Você está na página 1de 161

(;- , Luclen Febvre, 1un!<1men1e com Marc B!

och e Fernand Braudel, 101 um dos mais importantes renova·


~ dores da h1s!onosrana confemporânea O seu livro Combates pela Historia. que agora se 1megra na
Biblioteca das Crêncws Humanas. reune alguns dos seus mais no!áve1s ensams que constituem verda·
detras hçoes de metodofogia h1stonca Mas, para alem de const1tuir um 1nd1spensave! mslrumento de
trabalho nos domm1os da h1s!or1ograf1a, este hvro e sobretudo a obra de um "maHre a pensar", pelo
rigor das análises e pela amp!i!ude e modermdade das suas re!!exoes
ff..,
1
l BIBLIOTECA DE• TEXTOS UNIVERSITÁRIOS j.·
t O l.lunao ae Ulisses. M. !. Finley
'
! 1. 62. A Filoso!ia de Niot2sche. Eugen Fink
2. A lde,a o« H,s1011a. R G. Colhngwooo 63. O Pensamento Europeu no Século XVI!!. Ha;::;;ird
j J. Tec,uns (la Ane, Arnold Hausar Rerónca. Ren.ilo B;irilli

S.
A C1whzação do Aenasc1menlo !Jal:ano, Bu1ckh<m.ll
O Smcidio, Emile Ourkhc1m 1
"65.
66.
Ep1s10mologia e Filosoli.i Polihca. Goldmann
A Europa na Idade Médi;;i: 1320-1450 - Hiorarqui.:i e
6. A Linguisr,ca do secu!o XX. Goorgt:s Mounm Revoll;i Holmes
7 Geograha Humana f. Ma~ Derruau 07. Or1gans d.i F,losoli.i.Burguesa d;;i His!óna, Max Hork·
6. Geog1aha Humana li, Ma;, Deiruau ho1mor
9. Ba!loco e C!ass,c1smo 1. Vic!o1 Tapió GO • Es!udos sob10 H1s1uri~ Ecomirmca u Social do Ant1go
10. U1bamsmo Contemporãneo, Hans Mausbach Fl,;u:rro,,, Virgínia Aau
Barroco e Classicismo li. Victnr Tap,é A Filosofia do Não, G;;iston Bacholard

""
69.
Problemas de !nves!!gaçao cm S0c1olog1a Urbana. 70 . A Ar10 e a Soc,ee1ade. Amold H.iuscr
f.l;;muel CasJel!s O Per,samen10 de Hcgci. François Ch.''l!e!cc
A lnvcsi,gação nas C1ênc,as S0c1a1s. João Fcrre,ra de
t,lmo1da a Josó Madurmra P,nw
"
72.
7J
Lms cw Camóes - O Lírico, Hernâni Cidade
O Século XIX, a Rcvnluçáo Cultur.il cm Ponugal e
'5 Capilahsmo u Modurna Tc01,;, Soc,JI. ü1d<.J1:n:. ,:.;\!""" .,,.,5 SCU$ Mc$UCS, Hernilnl Cidade
Tco11as co Valor e 0<$!r!liu,çao desde AtJ<tm Sm,lh
"
19.
Maurice Dobb
A Dn:tsao do Trabalho Social 1. E. Durkheim
7.1
75.
76
Hnmn S:ip1ens. do ;\mm.il íl Semideus, Rensch
Combales pela H1s1on.i. Luc1en Febvre
Es1udos de Cul!ura Pré-Ctãss1ca. J. Carrmr.i
20 ;, D,v,s,i,1 ,Jc> frJLl.ilho Soc,;i! 11, E. Durkhe1m Margmahd.ide e Con!litos Sociais em Portugal nos
21 A Eia das Revoluções. E. J. Hobsb.iwm Séculos XIV e XV, Humberto B.iquero Morono
22. Da Cnse do Feudahsmo ;1v tJasc,men10 do Capim• 70. A Europa D1v1d1d.i, 1559,1598, J. H. Ellion
lt~mo, G. Conw 79 . Lms do Camõos - O Epico, Hern.lm Cidado
,,
2J A Torra. PJ,111e!a Vivo, Je;in Tlicarl
Eça. D,sc1pulo de Machado?, r.1achado da Rosa
00.
01.
Estudos do His1ôr1.i Medmval, Virgírna Aau
Ensaios de Literatura Portuguesa, Mana Leonor Car·
]j
25 Si'mãnuc;i Geiatwa. Michel Galmiche v.ilhâo Buescu
2ô. Filosolia e Filosofia Espontânea dos Cien11s1as, L. 82. Breve Hislôrm.da Revolução Francesa, Vovollo
Allhussor 83. Os Filósofos Gregos. W. K. C. Guthrw
27 A Era ao C;ip,iat. E J Hoosbawm 84. Pro1ectar o Pass.ido - Ensaios sobre Arquoo!og1a o
211. Cinco Au101es H1s101<ais. G. A Aodngues Prti-His1ó1m. Vítor Oliveira Jorgu
29. Teoria$ u H1s1,jna da Arqw1cciu1a. T:ih.u, 85. Cu::~lóes Pm!imrnares sobro as Citinc,as Socía,s. A.
30. Esiudos de H1s1ona L1wrana. Gri\ça Almi:,da Hoon- Sedas Nunes
gues 86. Judaismo o !nquisu;ào, M. J. P. Forro Tavares
31. Teor,:i Ecnnom,c;i do S1sh:ir.1;i ;:,;.,U;il, Kuln G7 lilornlura o A!qu,mia - En5.iius, Y. K Cen1eno
32 As Filosof<a'l da Nah.1re.:a. Paolo C.ism, 00. O Fim d.i Modorn,tJ.idíl, Niilismo o Hermcmõut,ca na
JJ. Os Granóos S1s1omas Juridicos, Losano Cullur;;i Pôs-Modorn.i. Gianni Va111mo
J,i ln!roduçao a Le,iura de P!at.io. Aln~andro l(nyró "9 O Espmhu do Sôc,ato5, Jo;\o l3a1101110
:i~ O V;;i10, na C,úncia Ecc,nón,,c1,. Cl:,ud,o N;1fJfJh.l0111 90. Vtu,;1•_; Vtu!!,i, Vw,co G1.u;a Muu,a
)!;- f'1oudl1on e l.lan. Gco19<.:s Gu1v,tct1 91. A C,d.ioo Mediov.i!, Roberto S. Lopoz
3;_ As Regr.Jo :rn l.1etooo S0c1ológ1co. E. DurKheim 92 . O Mi1o. Funo Jcsi
JS D1aléc1>ca. Lw,o Sich1rollo 93. Domesticaçáo do Pensamento Selvagem. J.ick Goody
39 t, Revo!uçJo Comercial da Idada Média, A. S. Lopo2 9.1 . Poóiica do Saudosismo, Fornando Guimar<1es
.10 t,n11opolog1,1 Puhtica. Georges Gal.:mdier 9~. :~., • .,,.. ::,.;aio~ de H1~1ória Medieval Ponuguesa. í\. H.
,11. Como Se F;u uma Tese. Umbcl!o Eco d<J Ü!I~,,,.;, ;... ,,.,,,.;,;
,. A F11osofm de Descartes, Fordm.ind Alqu10 Nos P;issr,s ,fo P,-•,so.i, David Mour;10.fe1reira
"
43. Orq,;mtaçoe$ Poli1,c;,s lnternac,ona,s - ONU. OE,\ e
OUA, Antóniü José Fernandes
'lfi
97 O~ Ee.1.irtus .Jc L"iyu.i Portuguesa na Econorma Mun·
dial, Márn; Mu.1e1ra
44 A Pró-H,stoua. Dcmse de S0n11ev11!u-8on.les 96. A Europ.i Re:•:cluc1onàna 1783-1815, Gcorgu Rudó
E 45. O s,gno, Umoerio Eco 99. A Poesia do E;cnrcssmmsmo A!emao, J. Barrcn10
46. H1s1ón.i e Ciêmc,.is S0c1a,s. Fern.ind Braudel 100. Socwlog111 Go,d - /l.cçao Soc,a!, vol. 1, Guy Aocher
J?. Ronasc,mcnto e Renasc,montos no A1!0 Oc1donl.il, 101. Sociu!og,.i Gor.i! - A Org;;imzaçtio Soe,;:!!. vol. JJ,
Erw1n Panol~ky Guv Rochui
't Jô.
~9.
C1(mc,.i o F11osolla, R. G. Coi1mgwood
A Via das Mascarns. Claude L,iv1-S1rauss
r 50.
:,i
,\ Europa dur.inte a Relurma. 15!7-1559. E!lon
F;.,iras r,l\'d!i:-V.l>S Ponugucsas. Virgm1a Rilu
f 52. Üt"scnvolv1mcnto Econom,co e Aniihsc Hts!Or1c.i,
t PieHe Vilar
53, Sosmar,.i~ l,\ed1cva,s Ponuguosas, Virg1n,;i Rau
t s~ Antropo1og,a F,losôtic.i. Bernard G1oemuyscn
!
55 H,stor1a d.i L,1era!u1a Francesa. Geo,gcs dt! P!inv;;il
l :,ii. LO!lura·do Te;,;.10 Li!erar,o. Umber!o Eco

,
57 As Companh,as Pombahnas. Anlônio C,;irreua
\ 58. A Et,ca P101es1an1e o o Espmto do Cap,t.il1smo, M;;ix

~
Wubar 1:
59. A Filosofia do Anslole!cs, D. J. Al!an
'
i 60 .
6'
A Eumpa durante o Renascmwnto, J. A. H.ile
Esludos da Al!a Anhguidade, A. A. Tavarns 1iiiíji1~íf11íjij1l11l~ji1~tij111111111
~.
f
ou EDITORIAL PRESENÇA
!
rn rn~~
LUCIEN FEBVRE
w
a:
6Jw \
LL

wJ
o
=i
COf\ílBATES
I""
D 1=~
. !:L,fj'~\
·~'.. ~.l
=m
{l\>
: 11.
i ~- . "(\

<(
o:
'0
t5=5
I
<(
_J
w
o..
(/)
LLJ
trco
~
o
e

75
EDITORIAL ~ 1PRESENÇA
COMBATES PELA HISTÓRIA
.
:)

\ .•.·
·.·.·1.

LUCIEN FEBVRE

COMBATES
PELA HISTÓRIA

EDITORIAL ~j PAESENCA
íl
1

!-1{ ·1 !,\ TJ·_{ ·:-,.;it ·A

Tnulu 11rH!1n:1l: c·,1111h111.1 111,111 1.·11i.Hu1rc


:\Ultl!'. f.1101'1/ fdHT(
,~, ("11111·11.~hl !tr l.1h1,IJ/1<" .-\r111,111,/ ('nli11
l"r:1duç:10'. /.,·,mor .\!,/l"ll//f1,, Siit111r., ,. (iisdu ;\/0111::

!111pr1:,,,1<1: J·_1111i1n11 (,-rú/101 f-nrn/\r !.da., .'ú11. ,\fana da /'nr11


:\l·;ih;imcntu: f{w11/11, ,\; N1·1·n f i/11_, .\r11. ,'111n,1 rl,1 F,·1n1
· ,:dlçao. !.1,h,1:1. J'l{'I'/
11,:p,1,11,1 1.L·c:11 N" ~!x<i"

Rç,L•n·adn::; \,1do:-. o, dirL'!ln,


p,1r;1 P,ll·tu!!al a
\:Juon;d J'r,.·,,·11,;.1. ! .J;i.
1{11;1 ,\ugu,11• C.iil. 35·:\ - !Ili!!! LISBOA
PREFÁCIO

Se, ao reuna· estes artigos escolludos eníre tantos outros, fosse


,ninha intenção erguer a JJll/11 próprio qualquer espécre de nzonu-
tnento, teria dado 6 recolha 11111 1i1ulo diferente. Tendo fabrtcatfo ao
longo da nllnha vida, e esperando fabr1car ainda, alguns grandes
1nóve1s co1n que nzobilar a. l11stOr1a - que podenz, peio nicnos prov1-
soria1nente. guarnecer certas paredes despuias do palácio de Clio - ,
terza então c/ianiado Apar.is a esses restos de 1nade1ra cuidas sob u
piai"na e apanhatlos ao 11é da banca. !vias nüo (oi t!e fortl1a nenhun10
r1ara tne rever nessas obras quofldianas, ,nas s1nz para prestar alguns
serviços aos ,neus con1 panhe1ros, sobretudo aos mais 1ove11s, que pus
enz prática esta recolha. E. por isso, o !itulo que esco!l:i le1nbra1'!_i
Q_qfJ_~ se,npre .houve._de núli1_q!.]_le _na.·-,iiJiilia vida. Os n1c·trscomOátcs.
certaii1ént"e-qué-i1ão:--nunc.----:ã n1e ball nern por n11nz nern contra este
ou aquele, co,no pessoa. Ç9n1balc.s__p__cla...H.istór1a sún. Fot ben1 por
ela que lutei toda a 1111nha F1da.
Tanto quanto a ,ninha IJ/l'lllárta aicanca. 1·~-111e bixLuli.u_cl<11:__ J10r
prazf;J:_JJ.U.. pu1:_ dese10, JJ!JLU_., ,uu di:.e,~ âe.-c.Ura.çã.a...r:..Jú:..J:.o-caçii.o. f·'if /10
de u,n pai que o prestÍgto de !1enri YVeil, helenista na Fuculciade de
Letras de Besançon e depms na Écolc Normalc Supéneurc, e o, 1üo
grande. de Thurot, esse filásofo da granzÚ!tca. desvt'aran1 da f!istóru1.
de que nunca, no entanto, se desinteressou; sobrinho de u1n tio que
toda a sua vida a ens1nolt, e t!esde a 111/nha prin1eira 1nfânc1a 1ne le1 ou 1

a a,nâ-la: encontrando, ao /alhear na biblioteca paterna. por baixo


dos fascículos do Darcn1bcrg et Saglio, que se sucediarn re1;ular-
nzente, esses dois álbuns que rcpresentaParn ao vivo as grandes 1-Iü.t(l-
rias dos Gregos e Jos Ron1anos, a·e I7 ictor Duruy, oDras-prunas da
editora Hachette da prin-ze1ra fase: toda a r1ntiguidade então conhe-
c1da, ten1plos. bustos, deuses t! vasos, figurados pelos n1(!/hores 1;ra-
vallores: devorana·o sobretudo, con1 un1a paixão 111canslil'el. os ton1os
dessa grande edição Helze! da Históna de França de Micheiel, que
Daniel Vierge, visionário aiuc1nante. encheu de ilustrações tão de
acordo co,n alguns textos do grande sonhador, de tal n1odo que_ n1e
sinto inco,nodado, ho;e, se tenho de os reler na nzorna edição que

7
houve que1n qualificassf! de «defintttva»; alin1entado por f!stes con-
selhos, rico destas leituras e dos sonhos que fazia nascer e,n minz,

I
/,
conzo não teria eu sido histortador?
São esses os tneus 1nestres, os 1neus verdacieiros rnestres- a que
se 1unlaran1 n1a1s tarde, entre os nieus dezasseis e os meus vznte cinco
anos: t.lisée Recius e a proiunda /,,m,anulade.da sua Geografia Uni-
versal; Burckhardt e o Rcnasc,mcnlo cm llúlia; Coura1od e as suas
lições da Ecolc du Louvre sobre o Rcnascin1ento na Borgonha e en1
Françn; a partir de 1900 o Jauri!s da História. Socialista, tüo rica de
1nru1crle,· C:'conánucas e soc1a1s; Stendlzal, en{inz, e sobreíudo o Síen-
dha/ de Roma, Nápoles e Florença, da Históna da Arte cm Itália,
das Memórias ele um Turista, da Correspondência: outros tantos «con-
vites d lustôr1a ps1cológica e sentunentai», que, durante anos, não
de1xarani a nunha 1nesa ele cabeceira-descohr1-os quase por acaso,
nesses ten1pos longínquos, n1assacrados por Colon1bo e ln1pressos por
c·atn1ann e1n papel de· candeia, co,n tipo velho e ron1bo.
Esta a n1111ha <,_aflua de /J{l[)ei». :!o lado dela. a ,ninha alnza carn-
p_c:srre e rústica - essa õUtr(J 111estra da llistória que {oi fjãTlllifinz
a Terra. OS pri111eiros vinte anos da nunha vida decorreranz en-z
1Va11cy: 01. ao percorrer as ,natas. os bosques da floresta de Haye,
ao descobrir uns apOs outros, tão n1lldan1ente perfilados, os horizon-
tes das encostas e dos planaitos loreno.\·, liz provisão de tlln conjunto
de recordar:ões e de nnpress6es que nunca 111ais n1e abandonariío.
A1as conz (flfe delícia reencontrava todos os anos a nunha verdadeira
pdtria, o Franco-Condado! Prunezro o doce 17 ale ào Saône, a pequena
vila de Gray do,ninando 1na;estosa1nente o prado que refez. a felici-
dade a Proudhon; ,nais a seguir. esse velho severo do Jura. os seus
prados-bosques e os sc>us pinheiros, as suas águas verdes e as suas
garga111as desaprun1adas por grandes bancos ca!cârios, tais como. co,n
u,n pincel heróico, os pintava Gustave Courbet - o F'ranco-Condado,
percorrido e111 todos os senttdos, desde os 1neus pr1n1eiros anos. nas
velhas diligências das «A1essageries Bouvet»: fortes cheiros de couro
velho. odor acre dos cavalos {un1egantes. ruídos aleires dos guizos
e do chicote a estalar à entrada das aldeias: o Condado, corno a Lo-
·rena, dotado de altos !u1,:ares soliíários e sagrados: a «flaute-Pierre de
!vl outhrer». o ((Poupei de Salins» a enviar, para lá das cristas, a sua
saudação ao A-fonte Branco; ,nais longe a «Do/e», cun1e litereirzo, e
tantos outros n1enos notórios; lugares saudáveis ern que o espírito
sopra co111 o vento e que, durante toda a vida. nos dão a necessidade
de descobrir, de respirar hnrizontes infinitos. No Condado. não so1nos
nada con{orn11stas. Courbet tambini nüo o era, quando pintava
L'Entcrrcn1cnt a Ornans ou L'Atelier. Neni Pas1eur. quando as Aca-
dl?n11as con1uradas branua111 à n1orte contra a sua verdade. Nen1
l'roudhon, o _filho do tanoeiro, quando dedicava, em hon1enage1n.
aos burgueses be1n ru·oi·1dos de Besançon, a sua obra A propriedade
é um roubo. Proudhon, qt:e tena sem d1ív1da dado a melhor definição
de nUs, os do Condado: ~<Anarquistas ... 1nas de governo», se Michelet

s
não tivesse fornecido a SLra: <<Souberarn a te1npo duas coisas: saber
fazer, saber parar.»
Daí, porque reúno a dupla aspereza. <<critica, polétnica e guer-
reira», do Condado e da Lorena- daí que eu não tenha aceitado
placidamente a história dos vencidos de 1870, as suas yudênciasJ
vacilii11ies. as renúnct.as_a_(Jlt1JlqueúQ!lll<Ltl~"'Ú1t.eSf~O_CJ!/JQ}ç_borioso,
111as_inleLe,:(lJg}f.1.1_ente 11reguiçoso, ..A<>_. «fg_t;_/OJ>" _e_. __esse_ gOIIO quase
e;çcl11,,1_v_Q_J!.eia_lns.iôrià~Jip/o"11:mca («Ah. se a tivessemas estudado
nzelhor, não estarían1os neste ponto!») que. de Albert Sarei_. esse
semi-deus, a Én1ile Bourgeois, esse décilno de deus, obcecava os
hon1ens que nos ensinaranz de 1895 a 1902; dai que eu tenha reagido
1nstintivan1enle e quase senz a[)oio no ca111 po dos h1stor1adores ( ,nas
encontrava esse aµoio nos nzeus antigos linguistas e or1entalistas, ps1-
cólogos e n1édicos, geOgrafos e ger1nanistas, de Jules Bloclz e Hc>nri
W a/1011, a Charles E/onde/, a Jules Sior,, a M arce/ Ray, ~nquanto os
n1enos conforniistas dos ,neus conzpanheiros historiadorl.!s, coni raras
excepções, entre as quais a de Auguslln Renaurlet. ader1ra1n sc111
niais. e achando-se ousados. ao estandarte atnbiiuo de Charles
SeEgnobos); dai que, pela nunha parte. imediatatnente ,ne tenha 111s-
crito entre os fiéis da l~evuc de Synthésc I-IisLoríquc e do seu criador
Henri Berr: nada de estranho e111 tal aventura. Senão isto, que qua-
lifica un1a época: ne1n as nunhas ousadias. nem os ,neus arrebata-
nzentos pude-ratn fazer ursurgir contra 1111n1 tantos bons ânin1os que
gostavarn de 1n1n1 e 1110 provavatn ern todas as ocasiões: penso e111
Gabriel Monod, em Chnstwn P/ister, em Camille Jul/ian; em Gustave
B/och, Iambém - e em Vida/ de la Biache (que no entanto llnha iâ
_tezto, para sz e para os seus sucessores, a sua própria revolução).
A alti"va Universidade desse ten1po, unza aristocracia do coração e
nada 111enos. E. nos grandes, urna benevolência actuante, tnna fra-
ternidade.
Por..tanlo,_ sozu.1ha.....n.a arenr.zJ. J.L:. ..JJ__ 111.elbm:_qu_e__pudc. Das coisas
que fui capaz de dizer. ao longo de cinquenta anos, aigun1as que pare-
cian1 audaciosas quando as (or,nuiei pela prhneira vez. caírarn no
domínio conzunz. Outras continuanz a ser postas etn questão. tl.E!.!Je
cJ.o pz'oneíro é ilusória: Q!!...J!... sua gg_ação lhe....dá-quase__logQ_.r.azão e
ab!fo---;=r;cJ~i(fú .. grPnde.-eslorço ..Cõl'eC1i.v.q .o_s..ez1__c§f__qrf9. f.sq_/ado. de 1nves-
tigâdOr':· Ou ela lhe resiste e deixa â geração seguinte o ·en-cargo de
fazer gern1inar a se,nen{e prenzaLt_~rçzn1c.11J};_l_a!JÇ.fI..dç:z_Jl(J~.. J:((gns. Esta
a razão por que o sucesso proiongado de certos livros surpreende o
seu autor: é que eles niio encontraran1 o seu verdadeiro público seniío
de;_, quinze anos após a publicação, e quando lhes chegara,n apoios
de fora_
Foi utn apo10, e zuna grande segurança para mirn. o descobrir, a
partir de 1910, ao mergulhar 110 pequeno volume da colecção Flam-
nzarion, As antigas den1ocrncias dos Paises Baixos, depois nos pn-
meiros ton1os da f-Iistória da Bélgica, à espera que surgissem as esplên-
didas 1nen1órias que fora,n o seu canto do cisne (Periodos da h1stóna

9
l '
socrnl cto cap1talismo, 1914; Maomé e Carias Magno, 1922; Merovin-
g1os e Carolíngios, 192]; enfim. em 1927, essa ióia que é o livrinho
sobre /\s c,ctadcs da Idade Média), foi pn111e1m 1mw segurança. pouco
depois 111na alegria pessoal, saber que u1n hn,nP.m forte percorria,
con_1 un1 passo 1gual e donuriador, os campos '.da /11stOr1a da Bélgr'r:a
a,niga: Henn· Pirenne. E: /01 outra alegria quando, otto anos rnms
novo do. que eu e iá_. por is1 próprio, orientado, de iuna _forn,o ligeira-
mc.11re d1(cr('nlc, u1n 1ovr.:1n lustoriador veio. ornhro a ombro, frater-
naÍ/,-:enre_. erosseguir e p~·olongar o 1neu esforço no seu donzínio de
rned1eval1s1~: f\Jarc B/och. A1as 110.r Annalcs que, apoiados desde o
{'nme1ro numero pela fidelidade de Leuilliot,, fundámos 1w1tos em
1929, com., mais do que a bênção de Henr, Pirenne. a sua magnífica
colaboraçao - nesses AnnaJcs rap1danzente conquistadores, à pri-
tne1ra vrsta, r.econhectdos co,!10 salutares e vivos, con10 esquecer a
parte de rnertto que teve cada u,n dos que for11zara1n ci n11nha volta
t~n1 c1rculo fraternal e calorosn_ E que ainda o for1na1n: não é ver-
dade. Fernand Braudel, evocod'or poderoso d<! rnn ll-1editerrâneo riio
rico en1 ressonâncias. a1na11/1ii ousado pron1otor dr· 111na história eco-
nónuca reno1·ada: não é verdade, GeÜrges Frted111ann... analisa pene-
tranrc de aln1as tndividuats e coíecttvas, de Leib1uz e Sptnozá aos
scr1·1dores anànun()s da nuiqtana .::_ e você, Charles Mora.zé. desco-
b1:idor curtoso e ardente de rerra,1,· desconhecidas, intrêpido na procura
ol;snnada de 111étodos novos: voc!!s ,.:11}1n1, vocês todos. rneus colabo-
radores, ,neus le1tores, n1eus alunos e nteus coiegas de França e do
estrangeiro, cuia afezção f!Xtgente n1an.té111 a n1inha (orça e sustenta
n 1neu c11rus1as1no? E_rc h11~1a de dizer isto, ilnha de proclan1ar d cabeça
dcsra recolha as 1n1nhas d1v1das se11íln1enta1s para con1 tantos ho,nens
e lugares, e tantas casas que me acolheram: da Écolc Normalc Supé-
neure ( 1899-/902) e da Fon<lat1on Th1ers ás U111vers1dades de Dijon
e de Estrashurgo: sen1 c>squecer, entre !untas outras no f/e/ho e no
N?vo 1\1ta1do, a U11n•er.r1dade Ln,,re de JJruxelas, qLre tne cedeu a sua
catedra duranre u111 ano: finain1ente. a partir de 1933, este ;/ustre
Col!Cge de France. Fo1 suportada por estas tribunas que a n11nha voz
conseg1uu fazer-se ou1•1r tão an1pia1ncnte.
!'os.w1n1 estas púg1na.\' ligadas unias às outras, e, espero-o, tanto
n1u1s eloque11tc.1·, servir cunda a.c; r.r1usas que ,ne são caras! Nestes anos
c.11'._ .. qJ:l/!.__J_a_otas ongust1as nQS...opf1nzenz. não_. quero repeti,:. __ çQtn. o-
'~t;..!_.f!.. ~--f cuplf!:_ <<_l OJ 1ens.. e..J-1r;!hos .. esta-nzos ca11sados». · Cansados.
o.r 101-'C?!1.\? Tenho cspc1_·n:1ça que não. Cansados, os velhos? Não qz1ero.
Para la ae tantas rraged:as e perturbações, grandes claria..ades brilhanz
no horizonte. No sangue e na dor. crta-se unia Hun1a11t·datle nova.
E' portanto, con10 setnpre. ll!na História. urna Ciênc1n histórica d
n1edida ~e tenzpos unprcvistos [)repara-se para nascer. Desefo que,
antec1P_acla1~ente, o nzeu esforço tenha sabido adivinhar e abraçar as
suas d1recçoes. E que os 1ncu.s riachos possa!f1 dilatar o seu caudal.

Le Souget, Natal de 1952.

10
ADVERTÊNCIA AO LErTOR

Tratando-se de prolongar e de estender a 1nfluênc1a de algun~


artigos escritos, ao longo d.e 1nc10 seculo, para propagar e defendei
ideias que se acrcUilava1n e se· julgan1 ainda úteis, não se: cv1ll1u:
- nem prn!1cr1r nos tcx!os conservados algun1as n10Jificacôcs
de rorn1;1.:
- nen1 aliviâ-1os de consa.ierações den1as1ado c1rcunstanc1a1s:
- ncn1 llHH.lificar certo:-; l1lulos, para n1elhor sublinhar o cspu·1~1'
<le u1n arugo;
- nem n1csn10 (mas n1u1to raramente), remeter o leitor para
ln1h11lhus posteriores e que 17cr1111tcn1 unia actualiz.açào <lo pnn1e1ro
lcxlo.
En1 contraparlída, resistiu-se à lcnlação de proceder a essa actua-
lização. Ta,nbém C salutar que os _iovens l11stonadores que viio !cr
cslc livrn poss.-1111 ler un1 scnt1111l'11!11 cxacll' J;l ~vo!uç:"1n d:1s 1dr1:1 i· 1
,

tla n1uda11ç~1 1ncc:-;:,.;a11lL'. t.los p1'11!ns dL'. ,·ista cn1 l·li.stOna. N:iu p.ir:1
que se cnvaidcçan1 con1 essas lransforn1ações. t'Vlas para que dig.;1111
a s1 n1esn1os, con1 conhec1n1cnto de causa, que os seus esforços n~o
serão cn1 vão .

1i
PROFISSÕES DE FÉ A PARTIDA
DE 1892 A 1933

Exame de consciência <le unia história e de um historiador

Nada de regressar ao passado, nada de regressar a mim n1esn10.


O Do1n111e non. surn dignus que sobe aos·Iábios de uni homem quando.
pela pnmeira vez, neste Collége onde tantas presenças Inv1sive1s o
cercam e o espreitam, sente pesar nos ombros o fardo da sua fra-
queza - terei o pudor de o n1antcr secreto. Afinal, o que auditores
e colegas esperam do eleito não é de modo nenhum uma efusão. É a
promessa viril de um esforço, a dávída de uma energia. Para que
empresa? Para a definir, J11Stonador que sou, íre1 direito às datas .
1892: quando da morte de Alfred Maury, o College de France
suprime, para a transformar, a cadeira de Históna Geral e de Método
Histónco Aplicado. que mantinha há mais de um século. Cadeira de
Históna e de Moral, para a chamar com o seu velho nome: que,
sucessivamente, a Daunou, o cláss1co, e a Michelet, o romântíco,
permitiu um ensino 1novador e brilhante.
1933, quarenta anos n1a1s tarde: o Colli!ge obtém a criação de
uma cadeira de Históna Geral e de Método Histónco Aplicado aos
Tempos Modernos: tradução pessoal e livre da fórmula (Históna da
Civilização Moderna) que se passará a ler no edital do College .
1892, 1933, duas datas. um problema: que, necessanamcnte, tenho
de vos pôr. E se, para o fazer, sou forçado a proceder a um exan1c
sem complacência das ideias que os homens da minha geração r.ece-
beram e <los métoc.los que lhes foram ensinados, não vejam nisso
nenhuma -presunção orgulhosa: simplesmente, um grande deseJo de
clareza, e a necessidade, por vós e por mim, de ilummar um canunho
doravante comum .

Ao supr1n11r a cadeira Lie História e de lvloral, o College seguia


em 1892 a sua razão de ser. Ele não fm feito para voar em auxilio da

15
:vitóna, mas para a· preceder. Ora em 1892 a Históna. tal como_ entã9
/ era_con_c!)gi<:i,1-tin.ha Jogado. __ e_g,lJ}lI(LJLPªJJ.ida, Estava nos liceus
\ povoados de agregad0s de Históna. nas Universidades providas de
\cadeiras de Histôna, nas escolas espec1a1s reservadas ao seu culto.
Transbordava dai para as direcções de ensino. as reitorias. todos os
grandes postos da Instrução Pública. Orgu!llosa e poderosa no tem-
poral, mostrava-se, no. espiritual, segura <le s1 - mas un1 pouco
sonolenta .
A sua filosofia? Feita de qualquer maneira, com fónnuJas tiradas
cto Auguste Cornte. do Tamc, do Claude Bernard que se ensinavam
nos liceus, se mostrllva buracos e roturas, lá estava, na. altura própria.
a ampla e macia almofada cio evolucionismo para os dissnnular.
A J-Iistóna sentia-se ã vontade na corrente destes pcnsa1ncntos fáceis;
aliás, n1u1tas vezes o Jissc 11ara cnn11go. os lustonadores não tên1
necessidades filosóficas mullo grandes. E relembrando o dito escar-
nmho de Péguy num dos seus mais ammados Ca/11ers de la qwnzaine ':
((Os historiadores fazen1 gl:raln1ente h1slor1a sem meditar nos limites
L' nas condições da história; têm sen1 dúvida razão; maJ.s vale que
cada um trate da sua vida: de uma maneira geral. mais vale que um
histonador comece por fazer lustóna sem ir procurar tão longe: de
outro modo, nunca chegana a 'ter alguma coisa feita!» - sempre
tive medo que, ao ler estas frases falsamente indulgentes, muitos his-
toriadores. amda há pouco tempo, abanassem a cabeça em aprovação,
sem perceber o ressaiba avinagrado desta malícia de Orléans ...
_ Tudo ísto, de fora. Por dentro, as coisas ordenavam-se s1m-
plcsn1cntc .


* *
Nada de defimcão previa: a históna. era a lustóna... Se. no
'entanto. se davam aÔ trabalho de a defimr. era,. es.tranhamente, .não.
/ pelo seu obJectq,-mãf'j:iéli:í::-seúmi.ten5CQuefo dizer: apenas por uma
parte do seu rico matenal. . . _
«A história faz-se con1 textos.» Fórn1ula célebre: ainda hoJe nao
esgotou a sua virtude. Que foi certamente grande. Aos bons trabalha-
do-res legitimamente orgulhosos da sua consciência de eruditos, em
Justa batalha contra obras fáceis e frouxas, serviu de palavra de
ordem e de senha. Fórmula pengosa se lhe dermos atenção, e que
parecia querer contestar brutalmente o moVJmento geral das pesquisas
humanas estreitan1ente solidárias.
Ligava, por un1 estreito laço, a h1stóna à escrita- e .e~a ~sse
o n1on1cnto en1 que a prC-h1stôr1a, de non1c. bizarramente s1gn1f1cat1vo,
redigia, sem textos, o mais longo dos cap,tulos da históna humana.

' Dt.· /a s11ua1 1on fa11e a /'Justo1rc c:t d la soc1oiog1e dons fes re1npJ
IT/Odernc:s, J.u caderno, 8.• SCflC, p. 28 .

16
- Nascíu uma histór1a económica, que queria ser antes <le n1a1s a his-
tória do trabalho humano: e essa história do trabalho, cujas condições
François Simiand aqui determmava, fui um ano, como fazê-la sim-
plesmente con1 papéis, ou pergaminhos. na ignorância <las técni-
cas? -.Nascia·.uma geografia humana; atraia a atenção dos Jovens,
depressa conquistaUos pof csludos reais e concretos, por estudos que
pareciam fazer penetrar o céu e as águas, as aldeias e os bosques,
toda a natureza v1va, no sombrio acmzentado das salas de aula.
«A história faz-se con1 textos»: e de repente parecia evaporar-se a
observação penetrante dos sillos. a perceDção aguda das relações
geográficas próximas ou longínquas, o exame das n1arcas dc1xaLlas
na terra hun1a1uza<la pelo labor obstinado Jas gerações, desde o tcn1po
en1 que os 11colít1cos, parLJndo do que cnnti11uar1a a ser floresta ou se
tornaria terra lavrada. eslabclec1an1 para a sucessão dos tcn1pos os
primeiros tipos históncos conhecidos das inst1tmções pnmordims da
humamdade,
Claro que os exploradores das sociedades antigas escapavan1 feliz-
mente a tal fórn1ula ele estrc1la111cnto e de n1utilação. Incessantemente
nvificados e renovados pelas escavações. os achados de monumentos
e de material humano, os seus estudos - assim postos e1n contacto
com essas realidades substanc1rus: um machado de metal. um vaso de
terraeola ou barro. uma balança e seus pesos, tudo coisas que se
podem apalpar e ter na mão, cuia resistência se pode expenmentar, e
do exame de cujas formas se podem extrair cem dados concretos
sobre a própna vida dos homens e das sociedades-, forçados a apli-
car-se con1 exacti<lão ao terreno e con<luzidos pelo despertar do sen-
tido topográfico a aquisição do sentido geográfíco, não se submellam
de modo nenhum às prescrições de um código severamente definido.
Pelo contràr10, no donlinto dos estudos 111odernos, os Jovens,
forn1aclos 111Lcleclual1ncnli..: por u1na cullura que linha por untca hase
textos. estudos de textos, explicações de textos, passavam, sem ruptura
nos hábitos. dos liceus onde tmham sido classificados umcamente
pelas suas aptidões de tcxtuànos, á Éco/e Norma/e. à Sorbonne, ás
Faculdades, onde lhes era proposto o mesmo trabalho ele estudo de
texJos. de explicação de textos. Trabalho sedentiirio, de sccretána e
.. cti papel: tralialho de Janelas fechadas e ·de ·eorim'as ·comiias.i5ã["'
esses can1poneses que. no que respeita a terra fértil, parcc1an1 nao
-·amanhar senao velhos cartulános. Dai, esses possuidores de senhonos,
nada preocupados en1 saber o que faziam dos produtos da sua reserva,
ou o que representavam pra eles os seus domimos. nas diversas
épocas. em serviços ou en1 g'éneros~ em fidelidades de homens ou
em somas de dinheiro,! h1stona era uma grande senhor'ã)a humilde
realidade cconóm1ca fazia, na sua rente:--Tigura deNlons1eur Dín1an-
che. LY1v1a-se sen1 <linile1ro nem crédito. Praticava-se uma agncultura .
uma_.Jndústr.1a•. -um~con1êrett)~s:traet-os. E. desse modo. a história
afirmava ainda melhor a süã participaçãÕ na dignidade, na respelta-
bilidade, no perfeito e anstocrático desapego dos estudos textuais e

17
literános. GO?.ava da alta consideração de que esses estudos bene-
ficiam cm França desde o Renascimento. Se ainda hoJe. em 1933,
para formar os seus agregados de hrstona, a Umversidade lhes exige
apenas quatro exercicws em francês sobre assuntos de hrstóna. e
quatro confcrênc1as, St: poss!vcl «brilhantes>>. sobre assuntos de his-
tória: se, querendo !!1cu1ub1-los J:.: rest1tu1r a vida <las sociedades pas-
sadas toda a sua vida matenal e espiritual, política, econónuca e
snc1al - , não lhes nergunta se sabem ler e, se for preciso. organtz..'lr,
c-m todo o caso cnt1cnr un1a cstatfst1ca; nc1n se- conhcce111 o <lire1to
e os rudin1entos básicos da sua evolução; nen1, é claro que já não falo
de terem ouvido os teóricos contradilónos da economia polílica, mas
se são capazes Jc explicar çon1 precisão o que C un1a 1noc<la no seu
nu111usc10 quotidiano; o que significa o cfunh10; o que se passa real-
n1ente por <letras <la fachada de un1a Bolsa de valores ou <lÓs gurchets
de um Banco de depósitos; se, para cúmulo de paradoxo, nem sequer
lhes exige a explicação crítica de un1 lcxlo, a U111vcr~ídadc contcnta-S!?
q1..1asÇ: _J::!ntcamentc ... ~on1 palavras, __ <la_tas, nomes de lµgares ___ e _ _de
l.!Q!Jl~ns-' lemb"remo-nos da fórmula; «A Históna faz-se com textos.»
Então. sem dúvida, ccmpreenderemos.

*
* *
\!a~ 1>.:l~.Jc.~.t.0§ )!J1ng1an1:-se os factos? Ora, todos o diziam: a
l11stór1a era estabelecer os 1'llctos) depois tratá-los. E era verdade, e
era claro. 1na.s cm tr:.1ços largos, e sobretudo se a lustóna· fosse tecida,
sô ou quase só, de acontec1n1entos. Tal rei tinha n:.1sc1do em tal sítio,
cn1 tal ano? l~inha obtido, em tal lugar. unia vitória decisiva sobre
os seus vizinhos'! Procurar todos os textos que razc111 n1cnção desse
\nasc1n1cnto ou dessa batalha; :-.clcccionar <l~ enlrc eles apenas os
!dignos de crCdito; co1npor com os melhores uma narrativa cxacta
/e precisa: não se faz tudo isto scn1 dificuldaJc?
tv-Jas por outro laUo. eu facto úc a libra Lornc--sa se ter Jcrrcc1ado
progrcss1van1entc ao longo dos sCculos; de nun1a daúa sucéssão úe
anos os salános terem baixado ou o custo de vida subido? Factos
lnstóncos, sem dúv:Ja, e aos nossos olhos n1a1s 11nportanles que a
!llúrlt: Jc uni rei ou a conclusão de uni Lraladu efén1ero. I::;oactos des-
tes pcderão ser apreendidos numa recolha directa? Claro que não:
1nvesllgadores pacientes, revezando-se, sucedendo-se elabOram-nos
Jcntan1ente, penosamente, com a aJuda de 1nilhares de observações
3uúic1usan1cnte interrogadas e de dados nun1Cncos laboriosamente
cxtra,Jos <le múlllplos documentos; que na verdade nunca são apre-
sentados tal e qual. - Que não se obJecte: «Colecções de factos, e
não l'aclos ... » Porque onde é que se ,a buscar o facto em si, esse
átomo pretendido pela história? Será o assassmato de Hennquc IV
por Ravaillac, um facto? Se se quiser arndisà-lo, decompô-lo nos seus
e1en1cntus, n1ater1aís uns, espirituais outros, resultado comb1nado de

18
leis gerais, de circunstâncias parllculares de tempo e lugares, enfim,
de crrcunstânc1as própnas de cada ·um dos indivíduos, conhecidos ou
ignorados. que desempenharam um papel na ,tragédia; bem depressa
se verá dividir-se, decompor-se, dissociar-se um complexo enredo.:.
Dado? Não, criado pelo h1stonador, quantas vezes? Inventado e fabn·
cado, com a aJuda de hipóteses e de coniecturas, através de um tra·
balho delicado e apaixonante.
Dai, entre _parêntesis, a atracção .. tão_.forte que .. os.. períodos de
ongeq, exercem sobre os h1stonadores: é que abundam os misténos
que é precis_Q..esclarccer, e as ressurreições que é preciso tentar. Deser·
tcs-inTiriít,,s. no meio dos quais é fascmame fazer brotar, se se puder,
1actos de úgua - e, á for<i·i1 <lc 1nvest1gaçõcs porfiadas, fazer nascer,
do nada. oãs1s de conhccuncntos novos .

*
* *
E aqm está sem dúvida, com que abalar outra doutnna, tantas
vezes ensinada. «O h1stonador não poderia escolher os factos. Esco-
lher? com que direito? em nome de que pnncip10? Escolher, a própna
negação da obra científica ... » - Mas toda a lnstóna é escolha.
É·O, até devido ao acaso que aqm destrum e ali salvou os vesti-
g10s do passado. É·O devido ao homem: quando os documentos abun-
<lam, ele resume, simplifica, põe em destaque isto, apaga aquilo.
É-o, sobretudo, porque o histonador cria os seus materiais, ou se se
qmser, recna-os: o histonador que não vagueia ao acaso pelo passado,
corno uni trapeiro à procura de achados, mas parte com urna intcnçãQ
precisa, un1 problcn1.1 a rc~olvcr, u1na h1pútcsc de trabalho a vcriricar.
Dizer «não e un1a alJtu<lc- c:1cnlii'ica», não C s1n1plcsn1cnte' n1ostrar que
não se sabe grande c01sa da ciência, das suas condições e dos seus
mélodos? Enlão o 111stologtsta, ao olhar pela ocular <lo seu n11cros-
cóp10, apreenderia imediatamente factos brutos? O essencial do seu
trabalho consiste em cnar, por assim dizer, os obJectos da sua obser-
vação, com o auxílio Je técmcas muitas vezes bastante complicadas,
E, uma vez a<lquiri<los esses obJectos, tdern os seus cortes e as suas
preparações. Tarefa smgularmente árdua; porque descrever o que se
vê, ainda và; o difícil é ver o que ê preciso descrever.
Estabelecer os factos e depois trn.t,'l:.los..... Sim, mas atenção: não
se vá assim instituir uma divisão do trabalho nefasta, uma luerarqma
pengosa. Não encoragemos aqueles que, aparentemente modestos e
receosos. na realidade passivos e 1m1tadores, amontoam factos para
nada, e depois. de braços cruzados, esperam eternamente que venha
o homem capaz de os reumr. Tantas pedras nos campos da lustóna.
,alhadas por pedreiros benévolos e dep01s abandonadas, múte1s, no
terreno... Se surgisse o arqu1tccto que eias esperam sen1 ilusões,

19
tenho a ideia de que, fugindo dcssas planícies Juncadas de pedras desar-
món1cas, iria construir para um lugar livre e nu. Manípulaçõcs, inven-
ções. aqui os operãrios, além os construtores: não. A ínvenção deve
1
1 estar por toda a parte para que nada do labor humano se perca.
, /Elabgrax_um facto é'_ç.onstrwr. Se_s__ e q_l)ls!"r_,_.•Lf.oi:necer.._uma..rssposta
/
1/ a.1mm.. g~1:ifilnta. E s\'_!J}i_o_.!1lÍc_p_e_rgu!]t_a,.so, ha o nada,
Verdades que -<lcn1as1adas vezes escapavam a den1as1a<los historia-
dores. Educavam os seus alunos no horror sagrado à hipótese, con-
siderada (por homens que aliás não deixavam de ter na boca as gran-
des palavras método e verdade científica) cumo o pior dos ))Ceados
contra o que chatnavam Ciêncza. No frontão da sua lustór1a, afixavam
em letras espaventosas um peremptóno Hypotheses non Fingo, E para
a c!a~sificação dos factos, uma Un1ca máx1n1a: seguir rigorosamente
a ordem cronológica,,, Rigorosamente? Michelet diZia, subtilmente,
Mas todos sabiam que Michelet e a históna não tmham nada em
comum. Ordem cronológica: (não sena um logrn? A hrstóna que
nos ensinavam (e se ponho o·s· verbos no ín1perfeito, não vejam nisso,
de n1odo nenhum, urna excessiva candura), a hislóría n fazer que nos
mostravam, não era. na verdade, senão uma deificação do presente
<.::op1 ':'-. aju<la___ do passado. rvras ela recusava-se a vé-lo- e a dizê-lo.

*
* *
Históna de França: da Gália. definida por César no pnncipio dos
Con1entúr1os. :Hé à França de 1933 tomada nas suas fronteiras, descia
o fio do rempo sem nunca se perder nem se dispersar. Não encalhava
cm ba1X1os escondidos, nunca se afundava nos rápidos; chegava ao
ter1no da sua v1agcn1, concluía: <<VCJam: lendo partido da Gália,
chego sem obstáculos ü França Je hoie: maravilhosa contmuidade de
uma lustóna nacronal!» Era verdade; mas, partindo de 1933, o lusto-
nador tmha começ~do por subir a corrente, reconhecer todos os
afluentes, eliminar os braços que se per<lian1 (isto ê, que não conduzíam
crn linha rccta a César). E como esse n1ajcsl0so <lcscnvolv1n1cnlo,
que o encantava, introduzia numa lustóna viva, feita de catástrofes,
de rragédias, de amputações e de anexações sem futuro. não sei que
rigidc (içQ~1a e, en1 suma, cadavérica .
Basta olharmos com os olhos novos )im Atlas hrstónco para
vermos a prodigrosa representação e o as as formas. surpreenden-
temente diferentes umas das outras, apresentadas pelo país a que
chamamos França, do nome que a si mesmo se deu com contmui-
dadc de há séculos para cá; evoquemos, se chegarmos a libertar-nos
da obsessão do «que é», essa série de formações para nós paradoxais:
mas se unia delas tivesse durado, podemos estar certos de que a histó-
na tena, ao remontar, reencontrado os seus antepassados: e essa mis-

20
- lura de França e de Espanha, e a de França e Renâma, ou de França
- e Inglaterra, ou de França e Itália. de França e Países Baíxoy., .
e Passo adiante: a não dar o seu lugar a tantos acasos, troços, 1novaçoes,
. quem saberá o que uma históna perde em vida e em interesse? E se
a eu pudesse, nesta cadeira, usar outras palavras que ,ião as científicas.
quem sabe o pengo que eia podia apresentar?
- Históna do Reno, imagmo '. Vocês escrevem-na de boa fé, par-
- lmdo da ilusão de que descem o fio dos acontecimentos, quando de
- facto começaram por .Q..LCJn.QllJar, Partem do que é o Reno para
s nós - um Reno carregado de óÕ!os nacionais, um Reno fronteira,
m parada sangrenta de políl!cos hclicrslas. E, de aproximação em anro-
a x1n1ação, chegaram ao texto fa111oso <los Cornentários, que vallc1na:
«O Reno, separação da Gália e da Gem1ânra ... » Posto o que, tornam
e
a descer. Inocenten1ente, cstú visto. Livremente. de acordo. Mas na
vossa mão, ao longo de toJa a viagem. apertam o,rgulhosamcnte os
m dois extremos da cadeia. Contra a vossa vontade, proJectaram o pre-
e sente inílamado nos séculos arrefecidos, Lá o encontraram. tal como
,
o puseram. Método regressivo. sen1 que vocês o desconfie1n. Que un1
s Guilhern1e l r outrora o lenha rrcconizado. que, seguindo u :-;eu cxcn1-
e plo, o enalteçam aqueles que. tomando-se por fim último do mundo,
entendem que o passado na sua totalidade não vale senão con10 pre-
paração e Justificação pretendida do que eles são e proJectam - seja,
Mas onde pôr, onde colher a ciência no mero disso?
Era assim que se 1a, e a história triunfava. De fora, invejavam-na
pelo seu poder. No entanto, esvaziava-se pouco a pouco da sua subs-
tânc1_a reaL A_ h1s_tcín.anão_cra,.dizia:i,p,_ 11.11_1,ulJ_·sciplin!l_ Jl_-ª_.!:_tic1:1Jar co. m_
a um conteúdo perfeitamente definido, Era um «métodQ»: um_ método
a em~condições. de se tornar. no domimo das ciências do Homem, o
o 1/método quase universal, Como se esse método. que um_ texto conhe-
cido <lefinta con10 «o n1étodo utilizado para con.st1tu1r n h1.stôna», rosse
na rcalídade n1ais <lo que un1 do.s 111êtodo.s praticados por toúas as
ciências: o do conhecimento mdirecto? A históna nãn tmha perdido
s a sua sombra. Mas, por un1a .son1bra, renunciava ao seu corpo ver-
m
dadeiro. E aqueles que lho diziam - nomeadamente os que Hcnn
Berr. o homem que, em 1911, no prefácio do seu ensa10 crítico e teó-
rico sobre A sintese en-z história. linha a coragem clarividente de escre-
ver (p. VI) «Afirma-se que é por a históna ser demasiado cientifica
que não está. em contacto com a vida; estou convencido de que C,
ao contrririo, por não o ser suficientemente», reunia à volta da Revue
de Synthese Historique- esses preparavam sem dúvida o futuro; não
supenntendiam ao presente,

i Cf. Luc1en Febvre, Le probli:me lustor1que du Rhtn, i. • parte do


volume Le Rlun. publicado cn1 colaboração com Albert Demangeon pela
Société Générale Alsac1enne de Banque, Strasbourg, lmpnmene Alsac1cnnc,
1930, 1n-4.º Retomado em Le Rlun, probiêmes d'fustoire et d'économ1e, Pans,
A Colin, 1935. m-8, '.

21
1 II
1
i
: E deu,se. o_qe~rei:.tar,.. brusco e desagradável. Em plena cnse, no
m_eJ.Q .das dúvidas. · · -
Qü.v1das nª-s_çüJa~,;;__da. g.u_erra_J)ú.vi<las dos que reton1avam a_ sua
profissão_nacifica. assaltatlos_pela. 1tle1a Je que estavam ali não--para
cada .. um. Jernr a cabo a sua tarefa mdividuai, como a tenam feito
Se n tormenta não .ti\·csse rcyÓiv1cto o mundo nos s·eus-t·~-fbüJ)ões·,- rri~i
por acréscimo, a tarçra Jüs que jà lá nãq cstavan1: dessas d!,las gera~
çõcs atroz111cntc diz1n1a<las que não sobi;cv1v1a1n .senão cm alguma_s
rumas, .como as. florestas de pesadelo que ás vezes se atravessava,
sem se suspc1tar,.na JrenLc ... ' «Fazer história~ ensinar hlstóría~ revor-
ve:r cinzas, unias j.i fnas. outras ainda n1orn,1s: lo<las cinzas, rcsiduos
inertes Jc c.x1stênc1as dcstruidas ... Não- havia outras tarefas, n1a1s
prementes, mais ú1e1s. para dizer a grande palavra. a reclamar que
lhes déssemos o que reslava das nossas forças?»
Dúvidas dos que punhan1 a rlc.lícuio a «falência e.ta I11stór1a»,
t1nhan1 n1cnos pt>so. forque, acu.sü-ln <lc não ter previsto nc1n predito
nada; 1ro_n1zar sobrefü Jerr?caôa de «le1s»Jq~~-e,~fo_r19-van:i l?®.t2L.azer
__de__ lhes denuncrnr a rnul1!1daue; contrapor ao fa~.121_i:1tualismo econó-
mico» que há tempos um Frédénc Rauh' assinalava como disfarcado
sob o non1c de <<n1atcr1alis1110 h1stór1co»,_ os recursos de uma enêrg1a
n1oral cuia::. possibilidades- n1nguém negava: responder gracejando,
.• con10 Bernard Sha\v, aos que fa!ava111 Jo n1c10 e Jo seu constrangi-
mento: «O hon1crn razoàvcl a<lanta-sc ao n1e10; o hon1c1n insensato
tenta adaptar o- n1c10: essa a raião por que todos. os progressos são
obra de 1n1bcc1s» - não l1av1a en1 tudo isso nada de 1mprev1sto, nada
que pudesse interessar os h1stona<lorcs. Porque cies bem sab1'an1: hâ,
sen1rrc disunlas. a ortlcn1 do conhccnncnlo e a da acciío; a ordcn1 do
saber e a da 1nsp1raçãu; a or<lcn1 <las coisas que jã con1cçaram a existir
e a ordem da cnaçiio que Jorra. J'odenam alguma vez leis históncas
11_errc1lame11te cstahcleciJas constraiigcr_ _9c,___l1omens'/ E quem pode
al'Tfn1ar que nao scJa ncccssàriO-Uríl-·séflt1n1ento de-cnação autónoma
para agir, num dado n1e10, contra o peso <las tradições, contra a inér-
cia das 1nst1tu1ções - n1csn10 quando aos olhos do- futuro o esforço
autónon10 dos inovadores se ínscrcver sem dúvida entre as consequên-
cias do regune que eles combatem?
N"1a1s grave era :a cnse de tudo o q,ue rodeava, <le tudo o que
enq_uadrava a l11stóna no <lon1in10 do espir1lo. E aqui, a guerra jã não
tinha nado. a ver. Esse n1undo 1no<lcrno de que estávamos o-rgulhosos
e que nfcrccia ;.is nossas act1v1dadcs o a.silo Lonfortàvel de certezas

1
Lucicn Fchvrc, L 'htsto,re dans /e n1ontíe en rtuncs, lição de abcrlura
do curso Ui.:. l-Iistona l\.·loderna na Universidade de Estrasburgo (Revue de
5ynthi•se Histonque. L XXX, 1, n.º 88, Fcv.u de 1920, p. ( e scgu1ntcs) .
"1 1:uuics de ,nor(l/e, Paris, Alcan, 191 L. p. 64 e seguintes .
adqumuas; esse mundo domrnauo pelo matcmat1smo ngoroso de uma
física tratada como uma gcon1etna do n1undo, esvaziando a matéria
de toda a qualidade, reconduzindo-a à simples extensão; essa ciência
dos fenómenos naturais que, com todo o seu ardor, tendia para o
obJect1vo - um obJect,vo subtraido às mfluências do Eu, retirando
valor não da qualiuade, mas da quanlldaue; mais especialmente, essa
ciência úos fa<:lus hun1anos que se constituía pela aplicação ao domi--
n10 hun1ann de mêtoJos cxpenn1cntados até então no t!omin10 Jc
un1a n1atér1a votada ao n1a1s ngoroso determinismo - tudo 1sso se
desrnoronava cn1 grandes pc<lai.,,·os. sob o choque repetido de ideias/
novas, desses abanões profunJos que abalavan1, desconjuntavam, as
bases seculares da física.
Falência <las velhas 1dc1as, das velhas doutrinas, que nutras, rc--
ce1n-chegadas, rcJcitavam totahnente'! Va1nos lá! Não hj n1ar gcoló--
g1co que não Jcixe un1 estrato a atestar a sua força. U1na cnsc de
ideal. o regresso necessário a un1 n1lstic1smo prin1ítivo ou evoluído?
Ainda menos. Um cnr1quec11ncnto, ccrtan1cnte. e un1 alargan1ento .
Sobre- o ponto precü:o que nos ocupa, a possibiliJade entrevista de
negociações novas, Je relações 1nteligivc1s entre esses dois don1in1os
até então separados por um ah1smo: o domimo obJect1vo da Natureza;
o domimo sub1cct1vo do Espmto __ _
Não é de 1nodo nenhun1 o n1omento de averiguar con10, cm que
medida e sobre que pontos precisos a h1stóna - se bem que acabada
de nascer para a vida das ciências em geral - pode ser afectada por
essas grandes transforn1ações <le 1<le1as. Seria preciso um curso, senão
mesn10 um livro· 1ntc1ro. Contentemo-nos con1 un1a simples verifica-
ção: con10 conceber, no meio de tantas transformações, unia histôha
perfeítamente imóvel nos seus velhos hábitos? Como não sentir a
necessidade, para nós. de ligar as nossas ideias e os nossos métodos
a outros? Para crnprcgar a palavr;1: con10 nãn reconstruir. quando por
toda a parte aparecem fcnuas'/

*
* *
Reconstruir, n1as sobre que fundan1ento? - Não procurcn1os
longe: sobre o fundamento sólido do que importa chamar a Huma-
nidade.
Históna ciência do Homem ciência do .passado humano. E não,
de moctó- nenhum, ciê1ida--é!as 'coisas, ou .dos conce1tos.-As 1de,as,
foradÕslÍÓmens qÜe-as professán,fAs ideias: simpleseléinentos entre
muitos. outros dessa bagagen1 1ncntal feita de 1nfluênc1as, de lembran-
ças. de leituras e de conversas. que cada um de nós transporta con-
sigo? As ínst1lU1(Ões, separadas dos que as fazem e que, embora res-
peitando-as, as modificam sem cessar'1 Não. No sentido mais lato,
nãoJL:i.Hi§tóQ_a a não ser a _d_qj:lcmem, Quando Darmesteter escrevia
A vida das palavras e tomava por herói a Linguagem, sabemos con1

23
que vigor, aqui n1esmo, no Ca/f(!ge, Michc1 BrCal denunciava a sua
ilusão.
, História ciência do Homem, e então o,s factos. sim: mas são factos
-/; /Jwmaaos.'· tarefa do h1stonador: encontrar, os homens que os viveram.
--;/ / e deles os qu~. _!1~a1~ .tarde aí se i nstalaran1: co1n as suas ideías, para-as
, mt;,rpr_é,Jªr.
/ Os textos,.smi:,roas sãQ textos-hwnanos. E as próprias palavras
que os formam estão: cheias de substância "11umana. E todos têm a sua
lustóna, soam <.liferentemente segundo' as épocas, e rnesmo se
designam obiectos niatenais só raramente significam realidades idên-
ticas, qualidades iguais ou equivalentes.
Os textos, sem dúvida: mas todos os textos. E. não só os documen-
tgs. de-,i;:qüívô{_erri.êu1,,Tav<Or. s§··críá-um..Jiiivilég1o - o- prFv11ég10de
dai tlrar, como <lizra o outro 1 , um nome, um Jugar, u1na <lata; uma
data, um nome, u1n lugar - todo o saber pusitlvo, concluía ele, de
un1 h1storiad<:>r indiferente ao real. Mas, tan1bl!m. ~ poema, . ~
quadro, um drama: document,os para nós, testemunhos de uma lu,s-
t~l]ll vwa e humana. saturãdos de pensamento e de acção em
'p.ot~- -
__..,.-- Os Lcxtos. evidentemente: mas niio apenas os 1ex1os. Também os
do_cumentos, seiain de que natureza forem; os que há longa data se
utilizam; e sobretudo os que o feliz esforço de disciplinas novas pro-
porciona: _<J.~~!Pli!]~_s_._cqp}.Q_._g ___c~tatisllca: a deirulgrufia. __q_ue__~lJ.ºfil_1tui
a genealogia. e111 toda a n1edida e111 que D6mos subst1tu1- no trono os
, , U;_,.v' Reis_,e_osPr.mc1pcs: .ª Jinguist1ca, proclamando com Meillet que todo
,,:;. ,. ',.º facto de 1mgua marnlesta um lacto de civih~;iS~'~ psicologia. ao
pass;ir do estudo dos 1nchv1úuos ao dos grupos e das massas: quantas
n1a1s? Nos pflntanos larnaccntos do Norte caru, hú núlénios, o pólen
das .irvorcs florestais. tloJc un1 Gra<ln1ann, cxam1nando-o ao n11cros-
cop10. lira dai o fundamento de estudos apa1xonantcs sobre o povoa-
n1ento antigo, que a ciêne1a do iu1h1t;:it hun1ano deve cnnfcssar-sc
1n1potentc p:tra levar a bun1 l1.:nno - n1csn10 acrescentando aos dados
<los textos u cstuJo <los non1es dos lugares e o dos vestígios arqueo-
lóg1cos. Un1 docun1ento de h1stóna, esse pólen n1ilenürio. A }ustór1a
faz com ele o seu mcl._A h1slóna Qlle se edifica, sem exclusão. com
-1.!l~.0.......Q_J:iuc o engenho ~L~,l1_01~1cns nodc 1nvcnlar e con161nar para
supnr o silê11.fio Jo~~-tç,.\tqs. os_~gagos do esquecimento...
·__fregoc1ar~uan1eíliC'Tilovas aüancas entre disciplinas pró-
(\_x1n1asõu1õngingua.s;'·çoncentrar c1n fc_t\.C um mesmo assurttó
\ a tuz de vàn:ls ciêncías hctcrogG1tc.as: tarefa pr1n1orJiaJ, e scn1 uv1 a
' a mais nren1c!1tc e a n1a1s fecunda das que se impõem a uma história
1n1pac1cnte- con1 as frontcíras e as compart1mentações. ·

O físico Bo1ssc.

