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A arte e a filosofia:

aproximações com a estética

O SVALDO D ALBERIO & M ÁRIO J OSÉ F ILHO


:: Universidade E s ta u d a l Paulista - UNESP- c a m pu s de Fr a n c a -
SP,Brasil

Summary: In this text we intend to present some discussions about


the basic questions that intermix the art, the esthetics, the beautiful,
the ugly, the pretty, the artistic work and the relationship among art
and the Human’s essence representation and commerce, at last. So,
the practice of the beautiful wanting to manifest through the human
being is the mechanism of art, because it doesn’t reveal itself by itself.
The art should not be built just for being traded, but to reveal the
essence of Human’s perception in the manifested revelation of the
beautiful. The beauty is one of the cultural aspects of the capacity of
making art and artistic creation. The esthetics, for being one of
several ways of reality’s comprehension by philosophy, tries to
explain or unless to further the understanding of this relationship
among Human’s and inhuman’s manifests, both inserted into art’s
reality. We’d rather denominate some art’s aspects by culture because
that drags us to a dimension of concrete art’s exist. The art must be
the deepest Human’s manifest: things that are felt and seen in his
interior. We understand, thus, the art’s dimensions in what
approaches art’s and esthetics’ conception, making reference to the
beautiful and to the beauty, to the ugly and to the pretty in art as
cultural manifestations, approaching the art as a Human’s work
which reveals, at times, the Human’s more inner or attending to
commerce’s exigencies that we suggest to defend the idea that art is
fundamental.

