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Ateísmo na Antiguidade Clássica:

judeus nas Histórias de Tácito


(século II E.C.)
Jônatas Ferreira de Lima Souza – UFRJ, Letras Português-Hebraico/Letras Clássicas
Prof. Dr. Luiz Karol – UFRJ, Letras Clássicas
ELEMENTOS DA APRESENTAÇÃO

 RESUMO (PARTE I) – Flávio Josefo (relação entre “ateu” e “judeu”)


 RESUMO (PARTE II) – Anders Drachmann (Teorizando o “ateísmo antigo”)
 RESUMO (PARTE III) – Tácito (considerações iniciais sobre o tema do “ateísmo”
no Império Romano)
 Referências
RESUMO
(PARTE I)
Nossa pesquisa adentra no comentário de Flávio Josefo, historiador judeu-
romano do primeiro século de nossa era, escrito no seu Contra Ápio II, obra que
visou à defesa, junto ao Império Romano, da antiguidade e da legalidade dos
judeus e seus costumes diante das acusações do alexandrino Ápio, no que diz
respeito aos judeus receberem a acusação de ateus na literatura etnográfica,
histórica ou geográfica helênica e latina, consultada pelos mesmos, sobre o povo
da Judeia.
 Ápio (30 A.E.C.-48 E.C.);
 Contra Apionem (95 E.C.).
JOSEFO, Contra Apionem II, 148
Gredos, p. 260, 1994.
 “Sobre tudo porque Apolônio não reuniu suas acusações, como Ápio, sem que
as tenha espalhado aqui e ali, algumas vezes injuriando-nos como ateus e
misantropos, e acusando-nos, outras vezes, de covardes e mesmo em algum
lugar, de insensatos.”
 Josefo (37-100 E.C.);
 Coletou excertos de: Maneton, Hecateu Abdera, Clearco Soles (séc. IV-III
A.E.C.); Agatarquides Cnido, Possidônio (séc. II A.E.C.); Apolônio Molon,
Alexandre Poliístor, Nicolau Damasceno, Estrabão Amaséia, Lisímaco (séc. I
A.E.C.); Ápio, Queremon (séc. I E.C.).
STERN, M. Greek and Latin Authors on Jews and
Judaism (I-III). Jerusalem: The Israel Academy of
Sciences and Humanities, 1976; 1980; 1984.
 Herodotus; Aristotle; Theophrastus; Hieronymus of Cardia; Hecataeus of Abdera;
Megasthenes; Clearchus of Soli; Euhemerus; Berossus; Manetho; Xenophilus; Eratosthenes;
Aristophanes; Hermippus of Smyrna; Mnaseas of Patara; Polemo of Ilium(?); Agatharchides of
Cnidus; Polybius; Apollodorus of Athens; Menander of Ephesus; Dius; Theophilus; Laetus;
Ocellus Lucanus; Timochares; Schoinometresis Syriae (Xenophon of Lampsacus?); Meleager;
Posidonius; Apollonius Molon; Alexander Polyhistor; Teucer of Cyzicus; Diodorus; Lucretius;
Cicero; Varro; Asinius Pollio; Castor of Rhodes; Crinagoras of Mytilene; Hypsicrates;
Timagenes; Nicolaus of Damascus; Strabo of Amaseia; Virgil; Tibullus; Horace; Livy; Pompeius
Trogus; Vitruvius; Ovid; Conon; Conon the Mythographer; Ptolemy the Historian; Valerius
Maximus; The Anonymous Author of De Sublimitate (Pseudo-Longinus); Seneca the Rhetor;
Cornelius Celsus; Pomponius Mela; Sextius Niger; Philip of Thessalonica; Scribonius Largus;
Ptolemy of Mendes; Lysimachus; Apion; Chaeremon; Dioscorides; Columella; Seneca the
Philosopher; Persius; Lucanus; Petronius; Erotianus; Curtius Rufus; Zopyrion; Hermogenes;
The Anonymous Authors on the War between the Romans and the Jews; Antonius Julianus;
Memnon of Heracleia; Pliny the Elder; Valerius Flaccus; Silius Italicus; Frontinus; Quintilian;
Statius; Martial; Damocritus; Nicarchus; Claudius Iolaus; Antonius Diogenes; Dio Chrysostom;
Epictetus; Plutarch; Tacitus; Juvenal; Suetonius.
RESUMO
(PARTE II)
Em particular, investigaremos o termo ateu no mundo antigo clássico e sua
relação semântica com os termos impiedade e ódio aos homens, associações
estabelecidas pelo filólogo dinamarquês Anders Bjørn Drachmann (1860-1935) na
sua obra Atheism in Pagan Antiquity de 1922 e que pode ser observada na Carta
sobre a felicidade do filósofo heleno Epicuro (341-270 A.E.C.).
 Compreendemos que o termo ateu está embebido de sentidos atribuídos por
diversos grupos religiosos de nossa era, tanto quanto está coberto por
ideologias antirreligiosas que atribuem, atualmente para si próprios, a
identidade ateísta.
 Considerar-se ateu: século XVIII; Iluminismo; Estado Laico x Religião
(WHITMARSH, 2015, p. 9).
DRACHMANN, A. B. Atheism in Pagan Antiquity.
Hanover, London, Copenhagen, Christiania:
Gyldendal, 1922.
Atheos, atheotes, asebeia (p. 5-7)
 “Ateu” como sinônimo de “ímpio”(p. 5).
 “Na lei criminal de Atenas nós encontramos o termo asebeia – literalmente:
impiedade ou desrespeito aos deuses” (p. 6).
 Ateísmo teórico:
 Comunidade ou indivíduo que não acredita (nos), ou critica (os)
deuses da maioria, associado ao pensamento, ou à filosofia.
 Ateísmo prático:
 Comunidade ou indivíduo que alega a não existência ou a não
validade de deuses além dos próprios, ou do próprio, no caso de
judeus e cristãos.
EPICURO. Carta sobre a felicidade. São
Paulo: UNESP, 2002.
 “Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já
a imagem que deles fazem a maioria das pessoas, essa não existe [...]. Ímpio
[ἀσεβὴς] não é quem rejeita os deuses que a maioria crê, mas sim quem
atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do
povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões
falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os
maiores benefícios aos bons. Imanados pelas suas próprias virtudes, eles só
aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo
que seja diferente deles” (p. 24-26. grifos nossos)
RESUMO
(PARTE III)
Por meio dessas análises temos por objetivo imergir na obra do historiador e
etnógrafo romano Cornélio Tácito (55-120 E.C.) nas suas Histórias V, século II
E.C., momento em que o autor dedicou uma digressão aos judeus, narrando
sobre os seus costumes, território, política, arquitetura e sobre a conquista de
Jerusalém pelos flavianos em 70-73 E.C. Nesse espaço pretendemos perceber os
mecanismos do historiador romano ao narrar sobre os judeus e nele, notar as
possíveis permanências ou mesmo descontinuidades acerca dessa tradição
helênica e latina criticada por Josefo, sobre os judeus serem acusados
de ateísmo e de serem hostis aos homens.
DRACHMANN, A. B. Atheism in Pagan Antiquity.
Hanover, London, Copenhagen, Christiania:
Gyldendal, 1922.
QUESTÃO ROMANA

