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HISTÓRIA E VERDADE

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1

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Adam Schaff

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Martins Fontes

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1

,,J

CAPlTULO Ili

POR QUE REESCREVEMOS A HISTóRIA?

CONTJNUAMENTE

 

F.m

nossos dias,

ninguém duvida

de

que

a

/listória

do

mundo

deve

ser

reescrira

de

tempoJ

nn

trmpos.

Esta

necessidade

não

decorre,

cor1-

tudo, da tlescuberta de

numerosos fatos

até

então

desconhcr:idos,

i·as,

mas

do

nascimento

sobre

de

opi11iões

do

rcmpo

110-

que

011de

passado

GOETHE

d o

fato d ,• que o companheiro

para a

d eitar

foz

um

ch<'ga

olhar

a po11tos

no1•0

corre

pode

de visra de

o

 

(Geschichte

der Farbenlelzre)

A

anatomia do

homem

é

a

chave

da

ana-

romia do

macac:o.

li/as

espécies animais inferiores,

não

podem

compreendn-sf'

os

.<Íllais

a111mciadores

de

uma

fo,.ma

superior

.ren,zo

qu11ndo

essa

forma

supaior

é co11hecida.

 

KARL

(l11troduc1ion

à

de

/'éco11omie

MARX

la

cririquc

polítique)

E. H. Carr começa a sua What is HiYtnry? citando duas

opiniões sobre o conhecimento histórico, formuladas nas d~as

edições sucessivas, mas publicadas com sessenta

tervalo, da grande síntese histórica elaborada por uma

anos de _in-

eqmpc

267

de cientistas de Cambridge. Estas duas opiniões são particular- mente sintomáticas, e como apresentam muito bem o assunto que nos interessa neste capítulo, é por elas qut começaremos,

imitando E. A.

Em 1896, o eminente historü1dor britânico Acton carac-

teriza~do os objetiv?s da The Cambridge Modern History,

escrevia no seu relatorio, destinado aos procuradores da Cam-

Carr.

bridge University Press.

"E uma ocasião (mica para reunir, da maneira mais aproveitável para o maior número de pessoas, a

saber qut o século XIX tem intenção

Com uma divisão estar cm posição de o

fazer e de pôr à disposição de cada um os documen-

das

e investigações internacionais.

"A nossa geração não pode elaborar uma histó- ria perfeita, mas nós podemos dar-lhe uma história convencional e indicar-lhe o ponto até onde chegamos no caminho quê leva de uma a outra, no momento em que tcda a informação está ao nosso alcance e todo o problema é solúvel." (1)

totalidade

de

nos

do

deixar como

racional do trabalho devemos

tos

as

conclusões

mais

elaboradas

resultantes

. ed1çao da obra em questão, eis como George Clark comenta

a declaração otimista de Acton, a sua convicção do valor cog-

nitivo da história:

_Sessrnta anos mais tarde, em uma introdução à segundo

"Os historiadores da geração seguinte não entre- vêem tais perspectivas. Prevêem que os seus traba- lhos stjam continuamente substituídos por outros. Consideram que o conhecimento do pass ado, tnms- portado e "elaborado'' por um ou vários espíritos, não pode compor-se de átomos semelhantes a elemen- tos e privados de relação com a personalidade. O estudo parece ser infinito e certos cientistas impa-

O estudo parece ser infinito e certos cientistas impa-   (1) "The Camhrídge Mod e2 rn
 

(1)

"The

Camhrídge

Mod e2 rn

History:

lt s

Origjn,

.Aulhorship

and

Productio11",

1907,

pp.

10-12.

Citado

segundo E .

H.

Carr, What

is

Hi.rtory?,

op.

cit.,

p.

1.

