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UniCEUB – Centro Universitário de Brasília

Curso Introdutório de Ciência Política

Prof. Cleber Fernandes Pessoa


ÍNDICE

1- Política e Ciência Política................................................................................................................ 4

2- Ciência Política e Direito................................................................................................................. 23

3- O Estado ........................................................................................................................................... 31
3.1 - Estado: definição do termo-conceito ................................................................................. 31
3.2 - Estado: elementos constitutivos ........................................................................................ 35
3.3 - Do Estado antigo ao Estado moderno ............................................................................... 36

4- As tipologias de governo ................................................................................................................ 40


4.1 - Aristóteles ......................................................................................................................... 43
4.1.1 - As tipologias de governo segundo Aristóteles e Platão ..... . . .............................. 46
4.2 - Maquiavel ......................................................................................................................... 51
4.2.1 - A obra de Maquiavel: militância política e ciência política ................................. 52
4.3 - Thomas Hobbes e John Locke: jusnaturalismo e juspositivismo ...................................... 68
4.3.1 - Thomas Hobbes.................................................................................................... 69
4.3.2 - Conclusão ............................................................................................................. 81
4.4 – Etapas do surgimento, desenvolvimento e consolidação histórica e teórica do Estado
liberal .................................................................................................................................................... 82
4.4.1- John Locke .. ......................................................................................................... 84
4.4.2 - A trinomia jusnaturalista de Locke: estado de natureza, contrato social e
Estado ............................................................................................................................................. 85
4.4.3 - O moderno significado de liberalismo .................................................................. 89

4.5 - Montesquieu e a Separação dos Poderes: mito e realidade ........................................ 94


4.5.1 - Montesquieu e a Separação dos Poderes............................................................... 95
3.5.2 - Separação dos Poderes: ascensão e decadência de um mito ................................. 98
3.5.3 - Conclusão .............................................................................................................. 100
4.6 - Karl Marx ........................................................................................................................ 102
4.6.1 - O materialismo dialético/dialética da história....................................................... 103
4.6.2 - A obra de Karl Marx como instrumento de análise a serviço da ideologia .......... 106
4.6.3 - Conclusão: comunismo teórico e comunismo real................................................ 111
5- Democracia....................................................................................................................................... 115
5.1 - O uso indicriminado do vocábulo democracia ......................................................... ........ 116
5.2 - Afinal, o que é a democracia social................................................................ ................... 117
5.3 - A Democracia dos antigos................................................................ ................................. 122
5.4 - A democracia dos modernos: 1a fase (Poliarquia = democracia formal/política) ............ 126
5.5 - A república: divergência e convergência conceitual com a democracia .......................... 126
5.6 - Do liberalismo individual à 1a fase da democracia: democracia política (Poliarquia) ...... 128
5.7 - Evolução da democracia moderna: da 1a fase para a 2a fase ............................................ 129
5.8- A crítica dos socialistas à democracia liberal e o aparecimento de uma 3a via: ascensão
da social-democracia/Welfare state ou Estado do bem-estar..................................................... 132
5.9 - Socialismo e democracia: a teoria marxista da democracia ............................................. 136
5.9(a) - Democracia e governabilidade: influência de modelos eleitorais nas relações
executivo/legislativo .................................................................................................................. 139
5.9(b) - Avaliando a democracia: por que democracia? ........................................................... 141

6- O neoliberalismo: reação à crise fiscal do Estado social............................................................. 150

7- Sistemas de governo: presidencialismo, parlamentarismo e semipresidencialismo................. 154


7.1 - O Presidencialismo .......................................................................................................... 157
7.1.1 - Poderes constitucionais do presidente no Brasil e nos EUA: quem pode o quê,
quando e como ................................................................................................................................ 160
7.1.2 - Presidencialismo norte-americano: o presidencialismo que funciona bem?......... 165
7.1.3 - Brasil: presidencialismo de coalizão ..................................................................... 168
7.2 - O Parlamentarismo ......................................................................................................... 170
7.2.1 - Desenvolvimento do parlamentarismo: do parlamentarismo dualista ao
parlamentarismo monista................................................................................................................ 170
7.2.2 - Premissas do parlamentarismo .............................................................................. 172
7.2.3 - Dinâmica do parlamentarismo: qual o mais estável e por quê.............................. 175
7.2.3(a) - O parlamentarismo britânico (sistema de gabinete) ......................................... 175
7.2.3(b) - O parlamentarismo sob controle partidário.................................................... 176
7.2.3(c) - O parlamentarismo Assembleísta ................................................................... 178
7.2.4 - Conclusão: presidencialismo, parlamentarismo e governabilidade................................ 180
7.3 - O semipresidencialismo................................................................................................... 182

2
7.3.1 - Uma terceira via? .................................................................................................182
7.3.2 - A teoria tradicional do semipresidencialismo: por que o sistema recebe a
denominação? ....................................................................................................................................... 183
7.3.3 - O dinamismo do sistema semipresidencialista: oscilando entre presidencialismo e
parlamentarismo?.................................................................................................................................. 185
7.3.4 - Semipresidencialismo e governabilidade ....................................................................... 186

8- Sistemas eleitorais e sistemas partidários .................................................................................... 187


8.1 - Sistemas eleitorais majoritários: eleições legislativas e executivas.............................. 189
8.1.1 - O dilema da escolha do sistema eleitoral .............................................................. 193
8.2 - Eleições majoritárias para prefeitos, governadores e presidente da república ......... 197
8.3 - Sistemas proporcionais.................................................................................................... 201
8.3.1 - Coligação para eleições de representantes no sistema proporcional..................... 205
8.3.2 - A cláusula de exclusão e o quociente eleitoral...................................................... 206
8.4 - Perspectivas e considerações sobre a reforma política: o sistema eleitoral e
partidário no Brasil .......................................................................................................................... 208

9- Partidos Políticos ............................................................................................................................ 215


9.1 - De facção a partido: o surgimento dos partidos modernos................................................ 218
9.2 - A tipologia dos partidos..................................................................................................... 221
9.3 - A função dos partidos ........................................................................................................ 225

10- Legalidade e Legitimidade do Estado e do poder político ......................................................... 229


10.1 - Legalidade ...................................................................................................................... 229
10.1.1 - Do princípio da legalidade: fundamentos do Estado de Direito/liberal........................ 229
10.1.2 - As cartas constitucionais: constituição formal e constituição material ........................ 231
10.2 - Legitimidade.................................................................................................... .............. 237
10.2.1 - Legitimidade e oposição ............................................................................................... 242
10.2.2 - O encontro entre legalidade e legitimidade.................................................................. 244
10.2.3 - Max Weber: as três formas de autoridade legítima...................................................... 245

11 - Referências bibliográficas........................................................................................................... 248

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POLÍTICA E CIÊNCIA POLÍTICA

“As instituições e não o homem constituem


o tema de estudo próprio da política”
John Plamenatz.

1.1 - A política
Em sentido etimológico a palavra política tem sua origem no vocábulo polis, um
substantivo do grego clássico que na língua portuguesa é literalmente traduzido por cidade, mas
que na Grécia Antiga também acolhia como significado o conceito moderno de Estado, posto
que, via de regra, o que se entende hoje como Estado, naquele período se reduzia às dimensões
de uma cidade, unicamente. De modo que, em sua ligação com a palavra polis, o termo política
refere-se a tudo o que estiver associado à cidade (polis), ao que for positivo, para o bem da
cidade, como dizia, por exemplo, Aristóteles.
Contudo, a necessidade de estrita observância a regras exigidas pelo assunto o dirige a uma
definição mais metódica, de conteúdo epistemológico, adquirindo o significado de política uma
conotação prática, como resultado de investigações filosóficas e também científicas e
sociológicas. Assim, no plano da mais elevada abstração, na “quintessência” do racionalismo,
“política é política e nada mais, é política pura (machtpolitik)”.1 É nesse aspecto que Hegel
classificaria política como potência pura e simples, sob dimensão metafísica; sua intelecção
conceitual de política foi desenvolvida por meio da argumentação dialética e idealista, cuja
“razão absoluta” - síntese entre razão objetiva e razão subjetiva – manifesta-se pela
compreensão do mundo inteligível e essencial (ideia) como fenômeno, e esta realidade
(fenômeno) se traduz na política (matéria/coisa).
É oportuno advertir que política pura ou potência pura, em termos assim tão absolutos,
essencialmente metafísicos, configura uma abstração absoluta da ideia de poder, realizável
perfeitamente apenas no plano do intelecto; é uma tipologia de manifestação de um determinado
modelo idealizado de universo, pois no mundo prático a política pura geralmente se converte em
realismo político (realpolitik), e este, apesar de exibir toda uma fórmula de ação com base na
objetividade, na racionalidade lógica, na insensibilidade e até no cinismo para alcançar os fins,
consiste, na prática, em aplicar de forma não absoluta e inflexivelmente, mas com certa
relativização, aquele poder político - a priori - implacável. De todo modo, o manual prático da

1
SARTORI, Giovanni. A teoria da democracia revisitada. São Paulo: Ed. Ática, 1994, vol. 1, p. 62.

4
realpolitik (realismo político) confirma que política é a capacidade de monopolizar o uso da
força, portanto o exercício efetivo do poder, significando que quem detém o poder, monopoliza a
possibilidade de limitar e de controlar as ações de todos os demais membros de uma comunidade.
Em linguagem simplificada, a tradução dessas especulações racionalistas pode ser descrita por
algo como a capacidade que A possui sobre B de impor-lhe comportamentos sem a contrapartida
de resistência, não importando se tratar de relações sociais, entre Estados soberanos ou não
soberanos, ou relações no âmbito interno de um Estado-nação. São extensos os registros
históricos das lutas entre facções objetivando a conquista do poder, que uma vez alcançado,
eventualmente legitimava a facção vencedora a submeter impiedosamente os vencidos, quando
não os eliminava. Resguardadas as exceções, tal lógica de ação vem sendo executada desde a
antiguidade; na modernidade ocidental ocorria em praticamente todas as cidades-Estado
mediterrâneas e nos países que se encontravam em processo de unificação; na
contemporaneidade o déjà vu foi sendo reeditado com a exibição das mais bizarras ditaduras que,
despreocupadamente, anulavam ou exterminavam seus adversários e/ou inimigos sem maiores
escrúpulos com postulados do tipo “devido processo legal”, como era regra no stalinismo, no
fascismo, no nazismo, nas ditaduras militares etc.
No campo teórico, Nicolau Maquiavel se consagrará como ícone do realismo político por
desvendar, de forma sistematizada, os segredos da arte de governar; em seu catecismo, a difusão
do aforismo “os fins justificam os meios” se converterá em mantra para os seguidores do
realismo político e, consequentemente, como advertência, lembrando que política não é ética e
nem envolve ideais, e sim força e poder recaindo indistintamente sobre todos,
independentemente de valores morais, pois ainda que a moral seja a razão do indivíduo, é a
política que é a razão do Estado.
No campo prático, as teses realistas de Maquiavel não tardariam a ser experimentadas.
Ainda assim, alguns séculos mais tarde, o estrategista militar prussiano Carl von Clausewitz, fiel
discípulo do realismo, reforçaria seus fundamentos com a obra “Da Guerra”, cujo conteúdo
encontraria no aforismo “A guerra é a continuação da política por outros meios” o seu slogan,
que, em suma, não seria muito mais que uma paráfrase do “mantra” maquiaveliano. Sob esta
visão de mundo, a partir do século XIX uma nova realidade se impõe; a humanidade testemunha
o espetáculo de novos “cavaleiros”, alguns dos quais se tornarão lendários, como o general
francês Napoleão Bonaparte e Otto von Bismarck, o arquiteto da unificação alemã. Naquela
etapa histórica, as cartilhas do realismo iriam se transformar em regras de conduta para os
governantes em geral, bastando para isso conferir a curiosa listagem dos estadistas que leram e
rabiscaram apontamentos em seus exemplares da obra O Príncipe, ainda que simulando

5
divergências táticas e éticas, pois, de fato, não conseguiam disfarçar o mal-estar com seu
conteúdo. Na verdade, como é de amplo domínio público acerca desta obra, o principal objetivo
era o de desvendar a lógica do poder, incluindo todos os vícios e a corrupção que o cercam. A
frase-lema da realpolitik (realismo político) representava, enfim, a justificativa simbólica e
racional para a aplicação de suas doutrinas e, ao mesmo tempo, uma quase-sentença mortal para
o mundo mágico e encantado do romantismo político dos politólogos utópicos.
Ocorre que, no jogo de xadrez da concertação política em âmbito internacional, desde a
queda de Napoleão e de Bismarck as peças do tabuleiro se moveram numa velocidade que os
competidores não ousariam prever. Após a explosão da primeira bomba atômica, verificou-se um
esfriamento de ânimo das partes, e cada passo de cada ator era milimetricamente estudado,
sempre com base nos atos e omissões dos demais jogadores. As potências que emergiram da 2a
Guerra portando as amedrontadoras armas atômicas, se encontrariam forçadas, durante a Guerra
Fria, a recuar e a refletir sobre a eventualidade de outra guerra-total. Mas com o colapso do
comunismo e o consequente fim da Guerra Fria, o mundo começaria a respirar aliviado - embora
desencantado e no ritmo contínuo do realismo – e a se comprometer em reordenar os termos do
aforismo de Clausewitz, que a partir de então melhor se adequaria sob um cuidadoso lema de que
a “política é a continuação da guerra por outros meios”. Ato contínuo, o dogmatismo
maquiaveliano seria objeto de correção conjuntural, encontrando em Max Weber um de seus
revisores, que apesar de adepto do realismo, marcou sua atuação pela crítica sóbria e pela
sintonia com a realidade de seu tempo. Weber, que legou ao pensamento político sua visão de
mundo adequada à nova concertação liberal e democrática, que estava cooptando corações e
mentes no Ocidente, julgava que “política pura” é um padrão de conduta tão irreal quanto a
política puramente idealista. Entendia ele que política, no sentido mais objetivo, se realizaria
dentro do Estado, devendo este ser o sujeito ativo do legítimo monopólio do exercício da
violência física sobre toda a comunidade política de um determinado território, e que tal
legitimidade só encontra fundamentação na ideia de que a violência física (o poder político)
jamais poderá ser exercida indiscriminadamente. Assim, uma conjunção de fatores explicaria a
razão de o estadista esculpido por Maquiavel, cujo ethos se resumiria à ética dos fins últimos ou
ética da convicção, sair de cena e ceder seu posto para um novo protagonista da história, o
estadista weberiano – por Weber chamado de líder ou chefe carismático - cujas regras de conduta
seriam orientadas, dali em diante, pela ética da responsabilidade.2

2
Este tema encontra-se desenvolvido no capítulo dedicado a Maquiavel.

6
As constantes referências a termos e conceitos ocidentais sugere uma pretensa supremacia
eurocêntrica que, de fato, parece ser pouco questionável. Em contrapartida, não há como ignorar
a contribuição de estrategistas da política e da guerra na antiguidade oriental, tais como Sun Tzu
na China (544 a 496 a.C.) e Kautilya na Índia (370 a 283 a.C.). Contudo, com a evolução da
civilização greco-romana, a filosofia política e do direito adquiriram um refinamento ímpar,
sendo responsáveis pelo advento de uma sofisticada teoria de Estado. Dentre tantos pensadores
importantes da Era Clássica, na filosofia política sobressai Aristóteles (384 a 322 a.C.), cuja
teoria é considerada precursora dos regimes democráticos e liberais prevalecentes na
contemporaneidade. Para este pensador grego, o significado de política está positivamente
relacionado a polis (cidade), no sentido de que tudo o que for bom para a cidade (polis), tudo o
que for para o bem da comunidade pode ser traduzido como política. Desta acepção deriva a
universalização do termo aristotelismo, que define a natureza humana como sociável e, portanto,
política por excelência, elevando o homem à condição de zoom politikós, um animal
naturalmente político e social. De acordo com esta argumentação, a sociedade seria um construto
anterior ao surgimento do próprio indivíduo, derivando a explicação filosófica do porquê de estar
o homem, em todos os lugares, sempre em busca da companhia dos outros homens para viver em
comunidade. E não é sem razão que provavelmente a política e os políticos não existiriam se o
homem não necessitasse dos outros homens para sobreviver ou para poder usufruir seu tempo de
vida de maneira mais cômoda. Se todos os homens fossem deuses, bastando-se a si mesmos, a
luta cotidiana que todos travam pela alocação de recursos para satisfazer seus interesses
particulares ou comunitários perderia a razão de ser, bem como não teria sentido a luta pela
supremacia do poder político em nome da integração da comunidade política e da resolução de
conflitos eventuais.
Distante da pretensão de esgotar o assunto, um breve exame do acervo conceitual de
Thomas Hobbes pode ser selecionado para reforçar a dedução aristotélica, ainda mais por se
tratar de um pensador cujas convicções acerca do homem, da sociedade e do modo de exercer o
poder, além de paradigmáticas, são abertamente antagônicas às teses de Aristóteles. No entanto,
pode-se comprovar sem maiores esforços, uma curiosa convergência de pensamento que
conjunturalmente aproxima Aristóteles de Hobbes – um moralista e um realista, respectivamente
–, os quais, apesar das visíveis diferenças, certamente concordariam que a política é o fator
condicionante para a sobrevivência em comunidade. A despeito de suas concepções francamente
antitéticas acerca da natureza humana, da sociedade, do Estado e, enfim, do método de exercício
do poder político, ambos compreendiam que as aspirações humanas só poderiam ser

7
concretizadas dentro da realidade estatal, isto é, com todos os membros de uma mesma
comunidade pertencendo à uma específica organização política.
Ressaltando, isto é o que Aristóteles concebe como política: a capacidade dos homens de
racionalizar a convivência em comunidade, ou seja, da obtenção do bem-comum, implicando na
possibilidade de fruição de uma boa vida, o viver bem, prerrogativas que abrangiam o somatório
de todos os membros da polis. Com referência a Thomas Hobbes, é pacificamente conhecido seu
negativo juízo de valor acerca da natureza humana, valoração que se situa em espectro
diametralmente oposto ao que se posiciona Aristóteles. Para Hobbes, o homem não apenas é a-
social como também antipolítico. Contudo, reconhecia que o homem, apesar de ser o lobo do
homem em seu estado natural – portanto, na ausência do aparato estatal -, estaria habilitado a
conviver comunitariamente, em paz e em harmonia com seus semelhantes, desde que sob o
monopólio coercitivo do Estado, potência única e capaz de anular circunstancialmente a índole
do “lobo-homem” e constrangê-lo a se comportar como um animal sociável.
Em síntese, sob a ótica aristotélica, a política se relaciona a tudo o que for positivo para a
comunidade, a tudo o que for em prol da polis, civil enfim. E sob a perspectiva hobbesiana, em
que pese sua defesa de métodos distintos de ação política, evidentemente mais ásperos,
prevalecendo mais o poder de fato do que o poder de direito, mais a força do que o consenso, os
fins a serem alcançados, contudo, são basicamente os mesmos, ou seja, tanto quanto Aristóteles,
Hobbes também detecta na política um instrumento cuja finalidade é idêntica à do eminente
pensador grego: o bem-comum. Esta convergência de fins últimos da política é quase uma
unanimidade entre os teóricos do Estado, independentemente do modus operandi de executar o
poder que irão propor e defender – se movidos por convicções moralistas, realistas ou puramente
por convicções ideológicas.
Todavia, o aparente consenso, acomodado pela onipresença e generalidade do termo “bem-
comum”, contribui para despertar o interesse acerca de seus reais significados, que na verdade
são imprecisos, por se tratar de um conceito absoluto no plano racionalista, mas no plano
existencial, de tão relativo, diz tudo e pouco explica ao mesmo tempo. Consolidou-se como uma
esfinge, cujo enigma vem se perpetuando dos primórdios da teoria política até a atualidade, sem
que seja definitivamente decifrado. Sua explicação de política em seu aspecto teleológico, ou
seja, de qual seria a conexão existente entre os meios de ação (poder político) e a obtenção dos
fins desejados, ainda não foram delimitados, relativamente aos meios, em função dos
intermináveis antagonismos ideológicos. Quanto aos fins, a retórica verborrágica dos políticos é
unânime em apontar como alvo o bem-comum no seu eterno sentido genérico, delegando para a
ciência política o desafio de especificá-las no tempo e no espaço. O problema, genérico, carece

8
de ser diluído extensivamente em questões específicas, devendo se apresentar sob indagações
mais objetivas, por exemplo: Como deve ser praticada a política? Como ela se relaciona com o
poder? Quais são os agentes legitimados a praticá-la? E quais os seus fins?
Um primeiro indício que ecoa deste labirinto teórico, revela que o manual de operação da
política ainda tem as suas respostas distantes da unanimidade, a despeito da contribuição de
tantos sábios; o quebra-cabeças perdura, segundo os estudiosos, porque de tempos em tempos o
dinamismo das civilizações opera gradativos up grades nos valores relacionados aos métodos de
ação política, acarretando uma darwinista revisão de paradigmas do que vem a ser a política em
seu significado genérico, incluso na questão quem seria o seu agente-protótipo (o modelo de
político), executando, enfim, uma seleção natural da “espécie”.
Sem desconhecer que poder, política e poder político são comumente descritos como
conceitos associados, sinalizando exprimir valores comuns, é prudente ressaltar que todo estudo
que envolva a análise desses conceitos deve demonstrar suas consequências, qual seja, os
resultados práticos do exercício do poder político. Simultaneamente à tarefa de identificar,
classificar e definir sujeitos e objetos da política, sobrevive o debate, estéril para alguns,
produtivo e didático para outros, referente à esfera de alcance da política, ou seja, a partir de que
ponto um ato de poder já pode ser considerado um ato de poder político? Lembrando que poder é
a faculdade que alguém tem para coagir o outro em fazer ou deixar de fazer algo em seu
benefício, do contrário resultando em sanções, questiona-se acerca da possibilidade de existir
política no âmbito das relações sociais; se, em havendo poder entre dois agentes não-estatais,
podendo ser eles dois indivíduos ou dois grupos, estando, portanto, ausente o elemento Estado,
poderá existir, naquela relação, poder político.
Na percepção analítica dos puristas, somente existirá política quando na presença do
Estado; quando o exercício do poder for operado por agentes que monopolizam a autoridade de
governo, sob suposta existência de soberania do ente estatal, portanto. Desta delimitação
exclusivista do foco de análise, deriva a noção de que somente será político o poder que for
exercido a partir da supremacia estatal, isto é, no vértice da pirâmide sociológica, que
compreende o indivíduo, a sociedade e o Estado, prevalecerá a decisão deste último,
condicionando aos demais inescapável conduta de subordinação. Por exemplo, este poder
decisional pode ser constatado na esfera da administração pública (poder executivo) pela
monopolização discricionária da repartição dos bens públicos aos seus administrados; na esfera
judiciária, pelo poder de proferir sentenças punitivas (jus puniendi), sobressaindo o caráter
heterônomo do Estado, em razão de sua posição hierarquicamente superior e desigual com
relação aos seus jurisdicionados; na esfera legislativa, em função de sua soberana autoridade para

9
expedir (promulgar, outorgar, decretar) normas e leis que tenham eficácia erga omnes, isto é, que
sejam válidas para todos.
Em contraposição, correntes flexíveis entendem que praticamente toda relação social
expressa uma situação de poder, consequentemente relações políticas, desde que constatada a
assimetria de influência nas relações entre esses particulares, seja uma relação de amigo para
amigo, de pai para filho, entre o médico e seu paciente, o marido e a mulher, o líder religioso e
seus seguidores etc., consumando, portanto, a onipresença do poder político. Nessas relações
bilaterais, sempre estarão presentes interesses conflitantes, resultando na tentativa de imposição
dos objetivos de cada um, por ação ou omissão, procurando influenciar a parte antagônica a fazer
ou deixar de fazer algo em seu benefício, constituindo relações políticas e, por extensão, a
ocorrência do poder político. Nesta corrente, situam, também, os adeptos da ocorrência do poder
político no âmbito das relações internacionais que, tanto quanto na esfera interna de um Estado,
admitem que entre Estados ocorrem intromissões e interferências de alguns sobre outros,
influenciando-os a se comportarem de modo contrário aos seus interesses. Considerada nesses
termos mais genéricos, a interpretação do que é política se confunde com a ideia de influência,
como explica Bertrand de Jouvenel: “É político todo esforço sistemático, realizado em qualquer
ponto do campo social, de mobilizar outros homens na procura de algum desígnio definido por
aquele que realiza a mobilização (....)não há diferença de natureza entre as relações sociais e as
relações políticas: trata-se simplesmente de uma questão de relações entre os homens”3.
No sentido de expor as teses para uma eventual avaliação dialética, Peter Nicholson relata
pontos de vista abrangentes e antagônicos, que adotam tanto concepções próximas do
“anarquismo”, ao admitir a política em sociedades sem Estado, quanto outras mais ortodoxas,
que somente admitem a política se diretamente associada ao Estado “e tudo o que tem a ver com
ele”.4 Estes, rejeitam a tese de que exista poder político pelo simples fato de haver “governos
privados” nas firmas, sindicatos, associações profissionais, igrejas, universidades, classificando
essas estruturas de agrupamentos “para-políticos” ou de “quase-políticos”.5 Para contornar o
problema, apresenta como recurso uma argumentação conciliatória, admitindo, em outras
palavras, que o poder político é produto da dominação de um homem sobre o outro, dominação
que pode se apresentar também sob a espécie de relação entre o Estado e seus súditos
(governados). Nesses termos, sua solução seria a “alternativa[...]de aceitar que há governo em

3
NICHOLSON, Peter. Política e Ciência Política. Cadernos da UnB, p.25. Brasília: EdUnB, [?].
4
Política e Ciência Política, op. cit., p.25.
5
Idem, ibidem, p.25

10
toda organização e já que a política constitui de fato o governo, todos estes seriam políticos e
formariam parte do domínio da ciência política”. 6 Contemplando o problema de modo
semelhante, o cientista político Philippe Schmitter se debruça imparcialmente sobre o tema,
também apresentando as duas faces da moeda, uma realista e, em seguida, outra de tendência
pluralista, explicando que “Para alguns, a política é essencialmente uma luta, um combate em
que o poder permite a alguns que o têm, assegurar a sua dominância sobre a sociedade e desta
tirar partido. Para outros, a política é um esforço para fazer governar a ordem e a justiça em que o
poder permite a proteção do interesse geral e do bem comum contra a pressão das reivindicações
particulares”.7
Da vertente pluralista aparece uma instigante reflexão do sociólogo Talcott Parsons, que
enobrece o debate ao adicionar o elemento sociológico à questão política e introduzir uma
inovadora e não menos controvertida descrição de poder político, instrumentalizando o método
estruturalista/funcionalista. Interpretando-o, acerca de sua compreensão do problema,
provavelmente não deixaria de afiançar a parábola a seguir, estruturada na ideia de que a
locomotiva do poder não é um trem desgovernado descendo montanha abaixo devastando tudo e
todos que estiverem à sua frente, como um rolo compressor. Então, como contraponto à teoria da
machtpolitik ou da realpolitik, Parsons vislumbrou a presença permanente de mecanismos
institucionais de contenção à tendências absolutizantes do poder, classificando-os de Imperative
Control8, esclarecendo que a dominação política não é um fim em si mesmo, o poder pelo poder
apenas, pois a sua existência pressupõe uma constelação de valores impossíveis de serem
violados aleatoria e arbitrariamente, razão pela qual considera que “o poder não é, basicamente,
estar em condições de impor a própria vontade contra qualquer resistência. É, antes, dispor de um
capital de confiança tal que o grupo delegue aos detentores do poder a realização dos fins
coletivos”. 9 O germe desta interpretação deriva dos primórdios da formação da civilização
ocidental, pois entre os gregos do período clássico o exercício dos cargos públicos configurava
mais encargo do que gozo de poder propriamente, já que desempenhar uma função pública, além
de constituir obrigação, não conferia privilégios que distinguisse o magistrado dos outros
cidadãos, pois os cargos eram exercidos por todos, em rodízio, e a permanência no cargo se

6
Política e Ciência Política, op. cit., p.25.
7
Idem, ibidem, p. 49.
8
Ainda que ausente de uma tradução conceitual para a língua portuguesa, literalmente a expressão quer dizer
“Controle Imperativo”.
9
LEBRUN, Gérard. O que é poder, p. 14. Ed. Brasiliense: São Paulo, 1984.

11
distinguia pela brevidade, não existindo entre eles a percepção de dominação política. Como
argumenta Hannah Arendt, complementando a definição daquela atividade tradicional, “A
distinção entre governantes e governados pertence a uma esfera que precede o domínio político, e
o que distingue este da esfera econômica do lar é o fato de a cidade (polis) basear-se no princípio
de igualdade, não conhecendo diferenciação entre governantes e governados”.10 Em posição
diametralmente oposta a essas, o pensamento marxista se mostra contundente e irredutível ao
expor o Estado como nada mais nada menos que um instrumento de dominação de uma classe
sobre outra para a manutenção do domínio, que se expressa especialmente em termos
econômicos e por meio da classe mais poderosa, resultando na opressão de senhores sobre
escravos (Estado escravista), da nobreza sobre camponeses (Estado feudal), da burguesia sobre o
proletariado/assalariados (Estado burguês/capitalista). Como visto, o fator econômico e o fator
histórico (matéria + história = materialismo histórico) formam o substrato crítico-analítico de
Karl Marx e seu parceiro Friedrich Engels, por eles chamados de dialético, método que lhes
fornecem elementos para interpretar as relações sociais e políticas como em O Manifesto
Comunista: “O poder político [Estado] é o poder organizado de uma classe para a opressão de
outra”.11 A essa forma de poder, sob a hegemonia do Estado, Marx denominava de ditadura, não
importando a espécie de poder exercido; porém há que se lembrar que Marx identificava poder
também nas relações sociais, o poder senhorial com relação aos escravos no Estado escravista,
com relação aos servos no feudalismo, e ao proletariado no capitalismo, todos definidos por ele
como despotismo.
Nos tempos atuais, ainda que considerando as prerrogativas e privilégios das funções
governativas, marcas que a modernidade política imprimiu, talvez definitivamente, não há como
ignorar, enfim, que quem dirige o governo - insistindo na linguagem simbólica -, não é muito
mais que o maquinista da composição, pois apesar de detentor da chave que dá a partida e de
dirigir o comboio, está ele irremediavelmente comprometido com regras norteadoras
determinadas, das quais dificilmente poderia se libertar. Por mais paradoxal que possa parecer,
ditadores aparentemente impulsivos como Mussolini, Stálin, Hitler, Mao Tsé-tung, Fidel Castro e
Pinochet sempre estiveram vinculados aos “princípios” que os alçaram ao poder, estando,
portanto, permanentemente forçados a ratificar fidelidade aos regimes que implantaram em seus
países, caso contrário, os custos de uma aventura mal calculada poderia lhes trazer prejuízos

10
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro, p. 158. Apud Gérard Lebrun, op. cit., p. 26.
11
MARX Karl. O manifesto comunista. Edição eletrônica: “Ridendo Castigat Mores”, p. 43. Ebooksbrasil.org
(www.jahr.org), 1999.

12
irreparáveis. Com semelhante interpretação, Max Weber alerta que “O chefe não é senhor
absoluto dos resultados de sua atividade, devendo curvar-se também às exigências de seus
partidários, exigências que podem ser moralmente baixas. Ele terá seus partidários sob domínio
enquanto fé sincera em sua pessoa e na causa que defende (...)”.12
Independentemente das características com que se apresentem, o poder e a política evocam
direta conexão com a ideia de autoridade. Havendo obediência sem maiores resistências, mais
ainda, com espontaneidade, ao comando de um agente, diz-se que o poder adquirido e exercido,
realizou-se sob a égide da autoridade, manifestando, cumulativamente, fortes vestígios de
legitimidade, uma vez que a obediência prestada se efetivou mais claramente a partir do contexto
de um poder de direito, e não basicamente de um poder de fato, embora seja notório que o poder
de fato - a possibilidade de recorrer ao uso da força – sempre persistirá, ainda que
implicitamente, tornando real sua probabilidade de ser exercido, mesmo que apenas em casos
extremos, pois do contrário, o poder de direito, mais espontâneo e baseado em valores e crenças,
vinculado ao princípio da legitimidade e, portanto, da autoridade, perderia sua própria razão de
ser.
A evolução do Estado, desde a antiguidade, vem tornando cada vez mais complexo o
significado de política e de poder, definidos pela capacidade de agregar em torno de si gradativa
e contínua sofisticação de fundamentos como autoridade, dominação e legitimidade. E para
desenvolver a conceituação desses fundamentos, inevitavelmente há de se recorrer à
compreensão sociológica de poder em Max Weber, cuja formulação resultou em um dos mais
notáveis construtos de sua sociologia: a tipologia ideal da autoridade legítima. A consequência
dessa abstração encontra no termo dominação (herrschaft) a elaboração conceitual mais
depurada para exprimir um cenário em que a autoridade exerce seu poder de forma legítima,
quase incontestável, podendo a legitimidade da autoridade ser derivada de uma fonte tradicional,
carismática, ou racional-legal. Em um cenário de dominação, repousa o pressuposto de elevado
grau de consenso quanto à obediência aos que exercem o poder, oriundo da parte dos dominados,
que agem orientados por uma disciplina derivada de múltiplas fontes, que podem advir de
crenças e valores difusos (fé religiosa, tradição, estatutos legais, devoção à pessoas, motivações
econômicas, altruísmo). Ainda que o tipo ideal seja um arquétipo mental do cientista social, via
de regra tem sua idealização com base em um parâmetro comparativo do que acontece na
realidade, podendo o fenômeno da dominação ser analisado, porque constatado, em qualquer
instância: nas relações de dominação entre indivíduos e grupos de indivíduos, e não apenas nas

12
In: Política e Ciência Política, op. cit., p.119.

13
relações de dominação institucionais (de governo, de Estado e também nas relações
internacionais). Comparadas as condições de poder, e constatadas sua efetividade, quem o exerce
detém autoridade e, se esse exercício se efetivar com legitimidade, ocorrerá o fenômeno da
dominação, que em termos de tipologia ideal, seria a essência do poder político: a síntese do
poder de fato (obediência como temor à possibilidade de uso da violência física ou poder
coercitivo) com o poder de direito (obediência com base em crenças e valores em estatutos:
sagrados, legais, pessoais). Em suma, o nível mais consistente possível de consentimento e de
obediência dos governados a quem governa eleva a dominação ao ápice da legitimidade, porém
com a devida lembrança de que no mundo das coisas, da razão prática, a expectativa de
legitimidade plena, até o presente momento, é um assunto que somente na esfera de uma
metafísica de tipo platônica é que poderá encontrar a sua concretização.

1.2 – Ciência Política: a ciência na política


O que é a ciência política? Para ser obtida uma resposta razoavelmente adequada, o
primeiro passo deveria ser acionado em direção a uma análise introdutória do conceito de ciência
em si; ato contínuo, seria recomendável a descrição do processo evolutivo das ciências sociais,
do advento da ciência política e de seu processo de autonomia científica, finalizando com uma
abordagem teleológica, qual seja, a relação entre meios e fins na ciência política.
É de domínio público que na antiguidade, tanto no Oriente quanto no Ocidente, houve uma
seleta categoria de estudiosos empenhados na missão de desvendar os mistérios da natureza
objetivando, na medida do possível, controlá-la e subjugá-la, para que dela o homem pudesse
usufruir de seus benefícios. Toda ciência atual, praticamente, incluindo aquelas de estágio mais
avançado e sofisticado, tem suas primeiras noções na antiguidade, basicamente no Oriente,
porém revestido de um viés fortemente intuitivo e especulativo. Nessa medida, a ciência,
enquanto detentora de atributos específicos para ser reconhecida como tal, tem seu advento
exclusivamente no Ocidente, caso da arquitetura, engenharia, biologia, química, astronomia,
física, etc., e todas as ciências humanas, como explicaria Max Weber em sua obra magna, de
1905, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo: “Apenas no Ocidente existe uma ciência
em estágio de desenvolvimento que reconhecemos, hoje, como válido (...) a busca racional,
sistemática e especializada da ciência por parte de pessoal treinado e especializado existiu
somente no Ocidente (...)”.13

13
Pp. 23 e 25. São Paulo: Martin Claret, 2006.

14
Do período clássico ocidental, Platão e Aristóteles se destacam como os exemplos mais
expressivos de personalidades que elegeram o conhecimento na verdade como compromisso de
suas vidas intelectuais, embora adotando concepções e metodologias distintas. Platão, o
precursor da filosofia propriamente dita, deslocou as indagações cosmológicas do período pré-
socrático para um novo eixo de preocupações: as questões antropológicas. Em suas especulações
acerca do homem e seu lugar neste mundo, dedicou extrema devoção às suas convicções
filosóficas, cujos fundamentos racionalistas transcendiam o mundo natural, priorizando o mundo
inteligível (ideias) - sem nenhuma interferência dos sentidos e das opiniões - em detrimento,
portanto, do mundo sensível (das coisas); sua matriz filosófica fundamentada no mundo
inteligível, cuja comprovabilidade de teses se realiza em objetos e formas ideais, tem seu
processamento pela via da formulação e do emprego preponderante do método prescritivo,
normativo, do dever-ser, deontológico, enfim. Por intermédio de sua narrativa sedutora, Platão
estruturou um extraordinário modelo racionalista de responder a todas as indagações, invertendo
o paradigma do pensamento convencional e apresentando o seu como originalmente ontológico
(do verdadeiro ser), por meio de uma complexa reflexão teórica derivada da dialética em que
confronta o ser com o não-ser, resgatando, portanto, de forma sutil, o verdadeiro ser a partir de
uma intuição deontológica, porém apresentada como legitimamente ontológica, demonstrando
que o não-ser pode também se constituir em algo - por ser sensível - e não puramente o nada,
como sustentava Parmênides, precursor do método e da tese. Portanto, sendo um falso-ser, o
não-ser não deixaria de ser algo, no caso uma sombra ou cópia imperfeita; é o aparente
(sensível), embora não a essência, o inteligível.
Um indício da convicção de Platão, de que não se sentia alienado e nem tangenciando a
realidade factual, pode ser comprovado em sua magistral reflexão desenvolvida na obra A
República, na qual descreve a alegoria do “mito da caverna”, cujo protagonista é um filósofo,
que nesta condição se sente responsável por conduzir os homens à luz do sol. Como explica Max
Weber, “o sol representa a verdade da ciência, cujo objetivo é o de conhecer não apenas as
aparências e as sombras, mas também o ser verdadeiro”.14 Esta e outras alegorias platônicas
simbolizam o esplendor da filosofia grega e de seu significado para o futuro, pois naquele
momento germinava um processo evolutivo para o conhecimento, que em Platão se caracteriza
pelo racionalismo e a dialética como meios para tal. Ao avaliar seus métodos como científicos,
Platão exalta a ciência pelos recursos que “elevam a parte mais sublime da alma até a

14
In: Ciência e Política, op. cit., p. 32.

15
contemplação do mais excelente de todos os seres”; e que a ciência representa a “libertação das
correntes, a [sua] conversão das sombras (...) a [sua] a ascensão para o Sol (...)”.15
Adiante de Platão, Aristóteles já se antecipava como protótipo do futuro cientista moderno,
pois antes de formular suas retumbantes teorias sociais, já havia enveredado no caminho das
investigações científicas dos fenômenos da natureza, descrevendo experimentos na área de
botânica, realizando observações em astronomia e formulando conjecturas em física, química,
em suma, dominando o processo analítico (lógica) como instrumento - ainda que com meios
incipientes – para atingir o conhecimento (ciência). Seu método de entender e de explicar o
mundo era diverso da intelecção platônica, pois para Aristóteles a origem do conhecimento e da
verdade residia nas coisas e objetos reais e no homem, sendo passíveis de verificação e podendo
ser testados a partir da instrumentalização lógico-analítica de suas teorias, materializadas em
recursos hoje reconhecidamente científicos, como a proposição, o planejamento e a coleta de
dados, a observação factual, a experimentação, a comprovação.
Para atingir níveis confiáveis de comprovabilidade científica, a experimentação foi o mais
significativo vetor de indução para o advento da ciência; e este evento ímpar da humanidade só
teve lugar no Ocidente Moderno, germinando na Renascença. Tudo isso, graças a uma casta de
cérebros privilegiados, principiando por Galileu Galilei, que determinava como regra de pesquisa
a experimentação e o rigor na sistematização, sendo secundado pela obstinação de Francis
Bacon, com sua filosofia experimental, que recusava toda forma de conhecimento intelectual que
não tivesse origem no empirismo, isto é, na experiência sensitiva. No entanto, o caráter de
cientificidade das pesquisas foi definitivamente consumado quando da divulgação da lei da
gravidade de Isaac Newton que revolucionou a concepção de mundo da época, demonstrando
que, por métodos científicos, o universo pode ser conhecido, explicado e explorado, portanto
sendo previsíveis seus movimentos, porquanto guiado por leis físicas determinadas. Em adição à
pluralidade de premissas acima elencadas, o racionalismo preconizado por René Descartes, cujo
método indutivo de conhecimento se baseava em rigorosos enunciados matemáticos, foi decisivo
para contribuir com a complementação estruturante das ciências. A consequência de todo este
colossal acervo de proposições teoréticas foi a emergência das ciências factuais, primeiramente
as exatas e a seguir - no ainda futuro e distante século XIX - as ciências sociais ou humanas.
A evolução das ciências abstratas (matemática, lógica) e das ciências factuais (física,
biologia, química etc.), forneceram subsídios mais do que suficientes para que as teorias sociais
pudessem evoluir para o âmbito científico. Antes restritas ao universo da filosofia, as teorias

15
Platão. A República. São Paulo: Nova Cultural, 1997, p. 246.

16
sociais foram se emancipando, adquirindo o status de ciência a partir do momento em que
começam a empregar as ferramentas da metodologia científica. Desse modo, a sociologia, em
decorrência da perseverança de Auguste Comte em adaptar e aplicar, de forma sistematizada, os
métodos científicos aos seus trabalhos sociológicos, veio a se tornar a primeira de todas as
ciências sociais, com a obra Sistema de Política Positiva, de 1851. A partir de então, os demais
campos do conhecimento, filiados aos estudos da área de humanidades, evoluem paulatinamente
até que sejam reconhecidos o seu status científico, como a economia, a administração, a
psicologia, o direito etc.
Fato semelhante ocorreu com a Ciência Política, malgrado sua dificuldade de se
transformar em ciência independente, pois seu caráter sui generis no modo de interagir e
coexistir com as outras ciências humanas, de excepcional naturalidade, impôs-lhe a árdua missão
de ter de provar que não seria um simples apêndice daquelas ciências, já então estruturadas. No
posto de teoria sociológica, ou melhor, categorizada como uma ciência geral das sociedades,
desfruta de íntimas ligações com todas as ciências humanas, como não poderia ser de maneira
diversa, tanto que, como objetos de interesse investigativo da Ciência Política, atualmente tais
ciências estão relacionadas como seus subsistemas. De fato, o status de ciência de síntese, é
ratificado pela atuação da Ciência Política produzindo pesquisas simultaneamente em todos as
áreas das ciências sociais, como a História, a Filosofia, a Economia, a Psicologia, a
Administração, a Sociologia, a Antropologia, as Relações Internacionais, o Direito. Como
ciência de síntese, converte-se em disciplina dinâmica, o que explica o fato de continuamente
recorrer às outras ciências sociais para melhor desenvolver suas teses, uma vez que estas ciências
foram acumulando valiosos acervos ao longo do tempo. Os frutos da comunhão entre a Ciência
Política e as demais ciências humanas constituíram uma pluralidade de subsistemas no âmbito da
Ciência Política, como exemplo o seu livre trânsito na Sociologia para extrair dela conhecimento
associado à política, que resultou na denominada Sociologia Política; atitude semelhante com
relação à Economia originou a Economia Política; no campo da Psicologia, de sua área mais
correlata à Ciência Política, seu derivativo foi a Psicologia Social; da Administração, a
Administração Pública; e da Filosofia a Filosofia Política. Enfim, todas as sub-áreas das demais
ciências humanas relacionadas a fenômenos políticos e do poder, são, indubitável e
simultaneamente, campos de interesse investigativo para a Ciência Política explorar e, então,
produzir suas teorias científicas.
Nesse contexto tão vasto para pesquisa, em razão da amplitude do campo de teoria social, e
tão promissor para oferecer resposta a inúmeras e nunca antes respondidas indagações, em razão
da disponibilização de avançados métodos científicos, após o estabelecimento da sociologia

17
como ciência a ciência política iria se equipar de metodologias a fim de solucionar as dúvidas
que anteriormente excitava a inquietude dos filósofos, dúvidas que não podiam ser
definitivamente resolvidas porque ausentes os instrumentos para tal. É certo, pois, que o
desenvolvimento científico se estrutura com base na filosofia, e importantes descobertas da
ciência aconteceram como resposta aos mais instigantes questionamentos filosóficos.
Coincidência ou não, alguns dos mais sofisticados pensadores, que já instrumentalizavam
avançadas técnicas em suas teorias sociais/filosóficas, conquistaram a reputação de cientistas
sociais/políticos, como Aristóteles, Maquiavel, Montesquieu, Tocqueville. Entretanto, somente
no final do século XIX (1896), com a obra Elementi di Scienza Politica, de Gaetano Mosca, que
apareceria oficialmente a primeira obra de ciência política estritamente considerada.
A partir da afirmação e consequente justificativa de que há uma linha que separa ciência de
não-ciência, naturalmente despontaria o questionamento acerca da localização da faixa divisória
que a demarca: Como identificar se uma obra de teoria social seria ou não científica? Até que
ponto uma obra de teoria política seria delimitada como filosofia política e uma outra descrita
como ciência política?
O Contrato Social, famoso livro de Jean-Jacques Rousseau, por se tratar de uma obra de
filosofia política, e por se destacar como uma obra bastante lida, comentada e discutida, se
encaixa como protótipo e poderia ser objeto do exame que a proposta requer. Como obra de
teoria social, é também teoria política, e como teoria política, é também teoria de Estado, assim
como uma obra de ciência política. Contudo, O Contrato Social não se filia na categoria de obra
científica, porque ausentes pré-requisitos imprescindíveis para caracterizar o trabalho científico,
como a neutralidade e a ausência de posicionamento ideológico etc. Em verdade, nesta obra de
Rousseau estão presentes alguns dos mais elementares postulados que levam à desqualificação
do valor de cientificidade de uma obra, postulados que são interligados, inclusive: o elemento
prescritivo, relativo ao dever ser e o deontológico, que se apresentam no propósito de formatar
um modelo de sociedade, que seria perfeita, e o juízo de valor, elemento subjetivista que sintetiza
no pensamento do escritor um conjunto de crenças e sentimentos morais composto de energia
suficiente para orientá-lo em suas prescrições. Outro elemento, aparentemente secundário,
porque formal, vem a ser o modelo teórico adotado, o jusnaturalismo, cuja fundamentação se
sustenta em uma hipotética forma de convivência social dos homens em seu estado natural - sua
fase pré-estatal -, baseado puramente no racionalismo, sem comprovação histórica e
experimental, portanto. Em situação análoga, várias publicações de pensadores fundamentais
para a compreensão da história política ocidental podem ser apontadas, como o Leviatã de
Thomas Hobbes, O Segundo Tratado sobre o Governo Civil de John Locke e o vasto acervo de

18
escritos políticos de Karl Marx. Nestas obras é possível detectar com relativa facilidade alguns
critérios inerentes ao método científico, como o empirismo, análise histórica, dados quantitativos
e estatísticos, mas em contrapartida, percebe-se neles um viés de inegável comprometimento
ideológico, como a devoção ao absolutismo com relação a Hobbes; a defesa inflexível do
liberalismo com relação a Locke, e, sob o signo cientificista, uma religiosa retórica doutrinária ao
socialismo/comunismo com relação a Marx. Em comum, a defesa aberta de todos eles aos
valores éticos e morais que, caso a caso, compõe o sustentáculo de suas ideologias.
Em posição diversa à dos princípios deontológicos (ética/moral) que se identificam com o
dever ser e, portanto, com os postulados autênticos da filosofia, situam as premissas relativas aos
preceitos ontológicos, associados ao ser, ao que concretamente é, portanto à verdade, ainda que
esta verdade não seja um paradigma absoluto, eterno e imutável, mas que seja uma verdade que
contenha validade, isto é, que seja exposta sob o signo da neutralidade, da comprovabilidade, da
confiabilidade e que resista a testes de hipóteses; que sejam verificáveis no seu tempo de
vigência. Neutralidade, verificabilidade, confiabilidade, testes de hipótese, são termos-conceitos
inseparáveis dos pré-requisitos da cientificidade. Qualificam-se como instrumentos formais da
experimentação de conjecturas e hipóteses cientificamente estimadas, e processadas por meio da
observação empírica, da indução, da dedução, sob argumentação racional dos fatos etc., e jamais
militar a serviço de uma causa, como legitimamente podem atuar os filósofos. Tanto quanto a
filosofia, especialmente a filosofia política, a ciência política tem como finalidade produzir teses
relativas aos fenômenos do poder político, às instituições do Estado em geral, como exemplo a
abordagem funcionalista do Estado (explicação e previsão das consequências do seu
funcionamento) relativamente ao processo decisório, às políticas públicas, ao comportamento
político de eleitores e de parlamentares, à investigação sobre os fundamentos do poder, da
autoridade, da dominação, da legitimidade, porém se abstendo de emitir juízos de valor, portanto,
dispondo da singularidade de atuar com imparcialidade, de forma sistematizada e com rigor,
arquitetando para edificar, pensando, observando, explicando e prevendo, sem a interferência de
ideologias; tanto quanto possível submetendo-se aos comandos da neutralidade, instrumentos
esses que não são propriamente necessários à existência da filosofia como teoria social em si.
Contudo, se o fim último da ciência política é demonstrar de forma sistematizada as suas
proposições (descobertas), como as relacionadas acima, também é oportuno advertir que a
ciência política, como qualquer ciência, não é absolutamente imune à apropriação indevida de
suas “descobertas”, podendo ser manipulada inescrupulosamente por agentes movidos por
interesses inconfessáveis, portanto vulnerável ao risco de ser empregada com fins moralmente

19
reprováveis por detentores de cargos públicos, partidos políticos, grupos de pressão e associações
representativas em geral.

1.3 - O político
Delinear o “estadista” é a tarefa conclusiva deste estudo de ordenação e análise dos
elementos fundamentais da engrenagem política. Depois de especificados seus sujeitos (ativos e
passivos), objetos e fins, o momento requer a identificação do protótipo do “homem político”, a
descrição do que seria o ator protagonista da política. Este sujeito - o “homem político” – vem a
ser nada mais nada menos que o indivíduo predestinado a pôr a mão no leme da história, segundo
Max Weber. E quem ou como seria ele, afinal? Seria o politís da Grécia Clássica? O homem de
virtù esculpido por Maquiavel? Ou o cosmo-histórico descrito por Hegel? Ou teria o perfil do
líder carismático projetado por Weber?
Antes de adentrar em considerações específicas, convém observar preliminarmente que no
universo da interpretação sociológica de Max Weber prolifera uma multiplicidade de definições e
conceitos adequados para proporcionar conclusões efetivas acerca da personalidade ideal do
estadista; daquele que reuniria, afinal, as qualidades do dirigente habilitado a conduzir o destino
de multidões. De fato, há reais indícios de que o tipo ideal recairia sobre o estadista weberiano (o
chefe carismático), sugerindo ser ele produto de uma simbiose de todos os demais
conjuntamente, encontrando no politís grego seu ponto de partida e seu protótipo. Este seria a
matriz da convergência do “DNA” do zoom politikós aristotélico, o animal político por
excelência, com o rei-filósofo platônico, rigidamente formado pelo Estado para este fim, que, em
sequência, seria plasmado ao homem de virtù maquiaveliano por suas qualidades pessoais
(coragem, valor, capacidade) e a fortuna (sorte), e ao hegeliano, como o homem-síntese fundador
das grandes nações.
Iniciando a análise específica por Platão, cabe lembrar que em sua missão de construir a
polis (cidade) ideal não descuidou da tarefa imprescindível de “reproduzir” o seu arquétipo de
estadista. A elaboração de seu complexo projeto de “engenharia social”, tão ousado quanto
controvertido, contemplava a “cidade” perfeita conjugada com a reforma do homem inteiramente
conduzida pelo Estado. Além da formação rigorosamente especializada do homem para atender a
todas as demandas estruturais da cidade-Estado, como guardiães, negociantes e artesãos, o
Estado cuidaria de educar seus futuros estadistas sob um ordenamento que excluía a intervenção
de particulares e da família. A rigidez moral e política exigida para esculpir o estadista, chamado
de rei-filósofo, seria obtida pela dedicação aos estudos filosóficos, que preencheriam estes
indivíduos com valores como virtude da alma, coragem, conhecimento do bem, sabedoria,

20
justiça, como expressou o próprio Platão: “quando tiverem vislumbrado o bem em si mesmo,
usá-lo-ão como um modelo para organizar a cidade, os particulares e a sua própria pessoa, cada
um por sua vez, pelo resto de sua vida. (...)suportarão trabalhar nas tarefas de administração e
governo, por amor à cidade, pois que verão nisso não uma ocupação nobre, mas um dever
indispensável”.16
Na sequência, são expostas as teses de Aristóteles e Max Weber, duas referências cardeais
no assunto em apreciação, não obstante a notória inclinação otimista de ambos no modo enxergar
a política, com as devidas ressalvas. Para Aristóteles, a política vem a ser o instrumento capaz de
promover o bem da polis, o bem-comum, ideia convergente com os postulados de Weber, que
compreendia a política como a arte de atingir o possível a partir de tentativas do impossível;
ambos definiam a política como uma nobre atividade humana, porém advertindo que tal
atividade pode absorver, simultaneamente, o germe para torná-la uma profissão vil, dependendo,
pois, dos meios de ação. Mas, em termos estritamente realistas, Weber consegue identificar no
universo da política, simultaneamente aos princípios da objetividade, o seu ângulo subjetivista,
descrevendo-a como “aspiração à participação no poder, ou a influência sobre a distribuição do
poder, quer seja entre Estados ou, no interior de um Estado, entre os grupos humanos que
compreende”, complementando com a definição do homem diretamente envolvido com a
política, nos termos seguintes: “Aquele que faz política aspira ao poder, quer seja como meio a
serviço de outros fins – ideais ou egoístas – ou o ‘poder pelo próprio poder’, ou seja, para gozar
do sentimento de prestígio que confere”.17 (Weber, 1999, p. 544).
A distinção entre a boa e a má política, foram delimitadas por ele em uma de suas
monumentais palestras, proferida logo após o fim da I Guerra Mundial e publicada em conciso
ensaio, 18 obra que permanece até os dias atuais como referência na área de metodologia
científica, pois ali Weber demarcou a linha distintiva entre ciência e política, ou seja, estabeleceu
os limites que separam o homem vocacionado para a ciência daquele que possui o dom para a
arte da política. No campo específico da política, Weber distinguiu o político autêntico do
politiqueiro, que é o diletante da política, ou seja, traçou com clareza a linha que separa o político
de vocação, o líder político por excelência, classificado por ele como líder carismático, daquele
espécime de indivíduo que atua na política movido por um tipo de paixão que se restringe apenas
à paixão pelo poder; o politiqueiro é uma variedade de político que vive da política mas não vive

16
Platão, op. cit., p. 255.
17
Economia e Sociedade, 4a ed., p. 544. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1999, 2 vols.
18
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Ed. Cultrix, 1967/68.

21
para a política. Este diletante não possui o senso de proporção que compõe o caráter do político
de vocação. Sua paixão pela política é apenas uma paixão frívola, assim como sua ética é apenas
uma ética baseada em convicções meramente subjetivas, que Weber considera inimiga mortal de
qualquer devoção a uma causa: a vaidade. A vaidade, que afeta a qualidade psicológica do
homem político, pela ausência de distanciamento das pessoas e das coisas, traz amargas
consequências, ela é “o pecado do desejo de poder, que, sem qualquer objetivo, em vez de se
colocar exclusivamente ao serviço de uma ‘causa’, não consegue passar de pretexto de exaltação
pessoal. Em verdade e em última análise, existem apenas duas espécies de pecado mortal em
política: não defender causa alguma e não ter sentimento de responsabilidade”.19
Na extremidade oposta do político deslumbrado emerge o político de vocação, o genuíno
homem de Estado que, embora podendo viver da política, essencialmente vive para a política. Ao
lado de suas convicções subjetivas, prevalece o senso de proporção, cujo comportamento conduz
a ações objetivas que traduzem a conjunção da ética da convicção (coragem, valor, capacidade)
com a ética da responsabilidade, característica distintiva do político autêntico: “Neste sentido
profundo, todo homem sério, que vive para uma causa, vive também dela (...) Aquele que esteja
convencido de que não se abaterá nem mesmo que o mundo, julgado de seu ponto de vista, se
revele demasiado estúpido ou demasiado mesquinho para merecer o que ele pretende oferecer-
lhe, aquele que permaneça capaz de dizer ‘a despeito de tudo!’, aquele e só aquele tem a
‘vocação’ da política”.20

19
Idem, ibidem, p. 107.
20
Idem, ibidem, p. 65; 124.

22
2 - CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO

“Quem só sabe Direito, não sabe (d)Direito”. Esta frase, independente de quem a proferiu,
não deixa de ser, à primeira vista, uma provocação. Mas, o provocador, ninguém mais ninguém
menos que o eminente jurista Pontes de Miranda, não parou por aí. Complementou, dizendo que
‘não deve transpor as portas de uma faculdade de Direito aquele que não for um sociólogo’.
Apoiado em seu elevado prestígio acadêmico, este jurista, que além de diplomata, era filósofo,
professor, advogado, ensaísta, e até matemático, permanece sendo uma das mais expressivas
autoridades do direito brasileiro de todos os tempos, mesmo passados mais de 30 anos de sua
morte, por isso concentrando em si credibilidade suficiente para pronunciar palavras tão ásperas.
Em face do impacto dessas declarações, resta legítimo ao noviço universitário de Direito
questionar se as impiedosas impressões de Pontes de Miranda são mesmo dotadas de fundamentos
racionais, e se não seriam injustas ante o pragmático interesse daquele que deseja, acima de tudo,
obter seu diploma na área jurídica. Assim considerando, o perplexo estudante calouro se depararia
com um enigma a ser decifrado: O que quer dizer o Jurista com ser ‘sociólogo’? Será que ele
estava definitivamente convencido de que só após concluir um curso de Sociologia é que alguém
estaria apto a ingressar em uma faculdade de Direito? Com a devida vênia, não parece razoável
que um intelectual da expressão de Pontes de Miranda tivesse convicções tão ortodoxas e
conservadoras assim, pois a problemática por ele abordada não é de ordem puramente formal, mas
sim material, ou seja, de conteúdo. Explicando melhor: a essência de sua preocupação tinha
origem na frágil bagagem intelectual que portavam os estudantes daqueles tempos, em grande
maioria; fragilidade que comprometia irremediavelmente a qualidade do sistema judicial
brasileiro, com reflexos negativos no sentimento de justiça de toda a comunidade nacional, por
inundar o “mercado” com profissionais de capacidade tão duvidosa que, ao invés dos ilustres
juristas com os quais a sociedade deveria ser contemplada, na verdade aqueles profissionais do
Direito não seriam mais que genuínos “rábulas” a infestar os tribunais e os escritórios de
advocacia. Infelizmente, o cenário crítico denunciado por Pontes de Miranda não faz parte de um
passado de triste memória apenas. Pelo contrário, não só não desapareceu como vem contribuindo
para a degeneração do setor educacional brasileiro, porquanto a proliferação das faculdades de
Direito mais se assemelha a um complexo organizacional cujo objetivo principal parece ser o de
fabricar diplomas em escala industrial, reproduzindo uma nova tipologia de rábulas, que são os
milhares de novos bacharéis em direito despreparados até mesmo para obter a qualificação mínima
e poder exercer a advocacia.

23
Despreocupados, em um primeiro momento, inúmeros estudantes calouros de Direito ao
iniciarem suas atividades acadêmicas se põem a questionar acerca do porquê de estudar
disciplinas propedêuticas, como exemplo a Ciência Política, e do porquê de matérias assim
“abstratas” serem obrigatórias no Curso. Como é notório, a conquista da redemocratização
brasileira tem despertado um positivo sentimento de cidadania na população nacional, gerando
um volume crescente de demanda por justiça, especialmente porque a reaquisição da cidadania
política encoraja os recentes cidadãos a também reivindicar por mais direitos sociais e civis,
devido a suas prerrogativas de peticionar perante o judiciário. A consequência da maior
participação e procura por garantia de direitos, na ausência de adaptação do aparato judicial, será
o congestionamento do sistema, pois a crescente demanda da sociedade pela prestação
jurisdicional do Estado tem sobrecarregado a capacidade deste em oferecer respostas satisfatórias
à sociedade, levando autoridades de maior destaque e compromisso, de todas as instituições
estatais, a manifestar preocupação com o quadro caótico que abrange todo o sistema judiciário
(segurança pública, sistema prisional, poder judiciário), em cujos pronunciamentos se constata a
reafirmação da intenção programática de aparelhá-lo adequadamente, o que vem ocorrendo, mas
em magnitude aquém do desejável e do possível.
Não obstante tudo isso, é fato incontestável que a carreira jurídica vem se transformando
numa área cada vez mais atraente porquanto promissora, encerrando poder de abrir portas para o
mercado de trabalho com mais facilidade aos seus profissionais do que a maioria das outras
profissões acadêmicas. Então, o estudante de Direito, recém-ingressado na faculdade, ali se
encontra, teoricamente, a fim de preparar-se para ser advogado, delegado, analista judiciário,
juiz, procurador, defensor público, eventualmente ministro de tribunal, para seu deleite particular
ou, ainda, quem sabe, para prestar contas à sociedade, posto que nos dias atuais, em quase todas
as “tribos”, das mais diferentes classes sociais, quase todos se encontram matriculados em um
curso de nível superior. “Mas... política - dirá o acadêmico de Direito - não é a minha praia, pois
além de não gostar de política, não gosto dos políticos e, mais que isso, não tenho a menor
pretensão de me envolver com política e, menos ainda, de ser um político”.
Enfim, considerando uma argumentação dessa natureza, argumentação que contesta a
existência de efetiva convergência de atuação, interesse e objetivos da Ciência Política em
relação ao Direito, cabe insistir no questionamento: deveria a Ciência Política realmente ser
matéria obrigatória para o curso de Direito?
Esse questionamento é parte de uma série de outros tantos, no vasto cabide de dúvidas
que abalam a estrutura dos valores do universitário. Desse modo, no que respeita à Ciência

24
Política em particular, considerações acerca da posição e finalidade da matéria no curso de
Direito devem ser elencadas e discutidas.
Em primeiro lugar, torna imprescindível resgatar a abordagem inicial acerca do conceito
de “sociólogo”, cuja definição, não por coincidência, expõe as ligações da Ciência Política com o
próprio Direito, haja vista que ambos os cursos, em sua substância, estão umbilicalmente ligados
aos fenômenos sociológicos, à sociologia, enfim. Portanto, em sentido amplo, o “sociólogo” em
referência muito se assemelha ao que Aristóteles classificou como sendo o zoom politikós, o
homem político e social por excelência, dotado de capacidade bastante para tecer análise crítica
acerca da comunidade em que vive; reter sensibilidade suficiente para refletir sobre seu papel
social e de ser elemento constituinte do processo de resolução dos problemas e conflitos
produzidos pela dinâmica das sociedades contemporâneas, pois entre os objetivos gerais de um
curso de Direito destaca-se o de “formar bacharéis aptos ao exercício ético das diversas
profissões jurídicas, atuantes na construção da cidadania, implementação da democracia e
proteção do Estado Democrático de Direito”.21
Neste contexto, a Sociologia e a Ciência Política se vêem conceitualmente associadas,
podendo ser definidas, tanto uma quanto a outra, em poucas palavras, como uma ciência geral
das sociedades, cujos objetos de estudo interagem com os mais variados fenômenos
sociopolíticos, portanto disciplinas constituídas de vasto interesse do conhecimento acadêmico,
além de marcante natureza dinâmica quanto à duração de seus paradigmas científicos. Os
fenômenos sociopolíticos são movimentos que muitas vezes ocorrem de forma conflituosa, e
esses conflitos geralmente objetivam transformações, mas também produzem profundas marcas
nas estruturas do Estado, podendo levá-lo a um estágio de debilidade, até mesmo ao colapso,
repercutindo decisivamente no papel estatal de atuar como árbitro capaz de assegurar a
estabilidade, independente de qual seja a ordem ideológica dominante. Por essa razão, o
progresso dos conhecimentos da política como arte e como ciência, legou ao Estado, por meio da
evolução de suas instituições, o papel de sujeito legitimado a monopolizar os instrumentos de
coerção, a fim de assegurar a ordem e pacificar a sociedade, em que pese todos os seus
antagonismos – legítimos ou não -, por meio do Direito.
Na sequência dessa ordem de ideias, o Direito legislado viria a ser uma decorrência da
imposição do poder, que é o poder político. Ao longo do processo civilizatório, o poder político
vem se tornando cada vez mais sofisticado, sendo que o suporte para seu desenvolvimento se
realiza por meio da acumulação do saber dos estudiosos da área, cujo processo evolutivo avança

21
In: Proposta Pedagógica do Curso de Direito: Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, p. 4.

25
do estágio de fetiche ou mera arte para o estágio filosófico e deste para o científico que,
surpreendentemente, só irá se materializar na área de humanidades quando surge a Sociologia, a
primeira de todas as ciências sociais. Então, a política enquanto ciência, com suas ferramentas
investigativas e explicativas, possui mecanismos para apontar meios mais eficazes e eficientes de
alcançar a justiça a partir da construção de consensos, promovendo, enfim, a paz, a segurança e o
desenvolvimento social.
Não obstante, os diagnósticos não surpreendem quando se detecta em parte considerável
dos acadêmicos profunda deficiência da necessária capacidade de abstração dos fatos. A
deficiência se torna evidente quando operadores do Direito são indiscretamente flagrados
confessando suas paixões obsessivas pelos dogmas jurídicos, assumindo posições em causas sem
o necessário exame dos fatos e das consequências, não raro danosas para todo o corpo social.
Trata-se de paixão cega, semelhante àquela “denunciada” em certa canção, cujo autor, ao tentar
expressar a intensidade e a pureza de sua paixão, comparava-a, ironicamente, com igual
intensidade de “paixão” que um calejado pescador não escondia seu encantamento por sua
moderna e reluzente rede de pesca. Aquele trabalhador, alienado pela rudeza de seu cotidiano,
devotava mais atração à engenhosa ferramenta de subsistência do que a uma eventual atitude de
contemplação da exuberância e imensidão do oceano, que todos os dias apresentava diante de si,
impávido e eterno. Para ele, a utilidade daquela ferramenta era tão dogmática que dispensava
qualquer ato de reflexão comparativa, e por isso lhe causava um sentimento de indiferença
perante a presença majestosa do mar, embora fosse ele a fonte de seu sustento; com semelhante
comportamento, o rábula contempla o exercício da profissão jurídica como um fim em si mesmo,
absorvendo do significado de “justiça” nada mais que um instrumento de sua sobrevivência
material.
Em trincheira oposta alinhou-se Rui Barbosa. Poucos brasileiros foram tão abnegados
quanto este eminente jurista na defesa da construção de um Estado que fosse capaz de distribuir
justiça com equidade, ainda que tais significados sejam demasiado complexos para uma
compreensão universal. Lutou na contramão da ideologia corrente num Brasil em que a justiça
vigente era a justiça da oligarquia, haja vista que no campo político foi uma vítima do implacável
esquema coronelista, quando candidato à presidência da república. O reflexo desse esquema
operava igualmente no âmbito do direito, uma vez que, naquele estágio, a ciência jurídica, já
reconhecida como dogmática, justificava sua supremacia na irresistível lei posta pelo recente
modelo de Estado ocidental, então resultante das revoluções burguesas. A nova ordem
individualista, de privilégios direcionados aos detentores da grande propriedade, exprimia
presunçosamente a “legitimidade” da vontade do legislador (ideologia das classes dominantes)

26
no exercício do papel de ditar a ordem legal registrada em estatutos sistematicamente
positivados, independente da apreciação do significado do que é o justo ou o não-justo. Como
apóstolo da justiça, manejava sabiamente o aspecto teleológico do Direito (correlação entre
meios e fins: e.g. a lei posta pelo Estado e seus objetivos), que é um dos eixos basilares da
ciência jurídica. Ao operador do Direito e ao estudante das ciências jurídicas, irradiava palavras
de ordem ao seu engajamento na luta contra a opressão e a iniquidade, ressalvando que, em caso
de eventual conflito entre o direito e a justiça, o “cidadão-sociólogo”, guardião do direito, jamais
deverá vacilar em somar suas forças pela promoção dos valores supremos da justiça.
Em contraste a esta forma de ação organizada, uma força reativa e inorgânica, porém
poderosa, opera sistemática e silenciosamente no sentido de enfraquecer o sistema judicial. Por
exemplo, bacharéis mal-formados, são parte dos efeitos colaterais perceptíveis entre militantes do
direito, muitas vezes privados do necessário discernimento para se comportar de modo que não
um “rábula”, aquele temerário “aplicador autômato da lei que se posiciona acriticamente em
relação às soluções jurídicas criadas pelo Estado”.22 Por isso, um dos pré-requisitos ao estudante
de Direito, além do comprometimento acadêmico, diz respeito à absorção de valores éticos
inerentes à carreira jurídica, que requer do acadêmico, tanto quanto exige do jurista, a
proporcional capacidade analítica e compreensão da problemática relativa a fenômenos
sociológicos.
Dentre os meios para atingir esses fins a Ciência Política destaca-se como instrumento
para fornecer subsídios científicos ao Direito, pois ao contrário do característico dogmatismo
deste, a Ciência Política, como uma ciência dinâmica, existe para explicar fenômenos e não
apenas para descrevê-los; além da pura explicação, a Ciência Política procura estabelecer com
rígidos critérios e racionalidade a previsão de fatos, pois a previsão é a principal finalidade
prática da ciência. 23 Nesse sentido, o Direito não pode reunir capacidade de estudar os
fenômenos sociais de forma isenta, com o imprescindível rigor científico, com a necessária
suspensão de juízos de valor, pelo fato de que “(...) a cultura política não pode ser estudada pelo
Direito. Também foge à sua esfera de abrangência a dinâmica dos partidos políticos, o
funcionamento dos sistemas eleitorais, a maior ou menor representatividade do Poder Legislativo
ou a própria relação quotidiana entre as instituições. Essas questões devem ser tratadas como
realidades concretas que muitas vezes não seguem os padrões normativos previamente
determinados pelo ordenamento jurídico (...) a Ciência Política faz parte da formação do

22
ALMEIDA FILHO, Agassiz. Por que estudar Ciência Política e Teoria Geral do Estado? In:
www.forense.com.br. [?], p. 27.
23
BOBBIO, Norberto. Dicionário de Ciência Política. Verbete: Ciência Política, p. 164-169.

27
estudante de Direito em virtude da sua aptidão analítica para enfrentar esse tipo de problema. Ela
aproxima da realidade com o fim de estudar aquilo que realmente acontece no âmbito das
relações e das instituições políticas. Seu objeto é o sistema político concebido de forma
dinâmica”.24
Como uma ciência de síntese, a Ciência Política comparece para explicar, e também
prever, a ocorrência dos fenômenos sociais. Por extensão, tal ocorrência pode ser confirmada nas
relações da Ciência Política com o Direito, desenvolvidas principalmente por meio do Direito
Constitucional que, como afirmara Paulo Bonavides,25 fora o Direito Constitucional no passado
uma das ciências políticas, ainda antes de a Ciência Política se transformar em ciência autônoma.
Miguel Reale denomina de Política do Direito o ponto de interseção entre Política e Direito. Este
ponto, explica, “situado realisticamente, é de importância prática fundamental, inclusive porque
implica o problema da legitimidade do poder”.26
Determinado como o elo que simboliza a associação entre Direito e Ciência Política, o
Direito Constitucional apesar de classificado como ramo do curso de Direito, de fato tem sua
ligação proveniente do mesmo tronco de que se origina a Ciência Política, e este tronco tem suas
raízes na filosofia, raízes que produziram generosa seiva para o florescimento da Ciência Política
e do Direito Constitucional. A filosofia, como fonte inesgotável de ideias, na era do Iluminismo
gerou como fruto mais concreto o contemporâneo Estado de direito, hoje de Direito e ao mesmo
tempo Democrático.
Então, por mais paradoxal que possa parecer, o Direito Constitucional não foi uma
criação original do curso de Direito, como por exemplo são o Direito Civil e o Direito Penal, pois
esses dois ramos do Direito foram criações impositivas do próprio Estado, ainda nos seus
primórdios, para que aquelas sociedades subjugadas e órfãs de direitos obedecessem às leis como
pressuposto inquestionável de manutenção da ordem social e, consequentemente, meio de
perpetuação do domínio político de modo inescapável. Na contramão do Direito Civil e Penal, a
teoria constitucionalista, responsável diretamente pela criação da disciplina Direito
Constitucional, enveredou por caminhos contrastantes aos do status quo ante, combatendo a
imposição da velha ordem arbitrária, afirmando-se como instrumento das ideias revolucionárias e
de auxílio para o aniquilamento do absolutismo. Esse tripé formado pela Filosofia, Ciência
Política e Direito Constitucional configurou-se como alicerce de ação para o surgimento e

24
ALMEIDA FILHO, Agassiz, op. cit., p. 27.
25
In: Ciência Política. A Ciência Política e as demais Ciências Sociais, cap. 2, p. 46-53.
26
In: Lições Preliminares de Direito, p. 331.

28
consolidação de uma nova era. Nova era composta por uma geração de filósofos e teóricos do
Estado, da fase do Iluminismo, que reescreveram a história ao fomentar as rebeliões contra a
opressão dos autocratas europeus, culminando com o processo revolucionário disseminado por
todo aquele continente e pelo norte da América. De modo que o Direito Constitucional surgiu
como uma disciplina do curso de Direito como fator de adequação da nova realidade: uma nova
ordem social, o liberalismo (Estado de direito), instituído por meio do constitucionalismo;
constitucionalismo esse que foi a base filosófica para as modernas constituições que limitariam
os poderes do Estado e dos governantes obrigando-os a se sujeitarem aos primados do “império
da lei” e, ao mesmo tempo, garantindo direitos aos governados, direitos desde muito
filosoficamente consagrados como inalienáveis, invioláveis e imprescritíveis.
Dessas relações entre Ciência Política e Direito Constitucional, são seus objetos de
interesse o conhecimento e compreensão das instituições do Estado, do poder legislado e
estabelecido. Enquanto o Direito Constitucional é definido como uma disciplina estática que
objetiva informar a sistematização das constituições, descrever e esclarecer ao acadêmico as
funções e atribuições dos poderes do Estado, a Ciência Política é classificada como uma
disciplina dinâmica, que fornece ao Direito Constitucional dados sobre os reflexos e investigação
das práticas e da luta pelo poder político. Na descrição de Manuel Gonçalves Ferreira Filho,
enquanto a Ciência Política é a ciência do poder, o Direito constitucional é a disciplina que
informa a organização jurídica do poder.27
Com base na correlação de ligações tão íntimas, deduz-se que a Ciência Política é um
Direito Constitucional em constante movimento, pois ela não apenas descreve como também
investiga e analisa os fenômenos e as consequências do exercício do poder. Além de descrever e
analisar, também lança mão de outros métodos das ciências sociais explicando as contradições
entre o que propõe uma constituição e a realidade existente no meio social. Assim, a Ciência
Política se habilita - amparada em juízo de fatos, e não em juízo de valor - a propor meios de
solucionar problemas sociopolíticos, o que não ocorre com o Direito em si, pois o pragmatismo
do positivismo jurídico não tem preocupação investigativa e explicativa. Enfim, como observou
o jurista R. Friede, corrente expressiva em amplitude sustenta “ser o direito, em essência, um
subsistema da Ciência Política, e não propriamente uma verdadeira ciência autônoma (...) o
direito (e a denominada ciência jurídica) nada mais seria que um instrumento para a consecução
dos objetivos primordiais da Ciência Política, ou seja, a convivência harmônica em sociedade,

27
In: Curso de Direito Constitucional, p. 17.

29
ou, em outras palavras, a manutenção da paz social (através da permanente ratificação da ordem
estabelecida)”.28
Em conclusão, por mais exaltada que seja a defesa dos valores individualistas de uma
pessoa, e por mais legítimos que sejam os seus interesses individuais, ainda assim cabe lembrar
que essa pessoa, no domínio de suas faculdades mentais, não desconhecerá que a vida em
sociedade é uma conquista superior da civilização sobre os interesses egoístas da barbárie. Nesse
sentido, pode-se afirmar que “tudo é política”, tal como era a palavra de ordem dos estudantes
rebeldes daquele "utópico", agitado, inovador, e não muito distante ano de 1968, em que
movimentos de protesto mobilizaram espetacularmente a parte ocidental do planeta, contra a
“legalidade” do autoritarismo vigente, abalando as estruturas do poder “democrático
constituído”. Aquele slogan dos contestadores da década de 1960 quase escapou ao espírito
crítico dos manifestantes brasileiros de junho de 2013, mas de tão realista quanto pragmático que
essencialmente é, foi a tempo resgatado pela banda saudável do movimento.
Por consequência, legítimo é deduzir que a própria condição de aluno em uma faculdade
até sua participação em encontros com finalidades lúdicas, de divertimento, como em um festival
de música, na balada do fim de semana, no churrasquinho da turma, enfim, uma constelação de
eventos que fazem parte das relações sociais do homem-cidadão são fatos que podem muito bem
ser classificados como atos políticos. O que dizer então do frenético e revolucionário movimento
das "redes sociais", que vem fazendo a cabeça de todas as "tribos" e "guetos", de todas as idades,
notadamente os jovens, que mais do que nunca - talvez ainda desconhecendo suas reais
potencialidades - têm a seu alcance uma ferramenta com poder ainda imensurável, capaz de
produzir transformações “copernicanas” no rígido e conservador mundo do Direito, como
também no obsoleto mundo da política. Essas redes virtuais têm se transformado em ferramenta
para mobilizações on-line, sem a tutela de instituições tradicionais como partidos ou sindicatos e
sem lideranças hierárquicas formais, arregimentando legitimidade e capazes de paralisar cidades
europeias, brasileiras, e de tirar o sono e até derrubar ditadores no até então imobilizado mundo
árabe. Na convergência de atos e fatos, tanto histórica quanto geograficamente, o que deve ser
preservado, no final das contas, é a conscientização de que, se “tudo é política”, logicamente
também “a política é tudo!”.

28
In: Curso de Ciência Política e Teoria Geral do Estado, p. 6.

30
3 - O ESTADO

Introdução
Os dados mais confiáveis informam que o primeiro Estado surgiu há pouco mais de 5.000
anos, mais precisamente em 3.100 a.C., no Egito, quando agricultores do vale do rio Nilo
começaram a se organizar em seu entorno, formando comunidades e, como decorrência, o
primeiro reino dos homens sobre a terra. Porém, há controvérsias, pois antes disso já havia
algumas aldeias formadas, como na Suméria, ou a atual cidade de Jericó, na Palestina, que surgiu
há cerca de 8.000 anos, fatos que levam alguns estudiosos a afirmar que o poder político
centralizado já existiria nessas “cidades-Estado”.
Como o homem moderno - homo sapiens sapiens -, surgiu há cerca de 100.000 anos, pode-
se concluir que o Estado não nasceu simultaneamente com a humanidade, pelo contrário, o
Estado é produto da “sapiência” humana, e mais importante que a data de sua fundação, os dados
históricos acima têm o intuito de provocar reflexão acerca das reais intenções que levaram à sua
criação, e também de estabelecer ponto de partida para qualquer construção rigorosa,
metodológica e criteriosa de uma teoria de Estado.
Mesmo as teses mais polêmicas sobre o Estado, como exemplo a de Karl Marx, que
“profetizou” seu inevitável desaparecimento, se fundamentam em bases realistas para afirmar
que, pelo menos inicialmente, foi uma invenção dos mais fortes a fim de exercer e/ou de
perpetuar seu poder, sua opressão, sobre os mais fracos, tese que, nos termos apresentados,
ninguém de boa-fé deixaria de reconhecer como a mais plausível, bastando para tanto a
lembrança de que todos os Estados primitivos tinham o “despotismo” como regime, ou seja, uma
forma de relação de dominação entre senhor (déspota) e escravos.

3.1 - Definição do termo-conceito


Entre as muitas definições clássicas do conceito de Estado, a de Karl Marx e a de Max
Weber estão entre as mais conhecidas e citadas. Marx, que não escondia sua concepção negativa
sobre o Estado, o apresentava como pura e simples “superestrutura”, um instrumento técnico de
que se serve a classe dominante para manter o seu domínio. No polo oposto do pensamento
marxiano, o filósofo grego Aristóteles e o alemão Hegel consideravam o Estado como o
responsável pela formação do homem civil. O primeiro interpretando-o como o provedor do bem
comum e o segundo considerando o Estado como um Deus terreno, o promotor da ética entre os
homens.

31
Não obstante a acepção do sociólogo liberal Max Weber ser considerada mais realista,
sua definição não chega a ser tão divergente do clássico posicionamento marxista. Para ele, tanto
quanto para Karl Marx, por razões intrínsecas, de sua própria sobrevivência, todo Estado é,
enfim, uma ditadura. Weber concordava, inclusive, com a definição do comunista Trotsky, ao
admitir que “todo Estado se fundamenta na força”, todavia cuidou de ressalvar que o recurso à
força (violência física, poder coercitivo) não é o instrumento natural e único, mas o que lhe é
específico, pois um Estado, na titularidade de sua soberania, jamais poderá delegar a qualquer
pessoa em particular ou a qualquer entidade estranha a si, o exercício do poder político (coerção).
Portanto, definiu o Estado como sendo "aquela comunidade humana que, dentro de um
determinado território, reivindica para si, de maneira bem sucedida, o monopólio da violência
física legítima". Eis, então, provavelmente, a mais conhecida, talvez a mais citada e comentada
definição do conceito de Estado, conceituação elaborada por um não menos conhecido e citado
politólogo, que foi o sociólogo alemão Max Weber. Em resumo, se comparada às mais variadas
definições, seria plausível admitir que a conceituação weberiana poderia ser consagrada como
uma síntese das mais clássicas referências quando proferiu a definição acima citada.29
Muitas outras definições - de juristas, filósofos, sociólogos e cientistas sociais em geral -,
enquanto meras definições conceituais, também atendem satisfatoriamente às necessidades do
público acadêmico. No entanto, a proposta deste texto não é a de simplesmente dar nome ao
"animal", mas também a de ampliar o debate para descrever e melhor conhecer sua estrutura e
modos de ação.
Analogicamente, presume-se que um pesquisador de biologia animal não se contentaria em
informar-se e/ou transmitir para seus discípulos que certa espécie "animal" foi definida como
Crotalus Terrificus. Por suposto, tal estudioso buscará aprofundar o máximo possível os seus
conhecimentos sobre tão temeroso membro do reino animal, a cobra Cascavel. Do mesmo modo,
o cientista social irá proceder com relação àquela outra tipologia de "monstro" - que
eventualmente assim já foi concebido por muitos - o próprio Estado.
Por se tratar de tema tão complexo quanto vasto, a proposta deste capítulo é de proceder a
uma concisa análise introdutória acerca da Teoria do Estado com a finalidade de constituir
suporte elementar de argumentação para as abordagens posteriores, aqui examinadas,
relativamente às instituições políticas e estatais.