 “Em Roma não possuíam, como em Atenas, um estatuto geral contra ofensas
religiosas; haviam apenas providências especiais, e elas eram, no mais,
poucas e insuficientes” (p. 8, grifos nossos).
 “Em consequência desse ponto de vista, o governo romano veio lidar,
primeiramente, com a questão da negação dos deuses como uma violação da
lei, quando confrontou com duas religiões monoteístas que invadiram o
Império a partir do Oriente [...].” (p. 9-10, grifos nossos).
CONSIDERAÇÕES INICIAIS – JUDEUS
ACUSADOS DE ATEÍSTAS
 Acreditamos que o sentido de “prático” para Drachmann, tem relação com o
que considerou ter havido nessa época: certo ideal de desdém desses dois
grupos para com as demais divindades, sejam oficiais ou não, valorizando
apenas a sua própria. A diferença estaria na ação desses indivíduos que, para
o autor, os ateístas teóricos negavam ou criticavam os deuses na teoria, no
discurso, no argumento e os judeus e os cristãos negavam os deuses dos
outros na prática, colocando tal comportamento como parte de suas
constituições e concepções de pertencimento de grupo. Assim, no período do
Império Romano, para Drachmann, esse tipo de ateísmo acabou por cair em
um sentido de crime contra a norma oficial da tolerância dos deuses (Pax
deorum), sendo considerado uma prática de rebeldia e passivo de severa
intervenção imperial com perda dos direitos legais de convivência.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS – JUDEUS
ACUSADOS DE ATEÍSTAS
 Contudo, pensamos que esta tese se tornaria problemática
acaso levássemos em consideração os elementos basilares
da defesa dos argumentos por parte de Josefo no Contra
Apionem. Afinal, estamos considerando que ele defende a
comunidade judaica justamente para não incorrer nesse
“ateísmo prático”, tanto quanto também no “teórico”.
PRIMEIRAS IMPRESSÕES EM TÁCITO,
Histórias V, 1-13 (exemplos).
 “[...] Iudaei mente sola unumque numen intellegunt: profanos qui deum
imagines mortalibus materiis in species hominum effingant; [...].” (Hist. V, 5.
4)
“[...] os judeus compreendem somente uma única divindade; [conhecem] como
ímpios [aqueles que] esculpem formas de deuses à imagem de homens com
substâncias perecíveis.”
 Transgressi in morem eorum idem usurpant, nec quicquam prius imbuuntur
quam contemnere deos, exuere patriam, parentes liberos fratres vilia
habere. (Hist. V, 5. 2)
[Aqueles que] passam para o costume daquele lugar praticam do mesmo modo, e
não antes de qualquer coisa, são ensinados a desrespeitar os deuses, livrar-se da
terra natal, considerar sem valor os pais, os filhos, os irmãos.
REFERÊNCIAS APRESENTADAS

1. DRACHMANN, Anders Bjørn. Atheism in Pagan Antiquity. Hanover, London,


Copenhagen, Christiania: Gyldendal, 1922.
2. EPICURO. Carta sobre a felicidade. São Paulo: UNESP, 2002.
3. JOSEFO, Flavio. Autobiografía. Contra Apión. Trad. Margarita de Sepúlveda.
Madrid: Editorial Gredos S.A., 1994.
4. PHILO. The Embassy to Gaius. Trad. F.H. Colson. Cambridge; Massachusetts;
London: Havard University Press, 1991.
5. STERN, Menahem. Greek and Latin Authors on Jews and Judaism (I-III).
Jerusalem: The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1976; 1980; 1984.
6. TACITUS. Historiarum. In: GODLEY, A. D. The Histories of Tacitus – Books III, IV,
and V. London: Macmillan, 1890. 296 f. (Latin version)
7. WHITMARSH, Tim. Battling the gods: the struggle against religion in ancient
Greece (atheism in the ancient world). New York: Published by Alfred A. Knopf
(Penguin Randon House LLC), 2015.