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AS CINCO PRIMEIRAS TRANSMISSÕES DE VAIROCANA

Segundo o Tantra Kunje Gyelpo

Capítulo dos seis versos do vajra:


o "Cuco da Presença"
«Ouça, magnífico ser!
A natureza intrínseca dos diferentes fenômenos não é dual
e também carece de qualquer elaboração conceitual fragmentária,
por isso nem sequer pode ser conceituada como a "condição tal como é".
Tudo o que aparece já é bom
então deixe a doença do esforço porque tudo já é perfeito
e permaneça no estado espontâneo: isso é a contemplação."

Capítulo que mostra a dimensão pura da não ação (= grande potencial)


«Ouça, magnífico ser! Eu lhe explicarei porque todos os fenômenos, sendo uma
manifestação de mim, desde o início são a pura dimensão do vazio. O mundo externo e
interno, tudo é a dimensão do vazio do ser primordial. Essa esfera de pureza original não
conhece a dualidade entre budas e seres vivos. Como poderia então ser melhorada através
do antídoto de um caminho? Como não pode ser objeto de esforço ou intenção, é a
realidade primordial da perfeição intrínseca que transcende a ação. Todos os conceitos e
juízos são em si mesmos a pureza da dimensão do vazio não-dual. Como se poderia enganar
essa dimensão com o comportamento infantil daqueles que seguem os conceitos?
»A beatitude da não-dualidade está disponível para todos os seres, e mesmo os caminhos
errados baseados na análise não são diferentes desse caminho universal. Reconhecendo a
igualdade, você é o senhor daqueles que despertaram. Pensar em termos de "eu" e "meu"
é o caminho errado dos mutegpas. Aqueles que seguem este caminho conceitual,
enganados por pessoas ignorantes, nunca chegarão ao seu destino, eles nunca entenderão.
Se a natureza da existência busca a si mesma, poderá ser encontrada alguma vez? O que
esses mestres ensinam, não qualificados e iguais aos macacos, está contaminado por uma
compreensão errônea sobre os ensinamentos e o caminho. Por causa disso, um verdadeiro
mestre, como o mineral que separa o ouro da rocha, é um precioso tesouro de valor
incalculável que vale a pena seguir."
Capítulo sobre o estado além dos conceitos: o Grande Garuda em voo.
Então, a fonte suprema, a pura consciência total, para tornar possível manter a mente em
sua condição natural, ensinou este lung fundamental, origem dos ensinamentos além da
ação:
"Ouça, magnífico Sattvavajra! O estado de não ação, como o espaço, não pode ser
localizado. O caminho do Dharma do estado sem pensamentos, sem lugar nem suporte,
surge de um desejo sutil ligado à intenção, por isso que esta meditação todavia conceitual
não alcança em absoluto o dharmakaya, porque a sabedoria manifesta por si mesma é a
ausência de pensamentos presente naturalmente em tudo.
"Assim, a sabedoria manifestada por si mesma é o verdadeiro estado não discursivo, a
condição natural presente em tudo. Não se agarra à noção de não ação, como se fosse um
objeto, nem precisa de antídotos para corrigi-la.
"Mesmo se tentar encontrar a essência fundamental através de [os doze elos de]
interdependência, o estado não-discursivo não tem forma, assim o acesso a ele se dá
unicamente permanecendo sem conceitos. Como a essência se manifesta naturalmente,
somente isso pode ser o dharmakaya.
"A essência está além de todas as partes e divisões possíveis do átomo. A partir deste
estado não conceituável, a sabedoria das qualidades surge espontaneamente: esta é a
essência da abertura completa na qual o estado discursivo está presente diretamente.
Aquele que entra neste caminho puro obtém a igualdade suprema.
"Como esse estado é imutável e não está sujeito a transformação, não há lugar para o
apego. Da mesma forma, como não existe nenhum objeto, não há sequer um lugar para a
mente. Aqueles que se agarram ao desejo de obter uma realização concreta sempre
meditam sobre uma causa, porém o estado de igualdade não provém do prazer de se
agarrar a tal meditação.
"Porque a dimensão única [da pura consciência total] engloba tudo, não devemos
acrescentar nada. Como [a sabedoria automanifesta] não tem limites, nada deve ser
retirado da dimensão última dos fenômenos.
"A manifestação da natureza última não produz nenhuma exaltação especial: tudo se
encontra naturalmente no estado da grande sabedoria. Não há nada maravilhoso para ver:
[a natureza] não é um objeto que possa ser visto ou ouvido e, além disso, transcende todas
as definições.
"Aquilo que é considerado "Dharma" e aquilo que é considerado "não-Dharma" estão
sempre unidos: não existe realidade absoluta ou dimensão superior. Julgando o caminho
do despertar em termos de ilusão e não ilusão, nada é obtido. A sabedoria manifesta por si
mesma transcende os limites das palavras. Na condição de expansão primordial da
totalidade do próprio estado, os pensamentos surgem como se fossem sombras. Não é
inexistente na medida em que esta inexistência tem um núcleo que se manifesta. Não é