24
Empréstimo de noções? As vezes. Empréstimo de métodos e de
espinto, antes de tudo. Feito de investigadores isolados. procurando o
apoio dos ,~zmhos? - hoJe é essa a regra. Amanhã, sem dúvida, será
um feito de trabalhadores de formação diversa unidos em grupos para
remurem os seus esforços: ,magmo o físico pondo o problema; o mate-
mático trazendo a sua vutuosídade no maneio da linguagem cien-
tífica; um astrónomo. enfim, escolhendo no campo imenso do céu os
astros que é preciso escolher, observando e controlando. A fórmula
do futuro, sem dúvida, tirará ao trabalho muito da sua mlimidadc.
O trabalho já não será tão r,rofundamente, a coisa de um homem e a
sua manifestação. Mas recuperará em eficácia o que ]ui-de perder em
personalidade. Os tempos Jo artesanato. quer se queira. quer não,
descen1 lcnta111entc abaixo Uo nosso horizonte. E corno tantos outros .
o pequeno artesão científico que todos nós somos, que nós an1an1os
até nas suas taras e nas suas n1an1as, o pequeno artesão que faz por s1
mcsn10 lO<.las as co1sa.s e ena ele próprio a sua utensilagcn1, o seu
campo de experiência, os seus programas de 1nvest1gação - vai 1un-
,Jar-se no passado a tantas belezas mortas. Mas uma outra beleza se
desenha sobre a terra.
Colaboração dos homens. concordância dos métodos. analogia
dos desenvolvimentos. De uma secção da filologia, a filologia com-
parada, ela própna saída da descoberta do sânscnto no século XVIII,
desprendeu-se un1a ciência nova, ·a linguist1ca.' Ora. antes de se orien-
tar para o estu<.lo estúuco <.los factos a I agem, abstrawdo da l11s-
tór1a das línguas. dedicou-se quase- só a esta. Evolução que sem dúvida
prefigura de muito longe e grosseiramente a que um dia a história
realizará. quando cio esrndo global dos coniuntos h1stóncos - povos
e nações, se quíscrcrn - pa:,;sar. sob un1a forrna que não l_)Odcn1ns.
<lctcrnunar antcc1padan1cntc .(porque 6 cn1 granJc 1ncJiJa função
dos progressos que hão-de vir Jc outras ciências vizinhas), ao estudo
estático dos factos da h1st6n:1. .. De n1on1e:nto. n1ocicstan1cnlc, não lhe
deslmemos outra tarefa senão a de pôr problemas humanos. Por
preocupação de humanismo e. ao mesmo tempo, por pressentimento
do que um dia poderá ser a h,stona. A ciência dos factos de iustóna.
, Uma ciência com leis'/ Talvez. Tudo depende do que se entende
a- ! or Lei. Palayra -an10iCiosa, palavra Pº:
pes,adãõê se~lidos d.iversos,·,
i :zes c9ntrad1tor1os. Leis que constrangem a acçao, Jª <l1s~emqs_ qye
~J
~
~ Nao esmaguemos o esforço nun1-mro sob o peso esterilizante do
ó P,assado. Repitamos clarainente, nós, lustoríadores - e porque histo-
nadores - que rç) passado nao obnga.:, Passado, aliás? Não tenham
ilusões Q [1ome1n !J.Ô.'?. sr.Jembra... dQ_p.as.sado: .g.econstiô1-o sempre.
O homem 1so]'ãao,' essa abstracção. O homem em grupo, essa reali-
dade. Ele_não_cnnserva .e> passado...l)a_mçmóna, como. os gelos.do
Norte conservam fngorificados os mainutes milenários. P_,u:(.e__dn._p.=_,
sente- e é..sempre através dele que conhece, que.interpreta o passado.
~-··--·-
25

''
i~;
Será preciso um exemplo- e sem dúvida o mais típico de lodos?
É o do costume medieval que Marc Bloch Justamente alci;ava. Du-
ranlc alguns sêculos cons1<lcrou-se válida unia regra <le direito, ou
Julgou-se icgít1ma uma renúa pela Simples razão de que regra ou
renda eram 1memonrus. E o JUIZ consc1enc1oso, quando procurava a
verdade Jurídica, vu!tava-se para o passado: {{Que fizeram antes de
n11m'? Qual 6, portanlü. o coslun1c?» Dcvenµ pois. o <lírctlo ter pcr~na-
nccido cstacionàr10? Não, o direito não deixou de evoluir, e rapida-
mente. Tal con10 evoluiu o Crist1an1smo, entre a paz da IgreJa e a
Reforn1a ...
Necessidades v1ta1s. Reacções 1nsllnt1vas de <lcfcsa contra a n1assa
enorn1c <los factos, <las ideias, dos costurr1cs <lo passaJc,. Pene~rar tle
presente a própria tradição: pr1n1eiro n1eio de lhe rcs1sL1r. E ccrta-
n1entc que não C essa a reacção <la h1stüna obJcct1va. Desprendendo-se
dessas interpretações~ ela tenta, por un1 esforço heróico e dirccto,
reconst1tu1r os s1stcn1as sucessivos de ideias e <le 1nst1tu1ções, no seu
estado Je frescura original. Mas sabe medir as dificuldades de tal
tarefa Sabe que nunca fará funcionar o aparelho, 1mpossivel de
cnconlrar, que, depois <lc un1 sÕno de sCculos, lhe faça ouvír, registada
tal e qual para a eternidade, a própria voz di_1 passado captada _ao
vivo. l ter reta. Or onst1tu1 e co1npl~ta as respostas. Faz
o passàdo de que tem necessidade. E não há nisso nen 1um escân a _e,,
nenln:nn-a-terrtado ã. sup__QS.ULmaJcstade da ciê1iCla:-A--cl"'ênc1a não se
.raz-num-atorre-d"ellLlfrim. ,Faz-se a pau;_passo c·orti'" i1 victa.-e...a.u:a:v.és_
- de seres 1·1vos que mergulham no século. Está ligada por mil laços
subtis e complicados a todas as act!l'ldades divergentes dos homens.
Sofre mcsn10, por vc?;es. u 1nfli.iênc1a das rnodas. Nlcrgulhando no
n1c1u comum 3. todas as outras disciplinas hu1nanas, como poderia
escapar as 1nqu1ctaçõcs que lhes sãu próprias, essa Cil!nc1a de que
Poincaré <liz1a que «adivinha o pa!-:isa<lo>>'J Oiga111os que ela só toca
con1 a vannha, para as ressuscitar, em ccrlas parles: só as que têm
valor para o ,<leal que ela serve, no tempo cm que o serve ... E volto
a mrnha pergunta de ha pouco.
Leis? Se se refcren1 as fórmulas comuns que, agrupando, factos
até então separad'ls, for111am com eles séries - porque não? Assim, a
h1stór1a provará uma vez n1a1s a Unidade viva da Ciência; ass1n1 se
sent1rà, arnda mais, irmã das outras ciências, de todas aquelas cuJO
maior problema é ho1e promover o acordo do Lógico e do Real-
con10 é, para a h1stóna, promover o acordo do Inst1tuc1onal e do
Contingente.
T;rera difícil. Por toda a parte, em todas as c1encias, não há
hoJe senão oposições, conflitos, antinomias. Aqui, nesta casa, deixe-
mos troçar os que vão zombando e denunciando as nossas 1mpotê:1-
cias. Só se csquccen1 de uma coisa: na origem de qualquer aqws1çao
c1c1uífil·:1 t~stü o nfil1-ct1nfrim11sn10. Os rro~res...-=o~ da Ciênc13 são frutos
~i:1 Ji:-,._·~,r,.Ji;L c~,n1,.-,, t' .il' /?C'!'\.':,;::: ,Jl.;~" ~(-. 2!:::1:":-::2.:.-:::. x' :;>:;;._::::~::.:'"~. 2.5
rcligiÚL'S. U {JOT{C[ 11,r...T, ·.,"t ·-~· ~ ':).ú.' .

26
*
* "'
Ao começar esta lição sabia quanto tempo e quanto esforço
senam precisos para deixar bem explícitas estas i<leías. Desculpem-me
não ter desistido perante dificuldades que conhecia. Não se tratava,
para mín1, de edificar un1 sistcnta, n1as de vos apresentar u1n homem,
as suas intenções, as suas opuliões, talvez. e as suas fraquezas, decerto
a sua boa von la de.
No belo livro ]Ubilar que o Colfége de France publicou por oca-
sião Jo seu quarto ccnten:.ir10, encontra-se um docun1cnto con1ovc<lor.
reproduzido pdos cuidados de Paul Hawrd. É uma página de notas
aulogr{1ficas de fvlichclct - nntns lançadas no papel con1 a sua letra
fina, antes de un1a das últnnas lições que aqui proferíu. · Eis o que se
lê nessa pdg1na en1 que jri vihran1 as cadências do grande poeta da
111stór1a romântica:
«Não tenho nenhum partido ... Porquê? Porque, na h1stóna, v1 a
J11stóna: nada mais ...
«Não tenho nenhuma escola... Porquê? Porque não exagerei
a 1mportânc1a das fórmulas, porque não qws dom1nar nenhun1
espinto: pelo conlráno, libertá-los-dar-lhes a força viva que faz
Julgar e encontrar.»
Poder eu um dia, próx1n10 ou Ionginquo, no termo do ensino
que hoJe mauguro, merecer que me seJa rendida esta homenagem:
«Na h1stôna, vm só a Jmtôna, mais nada... No· seu ensmo, não
don11nou os espiritos, porque não teve sistemas - desses sistemas de
que Claude Bernard também dizia que tendem a donunar o espinto
humano-, mas preocupou-se com as ideias e com as tendas; com
as ideias, porque as ciências não 3vanÇâiilsenão pelo poder criador
e onginal Jo, pcnsa1ncnto: con1 as teorias, porque bcn1 sabe1nos que
nunca abarcnn1 a 1nfin1ta con1plcx1da<lc <los fc11ó1nenos naturais: não
são senão esses graus sucessivos que a Ciêncía transpõe uns após
outros, no deseJo insaciável de alargar o honzonte do pens~:nento
humano - com a magnífica certeza de não atingir nunca o cume
do; cumes, o cimo. de onde se veria a aurora surgir do creptiscuio.»

27

1.
1
j

VIVER A UISTóRIA

Palavras de iniciação

Amo a h1stóna. Se não a amasse não seria !ustoriador. Fazer


a vida em duas: consagrar uma à profissão. cumprida scn1 amor;
reservar a outra á satisfação das necessidades profundas- algo de
abomrnávcl quando a profissão que se escolheu é uma profissão de
inlcligênc1a. Amo a história - e e por isso que estou feliz por vos
falar, hoJe, daquilo que amo'
Sinto-me feliz e é mmto natural. Não gosto muito de misturar
os géneros. e substilu1r a conferênc1a~a confidência. Mas enfim,
posso bem dizer-vos !Slo. Quando cm 1899 cntreí, corno vocês, nesta
c..:asa. após o n1eu ano de serviço n1iI ar (o prln1ciro dos scie anos
que os homens da nnnha geração deram, cm me<lía, à vida militar) -
1nscrev1-n1e na Secção úc Letras. Era uma traição: tinha desde a mais
tenra 1nfânc1a u1na vocação de h1stonac..lor metida no corpo. 1vlas que
não tinha podíc.Jo rcs1sl1r a <lois anos de rctónca superior no Louis-
-/e-Grand, a dois ano!; Ue repetição do !vi anual de política estrangeira
de Émile Bourgeois (que ia encontrar na escola como mestre de
conferência). Anatole France conta em qualquer parte que em
criança sonhava escrever un1a históna de França «con1 todos os por-
n1enores». Os nossos professores, nos liceus, parecia1n propor-nos o
o 1deai pueril Jo pequeno Anatolc. Dir-se-1a que fazer histó_cia_,_ para
ele_s, ~!:.ª- ap_ren_d<:~:, senão todos os porme~ores, pelo menos o maíor
nún1cro possiveí de pormenores sobre· a missão __ de Monsieur de
Ciüi.füiü.:e-··nos···caufs ·c1u Nord. E quem sabia ma.is uns pormenores
que o vlZlnho levava-lhe naturalmente a palma: para bem da históna!
Tenho um certo medo de que as coisas não tenham mudado
mmto, <lo meu tempo para cá. Com esse humor normalista que con-
servou até aos seus últ1n1os momentos, um colega que acabamos
,/,,.._

' Es(as palavras ding1ankSe aos;' alunos da Eco/e Norrnafe Supdrieure.


no pnnc1p10 do ::ino lcct1vo ctq ·J941. Solicitado a fazer três conferências de
1n1c1ação sobre h1stona, pensei i~Odcr_}ar os conselhos que se vão ler.

28
de perder no College de France, o grande matemático Lebesgue,
confiava-nos um dia que havia, que ele soubesse, duas espec1es de
matemáticas: uma temível, a dos Inspectores Gerais, que confessa~a
não compreender bem; e outra acessível, que ele fazia avançar dia
a dia, e de que nenhuma dificuldade o fazia afastar. Havena, á seme-
lhança, duas histórias, a prin1eira das quais tamb6m não apreciada
por ninguém? Questão temerána. Em todo o caso, não é dessa que
quero falar. É da outra. Da lustóna pura e simplesmente. Daquela
que procuro fazer avançar. A que amo.

Históna, simplesmente? dir-me-ão. Não, uma ..ve2.__ que se


anuncian1 conversas sobr~ a h1.stór1a /«económica e -soei~}>. ivfns,
preêíSan1ente, a -·pf1me1ra coisa que· tcnlfô__.'a <lizer:;/65-·e~qüe não hâ,
falando com propriedade, llÍstóna econónuca e sociaL Não só rior-
que a ligação do Económico e do Social não é um pnvilég10 - um
exclusivo, como <lina um produtor de cmcma - , no sentido em que
não se Justifica dizer Económ1co e Social, mais que Polit1co e Social,
mais que L1teráno e Social, mais que Religioso e Social, mais, mesmo,
que Filosófico e Social. Não foram razões elaboradas que nos levaram
ao hábito de ligar u1n -ao outro, n1u1to naturalmente __e_ scn:i--t?e_n~r
nisso, os dois epítetos, Ecor~Qn11co--- e Social. São ·--r~~~~!~t~.r1c~~-'\
n1uito fáceis <lc delerm1n·ar - e a fórmula que nos ocupa nao e em 1

última análise. ma1s que un1 resíduo ou uma herança: a das longas
discussões a que, dc;;;clc h;.i un1 sCculo. deu lugar o chan1aJo problc111a
t\o l\r1atcna1'.\1Jl'J l listúnco. N:io acrcditcn1. pois, quanJo n1c sirvo
da fórmula corrente, quando falo de históna econónuca e social, que
tenho a menor dúvida sobre o seu valor real. Quando Marc Bloch
e eu fizemos 1mpnmlf essas duas palavras tradicionais na capa dos
/lnnales, sabian1os bcn1 que. espcc1aln1ente «social», é un1 <lesses
adjectivos que se fez ao longo dos len1po_s <lizer tanlas coisas que por
fim já não quer dizer quase nada. Mas foi mesmo por isso que o reco-
lhemos. Tão bem recolhido que, por razões puramente contmgentes,
figura hoje sozinho na capa dos mesn1os Anna!es, que, de. Écon,onu-
qucs et Soc1a/es, se tornaran1, por uma nova desgraça, so Sociales.
Uma desgraça que aceitán1os a sorrir. Porque estávamos de aco_rdo
ao pensar que, precisamente, uma palavra tão vaga como «social»
çarccia ter sido criada e posta no n1un<lo por u_m decreto non11nat1vo
da Prov1<lênc1a l11stór1ca, para servir de 1nsign1a a Hma R eYista ~
não aena rodear-se de muralhas, mas sim fazer Irradiar lar 0 amente,_
livrcmgn.t~, mdiscretamente mesmo, s ore todas--0s-J&r.flü1,;...d~-
n_11anç_f!~I1J-~Pint.2~ seu _esp1r1to: 1s_ to e,_ um espírito de livre critica
-e-ae· m1ciat1va em todos o,--scii[illos. --- --·- -- - ·-

29
Volto n1a1s atrüs: não há J11slór1a ci.:onünuca e soc1al. I-Iú snn-
lesmen te a l11stO,:ia, na sua Umdaúe. A lustórià··· gtie e' fada ela
social. por e Jíll.'22· A 11stona que e 1sidero o estudo, qentifica-
m<õnte conduzido, das diversas act1vidadc~ C das diversas. criações
<l_os homens Jc outrora. tomados na sua <lata, no quadro ·de soc1edadês·
e:~tr~n1an1cn~c vanadas ç contudo con1paréivc1s unias con1 a.s outras
(e o postulado d~ soc10J~1g1a), con1 ~s quais cnchcra111 a supcrfícic.da-
te:rr3;_ e a -~ucc~sao~ e.las cpocas. Dcfuução um pouco longa: mas Jes-
conf10 elas dcfmtcocs ·Jcn1as1ado breves, dcn1asiado nliracuiosan1cntc
hrc'.'Cs. E parccc-111c que csla, reios s1..:us lcrn1ns, af'asta 111u1tos falsos
problemas.
~ assun. 9uc, cm pnn1c1ro lugar, qualifico a história ..c.Q.m_o um
estudo c1er~t1f1ca111cntc conduzido. e não con10 .un1a ciência - ·i1Ciã
n1csma razao que. ao traçar o plano da llncyclopédie {rança,se. não
quis d~r-1hc nor ba~e. ~orno os r1los cx1g1an1, u111a cJas.sificação geral
das C.encws: pela ra1.ao de que falar de Ciências é antes de tudo
s·c-quise·rcm .
evg.~~-r a 1de1a 9..e 1,1n1a son1a de rcsuitãdos, _de un1 tes~uio,
~1a1s ou menos rec_hcado c.lc moedas. umas preciosas, outras nãó~·-11ao
e "''-'nlua~ o que ~ .a (or,;et motor" do sábm. isto é. a l_!]Q!i)etaçãi_o
rcr0Le111 _cª_µsa.n.ao DCêr,etuo_e mamaco, mas pensa<:lo._ç_ m.etódicn,
íl d~_s_ vcrd~d_<:~. l~_ac!Jc10_1~a1s - a necessidade Jc rccon1eçar, cJe refazer,
!?e r.cp~nsar quando e r,rcc1so ~ dcsue qu~ scJa prec1s~), o.s resultados
a?q_u1r1dos. para os readaptar as concepçocs, e, por a1, ãs novas con-
/ d1çoes de ex1stênc1a que os homens não dcixarn de forJar no quadro
do lCn1po .
E,,por outro lado. di~o os hornens. Os hon1ens. llntcos oh1eclos
Ja h1slona - <le urna h1slona que se inscreve 110 grupo das <lisc1plinas
Humanas _de todas as ordens e de todos os gTaus, ao lado <la antro-
polog1a, da ps1_colog1a, úa linguist1ca, etc.; Ün1a l11stór1a que não-<ie_.
interessa por nao. sc1 que l1on1e_n1 ahstracto. eterno., de fundo 1n1utávc1
e perpetuamente 1úênt1co a. s,. n1csn10. rnas nclos homens sc1nprc
ton1a~los no qu~~c.lro das s_9c1_ç_cjadcs '-1~ _que são n1cmbros, pelos homcnS
rn~n1hros dessas .soc1cdades _ n_t1n1a Cp_~1.ca hen1 dctern11nada-- do --·sCÜ
dcsenvolv1!nento, pcJos homens dotados de funções múlllplas ...dê. aêl;::::-
VJdacles diversas, ele. preocupações e ele aptidões vanadas, que ·se
mesclam todas. se cllocam. se contranan,. e acabam nor eonclmr
cntr7 si unia paz de compromisso, um 111odus vi1--·cndi qllc se chama
a Vida. .
~-o hon1en1 ass1111 definido pode ser agarrado, por razões de con10-
d1úade. nor este ou aquele membro, pela perna ou pelo braço. em
vez <le pela c~1bcça: e sen1pre o homem 1nte1ro que vem atrâs, desde
que se puxe. Não se pode nart1r esse homem em bocados. é matá-lo:
então o h1stonador não tera senão bocados de cadáveres~ o historiador
estuda a viela passaJa - e Pirenne, o grande histonador da nossa

30
época, definia-o un1 <lia: «un1 hon1c111 que ama a vida e que sa>1..
olhâ-la». Esse homen1, nu1na palavra, e o lugar comum de todas as
activ1dades que exerce - e poden1os interessar-nos n1a1s particular-
mente por uma delas. pela sua act1v1dade, pelas suas act1v1dadcs
económicas, por exemplo. Com uma condição, que é nunca esquecer
que elas o põem em causa mte1ro, sempre - e no âmbito das soe1c-
dades que criou. Mas ai está precisamente o que significa o epíteto
de social. que se Junta nluahncntc ao de cccnón11co: s~sa condiç5n
lembra-nos que o ob.1ecto dos nossos estudos não e um fragmento {t ,
real, un1 <los aspectos isolados da actividadc hu1nana - nias o pro-
pno hcmcm, entendido no seio dos grupos de que faz parte.
:l:

* *
Peç.o desculpa do que hú de un1 tanto abstracto nestas notas .
E, ao forn1ulú-las. não perco de vista ne111 n rncu vcrJa<lc1ru desígnio,
nem a razão profunda por que aqui estou neste znornento. Relia
ontem. cm vossa intenção, alguns curiosos e belos textos. I-fn_us_e.I_-
pu_t.lieo_u em tempos, cm 1914. notas de Michclet, cheias como sem-
flfe de rasg_O~. -(IC-raSgos de adivinhação e de gCnio. Entre elas, u111a
liçãoéíada aqui mesmo, cm 10 de Julho de 1834, aos alunos elo 3." ano
que 1an1 deixar a Escola e r,artir para a província. Michelet dava
coragen1 a es.ses rapazes que 1a1n ao encontro da dura profissão de
professor nun1 liceu de un1a cidade sem arquivos organ1zacJos, scn1
bibliotecas catalogadas. sem facilidades de viagem nem possibilidades
de evasão. Mostrava como en1 toda a parte. um h1stonac.!or que o
í queira pode trabalhar utilmcntc. HoJe o nrohlcma jü não e o mesmo.
J\1as o que TVfichclct tentava. c-on1 o ardC1r da sua ral;i.vra e o brilho
cio seu g:Cn,o. C cfcct1va111cnlc. guardadas iodas as prnpon;tlcs. o que-
cu quereria tentar convescu. Se cu p_u~cssc_ rc.cupcr_;1r. ou cousnliJar.
aip:_~o_cc1,ç.ft0_llesitaitlc_úc_JJ1.!-i.10J:.!IHJor: s_ç _cu_. l?.u~csse. _·dcsú íl}lf!f._~S
µreconc,c1tos. contra. a JHStórrn nase.1!Jos.. de __um_q:in.tª.cl_?_ 111.f.cliz._c.om
o que nos cfcreccran1 . .dcn1as1ada1, v.c1ç.~ sob esse non1c __:-- con1 o que
vos co11ccdcra1n e o que 1vos e:-.:igirão ainda nos cx,uncs até ao Douto-
ran1cnlo, a única co1~:a que escapa, ou pelo n1cnos que pode escapar
- ao perigo--. ~c__ Q_udcssc . fazer-vos senta:... Q!:_!c_.B._C__ ~9_de v1,·er a vida
s~1~JJ!~t.~.rJJ!t.1-o!.·_,__.lç_~ig__ pa_(!O_ u111a __ nartc ".d<! .. d_í_y1s/.a___9.i.1_~--~~DQ~~~J~~E~l
con1 _a nossa casa.
-· Ora. corno· comu111car-vos esse sent1111ento - o sentimento de
que se pode viver a vida, sendo historiador - senão cxa1ninando à
vossa frente. convosco. ale.uns dos n-robien1as vivos aue a Históna
põe. hoje. àqueles que se colocan1 na ponta extrema da 1nve:,;t1gação-
âqucJcs ouc. na dianteira do barco, interrogam sem cessar o h~onzonte
com os olhos?
'É auc pôr un1 nroblcn1a e prec1san1cn re 0 con1eco e o f1n1 de '/
t<?,<la a h1st?r1a:. Se não ha r:o5Icmas. naO lla 111stona ~Apenas narraw, /-
çoes, con1p1laçoes. Len1brem-se: se-não falei de <<c1ênc1a~) da 111stona, '/

31
falei Jc <<CstuLlo c1cnUfic~1n1cnlc conL.!uz1du>;. Estas duas palavras não
li cstavan1 J{t para co111por a frase. A fór1nula cze11ti{ican1l'nle condu:.1do
implica duas operações, as n10sn1as que se cncontran1 na base de
~,; qu:1l4ucr trabalho c1enlífico moderno: p9r .problemas__e-lorrlll!l<!r_
11u10tcses. Duas or,crnções que já aos homens do men tempo se reve-
,1
laran1 especialmente -perigosas. Porque pô_r problemas, ou forn1ular
"
~ l11pólcscs. era n1uilo sJn1ples1nente trair. J::"azcr pcnclrar na cidade Ua
obJec:t1v1JaJc o cavalo de Trõia da sub1cCtiv1datlc ...
il Nesse tcinno, o~ l1ist(_lriadorcs viv1a111 11llH1 rt:spel!o pueril e devoto
pelo úfactu>1. !·lab1Lit\·;1~os a convicção 1ngCnua e tocante <lc que o
il süb10 era un1 J1on1cn1- que, ao olhar pelo seu n11croscóp10, apreendia
lo,;.o um braçado de l'actos. De factos que lhe eram dados, de factos
!i p;1ra ele fabricados pnr t1111a ProvuJênc1a 'condesccn<lenle, de factos
'I
1 4uc não l1nhan1 senão que registar. Tcna bastado a un1 qualquer
1 dcs'.;cs doutores c1n método aplicar, por pouco que fosse, o olho na
ocular de um microscópio e olhar uma preparação de histologia,
rara k·:~u se ancrcc ber uc que o trJ.balho du histolog1st:i não era
0

(;/Jsf!r1·ut_, 1nas. 111terpre1ar, o que é nccessàr10 chan1ar un1a abstracção.


E.rn cinco n11nutos teria medido. na apropriação pelo sábio <lo que
ele prnnc1ro Iongan1~nte, .jificih.";;.;ntc preparou - a partir de uma
ideia prcco,1cebida - toda a parte pessoal do homem, do mvestigador
que não age senão porque pôs a s1 próprio u1n proble111a e for1nuJou
uma hipótese .
,,
1
*
* *
,,i:
j: O n1csn10 se pas'i:1 ci:>ni o histon.'."ldor. Co111 o h1stor1aJor ,1 qucin
' ncn!rnrna l'rol'!dêncrn fornece factos brutos. Factos dotados excep-
c1011ain1cntc_ qc uma cx1stênc1a <lc fac_to pcrf-:1ta1ncnte dcfinida;~,.Sjiri~
1 pies, 1rrcJutívcl. Os factos lllstôr1cos, 1ncs1110 os n1;:us huiníldcs, ~ o
hislo.nadur que os- cha1na à viela. Sabemos que os factos, esses ractoS-
JianLc Jos quais nos 1ntiinam tantas vezes a 1nclinar-nos devotada-
1ncnte, são outras tantas abstracções - e que, para os detern1inar,
é preciso recorrer aos testemunhos maís diversos, e por vezes n1ais
contradit6r1os - entre os quais, necessarian1ent~, escolhemos. De ma-
ne1r.1 que sabe1nos que essa colecção de factos que nos apresentam
l~Lntas vezes con10 factos brutos que co1nponan1 autornat1carnente
uma h1stór1a transcrita no prôpno mon1ento cn1 que os aco-ntcc1-
n1cntos se pro<luzcnL tcn1 ela própria uzna l11slór1a, e que é a dos
progressos do conllccuncnlo e <la consciênc1a dos historiadores.
Tant" que, para C!teit:1r n li,·iío dos /'aclos. temos dircllo a rcciamar
que nos assoc1c1n. antes de n1ais, ao trabalho crítico que preparou
n encadcan1ento Jcsses factos no esp1r1to de qucn1 o3" 1nvoca.
E. da n1csn1a 1nanc1ra. se o h1stor1ador não põe a s1 próprio
problemas, çi_u. JJ~ndt.: os sc.:;to,--não-. fo_rn1ul.a hipóteses para os re-s-õ1:°"··-
\·~-- no -que respeita ::1 ol'ic10, a técnJ,.n. a esforço cientfi.co. sou
[évado a dizer que estú un1 tanto atrasado e1n rclaç-ão ao últ1n10 dos

32

-·----·--------------
nossos can1poncscs, porque esses sabc1n que não convên1 lançar os
seus anJJna1s, crn dcsorden1 1 no pnn1ciro campo que apareça, para
eles pastarem ao acaso: n1antêm-uos no cercado, prendem-nos a estaca,
_ fazem-nos pastar mais aqui qne ali. E sabem porquê.
Que é que vocês querem? Quando num desses grandes livros
cuja rcclacc,·ão parece absorver desde hà anos todas as forças dos
nossos melhores professores de Iustdría; quando, num <lesses dignos
n1anua1s, consc1c11c1'osan1cnlc preparados. cuidnJosan1cntc redigidos,
todos cheios Jc factos, de números e <le datas, de enumerações de
quaJros. de ro111anccs ou de n1úquínas: quando. nun1 desses livros,
mais munidos pelo Instituto, pela Sorbonne pelas Umversiclades
Regionais, de notas Iisongciras~ <lo que un1 dos nossos bons hotêis de
turismo de tahulctas 1nult1colorcs. se descobre por acaso un1a 1dc1n,
que é a seguinte: «O pcno<lo que va1nos cstuUar (e é un1 <los n1a1s
vivos da nossa l11slór1a} conl111ua o que o precede e anunt:ia o que
o segue; é notüvel pelo que supnme. n1as tan1ben1 peio que estabe-
lece». etc. - t.·t1ntrntH1ren1os aindn por n1u1to ten1po a perguntar por-
que troçan1 da h1stór1a, se afastam úa h1stóna. di[an1an1 e ridicula-
rizan1 a l11stúr1a, n1uitn:. bons esn1rrtos, <lecenc1onados por vezes por
tantos esforços, tanto dinheiro, (anlo bon1 papel impresso, não icva-
rem senão a propagar es:-.a filo:;ofia. senão a perpetuar essa história
psitácica e sc1n vida en1 que nunca 111nguem sente (s1rvo-1ne, faço
questão Je 1nc servir, uqut, da linguage1n de Paul Valéry), «essa sus-
,1- pensão ante o incerto que caracteriza a grande sensação das grandes
vidas - a elas nações diante da batalha em que está em Jogo o seu
destino; a dos arnb1c1osos na hora cm que vêen1 que a hora seguinte
scrã a úa coroa ou Jo caúafalso; a <lo artista. que vai descobrir o seu
màrmore ou dar ordem {le retirar os arcos e as escoras que ainda
suportan1 o seu edifíc1o>)'l Esrantcn1-sc. pois. con1 as can!P~_1Jha.s
v1olcnlas cnnlra a l11sttlna. Cl)lll n dcsa111nr dos jovens. cu111: o. con-
sequente recuo e co1n a ycrdadcira crise <la. história que os hon1cns
da mmh!l_grn,ção.uram ..dcsenvolver-s~. Jentamente,.progressiv.arnente,
sCguf~·lfllentc. Jn1ag1nen1 que, ú n11nha entrada na escola, a partida
estava ganha. Demasiado ganha para a historia. Demasiado porque
ela nen1 sequer aparecia i.:01nn u1na disciplina particular e iin11tada.
Den1as1ado porque ton1ava a dimensão de un1 n1êtodo universal que
se anlicava mdistmtamente à análise de todas as formas de actividade
hurriana. Den1asiado porque se tar<la. ainc..ia hoJc, a definir a históna
não pelo seu conteúdo, n1as r,clo n1étodo - que não e sequer o 1né-
todo lustónco, mas simplesmente o· mélodo crítico.
A l11stóna fazia a conquista de ·todas as Jiscíplinas humanas,
uma a un1a. A crítica literâna tornava-se, com Gustave Lanson, h1s-
tór1a litcràr1a - e a crítica c:;têllca, Justória da arte, con1 Andre
Michel, sucessor cio tempestuoso CouraJod. esse Júpiter tonante da
E:co!e du Louvre. E a velh1 contro\·Crs1a transforn1ava-sc en1 iustóna
das religiões. Satisfeita co,n os seus progressos, orgulhosa das su?,S
conquistas, vaidosa pelos S(:us sucessos 1nateria1s, a !11stór1a ac!orn1ec1a

33

-~---------
nas suas certezas. Detinha a n1archa. Re<liz1a, rcpetía, retomava~ já
não recnava. E em cada ano que passava dava à sua voz, um pouco
mais, o som cavernoso de uma voz além-túmulo.
l Entretanto. eJab.oravam-se disciplinas novas. A psicologia reno-
vava ao n1esmo tempo os seus métodos e o seu obJecto, sob o impulso
1, de Ribot, de Janet, .de Dumas; ao apelo: de Durkheim, de Simiand
1' e de Mauss, const1tuia-se a soc1olog1a corno ciência e como escola;
a geografia humana.e instaurada na E'cole Normaie por Vidal, desen-
11 volvida na Sorbonne.nor Dcrnangeon, no College de France por Jean
!í Brunhes, respondia a urna necessidade de realidade que não se satis-
fazia nos estudos l11stóncos, cada vez mais orientados para a história
dipJornát1ca mais arb1trána, mais afastada de toda a realidade-e
para a história política mais <lcsprcocunada <lc tudo o que não fosse
ela no sentido estntn da palavra. Crésc1a o favor concc<lido pelos
jovens ás disciplinas novas. Seguiu-se a guerra, rebentou a crise- foi
para uns o abandono, para outros o sarcasn10. Ora, a h1stóría ocupa
demas1atio 1ugar na vicia dos nossos espinto-s para não nos preocupar-
mos con1 as suas v1c.iss1tudcs. E para nos contentarn1os com encolher
os ombros e falar de ataL1ucs que poden1 ser injustos na forma, ou
desastrados - (Iue o são n1uitas vezes-, mas que traduzen1 todos o
que e preciso rcn1cUiar, e depressa: uni dcscncantan1cnto, uma desi-
lusão total, o senllmcnto amargo de que fazer h1stóna. ler Justóna,
é doravante perder tempo .

II

l~ preciso remediar isto. Mas co1no?


Tomando uma consciênc1a clara dos laços que, quer ela o saiba
ou não, quer ela o queira ou não, ligam a história às disciplinas que
a rode1an1. E de que o seu destino nunca se separa.
Micheiet, na sua lição de 1834: «Em lmtóna, dizia ele aos alunos,
é curno no romance de Sterne: o que se fazia no salão fazía-se na
cozinha. Exactamente como dois relógios simpáticos, un1 dos quais,
a 200 léguas. marca as horas, enquanto o outro as dá.» E acrescen-
tava este cxemi:lo: «Na Idade Média não é diferente. A filosofia de
Abelardo anuncia a liberdade, enquanto as comunas p1cardas n1ar-
cam a liberdade.» Fórmulas muito mteligentes. MichcJet, faço notar
de passagem, não estabelecia un1a hierarquia, uma classificação hie-
rürqu1ca entre as diversas actividndes do hon1en1, não trazia no seu
csninto a metafisica smiplísta do pedreiro: pnme,ra fiada, segunda
fiada. terceira fiada - ou pnme1ro and:ir, segundo, terceiro. Também
não estabeiecia unia genealogia: isto deriva daquílo, 1sto engendra
aquilo. Não. Tinha a 1de1a de um clinu.t cnn1un1, 1dc1a muito n1ais
fina. n1ullo n1a1s inteligente. I:, entre parêntesis, e n1uito curioso

34
verificar que hoje, num mundo saturado de electncídade, quando a
eJectricidade nos oferecena tantas metáforas apropriadas às nossas
necessidades mentais, nos obstmarnos ainda em discul!r com toda a
seriedade metáforas vindas do fundo dos séculos, pesadas, deselegan-
tes, inadaptadas; nos obstmamos em pensar as coisas da !ustóna por
camadas, por andares, por pedras - por alicerces e por superslruturas,
quando fazer passar as correntes pelo fio, as suas interferências, os
seus curto-c1rcu1tos nos forneceriam finalmente todo un1 conJunto
de imagens que se rnsennarn com rnmto mais maleabilidade no quà-
dro dos nossos pensamentos. Mas é sempre assim. Quando um histo-
riador quer fazer teoria da lustória. para se inspirar sobre o estado
das ciências relê (se C um espírito n1uíto curioso} a lntrodu.çüo à n1edi-
cina expcrin1cntal de Claude Bernard. Grande livro, 1nas de interesse
já mte1rarnente histónco. (Um séculozmho de atraso. é a norma.)
O bom Plattard escreveu em tempos um artigo em que manifesta o
seu espanto pelo faclo <lc o s1stcn1a de Copernico não ter tido un1a
maior difusão in1e<liata no seu tempo, e não ter operado un1a súbita
revolução no espírito dos hon1ens. I-íaveria um belo artigo a escrever,
hoje, sobre o facto espantoso de, de há trmta ou quarenta anos para
cri. sob o impulso da física moderna, todos os velhos sistcrnas éien-
tíficos sobre que repousava a nossa tranquilidade terem sido abala-
dos e arrasados; e não só os sistemas. mas as noções de base que é
preciso considerar de novo, e repor em questão, todas: a começar
pela do determrn1smo. Pois bem, daqm a 100 anos, penso cu, quando
tiver ocorrido uma nova revolução. quando as concepções de hoje
tiverem caducado, os homens rnteligentes, os homens cultos, os que
farão a teoria das ciências hun1anas e en1 pnme1ro lugar da hístória,
lembrar-se-ão de que cxist1ran1 os Curie, Langcvin. Pcrrin, os Bro~lic .
Jofiot e alguns outros (rara sú citar f'ra11ccscs). E arndcn1r-sc-;\o de
alguns trechos dos seus cscntos icúncos para reporcn1 no ponto cxacto
os seus tratados de método. No ponto de há cem anos .

*
* *
Aliás, pouco importa. Porque os historiadores podem não se
aperceber: a crise da história não foi uma doença específica que
e atmgísse umcamente a h1stóna. Foi e é um dos aspectos - o aspecto
- propriamente lustónco de uma grande crise do espírito humano. Ou,
mais precisamente, é apenas, ao mesmo tempo. um smal e urna das
consequências de uma transformação muito níbda e multo recente
da atitude dos homens de ciência. dos c1ent1stas. frente à Ciência .
De facto, é bem verdade que no ponto de partida de todas as
concepções novas dos cientistas (ou melhor, os mvest1gadores, os que
criam, os que fazem progredir a ciência e muitas vezes se preocupam
1na1s cm agir que .em fazer a teoria das suas acções) - e bem verdade
que neste ponto de ongem se encontra o grande drama da relatividade

35
que veio sacudir, abalar, todo o edific.:1u Jas ..:iências, ~a1 corno um
homern da m1nha geração o 1rnag1nava na Juventude .
Nesse ten1po v1viamos, sem receio e sen1 esforço, sobre noções
e!ab~radas lenta e rrogressivamente, ao' longo dos tempos, a partlr
de d<1Jos sensonms .e que se _podem dizer antropomórficos. Em pn·
metro lugar tinha-se constitmdo, sob o i nome de Física um bloco
de saberes fragmentúnos ongrnalmente tidos por autón~mos e dis-
llntos, e que agrupavam factos compar:íYcis porque ·fornecidos aos
homens por este ou aquele dos seus órgãos sensoriais. Pela vista,
a oplica: Pelo ouvido_. a acústica. Pelo sentido táctil e muscular, o
<:alar. Ja n1a1s con1phcaJa, a mccân1ca. ciência <lo mov1n1ento dos
corpos, dado a conhecer ao mesmo tempo pela vista e pelo sentido
muscular e _combmando assun JaJos scnsonais de ongcm diferente;
n1a1s con1phcada, n1as contudo mais rãpida no seu desenv0Jv1mento,
tah·cz por causa úc u1nu. n1aICi riqueza <lc 1nforn1ações íme<liatas, de
unia maior c_unosic..ladc dos homens que se interessavam pela n1ecâ-
n1~a por razoes de orden1 prátíca e técnica: para a construção de
maqurna.,, ,_de mornhos, de serrações, por exemplo, que punham pro·
blemas cada vez mais comphcados de ludràulica; para o fabnco e
o ap."rfeiçoamenlo co:1tínuo de armas de fogo, especialmente de
canhoes, cuia construçao punha problemas de balística cada vez mais
arduos. Os outros caf)ílulos da física, aqueles em que a experiência
hu111ana era n1cnos _unec.l1ata, desenvolvian1-se rna.rs lcntan1ente e
mais lentamente ainda os dominíos novos da electricidade e do m~g-
1:et1_:>mo, onde tutlo. ou quase, escapava á apreensão directa dos
orgaos scnsonais.
Não vou dizer - ver-me-ia aliás extremarncnte embaraçado se
º. tentasse e sena de resto bastante inútil ao meu u1te11lu - não vou
d1ze_r co,no a rnccün1ca pouco a pouco conquistou esses diversos
canitulos _e os rcnclrou. Pr1n1c1ro anexou a acUstica, interpretando
as sensaço~es sonoras con1 a .aJuc..la de vibrações. En1 seguida const1Luiu
uma mecarnca celeste, aplicando aos astros leis humanas do rnovi-
111cnto - l~is úo n1ovIInento depreendidas pelo cerebro dos nossos
a~tepassaúos a part!r do seu próprio esforço muscular. Em seguida
estendeu os seus 111ctodos e as suas leis a todo o ún1nin10 do calor,
a toJo o ~omin10 dos_ fluidos. E sen1 dúv1c.la a ópllca, o 1nagnctisn10,
a electncidade, resistiam - mas já se acreditava poder anunciar a
sua conquista; já, antecipadamente, se celebrava o tnunfo universal
e incontestado da fí::i1ca cartesiana, gcon1clr1a do 1nunJo; jâ 1n1ensas
esperanças v1am .:. luz, anunciava-se, via-se em marcha, predizia-se,
s-.:1nprc no n1C:-.I110 plano, a triunfal redução do psíquico ao físico- e
nós. h1stor1adorcs, estávan1os à vontade nesse universo científico em
que ludo nos parecia fixado em smais conhecidos quando, brusca-
mente. fC:i a Revolução. Uma Rernlução cm <lms tempos: primeiro,
a i_-evc!açao 1n1prcv1:-.La de que a electnc1dade, o magnet1sn10 e mesmo
a ?ruca resistia~ â anexação a prior1 anunciada e celebrada. E depois.
sa,da da opos1çao forn1al que se erguia contra a mccún1ca, edificada

36
m por Newton sobre as observações de Copérmco, a electrodinâmica,
fundada por MaxweJJ com base nas experiências de Ampere e de
s Faraday- fm esta prodigiosa síntese que, refazendo as noções pn·
r mordiais de Tempo, de Compnmcnto e de Massa, abrangeu a física
· no seu ':ºnJunlo, e ligou, em feixes de leis, os factores que a antiga
o concepçao mantmha separados .
-
s *
* *
o
Entretanto, no do1nín10 da Vida operava-se uma revolução anã-
o Joga - uma revoluç.'io engendrada pela microbiologia; a noção de
organismos compostos de um número imenso de células da ordem do
milésímo_ de n1ilín1ctro surgia Ja observação. E enquanto os orga-
n1sn1os v1vo.s, observados a olho nu, apareciam cada vez mais con10
- sistemas físico-químicos, os organismos que a m1crobiologia revelava
e eram organ1smos sobre os quais a acção das leis mecünicas. do
· peso, etc., parecia desprezável. Furtavam-se à acção das teonas expli-
cativas nascidas nos tempos em que também os orgamsmos, pelo
menos os organismos elementares, pareciam regidos por Jeis da mecü-
nica clássica. Os organismos descobertos pela microb10Jogia eram, ao
contrãno, organismos sem resistência própria, em que há mais
vazios que cheios e que, na maior parle, não eram senão espaços
percorridos por campos de força. Assim, o homem mudava
bruscamente ele mundo. Diante dele, por um lado, organismos
como_ o seu próprio corpo, v1sivel a olho nu, pa1pivel com a mão~
crgan1sn1os de grandes rnccan1srnos aos quais - pensen1os. por
exemplo, na c1rculação sanguinea - as Jeis da mecânica clássica
baseada na geometna euclidiana eram e pern1aneciam aplicáveis .
o Mas diante c..lclc tan1b6r11 biliões e biliões de células, dt: que esse
u organismo era formado. De u1na grandeza ou de un1a pequenez tal
que não podíamos representá-la. E o que se passava ao nível celular
desmentia perpetuamente o que se passava ao nível das nossas f)er-
a cepções sensoriais. Os organ1sn1os que assim, de repente. apreendía-
mos, os organismos que os trabalhos mais recentes nos rcvelavan1,
ultrapassavam por assim dizer e chocavam o «nosso bom senso» .
E os vazios de que eram compostos habituavam-nos também, no
domínio da b10Jogia, a essa noção do descontínuo que, por outro lado,
se mtroduzia na física com a teona dos quanta: decuplicando os estra-
gos já causados nas nossas concepções científicas pela teona da rela-
tiVJdade, parecia repor em questão a noção tradicional, a ideia antiga
da causalidade - e portanto, de um só golpe, a teona do determi-
msmo, esse fundamento mcontestado de toda a ciência positiva, esse
pilar inabalável da velha históna clássica.
Assim, toda uma concepção do mundo se desmoronava ao
mesmo tempo, toda a construção, elaborada por gerações de cientistas
ao longo de séculos sucessivos, de uma representação abstracta, ade-

37
1
r• quada e srntêtica do mundo. Os nossos conhecimentos ultrapassavam
brnscamen te a nossa razão. O concreto fazia estalar os quadros do
abstracto. A tentativa de explicação do mundo pela mecâmca newto-
( niana ou racional terminava num fracasso brutal. Era preciso subs~
t1tuir as antigas teorias por teona novas. Era preciso rever todas as
noções c,cntíficas sobre as quais se tinha vivido até então.

*
* *
~ena demasiado longo rndicar aqm em pormenor o que foi essa
rev1sao. Notemos que nada escapou. Nem a concepção do facto cien-
tif1co. nem a concP.oçãe, <la le1 cícntífica, ncn1 a do Acaso. Nem. no
total e c1n conjunto, a própria concepção das ciências e da Ciência.
Ciências ta_,s_ C0!_]10 Augusto Comte as apresentara, hierarquizadas
numa class1ücaçao cujo duplo vicio aparecia bruscamente: consistia,
por um lado, em desconhecer a unidade profunda do trabalho cien-
tífico e, por outro, em transformar abusivamente o estado de facto
en_.1 estádo de direito; cons,strn, por exemplo, em colocar no topo das
c1enc1as uma geometria e uma mecânica orgulhosas, que se com-
praziam na imagem da sua perfeição e propunham as suas leis às
outras ciências - as suas leis de vcr<latie, as suas leis abstractas, abso-
lutas, ury1versa1s e nccessünas, co1110 outros tantos 1no<lelos e, por
assim dizer, como o ideal. As ciências'? campos de deslocação.
ivfagn1as. E sendo LvJas a.s descobertas feitas
não no interior de cada
un1a delas. no coração. n1as nas bordas, nas n1argens, nas fronteiras,
onde c1as pcnclran1. As ciências. iVlas a Ciência, por seu lado, apro-
ximava-se da Arte, e dela, no seu coniunto, podia dizer-se o que
Berthelot dlZla, em 1860, da quimica orgânica baseada na síntese,
quando, no arrcbatan1cnto dos seus pnn1ciros triunfos, proclamava:
«A 4u1n11ca cria o seu ob1ccto». E quando acrescentava: «Esta facul-
dade criado~~, scn1elhantc a da pr.ôpna arte, distingue-a essencial-
mente das c1c~nc1as naturais e h1stôr1cas.» Porque essas ciências, pre-
cisava ele, «tem anlec1padamentc um obiecto independente da von-
ta<lc ~ da acção do_ cientista; não tlispücn1 <lo seu obJccto», enquanto
a quu111ca nova «tinha o poder de formar un1a multidão de seres
artificiais, semelhantes aos seres naturais e participando de todas as
suas rropried_ades». Distmção que se torna caduca à medida que, cada
vez n1n1s, o fun do esforço c1cntífico aparece aos cientistas, não como
conhccuncnlo, 1nas con10_ compreensão. Distinção caduca. quando,
prec1san1cntc, os nossos cientistas definen1 cada vez mais a Ciência
ci..;1nu_ -~1111.t cnação, no-!a representam <<a construir o seu objecto»,
e vcnllcan1 nela, en1 todos os n1un1entos, a intervenção constante do
c1cnt1sta - e.la sua vontade e da sua act1vidade.
Tal é o clima da Ciência de hoJe. Um clima que já não tem nada
em comum com o da Ciência do passado -da Ciência do tempo em
que cu unha vmte anos. Os postulados sobre que essa Ciência assen-

38
m tava estão todos abalados, cnt1cados. ultrapassados. Há anos que os
o cientistas renU11ciaram a eles e os substíluiram por outros. E então
- eu faço uma pergunta, uma sin1ples, uma Unica pergunta: Vamos
~ ser nós. hístonadores, os únicos a continuar a tê-los como válidos?
s E aliás que valeria esse nosso reconhecimento, se é verdade que todo
o material de noções científicas que utilizamos, o recebemos preci-
samente dos l1omens que. hã vã.rias dezenas de anos. cultivavam· as
ciências no sentido napoleómco da palavra, as ciências do mU11do
físico e da natureza? Não será tempo de substítmr essas velhas noções
caducas por noções novas, mais exactas, mais aproximadas? Não
a será. pelo menos, tempo de renunciar de U111a vez por todas, a
- apoiar-nos nas «ciências» de há 50 anos para escorar e Justificar as
nossas teorias- uma vez que as ciências de há. 50 anos não são mais
do que recordações ou fantas1nas? Essa a pergunta. Responder-lhe,
s seria resolver a crise da l11stór1a. E se é verdade que as ciências são
todas solidánas - a resposta é conhecida de antemão. Inútil profes-
- sá-la solenemente.
*
* *
Eis o grande drama que se desenrola à nossa frente. Um dos
grandes dramas. Porque há mmtos outros que se enlaçam e se desen-
laçam sob os nossos olhos, sem que lhes prestemos um mmuto de
atenção. Ah se eu tivesse tempo! Como teria gostado de esboçar
diante de vocês, a título de referência e de comparação, o que se
pode chamar a Tragédia do Progresso! Como tena gostado de vos
n1oslrar os cr1adores 1 os annnadores das fortes soc1edades burguesas
do século XIX a fundar os começos do seu poder sobre a Razão. a
sustentar esse poder com a ajuda de uma filosofia claramente racio-
nalista e dep01s, para o fim do século XIX -quando se anunciam
as dificuldades na partilha do n1u11Uo, quando as n1assas se organ1-
zan1 e reclamam cada vez n1a1s 1n1penosamente um nivel de vida n1ais
elevado - a fazer meia-volta, a deitar a Razão pela borda fora. e,
no própno momento em que entregam a sua vida às técmcas, a essas
aplicações da Ciência que outrora os seus antepassados cxaltavan1
sob o non1e de Progresso - essas aplicações da Ciência que jã não
i os serviam. n1as os dom1navam - , deixando precisamente de acre-
ditar na Ciência e no Progresso, cuia falência proclamavam ... Con-
tradição patética mas que se resolve, se é verdade que f01 rorque
deixaram de crer no valor humano da Ciência que esses homens
1 puderam ser dominados pelas suas técmcas. Quando não há no limite
1 do seu horizonte um fim maior a 111c1tar os homens, os me10s tor-
1 nam-se para eles fins- e, de homens livres, transformam-se em
escravos .
Grande lição para nós, lustonadores. Hís.tpna, Ciência do Ho-
m"rg, __!!ão_o. esqueçamos .. nunca. Ciência da mudança. p_erpétua d_as
1
1
sociedades humanas, do seu perpétno e necessárío::reàiustamento a

39
con<liçõ.e.s____!}_o_yas de ex,stêpgi,a DJatenal, polítlca, moral, _re!igi..Qs~
intelectual. Ciência <lesse·acordo que se realiza. dessa harmonia que
se estabelece perpetuamente e espontaneamente, em todas as épocas,
entre as condições diversas e smcrómcas, de existência dos homens:
condições materirus, condições técmcas, 1condições espintua1s. É ai
que \l. h1stóna encoritL,1__fJ_yiqa. É ai que ela deixa de ser uma pro-
pnetaná de escravos e âe persegmr esse sonho mortífero, cm todos
os sentidos da palavra: impor aos vivos a lei pretensamente ditada
pelos mortos do passado. E,_poJ_que tenho a felicidade de saber nesta_
Ji saü~.-Jovcn.~_.9ec1didos a consagrur~a .vi<la. a 1nvestlgação h1s_t_~~~.{â-- t_
;/ com firmeza que lhes digo: para fazer história.·virem resolutamente
! 1 as ·costas· ·ao passado e antes de mais v,vam. Envolvam-se··na· vídã:-
1
Nà vida mtclcctual, ~sem úúvida,-~em~tooâ·a sua vancdaúc.-Historia-
i dOJC~ sejam geógrafos.SCJU!l!.Jaml,ém JUfls[,Ís ·e socióJoiõ,CepSJ.CÓ·
• logos; nãi>Icchem-of olhos ao grande movimento. que,'âvo~~a fr~.
tr_a~_sf_onna, __a __ J~ma. __ _y_eloc1da9e ·vertígtnosa, as c1ênc1~s do universo
fi~,c~ Mas.Y1vam, tam_!Jém. uma vida prát_Ic:_a. Não se_ c_ontentem
CQID.~~~~-º-C:!ªL-~§: __c;ost~__ p_r_egu1_çosamente, o que se p~1s_~ _IJo_ma(.J!ill
fúr!a. ·Dentro do bai'co ameaçado, não seJam"écimo Panurge que se
macula de medo varonal, nem mesmo como o bom Pantagruel, que
se contenta. abraçado ao n1astro grande, com levantar os olhos ao
Céu e implorar. Arregacem as mangas, como Frei João. E aJudem
os mar1nhe1ros na manobra.
É tudo? Não. Não é mesmo nada, se vocês continuarem a separar
a acçfo do pensamento, a vida do lustonador da vida do homem.
Entre ,L..a.c_çii.o...e.,o. pensamen.t.o • ..não.. hà. separação. Nijp_há_bau.rira ..
1/3- .pre_ ç-1.s_t? q. ue ª-É:~_s,t§r1_a de~;xe d.e_ vos apar~cer como u1::a !lecrópo1e
-J //':~o_i:mec~da,_ onde so passam sombr~ despojadas de substanc@_~
ciso que, no velho palácio silencwso onde ela dorme, vocês· penetrem,
an1rnados __ da-·1uta,- todos cobertos -da poeira do combate, <lo· ·sangue-
coãgiilado do -monstro vencido - e que, abnnúo as Janelas de par
em par, avivando as luzes e restabelecendo o barulho, despertem com
a vossa própria vida, com a vossa vida quente e Jovem, a vida gelada
da Princesa adormecida ...
A unidade do mundo - do mundo dilacerado, quebrado,- ensan-
guentado e que pede m1sencórdia: não serão as intervenções exte-
nores a restabelecê-la. Cada um tem de a refazer em si próprio, pelo
acordo magnifico do seu pensamento proíundo com a sua acção
desmteressada, pela dádiva total, a úmca que libertará as nossas
consciências da rnterrogação muda que eu lembrava ao começar, a
úmca que, ii grande pergunta: terei eu o dire!lo? nos pennitirá
responder com toda a segurança reencontrada, sim .
Desculpem-me a feição que esta conversa tomou. Digo-o sobre-
tudo aos historiadores. Mas se fossem tentados a achar que falar-llies
assim não é falar-lhes como historiador, pedir-lhes-ia que reflectissem
antes de formularem essa censura. Que é mortal.

40
I
1,1

/ A história é como qualquer disciplina. Tem necessidade de bons


pperários e bons contramestres, capazes de executar correctamente
i ( os trabalhos segundo os planos de outrem. Tem também necessidade
1 de alguns bons engenheiros. E esses devem _ver as cmsas um pouco
, acima da base. Esses devem poder traçar planos, vastos, Jar~os pla-
nos - em cuia realização possam trabalhar em seguida, ut1lmente,
1 os bons operános e os bons contramestres. Para traçar planos, vastos,
1
í largos planos, são precisos esrintos vastos e largos. É precisa uma
! clara visão das coisas. E preciso irabalhar de acordo con1 todo o
_ / movimento do seu tempo. É pr~ciso_.J~Li1º.fror ao pequen~ ao mes-
i quinho, ao pobre, ao antiquado. Numa palavra,_é preciso ~.ê~'r::P"ns.1_r.
-- i --E isto que lalTo terrivefmentc aos lustoríadores desde lia. meio
i sécuio. devemos reconhecê-lo. É isso que nüo deve continuar a !altar-
Í -lhes. Ou então, à pergunta <<É preciso fazer lustóna?». d1r-vos-c1
1 muito claramente: respondam que não. Não percam a vossa vida.
Não têm esse direito. De resto, tentarei mostrar-vos da prox1ma vez
1 que uma clara e larga visão das relações que unem a h1stóna às
1
J outras ciências não impede de captar os problemas concretos, e de
os pór de forma pos!l1va e prática - pelo contráno! E _se os lüsto-
'1nadores puderem ter mais gosto e mteresse pm estas liçoes que pela
sua Introdução, pe<lir-lhes-e1 que pensem, s1mple~mente, que. t~do
está relacionado. E que uma forte cultura geral e talvez mais util
f ao arqmtecto que uma boa prática das habilidades da arte de pedreiro.
, Eis o que vos quena dizer hoJe, sem retoques. E que vos agra-
deço terem escutado sem cansaço.
.

41
1
1
1

FRENTE AO VENTO

I\-Ianifesto dos novos «Annales»

A partir de 1929 os /lnnales não Jc1xaran1 de aparecer.


Quaisquer que fossem as calamidades que se abatiam sobre a
França e sobre o n1undo, não abandonaran1, nem um ano, a sua
dupla taref<1 de ciência e de educação .
Os Annales contmuam. Num clima novo, com fórmulas novas.
E um título novo .