29
Outras conhecidas definições - Kant: "a reunião de uma multidão de homens vivendo sob as leis do Direito”; G.
Del Vecchio: “o sujeito da ordem jurídica na qual se realiza a comunidade de vida de um povo"; Jellinek: "é a
corporação de um povo, assentada num determinado território e dotada de um poder originário de mando". In:
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política, p. 63 e 67.

32
Em linhas gerais, a apreciação do pensamento clássico acerca do papel do Estado é
multifacetada, embora a corrente majoritária o avalie positivamente como um instrumento capaz
de concretizar os valores mais expressivos concebidos por uma comunidade humana, buscando
sobreviver em ambiente o mais pacífico e estável possível. Se realizado o compromisso desta
aspiração, o filósofo Platão interpreta o Estado como o sujeito ativo da consolidação da suprema
vigência da justiça; Aristóteles como da materialização do bem-comum; para John Locke o
império da garantia da propriedade privada (igualdade formal/jurídica entre indivíduos livres);
para Kant a realização da liberdade e, para Hegel, a supremacia da ética como momento absoluto
do espírito humano.
Por outro lado, vozes contrastantes se levantaram para denunciar o papel opressor do
Estado, como fez Karl Marx, afirmando ser atributo do Estado puro e simples instrumento de
dominação de um grupo/classe (governantes) sobre os demais (governados). Seguindo
parcialmente o fio condutor desta linha de raciocínio, a escola do realismo político (realpolitik),
melhor representada por Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes, compreendia o Estado como um
mal, mas um mal necessário, que ao invés de ser erradicado - como previa e desejava Marx -
seria um instrumento de promoção da paz e também civilizatório, uma válvula de escape para
resgatar o homem de seu estado natural, o estado de barbárie. Ao mesmo tempo em que
apresentou o Estado como realidade inescapável, Hobbes o simbolizou na figura de um
conhecido monstro, intitulado por Leviatã, cujos traços, estampados na capa do próprio livro,
lembram a forma de um humanídeo medonho, repleto de escamas, representando cada uma
destas um súdito, que preso às escamas, recebia a proteção do Monstro que, em cada uma das
mãos empunhava armas: em u’a mão segurava a espada que simbolizava o poder político, o
poder dos homens; com a outra mão exibia um cetro, significando que também o poder divino na
terra era por ele representado. Todo esse simbolismo tinha a intenção de alertar que no Leviatã
repousava a autoridade, dotada de poderes absolutos, onipotente e onisciente, a única força
soberana possível de apaziguar e resgatar o gênero humano que, encontrado fora de seu raio de
alcance, estaria em seu mais genuíno estágio - o estado de natureza, portanto fora do Estado –
comportando-se como um lobo, um animal sem freios, traidor, sanguinário e eternamente
conflituoso.
Embora com concepções divergentes, mas positivas, na era medieval os doutores da Igreja
compreendiam ter o Estado, de certo modo, um compromisso com a redenção da humanidade.
Na obra de Santo Tomás de Aquino, as relações necessárias entre Igreja e Estado são prescritas
sob a imperiosa necessidade de perfeita sintonia, não necessariamente hierárquicas, mas
existindo a subordinação do poder terreno ao poder divino na medida em que o Estado, regulado

33
pelas leis naturais para a concretização do bem-comum, exerceria a função complementar ao
legítimo poder sobrenatural da Igreja.
Santo Agostinho, que precedeu Santo Tomás, defendeu tese quase idêntica, pois via no
poder terreno - a cidade dos homens (o Estado) - o caminho natural para chegar à cidade de
Deus, a salvação. Em outras palavras, o Estado se associava figurativamente a um “embaixador”
de Deus na terra, simbolizado por uma espada, por ele empunhada, pairando sobre a cabeça dos
maus cristãos e não-cristãos, a fim de redimi-los do pecado eterno.
Em síntese, praticamente todas as correntes ideológicas, seja a realista, a pluralista, a
elitista, a idealista, comungaram a percepção básica do Estado como um fetiche, que exerce na
consciência do indivíduo e no inconsciente coletivo uma força-tabu simbolizada pela
onipotência, por uma realidade absoluta e invencível da natureza, resultante das mais variadas
mistificações teóricas.
Sendo retratado como o monstro Leviatã ou o Deus-terreno, a despeito de ser uma criação
do homem à sua imagem e semelhança, a fé supersticiosa depositada no Estado o tem projetado
como força sobrenatural que o materializa como entidade imutável, perante a qual a humanidade
caminha de forma resignada, impotente e passiva, destituída de meios para contestar sua
supremacia, salvo raríssimas exceções.
No recém-terminado século XX, as modernas utopias despóticas que brotaram por todos
os continentes produziram uma nefasta espécie de dirigentes tais como Lênin, Stálin, Hitler, Mao
Tse-tung e outros tiranos de baixo calibre, apontados como responsáveis pelos mais variados e
escatológicos modelos de “engenharia social”. Segundo estimativas, até a década de 1980, o
Estado do século XX, em suas manipulações com a humanidade, sacrificou mais de 100 milhões
de vidas, a grande maioria composta por pessoas inocentes ou indefesas. Esse número é
considerado bastante superior à toda a soma de execuções dos milênios anteriores, desde a
criação do Estado, na antiguidade, até o fim do século XIX.
Esses fatos, dentre tantos outros semelhantes registrados pela história, recentes ou
antigos, são comprovações cabais de que o descomunal monstro/leviatã, ou deus-terreno, seja
como for, não é um caso de Ente que o ser humano precavido, racional, possa desdenhar, menos
ainda ignorar sua presença. Se o interesse e a participação dos governados na política é ínfima,
por descuido ou por deboche; se parte significativa ou a maioria esmagadora da população se
encontra alienada do processo político, pelas mais variadas motivações, a boa prudência
recomenda, no mínimo, um pouco mais de atenção com relação àquela gente que se encontra no
vértice do poder, pois se a parcela numericamente mais significativa da população não participa,
porque não gosta ou porque não quer, pelo menos deve ser consciente de que é governada pelos

34
que gostam de política e, claro, gostam de exercer e desfrutar do poder; e, sendo o caso de
inexistir limites, abusar do poder que detêm. Enfim, simpatizando ou não com o Estado, com a
política e os políticos, amando-os, deificando-os, ignorando-os, debochando seus gestos e
comportamentos - costumeiramente afetados -, a eles, então, considerações que adiante serão
apresentadas.

3.2 - Estado: elementos constitutivos


Os elementos que classicamente constituem um Estado são: território, população, povo,
nação e poder político. Em termos sintéticos, não existem grandes polêmicas acerca de suas
definições, gozando os conceitos de amplo consenso, consistindo o território em elemento
geográfico; população e povo genericamente considerados elementos materiais, especificamente
descritos como elemento humano ou demográfico, e o elemento nação também compondo o
gênero demográfico, porém sendo determinado como especificamente cultural. Por último, e
absolutamente fundamental, por se constituir em elemento específico do Estado, a essência de
sua manutenção, está o poder político, classificado como poder formal, ou simplesmente poder
soberano.
Em contraposição a essa suposta unanimidade, perdura recorrente controvérsia acerca da
conceituação de “nação” e “povo”. Enquanto elemento cultural, o conceito nação pressupõe
ideais holísticos, em que um referido agrupamento humano convive em elevado grau de
harmonia, a celebrar valores absolutos e aglutinar a totalidade da comunidade (ex: etnia, língua,
ritos, costumes, religião etc.). Contudo, não é fato raro um mesmo agrupamento nacional
transpor as fronteiras de um Estado e se fazer presente em território de outro Estado soberano, tal
como os bascos em Espanha e França e os curdos no Iraque e Turquia, além do insólito registro
de uma nações sem Estado, caso de judeus e palestinos, que por tanto tempo, como peregrinos,
acalentaram o sonho de seus Estados independentes.
É pacífico que povo, enquanto elemento constitutivo do Estado, não se confunde
naturalmente com população, haja vista que população comporta um sentido amplo, remetendo à
ideia do conjunto de todas as pessoas que vivem no Estado, incluindo estrangeiros. Em sua
contabilidade, o elemento povo, por certo, não é a soma de toda a população que habita um
Estado, porém, requer descrição analítica para atingir uma conceituação stricto sensu. E essa
definição em sentido estrito, a par de bastante rigorosa, comporta apaixonada polêmica. Em
primeiro lugar, enquanto definição sintética, o conceito povo inclui todos aqueles naturais de um
Estado que são portadores de direitos e deveres no âmbito civil, como decorrência da própria
naturalidade ou aquisição dela, como seria o caso de um estrangeiro naturalizado – ou, com

35
aquisição de cidadania, condição esta sutil, além de confusa e controvertida. Assim entendido, os
indivíduos acima qualificados, doravante partes integrantes do povo, caso vivendo em regimes
democráticos, transformam-se em “cidadãos”, titulares de direitos não apenas civis, mas também
sociais e políticos. Por outro lado, o termo carece de uma abordagem em sentido estrito (stricto
sensu), com o rigor que a conceituação demanda, integrando o elemento constitutivo povo,
somente e apenas aqueles sujeitos que forem detentores de juris civitatis e/ou de juris activae
civitatis, isto é, dos chamados direitos políticos, traduzidos como direitos de votar e de ser votado
ao mesmo tempo, respectivamente. Nesse sentido, conclui-se que, para ser membro do povo, o
indivíduo deve ser titular de uma dessas categorias de cidadania, status que não se adquire pelo
simples direito civil do jus solis e do jus sanguinis, ou seja, pela naturalidade (nascimento no
solo pátrio) e filiação (ser filho de pai e/ou mãe naturais daquele país). Nas democracias
modernas, o status de cidadania (povo) implica na aquisição de certos pré-requisitos, como
idade, educação formal, naturalidade. Entretanto, o termo-conceito povo tem origem na Roma
antiga (popolo), primeiramente na República Romana, cujo regime era democrático,
especificando aqueles homens – uma minoria – que podiam participar do processo político
votando (juris civitatis) e também podendo ser votados ao mesmo tempo (juris activae civitatis).

3.3 - Do Estado antigo ao Estado moderno


A transição do Estado antigo para o Estado moderno foi um período de longas e contínuas
rupturas operadas por intermédio do período medieval que levou o Estado antigo ao
esfacelamento e forjou lentamente a construção de uma nova ordem política. Com relação a esta
nova ordem que florescia, o italiano Nicolau Maquiavel seria aclamado como o mais brilhante
intérprete do Estado moderno em gestação. Ainda no início do século XVI, quando Maquiavel
introduziu o vocábulo Estado para substituir o vocábulo civitas, polis etc., muitos séculos já
separavam o princípio do viver bem e do bem-comum aristotélico como definição de poder
político do moderno princípio de soberania, que caracterizaria a existência de uma moderna
organização política. Os gregos da polis não lograram êxito em estabelecer o poder político da
forma modernamente conhecida, estruturando a centralização do poder, exercendo o monopólio
da função coercitiva sobre uma determinada população, mantendo um exército permanente e
profissional, dentro de um território especificamente delimitado. Essas prerrogativas começaram
a ser aplicadas um pouco mais tarde pelos romanos, ainda assim de modo um tanto incipiente
para a manutenção da indivisibilidade da soberania. O sucesso quanto à indissolubilidade foi se
consolidando a partir da assunção do novo formato de Estado - daí a origem do termo Estado
moderno - que sistematicamente colocava em prática os postulados da recente e polêmica teoria

36
conhecida como Razão de Estado, tendo por significado que na nova ordem política o poder
estatal teoricamente estaria acima de tudo e de todos, e que em razão de sua sobrevivência todos
os meios disponíveis, como ultima ratio, seriam justificáveis para atingir os fins, isto é, a
concepção de realismo autorizava, sob qualquer pretexto, a obtenção da sobrevivência da
comunidade e da integridade do Estado.
Ainda na antiguidade, no mundo oriental, com a fundação dos primeiros Estados, todas as
comunidades tinham em comum o fato de se submeterem a regimes políticos de natureza
despótica. Com embasamento nesse cabedal histórico, a fim de entender e explicar com maior
rigor metodológico os acontecimentos de seu tempo, muitos dos grandes pensadores políticos
ocidentais, desde Aristóteles e Maquiavel até Montesquieu, Hegel e Marx se puseram a estudar o
despotismo como forma de governo. Esses filósofos utilizaram os mais variados métodos de
estudo, como exemplo o método histórico, o dialético, o analítico, convencionalmente chegando
à conclusão de que o despotismo seria um regime mais apropriado para povos asiáticos, mas não
para povos europeus, pois de acordo com tais métodos, então aceitos como científicos, estaria
provado que os europeus, em razão de uma série de fatores não suportariam, isto é, não
legitimariam, a não ser depois de muita resistência, esta forma de governo.
Aristóteles, estudioso de muitas constituições, afirmava que os povos do Oriente eram
naturalmente servos e, portanto, se resignariam em submeter a regimes violentos. Maquiavel, ao
estabelecer sua teoria das formas de governo, considerava impraticável o despotismo para o
mundo ocidental convencido de que o último estágio político da Europa seria a consolidação das
repúblicas democráticas. Formulador do conhecido determinismo geográfico, Montesquieu, com
sua rica e curiosa sistematização de fatores climáticos, religiosos, físico-naturais e culturais
chegou à conclusão de que as populações do meio-dia (de clima quente, dos trópicos) estariam
mais adaptadas para suportar regimes autocráticos. Entre outras argumentações, tais regimes
seriam aceitos pelos súditos em razão da necessidade de controle da produção de alimentos das
vastas planícies, a fim de evitar que a tendência à cupidez derivada do clima da região,
desencadeasse rebeliões e convulsões sociais, com origem na indolência dos súditos. Até mesmo
Karl Marx, propagandista libertário, admitiu a necessidade de as nações orientais – também
chamadas de sociedades hidráulicas – serem colonizadas, temporariamente, pelos Estados
ocidentais. Justificava Marx que aquelas comunidades inertes só poderiam sair do imobilismo
secular em que se encontravam caso fossem objeto de impulso dos Estados europeus. A teoria
socialista de Marx que se baseia no método histórico - a dialética da história - julga o capitalismo
uma fase de transição necessária e obrigatória que todo Estado deve atingir para, mais adiante, no
processo dialético, chegar ao comunismo (uma sociedade igualitária sem Estado). Assim, a

37
Europa capitalista seria o único vetor de desenvolvimento para que as sociedades orientais
pudessem atingir o socialismo (ditadura do proletariado) e mais tarde o comunismo - a abolição
total do Estado.
Na Europa, segundo o entendimento da maioria dos pensadores clássicos, poderia
eventualmente existir regimes tirânicos, mas não despóticos, com a diferença de que as tiranias
seriam devidamente derrubadas através da insurreição popular porque povos com as
características dos europeus dificilmente iriam afiançar legitimidade para regimes de força.
Despotismo e tirania são dois conceitos que, para o senso comum, são concebidos como
sinônimos, mas na linguagem política, embora ambos estejam semanticamente associados à ideia
de regimes autoritários, comportam uma distintiva dicotomia. A distinção reside
substancialmente no sentido de que o despotismo é um regime autocrático/autoritário que tem
aceitação, obediência e consentimento (legitimidade) por parte dos governados enquanto que a
tirania, sendo também um regime autocrático/autoritário não é aceito pelos governados, portanto
não legítimo. Como ensina Maquiavel, o déspota é um rei que aceitamos e o tirano é um inimigo
do povo, cujo fim será seu próprio fim – o de ser destituído do poder.
Nos trabalhos analíticos envolvendo o Estado moderno, Maquiavel foi um dos que mais
contribuiu para sua efetiva compreensão. O modo de ação do moderno Estado foi, por séculos,
uma exclusividade das instituições políticas do Ocidente porque apenas os Estados ocidentais
foram capazes de operacionalizar os instrumentos fundamentais para se enquadrar na definição,
que o historiador Eric Hobsbawn descreveu: “em termos de geografia política, a Revolução
Francesa pôs fim à Idade Média. O típico Estado Moderno, que estivera se desenvolvendo por
vários séculos, é uma área ininterrupta e territorialmente coerente, com fronteiras claramente
definidas, governada por uma só autoridade soberana e de acordo com um só sistema
fundamental de administração e de leis”.30
Pelo visto até agora, a expressão Estado moderno, em razão do qualificativo “moderno”,
aparenta ser um tanto confusa, passível de ambígua interpretação. Em verdade, não deixa de ser
prudente alertar que todo Estado moderno deriva da velha ordem feudal e, paradoxalmente,
durante todo o seu ciclo de existência, se viu constrangido em conviver lado a lado com algumas
de suas mais arcaicas instituições, bastando lembrar que a subsistência da nobreza, ainda
gozando de nefastos privilégios, foi um dos traços mais marcantes do Estado moderno.
A despeito dessa parcial continuidade, o colapso do feudalismo foi causa e consequência
da emergência da nova organização estatal, responsável por reduzir o âmbito de influência da

30
HOBSBAWN, Eric. A Era das Revoluções, p. 106.

38
nobreza, especialmente pela revogação de seu poder jurisdicional nos feudos, culminando, em
contrapartida, com a concentração de maior atribuição de poderes políticos nas mãos do
monarca. Nesse sentido, o Estado da era moderna, ao longo de quase todo o seu tempo de
existência, foi sustentado com regimes políticos de natureza absolutista (autoritário/autocrático).
Desse modo, o significado de moderno passa a ser adotado em razão de uma variedade de
instrumentos que apenas essa modalidade de Estado soube utilizar com competência, ainda que
com gigantescos esforços, na medida em que conseguia monopolizar progressivamente a
centralização do poder, unificar o território, organizar um exército permanente, de soldados não-
mercenários, e operar gradativamente a ruptura com o poder policêntrico típico da velha ordem
feudal. A consolidação do Estado moderno foi, também, uma consequência da vitória da
afirmação do poder político sobre o poder religioso, vitória esta que teve lugar com a consoante
supremacia da realpolitik (realismo político), que em apertada síntese pode ser explicada pela
assunção do poder racional-burocrático sobre a res publica christiana.
Esse processo de formação, desenvolvimento e consolidação do Estado moderno, por se
tratar de um tema de tamanha relevância para apreciação, haja vista que esta modalidade estatal
foi imprescindível para a estruturação do Estado contemporâneo, será objeto, mais adiante, de
uma variedade de abordagens envolvendo uma seleta casta de pensadores considerados como os
principais responsáveis pela tarefa de interpretar fundamentadamente os fatos do período e, por
que não dizer, no caso de alguns, agentes não somente de previsão dos acontecimentos, mas
também de transformação social, econômica, jurídica, política. Para o caso do Estado moderno,
cuja maior especificidade reside em sua integração simultânea com o regime absolutista, sua
referência, em termos de fundamentação teórica, recai naturalmente na figura do polêmico - nem
por isso menos genial - filósofo Thomas Hobbes, cuja abordagem está localizada no capítulo
reservado para as tipologias de governo.
Como sucessor do Estado moderno, o Estado contemporâneo entra em cena a partir das
revoluções liberais burguesas, mais precisamente a partir da Revolução Francesa de 1789. Pela
maior importância de seu advento, a necessária análise de seus pressupostos, objetivos e
instituições serão empreendidas de modo específico, a seguir, iniciando por seu cânone John
Locke, e posteriormente com abordagens funcionalistas das mais relevantes de suas instituições
que foram sendo erguidas e consolidadas ao longo dos últimos dois séculos.

39
4 - AS TIPOLOGIAS DE GOVERNO

Introdução
O equacionamento da estruturação do poder político é a principal problemática que
desafia a genialidade de todo o pensamento político clássico. Este tema sempre esteve
diretamente relacionado com a questão da concentração e/ou distribuição do exercício do poder;
foi, e continua sendo, a maior preocupação dos pensadores políticos, da antiguidade até os nossos
dias, porque se refere à questão fundamental da estabilidade da polis (cidade-Estado) – ou do
Estado propriamente dito, como convencionalmente é chamado desde o começo da era
contemporânea. Desse modo, resta claro que a organização e distribuição do poder31 encontram-
se diretamente ligadas ao debate acerca da implementação desta ou daquela tipologia de governo.
O significado de estabilidade, tão polêmico quanto abstrato, refere-se à durabilidade do
poder político dos governantes e à segurança, em sentido amplo, dos governados. Da antiguidade
até o fim da era moderna, e começo da era contemporânea, se não até as primeiras décadas do
século XX, o conceito de estabilidade levava à compreensão de um significado que, de tão
simples beirava ao simplório. Estabilidade se resumia a praticamente algo que apontava à
continuidade de um governante no poder - durabilidade no cargo - e a manutenção do status quo
social (à imobilidade) característica marcante das sociedades antigas ou tradicionais. Assim, para
obter a legitimidade no poder (consentimento e obediência dos governados) bastaria que
houvesse a manutenção do ut des (reciprocidade) entre governantes e governados, isto é, o poder
continuaria sendo exercido indefinidamente à medida em que o consenso e a obediência
continuassem dirigidos ao titular do poder, recebendo os governados, em contrapartida, a
proteção ad eternum por parte do Estado.
Como será abordado adiante, nos temas mais específicos da filosofia política clássica,
restará clara a percepção de que até mesmo defensores de regimes absolutistas - por exemplo
Thomas Hobbes - compreendiam que a proteção dos governados constituía-se em obrigação do
Estado perante a comunidade estatal e, de maneira mais rigorosa ou mais flexível, essa proteção
compreendia o direito à vida, à liberdade e o acesso à propriedade (posse ou domínio) aos seus
súditos em geral.
À medida em que os estados contemporâneos foram se tornando mais complexos, em
razão da ampliação de suas funções, primeiro na fase da democracia liberal de voto censitário

31
O tema é composto por uma complexa cadeia de atribuições, que envolve prerrogativas, responsabilidades,
concentração, desconcentração, descentralização administrativa etc.

40
(séc. XIX), e mais ainda na fase atual, da “democracia de massas”, o conceito de estabilidade foi
se transformando, nos últimos 30 anos, até que, no final da década de 1970, a cada vez mais
poderosa influência do fator econômico no cenário político mundial, aprofundou de maneira
inédita a concepção do significado, adquirindo, enfim, uma reformulação do vocábulo, agora
reforçado no termo governabilidade. 32 A nova terminologia, juntamente com o termo
"globalização", varreu o mundo a partir da célebre conferência, que selou, impositivamente, o
destino de quase todo o planeta, forçando os governos, especialmente dos Estados subalternos, a
implementar as teses do neoliberalismo. Realizada na capital dos EUA, seus postulados ficaram
conhecidos como "Consenso de Washington".33
A partir da nova realidade, o contínuo movimento de ação e reação existente entre o fator
econômico e político, reacenderia o debate sobre as formas de governo, tornando-o ainda mais
acalorado, por atingir elevada importância, ao extremo de ser hoje um imprescindível
instrumento de análise da estrutura e funcionamento do Estado. Desde a antiguidade, ainda no
mundo oriental, o debate sobre a melhor e mais adequada das formas de governo a ser
implantada em um determinado Estado foi se acelerando, e neste debate os modelos propostos se
apresentam revestidos das mais variadas formatações, das mais realistas até as mais utópicas.
Deste modo, qualquer apreciação teórica minimamente objetiva acerca do assunto, envolvendo
tipologias de governo, requer, da parte do analista, um tratamento seletivo desta sensível variável
independente.
Paralelamente ao conceito de governabilidade - neologismo que ampliou o significado de
estabilidade -, já consagrado e incorporado à contemporânea linguagem política, embora com
ressalvas, notadamente pelos críticos da globalização, do neoliberalismo, o conceito de "regime
político" despontou, também, como crucial para alavancar melhor discernimento da teoria dos

32
Governabilidade, Governança e Ingovernabilidade: conceitos distintos e complementares. A governabilidade
significa a capacidade política de governar derivada da relação de legitimidade do Estado e do seu governo com a
sociedade, enquanto que governança é a capacidade financeira e administrativa, em sentido amplo, de uma
organização de implementar suas políticas. Sem governabilidade é impossível governança, mas esta pode ser muito
deficiente em situações satisfatórias de governabilidade. No conceito de governança pode se incluir a capacidade de
agregar os diversos interesses, estabelecendo-se, assim, mais uma ponte entre governança e governabilidade. Uma
boa governança aumenta a legitimidade do governo e, portanto, a governabilidade do país. In: BRESSER PEREIRA,
Luiz Carlos. A Reforma do Estado nos anos 90: lógica e mecanismo de controle. Brasília, DF: MARE, 1997.
Cadernos MARE da Reforma do Estado, 1; Ingovernabilidade: ao contrário de governabilidade, a
ingovernabilidade parece ter uma visão mais contundente, que seria “(...) a explosão de demandas, saturação da
agenda, excesso de pressões desencadeadas pelo aumento acelerado de participação, expansão desordenada do
quadro partidário, indisciplina do Congresso, o que em última análise gera paralisia decisória e perda de
credibilidade”. In: DINIZ, Eli. Crise, Reforma do Estado e Governabilidade, p. 180.
33
Expressão cunhada pelo economista John Willianson em razão do conjunto de medidas formulado por economistas
de instituições internacionais baseadas em Washington (EUA). Seu "catecismo" se fundamenta em 10 principais
determinações impostas pela ideologia neoliberal: abertura comercial, privatização de estatais, redução dos gastos
públicos, disciplina fiscal, reforma tributária, desregulamentação, estímulo aos investimentos estrangeiros diretos,
juros de mercado, câmbio de mercado e direito à propriedade intelectual.

41
governos. Em que pese a quase imperceptibilidade das diferenças entre ambos, pois seus
significados estão umbilicalmente associados, forma/tipologia de governo e regime político são
dois conceitos que, embora não antagônicos e nem incompatíveis - pelo contrário, até - pois o
segundo é complementar ao primeiro, devem ser definidos especificados previamente, a fim de
evitar as costumeiras deturpações, fruto das distorções que comumente envolvem as ideias,
símbolos e conceitos da teoria política, alçando o método científico corrompido para nada além
de sofismas de rasteira ideologia.
Como apontado anteriormente, uma tipologia de governo, na sua acepção mais primitiva,
geralmente opera com a simplicidade de um "piloto automático", particularmente nos moldes de
governos de sociedades antigas/tradicionais. Dadas as coordenadas, inevitavelmente especula-se
se haveria ali um regime político. Sem dúvida que sim, seria a resposta, mas acompanhada de
certa dificuldade de especificá-la. E o porquê? A resposta seria porque poderia, por exemplo,
tratar-se de uma monarquia como tipologia de governo, mas sem clara definição da concepção de
Estado. Nas monarquias da antiguidade, ou até mesmo medievais e da era moderna, havia, claro,
o governo de um só, em se tratando de monarquia, mas com uma miscelânea de modo de
produção, distribuição e acumulação dos bens econômicos. Nesses estados havia uma
convivência simultânea de capitalismo - embora arcaico - com socialismo e mercantilismo. Na
democracia dos antigos – tome-se o exemplo da república de Roma - igualmente havia um pouco
de tudo isso. Assim, sabe-se que a tipologia/forma de governo era a democracia, mas do regime
político pouco ou quase nada se poderia dizer, a menos que se repetisse que se tratava de
democracia. Naquela democracia havia uma mescla de liberalismo (capitalismo), um fragmento
de individualismo (também liberalismo), mas com forte dose de corporativismo/organicismo,
cujos postulados são antagônicos e antitéticos ao liberalismo, não podendo esquecer que, se há
organicismo/corporativismo, está-se falando de socialismo, por menor que seja a sua proporção.
Diferentemente, o exemplo do Estado contemporâneo, em que pese sua enorme
complexidade, ao mesmo tempo sua maior organização e controle institucional permite com
maior objetividade interpretar por linhas suficientemente claras, em geral sem risco de
equívocos, a classificação de um regime político. Exemplo: diz-se que os EUA, assim como o
Brasil, tem um regime político liberal-democrático, pois a forma de governo é a democracia e a
forma de organização social (meios de produção da economia: quem produz o quê, como produz
e para quem produz) é liberal, isto é, capitalista; de outro modo, se a economia fosse planificada,
com os meios de produção estatal/coletiva, ter-se-ia uma democracia socialista. Outro bom
exemplo seria a ditadura, que em si é uma forma de governo, também um regime político, mas
sem qualificação dificilmente se saberia com clareza em que tipo de regime político poderia ser

42
classificada tal ditadura. Tome-se o exemplo da ditadura militar brasileira (1964-1985), uma
ditadura de espécie liberal, por mais paradoxal que possa parecer, pois embora houvesse
autoritarismo político como forma de governo, havia uma simultânea composição com
liberalismo econômico (capitalismo) como concepção de sociedade (modo de produção da
economia). Como contraponto à ditadura liberal (capitalista) existem as ditaduras socialistas -
caso de Cuba e Coreia do Norte como bons exemplos remanescentes – onde se opera uma
combinação de ditadura no campo político (forma de governo) com os meios de produção
majoritariamente planejados pelo Estado, que, ao mesmo tempo, retém para si a tutela e o
controle da propriedade.
Por fim, o conceito de Forma de Estado, não objeto desta análise, trata da forma como o
poder central do Estado se relaciona com suas divisões territoriais. Caso haja baixa autonomia
política, administrativa, legislativa, o Estado será unitário; se houver ampla autonomia política,
administrativa, legislativa, será federal o Estado; e se, além de ampla autonomia administrativa,
política e legislativa, em combinação com soberania relativamente aos seus pares e ao restante da
comunidade internacional, tratar-se-á de uma confederação de estados ou Estado confederado.
Estabelecidas tais preliminares, o momento requer considerações acerca das ideias de
alguns dos principais clássicos das tipologias de governo. Pela ordem cronológica, Aristóteles se
posiciona no topo da lista.

4.1 – ARISTÓTELES

Introdução
Não seria exagero afirmar que a gênese da contemporânea teoria de Estado tem sua
origem em Aristóteles. Em qualquer obra de teoria de Estado, qualquer que seja o autor, ao longo
de sua abordagem, inevitavelmente irá se confrontar com a espinhosa tarefa de tecer a análise das
“tipologias de governo” pois, afinal de contas, o tema é considerado o ponto nevrálgico, a
discussão mais sensível que envolve a construção de uma teoria de Estado. É certo que antes de
Aristóteles o filósofo Platão já havia discorrido, de forma magistral, como de praxe, sobre
tipologias de governo. Ocorre que Platão, comprometido com seus irredutíveis ideais, não
escreveu sua obra objetivando necessariamente uma aplicação prática para ela mas, como vê a
corrente majoritária da crítica, ali estava uma obra de deleite literário, conjugada com interesse
de difundir edificantes princípios morais.

43
Em sua mais conhecida obra de teoria de Estado, A República, Platão, como os demais
pensadores clássicos, construiu uma análise sobre as instituições que considerava fundamentais
na composição do Estado. Essas instituições compreendiam desde, é claro, as formas de governo,
como também instituições importantes como legislativo, judiciário e outras da esfera que hoje
convencionalmente é mais conhecida por “sociedade civil”, como seria o caso relativo à
propriedade, à sucessão, à família, ao casamento, à religião, à educação e assim por diante.
Abordando todas essas instituições ao longo de sua obra, Platão não descuidou de duas premissas
essenciais que sustentavam seus princípios ideológicos, a questão da legalidade e da justiça. O
primeiro, de ordem formal, porque fundamental para a organização do bom governo, isto é, a
investidura do poder político ou magistratura, que só poderia ocorrer por meio do ordenamento
jurídico pré-estabelecido, portanto, somente o governo da legalidade constituiria a legitimidade
do poder. O segundo, de ordem material, portanto mais substancial, como efeito da causa
legalidade, seria a fruição da justiça, principal equação a ser resolvida n’A República, pois como
entendia Platão, a distribuição da justiça seria o principal objetivo do homem em seu convívio
comunitário. Ao conceber a justiça como o fundamento de toda a estabilidade da Polis, Platão se
envolveu em um labirinto de problemas, para cujas soluções não logrou êxito. O maior obstáculo
para tudo pode ser creditado ao seu proverbial excesso de idealismo, pois o rigor de suas ideias o
levara a formular uma tese de república (Estado) perfeita, em que ele reconheceu, talvez tarde
demais, ser impossível de realizar no mundo dos homens. Sua concepção negativa da natureza
humana contribuiu para conduzi-lo ao choque de contradições, na medida em que foi concluindo
que o significado de justiça conservaria em si um grau considerável de relativismo. Proferiu sua
definição de justiça com o vago “dar a cada um aquilo que é seu”, possivelmente conformado
diante da improvável concretude da justiça como equidade. Resignado ou não, prosseguiu
admitindo que o governo da justiça é produto de um regime de deuses, muito improvável de
ocorrer numa república de homens.
Por outro lado, Aristóteles não se convencia do método racionalista de Platão em
compreender e explicar a problemática humana – o viver em sociedade, portanto a solução para o
bom governo. Desafiador, lançou mão de sua experiência – praticamente desde o berço, por
influência do pai – como pesquisador na área de ciências naturais e exatas, a fim de oferecer
respostas concretas às indagações humanas, com base na observação, na experimentação e,
portanto, na verificabilidade. Como discípulo de Platão, as lições que Aristóteles recebeu, como
assíduo frequentador de suas aulas na Academia ao longo de vários anos, não foram em vão, pois
a influência do pensamento platônico lhe garantiu subsídios para uma sofisticada visão de
mundo, do ponto de vista antropológico. Porém, no quesito teoria política, o discípulo viria a

44
superar o mestre, enquanto formulador de uma monumental obra de política comparada, que
contribuiu decisivamente para a formação do moderno Estado ocidental, obra que se perdeu, mas
com todos os apontamentos registrados por seus discípulos, felizmente arquivados no Liceu,
escola fundada por Aristóteles, e séculos depois resgatados nas bibliotecas mouriscas da
península ibérica.
O método lógico-analítico de Aristóteles o torna o primeiro autor a elaborar uma teoria das
formas de governo de maneira rigorosa e criteriosamente sistematizada, ordenada, lógica,
metódica. Em relação aos clássicos antigos, sua formulação é considerada a de maior prestígio,
tendo sido ao longo de tantos séculos, largamente utilizada pelos teóricos da política, até os dias
atuais, como base comparativa de novas teses de teoria de Estado. Sua experiência como
pesquisador em ciências naturais garantiu-lhe privilegiada bagagem intelectual, contribuindo
decisivamente na produção de seus postulados, apesar da escassez dos instrumentos da época. A
despeito de tudo, conseguiu aplicar com rigor os métodos até então disponíveis, transportando-os
para a área de humanidades. Tangido pela obstinação de compreender e explicar a realidade de
seu tempo, o sucesso que obteve nesse empreendimento foi crucial para contemplar a
humanidade com a monumental obra A Política. Neste livro, os métodos utilizados –
quantitativo, comparativo, documental, indutivo/experimental, empírico – lhe capacitaram a
formular previsões, consequência dos estudos comparativos que envolveram mais de uma
centena de constituições, tanto históricas quanto as de seu tempo, apontando como resultado de
seus conhecimentos, os caminhos adequados para a consolidação da estabilidade social, política e
econômica, hoje notoriamente entranhadas nos Estados que comportam as instituições prescritas
por ele.
Vale lembrar que, na combinação de seu método, tanto descritivo quanto prescritivo, era
visível sua intenção de não apenas descrever as formas existentes de governo, mas também em
apontar as alternativas que se apresentassem aptas a produzir consistente estabilidade político-
social, que naquele momento estava conduzindo ao colapso o regime democrático da polis
ateniense. Sobretudo pela metodologia que desenvolvera, pôde legar à teoria clássica posterior
um valioso tesouro de técnica de pesquisa. Em razão deste legado, o filósofo Aristóteles é
celebrado pela teoria social contemporânea não apenas como o importante filósofo que foi, mas
também por ser considerado cientista político, porque os estudos por ele empreendido, baseados
na argumentação racional dos fatos e argumentos, muito contribuíram para que suas previsões se
concretizassem, como vem ocorrendo desde o final da Era Moderna e início da Contemporânea.
Sendo a investigação das tipologias de governo o alicerce para fundamentar sua teoria de
Estado, Aristóteles - do mesmo modo que Platão - em sua A Política classificou as formas de

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governo em seis, dividindo-as em três boas e três más. Entretanto, Aristóteles fez uma série de
críticas ao método de seu predecessor por considerá-lo impossível de concretização no mundo
prático, tanto que o próprio Platão admitia ser sua república um construto mental, produto de
uma concepção inteligível, racionalista, e não de uma realidade sensorial, material, do mundo das
coisas, do que deriva o adjetivo platônico, usualmente vinculado aos projetos que não têm
campo de aplicação prática, por se tratar de abstrações excessivamente idealistas e escassamente
pragmáticas, ou até utópicas segundo as concepções do senso comum. No aspecto de avaliação
comparativa de personalidade e de convicções dos dois grandes filósofos da Grécia clássica, é
digno de nota a forma como ambos são retratados no famoso afresco pintado pelo renascentista
Rafael Sanzio em exposição na biblioteca do Vaticano, intitulada A Escola de Atenas.
Encomendada pelo Papa Júlio II, Platão é apresentado com seu olhar voltado para os céus,
sugerindo seu distanciamento dos fatos mundanos e indicando o lugar de origem de todas as
coisas, enquanto que Aristóteles, em homenagem ao seu pragmatismo, aparece no quadro
observando o chão que pisa, numa clara referência às coisas terrenas, que representam o interesse
material da existência humana e, consequentemente, seu campo de interesse investigativo.

4.1.1 – As tipologias de governo segundo Aristóteles e Platão


Aristóteles apresenta as três formas boas de governo divididas em Monarquia,
Aristocracia e Politia, e as três formas más correspondentes em Tirania, Oligarquia e
Democracia. Existindo bons e maus governos, qual seria o critério de Aristóteles para distinguir
um bom governo de um mau governo? Até certo ponto, Aristóteles segue a classificação
platônica estabelecendo, em primeiro lugar, uma distinção de ordem quantitativa, relativamente a
quem governa, se um, poucos ou muitos para, em seguida, responder a questão mais substancial,
envolvendo um aspecto de ordem qualitativa, sobre como se governa, isto é, se o(s)
governante(s) exerce(m) o poder para o bem-comum ou apenas para o seu interesse pessoal.
Pela ordenação apresentada, com relação às tipologias positivas de governo, a monarquia
vem a ser o governo bom de um só, e também, a melhor de todas as tipologias; a aristocracia, o
governo bom de poucos, em segundo lugar; por fim, a politia, cujo congênere na formulação
platônica recebia a designação de democracia positiva, o governo bom de muitos.
No agrupamento dos maus governos, assim classificados por possuírem constituições
corrompidas, as três formas são: a tirania, governo mau de um só, a pior de todas as 6 formas de
governo, que é uma degeneração da monarquia; a seguir vem a oligarquia, governo ruim
exercido por poucos, a forma degenerada da aristocracia e, finalmente, a democracia negativa,

46
governo mau de muitos, que seria a tipologia degenerada correspondente à politia (democracia
positiva, no dizer de Platão), que, entretanto, é a melhor entre as piores tipologias.
Ainda no campo da avaliação qualitativa, que indaga o significado de um governo bom e
o de um governo ruim, a teoria clássica dispõe uma variedade de definições, pois a filosofia,
estreitamente vinculada a princípios morais, portanto valorativos, não deixa escapar seu incurável
vício ideológico. Começando por Platão, a base comparativa deste capítulo, a distinção seria
classificada de acordo com o modo de exercício do poder político: se há consentimento dos
governados ou se há o uso da força por parte dos governantes, isto é, se o governo existe por
meio da legalidade (governo bom) ou por meio da ilegalidade (governo mau). Já para Aristóteles,
uma forma boa de governo é aquela em que o poder político é exercido visando ao bem comum,
e uma forma má vem a ser aquela em que o poder é exercido quando o(s) governante(s) busca(m)
o interesse pessoal. Segundo ele, “A razão pela qual os indivíduos se reúnem nas cidades – isto é,
formam comunidades políticas – não é apenas a de viver em comum, mas a de ‘viver bem’”.34
Para que o objetivo da “boa vida” possa ser concretizado, é necessário que os cidadãos visem ao
interesse comum, ou em conjunto ou por intermédio dos seus governantes.35
Com base nessas explicações, segue abaixo a elaboração de um esquema da classificação
aristotélica, iniciando o ciclo de sucessão das categorias de governo com a melhor de todas as
formas (a monarquia) até chegar a pior delas - a tirania. No ponto intermediário se encontram a
politia (a pior das melhores formas) e a democracia (a melhor entre as piores).

FORMA DE GOVERNO QUEM GOVERNA COMO GOVERNA


Monarquia um só bem comum
Aristocracia poucos bem comum
Politia muitos bem comum
Democracia muitos interesse próprio
Oligarquia poucos interesse próprio
Tirania um só interesse próprio

No continuum aristotélico, conforme se vê na exposição acima e na própria definição dos


termos, monarquia e aristocracia aparecem como os melhores de todos os tipos de governo. A
preferência de Aristóteles por essa hierarquia de governos atende a uma ordem valorativa

34
Aristóteles. A Política, apud Norberto Bobbio, op. cit., p. 58.
35
BOBBIO, Norberto, op. cit., p.58.

47
combinada com uma teórica/científica. Com relação à primeira, é necessário considerar que a
própria formação clássica de Aristóteles, assim como a dos gregos de seu tempo, ocorria em
função de estreitos laços tradicionais, sendo os regimes monárquicos alvo das primeiras
preferências, com base nos feitos heroicos das lideranças guerreiras, ou demonstrações de
virtudes divinas, quando da formação das polis gregas. Assim, as primeiras dessas cidades
ergueram governos de cunho paternalista, em grego ex paterna (as monarquias), denotando que
as relações de poder desses monarcas com seus súditos mais se assemelhavam às relações entre
pais e filhos, até que em determinado momento houvesse o amadurecimento das relações entre
governante e governados atingindo, ao final, após a transição da fase aristocrática, o estágio das
tipologias ex consensu, (as democracias). De toda sorte, foram essas lideranças tradicionais ou
carismáticas – os primeiros monarcas - que retiraram das mãos de maus governantes os
primitivos governos despóticos ex delictu, para iniciar o clássico estágio da civilização política
ocidental, cujo berço vem a ser, indiscutivelmente, a Grécia antiga. Prosseguindo a classificação
hierárquica, no processo de saturação da monarquia, a melhor e ideal forma de governo, surge a
aristocracia na ordem de sucessão. É o governo de poucos, de homens sábios e justos,
incorruptíveis em tese, como adiante será avaliado. Finalmente, o ciclo dos bons governos
finaliza com a politia, simbolizada como o governo de todos ou de muitos ou da maioria.
Apesar de toda a aura de romantismo que cerca o imaginário do Aristóteles filósofo, não
se deve ignorar que a grande distinção dele para Platão vem a ser a sua predisposição, se não
obsessão, de alcançar a verdade prática. Platão, como se sabe, enxergava o mundo das ideias
abstratas como as únicas reais, sendo que os objetos do mundo não eram mais do que reflexo das
percepções abstratas, sustentando que a filosofia deveria ocupar-se apenas com o mundo
invisível aos sentidos e visível apenas ao puro pensamento. De modo contrário, Aristóteles
afirmava que a verdadeira essência estava na física, na dinâmica do mundo real das coisas,
naturais e dos seres humanos, distantes do mundo aparente e ilusório de Platão. Portanto, o
pragmatismo científico de Aristóteles o fez compreender que, sempre que necessário, o idealismo
deve ceder ao pragmatismo, pois quando se trata de um tema tão complexo como a estabilidade
política e social, afirmava que “não basta imaginar uma forma ideal, sendo imprescindível
investigar a modalidade compatível com os elementos a governar, não bastando conceber um
governo perfeito, quando o de que se trata é encontrar um governo praticável, acomodado à
índole de cada povo”36.

36
LINS, Ivan. A Política. Ediouro: São Paulo. Prefácio.

48
Nesta ordem argumentativa, pode-se admitir que Aristóteles não se contentava com o
simples fato de uma forma de governo ser aparentemente boa, como defendia Platão. Muito além
disso, demonstrava a convicção da necessidade de uma combinação de realismo em qualquer
formulação teórica, levando seu leitor a deduzir que sua concepção acerca de monarquia e
aristocracia - a priori consideradas as melhores formas de governo, por comportar forte conteúdo
idealista, porque ético - eram modelos inconsistentes para aplicabilidade ao mundo prático e real,
em função de sua vulnerabilidade. Eram avaliadas como frágeis porque eram tipologias simples
de governo e, nessa condição, não possuíam mecanismos para impor os freios necessários que
pudessem deter possíveis abusos de poder da parte dos governantes, e como tal, se degenerando
facilmente.
Com relação à manipulação teórica do termo democracia, como teria se posicionado
Aristóteles? O hoje universal uso da terminologia não foi consagrado por Aristóteles como o
governo bom de muitos. Em que pese ter considerado um governo da maioria, a democracia foi
relegada por ele ao agrupamento das demais formas corrompidas. Ao contrário da maioria dos
pensadores clássicos, Aristóteles preferiu usar um termo genérico – Politia – para designar o
governo bom de muitos, ao invés de democracia. Platão reconhece o uso do termo democracia
tanto para a forma positiva quanto para a negativa, enquanto que Aristóteles usa o vocábulo
democracia para se referir à forma negativa e o vocábulo politia como sendo a democracia
positiva.
É bem possível que Aristóteles tenha usado o termo politia de forma premeditada para
substituir democracia como uma modalidade boa de governo da maioria, pois apesar da
denominação genérica, politia – ou politeia em grego – quer dizer nada mais nada menos que
constituição, que afinal de contas era, para Aristóteles, um conceito bem restrito, significando um
governo reto, cujas decisões eram sempre direcionadas para o bem-comum, o bem-viver de todos
os cidadãos da Polis.
Assumindo um novo status, a politia como categoria de governo viria a ser o produto de
uma engenhosa elaboração constitucional. Com a teorização do termo politia, Aristóteles legou
uma das mais ricas contribuições para o debate acerca das formas de governo, por extensão, dos
regimes políticos modernos. Ao contrário de todas as outras cinco formas de governo que são
formas simples, porque apenas uma classe da sociedade vai exercer o poder político, sem
fiscalização e controle, e por isso se corrompendo, a politia não é uma forma simples, mas uma
fusão de duas formas de governo que tinha como objetivo conciliar os interesses contrastantes
dos agrupamentos sociais divergentes, automaticamente operando o controle de uma classe sobre
outra. Sendo a divergência das classes incompatíveis, a estabilidade política e social não poderia

49
ser concretizada, valendo lembrar que a estabilidade é um dos principais critérios para
estabelecer a diferença entre um bom e um mau governo. Portanto, Aristóteles argumentava ser
preciso combinar o melhor das duas classes preponderantes da polis – ricos e pobres - para que a
estabilidade fosse alcançada. A intermediação entre oligarquia (ricos) e democracia (pobres)
conduziria à criação de um governo de classe média, em que uma classe fiscalizaria a outra
evitando a corrupção. Os pobres (democracia) fiscalizariam os ricos (oligarquia) para frear sua
tendência ao abuso do poder econômico, e os ricos controlariam as massas para inibir os
excessos que seriam próprios de um governo só dos pobres. O resultado desses mecanismos de
controle, que se tornou a ideia precursora da badalada teoria conhecida por Balance of Power –
que Montesquieu chamava de Pesos e Contrapesos -, teria a força de reproduzir no conjunto
social uma vasta classe média, a classe majoritária da polis, responsável pela estabilidade tanto
social como, consequentemente, política. O ponto de equilíbrio - juste milieu - estaria
identificado nesta classe intermediária, pois para onde pendesse a classe média em uma disputa
entre os ricos e pobres remanescentes, a classe média majoritária seria o fiel da balança,
neutralizando o perigo de instabilidade política, como revoltas, revoluções e golpes de Estado.
Da convergência das classes sociais concebida por Aristóteles, resultou a tese da
mediania, signo de seu pensamento conciliador, que ele sintetizou com base em sua célebre frase
“a virtude está no meio”. Lembrando novamente que o pensador grego tinha uma predileção pela
monarquia, mas sabendo-a instável, por ser uma fórmula simples e, portanto, sem controle,
propôs esta “engenharia constitucional” por acreditar que ela seria capaz de por fim às constantes
rebeliões e conflitos que assolavam a polis grega. Essa técnica de controle alcança a era moderna
e contemporânea com formidável vitalidade, depois de transpor todos os séculos da era medieval,
apresentando-se como ponto de partida para duas das mais vibrantes discussões teóricas
posteriores: a do governo misto, que começa com o historiador Políbio – ainda na Roma antiga,
do período republicano - e a teoria da separação dos poderes com John Locke, depois ampliada
e popularizada por Montesquieu. Separação de Poderes e Governo Misto são duas das grandes
teses embrionárias que instituíram os regimes existentes ao redor do mundo ocidental: a tese da
Separação de Poderes, que forneceu consistência doutrinária ao liberalismo, e a tese do Governo
Misto, que orientou a fundamentação ideológica para a construção da moderna democracia.
Liberalismo e democracia, composição antes vista como inviável, mas posteriormente
associados, vieram a ser o fruto da engenhosa premonição de Aristóteles, concretizando o regime
que foi sendo lenta e gradualmente capilarizado ao longo de todo o século XX, e se fazendo
indiscutivelmente hegemônico neste XXI: o regime liberal democrático ou democrático-
liberal.

50
4.2 – MAQUIAVEL

Introdução
Foi como um raio em dia céu azul. Foram essas as palavras usadas por Karl Marx para
descrever o 18 Brumário37, dia em que Napoleão Bonaparte deu o golpe de Estado que abriu
caminho para se tornar imperador da França. Guardadas as proporções, não seria exagero se a
mesma frase também fosse aplicada a Maquiavel quando este veio à luz, pois este evento foi
mesmo como “um raio em dia de céu azul” em referência não ao campo da política prática, mas
da política como ciência. Até mesmo para a efervescente Florença, já habituada às inovações
revolucionárias no campo das artes e das ciências, aquele 3 de maio de 1469 haveria de dar à
gloriosa cidade mais um filho ilustre, desta vez um ícone para o mundo das letras, das ciências
sociais e, em particular, para a ciência da política.
O conjunto de sua produção teórica deixou como legado múltiplas inovações, que
começam com a introdução da palavra Estado no usa da linguagem política. Lado a lado com a
palavra Estado, que aparece logo no primeiro parágrafo de O Príncipe, Maquiavel não apenas
inova, como também revoluciona, porque depois de cerca de dois mil anos de existência de uma
teoria amplamente aceita - a clássica tripartição aristotélica das formas de governo (monarquia,
aristocracia e democracia) -, opera uma ousada ruptura com o pensamento político que
remontava à Grécia clássica. Impregnado de absoluta convicção, assegurou que “todos os
Estados que existem ou já existiram, são e foram sempre principados (monarquias) e
repúblicas”. 38 Esta afirmação, acompanhada de confirmação histórica, possui relevante
importância para toda a teoria das tipologias de governo maquiaveliana, como se verá mais
adiante. No campo da ciência política, é consensualmente reconhecido como o fundador da teoria
da Razão de Estado ou realpolitik (realismo político), importante conceituação que foi decisiva
para a justificação da definitiva separação entre Estado e Igreja e a fundamentação de outra teoria
que viria a ser um dos instrumentos imprescindíveis do moderno Estado, a soberania, que mais
tarde outros pensadores forneceram tratamento mais aprofundado, como exemplo Jean Bodin.
Fazendo uso de sua prosa clara, concisa e direta, impressionou gerações de intelectuais e
políticos; sua sagacidade deu-lhe energia para combater o misticismo que encobria a suspeita
aliança que unificava poder político e poder religioso numa sinistra “verdade”. Desferiu golpes

37
Dia e mês do ano VIII do novo calendário criado pela Revolução Francesa, equivalente ao dia 9 de novembro de
1799 do vigente calendário gregoriano.
38
Em vez da clássica tripartição em Monarquia, Aristocracia e Democracia, Maquiavel classificou as tipologias de
governo em Monarquias (principados) e Repúblicas, sendo que estas são gêneros, derivando delas duas espécies, a
República Aristocrática e a República Democrática.

51
certeiros nas relações impróprias entre Estado e Igreja, relações que fundiam promiscuamente a
ética e a moral religiosa com a política. Por conseguinte, suas análises acerca do poder e das
instituições do Estado trouxeram como resultado métodos inovadores ao ofício de investigar,
interpretar, explicar, propor e estabelecer conjecturas acerca das instituições e do Estado como
um todo.
Por se destacar como um dos mais influentes analistas e arquitetos do Estado moderno, por
desnudar a realidade dos bastidores do poder e da incessante batalha para a sua manutenção,
provou do infortúnio de não lograr sucesso em escapar da perseguição implacável daqueles que
se encontravam no vértice do poder. As elites do poder, flagradas em suas costumeiras e
dissimuladas práticas nada republicanas, receberam com contrariedade e desgosto a publicação
de O Príncipe e os Comentários. Dali em diante, Maquiavel pagou um alto preço pela própria
genialidade; pela coragem de pôr a nu os reais objetivos que perseguem os governantes, e por
desmascarar os segredos e mistérios do poder. Recusando fantasias utópicas em seus escritos,
não mais encontrou sossego, morreu execrado por todas as facções a que serviu, cortejou ou
criticou. Como se não bastasse, tanto nos círculos puritanos e pseudomoralistas era também visto
como uma espécie de gênio da maldade, um mestre demoníaco, e seu livro O Príncipe reduzido à
condição de manual de conduta para toda espécie de gângster e de celerado.
Não obstante, O Príncipe, que nem era sua principal obra de teoria de Estado, sintetizava as
aspirações do cidadão Maquiavel e toda uma geração de cidadãos que aspiravam à (re)unificação
de suas pátrias naquele ambiente conturbado de reconstrução da Europa, que buscava em todos
os aspectos – econômico, social, jurídico, político –, tal como fênix, reerguer-se das cinzas do
extinto império Romano. Na Itália, aquele momento histórico deu origem ao movimento pela
unificação, conhecido por rissorggimento. Naquela fase renascentista, cenário de profundas
transformações, estava ocorrendo a simultânea formação da moderna soberania estatal, da
expansão de Estados que se tornariam grandes potências unificadas, com poder político
centralizado, também conhecido como “Estado-nação”. Entretanto, sua pátria, a Itália de fins do
século XV e início do XVI, encontrava-se em particular contexto de instabilidade. Restava
fragmentada politicamente, ao passo que Estados como Inglaterra, França e Espanha
despontavam dos escombros do extinto Império Romano como promissoras potências, já
dominando outras nações, inclusive regiões da própria península itálica.

4.2.1 – A obra de Maquiavel: militância política e ciência política


Passados 5 séculos de sua publicação, O Príncipe, a obra mais popular de Maquiavel,
ainda é objeto de acaloradas polêmicas, inclusive de interpretações psicanalíticas. Ora entendido

52
como uma peça de sátira política, ora como a expressão de um estado de ânimo rancoroso de seu
autor, o fato é que sobre a pessoa de Maquiavel, “a maioria admite que foi um patriota
apaixonado, um democrata, um entusiasta da liberdade e O Príncipe deve ter tido por finalidade,
como Spinoza o explica com muita clareza, acautelar os homens contra o que os tiranos podem
fazer, a fim de ajudá-los a resistir a eles”.39
A despeito de todas as controvérsias apaixonadas acerca dos princípios morais da pessoa
de Maquiavel, que tantos fizeram – e curiosamente insistem fazendo – questão de denunciar, em
razão de suas considerações recheadas de cinismo, no tocante aos métodos inerentes ao
comportamento de quem exerce o poder, por ele “recomendados”, parece ser hoje fato
incontestável, porquanto já comprovado, que Maquiavel, enfim, foi efetivamente um patriota
apaixonado. Para tanto, basta observar que o desfecho de O Príncipe é uma síntese de toda a
obra, pois em seu capítulo final comprova-se com fartas evidências o comovente apelo de
Maquiavel pelo seu obsessivo desejo de libertação e reabilitação da Itália e seus tempos
gloriosos. Tanto que à família Médici, que governava sua Florença - à época uma cidade-Estado -
, Maquiavel atirou sobre seus ombros o peso de assumir na Itália as mesmas atribuições que
tiveram Moisés, Ciro e Teseu para libertar seus povos escravizados (os povos de Israel, da Pérsia
e de Atenas, respectivamente). Foi com base nesse contexto histórico, e com esse estado de
espírito que O Príncipe foi concebido. Este pequeno livro, se honestamente interpretado, será
entendido como um manifesto revolucionário; mais como um trabalho de propaganda do que
propriamente de teoria política. Nele, descobre-se um Maquiavel obcecado por encontrar um
novo líder - um condottiere - capaz de salvar a outrora gloriosa península itálica das mãos de
povos ‘bárbaros’ e torná-la tão poderosa como o fora nos tempos da República ou do Império
Romano.
Em termos de teoria política, contudo, sua obra essencial vem a ser os Comentários sobre
a Primeira Década de Tito Lívio. Nesta obra, que expõe teses e ideias vertiginosamente atuais,
revelando o perfil republicano do homem Maquiavel, o revela ao mesmo tempo distanciado dos
acontecimentos políticos de sua época, absorvendo as lições da história, a fim de apresentar sua
teoria social, instrumentalizando o método prescritivo, descritivo, explicativo e dotado de
previsões relativas aos fundamentos do Estado e dos governos possíveis, isto é, daquelas espécies
de Estado capazes de obter êxito no sentido de se manterem estáveis, duráveis e, portanto,
competentes para assegurar a sobrevivência da comunidade, além de também estarem preparados
para futuras conquistas.

39
BERLIN, Isaiah. O Problema de Maquiavel, p. 2.

53
Mesmo considerando O Príncipe uma obra panfletária, não seria prudente ignorar as
muitas inovações ali registradas. Em relação ao tradicional debate acerca das formas de governo,
Maquiavel rompeu com a clássica tripartição aristotélica afirmando, logo no início do primeiro
capítulo que “todos os estados que existem e já existiram são e foram sempre repúblicas ou
monarquias” (p. 75, Ed. UnB). Essas palavras trazem consigo uma inestimável contribuição para
a moderna teoria política uma vez que inaugura o vocábulo Estado em substituição ao que antes
era flacidamente, sem rigor conceitual, pronunciado como Polis, Res publica, Civitas, Imperium
ou Regnum. Também constitui uma inovação quantitativa e qualitativa no tocante à classificação
das formas de governo que, ao invés da tradicional tripartição, estabelece a citada bipartição em
principados (monarquias) e repúblicas.
Com o novo significado do vocábulo Estado, parece que Maquiavel estava profetizando o
importante papel que esta nova entidade que reaparece revigorada estava destinada a
desempenhar na história universal. Esta nova atribuição do papel do Estado reuniria em si, como
se provou mais tarde e nos dias atuais, uma estrutura de soberania jamais experimentada, como
Max Weber definiria mais tarde, no século XX, como “(...) aquela comunidade humana que,
dentro de um determinado território, reivindica para si, de maneira bem sucedida, o monopólio
da violência física legítima”. Este Estado, dos fins século XVI até as revoluções liberais, de
características marcadamente absolutistas, com atribuições complexas, como a de exercer a
soberania de forma una e indivisível sobre todo um território, por meio de um exército
permanente e unificado, também teria a atribuição de promover a separação entre o poder
político e o religioso.
Na esfera da filosofia política, Maquiavel tornou-se um dos promotores deste desenlace,
não sem causar polêmicas retumbantes e sofrer perseguição implacável tanto da parte do poder
político quanto da própria Igreja, por lhes ter causado tanta contrariedade por ter denunciado suas
relações promíscuas. Indiscutivelmente, foi o porta-voz que com maior eloquência defendeu a
imperativa necessidade de separação da moral pública/política com a moral individual/religiosa,
proclamando que a estabilidade e a segurança do Estado seria sempre mais sólida se e quando
este se encontrasse inteiramente entregue ao reino dos homens. No entanto, no que diz respeito à
esfera de ação do homem comum, do bom pai de família, religioso e temente a Deus, este
vínculo pertenceria a outra esfera, que não a do poder político e mundano, que seria a esfera do
poder divino e espiritual, referente ao reino dos céus. Deste modo, na esfera mundana, temporal,
política - e não a espiritual -, relativa ao poder dos homens, a “salvação” que se persegue é uma
salvação de tipo intramundana, ou seja, está relacionada à segurança, a paz e a prosperidade na
terra, “salvação” que se conquista coletivamente, isto é, pela defesa promovida pelo Estado, ao

54
proteger seus súditos, e não a salvação individual, como na religião, que é conquistada pela ação
do próprio indivíduo, que alcançaria a “graça” do Senhor.
Em se tratando de método, tanto em O Príncipe - que, como o próprio título sugere, é
basicamente uma teorização sobre principados, suas formas de conquista e preservação do poder
– como também nos Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio, o pensador florentino
adotava formulações descritivas, prescritivas, quantitativas, comparativas e históricas para
produzir compilações com dados comparativos e estabelecer, portanto, suas previsões. Por isso,
é, também, reconhecido como mestre da ciência política por suas predições, realizadas a partir do
uso de rigorosa metodologia, em que os acontecimentos previstos viriam prevalecer na ordem
política dos séculos seguintes até chegar aos dias correntes. Foi o rigor metodológico, dotado de
critérios científicos, que levou Maquiavel a ser capaz de projetar acertadamente que potências
europeias já então unificadas e soberanas, sob regimes absolutistas (Inglaterra, França, Espanha),
futuramente chegariam a ser, transitoriamente, regimes aristocráticos – como de fato chegaram
nesse estágio - e, posteriormente, todas essas monarquias iriam se transformar em regimes
democráticos, como efetivamente são hoje em dia.
O método filosófico-científico maquiaveliano se fundamentava no historicismo
(descritivo/prescritivo) para explicar os acontecimentos do presente a fim de estabelecer
previsões. Por meio dessa sistematização, Maquiavel ao observar a história afirmava que os
acontecimentos presentes seriam reflexos do passado e, também, poderiam ser repetidos no
futuro. A base dessa afirmação se assenta no fator comportamental do homem que, segundo ele,
sempre será passível de repetição, pois a natureza e as paixões humanas nunca mudam. Dessa
maneira, observando atentamente o desenrolar da história, e correlacionando os fatos presentes
com os fatos pretéritos, foi capaz de prever a formação do futuro do Estado ocidental se
amparando exatamente nos eventos históricos, que lhe forneciam significativa margem de
comprovação. Esta metodologia, presente nos “Comentários”, comprovava a essencialidade do
método historicista para desenvolver sua teoria das tipologias de governo. Neste livro, que em
grande parte é uma síntese de uma monumental obra, a “História de Roma”, escrita pelo
historiador Políbio, que descreve com estilo grandiloquente o glorioso período, ainda na
antiguidade, de mais de três séculos de democracia na República Romana, Maquiavel se apoiou
nas ocorrências históricas daquele período para demonstrar que sua teoria seria capaz de
antecipar os acontecimentos que viriam a moldar a formação política, econômica, social e
jurídica da Europa ocidental. Discorrendo singelamente sobre os princípios do historicismo,
criticou com impiedosa ironia os governantes ocidentais que, segundo ele, assistiam
passivamente à destruição de suas repúblicas por ignorarem os ensinamentos da história, culpa

55
maior da sua orgulhosa preguiça do que da ignorância e da fraqueza, assim concluindo: “O
resultado é que os que se dedicam a ler a história ficam limitados à satisfação de ver desfilar os
acontecimentos sob os olhos sem procurar imitá-los, julgando tal imitação mais do que difícil,
impossível. Como se o sol, o céu, os homens e os elementos não fossem os mesmos de outrora;
como se a sua ordem, seu rumo e seu poder tivessem sido alterados”40.
Contrastando com sua predisposição verificada n’O Príncipe, nos Comentários um
Maquiavel diferente podia ser identificado pelo distinto público leitor. Ali, não economizava
elogios à democracia, não meramente por se considerar um democrata convicto, mas por estar
convencido de sua inevitabilidade histórica, assegurando que o caminho natural da civilização
ocidental seria o da consagração das repúblicas democráticas, Ocidente em que finalmente
estariam garantidas as liberdades dos cidadãos, liberdades que só seriam consolidadas após a
necessária passagem pelo estágio inicial dos principados e das repúblicas aristocráticas, nesta
ordem. Além da convicção da inevitabilidade histórica, abordagem que exibia sistematizada
metodologia, também se percebia com muita clareza no pensamento de Maquiavel obstinada
defesa pela liberdade, postura que podia ser comprovada pela intensa repetição dessa palavra em
seu “Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio”.
Além de ter sustentado sua teoria da democracia, desenvolvida nos Comentários, cuja
inspiração era derivada na obra de Políbio, Maquiavel também descobriu nos escritos desse
historiador a pedra fundamental para desenvolver sua abordagem crítica acerca das tipologias de
governo, a Anaciclose, teoria que foi desenvolvida a partir da argumentação aristotélica pelo
historiador Políbio.
Nascido na Grécia, mais tarde migrado para Roma, Políbio desenvolveu a teoria dos
ciclos, ou Anaciclose,41 relatando a mutação das formas de governo, baseando-se nos “ciclos
históricos”, tese anteriormente abordada por Aristóteles. Repetindo a tripartição clássica das
tipologias de governo formulada por Aristóteles, e também as dividindo em boas e más, Políbio
afirmava que as formas de governo iriam se sucedendo de um ponto inicial, a monarquia, até um

40
Maquiavel. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, p.18.
41
A Anaciclose é uma teoria desenvolvida pelo historiador Políbio (séc. II a.C.) segundo a qual as formas de governo
são geradas por sucessivas elaborações e correções. O ciclo polibiano se desenvolve através da alternância de
constituições boas e más, sempre retornando ao ponto de partida. Esta concepção fatalista afirma que as
constituições são más porque são simples e, para sua correção, determina que a solução deveria ser uma combinação
das três formas clássicas – monarquia, aristocracia e democracia – para formar o governo misto, a melhor e mais
duradoura forma de governo, o que seria para os tempos atuais uma forma de equilíbrio de poderes. E enfatiza: “(...)
dessa forma, cada órgão pode ‘obstaculizar’ os outros ou ‘colaborar’ com eles, sua união é benéfica em todas as
circunstâncias, de modo que não é possível haver um Estado melhor constituído” (apud BOBBIO, Norberto,1995, p.
67, 68, 69 e 71).

56
ponto final, a oclocracia42. Entendendo que a história estaria em constante movimento, do ponto
final se chegaria novamente ao ponto inicial – a monarquia – para completar o ciclo e recomeçá-
lo. Dessa maneira, Políbio, também preocupado com a estabilidade e com a durabilidade do
poder político e, consequentemente do Estado - um traço comum entre os pensadores da política
-, enxergou na complexa, porém consistente construção do regime democrático que se
estabeleceu em Roma durante séculos. Aquela estável república, que também chamaram de
governo misto, despertou a atenção de Políbio como exemplo para complementar sua teorização
acerca da Anaciclose. A Roma republicana teve como germe o principado (monarquia), que
posteriormente desenvolvera para outra forma de governo, forma positiva, para república
aristocrática e terminando, solidamente, em outra tipologia, a república democrática.
Contudo, Políbio, em sua elaboração, seguindo a classificação de Aristóteles, descrevia as
formas de governo começando com a monarquia - forma boa – que, por ser simples, se
degenerava rapidamente em tirania (governo ruim de um só), que por sua vez se transformaria
em aristocracia (governo bom, embora simples, de poucos). Por ser uma forma simples de
governo, exercido por uma única classe, sem a fiscalização de uma outra classe, os aristocratas –
homens bons, sábios e justos – se corromperiam e transformariam o Estado num governo de
oligarcas. A oligarquia, forma corrompida da aristocracia, naturalmente estimularia o povo à
revolta, que por seu turno, conquistando o poder, estabeleceria um governo das massas, o regime
democrático. Portanto, mais uma vez, sem haver qualquer forma de controle sobre o exercício do
governo popular, o governo democrático se degeneraria para sua forma negativa - a oclocracia.
Observando naquela intermitente sucessão de governos instáveis, de pouca durabilidade,
Políbio procurou enxertar uma inovação na tese aristotélica. Percebeu que uma característica
excepcional teria sido praticada no regime democrático da República Romana. Ao contrário das
formas simples ou puras de governo como monarquia, aristocracia e democracia, o governo
democrático da República Romana continha não apenas um elemento sociológico (o povo, como
seria lógico supor), mas todos os que compunham o conjunto de uma sociedade, já complexa
para a época. Assim, o “governo misto”, denominação de Políbio para a República Romana, era
um regime que continha a mistura do povo (democracia), os plebeus da velha Roma, com a
aristocracia – traduzido em latim por senado - representando a participação dos patrícios, isto é, a

42
Oclocracia, do grego oclos, que significa multidão, massa, plebe, e corresponde bem ao nosso “governo de massa”
ou “das massas”, quando o termo massa (que é bivalente) é empregado como significado pejorativo que lhe é dado
pelos escritores reacionários (em expressões como “a rebelião das massas”, “sociedade de massa” etc.). Idem,
ibidem, p. 66.

57
nobreza, e o monarca - principado em latim -, todos exercendo parcelas de poder num governo
associado.
Esta notável organização política construída pelos romanos antigos, atraiu a curiosidade
de Maquiavel para investigar os segredos de sua formação, desenvolvimento e estabilidade.
Tanto pela condição de italiano e de admirador incondicional do período quanto pelo
pragmatismo, elegeu a obra de Políbio como marco teórico para sobre ela desenvolver sua tese,
cujo método se apoiava no historicismo, uma espécie de movimento dialético da história, em que
a verificação dos fatos (empirismo) constituía elemento crucial para todo o processo analítico
maquiaveliano. Tudo isso, apesar das aparentes tendências, sem concordar integralmente com a
tese aristotélica-polibiana.
Muito além da simples refutação da clássica tripartição aristotélica e da anaciclose
polibiana, estabeleceu uma inovadora bipartição das formas de governo, que de acordo com a
referência acima, amparado na história, ao invés das clássicas tipologias de governo - monarquia,
aristocracia e democracia –, as dividiu em monarquia (ou principado) e república. Com relação à
república, Maquiavel a subdividiu em duas categorias - a república aristocrática e a república
democrática – estimulando o observador distraído a cogitar que essa subdivisão retornaria à
tríade original, uma vez que as três tipologias aristotélicas – monarquia, aristocracia e
democracia – voltaram novamente a ser mencionadas. Desse modo, essencial é não perder de
vista a tipologia república, sua inovadora categorização, república, fundamental para a
compreensão de todo o seu pensamento político.
Ao negar a teoria polibiana dos ciclos, Maquiavel afirmava ser impossível o eterno
retorno das formas de governo ao ponto de origem sempre que o ciclo fosse completado pelas
sucessivas revoluções. À medida que um governo sucedesse a outro, em razão das disputas
internas entre as facções, seria inevitável o enfraquecimento do próprio Estado que, por suas
repetidas mudanças, consequência das intermináveis lutas internas, enfraqueceria tanto o Estado
que ele se tornaria vulnerável em determinado ponto do “ciclo”. Com isso, o mais provável
desfecho de toda a história seria a dominação e anexação daquele Estado por um Estado vizinho
mais forte e preparado. Como dizia o próprio Maquiavel, na sua costumeira linguagem
metafórica, “os súditos revoltados terminam por abrir as portas da cidade a um príncipe de
valor”.
Relativamente à essas premissas, Maquiavel reaparece com sua notória capacidade
analítica, naquele proverbial estilo inovador. Possivelmente, ninguém naquele tempo teria tido
competência para captar com igual singularidade o curso dos acontecimentos com respeito ao
desastroso destino que a história havia reservado à Itália, tendo como causa fundamental

58
exatamente as sucessivas mudanças de regimes e governos. Naquele momento de profundas
transformações históricas, tomou para si a tarefa de alertar os donos do poder sobre suas
condutas equivocadas, cuja persistência equivaleria a selar a ruína, a servidão de todo o seu povo.
Mais que os aconselhamentos, outras de suas interpretações, explicações e predições, além de
incompreendidas, fizeram de Maquiavel alvo de perseguição pessoal e execração pública.
Juntamente com a ignorância, a má-fé foi um instrumento que nomes e instituições ilustres da
Era Moderna manipularam para transformar Maquiavel e sua obra execrados. Sua exaltação das
liberdades e da democracia, em plena etapa de formação e aprofundamento do poder absoluto,
lhe granjeou especial hostilidade, e pela desconfiança que recaía sobre sua pessoa, seu banimento
do mundo dos negócios do Estado, da política em si, foi o “tributo” que recebeu dos estadistas e
das elites a quem convocava à razão; na esfera religiosa viu-se amaldiçoado, pois em suas
ponderações que eram fundamentos da estruturação do Estado em processo de modernização, ele
prescrevia enfaticamente o desenlace definitivo entre o poder político e o religioso, uma vez que
o discurso da Igreja acerca da salvação individual da alma jamais poderia se confundir com a
necessidade de salvação da comunidade sem que o recurso da violência física por parte do Estado
fosse uma regra inevitável, a fim de combater seus inimigos, tanto internos quanto externos, que
cotidianamente ameaçavam a integridade estatal e, consequentemente, a sobrevivência da
comunidade.
Sob um clima nada amistoso envolvendo o ideario maquiaveliano, sua justificativa para a
Razão de Estado, traduzida pela ética dos fins últimos, referência conceitual para aquela célebre
frase de O Príncipe, advertindo que “os fins justificam os meios”,43 foi e ainda é considerada por
“moralistas” que têm a política como deleite intelectual (aqueles que vivem para a política) como
uma afronta, principalmente aqueles que usam a política como meio de vida (os que vivem da
política). Entretanto, a despeito da frieza das considerações racionais, chocantes para a moral
puritana, a questão da Razão do Estado requer uma resposta objetiva, sem mistificações e
pirotecnias verbais: em se tratando da sobrevivência do Estado, de sua soberania, seria possível
que este abrisse mão da titularidade do monopólio do poder coercitivo, enfim, de sua ética dos
fins últimos, mesmo sabendo que se o fizesse as consequências seriam a sua própria ruína?
O mal-estar causado por proferir palavras tão diretas, induz a desconfiar daquela gente
que se sentiu tão ultrajada. Para reforçar essa ideia, basta lembrar que hoje em dia ninguém de

43
O que hoje se conhece, por meio da construção sociológica de Max Weber, como “ética dos fins últimos” ou “ética
da convicção”, a ética maquiaveliana pode ser lida no original como “...Todos veem nossa aparência, poucos sentem
o que realmente somos, e estes poucos não ousarão opor-se à maioria que tenha a majestade do Estado a defendê-la
– na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, da qual não há recurso, os fins justificam os meios”. In: O
Príncipe, cap. XVIII, p. 111.

