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A questão da agonística grega e suas influências na formação

da cultura ocidental

Renato Nunes Bittencourt*

Resumo: Este texto aborda a influência do espírito de competitividade grega –


a agonística – ao longo da obra de Nietzsche, não apenas em seus escritos
helenísticos, mas também nas suas obras de maturidade. Pretende-se analisar a
importância que o filósofo alemão concede para esta disposição, cuja máxima
expressão teria sido alcançada através das obras de Homero, Hesíodo e
Heráclito. A agonística preconiza a constante superação de forças entre os
homens, tendo como meta o desenvolvimento de obras que possibilitassem a
afirmação da excelência humana e a superação de uma visão de mundo
pessimista, decadente, em prol da afirmação da beleza e da glória, tornando-se,
conseqüentemente, um dos grandes temas da filosofia de Nietzsche: a criação
de valores afirmativos da vida através da interação de forças que garantem a
vitória contra a inércia e a fraqueza dos instintos vitais. A presença do tema da
competitividade na obra dos pesquisadores helenísticos reforça ainda a sua
importância cultural para a compreensão imanente da filosofia.
Palavras-chave: Competitividade; Criatividade; Justiça; Helenismo;
Nietzsche.
Abstract: This paper broaches the greek competitiveness spirit's influence –
the agonistic – along Nietzsche's work, not only on his helenistic writings, but
also on his maturity works. It is intended to analyse the importance that the
german philosopher gives to this disposition, whose greatest expression would
have been reached through, Homer, Hesiod and Heraclitus. The agonistic
professes the constant strength overcoming among the men, intending to
achieve the development of works that makes possible the affirmation of
human excellency and the overcoming of a pessimistic, decadent world view,
on the behalf of the beauty and glory affirmation, becoming, consequently, one
of the considerable Nietzsche's philosophy theme: the creation of life's
affirmative values through of the interaction of powers that ensure the victory
against the inertia and the weakness of the vital instincts. The presence of the
subject of the competitiveness in the workmanship of the hellenistic researchers
still strengthens its cultural importance for the immanent understanding of the
philosophy.
Key words: Competitiveness; Creativity; Justice; Helenism; Nietzsche.

*
RENATO NUNES BITTENCOURT é Doutorando em Filosofia do PPGF-UFRJ/Bolsista do
CNPq.

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beleza, da superação dos limites
pessoais e da glória do gênero humano.
Nessas condições, o espírito agonístico
se manifesta não apenas nas diversas
práticas desportivas, mas ainda também
em qualquer ramo ou atividade em que
se exija do indivíduo a sua dedicação
aos processos criadores no mundo do
trabalho e das artes, uma vez que sem a
existência de concorrência não é
possível que cada indivíduo se esforce
para dar o melhor de si, de modo a se
mensurar o grau de qualidade técnica de
cada um. A agonística, nessas
condições, é um instrumento cultural
que exerce um efeito psicofisiológico na
vida do indivíduo, pois este, ao
ingressar em uma dada disputa, deve
Introdução progressivamente eliminar disposições
existenciais que impeçam o
No decorrer deste texto abordaremos a desenvolvimento pleno da expansão das
importância do espírito de suas forças vitais e, por conseguinte, da
competitividade grega – a agonística – sua própria saúde.
na formação da cultura ocidental, nos
seus diversos modos de expressão, tais Cumpre ressaltar que a concepção do
como as artes, a política ou as práticas caráter agônico da existência
desportivas. Podemos considerar que tal influenciou diversos aspectos da
tendência ética e cultural teria adquirido formação do pensamento de Friedrich
a sua máxima expressão de renome Nietzsche, filósofo plenamente versado
principalmente através das obras nos valores imanentes da cultura grega
desenvolvidas por três grandes gênios antiga, o qual, sempre que possível, será
da cultura grega da Antigüidade: utilizado neste artigo como o
Homero, Hesíodo e Heráclito, que interlocutor entre os três citados mestres
contribuíram no plano da narrativa dessa exuberante civilização grega que
poética e da filosofia para a exaltação pautava a dinâmica axiológica de sua
do espírito erístico nas relações existência na afirmação da beleza e da
humanas e mesmo na concepção saúde como elementos ordenadores da
cosmológica de mundo. sociedade e do mundo circundante;
todavia, de modo algum deixaremos de
A disposição agonística se caracteriza utilizar as obras de outros pensadores
por preconizar a constante superação cujas perspectivas porventura venham a
das forças vitais por meio da interação convergir axiologicamente com os
competitiva entre os seres humanos, objetivos propostos neste ensaio,
tendo como meta o desenvolvimento de promovendo assim um debate
obras e atividades que possibilitem intercultural entre perspectivas
tanto a exaltação da excelência humana intelectuais afins. Com efeito, essa
como a superação de uma visão de interação entre diversas perspectivas
mundo pessimista, decadente, intelectuais sobre a presença da
enfraquecida, em prol da afirmação da disposição agonística em nossa

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organização cultural evidencia a grande para onde olharíamos, se nos
pertinência da reflexão sobre tal tema encaminhássemos para trás, para o
para a consciência filosófica, mundo pré-homérico, sem a
aproximando-a de uma compreensão da condução e a proteção da mão de
Homero? Olharíamos apenas para a
existência em que os elementos
noite e o terrível, para o produto de
imanentes da auto-superação, do lúdico
uma fantasia acostumada ao
e da saúde se conciliam horrível. Que existência terrestre
intrinsecamente. refletem estes medonhos e
A questão homérica do heroísmo perversos mitos teogônicos? – Uma
vida dominada pelos filhos da noite,
Nietzsche considera Homero um grande a guerra, a obsessão, o engano, a
expoente do princípio apolíneo, impulso velhice e a morte (NIETZSCHE,
da natureza que se desdobraria em 1996, p.75).
dimensões éticas e estéticas no âmbito O princípio apolíneo estabelece assim
da cultura grega do período arcaico. O um ordenamento divino sobre a
apolinismo proporcionaria a superação natureza, permitindo ao homem se
de uma concepção de mundo caótica, desenvolver culturalmente, e assim
tenebrosa e fugaz, o titanismo, em prol organizar a sua vida sob o primado da
da instauração do mundo olímpico.1 O ordem e da justiça. Conforme o
princípio apolíneo estabiliza o mundo comentário de Walter Friedrich Otto,
grego assolado pelas condições “Apolo é o mais grego de todos os
miseráveis do medo e da tristeza, que deuses. Se o espírito grego veio a
retiravam desse solo sagrado a sua imprimir-se primeiro na religião
vitalidade natural e sua beleza olímpica, é Apolo quem o manifesta de
intrínseca. Ao analisar n’ A Disputa de forma mais clara” (2005, p. 68). 2 Não é
Homero a questão de transição da visão sem mérito religioso e axiológico que
de mundo titânica para a consciência Apolo é proclamado por Homero como
olímpica da luz, da alegria e da beleza, “o melhor dos deuses” (Ilíada, Canto
Nietzsche comenta: XIX, v. 413).
Mas o que se encontra por trás do
A partir desta circunstância de
mundo homérico, como local de
nascimento de tudo o que é maravilhamento da existência,
helênico? Neste mundo, somos considera-se que o culto do espírito
elevados pela extraordinária apolíneo proporcionou a formação de
precisão artística, pela tranqüilidade uma Grécia serena, bela, harmoniosa,
e pureza das linhas, muito acima da adepta de uma sabedoria prática de vida
pura confusão material: suas cores caracterizada especialmente pelo
aparecem mais claras, suaves, apaziguamento do ânimo individual,
acolhedoras, por meio de uma pelo respeito ao autoconhecimento,
ilusão artística, seus homens, nesta equilíbrio e moderação. Tais qualidades
iluminação colorida e acolhedora, foram proporcionadas pela prática da
melhores e mais simpáticos; mas
“justa medida”, conforme as inscrições
inseridas no renomado Templo de
1
Hesíodo considera que o primeiro existente foi Delfos: “nada em excesso” e “conhece-
o Caos (cf. Teogonia, v. 116). Para te a ti mesmo”, prescrições que
compreensão da presença do titanismo na sintetizam a essência ética e axiológica
cultura grega originária, cf. Teogonia, vs. 617-
721, onde Hesíodo narra a “Titanomaquia” e a
2
decorrente a superação dessa visão de mundo É digno de nota que Walter Burkert (1993, p.
tenebrosa pela gloriosa cultura olímpica. 285), corrobora essa ideia de W. F. Otto.