* *
«Que gosto pela mudança! Pnmeiro chamaram-se Anna/es d'liis-
101re J!:conon11que ct S0c1ale. Depois rlnna/es d'flisto1re Soc1ale. De-
pois Mé/a11ges d'liistmre Sacia/e. Agora, ANNALES, simplesmente,
corn este longo subtítulo: .IS:cononues, Sociét<!s, Civilisations?»
Podcnan1os responder que essas mudanças fora1n cm parte for-
tuitas. Mas porquê esse ar de quem se desculpa? Em 1929 quisemos,
Bloch e eu, uns A1111a/es vivos- e tenho esperança de que. por mmto
lcn1po ainda, os que prolongarão o nosso esforço prolongarão tam-
bCn1 o nosso querer. Ora, viver ê mudar.
Adn11ramos n1u1to. e são de a<lnurar, as grandes revistas que se
1nstalan1 nu1n <lonl11110 tio saber co1n a certeza tranquila, a índiferente
placidez de uma Pirâmide do Egipto. Ali ,estão. Ali ficam. De longe,
oferecem uma bela imagem de maiestade. Mas, afinal, as plrâmídes
são tumulos. No centro da sua massa têm'catívo um morto ilustre ou
r.:umificado. Viva o ,c1mcnto e o vidro transparente! Quando a sua
u01ão já não responde ás novas necessidades, delta-se abaixo sem pena
nen1 ren1orsos. Reconstrói-se. Recomeça-se. É uma outra força: a
força em expansão dessas grandes cidades da América que de dez
cm dez anos reconstroem as suas avenidas e refazem a sua pele.
Os Annaies__flmdam porque.tudo .. à...sua-.volta_muda: os homens,
as coisas, numa palávrn, o mundo. Já o de 38 não era, de modo

42
nenhum, o de 29. Que dizer do mundo de 42 ou de 46 - que dizer
que seJa justo e portanto eficaz? •
Porque, geralmente, vamos orquestrand? o tema romantico das
ruinas. Vamos pondo de parte as centrais elec!r1cas, os viadutos e a.s
pontes, os balfros de cidades e as aldeias que _nao obedecem aos requ(-
s1tos. Com os olhos dilatados pela mqmetaçao, acrescentamos, baDµ-
nho: «E a bomba atómica ... o mundo está arrumado!»-. Arrumado~
Além de ruinas, hã outra coisa, e maís grave: essa prcx_hgrosa acelê-

1·~
1
racão da velocidade que, encaixando os contmentes, abolmdo os ocea- 1 ,
1 nós, supnmmdo os desertos, põe bruscamente em contacto grupos
1 humanos carrerrados de electncictades contránas - e o mais possivel
i firn1ados, até e;sc dia, em «conservar as distânc1?-s»,. tanto no aspe~
i moral como no físico: contacto brusco, curto-circmto... .
Eis a razão por que, essc1H.:ialn1cntc, o nosso mundo esta des-
i truído. É vital dar-1110-nos conta disto. Quem só ten1 olhos para as
ruinas consola-se depressa: «Paciência ... un1 ano. <lo1~ anos, dez anos
e tudo será restabelecido. As estações do metropolitano todas rea-
1 bertas. Os viadutos restabelcc,dos. E bananas em todos os vendedores
de fruta.» - Falsa segurança. .
1 Do mesmo modo, há certa maneira de pensar a veloc1d"._de que
1 também nos engana perigosamente: «Ora! o problema dos camb10s.
Para as nacões, no circulo das suas fronteiras, esta .resolvido. Traba-
lha-se para· o resolver ao nivel dos Contme~tes. Pois bem, há-de _ser
resolvido ao nivel de todo o Planeta! Questao de tempo, de estudos,
de material. Sobretudo de material. .. l> Jlusão de engenheiro. E _tam-
bém de políllco, rodeado de funcionários a quem, para que saibam
mancJar os homens, se ensmou mmta álgebra. .
Claro que há problemas técmcos. E problemas econ_om1cos. Mas
para o futuro da humanidade. o problema que conta - e.º problen2a
huinano. Aquele que cn1 1932. ao voltar de un1a v1s1ta a Expos11.;ao
Colon1ai, ollúc vira 111anifeslar-sc. irreststivcl, a obsess~n nova. e~1
punha nestes termos: «O l11sloriador volta a descer à cidade, medi-
tando sobre todos os desregramentos que as variações alternadas das
distâncias entre racas. entre povos, jâ produziram na historia: umas.
as distâncias n1atefia1s, que di1111nucn1 de dia para dia: as outras, a.,;
distâncias 1nora1s, cnor1ncs, talvez 1nlrnnsnonivc1s.» -Todo o drama
resíde a1·. O drama <la civilização. Anunciava-se cn1 1932. Repre-
senta-se em 1946.
«Nós. civilizações, sabemos agora que somos mo_rtais.» Teve
grande ressonância esta frase que Valéry escrevia no fim dos anos
20 - e que. aliás. não tmha um som mm\o novo l?ªra o historiador;
0 velho Ballanche, para só o citar a ele, Ja tmha dito textualmente a
mesma cmsa, em 1817: reflexão de smistrados, aqm e ah. Mas Bal-
Janche podia ter uma ideia dessas - Ballanche, cidadão de uma Eu-
ropa prestigiosa e que s~_sentia, e se rro:lamava, ª. despeito das troças
de Fourier, a terra c!Vlhzada por excelencia. Valery? No tempo dos
Regaràs slir !e n1011de acruel jà o problema não estava en1 sabL'r se

43
a nossa civilização. a que continuamos a chamar a civilização, vru
morrer. Mor~er, palavra nobre, 1mbuida de majestade tranquila e de
natural seremdade. O problema não é, sequer, saber se a nossa civili-
zação vai desaparecer, assassinada. É saber que civilização se esta-
belecerá amanhã nesse mundo novo que já se elabora no fundo do
cadinho. ·
Porque uma civilização pode morrer. A civilização não morre .
Esse rnstrnto dos hornens, essa coISa própna dos homens: ultrapas-
0

sar-se, tomar a suq. vontade como trampolim, para saltar sempre n1a1s
alto. Só que, até ngora, era no quadro estreito de grupos IimitaJos
que eles davam o máximo do seu esforço. Produziam assim civilizações
de grupos, de tribos, de nações, de continentes até, ou de parcelas de
contrnentes. Civilizações delimitadas. Amanhã, sem dúvida nenhuma, ·
pela pnmcira vc-z. e salvo alguma catástrofe. apresentarão, senão ímc-
diat~mentc uma civilização n1un<liaJ, a civilização dos terrestres, espa-
lhada pela ectin1cna - pelo n1enos urna ou duas civilizações inter-
·continentais que. já aun1entadas por várias civilizações Ioca1s, se
prepararão, defrontando-se, para se absorver uma a outra.
Quais serão as etapas de.-;se imenso processo? Quais os primeiros
resultados parciais? A que nive1s sucessivos se estabelecerão? Que
representarão no conJunto da obra os contributos dos não-Europeus?
Que passará da nossa civilização para essas civilizações á escala do
mundo que, pouco a pouco, a substituirão? Segredo do futuro. Como
quereriamas prever e. senão saber, adivinhar ...
«Tudo loucuras. E saídas do rmnho de um historiador ... » E quc-
nam que essas notações de Históna viessem do punho de quem?
Porque, afinal, que se passou, se faz favor, na Europa, nos séculos
VI, VII, VIII, IX e X? O quê, senão já, no meio de convulsões sem
nome, de derrocadas, de massacres, de incêndios intermitentes mas
prolongados. com melhonas e recomeços, urna batalha de civiliza-
ções: bárbaros contra romanos, nórdicos contra mediterrânicos, asiá-
ticos contra europeus- uma digestão de civilizações urnas pelas
outras. E, no fim, fresca, jovem, a civilização cristã da Idade Média .
Essa grande inovação de que, amda ontem, vivíamos unicamente. De
que estamos sempre saturados. Então. as mmhas «predições de histo-
nador»? Regressos ao passado_


• *

~
Um facto é certo, a partir de agora: viver, para nós mesmos e
para os nossoc filhos, será amanhã, é já hoje, adaptar-se a um mundo
perpetuamente escorregadio .
Começou um grande trabalho. Nunca mais parará. Qualquer
que sela a 'duração das interrupções e das esperas. Liquidem os «Ra-
mos-Vida». Companhias de Seguros. Passou o tempo em que os pais
metiam nos vossos mealheiros umas centenas de escudos sobre a pes-

44
!
vru . soa dos filhos - para os recuperar, vínte anos ma.is tarde, com os
de 1 Juros. Desenvolvam os «Ramos-Incêndio», rnodermzando-os. E tam-
ili-
ta-
! Í
bém os «Ramos-Roubo» ...
Sim. Van1os ser muito an1caçados. Gemer não serve de nada.
do r ,_É precisa adaptar se. E, ante_s de n1ais, não se perder. Fazer todos
os dias o ponto da situação. Situar-se no tempo, e no espaço. . ·'
re . O Espaço - que também chamamos o Um verso. Esta mmuscula
as- bolinha de maténa perdida, entre milhões de outras, num canto da
a1s via láctea - e que jã co1neça a não bastar ª?'s nossos sonhos de explo-
os rador. Pcia pri111c1ra vez ton1an1os con~c1ênc1a ~~ sua pequenez.
ões Medida a crnveua era tão grande! Ao quilómetro, Ja i:r:enos. A velo:
de cidade do avião, já não é nada. Quem sobe para o aviao de amanha
ma, · 1 cm Carachi, toma o chü em Lonúrcs no dia seguinte_,º ás dezasseis
mc- horas. Scrú por acaso que, Jc hú dez anos para ca:.. 1n<l11crent<:_s nu111
pa- planeta scn1 desconhecido, sonhamos com foguetoes, excursoes no
er- 1· rnfinito. em direcção a essa lua esbranquiçada que acabaremos um
se dia por atrngír?... . .
Sim, con10 nos parece de repente pequeno, mesquinho, ~cm n11.s-
ros f téno, o nosso humilde planeta. Em que no entanto todos nos. bran-
ue cos, negros ou amarelos. temos, de bom ou mau grado, de passar a
s? existência. A Casa dos Homens - com o seu «Regulamento» no pnn-
do 1 cípio da escada: para qualquer falta, a morte .. :
mo Casa com cem partes de casa, casa com rn!l q;1artos. Com_ todas
as cores, com todas as dimensões, com toda a especw de rnob1hano.
uc- Mas é preciso conhecer ist? tudo, porque agora, dados uns passos 1~?
m? corredor ou subidos doís pisos no ascensor, o amarelo entra ~1;1 casà
los do branco e o branco em casa do negro, de arma automat1ca na
em mão e saco tirolês às costas. cheio de c01sas boas para comer: os dois
mas aspectos do maís recente intcrnaciona~srno.
za- Aprender a conhecer a orgun1z:H.;ao dcstc tn11vcrst~, o con!eúJn
iá- desses compartimentos cheios <le rnerea<lonas e tambcm de !orças
las cuJo rnventárío precisamos de estabelecer. mas sempre do ponto <l~
ia . vista do homem: pnme1ra tarefa <lo Europeu 46. Segunda tarefa.
De Situar-se en1 rclacão não son1ente ús sociedades que viveram na nossa
to- própria casa anteS do nosso nascin1ento, n1as a toJas as que, nas outras
partes de casa da Casa dos Homens, precederam os homens actuais,
arranjaram os lugares, deixaram atgur:is moveis aos seus herde1r?s,
travaram relações com os nossos propnos antepassados. Pnmeira
coordenada, o Espaço. Segunda. o Tempo. Peguemos _na fórmula <lc
Gustave Monod, reformador Jo nosso ensrno secundano: o homem
e cultivado em 1946? «Aquele que é capaz de se aperceber da sua
do situação de homem simultaneamente no tempo e no espaço. De refe-
nr ás outras civilizações aquela de que e actor e testemunha.
uer O homem que, com o conhecimento de um certo númer'? de aconte-
Ra- cimentos essenciais, adqumu, a partir da escola e atraves da escola
ais renovada, uma espCcie de experiência da vida e da rnorte das c1v1-
es- !izações ... »
45
i
Para ser mais claro o Espaço: <ligamos, a geografia. O Tempo:
digamos, a 111stóna. '

1
1 *
* *
Claro que outras soluções têm os seus defensores .
«Atençã~ ao Vi7.1nho», dizemos aqui: Dele vcn1 o perigo. Mesmo
que ele vos nao queira mal, estabeleceu-se jâ entre os hon1ens- bran-
cos, negros e amarelos-, uma proximidade tal que qualquer movi-
mento de uns se repercute imediatamente nos outros. Um tal acoto-
v?'Iamcnto. O que não quer d,izer un1a tal fraternidade. Pois que
estranhos, que rnqwctantcs VIZlnhos à nossa volta! Homens. já diz
tudo. 1
Eu digo: sim, diz o humanista, homens. E vocês dizem: olhem !
para eles; ma.s eu resnundo, com Sócrates: «Olhem-se a vós mesn1os
Tomem consciência Jo Homem que está em vós. Do Homem pare:
cido com o Homem, ao longo Jos séculos e das civilizações. Sempre
o mesmo, nas suas virtudes, nas suas qualidades, nas suas excelências.
E de que só as formas extenores, as aparências mudam. Desprezem
o hom_em <:1rcu.nstanc1aI. Sen1 grandeza nem constância. Apenas
pitoresco. Yao_ dueitos ao Homem eterno. Trabalhem para O libertar,
cnança,, e_m vos. Acabem de o esculpir, adulto, em vós. Forte, orgu-
lhoso, solido, capaz de resistir ás pressões extenores, sem se deixar
esmagar ... »
·~ O Homem eterno? l\1as todo' o esforço que- fazen1os, nós Jovens
«ciencias do Homem» - a psicologia, a ecologia humana, a etno-
graf1a. o folclore. a sociologia, a h1stór1a, naturaimente, até a cirur-
i
gia de Lenchc, que cada vez se quer mais htunana, n1a1~ Jircctarncntc
preocupada com o _ser hun1ano-, todo o nosso esforço não é opor
a essa bela academia, .executada segundo as regras (eleger dez belos
modelos; tomar os ombros de um, as pernas de outro, etc ... ), e cada
1
vez ma.is, os homens?
Há tnnta anos os geógrafos não falavam naturalmente «do
homem» e das suas obras na terra? Não os Ievãn1os nós a falar de
grunos hum~nos e dos }cus prodig10sos esforços de adaptação, pelos
quais se exphca ". tnu01o_terr:5tre de seres tão pobremente equipados
pela natureza, tao fragc1s, tao vulneráveis - e que no entanto se
e!1contram tanto sob u círculo polar como sob o Equador, na Groen-
landia como no Cong;', por toda a parte ou quase exactamente por
t':da a parte. na superncie do globo? O nosso desejo não é compreen-
de-los atraves da obra, n:sse perseverante e magnífico esforço que
prosscguen1, desde que estao na terra, para se inserir nos meios mais
hostIS e, desviando-os, desagregando-os, aproveitando as mi01mas fen-
das, arranjar ai. um lugar cada vez maior, talhar ai um papel para
s1 - viver, na plenJtude humana dessa bela palavra?

46
o: «Olhem-se a vós mesmos»? Mas quando descemos dentro de nós,
quando nos csquadnnhamos a nós própnos profundamente - não .
não são os lineamentos de uma academia tão perfeita quanto possível
na sua abstracta nudez-, são os vestígios dos nossos antecessores
que n-os espantamos por encontrar tão numerosos em nós: essa sur-
preendente colecção de testemunhos de épocas antigas, de antigas
crenças, das maís velhas maneiras de pensar e de sentir que cada
o um de nós herda no dia do seu nascimento - sem o saber. E que os
n- histonadorcs descobrem até na consciência de Périclcs, de Fidias, de
i- Platão - ao preço de um sacrifícto que os humamstas ele velha obser-
o- vância sempre reprovam. Porque tais achados, no fundo. não nos
e agradam muito. l-Iumilham-nos. Rebaixan1-nos aos nossos própríos
z olhos. Mas enfim, os factos lú estão. E por vezes, sob uma v10lcnla
1 emoção, 1ndivi<lual ·ou nuus gerahnentc colect1va - não ressalta brus-
m ! camente o velho fundo herdado, selvagem, provocando pâmcos.
s ammando toda uma multidão de furor sagrado, apoderando-se de
: nós ao ponto de nos «alienar»?
e Olhem-nos a nós própnos. Nas camadas sucessivas das aluviões
. que guarnecem o fundo das nossas consciências - quantos achados
m para a arqueologia dos pensamentos humanos! Legados dos nossos
s antepassados, mas que não podemos aceitar para beneficiar de um
, mventáno. O passado domina em nós, v,vos com estamos.
-
r *
* *
s
-
-
i Depressa, p01s, ao trabalho. h1stonadores. Basta de discussões.
O tempo passa, o tempo aperta. Quereriam talvez que vos deixassem
respirar? O tempo de cada un1 varrer diante da sua porta? É isso.
c O rr1undo c1npurra-vos. o 1nu1H.lo sonra-vus na cara o seu húlilo de
r febre. Não, não vos <lc1xarfro- tranquilos. Nen1 os Ingleses. ncn1 os
s
a
1 Americanos, nen1 os Russos, nem os Libaneses, nem os Sírios, nen1
os Árabes, nem os Cabilios, nem os carregadores de Dakar, nem os
boys de Saígão. Tranquilos! Mas vocês foram apanhados pela massa .
o Compnmidos, apertados, empurrados. por pessoas que não apren-
deram boas maneiras. As boas n1anc1ras de que vocês tanto se orgu-
s lham. (Ainda que, na pnn1e1ra oeasifro, se saiba em que se tornam .
as vossas boas maneiras.) Os v1z1nhos andam por cima <los vossos
pés: «Tira-te dai, quero 1r para ai.» Que fazer? Arvorar o vosso arz1-
nho afcctado: «Mas, senhor. .. » Troçará um bom pedaço, o Senhor
Cabilio, o Senhor Ouoloff, o Senhor Tonqumês. E zás, um encontrão
verdadeiramente fraternal nas vossas costas. Então, tanques, canhões,
aviões? Mas eles tan1bem os tên1. São mesmo vocês que lhos vendem.
E depois, eles são demasiado, demasiado, demasiado ... Salpicar o um-
verso de bombas atómicas. metodicamente, quilómetro por quiló-
metro? Um quadnculado de precisão? Belo progresso; mas conhe-
cem-se meios menos caros de se suicidar ...

47
'fe O mundo de ontem acabou. Acabou para sempre. Se temos

! / alguma possibilidade de escapar, nós Franceses, é compreendendo,


mais depressa e melhor que outros, essa verdade evidente. Deixando

l
1
os destra<;os. A água, digo-vos eu, e nad.em com força. Trabalhemos
para .fazer dessa solidanedade de facto, que a partir de agora une
os naufragas- que amanhã unirá todos os homens - uma solida-
nedade de labor, de troca, de livre cooperação. Perdemos tudo. ou
quase, dos nossos bens matenais. Não perdemos nada se nos resta
1 o espinto. Expliquemos o mundo ao mundo.
Através da históna. Mas que lustóna? A que «romanceia» a
vida de Maria Stuart? que «lança a luz» sobre o cavaleiro d'Eon e
as suas saias? que,. durante cinquenta anos, estuda os dois últimos
segmentos do quarto par de patas? Perdão, estava a confundir.
Pois bem, não! Já não temos lcmno para isso. Dcmas1ados
h1stor1a<lores e, o que é pior, bcn1 forn1ac.ioS e conscienciosos -dema-
w1doLJ,_~storrnclorcs se dciJ<em ainda enganar pelas pobres lí.çii:_q,_
dos vencidos Jc 70. Oh, eles trabalham mmlo! Fazem história como
ve_ll1~s avos· fazem tapeçana. Em ponto miúdo. Aplicam-se.-Mãs se
lhes perguntam porquê todo esse trahalho, o melhor que podem
responder. com um sorriso bom de criança, é a expressão do velho
Ranke: «Para saber exactamente como se passou». Com todos os
pormenores naturalmente.


*
Já não temo, tempo, já não temos direito. Em 1920, há vmte
e seis anos, ocupando pela pnme1ra vez a mmha cátedra na Umver-
sídade Livre de Estrasburgo - eu são e salvo, mas à minha frente
os cemitérios onde dormiam 1nqu1ctos os mortos de <luas gerações
ceifadas en1 flor - como n1e interrogava. ansioso, sobre o meu dever!
Tena cu, lmto,·iador, o direito de refazer a lustória? de consa-
grar à hístóna o meu tempo, a mmha act!Vldade, todas as forças que
n1e restavam. quando tantas outras tarefas requerian1 lmp1edosa-
mente os cidadãos? Tcna eu, professor, o tlireíto de persuadír os
outros pelo excn1plo. de empenhar jovens, depors de min1, na vía
que era a n11nha? I-loJc, nun1a situação bem mais dran1átlca, com
que redobrar d0 angústia nos interrogaremos todos?
Para responder claramente. Ora eu respondo, aqui, sem hesitar:
ii «Fazer história, s1n1. Na 111cdida em que a história e capaz, e{! a única
! capaz, de nos permitir.. num mundo em estado de mstabilidade defi-
mtiva, viver com outros reflexos além dos do medo, das descidas
desvairadas para as caves- reduzido todo o esforço humano a supor-
\'\tar por algun1as horas, a suster cm cin1a das cabeças vacilantes. os
telhados fendidos, os teclas desventrados.»
A lustóna, que não liga os homens. A históna, que não obriga
ninguém. Mas sem a qual nada de sólido se faz. Sobre o alto de

48
Montmarlre que quer constrmr o Sacré-Coeur desenvolve-se pnme1ro
uma sondagem através da elevação - até ao nível do Sena. Areias,
margas, g1psos, calcários: quando se sabe o que suporta, por ba.txo .
o solo leproso da superfície, pode-se constrmr com conhec1mcnlo de
causa. Claro que a geologia não obriga o arqu1tecto a _fazer neo-
-bizantino em vez de neo-gót1co. Qualquer que scJa o estilo que ele
por fim adapta, a geologia permite-lhe fundar solidamente. a, sua
construção sem que ela se desmorone com o tempo. Assim a h1stona .
A que compreende e faz compreender. A que não é lição a estudar
todas as manhãs, com devoçfio - ri1as vcrtlaJc1ramcnte un'!.a con-
dição permanente de atmosfera. O que foi sempre aqui, para Marc
Bloch e para n11n1. O que serü an1anhã. para todos os anug.os que
rne ajudara111 no n1cu trabalho. A l}istór.1_a) .rcspo_st_a __;i~perg~1.ntas '!.uc
o hon1cm Jc hoJC ... nccc.ssanan1cntc se põ_c. Explicação de· s1tuaçocs
con1pliéâ<las, no 1nci-o <las quais se <lcbalcrú n1cnos ccgan1cntc se lhes
_ conhecer a origem. Chan1ada de soluções que foran1 as do passado
e que portanto não podenan1 ser. e1n ca,;o ncnhun1, as do prcs_c1,1t~
e -que escola de maleabilidade para o homem formado pela lustona,

«Assim subordinais a rnaJestade de uma Ciência às exigências


do que os 1;ossos Jornalistas chamam a ~ctualidade ... » _
Não subordino absolutamente nada. E preciso assegurar que nao
confundo os h1stor1adores con1 essas senhoras obsequiosas que os
assinantes <lo telefone, depms de formar as letras S. F G.,. têm o
direito de mterrooar sobre a idade dos seus conterrâneos célebres ou
os galões dos post'os no exercito peruano. Mas tambên1 não entendo
classificar sob o concc1to do 1:'.tcrno o Fu!gcncc Tap1r dü VL~lho
Anatole France. Peço aos lmtonadores, quando vfüJ para o trabalho,
que não se dirijam para ele à 111anerra de Magen.d1e: T:1agen1..ilc, esse
mestre de Clamle Bernard. esse precursor da filosofia que expen-
menlava tanto prazer en1 vaguear de mãos nos bolsos por ~ntre. <?S
factos raros e curiosos. con10 o trapeiro por entre as porcanas, tl121a
ele. Peço-lhes que vão para o trabalho a maneira de Claude Bernard.
com uma boa hipótese na cabeça. ~l)_u11c,a _s~ faç,im .co_le~.c1011a.c
dores de faç_tos ao acaso, como dantes se. faz1<1_p_e,s_q_t1l§e_d_Q[ÇS de
·1iyr9.s __[l:QS__cj\fs-:- 'Qué-Tfüs--âêem ~üm,CHisf6ria .llão. aJJ tom_iI!I~fl, _~.'.12
sim..pm_blcmáti_ca. ··- · .. _
Àss1m agirão sobre a sua época. Assim perm1t1rao aos seus
contemporâneos, aos seus concidadãos, compreender melhor os dra-
mas de que vão ser, de que já são, ao mesmo tempo, acto!es e espec-
tadores. Assim trarão os mais ricos elementos de soluçao ::ros pro-
blemas que preocupam os homens do seu tempo.
Método histónco, método filosófico, método crítico: belos uten-
sílios de precisão. Honram os seus inventores e as gerações que os

49

_ _L_.--
i/
us~:am, que os receberam dos seus antecessores e os aperfeíçoaram,
[- utili7.ando-os. Mas saber manejá-los. gostar de os maneJar- isso não
chega para fazer o Justonador. Só é digno desse belo nome aquele
que se lança totalmente na vida, com o sentimento de que ao mer- i
gulhar nela, ao penetrar-se de humanidade presente, decuplica as suas 1
forças de investigação, os seus poderes de ressurreição do passado.!1
De um passado: que detém e que, em: troca, lhe restitui o sentido
secreto dos destinos humanos. · ,

1
f

f
!
1

50

------··------·
m,
ão
ele
er- i
as 1
do.!1
do
,

1
A VIDA. ESSA PIWCURA CONT1NUA
f
Não haverá aqui lugar para uma conclusão. Conclwr é parar.
Passar um traço. Sob que parágrafo de que capítulo? Evoco tudo
o que os meus olhos leram e viram, tudo o que as mmhas orelhas
ouviram e escutaran1 desde os meus dezasseis anos. Evoco as trans-
formações sucessivas de um espmto duas ou três vezes modificado,
até ao âmago, por revoluções de arte e de literatura. Porquê a pre-
ferência por uma ou por outra, como fazer um traço: o traço que
«pâra>>?
Aos dezasseis anos - 1896 - cu estava em vésperas de alcançar
ParJS, vmdo da minha província natal de Nancy. Eu, pronome
f cómodo - apenas significa, aqui, os meus conterrâneos, os homens
nascidos entre 1875 e 1880. A nossa bagagem. nessa altura? Já preciso
! de un1 esforço para a rcconstltu1r. E, hun1e1n <lc entre cinquenta e
sessenta anos, tudo o que vou dizer parecerá muito estranho aos
1 leitores de tnnta .
Literatura? Fora do liceu, aos clássicos reconhecidos Juntávamos
os românticos, Michelet, Flaubcrt (os romances e a correspondência),
às vezes um pouco de Renan. Vigny linha os seus fanáticos. Leconte
1 de Lisle os seus fiéis. Autores «modernos» mas confessáveis: tinham
direito a un1a meia-encadernação ou pelo menos a uma cartonagem
1 simples na biblioteca dos nossos pais- sinal certo de adopção. As
nossas outras leituras eram mais arnscadas: faziamo-las também em
volumes brochados - os «três francos e me10» brancos, vermelhos
ou amarelos de Vanier, de Calmann ou de CharpentJer. Aliás, exac-
tamente na altura em que procurávamos libertar-nos dela, era a nossa
demasiado boa formação liceal que continuava a ditar-nos os nossos
1 Juízos. Assim saboreávamos sobretudo, em França. as 1romas de
Jérôme Co1gnard ou a eruclição maliciosa de La Reine Pédauque;
assim, mais que o anarqmsmo subtil dos três romances ideológicos
de Barrés, agradavam-nos Le Sang, la Volupté et la Mort, tingrndo

51
1 de cores românt1c~s uma Espanha mais que semi-retórica. No entanto,
com muita cmoçao n1as alguma resistência, começãmos a saborear
Verlame_ Quanto à nossa época, Les nwts, /es ennuis et les âmes
de no-; p/us '!ºloires ~onrernporauis (como resistir ao prazer de citar
este titulo, tao perfeitamente datado, de um livrinho de Ernest La
1 J,eunesse?)-Nu11s, e alguns outros, revelavam-nos o sentido de adjec-
tlvos na n1oda: <<<lt;.cadentc» e «fim de século». Alguns, de entre nós, r
avcnturav~m-sc ~te ao Goncourt. Outros, até f-Iuysmans. Mas todos, f
as escondidas, Jwmos MaupassanL Um pouco de DaudeL E mmto f
Zola. · f
. lvfús1ca? alguns concertos clássicos. Beethoven. Schumann. Ber- 1·•

lioz, raran1cntc. Entre uma repetição de l?ornet1 e o tríunfo de Werther .


ou Ja flerodíade, o Teatro Municípal revelava-nos, nu1na nlÍsturada !
-~unsüo e Dalila, Si;:urd ou L 'attaquc du nioulin: tuúo novidade~ f
fortcn1entc discutidas. Atrás das quais, a medo, soavrun Lohengrin ,
e ·rannhiiuser. i
Pint.ura, escultura, não mu1La coisa. Por sorte, eu podia an1ar
um Rodm - o Claude Lorram empoleirado, no parque da Pépmiére,
a sua silhueta gorducha, as suas pesadas botas e o seu rosto maravi-
lhado sobre o peclestal que os cavalos de Apolo arrastam com tão
impetuoso ardor. Mas, apesar da intensa curiosidade que despertavam,
aos dezasseis anos nenhum de nós linha visto um Manet. um Monet,
um Renoir. Conhecia1nos ao menos os nomes desses reprovados -
nem isso, desses ignorados? Os dos grandes homens do Salão. sim.
Com a deferência convememc contemplávamos, todos os anos, no
Figaro-Sa/on de Albert Wolf. os Bonnat, os Ben1amin Constant. os
Jean-Paul Laurens - p0r vezes, um Besnard, tão audacioso. ou um
I-I_cnn Martin, tão revolucionáno. Alén1 disso, no pais do ferro, en1pre~
gavan10:~ os nossos ardores em n1aldizcr a nH.lúslnn. Bem tínhan1os
olh:·)s r;ara admirar, ,.'1 noiLc, o clarão das funUicücs ou a estranha
paisagem que, de_ manl!ã, as fábncas de silhuetas· metálicas surgindo
da bruina con1pl;cn1. f\1~.'i os Jogn1as abafavan1-nos as impressões.
Con1u nos imped1an1 de ligar à arte tudo o que não era arqu1tectura,
p1nlura, escultura ou gravura. É verdade que, lll:'SSC tempo, as fábri-
C'_l_S eram leprosas, os altos fornos mesqumhos, as pontes metálicas
nao eram amplas_ É verdade que a fotografia (para não citar mais
nada) j_ustiíicava. plenamente os anáten1as de Flaubcrt: não era senão ~
um meio de l'abncar esses álbuns CUJOS fechos se abnam para admirar f
a cnno!ma da tia Mana, ou o tamborete da prima Joana. Í
Em ludo isto, uma novidade - uma úmca_ Mas que só ínteres- !
sava ~l «arte decorativa». Lançavan1-nos no mundo cuídadosamente ·
munidos de categonas estanques: havia a Arte. que era Beleza, e i
a Indústria, que_ era Feaidadc; do n1esmo 1nodo, às artes <<puras», ,
múle1s e prest1g10sas, opunham-se as artes «aplicadas». maculadas
de utilidade e portanto inferiores. Ora, era no domínio destas últimas 1
que nascia qualquer c01sa: a arte silvestre e floral de Émile Gallé,
que já passava dos seus vasos cheios de nusténo para os seus móveis

52
, improvisados - para todos os tampos de mesa com embutidos que
r ele juncava com os despojos de um Outono castanho-avermelhado-
s Devidamente estilizada, essa flora smuosa começava a mvadir o pedes-
r tal dos monumentos públicos e as fachadas dos hotéis burgueses.
a O «modem style» constituía-se: lírio, vinha virgem, folhas de plátano
- e de castanheiro. Nas VI trinas de MaJorelle, assistíamos todas as tardes
, r à sua génese_ Mesas de chá e baús, pratos pintados e vidranas. pol.-
, f tronas de madeira ou tapeçarias, molduras esculpidas de portas e
o f janelas - todo o décor da nossa vida afundava-se numa orgia de flores
f em madeira esculpida e de ramos cm bronze.
- 1·•

r .
a ! * *
~ f
n , Bruscamcnte._Earis,-1.R96c.l902_L\l.ll!S_e_cns.es p..9lfücas..JJ1orn!cs,
i estétLcas. __ _Iudo--ao __ mcsmo_ tcmpl). Nesses anos agitados, pequenos
r provincianos a descobrir a Cidade, batiamo-nos pelas nossas verdades,
e, pelas nossas razões de ser- e tan1bem por arranjarmos outros olhos,
- outras orelhas, uma maneira nova de sentir o mundo. Por alegnas
o desconhecidas.
, Um domingo de tarde, no Châtelet. Esse peitilho ligeiramente
, amachucado~ essa barba ncstor1ana~ esse homem gordo que se inclina:
reprovado pelas poltronas por cnme de wagnerismo, ~ Édouard
m. Colonne - freneticamente aclamado por nós, os das terceiras gale-
o nas: de pé, todas as mãos a bater palmas, todos os clamores fora das
os goelas. Apos o que, durante horas, ao longo dos cais e das ruas.
m enquanto os sábios discutiarn tema e le1t-n1otiv) os silenciosos. ainda
~ n1aravilhados, escutavam o coração a s...1.Jtar-lhcs no r,clto.
s
a Outro donungo: o Palúc10 Lia Indústria. En1 batalhões. cn1 rl'g1-
o mentos, cn1 corpos de exército, as 1)0rtas escancaradas. von1itarn-
s. ·((nos»: na nave, todos arrcn1clcn1. alegres e saciados, excitando-se
a, de antemão con1 o prazer prometido. E chegados ao pC do pedestal
i- sobre o qual. a cabeça para trás, arrogante e desdenhoso no seu traJe
s de burel, o Balzac de Rodin não os desafia. mas rejeita-os - cospem
s as suas troças e os seus nsos obscenos.
o ~ Entretanto, a sala Caillcbotte no Luxemburgo, mas sobretudo .
ar f na Exposição de 1900, a Centena! da Arte Francesa, revelam aos
Í nossos olhos, deslumbrados por tanta claridade. o 1mpress1onismo e
os da sua com1t1va. Pois quê, a França era o lugar umversal da pm-
s- !
e · tura- e não nos diziam isso? Revolta e formidável golpe de picareta
e i nos nossos espintos. Manel, Ren01r, Pissarro, Sisley, Cézanne, Manet
e Dcgas, e depois Rodin - acolhêmo-los a todos. Fraternalmente.
», ,
s E ocuparam-nos. Acabou-se. o resto desaparece: nunca mais iremos
s 1 aos Salões Oficiais venerar os virtuosos do falso desenho e do ciaro-
é, -cscuro pedagógico. Conhecen1os os nossos deuses, os verdadeíros .
s Que nos refazem uma aJma_

53
i!
A nós, que nunca segurámos tira-linhas nem arcos de oua esco-
pro _n~m pmcel. A nós, filósofos, h1stonadores, biólogos: ro'é<licos
ou filologos. No momento, sem dúvida, não analisamos quase nada.

1
Amamos, posswmos, não fazemos a teoria nem dos nossos an1ores,
nem dos nossos bruscos desgostos. Entre a serenidade voluntána de
um Cézanne absorvido nas suas preocupações com a posição exacta:
l
1
' entrn a saude e a alcgna de um Renoir, tão puro de mtenções lite-
ranas como Rabelaís e, por outro lado, o romantismo germânico de
Wagner, ou os gritos, os soluços, os apelos desesperados que sobem
de um par enlaçado de Rodin; entre a. dureza de Manet, a crueza
de ~egas, as visões de Monet ou as festas sobre a ãgua viva de Sisley 1
~ nao queremos ver choque, conflito. oposição certa. Subitamente [
dilatado, o nosso coração C sufic1cntcn1cntc grande para os conter
a todos .
A_ eles, e aos que já se apressam para os substituir, tão generosa
e a seiva nestes anos fecundos. Um dia, em casa de Druet vamos
descobrir, deno1s das suas paisagens, os nus Jc Marquct. O~ então, 1
em casa de Bernhe1m, na praça da Madeleine, os retratos de Bon- i
f
nard, os rntenores de Vuillard, as éclogas de Roussel. Em casa de
Durand-Ruel, a robustez plena dos Renoir. Um pouco por toda a
parte, os desenhos de Rodin. Impunemente, tudo? Isto é, bem fechado
num _ar~1ar10 reser\'ado, com a etiqueta: «Prazeres de arte e de lite-
ratura)) ..A. uma pergunta dessas, se respondermos não, não é por
~ermos lido tratados de estética. Mas sentimos operar-se em nós,
o~aças a esses «operarros» e à sua arte, a metamorfose que fez de
nos, vcrdacte1ramente, o que continuamos a ser, trinta anos mais tarde .

*
* *

Para que servem eslas recordações? Pareço divagar, contar para


nada, por prazer, os nossos Jovens anos... De facto: Encvc!opédie
Franr;c~tse, tontos .Yf/f e .,,YVJJ, Arts et Littératures, fim-Parece-me
que estou cm cheio no assunto.
Qualquer c01sa tinha penetrado em nós. Tão forte, tão brilhante
que, bruscamente, a partir dai, tudo nos parecia desafinado. Era
preciso restabelecer os laços desfeitos, recnar uma ordem necessária.
AJu.5tar ~ E, em pnmc1ro lugar, o própno décor da nossa vida. Pois
voces vao pendurar um Ren01r, um Monet, num salão Félix-Faure
ctesfoado por moveis de perfis redondos, de curvas moles - atulhad~
de b1be/01s hctcróc!itos e disformes, de pesadas tapeçanas sombnas,

54
o- de uma profusão de inutilidades agressivas? Pois vão 1nser1r as linhas
os de um Cézanne numa moldura «modem stylc»'I J:í Loos, depois de
a. Viena, nos pregava a guerra ao ornamento. Melhor a.inda no-la ensi-
s,
de
a:
l
1
navam, e agiam, os quadros dos discipulos de Courbet e de Delacro1x.
Ajustar o que mais? A nossa literatura? Certamente que, se
tivéssemos posto a questão em termos abstractos, nos teríamos visto
e- forle1ncntc c1nbaraçados para a resolver. De todas essas telas. <lc
de todos esses n1âr111orcs e esses bronzes que nos tinham conquistado.
m disse-o e todos o sentíamos confusamente: não se desprendia de modo
a nenhum uma lição úmca. De um Rodin. de um Degas, de um Renoir
y 1 e de um ivlonet contemplados nun1a mesma n1anhã, antes de un1a
e [ audiç:ão de Tnstão - ou· de Pelléas - mnguém lena podido dcduZir,
er nem que o ron1antisn10 tinha <lesaparecído, nen1 que o naturalisrno
estava enterrado, nc,11 que un1 linsn10 espontâneo acabava de vencer.
em combate singular, um áspero realismo. Mas, do n1esn10 moJo.
a
en1 literatura nós não tínhan1os renunciado de repente a tudo o que
s
1 an1âvan1os «antes». E cstúvan1os pouco preocupados en1 discernir.
,
i no que agora acolhían1os con1 o maior entusiasmo, _essa, unidade
- f de 1nsp1ração que só nos n1anua1s se desenvolve verúadc1ran1cnle,
e
tanto con10 em estabelecer uma relação de discurso acadén11co entre
a os «nossos» pmtores, por um lado, e, por outro (cito propositadamente
o
en1 desordem obras muito díspares) digamos, as Histoires naturelles
-
de Juies Renard (aliás ilustradas por Bonnard) e o seu Poíl de Carol/e;
r
e amda, os Charles-Loms Philippe. de Bubu aos Charies B/anchard;
,
os Octave J\llirabeau; os Pierre Hamp de La JJetne des hon1n1es ou
e
a Collette de La vagabonde. E certo, no entanto, que na ongem de
.
certos repúdios, de certos desgostos, de certas impossibilidades (por
cxen1plo, o teatro de hou/e\'ard e os seus dramas burgueses}, houve .
para nús e para quantos nulros. a lo111aJa de posse-, por vnlta do ano
de 1900, e a adopção apaixonada dessa coisa muito pequenma. des-
conhecida e descurável na lustóna da Civilização Ocidental: a pmtura
francesa-a dos mestres nascidos cerca de 1830-1840.
'É preciso 1r n1a1s longe? falar de moral tambem a «aJustar», ou
a de filosofia? Claro que não pcrn11t1rian1os a nós prôpr1os estabelecer
e 1acos demasiados precisos entre o 1n1press10111sn10 e as atitudes filo-
e sóficas que então setiuzian1 tantos Jovens espirítos. Não menos do que
entre os nossos deseJos fogosos de Justiça, as nossas necessidades
e apaixonadas de clanvidênc1a e, por exemplo, a proposta de Monet
a u Reno1r. a Sisley e a Bazille, nesse dia do ano de 1862 em que.
diante de um modelo vivo. Gleyre lhes impunha pensar na arte clás-
s sica: «Raspemo-nos daqui, o ambiente é rnsaiubre, há falta de smce-
ridade ... » Que fique pelo menos entendido que à inversão dos termos
do problema oporíamos, não apenas a questão prévia, mas datas
positivas e un1a pergunta precisa. Bergson e o bergsonismo? i\t1as

55
{' porquê meter os pintores. que trabalharam mmto anles dele e sem
ele, no ambiente frágil do filósofo- mais que a filosofia transitória
1 no palácio eterno da pintura?

! *
*
*
í1
l Era preciso. ajustar. AJustávamos. Elimmando. Mas também
vendo as coisas anUga,;; com olhos intciran1cntc novos. Era O tcn1po
em que alguns de nós se lernbravarn de adquirir a edição CaJrnann
- tipos velhos e ron1bos e papel grosseiro -dos Prornenades dans
1 l?.o,ne e das AIén101res d'un touriste, tals con10 o bom Colombo as
tinha legado a uma posteridade que aliás, nessa data, não se apres~
1 sava muiio a adaptá-los ... Jú, nesses anos fehns. estávamos prOntos

!
1
1
a acolher Proust. E Valéry_ Se eles entraram em nós - e na medida
cm que entraram - foi mtroduzidos por aqueles que nos transfor-
maram e con~ra ,os quais eles próprios reagiam. Con10 foi Wagner
quem deu, defrnil,vamente, entre nós, audiência a Debussy_ E Debussy
a Ravel, a Strawmsky, a Florent SchmilL E estes. __ não contmuemos.
Qu:m então 9izia: <<Eu vivo talvez em 1900; mas o n1eu vizinho, que
voces aqui veem, vive em !890; e aquele -outro, acolá, em !880_»
-:- Na verdade, é cada um de nós que vive, em parte, em 1935, e tam-
bem em 1920, e ai;ida em 1912.
Rcsun1n!!.1os numa paJavra. Por vezes, não são apenas as con-
qu,1stas da c1cn_c1a que conduzem ao que se considerou con10 verda-
deira!'> <(Jllutac;oes>> tio intelecto hun1ano: transformacões súbitas e
tão profundas que cm alguns .anos as próprias noções Cuja conquísta
custou o maior esforço aos r,r1meíros gCnios científicos de uma época,
se tornam evidentes e fáccrs mcsn10 para os estudantes. I-Iá o que
p0Ucn1os, o que dcvcr:ios chan1ar as conquistas úa arte. CuJos resul-
tados prnvoc~1n1 tan1bt.:1n eles <<1nutação}), 1ncorporando-sc, cm alguns
anos_ na VISao comum do Universo_ E não apenas na dos artistas;
ou dos amadores de arte: ou mesmo dessa ,dite» de que ontem falava
um cxcclcntc J11stonador de ~rtc denunciando, na incompreensão
lolal, funosa e obslmada dos Franceses de entre 1860 e 1900 para
com Courbet, Manel, Monet, Rodm e quantos outros, «um dos múl-
tiplos efeitos da democracm que suprime as elites»: contudo, e salvo
erro. eram as ({elites» que enchiam os seus salões co1n os uniforn1es
carissirnos desse Me1.ssonn1er de que não se encontra vestío"!o na
recente flistórra da .pulíura enz França, do mesn10 autor, e ;om os '
1
combates desse Dclaillc e com os retratos bem cotados desse Chartran,
e con1 imagens coloridas de tantos académicos enfeitados com galões. i
de que um homem cuilo ÍJOJC coraria ao citar um só nome_ Revo- 1
luções de arlc. Quando têm o poder, a amplitude, da que se realizou
sob os nossos olhos de homens cu3os vinte anos soaram nos relógíos
de I 900 - nelas reconhecemos um dos fermentos mais activos da
hístóna humana.

56
m *
a * *
E talvez se veJa para onde se encammha tudo isto? Antes de
mais (é inútil voltar agora a isso} para demonstrar que nos volu-
mes XVI e XVII da Enc,c/opédia não é desejável, nem possível,
nenhuma conclusão. Porque mesmo nós, os cmquentenános de hoje,
m ainda não passámos um traço sob as nossas conquistas de l 900 a
o 1910. Porque no regresso ela guerra (e a guerra, aqm, não é alegada
n senão como uma referência cronológíca, não con10 uma causa, ou,
s em todo o caso, «a» causa) conhecemos, fizemos a experiência de
s outros pintores, de outros escultores, de outros músicos, de uma outra
~ arqu1tectura enquadrando outros décors. Mais ainda. outras artes:
s o homem a colaborar, com a fotografia. no trabalho bruto <la luz:
a o homem a registar o movin1ento para o recriar â sua maneira. Tudo
- isto, num mundo completamente transtornado e renovado por um
r prodigioso conJunto de descobertas c,cntíficas que levam à telegrafia
y sem fios, à aviação, ao fonógrafo. à rfidio - amanhã á televisão, etc.
. Tudo isto, de tal modo forte e profundo que ontem Henn Wallon
e nos advertia: em tão poucos anos, já essas mvenções de uma prodi-
» giosa universalidade começaran1 a agir sobre os nossos organismos,
- a modificar as nossas percepções. a transformar uma humanidade hú
séculos e seculos quase imóvel na sua constituíção .
- Mas há outra c01sa. Se, no plano total da Enc1clopédia, dei desde
- o ínicío ãs Arles e às Literaturas um lugar amplo e vasto: se, face
e aos dois v0Iun1cs nccessaríamente dedicados á física moderna, essa
a revolução das revoluções do nosso tempo, quis pór dois volumes .
, dois grandes volumes destinados a «fazer compreender» o que e a
e arte na nossa cívilização e nas nossas vidas: se. tendo por um n1on1cnto
- tentado reduzir esses dois volurnc~ a un1 ~6. logo rcntÍncie1 para voltar
s ao n1cu proJecto prunilivo - não se tratou <le un1a fantasia gratuita.
; ·E que eu encontrava, na minha própria experiência, nas minhas
a recordações, no que eu tenho consciência de ter «sido feito», a noção
o viva de que a arte não se inscreve, ou inscreve-se apenas acessoria-
a mente e pelo preço de uma deformação, entre os «Tempos Lines
- e Divertimentos» de que se tratará no tomo XIV da Enc1ciopédia:
o marquei desde a ongem o seu verdadeiro lugar (Pierre Abraham
s houve por bem lembrá-lo do rníc10 do tomo XV]). Ela é um cios
a mais eficazes rnc10s de Conhecer e de Compreender de que a Huma-
s '
1
nidade dispõe_ Desde já -- e sem conJecturar o que será amanhã .
, Acerca do que ela poderá e deverá ser__. É preciso dizê-lo, na
. i hora em que os cíentistas abrcn1 diante dos nossos olhos, ao mesmo
- 1 tempo extasiados e inquietos, as perspectivas que se sabe; na hora
u em que nos mostram a investigação experimental e a investigação
s matemática revezando-se para n1elhor captar o uníverso nas malhas
da rede humana, para melhor o conter em poderosas construções,
feitas das formas e das noções abstractas que a razão extraí das coJSas

57
i~í L'l111J1cch:ias. Exrior:1Jc1r Jas regiô.:s st:"rn lin1Hc:-s de que fala Jean
Perr1n: prospector Jesse cCrebro hun1ano «onde dormen1 na noite
inúmeros passiveis que a coJJ::;ciênc1a podera nunca animar» - o
matemático extrai de obJectos conhecidos as suas cadeias indefinidas
de entidades racionms. Até ao dia em que, encontrando-se mteira-
mente elaborado o conteúdo das realidades, ele exija aos trabalhadores
da cxpcr1mentaçãu 'un1a nova colheita de factos, elen1entos neces-
sanos das construçoes futuras .
Ciclo sem fim, engrenagem um tanto aterradora, entre cujos
dentes sem dúvida muitas c01sas frágeis, ternamente vivas e a que
estan1us presos, correriam o nsco de se ver trituradas scn1 piedade
- se prcc1san1ente a arte não 1ntl!rv1cS::iL-~ aqui con10 um contrapeso.
Ou como se rasgasse avenidas banhadas <lc sol. A arte, que não é
a antítese da Ciência. A arte que não <leve de 1noúo ncnhun1 1gno-
râ-la. ou combatê-ta- mas, cada vez mais. apoiando-se neJa, tomar
os seus <lados co1no objecto do seu trabalho. Não somente para enri-
quecer as suas possibilidades, para se <lotar de meios novos, para
abrir a s1 n1esn1a novos campos, n1as ainda, n1as sobretudo. para
apresentar a certos hon1cns que so dela a poderiam aceitar, essa
1ntcrprctação geral das coisas qn~: a Ciência propõe e que a arte sugere.
A arte - ou os artistas .
No ciclo <las duas pesquisas revezando-se uma à outra e con-
Jugando os seus esforços alternados, e bom prever uma pausa <le arte .
Urna terceira pesqu,sa. Mais cm superfície que em profundidade?
Acreditam? Profundidade, que importa. Debruço-me sobre o Oceano,
dizem-me: «Aqm, três mil metros de profundidade.,, Três mil ou
trezentos, é o mesmo. O que conta é saber até onde a claridade des-
cera. É fazer descer a luz n1a1s longe, mais abaixo, sempre mais abaixo.
Fazer recuar a escuridão. E portanto ser profundo: quero dizer, ilu-
minar o escuro. A arte pode ilun11n:i-lo .

58
n
e
o
s
-
s
-

s
e
e
.
é
-
r
-
a POR E CONTRA
a
a
.

-
.
?
,
u
-
.
-
f
'
l
i
'
1
1
1
j
1

1 JPOR Ul\IA lUSTóRIA DillIGIDA


l

11
As investigações colectivas e o futuro da história
l
l Investigações colect1vas: a fórmula ou, se quisermos, o programa,
'
1 não tem nada que surpreenda, ou que choque, o biólogo ou o fisió-
' logo; nem sequer o psicólogo~ nem sequer, ainda menos longe de
nós, o geógrafo «humano», o antropogeógrafo, que de bom grado
procede por «mquéntos»_ Aplicada à luslóna, como surpreende e
1 choca a maior parle dos que se dizem historiadores, hoje, num país
i como a França. É preciso compreender esse facto para o explicar.
f Pode invocar-se a tradição. Quando eu nasci para a história, no
i
1 tempo em que também nascia o século XX-a moda, na firma Clio,
não era a do trabalho colectivo. Passavam-se ainda histórias espan-
tosas de velhos arqu1VIstas, que escondiam documentação por eles
1 «descoberta» e a fazrnm desaparecer durante anos, para reservarem
l para sí o seu uso eventual. De tempos a tempos revelava-se un1a
lustór1n, pcrl't:itanicnlc r1<lícula, Jc «pr1ori<la<lc», ou então :.1sslstían1os,
1 um pouco comovidos, à luta de velocidade entre dois hislonadores
a trabalhar sobre o mesmo fundo e que, lançados a todo o vapor
1 (metáfora do tempo que ignorava o automóvel), procuravam adian-
l
1
tar-se lnunfalmente um ao outro. Individualismo pueril. O que im-
portava, não era a história, uma ciência a promover. Era o historia-
dor, um livro a assrnar. Vaidades de autor.
1 Não sou suficientemente ingénuo para não pensar que esse estado
de espírito - um pouco atenuado, sem dúvida - amda persiste. Mas
é um efeito, e uão uma causa. Procede de convicções fortes, em boa
1 lógica antagónicas, mas que no entanto acabam por se encontrar.
Para uns, convicção de que a históna «não é uma ciência». Para
outros. convicção de que sendo uma ciência, a história proíbe
«naturalmente» ao historiador qualquer escolha de elementos, qual-
quer interposição de ideias (sob a forma de hipóteses, ou mesmo de
teonas) entre a colheita bruta dos documentos e a sua apresentação
ao leitor. Não empreendamos discutir em pormenor estas concepções
contraditónas. A persistência do seu sucesso nos meios históncos

61
não se explica senão oor um dcsconhcc1mcnto total Ja soliJancJade
que une, de bom ou mau grado, todas as disciplinas científicas umas
as outras, e, por outro lado, por uma ignorância absoluta e serena
da evolução, ºD: da revolução, que nos nossos clias se produz nas ideias
de associações inteiras de «sáb10s» sobre o que se convenc10nou cha-
mar a obJeCt!Vldade científica.

1 * *
,! Numa palavra, Ilotemos s1mp1esmente: não, a Ciência não se faz
numa torre de marfim, pela actuação intnna e secreta de cientistas
( desencarnados que vivem, fora do tempo e do espaço, uma vida de
. pura mteJectuahdade.
· A Ciência - e com isso sívnifico a Sociedade das Ciências-
~ Ciência é feita por Justoriadore~ que radican1 no meio da sua êpoca:
e o mesmo para os matcmál!cos, os físicos. os biólogos ... e os histo-
nadores: o mesmo, e que age sobre todos da mesma maneira e atra-
vés do qual se opera a ligação das suas actlvidades científica~ com o
conJunw das outras actividades da mesma época'.
Por outras palavras, a Ciência não é um 1mpéno dentro do
impéno. _Não se separa do me10 social em que se elabora. Sofre a
sua pressao. o constrang1n1ento de cont1ngênc1as múltiplas que pesam
sobr_e o seu d_esenvolv1mento. E é por isso, entre parêntesis, que a
l11stona d~ C1enc1a, n1uJto longe de const1tu1r un1 morno e poeirento
conservator10 de teorias_ mortas e explicações caducas. representa,
pelo contrario, urn capitulo vivo <la lustór1a geral do pensamento
humano: ela descreve, defimt1vamente, a adaptação do espinto às
coisas e a ton1atla de posse pelo hon1cm Jo .seu meio.
, I?ai quc,,.se as ciências da Natureza sofrcran1, nas duas últ1111as
decadas, os e1e1to.s de u1na verdadeira revolução 1deo!óg1ca; se viram
A

d_csabar. _en1 consequenc1a dos progressos súbitos e espantosos da


f,s,ca, toda a construção leónca elaborada ao longo dos séculos XVII
XVlfl e_XIX por gerações de sábios; se. porque o concreto fez reben~
lar 9s hm1tes do abstracto. a tentativa de explicar o mundo pela
n1ecan1ca «racional» ~crm1nou num desaire brutal; se foi preciso
proceder a uma re_v1sao de conJunto de todas as noções científicas
sobre as quais se trnha v1V1do até então; se, enfim. nada do que é
essencial esc~pou a esta rev1são: nem a concepção dO' facto científico,
nem a da le1.; ne1n a da necessídade; ncn1 a <la contingência; nem,

' Sobre tudo isto, para além dos rclatónos das Sema1nes interna/fona!es
de Synthl'se- nomeadan1ente as exposições sobre o tema Sc1ence et Lot (5.~
semana; Pans, Alcan, 1934, in-12)- ver o interessante volu1ne colcctivo inti-
tulado_ A la hanii•re úu ,narx1sn1e U'ans, E.S.L, 1935, 1n-8.") e as minhas
refkxocs sobre esse ass~n~o: H Un débat de méthodc: Techniques, Sc1enccs ct
lv!arx1sn1c)) (Annales d H1sto1re Éconornrque et Socraie, 1935, p. 615-623).

62
no todo, a das própnas ciências e da Ciência ... , da Ciência a cons-
truir o seu objecto com a mtervenção constante e grave dos cien-
tistas - a história não pode abstrair-se de tais transformações. Quer
o queira quer não, está implicada. Refenr-se a toda uma bagagem
de ideias «científicas» velhas de um século e totalmente rejeitadas
hoJe pelos «sábios» de quem ainda há pouco as recebera: obstinan-
do-se a fazê-lo, a história torna-se nsivel. E se é verdade que todas
as ciências são solidárías, torna-se nsivel por nada - por prazer.


* :1:

Ora, que nos ens1nan1 essas c1enc1as solidárias, CUJO exemplo


deve pesar sobre a hístóna? Mmtas coisas, mas especrnJmene isto:
que_qua.lquer-f-.aci.o....clentíLlco L<,inventada» e nãuJlDLdadn...br.u.to
q\J!'__se_.apresenta . .ao._sábw. Que a velha distinção entre observação,
essa fotografia do real, e cxpenmentação, essa mtervenção no real,
é de rever mtciramente. Que em nenhum caso a observação propor-
cwna algo em bruto. ~ t a de construção. Como são constru-
ções as própnas «perspectivas» de que as pessoas entendem servir-se
para esta ou aquela verificação ou demonstração da teoria. Que desde
logo a objecção tantas vezes repisada de que o «o historiador não
tem o direito de escolher os factos» é rncoerente; porque de facto o
cientista, qualquer que seja, escolhe sempre- e, aliás, toda a lus-
tória já ê escolha, devida ao simples acaso, que distru1u aquele teste-
munho, aquele vestígio do passado, aquele conJunto de documentos,
e salvaguardou aquele outro. Enfim, que apegar-se a tantos velhos
pressupostos sobre o vcr<ladc1ro valor do trabalho científico- C c:ur,
dentro da pr6pna lustóna, na crença absurda e ingênua <lc que reunir
factos «para nada», por prazer, esperando a chegada de um espirita
capaz de os dominar, é obra pia; e que, tratando-se das relações da
história e das ciências v1z1nhas com a teona, tão cara outrora aos
sociólogos (e aliás tão propicia às suas ambições), o lustonador é
operãrio votado a tirar da pedreira e a desbastar pedras de cantaria
que o sociólogo-arqu1tecto vmi sozrnho Juntar ...
Há que banir senamente esse ingénuo realismo de um Ranke,
que 1magrna poder conhecer os factos em s1 mesmos, «como se pas-
saram». É através das formas do nosso espírito que nos apercebemos
tanto da «realidade h1stónca» como-da realidade física. E tentemos
substituir a velha clistmção, o esquema traclicional do trabalho his-
tónco - estabelecer os factos, depois prepará-los-. por uma outra.
que tenha em conta não só a técnica de hoJe mas também a prática
de amanhã, tal como jã se anuncia. !-Iistor1adores, não rac1oc1nernos
como lógicos preocupados em se elevarem progressivamente, hierar-
quicamente, do simples ao composto, e em reconstituírem gradual-

63
J:f
: ;_ mente a escada que leva da tarefa mais simples à mais elevada.
A ordem que se impõe aqm é a ordem genética. E deste ponto de
vista, o que importa antes de mais é a existência, a elaboração e a
actualização perpétua de programas de pesqmsa longamente medi-
tados e de vasta en\·~rgaJura \

!' *
*
*
1
En t_iiQ.,_pa_basc, 9a __ VQ.>Sa..Justóna, «teonas»? - A p_aclªyg_njio.
l ~~m_nª_<b:1~q_4..e_____QQ~Sil.. fazci::nJc_r.ccuar. Quem escrevia então, essas
palavras que cu lia não há mmto tempo: «Uma tcona é uma cons-
trução do espinto :;ue, rcspomkndo à no.ssa necessidade natural e
ín1pcnosa de con1prccnúcr, se dcstlna a fornecer-no,,; uma explicação
dos factos. Neste aspecto, e a própria expressão da Ciência ... que não
tem ror último obJectivo a descoberta das leis ... mas a compreensão
elos fenómenos.,, Que metafísico suspeito é este? Um biólogo, An-
thony, citado por outro biólogo, Fraipont' Acabados .. volvidos, os
tempos que Louis Lap1cque' evocava ultimamente a essa excitação
de trapeiro no seu giro que Magendie descrevia: «Passe10-me lá dentro
como um trapeiro, e encontro a cada passo qualquer coisa de rnte-
rcssantc para 1neter na 1111nha alcofa.» «Lú dentro» era o dédalo ele
urn corpo vivo. «Lá dentro», para muitos histonadores, aínda hoje,
é o dédalo de uma História viva ... Mas ás palavras de Magendie,
Lapicque opunha as de Dastre; saibamos retê-las também para nós,
hístonadores: a «Ciência>, cobre-nos: «Quando não se sabe o que se
procura, não se sabe o que se encontra.»
O que é válido para o biólogo, o que é para ele sabedona e
raziio - con10 sena asneira e contra-senso para os historíaúorcs?
Como aceitana lançar-se por mais ten1po à aventura, sem bússola.
isoladamente, e só implorar como deus o Acaso, aquele que trabalha
sobre a mais complexa de todas as matérias, sobre a act1vidade Jus-
tónca dos homens? Amda actualmente, no campo da história, quem
quer que seia instala-se seJa onde for, e scJa com que materiais for,
seja cn1 que direcção for, constrói a seu gosto- co1no mais ou n1enos
gosto- v seu ptdaço de muro. Após o que, a esfregar as mãos:
«Tanta cmsa feita para o Palác10 futuro!>, Não! Nada feito! Quando
se qmser constrmr o palácio, mandar-se-á vir um arqu!tecto, que irá
conceber o plano. E cm pnmeiro lugar mandará lançar por terra
todos os pedaços de parede desarmómcos com que terão obstruído

l Ver mais ac1n1a, De 1892 a 1933: Exame de consciênc1a de uma J11s-


tór1a e de um Justoriador, p~g. 17.
J Ch. Fraipont, Adap1attons et n1utaflons. Pans, Hermann. 1932, rn-8.",
L 'onen/at1on acluelle de la phys1ologie (R. PhilosopJ11que. Í930, n." 9-10)

64
o seu terreno. Comecemos, nós, pelo principio: pelos planos de
arqu1tectos '
Plano de coordenação, essencialmente. E de cooperação. Por
ai regressamos às «investigações colect1vas», que nunca perdemos de
vista. Passaram os tempos do umversalismo. Por toda a parte, em
todos os domimos. Dizem-nos: «Girard foi o último dos naturalistas'
completos.» Dizem-nos: «Sylvain Lévi f01 o último dos mdiamstas
completos.» Seia. Que lição poelemos dai tirar? Que, morto Alexan-
dre, o seu Império se divide? Quero dizer, que virão homens que
serão senhores de a1,enas uma das partes do imenso 1mpéno que um
Sylva1n LCv1 podja ainda possuir e dir1g1r 1ntc1ro'? h-1as stra essa a
Unica conclusão'! Por num, vejo un1a oulra.
f{cstr1ng!_c._9_çr1m.110~cç~.0_.~o-..?i!.R!9_.:-: ~_.aµn1e!!1~r _a <<.~spc.c1a-
lização». ~.se flgg~o. 1~ t.0.n.Úi_-J:.l 1rrc;.D,1e.dí4YG.l.. Então, se se deixasse
õsiicessor de Alexandre reinar sobre todo o 1mpér10, mas nnpondo-
~lhe a colaboração de cinco ou seis hon1ens - un1 general, un1 diplo-
mata, un1 financcíro, um construtor-. cabendo-lhe apenas organizar
a colaboração deles, estabelecer-lhes o trabalho e elefimr-lhes a tarefa'/
fuan1.91L_g__ trans_pos1ção:. se o h_1stor1ado~,-~m _luga_r.__çle_~c~ ..~.6 e!~
a fa?:~r ....Y.!_Sta;.. ~.n1 prifrléifô-lüiiàf:· c·õnSfrUifõs seus· ·pr6P_r1os ute1:1~ílio_s;
eÍn_segµ!!Ja:::faorica e· as suàs .peças; . é-fiiiafoierite.· rc:ii[IÍ~las~- e [!lZª-laS
fut!_Ç_10nar - se contentasse con1 o úlumo _flft.P~l? Se, tendo _cscolhído,
{)õr razões válidas. um assunto de estudos: tendo-o <lclimitndo con1
cuidado; tendo marcado tudo o que antes de mais importava chegar
a estabelecer (porque é preciso renunciar a ideia pueril de que tudo
é igualmente 1ntcrcs'.-:antc para lodos) - organizasse as investigações
de uma equipa composta, digamos (pensando cm certos inquéritos
possivc1s e Jcscjâvcís Ja históna das técnicas), por un1 técnico pro-
prínmc!1tc dito: por 11111 quun1co conhecedor dn h1stóna da sua ciên-
cia~ por un1 cconon11sla de esp1nto cnncrclo: se, rcscrvandu para s1
o papel diJ'ícil entre lodos de cstahckccr os quest10nános prévios; ele
relacionar as respostas fornecidas: de desprender delas os elementos
de solução~ de ordenar os 1nquCr1tos suplcn1entares 1ndispcnsàvcís:
sobretudo, de n1arcar as rclacõcs do problen1a posto com o conjunto
dos problemas históricos do tempo que o formulou; se, tenelo esco-
lhido esta via longa, que afinal parecerá muito mais curta <lo que os
velhos cammhos smuosos de outrora, chegasse enfim a fazer da Jus-
tóna uma «ciência de problemas a pôr», senão a resolver sempre

1
ScJa-n1c pcrn11ti<lo lcmbrur, não sem orgulho, que a Encvclopf:die
Fra11ça1se, tal como a conccb1-Enc1c!opédia de prob!e,nas, e não de rcfe-
rênc,a.1· - representa a maior tentativa até agorn feita en1 algum cais, para
aproxunar uns dos outros e pôr cn1 contacto dirccto con1 o pllblico esclarecido,
não vulgarizadores de talento, n1as os propnos criadores, «inventores)) da
Ciência, cn1 todos os tlonlin1os: os hon1ens que, colocados na ponta cxtrcn1a
da 1nvest1gação matcmát1ca, física, b1olôg:1ca, etc .. t1ran1 as suas ideias, não
de tratados ou de n1anua1s, mas da sua lutn contínua e quorídiana contra
o desconhecido, que cada dia n1orde1n un1 pouco 1na1s .