Neste texto apresentamos num primeiro momento o


que entendemos por arte e por estética. Em seguida
falamos da influência que esse aspecto de manifestação
humana tem para a cultura enquanto expressividade
de valores. Discutimos sobre as questões que
permeiam o belo. E, por fim, abordamos a diferença
entre a arte pela arte e a arte produzida sob
encomenda – para comércio. A tentativa é a de
responder à pergunta básica que nos incomoda: o que
significa a arte enquanto representação humana?
No conhecido dicionário do Aurélio encontramos no
verbete “arte” a informação de que ela é a...
... capacidade que tem o homem de por em prática uma
idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria.
2. A utilização de tal capacidade com vista a um
resultado, que se pode alcançar por meios diferentes.
3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de
estados de espírito, em geral de caráter estético, mas
carregados de vivência intima e profunda, podendo
suscitar em outrem o desejo de os prolongar ou
renovar. 4. A capacidade criadora do artista de
expressar ou transmitir tais sensações ou
sentimentos...(FERREIRA, 1980, p.177).
Para colocar em prática uma idéia estamos entendendo
a capacidade que o homem possui de viabilizar, através
do manuseio de matérias, transformando-os para
imprimir nelas a sua idéia. Ele pode modificar a forma
da matéria e imprimindo-lhe uma outra forma,
revelando-se na nova forma. Assim, ele a transforma
para manifestar a sua idéia através da matéria. Isso
significa que está tendo um domínio sobre a matéria.
Entretanto, não podemos deixar também de entender
que ele pode ter um domínio parcial dessa mesma
matéria. Parcial porque utilizando a forma pela qual a
matéria se manifesta ele pode não modificá-la
substancialmente, mas apenas dar outra significação
que não a primeira. Ela, a matéria, passa a ser
significante da idéia do artista. Assim, a matéria
utilizada pelo artista é fundamental, tanto para
expressar suas idéias sem transformá-la quanto a
transformando para dar outro contorno a ela,
imprimindo a sua idéia em forma de peça artística.
Nesse exercício de transformação ou não da matéria, o
artista manifesta os seus sentimentos, seus desejos,
suas emoções, suas percepções de mundo, sua cultura,
suas angústias, seus devaneios, suas certezas, suas
dúvidas, sua espiritualidade, enfim sua potencialidade
humana. Ao fazer isso ele entra numa dimensão que
ultrapassa o comum dos homens. O artista é
necessariamente um ser humano muito especial,
porque tem a capacidade de perceber sons, cores,
formas, contornos, luzes e sombras, tamanhos,
perspectivas e graças a sua ousadia dá forma a todas
essas percepções. É isso que o diferencia dos outros
homens, considerados comuns. Portanto, a arte é uma
maneira de manifestação da essência humana,
materializada em peça artística.
O homem é um ser que tem a capacidade de perceber o
fenômeno e dentro do fenômeno, a essência. E mais
que isso, ele pode manifestar a sua percepção de
variadas formas. Através da escrita, ele constrói idéias
que são manifestadas mediante a linguagem simbólico-
gráfica; na fala ele expressa suas idéias de maneira
oral; na poesia escrita ou falada ele manifesta seus
sentimentos mais íntimos; nas artes plásticas revela
sua sensibilidade em observar os fluídos da beleza de
que está impregnado; na música ele junta várias
manifestações artísticas e revela os sentimentos, os
desejos, as percepções, as sensações, as idéias, enfim, o
seu ser mais profundo em consonância com a realidade
vivida ou imaginada. Diante disso, como entender a
arte enquanto manifestação própria do humano?
Ao entendermos a arte como manifestação humana,
temos que fazer uma reflexão sobre o conceito de arte
e depois argumentar sobre os vários modos pelos quais
ela tem de se fenomenomenizar. Afinal, é um
fenômeno se manifestando e aparecendo, tomando
forma. E para isso depende do envolvimento humano.
Esse exercício do belo querer se manifestar por
intermédio do humano é mecanismo próprio da arte,
isso porque ela não se revela sozinha. Carece da mão
humana para dar-lhe forma, apresentar seus
contornos. Assim, o trabalho do homem de buscar,
melhor dizendo, criar instrumentos para revelar a
essência do belo é um procedimento que poucos
conseguem executá-lo. Exatamente por isso, é
necessário ter ousadia, perspicácia, coragem, porque
por alguns não conseguirem fazer esse exercício
conseqüentemente também nem todos os homens vão
entender o porque desse trabalho.
A arte, em alguns casos extremos, geralmente é
entendida como algo inútil. Diante disso aparece a
dificuldade de algumas pessoas para compreender os
meandros do fazer artístico como algo propriamente
humano, como produto humano. A preocupação
básica, nesse sentido, está relacionada com os
trabalhos que produzem mercadorias valoradas
economicamente. As questões ideológicas do
capitalismo são fundamentalmente as da utilidade e
que não permitem entender que uma manifestação
artística seja algo inerente ao humano, não tem valor
econômico. A arte não deveria ser construída apenas
para ser comercializada, mas para revelar a essência do
percepcionar humano na revelação manifesta do belo.
Mas, infelizmente, vivemos em uma sociedade cujo
sistema organizacional está pautado nas questões de
valorar a produção material e não a espiritual, ou seja,
só é valorizado aquilo que tem possibilidade de ser
compreendido dentro do sistema econômico. Diante
disso pode-se dizer que “... o valor de uma obra de arte
no mercado nem sempre é dado pela qualidade
estética” (BARROCO, 2005, p.32) mas, pelo valor de
compra e de venda. O desafio do artista está
justamente nessa manifestação, apesar de ter essa
consciência e essa percepção ele deve ultrapassar o
limite e mesmo assim, fazer manifestar-se no belo,
pelo belo e com o belo.
Sobre a estética também encontramos no dicionário do
Aurélio, alguns conceitos que merecem uma discussão.
Diz-nos ele que é o
... estudo das condições e dos efeitos da criação
artística. 2. Filos. Tradicionalmente, estudo racional