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da visão de mundo do apolinismo. desenvolvimento da existência saudável
Nessa concepção, havia ainda a do povo grego, cujos homens, adeptos
valorização do estado de sonho e da de uma vida de luta cuja pujança estava
contemplação suave da beleza da marcada nas suas disposições de ânimo,
aparência, como meio do homem grego jamais poderiam renegar, pois
conseguir se desvencilhar dos aspectos consideravam as adversidades e
obscuros e grotescos da existência dificuldades da existência como
concreta, pois a bela imagem dos deuses poderosos estimulantes para a superação
e dos corpos sadios dos heróis apazigua de forças, jamais como se fosse um
os tormentos do indivíduo evento de caráter maléfico, aniquilador.
(NIETZSCHE, 1993, p. 28-30). Por Inclusive, para enaltecer a excelência de
conseguinte, na dimensão apolínea, seus divinos heróis, Homero concede-
mesmo as guerras humanas e a lhes na narrativa da Ilíada o momento
destruição são adornadas com o tênue de destaque pessoal, a “aristia”, para
véu ilusório da beleza, que tornava que a singularidade dos feitos
aprazível para a existência qualquer tipo grandiosos do homem valoroso fosse
de evento que viesse a motivar no grego evidenciada e assim toda a Hélade
o sentimento de tristeza ou desgosto, pudesse atestar a magnitude dos seus
decorrentes da impotência do ser empreendimentos guerreiros. A partir
humano em superar um nível de poder dessas características destacadas,
mais intenso do que concernente de sua podemos defender a hipótese de que os
própria individualidade. A ilusão heróis olímpicos descritos por Homero
apolínea representa o anseio de se eram extremamente aptos para as
transfigurar a dor e a contradição da práticas de guerras e disputas entre
existência, em uma miríade de reflexos grupos e povos, em virtude dessa
belos e aprazíveis para a existência predisposição natural para o confronto
humana. Desse modo, o indivíduo interativo.
poderia contemplar uma natureza Em vista das colocações precedentes, é
harmoniosa, ordenada e, por isso, bela, imprescindível que façamos o seguinte
atingindo assim um supremo gozo pela questionamento: Como Homero, sendo
vida. considerado o gênio apolíneo por
Todavia, podemos afirmar que a excelência, poderia coadunar com a
superação sobre os aspectos tenebrosos destruição e a violência, tal como
da existência concretizou-se de modo constantemente exposto nas suas
mais primoroso através da “educação gloriosas narrativas épicas? Na verdade,
homérica”, modelo de vida alicerçado uma leitura atenta das suas obras
na exaltação da virilidade, da disputa, demonstra que Homero não enaltecia o
da coragem e do anseio pela glória, aniquilamento irrefreável entre os
posto que, nessa visão de mundo, existia homens, chegando ao ponto de fazer
a concepção de que uma existência Zeus repreender severamente Ares por
tediosa, desprovida do brilho e da seus terríficos impulsos belicosos. Com
satisfação pessoal originadas pela efeito, Ares é o deus que Zeus menos
superação das adversidades nas pelejas, estima (HOMERO, Ilíada, Canto V, vs.
não pode ser de modo algum 889-898). Mais ainda, na própria
considerada digna de ser vivida. narrativa homérica se enuncia a idéia de
que a guerra é um mal (HOMERO,
O valor concedido ao espírito de
Ilíada, Canto XIX, vs. 221-224). Esse
competição possibilitava o
tipo de guerra mortal, que em geral não