vazio na medida em que esse vazio tem sua própria dimensão. Quando recorda-se da
natureza do céu, mesmo sem a intenção, obtém-se o júbilo que transcende a ação e que
está presente desde o início. Não é um objeto que pode ser conceituado, mas a sabedoria
se manifesta [nessa condição]. Alguns mestres do passado, concentrando suas mentes [em
seu objeto de meditação] com o apego, foram aprisionados no tormento do esforço e
compromisso. A onisciência só emerge quando se entra no caminho da essência; quando a
condição "tal como é em si" é conceituada, a meditação se torna conceitual.
"Desejar beatitude é a doença do aferramento: se não for curada de forma eficaz com a
medicina da equanimidade inabalável, mesmo as causas de renascimento nos estados mais
elevados são contaminados por emoções conflitantes.
"A grave doença daqueles que empreendem um caminho que não é, leva-os a querer
alcançar um objetivo, como um cervo que persegue uma miragem. Mas eles nunca
alcançarão seu objetivo, nem mesmo procurando pelos três mundos. De fato, mesmo se o
nível de algum dos dez bhumis for atingido, a essência do despertar permanece obstruída.
"A sabedoria instantânea além de todos os pensamentos é como uma joia preciosa que
vem de todos os mestres. Não pode ser objetificada, e sem necessidade de mudar, por sua
própria natureza, satisfaz completamente todos os desejos. Se for examinada, nada é
encontrado, mas se for deixada tal como é, então é a fonte de todas as qualidades. Embora
não apareça de maneira visível, é mostrada em todos os aspectos da manifestação. Aquele
que é capaz de ensinar sem o dualismo entre si e os outros é um tesouro precioso porque,
então, ensina de maneira altruísta e compassiva o objeto universal da realização.
»Não se move de si mesmo, embora não exista nada para procurar em si mesmo. Não é
algo a se agarrar ou que aspirar. No estado além do entrar e sair não é necessário agir
[intencionalmente] para o bem dos seres através do altruísmo e compaixão: tudo acontece
naturalmente.
"Desejando a felicidade você se distancia dela, porque a felicidade já está presente e
buscá-la seria como se a felicidade se buscasse a si mesma. Ao não reconhecer a essência
do despertar, você é dirigido para um objeto externo que o confirme, porém se segue essa
direção o despertar não é visto.
"Como na realidade, não existe nenhum "despertar" [enquanto um fenômeno separado],
mesmo seu nome não existe. Ensinar o despertar e nomeá-lo com esse nome é um erro.
Esperar obter o despertar do exterior é um caminho equivocado. De todos os fenômenos
que se manifestam, [na verdadeira natureza] não há forma ou átomo. Perfeita, além do
aferramento, serena, desprovida de materialidade e não limitada por uma forma, a
natureza do grande néctar não pode aferrar-se aos conceitos.
"Imensa, grandiosa, existência completa, antídoto para aqueles que seguem veículos
inferiores!
"No entanto, não se deve se apegar ao conceito de "grandioso", porque [a natureza]
transcende as noções de grande e pequeno. As palavras das escrituras e seus comentários,
ligados aos conceitos, são como os desenhos de um mágico. A escuridão da sabedoria do
entrar e sair [não] permite o nascimento [da verdadeira sabedoria]. Este é o veículo
supremo.
"Essa natureza, que deixa tudo e a tudo conserva, está além do desejo e do aferramento.
Não produz nem um pingo de autocomplacência: como um garuda em voo, não se
preocupa com nada, nem teme perder nada nem deseja obter nada.
"Aquilo que desde o início é como o oceano, produz a diversidade dos fenômenos. Suas
qualidades são infinitas como o espaço e não têm lugar definido a partir do qual fluir.
Assim que [se compreenda] a essência do despertar, a suprema contemplação se
manifesta: a visão torna-se vasta como o oceano e o estado não discursivo imenso como o
céu. A esfera da experiência de Samantabhadra não conhece nascimento nem
transformação.
"Os doze elos causais [da interdependência] são uma explicação criada para o benefício
daqueles que se encontram na ilusão: que os sábios o saibam! Ainda que seis classes de
seres apareçam, estes são apenas o caminho primordial. Se os diferentes prazeres estão
impregnados de compaixão, em qualquer objeto de prazer a essência do despertar é
desfrutada. Os caniceiros, as prostitutas, os criminosos dos cinco
crimes mais graves, os párias, os marginalizados, são plenamente a substância da existência
e nada menos que a grande beatitude.
"Uma vez que todos os fenômenos são assim, esta é a verdadeira natureza da existência.
Pensar que a realidade pode buscar-se, que o céu pode buscar-se e que pode existir uma
realidade "externa", é uma ação tão inútil como tentar apagar um fogo com mais fogo.
"Esta essência do estado não discursivo não esconde à mente de ninguém. Em todos
aqueles que experimentam a essência do despertar sem agir, está presente naturalmente
em todas as circunstâncias."