1 65

t
com certeza e ú pnmcira vez - crero que o seu papel estaria singu-
larmente mais em evidência que o de um vago fabricante de livros
«pe:<soais»; creio que ninguém mais perguntaria a si próprio se a
h1stóna é uma ciência, ou uma arte; creio que. ou nunca maís se
qualifícana de histori.ador aquele sábio autor de sábios livros sobre
Luís xi/ e as rnulherés, O veneno dos BórjJia, ou então o histonador,
deixando a essas excelentes pessoas, com os prém10s académicos por
elas fundados, o própno nome que desacr'editam. mudima de nome
sem hesitação. para não ser por mais tempo a vítima de uma confusão
indelicada e ao firn e ao cabo demasiado :absurda.
Se quisermos acelerar a chegada desses tempos - e tal é neces-
sáno - a pnmcira coisa a fazer é aproveitar o conselho dos outros.
Informar-se das realizações já feitas. Apmar-se nos que, no seu domí-
nio, orga111z.aram «a 1nvcstigação Colect1va» .

66
,(-.
.
j."

j
í
!
Í
, Contra a História Diplomática em Si
i:
f
i HISTóRIA OU POLiTICA?
fi,

11

Duas reflexões: 1930, 1945

A história dipiomática da Europa (1871-19 i4), que um grupo de


qualificados lustoriadores franceses publicou, há já algum tempo, nas
Presses Unrversitaires (1929), sob a direcção de Henn Hauser, não
cai directamente sob a jurisdição de uma Revista como a nossa. No
entanto, não assmalar um tão cómodo instrumento de trabalho, sena
cometer uma forma de injustiça - e, mais a1nda, renunciar a pôr
uma questão que não parecerá. totalmente desprovida de ínteresse.
Tem-se a impressão, ao abrir o livro, que Henri Hauser, autor
judic10so de tantos estudos de lustóna económica, está, pessoalmente,
longe de se esquecer de que uma nova diplomacia substitui progres-
sivamente «a política dos Tribunars e dos Gabmetes», e que teve de
ceder um lugar cada vez maior, quer aos movimentos da opinião
pública, quer aos interesses dos grupos. «Não C preciso mais do que
um conflito opcrúno entre nac..:1ona1s que <lcfcn<lc111 o seu standard
of li/e e a mão-de-obra estrangeira que aceita salários de fome,
escreve, numa vigorosa Introdução, para lançar duas nações uma
contra a outra.» Claro, e que se abram os jornais, que se folheiem
as revistas: tratados de comercio, negociações aduaneiras, empresas
de organização financeira ou de eqmpamento industnal. empréstimos
bancãríos pedidos e concedidos cm contrapartida de vantagens eco-
nómicas ou políticas - é este, apercebemo-nos disso sem dificuldade,
o pão quotidiano de uma diplon1acia que, contra a sua própria von-
tade, tem de sofrer, pela acção do meio, o controlo permanente e
directo de assembleias populares. E evidente que esta mfluência do
económico, relativamente à política, não é de ontem; se há alguém
que saiba quantas guerras antigas foram, se formos ao fundo das
coísas, guerras por causa do sal, por causa das espec1ar1as ou do
arenque, esse alguém é o autor de um excelente livnnho sobre as
Origens históricas dos problernas económlcos actuais. que t1vernos
o prazer de assmalar e louvar quando apareceu. Mas é verdade que,
desde há um bom meio século, esta influência se torna cada vez mais

67
v1sive1; para escolher um ou dois exemplos, entre os 1na1s evidentes,
a compra por Disraeli das acções de Khédive Ismail foi um factor
essencial da política rnglesa no Eg1pto, a partir de J 875: o caminho
de ferro de Hérat esteve quase a desencadear o conflito, mrntas vezes
prognosticado, entre os Russos e os Ingleses; não se concebe bem a
Triplice se niio pensarmos na abertura do Gothard; finalmente, pro-
blemas de m111era1s; de combustíveis, de mercados comerciais e de
crCditos industrial!-; pc.su;am, de certeza. nas determinações dos
homens e dos países que c>ntraram na guerra de 1914.
Ora. estes factos, 1nuno clarar.1ente c1rcunstanc1a1s ou, con10 se
diz algumas vezes:. ,ccvcntu<lIS>~. qualific:idos apenas para rcprcscnt~r,
1· na cxacta proporçao·do seu bnllio. csLa obscura mas constante prcssao
do cconóm1co sobre o polít1co, que ê, entre vúnos outros de rgual
11mnortânc1a, un1 dos factores dcler1n1nantcs do con1portan1cnto dos
Estados uns en1 relação ac.s outros - estes faclos particulares e, em
certa rncdiúa. anedóticos, são ben1 rcalcaJos, na ocasião. pelos redac-
tores da flistOrta diplonzâttca da EuroÍJa, mas ainda com demasiada
reserva e concisão; porên1 preocupam-se muito n1enos com trazer a
luz do dia as forças ocultas, as energias secretas que fazem agir e
n1over as 1nassas hun1anas. Basta-lhes que elas durmam cm secretas
profundidades. São as «camadas subiacentes da história», como
escreve Hauser na sua Introdução. Eles, entnche1rados por detrás de
um pressuposto, o de nunca utili7:1r senão docun1cntos diplomáticos
rropnamcnte ditos - os das com r1la,ões oficiais. azuis, cinzentos,
arnart:h)s ou ven11cll1os: os das grandes colecções nacíona1s, a alemã
e :1 ingle:;;a na falla da francesa, demasiado recente~ além das corres-
pondências e das memónas dos actores e das testemunhas dos acon-
tec1n1entos - preocupam-se apenas com a crosta aparente do seu
globo, da sua esfera político-diplonüitíca ... Dcvcrc1nos censurá-ias,
por isso'! Eles, nJo. Os hon1cns, não. Unia traUição, talvez.

* ,,
Na própna capa dos dois volumes da Hisióna dip/onuillca, lê-se
esta fórmula: 1\fanual de pc/ítica europeia. Dizer que não gosto dela?
iv1a1s vale notar que ela marca, à pr1me1ra v1sta. un1a certa orientação.
que traduz un1a determ1nada concepção, legítima, se se quiser, mas
um ta111u especial. Essa mesma que livros bem conhecidos, recente-
n1cntc publicados sob a rubnca ff.1anuais lustOricos t!e f]Olitica estran-
R<'Ira, representaram cm França, desde 1892, e fizeram tnunfar, pouco
a pouco, no ensino. Fizeran1 1n/elizn1ente tríunfar: escrevo-o tal como
o penso há muito tcn1po, e não porque considere estes manuaís maus
livros tecnicamente falando, mas porque contribuíram, mais que
quaisquer outros. para subst1tu1r nos cérebros Je vãnas gerações de
estudantes (muitos elos quais se tornaram, dep01s, professores), a
nt'ção dcs1ntercssacJa Jc un1a !11stór1a «das relações», pela noção

68
pragmática' de uma «política lustónca», isto é, de uma h1stór1a que
se contenta com compreender e fazer compreender, se possível (diga-
mos, em toda a medida em que não é impossível), os motivos reais,
profundos e múltiplos desses grandes movimentos de massas que tão
; depressa levam as colectívidades nacionais a unir-se e a colaborar
pacificamente, como as lançam umas contra as outras, mcitadas por
paixões violentas e assassinas .
Ora, estes motivos, é evidente que não devemos procurá-los apé~\
nas no humor, na pSicologia e nos eapnchos mdivíduaJs dos «grandes» .
nem no jogo contraditóno de diplomacias nva1s. Há-os geográficos:
J há-os económicos: sociais também e intelectuais, relig10sos e ps1coló-
g1cos; e creio ben1 que, quanto mais mergulharmos no passado - rcfi~
ro-me ao dos Estados europeus n1odernos - mais o 111stor1ador se
sente levado a atribuir 1nfluênc1as aos factores pessoa1s de políticas
que os textos apresentam sempre como conduzidas por soberanos
mais ou menos absolutos, ou por n11n1stros ~unda mais absolutos que
os seus senhores. Creio ben1, tan1bcin1, que existem razões para con-
sagrar ao que se pode denommar técnica diplomática um lugar pro-
porcionado ao seu papeL Creio, enfin1, que não é certamente vão o
labor que conduz, à custa de dificuldades por vezes extremas e de um
esforço critico, sempre árduo, a datar, não pela semana, nem pelo
dia, mas pela hora, por vezes, ou pelo mmuto, negociações diplo-
máticas cuia influência pode ter sido dec1S1va sobre determmado
acontecimento. Percebo tudo isto e, também, o que se poderia res-
ponder usando argumentos. não contrários n1as complementares; e
não deixo de dizer que 111t1tuiar um livro M anuai h,stónco de polínca
estrangeira ou, mais elipticamente, A1anual de política europeia, quer
se queira quer não, é ficar acima da históna viva de Estados «em
carne e osso», de Estados «que informam» países feitos de terras e
il de âguas, de florcslas e de n1onlanhns, n1as tan1bén1 <lc hon1cns que
praticam <letermrnados géneros de vida, habituados a certas formas
de pensar, de sentir, de crer, tudo combmado em proporções tão
variáveis que dai resulta, para cada pais, uma fisíonomia propria-

i
mente mdiv1dual: é fazer pauar acima destas realidades a perpétua-\
abstracção de uma política <<estrangeira». de urna política «externa>>, i
de uma «grande política», se se prefenr (pode-se escolher as fórmulas),
isto C, de urna po1ít1ca <<europeia» que se alimenta, no céu diplomá-

í ' Deveremos dizer, conscientemente pragmática? Cf. :Émile Bourgeois,


tvJanuei histor1que de polillque étrangere, t. I, A vertissement p. 7 (Julho de
1892): «Outrora. quando os povos entregavam os seus desunas nas n1ãos das
famílias soberanas os filhos destas famílias, filhos e filhas, eram levados aos
1 arquivos do Estad~ para ai serem preparados, pelo estudo do direito público
e o conhecimento dos interesses tradíc1ona1s do Estado, para a tarefa que os
esperava. Por toda a parte, ho1e, onde a nação retomou a sua soberania, é a
ela que pertence dar aos seus filhos estas lições.» As mesmas,_ 1nsp1radas
no mesmo espinto, baseadas nas mesmas considerações, denvadas dos mesmos
prtncip1os? É esta a questão; e a obra que citamos resoiveu-n sem a ter posto.
1

l
tico, não de segundas intenções, como a Chimere do bom Rabelais,
mas de caprichos reais, de fumos impenais ou de «grandes desígnios»
m1n1ster1ais .
E se se obJcctar: «Mas, existe realmente muitas vezes esse divór~
c10 que você sublinha entre os mteresses reais das nações e a grande
rolítica dos governantes,,, responderei que então obras que, por defi-
mção, silenciam cste:facto de capital importância, obras que parecem
apresentar sistemas abstractos de diplomacia (elas mesmas conside-
radas como seres abstractos) como traduzindo os sentimentos unâni-
mes. as ideias, as vontades e os interesses dos grupos nacionais em
CUJO nornc esses dir>lomatas falam, escrevem e agem. estas obras .
passam a margem do verdadeiro problema. do úmco problema que
vale a pena ser posto. Isto, para não ter czn conta senão o aspecto
puran1entc c1cntífico <lo debate. Se nos coubesse colocarn10-nos, aqui,
nun1 outro_ ponto de· vista; se nos fosse necessário falar de for1nação
profiss1onal ou de educação civica, c.:on10 certos autores, adivinha-se
facilmente o que tcrlan1os para dizer. Mascarar tais <lívórcios não
é um grave erro, para não empregar paiavras mais sonoras?

*
* *
Concluamos e resumamos numa palavra estas observações. liga-
das livremente a uma obra da qual apreciamos a imparcialidade e a
consciência .
Este ho1110 oeco1101nicus ao qual sorriam compJacentemente tan-
tos economistas bem mtencíonados, f01 quase completamente afastado
do campo dos bons estudos, f01 relegado para as solidões geladas em
que «dommam» as fantasias escolásticas. Quando acabarmos de eli-
minar do n1cszno campo o ho,no cliplon1aucus com as suas delicadezas
protocolares, as íürn1uJas de sauJação sab1arncnte gra<lua<las e a <lctcs-
1
tãvcf barbane que as suas cortesias caricatas n1al disfarçam, não se
terá apenas assegurado, de um ponto de vista puramente científico
(o Un1co que conta aqui para nós, o Unico que <leve contar para os
h1st-onadorcs), o tnunfo da razão esclarccíúa sobre un1a rotína dis-
secante; ter-se-á, por acréscimo; de um ponto de vista 1nte1ramente
pràtico, realizado uma boa acção, quer se trate de preparar para o
seu futuro papel aprendizes de diplomatas ou simplesmente de escla-
recer cídadãcs lívrcs .
Os nossos bisavós conheceram uma política tirada da Sagrada
Escr~tura. I-Iaverà lugar para ensinar aos nossos contemporâneos uma
política tirada da lustóna diplomática, no sentido estnto da palavra?
Veio ai que repetir e que contradizer. O que sei, sem dúvida alguma,
e que esta rnlít1ca e a h1slór1a são duas coisas Jísllntas: a história que
não isola arbnranamcnte dos mtercsses fundamentais dos dingidos, as
vontades ou as veleidades dos dingcntes; a h1stóna que não sabe o
que são nem a diplomacia cm si. nem uma polilica sem ligação com

70

·--·--·--·------------
a economia, nem uma economia que não reflicta, juntamente com
a acção dos factorcs físicos e naturais poderosos, o papel, não menos
ardente, destas forças espmtua1s ou ps1cológ1cas que se vê (ou que
se sente) correr no meio de todas as manifestações de actividade
humana, como o fogo entre as maténas explosivas, «infatigável e
estridente».

II

Quinze anos mais tarde. Aparece un1 livro na pequena colecção


Armand Colin. Titulo: A paz armada (1871-1914). Sinto-me um pouco
en1baraçado para fazer a sua críllca. :É que este livro é un1, livro feito
conscientemente por um bom universitário, habituado a um trabalho
honesto e que se docun1cntou nas n1clhores fontes.
No entanto, ele põe um problema de uma tal gravidade que é
necessário exammá-lo sem ideias preconcebidas.
Não nos detenhamos no título. «Paz armada», é um sistema, no
sentido estnto e restnto das palavras, que podena merecer um estudo.
Não se trata aqui deste estudo, mas de um resumo preciso de toda
a históna das relações diplomáticas que abrangem o período de 1871-
-1914; o que se chama, geralmente, o «período da paz armada». O que
não quer dizer grande c01sa, confessemo-lo. Porque a paz de depois
de 1920 não foi menos «armada» que a paz anterior a 1920. E não
me parece que a paz de depois de 1946 scia muito «desarmada».
O importante, é que este livro claro, munido, à moda escolar, dos seus
títulos, sub-títulos, parágrafos e alíneas, este livro situa-se, com dema-
siada exactídão, nos antípodas do que. ·para nós Annales. co11st1tu1 o
bon1 livro de h1stór1a cunternporânea.

*
* *
. Geografia, nada. Não nos parece que o autor tenha sido influen-
ciado, por pouco que seia. nem pelos trabalhos da escola geográfica
francesa, nem pelos trabalhos dos geopolíticos alemães. E. todavia, é
de preservar a sua V!ftude, quando nos encontramos em contacto com
essas sereias germârucas; aliás, nem sempre há nisso crrande ménto:
ainda. é preciso saber que elas existem quando se publica, em 1945,
um livro, termmado em 1940, sobre estes problemas de «relações
interna.c1onais» que, evidentemente, não se desenrolam fora do espaço.
O sentido geográfico de que Jacques Ancel dava testemunho no seu
trabalho e pelo qual tentava renovar a históna das relações diplo-
máticas - é necessário constatar que ele permanece totalmente estra-
eho ao nosso autor.

71

-~-----------
Economia, nada. Oh. claro, uma palavra aqui outra ali, uma
paiavra acessória: a economia a reboque ... - não serã, então, pelos
interesses económicos que, cada vez mais, o mundo toma partido.
que as potências fazem e, seu Jogo?
«Qual é o suie1to?», perguntam os gramáticos quando mandam
os pnnc1p1antes explicar uma frase de César. A. Roubaud e com ele
todos os que conservam esta velha e nefasta «história diplomática»
responden1: <<a diplom;:1c1a». Mas não! A diplon1ac1a não e o sujeito.
E os diplomatas não são os atributos do suie1to. O su1e1to é o Mundo
de 1871 a 191'1.
O Mundo. Não digo a Europa. O Mundo, as suas descobertas, as
suas v1tónas, as suas -paixões. Porque, durante os anos de que nos
enumeram os conflitos diplomáticos, o Mundo fez-se. Quero dizer
que um certo regime de v1da, atê então localizado em alguns paises
e neles confinado a certas regiões, a certos meios- un1 determinado
regime ·de vida, de repente, universalizou-se, todos os homens de
todos os paises passaram a usar todos os produtos hun1anos, quer
rntelcctuais. quer maternus: o fim defimu-se. Desprendido. Tende-se
para isso. E isto 11nplica permuta, permuta, mais permuta ...
Portanto o Mundo. As suas paixões. Os seus apclltes. As suas
astúcias. A diplomacia nes..l.ie contexto? Um meio entre outros, um
dos n1c1os que emprega este Mundo selvagem, desregrado, vcen1ente,
apaixonado, atravessado por forças tão grandes que correm o risco
de escapar, a cada instante, das n1ãos dos que as 1nan1pu1am com
prudência; um dos meios empregado por este Mundo. cujos grandes
motores se chan1am os cap1ta1s, o credito, a indústria, os organismos
de venda e de troca, para sac1ar as suas paixões, satisfazer os seus
apetites, manifestar as suas astúcias. Um dos meios. Existem outros:
a força aberta e brutal dos exérc!lus, a força dissimulada e corrosiva
da corrupçílo e da propaganda.
Fechar os olhos a tudo isto~ anunc1arn10-nos tranquilamente que
«as razões complexas dos acontec1mentos e, em particular, os motivos
que dirigiram os governantes permanecerem envolvidos cm obscun-
daues que, às vezes, não se chegarão a dissipar»; Jupnotizar-se e que-
rer hipnotizar o leitor acerca dos «motivos dos governantes». que não

:j
são mais que anedota; agir como se as verdadeíras causas, as pro-
fundas, as causas mundiais, nào estíveslicm lá, ofuscantes e certas
- isto é, as grandes revoluções da técmca industrial, filhas, elas pró-
prias. das grandes revoluções da técnica científica e geradoras das
!
grandes revoluções da economia mundial-. é teimar num propósito.
'
:.'i
"i Um mau propos1to.
Quando o nosso autor, ao tomar a defesa da diplomacia secreta,
evoca com ternura esses técnicos dotados com o sentido das realida-
'
1 des que trabalham sob o controlo de mrn1stros responsáveis, «ao
abngo das paixões e das utopias», pensamos sonhar. «Ao abrigo das
paixões e das utopias?» Cabe-lhe a s,, Laval, a você X, Y, Z (não
c1tcmcs nomes tnstes), «sob cujo controlo» imparcial, o controlo

72

J
«defectivo», o controlo dcsrnteressado, esses delic1osos técmcos traba-
lharam tão bem ... Nós, nós não vamos continuar. Este pequeno Jogo
pacífico antenor a 1940, este pequeno Jogo que nos levou, a nós, aos
nossos diplomatas e à nossa diplomacia, onde nos levou- este pequeno
jogo durou, na realidade, bastante. Antes de 1940, poderíamos dizer,
encolhendo os ombros; falta contra o espinto. Depois de 1940, deve-·
mos dizer: falta contra a França. Gritaremos tão alto, tão forte,
quando for necessáno. E repeliremos, sem cessar, a frase de Marc
Bloch: A derrota da França /01, antes de mais, uma derrota da inteli-
gência e do carácter.

*
* *
Depois de 1850, a França, que donunava, dingra, onentava as
1 revoluções no mundo- a França cedeu o lugar, sem dar por isso (ou
! apercebendo-se disso e glorificando-se por esse motivo). E que a revo-
lução material nasceu e os Franceses. entrincheirando-se _por_ <letras
da sua velha filosofia da moderação. da sabedona, da prudencrn, con-
tinuaram a fazer política, nada mais que política, sempre política.
«Abaixo a !vlonarquia. viva a República! Abaixo a República, viva
o Impéno! Abaixo o Impéno, viva a República! Abaixo a República,
viva o Rei!» - fosse este rei um marechal. Resumo um tanto sumáno,
mas exacto, da história das ideias e das preocupações francesas dep01s
de 1848. Ideias e preocupações quase unâmmes .
No entanto. por grandes vagas sucessiv_as e cada vez mais furio-
sas. a civilização mecâmca inundava o mundo. Que fazer? Saltar para
a sua ba:-ca, emi}unhar os ren1cs co1n n1ão viril, tomar a chefia do
rnov1'n1cnto. PclO n1cr!Os, a chefia espiritual. Procurou-se a França.
Acabou-se por encontra-la. a valcnll..: p:.:qucn_a França, tão sc:nsata,
tão razoável tão modesta nos seus velhos hábitos de outrora, sentada
no iardím dà sua encantadora velha casa de família e com os dedos
nos ouvidos para não ouvir nada, lendo e relendo os seus velhos clás-
sicos. Os mestres da Moderação francesa.

! Da Moderação ou da Mediocridade?
Sim, é impressionante. É mortal. A França escolheu. Escolheu
a catástrofe. E esta escolha. n1nguén1 a compreende. Procura-se a
França onde ela devia estar. Não se encontra. Ela brinca com as
velhas bonecas da avozmha. Sensatamente. Santamente. Estupida-
f mente.
Pc.1s bem! é necessáno que isto termine. 'É necessáno que os
Franceses - e, antes de mais, aqueles que doutnnam os outros -
t olhem as coisas de frente. Quem conduz, pois, o Mundo? Os diplo-
matas? Os políticos? Ou antes estas duas elites que nos apresenta,
em acção, o Sr. Chappey, no seu recente livro: aqui, os técmcos do
espírito, literatos, artistas, moralistas; além. os técmcos da maténa.

73
1
J ..
fabncantes e negociantes: aliados. apesar dos motejos que podem lan-
çar uns aos outros, ~s vezes, parn. se divertirem - aliados, unidos para
governar o mundo há décadas?

*
* *
«Os partidános do matenalismo histónco procuram sempre au-
1ncntar a parte dos factorcs económicos nos conflitos internacionais,
cm dclnmcnto dos factorcs políucos e morais», escreve, habilmente,
A. Roubaud, na página 212 do seu livro. Oh! céus, que vem fazer
aqui o «matenalisn10 lustórico»? E que significa este equilíbrio ingé~
nuo: «Sem dúvida ... Mas, enfim»? O Mundo é o Mundo. Digam-nos:
antes da guerra de 1914, não era de modo algum o que se tornou
de 1920 a 1940. Mas já não era. de 1871 a 1914, o que fora de 1848
a l 870. Porquê? Por razões políticas? ou morais? De modo nenhum!
11 Por razões económicas. Isto salta à vista.
. E repilo: dizê-lo em 1945, não é servir a mteligênc1a e a lustória.
E, para um r.:-rancês, servir a França.
/
!

74
Pela Síntese contra a História-Quadro

UMA IDS'MRIA DA RúSSIA MODERNA

Em primeiro lugar a política?

Num breve PrefácIO, Ch. Sc1gnobos apresenta ao público francês


uma História da Rússia em três grandes volumes'. CUJO pro1eclo con-
cebeu e cuia execução ding1u com Ch. Eisenmann, e em primeiro
lugar com Paul Milioukov, h1stonador mUito conhecido da civiliza-
ção e do pensamento histórico russo: obra colect1va de homens habi-
tuados à prática do trabalho histónco e numa situação mais ou
menos delicada relattvamente ao actual regime da sua pátna, que
quiseram fazer os leitores franceses beneficiar de um saber e de uma
competência mcontestáveis .
:É preciso aplaudir a 1mciat1va tomada pelos directores. Como
HistOr!a da Rússia não -tínhan1os em França senão o manual de
A. Rambaud. que foi novo no seu tempo: rnútil dizer que hoje está
datado. É portanto com muita esperança que nos prec1pltamos sobre
os três grandes volun1cs que a Lihra1nc Lcroux fez sucedcren1-s~ rnrn-
damentc. Dcp01s ... Não qucrn dizer que fiquemos desiludidos. E uma
palavra mmlo forte. Mas depressa se torna evidente ao leitor que essa
grande tentativa não vai prestar, longe disso, os serviços que se espe-
rava. De tal maneira que, por vezes, nos sentimos tentados a crer
que os tlpógraJos se cnganaran1 ao 1mpnn11r 1932 na capa: por ins-
tinto, dir-se-ia 1902. Porquê?
Em primeiro lugar, a Históna da Rús.na propriamente dita
começa na págma 81 com o artigo de Miakotme que introduz na
históna da Europa Onental, por volta do século VII, as tribos eslavas .
Página 81, o século VII: na págma 150, já Ivan, o Terrível (1533-
-1584); na págma 267, Pedro o Grande! Recapitulemos: uma h1slóna
de 1416 págmas, cm três volumes: 200 páginas para dez séculos (VII-

1
Paris, Ernest Leroux, 1932, 3 volumes 1n-8." de XX-43_8, 439-828,
829-1416 páginas. O título anuncia: Histoire de ia Russ1e, des orrg!ncs a 1918.
Na realidade, todo o periodo contemporàneo, apos a morte de Alexandre II,
é resumido em algumas páginas .

75
-XVII) contra 1140 para dms séculos e meio (1682-1932),,. Assim,
quando se lê na pàgrna XI a frasezrnha de Ch. Se1gnobos assegurando
com sererndade «que se manteve um equilíbrio Judicioso tanto entre
os períodos sucessivos como entre as matérias de diferente natureza»,
é escusado sabermos que o prefaciador cultiva voluntariamente a uo-
ma, pois nem por isso deixamos de esfregar os olhos.
E o p10r, é que Ch. Se1gnobos Justifica! Porque se nos tivessem
diw: «Desculpem! os tempos são duros; os editores .são terríveis;
metcran1 na cabeça que a lustóna do mundo (a que recompensa)
ccn1e~·a c111 1900: que qucren1 razer conlra isso?»: ou ainda: «Não
1emos colaboradores para esses períodos, que requerem verdadelfos
especialistas; desculpem ... » - ter-nos-íamos queixado, porque assim
nos privavan1 daquilo com que mais conlúvamos. Daquilo de que
tc111os urna ncccss1dadc cvíc.Jcntc. 1 Mas cnfin1, ter-nos-íamos curvado:
moiivo <le força n1a1or! Nada disso! Ch. Se1gnobos en1penha-se em
defender a sua causa. Não se vos diz nada, explica ele categonca-
mente, porque não hfi nada a dizer, em primeiro lugar por «falta de
docun1entos» e cn1 segundo lugar por «falta de acontcc1mentos1> ...
Ah! isso só não basta: e se é um sistema. deixem-me dizer: é detestável.
«Não há acontec1mcntos». Então convida-nos a identificar, de
muita boa fé, <d11stôr!a>> e <<acontecimentos»? E. maJestosamente
sentado nessa unen~:a balbúrdia de papéis feitos de serradura, azuJados
(que ao fim de dez anos se tornam brancos) com anilina, a que chama
os seus «documentos». proclama: «A lmtóna de dez séculos é inco-
gnoscível?» Perdão! É ludo o que há de mais cognoscivel. Todos os
que dela se ocupam o sabem, todos os que se esforçam não pnr trans-
crever do cJocun1cnto n1as por rccons~1tu1r o passadc cem todo um
jogo de disciplinas con\'ergcntes que se apo1an1. escoram e =:ubstitucm
un1as às outras: e o dever do historiador, e precisamente aJudar o seu
esforço. descrevê-lo, promovê-lo o n1a1s r,nssivcl, não é Justificar urna
preguiça real e un1a 1an1cntúvcI vista curta, proclan1ando, da r,onta
dos láb10s desdenhosos: «Nada a fazer. .. »
Isto no que respeita ao equiHbrio entre os period0.s. :rvras o dosea-
mento das «matCrias», con10 se diz cm farmacologia? 'É prccíso con-
fcss:ir que não é n1n1s feliz. Pclílica cin 11r1n1c1ro lugar! Só un1 T\1aurras
o diz ... Os nossos h1stor1adorcs vão n1ais além: aplica1n-no. E ê mesmo
um sistema. É mesmo. talvez, um contra-sistema? Mais uma vez.
Ch. Se1gnobos entoa o hmo cm honra da h1stóna-quadro- que é a
ll!Stóna-compêndio. Aqui está um homem que os anos não gastaram 1
Os autores. explica-nos o Prefácio (p. X). «pretenderam apresentar
um quadro lustónco de lodos os aspectos da vida russa: regime polí-
tico rnlerno e politica exterior; movimento da população e orgamza-

1
Reabramos a pequena obra-pnn1a de I-fenn_ Pirenne sobre as cidades
na Idade Média, e encontraremos, na simples leitura das páginas, alguns
exemplos de con10 pode servir a h1stóna da Rússia para a compreensão da
h1slóna europeia medieval.

76
)
ij
,,1 ção da sociedade; agncultura, mdústna e comércio; letras e artes,
t ciências e ensino». E, mais longe, este programa: «Apresentfl! separa-
1 damente e sucessivamente os arupos de factos de naturezas diferentes,

ii
política, sociaí. económica, mtelectual.» É o que eu, tenho o costume
de chamar «o sistema da cómoda», a boa velha comoda de mogno,
glória dos larzmhos , burgueses. Tão bem arrumada . e em tão, boa
ordem! Gaveta de cima, a política: «a nac10nal» à d1re1ta, «a mte'.-
nacional» à esquerda, nada de confusão. Segunda gaveta: can~o d1-
1 re1to, «o movimento da população>>~ canto esquerdo, «organ1zaçao da
! sociedade». (Por quem? pelo poder político, 1magmo, que d'!_mma,
'1 regula e governa tudo do alto da gaveta, n.' l.) É uma _::on;0epçao; tal
i como pôr <<a econonua» depois da <<Sociedade>>~. mas nao e nova .. Eu
P~ºJ·
era un1 rapazinho que antlava à procura d.e si_ propr1.o, n1ell;,<:_r o_u
i quando apareceu na Históna de França dita de Lav1ssc; o :"ecu/o Ã: I
1 de Henri Lemonmer. Amda me lembro da mmha cand1da emoçao
(eu tinha vmle anos!) quando descobri com horror que o autor, com
santa s1mplic1dadc, tratava das «classes» da sociedade antes de nos
1 falar da vída económica ... Depois disso, trinta e cinco anos pas~aran1~
e medimos o progresso ao ver que, dcpms de ter encaixado,_ tnunfal-
!' mente, a organização da sociedade na segunda ~av~ta, a f!_1stor1a da
Rússia arruma na terceira ... os fenómenos econom1cos? Nao, mas as
1 três velhas cm pessoa, as três 1rmãs-dc-le1te, se pr:fcnrem: a Agn-
11
cultura, a Indústna e o Comérc10, a que se scgu1rao as Letras e as
Artes. Oh! comic10 agrícola de Yonville! Só que, em Yonv1lle, o
Comercio vinha a cabeça; na flis1ória da Rússta, põem-no-lo no flm.
Não ê natural, no caso de um pais onde, unagíno cu. deve ter-se tra-
tado em primeiro lugar Je ... vender, tanto localmente como no estran-
1! geiro, os produtos de uma agricultura cedo a trabalhar_para a expor-
tação, e de unia indústria a seguir-lhe as pisadas? H1stór1a-quadro,
são golpe~ dos teus ...
De facto. não ten1os un1a flistór1a da Rússia. Temos un1 lvlanual
\ ,de históna polit1ca da Rússia, de !68Z a 1932, encabeçada por uma
Introdução de algumas 200 piigmas, que comporta_ um Ruc_kbhck

l
'
sobre a Rüss1a con1 Pedro o Gr311e.lc. Dentro destes hn1~tes ~sta,. tudo
ben1. E dcvi;1nos n1ostrar-nos contentes com o que nos e dado. E evi-
dente que, no quadro tradicional dos reinados, os colaboradores de
l[ Paul Milioukov e o próprio Milioukov souberam compor uma nar-
rativa muito precisa e sufic1enlemente alin1entada pelos «acontecimen-
tos» da h1stóna russa - acoi1tec1mcntos políticos. con1_ 1ncu~sõe~ ma.is
ou menos breves nos acontec1-n1entos econômicos, soc1a1s, hterar1os e
1 artísticos, na medida em que eles são comandados pela acção política
dos 2:overnos. Mas... .

l!
'
-Jlrlas ai está: têm diante de vocês a Russia. Eu não a con11eço
de vzsu, como dizia o outro. nunca a estudei especialmente; no
entanto. tenho a ideia de que a Rússia, a ímensa Russ1a hga~a a
terra e camr,onesa. feudal e ortodoxa. tradicional ~ revoluc1onana,
é bastante poderosa? - Ora, abro a História da -Russta: czares gro-

77
\
J'
. 1.'1.."'::..:u..~0-
l;'x,~, \-.._ :,.;1:,f,,:,, ,/,-.. ~ · '•: • .\' ....-, ír:h!,,'\!f:ts \'Ít' ;\.~\::\-;,,: ~.".::".".:-.:r. "'S
!l;lfh\.'-: flt1r\,·r.1r;1s-r:1~~1r ..~J:1:.; uk:1.:c.':'.- c prik;lZc.\S .:J. dis('nÇ'jL>. }.fas a
riJa forte, ong1na1 e pri.Jfunda daquele pais: a \'Ida da floresta ~ da
estepe, o fluxo e refluxo das populações móveis, a grande mare de
nt,11,1 11·rf'g1d!lr q110: rf'l•t'11f:1 1~1r ::1111:1 d~) llr:11 ~lté ao Extremo
ur1t:1Ht:; e a v1Ua. púth.:rosa Uo:. rios, os :pescadores, os seus ínstruw
mentas, a sua técm~a, a rotação das culturas, o apascentamento.;
a exploração florestal e o papel da floresta na vida russa; o fun-
cionamento do grande domínio; a fortuna da nobreza em terras e
o seu n1odo de vida;: o nascímentu das cidades, a sua origem, o seu
desenvo1v1mento. as suas instítuíçõcs, os seus caracteres; as grandes
feiras russas: a lenta constituição do que chamamos uma burgue-
sia - mas houve alguma vez uma burguesia na Rússia?-, a tomada
de consciência por toda esta gente de uma Rússia evocando neles
que representações precisas, e de que ordem? étníca? territorial?
política?: o papel da fé ortodoxa na vida colectiva russa e, se ai
couber (se não couber, digam-no), na formação índiv1dual das cons-
ciências; as questões linguistícas: as oposições regionais e os seus
1 pnncip10s- que mais sei eu? Sobre tudo isso, que surge diante de
mim sob a forma de pontos de rnterrogação, sobre tudo isso que
é para mim a própna hístóna da Rússia: quase nada, nessas 1400
1 pàgmas. Serei um anormal, um fenómeno de feira, um monstro?
Mas a Senhora Krudner e as suas relações com Alexandre, e essa
czarina que era filha de u1n taberneiro. e a outra que gostava de
homens bomtos, e toda essa miscelânea anedótica: não, a históna
não ê ISSO.
A Históna é o que não encontro nesta História da Rússia, que
por isso nasce morta.
E, deveremos dizê-lo, se bem que scia delicado? Talvez insufi-
cientes aberturas sobre o presente e o futuro russos.
Um breve capítulo expõe o que se passou na U.R.S.S. depois
de Outubro-Novembro de 1917. Esforço de obJectív1dade certo. Acres-
cento: rnentóno, pois estas páginas são assinadas por Milioukov. Mas,
dever-se-ia pedir precisamente a ele estas páginas, a Milioukov, que
f01 autor na tragédia? Tratava-se de quê? De fazer compreender.
Nem mais nem menos. Ora, não há compreensão verdadeira, apesar
de todos os esforços, onde há marca necessána e fatal de simpatia .
Se quisermos saber o que verdadeiramente anima os homens que
desde há dezasseis anos têm a rude incumbência de pilotar a barca
da UR.S.S. sobre vagas terrivelmente agitadas - os homens que
bordeJam, tropeçam, hesitam, se ferem e por vezes se destroem entre
s1, mas resistem, e apesar de .tudo amassam com uma bela força a
massa humana- perguntá-lo-emos a dez observadores franceses,
ingleses. americanos ou outros, que víram e fazem ver, e aliás se con-
tradizem (felizmente!) em mmtos pontos, mas estão de acordo nou-
tros - e deixam todos uma impressão de. vida, de força, de acção

78
tensa e de vontade criadora que, é preciso dizê-lo, satisfaz o espJnto:
porque enfim, explicar a históna pelo nada, é uma aposta? Nao se
perguntará nada disto à História da Rússia- tudo isto que., mais
uma vez, para mim se chama h1stóna - não se lhe pedirá, mais uma
vez, senão um resumo de acontecimentos políticos, vistos por um dos
1 seus aclares.

1
1
1
l
'f
r
!

1
tl
'

''
!.;
'

!
l
1!
j

79
1
l
,-.,-
ContTa o torneio vão das Ideias

U!II ESTUDO SOBRE O ESPIRITO POLíTICO


DA REFORMA

Um livro espesso. publicado recentemente por Picard, foi-me


enviado com o pedido de dar conta dele nesta Revista. ' Eis-me muito
embaraçado. Porque é obra de um espinto cunoso, deseioso de com-
preender e a quem a 111su...,r1:1 <las ideias 1nlcressa por si mesma. Tes-
temunha, aliás, um trabalho mconsiderável, leituras sérias e longas.
reflexões prolongadas. Mas, na realidade, sou o menos indicado pos-
sível para falar dele aqu1.
Lagarde mandou 1m11nmir urµ volume de 486 págmas. É mmto,
parece. lmagme-se, no entanto, o que pretende abarcar? Eis a Intro-
dução: trata «do pcnsan1ento político na Idade ivlédia»; não e um
tema pequeno. Eis o capítulo l: «O pc-nto de vista político da Re-
forma», e Lagarde vâ de passar cn1 revista, recapttufando, um após
outro, o pensamento político de Lutero, de Zuinglio, de Calvmo, o
i
dos camponeses da Alcmanlrn, revoltados cm l 525 (chama-lhes, não 1
sei porquê, os Rustauds, do nome que lhes deram na Lorena); não
esquece o pensamento político dos anabapt1stas. nem o dos monarcó-
macos: maténa para provocar, com razão. calafrios. - Depois do que
ataca a teona do Direito dos reformistas; a sua concepção do Estado;
a sua noção úe Soberania. Procura, en1 scguída, <lelermínar o lugar
que ocupam as ideias individualistas na filosofia e na ecles1o!ogía dos
reformadores. E eis de novo o desfile de alguns pequenos problemas: i
o livre exame: liberdade cristã; sacerdócio universal. .. Con1preende-se
o sentimento de mal-estar que cxpenmento ao fechar este livro?
O assunto e daqueles que. segundo os gostos e os talentos. se trata
em duzentas pãg1nas, scn1 notas. quando se rcflect1u sobre ele vinte
anos. Ou em seis volumes de qumhentas páginas, quando se lhe dedi-
l
cou a vida. i
1
1
Ge1.."'í,?t!S dt! L2',t1.n:~. P.c·ch<!rch"''J s::r f'~f::r:; _c,.'li.:!0'..1!! .;!.e !a Rr?fr;rme, \
'::-·.:_ ~·::-. -· -·--
80
l
1í Não é apenas porque sobre tantas questões, cada uma das quais
H é suficiente, pela sua amplidão, para assustar um historiador, Lagarde,
[ apesar de toda a sua boa vontade, não nos pode dar senão considera-
r., ções superficiais. Trata-se, para mim, de uma questão de método .
!t
Este livro -fundamenta-se num certo número de livros. Escolhidos,
naturalmente. e com muita consciência apesar disso, arbitraria-
[ mente - sobre os quilómetros de prateleiras destas bibliotecas formi-
dáveis: a luterana, a zu1ngliana, a calvinista, para não falar das res-
tantes. Tendo lido estes livros, Lagarde aplicou-lhe os recursos de
1 uma mteligência clara, lúcida, leal. Como ele própno o diz. numa
! fórmula rnuíto clara: <<Ao agrupar os mater1a1s antigos. tentei com-
preender.» É ai que está a dificuldade.
Compreender? Podcn1os con1preendcr extraindo directainente
dos livros as ideias políticas dos rcforn1adorcs, con1parando-as, obser-
vando-as, observando as suas con1binaçõcs possivers, as suas contra-
dições subtis, as suas consequências prováveis. Mas não é isso que
um h1stonador chama compreender. Para ele, compreender não é cla-
rificar, simplificar, reduzir a um esquema lógico perfeitamente claro:
traçar um desenho elegante e abstracto. Compreender, é complicar.
É ennquecer em profundidade. É ampliar gradualmente. É umr à vida.
Circunscrever com un1 golpe de b1stur1 bem afiado o compart1-
mento das «ideias políticas» no cérebro de Lutero (mas Lutero é
, apenas um cérebro?), no de Zuinglio, no de Calvmo (e a mesma ques-
j tão, preJudicial, põe-se aqm também); retmi-lo, em seguida, separan-
!! do-o de tudo quanto o rodeava, de tudo quanto o enquadrava, cor-
tando as arténas e os nervos que lhe davan1 a ·vida - e, depois,
descrever esta cmsa morta como se não se lhe tivesse retirado a vida:
i. nunca um histonador poderá adenr a semelhante método. Ainda
que, desde hã anos, ele seja aplicado con1 o maior sucesso acadénlico,
1 por hon1cns que são considerados (e que se consHJcran1) n1cstrcs. ivlas
'!: ao ler os seus escntos - aqueles em que se msp1rou Lagarde- sen-
te-se precisamente um mal-estar que vos confirma a ideia de que se
',. é «historiador» ... Vê-se, agora, a razão do meu embaraço em dar
l contas do livro de Lagarde.
Abra-se na pnme,ra págma. Contém o resumo da Introdução.
~ E .este resumo con1eça assim: «As três origens do pensan1ento político
i da Idade Média: a filosofia escolásl!ca e a teologia; o Direito romano
!.,'. e os legistas; os Canonistas». Pois quê! São estas as origens do rensa-
. menta polít1co da Idade Média. as úmcas, e não existem outras? Este
" pensamento não se alimentava senão de livros, ou sobretudo de ma-
l nuscntos, de tradições livrescas e de especulações doutrinais? Os
· homens deste tempo, entaipados em bibliotecas hermel!camente fecha-
i das aos barulhos do exterior, não se inspiravam senão nestas «tradi-
1 ções», o ensino dos Junsconsultos romanos e a tradição patrisllca?
1 Compreendo que Lagarde acrescente: «Colaboração das ideias e dos
\. factos.» Compreendo que ele mdique. na pàgma 13, que, «mais mnda
do que nas umversidades, era nos campos de batalha- e nas chancela-

81
nas que n n. :J1asc1n1cnto do Estado se Linha produz.ido». Mas existe
1na1s aigun1a cuisa que os campos de batalha e as chancelarias e que é
i
preciso ter em conta - se se quer «con1prccnder».
E, de modo semelha11Lc: Lutero, Zuínglio. Calvino. os anabapt1s-
tas, os camponeses,. os· monarcón1acos. todos. sin1u1taneamente, todos
no mesmo saco, se ouso dizê-lo, serão todos representantes desta
abstraccção personificada, a Refonna'? Quando le10 o pequeno
resumo de hislóna das págrnas 114-l !5: «o mundo refomiado», des-
locado e desprovido de oncnlação cm 1530, porque Lutero está absor-
vido con1 a organização da IgrcJa de Saxe, Zuinglio derrotado em 1
Cappcl, Es[rasburgo ocupada pelos doutores <livergcntcs; e depois, 1
bruscan1cntc. quando <<a Rcrorn1a se esboroava». Calvino surge: «Com v
Calvino 1n1c1a-sc unia nova fase da sua história ... A Rcfor111a retoma-se f
e organ1za-sc ú Yülta úc unia <loulnna mais 1ntcJcclual. Definha, mas f
fortifica-se outro tanto. Rompe coni o espírito do luteranismo inde-
ciso e difuso», etc. -Tenho mcUo de jc·t njo co1nprccn<lcr. O quê?
Calvino foi. por conscgu1ntc, o coveiro <lo 1utcran1sn10: roí ele, «com
!
!
a sua mão latma», que sepultou o bebedor de cerveJa de Wittemberg? l
Mas que imaginação! \/is1vc!n1ente, Lag~{rde não se preocupa, no seu (
1
lívro, com procurar as origens profundas, todavia singularmente
hctcro~Cncas. Ja Refon11a francesa, da Reforma afcn1ã. da Reforma ·,
de ·zunquc - rara P111n1 -~.:lr d:.::::c,nunaç·õcs étnicas que não salls- 1
ª
razern rnais QUl' n:-. dcnnnunaçõcs de pessoas. Não acredito que o
nome de Lcfévre d'Etaplcs scJa citado cm todo o seu livro. A Re{Órma, f
para o autor. parece ser unia 111\·c1H!·ão úe Lutero. do alcn1ão Lulcro,
que cau!;ou adn11ração ao suíço Zuinglio; quando acuntecerarn a estes
dois protagonistas desgraças que anieaçavan1 n Reforma de divisão,
n singular._ a ün1ca - aparece·u. então, João Calvino. que a salvou
tcmporanamcntc. lat1n1zando-a. Eis nn verdade, c111 19:26. u1na estra-
nha concepção! On<lc cst:'t pois, cn1 todo este livro, a preocupação '
com os meios tão diferentes. cni que raUicavam hon1ens, eies mesmos ~
tambéni diferentes pelo seu nasc1mcnlo, pela sua or1gc1n socíal, pela
sua forn1ação, pela sua nac1onali<ladc, relas cxpcríêne1as v1v1<las, pela
própria époea, con10 un1 Lutero, un1 Zuinglio, um C'alv1no? E con10
«cc1nprecndcr» estes h<,n1cns se os isolarmos. Jcstc n1odo, de tudo o
que os explica -de tudo quanto nos dú conta, ao n1csmo tcn1po, das t
suas semelhanças profundas e das suas diferenças radicais? ~
Co111cnta11Jo nunia nota (p. l 14) uni texto n1uito conheci<lo de f
F·lonniond de Racn1on<l, Lagarde diz-nos que <<Estrasburgo era o rcfú- f
g10 de iodas os adeptos franceses do lutcrani'sn10». Son1os nós que ,,
suh!inhnmos esta fónnufa curiosa. Não nos espanta encontrà-la em
.Tosse Clichiouc ou no nosso mestre Bcda: traia-se de um combate
leal. Mas aqui, neste livro? Todos os adeptos ... é mmto. Ou muito
i•

rouco. Porque, afina!. quais fora111 os refugiados franceses de EstrasR


burgo. os que contam? Lefévre d' Étanles; Gérard Roussel; Guillaume
Farel; João Calnno. A qual destes quatro homens, tão diferentes de
resto, se nrlicana co:rectan1ente a fórmula de Lagarde: «Adeptos fran-
l
1

_J!
i ceses do lutensmo?» -Compreendemos agora, imagmo, a natureza
das reservas, de qualquer forma prcJuJic1ms, que nos mspira o livro
de Lagarde. Reservas de método e, se se qmser, de pnncip10. Re:;ervas
de instinto para um historiador aplicado a cultivar cn1 si o gosto e o
sentido das diferenças específicas- tão fecundas.
Dir-me-ão que me alongue, demasiado sobre um livro CUJn con-
cepção, mais que a execução, levanta críticas - mas crílícas qu0 não
se dingem especialmente ao leitor. É possiveL Mas existe tanto ardor
e boa vontade neste espesso volume, que nos irnlamos por ver des-
1, perdiçar forças que, concentradas sobre um obJecto bem delinutado,
1 escolhido sem excesso de ambição nem de timidez, teria podido pro-
v_· duzír excelentes efeitos .
f Quanto a discutir as teses do autor. acabo de <lízcr, prcc1san1ente,
f- porque não n1e s1nlo inclinado a fazê-lo. Não sou controversista .
Esforço-me por ser h1stor1a<lor. Não 1ncr1m1no as intenções de La-
!
!
. garde, mas, mais uma vez, o seu n1êtodo. Pela minha parle, h~i tnnta
anos que estudo, con1 paixão, o sCculo XVI. Todos os assuntos. tão
l numerosos, tão grandes, tão prodigiosan1ente varíados. que Lagarde
( aborda sucessívan1ente, con1 un1a beia intrepidez, apressado, a correr
1
de Gerson a Grot1us, seguindo as pisadas de Figg1s - mas não sou
,· de ideias curtas. É tão fácil, relativamente, ter ideias. Mas estarei
1
ª certo de «con1precnder»? Não alin1ento uma ilusão tão grosseira.
Ideias que não passam de ideias - pode ser agradável fazê-las
f colidir com as de um elegante parceiro quando nos sentimos com
veia para discutir; iludir-se a si rróprío. eis o verdadeiro perigo -
mesmo quando as apoiamos, segundo receitas conhecidas e de perR
curso fácil de seguir, sobre algumas destas citações que não dizem
nada porque dizem tudo, e que retiradas do seu n1cio pern1ancceni
sem raízes, co1no que esvaziadas dn sua seiva. O 1ndiv1dualisn1t1 não
' é «o eixo da revolta dos rernnnadnrcs», aJ'inna. uni tanto h1z:1r-
~, ramenle, Lagarde. Esta proposição parece-me tão verdadeira e do
mesmo género de verdade que a nrorosição diametralniente oposta .
F/a1us voeis. Trata-se de co1nprccndcr. Não digo apena,;; de d,_-fi111r
o que se entende por individualísn10, mas con1prccnder os honicns da
Reforma. E se se compreende verdadeiramente cm r,rofundiJaJ~ um
t Lutero e um Calvino; se se con1prccndc o que cra111 a fé e a 11itcn-
~ sídade do sentímento religioso que os abrasava; se se rcstitue1n, por
f detràs das frases que proferiram, os sentin1entos que os n1overan1,
f as 1dc1as que os detern11naram - con10 estas controvérsias, estes
,, choques de ideias, estes dilemas tnunfantes, lodo o arsenal de uma
i• dialéct1ca juridico-escolástrca que caducou no mesmo momento em
que se imagrnava em plena prosperidade - como ludo isso, na ver-
dade. parece ocioso! Escrever que «toda a mensagen1 espalhafatosa
de liberdade» dos refomiadores «se reduzia, em defimtivo, ao direito
de· sacudir o Jugo romano para encontrar um outro senhor» - é snn-
l plesmente mostrar até que ponto nos preocupamos pouco com descer
à intimidade da consciência luterana. É cometer, cxactamcntc, o

1
83
!J_________________________________ _
, 1 r
género de equivoco que Lagarde censura aos ingénuos que tomam
!l
1 1
i
Lutero por <<pai do livre exan1e e da razão moderna».
De facto, para me mtercssar por este choque de fórmulas que
1

l
: retém a atenção de Lagarde. sena necessélr10 que cu me despoJasse
' de todos os meus hábJtos de espimo. Ou então, que, sentando-me na
i mão de um destes guias impossíveis de encontrar, que não se encon-
' tram senão urna ou duai; vezes na vída e que se seguem com delícías J
mas não sem um secreto terror- eu fosse tentado a fazer às minhas i
l
alegrias de letrado o sacrifício temporáno dos meus escrúpulos de
r
ri
h1stonador.

fi í
~
'l
1 l~
!~
1 -
! :t
i
1 j
1
1 ,\
/ #
Í'
1
1
J
j
~
1

n
1
1
!
84
l
l
.:1
r
!

l Nem História de Tese nem História-Manual

ENTRE BENDA E SEIGNOBOS

É um facto bastante curioso, se reflect1rn1os nisso, a espécie de


tímídez com que durante um n1c10 seculo. em França. historíaUores
de valor evitaram, não dizemos «os grandes temas>> - a expressão
tem desagradáveis ressonâncias académicas - n1as, se se prefenr, os
amplos temas, os que ullrapassan1 o quadro estrito da monografia .
Não procuremos longamente as causas desta carência. Seria
neeessáno, para as <leseobnr, empreender a hístóna da história em
França, de hú mais de meio século para cá. Salientemos, simplesmente,
un1 dos s1na1s impressionantes desta renllncia: a ausência de Histónas
de França no sentido tradicional da ,palavra .
Nada de mdividual e também nada de colect1vo. A última len-
tatlva, a de Lavissc, terá tido êxito na livraria, terâ podido suscitar
uma autêntica obra-pnma, o Qaudro i;cográ[ico de Viciai de la Biache:
tan1bCm não deixou <lc produzir un1a obra sc111 unidade de co11L·t:p-
ção, que se 1n1c1ou scn1 vi<la - un1a colecção de v0Jun1es que linulou
a sua ambição a n1un1r os candidatos co-m noções utilitárias. Com
essas e não com outras. De modo que se o público propnamente dito
foi mduzído a comprar estes volumes - f01 um abuso. Responaem
mal ás verdadeiras curiosidades pragrnúticas. eram incapazes de sus-
citar nevas. de alargar o horizonte de leitores cult1va<los, pondo-os
a par <lo trabalho que, silenc1osn1ncnte, os melhores 1nvest1gadores
prosseguem, longe dos locais em que se fala demasiado .
A este respeito dá gosto ouvir gritar os nossos 1ustoriadores:
<<Ignoram-nos! Põem-nos a nu1rgem!>> - e, no entanto, os editores
empanturram <lc <<Vidas ron1anceadas». <le «1n<liscr1ções <la hístóna»,
de «aspectos secretos» e de «reveiações» adulteradas um público ávido
de ser enganado. É verdade. Mas, antes de n1ais, as vossas censuras
contra toda esta confusão parecem sem fundamento. Erros, dizem
vocês: não é essa a questão. Pequenos e grandes livros que vos 1nfla-
n1am tanto, serão de uma adm1rrivci cxactidão quanto as datas e aos
factos: em que é que esta correcção devena desarmar as críticas?

85
Reprovam-lhes o manterem no público a ilusão de que são «Iustóna"
e que o que c1cs conlên1 l:, prec1san1cntc, a 111st6rla: ilusão que n1esmo
bons espintos' partilham. E para que as vossas censuras tenham êxito,
façam vocês prcipnos Justciría, verdadeira Justória, não nas vossas
bibliotecas mtenores e para vinte especialistas: diante do público,
cm público. Pedem-vos um passado mteiigivel, a Humanidade viva e
verdadeira: deixem de nos oferecer n1anua1s escolares .
Ora, na mmha frente. dois pequenos volumes, com o formato
de romances' Obra. quer de um ensaista que tenta com boa vontade
camrnhos novos: quer de um profiss10nal reputado da pedagogia
histórica. Ambos, con1 algumas semanas de u1tcrva!o. nos oferecem
uma Históna de França. Oh! com os escrúpulos que as palavras
traduzem: Esbor:o aqui, e ali Ensaio; n1as, cnfin1, cn1 letras gordas,
negras ou vcrn1clhas, lê-se: bc111: l!istór:a dos Franceses e cm seguida,
!fistcir,a da naçiio francesa. Ter-se-ia 1ntcrro111p1úu a prescrição?
VeJamos, scn1 prcconcc1los.

O ensaísta, Julien Benda. Inútil relembrar o seu gosto pelas lutas


de ideias. Desta vez é nos Justonadores que pensa, um pouco triste,
o analista de Fim do Eterno. Reprova-lhes, também ele, os seus silên-
cios e. entre tantos assuntos ln1portantes que silenciam, assinala-lhes
um, ao qual não falta envergadura.
Uma grande nação - e, nomeadan1ente _ e5:ta nação írancesa cuJa
h1stóna se desenrola durante mais de vinte séculos já - como é que
ela se fez alravCs c..Jos sêcuJos? Não 6 apenas. n probfcn1a do palrio-
t1sn10. acerca <lo qual continua1no.s a não possuir senão declan1açõcs
I ou rnJicações mal ligadas. Ê o problema fundamental da nação,
ton1ado corpo a corpo e com uma energia vigorosa. Quem a forjou
na safra dos sêculos? Os seus chefes, os seus reis, con10 se diz muitas
\, vezes? Ou, forn1an<lo corpo e grupo, a lolalitfncJe dos seus n1cn1bros,
animados por urr1a obscura 1nas poderosa vontade co1cct1va? «A for-
1
' mação actual dos franceses em nação, responde Benda (p. 16), é o
' resultaúo de uma vontade que tiveram, e que tiveram desde cedo

1
Scr~l nccessano lembrar os vlbr.1ntes ataques de Paul Valéry (Regards
sur /e nionde actuei, 193/), diremos contra a lustórrn? Contra o que o grande
púhlico chama h1stona, está ben1; mas será isto a h1stóna? É essa a verda-
deira questão.
J Julicn Bcnd;.1. Esqu1sse d'une h1sto1re des França1s dans leur voiontC
d'L1rre une nation, P~ins, Gallimard, 1932, 271 pp. in-16- Charles Sc1gnobos,
flis1c,1rc s111ci.•re de ia nanon irar1ça1se, essa1 d'une }11sto1re de l'évolullon du
ru:upt,: /rançais, Paris. Rielic;·, XII 520 pp .

86
i
f - e não, con1o o ensina unia certa escola. de unia serie de t_rans~or;
,1 mações por eles efectuadas, de certo modo mecamcamentc,. so
pressão de forças extenores e !ora (pelo menos durante lo~gos.seculoi~
t de qualquer tendência, mesmo mconsc1ente, para o orºamsmo q
• nos apresentam.>> . · . M .
l Vê-se a amplitude Ja proposição e tudo o que ela implica. as
'.~,·. não e intenção tle BcnUa descrever os factos en1 todos os sbe_us por;
menores. Não é lustonador. di-lo prudentemente. O seu o JéCt1vo ·
!. Sensibilizar os h1stonadores; levá-los a realizar o trabalho que dehneia;
} Ievà-Ios, sobretuJo, a tomar consciência da necessidade ~e o fazer.
Exístma uma maneira absurda e desleal de cnt,car o seu livro; esqua-
} dnnhar, pâg1na por página, com a aspereza do pequeno negociante
1 de história que teme a concorrência. - I-Io.ver1a uma oulra forma,
~ essa pcrfcítal11cntc. Jcgitnna: rGton1nr o seu n!ano, ponto por ponto,
E aproVar, cr1l1car. corrigir, retocar ... Mas isso seria querer. pintar
{ uma «Histór1a <los Franceses» por sua conta. - L1m1tcm?-nos a um
!: exan1e do método e das ideias, pois a isso nos convida o p~opr10, autor.
~ A sua tese, segundo pensa (p. 32), enco~trará ~<<luas cspec1_es 1 ~~ op~
sitores}}: aqueles para quem a históna e apenas obra dos muniduos,
e os que vão declarar: «Acc1tàve1, ao que se. refere .ª?s te~p,"is mo-
dernos; mas quanto a Idade Média e à Alta Idade Media e as ongens.
não, mil vezes não}}. Perdão, mas eu peço para me mscrevcr numa
terceira categoria. _ _ .
r Não sou daqueles para quem a lustcina «é apenas obra dos rndi-
i.,. viduos}}. Ela é. a meu ver, obra dos mdividuos e dos grupos, para usar,
f propositadamente, uma palavra mmto geral. O mdividu'? lustónco
, - con10 jâ esclareci anteriormente '· - a personagetn l11stor1ca, mais
f- exacta1nente, desenvolve-se en1 e pelo grupo. Desprende-se. deh: tem-
t porariamente e aponta-lhe can11nhos novos. 1v1as para realizar a su~
if,·. tarefa - a de un1 fcrn1cnlo que faz levedar a n1assa hun1ana - , c
ncccssüno que 1ncrgulhc nL·la: o Biais <.:cdt) pos:uvcl. qui.: se r7·111cur-
'' i pore no grupo~ e ass1n1, para usar un1a linguagcn1 corrente, d~zen1os
t recuo, e mesmo retrocesso. Recuo que o que se evade temporana-
i mente efectua por si mesmo; ou pelos discipulos; ou pela doutnna
f que a massa, após un1a recusa 111a1s ou 111cnos <lcn1orat!a, a q:-1e se
segue, às vezes, un1a aparente aceitação literal, não ass11111la a nao s~r
depois de a ter retocado, repensado a sua maneira, transformado de
modo a poder assemelhar-se-lhe... .
Pertenço, ainda menos, àqueles que dizem, mgenuamente: tudo
o que vive e conta na h1stóna da Humanidade data do <<l!l1c10 dos

i L'individua/iré en /11sto1re. le personnage /11stur1que (Terc~1,r;:1 Sen1ana


fnternac1onal de Síntese). Pans, .-\k:an, 1933, 1n - 16, J?P· !~3-l~S).,. Lernt;ro
tainbén1 tudo quanto cm Un des1111. Aiarfln Luther {Pans, R1edcr,.; 19-8,
1n-16; 3." !.!d .. P:1ns, Presse:-; Un1vers1ta1res, 195L tn-8.º) se _rerere ao
1 problema das Íclações da personagt!m h1stonca com a colect1v1dadc em

l História.

87

l
l
tempos modernos". Penso compreender um pouco o JJusso século XVI.
Crew que se pude dar dele, nalguns aspectos, uma representação
pl~usivcI, fo: porque reagi sen1pre, com todas as minhas forças, contra
a ideia pueril de que ,ele correspondia a «um começo» .
A mrnha atitude: é s1mrles. Gostana de pensar que esta é, exac-
tnmenle, a atitude do h1stonador. Diante de mim, uma tese. Uma
tese metafísica, precisemos ' Pouco me importa. Não vejo nisso, pes-
soalmente, senão uma hipótese de trabalho. E ponho .mãos à obra
com os meus utensílios e a técnica do meu ofício. O que é por ou
co,ura? Mane1ras bombásticas de falar. Sob que condições, histonca-
mente falando, e em que condições pode a lupótese ser considerada
corno respondendo a um~ realidade? ·É esse o problema .