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era movido por qualquer propósito retorno do universo ao estado de caos
cultural e pela exaltação da criatividade primordial, mas, pelo contrário,
do gênio humano, encontrará proporcionar a exaltação dos valores
ressonância imediata na ação sempre vitais do ser humano como reflexo da
destrutiva da “Má Éris”, que jamais própria glória dos deuses olímpicos, de
proporciona algo benfazejo para os modo que a excelência dos nobres
homens (HESÍODO, Os Trabalhos e os heróis e os seus respectivos atos
Dias, v. 16). Nietzsche, propondo uma singulares fossem enaltecidos pelo povo
solução para esse enigma, enuncia a no decorrer do tempo.3 O herói
seguinte indagação: “Por que todo o homérico, acima de tudo, prima pelo
mundo grego se regozijava com as reconhecimento dos homens, pelo
imagens de combate da Ilíada?” enaltecimento glorioso de seus feitos. A
(NIETZSCHE, 1996, p. 75). ação do nobre guerreiro, no mundo
Uma possibilidade de solucionarmos tal homérico, é uma obra de arte encarnada,
viva, de modo que todos os seus atos
problema talvez resida no significado
concedido pela cultura apolínea ao adquirem o estatuto de grandiosidade e
esplendor.
acontecimento da morte dos célebres
heróis homéricos: através da aspiração Após estas explanações, avancemos
de se obter o reconhecimento público para um episódio homérico de suma
pela realização de feitos distintos, cada importância para o desenvolvimento
homem adquiria coragem para enfrentar deste escrito: Podemos considerar que
os desafios impostos pelo destino, de um dos principais eixos narrativos da
modo que o choque entre os guerreiros Ilíada de Homero reside no
se tornava uma situação inevitável. antagonismo figadal existente entre
Contudo, devemos ressaltar que, apesar Aquiles e o principal combatente dos
do extremo poder de destruição guerreiros troianos, Heitor, antagonismo
manifestado pela conduta do guerreiro que atinge o seu ápice quando Heitor
homérico, suas disposições e intenções mata Pátroclo, jovem muito caro a
eram absolutamente distintas das Aquiles (HOMERO. Ilíada, Canto XVI,
práticas monstruosas efetivadas pelos vs. 818-822). Após finalmente ocorrer o
membros da era titânica, na qual não tão ansiado duelo entre os dois heróis,
havia nenhum respeito pela vida e pela Aquiles extermina o guerreiro troiano
harmonia, mas somente caos e (HOMERO. Ilíada, Canto XXII, vs.
destruição despropositada. 317-363).
O herói apolíneo, quando agia, agia Entretanto, podemos dizer que o espírito
motivado por fins absolutamente de disputa se manifesta antes desse
contrários aos preconizados pelo confronto decisivo através do discurso
titanismo, pois em qualquer de Tétis, a qual afirma a Aquiles que, se
circunstância em que ele demonstrava a porventura este viesse a matar o seu
sua excelência pessoal, o seu propósito grande rival Heitor, não muito tarde ele
principal residia na justa vontade de viria a sofrer da mesma sina. Eis as
“civilizar” o “mundo bárbaro”, através
3
da expansão da visão de mundo No âmbito da glória esportiva, Hans Ulrich
olímpica. Desse modo, podemos dizer Gumbrecht destaca um elemento valioso em seu
Elogio da beleza atlética: “O óleo fazia os
que tais guerreiros não pretendiam, em corpos nus dos atletas reluzirem com o reflexo
hipótese alguma, motivar o inexorável da luz do Sol, e essa aura tão palpável os
aniquilamento dos seres vivos e o distinguia dos homens comuns”
(GUMBRECHT, 2007, p. 72)

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palavras de Tétis ao seu amado filho sua retirada da guerra de Tróia seria
Aquiles: “Curta existência terás, caro para ele uma situação muito dolorosa.
filho, a assim resolveste/pois logo após Como prêmio por seus atos de bravura,
o trespasso de Heitor, quer o Fado que seria concedida ao herói a “morte
morras” (HOMERO, Ilíada, Canto gloriosa”, uma vez que, somente através
XVIII, vs.95-96). Vale ressaltar que a de sua queda individual um herói de tal
sina fatal de Aquiles novamente é importância poderia adquirir a
revelada, através de seu cavalo Xanto, imortalidade do renome, conquistando a
inspirado pela deusa Hera: “Hoje, sua presença na memória do povo e dos
impetuoso Pelida, serás por nós salvo, poetas, ao recordarem e cantarem os
sem dúvida/ mas já tens próximo o dia seus grandes atos. A morte humana
em que deves morrer, não nos culpes/ granjeava uma justificação irrefutável,
que nisso a culpa será de um deus forte pois a iminência da imortalidade do
e da Moira impiedosa.” (HOMERO, renome superava a inexorável morte
Ilíada, Canto XIX, vs. 408-410). física do corpo, e certamente era muito
melhor morrer em estado de glória do
Essa fatalidade pode ser devidamente
que com a estrutura orgânica decadente
justificada pelo respeito ao próprio
em decorrência do peso da idade.
sentido da disputa, posto que, uma vez
Devemos ter sempre em mente que, na
destruído Heitor, o único homem
ética apolínea, “buscar a refrega é a
plenamente capaz de se igualar a
atitude própria do herói” (MOSSÉ,
Aquiles em feitos extraordinários, não
1989, p. 47). Nesses termos, justamente
fazia mais motivo para que este
aquilo que o afastava da relação
continuasse a existir. Tal situação-limite
agonística era considerado como o
decorre da inexorabilidade da regra da
“mal” por excelência, pois a cultura
agonística: uma vez cessada qualquer
grega da era antiga obteve a sua
qualidade de disputa, motivada pela
glorificação mediante os esforços
extinção de um grande rival, o vencedor
coletivos dos seus grandes homens, e
deve encontrar um novo antagonista, de
não através de esperançosas
elevado nível técnico. Se porventura
intervenções transcendentes de forças
não existir essa possibilidade, o
divinas que providencialmente
guerreiro deve ser afastado das disputas
organizariam o mundo para que o
imediatamente, o que ocorre com
homem melhor pudesse viver. Nos
Aquiles, através de seu aniquilamento,
momentos mais adversos da história do
evento que, no entanto, garante ao herói
mundo grego, os grandes feitos heróicos
a eternidade de seu nome. Afinal, se
proporcionaram a continuidade dos seus
porventura Aquiles continuasse
valores e instituições.
vivendo, esse fato poderia proporcionar
em curto espaço de tempo a sua própria
ruína pessoal, pois a sua vida de
guerreiro, marcada pela superação e
pelo esforço, seria abandonada em prol
da vida pacata, sendo a sua morte na
flor da idade, no auge de sua fama, que
permite a ampliação e perpetuação da Ao interpretar o sentido da agonística
sua glória entre os homens. para a vida a partir da filosofia de
Nietzsche, Scarlett Marton elucida esta
No caso de Aquiles, homem de natureza importante questão, ao afirmar que,
extremamente belicosa e impetuosa, a “para que ocorra a luta, é preciso que