268

cientes refugiam-se no cet1c1smo ou, pelo menos, na

dou.trina segundo o qual, que todos os juízos his- tóricos implicam c. m indivíduos e pontos de vista, cada um deles é tão válido, como os outros e não há

verdade

histórica

'objetiva' ". (2)

A mudança de atitude é impressionante: a positivista na potência cumulativa do saber histórico que pode alcançar o estatuto de uma ciência dc.:finitivamente consolidada e aca- bada, cede o lugar à convicção de que o conhecimento histó- rico é um processo infinito e que, devido ao papel ativo que nele desempenha o espírito do homem, o trabalho do histo- riador deve ser continuamente rrcomlçado. Esta mudança de que estabelecemos as razões e o contexto nos nossos de- senvolvimentos anteriores, lança uma viva luz sobre um novo aspecto do problema estudado aqui: porque é que a concep- ção do processo histórico muda continuamente, porque é que os historiadores reescrevem continuamrn te a história?

É um fato incontestável que isto é assim, e poderíamos ilustrá-lo com a ajuda de uma história da historiografia de um acontecimento importante qualquer. Abstraímos aqui das diferenças na perc~pção da realidade histórica, na concepçiio

e na explicação do processo histórico, que sno o resultado do condicionamento social das opiniões do historiador. Acima destas diferenças sociais, nacionais e outras - e mesmo ape-

sar da sua existência - cmage com efeito qualquer coisa que é comum às obras de uma época em compara~·ão com as de outras épocas, qualquer coisa que. apesar das diferenças, as reúne no quadro de um modo de visão da história, de um estilo da sua concepção particular em cada época. E é pre- cisamente o que nos 1nteressa aqui: por que é que cada gera- ção ( o u quase) possui - e, segundo alguns, deve mesmo

possuir

ví<;ão do

é a causa dest<:

-

a

sua

própria

e

o

processo histórico?

constitui?

Qual

fato

que é

que o

No séc:ilo XX, este problema fascinou um bom número

incontestado

d a variabilidade da visão do processo histórico no contexto

ma.is

tôrico. As dift rentes opiniões expressas sobre este assunto

determinantes do conhecimento his-

de teóricos da

hic;tória

que o

aprendiam

o fato

amplo

das diversas

( 2)

lbid., pp. 1-2-

269

podem ser

r~duzidas a

duas concepções

tipológicas que, em-

bora

sobrepondo-se,

diferem

pela

explicação

que

dão

deste

fenômeno :

 

1)

a

rcintapretação

da

história

é

função

das

necessi-

dades

variáveis

do presente:

 

2)

a

reinterpretação

da

história

é

função

dos

efeitos

dos acontecimentos do

passado . emergindo

no presente.

C omo se vê, as duas ( xplícações do fenômeno em ques- tão não são mutuamente exclusivas; pelo contrário, são muitas vezes propostas simultaneamente como elementos explicativos complementares. Se as consideramos slpnradamente é com o fim de facilitar a análise de um fenômeno complexo e de expor com ma io r darcza os r esultados assim obtidos. Assim, abordaremos a argumentação exposta na ordtm indicada ante- riormente, considerando como conhecido que as razões invo- cadas são complementares.

A primeira explicação da reinterpretação da história está

a~. po~ições do presentism o e é princ ipalmente

dtfendida pelos representantes desta corrente. Como verifi- camos, o prcsentismo levado às últimas conseqüências con- duz à negação da verdade histórica objetiva, e portanto, à negação da história como ciência. Todavia, aquilo que repre-

em relação com

senta

o

núcleo

racional

do

presentismo,

a saber,

a

sua

tese

genético-psicológica sobre

as

relações entre

as

atitudes

e

os

juízos do historiado r, por

um lado, e as condições sociais da

sua época e as necessidadts que estas geram, por outro, não é uma tese subjetivista e não vai implicar em conseqüências n e gativ as do pontú d e: vista do ca r á ter cien tífico da h is tória.