Capítulo mostrando como a perfeição


além da ação não é algo para meditar:
o Ouro puro na rocha
«Ouça, magnífico ser! A pura consciência total que transcende o pensamento e a explicação
é a lâmpada de todos os mestres, por isso é louvada no mais alto. Sendo a essência dos
ensinamentos, é igual a Mañjushrī. Além da ação, espontaneamente perfeita, é uma
beatitude natural.
ȃ a base da moralidade e de todas as condutas infinitas que conduzem ao caminho da
libertação. É o caminho universal, mãe de todos aqueles que despertaram. Se não existisse,
não haveria um caminho, pois eu sou o caminho supremo da libertação.
»O caminho universal é sutil e difícil de entender. Não discursivo, está além dos conceitos.
Não pode ser localizado em um lugar nem objetivado em um objeto. Não pode ser
concebido em um limite; transcende todos os pensamentos. As palavras não o penetram,
não pertencem ao campo da experiência sensorial de formas e cores. É difícil ensinar e
examinar, não há nada de concreto que possa ser definido. Alguns ascetas do passado,
vítimas da doença do apego à meditação e a crença de ter que confiar nas palavras
limitadas do mestre, seguiram os conceitos como um cervo perseguindo uma miragem.
Porém o verdadeiro caminho não pode ser indicado por palavras. Eu mesma estaria
equivocada se tentasse ensinar a realidade.
»Puro e impuro são indivisíveis, são indissoluvelmente integradas. De fato, a escuridão da
sabedoria que não distingue nada e a lâmpada da clareza que ilumina tudo sem qualquer
obstáculo, ambas estão além do pensamento. Assim, a condição sem agitação é,
naturalmente, a contemplação suprema: "ver realmente" significa ver que não há nada para
ver, esse é o chamado "olho da onisciência".
»Não aceitar nem rejeitar nada é a "vastidão da igualdade suprema que não conhece centro
nem limites". Igualmente, a mente e suas predisposições cármicas são indissoluvelmente
integradas, de modo que todos os fenômenos que se manifestam e que são objeto de
nossos conceitos são como nossos ornamentos. Portanto, não devemos rejeitá-los nem
abandoná-los, sem julgar, podemos gozá-los!
»Da mesma forma, [embora se tenha feito] continuamente atos negativos repudiados por
todos como as cinco emoções conflitantes e os cinco crimes, ao entrar no caminho da
pureza alcança-se a igualdade suprema e nem mesmo tem que renunciar às mulheres nem
a nada. Em vez disso, aqueles que acreditam na lógica da história e seu significado e, assim,
agem segundo um comportamento limitado como resultado da estabilização das três
contemplações, desviam-se dos ensinamentos para além do esforço e permanecem na
confusão.
»Contudo, a essência da grande sabedoria manifestada por si mesma não conhece agitação
nem mudança, e transcende toda a definição. É o néctar da perfeição natural que derrota o
sofrimento do esforço. A perfeição que transcende a ação é a condição natural.
»Ouça, magnífico ser! Como todos os fenômenos são a natureza da pura consciência total,
que é a esfera imensa, não há nada para expandir nem unificar, não há nascimento nem
cessação: sem bloquear nada, essa é a condição natural. A essência desse estado não
discursivo existe desde sempre como o céu, além de qualquer palavra e pensamento.
Capítulo sobre a natureza de Vajrasattva,
o estandarte da vitória que não decai:
o "Grande espaço de Vajrasattva"