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existam antagonistas. E, como ela é carpinteiro/ o mendigo ao mendigo inveja e
inevitável, sem trégua ou termo, não o aedo ao aedo (HESÍODO, Os Trabalhos e
pode implicar a destruição dos os Dias, vs. 20-26).
beligerantes” (MARTON, 2000, p.56). Podemos dizer que a questão
No citado caso de Aquiles, a interessante da disputa em Hesíodo
interpretação usual considera muito consiste na possibilidade de se
corretamente que o fato dele ter demonstrar que essa vocação intrínseca
aniquilado Heitor foi uma ação sob o para a competitividade não se estende
iracundo efeito da hybris, assim como apenas nas lutas corporais propriamente
quando Aquiles ultraja o corpo de ditas, mas também nas práticas
Heitor, uma grave afronta ao código desportivas, nas atividades políticas, nas
grego que preconiza o cuidadoso artes liberais, no âmbito judiciário e no
respeito ao corpo de um herói morto.4 trabalho manual. Para mais detalhes da
Contudo, também podemos considerar relação da disposição erística no
que o ato de se interromper o processo trabalho humano, vejamos os
de instauração da luta, ou seja, o comentários de Vernant e Vidal-Naquet:
impedimento do desenvolvimento do “A Éris subsiste na era da cidade, nas
espírito agonístico, é certamente uma artes que têm um caráter estético ao
atitude terrivelmente desmedida, uma mesmo tempo que utilitário, como a
vez que a disputa é um elemento decoração de louças de luxo na
essencial da vida do guerreiro homérico, cerâmica” (1989, nota 44 da p. 62).
de maneira que excluir esse evento do Nessas condições, a disposição heróica
cotidiano é atentar contra os próprios não se manifesta apenas nas lutas em
princípios básicos da vigorosa campo aberto, entre os nobres
concepção homérica da vida e da cavaleiros e seus adversários, “mas
própria ordem cósmica que exige a também na luta silenciosa e tenaz dos
contínua emulação entre os indivíduos. trabalhadores com a terra dura,
A Boa Éris de Hesíodo e sua atividade que exige disciplina,
influência na cultura grega qualidade de valor imorredouro para a
formação humana” (JAEGER, 1995, p.
Herdando de Homero o valoroso 85).
espírito da disputa, Hesíodo demonstra
a extrema importância do sentimento de O trabalho, em Hesíodo, é uma forma
competitividade entre os homens, de de experiência vital e de conduta
modo que eles anseiem sempre pela religiosa. Na cultura dos cereais, é
superação de suas forças e a através do esforço e de sua fadiga,
manifestação da excelência de suas estritamente reguladas, que o homem
obras, através da Boa Éris, posto que entra em contato com as forças divinas,
pois esse processo meticuloso exige a
Esta desperta até o indolente para o ponderação da justa medida na
trabalho:/ pois um sente desejo de trabalho
avaliação das energias corporais
tendo visto/ o outro rico apressado em
plantar, semear e a/ casa beneficiar; o necessárias para a realização das
vizinho inveja ao vizinho apressado/ atrás atividades campesinas. Conforme
de riqueza; boa Luta para os homens esta é;/ argumentam Vernant e Vidal-Naquet,
o oleiro ao oleiro cobiça, o carpinteiro ao O trabalho é para Hesíodo uma
forma de vida moral, que se afirma
4
O conceito grego de Hybris abarca as ideias de em oposição ao ideal do guerreiro;
“desmedida”, “excesso”, “descontrole”, é igualmente uma forma de
“desequilíbrio”. experiência religiosa, ansiosa por

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justiça e exigente que, ao invés de 1981, p. 16). Só o trabalho (Ergon)
exaltar-se no deslumbramento das surge da ação estimulante da “Boa
festas, penetra toda sua vida pela Éris”, mas o labor (Ponos), como todos
realização estrita das atividades os males, provém da Caixa de Pandora,
cotidianas (VERNANT & VIDAL-
sendo uma punição imposta por Zeus
NAQUET, 1989, p. 13).
pela traição de Prometeu (Teogonia, v.
O trabalho institui novas relações entre 535; Trabalhos e Dias, vs. 47-95).
os deuses e os homens: estes renunciam Todavia, podemos perceber que existe a
à hybris, e aqueles, por outro lado, possibilidade do ser humano divinizar
garantem aos que trabalham dignamente também o labor extenuante, na medida
a riqueza com os rebanhos de ouro em que ele age com moderação, justiça
(VERNANT, 1990, p. 252). Aos e respeito, seja para com os homens,
homens, cabe o conselho divino: “se nas seja para com os deuses, seguindo
entranhas riquezas desejar teu animo, meticulosamente a ordem natural das
assim faze: trabalho sobre trabalho coisas.
trabalha” (HESÍODO, Os Trabalhos e
Ao comentar a aplicação hesiódica da
os Dias, vs. 381-382).
“Boa Éris” nas atividades agrícolas, em
Há que se ressaltar que na poesia de decorrência do fato do divino aedo ser
Hesíodo ocorre uma sutil diferenciação um homem que se estabeleceu
entre Ergon (o trabalho criativo, cujo existencialmente das atividades do
esforço dignifica o homem) e Ponos (a cultivo da terra, Vernant considera que
labuta sofrida, extenuante), tal como a Dike do agricultor consiste em tornar
exposto a Teogonia, v. 226, “Éris a Éris numa virtude, transferindo a luta
hedionda pariu fadiga cheia de dor”, e a emulação do terreno da guerra para
assim como nos Trabalhos e Dias, vs. o do labor, onde, “em lugar de destruir,
90-92: “Antes de fato habitava sobre a constroem, em lugar de semear as
terra a raça dos homens, /a resguardo de ruínas, produzem a abundância
males, sem a penosa fadiga/ e sem fecunda” (VERNANT, 1990, p.49).
dolorosas doenças que aos homens Nestas ocupações, cada homem deve
trazem a morte.” tentar ultrapassar um adversário que
Essa distinção foi problematizada na estivesse à sua altura de qualidade, de
contemporaneidade por Hannah Arendt, modo a possibilitar a continuidade da
que considera o “labor” como “a atitude vontade de competição, sendo, por
que corresponde ao processo biológico conseguinte, plenamente capaz de
do corpo humano”, e que “a condição mitigar o poder da Má Éris, que
humana do labor é a própria vida”, representaria, por sua vez, os impulsos
enquanto “o trabalho é a atividade titânicos de destruição (HESÍODO, Os
correspondente ao artificialismo da Trabalhos e os Dias, v. 14). Por
existência humana, existência esta não conseguinte, através dessa prática
necessariamente contida no eterno ciclo afirmativa dos valores da vida, a luta e
vital da espécie”; “O labor assegura não os impulsos de conservação do ser
apenas a sobrevivência do indivíduo, humano deixavam de constituir um
mas a vida da espécie. O trabalho e seu traço exclusivamente destrutivo, para
produto, o artefato humano, emprestam que conquistassem o sentido de disputa,
certa permanência e durabilidade à e assim, de prazer e superação dos
futilidade da vida humana e ao caráter limites corporais. Para Huizinga, “a
efêmero do tempo humano” (ARENDT, ideia de ganhar está estreitamente
relacionada com o jogo. Todavia, para

