz
católicos. uma descrição meticulosa dos grandes
Fator populacional: de acordo com Mauss, tal como Durkheim, entendia, do circuitos marítimos que consistem em
a teoria, nas pequenas cidades (alta ponto de vista da antropologia cultural, que transportar, nos arquipélagos melané-
solidariedade), a taxa de suicídio seria era necessário estudar os fatos sociais sios, colares e pulseiras de conchas:
menor do que nas grandes cidades (bai- como coisas. Assim, as coisas (objetos a kula. Mauss (Ensaio sobre o Dom)
xa solidariedade), porque nestas impera manufaturados, armas, instrumentos, faz uma tentativa de esclarecimento e
a impessoalidade ou individualismo. objetos rituais) são, elas mesmas, fatos elaboração da kula, por meio da qual
Examinando os registros, constatou-se sociais. Durkheim considerava os dados não apenas visualiza um processo
que efetivamente era o que ocorria. recolhidos pelos etnógrafos nas sociedades ge-neralizado de troca simbólica, mas
Outros fatores: para Durkheim, as “primitivas” sob o ângulo da sociologia, da também começa a extrair a existência de
pessoas casadas devem ser mais qual a antropologia era destinada a se tornar leis de reciprocidade (dom e contradom)
integradas à comunidade do que as um ramo. Mauss, ao contrário, proclamava e da comunicação, que são próprias da
solteiras, as mulheres mais do que os que o “lugar” da sociologia era “dentro” da cultura em si, e não apenas da cultura
homens, as pessoas com filhos mais antropologia. trobriandesa.
do que as sem filhos, as pessoas sem Teoria do fato social total: com essa
instrução universitária mais do que as teoria, Mauss postula a integração dos LÉVI-STRAUSS
com formação superior. Assim, segun- diferentes aspectos (jurídico, biológico, 1. Introdução: o estruturalismo de
do ele, casamento, família e ausência eco-nômico, histórico, religioso e estético) Levi-Strauss inspira-se em uma nova
de educação superior integram mais constitutivos de uma dada realidade social concepção de linguagem ou lingüística

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elaborada no século XX, em especial foram confundidas muitas vezes: a de fácil detectar as estruturas mentais
por Ferdinand Saussure. Essa nova estrutura social e de relações sociais. As inconscientes básicas a partir de
concepção estabelece: a) a linguagem relações sociais são a matéria-prima em- sociedade simples (culturas frias) do
é constituída pela distinção entre língua pregada para a construção dos modelos que no seio de sociedades complexas
e fala ou palavra: a língua é uma ins- que tornam manifesta a própria estrutura (culturas quentes).
tituição social e um sistema, ou uma social. LINK ACADÊMICO 8
estrutura objetiva que existe com suas Para receber o nome de estrutura, os mo-
JUSTIÇA E RETRIBUIÇÃO
regras e princípios próprios, enquanto delos devem, exclusi-vamente, satisfazer
fala ou palavra é o ato individual do uso quatro condições: a) uma estrutura oferece 1. Retribuição e vingança: Tércio
da língua, tendo existência subjetiva por um caráter de sistema; consiste em ele- Sampaio Ferraz Jr., em Estudos
ser o modo como os sujeitos falantes mentos tais que uma modificação qualquer de Filosofia do Direito, analisa os
se apropriam da língua e a empregam; em um deles acarreta uma modificação de modelos de justiça, em especial a
b) a língua é uma totalidade dotada de todos os outros; b) todo modelo pertence conexão entre justiça e retribuição,
sentido na qual o todo confere sentido a um grupo de transformações, cada uma e observa que a aceitação atual da
às partes, isto é, as partes não existem das quais corresponde a um modelo da agressão e violência como base da re-
isoladas nem somadas, mas apenas mesma família, de modo que o conjunto tribuição, parece algo do passado, de
pela posição e função que o todo da dessas transformações constitui um grupo sociedades primitivas. Na sociedade
língua lhes dá e seu sentido vem dessa de modelos; c) as propriedades indicadas desenvolvida, contudo, a retribuição
posição e dessa função; c) a língua é acima permitem prever de que modo re- não deixa de ter uma conotação de
um sistema convencional, cujas partes agirá o modelo em caso de modificação vingança, fato que pode ser observado
podem e devem ser consideradas em de um de seus elementos; d) o modelo entre os adeptos da pena de morte.