"O grande espaço de Vajrasattva


é a dimensão imensa do ser na qual tudo sempre
está bem [Samantabhadra].
Como é o caminho universal perfeito que tudo libera,
não há nada para criar, bloquear ou pensar.

Porque o amor verdadeiro realiza todos os objetivos,


não é necessário praticar a grande compaixão.
Porque a bondade mais profunda [já está em nós],
não é necessário louvar [e desenvolver] as qualidades.

Todos os fenômenos são a condição natural que não muda:


Deixando-a livre sem agir, esta se libera.
A sabedoria que surge espontaneamente não é necessário buscá-la:
ao liberar-se mostra o caminho da liberação.

Os cinco elementos são o buda


que reside de forma natural em todos os seres.
Ainda que tenha concepções errôneas
a liberação é espontânea e não provém do exterior.

A grande sabedoria é difícil de encontrar:


se alcança mediante prajña e método.
Ainda que dito assim parece depender de algo,
a verdadeira beatitude surge de si mesma.

O grande milagre não é difícil de obter:


da compreensão sutil da condição autêntica
todas as qualidades e capacidades
surgem imediatamente em si mesmo.

Esta realidade, que nunca é um objeto visível,


tem que deixá-la ser sem buscá-la: isto é a meditação!
Se busca-se algo que seja a "condição real" nunca poderá se obter.

Esta realidade que é tão secreta


não se pode receber através do sentido do ouvido.
Do mesmo modo, não há nada
que possa se expressar com a fala.

Aquilo que não conhece diferenciação


se examina e se julga enquanto "carma",
porém tudo que concerne à ação
nunca pode ser a sabedoria manifesta por si mesma.
O vajra é a causa primeira e as condições secundárias:
ao nunca haver nascido, não pode destruir-se.
A essência do despertar existe desde a origem,
portanto não pode ser produto do esforço do pensamento.

A excelsa estabilidade meditativa


não implica pensar na estabilidade meditativa.
Sem utilizar o pensamento e sem necessidade de purificação,
a sabedoria emerge do próprio pensamento discursivo.

Construindo a expressão "acessar algo sutil",


alguns buscam o caminho isolando a mente,
mantendo a vaziez num lugar silencioso:
porém se examina-se, isto é uma meditação conceitual.

Construindo os termos "causa e efeito",


alguns acreditam que, eliminando tanto as virtudes como as negatividades,
podem liberar-se deste mundo:
porém isto somente mostra uma grande complacência no aceitar e rejeitar.