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alguém ganhar é preciso que haja um degenerativos da vitalidade corporal,
parceiro ou adversário; no jogo solitário mas a amizade ou mesmo o amor, pois
não se pode realmente ganhar, não é a existência de um antagonista fornece
este o termo que pode ser usado quando ao homem guerreiro o genuíno
o jogador atinge o objetivo desejado” fundamento da sua vida, pela
(2007, p. 57). possibilidade de se praticar os
exercícios que evidenciam a sua
A partir dos seus estudos helenísticos,
excelência, permitindo assim a
Nietzsche reconhecia como
renovação das suas forças vitais:
característica essencial do grego
olímpico a disposição constante para a Poder ser inimigo, ser inimigo –
prática da guerra, fato este que poderia isso pressupõe talvez uma natureza
motivar o aniquilamento dessa nobre forte, é em todo caso condição de
qualidade de homem de forma toda natureza forte. Ela necessita de
demasiado célere. Nessas condições, a resistências, portanto busca
resistência: o pathos agressivo está
solução mais viável para esse problema
ligado tão necessariamente à força
consistiria na moderação dos impulsos quanto os sentimentos de vingança
de violência e de morte, através da e rancor à fraqueza. (...) – A força
canalização do instinto de disputa para o do agressor tem na oposição de que
plano das artes, da política e dos precisa uma espécie de medida;
esportes, nas quais todos os gregos todo crescimento se revela na
teriam a oportunidade de expandir suas procura de um poderoso adversário
forças vitais que, uma vez liberadas – ou problema: pois um filósofo
para a criação de obras valorosas, guerreiro provoca também os
engrandeceriam o renome das suas problemas ao duelo. A tarefa não
consiste em subjugar quaisquer
instituições sociais. O herói preconiza a
resistências, mas sim aquelas contra
exaltação dos seus feitos e, para isso, as quais há que investir toda a
precisa que exista um conjunto de força, agilidade e mestria das armas
homens que reconheçam a sua – subjugar adversários iguais a
grandiosidade. Nietzsche, por meio nós... Igualdade frente o inimigo –
dessas reflexões, pretende dizer que o primeiro pressuposto para um duelo
objetivo da educação agônica era o bem honesto. Quando se despreza não se
da coletividade, da sociedade citadina. pode fazer a guerra; quando se
Nessas condições, cada grego deveria comanda, quando se vê algo abaixo
desenvolver suas forças corporais até o de si, não há que fazer a guerra
estágio em que tal empreendimento (NIETZSCHE, 2001, p. 31-32).
pudesse constituir o máximo de Podemos considerar que o afeto de
benefícios para a sociedade, “trazendo afinidade de um homem valoroso pelo
por sua vez o mínimo de danos” seu antagonista se manifesta através do
(NIETZSCHE, 1996, p. 82). código aristocrático que preconiza o
Prosseguindo nas suas leituras e respeito fidedigno entre os rivais, de
interpretações das obras de Hesíodo, modo que o vilipêndio contra a honra de
Nietzsche considera que o sentimento um guerreiro valoroso era considerado
que deve brotar da disputa entre dois como uma grave expressão de
rivais valorosos jamais pode ser o ódio descortesia. Tal situação decorre da
ou a vingança, expressões concretas da compreensão de que são a partir destas
“Má Éris” que se caracterizam interações de forças, dos intensos
psicologicamente como afetos reativos e choques de potências, que o agonista
adquire a capacidade de superar os seus

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limites corporais, as suas próprias dores, Heráclito contra os seus concidadãos:
sendo, por tal ato, glorificado e “Merecia que os efésios adultos se
enaltecido pelo seu povo. Portanto, o enforcassem e aos não-adultos
emulador educado na arte da abandonassem a cidade, eles que a
competição deve reconhecer que sua Hermodoro, o melhor homem deles e o
honra, glória e importância perante os de mais valor, expulsaram dizendo: que
olhares de sua própria sociedade entre nós ninguém seja o mais valoroso,
decorrem diretamente da existência de senão que se vá alhures e com outros”
um rival que esteja situado no seu nível (HERÁCLITO, Fragmento DK 121).
de força, capaz de competir de igual
Para evitar circunstâncias que
para igual, o que podemos atestar
potencialmente prejudicariam o
através da autoridade de Vernant, ao
processo vital da disputa, a cultura
considerar que “toda rivalidade, toda
grega instituiu o ostracismo, na qual a
éris, pressupõe relações de igualdade. A pessoa pública que porventura viesse a
concorrência jamais pode existir senão
se perpetuar no poder ou em uma
entre iguais” (VERNANT, 2002, p. posição importante na sua sociedade,
50).5
deveria ser afastada de seu cargo, de
Acrescentando mais argumentos para modo que outros homens viessem a
tais dispositivos agônicos, devemos ocupar o seu lugar, garantindo assim o
ressaltar que os gregos, em prol da movimento de forças antagônicas no
renovação constante do círculo da desenvolvimento da pólis.6 Dessa
disputa, não eram de modo algum forma, se impossibilitava a cristalização
favoráveis à hegemonia de um do poder nas mãos de um homem com
competidor vencedor sobre os seus aspirações hegemônicas, pois a
demais concorrentes por uma grande manutenção da saúde política de uma
extensão de tempo, certamente por comunidade depende do conflito de
considerarem que tal fato retira dos ideias entre grupos opostos, para que o
competidores vencidos as disposições governante sempre seja pressionado a
de ânimo necessárias para a prática de realizar uma administração proba dos
uma nova disputa. Afinal, os agonistas recursos públicos, de modo a beneficiar
derrotados ficariam acostumados a ser o florescimento contínuo das forças
constantemente vencidos pelo criativas da sociedade. Conforme Fustel
conquistador. Nietzsche, elucidando de Coulanges destacou de modo
essa disposição agônica, apresenta o pertinente, o “ostracismo não era um
interessante caso do valoroso castigo, mas uma precaução tomada
Hermodoro, banido da comunidade dos pela pólis contra um cidadão que se
efésios por ter pretendido, durante a suspeite vir a algum dia perturbá-la”
realização de uma batalha, se sobressair (1998, p. 250).
em relação aos seus companheiros. Essa No seu ensaio “A Disputa de Homero”,
que gerou uma violenta invectiva de Nietzsche, ao comentar acerca da
5 6
Sobre a questão da agonística aplicada ao Claude MOSSÉ, em O Cidadão da Grécia
âmbito das práticas judiciárias da Grécia Antiga, Antiga (1999), no “Pequeno Léxico das
vejamos os comentários de Huizinga: “Na Instituições”, dedica na p. 119 valorosas
Grécia, o litígio judiciário era considerado um colocações sobre o ostracismo na pólis grega.
Agon, uma competição de caráter sagrado Dentre os autores clássicos, há que se ressaltar
submetida a regras fixas, na qual os dois que Aristóteles, na Política, Livro III, Cap. VIII,
adversários invocavam a decisão de um árbitro” 1284 a-b, tece importantes comentários sobre a
(HUIZINGA, 2007, p. 87) instituição do ostracismo grego.