sua solidariedade sincrônica. deve ser construído de tal modo que seu Ferraz Jr. se serve de um estudo de
Essa nova concepção afirma a proprie- funcionamento possa explicar todos os Walter Burkert sobre retribuição, que
dade do sistema sobre os elementos fatos observados. permite a elaboração de modelos
que o compõem. É uma grande ilusão, de justiça. Burkert, segundo Ferraz
diz Saussure, considerar um termo 3. Estrutura e consciência: para Lévi- Jr, assinala significativos casos de
simplesmente como a união de um cer- Strauss, as estruturas mentais incons- retribuição animal, que, na aproxima-
to som com um determinado conceito. cientes seriam responsáveis, em última ção com o comportamento humano,
Defini-lo assim seria isolá-lo do sistema analise, pelas formas particulares assu- merecem uma reflexão mais detida.
do qual faz parte; seria crer que se midas em cada cultura. Para ele, com as Principia por lembrar observações
pode começar pelos termos e construir abordagens tradicionais da antropologia, sobre chimpanzés da Tanzânia, casos
o sistema somando-os; pelo contrário, o máximo que se pode conseguir é de- de fêmeas que arrancam o filhote da
deve-se partir do todo solidário para tectar os modelos conscientes, isto é, as mãe e o devoram. A mãe demonstra
obter, por análise, os elementos que normas e padrões de comportamento da medo e procura evitar o ato. Mas o
ele engloba. sociedade. Propõe, então, um método grupo nada faz para evitá-lo. Não há
capaz de captar os modelos inconscientes pena contra as fêmeas. A questão
2. O estruturalismo de Lévi-Strauss: responsáveis pelos modelos conscientes parece se resolver quando as fêmeas
para Lévi-Strauss, as estruturas ape- que não passam de efeitos deformados canibais tornam-se mães.
nas se mostram a uma observação dos primeiros. Assim diz ele: ”Os modelos
feita de fora. Ele propõe uma noção conscientes – que se chamam comumente
de estrutura que não se confunde com 2. Kikuyus: Burkert contrasta esse
normas – incluem-se entre os mais pobres caso com uma passagem do livro de
a realidade estudada, mas deve se
que existem, em razão de sua função, que Tânia Blixen (Out of África) em que a
basear nela. Para ele a estrutura seria
é de perpetuar as crenças e usos mais do autora retrata o comportamento dos
apenas um modelo de análise constru-
que expor-lhe as causas. Assim, a análise Kikuyus, no Quênia. Para Blixen, ao
ído a partir da observação da realidade
estrutural se choca com uma situação que parece estes não teriam nenhuma
social. O princípio fundamental, diz ele,
paradoxal, bem conhecida pelo linguista: noção de justiça e pena, ao menos no
é que a noção de estrutura social não
se refere à realidade empírica, mas aos quanto mais nítida a estrutura aparente, sentido ocidental que elas assumem.
modelos construídos em conformidade mais difícil torna-se apreender a estrutura Para os africanos, diz ela, só há um
com esta. Assim aparece a diferença profunda, por causa dos modelos cons- meio de sanear uma insanidade co-
entre duas noções tão vizinhas que cientes e deformados que se interpõem metida: o dano deve ser indenizado,
como obstáculo entre o observador e seu qualquer que seja ele. O assassínio ou
objeto”. Enfim, para Lévi-Strauss é mais a lesão corporal é seguido de longas
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deliberações dos anciões que, por rarquia”, por sua vez, é “punida”. O Alpha estabelecimento da indenização
meio de negociações, buscam deter- reage à insubordinação, ao que se ligam ocorre por meio de negociação que
minar a indenização correspondente. fortes emoções. Às emoções submetidas permite a compensação de um dano.