O ra, mesmo tomando como h ;:ise esta interpretaç ão moderada de interpretar continuamente a história. Porque, se as a titudes e

a s op i niõe s <los histori a dores sã o função da s condiçôes e das necessidades atuais da vida social, uma mudança nestas con-

dições e nestas mce ssidadcs

mudança nas atitudes e nas opiniões dos historiadores, e, por- tanto, nas produções das suas atividades científicas - na ciência da história . Se, como o diz mctaíoricamente Carl L. Becker, o passado é uma tela sobre a qual o prtsente projeta

é inevitavelmente seguida de uma

270

a sua v1sao do passado (3), a história é não apenas funcional, mas também necessariamente variável. Tentemos no entanto, analisar esta tese mais de perto, levantando algumas questões suplementares. Assim, vejamos em primeiro lugar em que con~ siste o mecanismo desta projeção dos interesst.s do momento presente sobre a tela do passado. Esta projeção é operada pela medição de uma seleção adequada dos fatos históricos, ou stja, de uma seleção variável, pois que é função dos interes- ses presentes.

John Dewey, que pode ser considerado, a este respeito, como um autor particularmente representativo, sublinha que

toda a construção histórica é seletiva e que tudo depende dos critérios da seleção; em seguida, conclui que a história é ne- cessariamente escrita a partir das posições do presente, pois que é este quem decide o que se considera como importan-

te e, portanto, fornece os critérios

fenda a reinterpretação constante da história, é um peque-

seleção (4). Daí a de-

de

no passo:

"Não outros materiais acessíveis para a ela- boração dos princípios diretores e das hipóteses além daqueles que nos fornece a contemporanddade histó- rica. Quando a cultura muda, as concepções domi- nantes em uma dada cultura mudam igualmente. Sur- gem então necessariamente novos pontos de vista que servem para a apreensão, a apreciação e a coordena- ção dos d ados. Nesse momento reescreve-se a hLs- tória." (5)

Nos termos desta concepção, a história é função dos in- teresses do presente ou - como escreve N. M. Prokovski - é a política atual projetada sobre o passado. Citemos uma variante desta concepção, ou seja a opinião para a qual a visão do passado é função dos objetivos .que traçamos p ara o futu- ro (6), o que não muda nada no fundo do problema, uma vez

 

(3)

C.

L. Becker , Mh.

We /ls and the New

llisrory

 

op. cit.,

pp.

169-170.

 

( 4)

J.

Dewey. Logir: ,

The

Tlr eory

of J nq 11i 1y , op.

cit

p.

235 .

( 5)

lbid

p.

233 .

(6)

E.

H.

Carr,

Whar

i.s

History .i,

op .

cjr

p .

118 .

271

que a visão do futuro é, como a visão do passado, função do presente.

extremismo do pre-

que devemos

reconhecer o fundamento: ret.screvemos continuamente a his- tória por~ue os critérios de avaliação dos acontecimentos pas- sados vanam no tempo e que, por conseqüência, a percepção

e ~ s~leção dos fatos históricos mudam, para modificar a pró- pna_ 1magc.m da _história. Há aqui lugar para sublinhar que, quaisquer que se1arn os termos em que esta tese é formulad:i

e os argumentos que a fundamentam, ela reúne os sufrágios de difertntes historiadores e teóricos de modo nenhum apa- rnntados com o presentismo, e até mesmo partidários de um1 concepção do mundo totalmente oposta; assim, N. M. Pro-

kovski, partindo da tese marxista sobre o condicionamrnto de c_lasse das idéias sociais, vê na história uma projeção da polí- tica presente; K. R. Popper, embora filiado no ncoposítivismo. coloca a reinterpretação da história por cada nova geração como uma obrigação ditada por novas necessidades (7); na Polônia, Witold Kula fala da transposição do patrimônio do passado na linguagc.m contemporânea em cada época, enrique- cendo-se a cultura na medida em que é bem sucedida na de- cifração de novas páginas do passado (8). Os termos e os argumentos variam de um caso para outro, mas a idéia per- manece a mesma: a variabilidade da imagtm histórica é fun-

ção

materiais

históricos.