59
bom senso ou realista seria capaz de contestá-la. Nesse sentido, a definição do conceito Estado
proferida por Max Weber, acima citada, soaria como um conforto espiritual para Maquiavel, pois
a justificativa para o uso da violência física do Estado sobre os governados, defendida pela índole
costumeiramente sóbria de Max Weber, seria um indício da seriedade de Maquiavel no seu trato
das questões de Estado. A racionalidade weberiana quanto aos fundamentos do Estado, isto é, seu
modus operandi, comungam até mesmo com o discurso de personalidades cujas ideologias se
situam muito distantes das posições político-ideológicas de Weber, como em sua famosa
conferência sobre o futuro político e a reconstrução de sua Alemanha, logo após o fim da I
Guerra mundial, quando citou o comunista Trotski, concordando com ele – apenas nesse caso –
que todo Estado, ultima ratio, é uma ditadura. A partir dessas ponderações, fica mais fácil
compreender o sentido lógico da legião de seguidores e admiradores, que nunca para de
aumentar, em torno de Maquiavel. A despeito de tudo, há que se lembrar que muitos de seus
críticos, entre eles Thomas Hobbes, tiveram em Maquiavel o precursor de ideias fundamentais
para o desenvolvimento de suas teses.
Com referência ao assunto em tela, a Razão de Estado, Maquiavel, incontestavelmente, é
o precursor deste importante teorema político. A “célula-mater” de sua teoria, pode ser
sintetizada naquela difundida máxima, mencionada acima, “os fins justificam os meios”, que
Max Weber traduziu em seu monumental ensaio, “A política como vocação” sob a expressão
“ética dos fins últimos”, ou também “ética da convicção”. Daquela máxima irradia todo o
discurso maquiaveliano acerca da necessidade de aparelhamento do Estado, torná-lo um deus ex-
machina, dotado de métodos e instrumentos imprescindíveis à garantia da manutenção da
comunidade política. Um dos mais polêmicos desses aparatos estatais, que mais fundo tocou
corações e mentes à época, teria sido o conflituoso dilema, que durou séculos, envolvendo a
separação entre Estado e Igreja (política e religião). Separação que se concretizou - apesar dos
elevados custos, e que hoje é ponto pacífico - os pilares da moderna soberania, a soberania do
Estado ocidental, traduzida na expressão que remonta à “escola” fundada por Maquiavel,
denominada de “realismo político”.
Considerada essa linha de raciocínio, a compreensão da racionalidade de Maquiavel fica
mais evidente, concorde-se ou não com ele. Quando justifica o uso da “ética dos fins últimos”, o
faz porque considera imperativa a existência de uma Razão de Estado, e como complemento à
ideia surge o questionamento de uma hipotética admissibilidade da aplicação prática da Razão de
Estado - no caso a ética dos fins últimos. Poderia ela, enfim, ser utilizada indistinta e
arbitrariamente pelo governante? A única resposta possível é não, certamente! Portanto, que não
se perca de vista o rigoroso método de Maquiavel, que como historicista não se cansava de

60
repetir que as teorias políticas não nasciam aleatória e ingenuamente da cabeça dos filósofos;
sustentava que os verdadeiros filósofos estavam com os olhos sempre voltados para a verità
effetuale, a verdade efetiva das coisas. Com isso, Maquiavel queria dizer que o príncipe
arbitrário, fútil, inábil no quesito uso da força (inimigo do povo), perderia muito rapidamente seu
posto, e logo, logo se tornaria um ex-príncipe. Tempos depois, em sua esclarecedora exposição,
Max Weber foi definitivo acerca do dilema do quantum do uso da força que deveria ser
despendido. Sustentava o sociólogo alemão que a violência física embora não seja o único
instrumento do Estado, vem a ser aquele que lhe é específico. Contudo, não deixou de concordar
com a advertência de Maquiavel, alertando que seu uso não pode se dar de modo recorrente, mas
sim esporádico, pois do contrário, incorre-se no risco de perda da legitimidade.
A esta altura da análise do pensamento maquiaveliano, é chegado o momento de abrir um
espaço para tecer convenientes considerações acerca da controversa personalidade do homem
Maquiavel, que sua dimensão espiritual, mais especificamente religiosa, vale lembrar, ele próprio
se confessava um homem temente a Deus, fato que nem deveria causar tanta perplexidade,
bastando para isso conferir nas páginas finais de O Príncipe seu comovente apelo ao Criador
quando suplica a Ele proteção à Itália no empreendimento de dar-lhe um príncipe de virtù e
libertá-la. Porém, a moral religiosa, que diz respeito a uma questão de ordem privada (a salvação
da própria alma), era para ele um assunto de ordem tão particular que jamais poderia se sobrepor
à moral política, pois a esfera que envolve a política é relativa a uma questão de ciência e não de
fé, portanto de natureza amoral e não ética, de ordem pública e não privada, em outras palavras,
o realismo político não pode deixar se levar pelos mistérios da fé e da salvação do indivíduo, pela
magia do sobrenatural e da fé, mas se conduzir pela verdade efetiva, pela racionalidade, que o
saber político convencionou chamar também por realpolitik. Esse realismo político é a razão der
ser e de existir, a Razão de Estado, o motivo pelo qual o Estado – em busca da sobrevivência
coletiva – não pode abrir mão da segurança do todo em benefício da parte (a salvação de apenas
um indivíduo daquela comunidade). Se assim fosse, as consequências seriam danosas para toda a
comunidade política, pois despido de sua soberania, o inevitável colapso do Estado
possivelmente levaria toda a sua população a se tornar submissa, escrava de um dominador que,
por sua vez, pela conduta finalística operada, alcançaria os seus fins - a soberania -, com isso não
desdenhando dos fundamentos que orientam a Razão de Estado. Por tais princípios, o realista
Maquiavel não deixaria de ignorar, como questão intrínseca de Estado, a decisiva relevância das
questões mundanas, das imutáveis paixões humanas, do poder que move e domina os homens
como meio de garantir a prosperidade, assim como a paz, e a segurança em face de outros
agrupamentos humanos, ao mesmo tempo em que não descuidava de suas convicções religiosas e

61
seu temor a Deus. O Estado, como sintetizou Norberto Bobbio, “tem as suas próprias razões que
o indivíduo desconhece”44, concluindo que ele [o Estado] “não tem um fim próprio, mas que o
seu fim coincide com os fins múltiplos dos indivíduos”45.
Na dimensão política, ainda que como manual de conduta e aconselhamento para o
governante “virtuoso”, O Príncipe é também, e não menos importante, uma idealização, um
construto analítico do arquétipo do homem apto para o exercício do poder. Para chegar ao poder
e unificar o Estado, o príncipe não pode ser um homem qualquer; necessariamente deve
preencher qualidades intrínsecas daqueles indivíduos que conquistaram vastos territórios e os
transformaram em grandes nações, como foram Guilherme da Normandia com relação à
Inglaterra, Henrique IV para a França, João de Avis para Portugal e Fernando para a Espanha,
estirpe de homens que mais tarde Hegel denominaria de indivíduos cosmo-históricos e Max
Weber classificaria de líderes ou chefes carismáticos. Para alçar a este posto, são necessárias
duas condições essenciais, em igual medida, uma de natureza intrínseca e outra extrínseca: a
virtù e a fortuna. Havendo a ausência de qualquer delas, dizia Maquiavel, a conquista não
poderia ser duradoura, pois o fator intrínseco diz respeito à personalidade do príncipe, às suas
qualidades, surgindo daí a tipologia maquiaveliana do homem de virtù, que significa o
“cavaleiro” de coragem, força e valor, capaz de enfrentar e reverter situações desfavoráveis para
conquistar o Estado, conservar o poder, garantindo-lhe estabilidade e preparando-o para
conquistas. Embora lembre que as duas premissas são necessárias em igual medida, adverte que
jamais se pode manter o Estado apenas com a fortuna; apenas com a virtù seria possível, mas sua
durabilidade, por seu turno, não seria tão duradoura. Lado a lado com a virtù, recomendava a
necessidade de proporção igual de fortuna representada pelo fator extrínseco, relativamente à
sorte, a todos os eventos fortuitos que possam concorrer favoravelmente à conquista. Sem esta
condição, portanto, o momento oportuno dificilmente ocorreria, ainda que por ali transitasse o
condottiere - o príncipe de virtù.
A composição - ou quase integração - desses dois fundamentos conceituais é substancial
para melhor compreender o momento tanto histórico quanto até mesmo psicológico que envolvia
a elaboração de O Príncipe. Objetivando lançar mais luz sobre a atuação panfletária de
Maquiavel nessa obra tão polêmica, torna-se imprescindível, em primeiro lugar, procurar
resolver uma equação, que nem é tão complexa. Para resolver o problema, basta responder
quando, onde e como estão vivendo Maquiavel e seu povo. Inegavelmente, em uma Itália

44
BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant, p. 14-15.
45
Idem, ibidem, p. 32-33.

62
dividida, com o poder fragmentado em diversas cidades-Estado, inclusive sendo dominada por
outros povos (França, Espanha), povos bárbaros, como dizia Maquiavel, em meio a uma Europa
que naquele século XVI estava se reorganizando em torno de grandes impérios. Então, nada mais
legítimo que Maquiavel, enquanto cidadão, também desejasse um destino também grandioso para
a sua outrora gloriosa Itália; que ela também se tornasse unificada e poderosa como em outros
tempos, livre da dominação estrangeira. Contudo, para que esta unificação pudesse se realizar, a
dedução lógica, como ultima ratio, caminharia, inevitavelmente, em direção ao recurso do uso da
força, isto é, usar de meios tais para alcançar os fins desejados, concretizando a tão decantada
quanto famigerada conceitualmente “ética dos fins últimos”. Depois de unificado o Estado, a
problemática da conservação, consolidação e expansão do poder, composta por uma
característica binária - estabilidade e durabilidade –, tão complexa quanto à questão da
unificação, irá exigir do governante procedimentos compatíveis com o princípio da virtù, isto é, a
capacidade que deve ter o estadista de usar de todos os meios necessários para garantir o êxito
em relação aos fins. Porém, Maquiavel ressalva que os fins só podem ser alcançados (a
estabilidade e durabilidade do Estado, consequentemente do poder) se os meios forem usados de
maneira estritamente racional, ou seja, se a “crueldade for bem empregada”, expressão esta que a
contemporaneidade traduz adequadamente por aquela frase consagrada de Max Weber: poder
coercitivo legítimo (do Estado, obviamente).
Com base nesse raciocínio, inova também quando contesta a dicotomia entre formas boas
e más de governo. Para ele, os governantes quando se degeneram, perdendo a legitimidade, não
conseguem se manter no poder. Em O Príncipe, Maquiavel explica que a figura clássica do tirano
– governante mau, com relação ao rei – não existe, pois para ele, ou se é príncipe ou não-
príncipe. Tirano seria aquele rei que se degenerou, um celerado, incapaz de aplicar bem a
crueldade; que perdeu a confiança dos súditos e foi destronado – um ex-príncipe, portanto. Neste
contexto, o princípio do êxito aparece como a base de sustentação de toda estabilidade de
qualquer forma de governo, ou seja, Maquiavel refuta a distinção aristotélico-polibiana das
formas boas e más de governo ao garantir que onde há governo por extensão haverá estabilidade;
havendo estabilidade haverá adesão dos governados e, por conseguinte, todos os meios
disponíveis podem ser usados para garantir a sobrevivência da comunidade estatal, que de acordo
com o ideário de Maquiavel seria considerado moralmente legítimo porque o vulgo – isto é, o
povo -, “se deixa sempre levar pelas aparências e pelos resultados”.46

46
In: Maquiavel, op. cit., p. 111.

63
É provável que o leitor conheça outra máxima de Maquiavel, aquela que prescreve o
“emprego da crueldade de uma só vez”. Continua ele se referindo à fase de conquista e de
manutenção do poder, devendo o remédio ser aplicado na medida certa para evitar possíveis
efeitos colaterais no “paciente”, que neste caso, seriam tanto os governantes quanto os
governados, porque como mencionado acima, a satisfação dos súditos deve ser garantida pelos
governantes ao custo de estes perderem o poder se não conseguirem a eficácia no exercício da
arte de governar. Aqui, cabe anotar que a preocupação de Maquiavel com o bem estar dos súditos
faz sentido na medida em que ele demonstra seu realismo ao afirmar que o poder só se sustenta,
em qualquer situação, se houver o consentimento da parte dos governados. O significado de
consentimento, enquanto conceito da teoria política, mais comumente substituído por
legitimidade, traduz-se como uma espécie de obediência dos governados com relação às
decisões dos governantes, consequentemente tornando essa adesão uma delegação para que os
governantes possam exercer tal “crueldade” ou, como sustentava Maquiavel, o exercício da
“crueldade bem empregada”, frase que a linguagem jurídico-constitucional moderna sagazmente
atualizou para a convencional expressão “poder coercitivo do Estado”.
Tendo como base sua argumentação realista, Maquiavel - ao contrário de Aristóteles - não
admitiu classificar a tirania como o governo mau de um só – ou a forma corrompida da
monarquia – porque de acordo com sua teoria do êxito/eficácia, não existem maus governos.
Sobre modos exorbitantes de empregar a “crueldade”, Maquiavel discorreu sobre a categoria do
despotismo, classificando-a como forma legítima de governo, apontando o mundo oriental como
o locus propício e natural para o seu florescimento, desenvolvimento e consolidação. Dando
prosseguimento à uma tradição começada com Aristóteles e levada adiante por outros filósofos,
como Montesquieu, Hegel e até Marx, Maquiavel também incorporava o preconceito de todo um
extenso período ao sustentar a premissa de que o despotismo seria um meio adequado de governo
para determinados povos - no caso os orientais -, mas não o seria para povos europeus,
considerados politicamente mais civilizados. Entre outros fatores, componentes dessas
concepções, tidas, então, como científicas, encontrava-se a teoria do “determinismo geográfico”.
No conjunto dessas ponderações, enquanto Aristóteles enxergava na Pérsia o paradigma de
Estado Oriental despótico, as conjecturas de Maquiavel tinham como estudo de caso a Turquia,
Montesquieu a China e Marx a India. No reino da Turquia, no tempo de Maquiavel, segundo ele
próprio, apenas um é livre - o Sultão - e todos os outros são seus servos, inclusive os burocratas e
auxiliares do mais alto escalão.
Na Europa, porém, o despotismo não encontraria terreno fértil para deitar raízes, pois em
sua história monárquica havia sempre uma divisão, que em regra se traduzia num balanço de

64
poder entre o monarca e a nobreza. Desta sorte, o absolutismo, termo que qualificava as
monarquias europeias, era referente apenas às relações entre o rei e seus súditos, excluindo
dessas relações a nobreza, que continuamente desfrutava de privilégios institucionais, incluindo
uma relevante influência junto àqueles súditos, fato que concorria, simultaneamente, para
contribuir com a elevação do grau de legitimidade do próprio monarca.
Neste ponto, os traços do historicismo maquiaveliano – a conjugação da teoria com os
fatos históricos – ficam mais evidentes. Como é conhecido o proverbial entusiasmo de
Maquiavel pela história de Roma, ele faz dela um instrumento útil para fundamentar e explicar
sua teoria, incluindo conjecturas acerca do futuro do Estado, alcançando, inclusive, um certo
status científico: esta Cidade (Roma), como se sabe, teve seu período inicial sob um principado
(monarquia, em grego), desenvolveu-se para república aristocrática e, mais tarde, evoluiu para
república democrática.
Após a unificação do Estado e posterior estabilidade, que invariavelmente ocorrem
quando a forma de governo é uma monarquia ou principado - pois para Maquiavel todo Estado
sempre começa com o governo de um só -, entra-se em uma fase de amadurecimento e evolução,
momento em que as forças mais organizadas que legitimam o poder conquistam espaço para nele
participar e dele usufruir (aristocracia), culminando com a formação da república aristocrática –
erigindo em Roma o Senado - e, posteriormente, atingindo a fase da república democrática, em
função da emancipação popular, que também adquire uma parcela de poder na Civitas romana.
Não se pode esquecer que todo esse processo evolutivo aconteceu com muitos conflitos, porém,
quando os plebeus conquistaram a cidadania, após muitos embates com os patrícios, todos se
beneficiaram, pois a República, que era aristocrática, se torna democrática, uma democracia que
daria àquele povo uma estabilidade de mais de 300 anos de duração.
O status científico acima apontado, envolvendo a obra de Maquiavel, encontrou na Era
Moderna sua confirmação. Em sua etapa inicial, que coincidia com o momento da produção
teórica de Maquiavel, já se podia identificar traços de repetição da história, imitando a odisséia
histórica da antiga Roma. Após a ruína dos principados no feudalismo, os novos Estados da
modernidade estavam se reorganizando em monarquias, com aqueles atributos que Maquiavel
classificou como divididas, em que o príncipe se via compelido a dividir o poder com a nobreza.
Dali em diante, os eventos que mudariam o destino de quase todo o Ocidente – não mais
presenciados por Maquiavel, que foram as revoluções burguesas – resgatariam para a história o
aristocratismo. O surgimento do Estado liberal, a despeito da permanência das monarquias, veio
a ser, na prática, nada mais nada menos, uma forma já republicana de governo, que em Roma
fora denominada de República Aristocrática.

65
A partir dessa tipologia dualista de governo - conjunção de rei (Cônsul) e aristocratas
(Senado/patrícios), também chamada de “governo misto”, e decorrido o seu período de
maturação, o destino da Europa ocidental estaria selado, considerando as projeções de
Maquiavel: seu futuro estaria atrelado à formação, ao desenvolvimento e consolidação de uma
república democrática. No processo de construção desta última fase, o povo, como o novo
protagonista da história, a partir de revoltas e rebeliões – quando não revoluções - se organizaria,
conquistando a emancipação política, ao atuar contra a forma de governo que considerava um
privilégio ilegítimo do príncipe e da nobreza. De maneira semelhante procedera o popolo romano
quando, na era antiga, assumiu sua fatia no poder, impondo um equilíbrio de forças
simultaneamente ao Cônsul (rei) e do Senado (aristocracia).
Admirador da estabilidade da democracia romana antiga, de mais de três séculos de
duração, Maquiavel inspirou-se nos acontecimentos daquele período como o melhor exemplo de
conduta para os que estão submetidos aos que governam. Aconselhava os governados, quando
oprimidos, que não se submetessem passivamente à opressão dos governantes. Por meio dessa
sua face pouco explorada, argumentava que a rebelião popular é um instrumento poderoso para o
surgimento de boas leis, pois das boas leis é que surgem os bons governos, e dos bons governos a
boa saúde (durabilidade) dos Estados.
Bem mais tarde na história, mais de dois séculos adiante, o filósofo socialista Jean-
Jacques Rousseau interpretou naqueles escritos um corajoso discurso em favor das liberdades, ao
proclamar que O Príncipe é o livro dos republicanos, porque “tratando de dar lições aos reis, ele
deu grandes (lições) aos povos”. Conclui que “Maquiavel era um homem honesto e um excelente
cidadão. Aliado, porém, à casa dos Medici, era constrangido, na opressão de sua pátria, a
disfarçar o seu amor à liberdade... (que) esse profundo político não teve até aqui senão leitores
superficiais e corrompidos”.47
A teia de idolatria envolvendo a República Romana, tecida por Maquiavel, não poderia
ser mais justa. Contudo, se a boa justiça é um fim, que seja resgatado o germe de todas essas
ideias, pois em se tratando de república e democracia, onde os princípios de pesos e contrapesos
estão presentes, o sagrado nome de Aristóteles não pode ser esquecido. Com ele aparecem as
ideias precursoras da moderna democracia, ideias convergentes tanto com o formidável aparato
que se construiu em Roma quanto com a moderna e complexa democracia que o mundo ocidental
construiu contemporaneamente.

47
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social, 6ª ed., p. 86-87.

66
Em Aristóteles, com sua tese da Politia – resultado da conjunção de duas camadas sociais
antagônicas compartilhando o poder – significando, em tese, uma fase primitiva daquela
complexa tipologia que os romanos antigos chamaram de “governo misto”, e que na
modernidade Maquiavel a descreveu e interpretou, explicando que as três camadas sociais que a
compunham, ao mesmo tempo em que se contrastavam, também exercitavam o equilíbrio de
poderes por meio da técnica de “pesos e contrapesos”. De modo semelhante ao esquema
aristotélico, que garantia a estabilidade político-social, resultando na mediania, com Maquiavel
não resta dúvida que a técnica de controle entre as partes teria sido o fator preponderante para a
sustentação da liberdade existente entre os antigos. Por isso é que Maquiavel defendia aquela
técnica com tanta paixão e ao mesmo tempo considerava imprescindível e até inexorável
eventuais reviravoltas nas relações sociopolíticas.
Sem esquecer que a estrutura social e política dos antigos era organicista, baseada num
ordenamento hierarquizado – simbolizado, portanto, por uma linha vertical - a instituição da
“separação de poderes” no Estado liberal, herdeira das tradições do governo misto, passaria a
adotar a mesma técnica de “pesos e contrapesos”. Entretanto, a partir de então, não mais
simbolizada por uma estruturação vertical, mas horizontal, cujo novo significado restará
representado pela supremacia de um ordenamento social de natureza essencialmente liberal, onde
não mais poderá vigorar a predominância do princípio de relacionamento social e político
marcados pelos privilégios de camadas ou estamentos que exerçam com exclusividade, cada uma
delas, os poderes fundamentais do Estado.
Ao invés de Cônsul, Senado e Plebe se apropriando de cada um dos poderes, como na
antiga democracia romana, nos Estados da Era Contemporânea consolidou-se o princípio do
requisito da impessoalidade, cujas normas orientadoras determinam que os poderes devem ser
separados e independentes; e os seus ocupantes, salvo prescrições legais, podem ser todos os
cidadãos de uma mesma pátria, independentemente de quaisquer prerrogativas de origem ou
marca, como etnia, raça, religião, origem social etc. Tais princípios e fundamentos todos os
Estados de Direito atuais já tornaram consagrados, como pode ser conferido na vigente
Constituição brasileira, principalmente em seus artigos mais seminais, do 1o ao 4o (Dos
Princípios Fundamentais) e do 5o ao 17 (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), que são
imprescindíveis para a estruturação dos direitos individuais, políticos e sociais.

67
4.3 - THOMAS HOBBES E JOHN LOCKE: JUSNATURALISMO E JUSPOSITIVISMO

Introdução
Todo aquele que planeja levar adiante um projeto carece de método, independente de ser
o projeto uma obra de arquitetura, arte, música, ciência ou filosofia. O método é uma ferramenta
por meio da qual um projeto pode ser levado a cabo com sucesso, pois comporta o pressuposto
de ser dotado de lógica, coerência, previsibilidade e factibilidade, a fim de demonstrar algum tipo
de conhecimento ou verdade. Na área da filosofia, no decurso do século XVIII, praticamente
todos os filósofos adotavam como método o jusnaturalismo, como os autores das duas próximas
resenhas apresentadas: Thomas Hobbes e John Locke.
Hobbes e Locke são dois dos mais conhecidos formuladores do Estado moderno, e como
abraçaram o método jusnaturalista para teorizar sobre o Estado, uma dúvida emerge ante a
adequabilidade dessa escolha, pois com a ascensão do Estado moderno, o jusnaturalismo, que
conheceu seu período de esplendor na era medieval, começou a experimentar seu declínio a partir
da modernidade, adotando como prática quase que exclusiva a aplicação do direito positivo, em
detrimento dos princípios do direito natural.
Em contraposição às teses do direito positivo (jus positivum), as características mais
difundidas do direito natural (jus naturale) se inscrevem entre aquelas que pressupõem o fato de
serem universais (podem ser verificadas em todos os lugares do universo), imutáveis (porque têm
validade perpétua, eterna) e tendo como finalidade - porque são ideais e perfeitas - a promoção
da justiça e do bem comum (o bom e o justo). De forma inversa, o direito positivo preconiza a
real eficácia das leis apenas no local em que foram criadas, podendo ser revogadas e substituídas
por outras, dependendo do interesse do legislador – povo ou príncipe. Sua finalidade, no entanto,
não é buscar o bom e o justo, mas o que é útil e necessário para a comunidade estatal naquele
momento.
Conforme seus defensores, no jusnaturalismo as leis são conhecidas por meio da razão
humana, independendo do juízo de valor de um homem em particular, ao mesmo tempo em que
destilavam críticas à paranoia legalista ou, como dizia o jusnaturalista Rousseau - que defendia a
supremacia do jusnaturalismo -, o juspositivismo existia para produzir um amontoado de leis
inúteis e ilegítimas. Em contrapartida, no século XIX, auge do juspositivismo – quando surgiu a
expressão Positivismo Jurídico – havia entre os defensores dessa corrente a interpretação de que
o Direito Natural nem direito era, não indo além de um teorema filosófico acerca do próprio
direito positivo, pois em caso de antagonismo de concepções entre as duas vertentes, sempre
deveria prevalecer o direito positivo, direito posto pelo Estado, como opinou Montesquieu, ainda

68
no século XVIII, acerca do papel dos magistrados, de taxativamente ser “o juiz a boca que
pronuncia as palavras da lei”48, complementando que nenhum magistrado deve ter a prerrogativa
de exercer qualquer fantasia legiferante, ao custo de tornar inúteis as funções do poder
legislativo.
Contemporaneamente, no Estado democrático e social, a despeito de seu monopólio do
exercício do poder jurisdicional (poder uno e indivisível de dizer o direito), interpretações
judiciais ligadas a princípios do Direito Natural eventualmente despontam, mesmo porque o
próprio direito posto pelo Estado prevê que, em caso de lacuna na lei escrita, por omissão do
legislador, e estando o juiz vinculado (obrigado) à análise do caso concreto – princípio
constitucional da inafastabilidade 49 -, dois dispositivos legais associados aos postulados do
jusnaturalismo devem ser levados em consideração a fim de atender a função social do Estado,
quais sejam os costumes e o bem comum, art. 4º e 5º, respectivamente, da Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro
No plano filosófico, em maior escala na parte ocidental do planeta, as mais variadas
correntes ideológicas, como o socialismo, a social-democracia e até o liberalismo social, por
distintas razões – como o primado da justiça, da equidade, do racionalismo, da ética
religiosa/cristã -, mantêm o espírito de luta pela inserção do Direito Natural como norma mas,
curiosamente, demonstram resignação de que essa possibilidade só é possível de efetivação
dentro do ordenamento jurídico positivado, obedecendo à devida formalização do processo
legislativo, que o poder soberano do Estado reivindica imperativamente. E nesse terreno, soa
surpreendente a convergência da posição de Locke com relação à de Hobbes, que, ao final das
contas, inscreve o patrono do liberalismo nas fileiras do juspositivismo por sua defesa da função
privativa do Estado na produção das leis, exemplo que indica haver um falso dilema quando as
controvérsias entre jusnaturalismo e juspositivismo extrapolam o limite do bom senso.

4.3.1 - THOMAS HOBBES


Indiscutivelmente, o filósofo inglês Thomas Hobbes faria parte de qualquer seleção de
pensadores que marcaram a odisseia da teoria política universal. Viveu em um dos períodos mais
decisivos, porquanto não menos conturbados da história de seu país. Quando iniciou sua
produção teórica, na primeira metade do século XVII, a Inglaterra estava começando uma longa
jornada de conflitos internos que durariam cerca de meio século. A dinastia Stuart, pró-

48
Montesquieu. O Espírito das Leis, p. 193.
49
CF/88, art. 5o, Inciso XXXV: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito”.

69
anglicanismo, havia recentemente chegado ao poder, substituindo a dinastia Tudor, já que a
rainha Isabel I, desta dinastia, não deixara herdeiro à sucessão. Portanto, após várias décadas de
prosperidade sob a dinastia Tudor, ao longo da segunda metade do século XVI - especialmente
com a própria Isabel I, puritana fervorosa -, parte significativa da população da Inglaterra se
encontrava em estado de perplexidade, temerosa da possibilidade de imposição do anglicanismo
sobre os puritanos e de sua influência no novo governo da nação.
Além de espectador privilegiado dos acontecimentos, porque burocrata da nova dinastia,
Thomas Hobbes não apenas apoiou o novo regime, como também enxergou nos acontecimentos
providencial fundamentação para justificar sua teoria, visando dar sustentação científica àqueles
fatos, partindo de suas teses absolutistas; mutatis mutandis, fez uso do próprio martírio por que
passava a Inglaterra, com seus conflitos internos, tomando-a como estudo de caso a fim de
justificar a validade de sua “ciência política”, como ele definia sua filosofia.
Mais que defensor do absolutismo em si, Hobbes adotou as teses do absolutismo de base
religiosa, elaboradas pelo rei Jaime I, amplamente difundidas desde os tempos em que o novo
monarca da Inglaterra era o soberano da Escócia, apesar da fama de ateu que sempre
acompanhou Hobbes, e que ele não se preocupava em desmentir. Buscando unir o útil ao
agradável, não foi por outro motivo que Hobbes imaginou no Leviatã um decalque do próprio
Estado, a fim de justificar sua integração com a Igreja submetendo-a e, por fim, submeter todos
os súditos. É nesse sentido que o Leviatã, que intitula sua obra, foi simbolizado como um
monstro bíblico, que no livro de Isaías representa o paganismo. E foi essa a exata direção que
Hobbes imprimiu a toda essa parafernália simbólica entre Monstro e Estado, pois seu objetivo era
demonstrar que acima de qualquer outro tipo de poder, despontava a supremacia expressa pelo
poder soberano do Estado. Soberania pagã e temporal, ainda que sua ética oportunista prometesse
prerrogativas vãs ao poder religioso, com o específico interesse de atrair para a órbita do poder
mundano (do soberano, portanto) a legitimação dos súditos e, por extensão, da Igreja,
reafirmando, enfim, que o monstro Leviatã, por ser soberano, controlava todos os movimentos de
seus súditos.
Apesar de ter defendido a subordinação do poder religioso ao poder político, ainda assim
Hobbes foi bastante pragmático ao discorrer longamente sobre a conveniente coabitação dessas
duas potências como meio adequado de legitimação do poder. Entendia que a religião deveria
estar resumida à uma forma de prestação de serviço ao Estado, uma vez que os propósitos de
Igreja e Estado eram convergentes (a busca da paz, da harmonia, do bem-comum), com a
distinção de que o poder soberano se exercia na terra, e o poder soberano de Deus se
concretizando apenas no plano espiritual.

70
Em seu Leviatã (1651), a todo momento pode ser comprovada sua obstinação em
justificar a soberania e sua única forma de exercê-la: com poderes absolutos e indivisíveis. Além
da obstinação, podem ser comprovados os argumentos bastante realistas e a imperturbável
insistência do filósofo no sentido de dar fundamentação ao absolutismo. Acima de tudo, sua
maior preocupação ideológica girava em torno da obtenção, conservação e ampliação da
soberania, conceito que a teoria política da época passou a tratar com maior precaução, pois os
fatos históricos estavam comprovando ao novo tipo de Estado sua imprescindibilidade para a
sobrevivência de toda e qualquer nação, tornando-se, por extensão, um conceito paradigma do
momento.
Especificamente sobre o conceito soberania, o filósofo francês Jean Bodin é tido como
seu primeiro importante formulador, muito embora a terminologia já estivesse há algum tempo
amplamente difundida nos círculos mais letrados – privilégio de poucos na Europa de então.
Bodin entendia que o Estado para ser soberano só poderia sê-lo a partir do monopólio de um
eficaz instrumento, que lhe garantisse, após a fase de conquista, a preservação e possível
expansão do poder: o regime absolutista. Atente-se que Bodin e Hobbes foram contemporâneos
da problemática de uma mesma etapa histórica, que foi o esfacelamento do feudalismo e a
preocupação de reconstrução da ordem, cujas convicções da época viam no Estado moderno, de
estrutura absolutista, a única saída para a recomposição da estabilidade social. Portanto, os
defensores do absolutismo não formavam uma corrente como produto de fantasiosa especulação
teorética, como se fosse obra de paranóicos. Seu advento não se deu por puro exercício de
especulação metafísica, não sendo exagero afirmar que o ambiente da época, até mesmo no
campo das relações internacionais, se assemelhava bastante com o próprio estado de natureza
descrito na teoria jusnaturalista de Hobbes – a guerra de todos contra todos. No campo
geopolítico europeu, a recente decomposição dos reinos feudais deixava como herança um
sistema político de formato anárquico, bem parecido com o estado de natureza descrito por
Hobbes. Prova disso era a crua realidade daquele momento histórico, em que todas as potências
europeias estiveram/estavam envolvidas em articulações para celebrar o famoso Tratado de Paz
da Westfália, que colocaria ponto final à exaustiva Guerra dos Trinta Anos, que assolou todo o
Continente.
A despeito dos termos daquele tratado, que sugeriam a segurança até mesmo para
pequenas nações europeias, o medo e a desconfiança afetariam todas as potências que, por
precaução, não mediriam esforços para se armar, não apenas com interesses expansionistas como
também para sua própria defesa externa. Nesse ambiente, os mecanismos para atingir a mais

71
sólida soberania foram perseguidos por todos os estudiosos e, entre eles, Thomas Hobbes se
tornaria um ícone.
Hobbes, em autobiografia, confessou o pavor da possibilidade de conviver em uma
sociedade sob o clima de caos e anarquia. Despiu-se de escrúpulos ao afirmar que sua mãe havia
parido gêmeos - ele e o medo. Seu conservadorismo – para os críticos, evidente paranoia –,
paradoxalmente colaboraria positivamente no sentido de produzir, para aquele momento, e em
termos didáticos, uma das mais completas e sólidas teorias de Estado de todos os tempos.
Com base em seu método teórico, o jusnaturalismo, sua interpretação sobre o estado de
natureza, definido como uma situação de guerra total, o levaria a defender a existência inexorável
do Estado, que teria como finalidade a consagração da paz e segurança a todos os súditos. Para
que o Estado alcançasse este objetivo, antes de tudo deveria existir um poder soberano; e a
soberania para existir, deveria ser dotada de certas qualificações que, primeiramente, pressupõem
o exercício do poder de forma concentrada, devendo este recair, preferencialmente, em uma só
pessoa.50 Além da concentração, o exercício do poder teria que ser ilimitado, não podendo ser
dividido. Assim, a autoridade - o próprio soberano - exerceria ao mesmo tempo todas as funções
fundamentais de poder (executivo, legislativo e judiciário).
Quando se afirma que o poder deve ser exercido preferencialmente por uma só pessoa,
implicitamente interpreta-se que a pluralidade no exercício da soberania também é possível.
Tangido pelas contingências históricas, Hobbes admitia a hipótese de compartilhar o cachimbo
da paz com a burguesia, classe social que desde o século anterior já se instalara solidamente na
titularidade da câmara baixa do parlamento britânico e que, pelas suas convicções e estágio de
avanço social e político, certamente não estaria mais disposta em retroceder historicamente; ou
seja, a burguesia não cogitava em legitimar os devaneios de uma monarquia que reivindicava
obediência dos súditos com base no “poder divino de Deus”. Pragmático, Hobbes não ignorava a
possibilidade de completa derrocada da monarquia, caso esta insistisse radicalmente em seu
projeto absolutista. Nessa parte, flexibilizou seu discurso absolutista ao admitir que a soberania
poderia se sustentar ainda que fosse exercida por meio de um colegiado - no caso o parlamento -
desde que o compartilhamento do poder não significasse qualquer divisão de poder, pois um vez

50
Hobbes admitia que o poder soberano pudesse ser concentrado, também, em um pequeno grupo de pessoas
(colegiado), desde que os poderes do Estado (p.ex.: executivo, legislativo e judiciário) fossem exercidos
conjuntamente por todos. Não admitia a divisão da atribuição dos poderes (separação de poderes) porque, segundo
ele, a separação dividia o Estado, e um Estado dividido não seria soberano e, não sendo soberano, imperaria a
anarquia; onde a anarquia impera, outro Estado mais forte e organizado (soberano) estaria - recorrendo à linguagem
darwinista - apto a dominar aquele Estado anárquico.

72
dividido o poder, estaria dividido também o Estado, e dividido o Estado, a soberania deixaria de
existir.
Sua estruturação sofisticada, coerente, porquanto bem fundamentada, despertaram reação
indignada da oposição ao absolutismo, tanto do campo político quanto no meio religioso, em que
pese não ter sido o primeiro formulador das teses absolutistas. Ao contrário do que sucedera com
Jean Bodin, em cuja pátria sua teoria do absolutismo fora bem recebida - mesmo porque, na
França, o absolutismo já desfrutava de avançada legitimidade -, na Inglaterra, ao contrário, desde
a conquista por Guilherme da Normandia, no ano de 1066, nunca se registrou períodos de
pacífico acolhimento desse modelo de regime, pois o tradicional vigor do sistema de Common
Law, sempre foi um empecilho à quaisquer pretensões despóticas, haja vista o constrangimento
sofrido pelo rei João Sem Terra, pouco tempo depois, em 1215, ao ser constrangido a sancionar a
Magna Carta.
Além de Hobbes e outros formuladores das doutrinas do absolutismo, como mencionado
acima, Bodin é um dos cânones dessa corrente filosófica, ainda que seu modelo de absolutismo
não defendesse teses tão extremadas quanto foram as de Hobbes. Em sua obra De la République,
editada quase um século antes de O Leviatã, Bodin recomendava que o absolutismo deveria se
concentrar apenas na esfera política ou pública, havendo na esfera civil, relativa aos assuntos
particulares dos súditos, a garantia de direitos naturais e divinos assegurados pelo Estado,
justificando que as leis da natureza teriam sido criadas por Deus e não pelo homem, portanto
anteriores à existência do próprio Estado, não dotando o Soberano de poderes para violá-las,
obrigando-o, por conseguinte, a guardar obediência pessoal quanto a elas. Com relação às leis do
Estado, Bodin admitia que o soberano tem ilimitados poderes para editá-las, pois de acordo com
seu entendimento “a primeira marca do príncipe soberano é o poder de dar leis a todos em geral,
e a cada um em particular. Mas isso não basta, e é necessário acrescentar: sem o consentimento
de maior nem igual nem menor que ele”. 51
No sentido de atualizar a exposição dessa síntese ideológica sobre Bodin, seria proveitoso
exercitar uma transposição temporal e geográfica para melhor apreender suas concepções.
Tomando-se como exemplo histórico a Ditadura Militar brasileira (1964-1985), resguardadas as
devidas particularidades, como exemplo o fato de se tratar de uma ditadura laica, de conteúdo
não religioso, além da sutileza da terminologia ditadura que, rigorosamente, não tem o sentido
exato de absolutismo, a ditadura brasileira seria um exemplo de regime que se encaixaria
adequadamente no modelo bodiniano, pois o exercício do poder arbitrário do regime militar

51
BODIN, Jean. De la République, apud Lebrun, Gérard. In: O que é poder, p. 28.

73
restringia-se basicamente à esfera política/estatal, prevalecendo na esfera econômica/privada uma
espécie bem razoável de liberalismo.
Em Hobbes, percebe-se uma defesa deliberada de potencialização do absolutismo, já que
defendia a interferência do monarca tanto na ordem política quanto na esfera privada. Repetindo
com Hobbes a abstração realizada com Bodin, a fim de distinguir em espécie a posição de ambos
os pensadores dentro da vertente absolutista, o modelo de absolutismo defendido por Hobbes se
aproxima significativamente, em termos de século XX, de um daqueles regimes totalitários que
foram praticados na ex-URSS, China, Cuba, cujas características estruturais foram a ingerência
ilimitada do aparelho estatal em todos os setores da vida nacional, tanto na esfera privada quanto
na pública. De modo contrário, não seria absurdo afirmar que Bodin não comungaria com o
totalitarismo, pois não concordava com a total ingerência do poder, justificando que a conduta
autocrática deveria subsistir apenas no campo político, fato que contribuiria para categorizar a
tipologia bodiniana de regime apenas como autoritarismo, não atingindo, pois, as portas do
totalitarismo.
Quanto ao absolutismo, cumpre necessário esgotar sua definição no campo temporal. Em
termos gerais, o absolutismo se insere historicamente dentro do Estado moderno, ou melhor, com
a afirmação do absolutismo o Estado passaria a receber a denominação de moderno. Desse modo,
a ascensão e afirmação do absolutismo na Europa conduziu o feudalismo ao colapso, gerando,
por consequência, a extinção da Era Medieval. Tendo em mente esta explanação, melhor
conceituação do polêmico significado “moderno” atribuído ao Estado do período absolutista
poderia ser sistematizada, pois de forma contrária, restaria evidente contradição e automático
questionamento: se o poder está concentrado em basicamente uma pessoa, que o exerce de forma
concentrada e absoluta (poderes indivisíveis e ilimitados), por que considerar toda esta estrutura
política monopolizada pelo Leviatã como Estado moderno? A resposta, ainda que esgotada
parcialmente, já fora encaminhada no capítulo 3 (O Estado), com a exposição de características
gerais, relativamente a algumas especificidades que os aparelhos estatais anteriores (medievais e
antigos), por mais sofisticados que fossem em alguns aspectos - e.g., as polis gregas, a República
Romana, o Império Romano - não conseguiram monopolizar com eficácia, como a unificação do
território, a centralização do poder, a existência de um exército profissional e permanente, e a
criação de uma administração pública burocrática (racional). No entanto, a mais essencial de
todas as características fundadoras da era moderna surgiu com a emergência das monarquias
absolutistas. Sua afirmação ocorreu com o colapso do modelo feudal em termos políticos,
embora persistindo o tradicional esquema de dominação agrária - da nobreza sobre os servos. Na
nova ordem, o absolutismo do monarca imprimia um novo tipo de administração pública – a

74
administração burocrática – confiscando da nobreza feudal os tradicionais poderes jurisdicionais
e políticos que exerciam autocraticamente nos feudos, tornando-os, a partir de então,
funcionários da administração do reino.
Não obstante a uniformização do conceito de absolutismo, não é desnecessário alertar que
esta uniformização foi meramente conceitual, uma vez que é de conhecimento universal que
houve clara distinção no processo de formação e consolidação do absolutismo na Europa
ocidental e na Europa oriental. Mesmo no interior do espaço ocidental da Europa, a formação do
absolutismo foi bastante assimétrica, constituindo os casos de França e Inglaterra os mais
ilustrativos.
É precisamente neste vácuo de incertezas que emerge a atuação de Thomas Hobbes.
Indignado com as articulações da burguesia, com sua desenvoltura reivindicatória buscando
conquistar e consolidar mais direitos, Hobbes contestava as demandas burguesas, argumentando
razoavelmente ao afirmar que não havia mais absolutismo na Inglaterra - especialmente se
comparado ao rigoroso absolutismo que vigorava na França52, a outra grande potência europeia –
uma vez que a burguesia já desfrutava ali de prerrogativas e privilégios consolidados no
parlamento britânico. Ao mesmo tempo, sua argumentação sofista exalava cinismo ao tomar
partido no duelo que envolvia o monarca e a burguesia, pois fazia vistas grossas quando do
comportamento do rei em suas maquinações visando à restauração do velho absolutismo, além de
defender o retorno das concessões de privilégios de religião nas instituições do Estado.
A despeito de tudo isso, a consistência dos argumentos de Thomas Hobbes parece ter sido
suficiente para elevar a temperatura dos conflitos. Como principal pensador e defensor do
absolutismo, suas teses causaram um novo, e por que não dizer, revolucionário modo de
conceber o Estado. Isto porque Hobbes teria sido, senão o primeiro, no mínimo um dos
precursores a contrariar toda a lógica aristotélica ao detectar a natureza individualista do homem,
isto é, o ser humano com suas carências e necessidades particulares, negando a existência do
caráter comunitarista inato do homem, como foi pregado por Aristóteles e difundido por muitos
de seus seguidores ao longo dos séculos.

52
O rei Luis XV, em 1766, ao ser interpelado pelo parlamento da França, quanto à extensão de seus poderes, assim
respondeu-lhe: “É somente na minha pessoa que reside o poder soberano... é somente de mim que os meus tribunais
recebem a sua existência e a sua autoridade; a plenitude desta autoridade, que eles não exercem senão em meu nome,
permanece sempre em mim, e o seu uso nunca pode ser contra mim voltado; é unicamente a mim que pertence o
poder legislativo, sem dependência e sem partilha; é somente por minha autoridade que os funcionários dos meus
tribunais procedem, não à formação, mas ao registro, à publicação, à execução da lei, e que lhes é permitido advertir-
me o que é do dever de todos os úteis conselheiros; toda a ordem pública emana de mim, e os direitos e interesses da
nação, de que se pretende ousar fazer um corpo separado do Monarca, estão necessariamente unidos com os meus e
repousam inteiramente nas minhas mãos”. In: FREITAS, Gustavo de. 900 Textos e Documentos de História, pp.
201 e 202. Lisboa: Ed. Plátano, 1977, vol. II.

75
Aristóteles, afirmava ser o homem um animal social por excelência, naturalmente um
animal político - zoom politikós - e, portanto, sendo por natureza sociável; a sociedade seria um
construto anterior ao indivíduo, uma realidade natural e não uma criação artificial, como um
pouco mais tarde irão defender os liberais modernos.
Em uma organização social aristotélica, os homens vivem em regime estritamente
comunitário, holístico e harmônico, não existindo o homem-indivíduo, recebendo, portanto, a
denominação sociológica de comunidade. Num modelo organizacional comunitarista, via de
regra, o homem se encontra submetido a alguma espécie de ordem coletivista (p.ex.: a religião da
cidade/polis ou do Estado sendo comum e imposta a todos; a língua, os rituais, o modo de
produção, de distribuição das riquezas também de natureza coletivista), privado de recursos para
se tornar autônomo e limitado na capacidade de usufruir livremente de pretensa condição de
indivíduo. Ao contrário de comunidade, em um agrupamento humano denominado de sociedade,
cujo conceito específico remete à formas modernas de organização social – liberal/capitalista –, a
forma de ordenamento social que impera é majoritariamente individualista (liberalismo),
prevalecendo os interesses particulares sobre os coletivos. Resumindo, Aristóteles queria dizer
que o homem é um ser gregário, constituindo a cidade, portanto, (polis) seu berço natural; e, na
sua condição de cidadão, a polis era concebida como o habitat natural de convivência daqueles
homens (politís), impossibilitando, em razão de toda aquela estrutura montada, qualquer hipótese
de desenlace entre homem e cidade.
Na conceituação aristotélica, a correlação entre homem e comunidade conduz à
compreensão de que o todo (a comunidade) se coloca como anterior às partes (indivíduos),
sendo coerente deduzir que o todo é um corpo - ou um organismo - e que o indivíduo, como
parte do corpo, não pode sobreviver fora do organismo. Em outras palavras, convencionou-se
denominar, em termos sociológicos, toda organização social como aristotélica, logo
comunitarista e portanto corporativista (relativo a corpo) ou organicista (relativo a organismo).
Desse modo, essa tese de Aristóteles, que perdurou por séculos, começaria, curiosamente,
a ruir pelas mãos de Hobbes. Curiosamente porque, ao final das contas, o modelo de Estado
teorizado e defendido por Hobbes é estruturalmente comunitarista, entretanto o comunitarismo
no Estado hobbesiano estará inteiramente subordinado à autoridade do monarca, que exerce
absolutamente a soberania, diversamente do modelo comunitário proposto por Aristóteles, que
não compartilhava a ideia de exercício despótico do poder. Com efeito, Thomas Hobbes refutava
a afirmação aristotélica de ser o homem/indivíduo um animal social e naturalmente político
porque assegurava ser intrínseco do ser humano sua tendência de ser ao mesmo tempo a-social e
apolítico.

76
Como filósofo filiado à corrente do jusnaturalismo (Escola do Direito Natural), Hobbes,
como os demais adeptos dessa doutrina, também desenvolveu sua trinomia teórica,
compreendendo o estado de natureza, classificado como o primeiro estágio de toda teoria
jusnaturalista do Estado, fase da humanidade que precedeu à formação do Estado propriamente
dita, que por sua vez tem como fase intermediária a teoria do contrato social. De modo que essa
trinca – estado de natureza, contrato social e Estado civil/político, nessa ordem – é um processo
metodológico inerente a qualquer teoria jusnaturalista, independente da posição ideológica
adotada pelo doutrinador jusnaturalista. Assim, a fundamentação do estado de natureza é uma
tese que descreve e analisa a condição de vida do homem anterior ao surgimento do Estado
(político/civil), tratando-se, portanto, de um estágio em que a sociedade ainda não existe. No
entanto, é importante ressaltar que cada pensador, objetivando encadear logicamente sua teoria,
como meio de fundamentar sua tipologia de Estado, tem uma visão ideologicamente particular do
estado de natureza.
No caso de Hobbes, sua descrição do estado de natureza consistia mais em uma situação
hipotética do que propriamente uma realidade. Aliás, entre os contratualistas firmou-se um
consenso procedimental para não perder muito tempo procurando registros de ter o homem
realmente vivido ou não no estado de natureza, pois de acordo com eles, não havia necessidade
de rigorosa comprovação; para eles, bastaria a imaginação de qualquer um de como seria, de
como viveria o homem fora da sociedade. Para Hobbes, que não queria ir muito longe, a
Inglaterra de seu tempo, mergulhada em guerras civis intermináveis, pela ilegítima contestação
do poder autocrático dos reis do período, oferecia aos estudiosos o mais acabado exemplo de
estado de natureza.
Segundo Hobbes, no estado de natureza o homem vivia em seu mais natural estado. Por ser
inescrupuloso, as entranhas da natureza humana estariam expostas à visita de qualquer um. Em
sua concepção, o homem era naturalmente corrupto, traidor, egoísta. Então o homem se
encontrava em estágio de conflito constante com seus semelhantes, em uma guerra de todos
contra todos (bellum omnium contra omnes), resumida em sua célebre máxima que diz: “o
homem é o lobo do homem”.
Portanto, basicamente todas as beligerâncias existentes no estado de natureza tinham
como causa a disputa pela propriedade. Mas, como no estado de natureza ainda não havia o
Estado político, não poderia, por sua vez, existir a segurança de desfrutar em liberdade a
propriedade privada, não havendo, por conseguinte, nenhuma segurança jurídica, pois ali cada
homem era naturalmente “soberano”, e sendo todos soberanos individualmente, o clima seria de
permanente insegurança, instalando-se a violência generalizada, a guerra de todos contra todos.

77
Uma vez sendo inexistente em seu aspecto particular, a propriedade era um bem coletivo,
classificada como ius in omnia, isto é, um direito de todos; e sendo um direito de todos, restaria
por não ser de ninguém ao mesmo tempo. Assim, de acordo com o entendimento de Hobbes, essa
realidade contrariava a própria essência da natureza humana, que ele concebia como
eminentemente privatista/individualista. Com efeito, naquele estado de natureza, o homem nada
mais seria do que um animal antissocial e antipolítico, e sua aproximação com os outros homens
se daria apenas com a intenção de extrair o máximo de vantagens individuais das suas relações
com o outro. Assim, pelo egoísmo irrefreável do homem, que não encontrava limites, e por ser
ele soberano de si mesmo, tudo resultava num ambiente de guerra generalizada, instalando-se o
caos, a anarquia; e por não haver um árbitro imparcial (Estado) que pudesse julgar os conflitos,
por mais paradoxal que pudesse parecer, a probabilidade de matar ou de ser morto seria um ato
de racionalidade, que não podia ser descartado por nenhum dos membros daquela comunidade de
bandidos - como a definia Hobbes -, pois a questão da sobrevivência num ambiente de violência,
tinha que incluir a possibilidade de matar antes para não ser morto mais tarde.
No desenrolar dessa guerra, alguém, o mais forte, torna-se o vencedor, submetendo todos
os outros. Todos os vencidos deixam de ser soberanos e se entregam à proteção daquele que
venceu a guerra de todos contra todos, que não abriu mão de sua soberania particular e, portanto,
sua soberania inevitavelmente se estenderá a todos os demais, tornando-se o rei.
Essa entrega dos vencidos ao vencedor ocorre por meio de um acordo, com a celebração
de um pacto, que Hobbes e os contratualistas convencionaram chamar de contrato social. O
contrato social da teoria hobbesiana é qualificado como pactum subiectionis (pacto de
submissão), em que o vencedor da guerra se torna o soberano de todos. Sendo de submissão – e
que não se perca de vista o grau estrito de zelo de Hobbes quanto ao caráter absolutista no
exercício da soberania - o pacto se expressa no sarcástico trocadilho que fez com duas palavras
de sua língua - sword e word –, lembrando e alertando que o referido contrato não fora celebrado
por consentimento, mas por meio da força, isto é, por meio da força da espada, e não da palavra,
pois Hobbes não se cansava de afirmar que o homem além de mau, era mentiroso, não tinha
palavra e, portanto, palavras não poderiam celebrar qualquer espécie de contrato. Desse modo,
todos aqueles que renunciaram à sua soberania particular se dispuseram a aceitar a submissão a
fim de assegurar tudo aquilo que desejavam no estado de natureza mas não conseguiam desfrutar
livremente, como paz, harmonia, segurança, propriedade, direito à vida. Nesta submissão ao
novo soberano, havia a compreensão do caráter de perpetuidade, não podendo ser o contrato,
portanto, jamais ser dissolvido – salvo para o caso particular do súdito que, em estado de perigo

78
de vida, teria a legitimidade de buscar a salvação da própria vida, mesmo que contrariando uma
decisão de seu soberano.
Superada a fase do estado de natureza e celebrado o contrato social, a ordem política seria
materializada por meio de regimes monárquicos; monarquias de natureza absolutista, que surgem
como realidade inescapável, emergindo delas um monarca summa potestas, o único sujeito
político ativo da história do recém-estabelecido Estado político-civil.
Paralelamente à toda a sua construção teórica em defesa de uma ideologia autoritária, este
mesmo Thomas Hobbes defensor intransigente da tipologia absolutista de governo,
paradoxalmente, se revela sob um ângulo estranhamente liberal. Aos desatentos, revela uma
aparente heresia, pois visto de certo ângulo pode ser interpretado como liberal”. Na verdade é
definido como um dos precursores do individualismo, mais precisamente de um liberalismo de
cunho eminentemente econômico, e particularmente quanto ao seu estágio natural do indivíduo,
pois o descreveu ali, no estado de natureza, sedentário e intensamente impregnado de carências,
egoísta, lutando com afinco, inescrupulosamente, para tornar a propriedade, que era res nullius,
isto é, coisa de ninguém, em sua propriedade privada. Hobbes reconhecia que a propriedade é
imprescindível para o homem, mas por uma razão superior - a propalada Razão de Estado - o
instrumento específico do Estado, que diferencia o estado de natureza do Estado político, por ser
instrumento de manutenção da ordem – a coerção -, entendia que a propriedade só poderia existir
sob a tutela do Estado, cujos poderes devem estar concentrados nas mãos de um soberano
absoluto, dotado de todos os elementos para garanti-la.
Hobbes negava também que o homem fosse naturalmente comunitário, pois estava
convencido de que a tese aristotélica do bem-comum não poderia ser realizada naturalmente, mas
por meio do recurso à força, englobando todo o aparato repressivo (poder coercitivo) estatal.
Assim, ao contrário da concepção de Aristóteles, a função do governante para Hobbes não é a de
proporcionar uma vida boa, o bem-comum para seus súditos, mas sim a de garantir a ordem, a
segurança, a vida, a paz e, de maneira discricionária, a propriedade. Os instrumentos utilizados
para alcançar esses objetivos serão sempre do livre arbítrio do corpo que detém a soberania, seja
ele o monarca ou, em última instância, um colegiado, única forma de manter a soberania do
Estado. Soberania que se resume na detenção de poderes concentrados e absolutos, que na prática
tem o significado respectivo de que todos os poderes fundamentais do Estado – legislativo,
executivo e judiciário - têm que ser indivisíveis pois, como já se sabe, para Hobbes, onde há um
governo dividido o Estado estará dividido, e uma vez dividido o Estado, este não será soberano;
não sendo soberano o Estado, seu território fatalmente se tornará província de outra potência. Por
fim, tal soberania se completa com o absolutismo, o exercício absoluto do poder, significando

79
que o soberano os detém de forma ilimitada, acima de tudo e de todos, constituindo-se em
legibus solutus, legitimado para impor arbitrariamente leis que os súditos devem observar
estritamente, mas que ele próprio - o soberano - não precisa se submeter à leis que estabeleceu, a
não ser que discricionariamente queira se guiar por leis divinas, mas sem que isso signifique
subordinação à alguma força, nem mesmo de Deus, que no plano terreno não irá julgá-lo. Nesse
sentido, explica que “o soberano de uma república, seja ele uma assembleia ou um homem, não
está absolutamente sujeito às leis civis. Pois tendo o poder de fazer ou desfazer as leis, pode,
quando lhe apraz, livrar-se dessa sujeição revogando as leis que o incomodam e fazendo
novas”.53 Prossegue Hobbes, afirmando que “é a autoridade, não a verdade, que faz a lei” e a
razão “não é a razão do mais sábio ou de qualquer outro, é a Razão do Estado”.
É digno de nota atentar para as contradições do Estado absolutista, que acontecem tanto
no campo filosófico quanto no campo político. O Estado moderno das monarquias absolutas teve
como composição social agrupamentos onde prevaleceram o organicismo e o corporativismo,
ordenamentos em que o indivíduo como tal, rigorosamente não existia, uma vez que era obrigado
a se submeter à uma ordem social hierarquicamente rígida, praticamente sem mobilidade, um
modelo social estamental, portanto. Neste Leviatã hobbesiano, ao contrário do que ocorre no
Estado liberal, a esfera privada (civil) se dissolve na esfera pública (política/estatal).
Entretanto, a certa altura, esse Estado, por descuido e esperteza ao mesmo tempo, iniciou
um perigoso flerte com alguns dos princípios doutrinários do liberalismo. Buscando recursos
para financiar seu fortalecimento, projetos expansionistas e para cobrir o descontrole dos gastos
da Corte, não hesitou em estimular a classe burguesa em formação, acenando com promessas de
prosperidade e liberdades. Serão exatamente essas liberdades – frequentemente amordaçadas - o
fermento das contradições que iriam corroer as bases do absolutismo, pois a classe burguesa,
contrariada com a arbitrariedade, a opressão, as decisões imprevisíveis do monarca, com o
insaciável apetite fiscal do Estado, não se contentava com a manutenção do status quo.
Acreditando ser portadora de legitimidade para exercer a titularidade da soberania a partir do
parlamento – ainda que mantendo o rei no exercício do executivo, porém sob poderes limitados –
e desejando pôr em prática os primados do laissez faire, a burguesia começaria, na
economicamente próspera Inglaterra, a espalhar por praticamente todo o Ocidente, o vírus de
suas avassaladoras revoluções liberais.

53
HOBBES, Thomas. O Leviatã, apud Lebrun, Gérard. Op. cit., p. 28.

80
4.3.2 - Conclusão
Por mais paradoxal que possa parecer, enquanto jusnaturalista Thomas Hobbes não tomou
partido na defesa dos direitos naturais. Sua abordagem do estado de natureza tinha como objetivo
maior comprovar que os direitos ali existentes - de todas as pessoas sobre todas as coisas –
tenderiam à guerra de todos contra todos. Ao invés de defender os direitos naturais, como outros
defenderam, porque os entendiam como valores benéficos e positivos para o homem, Hobbes
propagava a ideia de que o homem, quando da celebração do contrato social, fosse impedido de
transportar consigo qualquer vestígio de direito natural – ius in omnia – para a nova fase de vida
que teria início dentro do Estado. Em conclusão, Thomas Hobbes foi não apenas um precursor do
juspositivismo, mas apaixonado defensor da exclusividade do soberano no âmbito da criação do
direito, sob o modelo jurídico de Statute Law54, que deveria prevalecer sobre o modelo do
Common Law, tido por ele como um sistema anárquico.

54
O Statute Law foi um modelo jurídico aplicado na Inglaterra simultaneamente à vigência do sistema do Common
Law, ou seja, ao mesmo tempo em que tinha validade jurídica o sistema de leis baseado na integração entre costumes
imemoriais do povo (direito consuetudinário) e jurisprudência (decisões judiciais baseadas em precedentes –
julgamentos anteriores), também vigorava como sistema jurídico as leis que emanavam da autoridade do rei,
geralmente confirmadas pelo Parlamento, derivando dessa prática a expressão King-in-parliament, cujo significado
comprova a limitação da autoridade monárquica muito antes do início dos conflitos do século XVII, que conduziram
à Revolução Gloriosa. De tais procedimentos deriva a tese de que na Inglaterra não teria havido uma verdadeira
monarquia absolutista, pois apesar da não limitação dos poderes do monarca para governar (gubernaculum), na
esfera privada havia garantia dos direitos individuais sob a proteção do jurisdictio, instituição judicial que contolava
possíveis abusos da parte do gubernaculum. Embora Hobbes fosse favorável ao sistema do Statute Law, o modelo
estatutário defendido por ele era mais radical que o efetivamente praticado na Inglaterra de então. Como entendia
que ao monarca não deveria haver obstáculos para o exercício da soberania, a interferência do parlamento seria uma
limitação e, portanto, uma divisão de poderes do Estado; dividido o Estado, deixaria de haver soberania; não
havendo a soberania de um só, todos seriam soberanos, e onde todos são soberanos, imperaria o estado de natureza
que, como sabido, traduzia-se como uma guerra de todos contra todos.

81
4.4 – ETAPAS DE SURGIMENTO, DESENVOLVIMENTO E CONSOLIDAÇÃO
HISTÓRICA E TEÓRICA DO ESTADO LIBERAL

Introdução
Karl Marx não se cansava de repetir que a classe dominante, isto é, a elite política de
qualquer forma de Estado, em qualquer situação e etapa histórica, seria a responsável por cavar
seu próprio túmulo. É parte de sua teoria, a dialética da história, ou materialismo histórico, que,
de acordo com ele, é uma teoria rigorosamente científica. No limite de desenvolvimento de todo
Estado, chega-se a certo estágio de contradição social, política e, principalmente, econômica, que
as forças que governam não conseguem mais permanecer no poder, e as novas forças que se
constituíram dialeticamente através dos tempos não mais permitem conviver com aquela
realidade. Há uma revolução. Surge uma nova elite do poder. Os que antes eram oprimidos,
agora se tornam a nova classe dirigente, os novos opressores, dizia Marx.
Concordando ou não com Marx, é fato que na Inglaterra do século XVII, a monarquia
absolutista da dinastia Stuart – apoiada por parte da nobreza e do clero católico – criou um
formidável impasse institucional, impasse que forçou a burguesia a “esticar a corda”, operar uma
abrupta ruptura com o sistema vigente e inaugurar a era do liberalismo.
Ainda na etapa do absolutismo, a formação e o desenvolvimento do Estado-nação e da
moderna soberania foram acontecimentos que se realizaram simultaneamente. Apesar de
conduzida por governos absolutistas, é inegável que a classe burguesa foi o instrumento mais
eficiente para realizar essa monumental obra do Estado no Ocidente. Contudo, em paralelo a este
processo, o descontentamento da burguesia se avultava, sentindo-se espoliada pelo excesso de
taxação tributária do Estado, que pouco ou nada fazia para limitar gastos supérfluos. Como força
antagônica à concentração de poderes por parte do monarca de tendência absolutista, também se
organizava para combater as recorrentes restrições das liberdades, que limitavam sua capacidade
criativa e produtiva. No mesmo compasso, prosperavam as ideias que estabeleceriam uma série
de estatutos que limitaram a ação do monarca e que, ao mesmo tempo desrespeitadas por ele,
tomaram proporção revolucionária, dando origem ao Estado liberal, que se tornaria a base
política de sustentação da futura corrente filosófica que viria a ser conhecida como o
constitucionalismo moderno, 55o constitucionalismo do século XVIII.

55
O Constitucionalismo é considerado a doutrina político-filosófica das liberdades fundamentais porque surge do
desejo de limitar o poder onde o poder é absoluto. Na era do racionalismo europeu, na fase do iluminismo, esta vai
ser a era da paixão pela razão. Tais ideias têm como fundamento o estabelecimento do Estado de Direito (Rule of
Law) para garantir aos governados um grau de certeza de que os governantes só poderão agir de acordo com o

82
As primeiras forças propulsoras, dentre as mais relevantes desse processo, surgem com a
edição de documentos fundamentais como a Petition of Right, o Instrument of Government e o
Bill of Rights. Porém, em termos de intervenção humana, por meio de atuação prática, e não
propriamente filosófica, sobressai a atuação de Edward Coke (1552-1634), jurista que exerceu
importantes cargos de sua área, entre elas uma espécie de função muito próxima do que hoje se
conhece por procurador-geral. Coke não se intimidou perante a autoridade do rei, criando-lhe
obstáculos em muitas de suas decisões judiciais, sempre buscando instrumentos de frear seus
impulsos despóticos. Um de seus maiores legados foi a reabilitação do Common Law56, que há
tempos havia se tornado obsoleto, pois desde a segunda metade do século XVI não se realizavam
atualizações dos precedentes judiciais que o constituíam. Na reabilitação do Common Law, três
fatores foram decisivos: primeiro a substituição da língua francesa (Law French) e do latim pelo
inglês, a fim de tornar o processo compreensível para o homem comum; segundo, a publicação,

estatuto jurídico estabelecido. Além de impor limites aos poderes dos governantes, o constitucionalismo garante
direitos individuais aos governados. Esta nova ordem jurídico-constitucional se materializou com a promulgação das
constituições escritas – tendo a lei como fundamento da expressão da vontade geral segundo preconizava Rousseau,
ou a legitimidade do poder (Racional-Legal) para Max Weber. Rigorosamente, a teoria Constitucionalista, é
resultado de uma convenção eminentemente liberal, que não aceita a definição de Constituição para textos legais que
não limitem poderes dos governantes e não garantam direitos individuais aos governados. Relativamente às
chamadas ditaduras constitucionais, stricto sensu não se pode falar que regimes assim qualificados possuem
Constituição, considerando que o possível conjunto de leis ali existentes não ultrapassaria a barreira da genérica
denominação de “leis constitucionais”, como foi o caso da “Constituição” brasileira de 1824, que, curiosamente,
assim se definia de forma expressa em seu texto legal. Quanto à tão celebrada Carta Magna Libertatum,
“promulgada” na Inglaterra, em 1215, também não pode ser considerada uma carta precursora do
Constitucionalismo moderno, a não ser em termos estritamente simbólicos, pois ela não foi nada mais nada menos
que um documento de compromisso entre o rei com pretensões absolutistas e os barões feudais descontentes com o
excesso de tributação, portanto limitando o monarca em sua relação com a nobreza. Para ser uma constituição –
termo praticamente desconhecido à época do surgimento da Magna Carta - ou uma carta precursora do moderno
constitucionalismo, além da limitação de poderes deveria haver também a garantia de direitos individuais, limitações
que efetivamente não ocorreram no período.
56
Em síntese, o modelo jurídico do Common Law, adotado pela Inglaterra desde a Alta Idade Média, buscava a
integração entre costume (direito comum) e precedentes (writs ou remédios: decisões judiciais emanadas pelos reis
que, originalmente, tinham a função de garantir direitos aos súditos contra decisões arbitrárias dos senhores feudais).
Ao contrário da espécie de ordenamento jurídico firmado no continente europeu - o Civil Law -, o Common Law foi
um sistema jurídico prático, em que profissionais do direito transmitiam aos juízes sua experiência, contribuindo
para a formação jurisprudencial do ordenamento jurídico nacional. Esta união entre costume e precedentes
(jurisprudência), que resultou na formação do Common Law, é comumente sintetizada pela célebre fórmula
“remedies precede rights”. De forma inversa, ocorreu o surgimento do Civil Law, que é o resultado de uma
positivação jurídica sofisticada, a partir da sistematização do direito continental europeu, cuja base de formulação
emanava – além da contribuição do Código Canônico e dos Institutos do direito romano – do idolatrado Corpus
Juris Civilis. Durante a Idade Média e grande parte da Era Moderna, os europeus tendiam a acreditar que os romanos
clássicos produziram um ordenamento jurídico perfeito, irretocável. E esse ordenamento se expressava
essencialmente no Corpus Juris Civilis, compilado pelo Imperador Justiniano no século VI, mas que desapareceu
por alguns séculos até que foi recuperado na era renascentista. Sua restauração e reordenamento se deu por obra de
sábios juristas das nascentes universidades europeias – os glosadores e comentadores -, principalmente a de
Bolonha, cuja influência foi decisiva para o resgate de seu espírito e a implantação de um inovador ordenamento na
Europa continental, baseado não em precedentes e costumes - como era prevalecente no espírito do Common Law -,
mas fundamentalmente na apreciação do caso concreto e a consequente aplicação da lei escrita.

83
por E. Coke, das Instituições do direito inglês, gerando por consequência um terceiro efeito
favorável, a atualização do Year Book - paralisada há tempos – um livro que registra, até os dias
atuais, todas as decisões judiciais de cada ano, contribuindo para a promoção da jurisprudência,
base do modelo do Common Law, por orientar advogados e juízes nos processos de ações novas.
Em que pese a contribuição de Coke e outras personalidades como os liberais do século
XVI John Milton e James Harrington, foi com John Locke que o liberalismo se transformou em
doutrina capaz de garantir à burguesia segurança nos seus propósitos revolucionários, e de dotar
o Estado com a formulação de projetos para a necessária reforma de suas instituições.
A seguir, a exposição da teoria do liberalismo a partir da perspectiva de John Locke e,
logo adiante, a apresentação de uma resenha abordando sua trajetória histórica no terreno teórico.

4.4.1 - JOHN LOCKE


John Locke (1621-1704) foi o mais importante pensador do liberalismo. Sua produção
ideológica ocorreu no auge dos conflitos havidos entre a tendência absolutista do rei e os anseios
liberais da burguesia, contribuindo para disseminar por todo o mundo ocidental, de maneira
coerente, os postulados da doutrina que somente décadas após ficaria conhecida como
liberalismo.
Na Inglaterra já economicamente poderosa desde a dinastia anterior – a dinastia Tudor -,
com a classe burguesa se afirmando, fortalecendo a nação, John Locke liderou, em termos
intelectuais, a defesa inflexível das premissas do individualismo liberal. Em sua obra-prima Os
dois Tratados sobre o Governo Civil, publicada em 1690, Locke teve cautela e sabedoria de
combater simultaneamente em duas frentes: desacreditando os fundamentos do absolutismo no
Primeiro Tratado, e fundamentando os princípios do liberalismo no Segundo Tratado, sendo
que, quanto a este, o filósofo, jurista e cientista político italiano Norberto Bobbio julgou ser “a
primeira e a mais completa formulação do Estado Liberal”.57 Como se depreende de seu ano de
publicação (1690), Os dois Tratados só foi publicado depois de consumados os fatos da
revolução, que finalizaria em 1689, mas nem por isso sua importância deixa de ser reconhecida,
pois a reforma da histórica constituição da Inglaterra foi realizada com base nas suas
formulações, que afinal, já eram de conhecimento público desde os conflitos que culminaram na
revolução. Por conseguinte, os direitos individuais consagrados na reforma da Constituição
inglesa e celebrados quando da edição da Bill of Rights, foram conquistas inspiradas no ideário
de ninguém mais ninguém menos que John Locke.

57
In: Os Clássicos da Política, p. 84.

84
Em seus primórdios, pode-se afirmar que todo esse processo teve início quando os barões
feudais impuseram ao monarca inglês João Sem Terra, no longínquo século XIII, a forçada
sanção da Magna Carta Libertatum, limitando os poderes do rei. Mais tarde, no início do século
XVII, outro importante estatuto – a Petition of Rights – foi sancionado, até que esses
movimentos inspiradores chegaram aos acontecimentos do final do século XVII, quando a
Inglaterra se aproximaria ainda mais intimamente do constitucionalismo. As ideias ancestrais do
constitucionalismo, que se vinculavam ao desejo dos súditos de limitar os poderes dos
governantes e ao mesmo tempo garantir-lhes um conjunto de direitos, foram retomadas, na
Inglaterra, por alguns escritores políticos, entre eles sobressaindo John Locke, que as adequou às
modernas aspirações, demandas que serão acolhidas por meio de um método teórico - o
jusnaturalismo - muito em voga à época, cujos princípios sustentavam que os indivíduos são
portadores de direitos que, por serem direitos naturais, se tornariam inalienáveis e
imprescritíveis, anteriores à própria existência do Estado político/civil.
Desse modo, quando esses novos ideais se converteram em realidade na Inglaterra, logo
migraram para o continente, conduzidos por filósofos iluministas do século XVIII –
Montesquieu, principalmente - contaminando irremediavelmente a Europa absolutista. Somado a
esse fator, a tese do “direito de resistência”, também elaborada por John Locke, estimularam os
colonos da América do Norte e os parisienses de 1789 a também operar suas revoluções, com
base em todo esse ideário, concretizando definitivamente a formação do Estado de Direito no
Ocidente. O Estado de Direito, marcadamente liberal, mas ainda não democrático, reporta-se
como um Estado em que os poderes devem ser limitados e as funções mínimas. Seu curso
posterior, a partir da década de 1830, primeiramente nos EUA e na Inglaterra, deu-se com o
avanço das franquias democráticas que conduziram o Estado liberal para o estágio de liberal-
democrático, conservando a limitação dos poderes, todavia dilatando suas funções, que
inevitavelmente, mais e mais, foram se tornando máximas.

4.4.2 - A trinomia jusnaturalista de Locke: estado de natureza, contrato social e Estado


Como regra entre os jusnaturalistas, John Locke também desenvolveu uma filosofia do
estado de natureza como ponto de partida para elaborar sua teoria de Estado. Mas, diferente da
guerra de todos contra todos enxergada por Hobbes em “seu” estado de natureza, Locke
descreveu ali um homem pacífico, vivendo em liberdade e harmonia com seus semelhantes.
Contrastando com Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes, que emitiram juízo de valor
sobre a natureza humana – boa e má, respectivamente -, J. Locke não afirmava ser o homem bom
ou mau naturalmente, porque este tipo de julgamento dependeria de um rigoroso processo

85
analítico. Para tal análise, Locke recorria à sua célebre teoria da “tábula rasa”, que define a alma
humana como um “papel em branco”, portanto justificando que todo conhecimento deriva da
educação, da experiência. Em outras palavras, queria dizer que o homem é produto do meio: se
recebe boa educação será um homem bom, caso contrário, será mau. Além de ser uma crítica à
teoria das ideias inatas defendida por Platão, Santo Agostinho, Descartes, a tese de Locke teve a
prática utilidade de convalidar sua convicção de que no estado de natureza, embora
absolutamente livre, o homem é um ser pré-social e pré-político, não sendo nem o lobo do
homem (Hobbes), nem o bom selvagem (Rousseau) e nem naturalmente social e político
(Aristóteles). Como adepto do empirismo, concluía que tudo dependia da experiência e de seu
meio social, pois do contrário, tanto o homem civilizado quanto os selvagens se encontrariam no
mesmo nível de conhecimento e cultura.
A tese da tábula rasa foi também um competente argumento para justificar coerentemente
a aquisição da propriedade no estado de natureza, que ocorria por meio do trabalho, ou seja da
experiência, já que a moeda não existia, pois é uma invenção do homem político, de fase como
membro do Estado. Desse modo, o homem, dotado de razão, mesmo no estado de natureza,
adquire a propriedade por meio de sua força de trabalho ao mesmo tempo que conserva
respeitosa distância da propriedade alheia. E no âmbito valorativo e de utilidade, a propriedade
no estado de natureza já era considerada como um bem imprescindível para todos, não apenas no
pensamento lockiano, pois tal como Thomas Hobbes, Locke, curiosamente, também concebe o
homem como individualista, sedentário. Entretanto, diversamente de Hobbes, Locke interpretou
um estado de natureza pacífico e harmônico, em que a propriedade privada não só existe como é
um bem dos mais preciosos para o indivíduo, com a diferença de que para Locke pode ser
desfrutada livremente. O único inconveniente acerca da propriedade ocorre quando há um
desentendimento sobre sua real titularidade, pois não havendo um árbitro imparcial para julgar o
impasse – a não ser Deus, que o fará em um plano especificamente espiritual -, o recurso das
partes poderia ser o uso da força bruta.
Por isso, o motivo para os indivíduos constituírem o Estado não é outro senão o de criar
um árbitro imparcial para julgar os conflitos. Não fosse assim, não haveria razão de ser, pois com
exceção dos eventuais conflitos acerca da propriedade (inclui-se nesse conceito o direito à vida, à
liberdade, à integridade física), os indivíduos viviam em paz, liberdade, harmonia e segurança.
Com o interesse de superar esses inconvenientes, os homens livres e iguais se reúnem a
fim de celebrar um pacto associativo e fundar o Estado. Tanto quanto à descrição do estado de
natureza, quando muitas novidades foram apresentadas, também com relação ao contrato social
prescrito por Locke vislumbra-se com clareza inconciliáveis contrastes nos seus princípios e

86
procedimentos em comparação com o contrato proposto e defendido por Thomas Hobbes. A
doutrina de Locke, incrivelmente recepcionada ao longo do desenvolvimento das instituições
liberais, recomendava um contrato social que expressasse o livre consentimento e pudesse ser
dissolvido, portanto não indissolúvel e de submissão como exigia Hobbes. A lógica de Locke se
assentava na premissa de que os indivíduos na condição de homens livres para celebrar um
contrato, ao mesmo tempo também seriam detentores de autonomia para dissolvê-lo, desde que
fosse conveniente. É dessa argumentação que Locke retira o fundamento para desenvolver sua
revolucionária tese intitulada “direito de resistência”, explicando que, a partir do momento em
que os representantes e os governantes se desviassem das funções para as quais receberam
delegação para exercer – a defesa da liberdade e da propriedade –, estariam se rebelando,
tornando-se opressores, tiranos. Nessa situação, os governados – homens livres e iguais – teriam
a legitimidade para recorrer ao uso da força e destituí-los de seus cargos, dissolvendo-se o
contrato e retornando ao estado de natureza, que, lembrando, era um estado pacífico e
harmônico; de volta ao estado de natureza, o contrato seria passível de livre reconstituição. Duas
outras características relevantes compõem a estrutura do pacto lockiano, o caráter unânime do
consentimento dos indivíduos e sua forma expressa. A primeira característica consiste no
propósito de garantir a todos os indivíduos que a ninguém será imposta a obrigação de assinar o
que não for de autônoma vontade, ou seja, aquele que se recusar a fazer parte da sociedade
política em formação (Estado), tem toda a prerrogativa de ir fazer parte de outra comunidade,
outro estado de natureza, se for o caso. Note-se que essa premissa da unanimidade se expressa
com extraordinária contemporaneidade, pois o direito do homem de ir, vir e ficar transformou-se
em uma das marcas de maior simbolismo dos direitos fundamentais contemporâneos, sendo
pacífico que todo Estado de direito tem reafirmado o compromisso dessa prerrogativa,
estendendo-a, inclusive, aos estrangeiros58. No que diz respeito à forma expressa, John Locke
manifestava coerente preocupação com relação ao comportamento das autoridades políticas
quanto ao processo de tomada de decisões que, via de regra, eram discricionárias, e por que não
dizer, arbitrárias. Como antídoto ao autoritarismo, e para garantir consistente grau de certeza aos
governados quanto ao teor das decisões das autoridades, J. Locke disseminou a ideia da criação
das leis expressas, escritas, em clara intenção de mitigação com o sistema inglês do Common
Law, cujos desdobramentos não têm sido nada desprezíveis, pois apesar da prevalência do

58
CF/88, art. 5º, Inciso XV: “é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa,
nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”.

87
sistema de direito costumeiro, na Inglaterra a recepção do direito positivado, oriundo da tradição
jurídica do Civil Law, tem sido gradualmente adotada.
O idealismo de Locke acerca da limitação do poder e da garantia dos direitos do
indivíduo – que sua teoria do Direito Natural converteu em Direitos Fundamentais - por meio da
premissa de que sua concretização ocorre pelo primado das leis escritas, não foi em vão.
Consumou-se, e hoje em dia sua popularidade se encontra tão difundida, que o uso da expressão
segurança jurídica, de livre domínio conceitual e prático até para os cidadãos comuns,
transformou-se em outro ícone do liberalismo através da força irresistível das ideias de John
Locke, particularmente consagrada pelo Estado de direito.
Celebrado o contrato, está criado o Estado. Para Locke, a criação do Estado é necessária
apenas para que haja um árbitro; um árbitro que seja imparcial sempre que a propriedade privada
e a liberdade (direitos individuais) forem violadas. Por esta linha de raciocínio, sua única função
seria a de garantir a propriedade privada que, em geral, resume-se no direito que tem o indivíduo
de gozar de forma independente as suas liberdades individuais, posicionando-se entre as mais
expressivas o direito à vida, à liberdade, à propriedade, e o livre gozo dos bens materiais
adquiridos pelo homem como fruto do seu trabalho.
Quanto ao conteúdo institucional, não causaria surpresa a afirmação de que se trata de um
Estado mínimo. Mínimo com relação às suas funções (defesa da propriedade privada) e, ao
mesmo tempo, com seus poderes limitados. Para cumprir essa tarefa, John Locke vislumbrou na
teoria de Aristóteles os mecanismos para a sua operação, com os poderes fundamentais do Estado
(legislativo, executivo e judiciário) realizando entre si mútuo controle e fiscalização. Essa técnica
foi vital para impedir a concentração de poderes e evitar pretensões absolutistas, despóticas -
autoritárias, enfim. Em termos teóricos, consistiu na doutrina precursora para a renomada teoria
da separação dos poderes, que Montesquieu difundiu para o resto do Ocidente.
Não obstante a defesa de autonomia e independência dos poderes, John Locke destacou o
poder legislativo como o poder supremo, e as razões dispensam complexas motivações, pois a
ascensão da burguesia à época, comandando o poder a partir de seus assentos no parlamento
(legislativo), não apenas justifica como também explica que a soberania estava sendo exercida
por aquele poder - embora Locke ressaltasse que nenhum poder em si fosse soberano -, em nome
do povo, nas duas casas de representação do parlamento inglês.
Não obstante todo o racionalismo desses postulados, a grande surpresa, com o desenrolar
da história britânica, manifestou-se com a formação do sistema parlamentar de governo. Enfim,
as relações e correlações entre essas duas forças políticas – parlamento e governo – fizeram do
legislativo o poder hegemônico, porque representativo (representação de cunho popular, naquele

88
tempo pela classe burguesa, qualificada como povo na fase do liberalismo), portanto
representando a soberania popular; e o governo, na função de poder executivo, cumprindo
fielmente a atribuição de executar as decisões emanadas da instância legislativa, tanto que os
governantes, como delegados da vontade popular – expressa nas decisões do parlamento – não
detinham qualquer outra atribuição além daquelas já anteriormente delimitadas (garantir a
propriedade privada e a liberdade), sendo indiferente para Locke se a tipologia de governo se
apresentasse sob a forma monárquica, aristocrática ou democrática (governo misto). Mais
relevante que isso seria o meio de investidura a esses cargos eletivos, cujas formalidades não
requeriam mais a unanimidade - como no pré-requisito para a celebração do contrato social -,
mas de ordinária maioria da aprovação dos cidadãos na eleição de governantes – assim como
representantes -, na escolha da forma de governo, ao mesmo tempo garantindo às minorias as
mesmas prerrogativas usufruídas pelos demais membros da sociedade política (Estado).

4.4.3 - O moderno significado de Liberalismo


Não é fato incomum na crônica política cotidiana ler, ver e/ou ouvir comentários de
“especialistas” dos meios de comunicação de massa confundindo os significados de liberalismo
com democracia e vice-versa. Mesmo porque, atualmente, liberalismo e democracia chegaram a
um estágio de elevada sintonia, conciliação e convergência ao extremo de serem confundidos um
com a outra e formarem um único regime, a liberal-democracia ou democracia liberal. Mas,
suas relações, especialmente na primeira fase do Estado liberal (tb. Estado de direito), foram tão
conflituosas que, para a corrente liberal, prevalecendo um regime democrático significaria a
anulação ou impossibilidade de existência de qualquer traço de liberalismo, porque para os
doutrinadores e propagandistas das ideias democráticas, um regime liberal implicava a negação
da democracia ou, no limite, sua própria extinção. Teoricamente, portanto, entre liberalismo e
democracia não havia possibilidade de convergência, fato que, durante a emergência dos regimes
derivados das revoluções liberais, levou as partes antagônicas à convicção de que seria
impossível a convivência entre ambos, pois o liberalismo é, primordialmente, um modelo
econômico de Estado - onde deve imperar a economia de livre mercado - enquanto a democracia,
expressada tanto no imaginário popular quanto na mais sofisticada elaboração ideológica, é
descrita como uma daquelas clássicas tipologias de governo, em que a maioria – quando não
todos - governa ou participa efetivamente das decisões governativas, cuja maior indagação acerca
de suas atribuições, enquanto teoria política, e sob uma ótica pelo menos formal, diz respeito a
determinado método de participação política que procura responder à questão de quem deve
governar, como deve governar e para quem governar.

89
Paralelamente à teoria econômica, o liberalismo também está atrelado a princípios morais,
com a tarefa de responder à questões de valor intrínseco, entrosado com o compromisso de
elevação moral e espiritual do homem, em sua busca incessante e estafante de sua sustentação e
sobrevivência individual. No que diz respeito ao exercício do poder político, defende as funções
de governo particularmente limitadas, pois é na limitação dos poderes que o Estado tem como
tornar realidade talvez a mais fundamental e intransigente de todas as suas premissas: a
preservação das liberdades individuais, e em todos os sentidos. Para haver essa concretização, é
dever do Estado, segundo os primados de sua pureza teórica, se afastar de toda e qualquer
tentativa de competir e interferir nas atividades que o ideal liberal considera como esfera
exclusiva de atuação dos indivíduos. A essa altura, verifica-se um acúmulo de atribuições ao
Estado liberal – simultaneamente com a função de garantir direitos individuais e exercer o poder
limitadamente. Então, buscando evitar equívocos na compreensão teórica, foi criado o termo-
conceito Estado de direito com praticamente o mesmo significado de Estado liberal, mas
especificamente ligando Estado de direito ao liberalismo apenas naquela parte referente à ordem
pública, política, estatal, ao passo que fica reservado ao Estado liberal a parte cujas atribuições
vinculam-se à esfera privada, de atuação particular dos indivíduos, como a fruição da liberdade
individual, a preservação da propriedade e, nas relações entre os indivíduos, o Estado entra
apenas com a função de zelar pelo cumprimento dos contratos (pacta sunt servanda) celebrados
entre si. Ao Estado de direito, com sua área de atuação restrita à esfera pública, cabe a função de,
por meio de suas instituições – principalmente legislativo e judiciário – preservar a limitação dos
poderes dos governantes. Assim sendo, com a garantia dos direitos e a limitação dos poderes, o
Estado liberal e de direito ao mesmo tempo vem a ser o único antídoto para combater dois
flagelos históricos: o autoritarismo (ex: ditadura política) e o totalitarismo (ex: ditadura na esfera
política e econômica).
O liberalismo, por dedução, tem por princípio ser uma teoria proveniente de algum
gênero de liberdade. Com efeito, em se tratando de liberdade, faz-se necessário examinar o
significado de liberalismo, tanto em sua acepção moderna quanto na acepção antiga. Portanto, de
antemão é imperioso ter em mente que o liberalismo dos modernos e o liberalismo dos antigos
possuem significados contrastantes. Por conseguinte, vale lembrar que o uso e o gozo da
liberdade no Estado moderno guarda significativas diferenças com o modo de liberdade que os
antigos costumavam usufruir.
A essência do liberalismo dos modernos está mais diretamente vinculada à liberdade
econômica, chegando ao extremo de fazer com que a economia de mercado seja celebrada como
um ícone por seus defensores. Mais que isso, as liberdades da economia de mercado, de acordo

90
com os guardiães do liberalismo, possuem a faculdade de resguardar todas as outras liberdades,
inerentes ao homem enquanto indivíduo. A doutrina jusnaturalista (Escola do Direito Natural),
cujas premissas afirmam que todo indivíduo tem direitos naturais inalienáveis e imprescritíveis -
cujo mais importante formulador foi John Locke -, são anteriores ao Estado, sendo que o Estado
não pode violá-los sob nenhum pretexto. Como liberalismo moderno, em contraposição ao antigo
– essencialmente organicista -, suas teses reafirmam que o indivíduo se encontra em uma área de
atuação superior à da própria sociedade e até do Estado, indiferente à condição intrínseca de
animal naturalmente político, o zoom politikós, preconizado por Aristóteles, para se reafirmar
como “homo œconomicus” - o sujeito da história no Estado liberal, primordialmente capitalista -,
libertando-se da obrigação da participação política, que no liberalismo deve ser eventual, e não
obrigatória, em função da primazia dos interesses privados, que devem prevalecer sobre os
interesses coletivos.
A doutrina dos direitos fundamentais, expressa primeiramente como direitos do
indivíduo, foi concretizada com as revoluções liberais, e consagrou a afirmação da hegemonia do
parlamento burguês sobre a monarquia absolutista. Esta supremacia representou não apenas a
vitória das liberdades burguesas no campo econômico, mas também das liberdades políticas e
religiosas. Após a contribuição teórica que John Locke deu ao liberalismo, com sua teoria
contratualista, que afirmava ser o contrato social o estatuto originário do Estado liberal, por
meio de um contrato de consentimento entre indivíduos livres e iguais, todo poder legítimo, a
partir de então, na era do Estado contemporâneo, só poderia ser exercido sob as funções mínimas
e poderes limitados, exasperando quaisquer tentativas de elasticidade, tanto em direção à
democracia e muito menos quanto à um delírio de formato absolutista.
Em sua fase clássica, desde as revoluções liberais até, mais ou menos, a metade do século
XIX, o Estado liberal se confundia com o Estado mínimo em razão de suas reduzidas funções e
dos poderes limitados, suficientes apenas para a sobrevivência da comunidade política. Quanto a
isso, Adam Smith, economista liberal, resumiu o papel do Estado em apenas três deveres: “a
defesa da sociedade contra os inimigos externos; a proteção de todo indivíduo das ofensas que a
ele possam dirigir os outros indivíduos; e o provimento das obras públicas que não poderiam ser
executadas se confiadas à iniciativa privada”59.
Por volta da década de 1840, no auge do Estado mínimo, e exatamente por esta razão,
qual seja a excessiva limitação das funções do Estado, o desaparecimento do Estado chegou a ser
cogitado, em especial pelas correntes mais conservadoras. Saudosistas, relembravam os gloriosos

59
BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia, p.23.

91
tempos, não tão distantes, em que, no velho regime (absolutismo), o Estado monopolizava
simultaneamente o poder político, o poder econômico e o poder ideológico. Com o
estabelecimento do liberalismo, o Estado foi perdendo gradativamente a concentração desses
poderes. O poder econômico migrou para as mãos da burguesia, o poder ideológico transitou
para a universidade e os meios de comunicação de massa e o exercício do poder político
transmitido à burguesia, cujo epicentro emanava a partir do legislativo (parlamento).
Com efeito, a nova realidade convalida a interpretação de Hegel acerca do advento do
liberalismo. Atestou o notável filósofo alemão que, desde a criação do Estado, houve uma
progressiva evolução da condição humana em relação à liberdade, expressa da seguinte maneira:
“o Oriente fora a liberdade de um só, a Grécia e Roma a liberdade de alguns, o mundo
germânico, ou seja, o mundo moderno, a liberdade de todos”.60 No estágio inicial do Estado, na
antiguidade oriental, onde imperava o despotismo como forma de governo, a liberdade era
apenas do senhor, o déspota, enquanto todos os súditos eram servos; na democracia dos antigos –
na Grécia e em Roma – apenas os cidadãos, minoritários socialmente, eram livres; e no mundo
moderno, após as revoluções liberais, todos os indivíduos terminam por conquistar a liberdade.
Em se tratando de liberdades no liberalismo, elas começam a vigorar, pela ordem, a partir de
formalidades, com sua inscrição jurídico-constitucional, prevalecendo mais o simbolismo
ideológico portanto, por conseguinte evoluindo para formas mais concretas com a materialização
de direitos políticos, sociais e coletivos; em suma, partem da fase dos direitos de primeira
geração até a conquista dos direitos de segunda e terceira gerações. Direitos esses que
estamparam o estandarte da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – e foram
consagrados na lendária Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. À primeira
vista com a aparência de mera abstração metafísica, nas décadas seguintes comprovaram ser
aquele lema revolucionário uma formidável profecia, pois seus três signos, gradualmente, foram
se tornando realidade. O primeiro deles, a liberdade, cuja aplicabilidade constitucional imediata
resultou na constituição do Estado de direito ou liberal, importando na concretização dos
chamados direitos de 1ª geração (direitos individuais)61; o segundo, a igualdade, consistindo na

60
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política, p. 268.
61
Em razão de se tratar essencialmente de uma formulação filosófica, não é pacifico o entendimento da graduação
dos direitos que foram sendo consagrados à medida em que o Estado de direito (liberal) foi avançando na história,
principalmente no decorrer do século XIX, após a revolução francesa e a norte-americana do fim do século XVIII.
Talvez, até mesmo a corrente majoritária inclua como direitos de 1ª geração os direitos políticos, que neste capítulo
integra a 2ª geração de direitos. Isso porque os direitos políticos, logo após as primeiras revoluções liberais, nem
mesmo naquelas constituições burguesas, estavam prescritos como modalidade de direito estendido a todos, muitos
menos na prática, quando se sabe que a participação política estava restrita a um número bastante limitado de
homens, pertencentes às “classes possuidoras”. Na verdade, o advento dos direitos políticos ocorre quase que

92
afirmação dos direitos de 2ª geração (direitos políticos), com sua emergência no instante em que
o liberalismo se associou à democracia, transformando o Estado de direito em de direito e
democrático. Por fim, a fraternidade, classificada como a fonte dos direitos de 3ª geração,
representada pelos direitos sociais e também difusos, cujo signo pressupõe o entendimento de
que os povos devem ter assegurados, em sentido amplo, o direito ao desenvolvimento, incluídos
neste rol os direitos humanos. São considerados direitos difusos porque de aplicabilidade
constitucional mediata, dependente de programas de governo. Trata-se de direitos sociais como
educação, saúde, previdência etc.
Montesquieu, ainda antes da Revolução Francesa, ao classificar as três fontes do direito,
assinalou que as leis positivas formam o Direito Civil, o Direito Político e o Direito das Gentes.
Além de sua inegável contribuição ideológica ao processo revolucionário, esta formulação
também revela uma extraordinária conexão com o lema dos revolucionários de 1789, ilustrada
pela expressão do lema liberdade com sua inserção nas leis do direito civil (direitos individuais);
com a inserção do lema igualdade se relacionando aos direitos políticos, que só a democracia
liberal foi, até agora, capaz de afirmar, e por último, mas não menos importante, o lema
fraternidade, que se concretiza no “direito das gentes”, espécie de direito que tem como
exposição doutrinária algumas disciplinas do curso de Direito, em cujas cátedras suas lições são
transmitidas, por exemplo, em Direito Internacional Privado, pois genericamente relacionada aos
direitos transnacionais, sinônimos dos direitos difusos tais como os direitos humanos e
humanitários etc.62

simultaneamente à emergência dos direitos sociais, uma vez que, logicamente, esses são uma decorrência natural
daqueles. Quanto ao termo “geração de direitos”, de uso mais genérico, deveria ser este, na opinião de muitos
constitucionalistas, substituído por “dimensão de direitos”, a fim de evitar que o termo “geração” induza ao equívoco
de informar que demarca um específico tempo na história, o que faz sentido, pois o termo intenciona apenas
demarcar a ordem de aparecimento dos direitos entre si, sem observar rigor a vínculo histórico.
62
Montesquieu. O Espírito das Leis, p. 44.