*
* *
«E crL'10, diz, que o úcscJu Jc rur111ar u111a uaç;lo cx1s1Ju cn1
França não somente nos últimos tcn1pos, nos sCcu1os modernos, mas
n1u1to antes.» Não interessa <<ne1n a sua crença», nem a (<descrença>>
dos que o ccntra<lizen1. l\1ostre-nos con10 é que a coisa pôde ou não
1, pôde realizar-se e scgui-1o-emos.
«Não r,ossuo outra prova, afirma (p. 34), a não ser o contenta-
111cn10 que, no dizer dos lustoriadores, os Franceses parecem ter
manifestado de cada vez que se realizava unu1 das condições que
rcn111t1an1 J'orn1ar. r,ouco a pouco. a nação: união de territórios,
1
[. progresso úa autoridade central, subtracção ao don1inío do estran-
1 geiro.» Detenho-me francan1cntc nesta última palavra: o «estran-
'
1 geiro» lena sido uzna noção const<1nte através de toda a Justóna
de un1 pais con10 a França? O «do1nin10 cio estrangeiro» - J. Benda
fala noutro lugar (n. J6) da ((resolução LlHna<la pelo estrangeiro de
se apoderar da terra dos Frrinccscs» - con10 C que os f7ranccscs
rudcran1. \·erc..ladc1ra1ncntc. 1.:onceber nas diversas épocas este domi-
1 n1c? Ex~ctan1cntc assim, con1 o corteJo de íde1ns juridicas e políticas

! prcc1\as que a acon1panha ncccssanan1cnlc, nos nossos espíritos.


r:odcrú esta exnrcssfio traduzir as n1anc1ras de ver e de sentir tanto
dos conterrüneos de Clóv1s corno dos soldados do ano Ir, dos súbditos

!
Jc Carlos i'vlagno e dos scldados franceses de 1914? E estas outras

' (1Esta vontade de un1 con1unto de hon1cns que eu ass1núlo a un1a


vont;idc individual, QU(; tr:1nsc(;nde as vontades das suns partes .. e, sobretudo,
un1 produto do podei de abstracção do n1cu espinto. un1.:i noç~1Ó de ordcn1
ntetafísica. Ela existe. ni:ccss:inamcntc, cn1 todo o homen1 que fala <la h1stóna
da França, da <<vont,~dc sc<.:uhtr d;.i Franç,1», ainda que os que usan1 esta lin-
guagem profcsscn1, as vezes, o n1a1or dc:,;:prezo pch1s noções <tbstractus e prc-
tcnch1n1 <1não conhecer senão os factos». O nosso un1co valor nesta obra
consiste talvez en1, sendo n1~tafís1co<.: reconhecermos c1ue o son1os.>) (Bl!nda,
p_ 39). Obscrvcnios s1n:íJlcsmcntc, de passagem, que entre a; duas fórmulas,
iíi! !ustona d<.1 França}) e Ha vontade secular da r:·rançan, existe uma h1cuna .
Nüu levantam an1bas as n1csn1as questões.

88
í fórmulas. tão claras para nós, u1úao de territórios e progr<.·sso da
autoridade central - não esconderão. numa «História de Fran_ça»
das origens aos nossos dias. a ausência de outras expressões, ~s únicas
inteligíveis para gerações mte1ras desses Franceses Hque fizeram '.'
França»: submissão ao, senhor natural, respeito relig1oso pel.3 pesso,t
sagrada do rei, afimdades de costumes, de falares, de conv1ve11cia, de
devoções, etc.?
1 Analise mais urna vez. Elabore os seus quadros de ausência e ~e
l presença. Não está em frente da Esfinge. Ningujrn o come se na~
~ enccntrar a palavra. Mas o seu trabalho sera vao: o golpe_ da su,,
!
não cortará a não ser a água límpida, s~ voce nos pedu-, a ~o~
' espada
historiadores, para resoivcrn1os prohlen1as h1stor1c<?s com af1r1naçocs
lógicas - ou ainda, rccorrenJo aos velhos n1an~lamentos u~ un1a
l
,, <,ps1colog1a de nação>> que .se su(IDe unutável atraves de vinte ~~culos,
e não pelo estudo das reacções específicas dos homens_ das ui versas
l épocas. estudadas em s1 n1csn1as e por s1 mesmas. Re::1cçoes h1;manas.
entenda-se, e o hon1c1n permanece o hon1cn1. Rcacçao de g1 upos cn1

l que, a maior parte das vezes, contan1os os. nossos antepassados~, e que.
por conseguinte, são noss.os parc~t~s prox1mos no ~en1po. _iYÍas ~
tempo e n1utalls n1utandis: o que ha para ~<mudar» e imenso. e estd
vasta margem entre passado e presente e, precisamente, (\ nosso
domínio. o nosso can1po ele pesquisa e de acçao .
n?

«Nação», escreve. Mas o que ê isso, nação? De qua_ndo data


a palavra? Que s1nànunos a acun1panharan1? E co_1no se <.hsl1nguem
dela? Sobretudo, que realidades acumularam sucessivamente os Fran-
ceses, por detrãs desta palavra? Enquanto não responder ,ou t_entar
responder a estas perguntas, nada tcn:i dito para um h1stor1ador.
Apenas terá refnrçado a tendência para tornar as palavr~s mais cla~a~,
hoje, para os hn1ncns de ho1c. ctnno outros tantos veiculo~ C?nlo1-
távcis e seguros para rc111unlar. bc111 sentados, u cursu dn:,; sccu!t}S,
scn1 ter necessidade de n1uJar de lugar ou de transporte. Constantes
histôncas, co1nprcendo. Não oponho, de modo nenhum, o «alom1sn10>_>
deste ao «continu1sn1c» daquele. rvias há duas n1anc1ras de lrazer a
Juz as constantes h1stúncas. U1na delas, a n1etal'[sica; a dc_ 1Jo~suet,
por exen1 plo, un1a vez que BcnJa cita Boss~et 1 • A outra, ~ J11stor1c? .
Quando procuramos saber_ o que teria. s~do para um hon.1:n1
século XII ou XIV o cqwvalcnte das 1dc1a\, scnl1mentos, 1cacço_es
-º~
de todo o género que para nos, homem de 1903, s1gmf1ca a_c>:pressao
«resistência ao Jemínío do estrangeiro». ou runda <<il resoluç~10 ton1ada
pelo estrangeiro de tirar a sua terra aos franceses». não 1g11or~mos
V urna constante. Simplesmente, recusamos basear urna cont111mdade
'" num anacronismo. Repelimos a solução de facilidade dada ao verda-
!'

l
!
«O cont 111 u 1s,no s1sten1at1co de Bossuet não e, talvez. un1 erro maior
que o atom1!;mo não menos s1stemauco de Stendhal» (obra citada. p. 45).

89
j
l
J
1r! dc1ro problema: de que n1odo, no meio de um mesmo agregado
humano, sob que formas sucessivas, no decorrer Jas épocas, através
l
f
J! de que conJuntos móveis de sentimentos e ideías, se expressaram as
vontades elementares - que não se trata de passear, revestidas de
f
i
11., 1
roupagens modernas, através de toda a história mutável das épocas
desaparecidas. 'í'r
fp. '
!'
[l *
,J:;.
!,;·
* :j: [

f'' '.l
Em rcsun10, como e que nós, homens do ofício, devcn1os encarar
1
f este livro che10 de cunos1dades mteligentes, redigido de fora por um
bispo, en1 1ntcnç.·ão, cn1 parte-. dos c-!ér1gos da história? l,.
~l
r1 Antes de n1a1s. con10 un1 documcnlo sobre o estado de espirita
('.
~.
de um certo público culto. Julien Benda «não admite» (p. 8) a obJec-
ção de que um grande Jmtonador, «até por conhecer um número
!
i: imenso de factos de toda a espécie. nunca aceitará reduzi-los a uma
Slffiples ideia». E não concebe que um «grande espírito científico» 1
!
~ .
possa, tendo os meios para isso, renunciar, deliberadamente, a expri-
mir a sua filosofia de cientista. não pensa que um grande historiador
«atraiçoe» ao expnmir a sua filosofia da históna, «com o que ela
1
l

~\, 1n1plica, ncccssanamente, de arbitrário e de poétlco». Não examine-


"ij n1os com m1núc1a estas expressões. Retenhamos apenas o sentido
geral. Eh1.s justificarn o que cscrcvin1nos no inicio <leste artigo.
;
j

O livro de Benda é amda outra coisa: um convite a reflectrr sobre '


i,.
11
·<
11
~
a intervenção frequente e grave, na históna, de um certo género
de factorcs tustôncos «aos quais os h1stor1adores não dão. talvez, a
del'ida importância». Ouçam, por exemplo, as vontades dos grupos
que «trJn.sccndem a vontade dos n1c1nbros <lo grupo». ·É verdade.
Aí, reside um grande problema. Quanto a 1n1n1, disse-o vünas vezes 1 ;
ll
l

os que não qucrc1n conhecer senão os «factos»; os que não se <lão


li conta de que uma granJe parte dos factos que utilizam não lhes é
«úal.Ía)) em estado brulo, 1nas jã criada de alguma maneira, inventada 1
pelo trabalho da erudição, isolada de centenas e centenas de teste-
munhos. directos ou mdirectos; aqueles que, desde logo, preguiçosa-
1 n1cntc, não se prcocupnm a não ser com os factos registados em
documentos completamente estabcleciúos, esses l11stonadores que se
dizern pruúentcs n1as não são senão Iinlltados. colocam-se verdadeira-
1
. 1
'1
1
·mente fora das condições pnmordiais do seu ofício.
«Conhecer os sentimentos com que a população média das vánas
.

~'
províncias aceitou a sua união à França é un1 género de questão que,
tendo por tema uma humanidade obscura e anónima, não é tratada
l
·l
~-
1
pelo h1stonador.» Prestemo, atençi:0 a estas palavras de J. Benda 1

!
i Part1cularn1cntc, no artigo !fistory <lc Encyclooaedia of rhe S0c1al 1
y Sc1ences, artigo escrno cn1 colaboração con1 l·Icnn Dcrr.
1
90 1

1 !
L
J
(p. 12, n. º 1). Na verdade eu não creio que, se as nossas histórias
de união são, antes de mais, lustónas políticas, diplomáticas e mili-
f tares. seJa porque as massas, os homens «obscuros e anónimos» são
particularmente difíceis de conhecer na mt1midade dos seus senti-
mentos '. Pensar-se-á que estamos melhor mformados quando se trata
dos grandes e que é necessáno disungwr o que podia movê-los num
! sentJdo ou noutro: ambições territonais, rancores familiares, laços
de clientela, hereditariedades de lealismo ou de rebelião?
De facto, os histonadores calam-se porque os textos não llies
dão respostas acabadas. Porque estão demasiado habituados, não a
1 extrair deles o que não comun1can1 in1ediatamente, mas a aí irem
buscar o que oferecem, con10 o ol'crecen1. Se ex1st1sscn1 nos arquivos
departamentais coniuntos de documentos constlluidos administrati-
vamente por prcfeiios do tempo de Filipe Augusto ou procuradores
! gerais do tempo de Luis XI e que trouxessem na bandeja. em letras
gordas, a mscnção «Estado da opinião pública», os lustoríaJores
teriam, há já mmto tempo, tratado a questão com essa espécie de
1 zelo mdiferente com que aceitam os assuntos tais quais lhes são
oferecidos. Mas é mesmo verdade que são passivos, demasiadas vezes,
diante dos documentos, e que o axioma de Fustel (a lustória faz-se
com os textos) acabou por ter para eles um sentido desmoraJi=te.
Por aconselhar a preguiça de espinto e a passividade.
A históna faz-se, antes de mms, com o sentido e a paixão da
história: com este conJunto de aptidões especiais, único que qualifica
para o bom exercício de um ofíc10 mtelectual. E é estranho que se

l esteJa de acordo com isso se se trata de um matemático, atê mesmo


cte um filósofo; mas quem é que nas nossas Umversidades alguma vez
conseguiu (se pensou nisso) Jesencorajar um «rnaplo para a história»;
e não parece ingenuamente escandaloso a n1u1tos exigir <le um l11sto-
na<lor, pri111c1ro que Ludo, «o únn1» ·,
Pnmc1ro cspmto, depois cultura. Não se faz lustóna sem um
mimmo de conhecimentos positivos perfeitamente adaptados ás neces-
1 sidades do historiador. E, acrescento, sen1 un1 material do quai nin-
guêm ten1 o direito de dar preventivamente um inventário limitativo
1 - porque, precisamente, uma das formas de escolha da actividade his-
tórica consiste cn1 n1ult1plicar os seus clen1entos, cm descobrir que.
quando não se tem textos, se pode aproveitar mmto do estudo pro-
1 fundo de nomes de lugares; ou da análise comparativa de certos
grupos de palavras; ou ainda da distmção dos tipos de sepultura,

l da expansão de um modo de construção, da separação dos nomes


de santos usados pelas igreJas, de ntos relig10sos, de fórmulas jurí-
dicas, de cer1n1ón1as ou de usos, que mais sei eu? Esforçar-se por se
ser actlvo diante do desconhec1do. Supnr e susbstitmr e completar:
! trabalho própno do histonador.
1
J Esta e no entanto a opinião de Ch. Sc1gnobos: ver à frente o co1neço
de uma discuSsão. '
1
91
I; f
! Do h1stona<lor que tem apenas um obJect1vo. Saber? Isso é ape-

li
ijl
(t\
nas um começo. Julgar, não. Prever, menos ainda. Compreender e
fazer realmente compreender, sim.
1

!j

~-: II
,,.
!,'

[fj O livro do ensaísta precedeu un1 ano o livro <lo professor. E ter- 1
-se-ia podido dizer, ao ·,er este nas montras: «O quê. lena sido um
csconJuro da sorte? Responderia, finalmente, un1 l11stor1ador pro-
i
!
\
~ fissional a interrogação de Julien Bcnda?» Abriu-se o livro. Gostaria

r ;1 de dizer muito simplesmente a ra?c10 por que alguns, depms de o


lcren1, tiveram de confessar que se tinham enganaUo; que, cn1 vez
de uma verdadeira «História», não possuian1, n1a1s uma vez. senão
r
I
f'~
~i·,
um manual escolar, aliâs n1uito habihncntc feito e congruentcn1entc
tra<lic1onalfsta; e ainda que o livro com que sonhavam continuava por
escrever. Con1 toda a s1n1f)líc1clade e sen1 o menor preconceito: para
!
l
i1~'
além deste livro, não é contra um lmlonador, mas contra uma deter-
n11nada conccr,ção de h1stóna que eu n1e declaro; un1a concepção !
.1
que. durante anos, en1 non1t.! das suas funções, da sua influência
pessual e dos seus escritos, o Sr. Se1gnobos tan1bCm servíu com n1e1os
ii.
fi polt:nLcs 1 ; un1a concepção que· eu repudio com to<lo o meu ser e que
\/ <le bom grado consideraria responsável, em parte, por esta espécie
1
1
1
de dcscrC:<lito. ao mc!:n10 tc1npo injusto e Justificado, con1 que a hís~
túna ~- n1u1tas ,·e-zc~. Y1sta neles ({le-1!:!:0S)) Lln1:1 certa história. Preci-
san1cntc aqucia de que Sc1g;1obos fez~ questão- <lc nos dar, no li\'ro de
1l
í
~
que nos ocur:an1cs, un1a nova e significativa amostra.

t{l
Ei~-nos, pois, a \'C:llladc r,ara lrazcr no Uc c1n1a e p:v..;sar rap1Ja-
n1cntc se:brc t.!uas cu lrês qucstücs que não Ucvcn1us negligenciar, l1
ncn1 an1pliar. - Adivinha-se que se trata, antes de mais, do título.
1-ítulo desagraJávc!. ncco por isso desculpa s1mu!tancan1ente ao autor ·1
,)
n, e ao seu cl!mplicc, Ch-V_ Langlo1s, cujo tcstc111unho 11ústun10 ele
./Í Jll\'Cíêa. Ir~i o !lúb:o professor da Sorbonnc lançar un1a 1no<la? R.1va-
i
;
Jizando con1 ele, vcr-~c-à. arnanhã, Antoine Ivleillct anunciar unia
J:xposu;ào s111cr.:ra dos caracteres gerais rias línguas gern1ârucas, ou
!
t

r G.:-orges Dumas, un1 Tratado sincero das e111oç()es'l Possuímos j~i }


] un1a Geografia cordial da l:uropa: mas não e a obra de un1 geógrafo. j
~) Entre 11arêntcs1s, eritcto pe: epíteto. tena aprectadn mais que Sc1g- }
nobos tentasse dar-nos ·un1a !{istdr!u cordial da 11u,,_·ão francesa. iv1as
i
~,
!,'
1 'O que, entre. part:ntcs1s, tor_na bastante surpreendentes :is suas rccri-
1n1nacõcs contra <(3. vcrsüo da história de França dada no ensino)) (p. 12). '
~ "PorqÚc. enfin1, durante anos. os ,\[ar1uels Se1r:n_ob()S ttveram_. no ensino. uma

i
~:
fc,n..: ;1u.Ji_énc1:i ê toda :'. 3Utonz.aç5.o p:.1.~a 1n.troc.Iu~1r nos e,ip1ntos das crianças
un1a vcrs:10 satisfacona - isto e, c1uc satisfaça S1.:1gnobos. 1
l
'
)
92
l
.)

...dt
não nos deixou a escolha. E uma vez que ele conta com uma crítica
1 direcla, porque não dizer-lhe, com força: «Que nos quer a sua sin-
ceridade?»
«Sínceridade, assunto entre s1 e a sua consciência. Você que
fala de ciência e de espinto científico, abra um destes excekntes
livros em que toda a delicadeza de uma sociedade polida e cortês
parece condensada em formas requ111tadas: abra os S1non11nos lrall-
ceses do bom abade Girard, que nunca reponho no seu lugar na btbho-
tcca sem reconhecimento: lerá: «a smceridade impede-nos de falar
diferentemente do que se pensa, é uma V!ftude» '. Mas, precisamente,
a histôria não se preocupa con1 a «virtude» daqueles que a fazem; e
você desloca a questão. Não falar díferentcn1ente do que se pensa

! serâ un1 dever? - De hon1ein privado. talvez, n1as en1 relaç:üo a


quem e a quê? A si n1esn10, as suns «opiniões>>~ ern resun10, ao seu
Eu n1aís pessoal e 1na1s clara1nenle indivic..lualizado, ao seu Eu parti-
dário, totaln1enic envolvido nas pa1:.:ões do século, nos laços do oficio,
da classe, do partido polít1co, da religião. ou da rncredulidade. Você
serã <<sincero,»; mas no que lhe úiz respeito; no que se refere às suas
formas pnvadas de pensar e de senl!r (L1tlré. Vº Si1Jcére: «o que
exprime com verdade o que pensa, o que sente»). Na realidade, o
pior elos subjccl!V!smos. SeJa verídico em relação aos documentos
que utiliza. aos factos que acumula; mas neste sentído em que, d~po1s
do abade Girard, Littrés define a palavra desastrosa que emprega:
não seia s111cero. Será o ma10r serviço que poderá prestar a uma his-
1 tória de espirita científico.

*
oi; *
I·Ii:.l6na «~:u11. .:cra», logo <Úntrér1da»: a vertente das virtudes ú
escorregadia. Ouça1nos Ch. Scignobos no seu 1>rcfác10: ralani «scn1
reticências, scn1 ter em conta as opiniões recebidas, sen1 deferências
para cc,m as conveniência~ ofic1a1s, sen1 respeito pelas personagens
célebres e autoridades estabelecidas». O grande Juramento. O resul-
tado <le tanta audácia? Em 520 púgmas, três ou quatro «bouta<les».
\leiamos Vcrcmgélonx no seu Mont-Auxo1s. Sempre .alerta,
Charles Se1gnobos, ao subir para o frouxo pedestal do vencido de
Alés1a, vai suavemente puxar-lhe os bigodes (p. 30). Um her01 nacio-
nal! Para outros! E que nos quer essa invenção de «patnotas retros-
pectivos>>? Não existia «nação» na GáI_ia, na epoca de Vercingêtor1x:
al'irmação peremptória que basta, evidentemente, .para lançar por
! terra as conclusões contrárias de uma História 111s111cera da Gália à
qual, como tcdos sabemos, Camille Jullian consagrou a sua vida?

( Utilizo a edição de Paris, 1780, aumentad~ po~ Bea~zée ~2 vol. 1nHl2);


o artigo Sincfintti (comparada com Fra11ch1se. Na,veJe, Jngenu1Je) encontra-se
1 aí no L" tomo, p. 386 (art. 341).

93

t
};~? f
[li l
;!f
,'f,/
,,\,
·1~
- U1n.i vez que os G:iulcses \\llUncn cons[1tuiran1 un1a naçfio», \'enc1n~
gl!tor1x não podia ter sido o herói «nacional» dos Gauleses.
Não den1os atenção a que Seignobos parece ler aqui uma ideia l
l
~11
f}
.~.
prcc1sa do que se deve entender por «na<:.·áo»; bcn1 deveria, con10
vamos ver, ler tirado partido desta precisão ao elaborar o plano do
seu livro. Não perguntemos. também. o que foi, «em verdade", l
'.(
l
Vercingétorix. <<Um chefe arvcrno que serviu no exêrcito romano»,
responderia Se1gnobos !p. 30) e ~ quem. lendo rebentado na Gália l
<<Un~ lcvantan1ento geral» (geral, não nac1onal, estão a perceber)
pediram para tomar a chefia Je uma «liga de guerra contra os mva-
1 l
ti SC!es estrangeiros». - Em suma. um comandante-em-chefe de forças
1ntcraliadas? Então. qualifiquemos Verc1ngCtor1x de <<herói polina~
l
r {;
j
c1onal dos Gauleses>> e não falen1os mais disso. Os <<patriotas retros-
pectivos» poderão ver ai uma pron1oção. e a sinceridade ele Se1onobos
crescerá de satisfação.
Há, lamhém, Joana d' Are... Estava prcv1slo. Incarnação do
º
1
l
i
-1
patnolismo? Ora vamos l:i! Tolices à Michelet, o Michelet que não
possuía o Método. (O que não impede que a única Joana d'Arc mte- 1
il''/ lig1vel que possutrnos ate ao presente, seja sc1npre a Joana d'Arc de í
k Michelet. .. )_-Joana d'Arc? Uma parlidárrn, sem mais (p. 20]). 1
11
!!
«O seu lealismo dmgrn-se ao rei do seu partido, mais do que ao rei
da nação francesa." lsto não é novo, e é simples; tão simples que
I1
I'
' compreendo mal. Em pnmc1ro lug"r, se um dos dois partidos, o bor- !l
t
·ç
1
gu1nhão, tivesse surgído como aliado do estrangeiro, e não fosse pre-
ci_samenle o de Joana? Sobretudo, rei de um partido. rei da nação,
nao compreendo. Mas goslana de saber o que era, na opmião comum
dos homens. nessa altura o rei de França. Toda a questão reside ai.
!
i
l
f;

!,,,,'
Porque a um historiador, não se lhe pc<le que diga (cxceplo nos
Jornais, quando e entrevistado; mas então não se trata de história) l
~
~
~
ti,
~,,
se sim ou não, Verc1ngétonx e Joana <l' Are n1erecem o título de
«heróis nac10nais)). Pede-se-lhe que «explique" cada uma destas per-
sonagens h1stóncas. «Resistência ao estrangeiro», volto novamente
· aqui, e não é culpa n11nha se, após o <{metafísico». o professor de
l
1
h1stor~a me incita a isso: gostana de sab12r que ideias e sentimentos
1,~ pod'ena representar esta expressão no espinlo dos Gauleses, sublevados
«cm geral» contra Ron1a, sem dúvida radicalmente diferentes das
!l~ nossas próprias ideias P. do$ nosso.:; próprios sentin1entos? Pnrtanto o 1
·-
Ef' que incarnava, nn realidade, o chefe comun1 dessa res1stênc1a, Ver-
1
L
li
cmgélonx? Ou ainda, em que é que os «Armagnacs" da épcca de 1
Carlos VII fundamentavam a sua lula «contra os bandos ao serviço
a~
~,
do rei de Inglaterra"? Por outras palavras, que me ensine o que
levara Joana d'Arc c os seus companheiros a luta, o que significava,
para eles. o rei que combatiam e o rei que apoiavam. eis o que peço
ao J11stor1ador. E, se não puder satisfazer as Illlnhas cunosidades, que 1

l
pelo menos diga: «Invesl1gue1. Eis as questões que me pus. Não con-
segm encontrar nada. Talvez, amanhã. um outro, mais feliz ... ))
1
1 94

!
f

l
l
Sempre a parla aberta. Situar as c01sas no seu lugar, não demolir.
Programas de pcsqwsa. não ditos para aborrecer X ... ou falar sem
rodeios a Y ... Sinceridade? É consigo. Mas sentido histórico, sim.

l Isto ê: um esforço constante, tenaz, desesperado, para entrar e fazer


entrar o leitor na própna pele dos homens de outrora.

l *
*
*
l Dito isto, qual terá sido, exactamente, o plano de Ch. Se1gnobos?
l Que terá ele querido dar-nos? Históna da nação francesa, responde
o título: era exaclamente o que pedia Benda-Julien Benda. cuia
tese se opõe, tão catcgor1camcntc, ú Jc Ch. Scignobos t, e qul! não
1 deixa pairar nenhuma espécie de dúvida sobre o que entendt: por
l Nação. Mas Se1gnobos: «Qms fazer um esboço da lustóna da evo-
lução do povo francês.» Portanto, novo francês igual a nação francesa?
Serâ certo? «Mostrar en1 que tcn1po, continua Sc1gnobos, L'Ill que
loca1 e por que n1otívos, foram cr1fÍdos os usos, as inst1tu1çõcs, as
1 condições de vida que me parecem constituir o fundamento da nação
í francesa .. ·" Estamos longe da Nação no sentido de Benda. em plena
1 <<hístóna da sociedade», ou das socíedades que nas diferentes épocas
I os franceses de todas as condições. de todos os estados, de todas as
1 culturas consl1tuiram, para bem ou para mal. como diziam os fis-
! cais? - será tan1bém certo? Seignobos testemunha, em cem páginas,
uma concepção mte1ramente ma1onlána da «nação francesa)). O que
! preocupa é a massa. Em virtude de um rac1ocinío smgular e que
revela a mais estranha concepção do papel e das ideias e da iorma
l como se propagam, sacrifica-lhes as Artes. as Ciências, as Letras'
l H.ccordcmos a sua intenção: a n:.1t;i10 não é o rcsu!taúo úe tr~1nsfor-
rnações «mccântcasi> cfccluaúas sob _:.1 pressão de forças exteriores. i\-tas

l
1
Se1gnobos, na pnme1ra frase da pnme1ra pilg1na: «A evolução de uma nação
depende das condições materiais cm que viveu.>> É certo que a continuação
desmente 1mcdiatan1cnte esta afirmnção a favor do «me1on: porque existe,
para além do meio, «a raçan; porque o n1e10 «não actua do rncsn10 modo
sobre todas as populações)); porque «a natureza não produz os seus efeitos
senão onde os homens subem lcvil~la a produzi-Ias)). Sensatas reserv:i:;; mas
então porquê o toque de trombeta 1n1c1al? e o resun10 tão sombno que se
segue, a glorificar as vantagens matena1.s do solo francês?
:i Obra cua.da, p. X; {(Não n1e úesculpo por ter relegado para un1 plano
1 secundário as letras, as artes e as ciências; é por demais certo que nãt"J pode
ter sido forte a sua acção sobre a massa dalfnação, que mal sabia Ja sua
1 existência.}} E certo? Seignobos exagera, mas o nosso artigo iâ vai demasiado
longo. -Seja, pois: não cite nen1 Buffon, nem Lavo1s1er, nem Lam_arck,. nem
Cuvier, nem Claude Bernard, nen1 Pasteur, nem ... (precisaria de vinte linhas
para enumerar todas es_tas exciusõcs) - numa história~ em que não ret~m
senão «os factos mais importantes pelas suas consequenctaS>>; mas. ent_ao,
deixe-nos tranquilos com Bal_uze, Budé, Casaubon, etc ... Deixe-nos t'.a!lquilos
1 com o salão de 1vfme Geoffnn, sobre o qual me pergunto, horronzado, se fot
«mais importante pelas suas consequênc1as1) do que a obra científica, :1s ideias

l propagadas, os «géneros de vida>: 1ns11tuídos pelos. homens da têmpera Jaqueles


que acabei de enumerar- Berthelot e a sua qu1m1ca, por- exemplo?

95
Dedica-lhe, em contrapartida, os factos da viúa 4c1otiJiana: não cons-
tJtuira1n eles, sen1pre, «o interesse pr1nc1pal da vida da enorn1e maioria
dos 1ndiv1duos?» - E então? Perdemo-nos ai. Histona da nação ou
do povo francês, ou do povo de França, ou das massas populares? Uma
sarabanda. e num livro de educação pública, é premo que se diga,
sera, logc desde o 1n1--.:.o, u111 bo111 exen1plo?

*
* *
À ma_rgem, existiram amúa alguns pontos de exclamação. E que
se mult,phcanam a part1r do momento em que se chegasse a !<lacte
Média.
Ch. Se1gnobos não gosta dela. Está no seu direlto, como homem
pnvado, senão como l11stonador. Considera-a pueril e de boa vontade
se compadece da sua «mgenuidade»: nas vrnte Linhas que consagra
a rcl1g1ao úos homens da Idade ivkJia (p. 186), o epíteto repete-se
alé á obsessão: fé ingénua; transposição 1ngenua; 1mag1nação ingenua;
para conc1u1r: cnst1an1smo ingénuo. Desconfio. Não seremos nós os
1n~ênuos, quando mutilamos assim uma palavra? I'vlas passemos
adiante. O Sr. Seignobos ocupou-se da Idade Média noutro tempo, l
quando, rccem-sa,do das lições de FusteJ, sustentava uma tese sobre
o J<egune leuda/ na Borgonha. Pergunto-me se isto não e n1u1to pior.
j
Nunca nos esquecemos <lo que pensamos saber por volta dos trinta;
e quantas noções adqumdas nos anos 80 e 90, não será preciso esque-
cer para tratar, hoJe, as questões que ocupavam Seignobos há cm-
1
quenta anos? J1
Jguahnente, os quatro capltulos que o autor dedica por ordem
de precedência, aos Vilãos, aos Nobres, aos Burgueses e aos Cléngos, l'
sattsfatónu;-; se os datarn1os Jc l 895 ou 1900, jú niín estão actualízados '1
c121 1933. Part1cularn1_cntc no que se refere ús CH..latfcs e a burguesia,
poem demasiado a claro que o autor não acompanhou o trabalho
intenso (e tão vivo no seu aprofundar SU{.;;;ss1vo, nas suas vic1ss1tudes
e contradições e no seu alargamento) que, um pouco por toda a parte,
se dedicou a estas questões: mas especialmente na Bélgica, com
H. f'ircnnc e seus discinuloc, mesr,c., em França, com Gcorges Espi-
nas e alguns outros (apesar da abstenção, n1uitas vezes denunciada,
Jos. nossos h1stor1adores univers1tânos). Principalmente, os precon-
ceitos tão claros con10 <<sinceros» de Se1gnobos levam-no a colorir
nor vezes con1 cores estranhas os seus heróis culcct1vos. Quando, para
Jar un1 excn1plo entre vinte, afirn1a que <<a nobreza não .se interes- .
sava pelo seu don11n10 senão cou10 fonte de rendimentos», este acesso !
ue matenalismo economico maníaco não deixa de nos desconcertar',

O (tnobrel), afirn1a (e espero que esta não seJa uma das suas abstrac-
ções personificadas. i.:on10 i<u Francês}> ou «o Alen1ão)), de que os seus antigos
alunos nos dizem a_ue o seu professor tinha a fobia) - o ({nobre)); devemos

96
'
E, de modo semelhante, quando pmta (p. l 77) este quadro de ".vida
nas cidades» no século XVIII: «A vida urbana desta época difere
profundamente ela viela no campo. A cintura de muralhas que defénde
os habitantes do exterior, obnga-os a viver amontodas num espaço
muito estrcllo ... Mal saem dele: o campo não tem nada qu;o os
atraia (?), fm desguarnecido de casas (?) e de árvores para se po_der
v101ar os arredores lá não se scnt1:.1n1 em segurança; nenhum 1nd1c10
n1~stra que eles f~ssen1 lú passear» - aúiv1nhana ele a que pvnto
este esboço deixa atónilos, incrédulos e dcsconcerta<l?s aqueles dos
seus leitores que saben1 con10, ainda no sCculo XVI, cidade e campo
se pc11etravan1 1ntin1an1entc, cn1 lugar Uc se v1rarcn1 as costas. e q_.ue
1n1aginam. nestas cidades jú relat1van1ente «n1odcrn1za<las». o va1\'Cm
contínuo da. cr1acãn. e.los cães. Uns cavalos, o vaguear dos por(:os,
chafunlando cm ÍJiena rua, a reunião, todas as manhãs, do gad,, da
cidade ou do bairro pelo pastor con1unal, e o seu regresso, t?~as as
tardes, r,elaCj ruas estreítas, entre o.s latidos dos cães e o n1ug1do dos
anin1ais? Para não falar dos v1nhate1ros, con1 o cesto as costas, dos
burgueses con1 os uten~ílios na n1ão, ú espera desde o nascer du sol
diante das portas ainda fechadas e que, n1aI ·o guarda acorda e a
l ponte levadiÇa se baixa, avançam para as vinhas e os Jardins, enquanto
j os camponeses, num n1ov1n1ento inverso. chega1n â cidade com os seus
feixes Je lenha, os seus frutos, os seus molhos de palha?
Teria cu sonhado que o ideal dos pequcnc_."S burgueses, nesses
1 tempos en1 que o numerãr10, tão raro, se perdia, tão pouco, nas :.dg1-
J beíras do vulgo, era, necessanamente. não abastecer-se nas loJas
1 (raras!) e gastar ai o dinheiro que não t1nh::in1 1 , n1as possuir, explorar
l
tr;.1<luz1r, pcn!)o cu, por o <<si.:nhor))'! fvías pcrpc-tu:tr ns:,;1n1 unla i.:onfus;'iu la111cn~
tavel, não é o n1e10 de educar u púhlico. E, alén1 <lc tudu u rna1:,;, c1n que
é que se apoia c.sta fónnula tão categunca? 1(0 nobre so .se 1ntcrcssav:1 pelo
seu do111in10 como posição cstratêg1cai1: a afirmação sena tão nlau.sivcl - e tão
gratuita - quanto a de Sc1gnobos. Não tcna o prudente professor. ao n:.::nos
uma vez, «preenchido as lacunas dos.. .seus conhecimentos ... con1 · rac1uc1nios
fundamentados en1 generalizações u11prudcntes))?
i Ch. Scignobos consagra nos factos n1onetários algunlí.lS anotal,'õcs
esporádicas. 1vfas que ficam a m.1rgcn1 do seu texto e do seu esplrito. N::lo
pensa em termos cconónucos. No campo doutnnal, as suas tentativas n~ste
domínio não foram felizes; no campo dos factos, não se pode sequer falar
de tentativas. lvfostrar-nos o campon~s tncdieval (sen1 outra e:.pecifir.:E~·ão)
ufcchado no horizonte da sua aldeia, desnrovido de qualquer n1e10 para 111c!dar
a sua condição, não tendo nen1 dinhe1ro, nem conhecunentos para n1e!hurar
as suas culturas}> - e an1ontoar em duas ou três linhas urna quantidade as·;om-
brosa de anacronismos. O can1ponés «fechado))? M:1s Ch. Sc1gnobos não terá
nunca encontrado nos textos esse l.!Xêrc1to prodigioso de vagabundos, de íug1-
tlvos, de errantes, de nornadas que percornam os campos, frequentavar.1 as
florestas, respondiam ao apelo dos empreendedores do arroteamento, ::e infil-
travam nos dorninios florestais que const1tuiam, no seio de um pais con10 a
França, outras tantas enorn1es colónias de povoan1ento? Entre mil outras,
dedico a Ch. Se,gnobos estas palavras que ontem sublinhava na te.se de un1