23
questão das práticas desportivas da de naus e dinheiro para empreender uma
Hélade, se refere a uma situação incursão nesse local. Sofrendo heróica
curiosa, típica da engenhosidade dos resistência dos habitantes de Paros,
gregos antigos: estes criaram um prêmio Miltíades estabelece maquinações para
especial, uma espécie de antepassado realizar seu ávido objetivo, cometendo o
muito próximo do que denominamos sacrilégio de invadir o Templo de
atualmente por prêmio de hors Deméter, pois lhe fora aconselhado que
concour.7 Esse mérito se caracterizava ao tocar em algum objeto sagrado
por considerar que uma pessoa, de tão obteria a força necessária para a
excelente na prática de sua atividade, realização do seu projeto. Acometido
não poderia competir com os demais por um pânico súbito no local sagrado,
concorrentes, devendo receber, no sofrera um grave ferimento,
entanto, uma premiação destacada nos encontrando-se na necessidade de
torneios, para que as suas qualidades retornar para Atenas; tanto pior, o
inquestionáveis fossem exaltadas, infortunado herói recebera em seu
simultaneamente ao fato de que outros regresso a acusação de ter enganado os
competidores pudessem também seus concidadãos, e em seu julgamento
demonstrar as suas habilidades, sem que correu o risco de ser condenado à morte,
ficassem sob a sombra da imponência mas articulações políticas e a
do grande vencedor. No entanto, o manifestação do povo em seu favor
afastamento do herói das disputas e permitiram a comutação da pena capital
competições geralmente motivava numa multa, mas Miltíades morreria
situações terríveis, como até mesmo o pouco tempo depois, vítima do
declínio do seu estado de glória. ferimento em Paros, em estado de
Nessas circunstâncias, podemos completa desgraça (HERÔDOTOS,
destacar o caso de Miltíades: devido aos História, VI, 109-110; 132-136;
seus feitos grandiosos realizados na NIETZSCHE, 1996, p. 84-85).
batalha de Maratona, ele foi isolado do Nietzsche, ao analisar essa questão,
convívio de seus companheiros, em um considera que os gregos viam-se
pico solitário, isolado do convívio de obrigados a afastar o grande vitorioso
seus companheiros e mesmo da das disputas pelo fato de acreditarem
coletividade social em geral. Por não que o elemento principal que torna uma
conseguir lidar com a privação das competição agradável e estimulante
disputas e da possibilidade de tanto para os participantes como para o
extravasar suas energias corporais, o público espectador consistiria no grau
herói sofreu de distúrbios psíquicos que de dificuldade que ela apresenta na
motivaram uma série de atribulações em trajetória do campeão rumo ao grande
sua vida: ao pretender se vingar de momento especial da conquista. Afinal,
Lisagoras, um antigo desafeto da cidade podemos comprovar essa importância
de Paros que outrora o desonrara, o nos tempos atuais: torneios nos quais se
herói se aproveita do seu prestígio e conhece de antemão um provável
requisita aos atenienses o fornecimento vencedor, ou que determinado
competidor conquista todas as etapas de
7
Conceito de origem francesa que significa, um campeonato, mitigam o estímulo de
literalmente, “fora da competição”, “fora de superação de forças daqueles que se
concurso”. Usa-se para algo excepcional que vai empenham, por meio de todas as suas
ser apresentado numa exposição, numa mostra,
forças, em alcançar a heróica
sem estar competindo com os demais, até por
ser reconhecido de qualidade superior. consagração. Através da predominância

24
ontológica da “Boa Éris” sobre a sua disposição transformadora dos
antítese maléfica, o espírito grego elementos naturais é a agonística
superou a tenebrosidade primordial cosmológica do polémos, compreendida
existente na ideia de emulação, metaforicamente como “guerra”,
transformando-a numa experiência “combate”, “disputa”. Tal peculiaridade
dignificante e gloriosa para todo homem leva Heráclito a afirmar a célebre
movido pelo ideal de afirmar sentença de que “o combate (polémos) é
qualitativamente a vida. A cultura de todas as coisas pai, de todas rei, e
agônica se sustentava na experiência uns revelou deuses, outros, homens; de
religiosa de um vislumbre olímpico pela uns fez escravos, de outros, livres.”
saúde, pela ampliação das forças vitais. (HERÁCLITO, Fragmento 53 DK).
Para Vernant, “as qualidades físicas são Inclusive, há que se destacar que, por
eminentemente valores religiosos – vislumbrar a eternidade dos
juventude, força, rapidez, destreza, antagonismos entre as forças e os
agilidade, beleza – as quais o vencedor elementos constituintes do mundo,
testemunha no decorrer do ágon e que Heráclito critica o ato “pacificador” de
aos olhos do público se encarnam em Homero, quando este, no episódio final
seu corpo nu” (1990, p. 326). Portanto, da Odisséia, através do imperativo da
para que exista um certame de grande deusa Atena, ordena a seu protegido
qualidade, é necessário que os Odisseu que subjugue seu anseio de
competidores estejam nivelados por revanche, proclamando o
cima, de modo que o potencial de cada estabelecimento da paz entre os
um seja demonstrado no mais alto grau litigantes. Heráclito diz no Fragmento
de qualidade nas competitivas e 42 DK: “Homero merecia ser expulso
estimulantes atividades esportivas. dos certames e açoitado, e Arquíloco
igualmente”. Por sua vez, eis a citada
Heráclito e a afirmação do caráter
exortação de Atena na Odisséia:
cósmico da Éris
Ponde, Itacences, um fim a essa
Heráclito de Éfeso considerava que a horrível e inglória matança, e
essência do universo seria constituída separai-vos, sem perda de sangue, o
por um permanente conflito de forças, e mais presto possível!’ Isso disse
que as transformações da realidade, ela; de todos o pálido medo se
inseridas no grande devir cósmico, apossa. Cheios de grande pavor,
decorreriam necessariamente dessa então, eles as armas deixaram das
característica primordial, mãos cair, quando ouviram a voz
intrinsecamente presente em todos os ressoante da deusa. Para a cidade
elementos constituintes do universo: fugiram visando a salvar a
“Em rio não se pode entrar duas vezes existência. Mas o divino Odisseu,
por maneira terrível gritando, a
no mesmo, nem substância mortal tocar
persegui-los se atira, como águia de
duas vezes na mesma condição; mas vôo altaneiro. Nesse momento Zeus
pela intensidade e rapidez da mudança Crônida um raio atirou fumegante,
dispersa e de novo reúne (...)” que foi cair bem ao pé da donzela
(HERÁCLITO, Fragmento 91 DK). O de Zeus poderoso. A de olhos
processo do devir modifica glaucos, Atena, então disse a
intrinsecamente todas as formas de vida, Odisseu valoroso: ‘Filho de
suprimindo a ideia de unidade e Laertes, de origem divina,
permanência mesmo na subjetividade engenhoso Odisseu, põe logo termo
humana, e o elemento que promove essa a essa guerra funesta. Não seja isso
causa de se irritar contra ti Zeus