Blixen, para seu espanto, não encon- a controle, dos subordinados, contrapõe- A vinculação da emoção à negociação
tra entre esses princípios nenhum se a emoção sem limite do “chefe”, o que até parece rebaixar o homem, signifi-
“olho por olho, dente por dente”. Não explica as lutas agressivas em disputa da cando sua regressão ao animalesco
há pena no sentido criminal. Apenas posição superior. (beber o sangue do adversário). Por
no sentido civil. Ferraz Jr. lembra que isso, Burkert entende que, do ponto
a autora talvez tivesse seu espanto 4. Justiça dos Kikuyus: em contraste de vista humano, o modelo horizontal
diminuído se soubesse que, até a com o comportamento animal, os Kikuyus é obviamente um dos universalia
alta Idade Média, o direito dos povos desenvolvem uma espécie de procedi- antropológicos, base de um discutido
germânicos retribuísse com penas mento das reações, que, de um lado, fenômeno, o princípio da reciprocida-
pecuniárias mesmo os atos criminais permite a sociabilização dos processos de, que se apresenta como um dar e
mais pesados. A pena criminal, nesse (que corresponde ao sentido de sanção receber. Lembra, a propósito, o Ensaio
sentido, só aparece entre os séculos como estabelecimento cerimonial da retri- sobre o Dom, de Marcel Mauss, em
XI e XII, não obstante o Velho Testa- buição), e, de outro, o contato com meios que aquele princípio constitui uma
mento proibir expressamente a indeniza- de pagamento que possibilita a indeniza- forma básica da interação social.
ção pecuniária em caso de assassinato. ção como troca. Ambas, a sociabilização LINK ACADÊMICO 9
e a indenização, pressupõem a língua
3. Chimpanzés: esse contraste en- (código significativo) e, com isso, uma
tre a prescrição bíblica e o Direito homeostase por meio de um mundo ob-
Germânico faz Burkert retornar aos jetivamente estabilizado (criado pela lin-
chimpanzés. Nestes, o observador guagem), onde ocorrem as negociações.
não deixa de constatar contrareações Assim, os procedimentos retributivos dos
acompanhadas de irritação, não só africanos não são primitivos nem desen-
como contrapartida direta e imediata, volvidos. Primitivismo e desenvolvimento Antropologia – 3ª edição - 2009
mas mesmo quando algum tempo são conceitos impróprios ao caso. No ser Autor:
decorre: um comportamento “vin- humano, mesmo a vingança por meio Olney Queiroz Assis, Advogado,
Mestre e Doutor em Filosofia do
gativo” pode ocorrer em face de um de procedimentos com base lingüística, Direito e do Estado pela PUC/SP,
comportamento inamistoso, cometido torna-se orientada e dirigida, não obstante Professor da Faculdade de Direito
Prof. Damásio de Jesus e do Centro
na presença do chimpanzé dominante seu fundamento emocional. Universitário de Marília - UNIVEM.
(chamado de Alpha), horas depois,
quando Alpha não está mais presente. 5. Modelos de retribuição: a partir de A coleção Guia ACADÊMICO é uma
publicação da Memes Tecnologia
Trata-se de reações homeostáticas, observações filológicas, Burkert distingue Educacional Ltda. São Paulo-SP.
que asseguram a permanência de dois modelos de retribuição: a) horizon- Endereço eletrônico:
situações ambientais favoráveis a tal: visa à equiparação de uma pretensão www.memesjuridico.com.br
indivíduos e grupos, por meio de e de uma contrapres-tação; b) vertical: Todos os direitos reservados. É
compensações e perturbações. O fixa-se numa hierarquia a ser protegida terminantemente proibida a re-
animal, num primeiro momento, foge, e mantida. Ambos podem aparecer numa produção total ou parcial desta
publicação, por qualquer meio ou
mas a fuga não é a estratégia mais mesma regra: “concilia-te com quem te processo, sem a expressa autoriza-
eficaz. Daí vêm a agressão e a contra- infligiu um dano, vinga-te de quem te ção do autor e da editora. A violação
dos direitos autorais caracteriza
agressão. Na agressão está contida a ofendeu”, diz Chilon, um dos sete sábios. crime, sem prejuízo das sanções
explosão de fú-ria, uma espécie de Modelo vertical: parece prolongar um civis cabíveis.
programação biológica que oferece, modelo pré-humano, que pressupõe
ainda que curta e não objetiva, uma hierarquia e retribui agressivamente uma
resistência a forças contrárias. ameaça. As grandes emoções vinculam-
Ocorre que a agressão, mesmo entre se a esse modelo.
os chimpanzés, parece estar controla- Modelo horizontal: parece pertencer
da pela presença do chimpanzé Alpha. exclusivamente ao gê-nero humano,
Ela é limitada por uma espécie de à medida que se liga à língua e a um
“hierarquia” grupal. A quebra da “hie- mundo objetivamente construído. O

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