93
4.5 - MONTESQUIEU E A SEPARAÇÃO DOS PODERES: MITO E REALIDADE

Introdução
Não há como negar. Desde Aristóteles, pelo menos, a tese da organização dos poderes
fundamentais do Estado vem recebendo tratamento doutrinário sistematizado, e erigida ao posto
de cânone para a constituição dos bons governos, dos governos estáveis, livres e até mesmo
democráticos. Herdeira dessa tradição, a Teoria da Separação dos Poderes deu prosseguimento
a este que continua a ser um dos temas mais discutidos da teoria política universal.
Além de Aristóteles, John Locke e Montesquieu estão incluídos no rol dos mais influentes
pensadores que se ocuparam com atenção redobrada ao tema. Até mesmo o polêmico e mal-
interpretado Maquiavel, em seus postulados de ordenação do Estado estável e durável, dedicou,
em sua teoria do Estado, expressivo espaço em defesa do exercício independente dos poderes
fundamentais do Estado, por meio de sua teoria da forma mista de governo. O Governo Misto
que Maquiavel tinha em mente, embora dele historicamente distante, é o modelo democrático
que os antigos romanos ergueram e praticaram por mais de 300 anos, a democracia da decantada
República Romana. Em que pese aquela democracia ter sido praticada na antiguidade, com seu
modelo hierarquizado socialmente, verticalizado e, portanto, corporativista, Maquiavel a
defendia não por estes predicados, mas porque os poderes se controlavam mutuamente, se
contrapunham ao mesmo tempo, evitando a ação abusiva de qualquer um dos poderes sobre os
demais, garantindo a liberdade, por extensão. Neste contrabalanço, entendia Maquiavel,
repousava a sustentação de toda a razão de Estado, o êxito e a eficácia dos governos, que formam
uma combinação de elementos vitais para a sobrevivência e expansão de toda comunidade
política.
Quase 20 séculos antes de Maquiavel, Aristóteles produziu o mais competente tratado
político da Grécia clássica. Especialmente nas páginas do livro VI d’A Política, o leitor poderá
testemunhar uma longa, complexa e detalhada fórmula de atribuições de poder e participação
política que prenuncia a descoberta da tese que viria a ser a pedra filosofal de todo governo livre
ou moderado, denominado por Aristóteles de Politia, por J. Locke de Governo Civil, por
Montesquieu de estado da liberdade e pelos modernos/contemporâneos de Estado
Constitucional.
No século XVII, em sua teoria de Estado, John Locke desferiu severas críticas ao
absolutismo vigente. Ao defender a autonomia e independência dos poderes, chegou ao extremo
de rotular o poder judiciário de poder nulo ou neutro e o poder executivo de simples comissário
ou delegado da vontade soberana do povo. Pela lógica de exclusão, resta que ao legislativo

94
cabem as prerrogativas de exercício da soberania, pois sendo a composição do poder legislativo
fruto da escolha dos cidadãos, este poder, por força de suas atribuições representativas
naturalmente se transforma no centro de gravidade da livre e independente soberania popular. Se
essas premissas conferidas a John Locke, pai do liberalismo e, claro, do Estado de direito,
estiverem corretas, dedutivamente há que se concluir que a extraordinária tese difundida por
Montesquieu – a Separação dos Poderes – carece de fundamentos doutrinários mais consistentes.
Assim, a tese da divisão dos poderes, da independência total de um poder em relação ao outro
estaria prejudicada. Na verdade, Locke nem enumera o poder judiciário como um dentre aqueles
três poderes fundamentais, pois sendo classificado como poder “nulo ou neutro” não concorreria
ele na esfera das disputas do poder político, inerentes à natureza do executivo e do legislativo.63
Para Locke, a função do judiciário de tão importante não deve ser de natureza política, devendo
ser imparcial, para que nos conflitos entre os demais poderes e entre particulares ele possa
analisar e julgar com neutralidade. Montesquieu compartilhou desta linha de raciocínio, de
alguma forma também considerando o judiciário um poder “nulo” e “invisível”; nulo no sentido
de manter a imparcialidade em relação aos conflitos, pois enxergava o poder judiciário como
sendo “a boca que pronuncia as palavras da lei”, e invisível porque no Estado da liberdade um
homem não teme outro homem, pois “(...) não se tem constantemente juízes diante dos olhos e
teme-se a magistratura mas não os magistrados”.64

4.5.1 - Montesquieu e a Separação dos Poderes


Nascido Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu apesar de crítico do
absolutismo nem por isso ignorou sua eficiente estrutura de funcionamento, que assegurava
invejável estabilidade àquele regime. Pelo contrário, investigou com perseverança o porquê da
longa estabilidade da antiga monarquia francesa, e na investigação, que tinha o objetivo de
propor leis gerais que garantissem a consolidação de uma nova ordem - o liberalismo -, concluiu
que os mecanismos de controle existentes entre nobreza e rei, eram o princípio da garantia de
sustentação da estabilidade política na França absolutista. Dessa base arcaica, Montesquieu
absorveu lições positivas quanto aos mecanismos que fazem sustentar um regime, mas a elas
cuidou de adicionar os ensinamentos filosóficos de Aristóteles e John Locke como postulados
que edificariam o governo ideal, estável.

63
Para John Locke os poderes fundamentais do Estado são o executivo, legislativo e federativo. As funções do poder
federativo seriam aquelas que hoje se encontram na esfera de atuação do Chefe de Estado, isto é, as prerrogativas de
manter relações com Estados estrangeiros.
64
In: O Espírito das Leis, p. 188.

95
Atento no sentido de limitar as possíveis ambiguidades em seu método teórico, ao mesmo
tempo em que discorria em elucubrações filosóficas, também não se absteve da responsabilidade
de dedicar cuidados especiais aos valiosos dados de suas investigações empíricas. À semelhança
daqueles cientistas excêntricos, Montesquieu consagrou grande parte de sua vida a delinear a
estrutura daquilo que nomeava de estado de liberdade, hoje reconhecido como Estado de direito,
liberal ou constitucional. Até então, só na Inglaterra esta espécie de “planta” quase desconhecida
e solitária encontrava terreno fértil para frutificar, e para descrevê-la com método comparativo
confiável empreendeu uma série de viagens através da Europa, cujas conclusões o fizeram elevar
a Inglaterra ao posto de cânone de Estado paradigma, e o parlamento britânico a oráculo do
liberalismo. Essas conclusões estão inscritas em sua monumental obra-prima O Espírito das Leis,
editada em 1848, obra que ainda hoje manifesta vigorosa aparência de atualidade.
A sofisticação d’O Espírito das Leis o classifica como um tratado que muitos reputam
como obra precursora da sociologia moderna por sua virtude de abordagem de estudos
comparativos sobre as mais variadas sociedades, não apenas as existentes, mas também
históricas. Viajando pela Europa, anotando relatos de viajantes de outras partes do mundo,
Montesquieu se interessou em confrontar a realidade por meio do método
descritivo/comparativo, e assim foi arquitetando um conjunto de hipóteses e problemas que
resultou na notável Teoria da Separação dos Poderes ou Teoria dos Três Poderes. Sua viagem à
Inglaterra o influenciou definitivamente em suas convicções sobre as liberdades individuais,
afirmando que são pressupostos que o Estado deve assegurar a todos sem distinção. Deste modo,
na Inglaterra, onde os poderes fundamentais (executivo, legislativo e judiciário) já exercitavam
entre si a técnica de controle mútuo (pesos e contrapesos), se tornou sua grande utopia, como foi
a polis ateniense para Rousseau e a República Romana para Maquiavel.
Em seu ideário liberal, Montesquieu prescreveu a estrutura dos mecanismos de garantia das
liberdades dos governados como instrumento de reação às formas autocráticas de poder. Esses
mecanismos, estruturados por meio de uma técnica de controle - os checks and balances -
genericamente traduzida por pesos e contrapesos ou freios e contrapoderes, assinalam que não
haveria liberdade “se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e do executivo”,
do contrário “o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria arbitrário, pois o juiz seria
legislador. Se estivesse ligado ao poder executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor”.
Enfim, “tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo... exercesse esses três

96
poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas, e o de julgar os crimes e as
divergências dos indivíduos”.65
Contudo, no mesmo momento em que separa as funções – o poder de estatuir -,
Montesquieu simultaneamente fundamenta o poder de impedir, ambos se configurando como
partes inerentes à mesma engrenagem do sistema de pesos e contrapesos, incluindo o modelo
bicameral, em que cita o parlamento inglês como exemplo de bom funcionamento. Diz que “o
corpo legislativo, sendo composto de duas partes, uma paralisará a outra por sua mútua faculdade
de impedir. Todas as duas serão paralisadas pelo poder executivo que o será, por sua vez, pelo
poder legislativo”. Nas relações entre esses dois poderes políticos, o executivo “deve participar
da legislação através do direito de veto, sem o que seria despojado de suas prerrogativas. Mas se
o poder legislativo participar da execução, o poder executivo estará igualmente perdido”.66
Como se vê, a separação ou divisão dos poderes não é uma técnica a ser aplicada com total
independência ou total divisão das funções. Portanto, ela não só seria desnecessária, como até
inconveniente, pois se ocorresse, haveria um alto custo de paralisia decisória.
É curioso notar que desta fricção de corpos distintos (entre os poderes do Estado)
Montesquieu desenvolveu um conceito de lei, tendo por base a correlação entre massa e
movimento inspirado na física newtoniana. Deste modo, seu conceito de lei resulta de uma
dialética entre a natureza dos governos (quem governa) e o princípio que os sustenta (como se
legitima), definido por ele como “relações necessárias que derivam da natureza das coisas” e
assim reconhece que nessa dialética a inação é contrária ao próprio movimento necessário das
coisas, porque elas são obrigadas a caminhar, e caminhar de acordo. Para concluir
definitivamente sua definição do conceito de lei, com o intuito de defender suas ideias - o ideário
liberal - Montesquieu partiu de um princípio, o determinismo geográfico, que apesar da
discutível validade científica, resultou no eixo condutor da elaboração d’O Espírito das Leis, tida
como a mais robusta tese sociológica até então editada. Incorporando os preconceitos de seu
tempo, Montesquieu afirmava que fatores geográficos como físico-naturais, religiosos,
comerciais eram capazes de influenciar decisivamente os hábitos, costumes, usos, ritos, cultura
de cada povo. Com isso, cada comunidade/sociedade, de acordo com suas peculiaridades,
também desenvolveria suas próprias leis no sentido de atender mais adequadamente seus
interesses, ao mesmo tempo em possibilita a legitimidade do poder. Como decorrência, o
liberalismo defendido por Montesquieu não pode ser introduzido em qualquer sociedade porque

65
In: O Espírito das Leis, p.187.
66
Idem, ibidem, p. 193-194.

97
nem todos os povos possuem hábitos/costumes compatíveis para conviver sob a ordem liberal
com estabilidade, isto é, o liberalismo não é uma concepção de Estado apta a vigorar em
qualquer país, para qualquer povo. Ao contrário da tese liberal de John Locke, que preconiza o
liberalismo independente do tempo e espaço, por se tratar de leis naturais eternas e imutáveis,
que garantem direitos individuais imprescritíveis, portanto uma tese eminentemente
jusnaturalista, o liberalismo de Montesquieu se fundamenta nas premissas do juspositivismo que
se amparam no pragmatismo da lei que pode, sim, ser modificada, tanto no tempo quanto no
espaço, de acordo com a necessidade e utilidade de cada povo. Montesquieu até que reconhece
que as leis que regem as divindades e o universo são inexoravelmente eternas e imutáveis,
portanto estáticas, mas não as que regem as sociedades, visto que, sendo os costumes tão
diversificados, naturalmente as sociedades também serão plurais, de características
multifacetadas e, por extensão, também dinâmicas essas características.

4.5.2 - Separação dos Poderes: ascensão e decadência de um mito


Antes de maior aprofundamento, é necessária uma preliminar explicação de que a teoria da
separação dos poderes é uma doutrina que se confunde essencialmente com o pensamento liberal.
Mais que isso, a propaganda liberal difundiu a crença de que a existência do Estado liberal/de
direito estaria diretamente associada ao livre funcionamento dos poderes separados ou divididos.
Todavia, tanto Aristóteles quanto Maquiavel não dedicaram espaço para examinar a atuação
independente dos poderes sob a ótica da problemática liberal, como fizeram John Locke e
Montesquieu, mas sim cuidaram de enfatizar a separação de poderes sob a ótica da virtude,
moderação e estabilidade (Aristóteles), e êxito, eficácia e estabilidade (Maquiavel).
Com Montesquieu, especialmente, a teoria dos poderes foi elevada a um plano de condição
sine qua non para a plenitude do funcionamento do Estado de direito. Os fatores
histórico/político/filosófico e sociológico teriam sido as peças imprescindíveis deste novo
mosaico constitucional. Assim, Montesquieu foi buscar na história, na filosofia e na sociologia a
justificação do governo moderado, que seria explicado pela combinação ideal de uma sociedade
política livre e estável. Como conhecedor da obra de Aristóteles, chegou ao ponto de n’O
Espírito das Leis fazer-lhe referências e de certa forma reproduzir seu modelo de apresentação
dos assuntos mais relevantes da teoria das formas de governo. Mais além de Aristóteles, o
pensamento de John Locke, tanto direta quanto indiretamente, exerceu decisiva contribuição na
teoria de Estado de Montesquieu e em sua teoria da separação de poderes. A influência indireta
de Locke sobre Montesquieu ocorreu no sentido de que este se inspirou profundamente no

98
modelo constitucional inglês para sustentar suas convicções teóricas acerca do liberalismo e dar
vigor à tese da separação de poderes, que para ele era o fenômeno espiritual do liberalismo.
Entretanto, Montesquieu, como atesta em seu livro XI, de O Espírito das Leis, percebeu
certo equívoco ao interpretar o funcionamento e as relações dos poderes na Inglaterra. Admitiu
que a desejada separação ou divisão dos poderes não existia de forma rigorosa. Na prática, as
relações entre parlamento e governo – ou entre legislativo e executivo – era de constante e
necessária sintonia, e isto iria se tornar mais evidente com o passar dos anos, sendo certo que no
parlamentarismo, principalmente da atual etapa democrática, legislativo e executivo atuam com
tanta harmonia que mais parece haver uma integração entre esses dois poderes políticos.
A separação dos poderes, que não prosperou rigorosamente no sistema inglês, é uma prova
de que Montesquieu estava mistificando a teoria como um manto sagrado para dar solução ao
liberalismo, dado que era inegável a condição da Inglaterra como único Estado liberal da época
de Montesquieu, e esta jamais abandonou tal status, pois ao contrário, com a associação do
liberalismo com a democracia, como é hoje em dia, a separação entre parlamento e governo veio
se tornando cada vez menos perceptível.
Surpreendentemente, a teoria que obrigou o próprio Montesquieu a reconhecer que estava
equivocado, em razão da incompatibilidade com o parlamentarismo em gestação na Inglaterra,
encontrou nos EUA terreno fértil para a aplicação do Estado liberal tal como ele imaginava.
Assim, a teoria da separação dos poderes adquiriu lógica de aplicabilidade e Montesquieu
passaria a ser reverenciado como o apóstolo do liberalismo, só que agora em associação com o
sistema de governo presidencialista.
A Constituição dos EUA, matriz do sistema presidencialista, não contempla referência
expressa à teoria da separação dos poderes como faz, por exemplo, a constituição brasileira. Não
há, portanto, menção nominal à expressão “separação de poderes” na Carta Magna norte-
americana, mas em seus 7 artigos fica evidente que os poderes legislativo, executivo e judiciário
têm atribuições distintas e separadas. Porém, ao lado dessa divisão de funções deduz-se que deve
haver uma imbricação e interpenetração entre os poderes, isto é, todos os poderes
individualmente devem se constituir em freio e contrapeso aos demais poderes, e também devem
possuir algumas atribuições inerentes aos outros poderes como antídoto a qualquer espécie de
tirania. Como exemplo, em todas as constituições liberais ou liberais democráticas há a previsão
de que, de algum modo, o legislativo possui algumas funções judiciárias e executivas; o
executivo executa atos de perfil legislativo e judiciário e o poder judiciário com algumas
atribuições típicas do legislativo e do executivo. Pelo fato de ser uma constituição material por
excelência, porque trata quase que apenas de matéria de ordem constitucional, a constituição dos

99
Estados Unidos não necessitou de se adequar às mudanças políticas que ocorreram nesses seus
mais de 200 anos de existência. Durante esse período, o liberalismo dos EUA pode ser dividido
em 3 fases distintas: na 1ª, quando o Estado era puramente liberal, quase destituído de funções
sociais, o governo (executivo) fazia do presidente da república meramente um chefe de Estado,
cujas funções pouco excediam às de um chefe de cerimônias. Esta etapa pode ser classificada
como aquela em que a teoria foi aplicada de forma mais consistente do que em qualquer outra
parte do mundo ou período histórico. Na 2ª etapa, quando o Estado mínimo (apenas liberal) se
expandiu para o liberalismo com democracia política, as funções de governo foram se
deslocando lentamente para a área social, com a consequente perda de funcionalidade do
princípio da separação de poderes. Em sua 3ª etapa, a atual, o executivo assumiu amplo
contingente de tarefas sociais e adquiriu maiores atribuições na esfera legislativa, por delegação
do Congresso, sob o fundamento de tentar solucionar com maior eficiência as questões sociais
que genericamente assumem grandes dimensões. A despeito da crescente atuação legislativa do
executivo, ainda assim o presidencialismo norte-americano continua como referência
paradigmática na aplicação da teoria da separação dos poderes, ao contrário do que é fartamente
perceptível nos presidencialismos do resto do mundo, onde os presidentes são dotados de poderes
legiferantes extremados, via de regra como decorrência de legislativos fracos, indisciplinados,
irresponsáveis e submissos.

4.5.3 - Conclusão
Na América Latina, o presidencialismo tem sido identificado como um sistema de governo
em que a separação de poderes, apesar de inscrita como um dispositivo principiológico em suas
constituições, vem se revelando comprovadamente frágil no que respeita à sua aplicabilidade.
Quem sabe por escassez de liberalismo, excesso de populismo e crises de elevadas proporções o
poder executivo tem se aventurado na tentação de adquirir mais poderes, muitas vezes ilegítimos,
mas sempre com a conivência do próprio legislativo para mais legislar, resultando na atrofia do
próprio legislativo e também do judiciário.
Integrante da lista, o Brasil se encaixa como exemplo dessa comédia de contradições. Ao
mesmo tempo em que é um dispositivo da constituição, a separação de poderes é também uma
cláusula pétrea, portanto impossibilitada de ser objeto de mudança, por meio de emenda
constitucional, como está previsto no inciso III, parágrafo 4º do artigo 60 da CF/88. Sendo
precária a separação de poderes, em razão da hipertrofia do executivo, que de certo modo legisla
mais que o próprio legislativo, o quadro constitucional expõe uma falsa realidade, pois qual seria
a razão de ser uma cláusula pétrea constitucional se o legislativo impõe a si próprio, de modo

100
exacerbado, limites nas suas genuínas atribuições de legislar e o executivo além de exercer o seu
papel original que é o de executar as decisões do legislativo legisla mais que o próprio
legislativo? Um dos exemplos mais ilustrativos dessa deturpação vem a ser a criação e o uso das
Medidas Provisórias, que o Brasil enxertou no presidencialismo.67 O dispositivo constitucional
das MPs entrega ao presidente da república poderes legislativos tão absurdos que levou o
sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em discurso, a expressar sua indignação:
“O Executivo abusa da paciência e da inteligência do país quando insiste em editar medidas
provisórias sob o pretexto de que, sem sua vigência imediata (...), vai por água abaixo o combate
à inflação. Com esse ou com pretextos semelhantes, o governo afoga o Congresso numa
enxurrada de medidas provisórias. O resultado é lamentável: Câmara e Senado nada mais fazem
do que apreciá-las aos borbotões... Seja qual for o mecanismo, ou o Congresso põe ponto final no
reiterado desrespeito a si próprio e à Constituição ou então é melhor reconhecer que no país só
existe um poder de verdade: o presidente. E daí por diante esqueçamos também de falar em
democracia”. 68 Em tempo: quando proferiu esse discurso, Fernando Henrique Cardoso era
senador e não havia ainda sido eleito presidente da república.
Em resumo, traduz-se como sofisma o fato de a constituição brasileira induzir à crença de
que a separação dos poderes constitui dispositivo imprescindível para a existência do Estado de
direito e, por extensão, no guardião das liberdades individuais e dos direitos fundamentais. De
sorte que, nos dias que correm, o único país onde se pode identificar uma convincente atuação do
princípio da separação dos poderes são os EUA69, o que torna a teoria da separação uma
mistificação política e jurídico-constitucional, pois a grande maioria dos regimes democráticos
está combinada com o sistema de governo parlamentarista que, como se sabe, não permite a
separação entre legislativo e executivo, mas pelo contrário, eleva a cooperação desses dois
poderes a um grau de quase unidade ou fusão.

67
As Medidas Provisórias são comuns no parlamentarismo onde o primeiro-ministro, em função de sua
responsabilidade política perante o legislativo, pode ser demitido caso não sejam aprovadas pelo parlamento. No
Brasil, presidencialista, as Medidas Provisórias, criadas pela Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88,
asseguram ao presidente uma posição confortável, pois se forem derrotadas no Congresso o presidente não sofrerá
nenhuma “punição”, dado que no presidencialismo o presidente é irresponsável politicamente perante o legislativo.
68
Citado em voto proferido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio de Mello na Ação Direta de
Inconstitucionalidade nº 1721-3, em 19/12/1997.
69
Vide texto de presidencialismo.

101
4.6 - KARL MARX

Introdução
O filósofo liberal francês Alexis de Tocqueville advertiu que “os homens têm uma
atração irresistível pela igualdade. Se não podem tê-la conjugada com a liberdade, a terão na
servidão”. Esta frase denuncia um incessante, e talvez utópico, desejo da humanidade, com seus
escravos de ilusões, em busca da igualdade, obsessão que também foi alvo do gênio de Karl
Marx. Porém, antes dele, muitos pensadores, cada qual com suas particularidades, expressaram
seus projetos futuristas de sociedades igualitárias, como Platão, Campanella, Thomas Morus,
Rousseau, Fourier, Proudhon etc.
Contudo, Marx não apenas criticou, como até desdenhou das teorias socialistas anteriores,
cujos defensores ficaram conhecidos como “socialistas utópicos”, em razão de esses projetos
estarem dissociados do necessário rigor metodológico e destituídos de sentido lógico, portanto
inaplicáveis. Com Marx, no entanto, segundo suas próprias palavras, estaria surgindo o
socialismo científico, teoria que, de acordo com seus estudos, conduziria a humanidade
inescapavelmente não apenas à uma sociedade igualitária, mas também à liberdade, que seria
alcançada a partir do desaparecimento do Estado, estágio social nomeado por ele de comunismo.
Ao contrário daqueles filósofos políticos clássicos, idealizadores de diferentes alternativas
socialistas, Karl Marx tinha uma concepção extremamente negativa do Estado. Por meio de seu
“método científico”, o materialismo histórico, ou a dialética da história, Marx tinha a
convicção de que a finalidade do Estado seria o seu próprio fim, sua decomposição e não um fim
igual àquele que os demais entendiam como um fim nobre, como o de tornar todos os homens
iguais, dentro do próprio Estado. Em Marx, até a chegada da fase pós-estatal, denominada de
comunismo, em que haveria ausência de governantes e governados, o Estado, desde sua criação,
inevitavelmente passaria por sucessivas transformações até sua completa supressão. Entretanto,
até que isto ocorresse, no Estado “parasitário” haveria uma incessante luta de classes,
predominando, sempre, o poder da classe economicamente superior. Por isso e muito mais, seu
pessimismo com relação ao Estado era duplamente exaltado: um de caráter subjetivo e outro de
caráter objetivo. A concepção de caráter subjetivo, de forte conotação valorativa, se assentava na
convicção de que todo Estado é mau em si mesmo, ou seja, todo Estado é, por natureza, uma
ditadura. E a concepção de caráter objetivo, destituída de juízo de valor, portanto amparada em
rigorosa metodologia científica, a dialética da história, sustentava que o Estado nada mais é do
que um momento passageiro na história, sendo que sua extinção ocorreria naturalmente. Em
conclusão, os dois elementos principais da concepção negativa do Estado em Marx são: “a)

102
consideração do Estado como pura e simples superestrutura – reflete o estado das relações sociais
determinadas pela base econômica; b) a identificação do Estado como aparelho de que se serve a
classe dominante para manter o seu domínio, motivo pelo qual o fim do Estado não é um fim
nobre, como a justiça, a liberdade ou o bem estar, mas pura e simplesmente o interesse específico
de uma parte da sociedade; não é o bem comum, mas o bem da classe dominante, o bem
particular de quem governa – o que como vimos, fez com que se considerasse sempre o Estado
que o manifesta como uma forma corrompida...”.70
Em função dessas considerações, Karl Marx não produziu uma obra completa e específica
sobre o Estado e nesses termos não dedicou uma teoria especial sobre as formas de governo. A
despeito desta curiosa ausência bibliográfica, ele não economizou tinta e palavras para destilar
considerações hostis e demonstrar sua repugnância pelo Estado. Aliás, grande parte de sua vasta
obra foi devotada à dissecação crítica do Estado e à comprovação de que sua metodologia tinha
valor científico (objetividade) e disseminar sua propaganda ideológica (subjetividade).

4.6.1 - O materialismo dialético /dialética da história


É comum que um estudioso ou pesquisador ao desenvolver um trabalho científico, de
qualquer magnitude, encaminhe a apresentação de um modelo teórico. Como uma necessidade
imprescindível, isto deve ser, preferencialmente, exposto logo na parte introdutória da peça
acadêmica. Assim como é perceptível na obra de muitos pensadores teóricos do Estado, suas
metodologias podem ser encontradas de forma implícita ou explicita. Por exemplo, Maquiavel
instrumentalizou o historicismo; Hobbes, Locke e Rousseau o jusnaturalismo e Montesquieu o
juspositivismo; Max Weber apresentou sua sociologia compreensiva com base na teoria da
tipologia de dominação legítima, e Karl Marx desenvolveu uma investigação da história, dita
científica, por meio do método materialista e dialético. O método dialético de Karl Marx foi
inspirado no modelo do também filósofo alemão Hegel, embora com substanciais modificações,
tanto que ao se declarar um hegeliano, Marx acrescentava ser um hegeliano de esquerda,
afirmando a necessidade de corrigir os vícios deixados por seu predecessor.
Hegel, ao desenvolver seu método dialético, composto pela tríade tese-antítese-síntese
interpretou no Estado o estágio supremo da realização do espírito humano, significando dizer, em
poucas palavras, que a criação do Estado seria o momento absoluto, a superação dos conflitos
existentes na sociedade, portanto a síntese de um movimento (dialética) que se inicia com a
formação da humanidade, sendo a família a tese e a sociedade a antítese. Pela sua classificação

70
BOBBIO, Norberto. Op. cit., p. 164.

103
de síntese, o Estado é consagrado como o responsável pela formação da sociedade civil, ou que o
homem civilizado, ético, é produto da ação conciliatória do Estado.
Esta posição de Hegel acerca do Estado, descrevendo-o como um deus terreno é,
obviamente, uma posição bastante conservadora, pois todo o processo de evolução da
humanidade tem seu ponto final quando de sua formação. A esta manifestação de endeusamento
do Estado, Karl Marx respondeu com vigorosa contrariedade, pois para ele o Estado não seria
mais do que um instrumento de dominação de uma classe sobre as demais; que a formação do
Estado não caracterizaria o momento ético do ser humano e nem a superação dos conflitos
sociais. Pelo contrário, a criação do Estado é uma técnica de manutenção do domínio econômico
e da perpetuação do antagonismo de classes, decorrendo por dedução que o fator econômico
prepondera sobre o fator político. O entendimento de que a economia é o fator principal levou
Marx a denominá-la de estrutura, ficando o Estado classificado como superestrutura. Na
condição de superestrutura, o Estado é apresentado como um reflexo da base ou estrutura
econômica. Assim, as instituições que compõem o Estado – a religião, a ordem jurídica, a escola,
as manifestações culturais, os meios de comunicação de massa – são partes integrantes da
superestrutura, são construtos moldados à imagem e semelhança da classe economicamente
dominante para perpetuar o seu domínio. Enfim, quando da oposição a Hegel sobre o papel do
Estado, Marx contesta afirmando que não é o Estado o formador da sociedade civil como queria
aquele, mas era a própria sociedade civil (a classe superior) que formava o Estado.
Nessa ordem de pensamento, tudo o que se desenvolve no interior do Estado é uma
consequência da base. É esta base ou estrutura econômica que determina, por fim, qual será a
forma de Estado, pois de acordo com o modo de produção da economia ter-se-á relações de
produção que irão caracterizar a forma de dominação, podendo ser uma tipologia de dominação
escravista, feudal, burguesa ou socialista. Interpretando a função vital da economia na história,
Marx extrai de suas teorizações a conceituação de materialismo histórico, argumentando que o
movimento, a dialética da história, é conduzido pela matéria (modo de produção da economia) e
não pelo idealismo (o homem como sujeito histórico) como destacou Hegel. Com o
materialismo, o sujeito da história não é o homem, mas os meios e as relações de produção (a
economia), cabendo ao homem o papel secundário de objeto da história, isto é, o homem
alienado pelas relações de produção da economia se situa passivamente, sendo guiado pelas
forças produtivas. No Estado socialista, o último estágio de Estado, que prepara a transição para
o comunismo, ocorre a desalienação/emancipação do homem, pois sendo o Estado socialista a
ditadura do proletariado, todos os homens se tornarão proletários, membros de uma única classe,

104
desaparecendo a luta e, portanto, sendo extinto o próprio Estado, que perde sua razão de
continuar existindo.
Em sua explanação do desenrolar da luta de classes no interior do Estado, Marx retoma o
fio condutor da história desde a era mais primitiva até as revoluções capitalistas e socialistas,
produtos de sua época. O eterno conflito de classes é o elemento básico da tese da dialética
marxista, que sustenta ter a humanidade selado uma ruptura com o estágio pré-estatal,
denominado de comunismo primitivo, para criar o Estado. Pela ordem de sua análise histórica, a
primeira organização estatal criada foi o Estado escravista que, como todo Estado, é uma
ditadura, sendo neste caso, a ditadura dos senhores sobre os escravos. Esta forma de Estado se
desenvolve, entra em contradição, em razão do conflito de classes, e desaparece, cedendo lugar
para uma forma mais desenvolvida de Estado - o Estado feudal -, que se materializava com a
ditadura da nobreza sobre os servos. Havendo dominação, inevitavelmente a luta de classes se
repete e, com ela, novamente o desenvolvimento, amadurecimento e desaparecimento daquela
forma estatal. Por meio deste constante movimento histórico (dialética), segundo Marx, o
capitalismo-burguês entra em ascensão, e quando este principia o esplendor de seu
desenvolvimento é o exato instante em que Marx se projeta como um importante estudioso e
crítico do capitalismo.
Importa observar que a teoria da dialética da história e o materialismo histórico não
poderiam, jamais, excluir o Estado capitalista (ditadura da burguesia) do processo, posto que o
capitalismo constitui-se como fase inerente para conduzir o Estado à sua decomposição. Como a
dialética marxista pressupõe uma marcha natural da história, seus defensores não tinham, em
princípio, o propósito de condenar o Estado liberal-capitalista e nem de excomungar a classe
burguesa. Pelo contrário, sabendo tratar-se de um modelo econômico necessário, exaltaram o
evidente avanço do capitalismo relacionando-o à sua função histórica, uma vez que o Estado
socialista (ditadura do proletariado) só lograria êxito depois que o Estado capitalista aparecesse,
desenvolvesse e perecesse. De acordo com os princípios dessa dialética, a revolução pelos
operários que transformaria o Estado socialista em uma sociedade sem Estado (comunismo) só
poderia ser construída depois de esgotado o ciclo evolutivo do sistema capitalista. Como
sustentava Marx em O Manifesto Comunista, “A burguesia, historicamente, teve um papel
extremamente revolucionário... em todas as vezes que chegou ao poder, pôs termo a todas as
relações feudais, patriarcais e idílicas... Na mesma medida em que a burguesia – isto é, o capital
– se desenvolve, também o proletariado se desenvolve... Com seu nascimento, começa a sua luta
com a burguesia... O que a burguesia, portanto, produz, acima de tudo, é seus próprios coveiros.

105
A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”. 71 Esta citação fragmentada,
ilustrativa do papel representativo do capitalismo burguês, deixa perceptível, nas entrelinhas, o
desenrolar da dialética da história e materialista dentro do Estado liberal/capitalista. Com base
nesses princípios teóricos não fica difícil de entender a essência da guerra particular entre
anarquistas e comunistas, ainda que ambas as correntes mirassem o mesmo alvo: a extinção do
Estado. É que na doutrina marxista não há espaço para a ação dos “anarquistas”, pois “qualquer
tentativa de apressar arbitrariamente os tempos da revolução levaria somente ao insucesso ou à
adoção de medidas terroristas, que descaracterizariam a própria revolução”.72
A estratégia dos anarquistas de provocar por antecipação uma revolução socialista e
extirpar o Estado parasita de uma vez por todas desagradava a corrente marxista, pois o
catecismo desta prescrevia que a revolução só aconteceria depois do nível máximo de
desenvolvimento do Estado, de acordo com os comentários acima. Assim sendo, por que Marx
não explicou o fato de Inglaterra e EUA não terem sofrido a revolução socialista, uma vez que lá
o capitalismo se encontrava em avançado estágio de desenvolvimento? Karl Kautsky, ex-
discípulo e correligionário de Marx, elaborou uma teoria de revisão do marxismo (colaborando
com a evolução das ideias social-democratas) argumentando que a elevação da qualidade de vida
dos trabalhadores britânicos seria o suficiente para afastá-los da tentação de um eventual
processo revolucionário. No que concerne aos EUA, Friedrich Engels explicou que se trata de
um país que não conheceu o feudalismo, possuindo, portanto, uma arraigada cultura burguesa.
Outra justificativa plausível, a de S. Martin Lipset, se fundamenta na própria natureza do partido
socialista norte-americano, cujo berço – o meio-oeste anglo-saxão - o afastou das principais teses
socialistas, por exemplo, o universalismo. O fato é que a cultura política nos EUA nunca legou à
nação um partido socialista representativo: “No início de 1980, os Estados Unidos eram a única
nação industrializada democrática em que nenhum socialista independente ou representante de
partido trabalhista tivesse sido eleito para qualquer cargo”.73

4.6.2 - A obra de Karl Marx como instrumento de análise a serviço da ideologia


Como foi mencionado, Marx não se ocupou em escrever uma obra inteira e
especificamente dedicada à teoria do Estado. Todavia, a questão do Estado esteve presente em
suas obras, quer sejam de política, de economia, de sociologia, direito, história, letras (artigos

71
MARX, Karl. O manifesto comunista, p. 12 e seg.
72
BEDESCHI, Giuseppe. Dicionário de Política. Verbete: Comunismo, p. 209.
73
JOHNSON, Paul. Op. cit., p. 176.

106
publicados na imprensa) ou nas infindáveis cartas que escrevia do exílio aos amigos e
correligionários espalhados pela Europa, especialmente Alemanha.
Reconhecido como um analista dos grandes acontecimentos históricos, em O Manifesto
Comunista, publicado em 1847, um de seus primeiros escritos da fase de maturidade, em
colaboração com o parceiro Friedrich Engels, ele maneja por todo o tempo a dialética e o
materialismo histórico. Escrito para ser apresentado em uma assembleia de comunistas em
Londres, ali se percebe com clareza um Marx comprometido politicamente, convocando os
trabalhadores a se engajar como peças indispensáveis à engrenagem da história a fim de tomar
parte no processo de ruptura do Estado burguês e de criação do Estado socialista.
Contudo, é n’O 18 Brumário de Luís Bonaparte que Marx explora com maior sofisticação
os fatos políticos e econômicos a partir de uma obra de história. Escrita em 1852, aborda a
conflituosa evolução social, política e econômica da França desde os momentos iniciais da
Revolução de 1789 até o autogolpe operado pelo sobrinho de Napoleão, em 2 de dezembro de
1851. Sendo um dos mais populosos e poderosos países da Europa, a França da época foi
laboratório para Marx explicar a força motora da história como sujeito de transformação das
relações humanas. Em que pese a genialidade da obra de análise política, Marx instrumentalizou
o 18 Brumário como meio de desmascarar a nova espécie de ditadura de Luís Bonaparte,
apresentando-o como um farsante, posto que, embora estivesse havendo mudança da forma de
governo, a essência permanecia intacta, com a burguesia permanecendo predominante no
exercício do despotismo74, o poder econômico. O título do livro vem a ser uma ironia de Marx
dirigida a Luís Bonaparte, porque ele inescrupulosamente estava determinado a convencer os
franceses de que iriam reviver os tempos gloriosos do tio Napoleão Bonaparte, que chegou ao
poder no dia 18 Brumário de 1799, data do calendário inaugurado pelos revolucionários de 1789.
Luís Bonaparte havia sido eleito presidente constitucional da França em 1848, após o
último suspiro da dinastia monárquica naquele país. O governo representativo estabelecido a
partir de então não se sustentou, e o avanço do proletariado urbano e a ascensão dos pequenos
camponeses os colocaram em posição de autonomia perante o Estado, com poder de pressão
suficiente para reivindicar com sucesso uma sucessão cada vez maior de privilégios, elevando a
classe trabalhadora à um patamar de equilíbrio com a burguesia, especialmente com relação aos
direitos políticos. A burguesia, predominante no parlamento, onde se situa o centro do poder

74
Marx estabeleceu uma particular distinção entre despotismo e ditadura. Enquanto ditadura é a forma de exercício do
poder político, o despotismo (do grego, déspotes: senhor) é uma forma de dominação econômica exercida por uma
classe sobre outra(s). A partir da década de 1860, ele passa a utilizar genericamente a expressão “ditadura” para
ambos os significados.

107
político em um regime liberal-democrático, temendo o avanço do socialismo, estrategicamente
abre mão de seu poder e o transfere para o executivo, que passa a exercê-lo ditatorialmente. Essa
transferência de poder teria sido apenas temporária, pois quando a “ordem” fosse restabelecida a
burguesia poderia retomar as rédeas do poder sem o perigo do fantasma vermelho. A estratégia
operada asseguraria à burguesia a continuidade do poder econômico – a estrutura, o mais
importante – sendo que o poder político (superestrutura) estaria sob a confiança de um membro
da própria classe burguesa, o ditador Luís Bonaparte, que a partir de então se autoconsagraria
Napoleão III ao inaugurar o II Império francês. Essa espécie de golpe, praticada originalmente
por Napoleão I, foi batizada por Marx de bonapartismo. Sua particularidade está associada ao
ato do governante, que a pretexto de salvar a nação de um conflito iminente, se torna ditador, por
meio do autogolpe (golpe branco) e se apresentando como um árbitro, pairando acima da luta de
classes. O termo bonapartismo foi recepcionado pela teoria política universal, sendo utilizado
sempre que um autogolpe com características semelhantes ocorresse em qualquer país. No Brasil,
as duas grandes ditaduras também se revestiram de características bonapartistas: a de 1937-45 e a
de 1964-85 foram justificadas para salvar a democracia do perigo do socialismo/comunismo, de
uma “tirania das massas”.
Mas para Marx, o golpe bonapartista de Luís não se configurou em avanço significativo
para o processo histórico, já que em termos de “materialismo” não houve evolução, isto é, a
mesma classe econômica - a burguesia - continuou predominando. A transformação que ocorreu
foi meramente acessória, apenas política. Isto se explica porque todo poder político para Marx é,
sem distinção, uma ditadura, seja um governo feudal, socialista, burguês representativo ou como
este de Bonaparte, com o poder concentrado no órgão executivo. A grande lição a ser extraída
deste “golpe branco” é que a máscara do impostor caiu, e então ele se apresenta como qualquer
governante, um verdadeiro e genuíno ditador, e não mais sob o véu de um governo
representativo/democrático.
Por isso, Marx atacou impiedosamente Luís Bonaparte insinuando que este receberia justa
punição pela heresia que estava cometendo ao se arrogar de forma mistificadora reencarnando o
velho Napoleão. A ira de Marx é melhor compreendida quando se sabe que sua teoria, dialética,
não admite a repetição da história. Em uma de suas frases de efeito mais conhecidas, diz que “as
rodas da história não giram para trás”, o que metodologicamente faz sentido, pois se assim não
fosse, sua tese da inevitabilidade da chegada do comunismo seria, pela inércia, catastroficamente
desmontada. Para ele, a história só se repete como tragédia e nesta correlação de ideias afirma
sobre Luís Bonaparte: “a necessidade de manter os olhares do público sobre ele, como substituto
de Napoleão, por meio de surpresas constantes... viola tudo que parecia inviolável... produz uma

108
verdadeira anarquia em nome da ordem... profana a máquina do estado e torna-a ao mesmo
tempo desprezível e ridícula. O culto do Manto Sagrado de Treves ele o repete em Paris sob a
forma do culto do manto imperial de Napoleão. Mas quando o manto imperial cair finalmente
sobre os ombros de Luís Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna
Vendôme”.75
Após os eventos da guerra franco-prussiana, em 1871, quando Bismarck derrotou Napoleão
III, socialistas de todos os matizes reunidos em um comitê intitulado de Comuna de Paris se
aproveitaram da fragilidade do governo central e tomaram de assalto o poder na capital da França
por mais de 70 dias, por meio das famosas "Barricadas de Paris". Imediatamente após os
acontecimentos, Marx publicou um livro relatando os fatos e discorrendo analiticamente sobre o
momento político. Este livro, A Guerra Civil na França, é considerado por seguidores de Marx
“como o ato de nascimento do ‘marxismo’, quer seja como tendência no movimento operário
quer como corrente de ideias em geral”.76 Ali, Marx considerou os acontecimentos da “Comuna”,
embora fora do tempo histórico adequado, talvez pelo insucesso no final, como uma preliminar
do que seria a “ditadura do proletariado”. Por outro lado, sua obra sobre a comuna foi motivo de
acirrada polêmica entre marxistas e anarquistas. Ao celebrar os acontecimentos, Marx se viu
obrigado a fazer algumas correções em sua teoria, expostas originalmente n’O Manifesto
Comunista como a de admitir uma rápida descentralização do poder do Estado logo após a
revolução socialista, quando preconizava exatamente o contrário. Os seguidores de Marx ficaram
indignados quando os críticos interpretaram nele um “desvio de conduta”, uma proximidade com
as teses anarquistas. Mikhail Bakunin, um dos mais importantes teóricos do anarquismo zombou
de Marx ao apontar as opiniões imprecisas de seu dogma: “...os marxistas – com todas as suas
ideias postas abaixo pela Comuna – foram forçados a curvar-se ante a insurreição e adotar seus
objetivos e programas”. Mais tarde, o marxista Lênin reagiu ferozmente afirmando que Marx não
era utópico, que em seus escritos não há um grão de utopismo, conduta típica do ideário dos tão
criticados anarquistas. No entanto, n’A Guerra Civil não se pode deixar de reconhecer um Marx
inegavelmente apaixonado, devotado por uma causa, bem parecido com aqueles socialistas – da
corrente utópica - a quem tanto tripudiou acerca de seu amadorismo. Seja como for, A Guerra
Civil na França pode ser interpretada como uma obra de conciliação entre marxismo e
anarquismo, afinal de contas ambas as correntes de pensamento convergem para o libertarismo,
ou seja, têm como alvo a “quebra da máquina do Estado”.

75
MARX, Karl. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann, p. 126.
76
COGGIOLA, Osvaldo. Escritos sobre a Comuna de Paris, p.33.

109
Naquelas décadas finais do século XIX, o marxismo ortodoxo assistiria às primeiras
dissidências. Alguns partidários de Marx, reexaminando o curso da história opõem resistência em
continuar admitindo sua teoria como verdade absoluta, principiando a formulação das primeiras
teses dissidentes. Esta corrente, encabeçada pelos também alemães Karl Kautsky e Leonard
Bernstein, propunha a revisão dos principais postulados do marxismo alegando a impossibilidade
de concretização do “materialismo histórico”. Os “revisionistas”77, como ficaram conhecidos,
pelo conjunto das ideias patriarcas da “social-democracia”, defendiam a necessidade de
adaptação à realidade política e econômica da sociedade explicando que, dentre outras
ocorrências, o progresso do capitalismo não levaria necessariamente à ditadura do proletariado
(socialismo) como Marx sustentava, mas a uma confortável dose de bem-estar que terminaria por
afastar os trabalhadores da revolução.
Na primeira metade do século XX, o neomarxismo cuidaria de organizar correções de rumo
da teoria marxista. Seus pensadores continuavam defendendo os pressupostos fundamentais do
apostolado marxista (luta de classes, transformação social...), mas produziram uma vasta
contribuição de ideias à doutrina. Antonio Gramsci, um de seus principais expoentes, entendia
que o Estado, como superestrutura, não constituía mero reflexo dos acontecimentos ocorridos na
estrutura (economia), ou seja, para ele o fator político (componente da superestrutura) também
constitui uma força material, instrumento apto de mudança (dialética) da história. Desenvolveu o
conceito de hegemonia, de acordo com o qual a dominação de classe é operada não apenas pelo
monopólio dos meios de produção econômica, mas também através da dominação do aparelho
político, caso em que as massas, produzindo seus intelectuais (intelectuais orgânicos) podem ser
capazes de emancipação política, podendo tomar o poder utilizando o método da chamada
“guerra de posição”. Rejeitando a tese de Lênin, Gramsci via na “guerra de posição” um meio
mais eficaz de tomada do poder do que a “guerra de movimento” que significa o confronto direto
ao Estado e sua classe dominante. Em outra frente de combate, sem abandonar o marxismo, mas
contestando Marx, discordava da rígida concepção de que o homem, alienado, se encontrava no
posto de mero objeto da história. Gramsci interpretava na vontade individual uma força motora
da história. No sentido de evitar o continuísmo da classe hegemônica, Gramsci enxergou nos
“intelectuais orgânicos” uma fórmula de destruir a técnica da “revolução passiva”, empregada
pelo governo burguês como recurso para evitar a revolução dos trabalhadores.

77
Os marxistas ortodoxos indignados com as novas ideias revisionistas taxaram os social-democratas de “renegados”.
Por sua vez, a corrente purista dos seguidores de Marx foi denominada de “marxismo vulgar”.

110
O conceito de “revolução passiva” se confunde com o significado de “política reformista”,
pois em ambas as situações o Estado atua como sujeito ativo a fim de “constante reorganização
do poder do Estado e sua relação com as classes dominadas para preservar a hegemonia da classe
dominante e excluir as massas de exercerem influência sobre as instituições econômicas e
políticas”.78
Movimentando no campo de reação, as classes dominadas respondem às ameaças de
manutenção do poder da classe dominante. Os trabalhadores, conforme explicava Gramsci,
desenvolvendo sua consciência crítica, se projetavam em intelectuais orgânicos, pois em seu
entendimento todo homem é um filósofo, uma vez que fora de sua atividade profissional, todos
os indivíduos exercem algum tipo de atividade intelectual.

4.6.3 – Conclusão: comunismo teórico e comunismo real


Como ensina a dogmática marxista, socialismo e comunismo são dois termos-conceitos
distintos, com significados distintos, com aplicação, baseados na teoria dialética, em duas
distintas etapas históricas do Estado. De acordo com o determinismo histórico marxista, a
realização do comunismo é o momento de síntese dentro do processo dialético, quando a última
forma de Estado completa seu ciclo – o Estado socialista – e em seguida desaparece
definitivamente.
Todavia, a linguagem corrente do senso-comum adotou as terminologias comunismo e
socialismo com sentido idêntico. Deste modo, os regimes totalitários de esquerda iniciados com a
revolução bolchevique de 1917, que originaram o sistema de propriedade coletiva ou estatal na
ex-URSS, e se espalhando mais tarde por vários países, ficaram popularmente conhecidos como
comunismo. Mas, rigorosamente, em conformidade com o vocabulário e a teoria marxista, esses
regimes ditos comunistas seriam classificados, na melhor das hipóteses, como regimes
socialistas. É sabido que houve condescendência com relação ao uso indiscriminado do termo,
tanto por parte da esquerda socialista-comunista, quanto dos adversários liberais-capitalistas, que
optaram pela tática de não denunciar o mau uso do termo. Pelo contrário, os adversários liberais
do modelo socialista/comunista aproveitaram o flanco aberto por seu modus operandi
autoritário/totalitário para atacar suas tendências antidemocráticas.
Para Marx, o socialismo é um estágio em que o Estado ainda existe, portanto o Estado
socialista, como todo Estado, é para ele uma ditadura, neste caso a ditadura do proletariado. No
processo dialético natural e necessário, a ditadura do proletariado (socialismo), que sucede ao

78
GRAMSCI, Antonio. Apud CARNOY, Martin. Estado e Teoria Política, p. 103.

111
Estado liberal-representativo-capitalista (ditadura da burguesia), terá seu fim quando todos os
indivíduos se tornarem proletários. Proletarizados, consequentemente todos serão iguais,
pertencentes a uma mesma classe, não havendo mais razão para o Estado socialista ser uma
ditadura do proletariado, e com isto, não justificando mais a sua existência, uma vez que a única
função do Estado é a de ser um instrumento para o exercício da ditadura de classe. Ato contínuo,
a sociedade inaugura a fase pós-estatal, de uma sociedade sem Estado (o não-Estado ou
comunismo). Depois da extinção do aparelho estatal a humanidade se projeta em sua fase de
mais ampla autonomia e mais completa liberdade, com o fim das desigualdades, da opressão, da
luta de classes, de governantes e governados. Em sua abordagem à teoria do comunismo, Marx
foi muito reticente acerca de ideias da sociedade futura, limitando-se a prescrever escassos
princípios sobre o modo de relacionamento nas comunas. Nessas poucas alusões, sabe-se,
ironicamente, que ele citou teses de alguns socialistas utópicos, com destaque para Rousseau, a
quem costumava criticar, por considerar ingênuas as ideias desta corrente de socialismo.
Assegurou que no comunismo haveria o fim do Estado, portanto o fim da dominação política,
mas não o fim das relações políticas, que teriam prosseguimento por meio dos “indivíduos
associados”.
No círculo dos “socialistas utópicos” alguns extrapolaram o campo da teoria política ao
apresentar projetos de sociedades futuristas, em protótipos arquitetônicos de cidades (comunas).
Entre eles, o francês Charles Fourier foi o que conquistou maior notoriedade ao projetar a famosa
cidade-edifício conhecida como Falanstério,79 agregação social onde a máquina de opressão do
poder e os conflitos estariam ausentes, prevalecendo os princípios do associativismo, com o
interesse individual coincidindo com os da coletividade.80
No século XX, o agrupamento de estados que ficou popularmente conhecido de comunista
é chamado ao mesmo tempo de socialista. Como alguns puristas resistiam em reconhecer essa
duplicidade de denominação, a crônica política adotou os termos “comunismo real” ou
“socialismo real”. “Comunismo real” e “socialismo real” não são expressões com conotações
intrinsecamente legítimas e verdadeiras, mas antes, são duas expressões didáticas que procuram
explicar a realidade existente. Ou seja, o socialismo e o comunismo ditos reais são meramente
aqueles que realmente existiram e existem, expondo todas as suas deficiências, derivando daí os
vocábulos “comunismo real” e “socialismo real”.

79
Alguns falanstérios chegaram a ser criados na Europa do século XIX, e comunidades anarquistas em geral foram
muito populares desde essa época até o século XX. França e EUA foram os países onde esse tipo de comunidade
mais proliferou. Ex: Condé-sur-Vesgre, Citaux, Guise.
80
LARIZZA, Mirella. Dicionário de Política, p. 463.

112
Os analistas que rejeitam as duas expressões argumentam que não houve comunismo
porque o Estado não foi extinto. Pelo contrário, ao invés de desaparecer onde se esperava, o
Estado se fortaleceu ainda mais, tornando-se um Leviatã mais poderoso, onipotente, onisciente e
ubíquo que aquele absolutista dos séculos XVI, XVII e XVIII da era moderna. Para justificar
tamanha onipotência, alguns defensores desse gênero de autocracia reescreveram a teoria
marxista, como o fez Lênin, por exemplo, ao elaborar o conceito de “marxismo-leninismo”
sustentando a necessidade de centralização arbitrária do poder em um sistema de partido único
até o instante da adequada operação de erradicação do Estado. Em alusão ao Estado socialista,
seus críticos sustentam que não fora nem mesmo uma ditadura do proletariado na acepção
marxista do termo, talvez com a ressalva do período inicial revolucionário na Rússia leninista
quando os trabalhadores reunidos nos Sovietes exerceram um regime de autogestão nas fábricas.
Mas em curto espaço de tempo, a “ditadura do proletariado” transitou sorrateiramente para a
“ditadura do partido” que produziu a taciturna nomenklatura, uma elite dirigente rodeada de
mordomias e privilégios, cujos rituais em nada destoavam dos hábitos mais afetados da
plutocracia burguesa produzida pelo capitalismo. Como bem ilustrou George Orwell, no epílogo
de sua satírica obra-prima A Revolução dos Bichos, descrevendo os instantes finais de uma
“confraternização” de cúpula entre socialistas/comunistas e capitalistas, que se desenrolava longe
dos olhos das massas, concluiu com sua metáfora mordaz: “Doze vozes gritavam cheias de ódio,
e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos.
As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de
um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem
era porco”.81
No embate das correntes antagônicas que "profetizaram" o fim do capitalismo por um lado,
e o fim do "comunismo" por outro, o que tem sido testemunhado de fato é que o capitalismo
exibe capacidade de Fênix para se reerguer, pois sobrevive tanto em um sistema como no outro.
No capitalismo explicitamente, e no "comunismo" implicitamente. No socialismo/comunismo
floresceu um sistema de capitalismo de Estado, em contraste com o Estado capitalista burguês.
Enquanto no típico Estado capitalista a propriedade se encontra majoritariamente sob controle
dos indivíduos - que decidem livremente o quê, quando, quanto, e por quanto produzir para o
mercado -, no Estado “comunista ou socialista” a propriedade se concentra sob controle do
Estado, sendo que este arbitrará ao trabalhador o quê, quando, quanto, e como produzir para ser
entregue ao Estado que, por conseguinte, arbitrará por quanto. Assim, prevalece no Estado

81
ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Ed. Globo, p. 117.

113
capitalista burguês um sistema de administração das coisas (bens) gerenciado pelas pessoas; em
contrapartida, no Estado socialista/comunista prepondera a direção de um sistema de
administração das pessoas sob controle direto do próprio aparelho estatal.
Finalmente, no que diz respeito a possibilidade de uma sociedade futura em que impere
relações igualitárias e libertárias como vaticinou Marx, reafirmá-la é um exercício com limitada
margem de segurança e com excessiva confiança de dons proféticos. Mas não custa nada ficar de
olhos atentos nas próximas cartadas do capitalismo global e de seus dirigentes, que vêm se
comportando de modo paranoico, já que as grandes potências europeias e EUA, matrizes do
capitalismo, enredadas em crises econômicas, não são capazes de solucionar o problema com
eficácia. Na esfera política, ninguém há de desdenhar das possibilidades revolucionárias do
mundo virtual, com suas "redes sociais" mobilizando milhões de cidadãos pelo mundo afora. E
não só no Ocidente, como o magnetizante M-15 que reuniu multidões de manifestantes na ruas e
praças espanholas, mas também no Oriente Médio ao incomodar antigos déspotas defenestrando-
os, como na Tunísia, no Egito, na Líbia. Para quem costumava zombar da ideia de autogoverno
teorizada por Marx, eis a ponta do iceberg. Entretanto, se esta tendência prosperasse no âmbito
da participação política e se tornasse hegemônica, a "etapa necessária" da dialética marxista
estaria desbaratada, pois a "fase do socialismo" sofreria um short cut, isto é, seria suprimida.

114
5- DEMOCRACIA

Introdução
O filósofo Jean-Jacques Rousseau, notório por sua radical defesa de uma espécie de
democracia, espécie que hoje chamaríamos de socialista, por conferir-lhe o pré-requisito da
soberania absolutamente popular, reconheceu a impossibilidade de sua existência plena,
afirmando que jamais houve e jamais haverá verdadeira democracia.
Outra celebridade, o estadista e ex-premiê britânico pelo partido Conservador, Winston
Churchill, herói da 2a Guerra Mundial, que enfrentou e derrotou o totalitarismo nazifascista, em
defesa do mundo liberal e democrático, cujo carisma teria sido uma de suas principais armas,
simbolizadas no seu discurso lírico que prometia a seu povo “sangue, suor e lágrimas”, emendou
com sua proverbial ironia, após a vitória, que a democracia é o pior dos regimes políticos exceto
todos os outros já experimentados.
Refletindo sobre a afirmação desses dois homens da política - um sábio (o filósofo) e um
prático (o estadista) -, o cidadão comum, em estado de contemplação, se veria resignado a
concluir que democracia nada mais é que uma perfeita falácia, haja vista que essas duas
personalidades tiveram e têm seus nomes irreversivelmente atrelados à democracia, seja no plano
ideal seja no plano realista.
Contudo, uma democracia materialmente aceitável, não é tarefa impossível, embora possa
ser uma verdadeira cruzada o exercício de alçá-la ou de recolocá-la em seu devido lugar para
comprovar o que de fato é a democracia; o que ela pode e é capaz, e o que não pode e não é
capaz de fazer.
As referências a Churchill e Rousseau não foram feitas por acaso, pois essas duas
autoridades de vínculos estreitos com a democracia a representam em seus dois extremos, que à
primeira vista se apresentam como opostos: respectivamente a democracia real e a democracia
ideal. Enquanto Churchill é classificado como um dos ícones do realismo político do século XX,
Rousseau é reconhecido como um defensor apaixonado da democracia popular, e pelo seu
proverbial romantismo relacionado a ela, consensualmente rotulado como ícone da utopia.
A referência a esses dois polos - idealismo e realismo -, que conviveram conflituosamente
desde o colapso do absolutismo até as décadas finais do século XX, tem como objetivo
comprovar que não são duas linhas retas fadadas a nunca se encontrarem. Pelo contrário, a
trajetória recente da democracia tem provado que há e sempre deverá haver convergência entre o
dever-ser (deontológico), representado pelo idealismo político e o ser (ontológico), simbolizado
pelo realismo. Na ausência de qualquer deles, a concretização da democracia seria uma jornada

115
fracassada, pois sem a utopia, o idealismo, os homens não teriam um norte para realizar o que
concebem como democracia, e sem a dose necessária de realismo, o sonho do possível ficaria
restrito apenas à imaginação de uma “cidade celestial”, bem distante do Estado democrático, tal
como atualmente se apresenta, que é a democracia compreendida por Churchill, que será descrita
mais adiante. Quanto à democracia prescrita e descrita por Rousseau, sua abordagem mais
específica estará em capítulo dedicado a este pensador.

5.1 – O uso indiscriminado do vocábulo democracia


Um dos fatores que tanto contribuíram para a crise de credibilidade da democracia foi o
uso indiscriminado do termo. A guerra das palavras que se travou com a finalidade de
monopolizar seu significado foi tão caótica que praticamente todos os regimes ao longo do
século XX se declararam democráticos. No campo da exceção é bem verdade que Mussolini,
Hitler e Stálin não se declaravam democráticos - pelo contrário até -, pois no tempo em que
reinavam, a democracia, em crise existencial, estava tateando no escuro, à procura da poção
mágica para cicatrizar suas feridas, provocadas pela devastadora crise do capitalismo, iniciada
com o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.
Entretanto, a frustrada aventura do nazifascismo, e sua consequente desmoralização,
obrigou os ditadores e ditaduras de todas as vertentes à uma reflexão quanto ao uso do termo
ditadura, pois Hitler e Mussolini, dois dos mais venerados ditadores do planeta, rapidamente
ganharam o epíteto tirano logo após perderem sua legitimidade.
Uma vítima em particular dessa revisão de valores foi a espécie vigente de democracia – a
democracia liberal -, porque além de o termo democracia ter se tornado lugar-comum, já que
quase todos os regimes após a II Guerra passariam a se denominar democráticos, a democracia
existente (liberal) se encontraria rebaixada a uma subespécie, ofuscada por cortinas de fumaça
lançadas indiscriminadamente por ideólogos a serviço de ditadores, em razão da ascensão dos
regimes comunistas.
Não surpreendendo a quase ninguém que a verdade venha a ser a primeira vítima de uma
guerra, na guerra das palavras em torno do vocábulo democracia, algo de semelhante tem
acontecido. Ainda que trágico, não deixou de ser cômico o fato de o Estado ditatorial e
comunista da então Alemanha Oriental ter se denominado formalmente de “República
Democrática da Alemanha”. Pior, a não menos cruel ditadura comunista da Coreia do Norte,
oficialmente se apresentaria ao mundo, despida de qualquer escrúpulo, como “República
Democrática Popular da Coreia”. Ainda que o mais desatento dos ingênuos perceba o cinismo
dos pleonasmos - pela insistente repetição do termo ‘povo”, em linguagens diferentes – é digno

116
de consideração o quão notável tem sido a tática de tornar as palavras mais importantes que as
ideias. Se as ideias foram imprescindíveis para despertar uma nova aurora o quanto antes, como
foram na era do Iluminismo, a inércia gerada pela sociedade ocidental de massas, produto da
democracia burguesa pós-industrial, formatou uma sociedade, se não alienada, pelo menos
desinteressada, no sentido de não retrucar os ataques ideológicos desferidos contra a democracia
que ela própria construiu. Como os regimes democráticos ocidentais despreocupadamente
usavam as palavras em sentido vagamente ideológico, as diferentes ditaduras, especialmente as
comunistas, foram bastante competentes na arte de manipular ideologicamente o termo
democracia, inclusive com relevante contribuição de pensadores sociais do Ocidente. Os ataques
difamatórios à democracia liberal foram tão eficientes que atingiram o extremo de causar
verdadeira confusão conceitual tanto nos círculos das massas, e até nas fileiras da intelligentsia,
aludindo que as verdadeiras ditaduras eram democracias, e que as tradicionais democracias
ocidentais eram verdadeiras ditaduras. A consequência dessas pirotecnias conceituais se
concretizaria em prática recorrente, e nas mais mais diversificadas ditaduras – tanto de esquerda
quanto de direita –, quando da realização simulada de eleições, cujos líderes, como Fidel Catro
(Cuba), Saddam Hussein (Iraque), Hosni Mubarak (Egito), Bashar al-Assad (Síria) sempre foram
reeleitos com votações “consagradoras”, em regra acima de 90% dos votos, destacando entre
estas a surpreendente reeleição de Kim Jong-un, da Coréia do Norte, cuja votação atingiu os
100% dos votos, numa eleição com voto facultativo!!??
Neste estágio da abordagem, uma breve interrupção se faz necessária para enfrentar a
problemática da conceituação objetiva de democracia; simultaneamente, proceder-se-á ao exame
da problemática do mito que sofistas arquitetaram obstinadamente, porque empenhados em
desmontar o capital social e político acumulados pela democracia ao longo de uma trajetória
mais que secular, procurando reduzi-la a uma tipologia de regime qualquer, cuja contribuição
nada teria acrescentado de excepcional ao patrimônio civilizatório.

5.2 - Afinal, o que é a democracia?


Etimologicamente o vocábulo democracia (demos = povo + kratos = governo/poder)
refere-se a poder ou governo do povo, em que pese o simplismo da definição e o risco da
generalização, anteriormente criticada, a começar pela advertência de Rousseau, que assegurava
ser impossível que um povo seja capaz de governar a si mesmo, a não ser que esse governo e
esse povo sejam um povo e um governo de deuses. Na sua acepção mais vulgar, universalmente
popularizada por Abraham Lincoln, democracia define-se como “governo do povo para o povo”,
formulação que dispõe uma ferramenta útil para explorar e contribuir para a compreensão

117
cognitiva de seu significado formal e material, a despeito de todo o risco que a breve definição
lincolniana possa trazer consigo, incluindo conteúdo de apelo populista.
Por ser entendida como um governo do povo, na democracia a participação popular deve
agregar, se não o somatório de todos os cidadãos, pelo menos abranger a maioria ou a maior
parte. A participação de que se fala, refere-se mais ao processo de escolha do que
necessariamente ao processo decisório, pois nesse último quesito, tanto entre os antigos quanto
entre os modernos, tem prevalecido o entendimento de que a democracia plenamente
participativa tem acolhimento maior no reino teórico, das utopias e das promessas,
principalmente quando se trata de democracias de grandes extensões territoriais e
populacionais.82
Em Atenas, berço da democracia, onde os cidadãos, como decision makers, deliberavam
democraticamente na praça pública, o total de cidadãos da polis, segundo Tucídides, o pai da
História, era composto por cerca de 5 mil homens. Mas, de fato, nas eklesias (assembleias
populares), esse número, em média, circundava em torno de 3 mil, num universo de cerca de 30
mil habitantes. Em razão dessa baixa proporção de cidadãos em relação à população total, fato
bastante comum, que não se restringia apenas à polis ateniense, os críticos da antiga democracia
classificavam-na como uma democracia-aristocrática. Mesmo assim, os ataques mais
contundentes não se dirigiam propriamente ao quantitativo de participação, mas à sua qualidade.
Mais que isso, um dos mais renomados críticos daquele sistema era ninguém mais ninguém
menos que Aristóteles – e o que dizer de Platão? -, que via naquele modelo praticado em Atenas
não propriamente democracia, mas demagogia, quando não a prática de genuíno despotismo.
Ao lado do crítico fator numérico, pois o percentual de cidadãos não alcançava sequer um
quinto (20%) do todo, Aristóteles detectou no Ágora uma prática opressiva dos líderes populares
sobre quaisquer manifestações oposicionistas, opressão que impunha a estes o epíteto de
inimigos do povo e da polis. A ascensão dos demagogos reforçou em Aristóteles a percepção de
que a democracia ali operada se manifestava, na prática, em forma de despotismo, e não

82
No campo da teoria democrática, dois modelos específicos de democracia – a participativa e a deliberativa – têm
procurado apontar soluções para os obstáculos inerentes ao modelo puramente representativo, e preencher com
eficácia as suas falhas, em regra limitado quanto à sua legitimidade, por depender de forma preponderante da agenda
decisória de partidos, de líderes políticos e burocratas, enclausurados pela crença da legitimidade de suas decisões
em razão da legalidade de eleições e nomeações, consequentemente garantindo-lhes legitimidade absoluta no
exercício das decisões políticas. Enquanto o modelo participativo tem como alvo agregar o maior número possível
de cidadãos ao processo decisório, a forma deliberativa de democracia critica também o fator quantitativo,
dedicando maior enfoque à problemática de maior qualificação do processo decisório, buscando inserir ao espaço
público instituições sociais legitimadas no meio extra-institucional, cujos instrumentos principais são os fóruns de
debate e a negociação.

118
propriamente de democracia, pois as decisões políticas no Ágora, indubitavelmente,
concretizavam a opressão que os pobres (massas) exerceriam sobre os ricos.
A estrutura e o modo de funcionamento daquela democracia, que causava insatisfação em
Aristóteles, provavelmente foram o elemento motivacional decisivo para que ele formulasse sua
monumental tese da politia, estudo que resultou de uma compilação criteriosa de mais de 150
constituições políticas, trabalho cujo objetivo será avaliado no capítulo dedicado a este pensador.
Em resumo, a politia é um modelo inovador, uma alternativa para a democracia demagógica,
corrompida, que havia em Atenas, segundo Aristóteles. É uma ideia precursora da democracia
moderna por conter o substrato germinal de seu funcionamento, acolhido, primeiramente, nos
postulados do liberalismo - a tese da separação dos poderes – ao assegurar o equilíbrio entre as
instituições (políticas e sociais) por meio do instrumento que mais tarde os ingleses (os primeiros
entre os modernos a aplicá-la) chamavam de checks and balances, expressão livremente
traduzida por pesos e contrapesos ou freios e contrapoderes. Por toda a influência que a politia
passaria a exercer sobre a teoria e a práxis política, seus postulados foram adotados no mundo
romano, influenciando uma vinculação com o termo república que, extensivamente, se tornaria
uma tradução daquele vocábulo grego.
Na modernidade a democracia, à primeira vista, pelo menos, apresenta-se bastante
sedutora, porque em termos quantitativos tem incorporado relevante número de alistados, fato
que confirma uma de suas premissas, a participação popular. Mas, em termos qualitativos, como
tem se comportado a moderna democracia? Provavelmente, aí está localizado seu calcanhar de
Aquiles, pois ao mesmo tempo em que a participação popular no processo de escolha dos
dirigentes é ampla, a participação cidadã no processo de tomada de decisão das políticas públicas
é notoriamente escassa. É fato, portanto, que a democracia representativa, em termos gerais,
confina seus cidadãos à uma “distância segura” do processo decisório, se comparado com o
modelo de participação nas democracias antigas. Assim, o dilema “participação X
governabilidade” se resolve na opção elitista, uma alternativa que evita o excesso de
participação, diluindo – quando não anulando – os obstáculos à “governabilidade”.
Atente-se, nesse sentido, para o dilema vivido pelo Brasil, em que cerca de 70% da
população são detentores de iuris civitatis e iuris activae civitatis (direitos políticos ativos e
direitos políticos ativos e passivos, respectivamente), mas como regra vigente em toda
democracia moderna, a participação massiva dos cidadãos tem ocorrido no plano político eletivo,
e não no plano participativo (decisório), necessariamente.
Esta é uma das razões porque proliferam teses atacando impiedosamente a democracia,
ataques oriundos de todos os polos do espectro ideológico, por ela ser, de acordo com o

119
pensamento conservador, populista e, por isso, vulnerável à ação de líderes demagogos que se
aproveitam das massas alienadas, amorfas, desinteressadas, para manipulá-las e subjugá-las. Da
vertente progressista – à esquerda -, a contundência da crítica tem como alvo preferencial o fato
de, sendo liberal toda democracia atual, será ela inevitavelmente capitalista e, portanto,
excessivamente concentradora de recursos em mãos privadas, com isso perpetuando a rigidez das
desigualdades sociais e a insensibilidade dos privilegiados com relação aos mais fracos e
destituídos.
Democratas radicais sempre argumentaram que uma autêntica democracia deveria ser uma
democracia substantiva, material. E para atingir este fim, o método participativo seria
imprescindível, de tal forma que pudesse influenciar diretamente no processo decisório, que não
deve se restringir à falácia da participação apenas no processo de escolha daqueles que irão
decidir (governantes e representantes). Desiludidos, porque convencidos de que no campo prático
o modelo vigente de democracia limita a possibilidade de haver a participação na sua forma mais
efetiva, os radicais terminam por se conformar e admitir a qualificação “tirania da maioria”, que
o filósofo francês Alexis de Tocqueville - outro democrata, mas conservador – aplicou à
democracia, por motivos diversos aos dos radicais, mas igualmente por descontentamento.
Desse modo, o romântico discurso dos defensores da democracia participativa, da
deliberativa e de outras variações, encontrava unanimidade de ideais quando os projetos eram de
torná-la mais democrática, apesar de toda uma variedade de caminhos contrastantes possíveis de
serem trilhados para alcançar o fim desejado.
No lugar do simplismo que se resolveria na fórmula da plena e total participação dos
cidadãos, o realismo inevitável da segunda metade do século XX iria desmontar criteriosamente
esse ideal. Joseph Schumpeter, por exemplo, com um choque de pragmatismo aplicado em sua
clássica obra Capitalismo, socialismo e democracia, antecipou o pensamento que viria a ser
dominante para as décadas seguintes. Sustentava que a tipologia de participação política deveria,
de fato, resumir-se ao processo eletivo, pois a vontade popular por ser caótica, já que cada
indivíduo possui a sua em particular, jamais seria capaz de ser comungada pelo todo e atingir o
bem comum. Assim, os cidadãos deveriam se contentar com a participação na escolha de um
líder, que nessa qualidade estaria preparado para tomar as decisões mais sensatas, pois se a
totalidade da massa demandasse com ativismo ilimitado perante o Estado – admitindo que as
demandas são infinitas e a capacidade de resposta do aparelho estatal é sempre limitada -, este
entraria em colapso em razão da sobrecarga (overload) gerada pelo excesso de demandas (inputs)
que o sistema receberia, impossibilitando, por fim, o processamento de respostas (outputs)
satisfatórias. Em síntese, este tem sido o caminho que vem percorrendo a democracia moderna ao

120
longo de sua existência. Nalgum lugar podendo ser mais social que em outros, mas na essência
sempre prevalecendo o fator político da democracia, fator este que o cientista político Robert
Dahl intitulou de Poliarquia. Este neologismo (poliarquia) foi inovador para a linguagem política
moderna porque foi decisivo para demarcar o excitado debate acerca do que de fato seria a real
democracia, ou seu real significado.
Antecipando um tema que mais adiante será explorado com maior profundidade, o conceito
de Poliarquia delimita democracia em termos estruturais – isto é, políticos -, ao mesmo tempo em
que, por exclusão, adverte implícita e preventivamente o que ela não pode ser, reservando para o
campo funcionalista o debate ideológico acerca de suas especificidades – se liberal (capitalista),
se socialista, ou seja, como deverá ser seu funcionamento político em conjugação com a ordem
social/econômica.
Em termos etimológicos, Poliarquia (poli = vários + arquia = governo/poder) diz respeito à
existência de vários centros decisores, o que difere a Poliarquia (democracia moderna) da
democracia dos antigos, uma vez que na antiguidade a praça pública (Ágora) se resumia como o
único centro de decisão política. Esta disparidade de modelos, somada ao distanciamento
histórico, pode ter influenciado decisivamente Robert Dahl na escolha de sua moderna
conceituação. Na modernidade, sabe-se que a democracia, tanto em nível vertical (entidades
hierarquizadas da administração pública: ministérios, autarquias etc.) como em nível horizontal
(por exemplo, União, estados e municípios), milhares de decisões, em vários centros decisores
distintos podem ser tomadas diariamente. Em poucas palavras, em meio a essa multiplicidade
decisória, tais resoluções são tomadas a partir da legitimidade com que foram constituídas as
autoridades - os decision makers - tendo como estrutura uma modalidade de democracia que
somente a era contemporânea, do Estado burguês, liberal/capitalista, teve a capacidade de
consolidar. Enfim, como conceituação fundamentalmente política, o conceito de Poliarquia
incorpora fatores diretamente ligados a questão da participação eleitoral, podendo, por isso,
também ser denominada de democracia eleitoral, tendo por pré-requisitos a “realização de
eleições livres, competitivas, periódicas e com resultados não contestados; legislativo e judiciário
independentes; pluralidade partidária; oposição livre e com possibilidades reais de chegar ao
poder; liberdade de imprensa; liberdade de associação”83.
Após prolongada argumentação sobre a acepção genérica de democracia, segue-se
necessária exposição específica da democracia antiga. Esta tipologia de democracia deixou como
herança um tesouro inestimável para toda a civilização ocidental, legado imprescindível para a

83
O’DONNEL, Guillermo. Democracia Delegativa. Novos Estudos/CEBRAP. Vol. 31, p.25-40, out. 1991.

121
sua reorganização na modernidade, que floresceu quase 2 mil anos após o desaparecimento da
última dentre as mais destacadas da antiguidade, a democracia da República de Roma.

5.3 - A democracia dos antigos


Atenas e Roma são os nomes mais lembrados quando se fala em democracia antiga, da Era
Clássica. Mas, na antiguidade, a democracia foi praticada em muitas outras cidades, porém as de
Atenas e de Roma são consideradas paradigmas, pois sobressaíram sobre as demais tanto em
termos quantitativos quanto qualitativos, isto é, pela durabilidade e estabilidade.
A democracia em Atenas teve seu início no ano de 590 a.C. e a de Roma em 367 a.C.84,
sendo que a última teve duração de quase um século a mais que a primeira. Apesar das muitas
características comuns, vale lembrar que a democracia em Roma era dotada de elementos mais
complexos que a ateniense que, por sua vez, tem sido descrita como um modelo de democracia
bastante singelo e de sedutora praticidade.
Sobre o modo de operação dessa espécie de democracia, o filósofo francês Benjamin
Constant produziu, em seu ensaio “A liberdade dos antigos e a liberdade dos modernos”, uma
das mais brilhantes interpretações daquele regime político inventado pelos antigos, comparando
suas características com as da democracia moderna.
Como o próprio título da obra chama a atenção, o termo liberdade para B. Constant sinaliza
como crucial para a tarefa de desvendar os significados distintos de democracia das duas etapas
históricas. Diversamente do que concebem os modernos, para os antigos o conceito de liberdade
estava intrinsecamente ligado a uma ideia moral, ao ethos de obrigatoriamente participar das
decisões políticas que ocorriam no Ágora, o local onde todos os cidadãos da polis, com sua
responsabilidade e cumplicidade pelo destino daquela democracia, deveriam comparecer e atuar.
Assim, umas das marcas registradas da democracia antiga estava em seu modus operandi, por se
tratar de uma modalidade direta, em que os cidadãos, sem a necessidade de eleger representantes,
tomavam todas as decisões relativas a questões políticas diretamente na praça pública. A
obrigatoriedade de participação se explica exatamente por ter a forma direta como meio de seu
exercício, obrigatoriedade que não admitia contestação em razão de ser o cidadão da polis um
homem integralmente político, o zoom politikós, como definiu Aristóteles. Este homem-cidadão,
animal político por excelência, era assim classificado porque, possuindo escravos, estava
inteiramente livre para deliberar todos os dias, no Ágora, sobre todos os assuntos políticos, que

84
No ano de 509 a.C., com o fim do período monárquico, inicia-se a República Romana, que na fase inicial apresenta
característica aristocrática. Porém, com a conquista de direitos políticos pela plebe, em 367 a.C., a República de
Roma, de aristocrática transforma-se em república democrática.