25
potente, nascido de Crono.’ (Fragmento 51 DK); “O contrário é
Alegremente, Odisseu ao conselho convergente e dos divergentes nasce a
de Atena obedece. Pacto de paz mais bela harmonia, e tudo segundo a
permanente firmou entre os grupos discórdia” (Fragmento 8 DK).
inimigos a de olhos glaucos, Atena,
a donzela de Zeus poderoso Viver a perspectiva trágica é viver a
(HOMERO, Odisséia, Canto satisfação de uma alegria primordial no
XXIV, vs. 531-548.) jogo de criar e destruir o mundo
Julgando de modo condescendente essa individualizado, como faria uma
questão, devemos considerar que o fato criancinha mexendo displicentemente
de Homero finalizar a sua epopéia de na areia da praia. O lúdico tende a se
modo conciliador se deve por sua manifestar arrastando os indivíduos para
pretensão de demonstrar ao homem a emoção pura, e o movimento do jogar-
grego a importância da capacidade de se brincar literalmente não visa outra coisa
desvencilhar da influência da desmedida que não a auto-satisfação do jogador
e do aniquilamento, como pretendia brincante (RETONDAR, 2007, p. 53).
Hesíodo, através da valorização da “Boa A agonística cosmológica da natureza
Éris”, conforme visto anteriormente. se expressa através de um mecanismo
Portanto, no momento crucial da “extra-moral”, pois tudo aquilo que
narrativa, se porventura Odisseu viesse ocorre é necessário e desprovido de
a se vingar de seus adversários de modo qualquer fundamentação normativa. “A
implacável, ele estaria destruindo o vida como jogo é uma espécie de
instinto saudável de competição, aceitação de um mundo tal como ele é,
efetivando assim a terrível discórdia quer dizer, um mundo marcado pelo
mortal, vinculada ao titanismo pré- efêmero” (MAFFESOLI, 2003, p. 78).
olímpico. No entanto, podemos Conforme argumenta Huizinga, “o agon
defender a hipótese de que talvez na vida dos gregos, ou a competição em
Heráclito tenha criticado a postura de qualquer outra parte do mundo, possui
Homero por acreditar que o poeta todas as características formais do jogo
pretendia suprimir qualquer instinto de e, quanto à sua função, pertence quase
disputa em prol da paz cósmica, inteiramente ao domínio da festa, isto é,
permanência e conservação das forças ao domínio lúdico” (2007, p. 36).
vitais. Nietzsche, ao interpretar a questão da
Por considerar o universo como um agonística em Heráclito, percebe no
fluxo de forças em movimento pensamento do “Obscuro” a presença de
constante, tal como o despreocupado uma ideia perspicaz e surpreendente: a
jogo das crianças, qualquer proposta de transposição do espírito da disputa,
fixidez e cessação de disputas poderia situado na esfera das ações cotidianas,
prejudicar o processo primordial da para a dimensão universal, através da
natureza, marcado pela constante tensão afirmação de um princípio cosmogônico
dos contrários, da qual resulta a totalizante. Desse modo, as disputas
verdadeira harmonia do mundo. entre os homens, consideradas nos seus
Conforme Heráclito sentencia: “O mais diversos níveis de atividades,
Tempo é criança brincando, jogando; de decorreriam imediatamente do reflexo
criança o reinado” (Fragmento 52 DK); desse conflito cósmico primordial, que
“Não compreendem como o divergente possibilita a transformação contínua de
consigo mesmo concorda; harmonia de todas as coisas e entes do mundo, o
tensões contrárias, como de arco e lira”

26
processo divino do devir. Nietzsche de uma cosmodicéia; é a Boa Éris
afirma que de Hesíodo, transfigurado em
princípio cósmico, é a ideia de
Incessantemente uma qualidade se competição dos gregos singulares e
cinde em si mesma e se divide nos da cidade grega, transferida dos
seus contrários: permanentemente ginásios e das palestras dos agons
esses contrários tendem de novo um artísticos, da luta dos partidos
para o outro. O vulgo, é verdade, políticos e das cidades, para o mais
julga reconhecer algo de rígido, universal, de maneira que a
acabado, constante; na realidade, engrenagem das coisas nela gira.
em cada instante, a luz e a sombra, Assim como cada grego luta, como
o doce e o amargo estão juntos e se apenas ele tivesse razão e como
ligados um ao outro como dois se um critério infinitamente seguro
lutadores, dos quais ora a um, ora a da decisão judiciária definisse em
outro cabe a supremacia. O mel é, cada instante para que lado tende a
segundo Heráclito, vitória, assim também lutam entre
simultaneamente amargo e doce, e si as qualidades, segundo regras e
o próprio mundo é um jarro cheio leis invioláveis, imanentes ao
de mistura que tem de agitar-se combate (NIETZSCHE, 2002, p.
constantemente. Todo o devir nasce 42-43)
do conflito dos contrários; as
qualidades definidas que nos Desse modo, torna-se absolutamente
parecem duradouras só exprimem a imprescindível a presença do nome de
supremacia momentânea de um dos Heráclito entre os grandes agonistas
lutadores, mas não põem termo à gregos, pois o Efésio teria realizado a
guerra: a luta persiste pela síntese entre o código de bravura
eternidade afora. Tudo acontece de homérica, que instiga o herói a valorizar
acordo com essa luta, e é esta luta a vida de luta, de conflito, e a “Boa
que manifesta a justiça eterna
Éris” de Hesíodo, que estende esse
(NIETZSCHE, 2002, p. 42).
sentimento de rivalidade aos homens
Podemos constatar que Nietzsche, como um todo, possibilitando assim a
através dessa citação, direciona a sua constante superação dos limites pessoais
atenção para o caráter cósmico da de cada um, o aperfeiçoamento das
disputa, pois esta, em Heráclito, não capacidades e o profundo respeito pela
mais se restringe ao plano das ações dignidade do trabalho como modo de se
cotidianas, contingentes e particulares, enaltecer a rigorosa justiça dos deuses
mas expressa a essência do universo, a olímpicos. Nietzsche, dessa maneira, ao
força primordial que proporciona a interpretar a visão trágica que Heráclito
renovação da vida de todos os seres, desvelou de modo surpreendente,
através do perpétuo jogo de criação e enfatiza o enfoque que o filósofo de
destruição. Se os homens se Éfeso concede para a relação imanente
caracterizam por medirem suas forças que existiria entre o microcosmo,
através de jogos e competições para que relacionado com as diversas
possa prevalecer o melhor, modalidades do âmbito da disputa entre
simplesmente estariam, talvez de modo os homens, e o macrocosmo, o eterno
inconsciente, representando o princípio conflito universal entre os elementos
erístico do universo. Tal intuição contrários, disposição agônica que é
primordial leva Nietzsche a afirmar que propulsora do movimento de todas as
Só um grego era capaz de fazer coisas do mundo, sendo assim um
dessa representação o fundamento evento inexorável da própria natureza.