. Se, c~mo propusemos, rejeitarmos

cm presença

de uma

o

sent1smo ficamos

tese

de

da

variabilidade dos

critérios

de

sclecão dos

,

A segunda questão que se impõe neste contexto anda cm torno do aspéclo psicológico do processo de reinterpretação da história: quando é que os historiadores são incitados a for- mular novos juízos e a empreender uma nova penetração da história? A proposição de Carl Becker parece-nos ser uma resposta convincente e sensata: os períodos de estabilidade, propícios ao sentimento de satisfação do presente. favorecem igualmente o consenso social quanto à imagem tradicional do passado; pelo contrário, nos períodos de crise e de oposição,

(7)

K.

R.

Popper.

Die

Of.fens

Gese//schaft

imd

ih e

F einde,

Berna.

1958.

B. n, p.

332.

 

272

(8)

\V , Kula, R o; 11· aw11ia

op . cit. , pp . 104-1 05.

~

quando a estabilidade é abalada, os homens descontentes com

o presente são inclinados a estar também descontentes com

o passado; a história é então submetida a uma reinterpretação na perspectiva dos problemas e das dificuldades do presen-

te (9) .

Passemos ao segundo modo de explicação e de argumen- tação da reintupretação constante da história: a vis.ão da história varia em função da emergência constante de efeitos novos dos acontecimentos passados.

O ponto de vista de Karl Marx sobre o assunto, desde

então clássico, está condrnsado no aforismo:

homem é

vista é desenvolvido por Marx no contexto da sua análise das categorias econômicas. Como a sociedade burguesa é a orga- nização histórica da produção mais desenvolvida e mais va- riada - argumenta Marx - as categorias que permitem com- preender-lhe a estrutura permitem simultaneamente comprten- der a estrutura das formas sociais desaparecidas . Porquê? Porque basta a fase superior do dtsenvolvimento de um dado fragmento da realidade, revelando os efeitos dos acontecimen- tos passados, para permitir a percepção e a avaliação correta dtsses acontecimentos (10).

"a anatomia do Este ponto de

a chave da anatomia do

macaco".

Para compreender melhor este ponto de vista, tomemos um fato da vida corrente. Quando nos encontramos num vale entre montanhas ou colinas, apenas podemos ver a vizinhança mais imtdiata, enquanto que os elementos afastados do terre~ no e a sua ligação num todo escapam ao nosso olhar. Basta- nos subir ao cume de uma montanha para que a paisagem mude, revelando-nos aspectos do vale até aqui invisíveis e desconhecidos. Quanto mais alto for o cume, mais se alarga

o nosso horizonte e melhor nos apercebemos do conjunto.

E: claro que isto é apenas uma comparação, mas ajuda

a compreender melhor estes problemas. Basta substituir os

parâmetros espaciais por parâmetros temporais. Quanto mais afastados no tempo estivermos de um dado acontecimento, mais vasta e profunda é a nossa percepção deste, como no

(9)

C. L. Reckcr,

op. cir.,

p.

170.

(

10 )

Cf.

K.

Marx , Contribution

à

la cri1iq11~

de l'économie

po-

liriq11e,

/ tttroduction,

E:ditions

Sociafes,

Paris,

1957,

p .

169.

273

j

caso de uma paisagem vista de cumes cada vez mais elevados. Porquê? Porque na história estamos sempre em presença de processos, de transformações, e que é extremamente difícil, senão impossível, prever antecipadamente não apenas os por- menores, mas ainda a orientação geral dos acontecimentos. O aforismo de Hegel sobre Min"rva simbolizando o pensamen- to elevado, e a sua coruja que levanta voo pelo crepúsculo,

vem aqui muito a

.E: quando emergem os efeitos

que se podem avaliar os acontecimentos que os causaram. Mas esta avaliação não é uma opuação estática, é um proces- so. Enquanto um processo está em curso, os efeitos dos acontecimentos aparecem continuamente, sem fim: ora, a his-

tória é precisamente um processo deste tipo. Os efeitos re- centemente emersos obrigam a deitar sobre os acontecimen-

tos um olhar novo, a percebê-los de outra mandra, a situá-los

diferentemente no contexto da totalidade.

que inicialmente tinha sido subtstimado, ígnorado mesmo, re-

vela-se historicamente importante e vice-versa. Por esta razão,

propósito.