122
incluíam questões legislativas, judiciais e administrativas (executivas). À primeira vista,
parecendo ser um incômodo encargo, na verdade a obrigatoriedade era uma consequência do
privilégio da cidadania. Portanto, privilégio e obrigatoriedade eram as duas faces de uma mesma
moeda, convertidas em direito-dever85 que apenas os cidadãos, uma minoria da polis, podiam
desfrutar.
Assim, na democracia antiga, os cidadãos eram conscientes que a delicadeza daquela
democracia, por se realizar apenas na praça pública, jamais poderia dispensar sua presença ali,
diariamente, ao custo de, ausente o cidadão, extinta estaria a democracia. Portanto, o cidadão
negligente incorria na possibilidade de ser punido, punição que poderia variar desde a censura
social de difamá-lo como mau cidadão – o que seria desonroso -, até mesmo a condenação ao
ostracismo, obrigando-o ao exílio, a ter que se retirar da cidade, do convívio com os demais
cidadãos. Enfim, esta liberdade compreendia o produto de todo esse conjunto de procedimentos,
que se traduzia na estrita obrigação de zelar pela sobrevivência da democracia da cidade-Estado,
liberdade cujos preceitos soam tão estranho quanto diametralmente oposto ao que os modernos
concebem e praticam. Igualmente estranho, aos olhos do homem moderno, é assimilar a
excêntrica ideia de que na democracia antiga os politís (cidadãos) se convertiam, na prática, em
escravos, pois, de fato, livre era a polis, e não necessariamente seus cidadãos. Essa conformidade
se fundamentava na crença de que a polis era uma cidadela cuja independência e liberdade
estavam ameaçadas constantemente tanto pelos inimigos externos quanto, eventualmente,
internos. Caindo em mãos inimigas, tanto a cidade como seus habitantes se tornariam escravos,
de fato e de direito, dos conquistadores.
Tudo isso porque os antigos nunca tiveram o privilégio de usufruir dos benefícios do
individualismo; em outras palavras, o protótipo do homem-indivíduo é um construto mental que
a antiguidade jamais houvera produzido, nem mesmo nas entranhas de um regime democrático e,
por conseguinte, menos ainda em regimes não democráticos. O termo individualismo conecta-se
necessariamente ao conceito de liberalismo, e no liberalismo os direitos individuais têm que estar
inexoravelmente assegurados pelo Estado, fato que, nem a Civitas nem a Polis antigas

85
A justificativa do voto obrigatório em algumas democracias modernas, como a brasileira, busca exatamente no voto
como direito-dever a sua âncora de sustentação ideológica. Os defensores e beneficiários do sistema evitam enfrentar
o problema, simulando ignorar que se trata de duas espécies de democracia com estruturas diferentes. Na democracia
antiga, a participação obrigatória encontrava sustentação tanto racional quanto empírica, pelos motivos acima
expostos. As mesmas razões não podem ser aplicadas à democracia moderna pelo fato óbvio de que, por ser ela
sempre representativa, isto é, indireta, detém a faculdade de libertar o cidadão – que acima de tudo é indivíduo -
exonerando-o de impraticáveis tarefas políticas diárias, delegando aos seus representantes tais atribuições. Em suma,
as democracias que mantêm o voto obrigatório são, via de regra, democracias mais frágeis, com baixo índice de
legitimidade. Este fator, é um sintoma da insistência na manutenção da obrigatoriedade do voto, que pode ser
explicada pelo temor que tem a “classe política” de ver a legitimidade do poder incidir em colapso.

123
promoveram aos seus cidadãos. De modo inverso, ali, direitos individuais, que integram os
valores liberais, como liberdade de pensamento, propriedade privada, direito inalienável e
inviolável à vida, não eram resguardados pelo Estado. Pelo contrário, o célebre julgamento do
filósofo ateniense Sócrates, acusado de subversivo por, supostamente, defender a “libertação” do
homem-cidadão com relação à cidade – tornando-o um homem-indivíduo, portanto -, expressava
o controle absoluto que a cidade integral e antiliberal mantinha sobre seu súdito que, embora
podendo ser cidadão, jamais se veria na condição de indivíduo. Nesse sentido, a democracia dos
antigos, além de ser direta - por não ser representativa -, era também orgânica (organicista) ou
corporativista por não ser liberal, liberalismo este que, via de regra, configura-se como a
característica fundamentadora da modernidade.
Entre os modernos, inversamente, o conceito de liberdade é mais prático do que ético,
traduzido pelo direito que tem o indivíduo – muito acima da sua condição de cidadão – de fazer
ou não fazer algo, sendo que o Estado, na condição de liberal - e, portanto, de Direito -, encontra-
se impedido de interferir nessa prerrogativa que tem o cidadão, que neste caso é mais homem-
indivíduo do que propriamente homem-cidadão, de usufruir livremente de sua independência
privada. Esta espécie de homem, produto do liberalismo, foi definido por Benjamin Constant
como homo œconomicus, espécie de homem cujo status contrastava frontalmente com aquele
homem que Aristóteles denominou de zoom politikós, cujos interesses mais imediatos ligavam-se
ao exercício dos deveres políticos.
O significado moderno de liberdade agregou um conteúdo mais complexo que aquele
conhecido pelos antigos, que de fato era uma abstração. Com suas características essencialmente
individualistas, tais liberdades garantem ao homem moderno – eventual cidadão – inclusive o
direito, ou melhor, prerrogativa, de não participar do processo político ou, a contrario sensu, o
direito de se abster do processo político/eleitoral, se assim for de sua vontade. Ao contrário do
homem antigo, o homem moderno só é político secundariamente, pois o significado de liberdade
moderna nada mais é do que a liberdade de usufruir dos bens e direitos particulares ou privados.
Liberdades privadas ou particulares vêm a ser as mesmas liberdades que o filósofo Montesquieu
qualificou como negativas, isto é, as liberdades dos indivíduos perante o Estado, consideradas
um dos pilares do liberalismo, entendidas como o direito que tem todo indivíduo de só fazer
aquilo que deseja desde que não seja impedido por lei, ou então de fazer tudo o que deseja desde
que a lei permita.
Entretanto, ao lado de tantos e profundos contrastes, a democracia moderna buscou,
também, inspirar-se, para sua estruturação, em métodos praticados na democracia dos antigos,
como o sufrágio rigorosamente censitário, pois em sua fase apenas política, sem o conteúdo

124
social, apenas um grupo minoritário de homens privilegiados estava apto à cidadania da
democracia liberal. Outro instrumento, o recurso de plebiscitos e referendos, adiante abordado,
denominado pela Ciência Política de “democracia semidireta”, foi também inspirado na
democracia clássica, encontrando-se atualmente em declínio, por se tratar de um recurso de
estratégia tipicamente populista, com intuito de legitimar regimes em crise, crise não restrita
apenas aos regimes democráticos fragilizados, porquanto plebiscitos e referendos foram armas
utilizadas por variadas espécies de tiranias espalhadas pelo mundo afora.
Desse modo, a espécie de cidadão que a democracia moderna, sempre liberal, produziu foi,
acima de tudo, um indivíduo utilitarista - e não propriamente moral ou ético, como produziu a
democracia orgânica dos antigos -, pois a busca incessante da maior quantidade de prazer e
menor sofrimento, que se concretiza com a realização material do indivíduo – e não propriamente
espiritual – faz desse tipo novo de cidadão o seu modus vivendi.
Já aquele indivíduo estóico, comprometido, acima de tudo, com a promoção do bem
desinteressadamente, o homem altruísta, que faz de sua ação individual, por ser moralmente um
imperativo, uma forma de conduta universal, foi pouco a pouco perecendo, e não deixou
substitutos, subjugado que foi pelas forças invencíveis da nova ordem liberal. Sobre ele, e em sua
defesa, o alemão Emanuel Kant teria sido o último grande filósofo a descrevê-lo e prescrevê-lo,
independentemente de princípios religiosos, senão com fundamentação em razões morais
(autonomia interna) e razões de ordem jurídica (autonomia externa), sintetizado em sua máxima,
que recomenda: “atue externamente de maneira que o uso livre do teu arbítrio possa estar de
acordo com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal”86.
Imediatamente após a era kantiana, o mundo ocidental começará a desfrutar sem culpa as
delícias do capitalismo, porque este estava entrando em sua primeira fase dourada, por volta da
metade do século XIX. Então, o estoicismo, o altruísmo, foram lentamente perecendo, cedendo
espaço ao homem-novo que o hedonismo estava fabricando; a fase do romantismo, que teve em
Goethe um de seus expoentes máximos, viu-se relegada a um plano secundário pela abrupta
hegemonia do realismo. A supremacia do homem racional, utilitarista, individualista, egoísta,
enfim, impôs, como diria Max Weber, o fim da magia, ao estabelecer uma nova ordem, que
impôs ao mundo um desencantamento, por assim dizer, quase definitivo.

86
BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant, p. 70.

125
5.4 - A democracia dos modernos
Primeira fase: Poliarquia (democracia formal/política)
A concentração de poderes do cônsul Júlio César, em 48 a.C. (dictator, imperator,
tribunus, pontifex maximus), informalmente, ou o golpe de Estado que conduziu Otávio Augusto
ao posto de imperador em Roma, formalmente, no ano de 27 a.C., decretou o fim da gloriosa
democracia da República Romana, instalando, a partir de então, o longo ciclo dos césares
(ditadores) do Império Romano.
Com a exceção de intermitentes e esparsos registros de cidades republicanas ou
democráticas, no mediterrâneo, na Escandinávia, ao longo do período medieval e até do
moderno, a democracia só experimentou um sólido renascimento muitos séculos depois.
Nos EUA, após décadas de sólida trajetória dentro do liberalismo, a partir do ano de 1829
registrou-se notável ampliação do universo de seus cidadãos; quase simultaneamente, em data
posterior (1832), depois de um século e meio de maturação de seu liberalismo, a Inglaterra
também celebraria sua oportuna união com a democracia. A partir desses fatos, pode-se afirmar
com relativa segurança que o futuro da democracia moderna - a democracia liberal - estava,
definitivamente, selado.

5.5 - A república: divergência e convergência conceitual com a democracia


Antes de mais, o momento se apresenta oportuno para prévia abordagem de uma temática
que tem exercido influência direta sobre qualquer categoria de democracia, especialmente a
modalidade que será examinada na sequência. Trata-se do instigante debate envolvendo o
conceito de república, conceito que, acima de qualquer outra tipologia de governo, encontra-se
umbilicalmente ligado à democracia, apesar da confusa denominação que a envolve com regimes
autocráticos/ditatoriais.87
Na sua multiplicidade de concepções, a república se caracteriza ora como uma espécie de
democracia, ora como um gênero dela. Enfim, é ao mesmo tempo um conceito polêmico e
fundamental para a epistemologia política; um tema que tem despertado singular interesse, até os
dias atuais, para os estudiosos, e, que, evidentemente, não poderia ser relegado a uma posição
secundária no estágio analítico deste capítulo.

87
Em linguagem sintética, portanto acrítica e destituída de significado analítico, define-se como República todo
regime político que não seja classificado como Monarquia, por esta ter como característica para a investidura no
poder, a vitaliciedade e a hereditariedade. A República, ao contrário, que tem como regra formal a temporalidade e a
alternância do poder, empresta seu nome a regimes pouco republicanos como as ditaduras em geral, pelo singelo fato
de não constituir um regime monárquico. Dessa maneira, correntes flexíveis de historiadores intitulam de
republicanos regimes não democráticos – porquanto não monárquicos – como a ditadura do Estado Novo varguista
(1937-45), a ditadura militar brasileira (1964-85), a ditadura de Cromwel na Inglaterra (1651-58), entre tantas outras.

126
As primeiras referências ao termo república, neste capítulo, foram dirigidas à República
Romana, que como mencionado, teria sido uma forma mais complexa de democracia do que a
modalidade ateniense. Ao contrário da fórmula dos gregos, que era uma forma simples de
governo, porque não dotada de técnica de controle, técnica que foi característica marcante da
república de Roma; os tais “pesos e contrapesos” que havia entre estas instituições (Cônsul,
Senado e Plebe) contrabalançavam e, consequentemente, estabilizavam o funcionamento do
regime romano, como está examinado mais extensivamente no capítulo dedicado a Maquiavel.
No regime dos romanos, em razão da conjunção das três camadas sociais exercendo parcelas
separadas de poder, e ao mesmo tempo limitando as possibilidades de abuso de uma camada com
relação às outras, pode-se falar plenamente que a fase aristocrática da república fora superada,
pois ali já se havia adentrado, sem retrocesso, na fase democrática, a república democrática, o
estágio republicano mais avançado.
A extraordinária experiência republicana de Roma influenciou decisivamente Maquiavel a
elaborar a revolucionária ruptura com a tripartição aristotélica das tipologias de governo quando
introduziu a sua bipartição, fazendo da democracia, bem como da aristocracia, uma espécie do
gênero república. Sua especial classificação influenciou gerações futuras de pensadores a
considerar suas reflexões, inteira ou parcialmente, como fizeram Montesquieu, Rousseau, Kant e
até o então futuro presidente dos Estados Unidos James Madison. Com isso, o conceito de
república foi adotado como um teorema-base para desvendar múltiplas indagações relacionadas
não apenas com a democracia, mas também com a aristocracia e até com a monarquia.
A genial “descoberta” de Maquiavel, referente às tipologias de governo, conquistou
prontamente a adesão de Montesquieu, que em seus escritos políticos acrescentou mínimas
considerações acerca da fórmula “descoberta” pelo pensador florentino.
Com Rousseau, pela complexidade de suas abstrações, e pela polêmica natural que cerca o
assunto, naturalmente qualquer analista seria despertado para uma reflexão mais aguda. Entendia
Rousseau que república e democracia se dissolvem no mesmo corpo quando a soberania é
popular, induzindo seus leitores à conclusão de que apenas enquanto república é que a
democracia se realiza. Se destituída da soberania popular, que tem sua origem na celebração do
contrato social (vontade geral), a democracia nada mais seria do que uma daquelas tipologias
clássicas aristotélicas, tipologias que, enfim, despertaram no próprio Aristóteles um
posicionamento crítico negativo.
Kant, envolvido com a tarefa de equacionar o intrigante teorema envolvendo democracia e
república, seguindo, pois, o método analítico de Aristóteles e Maquiavel, dedicou sua atenção
mais para o problema qualitativo do que para o quantitativo, cujos significados adquirem

127
valoração especial. Para ele, qualquer forma ideal (boa) quando colocada em prática é uma
república, não importando se se trata do governo de um, de poucos ou de muitos. Por isso, o fator
capaz de resolver a equação vem a ser o critério de exercício do poder: se exercido com
legalidade ou de forma arbitrária. Em resumo, para Kant, todo governo arbitrário é despótico, e
todo governo exercido com base nas leis será uma república, ainda que o poder seja exercido por
um só titular, como na monarquia.
Como pode ser conferido, às duas premissas clássicas da república – a separação dos
poderes e a rotatividade dos cargos eletivos - somam-se as qualitativas enumeradas. Conjugando
os dois fatores – o quantitativo e o qualitativo -, James Madison,88 não como ex-presidente dos
Estados Unidos, mas como respeitado conhecedor da teoria clássica e um dos “patriarcas” da
independência nacional que, como participante da elaboração da constituição de seu país, foi um
dos primeiros contemporâneos a contribuir com a compreensão do moderno significado de
república. Madison especificou as particularidades da democracia do começo do século XIX,
classificando-a como república, por se tratar de uma tipologia de democracia mais complexa que
a dos antigos, destacando uma de suas mais expressivas singularidades o fato de ser
representativa. Em virtude dessa contribuição, a república moderna (democracia representativa)
recebe também a denominação de democracia madisoniana, um termo-conceito a mais para a
modalidade de democracia da época atual. Em suma, é digno de nota a genérica convergência de
significados, porque a concepção moderna se sustenta basicamente no que se refere à
operacionalidade e às formalidades da competição eleitoral.

5.6 - Do liberalismo individual à 1a fase da democracia: democracia política (Poliarquia)


O liberalismo atual, sustentáculo e ao mesmo tempo sustentado pela moderna democracia,
emergiu de uma etapa de antagonismo para se tornar um aliado compatível e inseparável da
democracia. Como argumentou Norberto Bobbio,89 atualmente um não sobrevive sem o outro,
pois onde há liberalismo há democracia e vice-versa. Robert Dahl, em sua teoria democrática, ao
discorrer sobre a moderna democracia – a democracia representativa – batizada por ele de
democracia poliárquica (poliarquia) a definia como um conjunto de princípios comum a todas as
democracias contemporâneas, independente de se tratar de país desenvolvido ou em
desenvolvimento, rico ou pobre, industrializado ou não. Para ser classificada a democracia,

88
James Madison, juntamente com John Jay e Alexander Hamilton, foi um dos autores d’O Federalista, obra
fundamental para a compreensão da formação constitucional e política dos Estados Unidos. Na verdade, o livro é
uma coletânea que reúne artigos publicados anonimamente em jornais do país, cujo objetivo era defender um
modelo constitucional para a nação, que à época estava em processo de discussão de sua futura constituição.
89
BOBBIO, Norberto. Liberalismo e Democracia. São Paulo: Brasiliense, 1993.

128
quanto ao ponto de partida, todo Estado deve se valer, ao menos, de um conjunto de princípios
jurídicos e formais, princípios arrolados na teorização da “poliarquia”, acima discriminados.
Dados os pressupostos, o ponto de chegada não guarda correlação incondicional com o ponto de
partida, ou seja, o ponto de chegada é sua extensão, a conquista possibilitada pelo ponto de
partida, mas não obrigatoriamente uma decorrência natural, mas sim uma decorrência atrelada à
uma série de variáveis, razoavelmente externas e independentes dos postulados da democracia
formal, a própria poliarquia. No processo de aprofundamento, em função de características
intrínsecas de cada sociedade nacional, à medida que a democracia vai se concretizando, seus
cidadãos, por sua vez, adquirem status de sujeitos ativos aptos a desfrutar mais e mais de seus
resultados materiais.
Seja como for, é isso mesmo o que o Ocidente, em seus propósitos, conseguiu materializar,
coincidindo, ainda que parcialmente, com os postulados da teoria da democracia. E, partindo
desse ponto inicial (teórico), a democracia se expõe em aventura para diferentes direções e
estágios. Dolorosamente, para o desgosto dos inimigos da sociedade aberta, a democracia vem,
gradualmente, produzindo frutos quando em híbrido consórcio com o liberalismo; e uma vez
conjugada à vertente liberal, seus frutos se diversificaram em sutis variedades, como a
democracia social e social-democracia, espécies que, a despeito do conteúdo social, jamais
podem ser confundidas com a democracia socialista, como veremos adiante.
Nesse contexto, vale lembrar que países tão distintos quanto distantes como Suécia e Peru
podem ser usados como exemplo do que se define como democracia em sua fase inaugural na
contemporaneidade, aqui também chamada de 1a fase, pois ambos têm algo em comum no ponto
de partida: a democracia política (poliarquia), já que as formalidades do regime, condição sine
qua non para o funcionamento do sistema democrático estão presentes nas duas nações, ainda
que, ao mesmo tempo, conservem entre si enorme diferença quando se trata da qualificação de
suas democracias, pois enquanto a democracia sueca avança da mera formalidade jurídico-
constitucional para se concretizar, isto é, conjugar os pressupostos do ideal com os do real,
produzindo múltiplos benefícios materiais para seus cidadãos, a democracia peruana pouco faz
nesse sentido, quase se restringindo à formalidade da constituição e das regras do jogo dito
democrático, isto é, confinada à poliarquia ou democracia política.

5.7 - Evolução da democracia moderna: da 1a fase (democracia política = poliarquia) para a


2a fase (democracia social)
Nesta sua primeira fase, que se estende da metade do século XIX até as primeiras décadas
do século XX, quando o único aliado da democracia era o liberalismo, os regimes democráticos

129
estiveram restritos basicamente à democracia política ou democracia eleitoral, aqui já descrita
como poliarquia, e pouco avançaram no campo da distribuição de reclamados benefícios sociais.
Efetivamente, as conquistas sociais só começaram a ser introduzidas pelos governos, de forma
intensiva, depois da 1ª Guerra Mundial, período em que algumas democracias
políticas/poliarquias (1ª fase) investiram fortemente na suplementação de recursos, atingindo,
portanto, a 2a fase, porque além de democracias formais (política/eleitoral) elas se tornariam
também sociais, fruto das políticas públicas sociais implementadas por aquelas nações já
amadurecidas politicamente e mais desenvolvidas economicamente.
A diferença fundamental de um estágio para o outro, da mera democracia poliárquica para
a democracia poliárquica+social, é que na democracia de 2ª fase materializou-se a ampliação
consistente de vários direitos e benefícios sociais - conquistas fragilmente implementadas na
etapa anterior (1a fase) - e a conquista de outros tantos. Enquanto a democracia de 1ª fase se
resumia basicamente à garantia da participação política como o sufrágio universal (masculino),
liberdade de opinião, de associação, expressão, a democracia de 2ª fase expandiu o sufrágio, até
então restrito ao universo masculino, para incluir o voto feminino; expandiu o pluralismo
partidário, que estava restrito a partidos burgueses, para um pluralismo partidário que incluiu
partidos populares, de operários, socialistas e até confessionais (religiosos). Muito mais que isso,
a representação popular nas assembleias consolidou um amplo leque de direitos e assistência
social, até então incipientes, como redução das jornadas de trabalho, implementação de escola e
saúde públicas gratuitas, concessão de aposentadorias, pensões, seguro-desemprego, licença-
maternidade, segurança alimentar, assistência à infância e à adolescência, proteção ao meio-
ambiente etc.
Esgotada a abordagem das diferenças entre a 1a e a 2a fases, entra em cena outra
abordagem. Ela examina a convergência entre ambas as fases, e vai além dos fatores políticos
(poliarquia) que unem formalmente a democracia política (1a fase) à democracia social (2a fase).
Trata-se do conceito de “accountability”90, um instrumento fiscalizatório cuja presença em

90
Em sentido amplo, accountability define-se como um mecanismo de salvaguarda da democracia, cujos requisitos
básicos necessários, propícios para que os agentes públicos possam responder publicamente pelos atos praticados
são os seguintes: 1) Transparência da gestão dos serviços públicos sem exceção, com publicidade oportuna e
compreensível; 2) Equidade e confiança no sistema judicial; 3)amplitude e profundidade do compromisso do serviço
público; 4) ampliar a democracia participativa. Em conclusão, o dever de responder publicamente pela eficácia da
gestão, sobretudo pelos resultados, é essencial para uma sociedade aberta, por ser a principal defesa para a
democracia. In: LOZADA, Antonio. “Accountability”: salvaguada de la democracia. Semanário de Informacion y
Analisis. Nicarágua, 1999, apud PESSOA, Cleber F. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília:
Departamento de Ciência Política. Brasília, março de 2000.
O prestígio adquirido pela teoria da accountability gerou uma extensão do conceito, dividido em 3 espécies: a
“horizontal”, a “vertical” e a “societal”. A primeira (horizontal), diz respeito à atuação de organizações público-
estatais que exercem o papel institucional-legal de fiscalizar e, eventualmente, punir os desvios de outras instituições

130
qualquer das duas fases é imprescindível para o seu regular funcionamento, pois toda democracia
moderna, por ser ao mesmo tempo liberal (Estado de direito), requer, como princípio, a limitação
dos poderes dos agentes políticos, que nessa condição, não podem se desobrigar da devida
prestação de contas de suas ações político/administrativas à população.
Não obstante o que até aqui foi exposto, em se tratando de aplicabilidade, o conceito de
democracia não foi e ainda continua não sendo pacífico. Por perdurar os contrastes entre a
democracia real e a ideal, questões como igualdade, participação e justiça sempre serão
confrontados quando em debate a democracia. Em termos morais e éticos, seus defensores
sempre postularam pela implantação de uma sociedade politicamente participativa, igualitária e,
sobretudo, justa. Porém, em termos reais percebemos que a ética democrática varia
sensivelmente tanto no espaço quanto na história.
No plano histórico, a democracia dos antigos era diferente da democracia dos modernos,
inclusive no sentido instrumental, pois enquanto a antiga era direta, a moderna sempre
representativa é, necessariamente, indireta. Considerando esse processo evolutivo, natural, é
razoável inferir que o significado de igualdade também sofreu variações e, consequentemente, a
interpretação do que é justo. Em suma, para se ter dois pontos de vista opostos do significado de
igualdade entre os modernos, diríamos que na 1ª fase da democracia representativa a única
igualdade garantida pelo Estado foi a igualdade formal, de todos perante a lei, que os gregos
chamavam de isonomia, concepção que entre os antigos se resumia a um ideal ou, na melhor das
hipóteses, a uma igualdade apenas para uma parcela minoritária da polis, por isso a terminologia
democracia-aristocrática que os críticos usaram para defini-la.
Já na 2ª fase da democracia representativa, tendo a igualdade formal como ponto de
partida, os governos, principalmente os mais progressistas, iniciaram políticas sociais com a
expectativa de aproximar o máximo possível as classes sociais no campo da distribuição de
renda. Na prática, alguns países ocidentais obtiveram e têm obtido sucesso em reduzir

públicas/estatais por seus atos e omissões, como seria o caso das funções do Poder Judiciário (processualmente), do
Poder Legislativo (politicamente) e dos Tribunais de Contas (apreciação/fiscalização de contas). A segunda
(vertical), significando o controle político operado pelos cidadãos pela via eleitoral. Sua ocorrência se efetiva
quando da escolha de agentes políticos eleitos, o que em tese leva a uma preferência decisória, embora periódica. Os
riscos de possíveis distorções dessa espécie de accountability são elevados em função da probabilidade de
desencadear cenários de clientelismo político e políticas de patronagem. A terceira (societal), configura-se como
uma extensão da accountability vertical por se tratar de uma ampliação da atuação da sociedade civil, muito além da
formalidade do voto, ou seja, cidadãos reunidos institucionalmente em comunidade (associações, sindicatos, meios
de comunicação de massa etc.) e dotados de legitimidade, em estágio de empoderamento, portanto aptos e
competentes para influenciar a formação da agenda de debates acerca das decisões e políticas públicas, apontar erros
e omissões e exigir das instituições comportamentos e transparência compatíveis com princípios
republicanos/democráticos.

131
sensivelmente as desigualdades sociais, em particular aquelas nações de democracia social mais
avançada, que as ciências sociais definem como “social-democracia”.
Descritas as 2 etapas da democracia moderna (1a e 2a fases), já se pode detectar com
clareza a aplicabilidade da definição do ex-presidente norte-americano A. Lincoln, aplicabilidade
que vincula a expressão governo do povo à democracia política (1a fase), enquanto a expressão
governo para o povo liga-se à concepção de democracia substancial, material ou, enfim, social
(2a fase).

5.8 - A crítica dos socialistas à democracia liberal (capitalista) e o aparecimento de uma 3a


via: ascensão da social-democracia (Welfare state ou Estado do bem-estar)
Na vertente adversária, desponta a crítica de socialistas de todas as facções, irmanados na
tarefa de desconstruir o discurso da democracia representativa. Esta, de acordo com as teses
socialistas, se apresenta umbilicalmente associada ao capitalismo, não podendo ser uma
democracia, e muito menos ser guardiã da igualdade, pois a igualdade ali existente - perante a lei
- gerou e sempre irá gerar maiores desigualdades, a desigualdade social e econômica, pois
argumentam que a essência da igualdade perante a lei tem como pressuposto a defesa de direitos
individuais, sendo que estes estão diretamente associados aos fundamentos da propriedade
privada, e tais direitos, em última análise, não deixam de ser um instrumento para privilegiar
aqueles que mais possuem.
Desse modo, ideólogos de regimes sociais defenderam a necessidade de promoção de um
modelo de Estado que pudesse mitigar o egoísmo inato do ser humano na forma de governos
assistencialistas, egoísmo que o mestre da economia liberal Adam Smith jocosamente sintetizou
em poucas e simples palavras sob a máxima de que “o padeiro não acorda na madrugada para
fazer o pão por amor à humanidade”. Assim, não podemos perder de vista que os apóstolos do
liberalismo clássico (capitalismo concorrencial/livre mercado) como Smith, defensores da
supremacia do “mercado”, por meio de sua natural “mão invisível”, se opunham abertamente à
promoção do assistencialismo, porque daí decorreria um Estado paternalista, que por sua vez se
degeneraria, por corromper o homem, tornando-o indolente e preguiçoso.
Também mergulhado no epicentro destas controvérsias, e do lado oposto do arco-íris
ideológico, partiram torpedos com a finalidade de causar danos à democracia. Adeptos do
socialismo marxista, depois de algumas décadas de provocação, adotaram nova alcunha para
qualificar sua espécie de democracia, ao mesmo tempo em que desqualificavam a democracia
praticada no mundo capitalista. Assim, por meio da teorização de Lênin, a democracia ganhou
nova interpretação, e foi evocada como produto de uma natural evolução (a dialética), estando

132
simplificada na expressão centralismo democrático, cujo significado o revolucionário soviético
alegava ser resultado de rigorosa fidelidade à teoria de Marx91. O termo-conceito centralismo
democrático, então sinônimo de comunismo, e em homenagem à tradição teórica marxiana, foi
aplicado ao nascente regime soviético a fim de prestar serviço a uma poderosa máquina de
propaganda, cujo maior interesse era disseminar interna e externamente o sistema, alardeando
dispor da fórmula única e definitiva para a realização da verdadeira democracia.
Todavia, o ambiente político-ideológico da Europa do final do século XIX em nada
contribuía para apaziguar os ânimos. Em meio a radicalização de polos opostos, inimigos
declarados inconciliáveis – liberais conservadores contra democratas radicais, esses últimos
formados por socialistas, e até anarquistas e comunistas – encontraram um denominador comum,
uma via alternativa, que seria o fator de composição do melhor que as diferentes ideologias
pudessem oferecer. Esta alternativa, apelidada de 3ª via, foi intitulada de social-democracia,
regime político em que seus ideólogos se empenharam na defesa da aplicação do melhor de
ambas as facções: a participação política fortemente inclusiva, extensiva, consequentemente, às
camadas populares; a garantia dos direitos individuais – defesa da propriedade privada, portanto
–, e a disseminação de políticas públicas distributivistas, protegendo e ampliando direitos sociais
e econômicos à população na forma de direito político, portanto estendido a todos, e não
simplesmente uma forma de atuação caridosa do Estado.
Como qualquer outro projeto político, o conteúdo programático social-democrata não
conquistou corações e mentes de todas as facções em luta. Ao invés de arrefecer os ânimos, os
exaltados partiram para o confronto, pois aos olhos dos liberais a proposta social seria uma
heresia para os postulados do capitalismo, e o inverso (admitir uma sociedade capitalista) seria
uma agressão aos valores morais do socialismo. Tudo isso sem deixar de lembrar que os
precursores da social-democracia eram, em geral, oriundos do próprio marxismo, razão pela qual
foram violentamente acusados de traidores e renegados.
Considerando a si próprios como predestinados, os antigos rivais desdenhavam tanto das
teses antagônicas quanto das tentativas conciliadoras de encontrar um denominador comum. Seu
purismo os levava a reclamar para si a paternidade legítima da genuína democracia, convencidos
de que ela pudesse se realizar apenas em sua formulação, pois como regra comum às ideologias,
seu programa também seria o único capaz de abrigar os postulados de um sistema perfeito.

91
Na realidade, Karl Marx, até meados da década de 1840, sempre utilizou o termo democracia em seu real
significado, a democracia liberal. Com maior contundência, a partir da publicação do Manifesto Comunista, em
1848, passou a renegar o conceito, usando o termo democracia destituído de rigor metodológico.

133
A defesa apaixonada da teses do credo socialista-marxista, contudo, não poderia se
comprovar cientificamente, por carência de rigor metodológico – ao contrário do que alardeava
Marx –, pois seus fundamentos se baseiam em valores éticos e morais. Por isso, J.-J. Rousseau,
tão libertário quanto qualquer socialista – incluindo os marxistas – e também notório por seu
racionalismo, teria algo de surpreendente a ensinar a esses extremistas, cuja base ideológica, ao
final das contas, remonta à sua própria teoria filosófica. Investido de razoabilidade (termo não
necessariamente idêntico a racionalidade), e a despeito de sua apaixonada defesa pela soberania
popular, do regime democrático enfim, não ignorava as possibilidades de concretização de uma
democracia relativa, comumente chamada de “democracia real”, por ser aquela que existe na
realidade. Com todo utopismo, Rousseau não mergulhou na fantasia de empunhar a bandeira da
democracia perfeita até as últimas consequências. Deduzindo que, por se tratar de governo dos
homens, a odisséia da soberania popular (democracia) não seria possível em termos absolutos,
pois a natureza humana movida pelo infinito desejo de ter e de ser, a sede de poder e de submeter
os seus semelhantes, seria obstáculo para que a minoria pudesse governar democraticamente a
maioria. Então, ao mesmo tempo em que sonhava a democracia e acalentava a possiblidade de
sua plena concretização, fundida na “perfeita soberania popular”, reconhecia na democracia
possível (real), eventual superioridade sobre as demais modalidades praticadas, constatação que o
induziu à moderação de suas expectativas, em convergência relativa às convicções dos empiristas
(realistas).
Do contrário, quanto maior for a incapacidade para relativizar com razoabilidade a
transcendência de um regime democrático ideal para a solução no democrático possível, maior
será a probabilidade de uma sociedade se entregar como massa de manobra nas mãos de
ditadores de todas as variedades de crueldade. Da diferença entre ideal e real, sempre haverá de
surgir um inevitável hiato, que será logo preenchido pelas ideologias oportunistas, quanto mais
desatenta ou quanto mais intransigente for a comunidade política. Nas sociedades alienadas,
aqueles que exercem inescrupulosamente o poder, como num passe de mágica, conseguem
distorcer a realidade para tudo coincidir com seus objetivos, convencendo as massas à
credulidade de que os objetivos de todas as camadas sociais de uma mesma comunidade são
idênticos e convergentes.
Ainda que não se trate de uma simples mentira, a ideologia da classe dominante/governante
adequa a existência dos dominados/governados a uma situação que os faz imaginar que aquela
realidade é uma situação insuperável, sem espaço para concretizar idealismos. Sua provável
consequência é que a democracia venha a se reduzir a um amontoado de estratégias de oratória e
retórica, fornecendo aos regimes políticos, incluindo os mais despóticos, muito embora também

134
se definam como democráticos, instrumentos para seus mandatários se perpetuarem no poder.
Atento à essas manobras, Rousseau surpreendeu ao apontar o caminho que corrigiria dos desvios
que, segundo ele, poderiam degenerar a democracia para o regime de servidão, prescrevendo o
método possível para que a egoísta vontade de todos (vontade de cada um) se realizasse na
formação da vontade geral (vontade da maioria), método que consistia objetivamente na
conjugação do ideal (a democracia como valor) com o real (a democracia como método/prática).
A partir da relativização, no século XIX – o século de grandiosas utopias - uma crescente
variedade de adjetivos apareceria para reforçar substantivamente regimes em ascensão. Não sem
razão, seria de causar vertigem aos desatentos prescrever-lhes o exercício para distinguir as
inúmeras espécies de democracia. Desconsiderando provisoriamente a democracia dos antigos
(democracia direta), já distante no tempo, para efeitos de comparação praticamente todos os
atuais regimes ocidentais podem ser considerados como democráticos, sendo que as variações
mais difundidas no vocabulário político são a democracia representativa (indireta), ao mesmo
tempo democracia-liberal ou liberal-democracia, havendo certa mutação se somada a valores
coletivistas, cuja consequência em termos nominais vem a ser a consagração do termo
democracia social; porém, quando a efetivação de direitos sociais e coletivos se tornaria
inquestionavelmente duradoura e consistente, o termo democracia social seria objeto de
acréscimo extensivo, aparecendo nova tipologia de democracia, a social-democracia.
Sumariamente relembrando, toda democracia hoje em dia sustenta seus pilares na ordem
liberal e democrática, simultânea e reciprocamente. Mas na operação, durante seu andamento, os
dois fatores não estiveram presentes na mesma medida e no mesmo peso. Um meio eficaz para
poder distingui-los deve passar pela relação de intensidade da aplicação de políticas públicas
sociais, pois toda democracia atual é social, com maior ou menor intensidade. Quando há maior
intensidade, em combinação com eficiência de sua aplicação, esta modalidade de democracia
representativa (indireta), liberal, social, também atende pelo nome de social-democracia, sinal
de que carimbou seu passaporte para integrar o invejado clube - às vezes desdenhado,
especialmente pelos neoliberais - do Estado do bem-estar (Welfare state).
A democracia com economia de mercado, em geral presente em países capitalistas
desenvolvidos como EUA, Inglaterra, Alemanha, França, Japão, Suécia, Dinamarca, e seus
periféricos como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Peru etc., recebe o nome de democracia
representativa (indireta), democracia liberal ou liberal-democracia, democracia social e até
mesmo social-democracia. Todavia, em que pese ser a social-democracia uma subespécie da
democracia social, a denominação não vale para todos os países listados acima. Na verdade,
todos os Estados social-democratas são ao mesmo tempo democracias representativas (indiretas),

135
liberais e sociais, mas nem toda democracia representativa (indireta), liberal e social é uma
social-democracia.
Pode ser confuso, mas a teoria convencionou que somente será uma social-democracia o
regime democrático representativo liberal e social que, por ação autônoma do próprio Estado,
atingir níveis elevadíssimos de bem estar social – por isso, a social-democracia é conhecida
genericamente como Estado providência, e mais especificamente como Estado do bem-estar
(Welfare state).
Tomando por base a teoria, países como Brasil, Argentina e Peru são definidos como
democracia liberal, representativa, social, mas não social-democracia, dado que tais Estados não
conseguiram - e em algumas etapas históricas nem mesmo aspiraram a este objetivo - garantir
condições elevadas de bem estar social para seus povos. Por outro lado, Alemanha, Inglaterra e
Suécia são tipologias de Estado-providência que foram reconhecidos como exemplos de social-
democracia em razão do significativo sucesso em implantar políticas sociais que elevassem os
índices de desenvolvimento social e humano aos seus governados, tornando as desigualdades
sociais existentes em seus países as mais reduzidas dentro do mundo capitalista.92
Nesta avaliação comparativa, os EUA se distinguem como uma interessante variável
comparativa, pois se encontram na paradoxal posição de ser o mais rico de todos os Estados
acima citados, mas não se destacam como um genuíno membro do seleto “clube” da social-
democracia. Embora sabidamente se admite que os norte-americanos usufruem de um consistente
grau de desenvolvimento socioeconômico, este desenvolvimento não teve no Estado o seu
principal promotor. De modo que os EUA são uma das primeiras e mais sólidas dentre todas as
democracias representativas (indiretas), liberais e sociais, todavia não se encaixando
adequadamente no protótipo da social-democracia.
Resgatando o exemplo comparativo de Suécia e Peru, para concluir com um extremado
raciocínio, na acepção mais rigorosa do conceito de social-democracia, em oposição ao
significado de democracia social, o Peru se classificaria como uma democracia de fachada, ou até
pseudo-democracia, porque portador, basicamente, das formalidades escritas no papel a respeito
da democracia, ao invés de substantivas conquistas materiais como se pode constatar na Suécia,
de tal modo que a democracia peruana ficaria basicamente restrita à poliarquia – democracia
formal ou política -, enquanto que a Suécia, mais além da poliarquia, se consagraria como

92
O sucesso das políticas públicas de bem-estar, que elevaram os citados países à condição de social-democracia teve
seu auge nas décadas de 1950, 60 e 70.

136
exemplo de um país detentor de uma democracia não apenas política/formal, mas uma
democracia de fato: material, concreta, substantiva, real.

5.9 - Socialismo e democracia: a teoria marxista da democracia


Nesta galáxia de ideologias, em que múltiplas estrelas imaginam imperar solitariamente,
um emaranhado ininteligível de princípios acerca da democracia se propaga, de modo que a
problemática envolvendo o socialismo também exige o devido exame, decorrendo então o
legítimo questionamento: seria possível o socialismo ser uma democracia verdadeira?
No aspecto puramente teórico, é inegável que uma democracia socialista ou socialismo
democrático venha a ser devidamente factível. A equação pode ser resolvida até mesmo por meio
de um simplório raciocínio lógico, bastando para isso que o interessado retenha o conceito de
poliarquia (democracia formal) e o associe com o socialismo, assim como os ocidentais fizeram –
não apenas no plano ideal como também no real – com o liberalismo. Desse modo, ter-se-á a
combinação de participação política/soberania popular (democracia) com a devida
coletivização/estatização dos meios de produção (socialismo). Mas, como se sabe que muitas
vezes, na prática a teoria é outra, o socialismo democrático tem enfrentado uma tarefa de Golias
para transformar seus ideais em realidade.
De fato, a democracia socialista ou socialismo democrático ainda permanece relegado
ao campo das possibilidades de materialização, restringido como projeto utópico de democratas e
socialistas. Em alguns países europeus, por volta da metade do século XX, imaginou-se que sua
implantação estava prestes a se concretizar. Os primeiros (democratas), quando efetivamente
chegaram ao poder, pela via eleitoral, prometeram para mais tarde a concretização de uma
sociedade socialista, mas não lograram ultrapassar o estágio da social-democracia (como foi o
caso da Inglaterra, Suécia, Alemanha etc.), muito provavelmente pelo elevado grau de satisfação
de suas sociedades, já usufruindo de bem estar social patrocinado pelo Estado.
Os segundos (socialistas), conquistaram o poder por meio de revoluções
populares/socialistas prometendo para mais adiante o estabelecimento de um regime político
democrático, mas os próprios dirigentes do novo regime impuseram obstáculos intransponíveis
para estender o estágio do socialismo a fim de associá-lo à democracia. Este socialismo, que
renegou a democracia representativa, vem a ser exatamente aquele modelo de regime que Marx
descrevera nas décadas anteriores como ditadura do proletariado, o passo mais seguro e o estágio
mais avançado para a conclusão da marcha daquele modelo de democracia: a realização da
liberdade de todos numa sociedade sem Estado, o “comunismo”, se assim está explicado.

137
Admitindo as acusações dirigidas a Marx sobre o seu contorcionismo verbal acerca do
conceito de democracia, o que foi apresentado por Lênin como sucessor e herdeiro intelectual do
marxismo foi também uma série de mistificações, senão uma verdadeira fraude. Em referência ao
pensamento marxiano, Lênin teorizou despreocupadamente sobre o papel imprescindível do
partido no sistema político, meio de ação que não despertou tanto o interesse de Marx. Em
determinado momento, o sistema de partido único teorizado por Lênin era tão confuso que já se
apresentava como um monstrengo indomável, uma clara contradição que obrigou sua prática
política a arrastar de reboque toda a sua teoria, por exemplo, quando um único homem (ele
mesmo), ao final de todo um processo, vem estabelecer a tirania sobre todo o partido em nome da
classe operária, que por sua vez e em seu nome verá o tirano exercer sua opressão sobre o
restante da sociedade. Todavia, moderando possível injúria assacada acima contra Lênin, há que
se reconhecer que, de fato, antes mesmo da conquista do poder, ele já havia defendido um
modelo de “partido pequeno, centralizado, com decisões importantes tomadas por muito
poucos” 93 , não configurando surpresa que suas ideias sobre o contraditório centralismo
democrático foram bastante difundidas. Contraditórias tanto no discurso quanto na prática,
fazendo de Lênin refém de sua teoria, porque ao mesmo tempo em que defendia a participação
popular no Partido Comunista e as decisões do “Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia”, as
decisões do Comitê Central dirigido por ele eram puro reflexo de toda a sua autoridade.
Essa realidade não foi suficiente para dissuadir a nomenklatura94 socialista de digladiar
ideologicamente com os defensores da democracia liberal/capitalista, livrando-se da acusação de
que seus regimes eram pura e simplesmente ditaduras, tanto que os julgamentos históricos não
foram parcimoniosos com o “centralismo democrático” da era stalinista. Após décadas de
autoritarismo, nem mesmo o fato de ser aliado da liberal-democracia, na 2a Guerra Mundial, foi
capaz de salvar a imagem negativa das ditaduras socialistas. Mas por uma inesperada
coincidência histórica, uma oportuna estratégia foi encontrada temporariamente para amenizar a
infâmia das atrocidades do regime, cujas práticas já eram denunciadas e já se espalhavam pelo
Ocidente. Providencialmente, alguns países do Leste Europeu, que ficariam conhecidos como
“satélites soviéticos”, antes de caírem sob a área de influência da então União Soviética tiveram
experiências na democracia liberal, como Tchecoslováquia, ex-Alemanha Oriental, Polônia,
Hungria, e com esse regime prosseguiram nos anos imediatamente anteriores ao colapso de suas

93
In: JOHNSON, Paul. Op. cit., p. 65.
94
No sentido em tela, o termo faz referência genérica a importantes nomes, especialmente intelectuais, dos regimes
socialistas/comunistas do período. Em sentido estrito, diz respeito às autoridades políticas integrantes da cúpula
dirigente dos regimes acima citados; dirigentes privilegiados dos órgãos e dos partidos comunistas dessas nações.

138
soberanias, sob a oportunista denominação de “democracia popular”. Desfrutaram essas
democracias populares de um ambiente parcialmente democrático, pois seus dirigentes eram
escolhidos em eleições relativamente democráticas, em que pese a impossibilidade de partidos
anti-sistema concorrerem livremente. Esse clima mágico e harmônico durou até a invasão triunfal
dos impiedosos tanques soviéticos em seus territórios, pondo fim àquele teatro surrealista, pois a
“razão de Estado” ditou o ritmo dos acontecimentos, fruto do advento da Guerra Fria, a
polarização Leste-Oeste ou comunismo-capitalismo que por muito pouco não custou à
humanidade a temida 3a Guerra Mundial.
No Terceiro Mundo, o Chile é recorrentemente apontado como exemplo de experiência
para tornar a democracia compatível com o socialismo. As promissoras propostas do presidente
Salvador Allende, democraticamente eleito em 1970, foram se deteriorando pouco a pouco, à
medida que seu programa de governo ia sendo posto em prática, transformando a realidade
econômica do país em realismo fantástico, pois ali, o idealismo, tão contrastante com o realismo,
mergulhou a nação numa crise sem precedentes, convidando os golpistas de plantão à ação, o que
não tardou a acontecer. Com a palavra o general-ditador Augusto Pinochet!

5.9(a) - Democracia e governabilidade: influência de modelos eleitorais nas relações


executivo/legislativo
Na democracia representativa, a governança e a governabilidade constituem instrumentos
para obtenção de eficácia e eficiência do exercício do poder e suas consequências. Conforme as
características das instituições democráticas adotadas em um determinado país (sistema
eleitoral), estas podem desenvolver duas espécies distintas de democracia: a democracia
majoritária ou a democracia consociativa, de acordo com a tese de Arend Lijphart.95 A
democracia majoritária é a expressão de um contexto bipartidário no legislativo, decorrente da
aplicação do modelo de eleições majoritárias (distritais). Este modelo de eleições produz um
partido hegemônico no legislativo e, quando há a coincidência de este partido majoritário ser o
mesmo partido do chefe de governo (presidente ou primeiro-ministro)96 inexiste a necessidade de
o governante recorrer a alianças (apoios) com outros partidos com o intuito de formar uma
coalizão para governar, cenário este que apresenta alta tendência de governabilidade.

95
LIJPHART, Arend. Os modelos Majoritário e Consociacional da Democracia: contrastes e ilustrações, p. 95-113. A
Ciência Política nos anos 80. LAMOUNIER, Bolivar (org.). Brasília: EdUnB, 1982.
96
Se o sistema de governo for parlamentarista, naturalmente o partido que sair majoritário das eleições irá eleger,
sozinho, o governante (primeiro-ministro), dispensando alianças (coalizões) com outros partidos.

139
Por outro lado, na democracia consociativa inevitavelmente haverá a necessidade de
coalizão de partidos no legislativo para garantir maioria e apoio ao governo no executivo em
razão do multipartidarismo decorrente da aplicação de um sistema eleitoral diverso do sistema
majoritário, que é o sistema eleitoral proporcional.
Tendo em vista os dois modelos possíveis quanto à governabilidade, um país ao decidir por
um dos dois modelos de democracia o faz convicto de que a escolha é a mais racional possível.
Por exemplo, se em um determinado país há uma configuração plural em termos étnicos,
culturais ou religiosos da sociedade, e se esta sociedade ao mesmo tempo não é caracterizada
como uma sociedade muito pluralista, embora formalmente democrática, a alternativa mais
viável de modelo institucional, para garantir a sobrevivência estável desta democracia, deve ser a
opção pelo modelo consociativo. Como o modelo consociativo está intimamente ligado ao
sistema eleitoral proporcional, e o sistema eleitoral proporcional tem como premissa facilitar o
acesso de minorias à representação, aplica-se por decorrência, uma “engenharia política” capaz
de acomodar os interesses das mais variadas classes, categorias e grupos sociais que compõem a
comunidade política. Por outro lado, se a sociedade de um dado país apresenta razoável
homogeneidade étnica, social e religiosa, sendo, por isso, provavelmente pluralista, terá alta
probabilidade de, ao aplicar o sistema majoritário (distrital), constituir maiorias legislativas
unificadas sem, contudo, necessitar de apoio de outros partidos para formar maioria no
legislativo a fim dar sustentação para o governo (executivo) implementar seu projeto político,
com baixíssimo risco de conflitos políticos e sociais.
Outro fator relacionado à governabilidade, diz respeito também à participação política dos
cidadãos, mas relacionado diretamente ao processo de decisão legislativa, denominado de
democracia semidireta, cujos métodos permitem, em tese, aos cidadãos expressarem maior
influência quanto às decisões políticas tomadas, em que pese o fato de que as convocações à
participação popular tratam de assuntos muitas vezes supérfluos, quando não inócuos, tornando
os custos mais elevados que os benefícios.
Trata-se de instrumento existente em muitas democracias representativas, pelo menos
formalmente, em seus estatutos constitucionais. Seus pressupostos se traduzem em mecanismos
que buscam conciliação e aproximação procedimental da democracia indireta/representativa
(moderno-contemporânea) com a democracia direta (antiga). Nas modernas democracias, o
distanciamento das decisões políticas nos parlamentos perante a população tem como efeito
colateral o saudosismo das massas em tomar parte nas decisões políticas, como era corrente no
período clássico. Como válvula de escape, especialmente em momentos de instabilidade política
ou crise de legitimidade da própria democracia, as elites do poder se valem do artifício da

140
participação popular, muitas vezes alimentando as massas com a falsa impressão de com elas
compartilhar o poder. Classificada como subespécie da democracia indireta, a democracia
semidireta constitui-se de dois principais instrumentos, que são o plebiscito e o referendum,
cujos objetivos são os de possibilitar maior participação dos cidadãos nas decisões políticas,
substituindo, ou melhor, complementando, eventualmente, a ação de representantes e
governantes na aprovação de leis e políticas públicas. No Brasil, além dos tradicionais plebiscitos
e referendos, a Constituição Federal prevê a possibilidade de participação popular na elaboração
legislativa, cuja forma processual transforma-se, na prática, em ficção jurídica, em razão da
parafernália burocrática que resume todo o curso de tramitação dos projetos à apreciação
parlamentar.97 Todavia, a nada desprezível "Lei da Ficha Limpa" foi heroicamente promulgada
por meio deste expediente, nao obstante o clima emocional e o populismo que a envolveram
tanto por parte da sociedade civil, como dos meios de comunicação, do Congresso que a aprovou
e do Presidente da República que a sancionou, do TSE que a chancelou e do STF que... no seu
habitual anticlímax... a postergou para eleições seguintes.
Cabe salientar, entretanto, que não apenas governos democráticos fazem uso do plebiscito e
referendum como mecanismo para legitimação de ação política. Aproveitando o vácuo de tais
práticas, levadas a termo por democracias bastante estáveis como exemplo a da Suíça, também
regimes autoritários de toda ordem e pseudo-democracias lançaram mão desses recursos com
regularidade para a obtenção da maior legitimidade para si e consequentemente maior obediência
dos seus súditos. Seguindo a tradição da República Romana, democrática, os césares da ditadura
do Império Romano também convocavam o popolo para consultas, prática mais tarde imitada por
Napoleão Bonaparte e Charles de Gaulle na França e até com Adolf Hitler na Alemanha nazista.
Mais recentemente, no campo democrático latino-americano, Hugo Chávez na Venezuela, Evo
Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador se qualificaram como exemplo de governantes
que não hesitaram em recorrer à consultas populares para levar adiante seus projetos
“democráticos” de poder.

5.9(b) - Avaliando a democracia: Por que democracia?


Embora admitido que a democracia plena ou participativa, em seu sentido mais estrito,
ainda é uma aspiração de parte significativa da humanidade, uma utopia, também é inegável que
alguns valores e conquistas universais só a democracia foi capaz de garantir, ainda que não na
sua plenitude.

97
CF/88, art. 14, I, II, e III.

141
Conforme enumerou Robert Dahl, um de seus mais importantes estudiosos, a democracia
liberal (capitalista) tem algumas vantagens materiais e espirituais que nenhum outro regime
conhecido ainda foi capaz de garantir. Sustenta ele que só um regime democrático:
a) pode impedir o governo de autocratas cruéis e perversos;
b) assegura aos cidadãos uma liberdade individual mais ampla que qualquer alternativa
viável;
c) ajuda a proteger os interesses fundamentais das pessoas;
d) proporciona aos indivíduos viverem sob leis de sua própria escolha;
e) promove um grau relativamente alto de igualdade política;
f) países democráticos não entram em guerra uns contra os outros, e;
g) tendem a ser mais prósperos que os não-democráticos”.98

Apesar de tantos fatores positivos, o currículo da democracia representativa não se


compõe apenas de glórias. Por ser liberal, portanto capitalista, sua vinculação natural ao modelo
de capitalismo de mercado tem como efeito colateral a produção da desigualdade, e a
desigualdade, essência do liberalismo, leva a algumas degenerações que, no máximo, podem ser
relativamente sanadas, mas não totalmente superadas. Com a desigualdade, "recursos
importantes como educação, informação, infraestrutura etc., se tornam também desigualmente
distribuídos",99 pois como se sabe, com o advento das revoluções burguesas o novo Estado, que
tem no capitalismo o seu modelo de economia, e a democracia sua parceira atual e indissociável,
operou significativa e implacável transição de poder das instituições estatais para as grandes
corporações econômico-financeiras.
O diagnóstico acima, que relata as vantagens da democracia e descreve seus evidentes
desvios poderia se estender à democracia socialista, ou com ela apresentar um quadro
comparativo. Ocorre que esta não conseguiu comprovar um mínimo de eficácia, nem mesmo
temporalmente, quando de sua fugaz experiência na década de 1940, ainda que possível de ser
examinada teoricamente, como ocorreu em páginas anteriores. Portanto, permanece no campo da
utopia os projetos socialistas de concretizarem uma sociedade igualitária, incluindo a soberania
popular, de plena participação política.

98
DAHL, Robert. Sobre a Democracia, p. 195.
99
Idem, ibidem. p. 73-74.

142
Dentre os cerca de 200 Estados independentes que hoje compõem o planeta, raríssimos são
aqueles que não professam sua fé na democracia100. Todavia, nem sempre foi assim. Para ficar
em dois exemplos ilustrativos, basta lembrar que Platão e Aristóteles - especialmente o primeiro -
não faziam questão de esconder suas resistências aos governos democráticos. Foi esse
descontentamento que moveu Aristóteles a produzir sua monumental compilação de mais de 150
constituições políticas, cujo legado foi a publicação de uma profética teoria democrática, teoria
que só logrou encontrar terreno para ser aplicada mais de 20 séculos mais tarde, já em plena era
contemporânea. A mesma espécie de desilusão se abateu sobre Platão, ao extremo de ter
resumido com sua difundida frase, acima citada, em que ele confessa ter sérias dúvidas sobre a
possibilidade de democracia no reino dos homens.
Em tempos recentes, até os primeiros embates da Segunda Guerra Mundial, autocratas de
toda espécie exibiam satisfação em se apresentar publicamente como ditadores, por mais
paradoxal que pudesse parecer. Após a Guerra, com o desbaratamento das ditaduras, teve início
um período de reavaliação de retórica da parte dos tiranos, que se apressaram em travestir-se no
figurino de “democratas”. A partir de então, a democracia se converteria em sinônimo de formas
positivas de governo, todavia sendo infestada pela mancha bastarda dos próprios regimes
autoritários, que se movimentavam na obscuridade da terminologia “centralismo democrático”
ou então "democracia popular", esta, a conceituação com que ficaram conhecidos os recentes
satélites soviéticos, que tiveram suas frágeis e jovens democracias desmontadas pelos tanques
stalinistas.
Entretanto, a postura da teoria política enquanto ciência tem sido de intransponível
obstáculo às manobras empreendidas pelos ditadores. Como exemplo de desmascaramento de
uma desses artifícios, o cientista político Robert Dahl, em sua obra Sobre a democracia,
apresentou um gráfico que revela existirem apenas 65 países democráticos no mundo, de acordo
com sua sistematização. Sua classificação teórica, porém, se sustenta em fundamentos
basicamente formais, como já foram descritos acima, com a denominação de “democracia
poliárquica”, ou simplesmente poliarquia101, expressões que o senso comum melhor entenderia se
trocadas por "democracia eleitoral" ou "democracia política".

100
Relação de países que se declaram não-democráticos: Vaticano, Arábia Saudita, Mianmar, Brunei, Tonga e Fiji.
101
O reconhecido “Instituto Polity IV” da Universidade de Maryland (EUA) coincidentemente lista 65 países
democráticos no mundo, até 2003. É possível que esta também seja a mesma fonte dos dados utilizada por Robert
Dahl.

143
102

Desde a antiguidade, com Aristóteles, até o final do século XVIII, a comunidade


acadêmica se envolveu em um intenso debate filosófico acerca das formas de governo. Muito se
discutiu sobre a superioridade de uma delas sobre as outras; se a melhor fórmula política seria a
monarquia, a aristocracia ou a democracia. Entretanto, nos primórdios da era contemporânea,
quando a estrutura estatal estava avançando cada vez mais em complexidade e sofisticação, ao
lado da discussão sobre as formas de governo já preponderava o debate acerca da superioridade
dos regimes políticos, compreendendo, portanto, um estágio mais evolutivo que o das simples
formas de governo, ao conjugar, a partir dali, uma complexa rede de associação entre forma de
governo e toda uma complexa concepção de Estado, concepção estendida para além do simples
modo de exercício e participação no poder político (direito público), alcançando também as
relações entre os indivíduos de uma mesma nação (direito privado, incluindo as transações
econômico-financeiras) e as de âmbito transnacional (direito das gentes). A partir da segunda
metade do século XIX, quando a democracia foi sendo admitida consensualmente como a melhor
dessas formas “boas” de governo, o debate teórico adquiriu novos contornos e, durante todo o
século XX, principalmente depois da I Guerra Mundial, em razão do fracasso do capitalismo na
década de 1930 e do simultâneo sucesso das ditaduras nazifascistas e comunistas, o debate mais
acalorado ficaria restrito ao antagonismo entre regimes democráticos e não-democráticos ou
antidemocráticos.

102
Tabela de países democráticos, segundo Robert Dahl. In: Sobre a democracia, p. 18.

144
No território das ditaduras, independentemente do modelo econômico adotado – se
capitalista ou socialista - têm elas em comum a prática do autoritarismo na esfera pública, em
nível de governo. Na esfera privada ou civil, prepondera a ausência de liberdades individuais e
econômicas nos regimes socialistas, que, em linhas gerais, prioriza a coletivização da
propriedade. Em referência à esfera privada, ocorre o contrário nas ditaduras capitalistas, onde há
razoável nível de liberdade econômica. Em outras palavras, nas ditaduras capitalistas,
paralelamente ao autoritarismo político, impera o sistema de economia de mercado quanto à
distribuição dos bens econômicos, e nas ditaduras socialistas o autoritarismo político existente se
expande à esfera das atividades dos indivíduos, sem espaço para praticamente qualquer forma de
liberalismo, estando elas a cortejar, no mínimo, as fronteiras do totalitarismo.
Sem precisar retroceder bastante no tempo, uma explicação satisfatória a este ambiente de
antagonismo se apoia no cenário de desordem resultante da 1ª Grande Guerra Mundial e no
posterior colapso relativo do capitalismo conduziram o mundo ocidental civilizado a
experimentar sua mais sinistra crise de identidade. A desesperança e o medo influenciaram os
povos europeus a legitimar novas formas de despotismo, ilusoriamente consideradas como a
utopia redentora do século XX. A nova face do despotismo arrebatou quase todo o continente sob
nova roupagem: o totalitarismo comunista e o nazifascista. Despidos de princípios morais (na
melhor das hipóteses princípios morais relativos) e religiosos, a nova modalidade de despotismo
se distanciou profundamente do modelo de absolutismo que vigorou até o início do século
anterior. Profetizada pelo trio de gênios alemães Marx, Freud e Nietzsche, o colapso da ordem
política, moral e religiosa seria inapelavelmente substituído pelo interesse econômico como
dinâmica central (Marx), pelo estímulo sexual e status (Freud) e, sobretudo, pela “Vontade de
Poder” (Nietzsche), “(...) que produziria um novo tipo de Messias, livre de qualquer sanção
religiosa e com um insaciável apetite pelo controle da humanidade. O fim da antiga ordem, com
um mundo à deriva num universo relativista, era um apelo a que estadistas gângsteres
emergissem...”.103
Deste modo, a completa desmoralização dessas tipologias modernas de tirania só viria a
ocorrer quase ao término do século, antecedida pela desmoralização do modelo nazifascista após
a II Guerra Mundial, e ao final de década de 1980 com o desmoronamento do bloco soviético,
simbolicamente representado pela queda do Muro de Berlim. Fora do mundo ocidental, ao nível
das grandes potências, a bola da vez encontra-se deslocada para a gigantesca China, operando em
acelerado estágio de desenlace o seu decadente sistema econômico coletivista em rota de franca

103
JOHNSON, Paul. Tempos Modernos, p. 38.

145
decomposição, demonstrando caminhar racionalmente na direção do modelo da economia de
mercado. No campo das possibilidades teóricas de mudança para um sistema inspirado nos
moldes democrático-ocidental, digressões analíticas sobre o futuro do sistema chinês estão
abordadas em capítulo posterior.104
Após o fracasso das ditaduras ocidentais e de várias nações do “mundo em
desenvolvimento”, entre elas o Brasil, a democracia iniciou uma marcha inexorável de avanço,
até se consagrar, gradualmente, como a forma hegemônica de governo. Todavia, ainda não é
desprezível o quantitativo de convicções abertamente antidemocráticas, predispostas a combater
os ideais da democracia. Não que tal posicionamento seja totalmente irracional ou ilegítimo, que
as ideias não possam ser divulgadas, para contestar os postulados doutrinários de um regime
democrático. Decisivamente, a democracia não deve ser alardeada como o regime perfeito,
porém, julgando os seus resultados práticos, baseados na correlação custo/benefício, o
desempenho da democracia comparado aos regimes seus antagônicos, tem ela se colocado em
estágio de inegável superioridade, como comprovam algumas de suas características práticas,
apresentadas no início deste capítulo; até mesmo no campo da sabedoria popular aquela frase de
efeito proferida pelo estadista inglês Winston Churchill, acima citada, contribui para reflexão
ética e moral dos valores intrínsecos da democracia.
Sem muitas ilusões, a democracia deve ser reconhecida como um regime político que
requer análise isenta, como outro regime qualquer, com muito pragmatismo e mínima dose
possível de romantismo. Mesmo questionável do ponto de vista prático, quanto à probabilidade
de exercer influência significativa no dia-a-dia de um pacato cidadão, não deixa de ser instigante
que cada indivíduo se entregue, com razoável realismo, a um pequeno esforço mental de
abstração comparativa entre o significado empírico de um governo democrático e a inexistência
dele ou, observando por outro ângulo, a onipresença intimidatória no seu cotidiano de um regime
antidemocrático, ditatorial, enfim.
O exercício da reflexão, inerente ao politís, o incita a refletir sobre sua condição humana,
se se enxerga como indivíduo e cidadão, ou se, como homem, entrega-se naturalmente a outrem
por ser possuidor de uma alma escrava como diagnosticaram Aristóteles, Maquiavel,
Montesquieu, Hegel, sobre determinadas espécies de homem. Esta reflexão chama-se
"logocracia", que tem o significado de capacitar o indivíduo a refletir e compreender o sistema
político. Como regra, o homem moderno, mesmo aquele que vive no espaço onde prevalece o
jogo democrático, tende a se distanciar do mundo da política, pois no espaço em que se pratica a

104
Para o assunto, vide “Formas de Governo”. In: Karl Marx.

146
democracia, prepondera simultânea coexistência dela com o liberalismo, e como produto deste,
ele opta, porque se sente forçado, pela luta de sua sobrevivência. Neste dilema, entre optar por
ser homem-indivíduo e homem-cidadão, escolhe a primeira alternativa, pois para si o mundo
prático da política lhe aparenta um tanto estranho, quando não hostil, que enxerga distante de
suas prioridades algo que não poderá lhe garantir a sobrevivência material, como a Era Clássica
pôde proporcionar, em parte, aos seus cidadãos, de tal modo que avalia ser perda de tempo
filosofar sobre um mundo distante de si.
Neste dilema reside um dos pontos cruciais da democracia liberal, mas a esfinge já fora
anteriormente decifrada por Alexis de Tocqueville, em A democracia na América, obra publicada
em 1840. Considerada uma das principais obras-primas da ciência política norte-americana,
embora escrita por um filósofo francês, seu objetivo era diagnosticar o grau de evolução política
e econômica dos Estados Unidos e a correspondente evolução individual e política do homem da
sociedade norte-americana. Tocqueville detectou um perigoso desvio do homem, que se alienava
do seu papel de cidadão em benefício exagerado dos seus assuntos privados. Liberal acima de
tudo, e acessoriamente um democrata, ainda assim Tocqueville descreveu a situação como
preocupante, pois aqueles homens jamais deveriam se descuidar tanto da política, pois entendia
que era ela justamente o fator que asseguraria suas liberdades individuais. Por isso, recomendou
ardentemente que todo homem livre lutasse em defesa da liberdade, pois “para viver livre é
necessário habituar-se a uma existência plena de agitação, de movimento, de perigo; velar sem
cessar e lançar a todo momento um olhar inquieto em torno de si: este é o preço da liberdade”105.
Assim, observando o panorama político, seria capaz de evitar um mal que advém da própria
democracia, quando estritamente liberal, daquela tipologia já praticada nos Estados Unidos do
começo do século XX, a “tirania da maioria”. Já naquele tempo era comum que os cidadãos
elegiam o presidente e voltavam para suas casas, para suas ocupações particulares, esquecendo
que aquele homem que acabaram de consagrar presidente, caso não fosse fiscalizado de perto
poderia se tornar, pelo peso e quantidade de decisões discricionárias, um tirano ungido pela
maioria.
Como apontou Tocqueville, aquele mal encontrou seu antídoto: o exercício vigilante da
cidadania. E o exemplo, claro, vem de onde a democracia mais avançou no mundo, exatamente
naqueles lugares em que os cidadãos são mais conscientes, e também mais vigilantes, atentos aos
oportunistas da política, que mal esperam um vácuo de fragilidade da democacia para então
vitimizá-la. E como chegaram a este estágio de evolução política? Primeiramente, por razões

105
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América, apud Os clássicos da política, p.157.

147
estratégicas, a resposta se apresenta na forma indutiva, depois sendo sucedida por exemplos
históricos.
Então, podemos começar a nos questionar: como fazer para evoluir em nossas relações
pessoais, familiares, comunitárias etc.? A resposta pode ser simples, simplória até, cujo início se
daria ao nível de reflexão sobre o nosso cotidiano vivendo em um condomínio, por exemplo, até
atingir um limite extremo, qual seja, o grau de relacionamento que temos com o restante da
comunidade nacional. Esta proposta requer uma análise sobre a forma com que o politís interage
com os demais membros da comunidade, partindo de um estágio mais rudimentar até o mais
complexo, em que o relacionamento dos condôminos, em nível de condomínio, impõe à
necessidade de decidir questões de âmbito político ou quase, quando o problema exige ação
conjunta (ação social, na linguagem sociológica, e fato social na linguagem jurídica) com
indivíduos externos – inclusive desconhecidos –, que com ele terão de delegar a outro
“desconhecido” o poder de tomar decisões em nome de toda a comunidade. Primeiramente,
pergunta-se a este cidadão (condômino) como reagiria ao saber que, em suas decisões, o síndico
faz uso privado dos recursos coletivos do condomínio? Em seguida, ampliando a abstração,
imagine-se este mesmo “síndico”, agora com poderes ilimitados para entrar em sua casa e dar
ordens à sua família, restringindo-lhes a liberdade, impondo-lhes autocraticamente regras,
administrando arbitrariamente seu orçamento familiar, sem a devida prestação de contas?!
Por mais que o cenário descrito aparente ser um tanto surrealista, é precisamente isto o
que ocorre em uma sociedade antidemocrática, em sentido amplo, com a opressão do regime
sufocando a população. Em outras palavras, troquem-se os condôminos por governados e os
síndicos por governantes que se terá em nível macro uma compreensão mais realista da atuação
de governos não comprometidos com a transparência. Que seja, pois, ampliada a imaginação da
unidade básica de um prédio para o nível de bairro, e deste para o da cidade, agora expandida
para a província, e, finalmente, absorvendo todo o território de uma nação. Evidentemente que o
inconsciente estado de alienação configura cérebros recalcitrantes à uma paz de espírito, de
consciência, fornecendo meios de resistir à reflexão e capacidade para associar ideias tão
“escatológicas” quanto as que estão sendo apresentadas, pois quando se trata de uma realidade
tão abstrata e remota para muitos, o indivíduo/cidadão comum quase nunca sentirá predisposição
ao exercício reflexivo acerca da opressão provável, mas que ainda não lhe bateu à porta, pois
quando a opressão e o poder arbitrário ainda estão exibindo seus dotes do outro lado da rua, e
ainda não a tiver atravessado e pulado o muro de nosso lar, não tiver pisado em nossa grama, em
nossas flores e nem arrombado a nossa porta!?... Bem, enquanto isso... às favas com a
democracia! É precisamente nesse contexto que se encaixa aquela conhecida frase do filósofo

148
Jean Paul Sartre lembrando que “o inferno são os outros”. O homem, com todos os seus temores
e traumas, em todos os lugares se encontra repleto de desejos e esperanças, movido por
expectativas de realização de um mundo mais próspero e mais seguro para si. Com seu idealismo
e sua concepção de mundo, tende a se restringir e a se reconhecer nas próprias convicções
individuais, isto é, para que o mundo fosse perfeito, entende que todos os outros homens
deveriam pensar e agir como ele. Mas ao mesmo tempo, ao refletir profundamente, reconhece ser
tudo isso, na sua plenitude, uma perfeita fantasia. Como ele – e todos os outros seres humanos
tidos como “normais” - jamais deseja que lhe façam de mal aquilo que cotidianamente sabe que
pode ser feito com os outros, especialmente nas sociedades menos livres ou nao livres, uma
pequena indagação se apresenta e nunca se cala: por que não democracia?
Contemplando a democracia e a ausência dela, Robert Dahl observou que, ao longo de
todos os séculos de registros históricos, “incluindo este nosso tempo, líderes movidos por
megalomania, paranoia, interesse pessoal, ideologia, nacionalismo, fé religiosa, convicções de
superioridade inata, pura emoção ou simples impulso exploraram as excepcionais capacidades de
coerção e violência do Estado para atender os seus próprios fins. Os custos humanos do governo
despótico rivalizam com os custos da doença, da fome e da guerra”.106

106
DAHL, Robert. Sobre a Democracia, p. 59.

149
6 - O NEOLIBERALISMO: REAÇÃO À CRISE FISCAL DO ESTADO SOCIAL

Como liberalismo e democracia – apesar de terem se tornado compatíveis e


complementares por força conjuntural da história – são conceitos antagônicos entre si, pois
quando um avança (hipertrofia) em sua esfera particular de ação, o outro retrocede (atrofia),
operando um perfeito jogo de soma zero,107 muitos Estados, sustentados em políticas fiscais
assistencialistas por meio de elevados impostos, foram avançando cada vez mais na direção da
sedutora aventura, porquanto lucrativa eleitoralmente, das políticas sociais (esfera de ação da
democracia), em claro desdém aos fundamentos da economia de mercado (liberalismo), que
prega a atuação mínima do Estado. França, Alemanha e Inglaterra são países que se enquadram
adequadamente neste exemplo: garantiram elevado nível de bem estar para seus cidadãos, mas a
um custo igualmente tão elevado que, a partir da década de 1980, tiveram de restringir suas
políticas sociais para encontrar um mínimo de equilíbrio fiscal, equilíbrio que pressupõe paridade
entre receita obtida através dos tributos e gastos da máquina governamental compatíveis com a
arrecadação, tudo devidamente controlado a partir da aprovação de um orçamento público.
Não por acaso, de acordo com os ensinamentos da velha e boa teoria da física newtoniana,
para cada ação sempre haverá uma reação, nada parecendo estranho, todavia, ao mundo do
poder. Desse modo, a bomba de efeito retardado, prevista com algumas décadas de antecedência,
foi denunciada na obra do Nobel de Economia e precursor da Escola Austríaca, Friedrich von
Hayek, em O caminho da servidão. Perplexo com a indisciplina fiscal, até mesmo de países mais
ricos, cujos gastos públicos extrapolavam irresponsavelmente as receitas, alertou o mundo para
os riscos da aventura dos governos planificadores (socialistas, social-democratas, keynesianistas)
detectando o efeito colateral que tais medidas viriam a causar. Por esta razão, Hayek vem a ser
considerado um dos precursores do tão idolatrado quanto amaldiçoado neoliberalismo.
O colapso anunciado, iria atingir indiscriminadamente tanto as privilegiadas nações do
chamado 1o Mundo, que tanto avançaram no campo das políticas sociais ao obter sucesso na
redução das desigualdades, quanto as subdesenvolvidas e em desenvolvimento (3o Mundo),
afetando, inclusive, os países comunistas (das economias planificadas), cujo colapso, de tão
devastador, levou à ruína o próprio regime comunista.

107
Um dos modelos da Teoria dos Jogos, que começou a ser formulada na década de 1940. Trata-se de um jogo entre
dois competidores em que uma pessoa ganha o que a outra perde. A Teoria dos Jogos é uma fórmula encontrada para
explicar a racionalidade dos indivíduos diante dos conflitos existentes na sociedade. “(...) formulada por J. Von
Neumann e O. Morgenstern e precedida pelos estudos de E. Borel, que em 1921 se ocupara de análogos problemas,
tende a substituir as hipóteses excessivamente abstratas das teorias econômicas tradicionais por uma análise mais
realista apoiada em fenômenos econômicos e sociais. In: MOLINARI, Ernesto. Dicionário de Política. Verbete:
Teoria dos Jogos. BOBBIO, Norberto (org.), 1991, p. 1.242.

150
A festejada comunhão solidária entre Estado e sociedade, pelos apoiadores dos governos de
orientação fortemente social não tardou para entrar em rota de colisão. Os desproporcionais
gastos assistencialistas do Estado, conjugados com sua persistente presença na economia de
mercado, por meio de suas empresas, conduziram o Estado social à sua primeira crise fiscal,
manifestada pelo contínuo processo de socialização do Estado, em decorrência do excesso de
benefícios sociais/fiscais implementados que, em contrapartida, implicava excesso de tributação,
consequentemente estrangulando a produtividade econômica.
Instalada a crise, a busca da solução não ocorreu sem a contrapartida do impasse.
Entretanto, apesar de resistências localizadas, começaram a entrar em ação as políticas de
reforma que abrangeram quase todos os Estados, restringindo sua atuação no campo das políticas
sociais, sendo aceleradas a partir do tão famigerado quanto irresistível Consenso de Washington,
liderado pelos governos de Ronald Reagan nos EUA e Margareth Tatcher na Inglaterra. Baseadas
na teoria do neoliberalismo, essas políticas de redução da presença do Estado na economia
tiveram seu auge no Brasil e na América Latina ao longo da década de 1990, resultando num
agressivo processo de reforma do aparelho de Estado, como as reformas fiscal, previdenciária,
administrativa, em adição às políticas de privatização de empresas públicas e estatais.
No Brasil, em particular, sempre que as jornadas eleitorais em nível nacional adentram a
ordem do dia do calendário político, o tema das reformas, especialmente as relativas às
privatizações da década de 1990, imprime acalorado debate, alimentando o ambiente político,
polarizando com maior intensidade a disputa, gerando debates mais conflituosos que nas
competições eleitorais em nível subnacional, inscrevendo na agenda, enfim, a opção decisional
que o Estado nacional deverá tomar com relação à sua concepção de desenvolvimento: se o
pêndulo deve se inclinar mais para a direita (políticas monetaristas) ou mais para a esquerda
(políticas nacional-desenvolvimentistas).
Desta polarização, a crítica que vem da direita denuncia governos esquerdistas perdulários,
assistencialistas, paternalistas, enfim. O paternalismo, além de tornar as pessoas moralmente
indolentes e corrompidas, também produz um tipo de Estado cuja máquina burocrática será
igualmente corrupta, portanto ineficiente e incompetente, em razão, por exemplo, da supremacia
de critérios políticos na nomeação para os postos-chave da administração pública. Entendem,
efetivamente, que o Estado não se administra como uma empresa privada, assim como alertam
que as empresas não devem ser administradas como se fossem órgãos típicos da administração
pública, devendo haver, portanto, clara distinção entre os interesses intrínsecos que movem o
cliente-cidadão daqueles que interessam ao cliente-indivíduo. Por isso mesmo, objetivando
alcançar a melhor relação custo-benefício, argumentam que o Estado deve incentivar a

151
produtividade por meio da livre iniciativa, da competição de livre-mercado, reservando para si
atividades restritas ao papel regulatório, por meio das agências reguladoras, fiscalizando as
atividades econômicas e, eventualmente, punindo os infratores.
À esquerda do espectro ideológico, os progressistas defendem que o papel do Estado deve
ser o de promover o desenvolvimento por meio de sua própria ação, inclusive atuando
estrategicamente como competidor no mercado, por meio de empresas públicas/estatais, em caso
de necessidade de segurança nacional. Sustentam que cabe ao Estado a responsabilidade de
diminuir as desigualdades sociais e promover o desenvolvimento nacional, e se necessário for,
criando múltiplas “autarquias”.
Foi com base nesse discurso “social” que proliferaram as críticas mais agressivas ao
modelo que orientou as políticas econômicas dos governos da década de 1990, especialmente o
período de Fernando Henrique Cardoso. Seu governo, acusado por alas oposicionistas de
“neoliberal” e “entreguista”, foi também alvo constante de denúncias de corrupção, inclusive
com reportagens estampadas nos grandes veículos de comunicação, em que gravações divulgadas
flagraram autoridades do alto escalão do governo da época combinando entre si e com agentes
privados, interessados nos leilões de privatização das empresas públicas e estatais, privilégios
para arrematar os bens ofertados, como foi o caso das empresas de telecomunicação, energia,
siderurgia, de bancos estatais etc.
O jornalista Aloysio Biondi, do alto de sua experiência de cerca de meio século no
jornalismo econômico (Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Jornal do Comércio, Correio da
Manhã, Veja, Visão etc.), resumiu em números o processo de privatização do governo FHC, de
seu início, em 1995, até o mês de dezembro de 1998. No balanço das privatizações, segundo
Biondi, o dinheiro arrecadado pelo governo, somado às dívidas transferidas, alcançou o valor de
85,2 bilhões de reais, mas as contas que o governo esconde, isto é, dinheiro que não entrou ou
saiu dos cofres do governo, atingiu o valor de 87,6 bilhões de reais. Além do mais, diz ele, houve
perdas impossíveis de calcular, tais como lucros das antigas estatais que o governo deixou de
receber, demissões que o governo fez para livrar os “compradores” de pagamento de
indenizações e direitos trabalhistas, prejuízos com os empréstimos a juros subsidiados
concedidos aos “compradores” etc.108
Resumindo em casos específicos, destacou que: “Antes de vender as empresas telefônicas,
o governo investiu 21 bilhões de reais no setor, em dois anos e meio. Vendeu tudo por uma

108
BIONDI, Aloysio. O Brasil Privatizado. Um balanço do desmonte do Estado, p 41. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2001.

152
“entrada” de 8,8 bilhões de reais ou menos – porque financiou metade da “entrada” para grupos
brasileiros. (...) A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi comprada por 1,05 bilhão de reais,
dos quais 1,01 bilhão em “moedas podres” - vendidas aos “compradores” pelo próprio BNDES
(Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), financiadas em 12 anos”109.
Julgando globalmente, portanto sem entrar no mérito de políticas equivocadas e desvio de
conduta de agentes políticos, da tecnoburocracia pública e de agentes econômicos privados,
parece ter havido um “superávit” favorável às políticas neoliberais, porquanto praticamente
nenhuma nação ignorou inteiramente seus fundamentos, negando-se cabalmente a implementá-
los, incluindo governos de orientação social e os social-democratas de toda a Europa.
Independente dos resultados das políticas neoliberais do passado recente, se inevitáveis, eficazes
ou desastrosas, a inegável herança que a teoria legou aos dirigentes políticos/burocráticos parece
ter sido a incessante busca pela disciplina fiscal, eleita como uma espécie de Santo Graal, a
sacrossanta relíquia que tem congregado surpreendente consenso entre conservadores e
progressistas.