O apego e o não apego são apenas palavras


como algo que se interpõe, como um eco.
A felicidade e o sofrimento tem a mesma causa:
isso disse Vajrasattva, o senhor de todos os seres.

O apego, a ira e o obscurecimento


provém do caminho do despertar completo.
Os cinco objetos da beatitude, também,
se diz que são os ornamentos da dimensão última.

O pensamento do espaço carece de nascimento,


este pensamento mesmo é como o espaço.
Sem apego, sem intenção, como o espaço,
o próprio bem se manifesta como o espaço.

A igualdade além do pensamento é o dharmakaya


que, como o reflexo da lua na água, não pode agarrar-se;
através da manifestação da energia de Samantabhadra
mostra a profundidade das vocais [ali] e as consoantes [kali].

Com a A e a Ta como adornos,


todos os fenômenos que se manifestam como Pa,
e toda a esfera da experiência no mundo,
são a Voz profunda do Buda.

Que maravilha! A esfera da experiência dos budas


não se encontra buscando-a.
Não é um objeto como os seis objetos dos sentidos,
por isso [o que a busca] é como um cego tentando agarrar ao céu.
O caminho da purificação pelo qual se avança de nível em nível
não coincide com os ensinamentos da não ação.
Se houvesse realmente um caminho para percorrer,
então, igual aos confins do céu, nunca chegar-se-ia ao destino.

Como a condição autêntica é assim,


precisamente porque se manifesta em sua natureza real, pode compreender-se.
Como se trata da própria essência,
tudo emerge dela: que maravilha!

O tempo passado e o tempo presente


permanecem no estado completo da condição autêntica:
seu caminho também é assim,
esta é sua essência.

O caminho universal, em harmonia com esta [natureza],


se manifesta como a lua e sua base.
Como é a igualdade absoluta de tudo,
um ponto de vista parcial não pode compreendê-la.

O prazer presente e o prazer futuro


são o que se experimenta diretamente e sua consequência:
como implicam o defeito do limitado
não se deveria aferrar-se a eles.

Os três tempos são iguais, sem diferença alguma.


Não há passado nem futuro, tudo sempre existiu desde o princípio.
como tudo é um e o dharmakaya engloba tudo,
as qualidades supremas existem de forma natural.

Renascer nas três dimensões da existência,


tudo não é mais que um nome e uma ilusão mágica;
inclusive o nascimento glorioso de um imperador universal
é uma ilusão mágica e nada mais que uma dimensão para purificar.

Aqueles cuja prática depende do tempo


não veem que esta se manifesta no tempo:
para o que se envolve com o desejo sem havê-lo superado,
o exemplo da vaziez é válido.

Um, completamente além das formas,


o caminho do ioga é como o voo de um pássaro através do céu.
Na essência sem nascimento e não manifesta,
onde se encontram todos os dharmas supostamente existentes?

Exterior e interior são [um]: o exterior é em si o interior.


Nem sequer o mínimo do mínimo aspecto da condição profunda pode entender-se.
A existência é apenas um nome que provém de um ponto de vista errôneo:
Assim se permanece separado da igualdade da contemplação.

Aqui os compromissos exteriores e interiores


se encontram na natureza dos agregados e os campos dos sentidos.
como os três tempos nunca estiveram separados da condição verdadeira,
não é necessário utilizar a palavra "compromisso".

Permanecer imperturbável é o símbolo do Corpo.


Permanecer imovível é a sabedoria.
Não apegar-se a nada é liberar-se do eu.
Não rejeitar nada é a igualdade que transcende as palavras.

Em qualquer circunstância,
todos os seres que transmigram e gozam surgem unicamente deste estado.
O rei da igualdade nunca falou
de masculino e feminino.

Aqui não há nada para realizar


com atitude resolvida e iracunda,
ainda que alguns digam que se possui-se A e Pa
se manifesta a felicidade da ilusão mágica.