97
ou mandar explorar a~ trC:s ou quatro Jc1ras de terra o menos longe
possível da sua cidade, as quais lhes danam o tngo e a «bebida» e,
se possível, os espaços ;·n,os, ns Jardins, as cercas, os prados e as
vinhas? «O campo não possui nada que os atraia.» Esteticamente,
talvez; e necessârío .viver antes de contemplar e, con10 se diz na
minha região, <<a beleza não se come à colher». Nias o que o campo
produz atrai, e fortemente. «Não vão lá passear?» Evidentemente.
O camp111g não data do século Xl!I. Mas vão lá «laboram, no velho
sentido da palavra; e negociar; e també111, ern Abril, colher o espi-
nheiro e as violetas. Os homens que modelaram, para o deleite dos

~~~~~~fo~ns~~;u:ta: d~ s
10
~!:~:i~~~
ed~cg~~/or~s°~so/~ii!~:
de pedra, nas velhas 1grcias: quem, portanto, os Julgana alhe10s ao
~~ci~3~~~~!
que chamamos o sentido ela natureza? E, no entanto, ao meditarem
iliante dos seus cofres fechados a cadeado. os grandes con1erc1antes
sonhavan1 con1 o senhorio que ac.lqu1ríria1n uni <lia ...
Divórcio entre a cidade e o camro? Que belo tema ele História
comparada ', que bela ocasião perdida! Era preciso ver cJaramente
a diferença profunda que, sob este ponto de vista, separa um pais
como a Alemanha, em que as cidades, isolando-se, com efeito, encer-
rando-se cm muros, ciumentas, irradiam pouco sobre um pais plano
que lhes é totalmente estranho pelo seu estatuto político, o seu direito,
a sua rncultura, e que se vrnga tornando-as impotentes - e um pais
como a França, onde desde cedo os campos, urbanizando-se, assimi-
1am o que podem de direito urbano e cnam a civilização relativamente
homogénea e coerente que foi desde cedo uma das caracteristícas
dist1nt1vas do nosso pais.
Na verdade não, a I<la<lc MéJia não teve sorlc cora Charles
Seignobus .

geografo, lv!. Deffont::nnes, subrc L.::. ho1nn1es et leurs travaux dans ies pays
de la nioyenne Garvnne - conclui u1n longo estudo com esta fórmula: «Um
pat's repovoado sem cessar}), Quem de nós, ao conhecer 1nt1man1ente un1a
região da França, não a fana sua? Não sena eu, hon1cm do Franco Condado
e do Jura (0 Juru, essa colónia de povoamento na charneira c.le vãnos mun-
dos}. Quanto ao acrescentar ainda que o camponês. se tivesse possuído «di-
1 qhetro)) e... os conselhos do professor departamental de agncuJtura tena
L podido, no século XIII. «melhorar as suas culturas>> - quando mais acima
nos expôs, menos mal (p. 130), o sistema das servidões agrânas (mas parece
que não o compreendeu no seu espinto) - será Jsto contribuir para difundir
ideias sãs e 1ustas?
i Não obstante afirmações teóricas, Ch. Se1gnobos (e isto não é o que
menos nos espanta) não conseguiu, em parte algun1a, mergulhar a htstóri_a
francesa no grande banho da históna ocidental em que se devena sugenr
que ela mergulha, num livro de vulganzação e de ed1:1cação popu!a,:. Voltemos
a ler o discurso de Pirenne sobre a Histo1re co,nparee e a expos1çao de Marc
Bloch sobre as condições <lesta Históna (Revue de Synthl:se Historique,
1.- XLVI, 1928) .

98

--------------
,.
i:
rt
,. *
ir·,•
* *
Pontos de interrogação, pontos de exclamação: mas haveria tam-
bém Âf)oiaàos á margem? Sem dúvida. Todavia, eu nem sempre os
1 pona onde tantos críticos competentes - 1ornalistas, políticos, mora-
f listas e outros - nos ensinaram gentilmente que era conveniente
1'. pô-los .
«Históna sem prolagomslas, 6 maravilha! No capítulo sobre
a Revolução, procurais Mirabeau? Não está lá. Danton? Não está.
Carnot, Vergmaud, Desmoulins, Hébert. . ., mnguém! Que magnífica

1[ audácia!» É verdade (magnificência ú parte). Mas antes de gntar


Aleluia, recordemos que Seignobos terçou as suas primeiras arn1as sob
as 1nsign1as de FusteL E que jâ o autor de A crdade antiga, se ben1
que a democracía não csteJa acostumada a saudar nele um dos seus
prus. afirmava que o úníco agente dos fenómenos sociais, é a n1ultidão .
·1 E podemos fcéhar as Inst1tuiç6es da antiga França sem ter aprendido
nada sobre Dagoberto, Carlos Magno, Luís o Pio ou Carlos o Calvo;
l nada, nen1 sequer o seu nome.
Mas a preocupação com os factos da vida quotidiana - estes
1 factos de que Se1gnobos faz, aliús, uma enumeração bastante estra-
1
nha: alimentação, vestuãrio, habitat e, em seguida, os «usos da Í3.1!1Í-
.'I
lia» e ... o direito pnvado, em apêndice? Havena, certamente, mmto
que dizer sobre a maneira co1no são, não apresentados mas enume-
- ·1 rados, por um autor preocupado, dir-se-ía, em deixar cuidadosamente
l os seus leitores ignorar tudo o que á sua volta preocupa geógrafos,
, historiadores, economistas, folclonstas, juristas em pleno trabalho .
j «O camponês habitava geraln1cnlc uma cabana pequena_, hünlida,
1 so1nbría ... , construída, a n1aior parte das vezes, con1 ripas de t11:idc1ra
j e com argila, etc.» Aí cstú ao que- conduzc1n (p. 140) cinquenta anos
de estudos sobre a habitação em França, tudo quanto sabemos sobre
l a extrema vanedade das formas, da disposição e do modo de cons-
trução das casas rústicas nas diversas partes do pais, lodo o complexo
de problemas apaixonantes que se põe a este propósito ... «O» cam-
j ponês e «a» cabana: será que eram pintados com outras cores na
época do maldito romantismo detestado por Se1gnobos?

l Continuemos: «O camponês alimentava-se sobretudo de papas de


farinha, de pão negro, de cente10, de legumes muito pouco vanados,
de toucmho e de queijo.)) Papas de fannha, sim; mas as sopas? (coze-
duras, ácidas ou doces). Pão, sim; mas as simples bolachas? E depois,
papas de quê? -Preocupa-me uma expressão: «legumes mmto pouco
variados». Aí está disfarçado esse grande facto da história da alimen-
tação, isto é, a diminmção constante do número das plantas alimen-
tares recolhidas no local. Não terá um longo esforço de simplificação
e de melhoramento levado, pouco a pouco, o homem a negligenciar
um número sempre crescente de plantas de recolha ou de plantas de
·1 menor valor; a reduzir a uma só, o tngo candial, a enorme variedade
1
99
l
...l " ' ~ - - - - - - - - - - - .. -------··-- ..- -
--
'
dos cereais panificàvc:s usaJos a11L1gamentc~ fi11ain1entc, a substituir
as papas cte milho nuúdo e de tngo mounsco, as bolachas e sopas de 1
todo o género, cm pleno uso ainda na França do século XVIII, por j'
uma alimentação cuJas bases vegetais são o pão de tngo candial e a !
lx1Lata? Enquanto, por um n1ov1mento inverso e cada vez mais ritpído,
a criação de uma vasta rede de circulação mundial leva à mesa, não li
apenas dos ncos citadinos mas dos operàr10s e dos camponeses, uma
gama scn1prc crescente de legumes e frutos novos recém-vindos dos
quatro cantos do mundo?
Entretanto, redução. estabilização, alargamento, progresso quali-
tativo, afinal de comas: diga-nos tudo isto, trace este esquema. Mas
quando assrnala a chegada dos canunhos de ferro, tenha, pelo menos,
!
!
uma palavra para acentuar que cada vez nHlls vão levar os Franceses 1
a não viver cxclus1varncnte do que produz o seu pais. Quando falar i
da fJaJc i\1éUia, n.ão deixe de rcl 1...·nr, nunut r_;~davra que seJa. que a i
l
ali111l!ntacão i'rancc.."Sa não ~ unliormc e exclus1varnentc francesa; que
os factos ·capitais ultrapassan1 a França - mas que, muitas vezes tam- j
bCm, não dizem respeito a toda a França; que cx1~te, alin1cntar e j
cu!inanan1cntc falando, alguma coisa mais que a França <lo azeite \
e a úa manteiga (e quantas c01sas para dizer sobre a manteiga!); que
pelo n1enos existen1 en1 França tanto regiões cuiinâr1as como regiões
!l
Jinguist1cas ... ou regiões vegetais. t
Dito isto, acrescento: não, a nreocupação pelas coisas Ja vida
quotidiana, num lmtonaJor francês, não poclena datar de !933.
O velho Monteil (Amans-Alex1s), para não ,r mais longe, já mvestl-
l.
~
g.iva estes terrenos desconhecidos quando, a partir de 1827, com~u:1ha
a sua Hi.<itárza dos FrancC!.w:s dos diversos estados. E n1a1s prox1n10
'
de '.h'.i', e úos nossc.::; Inêtodos, o excelente Rambaud, quando con1pilava
:i sua JJistõr1a da c1vi!itaçüo {rance.\·a. onJc aprendi tanto quando
tinha catc1rzc anos.

*
:f: *
Feitas estas restnçõcs, existem coisas boas no livro de Seignobos.
Grandes coisas, não. n.l!J'iro-n1e a lupótcscs un1plas que, ao agrU·
parcn1 111ilhares de pequenos factos dispersos, os esclarc~e:11 12e1a
sua aproximação e suscitam todo um labor fecundo de venf1caçoes,
Ucmolições e reconstruções: a própria vida de uma ciência e dos
seus c1cnt1stas. Pequenas reflexões, aliás inc1s1vas, cunhadas por
um hPm senso um tanto ou quanto linutado, vigoroso e cáust,co nos
' ~:eus linütes. Nelas a forma e o contorno são n1a1s vezes negativos que
j pos1llrns. e mais desiludidos que entusiastas: é o qmnhão de_ Seigno-
bos. As boas fadas suas madnnhas não lhe concedernm md1car ale-
.í orcn1cntc os can11nhos novos. excitar os viaJantes á ousadia e os
' ~venturc1ros às descobertas. Zombar do cntus1asn10; ensinar que se
arnsca n1u1to quant.lo se põe um pé â frente do outro (cair num 1

!00
J
;
'' buraco, ter um entorse, partir o nanz ... ); enfim, a todo o compn-
mento da estrada real dos estudos lustórícos (e sobretudo nos cruza-
1 mentos e bifurcações). levantar marcos encorajantes: <{atenção. pengo
j' de morte/)). Isso. sim. é o seu tnunfo. É atê u111 tnunfo demasiado.
! Porque podemos, agora, 1r directamente a q~estão. Se1gnobos
li não escreveu o seu livro pelo vão prazer de escrev1nhar. Ou eu me
engano completan1ente sobre a sua intenção, ou ele se propô~. cr~ar
um livro de educação popular. susceplível de uma larga_ d1/ usa o.
Livro de educação e, simultaneamente, é necessàno acredita-lo, livro

!
!
de 1n1c1ação à h1s[ór1a, aos métodos. ao seu .espirito, 3:0 ~eu obJecto7
Apreciada deste duplo ponto de v1:,ta. que dizer da Hzsrorra surccra.
Que ela é. na verdade, desconcertante. E. antes de 1na1s. pc-!o se~
confornusmo. Porque este livro é, de uma ponta à outra, trad1c1onal
1 A concepção do seu te1ua? Scignobos ton1ou-a <lo don1tn10 publico.
i Ao Jongo do seu livro, f:12 da França un1 <{dado acabado». urn leito
i predestlnado que, prov1denc1ahnentc prepar~do, espera desd~ a pr1-
l
j me1ra página dr:. !Jistór1a su1ccr<! que o Eleito nel: se d~tte .' E, no
entanto, teria eu sonhado que Vtdal de la Biache ros 1nag1stralrnent:
j
\ o problema, há trinta anos, no seu Quadro: rr?curar con10 e p~rquc
regiões heterogéneas. que nenhum decreto nom1nat1vo da Prov1Jcnc1a
!l designava para se unirem num certo conjunto, acab~ra~1, no cntant?,
p.or formar este conjunto: do genero do que. pela pr1me1r~ vez, capta-
t
van1os nos te_x~os de Çésar, _que clesenhan1 cem os seus ((hn11~es natu-
l..
~
rais» uma Gaha, pref1guraçao aprox1mat1va da nos_sa França.
Mas formar um tal conJunto é muito e não e nada. Porque ele
não tem valor se não se tiver mantido. Ter-se-iam podido constituir
' cem con1untos diíerentes, e constituíram-se, t~mpor_'.1ríamente. m_'.1S
não duraram, e nós 1gnoramo-lo.s porque a h1stor1a nao reg1st;~ senao
as coisas que rcsultnn1. Con10, porquê, apesar de tantas_ <{O!.crtas)>.
con10 teria di!o Lav1s~:c. tantas tcnlal1\'HS falhadas d(.." na1;0L'.s .1 ranL·(1-
-ingJesas, ou franco-ibéricas, ou .franco-renanas, supostas poss1vc1s ou A

por vezes ten1poranamente reallzadas nos facto~ - como, porque a


fo,mação Gallia. após tantas tonuentas, consegum sempre ,:eaparecer
e reagrupar em redor de um gern1e (cuJa no_ção fecun_da n~o aparece
cm parte aigun1a, no livro de Ch. Se1gnobos) _os nzembra d1s1e__cta que
acontcc1mcnlos. que qualifican1os <{acaso», t1nhan1 tcmrornri.1n1en!e
dissociado do coÍ11unto? Não teria exístído ai, com efe1t<:, sena'?
«pressão mecânica dos acontecimentos exteriores», ou en~ao. sera
ncccssãrio considerar outros factores, os que Benda queria trazer
á luz? - E amda, quando falamos de Franceses desde o começo de
uma h1stóna que se diz de França e continuamos a falar deles ao longo
de toda essa h1stóna, teremos razão? Não deveríamos antes, em todas
as épocas, preocupar-nos em dizer quem eram esses Franceses - pre-

' Indiquemos simplesmente que quando o livro for posto á venJa. l_!n1a
1 cinta de papel prometia en1 cada exi::n1plar: «A Verdade contra a Trad1çao».
'
1 !OI

J_
1/ 1
tÍi
"1',]
Jl
cisar o que denommamos Franceses em determinada data e o que l1
!;~:
exc1uimos da França, e quais c-r:un, nos aspectos importantes que nos
'';'.
mteressam, os sent1me11los dos excluídos, dos Franceses separados?
ij;, É cómodo escamotear uma questão. O problema permanece e ê 1

1'
preciso enunciá-lo se se quer dar ao público uma verdadeira lição de
mdependêncla de espífi10. Esse problema :que Vida! punha como
l
ff grande geógrafo. Benda como metafísico msístente. E que Se1gnobos
,,í recusou pôr como historiador. Porque a própna noção de problema
permanece estranha para ele, e «repugnante» a de hipótese. Nova
fidelidade a ideias de sempre. ·
J:i Sentido do movimento, v1rtude cardeal do histonador. Recusa
de tomar como postulado uma espécie de necessidade perpétua das
nações e das formações políticas. consideradas permanentes por
j
li,, direito através dos sCculos. Gosto <la vída que não e senão constru- :l
1)
;
1
ções e demolições, reuniões e deslocações. Sendo antigo, não é rico
de sentido este texto, que recorda tão bem ao histonador a perpétua l
,1
1
relatividade do seu .trabalho? «As sociedades morrem; das suas ruínas
nascem sociedades novas; leis, hábitos. usos, costumes, opiniões, l
11 mesmo pr1ncip1os: tudo 111udou ... A França deve refazer os se1rs ana1s J
pura os pôr en1 relação co,n os progressos da inteligência.» O próprío
cspinto da lustàna? Sim. Definido por Chateaubnand.

í
1
1
j

~ 1
l
·.·JÍ!

1
j
!1
t
l
·

1
102
1
l1
1
l
E O HOIIIEM, EM TUDO ISTO?
j
l A propósito de um manual

l
l Repetimos. Repisamos. Damos a 1n1pressão de nos encarniçar-
mos. Contra homens? Claro que não. Os hon1cns executam. en1 plena
J consciência, o programa que lhes traçaram, e que eles aceitaram.
Fazen1 a história que lhes ensinaran1 a considerar con10 lnstória. Mas
para nós essa Justóna é moperante. Questões de método? De tempe-
ramento também? Em todo o caso, conflito nítido, oposição nítida de
duas escolas.
Eis portanto mais um desses manuais que. tantas vezes, nos sus-
citam reservas. O título é sedutor: De111ocracras e capLtalisn10. Quan-
tos problemas! Na verdade, quantas reflexões trágicas sobre esses dms
temas de uma amplidão desconcertante! Quantas lições críticas e pos1-
t1vas a dar aos Jovens - e mesmo aos velhos que, por acaso, atraídos
nelas promessas de uma bela bandeira. abr1ssen1 com uma cunos1-
dadc calorosa esse grande livro, <lc aspccln sunpúl1co'!
Abr1mo-Io, pois. ·É, se não 111c engano, o pcnúltín10 dos livros
que faltam para completar a colecção Peup/es et Civilisa!ions' Trata
da Europa e do mundo entre 1848 e 1860. Trata como um manual.
Com (no que concerne ao obJecto próprio dos nossos estudos) pre-
1 conceitos e esquec1n1entos 1gualn1cnle singuiares .
Não que não dê lugar à economia. Descreve a «revolução dos
transportes» e os progressos das técmcas mdustnais; anuncia o advento
do crédito; mas sobre a estrutura saciai dos povos e das nações, nada.
As cmsas, está bem. Os homens? Que vmam eles fazer às oficinas
de Clio?

l
Portanto, nada sobre a evolução das burguesias durante este
período tão rico em factos sociais. Nada sobre a evolução das massas
de artífices e operános <.la mesma época. Nada do conflito VIVO e car-

• Pans, Presses Un1versitaires, 1941; 640 páginas 1n-8. (Col. Peupies et


0

Civilisat1ons. vol. XVI) .


1
103
na! das iderns encarnadas nos homens e nos seus agrupamentos pulu-
lantes e contraditónos. O livro move máqurnas. não seres humanos.
Conta, enumera, arrola. rncansavelmente. Aqui estão, na página 201,
as «caldeiras Belleville», os «aquecedores fiarcot», aperfeiçoados pela
Sociélé lnduslnelle de: Mulhouse, as turbinas de Tournaire, «os moto-
res de ar quente de Ericson, 1862, e de Franchot, 1853, de fraca potên-
cia», e «os n1otores a gás que, inventados pr1me1ro por Lebon, em
1801, conhcccn1 a arlicação 1nduslnal c1.,rn o n1otor de Hugon, cm
IS58, e sobrcluJo con1 a 1nàqu1na horizontal tlc Lcno,r., en1 18601>.
Pergunto-me o que estas ladainhas - um nome, uma mãqu1na, uma
data; un1a n1áqu1na, un1 nome, unia data - podem acrescentar de
1ntcligi\'cl para un1 leitor cujo cCrcbro não se reduz 1ntcíran1entc a
uma n1cm6nca n1cc~i1úca'! Enu1ncraçõcs: mas onde cslú então posto
a luz o novo papel que as n1aqu1nas assumcn1 na vida úos hon1ens?
E qual é esse papel?· E quantas máqumas dessas, proporcionalmente?
E que rcn<lin1cnto? - E1n poucas palavras. não obstante un1 belo
título que Lodo o cc-ntcüdo <la nbra parece fcilo para trair - não
lemos ali un1 livro de h1stôr1a, n1~L<; u111 111::inual, scn1prc um manual.
No mau sentido da palavra. fvías enfim. são precísos manuais? É ver-
dade. Para as crianças das escolas, são prcc1.~:os livros ciúss1cos. Os
autores entendidos que a colecção Peupfes et Cívilisa11ons mobiliza
não trabalham para essa clientela. Para ela, admito livros de leitura
ben1 feitos - e livros de consulta r,rec1sos, com a condição de que
ludo o que ensmam as cnanças desague na vida. E que, se reunirem
factos, se.1an1 muito poucc-s factos, n1as bem escolhidos, de in1por-
tânc1a rcaL cxr:Iicados vcrdadc1ran1entc a fundo. Con1 a condição,
sobretudo, de que não procuren1, mas proscrcvan1 as fórmulas, as
aterradoras fórmulas que se ar,renden1 «de cor» e dispensam para
toda a vida o~; preguiçoscs do trabalho de Julgar por s1 própnos:
pcc:adn trabalho, di:1ntc e.lo qual a n1a1or rartc dos homens recua
teimosamente ... - Quanlo aos Jovcn.c; de 17, de 18, c.le 20 anos, que
entram nas Facuidades; quanto aos homens feitos, cnn1 mais razão,
e aos professores que preparam os seus cursos- digo resolutamente:
não. Inventários de questões bem feitos: há jú alguns bem sucedidos
na colecção Clio (alguns. nem lodos; mas existem os modelos). Isso
sim. 1nc1ta. ou pode 1nc1tar, a pensar, a procurar. a ler. Manuais
{(fechados» e cuja ambição se reduz a descrever todas as coisas de
fora, con1 o máx1n10 de porn1cnorcs, tendo em vista o lugar: não. não,
n1il vezes não.
E reparem ben1 que o que é verdadeiro rara a econon11a não o
e menos para a arte. O autor do livro encontra diante de sí Courbet.
Aqui, cito: «Courbcl. liberto de toda a prudêncrn pelo seu entusiasmo
revolucJDnáno dá, em· 1849, os Britadores de pedra; em 1850, o En-
terro de Ornans (cn1b1rrcnlos, restituamos-lhe o seu verdadeiro nome:
u i:nrcrro em Ornans); em 1851. as Me111nas de aláera; em 1853, os
Lwadores. depois. em 1854, Joerre,ras de tngo e Encontro: em 1855,
o Atelier.» Courbel, liberto de loda a prudência ... A fómrnla é

104

.
j
curiosa. Não acredito, na verdade, que um Courbet se tenha libertado
do peso das suas obras por «1mprudêncrn», ou por «entusiasmo revo-
1
lucionário». Mas deixemos isso. Esses títulos e essas datas? Aqui está
l
Courbet tão bem tratado como a máquina a vapor. Títulos, telas
e datas, datas, telas e títulos. Amanhã o Jovem Durand, de Mende,
1 que nunca na vida vm um Courbet (tanto como um aquecedor
Farcot), e o jovem Dupont, de Béz1ers. que tem Jeito para a hístóna
(dotado de uma memóna de cavalo, vai mal em francês, em filosofia,
J em latim, cm grego e não percebe nada de matemática, o que o vota
irremediavelmente a Clio, esse ganha-pão dos recusados) - estes dms
futuros «historiadores», portanto, lerão, relerão, repetirão cn1 voz
alta, cinquenta vezes se for preciso. esses oito títulos e essas oito <latas,
com un1 zelo funoso: «e: hiic-.. dc sabê-to tão bcn1 que, de un1a assen-
tada. o von1itarão de cor, de trüs nara a frente». Perfeição gargan-
tuesca. i'vfas. mais astucioso. o Jovcn1 I\1artin, de Castclnaudary, lcn1-
brar-sc-á talvez de arrcn<lcr noutro livro algu111as daias e alguns
títulos suple111cntarcs. Porque, afinal de contas, porque não esta outra
lista courbél1ca: «O Retrato de Baudeiaire, de 1845: o poderoso
Berlioz, de 1848; o Homem com cinto de couro, de 1849, o Homem
co111 o caclunzbo, de I850; a Cc·;a en1 Ornans, 1849; as !Ja11/usras,
1853; o Rochedo das dez horas, 1855, e e, Halla/i 1858?» Outras tan-
tas obras-primas: oito contra oito - e esse sonso do Martí11, muito
capaz (tão dotado que é!) de contammar as duas listas, passará à
frente de Dupont e Durand derrotados, e receberá depressa a sua
licenciatura. como Nosso Senhor Janotus! Pois a regra do jogo não
é: dizer todos os factos, os nomes e as datas que se sabem, em dez
linhas, ou em duas págmas, ou em dez, segundo as proporções do
1 exame?
Assim se fahr1can1. assim se ricrpetuan1 estas gerações de histo-
ríadorcs scn1 idc1~L<.:, scn1 ncnsan1cnlos. sctn exigl!nctas intclectuats e
que se sustenta111 de norrÍcs, de títulos e de datas. Impàvidos, eles
repetem e repellrão até à etermdade, ao começar as suas lições, ou,
ai de num. cs seus livros, essa~ fórmulas magníficas que encerram a
Sabedoria e a Filosofia da Escola: «O período que vamos estudar con-
tinua o que o precede e anuncia o que se segue. ·É notável pelo que
supnme. mas também pelo que estabelece», etc., etc. - Exagero?
Ai de mim, cito, apenas (p. l ): «O período que se estende de 1848
até por volta de 1860 impnmiu a sua marca na lustóría (?), quer pelo
que destruiu quer pelo que começou a constrmr. .. Neste sentido, o
movimento de 1848 pertence ao período antenor e conclui-o. Mas
é também um começo, e orientou o futuro.» Porque não fazer destes
textos e de alguns outros, sob o título sedutor de Ideias gerais (ou
mesmo. se preferirem, de Filosofia da históna), uma boa edição
muda- quero dizer, datas e nomes em branco? Cada um preenche-
ria os espaços à sua vontade. E estou a ver o histonador de Ramsés II,
Sesostns, a começar: «O período que se estende de ... a cerca de ....
1 imprimiu a sua marca na História», etc.
1
105

.J
Depois disto, espantemo-nos com as cóleras e as iromas de tantos
bons espiritos que, ao virem para a hístór1a, acreditam encontrar em
livros des,e género a satisfação das suas curiosidades e, feita a exp<>-
ríênc,a, se 1rntam por ver tantos esforços, dinheiro e bom papel
impresso, não conduzirem senão a propagar essa filosofia- essa con-
cepção de uma história psitác1ca sem mistério e sen1 vida, de uma
h1stóna cm que já nmguém sente, para utilizar a linguagem de Paul
Valéry (que deliberadamente faço questão de cllar), «essa suspensão
ante o incerto que· caracteríza a grande :sensação das grandes vi-
das- a das nações diante da batalha em. que está em Jogo o seu
desl!no: a dos ambiciosos na hora em que vêem que a hora segumte
será a da coroa ou do cadafalso; a do arl1sta que vai descobrir o seu
mármore ou dar orden1 de rctJrar os arcos e as escoras que ainda
suportam o seu edifício». E se fosse só isso!
Retomo o livro. Totai ausência dos homens. Nenhuma preocupa-
ção co1n o que eJcs foram, con1 a sua formação, com o seu caracter.
com a sua psicologia. O ser humano que sente, que pensa, que sofre,
que age, que goza: não usamos cá disso. Por três ou quatro vezes,
mcnc1ona-se a intervenção de um tal Marx. Ou, por outro lado, os
livros de um certo Comte. Quanto aos homens que usaram esses
nomes: porquê interessarmo-nos por eles? Títulos, nomes, datas,
tilulos, nomes. ai está a resposta para tudo. De tempos a tempos, no
entanto, urna fórmula. Eis, enumerados, os últimos escntos de Au-
guslo Co111tc: <~0 sentimento encontra ai Jugar ao lado da 1nteligên-
cia - e o an1or guia a acção.» O Anzor que guia a Acção e o Senti-
1ne11to que encontra o seu lugar 110 lar da lnteligência: doís ·bons
temas para medalhas, na verdade. Mas parece-me que para Dupont
e Durand, seduzidos, há rnmtas possibilidades de que estas palavras
bem aplicadas tomem, toda a sua vida, o lugar de Augusto Comte- e
ressoem no vazio dos seus cérebros incultos, num nada de pensa-
mentos e de experiências. E é isso que me assusta. Porque toda a peda-
gogia va, longe - e a da h1stóna talvez mais longe que outras ...
Resumamos: Ausência de mdividuos enquanto ta.ts. Impossível
<liscnnunação entre os 1ns1gnifícantes e os muito grandes. AcumuJa-
ção uc mcdiocrnladcs que nos levam a perguntar que têm a ver com
a h,stóna. Murger, Lapralie, quem mais? - Vamos, uma vez mais,
e não será a última; uma vez ma.ts, e sem estabelecer preferências
entre pessoas (será preciso dizê-lo), repitamos essas coisas Jil1portan-
tes. Essas coisas que os manuais nunca dizem, e que portanto é pre-
ciso proclamar não uma, mas dez vezes: «O homem, medida da
l11stóna. Sua umca medida. Muito mais que isso, a sua razão de ser.»
Nas velhas casas do Franco-Condado, no tempo da minha juventude,
havia sempre, ao fundo da alcova dos velhos, um DEUS ÚNICO,
emoldurado de negro. Os Annales estão prontos a mandar fablicar,
para uso dos histonadores, tantos HOMEM UNlCO quantos forem
precisos para a sua satisfação pessoal. Vamos, quem se inscreve?

106
CONTRA O ESPiRITO DE ESPECIALIDADE

Uma carta de 1933

MEU CARO AMIGO, lamento a sua decisão, lamento-a mesmo


mmto. A Enciclopédia QUER agrupar, DEVE agrupar os cérebros,
j em todos os domínios da investigação francesa. Agrupá-los-á, já os
'.J agrupa. Tena desejado que o vosso não faltasse ·ao apelo.
Responde-me três coisas: Trabalhos iá prometidos- e a isso,
j' nada tenho a dizer. Extrema dificuldade e desproporção do esforço:
· demasiado trabalho matenal para demasiado pouca 111íc1at1va inte-
l lectual. Aqui já começamos a discordar, porque, muito pelo contráno,
, a parte de imcial!va e de inovação na obra que eu queria ver empreen-
] der, parece-me enorme: não se trata de fazer um álbunz de ltnagens
·1 com o pequeno comentáno restnto que se lê ao fundo da página em
l todos os álbuns que se dizem «comentados»; trata-se de escrever belas
j págmas de h1stóna e de geografia com a aJuda de representações
,.l, aproximadas e con1binadas, apoiando-se e esclarecendo-se uma à
. outra: tnapas, quadros estatisucos e vistas propriamente ditas reuni-
1 dos nas mesmas pàgmas, com uma pesquisa mteligen te e engenhosa
1, de processos novos de apresentação e também de tradução (fazer
,, vanar c,s números de um quadro estatístico, desenhando de outra
1 maneira os «periodos». inu1g1no, e mostrar, perante o mapa 1mu-
•1· tável e a «fotografia-testemunho», as consequências, etc., etc.). Sim,
é difícil: não mecanicamente (se bem que o talento mecânico não
j se.1a cmsa para desdenhar;, mas intelectualmente. Tão difícil que, da
·/ primeira vez, não se chegará à perfeição. Mas a Enc,c/opédia é uma
obra em evolução permanente e que, de ano para ano, se completará,
, se aperfeiçoará, se refará.
·1' Enfim, terceiro argumento - e ai, é o desacordo total. Diz-me:
«Onde está a Geografia em tudo isso»? Mas, meu caro arrugo, está
ern toda a JJarte e e,n parte nenhunza. Exactamente como a JustOria
da arte. Exactamente como o direito. Exactamente como a moral.
Exactamente como... não contmuo. Porquê? Porque não estou a
fazer uma Enciclopédia das ciências.

107
Repeli energicamente, violentamente mesmo, esse ponto de vista.
'1
·,
FJ:.'./,ntré!1-r, r!i:::,-;rP rL~ :-.-:!:'!": :-:~, ~:-:~ .• :.:-::.:v.:.'.:,·1. '."~:!.:::":/:::·...-~::.:, ~-':' t2n ii;
11utávd fJJ6,uJ(): eic unrrn-nos traztdo uma classificação completa das ·_,_,
ciências e pedia que, umas após outras, cada uma das que tmha
f apurado (e estava Já a geografia, e a moral, e; a lógica, e a metafísica,
e o diretto, e a estatística, etc., etc.) ttvesse na Enciclopédia o seu
;_~.
'!
1
capítulo, pequeno ou grande, em que as belezas do espírito especia- :_.j
lista se desenvolvessen1 mais uma vez. Não, não e não.
Este é o ponto vivq do debate entre nós. Estou de acordo com
todos aqueles que não param de me repetir todo o dia: «Seja duro!
Nem uma concessão ao.espírito de especialidade, que é o espírito de
n1orte no estado actual do trabalho hun1ano»: c~tou r..lc acordo. atre-
:~"\J.::. 2. \'::!2 J.i::g1 t~'-.i:;. ~: .':..,."-;"'.'.!,)
Vt.1-n1t' .'.1 Jjzê-1(1, C(iD1Jg<" rr,.>rf!0. qü.:.~
conlra o c:,:;p1nrü Jç espç....:-1.:1.liJade - \"c'Jan1. en1 úlun1a anülis1:. os 1
n1eus ,:lnnales d'!Jisto!re .E·cononlique et Soc,ale- e disse: Não, as \
ciências não - t.-ssas con1b1nações circunstanciais e locais de elemen-
tos associados mullas vezes arbitranamente. Quebrar os quadros 11
abstractos, 1r çlirelto aos problemas que o homem não especializado
traz consigo, põe a s1 próprio e aos outros, fora de qualquer preocupa-
ção de escola, de qualquer «espinto de botão», como se diz na Mari-
1
i
1
nha - ê esse o meu obJcctivo desde sempre, desde a pr1n1c1ra nota j
rer.lig1da à pressa, em Outubro de 1932, que é o germe da Enciciopédia.
Por ai tornar-se-d. sensível a todos a unidade <lo espirita humano, a
unidade da inqmetação humana perante o desconhecido: essa unidade ·1
que mascara o pulular das pequenas disciplinas cwsas da sua auto- 1
nomia e que se aproximam deses~eradamente, também elas, de uma
autarqwa tão vã e tão íunesta no domimo mtelectual como no domi- 1.:;:
mo económico. Façamos, uns e outros. quando houver ocasião, Tra- 1
tados e Jvla11uais das nossas ciêttcias respectivas: ê uma necessidade
práiJca. Mas não terão valor hunzano senão aní1nados do largo cspi-
nto de unidade científica que, prcc1san1cnlc, a linctclo(Jédia quer ser-
vir e serv1rél. i
Esse pensamenlll é de sempre. E não trato nenhum segredo
dizendo-lhe que se me lance, na E11c1clopédia com tudo o que ainda
posso guardar de entusiasmo, é porque entrevi o meio. que subita-
mente me era dado, e da forma mais a11prevísta, de servir ideias que \
são desde sempre as rr11nhas e que, cada vez n1a1s. são as dos cien- 1
tistas que pensam as suas ciências no quadro da Ciência. Não. a geo- !
;)
grafia humana con10 tal _não figura na Encíclopé<lia. E rctol!lo a sua i
fórmula final, e o voto que ela expnme, para melhor traduZir o meu
pensamento: não. meu an11go, nunca a _geografia humana encontrará
«a sua casinha independente no edífíc10 enc1c{opCdico». Do mesmo
modo que a química, a botânica, etc. Sena a própna negação do
programa, do desígnio da Enciciopédia. Ela não é uma «cidade-jar- 1
dim» das ciências e das artes: cem pequenos pavilhões isolados, cada
um com o seu porteiro, o seu aquec,mentozmho central, e o dono da
casa com os seus pequenos hábitos; é a casa comum de todos os cien-

108

l
·'"'·
tistas e de todos os artífices, sustentando-se uns aos outros com_ as
suas ideias, os seus métodos, as suas procuras e as suas preocup~çoes:
reconhecendo que são trmãos de mtenção e de esforços, que tem i°s
mesmos objeetivos e que, do êxito. ou do fracasso de um, o ouro
deve tirar proveito e ensmamento.
Porque não peço a professores emmentes que componham M_'.'-
nums ou Tratados de anatomia, de mmeralogta ou de qumuca - nao
desprezo o poder mtelectual que a arte de fabncar o oxtgeruo, ou o
ácido sulí'únco, ou o prramido, implica. Faço outra c01sa, simples-
mente, e porque assim o decidi - com fins que ereto muito elevados,
muito úteis hoje, fins que à mrnha volta se esta de ac'?rdo em con-
siderar con10 tais: com este se, significo homens que sao os 1ncstres
nas suas <lisc1plinas, rcco11hcc1dos e consagrados con10 tais no n1urHlo
mtetro; mas que também estão preocupados com deitar abaixo as
r.Jivisórias e fazer ctrcular por cima das ca,xmhas fechadas em que
os especialistas operan1, con1 as Janelas ~odas fechallas~ . . a grande cor-
rente de um espinto comum, de uma vtda geral da Ciencia.
Paro e tenho de parar porque isto é o própno fundo do meu
pensamento, aquilo que me importa acima de tudo - desculpe-me,
pois, a expansão ... Dê ~-os seus alunos o Tratado que resumira, que
prolongarà a sua exper1enc1a e o seu esforço fecund~. no quadro da
sua disciplina: sabe que não serei .º. último a reg;:oz11ar-me quando
tiver enfim nas mãos, pensado e red1g1do per si, o ltvr? que nos falta.
'fvlas isso é uma cotsa, a Enciclopédia é outra, mwto dtferente, e tam-
bem lecrítima. Teria crestado que passasse de um plano a outro, como
os queº me seguen1 ~ e que servisse a u1n tempo não dois deuses
ciumentamente antagonistas e rivais, n1as o mesmo deus sob os seus
dois aspectos, o «local» e o <<u11lversaJ» .
Creia, etc ...

109
·:1

'D i
:_,_··,·!

f1 •
.1
ili'1 il
~f J
J
jl CON'J'RA OS JUíZES SUPLEN'J'ES
j
'J
'
J DO VALE D.E JOSAFA'J' J
! ·j
l !t
r I

CAMILLE DESMOULINS: HISTóRIA OU REQUISITÓRIO?
l1
' .1
! ·1
l

Historiador, destruidor de santos. O santo, hoJe é Camille Des- .li


.{
moulins. O meho, o seu V e/ho Franc1scano. ,, O destruidor, Albert
Math1ez. ' ]
«O Velho Franc1scano foi, não um gnlo de dor, mas a manha '
· calculada de um panfletáno numa situação aflitiva.» A sua veia de ·,,

'
1
í

J
<<satírico p1cardo e par1s1ense» é, demasiadas vezes, a de um «obscuro
pcnodista escocês» (entenda-se Gordon, autor do Discurso sobre Tá-
c110, 1728. e sobre Salúst10, múmcras vezes rcunpressos na Inglaterra
e traduzidos em· francês vânas vezes: A. !vfatluez estabeleceu que
Desmoulins se servw largamente deles cm alguns números do Velho
Francrscano). - <<Como urn aluno preguiçoso, como o jornalista pres-
sionado pelo trabalho, Dcsn1oulins colhe e reúne apressadamente
'
,j
;j
·,
·:·I

fragn1cntos recolhidos numa obra da sua hibliolcca.» E, scnUo assim, ·.l


~
«que pensar da sinceridade <lo maior dos <lantontstas»? }.
Estas cllações, que tiro da Introdução, informan1-nos acerca do 1
{(clima» da publicação. -É, na verdade, das mais sensatas, sérias e J
f aprofundadas. Dá-nos ele um texto mmtas vezes citado e sempre ,j
apreciado uma edição crítica, sólida, bem anotada, abundantemente
cheia de apêndices que, quanto a mim, tena prdcmlo ver agrupar e ·l
fundir conJuntan1entc, nun1 estudo prclin11nar - mas que, taís como '1'
estão. estão cheios de utilidade e de saber; proJectam a mais crua luz
sobre as circunstâncias da publicação, sobre o seu interesse, o seu ,
alcance, os seus efeitos e, sobretudo, o sentido político verdadeiro da 1i
estratêg1a que ela servia . '
1
Posto isto, repugna-me todo este tom de procurador perpetua-
mente tomado por um historiador - Matluez - envolto nas suas vir- l
'
Lihra1ric Armand Colin (Les Classtques de la Révo/ution), 1936.
Que não pôde acabar o trabalho: a sua morte prematura deixou esse
cuidado a um dos seus alunos, Henn Calvet, que dele se saiu muito bem .

110
tudes civícas e arrogando-se um <lirc1Lo de Juízo retrospectivo, um
• tanto infantil. em todo o caso bastante desconcertante, uma vez que
1 não se fundamenta sobre outra coisa que não seia o seu própno sen-
tido: «Acusado Desmoulins, levante-se ... Que tem a dizer em sua
J própna defesa? Afirma que a liberdade (n.º VI, p. 187) é «a frater-
J nidade, a santa igualdade, a recordação na terra, on pelo menos em
França, de todas as virtudes patriarcais» - mas está bem fundamen-
lado para fazer o elogio das virtuclcs palnarcms?» (sic: nota 5, p. 187) .
Não contmucmos. Toda uma geração de historiadores se deleitou
com estes procedimentos. Ergucn<lo. . se, con10 o Procurador Jc um
filme p0Iic1al, ocupou-se cn1 requerer as penas n1a1s severas conLra os
aclares ou os con1parsas <la histôr1a, cn1 1ion1c de un1a n1oral variâvcl
nos seus pr1ncip1os e de un1a política inspirada pela 1de0Iog1a ora úc
l «esquerda», ora de <(direita», indignando-se os procuradores- de es-
1 querda, de boa fé aliâs, contra O!-. Je direita, e rec1proca1nentc.
E tcn1po <lc acabar con1 estas interpelações rctrospect1vas 1 esta clo-
quência de Parquet e estes efeitos de pcuitóno.
O historiador não e un1 Juiz. Ao tcrn11nar a sua reedição do n.º I
do V e!ho Franciscano (p. 48), Albert Mathiez anota: «O fim deste
nLimero C pouco modesto. A pretensão <lc Dcsn1oulins de ser un1 pen-
sador é nsivel, etc.» - SeJa. Mas Jepms de ter lido esta passagem do
n.º V do Velho Franciscano (p. 164): «O que era, num momento de
guerra em que tive os meus dms irmãos mutilados e despedaçados pela
liberdade - o que era a guilhotina, senão uma estocada, e a maís
gloriosa entre todas para um deputado vítJma da sua coragem e do
seu republ ican1smo?» - q uadndobcncontro esta nota de rdodadpe:C{{Ê pe-
noso, ao 1er este exemp1o e ravura, evocar a atitu e e anu 11e
Desmoulins no mon1cnto da sua execução», sinio-me moraln1entc
1ncomodado. E, pesando as palavras, digo, tan1bên1 cu. ao pregador
de n1odést1a da püg. 48: <<SCJan1os 111udcslos, não faça1nos juízos.»
Em pr1n1eíro lugar porque, quando fazen1os história, não é esse o
nosso ofício. Depois ...
Cobardia, coragem, coragem. cobardia: estas pobres palavras pa-
recem-lhe tão claras, e tão sm1rles; acredita que se pode, humana-
mente, manejá-las com tanta certeza? Conheço mmtos homens da
minha geração que, feita a experiência (uma experiência que Mathiez
não fez), perderam para se1npre o gosto de as pronunciar.
Não, o histonador não é um JUIZ. Nem sequer um JUIZ de ins-
trução. E a história não é Julgar, mas compreender - e fazer com-
preender. Não nos cansemos de o repetir. É esse o preço dos pro-
gressos da nossa ciência.

11 1
.:z
J
J
li 1
·1 v
\m
.,! v
>l s
1m
1 ig
,l p
·/",. ) s
1
,1 c
' j T
1
,!
II /m
·;- p
UM LIVRO PRETENSIOSO SOBRE A REVOLUÇÃO ib
i] a
•1 to
Traz-me novidades. Novidades mesmo novas. Obrigado. Mas :1 d
caber-lhe-ia a s1 espalhã-lo aos quatro ventos? Veremos se isto é ver- :/ q
l
dade. E di-lo-emos. Se no-lo deixar dizer em paz ... 1e
Na verdade, caber-lhe-à a si proclamar-se, implicitamente, a j in
J úmca pessoa inteligente e clarividente? única digna de ser lid_a. )(
ouvida, aprovada? E para os mfelizes que o precederam e que nao iR
tiveran1 . pobrezinhos. ncn1 os seus dons, evidcnten1ente excepci~n.ais, ; te
nem o seu heroísmo, certamente sobrehumano, parece-lhe leg1hmo /a
apresentar 'esta simples alternativa: «Imbecis ou vend1dos»i . . i ta
Autor de um livro pretensioso sobre A luta de classes na prune1ra tv
República, o Sr. Dame! Guérm começa por lembrar aos seus ante- ,o
cessores (p. 368) que Trotsky os classificava de «falsificadores». )
Uma figura de retórica c1ceroniana 1 dizía P4nurgo. Por sua conta, o jc
1 Sr. Guérm trata-os como grandes finórios que, «astutamente», tenta- JA
' ram «extrair da Revolução Francesa a Justificação da sua dominação , te
~ <le classe.» Ah s1n1, todos. 1~odos esses h1stonadores democratas que F
! (p. 369) não conseguiram de modo algum desprender-se do «casulo
da democracia burguesa,> (bravo pelo casulo!). Pnmeiro, Jaurés. Esse
c
·J m
falso socialista. Que nunca rompeu o «cordão umbilical que o ligava , lo
1L
a democracia burguesa» (p. 371). Que nunca conseguiu, o pobre 1
homem, senão «digenr parcialmente>) o verdadeiro método mater1a~ id
lista. Que pretende ser, ao mesmo tempo, «matenalista com Marx e 'de
m1stico com Michelet». O que não é totalmente exacto; Jaurés apenas !n
escreveu: «A nossa mterpretação da h1stóna será, simultaneamente, ;o
matenalista com Marx e mística com Michelet»; e dir-se-á: «o que :jo
não é tão mau como isso, visto que Michelet, diz-nos o Sr. D~fl!el 'ép
Guenn, p. 370. e tem razão para nos dizer, «que ele, pelo seu ge:1m,
domina cem côvados acima todos os lustonadores da Revoluçao». c
Mas não é essa a sua opmião. Este conluio de Michelet e de Marx, E
é um mcesto. Não pode gerar senão bastardia. SeJamos puros . ·R

112
.:z
J
J . A J aurés _ainda se devem algumas considerações ... relativas. Mas
1
·1 veJamos Mathiez. Pobre Math1ez! Um 1mbec1l ou um vendido. Exacta-
\ mente como os outros. Do método materialista procurou, sem dúvida,
.,! vulgarizar (p.376) «aquilo que dele conseguiu compreendem - mas
>l seleccíonando: Porque «o que dele compreendeu», foi o que «oferecia
1 menor pengo. para a classe dominante». Você dá uma. grande gar-
i galhada á ideia deste Matl11ez a trabalhar para preJudicar o menos
,l possível esta boa classe dommante: não tem razão. Não tente sequer
) sugerir: «é porque era inconsciente; mas estava de boa fé ... » Impia-
,1 cáve1, o Sr. Daniel Guérin dir-Ihc-~l: Boa fé, não usan1os disso aqui!
j Todos esses hístoriadorcs dcn1ocratas são, ao fin1 e ao cabo, para
/ meter dentro do mesmo saco. <<Dominados como são pelas suas
·;- paixões», sofrem, todos, «a pressão dos seus 1ntcresscs de classe»·. De
i boa fé, de má fé? A psicanálise - esperüvamo-la, e sofremos por niio
i] a tem1os visto e:itra: ?m acção a .não_ ser nesta tardia página 388 do
•1 tomo II - a ps1canahse não tera feito esvanecerem-se todas estas
:1 distinções caducas? A verdade é que todo o lustonaúor da Revolução
:/ que não seja Daniel Guérín, <<n1enle». Talvez inconscienlemente,
1enquanto homem privado; mas, enquanto homem de classe, «mente
j intenc10naJmente e para melhor dommarn (p. 388). Ora, Mathiez
) (para voltarmos a ele), não vão pretender que, «funcionáno da JII
i República, leal servidor da democracia burguesa» (p. 378), se não
; tenha vendido, corpo e alma, á classe dominante? A outros! E quanto
/ a Georges Lefebvre, também ele (p. 379) «não se desprende comple--
i tamente do casulo da democracia burguesa» (feliz casulo. que pol!e
t voltar a servir tantas vezes sen1 se ga~ta:!); claro que devemos saudar
, o seu esforço. Mas «lamentar a sua timidez» ...
) A sua timidez? Alegria pura para um homem do século XVI
j como eu! Exístia jâ um «tímido Lefcbvre>> na História. Eis agora dois .
J Ao d'Étaples, que, há quatrocentos anos, todos os doutnnadores pro--
, testantes de estrita observância lamentam ter sido Lefebvre, e não
Farei, e isso por medo, por puro temor de ser queimado na fogueira
como arenque fumado; porque para esses doutnnadores, não se pode
·J mostrar má vontade diante da doutrina a não ser por medo; ela é
, logicamente Jfres1stível; eis que ao d':Étaples, vem Juntar-se o de
1Lille; o que se chama Georges e não Jacques; este mestre na arte
1
idas alusões que, «libertas dos véus da prudência», _seriam «susceptíve1s
'de se transformar em claras e vigorosas conclusões» (p. 379). Porque
!não há dúvida: se Georges Lefebvre não fala de modo nenhum como
; o própno Daniel Guénn, isso é u111camente porque tem medo. Ps1co--
:jogia simples. Cordial. Subtil. A de todos os fanáticos, em todas as
'épocas .
A esse respeito, uma pequena dissertação sobre «a história impar-
cial» (p. 379-382). O sopro refrescante do bacharelato de filosofia.
E quando nos sentimos com pouco fôlego. uma boa citação de
·Raymond Aron - que não é culpado. Mas depressa se volta à ideia

1 J3
'
fundamental: os h1sconaúores burgueses? «têm todos qualquer c01sa '
a escondem (p. 389). Só o Sr. Guérin «não tem nada a escondem
(p. 389). Eles? Têm as mãos cheias de verdades. mas abn-las, nunca . ,
Causam deste modo \<á história» (mas quem é essa senhora?) um
pre)uizo «cuja import_ânc1a é 1mpossível detern11nar». Em resumo, ·
estes n1entirosos <<eng.inam-nos».
1
l Oh! O Sr. Guérín 'é um bom príncipe. Consentlfá em dizer, se lhe
pedirem mmto: «Eng,\liam-se ou enganam~nos» (p. 388). Expressão /
que lhe parece «n1enos descortês para co1n os n1estres que ... », etc.
'1
Mas, caro Senhor. tratar esses mestres como falsános, como Trotsky;
f
_.g1,
e, em seguida, como mentirosos; e. depois,, como fabncantcs de alu-
sões. «prudentemente» obscuras; escrever que os apanha em «fla-
·

l
',~
grante delito de diss1n1ulação» - será isto cc-rtesia? A cólera apow
dera-se de s1. «Porque não havian1os de ter o direito de nos encow
lenzarmos? (p. 389)» Oh, tem esse direito. Plenamente. «Encoleri-
' ze-se.» Como o Padre Duchêne. f. .. Mas ele era, aquele ... , era f..., .
rJ
< infinitamente mats divertido que você com as suas cóleras ao rubro, ·.
f... Venham o Padre Duchêne. Não deixava os seus créditos por mãos
alheias. Viva á sua vída e que nos deixem em paz com estas exaltações '
laboriosas de escritor. Que não tem propr1an1ente «as mãos vazias» .
Esse tom? Lembra-me qualquer coisa- ou alguém. Ah, sim!
·Georges Sore1. A brandir antec1padan1ente a sua «faca de cozinha»
contra Jaurés. O caro Sorel de Lagardelle e de Mussolim. - Viva o
Padre Duchêne, fowre!
Uma úluma palavra. Uma vez que somos todos ou idiotas ou
vendidos - isto é questão assente - porquê dedicar às nossas revistas
«burguesas», as nossas revistas «que têm qualquer coisa para escon~
der)), às nossas revistas que mentem e diss1mulan1, o seu livro? Não
foi você, foi o editor? Ah, tem-se enforcado. cm nome de boas dou-
tnnas. munas pessoas de bem que não unham desses conluios a pesar
r na consciência!
'
l
1
Dito isto. que era preciso dizer (e eu peço ao leitor que considere
que não sou. felizmente para mim. histonador da Revolução; que
mal conheci Math1ez, e de mmto longe; e que, portanto, intervenho
neste debate a titulo puramente gratuito: a título de bicho velho, sem

1 mais, que data do século passado e não compreende nada de nada)-


dito isto, se abordarmos o própno livro do Sr. Dame! Guérin, o que
C que ai iremos encontrar?
Um estudo, um inquénto em segunda mão, mas desenvolvido
e vivo, sobre o tema: «A Revolução francesa foi uma revolução bur-
guesa. Mas fm também outra coJSa: o esboço. o embrião de uma
revolução proletána. Tentemos demonstrá-lo. Exammemos com uma
atenção particular a lHStóna desta revolução proletária, apesar de
fragmentada. apesar de embr1onãna ... »

114

'j Aqui, tenho vontade de responder: «Mas, caro Senhor, exanune .
EsteJa à vontade. Pensa que vemos msso algum mconvemente?» Diria
,j mrus. Tenho muita vontade de responder: «Mas isso é evidente! Traz-
' -nos uma revelação súbita. Confia-nos o seu grande desígnio como se
·1 fosse miraculoso. Dir-lhe-e1 que, pela mmha parte, não veJo msso
l nada de miraculoso? E que, de antemão, estou bastante disposto a
1 acreditar em si? Li, exactarnente como qualquer outro, textos corno
/ Eestas cartas de Babeufdantenores a 1789, que sempre me encantaram.
1 porque recusana eu ar atenção aos factos que nos alega?» - «Ah,
1 porque está corron1pido por scntin1entos de classe! Você não é
·j trotskista ... - Caro Senhor, não sct nada disso: você també1n não.
Isso são assuntos 1ncus. E que cu scJa trotskista ou cstalinista, ou
papista, ou budista, o que é que tem com isso? Quanúo fa,'o h1stona,
sou historiador. - ln1bccil! E.slú ao serviço Je interesses que o donu-
nan1. E é tão tonto que nen1 sequer <lá conta Uisso. Ou então tão
canalha que faz con1·0 se ... VcJa, a n11nha argun1cntação é s1n1ples;
.1 consiste em oferecer-lhe a escolha: idiota? ou vendido? ou as duas
·.•j' coISas ao mesmo tempo? Não é um quebra-cabeças ... »
Falemos a serio. O inconveniente, entre n1uitos outros, dos pro-
'1 cessas de discussão que D. GuCr1n adapta. é que quase o nnpeden1
! de dizer: «Sou da sua opmião» - se se tem algum sentido da sua
, própna dignidade (mas afinal de contas, depois da psicanálise, haverá
í amda lugar para falar de dignidade própna?). Senl!mo-nos constran-
.1 gidos. Se o contradizemos. D. Guénn dirá que é por mteresse ou por
medo. Se o aprovamos, não será por medo, ou por mteresse?
Aprovamo-lo? Não se trata da questão de fundo. Pertence aos
j h1stonadores especializados no estudo da Revolução discuti-la. Tra-
ta-se do esforço e da tentativa. Pessoalmente, não veJO nada que me
l
- impeça de o aprovar. Defino de boa vontade a h1stór1a con10 ncces-
lsi<laclc <la hun1an1Jadc - a ncccss1dadc que senlc cada grupo hun1ano,
~ em cada n1on1cnto <la sua evolução, <lc procurar e de valorizar, no
.,· passado, os factos, os acontecimentos, as tendências que preparam o
tempo presente, que permitem compreendê-lo e que aJudam a vivê-lo.
1 E acrescento: reconstituir a mentalidade dos homens de outrora;
J meter-se na cabeça deles. na sua pele, no seu cérebro. para com-
~ preender o que foram, o que quiseran1, o que realizaran1; mas não
• considerar, entretanto. que dependa de um homem fazer parar a sua
-1 obra em determinado ponto. a partir do mon1ento em que essa obra
se difunda no mundo; estar, pelo contrário, atento a este drama
1 perpétuo do grande homem, do grande investigador, do grande mven-
11 tor, do homem de génio. a quem amda durante a vida a sua obra
escapa- a sua obra que se deforma, a sua obra que se altera, a sua
1 obra que, adoptada pela multidão e desenvolvendo os seus efeitos
! ao longo do tempo, acaba, muitas vezes, por dizer exaclJssimamente
o contrário do que ele quena que ela dissesse (ver Lutero e o lute-
ranismo)-, é este o dever do 111stonador. Então, caro Senhor. o
que é que poderá incomodar-me. na sua tental!va? Procuro-o em vão,

l 15
não o encontro. Não veJo senão injúnas. Elas incomodam-me. Não
rn~ torne r,or _?rn maricas. Sei dizer não ... exactarnente corno qualquer
ou.ro. Mas nao acredito nos g_candcc gestos sensacionais dos procura-
d;>res d'." cmerna. Nos reqms1tonos filmados. Nos desprezos do rnims-
1 teno publico. Perdoe-me. Sou um velho histbnador muito ridículo
Muita sorte para os nossos sucessores, se . esse tom vier a tor:
1 nar-sc regra.
1

D
q
1 d
t
d
p
n
D
q
<
d
p
h
d
·d
1 a
N
h
1 s
o
c
a
c
1 s
fo

l: 6
Sobre uma Forma <le llistórin. que não é nossa.

A llISTólUA HISTORICIZANTE

L1 com cuidado, e naturaln1ente com interesse, o livrinho que


D meu velho amigo Lorns Halphen, aproveitando os ócios forçados
que o Governo de Vichy lhe proporcionava, compôs na solidão, longe
dos seus livros roubados e dos seus papéis dispersos pelos <<Ocupantes»,
tendo por úmco apo10 a sua experiência - a de um histonador que
desde 1900 não parou de trabalhar, ora pDr sua conta pessoal, ora
provocando e dirigmdo o trabalho dos outros: penso, naturalmente,
na colecção Peuples et Civilisaiwns a que se liga o seu nome, com
D de Sagnac.
Halphen intitula esse livrinho hziroduçüo à h,stóna. ' Mas, mais
que uma Introdução, é uma Defesa da h1st6na que ele empreende .
<1Nunca se contestou tão vivamente, diz-nos ele, a utilidade dos estu-
dos históricos ... Não ê meu intento advogar un1a causa que se defende
por si própna ... » Ah! parece que 1H:1n por isso; se assnn não fosse .
há muito tempo que os ataques tcrian1 cessado. Louis Halphen bc111
desconfia, p01s logo empreende a defesa, a Justificação de urna tornada
· de posição hà muito tempo conllecída, e sem m1sténo .
«De todas as fidelidades, escreve o Gide dos Pretextos (p. 97),
a fidelidade a s1 própno é a mais estúpida, se deixa de ser espontânea.»
Nada de mais espontâneo, logo de mais legitimo, que a fidelidade <lo
hístor1ador de Carlos l\1agno ás suas ideias. Ta1 como o encontramos
sob os seus galardões, tal como era ao sa!f da École des Charles:
o paladino convicto dessa forma de história que Henn Berr bapl1zou,
com felicidade, l11stóna h1slonc1zante. Lorns Halphen dedicou-lhe
a vida. E se hoJe nos dota de urna Introdução á h,stóna, é preciso
compreender que não é nada á universal Clio que ele oferece esse
sacrifício- a Clio abrigando sob as pregas do seu peplo todas as
formas, todas as vanedades, todas as diversidades de escolas h1s-

1
Paris, Presses Univers1taires, 1946 .

117
róncas. como a \·irgi:n1 úu .i\Iist'ri-.::urdia abr1g:1\·a sob o seu manto
rodos os representantes legíun1os da cr1stnnJade. ivlrus n1odesto,
e mais orgulhoso. Halphen não pensa senão numa certa forma de
lmtóna: a que ele cultiva; e concede-nos· a honra Je pensar que
todos a aceitamos como a Iimca que vale. Introdução à história?
Defesa da lus1rir1n? Não. Discurso de defesa da História historicizante,
:1>('1,·:1 ,/:1 q11:ii Hcrr ,··:,·rL'Y1:1. cru !911: «J.Iti u111.1 fnrn1a ele história
1
que, ln1stanJu~sc a s1 1nesn1a, pretcnUe alén1 Jisso bastar·ao conhec1-
n1ento histórico.» Esta frase r·cgozija-n1c. Const1tu1, por st só, o re- l
sun10 crillco do livro de Louis I-:Ialphen. t 1
·1
* ,
* *
1
O que é de facto um h1stonaJor h1stonc1zante? Utilizando os ter- ,
mos de uma carta que o própno Halphen lhe escrevia em 1911 Henri j
Berr respondia. em suma: um homem que, trabalhando sobre' factos 1
particulares por eie mesmo escolhidos, se propõe ligar esses factos 1
entre s, coordená-los e Jepo1s (cito o Halphen de 1911) «analisar as j
n1u<lan,.. is políticas, sociais e n1ora1s que os textos nos revelam num i
dado momento». As mudanças pamculares, entenda-se, porque, para j
o nosso autor, a h1stóna define-se como uma ciência do particular.' )
Ora. abramos a Introdução à h1stcma de 1946. Ao longo Jo livro, i
três capllulos fundamentais: I. O estabelecimento dos factos; II. A
coordenação dos factos: Ili, A exposição dos factos. A doutrma,
a velha doutrina Jas d~as operações que constituem a História, não l
·j
mudou: pnme1ro estabelecer os factos, Jepo1s trabalhá-los. Assim pro-
cediam, dizem-nos. Heródoto e Tucídides. AsSJm Fustel e Mommsen. 1
Assim wdos nós hoJe. Espero bem. Mas. estabelecer os factos, depois 1
trabalha-los: ai cstâ un1n dessas fórn1ulas claras que <lc1xam ansiosos,
e atón1to.s, todos o.s cspinto.s curiosos ...
Porque enfim. os factos ... A que chamam vocês factos? Que é
que põem atrás Jessa pequena palavra, «facto»? Pensam que os factos
são Llados a h1stóna con1? realidades substanciais. que o tempo enter-
rou n1a1s ou nicnos proJunJan1cnlc, e que se trata s1n1plcs1ncnte de
1
desenterrar. <lc Ji1npar, de apresentar sob uma luz intensa aos vossos i
contcmporftnco.s? Ou rcton1a1s por vossa conta o dito de Berthelo[, i
que cxalta\"a a quiin1ca· a seguir aos seus prunc1ros triunfos - a qui-
llllca, a sua química, a única ciência entre todas, dizia ele orgulhosa-

' L'h1s101;e tra_dino1111elle et la sy_nthése histonque, Pans, Alcan, 1921,


146 pp. A «D1scussao corn um h1stonador h1stonc1zantc>1, que const1tu1 o
fundo do t:apitulo li, úattl. ià 1.h: !91 l.
J Uni particular que, captado dentro de uni mesmo círculo de c1vilizu~
ção, nun1a certa cpoca, se asscn1elhana cxtreman1ente a um geral. A darmos
audiência a essa grundc senhora, cara a Pirenne. cara a 1'vlarc Bloch, carJ
a todos nos aqui, que 'jC chan1a história co111parada.

l l8

__ _jj_
mente, que fabrica o seu ob1ecco. No que Bcrthelot se enganava. Por-
que todas as ciências fabncam o seu obJecto .
Para os nossos antecessores, os contemporâneos dos Aulard. dos
Scignobos, dos Langlois, para esses homens a quem «a Ciência>> se
impunha tão fortemente (mas eles ignoravam tudo da prática das
ciências e dos seus métodos), para eles é bom 1magmar que um histo-
logista é um homem a quem basta meter no seu nucrosoóp!O uma
tira de cérebro de rato: capta imediatamente factos brutos. factos
l indiscutíveis, factos <<cozinhados», se me atrevo a dizê-lo: não resta
1 senão arrun1á-los nas suas gavetas. Dádiva. não de Míchelin, n1as da
1 própria Natureza ... Ivlu1to se terian1 espantado os historiadores nL,ssos
, antecessores se lhes Jissessemos que, na realidade, un1 h1stolog1sta
fabrica pr1n1e1ro, con1 abunú:1ncia de técnicas delicadas e de corantes
1 subtis, o próprio obJccto das suas pesquisas e das suas hipóteses. (<Rc-
, vela-o» de certa maneira, no sentido fotográfico da palavra. Após
j o que o interpreta. «Ler os seus cortes», operação que não e simples.
1 Porque descrever o que se vê, ainda passa, n1as ver o que se Jeve
1 descrever, isso é que C terrível! Sín1, 1nuíto tcrian1os espantado os
j nossos antecessores ao defimrmos os factos, como um filósofo con-
i temporâneo, como «pregos a que se prenden1 as teonas». Pregos que
j é preciso fabncar antes de os pôr na parede. E. tratando-se de h1st6-
) ria. é o Justonador que os fabnca. Não é, como ele diz, «o Passado» .
i Ou, por uma estranha tautologia, «a h1slónai>.
lj Estão de acordo? Digam. Não estão de acordo? Discutam. Mas,
por favo·r, não passen1 sobre este problema cn1 silêncio. Este diminuto
problema. Este problema capllal.
1
1 *
*
Ai está um pr1mcíro silêncio que nos separa. E quantas conse-
quênc1as!
1 Ouviram os n1ats velhos repetir bastantes vezes: «O historiador
i não tem o direito do escolher os factos». Com que direito? Em nome
i de que pnncip10s? Escolher. atentando contra a «realidade», logo
contra a «verdade». Sen1pre a n1esn1a ideia; os factos, pequenos cubos
' de mosaico, bem distmtos. bem llomogéneos, bem polidos. Um tremor
de terra deslocou o mosaico: os cubos enterraram-se no solo. Retire-
mo-los e. sobretudo. velemos por não esquecer um único. Reunamo-
! -los todos. Não escolhamos ... Diziam isso, os nossos mestres. como
1 se toda a históna não fosse uma escolha. r,elo simples facto do acaso
,: que destruiu determinado vestígio e protegeu un1 outro (não faie1nos,
1 por agora, do facto do homem). E se houvesse apenas essa espécie de
i acasos? - De facto, a lustóna é escolha. Arbitrá.na, não. Preconce-
! bida, sim. E ainda isto, caro amigo, nos separa.
119

l
___
1-Iipóteses. program.1s de pesquisas, n1csn10 teorias: outras tantas
1/
co1sas que se procuram na sua introdução, mas que não se encon~
Ir tram lá.
1 Ora, sen1 tcor1a prévia, sem uma tenr1a prcconcebída, não há
,1 trabalho científico possível. Construção do espnlo que responde à
no:;so. necessidade de con1precnJer. a teoria é a própria experiênc1a
•'E da ciência. De uma ciência que não tem por obiecto último descobrir
1I' leis, mas permitir-nos compreender. Qualquer teoria é naturalmente
/. fundada sobre este postulado de que a natureza é explicável. E o
w homcn1, objccto da J11slúr1a. faz parte da natureza. É para a história
o que a rocha é para o mmeralogista. o animal para o biólogo, a
f estrela para o astrofísico: uma coisa a explicar. A fazer compreender.
Portanto, a pensar Um h1stor1aUor que recusa pensar o faclo hun1ano,
uni historiador que professa a subnlissão rura e simples a esses factos,
como se os factos não-fossem em nada fabricados por ele, como se
1 não tn·i:1.sen1 sido m1111n1amcntc escoll11dos por ele, prcv1an1cnte, e1n
todos us sentidos da r,alavra C!;colhido (e 11:ío podcn1 ser escolhidos
senão por ele) - é um auxiliar técmco. Que poúe ser excelente. Não
e um historiádor. 1

*
* *

l
'
E termino com a mrnha grande censura. Introdução à História.
Métodos da lustória, Teoria da históna, Defesa da história ... - Mas
o que é cn tão a Iustóna?
Vou-lhe dizer. .. Você recolhe os factos. Para isso vai aos Arqm-

! vos. Esses celeiros de factos. Lá. só tem de se baixar para os recolher.


Cestadas cheias. Sacode-lhes o r,ó. ?ousa-os na sua mesa. Faz o que
fazem as cnanças quando se divertem con1 <<cubos)) e trabalham para
r1_·conslllu1r a bela 1magcn1 qui.: a!guén1 decompôs para elas ... A par-
1 l!úa está Jogada. A históna estil feita. Que quer mais? Nada. Senão:

l saber porqur.?. Porquê fazer a h1slu1 ia? E logo, o que é a história?


N:io mo diz? Eni8.o \·ou-1nc c111bora. Lembra-me aqueles pobres
tipos a quem a Umversicble. por uma deplorável aberração, confiava
a tarefa- no entanto difícil entre todas -de 1n1c1ar nas materna~
tícas os «líteratozrnhos» que éramos, nos bancos do pnmeiro e do
seaundo ano do liceu, do terceJro. Como conseguiram impedir-me de
fa;er as matemáticas! É que eles reduziam-nas a não sei que revelação
de pequenos processos, de pequenos artifícios, de pequenas receitas

1 Há un1 índice de nomes de autores no livro de Louis I-Iaiphen. ·É um


testemunho a sua n1anc1ra. Não é significativo que não figurem lá nem
Camille Juli.1n, nem Henn Pirenne, nem Marc B!och, nem Georges 1:,efebvre,
nen1. no con1unto, nenhum daqueles que são para nó~ os h1stor1acto~es, 9s
verctildeiros h1stonadores deste tempo? Não falo de V1dal: a geografia nao
tem direito de cidade na história h1stonc1zante .

120
para resolver os problemas. «Truques», como nós dizíamos no nosso
calão de estudantes, hoJe antiquado ...
Mas ai está: os «truques» não me mteressavam absolutamente
nada. Davam-me «boas indicações>> para fazer qualquer coisa, s~m
nunca n1c dizeren1 porque é que essa qualquer coisa merecia ser .fe1ta .
Como e porquê trnha sido mventada. E, finalmente, para que e que
1s~o servia ... Para entrar um dia na Escola Politécnica? Mas a Poh-
técn1ca não é un1 firn em si. E jã nesse tempo (tanto píor para niim)
eu tinha algumas exigências de espinto fundan1cnta1s ... Então, era
n1u1to simples. Virava as costas âs matemáticas. E, de entre os n1eus
can1aradas, aqueles que não se interrogavam tanto, triunfavam ...
A história lustoncizante pede rouco. Muito pouco. Demasiado
pouco para 1nin1 e para n1u1tos outfos aié111 de n1in1. É essa t~a_ a
nossa censura: mas é sólida. A censura daqueles para quem as ideias
são uma necessidade. As ideias, essas valentes mulherzinhas de que
fala Nietzsche, que não se deixam rossu1r por hon1cns com sangue
de rã .

121
pe
1 ma
mg
tra
Ag
da
ca
rac
lús
DUAS FILOSOFIAS 'OPORTUNISTAS DA HISTólUA hn
fia
-ve
de
De Spengler a Toynbee a
lon

Sobre a minha mesa três livros grandes. Na pnmcua página, ma


um nome muito conhecido cm Inglaterra (e mesmo fora da Ingla-