109
Idem, ibidem, p 5.

153
7 - SISTEMAS DE GOVERNO: PRESIDENCIALISMO, PARLAMENTARISMO E
SEMIPRESIDENCIALISMO

Introdução
Os sistemas “puros” de governo são divididos em presidencialismo e parlamentarismo,
mas dos dois sistemas decorre uma derivação, um modelo misto, o semipresidencialismo, que
até há algum tempo era conhecido também por semiparlamentarismo, expressão não de todo
inadequada.
Já que as constituições não se dão ao trabalho de definir seus próprios sistemas de
governo, trabalho que fica ao “encargo” dos estudiosos, um meio bastante eficaz de identificar
um sistema de governo é buscar entender o modo de relacionamento dos dois poderes políticos, o
executivo e o legislativo. De forma que, uma pergunta muito útil a ser respondida é acerca do
“locus”, de onde deriva o centro do poder político. Se o centro do poder político deriva do
parlamento, ou seja, se é o parlamento que elege, apoia e, se for o caso, demite o chefe de
governo (no caso o primeiro-ministro), então o sistema é parlamentarista. Do contrário, se o
chefe de governo independe da ação do parlamento para a sua eleição e permanência no poder,
então o sistema de governo é presidencialista, o que neste caso evidenciou uma característica
particular do sistema, a “separação de poderes” entre executivo e legislativo.
De modo contrário ao que ocorreu com a criação do semipresidencialismo, nem o
presidencialismo nem o parlamentarismo nasceram de um debate teórico acerca da superioridade
de um sistema com relação ao outro110, mas de todo modo, a criação de todos eles se deve a
formulações de estudiosos da política como Max Weber com relação à fundação da República de
Weimar (Alemanha semipresidencialista de 1919-1933), de John Locke com relação ao
parlamentarismo (Inglaterra, 1690), e Montesquieu (1748) e os políticos e juristas, conhecidos
como Founding Fathers (patriarcas), Thomas Jefferson, George Washington, James Madison,
Alexander Hamilton etc. para o presidencialismo (EUA, década de 1770/80).
Quando o presidencialismo surgiu, nos EUA, o sistema de governo parlamentar já se
encontrava em estágio razoavelmente avançado na Inglaterra. O termo “parlamentarismo” não
era, ainda, difundido, pois, até então, não se conhecia qualquer outro governo de parlamento, a
não ser na própria Inglaterra, em combinação com o Estado liberal, sendo que este,
provavelmente, foi o fator mais relevante à época: o Estado liberal atuando como um antídoto ao
ressurgimento do velho regime – o Estado absolutista, e de outro lado, operando como esteio

110
SARTORI, Giovanni. Engenharia Constitucional, p. 100.

154
para o funcionamento do regime parlamentar, por meio da liberdade dos governos
representativos, que só o liberalismo poderia suprir. Portanto, o uso corrente do vocábulo
parlamentarismo seria consolidado a partir do século XIX, décadas após a revolução de
independência norte-americana, que instituiu o presidencialismo, como uma expressão prática
para identificar a soberania do poder político hegemônico do parlamento. A mesma fórmula se
aplicaria ao modelo presidencialista implantado nos EUA: um sistema presidencialista significa
que, em se tratando de poder de governar, as prerrogativas devem se concentrar na autoridade do
presidente.
Antes de aprofundar a abordagem conceitual e analítica da matéria, seria necessário
advertir que o propósito deste texto se restringe à apreciação acerca de sistemas de governo
associados a regimes democráticos, pois de outra maneira não haveria tanto sentido em se
discutir as teses e implicações do parlamentarismo ou do presidencialismo sem sua simultânea
coexistência com a democracia, uma vez que em regimes não-democráticos ou autoritários de
qualquer espécie a ocorrência de um sistema presidencialista ou parlamentarista não exerceria
qualquer influência limitadora sobre o funcionamento de governos onipotentes e arbitrários, no
sentido de moderá-los, e também como ferramenta de avaliação do funcionamento de suas
instituições. Por isso, a grande importância que cerca o tema, pois a escolha adequada de um
sistema de governo se constitui em uma superestrutura imprescindível para o fortalecimento de
um regime democrático, sendo que, neste caso, a democracia figura como a base, a estrutura que
sustenta todo o edifício que abriga o jogo do poder, a sobrevivência política, e também a social,
econômica, cultural. E como superestrutura, os sistemas de governo figuram como meio
complementar de consolidação de todo o edifício estatal, ou seja, o presidencialismo e o
parlamentarismo como sistemas de governo, espera-se, operam como peças das mais adequadas
para colocar em funcionamento toda a engrenagem (estrutura) – o regime político democrático.
O debate em torno do sistema de governo que melhor contribuísse para o
desenvolvimento e consolidação da democracia – ou que, pelo menos, não se tornasse um
obstáculo para ela – foi um acontecimento recorrente durante várias décadas, ao longo de grande
parte do século XX. Primeiramente, no período pós-1ª Guerra Mundial, quando houve uma
significativa adesão de países europeus à democracia, expansão que ficou conhecida como “1a
Onda”.111 Passado o refluxo do nazifascismo das décadas de 20 e 30, portanto imediatamente
após a 2a Guerra, houve uma “invasão” da democracia, que “contaminou”, pela primeira vez, o
dito 3o Mundo. Foi chamada de “2ª Onda”, e sua duração se estendeu até a década de 70, quando

111
Tese desenvolvida por Samuel P. Huntington. In: A Terceira Onda. São Paulo: Atlas, 1994.

155
as novas democracias sucumbiram ao sucesso das recém-instaladas ditaduras militares das novas
nações independentes do neocolonialismo, na Ásia e África. Assim que essa nova modalidade de
autoritarismo começou a cair em descrédito, já na década de 1970, em razão da redemocratização
de países do Sul da Europa, principalmente Portugal e Espanha, na então intitulada 3ª Onda, um
forte impacto foi sentido, culminando com a inauguração ou o retorno da democracia em quase
toda a América Latina, inclusive o Brasil. Àquela época, o fator “institucionalização”, crucial
para as jovens democracias e jovens nações independentes, não sensibilizou parte dos
“politólogos”, que tendiam a acreditar que o fundamento do debate político deveria ficar restrito
basicamente à questão da aplicação do regime político - se democracia ou ditadura – para as
nações em crise e/ou em transição e as recentemente libertadas, e não propriamente os sistemas
de governo – parlamentarismo e presidencialismo –, e muito menos os sistemas eleitorais –
proporcionais ou majoritários/distritais -, pois eles não enxergavam nessas “instituições
complementares” vigor suficiente que pudesse exercer influência capaz de imprimir maior ou
menor eficiência para um regime político. Hoje, parece não restar dúvida, ou pelo menos há um
consenso de que a escolha adequada de determinado sistema de governo é crucial para a
estabilidade política de uma nação ou até para desencadear o seu desenvolvimento, tanto que não
apenas as novas nações democráticas, mas mesmo as tidas como democraticamente consolidadas,
cientes da importância dessa variável, estão envolvidas em debates para desenvolver projetos
objetivando adequar seus arcabouços institucionais, incluindo os sistemas de governo.
Como é da própria natureza dos regimes democráticos, que costumam ser extremamente
sensíveis à influência da participação popular nas decisões políticas, a maior ou menor
estabilidade dos governos e a permanência de grupos no poder por mais ou menos tempo, a
simples existência de uma forma de governo ou de outra, implica em maior ou menor
estabilidade política, afetando o grau de governabilidade e governança. Ocorre que a participação
popular na democracia representativa é materializada por meio da delegação de poderes a
representantes eleitos, cujo papel de representar é executado nas assembleias ou parlamentos,
com isso transformando as relações entre legislativo e executivo no eixo central da vida
democrática de uma sociedade. Essas relações se transformam em correlação de forças na
medida em que há uma luta pelo exercício das prerrogativas constitucionais de cada uma dessas
esferas políticas. O movimento desses dois poderes políticos e suas consequências – positivas ou
negativas – para a democracia pode ser demonstrado por meio de uma associação de ideias com
base na lei da física newtoniana, donde se deduz que em toda democracia também há uma
correlação entre massa e movimento, gerando constante atrito entre os poderes fundamentais do
Estado, especialmente legislativo e executivo. O embate entre os ramos de poder politicamente

156
fortes, como é saudável para toda democracia, mesmo com eventuais conflitos, é uma condição
sine qua non para o livre funcionamento do regime democrático, pois onde não houver limitação
de um poder por outro poder, como movimento de reação, haverá a concentração de poderes, e
onde houver a concentração de poderes haverá, consequentemente, o abuso, o arbítrio, a tirania, o
despotismo, a ditadura.
Dependendo de como a fricção entre massa e movimento se desenvolve, “fricção”
antagônica entre Legislativo e Executivo, o resultado será de formato diametralmente oposto
quanto ao modo de governar, e as características distintas do modo de governar, de exercer o
poder político, estruturam um sistema que pode ser presidencialista, parlamentarista ou ainda,
residualmente, semipresidencialista.

7.1 - O PRESIDENCIALISMO
Originado nos EUA, o presidencialismo se tornou o sistema de governo por excelência na
América Latina, influenciado pelo vizinho do norte. No Brasil, as circunstâncias que provocaram
o advento do presidencialismo republicano são tão singulares que a mera comparação com a
formação do presidencialismo dos países vizinhos fazem com que as instituições do regime se
vejam desconhecidas entre si. Ainda que as repúblicas presidencialistas venham a ser
coerentemente justificadas para os demais países da América Latina, tal fundamentação não se
aplica ao caso brasileiro. A longevidade do regime monárquico ainda antes da Independência, na
fase colonial, até o Segundo Império, garantiu expressiva maturidade ao sistema político,
tornando o advento da República Presidencialista um equívoco, como admitiria mais tarde
muitos dos próprios republicanos. Ao contrário do que ocorreu durante pelo menos o primeiro
meio século de República, cujos governos se sustentaram no binômio pouco republicano
‘decretos-lei/Estado de sítio’, “dentro das perspectivas do século XIX, o parlamentarismo
brasileiro foi compatível com os melhores patamares políticos de seu tempo, avançando e se
aprimorando gradualmente”.112
Caracterizado como um sistema de separação de poderes entre executivo e legislativo, as
premissas do presidencialismo garantem ao presidente as prerrogativas e faculdades de governo.
Em outras palavras, um sistema de governo para ser considerado presidencialista deve reunir as
seguintes características:

112
ANDRADA, Bonifácio José Tamm de. Parlamentarismo e Realidade Nacional. Brasília: Gráfica do Senado
Federal, 1997.

157
a) o presidente é ao mesmo tempo chefe de governo e chefe de Estado;
b) o presidente é escolhido por votação popular;
c) durante seu mandato não pode ser demitido por votação parlamentar, nem o
legislativo pode ser dissolvido pelo presidente; e,
d) o ministério (equipe de governo) é designado pelo presidente e é responsável
politicamente perante ele, não perante o legislativo.
Essas premissas compõem o que poderia ser denominado pressupostos jurídico-
constitucionais, pressupostos de ordem quantitativa, sem os quais um sistema de governo não
poderia ser denominado de presidencialista. A rigor, alguma flexibilidade de qualquer deles não
descaracterizaria o presidencialismo, mas se isto ocorrer, certamente este presidencialismo estará
a perder sua genuína identidade. Se a desfiguração for bastante evidente, é provável que tal
sistema estará caminhando para um tipo de parlamentarismo ou, no mínimo, engendrando uma
modalidade de semipresidencialismo. Deste modo um sistema presidencialista de governo deve
excluir, ou pelo menos resistir, a possibilidade de operar com instrumentos do parlamentarismo e
vice-versa.
O primeiro item, a, que configura quantitativamente o presidencialismo, estabelece que
uma mesma pessoa, o presidente, deve exercer a chefia de governo e de Estado simultaneamente.
Como chefe de governo, o presidente exerce efetivamente o poder político: nomeia e demite
ministros, diretores e presidente de autarquias, empresas estatais e de economia mista,
embaixadores, edita decretos (Medidas Provisórias, no caso do Brasil) sanciona e veta matérias
de ordem legislativa, dirige a política monetária, autoriza licitações de obras públicas, ordena sua
implementação, acompanhamento, avaliação e pagamento etc. Como chefe de Estado o
presidente assume funções simbólicas e cerimoniais representando a nação em eventos internos e
externos ao presidir solenidades comemorativas como a do dia da pátria, da independência e
outras datas nacionais. No plano externo recebe, condecora autoridades estrangeiras ou participa
no exterior de solenidades de limitadas consequências políticas.
Concernente ao item b, no presidencialismo democrático a eleição do presidente sempre
ocorre por meio de uma votação popular que, em geral, é uma votação com participação direta
dos eleitores, como no Brasil, ou nem tanto como nos EUA, ou ainda como na Bolívia com
relação ao 2º turno, que tem lugar na Câmara dos Deputados, entre os seus membros, se nenhum
dos candidatos obtiver a maioria absoluta dos votos no 1º turno.
O item c prescreve que o presidente não pode ser demitido durante seu mandato, mas em
contrapartida, não detém a prerrogativa de dissolver o parlamento. Essas duas proibições são
hipóteses legitimamente possíveis no parlamentarismo. Entretanto, em virtude do regime de

158
separação de poderes entre legislativo e executivo vigente no presidencialismo nem um dos dois
poderes politicamente eletivos pode originariamente constituir ou destituir o outro. O mandato do
chefe de governo é prefixado tanto no presidencialismo quanto no parlamentarismo com a
diferença de que neste último o chefe de governo – o primeiro ministro – pode perder seu cargo,
ser demitido, durante o exercício de seu mandato caso perca a confiança da maioria parlamentar.
No presidencialismo o presidente por mais ilegítimo que seja não pode ser demitido, pois
constitucionalmente ele é considerado “irresponsável” politicamente perante o legislativo. De
maneira que um presidente ruim, fraco, ineficiente, ineficaz e ilegítimo (impopular) só se
despede do cargo ao fim de seu mandato, cuja duração média varia de 4 a 8 anos.113
O fato de ser irresponsável politicamente não assegura ao presidente imunidades de ordem
judicial, pois em um Estado de direito, e mais que isso, de direito-democrático a qualquer
indivíduo será tolerado que se declare, a qualquer pretexto, posicionar-se acima da lei;
independente de ser ele presidente, monarca ou primeiro-ministro, o status de “império da lei”
tem validade erga omnes, termo determinativo de que sua potência é legítima para recair sobre
todos, indistintamente.
A tradicional aplicação da doutrina constitucional “the king do not wrong”114 herdada pelo
presidencialismo norte-americano das instituições inglesas só confere legalidade para atos
discricionários do presidente em relação à implementação de seu programa de governo, e não
para a esfera judiciária/penal, mesmo assim a possibilidade de uso do “poder discricionário”
dever acontecer como ultima ratio, isto é, como exceção e não como regra. O princípio da
impessoalidade, que orienta a moderna administração pública, com base nos pressupostos do
Estado de direito, pressupõe que todos os governantes estão sujeitos a responder por violação da
ordem jurídica, independente de o sistema ser presidencialista ou parlamentarista. De modo que,
também no presidencialismo, os governantes podem ser acusados por crime de responsabilidade.
A configuração de crime de responsabilidade leva à instauração do processo de impeachment,
que pode culminar com a cassação de mandato e perda dos direitos políticos do presidente.
Distintamente da demissão política, que não tem consequências na esfera penal, quando o
presidente sofre o impeachment além de ter seus direitos políticos suspensos, a configuração de

113
É ilustrativa a condição do atual presidente dos EUA, George W. Bush, que recorrentemente vem obtendo os mais
baixos índices de aprovação popular naquele país. Mesmo com a maioria de oposição no Congresso, ele não pode
ser demitido por ser irresponsável politicamente.
114
Em tradução livre, “o rei nunca erra, ou nunca está errado, portanto infalível” significa que o monarca não pode
ser responsabilizado.

159
crime de responsabilidade o leva a responder criminalmente na esfera judicial, no foro de sua
prerrogativa constitucional, a Corte Suprema.115
Em correspondência ao item d, pode-se verificar mais um indicativo da onipotência do
Presidente no exercício do poder executivo. Enquanto no parlamentarismo, via de regra, o
primeiro-ministro compartilha o poder com o gabinete, com os demais ministros, no
presidencialismo o presidente monopoliza o uso do poder discricionário, ad nutum, de nomear e
demitir livremente os seus auxiliares na administração pública, incluindo seus ministros, que
também não podem ser demitidos pelo parlamento (legislativo), e só respondem politicamente
perante o próprio presidente. Muito embora a Constituição brasileira de 1988 obrigue os
ministros a comparecer ao legislativo, se convocados para prestar esclarecimentos, ainda assim
esta aparente ingerência do poder legislativo não descaracteriza o princípio da separação de
poderes, que é a essência do presidencialismo. 116 Pelo contrário, uma moderada dose de
imbricação, interpenetração e interdependência de atribuições dos poderes foi defendida por
Montesquieu como o antídoto à tirania, descritos como pesos e contrapesos em seu “O Espírito
das Leis”, como mecanismo de garantia das salvaguardas do Estado de liberdade.
Todas as premissas, do item a ao d, confirmam indubitavelmente a clássica definição
constitucional do presidente, sua posição hegemônica no executivo, que o classifica como o
primus solus, aquela autoridade que “reina” sem dividir, com quem quer que seja, as atribuições
daquele poder. Enfim, a legitimação do presidente na titularidade do cargo deriva diretamente da
vontade da maioria da nação (pelo povo), legitimando a tradição de não poder ser demitido do
cargo, de poder nomear e demitir livremente seus auxiliares no poder executivo.

7.1.1 - Poderes constitucionais do presidente no Brasil e nos EUA: quem pode o quê, quando
e como
Apesar de o sistema presidencialista como um todo preconizar características semelhantes
às descritas nos 4 itens acima listados, razões de ordem intrínseca em cada país presidencialista
orientam a introdução de especificações jurídico-constitucionais que atendam mais
adequadamente sua realidade política, econômica e social.
Para demonstrar tais especificidades, EUA e Brasil, por razões óbvias, serão tomados como
base comparativa, de estudo de caso: os EUA por se tratar do protótipo do sistema, isto é, além

115
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF).
116
É interessante observar que nos EUA, a nomeação do secretariado de governo (ministros) pelo presidente depende
de prévia aprovação do Senado. Em se tratando de presidencialismo norte-americano, considerado o mais “puro”,
esta exigência parece ser anômala, mas na verdade é apenas mais uma aplicação teórica de um dos cânones do
presidencialismo, a ‘Separação dos Poderes’ de Montesquieu.

160
de ser o primeiro país a implantar o presidencialismo, são o único Estado entre as democracias
consideradas mais sólidas a ter um sistema presidencialista que, diga-se, dura mais de 200 anos,
sem ter sofrido qualquer ruptura constitucional; e o Brasil, claro, por se encontrar na posição
central de objeto de estudo de maior interesse deste ensaio.
Da mesma forma que ocorre em todo presidencialismo, também nos EUA o presidente
detém muitos poderes, mas nem sempre foi assim porque o regime político norte-americano já
nascera impregnado ideologicamente pelo liberalismo radical, cujo catecismo repugnava a
intervenção do Estado em assuntos privados, da sociedade ou, em síntese, um tipo de atividade
que dizia respeito estritamente à economia de mercado. Se nos dias atuais os EUA são vistos
como um modelo de “Estado mínimo”, pode-se afirmar que essa denominação seria ainda mais
precisa se em referência à sua 1ª fase como Estado independente. Assim, a trajetória do
presidencialismo norte-americano pode ser dividida em três períodos: o primeiro, que vai até a
Guerra Civil (1861-65), em que o liberalismo clássico impunha ao presidente tarefas limitadas,
semelhantes, talvez, às funções hoje exercidas pela rainha da Inglaterra, como a de representar a
nação em datas simbólicas ou eventos meramente cerimoniais, com a exceção de sua função de
comandante-em-chefe das forças armadas; o 2º período, pós-Guerra Civil, vai até o colapso da
Bolsa de Nova Iorque, em 1929, quando as funções do presidente se ampliam, mas ainda assim
distanciadas das várias atribuições de cunho social que se estenderam das políticas keynesianas
(New Deal) do presidente Roosevelt à atualidade.117 Tanto que até o fim da década de 1920, as
funções presidenciais eram tão diminutas que o presidente Calvin Coolidge, ao deixar o cargo,
quando perguntado sobre sua atuação presidencial, assim declarou: “talvez uma das realizações
mais importantes da minha administração – disse ele de estalo à imprensa – foi cuidar da minha
vida”.118
Se comparados aos poderes de um presidente latino-americano em geral, os poderes do
presidente dos EUA são significativamente limitados, e esta limitação é exercida através das
prerrogativas constitucionais garantidas ao Congresso americano, que desempenha seu papel
institucional de um dos pesos e contrapesos que equilibra o funcionamento do sistema. Apesar
dos limites, o presidente norte-americano é dotado de poderes, mas relativamente menores que os
de um presidente como o brasileiro. Por exemplo, exercendo o papel de veto player - poderes de

117
O presidente seguinte, Herbert Hoover (1929-1933), seguidor do tradicional manual Republicano de governar –
governos minimalistas - foi acusado de agir insuficientemente para aliviar o sofrimento dos mais afetados pela
Grande Depressão. Por esta razão, as favelas construídas de papelão que proliferavam pelas cidades norte-
americanas foram apelidadas de Hoovervilles, em irônica “homenagem” ao presidente em questão.
118
JOHNSON, Paul. Tempos Modernos: o mundo dos anos 20 aos 80, p. 182.

161
veto - ele possui a prerrogativa de vetar matérias aprovadas no Legislativo, mas esse poder
reativo (veto) tem que ser total e nunca parcial.
No Brasil, o presidente além de possuir o poder de veto total ainda detém o poder de veto
parcial, que lhe garante um extremo poder de controle sobre o Legislativo. A consequência mais
notória, majoritariamente danosa às instituições, é o desequilíbrio da correlação de forças, vitais
para a manutenção do Estado de direito ao configurar o tabuleiro da democracia como um “jogo
de soma zero”, aquele em que apenas um competidor é vitorioso e todos os restantes são
perdedores. A primeira constatação é a de que sobressai um executivo forte e um legislativo
fraco. Os extremos poderes constitucionais que o legislativo concedeu ao presidente brasileiro,
sob a escusa de aparelhá-lo de poderes emergenciais para solucionar crises imprevistas que os
parlamentares não podem resolver com prolongados debates, produziu uma instituição
legislativa/parlamentar débil, fisiológica e desmoralizada.
Nos EUA, tanto executivo quanto legislativo fazem uso dos poderes de que são dotados
ao ponto de essa correlação reproduzir um equilíbrio de forças historicamente conhecido como
“governo congressual”, 119 pois aquele legislativo com frequência reivindica para si, e
efetivamente exerce suas atribuições, muitas vezes negando ao presidente a delegação de poderes
legislativos por ele requisitado.
No atual estágio da democracia, a democracia social, o debate acerca das prerrogativas
legislativas do presidente – poderes pró-ativos - tem se transformado em um dos tópicos de maior
repercussão política. Em comum, todos os presidentes possuem a prerrogativa de influenciar na
matéria legislativa através de projetos de lei, que em alguns países, em algumas matérias
legislativas específicas, são de iniciativa do executivo (presidente). Mas, genericamente, o
veículo legislativo mais vigoroso do presidente é o poder de decretar, em razão de sua celeridade
e eficácia, intitulados de executive orders nos EUA, no Brasil até 1988 sob a denominação de
“decreto-lei”, aparecendo reformulados com a promulgação da Constituição de 1988 sob a
designação de “Medidas Provisórias”. As Medidas Provisórias conferem ao presidente brasileiro
mais poderes políticos que os Decretos do presidente norte-americano. Enquanto o presidente
brasileiro tem o livre-arbítrio120 de editar MPs sobre inúmeros assuntos, ao presidente dos EUA
cabe o papel de requisitá-la e esperar pela deliberação do Congresso a esse respeito. Em outras
palavras, o presidente para editar decretos precisa de autorização do Legislativo, que

119
No original, “Congressual Government”, obra de Woodrow Wilson, professor de Ciência Política e reitor da
Universidade Princeton, publicada antes de assumir o posto de Presidente dos EUA.
120
Em seu artigo 62, dispõe a Constituição brasileira que “Em caso de ‘relevância e urgência’ [grifo nosso], o
Presidente da República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei” (EC nº 32/2001, CF/88).

162
frequentemente lhe nega tal delegação. Com exceção da política externa, em que o presidente
desempenha um papel hegemônico, que lhe confere poderes de um “presidencialismo imperial”
em razão da reciprocidade de apoio histórico que envolve os dois partidos preponderantes no
congresso, isto é, o partido de oposição do momento apoia a política externa do presidente por
saber que pode esperar atitude idêntica do adversário quando o cenário político se inverter, na
disputa interna a expectativa de cooperação é muito mais modesta.
De maneira semelhante à que se verifica hoje nos EUA, a limitação da ação legislativa do
presidente também foi praticada no Brasil durante a Democracia de 1946 a 1964, a despeito da
ampla autonomia decisória dos presidentes daquela época dita populista. Os Constituintes de 46
reagiram aos excessos de decretismo do período anterior, a ditadura do Estado Novo de Vargas, e
negaram aos presidentes não só o poder de editar decretos-lei como até mesmo de editar leis
delegadas: “De fato a Constituição de 46 proibiu explicitamente qualquer um dos três ramos de
governo (executivo, legislativo, judiciário) de delegar poderes ou atribuí-los um ao outro. Esta
prescrição foi observada durante todo o regime democrático de 1946-1964, com a notável
exceção dos 16 meses do interlúdio parlamentar em 1961-1963”.121
Por último, mas não menos importante, o Orçamento Público, considerado um dos mais
relevantes instrumentos de poder político em qualquer democracia, recebe tratamento
diametralmente oposto de cada um dos presidencialismos objeto deste estudo de caso.
Hipoteticamente, se houver desequilíbrio entre os poderes legislativo e executivo quanto à sua
elaboração, aprovação e liberação de recursos, essa relação assimétrica apontará um poder com
maior capacidade de subjugar o outro, impondo-lhe um papel político secundário. Assim
aconteceu durante a 1ª República - a República Velha - quando o poder Legislativo se encontrava
em posição hegemônica perante o Presidente da República, ressaltando que o exacerbado poder
do Legislativo nada mais era do que uma “delegação” dos poderosos governadores das
províncias de então (os atuais estados-membros da federação), prática conhecida como “política
dos governadores”. Naquele período, todo o processo de elaboração e consequente aprovação do
Orçamento da União era prerrogativa exclusiva do legislativo federal. Mais tarde, durante a
primeira experiência de democracia de massas no Brasil, de 1946 até 1964, houve uma influência
mista na correlação dos poderes políticos na construção da peça orçamentária, resultando no
equilíbrio entre legislativo e executivo. Na atual quadra democrática, presumivelmente mais
desenvolvida, a política orçamentária visivelmente dirige privilégios ao Presidente da República,

121
POWER, Thimothy. The pen is mightier than the Congress: presidential decree power in Brazil, p. 198-199. In:
CAREY John M.; SHUGART, Mathew Soberg. Executive Decree Authority. Cambridge University Press, p. 197-
230, 1998.

163
que utiliza o Orçamento como um trunfo para manter sua hegemonia perante o legislativo,
tornando-o dependente do comportamento clientelista do executivo. Inegavelmente, um dos
fatores que levou a tal estágio de ascendência do Executivo sobre o Legislativo foi o
reconhecimento da grave crise fiscal e monetária que o atual regime herdou quando da transição
do autoritarismo para a democracia, em 1985. O Congresso constituinte de 1987/88 em seu
duvidoso ou, no mínimo, negligente comportamento abriu mão de prerrogativas legislativas
quando delegou extremos poderes constitucionais ao presidente a fim de que este pudesse
executar medidas impopulares como mecanismo de sanar os obstáculos da política monetária e
fiscal (combate à inflação, à recessão, elevada dívida interna e externa). Dentre esses poderes
privilegiados, além da supremacia sobre o Orçamento, que tem o status de “autorizativo”, o
presidente conta ainda com outro vigoroso instrumento de estabilização da política fiscal,
frequentemente transformado em eficiente ferramenta da política clientelista: a DRU
(Desvinculação de Receitas da União). Por meio da manipulação do primeiro instrumento - o
Orçamento - o presidente domina a agenda do Congresso e submete ou, pelo menos mantém sob
controle, os governadores estaduais, incluindo os de oposição. Em tese, no processo de
apreciação da proposta orçamentária, os parlamentares podem emendá-lo, incluindo na proposta,
recursos para a construção de obras públicas para suas regiões, mas como o empenho (liberação)
das dotações (verbas) depende da apreciação discricionária presidente, por ser o Orçamento de
natureza autorizativa 122 , na prática se o parlamentar não é suficientemente cooperativo na
aprovação das matérias de interesse do presidente no legislativo simplesmente tais verbas, que
são cruciais para a sobrevivência política de muitos governadores estaduais e de parlamentares
em suas regiões eleitorais, continuarão adormecendo nas gavetas da burocracia estatal. Além das
obras previstas no orçamento, que não são liberadas por mero arbítrio do presidente, cuja
motivação oficial seria o alcance ou a manutenção do equilíbrio fiscal das contas
governamentais, na realidade não são liberadas porque se trata de verbas que iriam atender
interesses de regiões representadas por governantes e representantes oposicionistas, que a
contrario sensu, havendo a colaboração desejada, o presidente não apenas assina a liberação das
verbas como também, dependendo do vulto do apoio e de seu humor, chega ao limite de nomear
apadrinhados daqueles políticos em seus redutos.

122
Em reportagem, combinada com editorial, o jornal O Globo, de 5/6/2010, criticou o modelo orçamentário
brasileiro. Entre exemplos, noticiou que um único parlamentar da base governista contava com emendas liberadas
superiores à totalidade das emendas do PSDB ou do DEM, partidos de oposição. Na parte do editorial, define como
despudor o uso que o governo faz da distribuição de verbas orçamentárias entre parlamentares aliados, afirmando ser
um velho vício nacional. Conclui que “(...) assim continuará até o dia em que o eleitorado, mais consciente, passar a
punir partidos e políticos especialistas neste tipo de delinquência”.

164
Através da DRU, o presidente monopoliza um elevado percentual dos recursos
orçamentários, uma vez que, excluídas as verbas “carimbadas”, que têm destinação específica, a
outra parte considerável, acima comentada, 20% de todo o montante orçamentário se encontram
disponíveis ao poder discricionário do presidente para a manutenção do jogo clientelista
(barganhas políticas).
Enquanto no Brasil o Orçamento é considerado pouco mais do que uma peça de ficção, de
natureza autorizativa, dependente do livre arbítrio do presidente, nos EUA tem natureza
inversamente proporcional, dotando aquele Congresso de poderes equilibrados em relação ao
executivo. Em outras palavras, seu Orçamento tipificado como de natureza “imperativa” ou
“impositiva” obriga o presidente a cumprir rigorosamente o que foi aprovado na íntegra, a menos
que uma necessidade urgente seja justificada, como em casos fortuitos ou de força maior,
situação em que o próprio Congresso dispõe da prerrogativa de avaliar a conveniência da
aprovação e liberação de verbas extras e suplementares, requisitadas pelo presidente.

7.1.2 - Presidencialismo norte-americano: o presidencialismo que funciona bem?


Nos EUA, regime matriz do presidencialismo, o funcionamento do sistema com partidos
fracos e indisciplinados produz resultados que, paradoxalmente, como será demonstrado,
contribuem para maior grau de governabilidade. Seu sistema eleitoral, majoritário/distrital, tende
a reproduzir no legislativo o bipartidarismo, impedindo a formação de um quadro fragmentado e,
por outro lado, facilitando a conciliação política. Esta conciliação se explica pelos interesses
localistas via políticas de pork barrel, uma moeda de troca que lembra, guardadas as proporções,
os acordos políticos operados no Brasil, sem deixar de considerar a notável particularidade da
conjunção de fatores de ordem política, cultural, étnica e religiosa 123 formadora daquela
sociedade política que tem inspirado uma tendência ideológica centrípeta, isto é, suas ideologias
políticas convergem para um eixo central, comum aos dois grandes agrupamentos políticos
(republicanos e democratas).
Paradoxalmente, são as deficiências do modelo político-partidário que faz o sistema
funcionar nos EUA, pois a rigidez do presidencialismo seria incompatível com um sistema de
partidos fortes, disciplinados e ideológicos. De outro modo, sempre que um presidente se
deparasse com uma maioria de oposição no Congresso, e esta maioria fosse coesa, disciplinada e
decidida a não ceder a um programa de governo ideologicamente divergente, o cenário político
menos traumático que poderia ser previsto seria o de “paralisia decisória”. Em termos estruturais,

123
Ver, a esse respeito, em Max Weber: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

165
é improvável que no parlamentarismo haja ocorrência de tanta fragilidade, pois a regra do
sistema de governo parlamentar pressupõe uma integração contínua entre executivo e legislativo,
isto é, o primeiro-ministro, em geral, pertence à mesma maioria legislativa, uma vez que por ela
foi eleito – por um partido singular ou por uma coligação de partidos.
O estudo analítico dos dois sistemas de governo aponta para uma interessante
constatação. Os EUA, vencedores da II Guerra Mundial, impuseram a democracia com
parlamentarismo tanto no Japão quanto na Alemanha, para evitar o ressurgimento de regimes
autocráticos nesses dois países - o militarismo e o nazismo, respectivamente. Mais recentemente,
até mesmo em países pouco amistosos à tradição democrática, como Iraque e Afeganistão, o
modelo parlamentar tem sido imposto como um dos remédios para solucionar a convulsão
política em que se envolveram. Desta comparação, merecem ser destacadas algumas questões
como: por que os norte-americanos “escreveram” as constituições da Alemanha e do Japão e, ao
invés do parlamentarismo, não escolheram o presidencialismo como sistema de governo? Por que
parlamentarismo e não presidencialismo, já que se declaram estar comprometidos em apaziguar e
estabilizar Iraque e Afeganistão? Será que desconfiam do próprio modelo que criaram e praticam
há quase 200 anos?
Giovanni Sartori sentencia que “o presidencialismo norte-americano já nasce com
defeitos irreversíveis, mas a despeito da própria Constituição têm os americanos levado o regime
a efeito apesar dela”.124 Quanto à governabilidade, as implicações do modelo norte-americano
conduzem a três configurações possíveis, nas relações entre executivo e legislativo:125
a) governo unido;
b) governo dividido; e,
c) governo bipartidário.
O cenário de “governo unido” significa que tanto o presidente quanto a maioria no
Congresso pertencem ao mesmo partido. Por exemplo, se o presidente é do partido Republicano
e este mesmo partido possui a maioria das cadeiras no legislativo, está teoricamente
caracterizado o quadro de governo unido. Neste cenário, é natural esperar que a maioria
favorável ao presidente coopere com seus projetos reproduzindo elevado índice de
governabilidade, muito embora o sistema de representação distrital não contribua para a
formação de um quadro partidário confiável porque os deputados eleitos nos distritos muitas
vezes agem como meros lobistas ou moços de recados dos interesses de suas localidades,

124
SARTORI, Giovanni, op. cit., p. 104.
125
SARTORI, Giovanni, op. cit.; Antônio Octávio Cintra. In: Sistema Político Brasileiro: uma introdução. São
Paulo: Ed. Unesp, 2004.

166
destituídos de afinidades ideológico-partidárias. Preocupados com a reeleição, seus interesses são
mais vinculados à política provinciana em detrimento do debate nacional.
A segunda configuração possível, de “governo dividido”, levaria, em tese, o
funcionamento do sistema político a uma situação de colapso. Governo dividido significa que a
maioria partidária no Congresso é de oposição ao presidente, isto é, se o presidente da república é
do partido Republicano, a maioria que controla o Legislativo seria do partido Democrata. Um
cenário como este pressupõe um estado de paralisia decisória se, hipoteticamente, houvesse
polarização ideológica entre os partidos norte-americanos; o comportamento coerente dos
partidos adversários, se estes fossem disciplinados e ideológicos, estimularia o partido de
oposição majoritário no Congresso, a rejeitar todos os projetos do presidente, com o propósito de
enfraquecer seu governo e partido e derrotá-lo nas eleições seguintes. Caso houvesse tal
polarização ideológica entre os dois grandes partidos, como ocorreu em quase todo o século XX
na Europa democrática, nenhum presidente norte-americano conseguiria levar a bom termo o seu
mandato, e a impossibilidade de governar poderia levar a própria democracia a ter sua existência
questionada. Mas nem todos os americanos veem esta divisão com maus olhos. Pelo contrário,
sem saber das crises que poderiam surgir a partir de sua formação, os próprios Patriarcas da
Constituição celebraram e instituíram nela a teoria de “pesos e contrapesos” na forma de
separação dos poderes elaborada por Montesquieu, tida como a salvaguarda do Estado de direito.
A continuidade desta histórica partilha de poder foi defendida, no final do século XIX, pelo então
cientista político Woodrow Wilson, em sua obra, “Governo Congressual”. Até hoje, o cidadão
comum nos EUA, ignorando seus efeitos colaterais, exalta a existência do governo dividido
como um instrumento de controle que equilibra a luta entre os dois poderes.
Admitindo a premissa de que a aplicação da doutrina da separação de poderes induz
inerentemente a crises sistêmicas, surge naturalmente uma pergunta: por que, então, o sistema
tem funcionado? É bem provável que a resposta esteja no fato de que os partidos nos EUA são
fracos, indisciplinados e os parlamentares têm seus interesses centrados na política localista.126 O
fisiologismo dos políticos conduz à formação de acordos ad hoc127 entre o presidente e alguns
congressistas de oposição que, nesta aliança clientelista, cooperam para a estruturação de uma
maioria e, consequentemente, para a aprovação dos projetos de governo do presidente. No
vocabulário político norte-americano, este tipo de barganha de favores é conhecido como pork
barrel, algo próximo da tradicional forma de barganha praticada na política brasileira, o “toma lá

126
SARTORI, Giovanni, op. cit., p. 104
127
Ad hoc: “para o momento”, acordo que tem validade para um assunto específico.

167
dá cá” ou, em palavras mais sutis, mas não menos éticas, usurpadas pelo uso distorcido que se
faz da oração de São Francisco de Assis, cuja máxima é descrita pelo: “é dando que se recebe”.
Como explicado acima, a aliança entre os dois grandes partidos é parcial, não se
constituindo, pois, em coalizão. Nos EUA, os dois partidos não celebram coalizão, o que
teoricamente é bastante lógico para qualquer padrão bipartidário. Portanto, o que antes poderia
degenerar para um ambiente de impasse - o governo dividido -, a operação de uma aliança
informal e pontual se transforma em “governo bipartidário”, arranjo político que atravessa as
linhas partidárias, supera os eventuais conflitos possibilitando uma situação de governabilidade.

7.1.3 - Brasil: presidencialismo de coalizão


O presidencialismo brasileiro, por razões intrínsecas, é constituído por um arranjo
institucional tão distinto do modelo norte-americano que sua configuração final praticamente
impossibilita a reprodução de cenário político semelhante, resultante das peculiares relações e
correlações entre executivo e legislativo. Em decorrência do sistema eleitoral proporcional
adotado no Brasil, para preencher as cadeiras na Câmara Baixa (deputados), é improvável a
formação do cenário de “governo unido”, pois, como se sabe, o método da proporcionalidade
tende ao surgimento de uma composição multipartidária no parlamento. O multipartidarismo, em
si, não é uma causa que sempre produz efeitos devastadores, pelo contrário, trata-se de uma
medida racional para superar impasses que o sistema majoritário/distrital não consegue
solucionar, em razão de sua tendência ao bipartidarismo. E a adoção de um parlamento
bipartidário não é uma fórmula eficaz para contentar uma sociedade plural (em termos étnicos,
culturais, religiosos etc.) e polarizada (em termos políticos/ideológicos). Em um ambiente de
pluralismo político (democracia) o multipartidarismo tem sido considerado um mecanismo de
consenso capaz de reparar e apaziguar eventuais conflitos. Mas, a aplicação de um método
considerado eficaz para atender o ideal de pluralismo, nem sempre se traduz em resultados
eficientes, no que diz respeito à governabilidade. Observe-se o caso bastante emblemático do
multipartidarismo brasileiro, cuja cultura estimulada pela cumplicidade da própria legislação
eleitoral e partidária faz com que o país tenha uma das mais frágeis configurações parlamentares
no terreno das democracias, fazendo da ideia de criação de partidos parlamentares no Brasil -
partidos socializados e disciplinados - simples retórica política local, limitando-se a uma fábula,
assim como a própria ideia de reforma política.

168
As características singulares do presidencialismo brasileiro, por uma combinação de fatores
estruturais e conjunturais foram intituladas teoricamente de presidencialismo de coalizão.128
Esta expressão será utilizada como uma interpretação adaptada e estendida da original, para
funcionar como um instrumento explicativo das teses específicas deste ensaio. Resumidamente, o
presidencialismo de coalizão pode ser definido como um sistema institucional – relações
executivo/legislativo – em que o presidente da república ceteris paribus (mantidos constantes
todos os fatores), sempre será minoritário no legislativo. Guardadas as proporções, se comparado
com o modelo institucional norte-americano, o cenário político brasileiro sempre será de
“governo dividido”, com nulas ou limitadas expectativas de “governo unido”.
Para o Brasil, espera-se como regra a formação do cenário de governo dividido, sendo
uma rigorosa probabilidade diante da evidente constatação de que dificilmente um só partido
conseguiria alocar a maioria absoluta das cadeiras parlamentares.129 Portanto, o presidencialismo
de coalizão reproduzido no Brasil é relativamente semelhante à estrutura do “governo dividido”,
exceto pelo fato de que nos EUA a oposição majoritária é unificada (de apenas um partido),
enquanto que no Brasil a oposição quando majoritária se encontra fragmentada em vários
partidos.
Falou-se em oposição majoritária no Brasil, mas é necessário atentar que só teoricamente,
pois de modo semelhante ao que ocorre nos EUA, o instrumento que flexibiliza a rigidez do
presidencialismo brasileiro também é a fragilidade e o fisiologismo dos partidos, mas com uma
significativa diferença: enquanto nos EUA mesmo o presidente se encontrando em posição
minoritária, sua minoria nunca é algo que possa ser caracterizada como irreversível, pois sua
desvantagem numérica no legislativo gira em torno de uma dezena de cadeiras ou menos,
situação que se resolve por meio de “acordos” com alguns poucos parlamentares do partido de
oposição, que tradicionalmente o presidente sabe onde e como procurá-los para um “diálogo
construtivo”. No Brasil, o ambiente de negociação de apoios parlamentares nunca é tão pacífico,
muitas vezes se apresentando como dramático. Além de partidos frágeis e indisciplinados, some-
se a isto um quadro de multipartidarismo fragmentado, que força o presidente a recorrer a
negociações individuais com os parlamentares. O presidente recorre a negociações individuais
porque raramente algum líder partidário se encontra em posição de “negociar” em nome do
partido e se, por outro lado, alguma liderança negocia em nome do partido, o custo se torna mais

128
ABRANCHES, Sérgio H. H, op. cit.
129
Nas eleições de 1986 o PMDB alocou a maioria absoluta das cadeiras do Congresso, tanto para a Câmara de
Deputados quanto para o Senado Federal, além de ter eleito 21 governadores dos 22 estados então existentes. Como
exceção à regra, aquelas eleições foram consideras ‘plebiscitárias’, pois toda a campanha orbitou em torno de
praticamente um único tema, a referendação do “Plano Cruzado”.

169
elevado.130 O desgaste se multiplica na medida em que a fragmentação partidária é exacerbada e
os esforços do presidente são multiplicados e os resultados práticos (apoios em votações) muitas
vezes decepcionantes. Nos dias que correm, a base do governo no Congresso é formada por cerca
de 14 partidos, resultando uma relação custo-benefício das barganhas entre partidos e
parlamentares tão dispendiosa e desgastante para o governo que o próprio presidente, antes não
muito interessado em mudar a situação, pois sua posição pouco ética de controle sobre o
legislativo não o incomodava, agora já instruiu autoridades ministeriais a enviar ao Congresso
uma ampla proposta de Reforma Política. No documento de 28 páginas, coordenado pelo
ministro da Justiça o governo, em raro momento de sinceridade, e um mea culpa embutido,
argumenta à pagina quatro que “com as normas vigentes existe um ‘incentivo ao mercado
partidário’ para manutenção das bases de coalizão e, considerando-se a falta de coesão interna
dos partidos, desvirtuamento para um verdadeiro ‘mercado de votos’ no Parlamento – fidelidade
ao governo baseada, em muitos casos, em um modelo de trocas calcado no binômio
liberação/não-liberação de recursos para emendas parlamentares ou nomeação/não-nomeação de
indicados do parlamentar (ou de seu partido) para determinados cargos da administração”.131

7.2 - O PARLAMENTARISMO
7.2.1 - Desenvolvimento do parlamentarismo: do parlamentarismo dualista ao
parlamentarismo monista
As revoluções liberais que derrubaram as monarquias absolutistas na Europa,
transformando-as em constitucionais, gradativamente foram adaptando suas antigas instituições
às doutrinas do Estado de direito, associando-as ao governo de parlamento, ramo do poder estatal
em que a nova classe revolucionária, a burguesia, se tornaria predominante.
Na Inglaterra, depois de uma guerra civil que durou várias décadas, a vitória do
parlamento sobre a monarquia absolutista transfere o núcleo do poder político do executivo para
o legislativo. A soberania do Estado, antes concentrada na pessoa do monarca, a partir daquela
revolução liberal – Revolução Gloriosa de 1688/9 – passaria a ser uma soberania popular
exercida pelos representantes na câmara baixa do poder legislativo, a Câmara dos Comuns. Esta
primeira etapa de governo representativo, exercido pela classe burguesa, semeia o germe do
futuro regime parlamentarista. Como a soberania política pertence ao parlamento, este limita os
poderes do rei, que a partir de então verá seus poderes adstritos ao exercício do poder executivo,

130
CINTRA, Antonio Octávio, op. cit.
131
In: Folha de S. Paulo, 23/08/2008, p. A4.

170
fórmula esta que foi introduzida sob a inspiração de John Locke. Considerado “pai” do
liberalismo moderno, este filósofo inglês influenciou a reforma da constituição de seu país ao
ponto de sua obra de Teoria de Estado, Os dois Tratados sobre o Governo Civil, publicada em
1690, ser entendida como uma justificativa post facto do movimento revolucionário. As teses de
Locke, amplamente difundidas no curso do absolutismo, além de sustentar os princípios do
jusnaturalismo – direitos naturais invioláveis, inalienáveis e imprescritíveis – fundamentam a
supremacia política do parlamento.
A aplicação dessas ideias consolidariam gradualmente um novo modelo de governo, o
governo representativo parlamentar, mais firmado na linguagem da política como
parlamentarismo. Dividido em duas etapas, a primeira delas vem a ser a do “parlamentarismo
dualista”, assim intitulada pelo fato de que o parlamento e o rei dividiam entre si as prerrogativas
de poder: as legislativas e as executivas, respectivamente. Embora o novo Estado constitucional
admitisse a manutenção da monarquia como parte de sua estrutura, suas atribuições institucionais
deveriam se restringir ao exercício do poder Executivo e Federativo,132 mas o status do monarca
não extrapolaria ao de um ‘comissário’ do Legislativo no exercício daquelas duas funções. Como
já havia preconizado John Locke, o poder supremo se concentraria no poder legislativo,
derivando daí todas as decisões políticas, que o monarca no exercício do poder governativo
deveria indiscutivelmente executar.
Mas o primeiro século de relações entre rei e parlamento no contexto constitucional foi
um tanto tempestuoso. Apesar disso, nas primeiras décadas a mão do destino conspirou a favor
do desenvolvimento do parlamentarismo. Em função dos conflitos prolongados da guerra civil da
segunda metade do século XVII, o trono da Inglaterra ficaria vago logo nos primórdios do
liberalismo, e o rei substituto era um parente estrangeiro oriundo de estados alemães, que não
falava inglês e era malversado no latim. Na condição de chefe de governo e de Estado, no regime
constitucional e representativo, havia a necessidade de se relacionar com o parlamento, e por
força das circunstâncias designara um de seus ministros para exercer o papel de interlocutor entre
os dois poderes políticos. A personagem desta história foi o lorde Robert Walpole, que por ser o
ministro preferido do rei para responder ao legislativo, foi ironizado pelos parlamentares com o
apelido de “primeiro-ministro”.133 Junto com esta tradição, a fragilidade de um rei estrangeiro e
um político hábil para negociar em seu nome foi determinante para o fortalecimento do regime.

132
Curiosamente, as funções delegadas ao poder Federativo, como prescreveu John Locke, seriam as mesmas que hoje
em dia são atribuídas pelos chefes de Estado, tanto no parlamentarismo quanto no presidencialismo.
133
Até hoje, a expressão “primeiro-ministro” é uma designação popular, pois nas constituições escritas sua
denominação formal é a de “presidente do conselho de ministros” ou “chefe do conselho de ministros”.

171
Esta prática foi consolidando a monarquia parlamentar, embora os conflitos intermináveis entre
parlamento e rei da fase do parlamentarismo dualista só terão seu desfecho quando a burguesia
impõe nova derrota ao monarca inaugurando a era do parlamentarismo monista,134 em vigor até
os dias atuais. Na fase dualista, o parlamento desejava responsabilizar os ministros do rei,
podendo demiti-los e, mais tarde, passando a reivindicar, inclusive, a prerrogativa de nomeá-lo.
Ainda na fase dualista, Sir Walpole, indiretamente, em nome do rei, “governou” por
várias décadas, fato inédito na história política britânica, mas com o fim de seu “reinado”, em
1786, todos os ministros teriam que ser membros do parlamento, ao mesmo tempo podendo ser
censurados por este poder.
Mas, só em 1832 a Grã-Bretanha fez a revolução por excelência, o “Reform Bill”135. Daí
em diante, a Câmara dos Comuns torna-se o poder supremo, acima do rei e lordes.
Definitivamente, o parlamentarismo monista (democrático) se consolida como regra. Nele, a
supremacia do parlamento sobre o executivo se torna uma prerrogativa dos parlamentares de
eleger o chefe de governo e seu gabinete (ministros) sendo eles membros do próprio legislativo,
isto é, o primeiro-ministro não surge mais como uma indicação do rei, mas por meio de uma
eleição interna da Câmara Baixa (deputados), que elege um de seus pares para assumir o cargo.
Este primeiro-ministro eleito, na prática, não mais responde perante o rei. A partir de então sua
responsabilidade política será perante o próprio parlamento. Em suma, só o parlamento poderá
destituí-lo do cargo.

7.2.2 - Premissas do parlamentarismo


Diferentemente do presidencialismo, cuja característica fundamental é o princípio da
separação de poderes, o sistema de governo parlamentar não permite a separação entre legislativo
e executivo. Pelo contrário, na maioria das vezes suas relações são de tanta cumplicidade que
podem ser caracterizadas como relações orgânicas. 136 Esta e outras linhas mestras do
parlamentarismo podem ser abstraídas das premissas a seguir:
a) a chefia de governo é exercida pelo primeiro-ministro e a chefia de Estado é
atribuída a uma outra autoridade, que pode ser um monarca ou presidente:
Esse item é um dos mais evidentes pressupostos do funcionamento do governo de
parlamento. Nele, duas autoridades distintas exercem duas diferentes atribuições: o primeiro-

134
BONAVIDES, Paulo, op. cit., 2004.
135
CHACON, Vamireh. O Novo Parlamentarismo. Cadernos da Fundação Milton Campos, p. 12. Brasília: Gráfica
do Senado, 1978.
136
CINTRA, Antonio Octávio, op. cit., p. 42.

172
ministro, no executivo, exercendo a função de chefe de governo, e o monarca ou presidente
exercendo a função de chefe de Estado. O chefe de Estado é um monarca se se tratar de um
parlamentarismo monárquico como é o caso do Reino Unido, Espanha, Holanda, Bélgica etc.,
mas em se tratando de repúblicas tais como Alemanha, Áustria, Irlanda e Itália o chefe de Estado
é o presidente. No que concerne ao poder político, a figura proeminente é o primeiro-ministro, e
ao chefe de Estado resta exercer funções simbólicas e cerimoniais. Ao observar as constituições
parlamentaristas o leitor desatento pode cometer equívocos de interpretação, uma vez que tais
Cartas geralmente delegam ao chefe de Estado o poder formal para nomear e demitir ministros e
primeiro-ministro (premiê).137 Na realidade, esses atos configuram mais poder de direito (poder
formal) do que poder de fato (poder real), pois a luta pelo poder político se desenvolve entre os
partidos durante as eleições e no parlamento. Como será analisado adiante, esta situação
dificilmente ocorrerá na Inglaterra, não apenas porque lá não existe uma constituição escrita, mas
também em função de toda uma estrutura política singularmente consolidada.
Nos tempos atuais, quando o chefe de Estado é um monarca, sua ascensão ao cargo se
concretiza pela hereditariedade e a duração de seu mandato é vitalícia. Entretanto, se o
parlamentarismo é republicano, o presidente, salvo significativas exceções, é eleito pelo
parlamento e, em geral, se encontra em posição acima das disputas partidárias como uma reserva
moral para arbitrar eventuais conflitos políticos.
De fato é o primeiro-ministro (auxiliado pelo gabinete – seus ministros) que governa, isto
é, exerce o poder político e o comando da administração pública. Não obstante as atribuições de
governar, o primeiro-ministro necessita de reunir uma conjugação de fatores para que seu
governo seja verdadeiramente efetivo, pois mesmo tendo sido eleito pela maioria, algumas
variáveis específicas concorrem para demonstrar quem prepondera sobre quem: se o premiê
sobre o parlamento ou o parlamento sobre o premiê. Como este sistema caracteriza um governo
de parlamento, em que não há separação de poderes entre executivo e legislativo, pode ocorrer de
o governante (primeiro-ministro) ser obrigado a conviver conflituosamente com sua maioria por
não possuir sólida liderança sobre ela.

b) a eleição do chefe de governo, o primeiro-ministro, se realiza por meio de eleição


indireta, entre os membros do parlamento:
No parlamentarismo clássico, a eleição do primeiro-ministro sempre acontece por meio
de eleições indiretas, significando que sua legitimidade no poder não decorre de uma votação

137
Vide exemplo da Constituição Federal da Alemanha, de 1949, em seus arts. 63 e 64.

173
popular como no presidencialismo, mas de uma eleição realizada no parlamento em que a
maioria – de um partido singular ou de uma coligação de partidos – escolhe o chefe de governo;
os participantes da eleição são membros natos do legislativo, isto é, são representantes eleitos
diretamente pelo povo, por meio de eleições parlamentares. Depois de eleitos todos os
parlamentares, a assembleia se reúne para eleger o novo chefe do executivo, devendo este ser um
membro do parlamento, em geral, nas atuais democracias de massa, da Câmara Baixa (um
deputado).

c) o governo, além de nomeado pelo parlamento, para se manter no poder necessita


de apoio da maioria parlamentar que, se necessário, pode demitir o primeiro-ministro
através do voto de desconfiança:
Durante o mandato do primeiro-ministro o parlamento pode demiti-lo por decisão de sua
maioria. Ao contrário da regra presidencialista, o premiê eleito não tem sua legitimidade
garantida no cargo até o fim do mandato. Por isso, no parlamentarismo, dificilmente uma crise de
governo se transforma em crise de Estado porque se o governante perde a legitimidade perante a
nação ou o apoio da maioria legislativa os parlamentares o destituem do poder antes que a crise
alcance maiores proporções. Não é raro um primeiro-ministro se antecipar a uma situação
inevitável, e comunicar ao chefe de Estado sua demissão, solucionando o impasse antes que
partidos ou parlamentares apresentem o requerimento de voto de desconfiança com o propósito
de derrubá-lo.

d) antes do fim do mandato dos parlamentares é possível a dissolução do poder


legislativo, mas novas eleições para preencher as cadeiras legislativas devem ser
imediatamente marcadas:
Assim como a maioria parlamentar pode demitir o primeiro-ministro antes de terminado o
prazo pré-fixado de seu mandato, o mesmo também pode ocorrer com o mandato dos
parlamentares, bastando para isto que a assembleia (parlamento/legislativo) seja dissolvida. Essas
ocorrências são mais verificadas em presença de parlamentarismo multipartidário, em que a
própria natureza do modelo exige coalizão de partidos para alcançar numericamente a maioria
parlamentar e eleger o primeiro-ministro. A convivência pacífica de partidos aliados em
governos de coalizão é uma aposta de escassa margem de acerto. Conflitos acerca da distribuição
de cargos e da implementação programática das políticas públicas entre os partidos aliados são
constantes e geram vetos cruzados, pois a lógica do poder político induz a ação partidária a
comportamentos egoístas e raramente à cooperação. De modo contrário, o que se comprova no

174
modelo de parlamentarismo com dois partidos predominantes no legislativo é a tendência de
estabilidade. Entre dois partidos, o vencedor governará sem a necessidade de acordos e,
consequentemente, sem ser vítima de possíveis vetos e chantagens de aliados, como se verá na
abordagem sobre o sistema inglês.

7.2.3 - Dinâmica do parlamentarismo: qual o mais estável e por quê.


Depois da classificação quantitativa do parlamentarismo, com base em seus pressupostos
estruturais e na natureza de seu funcionamento, a etapa seguinte, para a conclusão da análise,
será a da avaliação qualitativa, que se relaciona à capacidade de eficiência do sistema. Diante
desta problemática, uma questão se apresenta como crucial: qual a tipologia de parlamentarismo
capaz de garantir maior estabilidade política? Em razão de uma série de combinação de fatores,
três tipologias históricas de parlamentarismo são os mais considerados como modelo de análise
comparativa:
a) o parlamentarismo britânico (cabinet system);
b) o sistema alemão (kanzlerdemokratie); e,
c) o parlamentarismo assembleísta (governo por assembleia ou convencional).

7.2.3(a) - O parlamentarismo britânico (sistema de gabinete).


O tipo de parlamentarismo inglês, além de ser o protótipo do parlamentarismo, por ser o mais
antigo, também é considerado o mais estável. Paradoxalmente, é o tipo menos ‘puro’ de
parlamentarismo e o que mais se afasta de sua origem etimológica, pois ao invés de reproduzir
um governo essencialmente de parlamento, o que se verifica na prática não é uma preponderância
do parlamento como centro de poder, mas ao contrário, há uma hegemonia do chefe de governo,
isto é, há uma estrutura de governo baseada na autoridade do primeiro-ministro (executivo) sobre
o parlamento (legislativo). Em outras palavras, esta variedade de primeiro-ministro, também
conhecida como “sistema de primeiro-ministro ou sistema de gabinete” tem sua elevada
estabilidade amparada em uma coerente estrutura institucional interdependente, formada por um
tripé cujas partes não sobrevivem fora da engrenagem:
i) o sistema eleitoral majoritário (voto distrital);
ii) a configuração bipartidária no legislativo; e,
iii) a maioria parlamentar unipartidária.

175
Do primeiro item (i), aplicação do sistema eleitoral majoritário, sabe-se que sua mais
imediata consequência é a concretização de um parlamento bipartidário;138 da existência de dois
predominantes e hegemônicos partidos no parlamento (ii) o efeito mais visível é o fato já descrito
no parágrafo acima: a concretização de uma maioria parlamentar unipartidária que, por sua vez,
reproduz no executivo um governo de ação uniforme com o primeiro-ministro efetivamente
liderando o gabinete (os ministros são seus auxiliares e comandados), e um legislativo
disciplinado e cooperativo (os parlamentares são do mesmo partido que o primeiro-ministro, do
qual ele é o líder). Finalmente, o que resume a explicação da estabilidade do parlamentarismo de
tipo britânico é exatamente o fato de o premiê ser o líder do partido que detém a maioria das
cadeiras no parlamento e, como líder deste partido majoritário, naturalmente será o escolhido
entre seus pares para chefiar o governo, em uma eleição cujo processo se desenrola sem
conflitos, constituindo, portanto, um sistema bastante estável, redundantemente denominado de
“sistema de primeiro-ministro”. Por ser a tipologia de parlamentarismo que mais se afasta da
ideia de governo de parlamento, tem-se neste caso, uma variedade de primeiro-ministro sui
generis. Seus poderes, na prática, são tão sólidos que ao invés da clássica denominação de
primus inter pares, apropriada para os governantes no parlamentarismo, talvez a mais adequada
fosse primus solus, pois seus poderes são bastante semelhantes aos de um presidente no
presidencialismo: além das prerrogativas já descritas, possui muita estabilidade no cargo -
dificilmente sendo demitido -, e sua liderança o torna poderoso também em relação ao gabinete
para nomear e demitir quase livremente os ministros, prática que, juridicamente, é da natureza do
presidencialismo e não do parlamentarismo. Por outro lado, sua preponderância política
incontestável sobre a maioria legislativa configura o “parlamento arena”,139 uma espécie de casa
parlamentar/legislativa transformada na prática em simples arena de debates, com baixa
autonomia de independência crítica e propositura de leis, em virtude da forte liderança política do
primeiro-ministro.

7.2.3(b) - O parlamentarismo sob controle partidário


O modelo alemão é o tipo de parlamentarismo que melhor se enquadra nesta classificação.
O parlamentarismo sob controle partidário se encontra em uma posição intermediária em se
tratando de governabilidade. Sua característica mais evidente é que se trata de um sistema de
governo sob controle partidário. Embora não seja tipicamente um modelo de parlamentarismo

138
Vide adiante o capítulo sobre sistemas eleitorais.
139
CINTRA, Antonio Octávio. Op. cit.

176
bipartidário, também não se encaixa no complexo sistema de parlamentarismo de coalizão,
historicamente conhecido como parlamentarismo assembleísta (governo de assembleia). Não
obstante se encontrar classificado em posição intermediária, o sistema alemão tem sido, nas
últimas décadas, tão estável quanto o sistema britânico. A duração do mandato de um primeiro-
ministro,140 que por si só não é a variável que exerce maior influência sobre a governabilidade,
mas não deixa de ser significativa para a estabilidade política, tem sido até mais prolongada que a
de alguns primeiros-ministros na Inglaterra. Desde o fim da II Guerra Mundial, quando a
Alemanha restaurou a democracia, dois primeiros-ministros, Konrad Adenauer e Helmut Khol,
permaneceram no poder por mais tempo que qualquer um de seus congêneres britânicos que
governaram durante o século XX.141
Pela apresentação da classificação, o status de poder do chanceler alemão não é tão sólido
quanto o do premiê britânico, pois ele não é, necessariamente, o líder de seu partido. Como há a
presença de aliados,142 mesmo que claramente minoritários na coalizão, espera-se do parceiro
hegemônico que, apesar da legitimidade de escolher o chanceler, o nome deste não seja lançado
de forma intransigente. Além disso, pelos mesmos fatores, nas relações do chanceler com os
outros ministros (gabinete) não se percebe a liderança incontestável deste, como é evidente no
sistema inglês.
O atual sistema de partidos na Alemanha é classificado pela teoria como um sistema
multipartidário. Não um multipartidarismo fragmentado como o brasileiro, mas moderado ao
ponto de ser reconhecido como um sistema de “dois e meio partidos”. Na prática, há uma
tendência quase irresistível em definir o sistema como bipartidário, pois todo chanceler
(primeiro-ministro) eleito até hoje pertencia ou pertence a um dos dois grandes partidos – a CDU
ou o SPD. O “meio-partido” mencionado é o Liberal Democrático (FDP) que nunca elegeu um
chanceler, mas seu apoio pode ser decisivo tanto para elegê-lo quanto para destituí-lo. Em outras
palavras, as relativamente poucas cadeiras parlamentares do FDP se somadas às de um dos dois
grandes partidos pode resultar na eleição do novo chanceler, podendo este ser até mesmo do
segundo maior partido naquela eleição parlamentar. Mais que isso, se o FDP se retirar da
coalizão, o primeiro-ministro que perde seu apoio pode cair em função de ter perdido a maioria

140
Na Alemanha, o primeiro-ministro é tradicionalmente denominado de “chanceler”.
141
O mandato de K. Adenauer durou 14 anos, e o de H. Khol cerca de 16. No século XX, o mandato de mais longa
duração na Inglaterra foi o da primeira-ministra Margareth Tatcher, de 1979 até 1990.
142
Além do FDP, dois outros pequenos partidos participam das coalizões de governo. Mas, diferentemente do FDP, os
Verdes são aliados históricos da social-democracia (SPD), quase um braço partidário; o mesmo ocorre com a CSU,
que é um braço da CDU na Baviera, onde este não está organizado e, portanto, nem concorre nas eleições.

177
das cadeiras no parlamento. Em suma, eventualmente o ‘quase-bipartidarismo’ alemão pode se
deparar com um partido secundário exercendo o papel de “fiel da balança”.143
Ao contrário do que ocorre na Inglaterra, não é exatamente o sistema eleitoral que estrutura
o quase-bipartidarismo na Alemanha. Além do modelo eleitoral, duas outras variáveis estão
diretamente vinculadas à configuração partidária no parlamento: a cláusula ou barreira de
exclusão e a proibição de partidos contrários à democracia de competir nas eleições. O atual
sistema eleitoral da Alemanha, distrital-misto, é uma das várias criações constitucionais daquele
país ao longo do século XX, mais tarde imitado por vários países, entre eles Itália, Suécia,
Holanda, Japão, Israel, México e até a Bolívia. Na prática, parece ter sido a proibição de partidos
extremistas – tanto à esquerda quanto à direita – o fator decisivo que não apenas contribuiu para
a redução do número de partidos, mas mais importante, reduziu a polarização ideológica da
política alemã. A cláusula de barreira, lato sensu, estipula em 5% o desempenho mínimo de
votos para que um partido possa garantir suas cadeiras no parlamento,144 mas outra fórmula da
legislação contorna o rigor draconiano da barreira percentual, e suavizando, por fim seus efeitos.
Contudo, a estabilidade política e a durabilidade dos mandatos dos primeiros-ministros também
pode ser creditada ao instrumento do ‘voto de não-confiança construtivo’. Por esse método, o
parlamento só pode demitir o chanceler se antes um novo nome houver sido escolhido pela
maioria parlamentar, concorrendo para maior estabilidade, pois o desejo de destituir fica inibido
pela maior dificuldade de se constituir um novo governo (gabinete).

7.2.3(c) - O Parlamentarismo Assembleísta145


Por último, o assembleísmo é o tipo de parlamentarismo mais instável, a despeito de ser
considerado o mais ‘puro’ dos três modelos. Mais ‘puro’ porque a expressão “parlamentarismo
assembleísta” pressupõe governo de parlamento ou de assembleia e, nestes termos, a expressão é
redundante porque “parlamento” e “assembleia” têm o mesmo significado, pois se referem ao
mesmo ramo de poder, o legislativo. É considerado mais puro em razão de o poder político
concretamente ser exercido pela assembleia e não pelo gabinete, nem pelo primeiro-ministro, ou
ambos conjuntamente. Em função desses fatores, o primeiro-ministro é um genuíno primus inter
pares (primeiro entre seus pares) porque efetivamente não se sobressai entre eles, não é

143
De fato, esta situação ocorreu em 1982 quando o FDP estava em coalizão de governo com o SPD, mas ao
abandoná-la fez com que o primeiro-ministro perdesse a maioria no parlamento e se demitisse. Ato contínuo, aliou-
se ao outro grande partido, a CDU, tornando-se, com isso, o fator determinante para a eleição do novo chanceler.
144
Nas eleições parlamentares da Alemanha, hipoteticamente, um partido que consiga 4% dos votos teria direito a
cerca de uma dúzia de cadeiras no Bundestag (câmara baixa do parlamento federal), mas se não atingir a marca de
5% da votação nacional nenhum candidato toma posse no cargo.
145
Também designado de governo convencional, governo por assembleia, assembleísmo etc.

178
necessariamente o líder. Ao contrário do premiê britânico, ele é continuamente dependente dos
deputados que compõem a legislatura para permanecer no poder.
De um modo geral, o governo convencional (assembleísmo) surge como decorrência da
aplicação do sistema eleitoral proporcional. Como se sabe, a mais direta consequência da
utilização do método proporcional é a formação do multipartidarismo no legislativo. E, mantidos
constantes todos os fatores, o multipartidarismo resultante pode atingir um quadro exacerbado,
fazendo com que nenhum partido seja dominante, e muito menos predominante dentro do
parlamento. Nesse sentido, os partidos se verão forçados à formação de alianças para eleger o
primeiro-ministro, que ninguém pode de antemão afirmar quem será e a qual partido da coalizão
ele pertence. Depois de eleito, a autoridade política do primeiro-ministro estará sempre
dependente daquela maioria difusa de deputados, pois se sua política contrariar deputados e
partidos, estes podem abandonar a coalizão e, automaticamente, derrubar o governo. Os vetos
cruzados dos partidos da aliança tornam o gabinete um eterno refém dos parlamentares fazendo
do primeiro-ministro um governante fraco e sem liderança e, por outro lado, desponta um
parlamento destituído de quase nenhuma corresponsabilidade para a tarefa de governo.
Pelo contrário, a baixa capacidade do governo de aprovar seus projetos no legislativo
decorrente da conjunção de fatores descrita caracteriza este tipo de parlamento como
“parlamento transformador”. De forma oposta à tipologia britânica do “parlamento arena”, no
“parlamento transformador” o poder imperativo dos parlamentares sobre o primeiro-ministro e
seu gabinete “transforma” os projetos do executivo à sua imagem e semelhança, resultando
praticamente em assumir as tarefas de governar.
O período da III e IV repúblicas francesa (de 1875 a 1958, excetuada a fase do governo
fascista) é apontado como o protótipo do parlamentarismo assembleísta, ironicamente conhecido
como “República dos Deputados”. O modelo de democracia do pós-Guerra estabelecido na Itália,
com um partido dominante liderando as coalizões (PDC), até a decomposição dos partidos no
começo da década de 1990 em razão da Operação Mãos Limpas, também se aproxima bastante
do arquétipo do governo por assembleia. Semelhante ao regime assembleísta francês, a duração
média do mandato de um governo (gabinete) na Itália do período foi inferior a 1 ano.
Embora um mesmo agrupamento de partidos reorganize a formação do novo gabinete, é
notável a ausência de cooperação entre os membros da coalizão, pois o projeto pessoal de um
parlamentar que deseja se tornar ministro ou até primeiro-ministro pode desmoronar a
estabilidade do governo.
Mais recentemente, algumas das novas democracias erguidas dos escombros da ex-URSS
e do Leste europeu, também seguiram o caminho do assembleísmo. Um forte argumento que

179
pode explicar a adoção de uma democracia com parlamentarismo mais puro talvez seja o
incontido desejo de implantar uma democracia o mais democrática possível. É compreensível
que os anos de repressão e autoritarismo tenham sido os fatores preponderantes que
influenciaram a onda de democratismo que arrebatou os três agrupamentos de assembleísmo
citados. Por meio da introdução do sistema proporcional, as minorias antes sufocadas, passam a
ser representadas nas assembleias, tornando-as mais democráticas, e os regimes democráticos,
como se sabe, são significativamente hostis à governabilidade.

7.2.4 - Conclusão: presidencialismo, parlamentarismo e governabilidade


Analisar um regime político ou sistema de governo sob a ótica da governabilidade é uma
tarefa tão complexa quanto ambígua. São tantas as variáveis que compõem o universo desta
tipologia de avaliação que qualquer parecer prévio pode se resumir a um sofisma ou algo que vá
pouco além de uma pseudo-teoria. Qualquer que seja o sistema de governo, presidencialista,
semipresidencialista ou parlamentarista, combinado com a forma de governo democrática,
induzirá o analista, em avaliação sobre a governabilidade, a uma tendência irresistível de julgar
esta associação como pouco compatível. Com isto se quer dizer que, quanto mais democrático
for um governo, menor será sua capacidade de governança e governabilidade, pois democracia
implica em participação popular e quanto maior a participação, menor será a capacidade dos
governos de responder satisfatoriamente às demandas sociais. Por mais bem estruturado que seja
um Estado, se nele há uma população com elevada cultura cívica (consciência social, educação
política, capacidade de mobilização e de pressionar o poder público), constituindo este quadro
em avançada democracia, em razão de uma cidadania determinada em participar e em não abrir
mão de seus direitos de reivindicar perante o Estado, muito provavelmente instalaria um cenário
de impasse, em que haveria uma sobrecarga de demandas, causando paralisia decisória, em que o
Estado não conseguiria mais atuar em ambiente de democracia.
Pelos pressupostos apontados, as conjecturas levam à dedução de que havendo mais
democracia haverá menor probabilidade de governo estável, e invertendo os fatores, conclui-se
que havendo um governo autoritário, a capacidade de governabilidade será maior. Em outras
palavras, governabilidade pouco combina com democracia, mas com autoritarismo sua
probabilidade pode ser superestimada. Teoricamente, em regimes autoritários a participação
política é baixa e a capacidade decisória da burocracia e dos atores políticos é alta, havendo
pouca possibilidade de contestação popular, já que no autoritarismo o aparato repressivo do
Estado, o poder de fato, é usado com maior frequência do que na democracia, que só usa esse
recurso de maneira esporádica, pois seu instrumento específico deve ser o poder de direito.

180
Partindo da premissa de que existe um governo democrático, e que a democracia não
pode e nem deve ser descartada, a variável democracia deve ser testada com os sistemas de
governo e suas mais variadas características para se obter uma forma mais adequada de regime
político que seja compatível com as especificidades de um determinado Estado.
Por ser o parlamentarismo, em tese, mais democrático que o presidencialismo, não se
pretende afirmar que todo parlamentarismo leva, necessariamente, à ingovernabilidade, e que
todo presidencialismo garantirá a existência de governos estáveis e eficientes. Por mais
democrático que seja um regime com presidencialismo, este sistema que se apoia em um
presidente soberano no executivo, não consegue, por isso mesmo, se livrar de sua tentadora
natureza autocrática, e por isso intitulado por seus críticos de ditadura com mandato fixo.
Todavia, sua natureza autocrática não o conduz diretamente à governabilidade. Pelo contrário,
como foi abordado, o presidencialismo é um sistema estruturalmente crítico, tendente a gerar
impasses políticos, enquanto que o parlamentarismo por sua natureza mais democrática estimula
a aproximação dos dois poderes políticos - executivo e legislativo; mais que isso, o
parlamentarismo desenvolve a formatação de partidos com personalidade parlamentar, isto é,
socializados tanto na fase de oposição quanto no papel de governo, reforçando a integração entre
governo e parlamento, virtudes que não devem ser desconsideradas para uma hipotética reforma
política. De sorte que a fórmula definitiva para combinar o sistema de governo mais compatível
com a democracia não existe na “farmacopéia” política; é uma ilusão capaz de se tornar uma
desilusão, devendo, portanto, a escolha do sistema mais apropriado para garantir a
governabilidade o produto de uma série de fatores que ao longo do tempo, com bom senso,
conciliação e inteligência, exprimam a racionalidade da cultura política de um povo.
Na comparação dos presidencialismos entre si, parece ser consensual a ideia de que o
modelo norte-americano é considerado forte e os latinos fracos. Por que são os latinos
considerados fracos se os presidentes têm poder quase ilimitado, como uma carta de corso,146 e
nos EUA os presidentes fortes? Na América Latina se construiu um tipo de presidencialismo que,
em razão da fragilidade das instituições, delega aos presidentes um falso poder de resolução
unilateral dos graves problemas herdados dos antecessores, um poder constituído que se desdobra
em poder constituinte. Como tais crises são difíceis de resolver, os presidentes começam a se
deparar com oposição de todos os setores e seu descrédito quase impossibilita as tentativas
posteriores de consertar os erros das primeiras medidas de quando tinham aprovação de toda a

146
Letters of marque: licença que os presidentes têm, dadas as características do presidencialismo, semelhantes às que
os corsários recebiam para cometer ilícitos.

181
nação, especificamente no início de seus mandatos. Nos EUA, ao contrário, o presidente
aparentemente fraco, porque presta contas no sistema de accountability, se vê obrigado a
responder horizontal e verticalmente – ao eleitorado, às instituições públicas e semiprivadas; não
possui ele os mesmos poderes de “decretismo” dos latino-americanos, no entanto o regime
permanece fortalecido porque as políticas “salvacionistas”, se existirem, também são de
responsabilidade do poder representativo.147

7.3 - O SEMIPRESIDENCIALISMO
7.3.1 - Uma terceira via?
Depois de mais um século de experiência presidencialista é que apareceu o
semipresidencialismo. A fim de evitar os impasses naturais do parlamentarismo convencional e
as crises inerentes de qualquer modalidade de presidencialismo, a Alemanha tomou a corajosa
decisão de colocar em prática o semipresidencialismo. Poder-se-ia argumentar que, naquele ano
de 1919, com a Alemanha devastada pela derrota na 1a Guerra Mundial, não haveria nada que
pudesse ser pior que o estado de coisas em que se encontrava. Também há argumentos no sentido
de que os possíveis impasses do semipresidencialismo não poderiam ser previstos, assim como
não o foram os do presidencialismo tradicional. Nesse sentido, é fato que os “arquitetos” da
República de Weimar - nome pelo qual ficou conhecido o período constitucional alemão de 1919
até 1933, ano da ascensão de Hitler - enxergaram em sua “engenharia constitucional” uma
alavanca para destravar os impasses intrínsecos dos sistemas parlamentarista e presidencialista,
sem antever os seus próprios impasses.
Entretanto, também é fato que o sistema semipresidencialista carrega consigo um fator de
quase irresistível atração. A melhor tradução dessa ideia foi plasmada em 1958, com a
inauguração da atual V República, quando a França também resolveu aderir ao
semipresidencialismo, para abandonar de vez os problemas insolúveis de um modelo
parlamentarista inacreditavelmente caótico do ponto de vista da governabilidade, praticado
durante a III e IV Repúblicas (1875-1958). A fragmentação partidária no parlamento era tão
devastadora, e consequentemente tão negativa para a ação de governo, que o presidente Charles
de Gaulle, a par de justificar a sua atuação quase arbitrária para efetuar a mudança, declarou ser
“quase impossível governar uma nação que tem mais de quinhentas marcas de queijo”, numa
referência irônica aos deputados da Assembleia Nacional Francesa, cujas prerrogativas

147
In: SARTORI, Giovanni, op. cit., p. 108 e 109.

182
exacerbadas dentro do antigo sistema obstruía praticamente todas as tentativas de ação
governamental do gabinete (executivo), sendo por isso apelidada de “República dos Deputados”.
Tendo como célula-mater o sistema alemão, a França introduziu pequenas adaptações,
inclusive mudando o sistema eleitoral de proporcional para distrital de 2 turnos, o que veio a se
transformar na essência de sua atual estabilidade política, constituindo-se também em referência
para as novas democracias que implantaram o semipresidencialismo.
A partir de então, esse sistema, em vários sentidos, pode ser traduzido como uma síntese do
presidencialismo com o parlamentarismo. E a melhor dessas sínteses, embora menos perceptível,
é a de que o semipresidencialismo em si simplesmente não existe, porque o que se opera, na
prática, é uma sutil oscilação de um sistema de governo para outro, dependendo do momento
político, como consequência dos resultados eleitorais. Em outras palavras, dentro de um mesmo
período constitucional, portanto com uma mesma constituição em vigor, o sistema de governo
pode ser classificado como presidencialista ou como parlamentarista.
É evidente que esta definição não é pacífica, pois o que é mais aceito pela corrente
majoritária é que o sistema francês realmente é semipresidencialista.

7.3.2 - A teoria tradicional do semipresidencialismo: por que o sistema recebe a


denominação?
O semipresidencialismo é concebido como uma diarquia ou um sistema híbrido,
equivalendo dizer que ao contrário da ação do presidente no presidencialismo e do primeiro-
ministro no parlamentarismo, há nele uma conjunção de poderes governativos entre o presidente
da república e o primeiro-ministro, que têm prerrogativas simultâneas de funções executivas,
embora não concorrentes. Assim, o sistema é classificado em razão das seguintes premissas:148
a) o chefe de Estado (presidente) é eleito por votação popular, com um mandato
determinado:
No semipresidencialismo o presidente deve ser eleito por votação semelhante à do
presidente do presidencialismo, em razão de exercer importantes funções de governo, embora
bem menos que as do presidente do presidencialismo. De forma contrária ocorre a eleição do
presidente no parlamentarismo, que geralmente acontece pela via indireta, pelo parlamento,
justificando o porquê de praticamente esta autoridade não desfrutar do exercício de poderes
políticos relevantes;

148
In: SARTORI, Giovanni, op. Cit., p. 147.

183
b) o chefe de Estado (presidente) compartilha o poder executivo com um primeiro-
ministro (chefe de governo), em uma estrutura dupla de autoridade com os três seguintes
critérios de definição:
b.1) embora independente do parlamento, o presidente não tem o direito de governar
sozinho ou diretamente, e, portanto, sua vontade deve ser canalizada e processada pelo seu
governo:
A sua independência com relação ao parlamento é explicada pelo fato de que suas decisões
não são formulações políticas em si, não são políticas públicas, mas em geral mecanismos para
barrar a atuação do governo (primeiro-ministro e parlamento) com o seu pouvoir d’empêcher,
podendo convocar plebiscitos e referendos. Com referência à matéria externa, quando tem mais
poderes de ação, a aprovação de tais atos requer parecer favorável da Assembleia.
b.2) inversamente, o primeiro-ministro e seu gabinete independem do presidente, na
medida em que dependem do parlamento; estão sujeitos à confiança e/ou à não-confiança
parlamentar, pelo que precisam da maioria do parlamento:
Tanto o primeiro-ministro quanto os demais ministros que compõem o gabinete são
nomeados (voto de confiança) pela maioria parlamentar e pela maioria podem ser demitidos (voto
de não-confiança). Constitucionalmente, esta nomeação passa pelo presidente, mas quando a
maioria parlamentar é contrária ao presidente (cohabitation/governo dividido) a etiqueta política
na França dita que o presidente não deve interferir no processo de escolha. Assim, o que
formalmente está na letra da constituição cede lugar à prática. Então, a possibilidade formal de
ação do presidente se torna “letra morta” constitucional, entrando em prática o que se chama na
linguagem política a “constituição material”.
Portanto, a possibilidade constitucional de demissão (voto de não-confiança) do primeiro-
ministro pelo presidente é difícil de ser concretizada já que um conflito político – tudo o que as
democracias fortes menos desejam – pode ser iminente caso a maioria da Assembleia recuse.
Enfim, se o partido que detém a maioria parlamentar não for o partido do presidente o será do
primeiro-ministro, o que torna nula a possibilidade de sua demissão pelo presidente e até possível
pelo parlamento, embora improvável, a menos que haja uma crise cuja culpa tenha origem na
pessoa do primeiro-ministro, que será, então, demitido por seus próprios liderados (colegas de
partido) e substituído por outro membro do mesmo partido.
b.3) a estrutura dupla de autoridade do semipresidencialismo permite diferentes
equilíbrios e a oscilação de prevalências do poder dentro do executivo, estritamente sob a
condição de que subsista a “autonomia potencial” de cada componente do Executivo:

184
A oscilação acontece quando, em decorrência do resultado das eleições parlamentares ou
presidenciais, conforme o caso, há a substituição do presidente por outro de partido diferente,
mantendo-se o primeiro-ministro, ou o inverso, trocando-se o primeiro-ministro por outro de
partido diverso, permanecendo o antigo presidente. Assim, caso presidente e primeiro-ministro
sejam do mesmo partido e nas eleições legislativas seguintes acontecer de a oposição eleger maior
número de parlamentares, um novo primeiro-ministro será eleito e pertencente ao partido
vitorioso, no caso de oposição ao presidente. Haverá, portanto, uma diarquia em que, ao contrário
do cenário anterior, quando predominava a figura do presidente, a preponderância política agora
estará com o primeiro-ministro e sua maioria parlamentar, configuração política que os franceses
chamam de “cohabitation”. Nesse cenário, a fim de evitar conflitos políticos indesejáveis, o
presidente civilizadamente se exonera de suas funções constitucionais, deixando que o primeiro-
ministro exerça sem constrangimentos suas prerrogativas políticas.
Porém, quando presidente e primeiro-ministro são do mesmo partido, prepondera a
autoridade do presidente, já que, certamente, a eleição do primeiro-ministro se deu pela influência
daquele, e.g. a escolha de François Fillon para o cargo de primeiro-ministro que, inegavelmente,
ocorreu por força da ação do Presidente Nicolas Sarkozy, que solicitou à sua maioria na
Assembleia Nacional a nomeação de seu afilhado político. Nesse cenário, o primeiro-ministro atua
como um simples delegado/despachante de luxo do presidente perante o parlamento em oposição
ao cenário inverso, quando há a cohabitation, em que o delegado passará a ser o presidente, cujas
funções serão similares às do presidente no parlamentarismo, meramente simbólicas e cerimoniais.

7.3.3 – O dinamismo do sistema semipresidencialista: oscilando entre parlamentarismo e


presidencialismo?
Independente das considerações dos intérpretes acerca das denominações, e excluídos os
naturais obstáculos do sistema, parece inegável o dinamismo do semipresidencialismo para
resolver os preocupantes impasses tanto do presidencialismo quanto do parlamentarismo.
Relativamente às denominações, não estão de todo equivocados aqueles que classificam o cenário
de cohabitation como um sistema parlamentarista, pois o primeiro-ministro de fato governa e o
presidente, com mínima atuação, se comporta dentro do figurino típico do regime parlamentar. Por
outro lado, havendo um presidente e primeiro-ministro do mesmo partido, não há como ignorar
que a prática é idêntica ao presidencialismo, restando ao primeiro-ministro o papel diminuto,
embora não inútil, de operar como um speaker (como nos EUA) ou líder (como no Brasil) do
presidente no parlamento.