Como a natureza última não pode definir-se em nenhum de seus aspectos,


se manifesta segundo como se observa.
Entregar-se ao esforço, desejar que se manifeste,
é um grande obstáculo e um defeito.

Todos os métodos secundários de realização,


nos quais se medita nos distintos atributos, são como
o reflexo da lua na água.
Inclusive se alcança-se um estado sem apego e livre de obstáculos,
Meditar assim é como as ocupações das pessoas ordinárias.

Ainda que visualizando-se como o grande Heruka,


Com o mandala dos atributos irascíveis no qual
se pode realizar a letra,
o nirvana não se descobre assim.

Como se poda a copa das palmeiras,


como se queima uma semente,
para se enfrentar a força das emoções conflituosas
se ensinam os métodos secundários de meditação.

Todas estas centenas e milhares de métodos


fazem florescer um resultado característico,
porém como [a natureza verdadeira] encontra-se livre de características,
não se manifesta em todos estes estados.

Afortunados são os iogues


que permanecem neste estado inefável:
sem distinguir entre si e os outros
se deleitam na perfeição intrínseca como uma ilusão mágica.

Sem excluir nada, é a grande perfeição.


inalterável, sempre permanece completa.
ilimitada como o espaço:
a existência não depende de nada mais.

A beatitude do estado da perfeição intrínseca


provém, unicamente, da presença instantânea da força natural,
da sabedoria sem igual:
a existência não provém de nada mais.

Fácil e difícil, difícil porque é fácil:


não se manifesta visivelmente e engloba tudo,
porém nem sequer Vajrasattva pode nomeá-la dizendo: "aqui está!"

Esta maravilhosa e extraordinária manifestação de energia,


como o espaço, transcendo a ação.
Daquela ignorância que não conceitualiza nada
surge imediatamente em si próprio.

Este é o único caminho para todos


que se encontra de forma natural em todos os seres,
porém para as pessoas ignorantes, enganadas pelo condicionamento do dualismo,
o exemplo do médico que encontra o remédio parece válido.

A beatitude jaz na compreensão,


isto mesmo é a dimensão pura do mundo.
Quando a luz se reúne num cúmulo determinado
aparecem as quatro direções principais, as intermediárias, o zênite e o nadir.

Das cores indefinidas do arco-íris,


se manifesta toda a variedade das [cinco] famílias.
Do mesmo modo, todo o mundo animado e inanimado
se origina dos cinco elementos.

No estado limitado pelas definições


de passado, presente e futuro,
e compreendendo o que carece de nascimento e é incessante,
os três tempos se convertem no estado completo.

Como é igual em tudo, não se tem que organizar de forma gradual.


Como é um, não há nada para oferecer numa direção determinada.
Inclusive se prepararam-se os ornamentos da ganapuja,
como já existem de forma natural, não há nada para dispor.

Como é perfeito em si, não há nada para oferecer.


Como é puro desde o princípio, tudo já é néctar.
Não tem que visualizar nada em particular
relativo aos doze campos dos sentidos.

A mente, o benfeitor das oferendas,


Manifesta a tudo através do poder do olhar:
o siddhi que provém da visão
é a perfeita contemplação equânime.

Permanecer neste estado é uma união.


Estar satisfeito é o compromisso.
Realizar os passos da dança do método
é a oferenda da união não dual.

Deixar estar sem aferrar-se é o torma, [a oferenda ritual].


Transcender a ação é a consumação de todas as atividades.
A sabedoria não conceitual é o que afasta os seres malvados.
Permanecer na contemplação equânime sem falar é o mantra supremo.

Realizar oferendas ao mestre, ser generoso


e todos os atos meritórios deste tipo,
se efetuam-se sem a força do não apego e a imperturbabilidade
se convertem numa grande cadeia.

Assim pois, atuar de qualquer forma sempre obstaculiza


a obtenção do significado verdadeiro da qual falam as escrituras.
Conceitualizando-se a condição verdadeira
nunca se pode alcançá-la."