terra), tanto por rnéntos pragn1ât1cos con10 ror obras científicas:
Arnold J. Toynbcc. Título: A Study o( Historv' Não tomemos o ar
de descobnr uma obra, que há yuem assegure Jcver colocar-se, pelo
seu estilo e pelas suas dimensões, ao Jauo da célebre obra de s1r James
Frnzcr. Tal como o autor de Thc: Golden Bough rnstaurou o estudo
comparativo das mst1lu1ções relig10sas «primitivas» - assim A. Toyn- de
bee pretende levar a cabo, numa vintena de volumes, um estudo de
comparativo das civilizações que a hun1ana.ladc sucessivamente criou: ren
o estudo. se quisermos, <las experiências 1lu1nanas cn1 maléna <lc dia
civilização. er
An1plu e generoso rrnJcclo. Se desde logo nos inspira un1 assom- um
bro que não nos r,assa pela cabeça dissimular: se, bcin pesadas todas Su
as coisas, deve 1nsr1rar-nos por fim un1 afastan1cnto metódico e racio- re
nal, pelo n1cnos não oporcn1os ao seu autor nenhun1a questão prévia.
Não entraren1os nesses grandes livros com um rispero desejo de orques- va
trar a vingança fácil do <<especialista» sobre o ensaista sedutor. O livro trê
e con1rlexo. Positivo e ncgatJ\'O ao n1esmo tcn1po, liga-se por uni elo sp
C\'idcnte a toda uma sênc <lc 1nanifcstações recentes - diversas na lit
fonna. parecidas no espinto. ele
De hti. alguns anos para cá, os h1stor1adores têm o pr1viléo10 de do
ser postos na berlinda por unia porção variada de homens 11itáve1s «C
- poetas. ron1anc1stas, Jornalistas, ensaístas - que, desviando cm um
fal'or Je Clio alguns momentos de uma vida dedicada a outros cultos, ci
comrreen<lem mstantaneamente (pelo menos asseguram-no) o que sid
anos sucessivos de estudo não tornaram os historiadores capazes de o

' Oxford Un1vcrs1ty Prc.ss; Londres, 1-Iumphrcy ivli!ford; L' cJ., Junho
<le J~J-1. t.
perceber e expnm1r. Após o que, com uma caridade que nuns se
matiza de 1roma francesa, noutros, de furor germâmco ou de humor
mglês, esses espintos brilhantes e rápidos nos comunicam, em alguns
traços fogosos, as suas descobertas ou os seus sistemas. Que fazer?
Agradecer-lhes sem falsa vergonha: examinar com toda a sinceri-
dade as suas criticas; render-nos ou res1st1r? Sim, se vemos neles
camaradas de combate, e que podem tocar-nos, seja por argumentos
racionais, seja por apelos ao sentimento: porque apesar de tudo nós,
lústoriadores, vivemos na mesma atmosfera de cnse que os outros
hnmens nossos contemporâneos, e precisamos, para perseverar, de con-
fiança e1n nós e nas nossas obras. Não, se, nor detrãs de um guarda-
-vento de hist<ina descobnrmos nesses homens a sedução de erros e
de ilusões. Não, resolutamente não. se verificarmos nos seus escritos
a acção de um veneno do espir1to. E aí está o que nos obriga a·um
longo cxan1e .
Entretanto, antes de abordar Toynbee e a sua obra, uma cha-
mada. À gmsa de introdução, mas de modo nenhum como apentJvo.

OSWALD SPENGLER; GRANDEZA E DECADÊNCIA


DE UM PROFETA

Em 1922, apareceu um livro na Alemanha. Nome de autor


desconhecido, Spengler. Título com efeito garantido: Der Untergang
des Abendlandes '. Ainda estou a ver nas montras das livranas
renanas empilharem-se rimas impressionantes desses in-octavo: fun-
diam-se como neve ao sol. Em algumas semanas o nome de O. Spengler
era célebre no mundo - e o seu livro conhccía o maior sucesso que
um livro de filosofia h1stónca Unha tido na Alemanha. desde Gibbon.
Sucesso não 6 aínda a ·palavra adequada: sena preciso faiar Jc
revelação.
No estrangeiro, acolhimento menos caloroso. Cunosidade reser-
vada em Inglaterra; desconfiança irónica no nosso pais: esperou-se
três anos (1925) pelo livrmho de Fauconnet que catalogava os temas
spenglenanos, e dms anos por uma tradução. Entretanto, uma copiosa
literatura (Der Stre!I um Speng/er, O. Spengler und das Chnstentum,
ele.) voltava de todos os lados, com uma paciente monotonia, as ideias
do profeta, daquele que não hesitava errÍ proclamar-se a si mesmo o
«Copérmco da históna». Não o Julguemos; Julgar não é o ofício de
um historiador; tentemos compreendê-lo, o que quer dizer, essen-
cialmente, pôr o seu livro. e o seu sucesso, em relação com as neces-
sidades de uma Alemanha onde desde essa altura estava em gestação
o que seria o naciona1-soc1alisn10 hrtieriano.

1
C. H. Beck, ?vfunique, 2.· ed., 1924, t. 1, Gestait und IVirklichke1t;
t. II, TVelthistonsche Perspeknven; 1n-S.", 549 e 666 páginas,

123

- - - - - - - - · - - - - ...~.L-
1,
i/i O homen1 - que 1norrcu cn1 1936 num grande abandono- o

i
homem trnha nascido em 1880, na Prússia Onental. Protestante, de
família modesta, doutorou-se cm 1904 cm «Ciências Naturais», com
unia dissertação sobre 1-Icraclito. Ora, toda a Decadência do Ocidente
l! tcsternunho <le un1 ódio violento contra o :respeito de que muitos
Alemães rcx.lcavam as ciências da Natureza e o liberalismo dos seus
1í, adeptos. especialmente a· sua concepção de progresso; progresso, libe-
ralismo, os deuses cuio culto tinha si<lo imposto ao Jovem Spcngler
pelo seu rnc10 familiar, pelos seus mestres e pelos seus companheiros
li Je estudo. Reacção brutal contra isso- e também contra o atomismo
i

l
Justónco, o trabalho de monografia, o recorte da história em secções
que se ignoram: história diplomática, económica. lileràna, das ciên-
cias, das filosofias, etc. No lugar de todos esses compartimentos, um
vasto e lummoso palilc10. Uma Justóna totalitána. Povos e línguas,
' deuses e nações, gucrrüs, ciências e filosofi:.is, concepções da vida e

~l
1
formas da cconom1a: tantos sin1bolos a interpretar. Analogia, o pró- ·
prio n1étodo da h1st6r1a. Entre o cálculo integrai e a política de
Luís XIV, entre a gcon1ctr1a euclidiana e a cHJaJc grega, entre o
' telefone e u mccan1smn <lo créclito, as relações e as correspondências
não são superficiais e fortuitas. São int1mas e essenc1a1s .
Todos os factos hu1nanos de un1a mesma êpoca se integram em
«culturas». E essas culturas são seres vivos. Plantas, digamos - que
nascem, se desenvolvem, murcham e morrem. O seu destmo começa
quando o crescimento, '.! prolifera,;~o de tudo o que elas englobam
na sua urndade, se torna anárqmca e desregrada. Quanto ao resto,
se ben1 que todas cumpram pela me~rna orden1 as mesmas etapas
- cada uma difere profundamente das suas v!Zlnhas pela própria alma
que as amma. A nossa cultura oc1dentai possui a alma de Fausto
- eterna tensão, deseJo do impossível, dinamismo do coração e do
espinto. A aima da cultura antiga era «apolínea»: estática e não dinâ-
mica; caJn1a, lentidão, serenidade; nada de cronômetro nem de h1s-
tóna c1entífica, mas a coluna dórica e a geometna de Euclides. E do
n1csn10 n1odo se podia dar à cultura cgipc1a o seu símbolo: o caminho
cvrladu, estreito e mistcnoso que gu1a o visitante para o túmulo
! scc,cto do Faraó. Mas todas essas culturas, por distmtas que scJam,
conhecem sucessivamente um periodo ascendente (Kuitur); um periodo
descendênte (Cil'i!izatwn)- e, finalmente, a morte.
Devemos debruçar-nos snbre estas imagens vivamente coloridas
con10 o amador se debruça, com a sua lupa, sobre unia prova ante-
·c1pada da Fe,ra de Impruneta? Que nos querem essas culturas um-
ficadas e totalitánas. de que partilhanam indistintamente e do mesmo
modo todos os homens que Vivem numa mesma época, qualquer que
scJa a sua condição social - e quer se trate de Bergson ou de Bab1tt,
do ca1xe1ro do «Pnntemps» atrás do seu balcão, do c1ent1sta no seu
Jaboratono ou do rendeiro na sua aldeia? Então têm, todos, a alma
faust1ana e a sua grandeza v10lenta? -Mas essas belas palavras, essas
metáforas vitalistas: nascimento, desenvolvimento, morte das culturas?

124
V cl!,o feito novo. E que transpo,ta o leitor francês aos belos tempos
(1887) de Arséne Darmesteter e do seu livrinho A vida das palavras'.
tão depressa burilado por MicheJ Bréal: ainda este século não tinha
nascido .
Como explicar então o sucesso prodigioso de Spengler, e não só
Junto do g,ande público, sem defesa contra as suas impressões, mas
também iunto de todos os homens cultos da Alemanha e da Àustna,
sobretudo dos Jovens?
*
* *
É que a todos Spcngler aparecia como um libertador. Quando
lemos as suas invectivas e as suas obJurgações: «Basta de monografias,
de s1ntcscs!» - son1os tentados a sorrir. Claro que nós também temos
os nossos míopes, as nossas toupeiras csca~adoras !! - n1as não_ nos
faltam as slnteses substanc1rus e vivas. Na Alemanha, pelo contrano.
a h1stór1a continuava subn1ctida, ainda a seguir à guerra, a um regime
de especialização exagerada. Escritas cn1 jargão por técnicos para
técnicos, as l!lonografias não sairun dos circulas un1versitrir1os; a
hístória, cujas fundações pacientemente edificavam, era coisa de dou-
tores encarrnçados cm contradizer-se: Vadius desfazendo Tnssotm.
Um mundo fechado, esse domímo dos técnicos e das suas bárbaras
dissertações maugura1s. O homem normal culto não tmha ai onde
penetrar. Fach, e sacrílego o leigo que punha a mão num Fach'
Ora Spengler pregava esse sacrilégio- e o emprego comum das
riquezas pilhadas. Spengler pregava-o, não em Jargão de esr,ecmlista,
1nas numa linguagem clara, viva, cheia de cadêilc1a e de brilho.
A rnqu1etação rntelectual dos burgueses do pós-guerra lançava o ali-
rr1cnto de un1a historia nor ele extorquida aos Iustoriadorcs com
1x1:c-ntc - uma h1sléna lra<luz1Ua en1 fórmulas. cada un1a Jas qu_a1s
cobna séculos de passado humano. Entre factos até então estnta-
me:tte lim1tadGs a comparttmcntos estanques - estabelecia relações
que prendiam pelo seu 1mprev1sto e divertiam pela sua vanedade: a
geomc:na de Euclides estendendo a miio il coluna dónca. que cspec-
táculo atraente! Todo um público rícou a dever a Spcngler a sat1s-
f:1çfio 1ngCnua e pura de descobnr a história - ou pelo menos uma

1
Pans, Delagrave, 1887, 1n-l2, XII-212 páginas. Introdução, p. J: i<AS
línguas são organismos vivos, cuJa vida, por ser de ordcn1 puran1ente inte-
lectual, não e menos real - e pode comparar-se à do~ organismos do rei.no
vegetal ou do reino animal.}) - Cf. igualmente, no fim, p. 175; «Na vida
orgânica dos vegetais e dos an1ma1s, con10 na vida linguist1ca, encontramos
a acção das mcsn1as leis>>, etc.
i Cf. as reflexões de Georgcs Espinas, nos A nnales d'H istozre Écono-
1nrque et Socíale, t. VI, 1935, p, 365: De /'horreur du género!: une dévtallon
de la ml!thode érudite;
J Em alemão no onginal: designa compartimento; especialidade; domí-
nio; profissüo; co1npetênc1a (N. T. ).

125
h1stóna posta ao seu alcance, com perspectivas esboçadas por eie.
E esse público agarrou a oferenda com reconhecimento.
Tanto mais que o autor, tornando-se profeta, anunciava o declí-
iw mo de tudo aquilo a que os seus leitores estavam verdadeiramcme
apegados: nova fonte de alegna e de libertação. Porque, enfim, par-
ticipar no llesenvolv1n1ento de uma c1vilizaçiio que cresce, está be~.
Viver os dias de um declimo, melhor. E. pos.to diante da morte, acei-
ta-la v1rilmente. «Seia, que venha!» - bela: atitude romântica; uma
pessoa aplaude-se a si mesma por a adaptar. Claro que os historía-
dores de profissão encoII11an1 os ombros ou denunc1ava1n o escân-
dalo - obngados a apanhar algumas migalhas do bolo por baixo da
D n1csa, às escondidas. Claro que os marxistas se indignavam, denun-
ciando uma doutrina 1ndifcrente a todos os aspectos soc1a1s Ja lus-
.,,• tóna e da vida. O leitor medio sentia-se lison1cado no seu an1or pró-
w prio 1ndiv1dual e no seu an1or prôprio actual. Pequeno burguês prus-
r, siano ou saxão, não llnha, scn1 dúvida, a a!n1a faustiana: 1nas desejava
'.,, lê-la, ou imaginar que a tinha; a encarnação de Fausto - sim bolo de
\.' toda a civilização do Ocidente- era agradável e doce ao seu coração.
A part!f Ja,, 4ue importava que determmada teona de Spengler lhe
parecesse confusa ou incómoda'? Sentir confusan1entc é ainda mais .
1 fácil, e menos fatigante, que compreender con1 toda a lucidez.
Observemos, enfim (e aigumas mgenuidades da crítica francesa
fazem com que a observação não seJa inútil): a filosofia da lustóna
era apenas un1 Jos aspectos <lo pensamento speng!er1ano - e o n1enos ·

f !
IÍ]
\1~,
a seu gosto. A iustóna. um busto de Janus: uma face para o passado,
nuis a outra para o futuro - e que futuro? O declínio da Europa,
prefigurado jâ, segundo as regras da analogia, pelo dcclí1110 do Im-
pcno Romano. A consl!tmção de lmpénos gigantescos. A guerra
entre esses Irnpénos, e em primeiro lugar, e sobretudo, entre o In1-
::.:

·
~ pCno Br1tân1co, <lc essência capitalista, e o 11npér10 Gern1fi111co, de ·./

essência estatista. O futuro'' De um lado, um punhado de grandes ~!


homens; do outro, a massa. Daí as prédicas aos Jovens: «Não percam
ii_,
Ih
mais o vosso tempo com a vossa poesia, a filosofia, a pmtura. Passado _l_

111orto. Furn1cn1 cn1 vos a 1naténa-pr1n1a c.Jc onde surgirão os grandes


~1) homens.» -Temas esboçados na Decadêncw, mas retomados e onen- A
ji.
Iif, tac.los em Xmba11 des deutschen Iie,ches ou em Poliosche Pflichten
,,,;; der de111schen Jugend. progra1nas políticos de un1 hon1en1 de quen1
;; se diz que esteve entre os pr1n1e1ros aderentes do nac1onal-soc1alisn10.
f
*
'i!'·
hij * *
·1 É que, nesse tempo, Spengler e os seus lettores, os futuros Nazis
de obediência estrita, tinham in1m1gos comuns: a dernocrac1a. o libe-
ralismo burguês e o marxismo. Spengler, nesses anos 20, negociava
nas mercadorias mais cobiçadas: digamos, um certo patético, um
anti-intelectualismo resoluto, a noção heróica do destino. o anti-este-

126
ttcismo, o estremecimento da criatura humana diante da maicstade,
da an1pla maiestade da históna. E amda (ver o seu trabalho de 1920,
Der 11'Jensh: Die Technik) a profecia da mina, tão cara ao pequeno-
-burguês nazi, tão de acordo com os seus sonhos de autarquia: «Os
excessos do- maqu1n1smo perderão a Europa~ as raças de cor apren-
derão com a raça branca a forJar. nas suas próprias oficinas, as armas
de que se servirão contra ela ... » Ai está a que deveu Spengler o seu
sucesso: não apenas o sucesso de um histonador analét1co e dedu-
tivo, mas de un1 profeta, de un1 n1àg1co, de un1 v1s1onri.r10 perfeita-
mente adaptado as necessidades da Alemanha perturbada de entre
1922 e 1929. Contra-nrnva convincente: se nos seus U!t1n1os anos ele
perdeu a cst1n1a gcraÍ dos 1ncios nazis - não é porque as suas teorias
de h1stcnador tcnhn1n sido rcconheciJas con10 falsas. É porque a
atitu<le sentlmental que tinha assegurado o seu sucesso, é porque as
suas profecias tenazes. de1xaran1 de estar de aco·n..lo com a ideoiog1a
<lo partido triunfante, a partir úo 1non1ento cn1 que foi senhor do
poder.
«Vamos mudar o mundo. Ou pelo menos a Alemanha»: palavra-
. -de-orden1 após a vitôrla. Unibruch; Neubegú1nen; Der neue !vlensch:
.1 expressões cheias de un1 optun1sn10 activo e que, de um dia para o
J outro. estiveram en1 todas as bocas e saíram de todas as canetas.
, Como harmonizar com essa necessidade de confiança e de fé no
j futuro, com essa necessidade fanática de esperanças capazes de fazer
·.I surgir as energias e as coragcns necessãrías ao labor quotidiano, as
predições pessimistas de um homem que, durante anos, ttnha reafir-
:.tl ma<lo, incansavelmente. a fatalidade do ctestíno, o esmagamento do
J presente pelo passado, a presunção de querer sacudir o Jugo da his-
·.i tór1a dando, a uma civilização ago111zante, um imrulso ilusório?
J Spengler não o sentiu, e o seu últuno livro-la/Ire <ÍN Entscl!-
1
/1,. e1du111; - acabou de o 111tlispor con1 os nac1011a1s-soe1aiistas. Nele
~! abundavam as repetições: o fim Jo n1undo v1r1a <las raças de cor:
o ideólogo nada pode no domínio da política externa e da economia
_ •.J- · 1nternac1 ~nal. etc. Caracter1zavha duramente ·os ilun1~naddos d(o nac:?-
nal-soc1a1ismo, <(esses rapazin os eternamente exalta os» sclnvar-
AI 1nende elv1ge lünglinge), essas crianças desprovidas de experiência
1
e de vontade, mesn10 da vontade de fazer experiências - nun1a pala-
vra, esses adeptos, não jü do ron1ant1sn10 social dos comunistas, mas
1
de um romant1sn10 polít1co-económ1co que consíderava factos posi-
tivos e prnbatónos o número de votos nas eleições, o êxtase tnunfal
dos grandes discursos e as teorias monetárias de alguns incompeten-
tes. - Homens. não: cabeças de carneiros num rebanho. E que,
sentindo-se mumcràveis, voluntanamente ficam cegos perante a sua
impotência (p. 8;, falando· da sua vitóna sobre o mdividualismo.

1
J'vfun1que. C. H. Beck, 1933, 1n-S.", 165 páginas- Críticos nazistas:
ver especialmente A. Z\ve1ninger, Spengier und 3. Rech. 1933, e G. GrJudc.J,
1 Jahre der Über}vendung, 1934.

127
_ . Ca?clcnzada falta ele conlaclo com a nova Alemanha. Que e
kªz duudm· das. qualidades de profeta e de historiador de Spengler.
, para _'.1lem disso, este nd1culo: o homem. que assim rompia com
, ri
se
a rnullidao dos que o tinham aclamado, contrnuava a oferecer-se aos .d
nazis como seu verdadeiro :º"s;lheiro. 'É que, explicava ele grave- :d
mente (p. 7). «Quem age nao ve longe. Vai• impelido pelos aconte- .
yimentos, sem ver bem o fim. Talvez que s~ dele se apercebesse se · -n
ançasse em sentido opcsto ao movimento'.._ porque a lógica do Des- ci
hno nunca quis saber do deseJo dos humanos; mas, a maior parte O
~as vezes, deixa-se dc~va,rar pel_'.1 imagem enganadora das COisas que m
. rodeiam .... >>. Que Jazer, scnao confiar na lu.stór1a - e crer em -a
.'.:ipt.:nglcr; dct_.entor soberano <la Chave ivlágica que abre ao mesmo a
tempo a Juslona do passado e a do futuro? d
• ..Peão, peão! :espondiam os nazis: Ober/ehrer, Oberlehrer! E amda, e
r:n.san<lo na tese spenglcr1ana do hon1em an1n1ai feroz e do mundo ta
ar undan~?-se de ~u.erra e1n guerra e <le revu1ução en1 revolução no «
abismo !mal: «Sad1co de gabrnete! fabncante de melodramas!»_ ao
Pmque ~a Alemanha, em 1936, era preciso acreditar que O homem C
filcdio _era bom, e que a paz 00 mucdo sena a obra final do nacional- V
•· ·,ociahsmo rnunfantc ... o
A históna, em tudo isso? Como estalou depressa o fino vermz da
de lu~tonador_ qu_e cobna, na Alema_nha atormentada de 1922 a 1929,
a mistura pohtica <le um homem hab!l, sedutor e bem-falante ... T
m
p
A ASCENSÃO DE UM NOVO PROFETA: co
ARNOLD J, TOYNBEE P
te
Or,a, eis que uma dezena de anos após a apanção do livro de i' h
Spci:gler. dcsrn vez em lmgua mglesa e dingmdo-sc a um público ru
ing!cs. se .JI11c1a u~1a o~ra -q':le se propõe tan1bêm con10 uma reve~ a
laçao: a de uma filosofia da históna inédita e movadora. cm
~ De fac~o. ~ ideias de Arnold Toynbee, tal como as de Oswald ti
:::,pengJer, nao sao as ideias desmteressadas de um homem de ciência . 1o
Por diferentes q~e seiam as duas obras, por autónomo que se reco- ,A
nhe\'.a, cm relaçao ao doutnnador alemão, o publicista mglês - aqw 'q
e ah pe~'.11-anece a mesma nustura (senão a mesma dosagem) de ele- c
mentos nt1cos (ataques contra os lustoriadores e a sua ineficácia)
0

de elementos construtivos (filosofia da Históna que se consider; o


ongmal), de segundas mtcnções políticas, enfim. ao mesmo tempo u
conscientes e det;rmmantes. Em meios que não se tinham aberto a cl
Spengler, A Stuay of Hrstory prnvocou vivas cunosidades. entusias- N
mos_ certos - r,oder-se-1a. dizer paixões. Em alguns meses, todo um as
vocabulo que se pode facilmente extrair do seu livro fm adaptado por O
Circwos de h1stonadores, de et_nógrafos e de sociólogos britânicos.
Passou o canal com os propnos livros de Toynbee. Aqui e ali, gntou-se
a novidade. a revelaçao, a obra-pnma. Tentemos ver que lições e In

128

__ _;i _ _
ensinamentos un1 historiador poderã colher nestes três livros, mate-
, rialmente bem apresentados, de leitura e consulta claras, que repre-
sentam o «pnme1ro rumo» da obra. E deixando o acessóno, vamos
. directamente ao que constitui o contributo de Toynbee: a sua teoria
: das Sociedades e das Civilizações .
. Sociedades, civilizações: os verdadeiros obJectos da lustóna, diz-
· -nos ele. Elas e não as nações tomadas uma a uma. Ora, contam-se
cinco - que vivem simultaneamente nos nossos dias: a nossa, no
Ocidente; a ortodoxa, nos Balcãs. no Próximo-Oriente e na Rússia;
mais longe, a Islâmica; mais longe amJa, a Indiana; e, finalmente,
-a Extren10-0r1cntaL A isto se juntan1 alguns restos de sociedades
agonizantes: a crisiandade n1onofis1ta; a ncsior1ana; a sociedade Ju-
daica e a dos Parses; as <luas soc1eUades budistas dos Mal1aganianos
e dos 1-Iinaganianos; na índia, a dos Jaíns. Prcdon1inânc1a de etiquc:·
tas religiosas, como se vê~ a nossa civilização, contudo, não a te1n;
«cristã» não 1:ngnificar,a grande coisa: católica não se aplicana nem
ao país de Hennque VIII, de Isabel, de Cromwell, nem aos de Lutero,
Calvino, Zuínglio (e mesmo de alguns outros; citemos ao acaso:
Voltaire, Diderot, Karl Marx e Lémne). Passemos adiante, e veiamo,
o que a Históna pode tirar da substitmção do estudo das nações pelo
das sociedades: um duplo alargamento, no espaço e no tempo.
Quando se faz a história de urna sociedade é preciso, diz-nos
Toynbee, instalarmo-nos pr1mc1ro no seu me10, onde a captamos
melhor na sua plemtude ongrnal. E depois, partrndo dai, remontar
pouco a pouco até ao ponto onde se entrechoca, sem qualquer dúvida,
com uma outra sociedade claramente perceptível e compreensível.
Por exemplo, a nossa sociedade oc1dcnlal: ren1ontemos ao longo dos
tempos, chegaremos gradualmente a uma espécie de no man 's land
i' histórica - onde tudo o que serve para a caracterizar, pelo menos
ruclirncntarn1cntc, úcsanareccrú. Se u!lrapassarn1os as irncJiaçõcs <lo
ano tlc 775, teremos a sensação Uc penetrar no interior de qualquer
cmsa que se mi caractenzando cada vez mais como sociedade dis-
tinta e original, qualquer coisa que, no inicio, ainda não e a sociedade
1 ocidental,_mas, se quisermos,_ a franJa de um.a sociedade romana.
, A ideia nao e nova - e eu nao roJcna critica-la: ha muito tempo
' que propus aos lustonadorcs utilizá-la para resolver o problema dos
cortes cronológicos da h1stóna '
Ora estas reflexões conduzem Toynbee a pôr o que ele chama
o problema da aplicação: a das relações. se qmscrrnos, que podem
unir entre si duas sociedades que se suceden1. Sucessão directa, 1me-
cliata, no tempo? Não necessanamente. Veiam o Califado de Bagúad .
Não nasceu lentamente, como o lmpéwi Romano. Nasceu de urna
assentada, de uma vitória obt'da sobre o Califado de Damasco (I. 73).
Ora, esta vitória restabelecia entre a Síria e o Eg1pto, antigas provín-

,_ Observations rur te prob!Crne áes div1s1ons en J11sto1re, B1ifl. du Centre


Internai. de Syrzthi:se. n.ª 2, 1926, p. 22-26 (R.S.H., T. XLII, Apêndice) .

129

_;i _ _ _ _
j
cias romanas, e a Arábia, província sassâmda, o laço há tempos esta-
belecido pelo lmpéno dos Arqueménidas-o que Alcxandr.c.o Grande
destruru. A vitória dos Abássidas operava pois, um milenro mais
tarde. a ressurreição de uma grande formaçfio histórica dcstruida

I
pela brutalidade de um choque rnteiramenle exter10r. E dai se de-
preende a filiação; ai está Toynbee passando por metáforas~ para-
lisia, adormecimento, despertar, cura (l, 17)-'- sobre esses dez seculos .
no entanto cheios de :Histüna viva, e religando, por c1n1a. das forma-
.1 ções rntermédias, o Estado dos Abüssidas ao dos Arqucmémdas ...
Não o s1gan1os nos seus perigosos saltos. para trâs, dignos ~e
um Colleano. Que quer;ele provar? Que, se aplicarmos a sua reflexao

,'
ao estudo de uma formação política e social complexa (a que se
pode no entanto alribmr uma data de nascimento válida), poderemos
anerceber-nos, a 1naior parte das vezes, de que en1 epocas por vezes
sêparadas por vastos 1ntcr\·a!o3, essa formação foi rrefiguraUa por
outras, cn1 que po<lcn1os .sem de111as1ado esforço encontrar algumas
. das suas caracicrist1c;.1_s fur1na1s? Ivias nós, h1stor1a<lores, estamos

1
il
todos acoslu1no.Uos ú procura de tais prefigurações! Snn1cntc, ou elas
sãn ancnas u1na brincadeira. uu Ieva1n a u1na visão <lc conJunto sobre
a uCncsc das forn1açõcs hun1anas. Ou, para rcton1ar (de n1â. vontade,
ali:1s) o vocabuláno tüo pouco analisado e tão aprox1mat1vo de Toyn-
bee - sobre a génese das «civilizações».
li Ora . acerca deste grande problema, que nos traz Toynbee de
original?
ij.l
Irm. A raça, afasta-a delibcra<la1nente. Não é ela que ena as c1víli-
Ir, zaçõcs. N,10 ha raça pura; a noção erudit~ _e o concc_ito popular de
[ raca, não vão no encontro un1a da outra. I ambc111 nao ha ~aça pn-
vilC-g1a<la: das vinte e un1a civilizações que cnun1era, un1as sao obras
't. de Brancos, outras de Negros. de Amarelos o~. de Vermelhos (1, 223).
t - O nlt.:Hl geográfico? O .cl_ima? A topograf1.a dos lugares? ~esma
aliLudc- ( r. 249). Países f1s1camcnte comparave1s- o Canada e: a
1 Rússia, por exemplo - v1ran1 nascer civilizações con1plctamc1~t.e d1!e-
"
.l'
rcntcs. E as civilizações con1r,lctan~cnte diferentes. E as c1v1hzaçoes
flutuais. a Ju Nilo ou a do Yang-Tsc, são tão pou_co scrr1clhantes entre
1 si como as civilizações «de arquipélagos»: a n11nôica, a Japonesa e
a helénica (I 269).

l
A verc.Ja~!e é que as ciêncu1s Ja Natureza não poder1an1 forne~
cer-nos a chave do emgma. Aqut Toynbee encontra-se com Spengler.
Trata-se de um problen1a hun1ano - e a lei que rege todo esse vasto
dominro. é uma lei de viela, a let de Challenge and Res11onse; trndu-
zamo,, se quisermos: Desafio e Resposta. Leí eterna: todos os ltvros
fundamentais da Humanidade a conhecem e a ensrnam; o Livro d~
Génesis como o Livro de Job, o Fausto de Goethe como o Voluspa
Jos Escandinavos ou o !iipoliro de Eunpedes; e de Hesrodo a Volney,

130
de S. Mateus e de Origenes a Goethe, de S. Paulo e de Virgílio a
Turgot, é toda uma parada (l, 271 a 302) de deuses, de semi-deuses
e de heróis, agrupados em volta do berço da grande ideia. Toynbee
passa esta revista gravemente - não sem que por vezes, durante esta
longa cenmónra, suria nos lábios do leitor francês, que «nasceu finó-
no», um sornso. Entretanto, todo o tomo Il de A Study nos fornece
a exposição de uma espécte de «fisiologia», bastante baralhada, do
«Desafio». Ou dos desafios, porque o autor os classifica cn1 cinco
categonas.
Em pnmeHo lugar, os brutais. O desafio deve ter vigor. Não
procuremos. pois, nas regiões fáceis a pátria de eleição. Mwtas vezes .
a génese de uma civilização representa um grande esforço humano
- e tão excepcional que os efeitos não puderam prolongar-se; é a lição
que nos dão as ruinas <los IVla1as, testc1nunho c.Je un1a luta trügtl.'a
do hon1en1 contra a floresta virgem; ou os n1onun1entos sufocaJos sob
os lianas. en1 Ceilão e no Can1bo<lja: ou, nun1 outro n1eio, as ruínas
de Palmira. nascidas de um apelo directo do deserto.
Contra-prova: o desafio C <len1:.1s1ado branúo, as condições de vida
demasiado favoráveis: eis-nos em Cápua. per/ida Capua, a lra1dora
que perdeu os soldados de Aníbal' Mas a lei não se verifica cm toda
a parte? Onde nasceu a civilização clunesa? Nas margens do apra-
zivel Yang-Tse, ou do demoniaco Hoang-Ho? Onde nasceu a civili-
zação andina? No Chile temperado? Não, no Peru, onde se põem
rudes problemas de irngação e de cultura (ll, 34). A Àtica. Grécia
das Grécras, não é tão seca' como é fértil e verdeJante a pesada
Beócia? Mas em toda a parte, e sempre, acontece o mesmo. A Ale-
manha moderna não nasceu no belo Jardim renano; foi foriaJa na
dura safra brandeburguesa. Os Habsburgos não saira111 da n1a1s nobre,
mas <la n1.11s pobre região úo seu ratrunónto. Desafios da rud1...•za: cn1
Iigac.:ãu cun1 clc.s, o apelo <la novidade - o apelo poderoso Lia terra
nova: a civilização da Babilóma nasceu na Assina, onde a terra estava
por desbravar - e a da índia no Sul da Península, região de terras
mcultas.
l Qucrcn1 outros exemplos'! A Circe de Ulisses 1ntcrvcm no n101ncnto
própno, seguida de Calipso, escoltada pelas delicias de Canaan. Mi:,;turar a
propó:,;no de tudo, as referências h1stôncas as referências poet1cas, n1ít1cas
ou lendánas, é parti pris de Toynbce.
l Não são tidas em conta as modificações, muito sens1ve1s, que a _-'\t1ca
conheceu desde a Antiguidade. A dois passos dela, Cálcis, terntono fecundo,
mas m1ntisculo. Era preciso emigrar: dai a expansão de Cá!cis ate à Tràcia
e á Sicília (II, 42). - Passemos a Sina. Lâ fot inventado o alfabeto, descoberto
o Atlântico. elaborada urna noção de Deus comum ao Judaísmo, à religiiio
de Zoroastío, ao Cnst1an1smo e ao Islão - mas estranha as religiões sume-
na, egípcia, médica e helénica (II, 50). - Ora, que povos propagaram sem~R
!bantes descobertas? Os rrcos Filisteus. ou os pobres Fenic1os, habitantes de
uma terra pobre, estimulados ao mesmo tempo pe!o mar e _pelo deserto - e
que partiram á descoberta de um mundo desc_onhec1do, o Atlant1co, enquanto,
vivendo também ela nas piores condições, sobre os cascalhos de Efra1n1 e de
Judá, uma pequena comunidade de nómadas descobna o monoteisrno?
1

I 31
!
i
.J
Os desafios de resto não vêm só da natureza. Há-os de ordem
e de ongem hu'mana. A;sím as reacções provocadas por provações
súbitas. uma derrota. catástrofes: Roma a reaglf após Allia, o Im-
péno Otamano mais forte, cmquenta anos depois, do que na véspera
da derrota de ,\ngora e do tnunfo de Timour. Lenk (II, 702). Lei que
se verifica através de toda a lustóna, de Zama a Verdun ... passando
pelo Pentecostes, que viu, corno os Actos atestam. o ardor dos
Aposloios provocado pdo segundo desaparecimento do _Mestre ..;
S1in1ulus o( b/oivs. Ao lado, a resposta as pressoes continuas:
i
s1t111uius o( pre.',,sures. História pc·líl1ca do Egipto? A de uma tensão !
entre dois pólos extremes colocados, respecllvamen_te,_no Norte e no
Sul - encontrando-se ao meio o coracão, Tebas. Vnahdade, robustez,
fecundidade políllca dos pa,ses frontc;nços? VCJam a índia: do Pend-
Jab, Jc un1a região que teve Uc reagir sem cc~sar ús prcss?es cxte~
nores - sai, amda hojé, a melhor parle do exercito da Inúia. E en-
quanto o centr11 LuHural foi Dili, exposta aos golpes, foi vivo e
1 acuvo; transfcndo pelos Ingleses para Bengala, definha'. Mas onde
nasceu o remo dos Merovingios? Na Austrasrn, sob a ameaça dos
Saxões e dos A varas. E, conqmstada a Saxóma, como estava nos
postos Jian,cirn,, foi ela que se tornou, sob Otão, a província vital
!
entre todas' _
Enfim, último s111nu/11s: a réplica ás perseguições, Swnulus o/
r;enali::.aflons, e o cr1st1an1sn10_ 9-ue deve a sua y1~a secreta, _:1111 vezes
n1ais intensa que a sua vida of1c1al, ás perscgu1çocs dos ,l?ª~aos e <los
1n1re•·adorcs. São os FanJ.notas, que deven1 a _sua coni..11çao de hós-
pedes prccàr1os de um ghetto cristão a sua actlv1<la<le de comercian-
l
tes, 0 seu contacto con1 os Oc11..lenta1s e o talento de adm1n1str~dores
adqumJos na gerência dos bens do PalnarcaJo: todas as qualidades
que, no fim do século XVII, lhes valeram no Impeno Otomano uma
comrcns:1cão material e n1oral estrondosa. _
Conclusão: as civilizações nascem da dificuldade, e nao da e na
facilidade. Quanto mais forte o desafio, tanto mais viva a resposta.
l
até um certo limite, contudc. Não foi na Noruega, a terra menos
rude: não foi na Groenlândia, a mais rude: fm na Islândia que a ClVl-
lização escandinava se desenvolveu, n1~ís forten1e_nte. ~~rqu~ esta
civilização devia responder, em pnme1ro lugar, as _sohc1taç':'.es de
unia migração ultramarina. E porque encontrava Ia _condiçoes de
vida mais duras que na Noruega. Mais duras, mas nao demasiado
duras: o caso da Groc,n[ândía .

, I·loic e· na costa, nas fronteiras do n1ar, cm Bon1ba1m, que, respon~


<..lendo ús excitações do Ocidente vencedor, desperta o grande movimento
n,.i.:1011:d indiano.
· Verdades da Europa, verdades da Arnénca: Toy_nbec, para ,te;m1n~r
seu pénp!o conduz-nos aos Andes, a Cuzco, a Tenocht1tlan, cap1ta1s act1vus
1 0
(cias. e sf~;;
não Tiaxcela ou Cholu)a, cidades abrigadas do intenorJ, IJ<:r(9rlf
elas se exercia a pressão das tnbos da Floresta ou dos Ch1ch1mecos , ·
l
132
*
*- *
Toynbee pretende assim dizer-nos como nascem as civilizações .
Mas nascer? 'É preciso viver. E durar. A história está cheia de cJVl-
lizações malogradas - ou de civilizações paradas, que, sem serem·
destruídas por forças externas, deixam num dado momento de se
desenvolver, se petrificam, por assim dizer, e se batem com dificul-
dades demasiado constantes e demasiado fortes, contmuando a viver
numa tensão horrível sem nunca chegarem â expansão plena. Exem-
i
! plo: a civilização dos Esquimós, parada, travada, por assim dizer, peio
próprio excesso do «esforço hu111ano>> que a e:i'.istência quotidiana
num lugar semelhante supõe. Outro exemplo: as civilizações dos nóma-
das, que pagam a sua audácia de fazer frente à estepe. Pt1r fin1,
exc1nplos n1a1s desenvolvidos: os que as civilízaçõcs tios Osn1anlis e a
dos Espartanos fornecem a Toynbee.
Uma pnme1ra resposta aos desafios de ordem humana. O pro-
blema era dominar as comunidades fortemente implantadas no solo
que os Osmanlis cobiçavam. Os Osmanlis, antigos condutores de reba-
nhos na estepe. E que conservavam os r.eus hábitos de pastores - e
que dai extraíram os seus meios de tnunfar. O pastor e os seus cães,
i e os cavalos, os animais que sabe domesticar e que lhe permitem con-
duzir o rebanho. Os Padishahs otomanos tiveram homens, que domes-

l ticaram em lugar de animais. Soldados ou func10nários, fizeram deles


cães de guarda humanos. E por um paradoxo que só o é aparente-
mente. tomaram-nos não de entre si. mas de entre os cristãos. É que
o adestramento desses guardas de homens supunha um tal {(esforço»,
uma tal «reconstrução», que só seres desenraizados do seu mc10 hu-
\ mano eram capazes de o executar. E, aliãs, tão depressa que, no fin1

ll
do século XVI, os muçulmanos livres foram adnutidos nas fi[c,ras
dos Janizaros - e foi o fün da 1nsutu1ção, a sua desagregação e a
derrota (III, 46) .
Diferente, e no entanto análogo, o caso dos Espartanos. Quando,
cerca do século VIII antes de Cnsto, o sobrepovoamento das cidades
pôs perante o n1undo grego um problema trágico - Esparta não o
resolveu pela expansão para o mar. E não sem motivo, Lançou-se
sobre os seus v121nhos, os Messenios. 1v1as eles não eram. con10 os
Bárbaros colonizados pelos outros Gregos, portadores de civilização
infenor.' E a VJtóna dos Espartanos sobre eles foi daquelas «em que
o ferro entra na alma do vencedor» (III, 53). Toda a vida de Esparta

1
A supenoridade dos Gregos sobre os Bárbaros era tal que, por um
lado, pequenos contingentes bastavam para assegurar o predonünio dos pri-
meiros; por outro, as terras colon,zadas, valonzadas por eles, bastavam ao
mesmo tempo ãs necessidades dos conquistadores e dos conquistados. Dai
essas s1rnb1oses que foram as cidades gregas da Sicília, da Grande Grcc1a,
da Trãc1a, etc.

133
·/

·' não teve dcsúc então outro obJectivo: n1ante~ a conquista, e para. i~so
!
forJar uma màqut'na policial e de exploraçao cada \'C7. n1a1s rrgida
e apcrfcicoada. Na base, cm lugar de escravos tirados da massa ven-
cida, como no caso dos, Osmanlis, cnanças livres tomadas. de. entr~
eles. Sobre essas crianças, o mesmo trabalho .que sob_r~ os ianrzaros.
selecção severa, especialização absoluta, estrita _vigilanc1a da VJda
pnvada, Jesenvoivimento do espinto de emulaçao, recompens~s e .,j
punições iaualmentc excessivas, E, nor detrás, Esparta em perpet~o {
estado tle fensão e de estrcmec1mento. Esp~rt_a, esta 1ron1a: ~m exer- 1

cito 1ncon1narúvcJ, mas que os Espartanos, 1nf1ma minoria, nao ousam .J


anrovcilar,· porque o equilíbno saciai, estntamentc rnlculado, deixa 1
tão pouca maru.cn1 às_ f~ntas1as que urna v1tor1a a mais o perturbaria
e deitana abaixo. Assim a vitóna fatal de 404 trouxe a derrota fatal l
de 37!. E o <lcclín10 (III, 71-75).
Civilizações paradas. Civilizações ossificadas. Pensa-se nos msec-
ios: ngidez, imobilidade, nenhum voo possível. Tudo se encammha
para un1 tin1co fim: não enfraquecer.
!l
Por onde medir a vitalidade de uma socieJaJe'/ Toynbee enumera 1·

os seus criténos. Em pnme1ro lugar, o domimo progressivo do meio 1

físico. Depms, a espmtualização progressiva de todas as actividades --!


humanJs. i\ 1esn10 no domínio da pura técnica: não captamos a pas-
1
!
sagem do mais pesado ao mars leve, do mais espesso ao maí_s subtil-
'.
do carvão ao óleo pesado, da água motnz ao vapor? Fmalmente, 1
último cnténo a transferência dos desafios, e das respostas, de fora 1
,J
para dentro. Para nós. por e.xcn1pfo. os problerna.s exteríores estão j
resolvidos. Que não se diga que, de fora, o bolchevismo nos .ameaça.
Ele e un1 facto ocidental, e não um facto estranee1ro: e a critica, feita
pelo Ocidente, da ordem ~oc1al instável e tra_~sitória q;1c o sCcu!o X~X
instaurou. E o plano quinquenal, un1a vllona _da tccntca ocH.i?nta~.
um esforço paradoxal para fundir, no campesmato r~sso, os 1dems
contraditónos de Lémne e de Ford. Ou, melhor, os metodos de Ford
e O ideal de Lénme (lll, 202). - Para nós, os problemas ex_Lenores
L':.tãu resolvidos; a nossa téc1_11ca don1ina-os - mas seremos n~s- .capa-
zes de dommar a nossa técnrca? De vencer no plano mtenor, E essa
a grande questão e a grande prova. EsteJamos vigilantes. .
Aí esta o que leva Toynbee. por um cammho um pouco diva-
gante, a pôr a questão do desenvdvimentb interno das ~ocieda-
des - e, nomeadamente, das relações entre sociedades e md1v1duos.
Que resposta dá? A Sociedade não ena. Não é senão um lugar
comum onde se eneon1ram as act1vidades mdividuais. Organiza as
con1 unicnções entre individuas-mas são estes, e não as socie?ades,
que fazem a Justóna (III, 231). As sec1edades avançam atraves dos
gémos que modificam o meio comum, respond_em aos desafios que
ele recebe, lhe impõem as mesmas transformaçoes que impuseram a

134
s1 própnos. Se não têm êxito, e porque vieram antes do tempo: e,
então, que dcsapareçan1. (
Por vezes, verifica-se uma eclosão simultânea de gén10s. Há
progressos no ar. Desafios parecidos, dingidos a mdividuos que radi-
cam no mesmo me10, provocam respostas idênticas. Mas a massa
é sempre mactiva. E o que distmgue radicaimente as sociedades pri-
mitivas das verdadeiras c1vilizacões, e a ausência de minorias cria~
doras. Por toda a parte, sempie, o cammho da história passa pela
ª:esta que s:'para das massas estagnadas as mínonas despertas - os
gen1os, que lem as suas leis particulares, o seu própno ntmo de vida ...
Acção, êxtase, e de novo acção. O que Toynbee chama a lei
1 de Recuo e de Retorno - f.Vi thdrau•al and Return - e que ilustra

l em scgu1Ja. pondo sob o.s nossos olhos, pregados con1 alfinL~tcs. urna
galeria asson1brosa de génios; transcrcvan1os: S. Paulo. S. Bento,

!lS. Gregóno o Grande, lrnicio de Loyola, Buda, David, Sólon, Fílopé-


men. César, Leão Sír10, rviaon1ê. Pedro o Grande. Lén1ne. Garibaidi.
Hindenburg, Tucídides, Xenofonte. Joséphe. Ollív1cr (Émile!). Ma-
quiavel, Políb10, Clarendon, lbn .Khaldoun, Confúcio, Kant, Dante
1 e ... Hamlet. O humor bntânico nunca perde os seus direitos.'
1 Recuo e Retorno: movimento un1,;ersal. Não afecta somente os
! individuos. n1as os grupos que, castigados pela vida, se dobram sobre
! s1 mesmos para a seguir se distenderem com mais vigor que nunca
(III,. 233). Afecta as própnas civilizações, e Toynbee pretende des-
. c':bn-lo, emf. actuação, na Rússia Soviética; mas precisa bem, para
1 nao s.er ín 1e1 âs suas teorias sobre a impotência das massas, que o
1
J wlthüraiva/ da mmona enadora precede sempre o da civilização no
j seu conJunto. E_ também que, muitas vezes, os criadores respondem
Ja a novos desafios, enquanto a massa digere, simplesmente, os resul-
tados obtidos antes.
Dai que n n1.1rc:ha da c:1viliza1:.·iin se J'ac;a por sallos. ilruscas pau-
sas seguidas de repousos - que preparam novos saltos (!JI, 375) .
Porque, numa sociedade viva, qualquer resposta a um desafio faz
Jogo nascer um novo desafio. E con10 as experiências que se seouem 0
variam, acontece as civilizações difenrem uma da outra. Cada uma
possm o seu estilo particular: Toynbee segue aqui fielmente Spen~Jer.
O estilo da nossa, e l1á muito tempo - desde mmto antes das ct,;';;co-
bertas contemporâneas - o estilo da nossa é o mecanicismo. E o ter-

~ qualquer gt!n10 abala_ um equilíbno mais ou menos labonosnn1entc


estabelecido antes de ele o v1r pôr cm questão: Uma vez que o abalou, irá
restabelecê-lo nas suas antigas bases. na linha do tempo. ou sobre bases novas
numa linha Imprevista? Em todos o.S casos, o génio baté-se contra a sociedade'
e o conflito só pode terminar com a sua derrota, ou com o seu tnunfà
(III, 236) .
. i Cada u~ destes génios tem direito a uma pequena notícia, de 2 a 8
paginas; dela sai no estado de peça anatómica, n1utilado, dcfonnado. mecani-
zado a bel-prazer. Pelos cuidados de uni homem, Toynbee, que clan1a en1
todas as páginas o seu culto pcia vida ...

135
ceiro volume de Toynbee fecha-se sobre esta conclusão opttm1sta:
rn desabrochada, malograda ou parada, qulqucr civilização encontra o
nl
f!1,
seu sentido num Universo ammado por esse ritmo expresso no ver- i
.j
sículo do Corão (X, 4): «Voltareis todos a ele. É essa a promessa 1
·d' autêntica Je Deus. Ele faz emanar a cnação- e Jepo1s fá-la
,
..li
'i~j
retirar-se.»
Íl
!
l
A LIÇÃO DE «A STUDY OF HISTORY»
•l

Arnm é esta obra.'. ou pcio menos os seus pnnciprns (Toynbee


anunc1a vinte volumes). Tai e a atmosfera <leste grande empreendi-
mento- che10 de qualidades sensíveis, de brilho um pouco teatral,
de VIvacidadc e de penetração. . .
Atmosfera Jc estremecimento ante a ampla maJestadc da H1sto-
na; sensação produzida no leitor confiante pela evocação magistral
de todas essas civilizações, que se desenrolam sob os seus olhos des-
lumbrados como os quadros de um n1_eJodran1a: ad1niração n_ão rega-
teada pelo presti<lig1ta<lor que maneja_ con1 u1na tal v1vac1<ladc os
povos, as soc1cdades, as civilizações do passado. e do presente, da
Europa e da Ãínca. da Asia e da América; senumento da grandeza
dos desl!nos colect1vos da Humanidade, da pequenez md!Vldual do
· homem, do seu poder também, visto, que - gmado. por _Toynbee-
~1 conseoue entrever Je un1a sà vez as vinte e un1a c1v1hzaçoes fat1d1cas i
con1 (Jue se teceu a tran1a da l11stór1a humana ... e essa omn1sciêncía.
essa ommcerteza, essas explicações tão total, tão perfeitamente expli-
cativas que, ao fim de cinquenta páginas, uma pessoa sente nascer
e1n s1 um frt·nét1co descJo de já não compreender tudo, n1as, _de
aprender. enfim, que não se sabe sempre tudo, sobre todas as coisas,
e que ficam amda por levantar alguns raros e fehzes emgmas ...
~ Se resistirmos à sedução do mágico; se nos recusam10s a atitude
i~ sent,memal do crente assistindo ao culto; se cxammarmos as 1d.eias
~ e os conclusões fnamente: que ha de novo em tudo isto; que ha de
,ij verdadeiramente novo e que possa 1nc1tar-nos a nos, h1stonadores, a
~! um regresso a nós n1csmos, a uma condenação dos nossos métodos,
à adopção de métodos novos?
Deveremos deter-nos nestes artifícios sedutores, neste gosto deca-
,i
dente ,; 8 s comparaçõec bruscas, dos contactos imprevistos dos factos,
"lí de ideias e de aspectos divergentes que já notávamos em Spengler?
Eis O rrranúc Mommsen (I, 3). Começou, todos o sabem, por escrever
cerca de J 854 uma história «nacbnal». a do povo romano. A[:6~ o
que, se dedicou a publicar textos e ins?rições, ::! Corpus, o Cod1go
Teodosiano, o Digeste, .. Que q;1er isto dizer, senao que a c~rva desta
vida reproduz sem esforço a propna_curva do secul_o: obsessa? «nac10-
nal» ao principio e, portanto, reduçao do campo VISUal do hístonador
'
.•

!36
a esses bocados de humanidade que as fronteiras contêm; obsessão
rndustnal em seguida, preocupação com a maténa-prima a recolher .
ij elaborar, triturar: e, portanto, o historiador a trabalhar sobre as «on-
1
gens», sobre a matéria-prima da história ... - É muito engenho. Um
engenho que deveria conduzir-nos, logicamente, a fazer de um Ma-
billon, autêntico fornecedor de maténa-pnma h1stónca, o contem-
porâneo ignorado (e que se ignorava) de uma grande indústna já
preocupada com os seus materiais e com a sua trituração ...
Prossigamos. Toynbee pregando, depois de Spengler, a guerra
santa contra os cortes arbitrários, a compartimentação, o espinto de
monografia? Perfeito. Nunca seremos demais a conduZir essa cru-
zada. Todavia. somos mais ou n1cnos qualificados para o fazer, e a
boa vontade nem sempre basta nestas n1atérias: e preCiso comnetência .
Mas Toynbce não tem nada a aprender, certamente, com 'nenhum
dos que, hã anos - em França e no estrangeiro - participarn no
esforço do grupo que Henn Berr.. ammador de L'í:voiution de !'liu-
1nanité. soube constituir, a partir de 1901, à volta da Revue ele Svn-
thêse. Nem tão-pouco com os Jovens trabalhadores que se agrupãm
em volta dos Annales d'Histo1rC! .l::conon11que et Sacia/e- ou co1n os
cientistas expenmentados que, respondendo ao arelo do «Con11té de
l'Encyclopédie Françmse», se reuniram para pensar o umverso con-
temporâneo não por especialidades, mas por problemas vivos, e sem
preocupação de delimitações de escola, ou de ofício. A. J. Toynbee
Junta simplesmente uma voz de Inglaterra às nossas vozes francesas.
Não nos cabe dizer até que ponto, no mundo bntânico, esta voz se
i isola elas outras. No nosso mundo- não encontra utilização senão
l nos coros.
l Quanto ao processo <las histórias nac1ona1s que são apenas nac10-
na~s e de l11stor1aLlorc.s nuopcs (I, 15) que se rccusan1 a ver no .seu
pais um simples elemento de uma totalielade- Toynbee tem razão
em fazê-lo alegremente. Ensina aos seus leitores, com um ardor de
neófito, que ~ão elevem iupnot1zar-se só com a Inglaterra, mas devem
prestar atençao a toda a sociedade ocidental - tal como não se pode-
ria consagrar as vigílias só a Atenas ou só à Lacedóma: é a sociedade
helénica que as reclama. Mmto bem. Com a conclição de se lembrar
um pequeno facto: é que o homem que com mais vigor e autondade
proclamava, não hà tanto tempo como isso, as virtudes do Método
con1parativo ern história- esse homem. precisamente, é o autor Je
uma h1stóna nacional, dessa História da Bélg,ca de que Henn Pirenne
soube fazer o mais nco capítulo de uma h1stóna europeia ainda toda
por cnar. O que concorrena, se fosse preciso, para nos pôr de sobrea-
viso contra oposições fáceis e prédicas um pouco simplistas à moda
do publicista, mas que fazem o horror do cientista.
Tudo isto afastado, resta este balanço: 1300 págrnas de texto que
acabamos de resum!f, melhor ou p10r, numa vmtena - e cu10 con-
teúdo «ongmal» se reduz, finalmente, a três ou quatro teses. Discuti-

137
veis para o h1stor1ador? Sim, com a condição de pruneiro nos enten-
dermos sobre certas precauções .
. Toynbee, ao contráno de Spengler, não professa um pessimismo
radical. Ensma, pelo contráno, o que se poJena chamar um opt1-
nusmo cosmológico. Para ele, o significado de tantas civilizações vin-
das ao .mundo e desaparecidas revelar-se-à num outro mundo. Crença
resp?1tavcl, ainda _que bastante vaga (se me atrevesse. dina: um pouco
clorot1ca): n1as_ nao ternos Je a discutir, não diz respeito nem à his-
toria nem a critica. '
Preocupado con1 rçsl1tu1r à h1stôr1a o seu «~Jan» vital, Toynbee
procura, por outro laJo·. salvú-la <la n1ccanização. É Lie1c, a partir dai,
todo o arsenal Uc expressões e de meláforas <<vitalistas»; e dele, sobre-
ludG. a lei Suprema da vida (pelo menOS Cm SUU Op!Dião), a Jcj de
C_ha/lenge anlf l?..esponse. E aqui nós, h1stonadores, dizcn1os: fórmula
fliosófica. Verdade filosófica, se Toynbee prefere. Mas que não temos
~e d1scul1r. Nãu n1a1s que_ essa lei <lc YVitlzdrc11val and Rt!turn que con~
Ll~z o nosso autor a 1nsta!:ir na n1csrna corrente, para os fazer desfilar
diante de nós, Tucídides, Maome e ... Emile Olliv1er. Ainda aqui,
Jmamos simplesmente: nada há ai para nós; nada que tenha relação
con1 o nosso trabalho. as nossas preocupações e os nossos métodos -
naúa, ~e Toynbee. não pretendesse ter descoberto essas leis graças a
um metodo: o metodo comparativo da h1stóna. E então, para nós,
invcsugaJurL':-:. t:: a111adorcs de realidades históricas 1nas não de ver-
daJcs filosóficas. pôc-sc -1 questão: instituir entre vinte e un1a c1viliza-
ç~es .escalo~adas de un1a ponta á outra da cnde1a dos tempos e dís-
tr.1bmdas sobre wdo o penmctro Jo globo, uma série de comparações
validas e fecundas - sera isto coisa lícita, un1 bon1 método e um pro-
cesso corrccto?
Vepmos com Toynbee, pois na pnme1ra parte do seu livro ele
consagra -~uarcnta püg1nas a fazer a apologia, não digan1os do n1as
do s~·u rnctodo con1narat1vo. E, succssivan1enle, expõe, depois refuta,
a~ obJ:cções que. ma" receia. Em primeiro lugar esta: as soc1eclades
nao sao con1r,aravc1s_ \Jorquc são heterogCneas. Não têm nada em
comum, excepto este facto bruto: representam, todas. domimos igual-
n1cnte validos de 1nvcst1r.a1.;ão _histórica - o que C un1 pouco vago
r,ara pcrn11t1r estabelecer verdadeiras con1paraçõcs. -Errado, res-
ricnc.lc Tcynbee. ,\s vinte e u.rna sociedades têm, em todo o caso, isso
cm con1un1, o scren1 «civilizações» e não sociedades pr1n11l1vas. As
~:ociedadcs pnmJt1vas são 650. ivlas essas vinte e un1a civilizações
cunl:ini r,or s1 só maIS memhros do que todas as sociedades primitivas
.-.l:111~1:l:I'-, :ilgun1a vez contara111. E o facto de seren1 todas igualmente
«eml!~açôes» fornece-nos uma base válida. de comparação. -Seja:
r11a~ .nao seria preciso entendermo-nos pr1me1ro sobre o que se chama
Cl\'lht.a~·ào?
St.'gund::i objet.\·:io, que se opõe diamctraln1ente à pnmeira: aca-
l\.t\\h\:-.Jc \ -.'r ,, i.l~l;,.· :-e ,lcY-.- ~'-1.'ll:SJr J:1 h('ter,_,geneídadc dás ci\ilizações·
un1d:11.i,.:, Ja L't\·iliz.aç?io. nàL~ nos pr1varemÕs de sustentar a tese: ~

138
humanidade e un1a; não se deixa cortar em fatías; portanto, não se
pode falar de civilizações; não há senão uma. a Civilização. - Toyn-
bee consagra nada menos que 22 páginas (!, 150-l 72) a combater ~sta
tese e, ao mesmo tempo, a concepção europocêntnca de uma l11stona
que colocaria no seu coração a civilização ocidental do século XX.
E está mmto bem - mas o leitor francês sorri antes de mais por ver
D. Quixote atacar con1 tanta convicção essa miragem; dep~1s, ~s-pa1_1-
la-sc urn pouco: pois quê, conllnuaria a Grã-Bretanha tao fiel as
ideias de um século XVIII decadente, que fossem precisos tantos
esforços e priginas para as combater? _,
Toynbce prcv6 un1n objccção n1nís grave: «As víntc e un1a c1v1-
lizacões, dir-se-â, não são contcn1po~·âncas; espaçan1-se ao longo de
6000 anos. Comparar, pois?» - Mas que são 6000 anos. quando se
pensa que o n1undo tem dois biliões de anos. a vida sobre a terra
300 milhões, e a anaríção do homem (<lc1xamos naturalmente a
Toynhee a responsabilidade de todos os numeros), 300 000? A par-
tir dai, 6000 anos, e vistos de Sínus, não é nada. Uma película de
tempo sem espessura aprecüívcl. E nós van1os estabelecer diferenças?
Ora vamos Já: todas as civilizações são conten1porüncas, tanto que
cada un1a delas, tomada como un1 verdadeiro 1ndividuo, nunca repre-
senta senão três idades sucessivas: a da genese e. se há ocasião, da
união con1 uma c1vilizacão exterior; a do dcsenvolvrmento; a da asso-
ciação a un1a nova civilização. ou da extinção pura -e sin1pJes. Uma
espécie de preslldig1tação. O prestidigitador é hábil, mas acaba talvez
por n1ccanízar uma lustóna que se tratava de vitalizar? - Deixemos
isso, e deixemos também o que se segue. Uma ·o.utra porta que
Toynbee. com os nunhos para a frente, arromba impetuosamente
(!. 175-177): todas as civilizações se cqmvalem, afirma ele, e a nossa
não é uma perfeição. Tomemo:; nota disso!

*
* *
Resta a última obJecção: «qualquer facto l11stónco é um facto
Unico - e pvrtanto. por natureza e definição, impossivei de comparar
a outros.» - Qualquer víúa, responde Toynbcc, não sen1 1nqu1etação,
qualquer vida e ao mesn10 tempo tinica ~ comparável às outras. vídas .
A cxistêncla ele ciências con10 a botânica e a zoologia, as c1ênc1as
biológicas cm geral e a Fisiologia, demonstra por si só, exrenme~-
talmcnle. que os fenomenos da vida podem ser comparados. E, do
mesmo modo, a existência da antropologia, que não se pnva nada
de comparações ... - Comparações? Mas as socICdades pnmitJvas são
soc,eclades sem lmtóna ... - Só vos parecem assim, replica Tuynbee,
por falta de documentos. Vocês admitem que se comparem as msl1-
tmções primillvas. Se pudessem reconst1tmr a história das sociedades
que as adoptaram, ou criaram, também admitmam que se estudassem
comparativamente essas sociedades na sua evolução. Sendo assim, o

139
que vos impede de adm1t1T que se estudem comparativamente, da
mesma maneira as sociedades, as civilizações que possuem todos os
documentos nec~sànos a um estudo semelhante? Tanto que, insinua
habilmente Toynbee (I. 180): de qualquer estudo empiríco das civili-
1.açõcs ressalta a existência de um elemento de reg,uJari<lacfe e ~e
repetição que fornecerá ao nosso mdodo comparativo a melhor das
bases: maneira astuc10sa, como se vê, de dar, por estabelecido o que
seria preciso estabelecer.: .
E de resto, acrescenta o nosso autor: vocês, lnstonadores, dis-
cutem sobre a possibilidade de aplicar o método comparativo a factos
vivos. ou que o foram? Os homens de negóc10s não discutem tanto.
Sobre que é que eles fundam as suas empresas'/ Sobre que e que as
Companhias de Seguros, por exemplo, baseiam a sua aet1vidade?
Sobre estatístJcas. Isto é, sobre comparações válidas entre factos
reputados «únicos». Essas estatísticas não enganam: negligenc1a1-as,
e o vosso empreendimento perígarã: utiliza1-ns 1udic1osamente, .e ele
prosperará? Portanto ... Portanto. 1m1tcmos o-s homens de neg~c1os,
nós, os histonadores timoratos. E, tal como eles, maneJemos o metodo
com parat1 vo.
Um momcn10! Não digo: então é á ncção de preço de custo, ou
Je prénuos de seguros a ca/cuiar que vêm a dar tantas belas decla-
rações sobre a vida e a históna viva? Digo, simplesmente: os homens
de negócios, afirma. devem o seu bom senso ao facto de não terem
sido formados nos métodos antiquados da históna? Perfeito. Esse
bon1 senso 1nc1ta-os a achar <<1nuito natural» o emprego do n1étodo
cor11parat1vo no seu úon1in10? De acordo. Mas que cornparam eles
afinal? E dentro de que limite de temDO funcionam as suas compara-
ções? Se eles saíssem desses limJtes, desaconselhá-los-ia, sem hesitar,
de basearem os seus cálculos para a próxima colheita sobre as flu-
tuações dos preços do trigo nas margens do Nilo, quando remava
Ramsés II ... E não hesitaria mesmo cm rccon1cntlar-lhcs que r,-cn-
sassem duas vezes, antes ele deduzirem da observação dos factos euro-
peus de hà cinquenta anos, leis aplicâveis, taf e qual. aos factos
europeus de hoie! Mas deixemos de seguir Toynbee no seu terreno,
e <lc, seguindo-lhe o exemplo, travar uma polémica ficllcia com inter-
locutores bntâmcos que, vistos através dele, nos parecem gente velha
de velhos paises atrasados, de uma mgenuidade um pouco favorável
cn1 demasia aos sucessos de Toynbee. Não crcío que nem eu, nem
nenhun1 de;-; compí.lnhc1ros de armas h1stór1cas de que eu falava mais
acima - os da I?..evue de Srnrhêse, dos Annales. da Encyclopédie,
façamos especialmente figura de histonadores refractános a qualquer
movação. Não creio - e a colecção dessas publicações seria para
Tornbcc o testemunho disso, se ele tivesse mais curiosidade pelas
coisas e pelas ideias de França (à parte Émile Ollivier e Gobmeaul-
não creio ter alguma vez tomado posição contra o método campa:
rat1vo. Ao contrano. ereto bem saber que não poucas vezes tercei
1 armas por eie. Mas com as prudências necessárias.

140
Comparemos, sim. Mas como historiadores. Não pela alegna
perversa de mergulharmos no nada de 21 conchas vazias: pela alegna
sã e forte de apreender o concreto, de dissecar cada vez mais esses
cadáveres de tempos volvidos que são as civilizações. Comparemos,
não para, por fim, fabricar, com factos chineses misturados com
factos indianos, russos e romanos, confusamente, não sei que con-
ceitos abstractos de Igreja ecuménica, de Estado universal ou de Inva-
são dos Bárbaros. Comparemos para poder. com conhecimento de
causa, substítmr estes singulares por plurais. Para poder dizer, se me
é permitido escolher um exemplo familiar: já não a Reforma, mas as
Reformas do século XVI - mostrando como se operaram diferen-
ten1enle nos diversos mcíos, nacionais ou soc1a1s, cm resposta aos
«desafios» do mundo medieval decomposto; as Reformas, o que não
quer dizer uma colecção de dissertações monográficas sobre o porme-
nor dos dogmas formulados por Lutero, Zuinglio, Melanchton, Bucer
ou Calvino-. n1as a explicação elas variantes que a vida, com as suas
particulandades, introduzia no coniunto das «concepções do mundo»
que esses hon1ens formulavam para seu uso próprio, e para uso dos
seus contemnorflneos: devendo cada uma dessas variantes ter em
conta as dos· vmnhos - e que tinham ongem nas condições de exis-
tência específicas dos mdividuos, dos grupüs, das classes e das nações .
Empreendimento de longo fôlego, certamente, Modesto, afinal, se o
compararmos ao de Toynbee. Menos de um século frente a 6000 anos:
película por película, a primeira é mais fina.
E que não se objecte: «Esse passado, que vocês trabalham para
compreender e para interpretar. mas que, em defin1t1vo, não recons-
troem realmente?» - Oh sim! Toda a ciência é construtiva. Mas as
construções não são igualmente sólidas, leais e lícitas. Dizer que os
documentos não dizem tudo. Dizer que deles não decorrem, 1rres1s-
tívcl e auton1al1cn111cntc. as n1esn1as conclusões. Dizer que, para o.s
1nlcrpretar, e preciso ao instor1ador adivinhação, uma certa espécie de
sensibilidade antenas: outros tantos truismos. Mas pretender. com a
ajuda de udia centena de dados extraídos de algumas memónas de
esr,ecialistas, reconstituir de uma forma válida o passado de uma
civilização: é uma audácia. Pretender fazê-lo em terceira mão. segundo
dados colhidos nos manuais: é uma quimera .
Acrescento: continuar a opor, como preguiçosamente se faz, o
«especialista», autor de n1onografias. ao verdadeiro h1tsor1ador; cons-
trutor de sínteses é estar verdadeiramente atrasado. Falo aqm como
prática da lustóna. Especialista ou síntetísta? As duas coisas, não
se pode ser senão as duas coJSas ao mesmo tempo. Generahzar no
concreto, sem a preocupação de abstracções feitas em séne: é um
úlUmo cume a ser transposto pelo lustonador, o mais alto e o mais
árduo. Nem todos o atmgem _:_ não são dotados para o atingir. Mas
nunca o passam senão aqueles que pnmeiro, lentamente, dificilmente .
penosamente, tiveram dado todos os passos de aproximação através
da montanha. Nada pode dispensar ninguém disso. Pretender empo--

141
Ie1rar-sc de un1 salto na crista; to1nar ai u111a posição favorável e
depois, com outro salto, tornar a partir. com um adeuzmho: está
mwto bem ,para uma fotografia. a cabeça de uma revista ilustrada .
,i,, Mas não é assim que se Jaz entre os alpimstas. Quero dizer, os histo-
riadores.
r, E por favor: que Toynbee e os seus emulos de todos os países
deixem de ironizar acerca dos especialistas, esses míopes, esses atra-
' sados-. úe onde vc1n todo _o n1al. Toynbee e os :,cus êinulos «tê111 data»,
'!'
'r.
pelo 1ncnos tanta. con10 eles. São tambCm «de onlen1», senão de an-
teontem. «A vida»: têm: a boca cheia dela. Çomo os de 1900. Mas
•11 não é con1r,arando cn1 c6njunto vinte e un1a c1vilizaçõcs que se esten-
i1i dem por 6000 anos que :se poderá captá-la. Nas mãos de «compara-
"
.!' t1stas» que encaixam Assurbanipal en1 S. Luis ou Scsóstr1s cm LCnine,
lf a vida sô po<lcrü desaparecer. Menos devoção verbal pela Vida e mais
ij rcspello pelas Vidas. Nos limites úc un1 r,crio<lo dctcrnunado, já C tão
dificil ao h1stonador não nroJcctar as suas 1dc1as, os seus sentimentos,
i! as suas preocupações de hon1ern do sêculo XX nos espíritos e nos cora-
ções <los homens de século XVI. não é verdade. ou do século XIII?

! Pôr em concorrência vinte e uma civilizações, é querer cometer
ii v1nlc e un1a vezes n1utliplicadas por v1nlc e un1 o pecado capital, o
pecado 1rrcn1c<liúvcl de anacron1sn10. E, ao mcsn10 ten1po ...
Os «pr1m1t1vos» têm ou não têm história? A n1eu ver, a questão
não é essa. O que distingue as tribos de «pr1n1It1vos>> das sociedades
<le «civilizados». é essencialmente isto: pode dizer-se, com alguma
Jeg1t1midade, os Zuius, os Cafres. os «ToucouJeurs» do Senegal e da
Gu1nt' - porque eles são relativamente pouco diferenciados no inte-