185
7.3.4 – Semipresidencialismo e governabilidade
Os impasses políticos, característica do presidencialismo, e eventuais no parlamentarismo,
podem ser solucionados razoavelmente dentro do regime semipresidencialista. Evidentemente que
uma certa dose de civilidade política, que comporte o prodígio de evitar confrontos entre
autoridades adversárias, seja um pressuposto desejável para o sistema funcionar com eficácia
quando o momento político for de divisão entre chefe de Estado e chefe de governo. Inversamente,
é incontestável que, havendo sintonia política entre ambas as autoridades, a expectativa pela
estabilidade/governabilidade é bastante elevada, próxima do modelo britânico. Falando em sistema
britânico, esse modelo parece ser, em termos de estabilidade e governabilidade, o único modelo
que não pode ser superado pelo dinamismo do semipresidencialismo. Em se comparando com a
rigidez do presidencialismo, sua única modalidade capaz de ser equiparada à flexibilidade do
semipresidencialismo, talvez até possível de superá-lo, é o eventual cenário de governo unido do
presidencialismo norte-americano, quando o partido majoritário no Congresso é o mesmo do
presidente da república.

186
8- SISTEMAS ELEITORAIS E SISTEMAS PARTIDÁRIOS

“Que ingenuidade a minha, ao pedir


aos donos do poder a reforma do poder”
Giordano Bruno, filósofo (1548-1600).

Introdução
O que são os sistemas eleitorais? Numa definição simplória, porquanto inescapável, são
métodos que transformam os votos dos eleitores em mandatos eleitorais (cadeiras no legislativo
ou a chefia do poder executivo). Mas o significado e os objetivos não se esgotam nesta definição.
Como se supõe que "sistemas eleitorais" é um assunto umbilicalmente ligado a regimes
democráticos, a participação popular nas eleições - a despeito de ser mais conveniente para
reduzir os custos do processo decisório - permite a escolha de representantes e governantes, a
fiscalização das atividades de agentes estatais, além de ser a expressão do consenso, em que pese
a geração de elevados custos para a governabilidade.
Como uma de suas premissas, a de determinar a maneira como os votos dos eleitores vão
se transformar em mandatos eleitorais, a adoção de um sistema eleitoral específico exerce forte
implicação sobre todo o sistema político. Exemplo: em geral, quando um determinado país aplica
um sistema eleitoral majoritário, a consequência mais evidente é a configuração de um quadro
bipartidário149 no legislativo (parlamento). Por outro lado, mantidos constantes todos os fatores,
isto é, não havendo casuísmos jurídicos,150 se o sistema eleitoral adotado for o proporcional, o
legislativo, provavelmente, terá uma configuração multipartidária. Então, considerando que os
regimes democráticos procuram expressar o máximo de representatividade, conjugada com o
mais elevado nível de governabilidade, a introdução pura e simples de um dos modelos
dificilmente conseguirá absorver e gozar os frutos dos dois sistemas ao mesmo tempo, pois
quanto mais se avança na esfera da representatividade (diversidade no parlamento) mais se
atrofia a capacidade de governação no executivo (governabilidade). Deste modo, os sistemas

149
Um sistema político é denominado de bipartidário porque, basicamente, apenas dois partidos, recorrentemente, se
alternam no poder executivo ao mesmo tempo em que os mesmos 2 partidos são predominantes no poder legislativo,
concentrando um mínimo de 80 a 85% das cadeiras parlamentares. Por exemplo: nos EUA, há cerca de dois séculos,
apenas o partido democrata ou o republicano elegem o presidente (executivo); e no legislativo apenas esses dois
partidos – ora um ora outro – conquistam a maioria das cadeiras. Apesar de tudo, o sistema não impede que,
esporadicamente, pequenos partidos tenham acesso ao parlamento, conquistando algumas cadeiras.
150
Os casuísmos jurídicos são recursos pouco edificantes do ponto de vista ético, em que maiorias legislam a fim de
atender a interesses específicos, sem levar em conta prudentes normas do jogo democrático. Por exemplo, durante o
regime autoritário militar, o sistema eleitoral proporcional, que deveria gerar o multipartidarismo, acabou criando
um quadro de bipartidarismo, entre ARENA e MDB. As regras para se criar um terceiro partido eram tão
draconianas que uma nova agremiação só poderia ser constituída caso contasse com a filiação de 1/3 dos membros
da Câmara dos Deputados e mais 1/3 dos membros do Senado Federal.

187
proporcionais protegem as minorias (pequenos partidos) e os sistemas majoritários favorecem as
maiorias (grandes partidos). Consequentemente, se o consenso político entender que a opção
mais viável é pela governabilidade - em detrimento da representatividade - introduz-se alguma
modalidade de sistema majoritário. Mas, a contrario sensu, se a escolha recair na valorização da
representatividade, introduz-se alguma espécie de sistema proporcional.
Por razões lógicas, como se verá adiante, a maior parte desta abordagem descritiva e
analítica sobre sistemas eleitorais se concentrará em eleições parlamentares, ou seja, eleições que
têm como objetivo preencher as cadeiras ou assentos para o poder legislativo, especialmente
eleições para representantes, que em nível nacional, no Brasil, elegem os Deputados Federais,151
nos EUA Representantes ou Congressistas, e na Inglaterra Representantes ou Comuns. Restrita a
abordagem aos sistemas eleitorais em regimes políticos democráticos, duas variáveis explicam o
porquê de a teoria de sistemas eleitorais dedicar maior ênfase, um quase reducionismo, às
eleições para representantes (eleições de parlamentares).152 Em primeiro lugar, a quase totalidade
das democracias mais fortes e consolidadas tem sistemas parlamentaristas de governo153 e, como
seus chefes de governo (os primeiros-ministros) não são eleitos por votações populares, mas sim
por meio de eleições entre os parlamentares nas assembleias, a importância das eleições
parlamentares e dos próprios representantes cresce exponencialmente. Será ainda mais
significativa essa importância quando sabemos que no parlamentarismo, ao contrário do que
ocorre no presidencialismo, os parlamentares, além de corresponsáveis relativamente ao governo
do primeiro-ministro têm o poder quase unilateral de demiti-lo.
Quanto às eleições para cargos executivos, de governantes (presidente, governadores dos
estados e prefeitos municipais), sabe-se que não podem ser realizadas por meio de outra fórmula
que não a majoritária (seja de maioria simples ou absoluta), uma vez que apenas um candidato
pode ser eleito em cada eleição. Desse modo, qualquer debate acerca da melhor fórmula para
escolher um governante, se houver qualquer polêmica, esta ficará restrita ao único sistema
eleitoral possível para escolher tal autoridade – o sistema majoritário –, ao passo que para a
escolha de representantes persiste um debate aceso e recorrente, pois além do sistema utilizado

151
No caso do Brasil, em nível local, o vereador é um representante do povo do município e os deputados estaduais
são representantes do povo de seus estados. Já os senadores são representantes de suas unidades territoriais,
representam os interesses dos estados-membros da federação.
152
Na análise teórica dos sistemas eleitorais a Câmara dos Deputados (Câmara Baixa) recebe uma importância maior
que o Senado (Câmara Alta) pelo fato de muitas democracias possuírem legislativos unicamerais; em democracias
bicamerais, principalmente parlamentaristas, em geral o Senado tem um papel legislativo inferior ao da Câmara.
153
Os EUA, com seu sistema de governo presidencialista, são a grande exceção entre as democracias mais estáveis.
Mesmo assim, as eleições parlamentares são dotadas de muita importância em razão do papel fundamental exercido
pelo Congresso americano em todo o processo político.

188
no Brasil – o proporcional – são adotados também o modelo majoritário e o sistema misto
(distrital-misto), uma mescla dos sistemas proporcional e majoritário.
Todos os sistemas eleitorais são oriundos de duas famílias: a majoritária e a proporcional,
sendo que, dentro desses dois sistemas “puros” há uma variedade de fórmulas de sistemas de
proporcionalidade ou de maioria. Dos dois sistemas existentes há uma derivação denominada de
sistema “distrital-misto”, cujo modelo mais conhecido é o da Alemanha, onde a metade dos
representantes (50%) é eleita por meio do sistema majoritário e a outra metade por meio do
sistema proporcional. Mais tarde, por influência da Alemanha, outros países (Itália, Nova
Zelândia, Japão, Hungria, Rússia, Bolívia, México etc.) foram introduzindo o modelo misto
como fórmula de comunhão e ajustamento dos aspectos vantajosos de ambos.
O sistema majoritário foi o primeiro modelo eleitoral a ser empregado como meio de
ordenar a luta pelo poder político. Até a última década do século XIX, em todos os países onde
havia eleições, era ele o único sistema em prática. A partir da expansão do voto universal e da
democracia de massas, o sistema proporcional gradualmente passaria a ser adotado sob a
justificativa de tornar os resultados eleitorais mais equitativos com relação às votações, e mais
justos ao espelhar nos parlamentos a expressão da vontade dos eleitores. Com referência ao
sistema distrital-misto, trata-se de uma modalidade que só apareceu mais tarde, após a 2ª Guerra,
quando a Alemanha o incorporou ao seu sistema político como alternativa para sanar alguns
defeitos detectados nos métodos dos outros dois sistemas conhecidos. Por um lado, adotando o
majoritário, a fim de evitar a fragmentação partidária causada pelo sistema proporcional. De
outro, adotando o proporcional como fórmula para corrigir alguns vícios do sistema majoritário,
tais como a concentração do legislativo em basicamente dois partidos e o elevado índice de
desperdício de votos.

8.1 – Sistemas eleitorais majoritários: eleições legislativas e executivas


O sistema eleitoral majoritário tem como uma de suas características marcantes o fato de
sempre eleger candidatos que obtenham o maior número de votos em cada eleição. É também
conhecido como sistema de “voto distrital” porque as suas eleições são realizadas em distritos
(circunscrições) eleitorais, que são pequenas áreas geográficas de uma região, província ou
estado, lembrando que esses distritos eleitorais são criados unicamente com a finalidade de
eleger candidatos, que no caso são representantes (deputados). Em geral, esses distritos eleitorais
são de um único representante, isto é, o sistema permite que apenas um candidato a
representante/deputado vença a eleição em cada um dos vários distritos eleitorais existentes no

189
país154. Uma vez realizadas as eleições, eleitos e empossados os candidatos, os distritos perdem
sua razão legal de existência – embora permaneça no imaginário político de eleitores e eleitos,
por motivo de vinculação política –, pois no parlamento cada um dos eleitos goza das mesmas
prerrogativas.
Nos Estados Unidos, exemplo de país que se encaixa no modelo descrito acima, os
deputados/representantes são eleitos pelo sistema majoritário. Sua Câmara de Representantes
(equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) é composta por 435 membros155 que, em razão
do sistema eleitoral lá aplicado, o país é dividido em 435 distritos, com número praticamente
igual de eleitores, e de cada um desses distritos um representante eleito tomará assento na câmara
federal americana.156
Para ilustrar a explicação, tome-se o estado da Califórnia, o estado mais populoso dos
EUA, por conseguinte com o maior número de eleitores do país e, portanto, com o maior número
de representantes (deputados): 53. Por conclusão, terá também o maior número de distritos
eleitorais, ou seja, a Califórnia será dividida, a cada eleição, em 53 distritos eleitorais e em cada
um desses distritos (pequenas áreas geográficas da própria Califórnia) um candidato será eleito
para representar o povo no Congresso Nacional dos EUA.
No 1º mapa, abaixo, em cada estado da federação está marcado o número de
representantes (deputados) ao Congresso Nacional dos Estados Unidos e o 2º mapa, do estado da
Califórnia, dispõe didaticamente a divisão do estado por distritos eleitorais.

154
Embora raro nos dias atuais, pode haver eleições distritais em que mais de um candidato seja eleito, como até
1930, período em que o Brasil utilizou o sistema majoritário (distrital). Contudo é prudente notar que, quanto maior
o número de candidatos no distrito, menos majoritário e, portanto, mais proporcional, será o resultado da eleição.
155
Os dados são de 2004.
156
A Casa de Representantes (House of Representatives) é o equivalente nos EUA para a Câmara dos Deputados no
Brasil.

190
191
No Brasil, o sistema eleitoral para eleger representantes, em vigor desde 1932, é o sistema
proporcional, que em muitos aspectos é contrastante com o sistema majoritário, principalmente
no que diz respeito aos interesses demandados por um e outro sistema. No sistema proporcional,
ao invés de apenas um candidato poder ser eleito em cada região eleitoral, como nos EUA, vários
serão eleitos na mesma circunscrição eleitoral. Por exemplo: o estado de São Paulo, que tem 70
assentos na Câmara Federal, consequentemente realiza eleições para eleger 70 deputados de uma
só vez, sem dividir o território do estado em vários distritos eleitorais, como ocorre nos EUA. Em
outras palavras, poderíamos dizer que, pelo sistema empregado no Brasil, no estado de São
Paulo, como em todas as demais unidades federativas, há um único colégio eleitoral, na prática
um “distritão”, para eleger todos os seus representantes (deputados) ao mesmo tempo.157
Além dos EUA, entre as grandes democracias ocidentais, Inglaterra, França e Canadá
também aplicam o sistema eleitoral majoritário. Ao contrário da França, que tem um sistema
majoritário de maioria absoluta, os outros três países citados possuem o sistema majoritário de
maioria simples. Nesse sistema, as eleições são realizadas, também, em distritos em que apenas
um candidato pode ser eleito, e sendo o sistema de maioria simples, estará eleito o candidato que
obtiver o maior número de votos.
Assim, na eleição de um hipotético distrito, em que estejam concorrendo 4 ou 5
candidatos, é possível acontecer que um candidato seja eleito com, digamos, 30% dos votos, ou
até menos, desde que a votação dos outros concorrentes seja inferior. Com tal resultado, a
primeira conclusão que salta aos olhos será a evidente distorção relacionada à preferência dos
eleitores: 70% deles, ou talvez até mais, não votaram no candidato que foi eleito. Com base nesta
anomalia, mais adiante serão analisadas as consequências práticas que este modelo de eleição
acaba por produzir. Desse modo, a exposição dos primeiros fundamentos do sistema já despertam
a atenção relativamente às consequências, haja vista que o cenário apresentado tende a gerar
baixa representatividade dos eleitos em função do número elevado de votos que a ele não foram
dirigidos e, por outro lado, não puderam ser aproveitados para eleger outros candidatos.
O método majoritário de maioria simples é também denominado de método de “maior
minoria” ou pluralidade (maior pluralidade de votos). Maior minoria porque, como no exemplo
acima, foi eleito um candidato que não obteve a maioria absoluta dos votos (mais de 50%), mas
mesmo sendo uma minoria, obteve o maior número de votos válidos entre todos os concorrentes,
isto é, entre todas as minorias de votos, foi eleito aquele que obteve a “maior minoria”. A outra

157
Este exemplo de São Paulo pode ser aplicado a qualquer outra unidade federativa do Brasil. Assim, no caso do
Distrito Federal, onde são eleitos 8 deputados federais, o DF se transforma, também, em um único “distrito
eleitoral”, elegendo 8 candidatos de uma só vez.

192
denominação similar – pluralidade - se refere à pluralidade de candidatos concorrentes, mas
considerando que não há a exigência de maioria absoluta para ser eleito, pode ser eleito um
candidato com qualquer número de votos, desde que, repetindo, seja o mais votado entre todos os
concorrentes.158
Já no sistema majoritário de maioria absoluta (ou de 2 turnos), utilizado na França desde
as eleições parlamentares de 1962, se um candidato a deputado para a Assembleia Nacional
Francesa não conseguir a maioria absoluta dos votos válidos na primeira votação, uma segunda
eleição deverá ser realizada alguns dias depois (o 2º turno). Para o 2º turno, podem concorrer
mais de dois candidatos desde que todos eles tenham obtido, na primeira votação, pelo menos 1/8
(12,5%) dos votos em relação ao número de eleitores. Comparado com o sistema norte-
americano, inglês e canadense, o método francês garante ao eleito uma representatividade maior
porque, hipoteticamente, no 2º turno ocorrerá maior densidade de votos e, consequentemente, um
número menor de votos será desperdiçado. Além dos objetivos ideológicos, que serão discutidos
a seguir, o sistema francês foi criado, também, para dificultar e restringir o acesso de candidatos
de partidos extremistas ao parlamento, tanto dos partidos de direita quanto dos de esquerda -
fascistas e comunistas respectivamente.159

8.1.1 – O dilema da escolha do sistema eleitoral


Quais os objetivos de um país quando decide pela implantação de um sistema eleitoral
específico? Quando um país decide pela introdução de um determinado sistema eleitoral,
provavelmente está procurando como resultado um conjunto de benefícios que nem todo sistema
eleitoral será capaz de propiciar. Rigorosamente, nenhum sistema eleitoral detém o monopólio de
conceder a um sistema político aquilo que todos os países desejam: a conjugação em níveis
altamente satisfatórios da representatividade e da governabilidade.
Grosso modo, quando é implantado um dos dois sistemas eleitorais "puros" – majoritário
ou proporcional – espera-se uma determinada configuração partidária no legislativo, e como
decorrência dela, um determinado cenário político para a governabilidade ou para a
representatividade (diversidade), porque a reprodução partidária no legislativo implica em

158
Este método é vulgarmente conhecido nos EUA como “the winner takes all” e na Inglaterra como FPTP (the first
past the post).
159
Se, eventualmente, um candidato extremista conseguir chegar ao 2º turno, é bastante possível que a maioria dos
eleitores que votaram em candidatos derrotados no 1º turno dirijam seus votos para um candidato moderado ou pelo
menos não-extremista. Veja o exemplo de uma nota de rodapé mais abaixo, que menciona o partido da Frente
Nacional Francesa, cujo desempenho eleitoral atingiu a marca de 12,7% dos votos nacionais, mas não elegeu
nenhum parlamentar. Em uma comparação indireta, guardadas as proporções, no Brasil, nas eleições de 2006, PFL e
PSDB, dois grandes partidos, elegeram 65 deputados cada um, coincidentemente o equivalente a 12,7% das cadeiras
da Câmara Federal.

193
relações específicas entre o governo (poder executivo) e a sua base parlamentar. Por outro lado,
não se esquecendo que a presente abordagem tem como base o regime democrático, há que se
levar em conta que o fator “oposição” sempre deve ser ponderado no processo de análise da
governabilidade, seja aplicado o sistema majoritário, seja implantado o proporcional.
Assim, quando um país adota o sistema eleitoral majoritário (distrital) é porque seu
interesse mais imediato é a reprodução de um cenário de maior governabilidade, e só
secundariamente em atender as premissas da diversidade (minorias), pois a possibilidade de obter
elevado grau de governabilidade por meio desse sistema é alta, explicada pelo fato de o sistema
de representação majoritária tender fortemente para a geração de um quadro bipartidário no
parlamento.160 Em alguns países, como é o caso da Austrália, chega a haver até 100% das
cadeiras parlamentares concentradas em dois partidos apenas. Na atual legislatura dos EUA,
iniciada em 2009, a configuração partidária no Congresso forma um bipartidarismo perfeito, com
o partido Republicano e o Democrata concentrando 100% das cadeiras legislativas.
O bipartidarismo favorece a governabilidade porque, de dois partidos hegemônicos no
parlamento, monopolizando quase todas as cadeiras, é certo que um deles obterá a maioria. Por
conseguinte, se esta maioria for unificada (unipartidária), isto é, de um mesmo partido, e se este
partido for o mesmo partido que o partido do chefe do executivo (governante), não há como
ignorar a elevada esperança de alta governabilidade.161 Assim, a expectativa de governabilidade
será elevada porque provavelmente não haverá a necessidade de acordos do partido majoritário
com outros partidos para a formação de uma base governista no parlamento para apoiar o
executivo (governo). Com um único partido sustentando os projetos de governo (do executivo),
estaria afastado o temor de fragmentação partidária, constituindo, pelo contrário, uma vigorosa
coesão e disciplina no parlamento, estabilidade do governo e menor probabilidade de ocorrência
de trade-offs, acordos muitas vezes ilegítimos entre executivo e legislativo, objetivando a

160
Como no sistema majoritário, via de regra, apenas um candidato pode ser eleito em cada distrito, o eleitor se sente
psicologicamente desestimulado a votar no candidato de sua primeira preferência, se este for de um partido ‘nanico’.
Temendo perder o seu voto, o eleitor apela para o ‘voto útil’, apontando na cédula um candidato que não seja de
primeira preferência, mas, mais próximo de seu espectro ideológico, provavelmente será mais competitivo porque
pertencente a um dos dois grandes partidos, com maiores chances de eleição. Dessa forma, mesmo que lentamente,
vai-se formando o bipartidarismo. Nos EUA, por exemplo, o arranjo bipartidário está tão consolidado que, nas
eleições de 2002, apenas um senador eleito, dentre 100, não era Democrata ou Republicano. Na Câmara dos
Deputados, entre 435 eleitos, apenas 2 não pertenciam a um dos dois grandes partidos.
161
Este cenário tem uma margem de certeza muito elevada no parlamentarismo, mas é crítico no presidencialismo,
porque a maioria uniparidária no parlamento pode se encontrar com o partido de oposição ao presidente da
república, caracterizando, em tese, uma possível ingovernabilidade (impasse político, paralisia decisória).

194
aprovação de projetos, conhecidos no Brasil como políticas de patronagem (fisiologismo e
clientelismo político).162
Além do elevado índice de governabilidade, os defensores do sistema majoritário
destacam o fato de as eleições se realizarem em distritos de apenas um representante eleito.
Assinalam como bastante positivo porque todas as áreas territoriais,163 inclusive microrregiões,
terão representação assegurada no legislativo nacional. E a vantagem de cada pequena área ter
apenas um representante no parlamento tem como defesa a formação de relações bastante
estreitas entre o representante (deputado) e os representados (povo), que garante aos eleitores um
padrão mais eficaz de fiscalização sobre os representantes. Sabendo que é o único a ser
fiscalizado, por uma população eleitoral relativamente pequena, o representante se sente
constrangido a ter um comportamento político-parlamentar voltado para interesses mais
legítimos dos eleitores de seu distrito. Acredita-se que essas relações estreitas geram um
benefício qualitativo do mandato parlamentar, tanto que média de renovação dos legislativos
nesse sistema é muito baixa, com histórico de parlamentares que se reelegem por décadas
ininterruptas.164
Em contrapartida, os críticos do sistema chamam a atenção para a correlação de seu
custo-benefício, apontando-o como responsável por despender elevado custo quando da decisão
pela opção do formato de uma base parlamentar unipartidária (mais governabilidade).
Responsável pela efetivação de maior governabilidade, o sistema reproduz em contrapartida um
fator degenerativo considerando os objetivos de um regime democrático, pois com a formação do
bipartidarismo os pequenos partidos que, via de regra, representam minorias, são praticamente
alijados da representação parlamentar.

162
É o caso da expressão “mensalão”, criada pelo próprio “mensaleiro” Roberto Jefferson, então deputado e
envolvido no esquema, que nada mais é do que um neologismo para a antiga e conhecida política de patronagem
(também fisiologismo e clientelismo), uma realidade histórica e recorrente no Brasil. Como o sistema eleitoral
proporcional tende fortemente à configuração multipartidária no parlamento, ao invés de governabilidade, o arranjo
político-institucional que se apresenta é de alta instabilidade. Este cenário, engenhosamente criado pelos próprios
legisladores (senadores e deputados) garante, aos partidos e aos parlamentares, elevado poder de barganha para fazer
parte da base governista no legislativo. Tal arranjo, também conhecido como presidencialismo de coalizão, será
abordado em Presidencialismo, no capítulo para Sistemas de Governo.
163
Por exemplo: se um determinado país tem 500 assentos em seu legislativo nacional, seu território será dividido,
para fins meramente eleitorais, em 500 distritos com igual número de eleitores, com a certeza de que todos os
distritos elegerão um representante (na Inglaterra e na França cada distrito tem cerca de 70.000 eleitores). No Brasil,
como as eleições não são por distritos, em relação a isso, decorre, às vezes, um quadro caótico. Em função do
sistema proporcional, o caso de São Paulo, por ser o maior colégio eleitoral do país, é o mais ilustrativo: em tese, as
centenas de candidatos a deputado federal, em cada eleição, disputam os votos de cerca de 25.000.000 de eleitores
ao mesmo tempo. Nesse caso, muitas vezes acontece de uma região ficar sem representante no parlamento porque,
lançando muitos candidatos, pode não eleger nenhum se houver alta dispersão dos votos, ou também, quando se trata
de regiões mais pobres, por não ter lançado nenhum candidato.
164
Nos EUA, por exemplo, a renovação na Câmara Baixa - deputados – é de cerca de 5%. No Brasil, essa renovação
se aproxima, às vezes, de 50%.

195
A punição imposta aos pequenos partidos, negando-lhes presumível equivalência entre
cadeiras e votos recebidos, exige necessariamente que o método eleitoral lhes aplique uma
“penalidade” que ao mesmo tempo beneficie os grandes partidos. Esta ocorrência premeditada,
tem o poder de reproduzir evidente distorção entre votação e representação. Como ficou
exemplificado alguns parágrafos acima, um candidato pode ser eleito, em seu distrito, com
menos de 50% dos votos enquanto a maioria dos eleitores não votou nele, e como os dois
partidos mais fortes tendem a vencer as eleições em quase todos os distritos, subentende-se que
se os dois grandes partidos repetirem, em média, a performance em todos os demais distritos,
irão garantir todas as cadeiras parlamentares. Sendo assim, um dos dois grandes partidos
terminará por alocar a maioria absoluta das cadeiras parlamentares, mas sem necessariamente ter
obtido a maioria absoluta dos votos. Este fenômeno, engenhosamente tramado pelos grandes
partidos, historicamente entranhados no poder, é denominado teoricamente de maioria
manufaturada, 165 uma conjuntura na qual um partido recebe mais de 50% das cadeiras
parlamentares sem adquirir naturalmente os correspondentes 50% dos votos eleitorais,
conduzindo à cartesiana conclusão de que os grandes partidos são particularmente privilegiados
pelo sistema majoritário. Prosseguindo a análise, logicamente deduz-se que mais de 50% dos
votos teriam sido desperdiçados, e que a maioria do eleitorado do distrito em questão terá como
representante um candidato que não recebeu seus votos. Nesse sentido, se a distorção entre
votação e representação beneficia grandes partidos, é lógica a presunção de que os pequenos
partidos serão os prejudicados. 166 Pressupondo que pela regra geral os pequenos partidos
representam minorias nos legislativos, conclui-se que as minorias são passíveis de prejuízo
quanto à possibilidade de representação. Esta distorção fica mais evidente quando os votos
conquistados estiverem dispersos de modo uniforme pelos distritos espalhados por todo o país.
Em sentido contrário, se os votos de um pequeno partido estiverem concentrados em um único,
ou em alguns poucos distritos eleitorais do país – probabilidade de ocorrência considerada rara -
as chances desse partido de eleger um candidato seriam significativamente mais elevadas.167

165
Nas eleições parlamentares da França, em 1968, o partido gaullista (RPR) recebeu 38% dos votos e obteve 60%
das cadeiras; nas eleições de 1981, o partido socialista (PS) recebeu 36% dos votos e garantiu 56,5% das cadeiras na
assembleia francesa (Fonte: NICOLAU, 2001).
166
Nas eleições parlamentares de 1993, no Canadá, o partido Conservador, com 16% dos votos elegeu apenas dois
deputados; na França, no mesmo ano, o partido da Frente Nacional (fascista) recebeu 12,7% dos votos e não elegeu
nenhum deputado. Por outro lado, com votação concentrada, o Bloco de Quebec, nas eleições canadenses de 1993,
obteve 13,5% dos votos e elegeu 54 deputados (Fonte: NICOLAU, 2001).
167
Se, hipoteticamente, todos os brasileiros residentes nos EUA, com direito a voto, estivessem reunidos em um
único bairro de uma grande cidade norte-americana, transformado em distrito eleitoral, certamente conseguiriam
eleger um representante (deputado) para a sua comunidade no legislativo nacional. Mas, como os imigrantes
brasileiros estão dispersos em várias regiões do país, a possibilidade de uma ocorrência dessa natureza é
infinitamente menor.

196
Os críticos do sistema de representação majoritária apontam que, além dos defeitos da
formação da maioria artificial (manufaturada) e da restrição de representação de minorias, o
parlamento acaba se transformando numa arena de debates provincianos porque os interesses
localistas dos deputados em relação a suas regiões irão naturalmente prevalecer sobre as questões
de maior relevância nacional. Em função da perda de relevância do debate parlamentar sobre
questões nacionais e internacionais, essa variedade de parlamento foi sarcasticamente
denominada pelo jornalismo político de “câmara de vereadores nacional”. Na feliz definição de
Bernardo Pereira de Vasconcelos, experiente parlamentar do período imperial e crítico do
sistema majoritário/distrital, aqueles representantes eleitos pelo sistema não passavam de
verdadeiras “celebridades de aldeias”.

8.2 - Eleições majoritárias para prefeitos, governadores e presidente da república.168


Em eleições para cargos executivos só um sistema eleitoral (o majoritário) pode ser
utilizado porque apenas um candidato em cada disputa pode ser eleito. Assim, o sistema
proporcional e o distrital-misto não podem ser utilizados porque, obviamente, não há como
aplicar a proporcionalidade onde apenas um concorrente será eleito.
No entanto, existe grande variedade de fórmulas majoritárias para eleger os governantes
(chefes de poder executivo). Em favor de uma didática mais sucinta, a abordagem desse tema irá
se concentrar nas eleições presidenciais169, realizadas, geralmente, por meio do voto direto e
popular, ou por alguma variação bastante semelhante.
A maioria das democracias atuais adota o sistema de maioria absoluta para eleger seus
presidentes, havendo uma segunda eleição (2º turno) alguns dias depois caso nenhum candidato
alcance mais de 50% dos votos válidos na primeira votação. Essa regra se tornou hegemônica a
partir da segunda metade da década de 1970, quando um número muito grande de países com
regimes autoritários retornaram - ou estabeleceram, pela primeira vez, à/a democracia. Como a
maioria desses países, ao (re)introduzir a democracia, se encontrava em situação de colapso
social, econômico e, óbvio, político, criaram o sistema de maioria absoluta, com 2 turnos, para
conferir maior legitimidade e governabilidade para os eleitos e para o regime.

168
O sistema utilizado em eleições para o senado, em geral, é o majoritário. No Brasil, cada estado da federação e o
DF tem 3 senadores, que são eleitos de 4 em 4 anos renovando o mandato alternadamente em 2/3 (duas vagas) e 1/3
(uma vaga). Quando apenas uma cadeira para o senado está em disputa (como em 2006) elege-se o candidato mais
votado, por qualquer maioria; quando se disputam duas cadeiras (como ocorreu nas eleições de 2010) estarão eleitos
os dois candidatos mais votados, por qualquer maioria.
169
Nas eleições para governos estaduais e cidades com mais de 200 mil eleitores, no Brasil, o método aplicado é o
mesmo que o das eleições presidenciais. Em cidades com menos de 200 mil eleitores, utiliza-se o sistema majoritário
de maioria simples, isto é, será eleito o candidato que alcançar qualquer maioria de votos (maioria relativa ou maior
minoria).

197
O drama particular do Brasil é um exemplo significativo. Com o retorno à democracia,
após mais de 20 anos no último regime autoritário, imprimiu à Constituição de 1988 o sistema de
2 turnos a fim de reforçar a legitimidade dos eleitos, porque durante sua primeira experiência de
democracia de massas, de 1946 a 1964, o sistema era de maioria simples e, de todas as eleições
do período, apenas o primeiro presidente eleito, o marechal Dutra, obteve mais de 50% dos
votos. Mesmo não prescrevendo a necessidade constitucional de maioria absoluta, Vargas, eleito
em 1950, e Kubitschek eleito em 1955, enfrentaram muita resistência de seus opositores tanto no
Congresso quanto na sociedade civil (meios de comunicação de massa, elite militar, econômico-
financeira, intelectual etc.) para que não tomassem posse. Tanto que, ao longo de seus mandatos,
foram continuamente ameaçados de sofrer processos de impeachment e/ou golpes de Estado.
Algumas normas de eleições presidenciais de outros países têm despertado significativo
interesse de legisladores e cientistas sociais pela capacidade que possuem de combinar
legitimidade e governabilidade a um custo mais baixo. Na Bolívia, se nenhum candidato a
presidência não conseguir alcançar mais de 50% dos votos no 1º turno da eleição popular, o
segundo turno se realiza entre os deputados na Câmara de Representantes. É um sistema que
confere possibilidade de maior governabilidade porque se o presidente recebe o apoio da maioria
dos parlamentares para ser eleito, deduz-se que continuará recebendo apoio dessa mesma maioria
ao longo de seu governo. Na Argentina, onde o sistema é de maioria absoluta, pode ser eleito,
também, em primeiro turno o candidato que obtiver pelo menos 45% dos votos desde que o 2º
colocado tenha mais de 10 pontos percentuais de votos a menos que o primeiro colocado. No
Uruguai vigora um sistema bastante semelhante ao da Argentina, mas em vez de 45%, basta que
o mais votado obtenha 40% dos votos válidos (os requisitos restantes são idênticos, ou seja,
estará eleito desde que que o 2º colocado tenha mais de 10 pontos percentuais de votos a menos
que o primeiro colocado). Na Costa Rica, a mais duradoura dentre as democracias latino-
americanas, o pragmatismo eleitoral é mais reluzente, pois com qualquer votação a partir de 40%
dos votos válidos, será eleito em primeiro turno o candidato com esta votação, não importando o
percentual de votos dos demais concorrentes da corrida presidencial.
O México, que tem tido uma singular, quando não atribulada, convivência com a
democracia, desde os primórdios do século XX continua insistindo desafiadoramente no sistema
de maioria simples. Nas últimas eleições presidenciais, de 2006, enfrentou uma desgastante
apuração de votos em que os dois principais candidatos obtiveram praticamente o mesmo
percentual de votos. Eleito com pouco mais de 30% dos votos válidos, e minoritário no
Legislativo, é possível que o novo presidente encontre dificuldades para implementar sua agenda
de governo. Cenário relativamente semelhante ocorreu no Chile, durante a presidência de

198
Salvador Allende, no início dos anos 70. Em razão do sistema constitucional da época, o
governante socialista teve sua eleição sacramentada por meio de uma eleição congressual, com
apoio de alguns partidos que se aliaram praticamente para a finalidade de elegê-lo, uma vez que
Allende não obteve maioria absoluta dos votos populares. Sem maioria consistente no
Congresso, foi derrubado do poder porque estava obstinado em levar adiante uma surpreendente,
porquanto ousada, agenda socialista, contrariando a importante força da representação
conservadora existente na sociedade civil e também no legislativo.
Nos EUA, as regras das eleições presidenciais são dotadas de características tão
singulares que aos olhos do observador desatento aparentam ser confusas, extremamente
prolongadas, insensatas e até pouco democráticas. Não se pode negar que elas contêm respeitável
dose de complexidade, mas esta complicação se concentra mais na fase das eleições primárias
que se configuram em mero processo de escolha dos candidatos de cada um dos dois grandes
partidos. No Brasil, a escolha do candidato de cada partido é tão simples, que em alguns deles o
candidato é sacramentado em uma reunião (convenção) que não dura mais do que uma tarde de
domingo. Enquanto nos EUA um partido demora meses para escolher o candidato que vai
enfrentar nas urnas o outro candidato do grande partido rival, no Brasil uma candidatura
majoritária pode ser fruto de simples indicação de “bolso do colete”170 de um cacique partidário,
como se comenta que o presidente Lula pretende fazer com sua ministra Dilma Rousseff,
impondo-a perante a “base aliada” como candidata de seu arbítrio decisional, isento de debate
mais profundo com eventuais pretendentes e partidos parceiros.
Entretanto, a eleição presidencial norte-americana não é tão complexa, embora não tão
democrática quanto a sua congênere brasileira, o que, por si só, não faz do Brasil um país mais
democrático que os EUA. A eleição norte-americana é uma expressão da essência do espírito
político daquela nação; é uma combinação do sistema presidencialista de governo com o regime
liberal-democrático sobre a estrutura da forma federal de Estado. Com relação ao regime político,
o processo eleitoral vincula-se mais ao liberalismo do que à democracia, uma vez que seu atual
modelo eletivo foi construído na primeira metade do século XIX, quando a democracia
representativa ainda ensaiava seus primeiros passos, precisamente nos EUA, e os princípios do
liberalismo já eram dogmas consistentes, predestinado a conduzir a formação social, econômica e
política da nação. No que diz respeito ao federalismo, esta forma de Estado influenciou
decisivamente na concepção do método de apuração dos votos populares para eleger o

170
Os mexicanos, que tiveram um sistema pseudo-democrático de 1929 até pelo menos o fim da década de 1990,
foram, por décadas, notórias vítimas desse mecanismo, que eles ironicamente apelidaram de “destape” ou “dedazo”.

199
presidente. Para entender a aplicação do modelo, é importante não perder de vista as relações
entre os estados-membros da federação: congregados na União, autônomos administrativa e
politicamente, com cada estado federado com seu núcleo populacional numericamente
diversificado, é logicamente compreensível que cada uma dessas unidades federativas teia um
número diferenciado de representantes do povo (deputados) na Câmara Baixa de acordo com a
proporção de sua densidade populacional. No Senado, cada estado-membro possui o mesmo
número de cadeiras (duas), porque na Câmara Alta os senadores representam os entes federados,
concretizando o princípio de equilíbrio entre as unidades territoriais federadas. Assim sendo, um
estado como a Califórnia, que possui o maior número de habitantes do país, deverá ter o maior
número de representantes e, por isso, o maior peso nas eleições, ou como diz a tradição, o maior
número de delegados para o colégio eleitoral171, e assim sucessivamente. Quanto mais importante
for o estado-membro em termos demográficos, mais peso terá essa unidade federativa na
apuração das eleições do presidente norte-americano. Estendendo mais a explicação, tome-se o
Brasil como exemplo comparativo. Se, hipoteticamente, no Brasil houvesse a aplicação do
mesmo sistema dos EUA, o estado de São Paulo, naturalmente, teria o maior número de
delegados para o colégio eleitoral. Com isso, os candidatos a presidente se esforçariam para
vencer as eleições paulistas a todo custo, pois a metodologia eleitoral norte-americana prescreve
que o candidato presidencial que vence a eleição em um estado, qualquer que seja a diferença de
votos, arrebanha para si 100% dos delegados que aquele estado tem direito na eleição do colégio
eleitoral.
Agora, tornando o exercício menos penoso, talvez até de muita simplicidade, senão
simplista, substitua o leitor a ideia de delegados por pontos (e, na prática, é assim mesmo que a
apuração de fato funciona nos EUA). Aplicando no Brasil modelo eleitoral idêntico, estaria eleito
presidente o candidato que obtivesse a maioria absoluta (50%+1) dos 594 "pontos" possíveis,
para a realidade específica brasileira. Somando-se o número de deputados (70) com o de
senadores (3), São Paulo teria peso igual a 73 na eleição, número precioso para ajudar que um
determinado candidato pudesse atingir os 298 “pontos” necessários para vencer a batalha
eleitoral imaginariamente proposta; o Distrito Federal com 8 deputados e 3 senadores teria peso
igual a 11. Dessa forma, se um candidato vencesse as eleições nas 7 unidades federativas mais
populosas (representativas) do Brasil, dentre as 27 existentes, estaria consagrado presidente da
nação. Dito de modo mais minucioso, o candidato que vencesse a eleição, por qualquer

171
A Ditadura Militar brasileira (1964/85) criou um sistema de colegiado inspirado no modelo norte-americano de
Colégio Eleitoral para realizar as “eleições” dos presidentes-generais. Utilizando a mesma denominação de “Colégio
Eleitoral”, a Ditadura procurou difundir uma imagem de normalidade democrática e de legitimidade ao Regime.

200
percentual de diferença, nos estados de maior representação parlamentar como São Paulo (peso
73), Minas Gerais (peso 56), Rio de Janeiro (peso 49), Bahia (peso 42), Rio Grande do Sul (peso
34), Paraná (peso 33) e Pernambuco (peso 28) já estaria eleito, mesmo que fosse derrotado, por
qualquer diferença de votos, nas outras 20 unidades federativas, ainda que não obtivesse mais
votos populares que o(s) outro(s) concorrente(s).
Efetivamente, nos EUA, dentre os 50 estados existentes, dos 538 delegados/votos
(“pontos”) em disputa, vence a corrida presidencial o candidato que obtiver a maioria absoluta de
270 “pontos”. Na hipótese de um candidato vencer simultaneamente nos 12 estados de maior
“peso ponderado” entre os 50, como Califórnia (peso 54), Nova York (peso 33), Texas (peso 32),
Flórida (peso 25), Pensilvânia (peso 23), Illinois (peso 22), Ohio (peso 21), Michigan (peso 18),
Nova Jersey (peso 15), Carolina do Norte (peso 14), Geórgia (peso 13) e Massachusetts (peso
12), estará ele eleito presidente embora seja derrotado nos demais 38 estados.

8.3 – SISTEMAS PROPORCIONAIS


O sistema de representação proporcional foi criado como uma reação ao sistema
majoritário para garantir que determinados grupos sociais, por meio de eleições, pudessem ter
voz no parlamento, mesmo que obtivessem votações pouco expressivas. Os defensores do
sistema proporcional ou, visto por outro lado, críticos do sistema majoritário (distrital),
consideram o sistema majoritário injusto porque, como se sabe, distribui indevidos privilégios,
sustentados pela própria lei eleitoral, ao garantir a maioria absoluta das cadeiras de um
parlamento a um partido que não obteve a maioria absoluta dos votos da eleição. Julgam os
apóstolos do método proporcional que a composição de um parlamento deve refletir a média da
sociedade nacional, por meio da média da vontade dos eleitores, via sufrágio. Para tanto,
defendem a implantação do sistema proporcional como a fórmula mais eficaz possível de
expressar a pluralidade de opiniões e de representação sociológica no parlamento.
Ao contrário do sistema majoritário, que objetiva a formação de uma base de governo no
parlamento (governabilidade) por meio da chamada maioria unipartidária (quando um único
partido conquista a maioria absoluta das cadeiras parlamentares), o sistema eleitoral proporcional
tem como fundamentação principiológica que os mais variados segmentos nacionais estejam
representados no parlamento de maneira equitativa, ou seja, de acordo com a proporção de votos
recebidos pelos partidos políticos. Nesse sentido, se um pequeno partido, que teoricamente
representa determinada minoria, obtém uma proporção de votos, é bastante possível que,
mantidos constantes todos os fatores, obtenha um número de cadeiras correspondente à sua
votação, ou seja, terá no legislativo uma representação correspondente ao peso ponderado de tal

201
minoria. De sorte que o desejo de permitir a representação de minorias, encontra no sistema
proporcional um suporte eficaz para concretizá-lo. Caso este evento ocorra no modelo
majoritário, terá sido por mero acidente, pois como já visto, seus objetivos são outros, na verdade
até opostos.
Por ser o sistema proporcional considerado um sistema mais democrático, sua gradual
implantação foi coincidindo com o simultâneo processo histórico de criação, expansão e
consolidação da democracia de massas. Por esse motivo, muitas democracias foram abandonando
o sistema majoritário e introduzindo paulatinamente o sistema proporcional,172 naturalmente
detentor de muito maior capacidade de corresponder às aspirações democráticas. Segundo a
lógica deste método, caso um partido obtenha um determinado percentual de votos, espera-se que
este percentual de votos se traduza em correspondente número de cadeiras parlamentares. Assim,
quanto maior for o número de cadeiras em disputa, maior será a proporcionalidade da eleição,
havendo, portanto, maior distanciamento do método simplesmente majoritário. Por exemplo, as
eleições legislativas (parlamentares) no estado de São Paulo são mais proporcionais que as do
Distrito Federal pelo fato de que a magnitude do “colégio eleitoral” de São Paulo é muito maior
que a do “colégio” do DF. Como são 70 cadeiras parlamentares destinadas a São Paulo na
Câmara Federal e apenas 8 para o Distrito Federal, haverá uma proporcionalidade maior nas
eleições paulistas, e por isso, pequenos partidos – ou minorias - terão maiores oportunidades de
acesso ao legislativo nacional. No caso de São Paulo, para um partido ou coligação de partidos
assegurar pelo menos uma cadeira eleitoral no parlamento, o percentual de votos necessários não
precisa atingir nem 2 pontos percentuais. Já com relação ao Distrito Federal, com suas 8 vagas,
serão necessários pelo menos 12,5% dos votos (1/8) para um partido eleger um candidato.
Admitido que a proporcionalidade paulista é maior, comparativamente aos outros estados
brasileiros, chega-se a conclusão de que nas eleições daquele estado a fórmula proporcional é a
que melhor atende aos pressupostos doutrinários do sistema: o de garantir correspondência
aritmética entre votação e representação.
O modelo proporcional, como as demais fórmulas eleitorais, a despeito de ser mais
democrático, porque mais representativo, não está imune a distorções e consequências negativas.
De acordo com seus críticos, não só não garante governabilidade como, pelo contrário, tende a
estimular a formação de um quadro de ingovernabilidade ou, no mínimo, baixa governabilidade.
Ao invés de dar origem a uma estrutura bipartidária no parlamento, próprio da natureza do

172
O Brasil utilizou o sistema majoritário até as eleições de 1930. Após a Revolução, Getúlio Vargas editou o Código
Eleitoral, em 1932, que passaria a adotar o sistema eleitoral proporcional.

202
sistema majoritário, e elevar a taxa de governabilidade, o sistema proporcional se movimenta
mecanicamente na direção oposta, a de construir configuração parlamentar multipartidária,
dificultando a governabilidade.
Instalado um cenário multipartidário, e se este estiver simultaneamente associado ao
sistema de governo presidencialista, a teoria convencionalmente o designa de “presidencialismo
de coalizão”.173 Decorre deste arranjo institucional, imperativa necessidade de o presidente da
república construir alianças com vários partidos para conseguir implementar sua agenda de
governação com sucesso. Os críticos alegam que o sistema tem baixa legitimidade porque os
acordos pós-eleitorais violam as preferências dos eleitores, sendo possível que um partido
derrotado nas eleições, em busca de cargos, os obtenha em troca de apoio ao executivo,
participando da base de apoio no legislativo de um determinado governo, e assim, contribuindo
para a perpetuação de um interminável, nefasto e espúrio esquema político, consagrando as
expressões “política de patronagem”, “clientelismo político”, “fisiologismo político” ou,
especificamente da crônica política brasileira, parodiando a virtuosa generosidade franciscana
das relações entre homens, porém ilícitas entre agentes políticos, a “política de São Francisco de
Assis”, ou seja, a política do “é dando que se recebe”.
De modo similar ao que acontece no sistema majoritário, no sistema proporcional também
ocorre uma variedade de espécies. A despeito do interessante, embora de certa complexidade em
sua operacionalização, o sistema proporcional da Irlanda,174 tem sido uma exceção na família dos
sistemas proporcionais, pois estes são, genericamente, constituídos por listas. No sistema de
listas, assim chamadas por apresentar relação extensa de candidatos, às vezes em número maior
que o de cadeiras parlamentares em disputa, cada um dos partidos em suas respectivas
convenções (eleições internas), que antecedem as eleições e antes mesmo da própria campanha
eleitoral, apresenta os candidatos à justiça eleitoral e aos eleitores, sendo que em alguns países o
sistema pode ser de lista aberta e, em outros, de lista fechada. De acordo com o sistema de lista
adotado por um país, o partido pode ter maior ou menor influência em relação aos candidatos, e
também os eleitores podem ter maior ou menor influência, dependendo do método escolhido.

173
A teoria do Presidencialismo de Coalizão foi desenvolvida pelo cientista político Sérgio Abranches, em 1988,
publicada originariamente em DADOS, Revista de Ciências Sociais, v. 31, nº 1.
174
Na prática, o sistema eleitoral da Irlanda encontra-se a meio caminho do sistema majoritário/distrital, se não for
mesmo mais apropriado receber este nome de vez. Lá, cada “distrito” elege de três a cinco candidatos de uma vez
por meio da proporcionalidade de votos sendo que o eleitor pode votar em quantos candidatos for o número de vagas
para a localidade, ordenando-os numericamente, pelas primeiras preferências. Atente-se que o Brasil, lato sensu, já
teve sistema semelhante no 2º Império e a partir da Primeira República até a Revolução de 30, mas não com a
denominação de sistema de voto proporcional e sim com o nome de “sistema de círculos”, hoje chamado de
majoritário ou distrital.

203
O sistema de lista aberta, modelo que está em operação no Brasil, gera um segundo padrão
de competição eleitoral, considerado anômalo porque, além do primeiro padrão que é
considerado o normal – candidatos de um partido, ou coligação, competindo contra candidatos de
outro(s) partido(s) ou coligação(ões) –, estimulando que candidatos de um mesmo partido ou
mesma coligação sejam adversários entre si.175 A lista aberta permite que o eleitor possa votar
em candidatos nominalmente. Assim, se um partido ou coligação alcançar o número de votos
suficientes (quociente eleitoral) para eleger apenas um candidato, será eleito aquele que, dentro
do partido ou coligação, tenha obtido o maior número de votos nominais. Por exemplo, nas
recentes eleições parlamentares do Distrito Federal, pode ter ocorrido que o maior concorrente de
um candidato de um determinado partido ou coligação não seja exatamente um candidato da
agremiação partidária ou coligação adversária, mas provavelmente um outro candidato colega de
partido ou da mesma coligação de partidos a que pertence o candidato hipoteticamente
exemplificado.
Já no sistema de lista fechada o eleitor não pode votar em nomes, mas apenas na lista
preordenada pelo partido antes das eleições, na sua convenção partidária, tratando-se
rigorosamente de um “voto de legenda”. Durante a convenção, a disputa fica localizada dentro do
próprio partido, pois os candidatos são candidatos a candidatos e estão lutando para, em primeiro
lugar, obter uma vaga de candidato nas eleições parlamentares, mas também estão lutando para
figurar nas primeiras posições da relação, de preferência encabeçando a lista dos candidatos, que
será ordenada de acordo com a preferência dos delegados (convencionais) do partido na
convenção. Em que pese o sistema não estar imune à influência dos “caciques”, ele agrega maior
capacidade de fortalecer a sigla partidária porque os militantes, na convenção que escolhe os
candidatos, se preocupam com os nomes de candidatos a candidato de melhor reputação,
capacidade representativa, que mais se identificam com a linha programática da legenda e que
eventualmente elevem o prestígio da sigla. Além dessa influência antes das eleições, perante os
candidatos, os partidos têm outro significativo poder durante o próprio processo eleitoral, uma
vez que, não podendo o eleitor votar nominalmente, ele se sentirá compelido a exercer um voto
mais politizado, ao buscar partidos com candidatos de melhor qualificação e com programas de
maior convergência com seus princípios ideológicos.

175
Conjecturando sobre o assunto, por exemplo em eleições parlamentares do Distrito Federal, se em um determinado
colégio eleitoral houver uma alta concentração de eleitores tendentes a votar sob a orientação política de Roriz, os
rorizistas candidatos a deputado provavelmente entrarão em conflito aberto para conquistar aqueles votos tidos como
certos para a referida coligação.

204
Cumprida a fase da convenção partidária, os candidatos selecionados pelo partido partem
para a campanha eleitoral propriamente dita, em que terão comportamento contrastante com os
candidatos do sistema de lista aberta, pois ao invés da competição entre colegas de partido
prevalecerá um ambiente de cooperação já que os candidatos não podem receber votos nominais
(personalizados), pois a lista já estava previamente ordenada.

8.3.1 - Coligação para eleições de representantes no sistema proporcional


Acima se falou em votação para candidatos de partidos ou coligação de partidos. No
Brasil, caso raro no mundo, os partidos se coligam em eleições proporcionais, significando que
quando o eleitor vota em um candidato ou em uma legenda partidária, pode acontecer de este
voto contribuir para eleger um candidato de outra sigla partidária, desde que ambos os partidos
estejam coligados. Na prática, essas coligações, como acontece no Brasil, fazem com que os
partidos coligados se transformem em um único partido, causando uma anomalia jurídica que
distorce a vontade do cidadão-eleitor que “mira em um determinado alvo e acerta em outro que
não viu e nem desejava”.176
No sistema proporcional, ao contrário do que ocorre no sistema majoritário, é bastante difícil
que um partido consiga individualmente a maioria absoluta das cadeiras no parlamento, tanto que a
preocupação primordial do sistema quando de sua concepção não era a de adquirir maior
governabilidade, mas fundamentalmente procurar compartilhar a vitória eleitoral nas eleições
parlamentares, bastando para isso que um partido apenas atinja a quota (quociente eleitoral) para ter
acesso à sua primeira cadeira legislativa; se eventualmente o número de votos for equivalente a 4
quotas, a legenda (partido ou coligação) obterá 4 cadeiras, e assim sucessivamente. Desse modo,
conclui-se que no sistema majoritário vence o candidato com o maior número de votos do distrito, e
no sistema proporcional são os partidos que alocam as cadeiras para os seus candidatos à medida
que atingem as quotas prescritas pela legislação eleitoral.

Em geral, a justificativa mais plausível para a coligação dos partidos se fundamenta no


sentido de que ela orienta seus eleitores para o caso de, numa eventual vitória, sinalizar que
estarão unidos para governar em coalizão. De outro modo, sendo derrotados, seus eleitores terão

176
Por exemplo, nas eleições parlamentares de 2006 no DF, o partido do candidato Augusto Carvalho (PPS) se
coligou com o partido do candidato Coronel Fraga (PFL). Caso Carvalho não tivesse sido eleito, seus votos
poderiam ter sido somados aos de Fraga para ajudá-lo a se eleger, sendo que em tese os partidos dos dois candidatos
não têm convergência de posições quanto aos aspectos gerais da política. Nas eleições de 2010, o mesmo A.
Carvalho, cujo partido coligou-se com o PT em nível local, não conseguiu se eleger deputado, mas como suplente
assumiu uma cadeira na Câmara Federal, em razão de o titular licenciar-se para assumir o posto de secretário do
governo local. Curiosamente, o PPS, partido de Carvalho, tem sido adversário e crítico ferrenho do PT, o partido
responsável pela sua investidura no cargo.

205
uma razoável margem de convicção de que os partidos coligados irão compor uma aliança
oposicionista para fiscalizar e criticar o grupo vitorioso que vai controlar o poder. Exemplo: no
Chile, os partidos se coligam para este fim, e quando ocorre a coligação, os partidos coligados só
podem alocar cadeiras parlamentares de acordo com o desempenho de votos obtidos
proporcionalmente dentro da coligação. Ou seja, se o partido X obtém 30% do total de votos
dentro de uma coligação, e esta coligação atinge o múltiplo de 10 quotas, alocando, então, 10
cadeiras parlamentares, o partido X tem direito a exatas 3 cadeiras parlamentares.

No Brasil, por seu turno, a sistemática possibilita que um candidato de um pequeno partido,
coligado com um partido grande, se eleja deputado e outros candidatos do partido mais expressivo
eleitoralmente naquela coligação não se elejam.177Tal fenômeno ocorre porque a legislação não
exige, como no Chile, equivalência aritmética de desempenho eleitoral para os partidos coligados.
Em outras palavras, quando os partidos estão eleitoralmente coligados no Brasil, para efeito de
apuração de votos e repartição das cadeiras legislativas, transformam-se, na prática, numa única
agremiação partidária.

8.3.2 - A cláusula de exclusão e o quociente eleitoral


Pelo que foi abordado até aqui sobre o sistema proporcional, deduz-se naturalmente que o
sistema reserva para si espontânea capacidade de produzir relativa ou elevada fragmentação
partidária no parlamento. Na extensão da interpretação, resta perceptível que quanto mais "puro"
for o sistema, maior será a tendência para haver um multipartidarismo bastante fragmentado e,
portanto, maior a dificuldade de ser construída uma base de sustentação partidária sólida no
legislativo para sustentar o governo, independentemente de sua tendência no espectro
político/ideológico.
Como o objetivo de todo regime democrático é o de garantir participação política ao maior
número possível de pessoas e agrupamentos sociais, e o maior objetivo de todo governo é o de
garantir o maior grau possível de governabilidade, em quase todos os países onde o sistema
proporcional é utilizado procura-se encontrar uma fórmula capaz de equacionar com equilíbrio a
construção de um sistema partidário que possibilite adequada representação de grupos ou partidos
minoritários sem a ocorrência de fragmentação - ou número excessivo de partidos no parlamento -,

177
As seguidas eleições de Agnelo Queiroz, para deputado, antes de se filiar definitivamente ao PT-DF, enquadram-
se como exemplo. Caso o método brasileiro de coligações fosse semelhante ao do Chile, dificilmente seria eleito.
Seu partido, o PC do B, tradicionalmente se aliou ao PT aproveitando-se da força deste para ultrapassar o quociente
eleitoral. Libertado dessa fase crucial, Agnelo conseguia se eleger porque era um dos mais votados nominalmente
dentro da coligação, que na prática se transforma em um único partido.

206
com o mais elevado grau possível de governabilidade.
Sendo assim, é bastante comum, onde opera o sistema proporcional, a aplicação de algum
dispositivo com força de impedir o acesso exagerado de partidos à representação parlamentar.
Conhecido pela teoria dos sistemas eleitorais como cláusula ou barreira de exclusão ou cláusula de
barreira, vem a ser um dispositivo jurídico da legislação eleitoral que tem atuado com certa eficácia
no sentido de limitar o quadro partidário causado pela simples aplicação do sistema. No Brasil,
desde a realização das primeiras eleições proporcionais, a barreira de exclusão utilizada é o
quociente eleitoral que, embora com algumas variações, na essência permanece impedindo o
acesso a cadeiras parlamentares de partidos que não conseguem atingir a quota mínima de votos (o
quociente). O quociente eleitoral é o número mínimo de votos exigidos para que cada partido
obtenha pelo menos uma cadeira parlamentar em uma determinada eleição. Este número é o
resultado da divisão de votos válidos pelo número de cadeiras em disputa na eleição parlamentar,
seja ela para vereador, deputado estadual/distrital ou federal.
O gráfico abaixo 178 complementa didaticamente a explicação do modelo de quociente
eleitoral aplicado no Brasil, concluindo com a explicação do método de utilização das sobras de
votos a fim alocar cadeiras parlamentares restantes, quando nenhum partido conta com votos
mínimos equivalentes a mais um quociente eleitoral. Desenvolvida pelo belga Victor D'Hondt, e por
isso levando seu nome, a Fórmula D'Hondt beneficia os maiores partidos quando da distribuição das
cadeiras relativas às sobras de votos, por isso também conhecida como fórmula de maiores médias179.
É a fórmula mais utilizada nos países que adotam o sistema proporcional de lista. Em que pese o
favorecimento aos grandes partidos - a ocorrência se dá apenas residualmente, na alocação das
últimas cadeiras -, o modelo não impede a formação multipartidária no legislativo, constituindo não
mais que um mecanismo para inibir um tipo de multipartidarismo fragmentado. Excepcionalmente,
caso nenhum partido/coligação consiga atingir o quociente eleitoral, o Código Eleitoral dispõe, em
seu artigo 111, que "... considerar-se-ão eleitos, até serem preenchidos todos os lugares, os
candidatos mais votados”.
Além do quociente eleitoral, mais uma barreira estaria prestes a dificultar a vida dos
pequenos partidos no Brasil. A partir da legislatura que começaria em 2007, resultante das eleições
parlamentares de 2006, entraria em vigor uma lei eleitoral aprovada em 1995 pelo Congresso
brasileiro dispondo a penalização para candidatos eleitos por partidos que não atingissem a meta
estabelecida. Pela lei, na eleição para deputado federal, os partidos políticos precisavam alcançar

178
Apud NICOLAU, Jairo, op. cit., p. 40.
179
Vide artigo 109, I, Código Eleitoral.

207
pelo menos 5% dos votos válidos em todo o país e 2% do total de votos em pelo menos 9 (1/3) das
unidades da federação.180 O partido que não atingisse a marca da barreira, nas eleições para a
Câmara Federal, perderia os benefícios de funcionamento parlamentar nas casas legislativas,
incluindo o Senado, como os de constituir bancada e liderança partidária. Perderiam, também, o
acesso ao Fundo Partidário, que é público; o direito de participação nas Comissões Permanentes e
Temporárias e o horário gratuito na TV para divulgação de propaganda política e eleitoral.
Considerando a validade desses dispositivos legais, com fundamento no resultado das
eleições legislativas de 2006 para a Câmara dos Deputados em todo o país, apenas seis partidos
teriam cumprido os requisitos da cláusula de barreira. 181 Mas outros quatro partidos tiveram
desempenho próximo da regra eleitoral, e na condição de prejudicados começaram com
movimentação visando à fusão com pequenas legendas objetivando ultrapassar a barreira e assim
poderem usufruir das prerrogativas legais nos parlamentos. Ainda que tais manobras fossem
coroadas de sucesso, provavelmente o número de partidos no parlamento seria drasticamente
reduzido e o combate à proliferação de legendas se consolidaria com a aplicação efetiva da lei que a
regulamentasse, não obstante a crítica de alguns analistas que a consideraram tímida, uma vez que
em muitos países onde a cláusula de exclusão é adotada, os partidos perdem não apenas o direito a
funcionamento parlamentar como até mesmo as próprias cadeiras que, em tese, teriam direito em
razão do percentual de votos obtidos nas variadas circunscrições eleitorais.182

8.4 – Perspectivas e considerações sobre a reforma política: o sistema eleitoral e partidário


no Brasil
No decorrer dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, a elevada
temperatura dos escândalos políticos desafiaram os dois governantes a combater a corrupção na
administração pública que ordinariamente tem assolado o país, corrupção que em parte é debitada
na cota de responsabilidade do famigerado modelo eleitoral nativo, e, que, mediante o estridente
tiroteio editorial articulado pelos formadores de opinião, desafiam o Legislativo e o Executivo a
sustentar o tradicional rito de selar compromisso para inscrever na agenda legislativa projeto de
reformulação da ordem política. Como parte do procedimento rotineiro nas democracias mais
frágeis, o Executivo se antecipa como fiador credenciado para operar como condutor e
interlocutor protagonista na agenda de debate, por reunir condições mais concretas no sentido de

180
Redação dada pelos artigos 12 e 13 da Lei nº 9.096/95.
181
PMDB, PT, PSDB, PFL, PP e PSB.
182
Já nos primeiros meses da referida Legislatura, iniciada em fevereiro de 2007, o STF (Supremo Tribunal Federal),
por meio de ADIn julgou inconstitucional a Lei da Cláusula de Barreira.

208
impor ritmo de maior objetividade na tramitação e aprovação dos projetos. Simultaneamente,
porque parte da teatral cultura política nacional, as mudanças reclamadas vão sendo
sorrateiramente relegadas aos espaços secundários, mormente quando a pauta editorial da
chamada "grande imprensa" tem sua atenção desviada para outro “hot matter”, o assunto mais
quente do momento, que passa a dominar mentes e corações, desviando a pauta midiática. Ato
contínuo, o ex-tema-quente vai se resumindo a notinhas de canto de página dos noticiários, até
seu completo desaparecimento.
Não se tratasse de mais um mis en scène da parte do executivo, a aprovação das propostas
de reforma poderiam socorrer o sistema político, dotando-o de uma estrutura mais adequada,
realista, equitativa, competitiva, civilizada, enfim, mais condizente com o que se espera de um
Estado aparelhado para colocar em prática os fundamentos dos direitos da democracia, incluindo
neles as normas que regulamentam a disputa pelo poder, suas formas de participação e
distribuição, e, consequentemente, concretizando aqueles 5 princípios que se tornaram o mantra
da administração pública a partir do advento da Constituição democrática de 1988, que são a
Legalidade, a Impessoalidade, a Moralidade, a Publicidade e a Eficiência.
O presidente Lula, durante seu segundo mandato, enviou ao Legislativo estas seis
importantes propostas de mudança do sistema político-eleitoral: 1) a regulamentação do
financiamento público das campanhas eleitorais; 2) o fim das coligações em eleições
proporcionais de todos os níveis (municipais, estaduais e federal); 3) a volta da cláusula de
barreira; 4) o sistema de lista fechada; 5) a fidelidade partidária, e; 6) as regras para dificultar a
vida de candidatos com “ficha suja”.183
Não obstante a dificuldade de aprovação de algumas propostas tidas como muito polêmicas,
em virtude de interesses pessoais inconfessáveis de inúmeros deputados e senadores,
basicamente do chamado baixo clero - que constitui a maioria no legislativo nacional -, ninguém
desconhece que são exatamente os congressistas que detêm as prerrogativas para decidir a
matéria, promovendo mudanças cujas expectativas são tão antigas quanto proteladas. Assim,
haveria ingenuidade ao extremo esperar que os legisladores operem mudanças que contrariem
seus próprios interesses. Ainda que continue a existir bolsões de fragilidade do estágio da cultura
cívica/política entre os brasileiros, não se desconhece que as mudanças necessárias só podem

183
Juntam-se a essas propostas, outras duas em debate no congresso: a federalização dos partidos e a volta da
verticalização. Na primeira proposta, os partidos que se coligarem para uma eleição deverão sustentar a aliança
durante os três primeiros anos de seu mandato; na segunda, os partidos que se coligarem na eleição presidencial
estariam obrigados a se aliar nas eleições estaduais, caso contrário teriam que concorrer sozinhos, sem qualquer tipo
de aliança formal. Mais recentemente, além das propostas tradicionais, estão sendo discutidas e apresentadas, entre
outras, a mudança na regra para escolha de suplentes de senador, o voto facultativo, o fim da reeleição para cargos
executivos e as cotas para mulheres.

209
ocorrer com a participação efetiva da sociedade. Esta é uma variável crucial que faz a diferença
entre o que se chama de democracia de fachada, que apenas se restringe à forma e uma
democracia institucionalizada. Na democracia institucionalizada, como sugere o adjetivo, as
instituições estão consolidadas, e quando sólidas por trás de tudo há toda uma estrutura que as faz
funcionar – essa estrutura é o resultado da atuação da sociedade, e sociedade neste sentido não é
qualquer aglomerado de “cidadãos” apenas formais, alienados, mas cidadãos de fato, conscientes
ciosos e atuantes nos compromissos que envolvem sua “polis”. Tudo resumido, esse coletivo de
cidadãos ativos se funde na expressão, genérica, mas de muito significado: a “sociedade civil”.
De outro modo, sendo aprovada, a reforma poderia reconduzir o legislativo à sua legítima
função, devolvendo-lhe o posto de ator estratégico que deve ter perante os dois outros poderes
que, ordinariamente, vêm usurpando atribuições destinadas ao Legislativo, ao produzir leis,
normatizar e regulamentar não apenas nas suas funções “atípicas” que, diga-se, é constitucional,
mas quando extrapolam afetam drasticamente os interesses da soberania nacional. Não por acaso,
os números revelam, ano a ano, em termos quantitativos e qualitativos, que a produtividade
legislativa - especialmente da parte do executivo - tem sido maior que a do próprio poder
legislativo.
A voracidade legiferante do executivo pode ser explicada, claro, pela existência de um
vácuo de atuação do próprio legislativo, mas também pelo seu apetite historicamente insaciável e,
mais inegavelmente nos últimos tempos - pelo desmedido uso de edição das nada provisórias
medidas provisórias. Todavia, o comportamento insólito, pouco ortodoxo, tem vindo,
ultimamente, de outro quadrante da Praça dos Três Poderes, da parte do poder judiciário,
mormente do Supremo Tribunal Federal, eficazmente auxiliado pelo Tribunal Superior Eleitoral,
exibindo vaidoso desempenho, às vezes insolente, mas que não deixa de suprir a inércia, senão
indolência, dos parlamentares no Legislativo, regulamentando o ordenamento político-eleitoral,
prática que a crônica política cunhou como “judicialização da política”.
Como regra não escrita da liturgia dos cargos executivos, governantes esboçam ação
quando em início de mandato, impulsionados pela exigência de movimentar compromissos de
campanha. A atual presidente Dilma Rousseff também cumpriu o rito, respaldada por ampla,
porquanto tradicionalmente fisiológica, base congressual, acenando com novo projeto de reforma
da política. Pela undécima vez, mais uma proposta perambula pelos corredores e comissões do
Congresso Nacional, uma espécie de "Arca de Noé" de tão densa quanto plural e enigmática,
generosa e maternal, abrigando Deputados e Senadores. Em contraste com eventuais
estranhamentos, lá convivem harmoniosamente, águias e pombinhas, cães e gatos, lobos em pele
de cordeiro, cigarras travestidas de formiguinhas, sem que se saiba exatamente quem é quem,

210
mas para a segurança de todas essas "espécies" tudo se mantém a sete chaves para não despertar
a curiosidade dos "forasteiros". Como estratégia de defesa, os "eleitos" simulam conflitos,
fingem a batalha incansável pelos sagrados direitos de seus representados. Na realidade, trata-se
de comportamento darwinista, pois assim como existe a luta pela sobrevivência do lado de fora,
na dura realidade cotidiana do homem comum, dentro da “nau” a guerra que se desenrola não é
menos dramática, pois tudo vale a fim assegurar a manutenção dos velhos privilégios. Quanto às
reformas, a história ensina, não vêm como presente, mas “ex parte populi”, isto é, por meio do
próprio povo, com a ação organizada da “sociedade civil”.
Ao longo dos últimos 20 anos de projetos e promessas apresentados, os itens cogitados são
bastante semelhantes em sua essência. Poucas novidades interessantes foram apresentadas e, em
que pese sua importância, seriam mudanças superficiais, que não teriam a força de afetar
diretamente o funcionamento do sistema como um todo, como o caso da “candidatura avulsa” e
das “cotas para mulheres”.
No que diz respeito ao debate especificamente acerca do sistema eleitoral, parece não
haver consenso capaz de promover mudança concreta, mesmo porque a fragilidade do modelo
eleitoral brasileiro tem suas raízes não propriamente no método proporcional, mas principalmente
em algumas particularidades que o tornam um exemplo a ser abandonado e jamais a ser seguido
por outras democracias.
Como vestígio de defesa do sistema proporcional, basta dizer que a grande maioria das
democracias tem edificado seus modelos eleitorais com base numa estrutura inspirada na
proporcionalidade, ou seja, adotam puramente o sistema proporcional ou, no mínimo, o sistema
proporcional surge associado com o majoritário (two-votes system), modelo conhecido no Brasil
por sistema distrital-misto. De sorte que os demônios do sistema proporcional brasileiro não
residem no sistema em si, mas nele estão entranhados, como parasitas, caso flagrante das
coligações em nível proporcional, acima analisadas, e, por outro lado, a ausência de uma realista
cláusula de desempenho (de barreira), dotada de capacidade suficiente para gerar um
multipartidarismo que não exceda ao propósito de representar satisfatoriamente as minorias
nacionais, mas que também não seja negligente com os postulados da governabilidade,
possibilitando relações de funcionalidade ao parlamento e governo, recorrentemente envolvidos na
operacionalização do processo legislativo. Em poucas palavras, e lembrando a ideia do "ponto
médio" de Aristóteles, o sistema brasileiro se adequaria melhor sob um multipartidarismo
moderado.
Até aqui, as conjecturas formuladas certamente induzem à interpretação de que a
transposição do sistema dos EUA - majoritário/distrital – para o Brasil é uma tese que deve ser

211
prontamente descartada. Em que pese suas características indiscutivelmente positivas, ancoradas
na irresistível atração da governabilidade (maior capacidade de governação), as eleições
majoritárias/distritais têm características tão seletivas que terminam por privilegiar um número
bastante reduzido de partidos na composição das câmaras, homogeneizando a representação e
elevando a capacidade governativa. Todavia, sua transposição provavelmente não garantiria
resultados mais eficientes para a governança e governabilidade, em função das características
sociopolíticas do Brasil. O sistema proporcional, ainda que não tenha o potencial de suprir o
executivo de apoio legislativo sólido, ainda se apresenta como a melhor alternativa para dar
suporte à estrutura social, política e econômica equivalente à configuração da sociedade
brasileira, que carece basicamente de uma tipologia de reforma que comporte a faculdade de
tornar o sistema político mais competitivo e liberto das armadilhas que sustentam a perpetuação
daqueles que há tempos já estão desfrutando dos cargos eletivos; subsidiariamente, o sistema
proporcional deveria ser flexibilizado, sem por isso ser violentado, caso venha combinado com o
majoritário - vestindo o figurino do sistema misto.
No extenso cabide de propostas apresentadas figura um projeto bizarro, mas os
legisladores o estão tomando a sério. Como de regra, na democracia o debate não pode ser
suprimido mas, infelizmente, a maioria dos congressistas revelam carência profunda de domínio
das matérias que apreciam. Assim, uma ideia que parece ser boa à primeira vista, é logo
"comprada" por muitos, mas sem o suficiente conhecimento, como vem ocorrendo com a
proposta do "distritão", que nada mais é que um sistema distrital (majoritário) piorado, tendente a
elevar à potência o cenário de "caciquismo" que já impera na política brasileira. Curiosamente,
alguns de seus defensores, aliados aos que resistem na manutenção do modelo de lista aberta,
dirigem críticas virulentas, porém injustas contra o sistema de lista fechada. De fato, a lista
fechada não está imune ao fenômeno do “caciquismo”, todavia a ocorrência deste fenômeno é
mais frequente no próprio modelo de lista aberta. Mais que isso, o sistema de lista fechada
neutraliza com relativa eficácia a autofagia entre candidatos, ocorrência facilmente verificada nas
listas abertas, como exemplificado acima.
Portanto, as listas fechadas fortalecem os partidos - podendo ser um antídoto para
combater uma das chagas que corrói o quadro partidário brasileiro - ao dificultar o personalismo
do voto e combater o mandato como propriedade particular. Em termos de políticas afirmativas,
a lista fechada é um dos poucos entre os sistemas em prática que pode abrigar eficazmente uma
das conquistas efetivas do pluralismo dos nossos tempos, que é a inclusão com resultados
concretos da “cota para mulheres”, ou membros de quaisquer minorias, na lista preordenada, sem
conteúdo demagógico. De modo que a lei eleitoral pode predispor sobre a posição de categorias

212
de candidatos na lista, e assim, dependendo da vontade do legislador, pode ser que a lei estipule
que um candidato do sexo feminino tenha que figurar no máximo na 2º ou 3º colocação de cada
lista de candidatos. Até o 5º ou 6º nome, ao menos 2 mulheres poderiam estar posicionadas nas
listas, e assim sucessivamente.
Os congressistas reformadores não fizeram referência formal, mas se o fizessem,
poderiam desmontar as “convicções” obstinadas ou a má-vontade dos críticos do modelo de lista
aberta ou fechada, jogando por terra suas idiossincrasias caso aprovassem alguma modalidade de
lista flexível, adotada em várias democracias.184 Nela, o eleitor pode concordar com a lista
preordenada, votando apenas na legenda, caso contrário poderia apontar um candidato de sua
preferência, se não concordasse com a lista preordenada pelo partido. Dados apontam que um
elevado percentual de eleitores, acima de 90%, inclusive em democracias estáveis, tem
concordado com a lista apresentada aos eleitores pelos partidos.185
Permanecendo o impasse, mais uma alternativa pode entrar em cena, conciliando as
resistências dos atores mais dogmáticos, protagonizando o espetáculo um modelo próximo do
irlandês, tido como proporcional, porém podendo atender, sem deturpações, pela alcunha de
majoritário, pois, no caso, os candidatos são eleitos por um método idêntico ao de maioria.
Assim, criam-se "distritos" não de 1 representante apenas, mas de 2, 3, ou até 4 eleitos,
semelhante ao que era aplicado no Brasil no período anterior à vigência do Código Eleitoral, que
em 1932 inaugurou o sistema proporcional. Durante o 2º Império, em 1860, foi aprovada a lei do
"Círculo de 3", em que até 3 candidatos podiam ser eleitos, concedendo a segundas e terceiras
forças acesso à representação, formando uma configuração parlamentar digna do comentário do
historiador e jornalista José Maria dos Santos que, entusiasmado, observou que naquele
parlamento estava havendo "uma síntese luminosa da alma brasileira naquele instante".186Seja
como for, este modelo de representação parece ter conseguido, com certo sucesso, convergir os
prós dos 2 sistemas "puros" e eliminar os seus principais fatores críticos, tornando-se
suplementares e complementares.
Em conclusão, este breve estudo procurou demonstrar que, independentemente das mais
variadas convicções e a despeito de suas deficiências, a proporcionalidade, mesmo num modelo
de combinação, é concebida como o método que melhor respeita a possibilidade de representação
de minorias no parlamento.

184
Alguns países onde o modelo de lista flexível é adotado: Dinamarca, Holanda, Áustria, Suécia, Noruega, Bélgica,
Grécia.
185
Nas eleições legislativas da Bélgica, ocorridas em 1919, apenas 0,6% dos candidatos eleitos perderiam seus
mandatos caso o voto preferencial não fosse permitido. In: NICOLAU, Jairo. Op. cit., p. 54.
186
PORTO, Walter Costa. O Voto no Brasil, p.74.

213
Mas a despeito de tudo o que foi tratado, é prudente não se esquecer de que apenas a
reforma da lei não será o curativo para os males da nação, pois a melhor tradição dos velhos
caudillos que assolaram a América do Sul dizia que “La ley se acata, pero no se cumple”.
Calejado dessas práticas ilegítimas, o inesquecível jurista Rui Barbosa alertava que “a reforma
política é urgentemente necessária no meu país, melhores leis e medidas progressistas; mas
aquilo de que mais necessitamos é de homens que as executem... e que ponham em vigor as que
nós já temos”.187
Com efeito, em se tratando de mudanças formais, a proporcionalidade ainda parece ser o
mais apto instrumento para corrigir as históricas distorções e injustiças cometidas ao longo de
toda uma trajetória que perdura desde que o lusitano Martim Afonso de Souza, no princípio da
Era Colonial, organizou as primeiras eleições nestas paradisíacas terras tupiniquins.

187
HAMBLOCH, Ernest. Sua Majestade o Presidente do Brasil, p. 63.

214
9 - PARTIDOS POLITICOS

“É, com efeito, ilusão ou hipocrisia, sustentar que a


democracia é possível sem partidos políticos... A democracia
é, necessariamente e inevitavelmente, um Estado de partidos”
Hans Kelsen.188

Introdução
Ao cidadão minimamente informado não causa surpresa o fato de que o conjunto das
instituições políticas que compõem um Estado, sejam elas públicas ou semipúblicas, como os
partidos políticos, passa atualmente por uma aguda crise de credibilidade. E dentre todas essas
instituições a imagem com maior grau de descrédito na sociedade civil certamente está com os
partidos políticos. A crise de identidade que os partidos enfrentam não é necessariamente
localizada nem está restrita ao Brasil ou aos países de pouca tradição democrática da América
Latina ou aos países de Terceiro Mundo, pois até mesmo nos países de melhor tradição
democrática, situados na Europa ocidental, onde o regime representativo/popular primeiro
floresceu e lançou raízes mais profundas, a credibilidade dos partidos políticos tem sido colocada
em questão. Neste cenário atual, de quase tragédia, com partidos políticos até trocando de nome,
alguns de respeitável história, pode-se cogitar que o futuro das agremiações políticas ao redor do
mundo é mais do que incerto.
Lançadas essas palavras iniciais, uma primeira pergunta aguça a curiosidade de qualquer
interlocutor, inquieto para descobrir o porquê desta curiosa realidade. Hoje, talvez mais do nunca
nos tempos modernos, possivelmente em razão do vertiginoso avanço da era da informação em
tempo real, uma onda avassaladora de desânimo e descrédito tem invadido mentes e corações de
quase todos os cidadãos espalhados por todos os recantos do planeta. Informações ininterruptas
de casos de má-conduta de burocratas e agentes políticos, combinadas com corrupção e
indisciplina partidária e por isso a fragilidade dos partidos, tornou-se o traço comum das
agremiações políticas, causando em todo meio social um mal-estar que desestimula os cidadãos
de boa reputação de participar ativamente do processo político, por sua vez alimentando o
desinteresse proverbial dos jovens em exercitar a iniciação política, inibindo a renovação dos
quadros partidários e a formação de novas lideranças políticas.
Em tempos passados a reputação das agremiações políticas também não foi das melhores,
já a partir do momento em que o termo-conceito partido se firmou no vocabulário político, na

188
CHACON, Vamireh. História dos Partidos Políticos, p. 3.

215
etapa do Estado constitucional. Mas nas últimas décadas, o cenário tem sido desolador, de quase
tragédia, como atesta o fato de que partidos atingiram o limite de suas identidades ao trocarem de
nome, sob o propósito de operar uma ruptura com um passado nada honroso. Como afirma
Martin Carnoy, “Os partidos políticos transformaram-se. Antes, os partidos tinham uma clara
função mobilizadora, mas a experiência partidária do século XX é ‘uma história de
despolitização’”.189
O termo partido foi largamente utilizado desde a era medieval até a moderna, mas sempre
esteve vinculado ao significado de facção. Como será abordado adiante, carrega consigo uma
conotação negativa, inclusive após a 2ª metade do século XIX até a atualidade –
contraditoriamente a era em que os partidos mais se modernizam. Desse modo, mesmo que o
termo partido venha sendo utilizado há séculos, existe uma crucial diferença entre a conceituação
moderna e a compreensão do seu significado em, por exemplo, uma cidade italiana do século XV
ou mesmo na Inglaterra do século XVII.
A partir da era contemporânea, novos princípios começaram a ser estabelecidos pelos
partidos políticos, princípios que se confundiam com a própria natureza dos regimes políticos
vigentes, cuja primeira fase, ainda incipiente, se situava no liberalismo “puro” ou clássico; na
segunda fase, quando o liberalismo iniciou sua aproximação com a democracia, os partidos
foram se adaptando à nova realidade sociopolítica. Com efeito, a criação dos partidos políticos
modernos coincide exatamente com o surgimento da moderna democracia, também conhecida
como democracia-liberal, representativa ou simplesmente democracia social, embora não tenham
os partidos contribuído para o aprofundamento do Estado constitucional, pois quando eles
surgiram o mencionado Estado liberal (constitucional) já se encontrava num estágio de bases
sólidas.
Na linguagem dos defensores de sua institucionalização, quando os partidos substituíram
as velhas facções medievais e as do período absolutista, uma crucial vantagem comparativa seria
creditada aos partidos modernos, vantagem relacionada com a transição do poder, que no então
recente Estado de direito (liberal), quando um grupo seria substituído por outro, essa transição
passaria a ocorrer por meio do “verbo” e não mais como antes, por meio da “pólvora”. Em outras
palavras, o uso da força física, das armas, foi sendo substituído pela força das palavras,
emergindo o método da legalidade, de modo que a disputa pelo poder começaria a ser regulada
por meio de regras civilizadas, as leis eleitorais. Além do mais, com suas naturais funções de
representação e de governação, os partidos modernos foram capitalizando a nobre tarefa de

189
CARNOY, Martin. Estado e Teoria Política, p. 294.

216
organizar e selecionar a caótica vontade popular canalizando as demandas dos cidadãos para o
locus apropriado - assembleias e parlamentos - para que essas demandas fossem materializadas
na forma de leis e/ou políticas públicas. Caso esse papel de organizar e canalizar as demandas
não fosse exercido pelos partidos, em um ambiente democrático, então cada indivíduo, no caso
cidadão, usando de suas legítimas prerrogativas de reivindicar suas demandas
(interesses/necessidades) perante o Estado, o faria de maneira individual e dispersa, concorrendo
para que o sistema sofresse uma sobrecarga tão grande de demandas que o Estado se tornaria
incapaz de providenciar uma resposta minimamente satisfatória às reivindicações, levando a
democracia ao colapso.
Hoje, quando se fala em partidos modernos, inevitavelmente a associação com a moderna
democracia (democracia representativa) deverá ser feita. Nesse sentido, não deixa de ser razoável
o questionamento sobre a ligação dos partidos com a democracia clássica, dos antigos. É certo
que na antiguidade houve governos democráticos, mas naquela democracia não havia sistema
partidário, pois lá os cidadãos representavam a si próprios sem a intermediação de representantes
filiados e organizados em partidos da maneira como se conhece atualmente. Mas a democracia da
cidade antiga foi uma democracia de poucos milhares de cidadãos, de uma cidade-Estado, que
não possuía um território de milhares e milhares (às vezes milhões) de quilômetros quadrados
como é muito comum, hoje em dia, no moderno Estado-nação. De modo que, enquanto os
antigos podiam prescindir dos partidos, os modernos com seu modelo de democracia ainda não
encontraram uma fórmula capaz de criar instituições que pudessem definitivamente substituí-los,
já que é impraticável e impensável a reunião de milhões e milhões de cidadãos em torno de uma
praça pública, como faziam os antigos em suas pequenas cidades-Estados, de escassos cidadãos,
para decidir sobre os assuntos públicos, relativos à sua polis – envolvendo questões legislativas,
executivas e judiciárias.
Todavia, a despeito dos inegáveis benefícios que os partidos prestaram à democracia, não
se deve perder de vista que, se os partidos existem para representar, organizar e intermediar
interesses sociais e coletivos, existe um devastador efeito colateral de sua atuação, que é
subproduto da ação partidária, como de resto da própria democracia, pois os partidos também
deformam e manipulam as reivindicações da sociedade, transformando os interesses da
coletividade em nefastos interesses privados.
A despeito de um específico sentimento antipartidário que vigorou por tanto tempo,
alguns séculos até, é necessário que se esclareça que a rejeição moderna aos partidos tem como
origem outro fundamento. Ao contrário da rejeição aos partidos antigos, de períodos anteriores
ao Estado contemporâneo, portanto liberal e de direito, que nada mais eram que facções, os

217
modernos os partidos, com toda o sentimento de frustração que disseminou na sociedade
democrática, são organizações imprescindíveis para qualquer sistema político, tanto que até o
momento todas as democracias modernas são constituídas por alguma modalidade de sistema
partidário.
Em que pese a baixa reputação dessas organizações, é inegável que a história dos partidos
modernos se confunde com a própria história da democracia representativa, de sorte que o estudo
sistematizado da teoria de partidos políticos é considerado um dos mais eficientes e
imprescindíveis instrumentos para a análise do Estado e da teoria política contemporânea.