do belo, quanto à possibilidade de sua conceituação ou
quanto à diversidade de emoções e sentimentos que ele
suscita no homem. 3. Caráter estético. Beleza.
(FERREIRA, 1980. p. 733).
A estética por ser uma das muitas vertentes de
compreensão da realidade pela filosofia, busca explicar
ou pelo menos promover o entendimento dessa relação
entre o manifestar do humano e do inumano, ambos
inseridos na realidade da arte. O humano é aquele que
está posto num determinado tempo e num
determinado espaço, portanto ocupando um lócus
existencial. O inumano pode ser entendido como algo
não ocupante de um lócus existencial. Em outras
palavras, é algo abstrato, ininteligível, não perceptível
pelos sentidos, mas apenas observado pela razão.
Assim, o homem tenta entender essa dimensão e tudo
aquilo que está contido nesse percepcionar intelectual.
No entendimento dessa realidade não-material
estamos falando de estética. Ela ultrapassa o fenômeno
manifesto e vai numa direção de representação.
Afinal, o que é mesmo o belo? Estamos entendendo o
belo como algo quase inatingível pelo homem. É algo
que poderíamos dizer, perfeito. Não conseguimos
entender completamente os contornos existenciais do
belo, mas apenas algumas frestas de suas
manifestações. Isso significa que ele tem dimensões
escorregadias quando pensamos que estamos
chegando perto de entendê-lo, ele se afasta e se
esconde nas manifestações artísticas. Assim, o belo
não é evidente, mas presente-ausente. Se fosse possível
a nós humanos juntar todas as manifestações artísticas
num único espaço físico ou mental, teríamos aí a
presença real do belo. Como isso é praticamente
impossível, temos raios luminosos pelos quais o belo
se deixa manifestar em cada obra de arte separada.
Quando estamos contemplando uma peça artística,
estamos tendo contato com uma das formas de
manifestação do belo. Ele se revela em partes através
da beleza, que é a forma mais evidente de se
apresentar. Pelo fato de sermos seres culturais e
denominarmos de bonito ou de feio, determinada
manifestação da e na realidade, revelamos a
complexidade da beleza e dentro dela o belo.
Preferimos denominá-lo culturalmente porque isso nos
coloca numa dimensão do existir concreto da arte.
Portanto, dada a dificuldade humana de compreender
a complexidade do belo optamos por usar os recursos
que temos disponíveis e dizermos que uma peça
artística é bonita ou feia, porque isso nos coloca junto
da realidade vivencial que é própria da estabilidade
humana. (precisamos estar seguros existencialmente).
Assim, nos confortamos e vivemos numa dimensão
menos complexa. A artisticidade da arte se completa
em nós quando atribuímos valores de bom, bonito,
feio, ruim. Assim, ela se torna acessível a nós. É
importante sabermos que “...o objeto artístico, cria
valores e interfere no gosto estético da humanidade,
propiciando a consciência da genericidade humana.”
(BARROCO, 2005, p.30/1). Em outros termos, o
homem ao ver uma peça artística pode se identificar
com a idéia manifesta na forma, na cor, na silhueta, na
beleza expressa através dos seus contornos criativos,
ou pelo contrário rechaçar por não se identificar com
ela.
Frente ao que foi abordado acima, nos colocamos
também numa situação de entender o porque da arte,
como ela pode ser e é freqüentemente utilizada.
Entendemos que em determinados casos ela manifesta
o mais profundo sentimento do homem. Nesse aspecto
o homem busca na sua existencialidade humana aquilo
que está escondido às vezes dele mesmo e o revela,
dando uma aparência manifesta na arte. Em outros
casos, a arte é apenas a manifestação mais superficial
do homem: aquilo que ele vê externamente, tanto de si
quanto do mundo. De qualquer maneira ele desvela o
ser da beleza. Assim sendo, a arte assume aquilo que
chamamos de bonito ou de feio. Mas
independentemente de atribuirmos valores, ela por si
só já é arte, pela própria condição de ser arte.
Entretanto, há outro sentido que não podemos nos
omitir e deixar de mencionar. Também a arte pode ser
construída apenas para atender as necessidades
estéticas (arranjos ornamentais) de consumidores
desse tipo de trabalho. É, por assim dizer, as obras
produzidas por encomenda. Elas não perdem o seu
valor artístico, o que muda em relação às apresentadas
no parágrafo anterior é que enquanto aquelas são
expressões do intimo do homem, estas são
manifestações do interesse comercial, às vezes não do
próprio artista, mas do comprador. O que há de
comum entre elas é que a peça de arte assume uma
existência própria e que revela o humano.
Entendendo, portanto, as dimensões da arte no que se
refere ao conceito de arte, de estética, referenciando-se
ao belo e à beleza, ao feio e ao bonito na arte enquanto
manifestações culturais, abordando a arte enquanto
um trabalho humano que revela, às vezes, o mais
íntimo do humano ou atendendo às exigências
comerciais é que nos propomos a defender a idéia de
que a arte é fundamental. Principalmente naquilo que
se refere à condição humana de expressão dos seus
sentimentos e de fazer a sua representação de mundo.
Assim, finalizamos este texto dizendo que arte pode
ser a expressão mais profunda do ser humano e que
isso possibilita a interação entre almas, corpos,
existências, projetos, utopias...

B IBLIOGRAFIA CONSULTADA

BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética e Serviço Social:


fundamentos ontológicos. 3.ed. São Paulo Cortez,
2005.
COUTINHO, Evaldo. A Artisticidade do Ser. São
Paulo: Perspectiva, 1987 (Col. Filosofia – Estudos).
COLI, Jorge. O Que é Arte. 6.ed. São Paulo:
Brasiliense, 1985. ( Col. Primeiros Passos, n.46).
SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e
Representação. Trad. M.F. Sá Correira. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2001.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário
da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1980.
DALBERIO, Osvaldo. O Homem e a Arte. Jornal de
Uberaba. Seção Opinião, 07/08/1988
DUARTE JUNIOR, João Francisco. O Que é Realidade.
6.ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. ( Col. Primeiros
Passos, n.115).