27
Considerações finais discurso tão vilipendiado por uma gama
de detratores incapazes de compreender
Conforme visto ao longo desta
o sentido ontológico presente no
exposição, a valorização da disputa,
espírito da disputa, deveria ser
entre os gregos antigos, era uma
interpretada de forma mais positiva pela
disposição constante, de modo que
nossa sociedade atual, sequiosa de tudo
certamente tais homens souberam
conquistar mediante a sua disposição
utilizar de forma produtiva o legado que
concorrencial desprovida de genuínos
a genialidade de Homero, Hesíodo e
critérios existenciais mais saudáveis, em
Heráclito proporcionaram em prol do
detrimento assim da legitimação dos
desenvolvimento e da continuidade
valores intrínsecos do próximo.
saudável da cultura helênica. Aliás, as
“Olimpíadas”, uma das mais renomadas A competitividade exige a cooperação
criações humanas, certamente decorrem entre os indivíduos, em todos os ramos
do projeto de se superar as da atividade humana. Inclusive, a
animosidades e discórdias maléficas, proposta dos idealizadores dos Jogos
oriundas das guerras mortais, em Olímpicos da era moderna se pauta
atividades esportivas, nas quais, por também no ato de se glorificar por meio
meio dos esforços e superações das das práticas esportivas a interação entre
forças corporais, as disposições os povos e a exaltação dos valores
belicosas dos homens se transformavam benéficos da paz e da harmonia, e assim
em uma nobre competição, na qual o promover uma nova era de justiça e de
aniquilamento e o ódio eram mútua compreensão internacional, ainda
metamorfoseados em sentimentos que de forma simbólica. Nessas
produtivos. condições, as disputas entre os
indivíduos devem permanecer
Os Jogos Olímpicos, é importante
circunscritas no plano dos ginásios e
ressaltar, foram instituídos pelos gregos
dos estádios esportivos, assim como em
antigos como um modo de se celebrar a
quaisquer outros locais e instituições em
paz entre os povos beligerantes e a
que se estabeleçam relações agônicas
afirmação da beleza e da vida humana,
que proporcione a superação, o
ao mesmo tempo em que se garantia a
aprimoramento das qualidades e das
continuidade da taxa de competitividade
capacidades pessoais, permitindo assim
necessária para a manutenção saudável
a criação de obras valorosas que
da existência; afinal, uma vida
beneficiem diretamente a organização
desprovida de competição se torna
social. Poderíamos então pronunciar a
tristonha, declinante, frágil e
palavra de ordem: “Jogue, não faça
improdutiva, imergindo a coletividade
guerra”.
social no vazio da existência. Seria
perfeitamente plausível detectarmos em É importante ressaltar ainda que a
tal situação a possibilidade de superação disposição afirmativa da competição e
da violência da Má Éris em prol da da virilidade do herói influenciou um
legitimação prática da saudável Boa dos maiores nomes do pensamento
Éris, fazendo da emulação uma grego: Platão. Honrando o tradicional
atividade lúdica prazerosa: “Quem diz espírito grego, o grande filósofo propõe,
competição, diz jogo” (HUIZINGA, na sua República, a formação de um
2007, p. 88). A célebre máxima estado ideal, pautado na afirmação da
comumente atribuída ao Barão Pierre de justiça e do desenvolvimento máximo
Coubertin, “o importante é competir”, da excelência dos homens, de modo que

28
cada um proporcionasse para a cidade o imprescindível a participação plena,
melhor de si mesmo. Para tanto, dentre ativa do indivíduo, no cotidiano da vida
as diversas propostas elaboradas por política de sua sociedade.
Platão, reside em especial o problema Dando continuidade aos temas
da educação dos jovens, a qual, de desenvolvidos, podemos pensar, no
acordo com suas considerações âmbito da própria História da Filosofia,
filosóficas, deveria se pautar no na questão da dialética como princípio
aprimoramento das faculdades racionais erístico da formação do conhecimento,
e corporais, em prol da manutenção da de modo que, ao se confrontar as
saúde do indivíduo, tanto a nível físico hipóteses e juízos acerca de uma
como mental, tornando assim o jovem determinada questão, organizada pelo
um futuro homem capacitado a realizar filósofo-debatedor, se proporcionava o
o bem superior na sua pólis. Nessas desenvolvimento de novos conceitos e
circunstâncias, os jovens deveriam ser ideias. Desse modo, Sócrates elaborava
educados através da música, para a o seu processo intelectual de marcante
disciplina da alma, e da ginástica, para a tendência pedagógica, conforme se
disciplina do corpo (PLATÃO, A evidencia em diálogos platônicos como
República, III, 412b). No tocante a esta Mênon ou Teeteto. Por meio dessa
última, uma das principais atividades interação de opiniões muitas vezes mal
físicas propostas por Platão consistia no formuladas, o mestre possibilitava,
pugilato, luta entre dois oponentes que através da purificação destes juízos pré-
respeitava as diferenças de peso e altura concebidos, das opiniões, o
dos lutadores, muito similar ao boxe desenvolvimento efetivo de
atual. conhecimentos adequados para se
Tal atividade agonística certamente alcançar a verdade. Contudo, tal meta
possibilitava o fortalecimento do corpo somente se atingia quando ocorria o
do jovem educando, bem como o debate agônico entre os homens. Assim,
despertar do sentimento de competição, o autêntico filósofo é aquele que
uma vez que seria somente através do valoriza o “duelo” no plano das
esforço, da excelência, que o indivíduo palavras, dos conceitos, da retórica
conseguiria superar a mediocridade. Por criativa.
conseguinte, de forma alguma Platão Muitos séculos posteriormente,
pretendia desenvolver uma sociedade Nietzsche, conforme exposto ao longo
constituída de homens comuns, algo deste artigo, influenciado por essa
absolutamente inconcebível na sua valorosa tradição agonística, insere tal
visão de mundo, mas sim, de homens disposição de ânimo em diversos
virtuosos, nobres, valorosos. E, para momentos da criação das suas obras,
tanto, era extremamente necessário que fazendo de sua filosofia uma atividade
estes fossem educados na arte de agônica. Afinal, a agonística permite ao
superação de suas próprias carências e que se propõe a praticá-la, não o
limitações individuais. Os gregos eram aniquilamento pessoal, o declínio das
preparados não para que fossem adeptos forças instintivas, mas a obtenção da
de um gênero de vida recluso, tal como saúde e a consolidação do bem-estar
ocorre com os sábios eremitas, mas para afetivo e corporal. A agonística,
que pudessem efetivar a promoção do portanto, é a grande possibilidade de
belo e do virtuoso no âmbito da cidade- superação dos limites, do
estado, de modo que, para a aperfeiçoamento das capacidades e
concretização desse objetivo, tornava-se

29
habilidades pessoais e, Trad. de Rogério de Almeida e Alexandre Dias.
consequentemente, um recurso brilhante São Paulo: Zouk, 2003.
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