rior do grupo; muito menos, em todo o caso, que os «civilizados»:
mas dizer: os Gregos. os Romanos, os Franceses da Idade Média, os

~
Italianos do Rcnasc1n1ento - cnm ma1ori~ de razão os homens da
I<la<le !Vlédia ou os <lo Renascimento («s1n1plesn1enle», se se pode
dizer!) - se não se presta atenção, é cometer um abuso de confiança
,, histórica. E brutalizar a vida. sob o pretexto de a expnmir numa pala-
\Ta. Retomemos um exemplo caro a Toynbee. O «esforço» dos seus
Espartanos existe. realmente: mas é o esforço de um Jornalista esperto. ,
Saltemos também nós os séculos, por uma vez. Que belas páginas não /
se escrevcnam, se qmsessemos, sobre Esparta «comparada» à Ale- .1
manha <los Nazis? 1Vlas o que e a Alemanha dos N·azis senão um :1
titulo, uma rubnca. uma maneira cómoda d~ nos expnm1rmos? A Ale- ;I
manha nazi? São os próprios Nazis que a dão como uma realidade. ).
e
Mas a realidade viva da Alemanha contemporânea feita, aos olhos 1
do l11stonador e para falar a língua de Toynbee, das diferentes res- ·J
postas que os diferentes grupos e os diferentes mdivíduos dão aos :1
«desafios» do Nacwnal-Socialismo. É feita de toda a gama dos com-
promissos que a repartem. desde os 95 % de adesão aos 100 % de
ft:"('US3.. e dessa mistura rno\·el {e ,1va) de tradições Yivazes, de sobre-
vivências em retalhos e de experiências vividas que a capa do con-
formismo oficial cobre. E Esparta? Se a uniformidade naz.J não é

142
m~is ~que un1a palavra, que pensar ela unJforn1aladc espartana e da
1magci~ que Toynbcc úcJa nus cun1un1ca? Não lancen1os sobre tantas
aiunas ª
rnascara de un1a decoração em cartão pintado, aliás pres~
t1º1osa. e !nte1ramente ao gosto de Londres de 1936.
Histona comparada à Toynbee ... Não será isto a ressurre1cão
no secublo XX. de um velho género literário que teve a sua vooa ~ a;
suas o ras-pnmas? -De Luciano a Fontenellc, chamou-se Diú/ooos
d os n1or1os. o

., . C~nclua:11os c~n <luas palavras. O que A Sua/y of Hisrorv nos


t1az dc lo~vavcl nao tcn1 111uao de novo para nós. E O que no.S traz
de novo nuo yalc grande co1.-;a para nos.
L1<lo o livro, l..1clc<~n10-nus un1 puucu por i.oJa a parte: naJa
partido: .1:aUa tocado: 11ao estan1u:s n1<.11s enlatuaJos cuni as nossas
~~nq~lstds que. ant:s - ne111 n1a1s JcscncoraJados pelos nossos 111su-
ssos. No bolso nao dcscobrnnus ncnhu111a chave: e vcrdaJc. N ,_
~! 1 1
un a chave capaz _J~. abr~r, 111JisL1ntan1c11tc, as vinte e un1a rurt.~s
dS vinte _e un1a c1vd1zaçucs. ivlas nunca proc:ura1nus L0-ia! Scin
orgulho, na~ d_c1xa1_nos de ter confiança. Conhecemos be1n a razão
b~rt .q~e a __I-f/s~oria e ainda, na assc1nblc1a das ciências hun1a1u1s, uina
a t. or1a 1c1ra scntaJa 110 lugar n1a1s hun1il<le da n1cs·1 E s·1bcn1os:
ta1:1 cn1, que_ clu par~1~1pa nessà crise geral e profund~ ~ das ideias ~
jª 5
concep~?es _c1ent1l1cas que provocou un1 <lesenvolv1n1ento súbito
~ certa~ c1enc1as, em particuJar a física abalando nocões que h·i
rnnas_ decadas, pareciam a<lqum<las e sobre as qurus a ·Human1cia<l~
repou_sava c~m w<la a tranqmhdade. Sabemos que em função de tais
tr_anslormaçocs. e porque a Ciência é uma e todas as ciências solí-
danas-:- sabemos que as nossas ideias, fundadas sobre uma filosofia
c1ent1f1ca caduca tem de ser revistas todas " - d
ide, . . · -· _ , - e, en11unçao as nossas
~as, ?.~nos.sos n1etodos. Nao h~i. nisso nada que nns assuste, nada
~1u: P~S~d ll~citar-nus, _rcnunc:.<-111do ao 11usso labor prudente e difii.:i1,
d lanç,_u-nos_ nus b~aço_s dos 1azc<lorcs de n1ilagres, Jos taun1aturgos
ao Hmesmo tempo can<l1dos e astucwsos, dos fabricantes de Filosofias
da 1stor1a baratas. lVlas cn1 v111lc volun1es .
E quanto à al~rm?ção 1mplíc1ta que se desprende do livro de
T?Y~.~ee: ~uc ele na? lurn1ula; n1as que se sente por dctrris <le todas
as pat:>i_nas do s~u l1v1~0: «A 111stür1a repele-se» - s1n1. A h1slor1a
~1b1~~~~~c~'1rc100nd1eciuen11toX. a~xaclan1cnte i01a medida expressa por esse velho
_ _ agonizante. n1onarca, no últ1n10 nunuto da
st~ vida, teria tl~lo un1 grande <leseJo de aprender toda a História
«l eu pnnc1rc. d1sse-lhc o velho súbw, meu pnncipe. os homens 11 ~;:
cem, an1an1 e morrem.>)

143
ALIANÇAS E APOIOS

A LINGUíSTICA *

• Neste passar eni revista das .<\lianças e dos Apoios, de uma J11st6rta
preocupada com a renovação, a geo,:ra{ia deveria ter lugar. Em pnme1ro
plano. Mas consagrdmos-lhe demasrador estudos. em cinquenta anos. para não
desejarmos agrupar estes estudos á parte. Dai, urna ausenc1a. aqui. que pode-
ria surpreender.
CAMINHANDO PARA U!HA OUTRA HISTúIUA

Incon1plcto Je un1 quarlo, senão de un1 terço, un1 livro. um


pequeno livro acaba de aparecer. Tem um belo título - ou melhor,
dois: ..1lpofpg1_a d(!_histOr1a ou Ofíc10 do Justoriador ', É o segundo que
mereêe o ep!leto; rnas o autor, tendo-os rnscrito a ambos na capa dos
seus n1anuscritos, j;:i não se encontrava no mundo para cscoll1er o
que prefena: o autor, Marc fil9çlr, fuzilado sem Julgamento pelos
Alemães no dia 16 de Junho de 194_4, a seguir ao desembarque na
Provença, quando «esvaziavam» as prisões executando matanças em
massa de patnotas - Marc Bloch, um dos espintos mais sólidos deste
ten1po:,?, que um espantoso esforço de aprendizage1n (línguas antigas
e modernas, técmcas partrculares, leituras prodigiosamente extensas,
estudos penetrantes de textos de todas as proveniêncías, viagens e
1nvest1gaçõcs no estrangeiro) permitiu chegar a esse ponto en1 que as
grandes obras rarecc1n nascL'r por si próprias sob a pena Jo rncstrc
que as traz consigo; Marc 13loc1I, de todas as ,perdas em homens
sofridas pela França entre l940 e l945, talvez a mais cruel e a mais
rn explicável.
Disse algures como, de regresso a França depois do arm1stíc10
pelo perigoso crrcmto Dunquerque, Lom.lres, Rennes, longe das suas
notas, postas a salvo em Pans, mars longe ainda dos seus livros,

Ca/uers des ,-1nnales, fase. III, Armand Colin, 1949; 110 paginas 1n-S.º
Corno o tcsten1unha, alén1 das suas obras propnamente h1stóncas,
esse pequeno livro postun10 tão denso, tão profundo na sua simplicidade, que
ele intitulou L'érrange défaite, testemunho escnto em 1940 (ed. Atlas, 1946,
in-16). Ê urna meditação suscitada por recordações pessoais sobre as causas
desta derrota: antes de mais, diz Bloch, «uma derrota da 1nteligênc1a francesan.
Muito poucos franceses leram este livro amargo, tanto mais doloroso quanto
é fruto de meticulosa reflexão. :tvfas quê? Marc Bloch não pertencia a nenhum
partido político. E nenhum liceu de França recebeu o seu nome ... Os nossos
arrugas de Inglaterra, esses, não se enganaram sobre o alcance do testemunho.
Traduziram-no e editaram-no numa das suas mais famosas editoras un1vers1-
tánas ...

241

---~-----
cuidadosamente encaixotados e expedidos para a Alemanha pelo
ocupante-, esse homem que detestava a oc10sídade pegou na pena
e começou a lançar para o papel reflexões sobre a Justóna. E em pn-
me1ro lugar sobre a sua leg,t1m1dade, tanto para os próprios h1stona-
dores como para a nossa civilização, directamente interessada no
debate.
Porque ela e, no fuI!do e desde as ongens, uma civilização de
Justonadores. Diferentemente de tantas outras, entre as quais algumas
de 1mportânc1a, a indiana por exemplo. 1 E a religião que expríme
tanlos dos seus aspectos funJa1nenla1.s, o cr1stían1smo, é tan1bên1 e!a
uma religião de historiadores. «Crei-o em Jesus-Cristo, que nasceu da
Virgern ívlar1a, fo1 crucificado sob Pônc10 Pilatos, ressuscitou de entre
os mortos ao terceiro dia>>: eis uma religião datada. E e:')sas referên-
cias não conslitucn1 un1 accssúno para ·o fiel. Não se é cristão se não
se accitar essas afinnaçõcs, que a religião põe con10 fun<lan1ento da
própria crença, con10 outras tantas verdades situadas no tempo. Da
mesrna n1ane1ra, não e cnstão quen1 não se situar a si próprio, e
consigo as soc1edacles, as civilizações e os Impérios, entre a queda,
esse ponto de partida, e o Julgamento, esse ponto de chegada de tudo
o que vive cá em baixo. O que é, ao mesn10 tempo, situar-se a si
própno e s1iuar o universo no tempo- portanto, na história .
Ora, que nas últimas décadas mmtos dos portadores da civilização
ocidental tenham bruscamente desdenhado o seu velho gosto pela
h1stóna: que ti.:nham n1arcado v1gorosan1ente a sua desilusão de
homens que c1nlrnm acreditado demasiado naquilo que lhes agradava
charnar as sua::. <diçõcs»: que a própria cadência, tão furíosamente
acelerada, das revoluções técnicas que nas nossas socledades deram
ongcm a verdadeiras mutações ps1co!óg,cas, sempre correspondentes
a novas mudanças: caminhos de ferro, <lepois os automóveis, depoís
os aviões, e o passado a recuar por saltos~ o vapor, depois a energia
eléctnca, depms a energia at6n11ca em vias de domest1ção - e tudo
o resto, que sena preciso paginas para enumerar, tudo o que afecta
o género de vida, o comportan1cnto 1ntlividual ou colcct1vo, as reac-
ções scnsona1s dos homens 2: - que esta n1esma cadência, esta acele-
ração pro<líg,osa das transforn1açõcs agrave a1ncla mais o abismo que
senara as gerações e rompa com as tradições: eis o que não é preciso
dcn1onslrar cxausuvamente. Consequência, entre outras: um grande

' Sabemos muito pouco sobre a lustoncidade das diversas civilizações.


É uo1a grande sorte podern1os recorrer a Granct no caso da Cluna. Sena
preciso estimular semelhantes estudos, alertar os indianistas, os cg1ptôlogos,
os :.issinôlogos, etc. Tais estudos só se farão por solicitação dirccta dos 1nte-
1 Ainda não há estudos concertados. Os «filrnólogos}), que surgiram
recenti:n1entc, ,11nda mal começaram a inquietar-se. He1ri Wallon descreveu,
no âmbito dos seus estudos, um programa tão interessante para o lustonador
como para o filmôlogo; resta pô-lo em acção - e prosseguir simultaneamente
os estudos sobre os organismos humanos. Sem desprezar o problema da velo-
c1Jaúc

242
desdém pela lustóna. O desdém de homens que se embnagam com
os seus êxitos, sem terem tempo de fundar sobre eles uma mstítmção
durável: porque amanhã •nutras êxitos virão pôr tudo em questão.
Desdém de homens que orgulhosamente se proclamam filhos das suas
obras - e não dos seus antepassados fora de moda. Que importa
Vclta aos nossos construtores de centrais eléctricas? Sena o mesmo
que falar de Ícaro a um construtor de aviões. Tempos que já Já vão.
E_o __ m:econce1to é cada vez_maís forte: como é que se pode perder
tempo a fazer lustóna - quando tantas tarefas fecundas, e que «ren-
denrn, exigem ÜOJe todas as energias, todas as inteligências?
Ser:-i preciso reagir contra estas tendências? Sen1 dllvida. na
medida cn1 que elas an1caçan1 ,1balar os próprios fundan1cntn~ dun1a
civilização de h1stona<lorcs. Bloch partiu dessa grande preocupa~·ão.
Em três palavras, o pnme1ro titulo do seu livro revela-no-lo excelen-
temente. Mas há ainda o segundo. Eu Jis.sc que ele era belo. E é
1gualn1entc cheio ele promessas.

*
* *
É raro que um lustonador da envergadura de Marc Bloch, amda
cm vida - enquanto está cm plena força da sua produção e as obras
que traz em s1 o obcecam-, é raro que ele formule as lições da sua
experíêncía para as comunicar aos seus contemporâneos. Michelet,
que era a própna h1stóna, não o fez. Nem FusteL Nem Jullian, nos
nossos dias. Pirenne também não. Eles ensinaram, e portanto trans-
mitiram a outros um pouco das suas reflexões. Ma.s hã uma distfincía
cnc·rmc entre os conselhos distribuídos a aprendizes cn1 certos n10-
rncntos e duma n1ancíra discursiva e fragmentada - hà uma enorn1c
ciistfincía entre essas inclicrtções de trabalho e es..~a cspCc1c de con-
fiança humana de mestre-de-obras explicando aos seus leitores, que
não são necessariamente <<da sua especíalidadc», o que para ele repre-
senta o seu trabalho, que fins lhe propõe e cm que espírito o pratica:
e tudo isto, não como pedante que dogmatiza, mas como homem que
procura compreender-se na íntegra. No livro de Marc BJoch, aquilo
que am:ecmre_I11os acima de tudo, mais ainàa que um díscurso em
defesa da l11stóna-::..: são·cssas precmsas confidências. Essas reflexões
de mestre de oficina sobre um ofício -delicado. Livres, mas orde-
nadas - sem nada de escolar. nem de herdado, porém.
É isso, cre10, o que nesse livro poderá interessar sobretudo, inte-
ressar antes de mais o filósofo, cunoso de captar os aspectos VJvos
das disciplinas contemporâneas. É isso. em todo o caso, o que nos
interessa, a nós, historiadores. no que respeita à crítica filosófica.
Será preciso dizer que em geral esta não nos presta talvez todos os

243
ser.·iços ' que poderíamos deseJar? Porque, sem dúvida, os filósofos
contmuam a ser um pouco vítimas dos historiadores -isto é, dos
preconceitos que demasiados de entre eles continuam a espalhar:
precon;eitos herdados dum passado longínquo, aceites sem discussão
por praticos_pouco i;ropensos a lidar com ideias e prontos a aprovar
as obscrvaçoes de Peg1.1y, ~en1 se aperceberem do seu ressaibo av:ína-
g~ado.- «Duma maneira gera] {cito d~ memóna e disso peço desculpa),
nao e bom que o lustonador reílicta demasiado sobre a história.
Enquant.o se ocupa disso, mterrompe o seu trabalho. E O filósofo
(cu10 oficio é esse) cruza üs braços. O que faz dois homens que não
trabalham!. .. » Péguy diz isto miHto melhor. Com efeito, os pequenos
hv:os que se intitulam Introduçao ou lnzczação aos Estudos históricos
reJ]ectem- ainda demasiadas vezes, em 1940, o estado da Ciência por
rnlta de 1880. E a imagem que eles apresentam da J-listóna não é
feita para lhe granicar as boas graças das ·pessoas inte!iO:entes e qUe
se entregam à reflexão. º
. Aliás, não são só eles. Toda a gente o fez. E também esses mcto-
<lqlgw,s impenitentes que descobnram, por volta de 1880-1890, que
a h1_stor1a, afinal de contas. não passava de un1 n1ét_odo. O 111étodo
Justür-1cu_O qual não era outro· senao o mêt.udo~-críl!CO.--E j)O-rtanto,
de mudo n,c~).1~n1 _ un1 __ !.!.1_~)nopóli-o _cio~J~.1~t_or1aú.9tcs"'---Dc onde resulta vã
CJUC a h1stor1a, JcsaparccenJo, perdia toUu o conteúdo e toda a rea-
lidade. O que, entre parêntesis, dispensava os hislonadores de fazerem
a temvcl pergunta: «O que é a Jüstóna?»
O,s sociólogos, ror seu· lado, no entusiasmo das suas primeiras
conquistas. atacavam com júbilo uma disciplina tão mal defendida .
Os defenso~es da,escoJa_durkheimjana rião-- espalha_v_am a históna
aos quatro ,enlos.-_1.~ro<leravam-se d ~ o r e s : Tudo O que,
no don11n10 das c1cnc1as lustô_ncas, lhes parecia susccptível de anülise
rac1_onaJ ncricnc1a-lhes. O _rcs,Uuo, era a fuslúna: un1a passagcn1 cro-
.n0Jug1ca ao papel, no 1na~1mo, Je acontcc1n1entos de superfície, a
maior parte das vezes devidos ao acaso. Digamos: uma narrativa. 2
E pois comrreensivel a atitude dos mundanos, e"assuas troças:

' Isto deve s~~ dito com todas as precauções requeridas. E um facto
que l11st~nador e f1losofo 1 epresentam e_m geral dois tipos de hon1cns nitida-
mente d1ferenc1ados . .É um facto tambcm que nas ongens daquilo cruc nós
co1H.:.c11cn1os con10 h1stóna est1vcran1 eficazes e fecundas ref!c.xões e sugestões
de f1lc'>sofos. Porque não rcportarn10-nos a Leibniz? E depois, naturalmente,
a l·f.erdcr, ;1n1cs t.lc cl~cgarn1os .ª I-Icgcl? E mesmo, no que respeita a França,
n yictor Cous1n, que lançou M1cheJct na pista de Vico e Qu1net na de I-Ierder:
!vf1cheJct que, encarregado de ensinar a filosofia e a h1stóna na Ecole Normale,
protestou vivamente quando, separadas as duas disciplinas, lhe confiaram o
ensino da históna? - E serri necessàno recordar o Cournot das Considerações?
" En1 1934, nos ,:t11a1s _Soc1ológ1cos, Bouglé admitia que a soc1ologia,
<~ainda oue pudesse ,r~?l1zar alguns progressos», talvez nunca chegasse, apesar
cti.:: tud?, a _to_rnar 1nut11 o relato J11stór1co, a suplantar a história! Que bondade,
nao ha duvida! E acrescentava, com condescendência: <(Ü h1stonador terá
sempre de anotar colocações e conJunturas, encontros de sénes que o soció-
logo será impotente para explicar por urna Ie1 geral.>1 Obngado pelas colo-

244
os mundanos para quem falava Paul Valéry, esboçando, não sem
bom senso aliás, o processo duma certa história em que, mfelizmente,
alguns de nós se recusam a reconhecer o obJecto das nossas inquieta-
ções - Yaléry dando a lição a esses estúpidos que ainda não tmham
reparado que, por exemplo, o aparecimento da iluminação eléctriea
nos lares f01 um acontecimento histórico mais importante do que
determinado congresso diplomático de soluções efémeras. O que nos
divertia imenso, e mostrava, com demasiada evidência, que o nosso
censor tinha feito bem más leituras de lustóna: deixemo-nos de
rodeios, que ele nunca tinha lido uma única linha dos artigos. dos
discursos, cios livros, de Henn Pirenne, de Marc Bloch, de E.-F Gau-
tier. do Jullian das Crónicas gaio-ron1anas ou das lições dl,.· abertura
no Collf!Re, do Jules Sion dos Estudos ,ncditerrânicos. Os nuss'2.s cl:ís-
s1cos, os nossos breviários - e não falo, naturalmente, senao dos
mortos. Entre os quais, à cabeça, essa encarnação da Históna em que
não cessamos de encontrar espantosos pressentimentos e 1de1as de
investigação dun1a força singular: qÇ>s, os an11gos _dc__Jyl._i.çheli:t -desde
o meu velho mestre Gabncl Monod até ao seu aluno Henri Hauser .
desde Marc ·Blüch ii.lé l\.cnaucJCt, dcsd·c ... , mas somos n1uitvs. A não
sabermos o que é a história, evidentemente. De tempos a tempos .
pessoas que sabem (na opinião dclns) 1nfhgcm-nos un1a desc.01npostura
que nós aceitamos com <lcferêncía~ ens1nan1-nos que l\lichelet foi
tudo, excepto um h1stonador. Facto assente. Não . falemos mais
disso - até ao dia em que, ao ser comumcado ao púbhco aqmlo que
do seu Jornal íntimo escapou às tesouras de Athénais Mialarel,
Michclct vcltar a ser digno de inleresse. Não escreveu Gabriel Monod
que mnguém falara da sua vida intima com tanta franq\Je?.a como o
seu n1estre? Eis o suficiente para lhe grangear, chegado o 1non1ento,
sín1patías especiais. E a solic1lude dos editores. _ _
Dc1xcn1os ,sso. For.111tfil1 hri algun1 tc111pn, brcvl.'s ohscrvat,;1.1cs
sobre un1a <(n1ane1ra ~<lc conceber a história que nao e nossa». Da
maneira qu,,ê ·nossa; Marc·B!ocli-âã-nos uma exposição, ,nfelizmente
interrompida: mas que limpeza!

*
* *
Não que o livro seja mmimamente rolémíco. A sua scremJade,
pelo contràno, é espantosa. Todos os escritos que Marc 3loc!J nos

cações; mas tudo isso !! culoa nossa, dos h1stonadores. No mesn 10 fascículo
dos Anais, com efeito, M. 1vfauss explicava a razão po~ que os durkheu:uanos,
ao tratarem da n1orfoiogia social, ai tinham 1ntroduz1d~ (<urna confus?o que
noutros casos tinham evitado.» É que eles encont_rav~'!' t11ante de s1 «un1da~es1,
(entenda-se, a geografia humana e a demografia) Jª demasiado const1tu1~as
para tentarem dissolvêMlas. HNão tivemos a coragem de quebrar as Jrt1culaçoes
dun1a ciência prov1sonamente melhor constituída que_ a ~as par~es da soc!o-
log1a que nós empreendíamos edificar.)) - Se a h1s_tóna tivesse sido, tambem
ela, urna «ciência prcv1sor1amcnte melhor const1tu1da)), talvez que ...

245
~erá deixado e que datam deste período de 1940 a 1943 por ele atra-
essado com tanta d1gmdade, heróica resolução e nobreza trazem a
., __ marca
rnesma _ - Ac_erca do seu adm1ravel
- · '
Testamento espintual e dos
seus ~ 1tlmos pro_pos1tos, escre,1 que evocavam por SI próprios a paJa-
,Ja Santidade. !· bem ~ssa palavra que_vem aos láb10s quando recor-
damo~ aqwlo que se pode saber da paixão e .da morte desse grande
franccs. A lranqu1hd_acte com que, arnscando permanentemente a
~_ida,dc ei_1ca'.ava. o fim c_::,mo mais ou menos •fatal, enobrecia e pun-
ncava todas ,as suas vivencias rntelectuais. 0 própno estilo trnha
mudado, Mais sóbno. Menos malic10so. Mais comovente pelo que
lrnha de ~onlido, de_ soberanamente despegad-o das coisas pequenas e
Ivlas, para retomar a nunJ1a
1n.csqu1r~has do. con1erc10 quot1d1ano. -
l!Xprcssao, ~ lunpcza re_suitou apenas mais tolaL E 111 a 1s decisiva
_JJm _nie!od? d<;)1i~tQ.1:!'t, esse livro? De modo nenhum. ConsidC.:
rnç~es pseuuo:,fllosoücas' sobre a lustóría? Amda menos. A rccupe-
r.c1,ç.ao ;de, n~?o~s :rr.oncas ou ca1das cn1 des1:_so'l Se se quiser. Esse
Ü\~u e na \crdaJc, anlcs <lc ma1s. ~tl}jl.___r_Qy1~.~1.o critica das maneiras
i_il,forrcc[aS,,<l':_p_ei1sar C de praticar a históna, mas SOO a forma duma
c~n :er~a honesta iJe · 110-fnem - pani'lfomem. O pretensioso, o pedante
nada tem a fazer aqu1, Um exemplo:
Ira Marc BJoch, no mic10 do seu livro, dar da Históna «uma
longa e ng1da defimção»? Os precedentes decerto não faltam. Que
Justonador, _a()_ m_enos.Uitia ve~ na vida, não terá cedido ao contág10?
' l\:'!.~_:c_~loc!1/ecus"c~se_il,_taLl'/_a? dehne a lustón_a. Porque toda a defi-
_D1Ç.?_Q_~er1sa_2:., E porqu~ as c1enc1as. tal con10 os hon1ens. têm anteS
de mais necessidade de hberdade. Defimr_a_hístcína? Mas qµal'/ _Quero_
d1~-~_C,._ e11:1.. que data e no a111b.1to de que civilização? Não Y.anru:â._a_-_
Justo na_ perpe_tu_":'11en_t_e_,__llll_~lla mqu1eta procura de novas técmcas, de
pontos de _vista rnéchtus, de problemas a pôr duma forma mais cor- -
rccLa? Definir, J_ef1n1r: mas as definições mais cxactas, as n1a1s cu1<la-
<.losan1cr~tc mcc.htadas,_ --ª~-- i:!~?-~ n1cJ_1~.µ~o.sameútC ~ieiligiUãS. - não·_--sc
arnscarao elas a deixar de _fora, a·cada mstante, -o melhor da lustóna?
Essa grande mama das defmições, boa no tempo em que cada burguês
,·ivia encostado ao Granae Livro da Dívida pública, poderosamente
encaixado no sistema de _Laplace, com o bolso do colete generosa-
mente recheado d~ napoleoes mvariáveis- que dizer dela, nestes tem-
~os de per;urbaço_es, de mcertezas, de destrmções? Não evocarão a
conhecida ':ase, divertida e profunda, sobre esses alunos duma grande
escola c1ent1f1ca. que «sabem tud-o, mas nada mais»? I>efimr, defimr,

~ ' «Cada ciência tomada 1~0Jadamente não representa n1a1s que um frag-
n1ento cto n1ov1mcnto universal para o conhec1rncnto. Para bem entender e
apreciar ~::; ::;eu~ r:irocessos de investigação~ sena indispensável saber ligá-los,
por uni tr<tço pcr~e1tamente seguro, ao con1unto das tendências que no mesmo
1110~1ento .se n::1n1f_~stam nas outras ordens de disc1píinas. Ora, este estudo dos
metodos por s1 pr91?nos const1tu1 a sua rnane1ra unia cspec1alidadc cuias téc-
nicos se :.hamam filosofos. E um título que n1e C interdito reivindicar.» Op. c,t.
Introduçao, p. 17. '

246
mas não será isso maltr_atur? «Atenção, meu amigo, você vaí sair da
h1stóna ... Releia a mmha defimção, ela é tão clara! ... Se é lustona-
dor, não pode pôr aqui os pés: é o domírno do sociól-ogo. Nem ali,
é o do psicólogo. À dire!la? Não pense msso, é o do geógrafo ... E à
esquerda, é o do etnógrafo ... » Pesadelo. Disparate. Mutilação. 1'...QlllXQ ./
o_;;--'comQ_arttmrntos_e_as _el1quetas! __É I1a fronte1ra, __sobr_e a fronteira,: \,, 0

urn_JJ_é deste lado, um_pó_gll_tj!Jele,_qw,_o_hisLonacl_Q_Ld~_e lI:fll:i~!h_ar \~

Jjvremente. Utilmente ... É assim, de uma ponta à outra <lo hvro. (


MàrcBlôê1i não ataca. Segue o seu cammho, a dire,t-o, num passo
firme. Diz as coisas con10 surocm o
aos seus olhos. «História,
·-
ciência "ft

~_S>_passa<lo.~ __ :tvlas seria o passado, enquanto tal. um obJecto de c1cn,.:-


c1a? Porque nã-u-, então, un1a ciência do presente, senão do futuro_:
Não: «J-Iá muito tcn1po que os nossos grandes antecessores. un1 lv11-
chelct, um Fustcl, nos cnsmarum a reconhecê-lo: o ob;ccto da lustóna
C por na~!-![q_za o_ J~on1e__n1_.» Un1 tempo, e Bloch: prossegurnd_o, ctta
esta frase tlunl-i1migo: -<<~{9".-º..l!º-n1c1n._nunca o hon1en1, as sui.;1edades
humanas, os grupos organizados» '· - frase que é preciso 11~0 conta-
derar de resl'o como -tcndenfc a cxclu!f o mdiv1duo do estudo da
I11stó;1a: con1 a~ fórn1ulas todas as precauções não são <lcn1a1s, con1
esses engenhos 111al regulados e que ncn1 sempre rebenta1n no sen-
tido previsto. Mas hà as paisagens, e as n1àqu1nas, e as 1nsl1tu1çõ~s.
as crenças, os escntos: por detrás de tudo isso que interessa a h1stóna,
que é a maténa da Imtóna, são os homens que 'O histonador quer
captar. «O bom lustonador parece-se com o ogre da ienda: onde quer
que fare1e carne humana, sabe que está ai a sua caça.»
Eis-nos sobre um terreno __ só.lido.:. falta apenas acrescentar um
ponto, mas essencial. A:-1,,stória não pensa apenas em termos de
,,humano». O seu clima natural é o da duração. Ciência dos homens,
sim - mas dos homens no tempo. Q_ temp_o,_ essa contínua-,-,-- mas
tambérn pci.[lêtu~_~_tx_an~fÜ_r_n.1aÇf"l6. «Qa auJHcsc __ cJcste_s_ dois ~1tributos
-pr-o\lê.rri"osgráiúles problc1nas Ua 1nvcst1gaçfro h1stór1ca.»

*
* *
Não vou segmr o pensamento de Marc Bloch desde o pnncip,o
até àquilo que é hoje, mfelizmenle, o fim do seu livro. Já disse o
suficiente para mostrar o seu espirit'O e forma. Quanto ao resto? Quer
se trate dos limites do actuaJ, da mane,ra de compreender o presente
pelo passado e também, e sobretudo, -o passado peio presente; quer
se trate da observação, dos seus caracteres gerais, da noção <le teste-
munho e daquilo que ela implica; da crítica; da mcntlra e do erro,
portanto da verdade em históna; dos problemas especiais da análise e
em pnmeiro lugar da finalidade que se propõe: Julgar ou compreen-
der - sobre todos estes problemas, e sobre tantos outros que a eles
1
La tcrre ~, l'évoiuaon hu111ai11e, p. 201 .

247
se ligam, encontraremos nesse livro mutilado as opiniões dum mestre
expnmidas com uma simplicidade, uma modéstia e uma humani-
dade raras.
«Estou certo de que me aprovará, disso me vanglono frequente-
mente. Ira repreender-me algumas vezes. E tudo isto cnará entre nós
mrus um laço.» Assim ternunam as prec10sas linhas que Marc Bloch_
es.c:rev~u._,!1:! nunha rntenção, «em Jeito de dedicatória», sobre a pri-
meira pagmaaõseu-rmnrosênto. De facto, eu: aprovo sem .reservas!
E se Bloch estivesse diante de mim, como tantas vezes, com um ar
cunoso e divertido - eu não o «repreenderia>,. Agradecer-lhe-ia. sim-
plesmente, por tão bem ter traduzido pensamentos que nos foram
comuns durante tanto tempo e a respeito dos gurus ele escrevia que,
para ser honesto, rnu1las Vt.:Lc~ não poderia decidir «se são dele, de
num ou de ambos» ... !vias cu gostaria de acrescentar algun1a co1sa
aquilo que Bloch digç,_ - ------ --- ----- ·- -- ---
A lustóna evolui rapidamente, como qualquer ciência, hoje em
dia. Com n1u1tas hesitações e passos cm falso, alguns homens tentam
orientar-se cada vez n1a1s para o trabalho colccllvo. Virá u1n Jia e1n
que se falara de «laboratános de histána» como de realidades - e
sem provocar sornsos 1rómcos. O trabalho do econon11sta já não pode
ser concebido sem uma aparelhagem cada vez mais aperfeiçoada.
E p.orta11to__se_rn a constítuiçãg d~ equipas bem treinadas, bem enqua-
dradas. E portiint.o ·sem investigações bem coordenadas. Com este
exemplo. que de perto lhes diz respeito, há hístonadores que começam
a despertar para uma concepção nova do seu trabalho. Uma geração
ou duas: o velho senhor no seu cadeuão, por trás os ficheiros estnta-
n1entt: reservados ao seu uso pessoa! e tão ciosamente guardados con-
tra as cobiças nvrus como uma carteira dentro dum cofre-forte- o
velho senhor de Anatole France e de tantos outros terá terminado
a sua vida grotesca. Terã dado Jugar ao chefe de equipa'. atento e
111qu1cto, que, formado por unia cultura sólida, lendo sido trcinatlo
para procurar na Justóna elementos de solução para os grandes pro-
bfen1as que a. vida, todos os dias, põe às soc1edadcs e ús civilizações,
saberá traçar o fln1bito du1na 1nvcst1gação, pôr correctamente as ques-
tões, 1n<licrtr con1 precisão as fontes de 1nformação e. feito isso. avaliar
as despesas, regular a rotação dos aparelhos, fixar o número dos
membros da equipa e lançar a sua gente em busca do desconhecido.
Dois meses, ou três ou quatro: a colheita está tennmada. Começa o
trabalho sobre os dados recolhidos.· Leitura dos microfilmes, elabora-
ção de fichas, preparação dos ma1,as, das estatísticas, dos gráfi-
cos. conrroniaçfio dÕs dÕcuITientos propnan1entc históricos com os
;documentos lingw,;ucos, ps,cológicos, élmcos, aroueológ1cos, botâ-
'nicos ... , ele., que podem facilitar o conhec1mento. Seis meses, um
ano: o resultaJo da mvestígação está pronto a ser revelado ao público.
A mvest,gação que um trabalhador isolado não teria tornado tão nca,
nem tão vasta. nem tão probatória, ainda que levasse dez anos. Mesmo
se, sobretudo se, ele thesse concebido a ideia na sua totalidade.

248
«O fim de tudo! Já não existe arte. Já não existe personalidade.
Uma mecanização do saber, ainda e sempre. Mrus uma!» - Julgrus
1sso7 Quanto a mim, penso que será preciso mais saber amanhã, mais
mteligência, ímagmação e abertura de espinto - numa palavra, ma,or
envergadura, para pôr correctamente uma questão tradicionalmente
posta de maneira incorrecta; ou, sobretudo, para pôr enfim, pela
pr1mc1ra vez, uma questão que ainda n1nguem pôs, de imenso ínte-
resse para a nossa compreensão, tanto do presente através do passado
como do passado por intermédio do presente. - E quem impedira essa
pessoa, o mestre-de-obras. de ter talcntQ:_Q.ar~_çye:r:_?_ E de o empre-
gar a pôr os resultados da mvestigaç-ão ao alcance de todos?
Isto, Marc Dloch não o disse no seu livro. ivfas eu digo: i..;to que,
a n1cu ver. é capital para o futuro da história. Não que ele não esti-
vesse pronto a anrov:1-lo. Quan<lo. cn1 1936. ao to111nr posse da cútc-
dra de Histána da Civiliznçã'o Moderna no Co//ége de Fmnce, eu
expunha numa lição de abertura - Exan1e Je consciência dun1a JustO-
ria e du1n historíador- o que então não era mnis que un1a perspec-
tiva de futuro, ele não me pôs. na verdade, qualquer obJecção. Mas
as circunstâncias, essa espécie de recuo que e!e conheceu a seguir ao
choque ele 40, a expatnação, a necessidade ele se reencontrar ma,s
do que se entender- tudo isso explica sem dúvida um silêncio que
nada retira de eficácia e de forca ás suas meditações, mas que amda
assm1 as data. Ora, desde l 945 que nós VJvemos anos que valem cada
um por dez. Que alguém se Julgue precursor - e já o grosso das suas
tropas terá ganho um avanço de vános quilómetros ...

*
* *
Técnicas tudo isso, t: n:ida 111a1s? - Técrueas, cfccl1van1entc. l'vfas
se faiaJs disso cnn1 dcs<lén1, nfrn podcna seguir-vos. E v1stll que já
estarnos neste terreno, que n1e seja permitido acrescentar qualquer
coisa. De menor 1mportfincia, n1as que tcn1 o seu n1ento. f\. J~~tÓQ!'l,
faz-se con1 <locun1cntos escritos, s~tlú.vitla__QuandQ___clcs_._cxis_t~m~
Mâ-SCia _podc_fazcr-sc, ela deve fazer-se scn1 doc_un1entos escritos, se os
pão houver. Com tudo o que o <;n_genho do l11storiaelor pod~ permi-
tir-lhe utilizar para fabricar_ o seu mel, à falta _das flores ha b1tuais.
Portanto, cem palavras. Com stgnos, __ Com pmsagens e te)has. Com
formas de cultivo e ervas daninhas. Com eclipses da lua e cangas de
bois. Con1 exan1cs <le pciç.Jras por geólogos e análises de espadas de
metal por químicos. Numa pnlavra, com tudo aquilo que, perten-
cendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o
homen1, significa a _presenç2, a actividacle, os gostos e as maneiras de
ser do homem. Não cons1stuá toda uma parte, e sem dúvida a mais
apaixonante do nosso trabalho de h1storiaáor, num esforço constante
para fazer falar as ce,sas mudas, fazer cc,m que digam o que por
si próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que as

249
produziram - e, finaimente, consutu1r entre elas essa vasta rede de
solidancdadc e de entreaiuda que supre a ausência do documento
escnto?
Se não houver estatíst.rca, nem demografia, nem nada: iremos
responder com a resignação a essa carência? Ser h1stariador_é pelo
contráno, nunca se resignar. É tentar tudo, expenmentar tudo Qª!.i1.
JJreencher as lacunas da mformação. É ex piorarmos todo onosso
engenho, eis a verdadeira eXpfCSSãO. Enganarmo-nos, ou antes, lan-
çarn10-nos vinte vezes con1 entusiasmo nun1 carnínho cheio de pro-
n1cssa~ - e depois apcrcebern10-nos de que ele. nfro nos 1eva aonde
qucna111os. Tanto pior, reco111ccen1os. Reton1emos com paciência a
meada de fios quebrados, embaraçados, dispersos. Relações longínquas
con1 civilizações muito antJgas. Textos? Não csncrcn1os tanto. Mas
for1nas ele barcos, !1ojc ainda associadas a este ou aquele 1nstrumcnto,
a esta ou aquela prática ·cuHura!, a este nUmero, aquele vocábulo,
aquele dito? Datadas por vezes, fortu1tan1ente, e que encontramos
aqm, e aqui e amda aqm: eis o que perm!le - com essa espécie de
embr1aguês provocada pelo percurso sobre essa aresta estreita, entre
a verosimilhança e a fantasia, a pura mvenção e a verificação- eis
o que pern1ite preparar os n1ater1a1s para um mapa: ?igamos d_o Oceano
indico. essa grande n1atr1z de civilizações, antes de o Med1lerrâneo,
talvez, ter conhcc1do a sua pr1n1c1ra organização e o seu pr1me1ro
surto cic desenvolvimento ...
E mais perto de nós? Uma sociedade medieval. Não existem
cadastros nem planos parcelares. Então, ficamos de braços cruzados?
Dizemos: «Não sabemos»? Não. Eis outros documentos, registos de
rendimentos, de bens senhoriais, declarações. Limpemos a poeira que
os cobre, leiamos, reflectamos, mventemos e acabaremos por desco-
brir, não somente uma esp~c1e de balanço parcelar dum certo tern-
tóno- n1as muitos outros dados a1núa. Un1a cstalísl1ca fan1iliar de
data fixa. Uma distribuição das culturas, etc.
Evitemos subestimar a força persistente deste velho tabu: «Não
farás história a não ser com os textos.» Imagmo um lustonador da
pmtura declarando: «Pintura? É quando se espalha tmtas .de óleo
sobre telas, com pmcé1s.» E portanto, que o deixem tranqmlo, esse
homem, com os frescos de Arena em Pádua, o retrato de João o Bom
no Louvre e todos os p11n11tivos e todos os exóticos que não espalha-
\'am untas de óleo sobre armações revestidas de teia. Que o deixem
tranquilo con1 as obras-pnn1as encontradas nas cavernas pelo abade
Breuil. «Pintura? Não. Arqueologia! Não ultrapassemos assim com
tanta desenvoltura o limite sagrado: h1stóna aqm, pré-Justóna ali ... »
Certamente que não é necessàno demonstrar que a profissão de
conhecedor das estações lacustres eXJge conhec!ffientos e, sem dúvida,
aptidões que o lustonador dos cammhos de .ferro no sécul<: XIX nã.o
podena utilizar. E reciprocamente. Resta dizer que a noçao de pre.~ ..
-lustória..e__um_a das mais ridículas que se possa imagina:. O homem_
que estuda a época de expansão de certa cerânuca neolítica faz lustó-

250
d
- ----·-· .,:,·~
r1a, exacta1nenle como o hon1en).__q1,1e executa_ un1 rnapa_QéL_gj_~tX!".'_
bmção dos postos lelefómcos em 1948. no Extremo-Onentc. Um e
outro, no mesmo -espífito· e ·com ·os mesmos fins, dedicam-se a estudar
as manifestações do gén10 mvent1vo da humanidade, diferentes na
idade, no rendimento, se se qmser: mas decerto não no engenho. Marc
Bloch sabia tudo isto tão bem como eu. Poupado pelo deslmo, se·
tivesse podido a partlf de !945 associar o seu esforço ao esforço daque-
les que, con11go, à minha volta, nesta casa dos Annales que ambos
fundámos com um mesmo descJO em 1929, retomaram o trabalho
para o levar mais Jonge: pergunto a num própno se não teria sentido
a necessidade de acrescentar a tudo o que disse. e de n1ane1ra tão
cxacta, algun1as precisões cornplcn1cntarcs. ivlas tratar-se-á. de con1-
plen1cnto'!
*
* *
Na verdade, o grande problema, o problema cap1tai que hoJe se
nos põe (e rep1"0 que falo aqui como prático da lustóna e de modo
nenhum como filósofo, que não sou; repito que todo o mteressc destas
páginas é, a n1eu ver, informar correctan1cnte os nossos amigos filó-
sofos de como somos alguns, cm 1949, em França, a conceber o tra-
balho de Justonador e, de uma maneira geral, o papel e o futuro da
lustóna) - o gra11_d_e_problema_J\__il(;_Q[gamzação.
Será preciso dizer, da lustóna? A palavra é equivoca e sena mais
uma razão para passarmos sem os seus serviços ' - se se pudesse cnar
um termo melhor: mas qual? Tem. em todo o caso, dois sentidos .
Significa uma ciência- e o conteúdo dessa ciência. ObJectar-me-ão
que geralmente é assim. Com menos consequências, talvez, e menos
insistência. Ora, é da ciêncica, enquanto n1ecan1srno 1ntclcctuai, que
gcrahncnlc se trala nos nossos livros e fasc1culos de n1étodos. !)o
contell<lo, e da necessidade de o 1nventar1ar, depois de o orga-
nizar - nada, ou pouca coisa .
Os nossos tratados de metodologia limitam-se a maior parte das
vezes a distíngu1r as operações do espir1to humano, aplicando-se a
tratar a matéria h1stónca. Muito pouco lógicos, os seus autores obst1-
nan1-se a reescrever perpetuamente uma espec1e de lógica superficial
e escolar da ll!Stóna. É assim que eles estão quase todos de acordo
para nos dizer: o lustonador estabelece pnme1ramente os factos:
acto I. Depms disso orgamza-os: acto II. Seguem-se dois desenvolvi-

! Eu sou um pouco mais pess1m1sta que Marc Bloch (obr. cit., p. 1)


quanto aos 1nconven1entes que apresenta o uso dessa velha palavra defor-
mada e sem significação precisa. Mas por que palavra substitui-la, que cxpnma
ao mesmo tempo a ideia do hon1em, a da mudança e a da duração? «Arqueo-
logia» está tomada - e reconduz a essa definição inoperante da h1stõna:
a ciência do passado; não evoca nem a ideia de humanidade, nem a ideia
de duração. «Antropocronologia, etnocronologia)), invenções bárbaras e que
teriam necessidade de explicações para serem compreendidas .

251

d
~1, --·
mentes: «Estabelecer os factos, é ... ; organizar os factos. é ... ». - Não
cnt1co isto. A úmca coisa que tenho a dizer é que tudo isso nada de
novo me traz. E que a tais análises faltam mmtas coisas: em primeiro
lugar. a noção daquilo que.o h1stonador procura, ou deve, ou deveria
procurar. «Que a arte é um grande desígnio - e não pode ser
procurada num simples vaso»: Brunetiére, por alturas dos meus qmnze
anos, pretendia deste modo executar Bernard Palissy e os seus Ru.rnc-
ques figulines. Eu não quero executar n1nguCm. Aborrccc-n1c, s1n1-
plcsmcntc, que a h1stóna não tenha ·um des1gn10 -que ela se fique
pelos ach.:idos ocas1ona1s <l~ Magendie - (o que já antes nos refere
Claude Bernard): «Passeio-me Já dentro como um trapeiro, e a cada
passo encontro qualquer coisa de ínteressante para meter no meu
saco.» Ao que Dastre replicava: «Quando não se sabe o que se procura,
não se sabe o que .;e cnconlra.» - A lustória a1nUa cslú no lcn1po de
Magcndic ...
Outra coisa. Esses livros, esses guias de pr1nc1p1antes falam de
factos durante páginas rnteiras. Estabelecer factos; organizar os factos
estabelecidos: mas que entendem eles por factos? Como concebem
eles o fac_to h1stónco? Apercebemo-nos bem depressa de que, para
a n1a1ur pa.ric···d-eiCS: -continua a ser um dado. i Bruto. Que na rea-
fülaclc sera construido por eles próprios sem que disso se queiram
aperceber. recusam-se a admiti-lo. sm 1949=!,U_llf/a..,,:_onl!IlJ.IUm_a_ç_Qn-
servar uma cspécw__de _r_es!)eL[o superstícroso peToTacto, uma espécie
de fel!ciÚsmo do facto que é a coisa mais smgular que já se vm, e a
mais anacrónica. O sábio «que olha através do microscópio» e a
quen1 1n1c<liatamente os factos s:i.ftam à vista. bem claros. bcn1 lava-
dos, atrevo-me a dizer, i,robalórios à medida dos nossos desejos-por
mais que essa metáfora· cara aos nossos mestres de outrora me rego-
zijasse há crnquenta anos (porque enfim, eu tenho «olhado pelo mi-
croscón10» e verificado que os factos que o microscópio rc'vclava, no
Jaboratóno de h1slolog1a onde cu ,a v1s1tar amigos, não eram ass1n1
rão facilmente apreensive1s) mesmo quando se sabia o que se
procurava - o que não era o meu caso, mas o dos meus. hospedeiros,
que cu ou\'ra discutir durante horas sobre esta ou aquela interpretação
possível: os meus hospedeiros, que aliás tinham passado mmto tempo
a fazer as suas «preparações» e a cnlori-las, o que excluia a noção de
«dado ji fcito ... »J - esse «sábio» da famosa metáfora. se ainda tíver
aucliéncra em qualquer lado, é, rece10 bem, entre nós, hístonadores.
Oh! sem clúnda que todos protestam: «Nós já não estamos no ponto
de acreditar que ... » Mas e exactamente sob o ímpér10. e sob o único
1mpéno. desse sentimento complicado a que a Igre1a chama o respeito
humano. Porque 01çamo-los dizer: <iÉ um facto!» E olhemo-los bran-

1 Um interessante artigo de Henn Lévy-Bruhl s~bre Le ta1( en historre


puhlicndn pela Rr1•1n· rÍf' )1•nrhêsc n:1o fcn1, p:1rccc. c11:1n1:1do suf1c1entementl!
./~! :1t,·n,::-1,, ,J,,,: h1<.·f,,ri:1,J,,n•-: !':1i·:1 i•..,fc 0:·,•b!,•nu1 íi"t,~ ,·/,<',,"" :1:- ,~.,n:;:::-,,11.ó.n.:1r:s

/ 252

• •m:l'i:ID\ 1 e = ----~-
dir os seus factos entre doh dedos, tal como o Joalheiro ilegal que faz
admirar ao cliente uma pedra falsa: sentir-nos-emos edificados .
Inútil insistir aqw sobre este aspecto das coisas. O que o hístona-
dor arnda se enfurPce por ouvir dizer - o filósofo há mmto tempo
que o tem por assente. Mas volto ao meu propósrto. Podemos modi-
ficar o esquelll_a__d~os manuais, codificando a maneira de proceder do
Justoriador, Podemos rectificá-io, transpô-lo. Acrescentar às opera-
ções dcscrítas novas operações. Podcn1os. Mas não é tudo. N}Jg_ é o
que mais importa de momento. Passear às cegas, não no labirmto do
corpo humano, mas no formidável amontoado de noções e de factos
que con1põem a Justória no segundo sentido do termo- eis o género
de cxercicio a que o l11stor1a<lor deve renunciar. Urgentemente.

* *
Dizer como, en1 porn1enor: dispensar-n1e-ão de o fazer aqul, nos
limites dum arllgo que antes de n1a1s C ínforn1ativo. Seria preciso um
livro para tal - e. in1agino, un1 livro colect1vo. Mas enfin1. sinais
precursores anunciam já a aurora de novos dias .
Há poll_<:_o_:.__!!_l}la___t_çe_Ln1_a1s__ qQ_e __ n9tà_vel defen_dida_ na_ Sorbonne,
uma tese sobre O Mediterrâneo e o n1undo 1nediterrânico na época
- de Fifi pe li' ido1s persona_gens de desigual grandeza, e não é o se-
gundo que ganha vantagem sobre o primeiro, o que já é uma grande
novidade) - há pouco, a tese de Fernand Braudel trazia-nos um plano
ínte,ramente no\~o c. nun1 certo sentido, revoluc1onúnu. Decidido a
recolocar os grandes design1os da política espanhola, no sentido mais
Jato da palavra <,nolít1ca». no seu quadro h1stónco e geográfico natu-
ral. ele estuda cn1 pnn1c1ro lugar as forças pern1ancntes que agem
sobre as vontades hu1nanas, que pesam sohrc cias scn1 que disso se
dêen1 conta. que as Ucsv1an1 para esta ou aquela direcção: e é toda
uma análise. ainda nunca tentada, daquilo que representa con10 força
que guia, canaliza, contraria também, travando ou, pelo contrário,
exaltando, acelerando o Jogo das forças humanas - aquilo a que,
nun1a cxpressfio negligenten1ente pronunciada, chamamos o Mediter-
râneo. -Depois do que, numa segunda parte, ele apela para forças
particulares. mas an1n1adas duma certa constância - forças impes-
soais e colectivas. mas. desta vez, datadas e por assim dizer referen-
ciadas como sendo estntan1entc as que agem no sCcu1o X'lf, na
segunda metade do século XVI. quer dizer, no espaço de tempo que
durou o reinado de Filipe II de Espanha; -Terceira [')arte: os aconte-
cimentos. A onda tumultuosa, fervilhante e confusa dos factos. Atrai-
dos frequentemente pelas forças permanentes que o primeiro livro
estuda-influenciados e dirigidos pelas forças estáveis que o segundo

' Paris, Armand Colin, 1949, m-8.°, 1160 págmas .

253

-
livro enumera-mas o acaso tem uma acção sobre elas, o acaso
borda sobre o tecido dos encadeamentos as suas mais brilhantes e
1mprev1stas vanações .
_Esquema audacioso. mas simples: sem ruido, sem tumulto, sem
declaraÇÕe!; grandiloquentes nem vantaJosas profissões de fé, __esse livro
e um !Tu1DJf_esto._JJrn sinaJ_:__E não hesito em dizê-lo. uma data. Não
é possível acusar o seu autor de-Tifosofar-o-que.·numa boca de his-
tonador, s1gmf1ca, não nos iludamos, o crime capital: o seu· livro, o
seu tã-o volumoso livro que só a cnse da imprensa e os preços proibi-
tivos da tipografia impediram de ser pelo menos o dobro, em volume
e em substância, daquilo que actualmente é - o seu livro é uma
maravilha de erudição. Re-presenta quinze anos de trabalho rninter-
r~p~o. de ínvest!g~ções realizadas em todos os arquivos, cm todas as
bth!iotecas h1stoncas que cx1stc1n no mundo mcc..litcrrân1co e no
mundo ibérico. Tanto mais convincente e maís exemplar. E não digo.
nem Fernand Braudel dina mais do que cu: o problema está resolvido.
O problema de organizar em função da sua presun1iveI importância
o caos dos acontec1mentos.~O _probleQHLJ8º fica re_solvido pondo um
pouco de ord_em na mai;sa__ c~mfusa e inclistinTãaasnoções e.dos factos, __
das nen.na_nên~1~s. _d_cl§.. c~t:rêncías e das contíngênc1_as _q!!_f:, sem_mill~---
ex1gênc1as críticas ou discriiriiiia'ç;ãõ;- se-rec1amãiii.-dêlhistór1a. O pro-
blema não está resolvido. Mas e1-lo para sempre posto no terreno das
realidades.
*
* *
O livro de Fcrnand Braudel é o livro dum só homem. Uma tese,
portanto uma obra-pnma artesanal exigida pela corporação univers1-
t::ína a todos aqueles que querem passar a mestres. Ainda que o autor
dessa obra-pnn1a seJa um defensor resoluto do trahalho colectivo, foi
forçado a submeter-se aos regulamentos que, durante muito tempo
arnda, não reconhecerão qualquer virtude probatória á organização,
à concepção, à execução dum tal trabalho. Mas que se reflicta um
pouco sobre esse assunto: até que ponto n:io seria a pas.s.agcm â prü-
t1ca das mvest1gações colect1vas dos hístonadores, de natureza a faci-
litar essa orgamzação da h1stóna que tanto nos preocupa? Ê o papel
fecundo da hipótese, v1sivel para todos devido aos seus indiscutíveis
resultados. E. graças ao ganho de tempo, de dinheiro, ou mesmo de
esforço que este trabalho colectJvo representa. é bem mais, é o pró-
pno papel da h1stóna que se torna subitamente v1sivel e sensível para
aqueles que se obstrnam em não ver nela mais do que um Jogo de
cunosidade gratmta. um divertimento mnemotécmco - seJamos
claros, um divertimento sem qualquer alcance.
HoJe, mesmo num pais dotado duma boa escola de historiado-
res - mal aparecem, um ou outro ano, quatro ou cmco trabalhos
ongínais de história relativamente novos no seu desígnio e CUJOS auto-
res se tenham proposto algo mais que testemunhar que conhecem e

254

, ______ ........,
respeitam as regras_ da profissão. Ou ainda, aigo mais que solicitar a
cunos1dade dum publico guloso de leituras «históncas» que não lhe
custem esforços. Ora, esses quatro ou cmco trabalhos tratam de assun-
tos muito afastados no tempo e no espaço. Consagrados, 1magmo,
um a um culto antigo, o outro a um problema de técmca medieval,
este ao estud':' duma revolução monetána no tempo do Renascimento,
a~uelc a analise da estrutura social dum grande pais europeu do
seculo XIX- eles espevitam a cunosidade. Levam a que se <liga dos
seus autores: «Como são engenhosos» - e das suas conclusões· «Como
são originais». Divertem assim a curiosidade de alguns leito~es inte-
ligentes que têm a sorte, bastante rara, de ser bem aconselhados por
um h1stonador de espmto movador: «Leia isto, caro amigo, e ainda
1sto.:··»-:-É tudo. E jã ê muito. sem dúvida: n1as enfin1, e.ssns publi-
caçoes dispersas, pouce: nun1erosas, pouco conhcc1<las., quase confi-
denciais, sao bem msufic1entes para fazer sentir a todos. fortemente,
a prese;1ça da h1stóna - como todos sentem, imagino, a presença da
matemat1~a, . ou da quim1ca. ou da biologia na sua vida quotidiana.
, Imaginai p~lo contrãr10 que num ano. ou em d·o1s, aparecem os
capitulas sucessivos duma dúzia de mvestwações bem onentadas e
sobre assuntos que dizem directameote r:Speito ao homem culti-
vado - sobre assuntos que, segundo as evidências. lhe parecem impor-
tar grandemente à sua vida, á condução dos seus negócios, às decisões
de ordem política ou cultural que ele deve tomar: investigações con-
vergentes, pensadas em conJunto, lançadas simultaneamente, de
maneira que determinado importante fenómeno de circulação mone-
tária, ímagmo, ou de transporte, ou de povoamento, ou de ps1colog,a
c':'lect1va seJa estudado, segundo um mesmo espirita, quer em c1vi!izac
çoes afastadas uo tempo, quer em civilizações separadas no espaço por
grandes d1stânc1as: todas as concepções que o público pode ter da
l11stóna serão n1uda<las. E Jc-1xarcr11os Jc ouvir, co1n un1 Jivcrt1-
mento um pouco agastado, vozes cândidas e cordiais dizerem-nos:
«Você que é historiador, deve saber isto: qual é então a data da morte
do papa Anacleto? ou do sultão Mahmoud?»
Não nos deixemos enganar: é este o grande problema, a despeito
das aparências. Não sã-o estas exortações vmdas do extenor; não são
as lições de filosofia, as advertências de histonadores precursores que
determrnarão no própno mundo dos historiadores uma mudança de
espínto e de atitude-portanto, que trarão essa transformação pro-
funda da h1stóna que, num pais como o nosso. as tradições univers1-
tánas tornam tão difícil. É necessáno repetir as tentativas. Que o
h~mem contemporâneo seJa importunado pela história: uma h1stóna
eficaz e que venha a estar presente na consciência de todos. Come-
çarão por se espantar. Troçarão. E depois reflect1rão. E então a par-
tida poderá ser Jogada. E ganha. '
'É evidente porque atribui tanta importância, há pouco, à con-
cepção do trabalho colect1vo em h1stóna. O comum dos homens não
compreenderá o papel. a importância e o aicance da históna a não

-- 255

.,;..
ser que receba, e na medida em que receber, a lição não dos doutores,
mas dos resultados.

*
* *
Que papel, que alcance, que importância? último ponto para
o qucd, para lá do livro de Marc Bloch, eu quena, para termmar,
cliarnar a .atenção. Porque <lestas questões nunca tratamos por assim
dizer. Cre10 bem que Marc Bloch partiu dai: «Papá, explica-me para
que serve a lustóna?» -E ele explicou-lhe. Mas talvez ficando um
pouco demrus. nos limites da técmca histónca. Recusando penetrar
nesse no ma!l ·s Jand mcxplorado onde o hist-onador Julga que nada
tem a fazer- e o filósofo, ou o sociólogo, pois é apenas ao historiador
que cabe aventurar-se ai ...
Evoquemos perante os seus olhos a sequência propriamente mu-
merável das gerações que precederam a nossa -desde que um ser
susceptível de responder à defimção de homo sap,ens veio figurar como
uma das nervuras desse imenso leque de formas vivas que a natureza,
na sua fecundidade, ostenta e progressivamente alarga: esse leque cuja
imagem se substítm hoie em nós, cada vez mais, á velha imagem dum
con_tinuo linear cara aos nossos pais - dun1a evolução que, dos ani-
mais ao homem, se supunha desenvolver um fio úmco e sem ruptura.
Por detrás de cada um de nós,_ que sequêncía prodigiosa de acasala-
mentos, de v10lações, de misturas brutais ou de uniões normrus:
uma vcrt1gen1. E a men1ôna da esf}Ccíe durante quanto tempo con-
serva essas marcas? Mas tambêm quantas experiências! Quantas
participações em sociedades prodigiosamente diferentes umas das
outras! ... Quantas marcas deixadas, nos nossos antepassados imediatos
e en1 nós prónríos, por s1stcn1as <lc ideias e de crenças, por «1nst1tuí-
ções», no sentido sociológico da palavra, cuias bruscas reapanções
e surnreenJentes afloramentos nos deixam por vezes estupefactos-
e nos de1xanam muno mais estupefactos ainda, e com mais frequência,
se nos aplicássemos a observar-nos melhor desse ponto de vista! Mas
um qualquer mstmto desvia-nos. Um qualquer instlnto adverte-nos
Je que não devemos deixar-nos hipnotizar, enfeitiçar, absorver por
esse passado. Um qualquer 1nst1nto diz-nos que esquecer e uma
12cccssidaJc para os grupos, para as sociedades que qucrcn1 viver.
Pot.!cr viver. Não se deixar esmagar por essa avalancha formidável.
por essa acumulação inumana de factos herdados. Por essa pressão
1rres1stível dos n1ortos esmagando os vivos - laminando sob o seu
peso a fina camada do presente, até lhe retirar toda a força de resis-
tência ...
Que fizeram, lmtoncamente falando. as sociedades humanas para
fazer face ao perigo? Un1as, as menos desenvolvidas, as menos exi-
gentes mentalmente, deixaram cair tudo no abismo do esquecimento.

256
Deixemo-las com a sua m1séna. Mas as outras? Adaptaram duas
soluções. Sobre as quais, bem entendido, nada sabemos de preciso.
Quem se arriscarà a estudar essas miser1as?
As sociedades. t,radicionais ac_omodaram de uma vez por todas
o seu passado, oficial e pragmaticamente. Proiectaram, por detrás .
ú.a 1magem que a s1 n1esn1as fon1eciam da sua vida presente, dos seus
fins colectivos, das virtudes necessánas para os realizar- uma espé-
cie de prefiguração dessa realidade: simplificada, mas de algum modo
aumentada e ornamentada da majestade, da autoridade rncomparável
duma tradição a que a religião confere esse carácter augusto e sagrado.
Será preciso dizer que nenhuma mvestlgação sistemática e de con-
Junto foi realizada até ao presente, sobre esse imenso problema da
tradição? Será prcc1so <lizcr que seria cJse, precisan1ente-,- digamos
que será. um dia, um belo tema de investigação co1ectiva organizada
e ccnsertada, quando a hístórta se tiver tornado capaz de abarcar tão
grandes problemas? Então n1u1tos erros se dissiparão. E, em primeíro
lugar, aquele que pretende imutável aquilo que é mudança constante:
porque enfim, qual a Justificação desses grandes livros rnt!!ulados
História dos costzunes de tal ou tal provinc1a? O que permanece
,mutável não tem históna? - De tempos a tempos, um rnvestigador
avisado levanta uma ponta do véu. Há as págrnas de Granet, tão
notáveis, sobre o ordenamento pelos Chineses duma tradição histó-
rica, que corresponde inteiraznente ao esquema que eu propunha há
pouco. Há as págrnas igualmente notáveis de Dumézil, que desmonta
o mecanismo da história oficial de Roma. Tudo isto não constitui
o estudo sobre a tradição de que teríamos necessidade.
Há a tradição. Há a h,stóna. Que, finalmente, responde á mesma
nec~s1dade - quer essa ncc-css!dade seja consciente ou não. A história.
que é um 1ncio de organizar o passado para o ín1pcdir de sobrecar-
regar os cmbros dos homens. A história que, sem dúvida - eu dizia-o
maís acíma - , não se resigna a ignorar, e portanto se esforça por
reforçar, sempre mais, a avalancha dos factos «históricos» de que as
nossas civilizações <lispõen1 para escrever a história: mas não existe
aí contradição. Porque a história não apresenta aos homens uma
colecção de factos isolados. Ela organ,za esses factos. Ela explica-os,
~ portanto, para os explicar, transforma-os em séries, a que não presta
igual atenção. Porque, quer queira quer não - é em função das suas
necessidades presentes que ela recolhe sistema!lcamente, e em seguida
classifica e agrupa os factos passados. 'É em função da vida que ela
mterroga a morte.
_ DeseJariarn~s _nós pensar nisto? Há anos e anos que dorm1am em
caixas, em armanos. em torres de castelos transformadas em depó-
sitos de arqmvos -documentos e mais documentos que permitinam
escrever a históna económica da humanidade. Letra morta. Ninguém
se abalançava a sacudir a poeira desses velhos pergammhos ou desses
velhos papéis. Foi quando as nossas sociedades começaram a dar às

257
preocupações de ordem económica o lugar que antes reservavam
para outras preocupações - que os historiadores começaram a sacudir
,
a pceira de maços de papéis que mnguém, até então, tinha imaginado
pudessem apresentar um qualquer mteresse. F01 uma nova orientação
das nossas sociedades que deu origem a uma série de trabalhos que
teriam podido nascer, sem obstáculos. um século ou um século e meio
mais ced_.. -A contrapartida? É a história genealógica que a fornece .
Tão favorecida no tempo em que a estrutura social exigia de algum
modo, nos nossos raises do Ocidente, que ela o fosse-deixou de
tx1st1r, praticamente, desde que a qualidade de• filhos dos respectivos
pais (quando não comporta uma herança de bens económicos que
nada tem a ver com os benefícios dum «nascimento» no sentido .1lnc1en
Régune da palavra) deixou de ter a ímportãncia de que se revestia
outrora para aqueles que· eram «bem nascidos». Crc10 que este exem-
plo é particularmente convincente. __ ..... -- ... _ __ . _
/,..--Ürgamzar o passadó--em-funçãÓ do prese~tê: - é- aquiíi=a~gue
· poderiamas _<:1_1_11_mar _,Lf1111çãQ__sociaLda J11st_<'i_[!_a" Este aspecto das
ncss:1s actívidades, lan1bém n1nguém o estudou. Fez-se a teoria da
J11stóna. Não se fez a sua sociologia. Sem dúvida que não seria pas-
sivei improvisá-la. Mas este passar em revista daquilo que verdadei-
ramente parece ser a Justóna para um grupo de historiadores fran-
ceses trabalhando em meados do século XX - ficaria, creio, grave-
mente incompleto se não perfilássemos, por detrás da bela ordenação
dos nossos esquemas metodológicos. esse aspecto, um pouco inquie-
tante talvez, das act1vi<lades dos historiadores observadas sem pre-
conceito nem indulgência. Com todas as consequências que dai resul-
tam. Principalmente. uma vez mais, no que respeita a esse problema
da obJectividnde, que nós estamos muito longe de querer pôr como
teóricos ou con10 filósofos: mas ea nossa prática. sem <lúvi<la, que
o põe de maneira nova. E talvez imprevista .

*
* *
Peço desculpa pelo que necessanamente tem de sumário esta
breve excursão através daquilo a que se poderia chamar as «zonas
p1one1ras» da história. Levar mais longe, impossível. Não por falta
de espaço ou por falta de tempo. Mas porque a uma disciplina em
v1as de organização ou de reorganização não convém que sejam im-
postas de fora direcções proféticas. Deixemo-la fazer as suas expe-
riências. Às suas escolas. Não tentemos traçar-lhe antecipadamente
programas didácticos que talvez a estorvassem e perturbassem no seu
caminho. e que prontamente seriam desmentidos pelos factos. Pen-
semos no velho funcionàno da estação de Saint-Lazare: ele sabia,
com uma aproximação de duas ou três dezenas, quantos bilhetes

258
devia preparar lodos ns donungos para Chutou. Mas nós não sabert1os
,, se farcn1os parte do 11Un1ero, do grande número constante daqueles
que, no próximo dommgo, se apresentarão diante do «gmchet».
Podemos falar _da tendência geral da históna para outros fins, para
outras reahzaçoes. Do pormenor dos seus êxitos. ou dos seus insu-
cessos, a vida decidirá.

Rio de Janeiro. 20 de Julha de 1949.

259
\
1
'

tNDICE

PREFÁCIO 7
ADVERTÊNCIA AO LEITOR ll

PROFISSõES DE FÉ A PARTIDA
DE 1892 A !933 ... ... 15
Exan1c de. consciência de un1a históna e de un1 h1stonador 15

VIVER A HISTORIA... 28
Pal::ivr~1s de 1n1c1ação... 28

FRENTE AO VENTO... 42
Manifesto dos novos «AnnaleS)> 42
A VIDA, ESSA PROCURA CONTINUA 51

POR E CONTRA
POR UMA HISTóRIA DIRIGIDA... 61
As investigações colectivus e o futuro da historia 61
CONTRA A HISTÓRIA DIPLOMATICA EM SI. HISTóRIA
OU POL1TICA? 67
Duas reflexões: 1930, 1945 . . . 67
PELA SINTESE CONTRA A HISTÓRIA-QUADRO. UMA
HISTóRIA DA RúSSIA MODERNA .. . 75
Em primeiro lugar a política?... 75

CONTRA O TORNEIO VÃO DAS IDEIAS. UM ESTUDO


SOBRE O ESPiR!TO POUTICO DA REFORMA 80
NEM .HISTÓRIA DE TESE NEM HISTóRIA-MANUAL.
ENTRE BENDA E SEIGNOBOS ... ... ... ... .. . 85

261
E O HOMEM, EM TUDO ISTO? 103
A propósito de un1 n1anual 103
CONTRA O ESPJRITO DE ESPECíALIDADE ... 107
Urna carta de 1933 .. , ... ... .. . .. . . .. 107
CONTRA OS JUIZES SUPLENTES DO VALE DE JOSAFAT 110
I - Camille Desmoulins: I-listóría ou Requisitório! ... . .. ! !O
II - Um livro pretensioso sobre a Revotução ... ... . .. 112
SOBRE UMA FORMA DE 1-lISTORIA QUE NÃO É NOSSA .
A HISTÓRIA 1-lISTORIClZANTE .. . ... . .. . .. 117
DUAS FILOSOFIAS OPORTUNISTAS DA HISTORIA 122
De Spenglcr a Toynbee 122

ALIANÇAS E APOIOS
A LINGUÍSTICA
HISTÓRIA E DIALECTOLOGIA 147
Na época em que nascia a Geografia L1nguist1ca l47
ANTOINE MEILLET E A HISTóRIA... ... ... . .. 157
A Grécia Antiga através.-da sua língua... . .. 157
POLÍTICA REAL OU CIVILIZAÇÃO FRANCESA? 167
.1\. conquista do Sul pela língua francesa 167
PROBLEMAS DE 1-l[STóRIA ENXERTADOS NO «BRUNOT» 179
A nac1-onalidadc e a língua em França no século XVIII 179

A PSICOLOGIA

MÉTODOS E SOLUÇÕES PRATICAS... . .. 199


Henri Wallon e a Psicolog1a Aplicada ... 199
UMA VISÃO DE CONJUNTO ... 205
História e Psicolog1a . .. . .. 205
COMO RECONSTITUIR A VIDA AFECTIV A DE OUTRORA? 217
A sensibilidade e a Históna ... ... ... ... . .. 217
PSICOLOGIA E FISIOLOGIA NACIONAIS ... ... ... . .. 233
Os Franceses vistos por André Siegfned ou por Sieburg? ... 233

ESPERANÇAS A CHEGADA
CAMINHANDO PARA UMA OUTRA HISTÓRIA ... 241

262