9.1 - De facção a partido: o surgimento dos partidos modernos


Durante a Idade Média e a Era Moderna, em que geralmente os regimes dominantes eram
despóticos ou absolutistas, as cidades-Estado, e também onde haviam, os Estados-nação - estes já
unificados – eram usualmente dominadas pelas facções. Na luta que se desenrolava pelo domínio
pelo poder a vitória era, usualmente, uma questão de sobrevivência do grupo em luta, a facção.
Então, o patrimônio público era uma extensão da propriedade privada, além do rotineiro costume
de a facção vencedora submeter impiedosamente a facção derrotada, quando não a eliminava
fisicamente. Neste período, o Estado ainda não era constitucional como hoje se conhece, a partir
da Era Contemporânea. E o uso do termo partido era tão corrente quanto o uso do termo facção,
com ambas as expressões possuindo idêntico significado. Como observa Giovanni Sartori,190 o
termo facção, proveniente do latim, possui conotação pejorativa, pois facere, sua origem
etimológica, estaria ligado a fazer algo, como feitiçaria e, consequentemente, bruxaria, por isto o
termo facção foi substituído pela palavra partido, vista como mais apropriada para o uso da
linguagem política. No mundo latino de então, embora não com a mesma ênfase negativa de
facção, também o uso do vocábulo partido não estava isento de conotação pejorativa. Ao
contrário do significado moderno da palavra, partido em latim originou-se do vocábulo partire,
que muito claramente está associado à ideia de partir, dividir, não havendo dificuldade para o
senso-comum interpretar que uma facção não tinha outro objetivo a não ser o de dividir alguma
coisa, que neste caso seria a comunidade, a cidade, o Estado, a nação.
Ilustrando o estado de espírito daqueles tempos, nas entrelinhas da narrativa
shakespeareana, em Romeu e Julieta pode se perceber a dramática situação enfrentada pelos dois
jovens, que não estavam inteiramente imunes dos reflexos das disputas das facções que
dominavam a cidade de Verona. As facções que dividiam as cidades nada mais eram que

190
In: Partidos Políticos e Sistemas Partidários. Brasília: EdUnB, 1982.

218
conglomerados de pessoas que se uniam em torno de poderosas famílias, geralmente duas,
comandadas pelos condottieri,191 sendo pertencentes à facção pró ou antipapista, cuja conduta no
exercício do poder, era a de desfrutá-lo inescrupulosamente como se fossem despojos de guerra.
Assim, a ética de facção era movida pelo sentimento de ignorar os interesses comunitários,
substituindo-os pelos interesses privados. Como sustenta Bolingbroke, enquanto os partidos se
regem por “princípios” as facções o fazem por “sentimentos e interesses pessoais”; o partido é
um mal político, e a facção o pior de todos os partidos.192
Contudo, do final do século XVIII às primeiras décadas do século seguinte, quando o
absolutismo começaria a dar seus últimos suspiros, e as monarquias europeias gradativamente se
submeteriam aos princípios do constitucionalismo, um novo método de ação dos partidos vai
conquistando espaço crescente na ordem política, especialmente na esfera parlamentar. Nos EUA
e na Inglaterra, em meados do século XIX, os partidos se organizam de maneira tão sofisticada
que operam uma transformação decisiva na sua história, transformação que mais tarde viria a ser
a base para a teoria dos modernos partidos. Portanto, a moderna conceituação de partido, que é
essencialmente de língua inglesa, se revestiu de forte simbolismo, podendo-se afirmar que a
criação do sistema parlamentar inglês e do regime estadunidense de Separação de Poderes
constituiu uma etapa em que o significado de partido não mais estaria associado a partir e
dividir, mas com a ordem constitucional já amparada no liberalismo, o vocábulo partido estava
inapelavelmente vinculado filosoficamente no substantivo inglês partnership, cujo significado
remetia à ideia de parceria.
Nas primeiras décadas do século XIX, a moderna retórica partidária ainda não fora
suficiente para dissipar a negativa reputação adquirida nos tempos de facção. Havia desconfiança
generalizada da sociedade e até mesmo das próprias lideranças do regime constitucional recém-
estabelecido. Nos EUA, mesmo entre os Patriarcas da nação - os Founding Fathers – o termo
“partido” provocava reações adversas porque seu significado ainda se confundia com o de
“facção”. George Washington, em seu famoso discurso de despedida da presidência da república,
afirmou: “a liberdade (...) pouco mais é na realidade do que um nome, quando o governo é
demasiado fraco para suportar as iniciativas da facção (...) permitam-me (...) uma advertência
solene sobre os efeitos prejudiciais do espírito de partido”. Outro ex-presidente dos EUA,
Thomas Jefferson, organizou “ligações” para levar o partido Republicano à vitória contra os
Federalistas para pôr fim à legitimidade do “partidarismo” ou pelo menos enfraquecê-la.193 Entre

191
Termo da Itália medieval e renascentista aplicado aos chefes de facções (cavaleiro, guerreiro, líder carismático).
192
Apud, Paulo Bonavides. Ciência Política, p. 350.
193
SARTORI, Giovanni. Partidos Políticos e Sistemas Partidários, p. 32 e 33.

219
os franceses revolucionários de 1789, o ícone jacobino Robespierre, influenciado pela filosofia
rousseauniana, de que ao homem livre não se dá representantes, declarou: “em toda parte onde
vejo ambição, intriga, esperteza e maquiavelismo, ali reconheço uma facção; e a natureza de
todas as facções é sacrificar o interesse geral”.194
O fato de o antigo partido, cujos métodos eram verdadeiramente de facção, evoluir para um
estágio de novas práticas e adquirir novo significado no Ocidente, em razão de importantes
transformações, de novos procedimentos de ação política, que o qualificarão como um moderno
partido, não responde que seja óbvio deduzir que as facções tenham igualmente desaparecido. O
desaparecimento é apenas subliminar, porque as facções continuaram a existir, só que atuando
com um papel coadjuvante no processo político. Coadjuvantes porque inseridas no interior dos
modernos partidos políticos, e pela natureza de não poder falar em uníssono em nome do partido,
porém o chamado “aparelhamento”, nos partidos, operado pelas facções, comporta uma
modalidade de influência política que só os maiores e mais bem organizados partidos contêm.
Não se trata necessariamente de uma ocorrência virtuosa, pois na medida em que esse fator
fortalece a agremiação, por outro lado torna a luta interna - pelo poder no partido e por cargos -
mais acirrada, expondo suas divisões, consequentemente suas contradições e seus vícios.
Infiltradas nos partidos modernos, não raro constituídos por variadas modalidades de facção, no
que respeita ao modus operandi, até certo ponto lembrando os métodos dos tempos do antigo
regime, a luta pelo poder do Estado não é a única meta a tingir. A conquista do domínio interno
é, indiscutivelmente, essencial, e uma vez na posição de domínio interno, a facção vitoriosa
impõe suas ideias como sendo as do partido e, em eventual chegada ao governo, por meio da
disputa eleitoral, distribuem para o seu séquito os principais cargos. Portanto, é fundamental
reconhecer a existência de clara dicotomia entre uma e outro: enquanto a facção tem um interesse
bastante concreto que é a conquista do poder – o poder pelo poder, ressalte-se - o partido
moderno é uma realidade subjetiva que, além de aspirar legitimamente ao poder, à reeleição, à
distribuição dos cargos e auferir renda, é um composto doutrinário, programático, de ideias
abstratas e ideais compartilhados, procurando adquirir apoio da sociedade, aparentemente
estimulando-a a reivindicar direitos e benefícios perante o Estado, obtendo como contrapartida
sustentação ao seu projeto de governo e/ou à manutenção do poder.
O debate teórico e filosófico em torno do nascimento dos modernos partidos se
desenvolveu em meados do século XVIII. À época, o filósofo inglês Edmund Burke foi uma voz
dissonante na defesa dos partidos como um instrumento de consolidação da nova realidade do

194
Idem, ibidem.

220
Estado, enquanto que a maioria dos filósofos e escritores políticos condenava e menosprezava as
predições que este fazia sobre o futuro dos partidos, que haveriam de transpor a etapa de meras
facções. Meio século mais tarde, as organizações partidárias modernas já seriam realidade no
mundo anglo-saxão. Ainda em 1770, Burke definira o partido portador de ideal como “um grupo
de homens unidos para a promoção, pelo seu espaço conjunto, de interesse nacional com base em
algum princípio com o qual todos concordam”.195 Com Max Weber, “o termo ‘partido’ seria
empregado para designar relações sociais de tipo associativo, uma participação fundada em um
ambiente de recrutamento livre. Para ele, o objetivo dos partidos é o de assegurar o poder a seus
dirigentes no seio de um grupo institucionalizado, a fim de realizar um ideal ou obter vantagens
materiais para seus militantes”.196 Abordagem semelhante à de Weber é atribuída a Georges
Burdeau, que define o partido como “(...) qualquer agrupamento de indivíduos que, professando
as mesmas ideias políticas, esforçam-se para fazê-las prevalecer, a um tempo a ele reunindo o
maior número possível de cidadãos e buscando conquistar o poder, ou, pelo menos, influenciar
suas decisões”.197 Para o filósofo norte-americano John Rawls, “os partidos políticos não são
meros grupos de interesse, fazendo petições em causa própria ao governo; pelo contrário, para
ganharem suficiente apoio, a fim de conquistar cargos, os partidos precisam antecipar alguma
concepção de bem comum”.198

9.2 - A tipologia dos partidos


Segundo Maurice Duverger,199 o surgimento dos partidos políticos modernos, os da era
constitucional, divide-se em duas fases, a dos partidos de criação eleitoral e parlamentar (partidos
internos) e partidos externos.
Nesta tipologia descrita por Duverger, os partidos “internos” apareceram primeiro que os
partidos “externos” por razões óbvias. Ainda na fase do liberalismo sem democracia, o sistema
parlamentar representativo era formado por partidos das elites burguesa e agrária. Nos EUA, o
fortalecimento dos partidos ocorreu de maneira inversamente proporcional ao gradativo colapso
do sistema de caucus,200 substituído por eleições populares, situação que motivou a criação de
comitês eleitorais. Os comitês eleitorais, mais estreitamente vinculados à formação dos partidos
de massas, foram largamente utilizados pelos dois grandes partidos norte-americanos, pois esses

195
BURKE, Edmund. Apud, Jean Charlot. Brasília: EdUnB, 1982.
196
CHARLOT, Jean, op. cit., p. 38.
197
Idem, ibidem, p. 38.
198
CHACON, Vamireh, op. cit., p. 3.
199
DUVERGER, Maurice. Os Partidos Políticos. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1987.
200
Sistema de eleição do presidente da república nos EUA, até a década de 1820; “conciliábulo” composto por um
colegiado, uma elite de eleitores, de fortes restrições à participação popular.

221
se viram necessitados de enquadrar uma multidão de novos eleitores que se espalhavam pelo
país, como os imigrantes europeus e os desbravadores que seguiam em direção ao Oeste, que
pouco ou nada sabiam da vida política do país. Na Inglaterra, a realidade política e social da
época dos partidos de quadros não impôs aos grupos parlamentares a formação de comitês
eleitorais. Como o voto era censitário, a maioria da população não participava das eleições,
desobrigando os partidos da época de estabelecer relações estreitas com as massas. Deste modo,
os parlamentares eleitos por pares da mesma classe social, as elites, possuíam elevada autonomia
quanto ao desempenho parlamentar, uma vez que todas as suas decisões seriam em benefício de
sua classe. A consequência foi que no sistema inglês a evolução dos partidos aconteceu por um
caminho nada ortodoxo – a corrupção. Era uma prática corriqueira, no exercício do cargo, o
primeiro-ministro, por meio de suborno, pagar em dinheiro os parlamentares de sua base para
obter apoio da maioria na aprovação de seus projetos. Esse método de comportamento político
acabou por contribuir para a consolidação de longo prazo de uma cultura partidária disciplinada e
coesa. Em contrapartida, ao partido de oposição não restava outra estratégia que não a de imitar o
partido governista em termos de solidariedade e disciplina interna, para combatê-lo e derrotá-lo,
e assim arrebatar o poder.
Esta disputa que se desenvolve no parlamento, contribuiu decisivamente para o
surgimento do primeiro tipo de partido moderno, os partidos internos. Enfim, os partidos internos
são de criação parlamentar e eleitoral porque surgem dentro, isto é, internamente ao próprio
parlamento com o principal objetivo de organizar as eleições sem maior preocupação de ordem
programática. Seus membros possuíam elevada autonomia em relação ao mandato e a influência
do partido em relação ao mandato do parlamentar era bastante flexível. Nesta fase do liberalismo
clássico os partidos se constituíam mais em realidade sociológica do que jurídica, seu status era
de meros “clubes sociais”, como é o caso das “sociedades de pensamento”, muito comuns no
século XIX; ainda não se encontravam inscritos na ordem constitucional, situação diferente da
atual, quando a maioria das constituições modernas tem dedicado espaço formal para a
normatização dos partidos em nível constitucional.
Por esta razão, Duverger denominou os partidos de criação interna de partidos de quadros,
organizações que “não visam (...) a agrupar um número de adeptos tão elevado quanto possível,
mas a reunir pessoas ilustres: a qualidade para eles importa mais que a quantidade. Essas pessoas
ilustres são procuradas seja por causa de seu prestígio que lhes confere uma influência moral,
seja por causa de sua fortuna que lhes permite ajudar a cobrir os gastos das campanhas

222
eleitorais”.201 Entre os melhores exemplos de partidos de quadros estão os dois grandes partidos
da Inglaterra, do século XIX até a década de 1930. Nos EUA, os dois grandes partidos,
Republicano e Democrata, também podem ser classificados no paradigma de Duverger como
partidos de quadros, com a diferença de que estes dois partidos não sofreram a concorrência dos
partidos de massas, fenômeno que, em se tratando de um país de democracia importante, é
considerado excepcional.
Por outro lado, os partidos externos são caracterizados como partidos de massa, cuja
característica é a de “procurar inicialmente proceder à educação política (...) isolar (...) uma elite
(...) os adeptos constituem, portanto, a própria matéria do partido, a substância de sua ação. Sem
adeptos, o partido se assemelharia a um professor sem alunos. Do ponto de vista financeiro, o
partido repousa essencialmente nas contribuições feitas por seus membros. (...) A técnica do
partido de massas tem por efeito substituir o financiamento capitalista das eleições por um
financiamento democrático”.202 A distinção entre partidos de quadros e partidos de massa reside
em uma questão de ordem qualitativa e não quantitativa. Não sendo, pois, a dimensão o fator
distintivo, o fator social resulta como elemento que define um partido quanto à sua estrutura, isto
é, a estrutura social e a categoria ocupacional podem ser fatores decisivos para demarcar as
fronteiras ideológicas de um partido. Enquanto nos partidos de quadros prepondera uma classe
social composta pela nobreza e alta burguesia, nos partidos de massas há a prevalência de
indivíduos de classes sociais modestas compostas por trabalhadores rurais e urbanos organizados
em cooperativas e sindicatos, religiosos, intelectuais e também a classe média, majoritariamente
composta por profissionais liberais. Os partidos “externos” são assim denominados porque sua
criação é exterior ao parlamento. A partir da extensão do sufrágio, na medida em que o voto se
torna universal, mas ainda restrito ao universo masculino, os grupos sociais que conquistam o
direito ao voto se organizam em comitês para competir eleitoralmente.
A diversidade de fatores estruturais que deu origem aos partidos estabeleceu um modo
singular de relacionamento destes com a sociedade, com os representantes eleitos e o próprio
relacionamento intrapartidário. Um partido de origem interna, cuja essência e razão de ser é a
conquista de assentos parlamentares nas assembleias, a reeleição etc., exerce pouco ou nenhum
controle sobre o comportamento político de seus membros eleitos; o tipo de mandato parlamentar
é definido como autônomo, pois os deputados exerceram papel preponderante na formação do
partido. Os mandatários no parlamento são detentores de elevada autonomia na apresentação de

201
DUVERGER, Maurice. Jean Charlot, op. cit, p. 166.
202
Idem, ibidem, p. 166.

223
projetos, na votação desses projetos, no ato de discursar etc., e na mesma medida em que o
mandato é de tipo autônomo, o partido, por sua vez, também não sofre controle social externo,
por isso classificado como partido de tipo flexível.
Situação oposta pode ser conferida aos partidos de criação exterior. A busca do poder
pelo poder, a luta pelas cadeiras parlamentares, o interesse da reeleição etc., não constitui um fim
em si mesmo. Pelo contrário, nessa tipologia de partido, o principal objetivo é “promover certos
valores espirituais e morais da vida pública, o que imprime à ação educativa um lugar tão
importante quanto as lutas eleitorais. Seu desenvolvimento ocasiona, portanto, certo desinteresse
de fato (muitas vezes inconsciente, retrógrado) no tocante a parlamentos e eleições”.203
De criação externa às assembleias parlamentares, os grupos sociais ou profissionais que
lhes deram origem e suporte, limitaram rigorosamente a liberdade de ação e de poder da máquina
partidária. Por serem mais centralizados que os partidos internos eram compelidos à prestação de
contas aos militantes, e as relações orgânicas descritas se estendiam aos parlamentares,
desenvolvendo um tipo específico de mandato, o mandato imperativo. Sob o signo do mandato
imperativo, o parlamentar sofria estrito controle da cúpula partidária, controlada pelos militantes,
fazendo com que a disciplina e a coerência despontassem como o aspecto distintivo dos partidos
externos. O partido de tipo externo é, portanto, uma tipologia de partido rígido que deu origem ao
mandato de tipo imperativo; e este tipo de mandato restringia a autonomia do parlamentar com
relação à apresentação de projetos, discursos e o estilo de votar matérias legislativas de interesse
do partido etc.
A expansão da democracia após a II Guerra Mundial operou relevante conversão no
comportamento eleitoral dos maiores e mais importantes partidos de quadros e de massas. Essas
organizações políticas passaram a ser intituladas como partidos catch-all, cuja tradução mais
difundida é a de “partidos de reunião” ou “partidos de opinião”, porque com o advento de
eleições gradativamente mais competitivas, forçosamente os partidos se viram comprometidos à
registrar maior eficácia e êxito no mercado eleitoral. Este processo impôs às agremiações
partidárias, por temor do sucesso eleitoral dos partidos concorrentes, a necessidade de abandonar
práticas arcaicas, transitando da rigidez ideológica para a flexibilidade programática, com o
interesse de cooptar novos eleitores. Assim, os partidos de quadros, antes refratários ao mercado
eleitoral desenvolvido pela extensão da liberal-democracia, que seus próprios fundadores
(burgueses, em geral) criaram, procuraram adotar uma modalidade de retórica voltada para
questões de apelo popular, como a adesão à reivindicações moderadas de reformas sociais. Os

203
DUVERGER, Maurice. Op. cit., p. 32.

224
partidos de massas, por sua vez, se distanciaram do dogmatismo ideológico como meio de
cooptar o maior número possível de novos militantes, adeptos, simpatizantes e eleitores.

9.3 - A função dos partidos


Nos países da América Latina, de democracia tardia, o desenvolvimento dos partidos
acompanhou a teoria aqui exposta. No caso específico do Brasil, na fase de voto censitário, ou
mesmo ampliado, embora com impedimentos de ordem prática, como na era do Coronelismo,204
os partidos criados eram claramente de origem interna. Somente na fase da primeira democracia
de massas (1945/64) é que surgiram os partidos de origem externa. O PTB daquele período seria
um relativo exemplo de partido de massas e, no período atual, o PT se encaixaria bem no
exemplo. À exceção desses dois partidos, mais o velho PCB e o PC do B, praticamente todos os
outros grandes e importantes partidos no Brasil, de qualquer época, foram partidos de quadros.
Embora pareça existir uma correlação direta entre democracia e sistema partidário, não
constitui verdade absoluta afirmar que uma democracia só conseguiria sobreviver se sustentada
por um sólido sistema partidário. A decadência dos partidos políticos é um mal generalizado que
assola a democracia contemporânea. Por toda parte do mundo onde os sistemas partidários foram
decisivos para estruturar e solidificar a democracia, coincidentemente a crise institucional se
instalou. No Brasil, não só o cenário é semelhante, como também os cidadãos estão
inconsoláveis, assistindo a um espetáculo melodramático, protagonizado pelos partidos, como de
resto pelo sistema partidário, que sofre uma infeliz influência do sistema eleitoral, cuja
reformulação minimamente decente não parece ter luz no fim do túnel.
Muitos estudiosos são contundentes ao desacreditar os partidos brasileiros, como fez
Giovanni Sartori, que não mediu palavras para afirmar que “provavelmente nenhum país do
mundo atual é tão avesso aos partidos como o Brasil – na teoria e na prática. Os políticos se
relacionam com seus partidos como “partidos de aluguel”. Mudam de partido frequentemente,
votam contra a linha partidária e rejeitam qualquer tipo de disciplina partidária, com base no
argumento de que sua liberdade de representar o eleitorado não pode estar sujeita a interferência.
Assim, os partidos são entidades voláteis, e o presidente é deixado flutuando sobre o vazio, com

204
O Coronelismo, enquanto regime político, durou de 1902 a 1930. Este período tem início com a assinatura do
Acordo de Taubaté, caracterizando a aliança de reciprocidade de apoio político nas três esferas de governo
(municípios, províncias e poder Federal) resultando na dominação homogênea de uma oligarquia aparelhada em um
sistema de partido único, o partido Republicano. Sua origem remonta à criação da Guarda Nacional, pelo regente e
padre Diogo Antônio Feijó, em 1831. Após a Revolução de 30, o esquema foi desmontado, mas ainda persistindo
sua reprodução na maioria dos municípios até o fim do Regime Militar. Naquele período, a despeito do voto
universal masculino, o Brasil era um país de população majoritariamente rural e, não sendo o voto secreto, os
eleitores não se sentiam encorajados a confrontar o poder dos grandes proprietários de terra, os “coronéis”.

225
um congresso rebelde e eminentemente atomizado (...) além disso, o credo e a retórica
antipartidárias (para não falar da legislação eleitoral tipicamente antipartidária) fazem com que o
desenvolvimento de qualquer tipo de partido apto ao parlamentarismo seja não só improvável,
mas totalmente inconcebível (...) a tradição e a cultura política atual do Brasil alimentam partidos
inaptos (...)”.205
Dependendo da perspectiva em que se realiza a abordagem teórica, o país se encontra em
seu 5º, 6º ou 7º sistema partidário, sendo lógica a conclusão de que com tantas rupturas na
história institucional de uma nação o resultado não poderia ser diferente do cenário frágil, às
vezes caótico, em que se apresenta o modelo institucional brasileiro. De fato, a
institucionalização dos partidos em nível nacional só teve início com a Constituição de 1946.
Antes disso, é mais razoável falar em facções do que propriamente partidos. Como já teria
afirmado Rui Barbosa, “as ‘facções’ do império são sindicatos de especulação organizada que
destroem a moral pública e corrompem as instituições”.206
Em relação ao primeiro período republicano (1889-1930) não se deve interpretar de
maneira diferente, ou melhor, na realidade ocorreu um retrocesso em relação ao período imperial,
pois o sentimento de federalismo inaugurado pela Constituição de 1891 exaltou os ânimos da
nova elite, que não vacilou em concretizar o ideal de descentralização quanto à atividade
partidária. A mentalidade antipartidária da República Velha operou como “instrumento de
poderosas combinações oligárquicas (...) o federalismo atuou como embaraço à formação de
sólidas agremiações partidárias”.207
Ao lado do breve período constitucional de 46/64, democrático populista, somente no
atual período se pode falar em um sistema partidário de razoável institucionalização. O início da
atual etapa partidária data ainda do regime autoritário. Antecipando a inexorável transição do
autoritarismo para a democracia, o Regime Militar extinguiu o AI-5 em 1979, decretou o fim do
bipartidarismo e sustentou o retorno ao multipartidarismo, prosseguindo sua via crucis
redemocratização adentro. A restauração do pluripartidarismo escondia o interesse particular do
Regime de pulverizar a força da oposição em vários partidos, desconcentrando o poder do MDB,
o partido da oposição ao Regime Militar, que já se encontrava na iminência de democratizar o
Regime dos generais-presidentes, pela possibilidade de sair vitorioso das eleições no Colégio
Eleitoral. Em um primeiro momento, de 1980 a 1985, o novo sistema partidário era composto por
cinco partidos, um pluripartidarismo moderado, que se expandiu em 1985, ano da transição do

205
SARTORI, Giovanni. Engenharia Constitucional, p. 112.
206
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política, p. 379.
207
Idem, ibidem, op. cit., p. 380.

226
poder militar para um regime civil quando “o Congresso aprovou a Emenda Constitucional nº 25,
que, entre outras medidas, liberou a formação de novos partidos políticos. Por parte da
“esquerda”, saíram da clandestinidade os dois partidos comunistas até então enrustidos no PMDB
- o PCB e o PC do B, e também o PSB. Egressos do PDS, além do PFL foram criados o PDC e o
PL. Assim, o sistema partidário expandiu-se de 5 para 11 partidos e o PMDB se tornou
‘dominante’”.208 De 1985 a 2008, o pluripartidarismo dilatou-se ao extremo de ser o sistema
partidário reclassificado de moderado para exacerbado. Hoje, cerca de 20 partidos têm
representação na Câmara Baixa (deputados).
No plano teórico, o sociólogo Robert Michels demonstrou, no começo do século XX, por
meio de sua tese intitulada “lei de bronze da oligarquia”,209 a inexorável tendência dos partidos,
mesmo os mais democráticos, para a formação de uma elite capaz de controlar o poder interno da
agremiação, subtrair e monopolizar a iniciativa popular em benefício do aparelho partidário.
No plano prático, e em relação à função governativa, a reputação dos partidos em geral
ficou gravemente abalada porque a promessa de participação popular nas decisões de governo e
até a autogestão por parte dos partidos socialistas em particular, não foi cumprida por
impossibilidade prática, por incapacidade, e mesmo desinteresse, como denunciou Michels.
Objetivamente, a impossibilidade e a incapacidade ocorrem porque nenhuma democracia possui
instrumentos capazes de oferecer resposta a todos os demandantes de maneira satisfatória.
Contraditoriamente à sua ideia geral, “a democracia se satisfaz em dar às questões importantes
uma solução autoritária. Ela é ao mesmo tempo ávida em esplendor e poder. Quando os cidadãos
tiverem conquistado a liberdade, eles dirigirão toda a sua ambição para possuir uma
aristocracia”.210
A decadência enfrentada pelos partidos, desde algumas décadas, continua a persistir em
razão de sua baixa capacidade representativa, pela debilidade em cumprir as promessas de
intermediação de interesses plurais das sociedades modernas e democráticas. Está cada vez mais
perceptível que em quase todas as democracias a inércia dos partidos vem abrindo um vácuo que
naturalmente termina por ser preenchido pelos grupos de representação de interesses estritamente
privados, os grupos de pressão. Tecendo considerações de cunho interpretativo acerca da
análise de Michels acima citada, há que se deduzir que a ação dos grupos de pressão não
contraria, em tese, os princípios da democracia, mas majoritariamente a prática tem apontado seu

208
FLEISCHER, David. Sistema Político Brasileiro: uma introdução, p. 260. AVELAR, L. e CINTRA, Antonio
Octávio. (org.). São Paulo: Ed. Unesp, 2004.
209
In: Sociologia dos Partidos Políticos. Brasília: EdUnB, 1982.
210
MICHELS, Robert. Op. cit., p. 226.

227
extremado poder de influência nas arenas decisórias, corroendo os postulados do pluralismo,
tornando as decisões elitistas e, por conseguinte, antidemocráticas e/ou autoritárias. O
autoritarismo, como de praxe, reproduz sistemas espúrios, na melhor das hipóteses de contornos
aristocráticos, fazendo da democracia, a rigor, uma simples falácia.
No Brasil, especialmente, a proverbial fragilidade dos partidos, nos dois períodos
democráticos, o de 1946/64 e o atual, iniciado em 1985 – formalmente em 5 de outubro de 1988 -
, expôs e expõe o Estado a uma relação promíscua entre as esferas privada e pública. Tanto
naquele período quanto no atual, os grupos de pressão têm atuado com maior eficiência para
intermediar interesses sociais que os partidos políticos. Com a diferença de que os partidos, na
democracia, existem para intermediar ou representar interesses sociais, coletivos, difusos e
amplos, e os grupos de pressão são criados por agrupamentos sociais bem específicos, mormente
poderosos grupos econômicos entranhados no aparelho do Estado, em aliança espúria, de pouca
legitimidade, com a tecnoburocracia, adquirindo uma autonomia que praticamente os tem
tornado imunes às prerrogativas fiscalizatórias dos outros poderes estatais. Este elevado poder de
capacidade decisória, descrito pela literatura política como “insulamento burocrático”, 211
constitui-se em poderosa associação privatista que usurpa as atribuições dos partidos, pois os
grupos de pressão atuam de forma coesa e disciplinada, interferindo com poderes quase que
ilimitados para confiscar recursos públicos em benefício de seletos interesses privados.

211
CARVALHO, Maria Izabel Valadão de. Crise ou falência: partidos políticos ontem e hoje. O Estudo da Política.
Tópicos Selecionados. RUA, Maria das Graças e CARVALHO, Maria I. V. de (orgs.). Brasília: Paralelo 15, 1998.

228
10 - LEGALIDADE E LEGITIMIDADE DO ESTADO E DO PODER POLÍTICO212

Introdução: legalidade e legitimidade


O princípio da legalidade e o requisito da legitimidade são dois conceitos que tanto podem
estar associados quanto podem ser antagônicos. Em princípio, e somente em princípio, são
conceitos e variáveis que atuam autonomamente, isentos de vinculação ou interdependência. Mas
no sentido genérico, parece haver complementaridade dos conceitos, uma vez que quando
falamos em legalidade, em qualquer contexto pensamos em legitimidade, pois a legitimidade é
uma qualificação da própria legalidade, ou seja, é a legalidade somada a uma valoração, um juízo
de valor. Por outro lado, a legalidade opera como suporte para a legitimidade, pois quanto maior
for a sustentação legal de um governo legítimo mais elevado será seu nível de estabilidade.
Apesar da proximidade, Legalidade e Legitimidade muitas vezes se encontram em
posições antitéticas. Importa ressaltar que ao mesmo tempo pode haver um poder (Estado) legal
sem ser legítimo, e que também pode haver legitimidade em um Estado, cujas instituições e
meios de dominação política não contenham os pressupostos da legalidade. Em outras palavras,
nem tudo que é legal é necessariamente legítimo ao mesmo tempo, e nem tudo o que é legítimo
contém obrigatoriamente os princípios da legalidade. Todavia, quanto mais legítimo for o Estado
entendido como da Legalidade, mais fortes, consolidadas e, por extensão, mais respeitadas serão
as instituições desse Estado.

10.1 - LEGALIDADE
10.1.1 - Do princípio da Legalidade: fundamentos do Estado de Direito/liberal
Lamentavelmente, até mesmo por uma questão de ordem etimológica, o vocábulo
Legalidade tem provocado equívocos quase naturais quanto à compreensão e interpretação de seu
significado, na contramão do que requer o contexto em análise. O leitor desatento pode ser
induzido a conceber que o conceito de legalidade estaria sistematicamente vinculado a todo e
qualquer Estado possuidor de um regime político dotado de texto legal. Por texto legal
subentende-se a existência de um ordenamento jurídico (conjunto de leis, códigos etc.) que seja
precedido de uma constituição, uma vez que a constituição é, na hierarquia das leis, a sua
expressão suprema, derivando daí a denominação Carta Magna.

212
Texto baseado nos verbetes Legalidade e Legitimidade. Dicionário de Política. BOBBIO, Norberto (org.).
Brasília: EdUnB, 1991; Legalidade e Legitimidade do Poder Político. Ciência Política. BONAVIDES, Paulo. São
Paulo: Malheiros, 2004.

229
Mas não. Só pode haver legalidade, ou melhor, só será Estado da Legalidade aquele Estado
que, categoricamente, tiver os poderes limitados e os direitos individuais garantidos. Por poderes
limitados entende-se que autoridades estatais de toda ordem (políticos, militares, juízes e demais
burocratas) estão impedidos de tomar decisões que contrariem a ordem jurídica estabelecida (a
Constituição e as leis infraconstitucionais) e de fazer juízo estritamente pessoal dos casos
concretos, pois o Estado da Legalidade pressupõe não apenas a limitação dos poderes, mas
também o princípio da impessoalidade. No rol dos direitos individuais, estão compreendidos
todos aqueles que são inerentes à pessoa humana, como a liberdade e o direito à vida, valores que
o Estado não pode violar. Por suposto, será sempre arbitrário o poder político que não estiver
sujeito ao controle dos demais poderes. Se isto ocorrer, o referido Estado não pode ser
denominado como sendo da Legalidade, posto que estaria havendo uma formalidade jurídica
distorcida, formalidade caracterizadora de falsa crença de legalidade ou pseudo-legalidade,
também chamada de Legalismo.
Portanto, o significado de Legalidade não pode ser confundido com Legalismo, pois no
Estado da Legalidade seus princípios formadores devem ser bastante sólidos a fim de evitar
lacunas para interpretações ambíguas e desvios de conduta da autoridade
política/jurídica/administrativa. 213 Em contraposição, o Legalismo nada mais é do que um
sofisma, uma simulação grosseira da Legalidade, um desvio ideológico a serviço de ditadores e
de regimes arbitrários. Em nome de uma ação aparentemente constitucional, o Legalismo é
“utilizado muitas vezes como uma estratégia autoritária, de impor uma ação estatal justificada
apenas na necessidade de cumprimento da lei. É o argumento que se esconde na autoridade da lei
estatal para ter validade, quando na verdade há interesses que não podem ser expostos, devido à
ausência de consenso... para submeter-se ideológica e politicamente ao legislador”.214
O conceito de Estado da legalidade está historicamente vinculado aos primados do
Estado de direito, uma tipologia de Estado cujo estágio de relacionamento entre governantes e
governados, e dos governados entre si, alcançou nível tal que nenhuma das partes se situa acima
das leis, não podendo reivindicar privilégios de qualquer gênero ou espécie – independente de
origem, raça, sexo, religião etc.

213
Onde há Legalidade é inadmissível suscitar a transferência de poderes constitucionais do povo para os governantes,
no sentido de que os direitos fundamentais não podem ser suprimidos. Os Direitos Fundamentais são basicamente os
“direitos do homem e do cidadão”, e na Constituição brasileira são aqueles que estão inscritos, principalmente, nos
artigos 1º ao 5º.
214
MOREIRA, Júlio da Silveira. Legalidade e Legitimidade – a busca do direito justo. Âmbito Jurídico, Rio Grande,
55. 31/07/2008 [internet].

230
Deste modo, a consagração da Legalidade se concretiza melhor quando houver ao mesmo
tempo sua coexistência e fusão dos ideais e práticas do Liberalismo e do Estado de direito.
Acima, está inserida uma nota de rodapé (nº 12), sob o título de constitucionalismo, que resume
a ideia de legalidade, liberalismo e Estado de direito: trata-se de doutrinas filosóficas cuja
concretização se realiza apenas se, e somente se, os poderes dos governantes forem limitados e os
direitos individuais forem garantidos pelo Estado. Como o constitucionalismo é o ideal
filosófico que deu vida ao Direito Constitucional, e o Direito Constitucional é a disciplina que
estuda as constituições (realização prática do constitucionalismo), nada mais lógico, como
medida preliminar, que recorrer a uma constituição para avaliar se há ali a Legalidade. Neste
sentido, sabe-se que, para haver legalidade, o Estado deve ser de direito e liberal. De direito
porque limita os poderes dos governantes e garante liberdades fundamentais aos indivíduos;
liberal porque garante a propriedade privada, cujo significado não se restringe apenas aos bens
materiais, mas se estende a bens tão valiosos quanto a vida e as liberdades individuais (e.g.: ir e
vir), liberdades estas especificamente de pessoas singulares que, diga-se, são teses que divergem
de ideologias coletivistas ou comunitaristas.

10.1.2 - As cartas constitucionais: constituição formal e constituição material


O principal objetivo de uma constituição é estabelecer a organização dos poderes
fundamentais do Estado. Mas, de acordo com a teoria constitucionalista, será ela apenas uma
“carta magna” ou “carta de leis fundamentais” e não uma constituição caso os poderes não sejam
limitados e os direitos individuais dos governados garantidos. Esta categoria de constituição
recebe a denominação de constituição formal. Em contraste com a “constituição formal” aparece
a “constituição material”, que é o seu estágio mais elevado, ou seja, quando todos esses direitos e
deveres e os limites do poder são materializados, realizados na prática.
Para efeitos ilustrativos e de confrontação analítica, tome-se a Constituição brasileira de
1988. Esta Carta Magna caracteriza ou não uma constituição ou Estado da legalidade? Sim, é
uma Constituição da Legalidade e concretiza o Estado da Legalidade. E as duas constituições
outorgadas pelo Regime Militar, a de 1967 e a de 1969?215 Não, não eram “constituições” da
Legalidade e muito menos estabeleceram o Estado da Legalidade. Por que sim e por que não?
Em referência à Constituição de 1988, há uma série de direitos e garantias individuais listadas

215
Ainda persiste controvérsia se a “Carta” de 1969 é ou não uma Constituição. Uma corrente afirma que o
“Documento” não passa de uma Reforma da Constituição de 1967. De todos os modos, para a corrente filosófica do
Constitucionalismo, nem uma nem outra são constituições, isto é, não contêm o princípio da Legalidade – a
limitação dos poderes e a garantia de direitos aos governados.

231
nos 78 incisos do Artigo 5º.216 Nesse Artigo é encontrada uma significativa variedade de incisos
que limitam os poderes e impedem o abuso e arbitrariedade das autoridades políticas,
burocráticas e outros agentes estatais. Pode o estudioso, porém, até argumentar que as
instituições estatais no Brasil não têm vigor suficiente para garantir integralmente esses direitos e
de coibir os abusos de autoridade. Consequentemente, a designação dos termos Estado de direito,
liberal ou da legalidade poderiam ser prontamente rejeitados. Todavia, consensualmente acredita-
se que nenhum dos poderes fundamentais (instituições) do Estado brasileiro – legislativo,
executivo e judiciário – luta ou defende abertamente a extinção desses direitos, ou que algum
titular de um desses poderes possa arbitrariamente abolir ou mesmo restringir o exercício
constitucional de poder de autoridades de outros poderes impunemente, em frontal violação à
Constituição. Mesmo com a fragilidade do Estado da legalidade no Brasil, é pacífico que a
sociedade brasileira já formou um consenso cultural em direção ao reforço e consolidação dos
princípios constitucionais da Carta em vigor. Em conclusão, compreende-se que sua
concretização só poderia mesmo ser realizada a partir da criação deste conjunto já existente de
princípios, que se firma como ponto de partida, como aconteceu com as mais desenvolvidas
nações europeias e do norte da América, para a efetivação de uma “constituição material”.
De modo contrário, as constituições do Regime Militar (1964/85) editadas em 1967 e
1969 não constituíram o estado da legalidade, consequentemente também não deram vida ao
Estado de direito. O conteúdo delas, em função de seu viés arbitrário, expressava apenas o
Legalismo e jamais a Legalidade, pois a despeito da formalidade constitucional e da existência
de leis infraconstitucionais, muitos pilares fundamentais não eram garantidos, e mais que isto, as
leis daquelas constituições eram abertamente desrespeitadas pelas próprias autoridades -
principalmente governamentais (poder executivo) -, que impuseram essas próprias leis.217 Na sua
fase inicial, o Regime ainda procurou transmitir uma aparência de normalidade ao argumentar
que a nova ordem política seria um “regime de exceção” posto que transitório, havendo a solene

216
O Art. 5º compõe o Capítulo I (Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos) do Título II (Dos Direitos e
Garantias Fundamentais). Os referidos Direitos Coletivos tratam de conquistas dos chamados direitos de 2ª geração e
estão relacionados à Democracia, não propriamente ao liberalismo (Estado de direito). Onde os direitos individuais e
coletivos são garantidos em uma Constituição, implicitamente ali estarão presentes os ideais do Estado de direito
(liberal) e da Democracia. Isto explica o fato de o regime político brasileiro ser formalmente definido como “Estado
democrático de direito” (CF, Art. 1º.). Em minha opinião, a denominação mais correta seria “Estado de direito
democrático” uma vez que tanto no Brasil quanto em qualquer outro Estado, comumente o Estado de direito (liberal)
antecedeu a democracia.
217
Muitos dos incisos do Art. 5º da atual Constituição, que dispõem sobre os direitos e garantias individuais, também
constavam das constituições do Regime Autoritário Militar, principalmente em seus artigos 150 (CF. de 1967) e 153
(CF. de 1969), mas na prática, o que vigorava eram as constantes violações e arbitrariedades, como as prisões
arbitrárias contra adversários do regime, cassação de mandatos e direitos políticos de opositores, transferência e
demissão de juízes, fechamento do Legislativo, rígida censura à imprensa e à liberdade de expressão etc.

232
promessa de que novas eleições gerais ocorreriam em outubro de 1965, e que o período de
“exceção” seria uma medida conjuntural a serviço da democracia, para proteger o Brasil do
estado de anarquia em que se encontrava naquele momento. Então, o Regime Militar, desde seu
início até 1967, governou com a Constituição liberal-democrática de 1946, mas em paralelo os
famigerados Atos Institucionais (AIs) violentavam o ordenamento jurídico recepcionado,218 pois
recorrentemente suspendiam os direitos e garantias fundamentais, requisitos formadores do
princípio da Legalidade.
Pode ser bem verdade que havia um distanciamento de ideias e procedimentos, mas
relativamente à ordem constitucional é um fato curioso notar que Hitler não deu à Alemanha uma
constituição, e sim governou com a constituição do regime anterior, que era liberal e
democrática. Mas diferentemente de Hitler, o ditador Josef Stálin respondeu ao Ocidente
constitucional com ironia, em 1936, ao outorgar ao povo da União Soviética, uma “constituição”.
Não satisfeito, o sombrio regime soviético aprovou, em 1977, outra versão constitucional da
ditadura totalitária de Stálin. Em seu artigo 2º estava esculpido que todo poder pertencia ao povo,
mas em clara contradição a este mandamento o artigo 6º reafirmava o total monopólio do poder
político e da atividade estatal do Partido Comunista. O artigo 49 garantia ao cidadão o direito de
criticar os organismos do Estado, mas o artigo 62 prontamente abortava essa possibilidade ao
ordenar que os cidadãos da URSS estavam obrigados a salvaguardar os interesses dos estados
soviéticos e intensificar o seu poder e prestígio.219
A consolidação do princípio da legalidade é um evento muito mais recente que a
identificação da legitimidade. Em tese, pode-se falar em legitimidade desde os primórdios do
Estado, mas a legalidade, rigorosamente, tem como marco fundador, histórica e geograficamente,
as revoluções liberais, cujo teatro de operação ocorre no moderno Estado Ocidental.
Quando falamos em legalidade, a primeira ideia que surge vem associada a um arcabouço,
um ordenamento jurídico, em um determinado território que, como mencionado acima, aponta
para o Estado moderno como sua base de sustentação. Como em qualquer outro Estado, este
ordenamento jurídico, claro, é um conjunto de leis instituídas para que o Estado garanta sua
supremacia - autoridade, dominação, consentimento - por meio da obediência dos governados e,
em última instância, um meio de imposição da “paz social”. Por se tratar de uma ideia simplista,

218
Dentre os AIs, o mais ilustrativo foi o AI-5, que logo em seu artigo 2º decretava o fechamento do Congresso
Nacional e garantia poderes absolutos ao presidente-general para legislar em todas as matérias e exercer as
atribuições tanto do Legislativo federal quanto dos sub-nacionais. Entre outras aberrações, o chefe do executivo
tinha poderes absolutos para confiscar bens, decretar o Estado de Sítio, cassar mandatos e direitos políticos de
“quaisquer cidadãos”, exercer “liberdade vigiada”, suspender a garantia de habeas corpus etc.
219
In: Paul Johnson, op. cit., p. 575.

233
a mera existência de um ordenamento jurídico pode indicar o princípio formador da legalidade.
Por isso, um determinado Estado que possua uma Constituição e um conjunto de leis
infraconstitucionais, códigos etc., poderia ser definido como um Estado da Legalidade? Em
sentido amplo sim, mas em vez de Legalidade, a denominação mais adequada seria Legalismo,
como foi acima definido, ou pseudo-legalidade. Em sentido estrito, como quer provar este texto,
nem todo Estado se constitui automaticamente em Estado da legalidade, incluindo aqueles
Estados dotados de Constituição, de um conjunto de leis genéricas e abstratas, como as leis
complementares, ordinárias e os códigos em geral. Considerando tais instrumentos suficientes,
praticamente todos os Estados conteriam o princípio da legalidade, até mesmo as ditaduras mais
brutais, afinal todos os Estados da atualidade, de alguma maneira, possuem constituições e leis
escritas, como esclarece Raymundo Faoro: “O regime autoritário convive com a vestimenta
constitucional... adulterando-se no aparente constitucionalismo – o constitucionalismo nominal,
no qual a Carta Magna tem validade jurídica mas não se adapta ao processo político...(nesses
Estados) a soberania popular não existe, senão como farsa”.220
Neste sentido, quais seriam os pressupostos minimamente consensuais para haver a
configuração do princípio da legalidade, isto é, para definir um Estado como sendo da
legalidade? Um primeiro e mais clássico método está diretamente ligado ao conceito de Estado
de direito. Por suposto, subentende-se que todo Estado da legalidade é um Estado de direito e
vice-versa. Assim, também é lógico o raciocínio de que nem todos os Estados que possuem uma
Constituição, leis e códigos legais seriam também Estados de direito, muito embora todo Estado
para ser reconhecido como Estado de direito necessariamente deva ter uma Constituição e um
conjunto de leis, ainda que tal Constituição não seja escrita e que as leis não estejam codificadas,
como é o caso histórico da Inglaterra,221 com todo o seu ordenamento jurídico baseado no
Common Law, isto é, nos costumes.
É um fato corriqueiro notar, nos diálogos do senso-comum, nas crônicas de jornalismo
político e jurídico que o conceito de legalidade tem sido vítima de recorrente banalização acerca
de seu significado. Possivelmente pelo uso indiscriminado da terminologia, o manejo indistinto
do vocábulo tem gerado mais dúvidas e incertezas do que propriamente clareza de informação.
Assim sendo, não constitui simples tarefa desmistificar um conceito que vem sendo
instrumentalizado de maneira genérica, portanto ambígua, desde a formação das primeiras

220
In: Os Donos do Poder, p. 373.
221
Mesmo não sendo escrita, portanto costumeira ou consuetudinária, a Carta Magna Libertatum inglesa, de 1215, a
mais antiga Carta de Leis Fundamentais em vigor no mundo é, a partir da reforma de 1690, um dos mais ilustrativos
exemplos de Constituição do Estado de direito ou Estado da legalidade.

234
organizações estatais. Mesmo depois da formidável instituição política criada pelos gregos e
romanos na Era Clássica - a democracia - o princípio da legalidade não foi muito além de um
ideal, o ideal de isonomia, como de resto a própria democracia daqueles tempos, porquanto a
participação popular nas decisões políticas se restringia a uma parcela minoritária de homens - e
apenas homens - privilegiados. Enfim, não é legalidade, mas pseudo-legalidade ou simplesmente
legalismo quando “o Estado coloca as normas legais estatais como a verdade absoluta,
independentemente de qualquer evidência (fato social), argumento ou interpretação
extensiva...”.222
Por se tratar de um termo-conceito um tanto complexo, poderia ser mais conveniente
recorrer a um esquema prático elaborado por uma autoridade incontestável no assunto como o
filósofo político e jurídico Norberto Bobbio. Aponta ele três premissas básicas para classificar
com segurança um Estado ou uma Constituição que contenha o princípio da legalidade. Desses
pressupostos, sobressai a conclusão de que deve haver razoável coincidência entre o que
determina uma Constituição e a respectiva obediência das autoridades estatais em relação a Ela,
pois só a segurança jurídica garantiria uma margem de certeza dos governados quanto à atuação
dos governantes, representantes, magistrados, autoridades estatais e, por consequência, tal
segurança jurídica seria eficaz para assegurar a obediência e o consenso social. Do contrário,
qualquer outra forma de princípio da legalidade contido em uma determinada Constituição
tornaria tal Estado apenas um Estado de direito de fachada, e tal Constituição não seria nada mais
nada menos que uma fábula ou ficção jurídica.
Em suma, os pressupostos de um Estado da legalidade devem conter necessariamente estes três
princípios norteadores listados abaixo:
1º) o príncipe não é mais legibus solutus;
2º) na relação entre o príncipe e seus súditos, a ideia do governo das leis tem que ser por
meio da promulgação, e só excepcionalmente por ordenações e decretos; ter validade para todos
e nunca para grupos em particular, e;
3º) a aplicação das leis em casos particulares: as decisões judiciais devem ser
fundamentadas de acordo com o prescrito na ordem jurídica. Sua definição máxima é a
conhecida expressão latina: “nullum crimen, nulla poena, sine lege”.223

222
MOREIRA, Júlio da Silveira. Op. cit.
223
BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Verbete: Legalidade, p. 675. Esta expressão latina está consagrada na
Constituição brasileira de 1988, Artigo 5º, inciso XXXIX, com a seguinte tradução: “não há crime sem lei anterior
que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”.

235
Em relação ao primeiro item, a dedução lógica é de que no Estado de direito (legalidade) todos
os governantes devem ter poderes limitados, não podem ser absolutos no exercício do poder, e
muito menos legislar sozinhos, absolutamente. Por consequência são impedidos de ser legibus
solutus.224 Quanto ao segundo item, subentende-se que em todo Estado de direito há regras
claras, delimitadas e limitadoras quanto ao poder de legislar; as relações entre legislativo e
executivo devem ser reguladas para evitar a tentativa de usurpação de atribuições de um poder
pelo outro. Na Constituição brasileira as regras que garantem a independência dos poderes e a
essência do Estado de direito se encontram inscritas genericamente no Título IV (Da
Organização dos Poderes) e especificamente no mesmo Título IV, Seção VIII (Do Processo
Legislativo). Já o terceiro item trata de questões relativas à esfera civil (dos conflitos dos
indivíduos entre si), em que o Estado não pode abrir mão de ser o juiz imparcial, recebendo a
denominação de Estado-juiz. Este monopólio é de suma importância para garantir a soberania do
Estado, a supremacia e a igualdade de todos perante a lei – pilares do liberalismo; além do mais o
poder jurisdicional do Estado deve ser fundamentado nas leis preexistentes, observando a estrita
legalidade e só eventualmente admitindo o uso do poder discricionário, perseguindo o objetivo
de evitar o exercício do poder arbitrário.
Desenvolvido o conceito de legalidade, torna-se patente e perceptível a diferença crucial
entre um Estado da legalidade e outro que não se insere nesta classificação. Em geral, os regimes
que não se caracterizam como da legalidade são regimes autoritários e ditatoriais de toda ordem.
Não importa se uma ditadura fascista ou socialista; se há despotismo ou tirania. Uma vez
reconhecidos como autoritários, constituem regimes incompatíveis com o Estado de direito. Nos
estados de direito, ao contrário, não se admite governos autoritários, pois uma de suas premissas
básicas é justamente o fato de que o poder tanto do Estado quanto dos governantes seja limitado,
cuja consequência em termos práticos vem a ser a garantia dos direitos inalienáveis,
indisponíveis, invioláveis e imprescritíveis dos indivíduos. Em síntese, a segurança
inquestionável da propriedade privada, que engloba o direito à vida, à liberdade individual (v.g.
direito de ir e vir), a livre iniciativa etc.

224
Literalmente “legislador absoluto”, geralmente um monarca que concentrava todos os poderes em suas mãos, além
de poder legislar sem encontrar barreiras, ou poderes contrapostos. O filósofo liberal Montesquieu foi um dos mais
ferrenhos adversários do poder de legislar absolutamente. Sua Teoria da Separação de Poderes era considerada um
dos mais eficazes instrumentos contra o Absolutismo e garantidor do Liberalismo.

236
10.2 – LEGITIMIDADE

Introdução
Em primeiro plano, uma necessária advertência: o tratamento da abordagem do conceito
de legitimidade ficará concentrado especificamente no âmbito do Estado, pois em se tratando de
exame referente às relações de poder, dominação e obediência na esfera da política o Estado
resulta simultaneamente em sujeito e objeto diretamente conectado aos três acima, entre outros
similares, destacados substantivos; o Estado é, em última análise, o ponto de convergência de
todas as correlações de força da sociedade, pois que em seu núcleo se assenta a “pacificação” das
forças antes em luta, quando por meio do monopólio do poder coercitivo o grupo vencedor
ascende à condição de “governo” e o restante da comunidade se acomoda sob o status de
“governados”. Contudo, não se pretende decretar a impossibilidade de examinar os efeitos da
legitimidade nas relações interpessoais, fora da esfera de ação do poder estatal, porém como este
é um tema relativo apenas à sociologia e não campo de ocupação da ciência política é oportuno
reafirmar que o objetivo deste estudo são as instituições políticas (do Estado), portanto a análise
recai sobre a legitimidade do poder político/estatal, reclamando da ciência política a efetividade
de sua atuação investigativa.
No delimitado espaço físico denominado Estado o tema exige avaliação do nível das
relações entre este e a população (os governados). Caso tais relações sejam satisfatórias, há o
pressuposto de legitimidade; estando as relações conturbadas, havendo resistência ou
significativa desobediência quanto às decisões do poder estabelecido configura-se a existência de
ilegitimidade. Como meio lógico de explicação do funcionamento desta tipologia de correlação
de forças, entre poder de mando e obediência, a universalidade teórica da física newtoniana
auxilia na compreensão desses eventos da sociologia política reconhecendo que em praticamente
todos os estados, não importando as orientações ideológicas do regime, com maior ou menor
constância, são percebidos movimentos em direções opostas redundando em fricção das duas
esferas que compõem o Estado (governo e sociedade). Esta correlação política entre massa e
movimento poderia ser descrita, respectivamente, como aquela existente entre a dominação de
poder político e o consequente nível de consentimento e obediência dos governados. Por
conseguinte, a cartilha que orienta a manutenção do poder ensina que são mais bem sucedidos os
governantes que não ignoram a importância de estabelecer o princípio do “do uti des” (relações
de reciprocidade), não importando o nível de controle de poder monopolizado por quem governa.
Convencionalmente, o poder político ou poder do Estado é reconhecido como legítimo
quando uma parcela significativa da população (os governados), não necessariamente a maioria,

237
garante relativo “grau de consenso capaz de assegurar a obediência sem a necessidade de recorrer
ao uso da força, a não ser em casos esporádicos”.225
Ao contrário do que concorre para a definição do termo-conceito Legalidade em relação a
seus pré-requisitos, um regime político para ser legítimo não exige, necessariamente, que seus
governantes tenham poderes limitados e que o Estado garanta a igualdade de todos perante a lei,
a liberdade de expressão, de opinião, de associação etc., condições consideradas sine qua non
para a existência de um Estado ou regime da Legalidade (Estado liberal ou de Direito). A priori,
qualquer regime é passível de ser legítimo, independentemente de sua natureza e princípios,
bastando para tanto que estejam evidentes os sinais de concordância, consentimento. De fato,
quanto mais presentes estiverem os princípios da legalidade, mais legítimo poderá ser o regime
ou o poder político porque maior será a liberdade dos governados para expressar seu
consentimento e obediência, na forma de adesão, àqueles que se encontram nos postos de
dominação, sem a necessidade de recorrer ao uso do poder coercitivo, a não ser, como afirma
Max Weber, como ultima ratio.
Teoricamente, todo Estado pode ser legítimo, isto é, a maioria ou a parte mais
significativa226 da população aprova as instituições do Estado ou a forma como o poder é
exercido. Ainda na Era Antiga, nos primórdios do Estado, o princípio da legitimidade já podia
ser detectado nas relações de dominação (por parte da organização estatal) e, do outro lado, a
resposta dos governados na forma de obediência. Portanto, não é exata a afirmação de que todo
Estado ou poder é automaticamente legítimo, porque nem sempre existiu e existe a convergência
entre a obediência dos governados (sociedade) em relação ao exercício do poder (governantes);
em outras palavras, nem sempre há coincidência entre o que deseja a sociedade e o modo como o
governo, os titulares do domínio do poder o exercem. De acordo com a fórmula de Sieyès “A
autoridade vem de cima, a confiança vem de baixo”.227
O conceito de legitimidade, aqui contextualizado especificamente em âmbito político, é
um conceito portador de sentido dinâmico, vinculado à predisposição da opinião pública em
aceitar – com mais ou menos resistência – a efetividade do poder político. Assim, a legitimidade
é referente a um conjunto de valores e crenças de uma determinada sociedade, em um

225
LEVI, Lucio. Dicionário de Política. Verbete: Legitimidade, p. 675.
226
Não é apenas o princípio da maioria da população que detém o poder de legitimação do Estado ou do poder
político. Pode ocorrer que uma parte não majoritária, mas significativamente mais poderosa de uma sociedade
detenha a capacidade de influenciar agrupamentos numericamente superiores, mas de menor capacidade de
articulação político-ideológica. Por exemplo, os meios de comunicação de massa, que em geral se encontram em
poder das elites, são fortes instrumentos ideológicos de convencimento para obtenção de consenso e obediência das
massas - os governados.
227
FAORO, Raymundo, op. cit. p. 373.

238
determinado período histórico e espaço geográfico, que leva ao consentimento, à obediência, à
aceitação, à aprovação do poder de dominação – o poder coercitivo ou político. Portanto, se em
uma determinada época ou lugar, uma sociedade, guiada por suas crenças e conjunto de valores,
vier a julgar que seja conveniente obedecer – o que importa em adesão - a um governo despótico
ou ditatorial, dificilmente a ascensão de um regime democrático, em substituição àqueles,
conseguirá garantir maior grau de legitimidade para si. Em poucas palavras, quanto maior a
simetria que houver entre o que deseja a população e o que retribui o Estado (poder) mais
legitimidade existirá ali.
Entretanto, a configuração da legitimidade de um regime de natureza despótica ou
ditatorial aparenta ser por si mesmo um paradoxo, dado que os governados não parecem estar
naturalmente resignados a se subjugar e muito menos apoiar regimes arbitrários,
consequentemente violentos. Se, ao invés de uma relativa autonomia de manifestação do
consentimento para o exercício do poder, estiver havendo um excesso de uso do poder coativo,
estará havendo um legitimismo ou pseudo-legitimidade. O legitimismo é uma forma oblíqua de
legitimidade que compreende “o processo pelo qual se buscará que uma norma ou ordem oficial,
independentemente de seu conteúdo, seja aceita pela população sobre a qual incide, e, em
consequência, seja cumprida sem recurso...”.228 A distorção da legitimidade tem origem quando o
abuso de poder sobressai sobre o livre consentimento de quem se encontra na posição passiva, de
objeto do poder. Este é o caso do exercício do poder de fato, quando o uso do aparato repressivo
se faz de maneira recorrente para a obtenção da concordância do poder. Uma autoridade quando
perde ou tem escassa legitimidade abandona total ou parcialmente o uso poder de convencimento
(aparato ideológico) e recorre ilimitadamente à violência física (poder coercitivo) para manter a
dominação. Nessa situação, o nível de obediência encontrado não configura necessariamente uma
legitimidade, mas uma distorção dela, a pseudo-legitimidade (legitimismo). Em contrapartida, o
poder legítimo só recorre à força física (aparato repressivo) como último recurso, pois seu
instrumento específico de legitimação é o poder de convencimento operacionalizado por meio da
propaganda política, uma ferramenta do aparelho ideológico, pré-requisito de todo Estado,
mesmo os mais arcaicos. Nos Estados com mais legitimidade, os governados podem mais
livremente, embora não totalmente, expressar opiniões, considerações e até oposição tanto ao
tipo de poder que é exercido quanto aos próprios agentes que o exercem. Ali as autoridades
estatais ao tomar suas decisões se baseiam mais no ordenamento jurídico, e este ordenamento

228
MOREIRA, Júlio da Silva, op.cit.

239
jurídico é mais conforme com a cultura daquele povo, de maneira que em substituição ao poder
de fato aí desponta soberanamente legítimo o poder de direito.
Em conclusão, não é toda e qualquer decisão da autoridade que deve ser considerada
legítima, mesmo que esta decisão esteja baseada na lei, pois não é raro existir leis que contrariam
frontalmente os hábitos, os costumes, as crenças e aspirações de uma sociedade, de tão absurdas
e contraditórias que são. Já nas sociedades mais avançadas ou onde tanto o Estado quanto o
poder é mais legítimo as leis e as decisões se encontram mais em consonância com as
expectativas dos cidadãos, e quando velhos hábitos e costumes caducam pelo desuso, muitas leis
deixam de ser aplicáveis, se tornam letras mortas juridicamente, mesmo continuando inscritas
nos códigos,229levando à conclusão de que a máxima “nem tudo o que é legal é legítimo” requer
atenção das pessoas quando elas estão muito predispostas a mirar mais na legalidade do que na
legitimidade.
Como mecanismo de melhor ilustração, feitas essas primeiras considerações conceituais,
dados e exemplos históricos podem ser convenientemente aplicados ao mesmo tempo aliados a
enfoques comparativos. Tome-se a Alemanha atual como estudo de caso: considerando os
valores e crenças de sua sociedade, seria bastante improvável, hoje, a adesão e consequente
aprovação do povo alemão se houvesse a tentativa de estabelecer por lá qualquer tipo de regime
com características autoritárias. É notório, no entanto, que no passado bem recente, parte
significativa da mesma sociedade alemã apoiou ostensivamente, durante grande parte de sua
existência, o regime nazista – uma tipologia de autoritarismo extremado (totalitarismo), que
conjuga poderes ditatoriais da esfera política e da esfera privada submetendo-as à arbitrariedade
de um governante absoluto.
Talvez, até mesmo no Brasil, onde por razões óbvias a crença nas instituições democráticas
não se encontra em níveis tão consolidados quanto na Alemanha, podemos afirmar com razoável
margem de acerto que a maioria ou a parte mais influente da sociedade brasileira não apoiaria, no
estágio atual, um possível retorno a formas ditatoriais de governo – seja de conteúdo autoritário,
e menos ainda totalitário. Com base nessa linha de argumentação, teoria e verificação empírica
afirmam não se tratar de tendência estática, mas seguramente um processo dinâmico. Concluindo
o ilustrativo exemplo da Alemanha, chega a ser assustador que um dos países mais civilizados
politicamente do universo tenha, do início do século XX até a sua metade, transitado por quatro

229
O Código Civil brasileiro de 1916 pode ser lembrado como exemplo. Enquanto não foi substituído pelo atual, de
2002, vários artigos já não eram mais aplicados pelos magistrados por serem obsoletos, portanto ilegítimos.

240
regimes políticos diferentes.230A conclusão a ser extraída é a de que mesmo uma comunidade
política desenvolvida pode ser refém da desordenada plataforma de governo empreendida por
seus líderes levando-os a um desesperado, senão esquizofrênico, processo de
escolha/legitimação.
Por suposto, tanto mais legítimo será um Estado - e por extensão o regime, o governo, as
ações das autoridades estatais - quanto maior for o grau de consentimento dos governados.
Quando o consentimento dos governados for de aprovação e, portanto, legitimação, pressupõe-se
que há convergência entre as aspirações da sociedade e o comportamento dos agentes políticos
e/ou desempenho das instituições do Estado. Enfim, é concebido como legítimo o poder político
se e quando o conjunto de instituições do Estado (governo, regime político, os políticos e a
burocracia pública) consegue atender, se não totalmente - o que é impossível - pelo menos
satisfatoriamente as demandas básicas da sociedade. Demandas básicas podem variar de tempos
em tempos e de sociedade para sociedade, mas em geral são compostas por alguns valores e
crenças quase universais, tais como segurança interna e externa, desenvolvimento econômico,
justiça, equidade social etc. Porém, alguns valores sociais relevantes orientam formas peculiares
de legitimidade, em razão de símbolos de ordem cultural, religiosa, étnica etc. Tais valores,
costumes e crenças concorrem para legitimar regimes específicos, que levam em consideração
particularidades diversificadas e divergentes como a liberdade e a participação política na
democracia representativa, o igualitarismo no socialismo, a hierarquia social e privilégios em
regimes aristocráticos, a crença em poderes divinos nas teocracias, a estrita submissão à
autoridade em regimes autoritários ou despóticos etc.
Não se deve perder de vista que dificilmente haverá um Estado ou um poder político
totalmente legítimo. Mesmo em uma sociedade bastante democrática ou intensamente autoritária
haverá indivíduos ou grupos de indivíduos insatisfeitos que buscarão instrumentos para mudar o
regime, e uma das formas para atingir esse fim acontece pela recusa da não obediência à
autoridade e, ao mesmo tempo, pela tentativa de deslegitimá-las a fim de obter a adesão popular
às suas aspirações. Por isso, é perceptível tanto na retórica dos que exercem papel de governo
quanto na retórica dos que atuam na oposição, certa dose de distorção entre ideia e realidade,
entre o ser e o dever ser (o que é e o que deveria ser), o ideal e o real, que poderíamos denominar
de ideologia, uma situação de farsa - ainda que relativa - impregnada em toda relação de poder,
isto é, onde há poder, necessariamente haverá ideologia. Deste modo, toda facção ou grupo que

230
Após a I Guerra Mundial e a extinção do Império alemão, surge a República de Weimar, em 1919. Durou até 1933,
quando foi substituída pelo Nazismo. Com o fim do regime hitlerista, a Alemanha voltou à democracia, em 1946,
seu 4º regime político em menos de meio século.

241
busca o poder, ou aspira ao poder, procura influenciar as massas para obter apoio às suas
aspirações de poder como se estas configurassem o melhor, e talvez único, caminho para
consolidar a estabilidade. Esta influência será mais ideológica onde os indivíduos forem menos
livres para expressar sua adesão, seu consentimento, e quanto menos livres forem, maior será a
influência ideológica que as facções em luta utilizarão para obter consentimento e apoio das
massas. É por isso que no Ocidente, costumeiramente, se afirma que os regimes de democracia-
liberal são mais legítimos que os regimes não-liberais e antidemocráticos. Enquanto nos regimes
não-democráticos os indivíduos enfrentam graves limitações de expressar seus sentimentos e
preferências (juízos de valor), liberdade de expressão e associação, nos Estados liberais e
democráticos do Ocidente esses princípios já se encontram consagrados por suas instituições e,
portanto, mais legitimados pela sociedade.

10.2.1 – Legitimidade e oposição


Nesta ordem de raciocínio, as relações entre oposição política e governo convergem na
mesma direção das relações entre sociedade e Estado. Quanto mais livre for o status da oposição
muito provavelmente mais legítimo será o Estado e, geralmente, uma oposição livre tem como
resultado substancial uma sociedade igualmente livre. De maneira diversa, nas sociedades em
que as liberdades de oposição são ameaçadas ou inexistentes, certamente os opositores procuram
meios estratégicos de difundir suas ideias na clandestinidade, tramando a conquista do poder por
meios obviamente ilícitos – mas eventualmente legítimos – abrindo caminho ao processo
revolucionário.
Nos estados democráticos, onde a oposição não apenas é aceita, mas desejável, tem-se
como consequência o fortalecimento da democracia pelo próprio comprometimento da oposição
com as instituições democráticas. Assim, a oposição acaba se comprometendo com as
instituições que regulam a disputa pelo poder político e o próprio poder político do governo em
exercício, muito embora sejam adversários, pelo fato de que sua aspiração primordial é a
conquista do poder. Quando assume as funções de governo, a outrora oposição também espera de
seus adversários – ex-governistas e agora oposicionistas – que igualmente obedeçam às regras do
jogo, mesmo não concordando com o novo estilo de governar. O estilo da ex-oposição de
governar não imprime mudanças radicais, no máximo opera políticas reformistas diversas das
transformações radicais impostas por grupos que chegam ao poder por meio de um processo
revolucionário. A estratégia reformista é um método praticado pelas elites do poder que
conseguem cooptar lideranças adversárias em ascensão, estranhas ao regime dominante, que, se
confrontadas, seriam capazes de romper a ordem vigente. Para se manter no poder, a elite

242
dominante promove reformas superficiais destinando postos políticos/burocráticos à contra-elite,
evitando o colapso de sua hegemonia política. A crise de hegemonia, como explica seu mais
importante teórico, o italiano Antonio Gramsci, muitas vezes é superada quando a elite
dominante põe em prática a “revolução passiva”, por outros teorizada como “política reformista”,
embora em contextos diferentes.231
De modo contrário, se o Estado não quer ou não consegue atender de modo satisfatório às
demandas dos governados - sejam eles súditos ou cidadãos - o consenso que havia, ou que era
esperado, se desenvolve para um princípio de contestação da esperada legitimidade. Dependendo
do momento histórico e do grau de amadurecimento da sociedade, a contestação pode ser de
revolta, revolucionária ou reacionária. Na primeira, de acordo com as lições da história, não são
operadas mudanças substanciais nas instituições políticas pelo fato de que os atores sociais
envolvidos não se encontram amadurecidos o suficiente para impor transformações; almejam, em
geral, simples restabelecimento de direitos que eventualmente lhes teriam sido subtraídos.
Na contestação de natureza revolucionária os militantes do movimento alcançaram
elevado grau de organização; o grupo rebelado e seu meio social se encontram amadurecidos, e o
grau de consciência de classe está apto a conquistar o poder e exercê-lo com eficácia; é capaz de
produzir mudanças estruturais nas instituições estatais, uma vez que socialmente as mudanças
também foram profundas e não há mais forma razoável de convivência entre aquele agrupamento
social progressista e instituições políticas arcaicas e retrógradas, originando um novo governo – o
governo revolucionário. Por fim, na contestação reacionária os elementos conscientização
histórica e amadurecimento de classe social rebelada estão presentes, mas em contraste com a
contestação revolucionária os militantes reacionários não buscam estabelecer uma ordem
renovadora, progressista, mas antes de tudo o regresso a alguma forma antiga de ordenamento
social. No Brasil o Integralismo e na Europa o nazi-fascismo, em suas etapas de mobilização,
seriam exemplos referenciais de contestação reacionária uma vez que seus defensores
objetivavam a restauração da antiga cultura em oposição aos símbolos da emergente civilização
cosmopolita.
Em suma, tanto a contestação revolucionária quanto a reacionária representam a aspiração
de ascensão ao poder de uma nova classe social, configurando uma nova elite política. A
primeira, entrosada com as camadas mais baixas da pirâmide social, econômica e política; a
segunda, social e economicamente coordenada com as camadas baixas, composta por atores
relevantes circulando nos bastidores do poder. Esses dois extratos de contra-elite, adversários

231
Para o assunto “revolução passiva” vide abordagem mais extensiva no capítulo de Marx.

243
inconciliáveis, atuam organicamente para se tornar a nova elite do poder. Em comum, utilizam
instrumentos semelhantes de ação política, a força, como meio de defenestrar do poder a classe
superior da pirâmide, esclerosada, incapaz de renovar-se, anteriormente a elite do poder.

10.2.2 - O encontro entre legalidade e legitimidade


A contestação da legitimidade de um governo da legalidade pode ser entendida como a
contestação de um regime liberal ou do Estado de direito, que nos nossos dias, em razão das
franquias democráticas, tem o significado de contestação dos regimes liberais e democráticos ou
democráticos de direito na linguagem ideológica do Constitucionalismo.
O primeiro encontro entre legalidade e legitimidade ocorreu logo após o estabelecimento
do primeiro Estado de direito, na Inglaterra pós-revolução liberal. Mais tarde, no final do século
XVIII, EUA e França se juntam a ela para formar uma seleta confraria do liberalismo. Com
exceção da França, os dois outros parceiros não sofreram revezes nem grandes dificuldades para
consolidar o novo regime. Em outras palavras, a legalidade obteve em pouco tempo a
legitimação, e de lá para cá, tanto Inglaterra (1689) quanto EUA (1787) não conheceram, em
sentido formal, qualquer regresso constitucional; pelo contrário, a legitimidade do Estado de
direito (legalidade) quase não foi questionada porque poucos tinham a perder sob este regime,
que já se encontrava em nível avançado de organização. A pressão das camadas sociais gravitava
mais em torno de reivindicações por reformas a fim de garantir benefícios materiais por meio de
políticas públicas patrocinadas pelo Estado. Assim, o Estado de direito (liberal clássico) nesses
dois países, por meio de políticas reformistas - e não revolucionárias - evoluiu em direção à
democracia, comumente recebendo a denominação de liberal-democracia.
Na França, pelo contrário, o princípio da legalidade estabelecido com a Revolução de
1789, conheceu sua primeira grande crise com o restabelecimento da monarquia em 1815.
Objetivava a nova elite do poder a restauração da velha ordem pré-revolucionária, ao ancien
régime, aos privilégios estamentais e ao governo de poderes absolutos, enfim um exemplo
vitorioso de contestação reacionária, novamente derrotada, 15 anos mais tarde. Simultaneamente
às reivindicações regressistas, facções progressistas (democratas e socialistas) difundiam suas
ideias em busca do apoio das massas para estabelecer sociedades igualitárias não apenas na
França, mas por todo o continente europeu. Deste modo, os governos liberais se viram
pressionados a combater, ao mesmo tempo, em duas frentes. À direita, com os olhos no passado,
enfrentando os conservadores absolutistas; à esquerda, na tentativa de sufocar ou contornar o
ímpeto dos revolucionários socialistas marxistas, anarquistas e democratas (moderados e
radicais). Desta maneira, por todo o século XIX, em quase todos os estados europeus, a ruptura

244
da legitimidade do liberalismo foi contestada com o objetivo de estabelecer uma nova
legitimidade - a legitimidade do socialismo - que seria empreendida no século XX, em 1917, com
a Revolução Bolchevique.

10.2.3 - Max Weber: as três formas de autoridade legítima


Em meio a tantos que desenvolveram teses sobre o assunto, a Max Weber deve ser
reconhecido o mérito da mais respeitável tese sociológica do conceito de legitimidade. Sua
clássica partição do conceito de autoridade legítima, dividida em três tipos puros de dominação,
leva a conclusão de que essas são as formas distintas de legitimidade dos regimes políticos. Por
analogia, qualquer regime reconhecido como legítimo, de qualquer época histórica, se
enquadraria, mesmo que de forma relativa, em alguma dessas três formas de legitimidade. Como
tipologia ideal, a classificação weberiana divide-se em tradicional, racional-legal e carismática.232
A tipologia da autoridade tradicional tem sua legitimidade baseada na crença de que
aqueles que detêm o poder de mando possuem a virtude da santidade. A obediência a este tipo de
autoridade está associada a antigos precedentes; crê-se que o “senhor” legítimo do poder possui
virtudes de santidade que assentam sobre sua pessoa, a legítima autoridade oriunda de um ontem-
eterno e, portanto, sua permanência no poder atenderá a característica da vitaliciedade. Entre
tantos exemplos, as monarquias absolutistas europeias podem ser mencionadas como a tipologia
clássica deste tipo de autoridade, de cunho patrimonial-tradicional; em razão do poder divino, de
caráter sagrado, a sucessão do poder acontece, em geral, por meio da hereditariedade, em
respeito às tradições de uma sociedade estamental, eminentemente hierárquica.
A obediência com respeito à autoridade racional-legal se assenta na crença de que são
legítimas as autoridades que exercem o poder por meio da observância estrita às leis. Enquanto a
legitimidade da autoridade tradicional se apoia em laços sagrados e divinos, da dignidade pessoal
de quem governa, na legitimidade legal-racional impera o respeito às leis e ao ordenamento
jurídico, sendo a impessoalidade a regra fundamental de conduta dos que se encontram nos
postos de comando. Nas relações de mando e obediência, de uma autoridade burocrática ou
política com relação aos subordinados, deve prevalecer não o poder de quem está no cargo, mas
do próprio cargo simbolizado como poder hierárquico impessoal, e a ascensão ao cargo não se
realiza por intermédio da graça de alguém ou divina e nem se consolida como patrimônio
pessoal, mas pelo mérito; na hierarquia das leis, prevalece o rigor da racionalidade típica do

232
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1996.

245
Estado de direito, em que prepondera o princípio da isonomia - entendido como a premissa
fundadora da legalidade.
A legitimidade da autoridade carismática é considerada a mais complexa da tipologia
weberiana. Não possui momento histórico demarcado e nem espaço geográfico específico para o
seu surgimento. Esta tipologia de autoridade legítima se expande até os limites da missão do
chefe carismático, genuíno líder de massas, guia de povos, denominado por Hegel como homem
cosmo-histórico fundador de grandes nações e por Maquiavel o homem de virtù, descrito como a
singular personalidade de coragem, habilidade, valor, fortuna e capacidade de reverter situações
desfavoráveis – o líder ou chefe carismático.
As qualidades pessoais deste tipo de liderança, semelhantes às dos grandes profetas e
demagogos, por seu dom de profecia, fazem com que os seguidores muitas vezes obedeçam
indiscutivelmente às suas ordens; em virtude de seu poder de revelação, muitas vezes violam os
próprios fundamentos legais do Estado pelo caráter imperativo e autoritário típico desta
autoridade; suas decisões não se restringem apenas à discricionariedade, mas se expandem aos
limites do poder arbitrário. Esta personagem encerra em si quase toda a legitimidade que seria
própria de um Estado em tempos de normalidade. A categoria do carisma normalmente surge em
períodos de grandes crises ou transformações dos estados, numa situação em que as instituições
se encontram à beira do colapso. Weber cita o “grande gênio” de Napoleão como modelo
clássico do chefe carismático. Todavia, Max Weber ensina que o tipo puro ideal seria aquele que
além de reter a “ética da convicção ou dos fins últimos” como regra de comportamento - o
biótipo descrito, evocado, e intitulado de homem de virtù por Maquiavel - deveria também se
orientar apoiado pela “ética da responsabilidade”, virtude encontrada quase que exclusivamente
nos líderes da era do Estado de direito. Em outras palavras o líder que apenas tem a paixão do
poder pelo poder – paixão frívola - não é o verdadeiro líder carismático, pois de acordo com o
mesmo Weber, o homem que vive da política ocupa a mais vil das profissões, mas o líder que
vive para a política exerce a mais nobre das artes; por seu dom da revelação, “o iluminado” é
visto como alguém que tem uma missão, que só ele é capaz de cumprir. Contudo, esse “Messias”
se reconhece acima das instituições em crise e deslegitimadas, que em razão do seu
enfraquecimento – não importando a forma de governo – não mede consequências para submetê-
las, tornando ele próprio o fiador do regime político e das instituições do Estado.
O processo de sucessão da liderança carismática é revestido por contornos traumáticos,
quase nunca ocorre em clima de serenidade, em função do vazio deixado pela “instituição” que
partiu (o líder) e pela fragilidade das instituições que permanecem. Diferentemente do que ocorre
no sistema legal-racional – que obedece a rigorosos estatutos legais pré-estabelecidos – e no

246
tradicional - cuja sucessão se orienta pela hereditariedade, por exemplo - o chefe carismático, ao
perecer, poderá ter sucessor, mas seu carisma não se transmite automaticamente. Como as
instituições do Estado provavelmente se encontravam debilitadas quando do surgimento do chefe
carismático, assim continuaram durante seu mandarinato, mesmo porque era de seu mais
particular interesse a manutenção do status quo. Durante o processo sucessório, que
inevitavelmente se apresentará, o Estado se verá envolvido em cenário de crise aguda de
legitimidade, não estando descartadas possibilidades de conflitos envolvendo a sociedade civil
que, fragilizada, convive com um Estado duplamente enfraquecido: sem instituições de
credibilidade (legítimas) e, naquela fase de transmissão do poder, órfão daquela instituição (o
chefe) personalista que se foi.

247
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