Frequentemente, o

o

quadro da totalidade vê a sua "composição" modificar-se.

E

é precisamente porque vemos melhor a história na perspec-

tiva do tempo, quando os efeitos dos acontecimentos se reve-

laram e pennitem .fazer acerca destes juízos mais integrais e profundos, que é mais difícil escrever a história recente, em particular a história contemporânea: não por causa da di-

acontecimen-

tos sine ira et studio, se bem que isto tenha uma certa impor- tância, mas também por causa da dificuldade de compreender

o sentido dos acontecimentos contemporântos. Com efeito, estes acontecimentos não revelaram ainda os seus efeitos; ora, os acontecimentos históricos possuem o significado que os seus 1:Jeitos lhes conferem quando emergem na realidade. Sidney Hook escreve:

ficuldade de st r objetivo, ou seja, de encarar os

274

A história é reescrita quando emergem pers-

pectivas novas que nos permitem perceber o significa- do de certos aconttcimentos do passado, que havia escapado à atenção dos contemporâneos. Estes acon- tecimentos inserem-se nos modelos de continuidade incluindo os acontecimentos que constituíam o futu•o

para os que viviam no

os nossos descendentes compreenderão melhor o nosso

Do mtsmo modo,

século do que nós o compreendemos, porque serão capazes de ver as conseqüências de acontecimentos que ignoramos atualmente e que constituem as pre- missas de tendências importantes que darão os seus frutos quando não existirmos." (11)

Este ponto de vista é formulado no espírito da tradição clássica: só os efeitos futuros dos acontecimentos presentes, só a realização do futuro permitem compree.nder o passado; mas os efeitos novos, o novo futuro, desenham uma nova ima- gem do passado. M. J. Dhont tem uma concepção semelhan- te do problema apesar de o abordar e formular de outra maneira.

" O historiador nunca vê os fatos como os

Vê-os desenrolarem-se

como um profeta infalível: o que com efeito sepa~a totalmente o historíador de não importa que categoria

de contemporâneo dos fatos que relata, é que o his-

toriador conhece sempre o futuro. Isto tira-lhe com- pletamente a possibilidade de ver os acontecimentos

O que decorre

desta observação, é que o historiador escreve sem~re a história em função do ponto de chegada da evoluçao.

Será levado por isso a considerar como importantes os acontecimentos que constituem a trama do desen- volvimento na direção desse ponto de chegada, acon- tecimentos que, na maioria dos casos, não marcaram de modo algum os contemporâneos." (12)

com os olhos de um contemporâneo

contemporânws

os

viram.

Karl Heussi exprime a mesma idééia no contexto da emer- gência, no processo histórico, de relações novas entre os acon-

tecimentos

dados e outros acontecimentos .

Escreve como con-

clusão:

( 11)

S.

Hook,

"Obietil'ity

and

Reconstruction

i11

HiJrory·•

in

S.

Hook

(cd.),

Philosop/,y

and

llistory,

1'ova

Iorque,

l 9ó3,

?~

p.

256 ·

( 12 )

M.

J .

Dhont,

"Histoire

et

r;constitution

p~ ssé' ',

i n-

Ch.

Perelman

(éd .),

Raisonnement

ed

demarch(:s

de

l !ustunen,

Bru·

xclas,

1963,

pp. 87-88.

 

275

"As grandezas passadas que não consideramos talvez como particulannente importantes, podem, em

cir-

cunstâncias definidas efeitos importantes. Deste ponto de vista, o passado não é qualquer coisa fria, petrifi-

<:ada, mas uma coisa viva que muda e se desenvolve sem cessar." (13)

l!!U tempo que é para nós o futuro, produzir <

m

Contudo, é nos trabalhos de J. H. Randall que esta idéia é mais desenvolvida (14). Tendo escolhido os juízos formula- dos sobre a Primeira Guerra Mundial para ilustrar a tese da variabilidade da imagem histórica em relação com a emergên- cia de efeitos novos dos acontecirnrntos pass ados, J. H. Randall conclui:

"Os novos efeitos dos acontecimentos passados mudam o significado do passado, o significado do que aconteceu. Os acontecimentos que outrora eram igno- rados porque não pareciam constituir os antecedentes fundamentais de um fato consecutivo qualquer, são presentemente considerados como eminentemente sig- nificantes; outros acontecimentos, que pareciam cons- tituir antectdentes fundamentais, caem no esquecimen- to como simples pormenores. Neste sentido, a evolu- ção não pode, pela natureza das coisas, ser plenamen-

te compreendida por aquel~s que são os seus atores. Estes não podem compreender o "significado" ou os efeitos do que fazem, porque não podem prever o fu- turo. Compretndemos esta evolução apenas no mo- mento em que ela constitui uma parte do nosso pró- prio passado; e se ele continua a produzir os seus efei- tos, os nossos filhos percebê-lo-ão em termos diferrn- tes dos nossos. Neste sentido, o historiador - como dizia Hegel - assemelha-se efetivamente à coruja de Minerva que não levanta vôo senão no momento em

que se adensam as sombras da noite

Não se pode

(13)

{ 14)

K.

Cf.

Nova

Iorque,

Heussi

H.

J958, J.

I.

Die

Krisís des

Historismu s, op.

cit.,

p.

69.

Randall

Jr.,

Nature

H.

Randal Jr.,

"On

a11d

Hisrorical

F.xperfrnçe,

Undcrstanding the

History

of Philosophy", in

Tire luurnal o/ Phi/o.wpit)', 1937, N.

17 .

276

compreender plenamente a história acontecida senão à luz de todos os seus efeitos realizados e reconheci- dos. O "significado" de qualquer fato histórico con-

siste no significado que ele possui ainda, na sua ação,

rws efeitos que dele n

sultam."

(15)

Assim, dois fatores concorrem para a reinterpretação constante da história: a emergência no processo histórico dos efeitos dos acontecimentos passados, o que constitui o "signi- ficado" destes últimos; a mudança dos critérios da seleção dos fatos históricos resultante de um novo condicionamento das atitudes e das opiniões dos historiadores. Estes dois fa- tores estão ligados ao prt sente, que é o futuro em relação aos acontecimentos passados. Tal é o elemento racional da con- cepção do presentismo.

Mas esta variabilidade da imagem do passado que, lem- bremos as palavras de Heussi, não é apercebido como uma coisa hirta, petrificada, mas como uma coisa viva, mutável não nega a objetividade do conhecimento histórico, a possi- bilidade de atingir a verdade objetiva nesse e por esse conhe- cimento? De maneira nenhuma, se não cometemos o erro, ana~

Jisado anteriormentC;, consistindo em identificar o caráter obje-

tivo da verdade com o seu caráter absoluto.

parciais, fragmentárias, não são erros; c~ns!it_uem verda?es objetivas, se bem que incompletas. St a h1stona (no sentido de historia rerwn gestarum) nunca está definitivamente aca- bada, se está subordinada a constantes reinterpretaçõts, daí resulta apenas ser ela um processo, e não uma imagem defi- nitivamente acabada, não urna verdade absoluta. Dtsde o momento em que se torna o conhecimento histórico como pro- cesso e superação das verdades históricas - como verdades aditivas cumulativas - compretnde-se o porquê da constan- te reint~rpretação da história, da variabilidade da imagem his- tórica: variabilidade que, longe de negar a objetividade da ver-

As verdades

dade histórica, pelo contrário a confirma.

(15)

J.

li.

Randall

Jr.

e

G.

Haincs.

"Controlling

A_w,mptio~s

in 1he Pradice of American Historias",

toTiograpliy, Social Scíencc Re search Cou ocil, Bul!eiin 54. 1946 .

in Tlicory and /'metice m

ll! s-

277