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COMISSÃO TEMÁTICA:
4. Reforma Trabalhista: acesso, garantias processuais e efetividade
SUBTEMA:
a. Acesso à Justiça, gratuidade e despesas processuais

TÍTULO: A citação por edital no rito sumaríssimo: uma garantia constitucional.


EMENTA: RITO SUMARÍSSIMO. CITAÇÃO EDITALÍCIA. POSSIBILIDADE.
PRINCÍPIOS DA ACESSIBILIDADE AMPLA AO PODER JUDICIÁRIO. O
regramento consubstanciado no inciso II, do art. 852-B c/c o § 1º, do art. 840 da
Consolidação das Leis do Trabalho, revela-se incompatível com o ordenamento
constitucional pátrio, na medida em que cerceia o direito de o trabalhador acessar a
Justiça do Trabalho. De modo que, em conformidade com o princípio da acessibilidade
ampla ao Poder Judiciário, reputa-se juridicamente possível e válida a citação editalícia
agitada no procedimento sumaríssimo. Inteligência do inciso XXXV, do art. 5º, da
Constituição Federal.

FUNDAMENTAÇÃO:
Em homenagem aos princípios da ampla defesa e do contraditório no
processo judicial, a citação se revela como ato de comunicação indispensável para dar
ciência ao réu da existência de ação movida contra si a fim de que integre a relação
processual e ofereça, querendo, a competente defesa.
Via de regra, a citação é realizada diretamente na pessoa do réu. Pode,
contudo, se dar de modo indireto ou fictício, como sói ocorrer com a comunicação por
edital. Com efeito, de acordo com o código de ritos, a citação por edital terá lugar nos
casos em que o réu seja ignorado, incerto, ou inacessível o lugar em que possa ser
encontrado, ou ainda nos casos expressos em lei. 1
A processualística trabalhista conhece da comunicação processual editalícia
somente nos casos em que o iter procedimental da reclamatória seja o ordinário.

Art. 841 - Recebida e protocolada a reclamação, o escrivão ou secretário,


dentro de 48 (quarenta e oito) horas, remeterá a segunda via da petição, ou
do termo, ao reclamado, notificando-o ao mesmo tempo, para comparecer à
audiência do julgamento, que será a primeira desimpedida, depois de 5
(cinco) dias.

§ 1º - A notificação será feita em registro postal com franquia. Se o


reclamado criar embaraços ao seu recebimento ou não for encontrado, far-
se-á a notificação por edital, inserto no jornal oficial ou no que publicar o
expediente forense, ou, na falta, afixado na sede da Junta ou Juízo.

Em sendo, contudo, sumaríssimo o procedimento2, o legislador consolidado


entendeu por bem negar expressa e peremptoriamente a possibilidade de a parte
reclamada ser notificada por edital.

1
Artigo 238 usque 246-256 do Código de Processo Civil de 2015 (Lei nº 13.105 de 16 de Março
de 2015: www.planalto.gov.br. Acesso: 26.02.2018).
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Art. 852-A da CLT. Os dissídios individuais cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário
mínimo vigente na data do ajuizamento da reclamação ficam submetidos ao procedimento sumaríssimo.
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Art. 852-B. Nas reclamações enquadradas no procedimento sumaríssimo:


I - O pedido deverá ser certo ou determinado e indicará o valor
correspondente;
II - Não se fará citação por edital, incumbindo ao autor a correta indicação
do nome e endereço do reclamado.3

Mas não é só. De acordo com o § 1º desse dispositivo, o não atendimento,


pelo reclamante, do disposto nos incisos I e II deste artigo importará arquivamento da
reclamação e condenação ao pagamento de custas sobre o valor da causa.
Desde uma perspectiva empírica processual trabalhista, a jurisprudência
pretoriana vem entendendo que, nos casos em que o endereço ou paradeiro da parte
reclamada é incerto ou não sabido ou não conhecido, o juiz poderá perfeitamente
transmutar o rito sumaríssimo para o ordinário, viabilizando, assim, a citação por edital.

PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO. CONVERSÃO. CITAÇÃO POR


EDITAL. POSSIBILIDADE. O procedimento do processo pode ser
convertido do sumaríssimo para o ordinário, quando aquele não pode ser
observado durante todo o seu trajeto, aplicando os princípios da celeridade
processual, efetividade e acesso amplo à Justiça. Posicionamento
majoritário da 3ª Turma deste Tribunal4.

Mas a razoabilidade jurídica desse entendimento, com a devida vênia, já não


pode mais subsistir com o advento da chamada Reforma Trabalhista, já que, com ela,
veio também a necessidade de o pedido da reclamação, com fluxo no procedimento
ordinário, observar a indicação do valor, sob pena de extinção sem resolução de mérito.5
Ora, isso significa dizer que o valor da causa corresponderá à soma dos
valores de cada pedido. Nesse contexto, a tentativa de transmudação do rito
sumaríssimo para o ordinário não teria o condão de alterar o valor da causa da queixa
agitada sob a égide daquele procedimento. De modo que a nova queixa sob o pretenso
manto do rito ordinário continuará com o valor originário inferior a quarenta salários
mínimos6.
Realmente, a transmutação de procedimento com vistas à possibilidade de
citação editalícia parece não mais constituir o caminho juridicamente adequado e viável
para garantir ao trabalhador o acesso à prestação jurisdicional, mormente quando o
valor da causa corresponder a menos de quarenta salários mínimos e o paradeiro da
parte reclamada não for sabido.

Parágrafo único. Estão excluídas do procedimento sumaríssimo as demandas em que é parte a


Administração Pública direta, autárquica e fundacional.
3
Art. 852-B da CLT (Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943). Acrescentado à Consolidação
das Leis do Trabalho pela Lei n. 9.957 de 12 de janeiro de 2000, instituindo o procedimento sumaríssimo
no.
4
Processo 0010442-88.2013.5.05.0039. Terceira Turma (DJ 23/05/2015). Acesso trabalhista
(www.planalto.gov.br. Acesso: 26.02.2018).
5
Art. 840. [...]. £ 1º. Sendo escrita, a reclamação deverá conter a designação do juízo, a
qualificação das partes, a breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio, o pedido, que deverá ser
certo, determinado e com indicação de seu valor, a data e a assinatura do reclamante ou de seu
representante [...]. § 3o. Os pedidos que não atendam ao disposto no § 1 o deste artigo serão julgados
extintos sem resolução do mérito.” (NR).
6
Art. 852-A, da CLT. Os dissídios individuais cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário
mínimo vigente na data do ajuizamento da reclamação ficam submetidos ao procedimento sumaríssimo.
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Nessa hipótese, independentemente do rito adotado, o valor da causa não se


alterará, situação em que o julgador, na forma da lei infraconstitucional, não poderá
autorizar a notificação editalícia. Que fazer? Qual a solução jurídica: o arquivamento da
reclamação com consequente extinção do processo sem resolução do mérito? Sendo esta
a resposta, como ficaria a situação daquele reclamante que, apesar de inúmeras
diligências (pessoais e oficiosas), não lograsse localizar o endereço do ex-empregador?
Abandonaria seu direito de ação, ante a impossibilidade prática de acessar e receber a
prestação jurisdicional estatal?
Essas aporias não são incontornáveis. A solução é menos aparente que real.
No nosso sentir, a resposta pode ser encontrada na economia interna do próprio
procedimento do rito sumaríssimo, mas desde que sedimentada numa sensibilidade
jurídica capaz de recepcionar um aporte exegético de tessitura constitucional.
Com efeito, considerando que o regramento consubstanciado no inciso II,
do art. 852-B c/c o § 1º, do art. 840, da CLT, revela-se incompatível com o
ordenamento constitucional pátrio, já que, na linha oblíqua, coloca em xeque o princípio
fundamental da acessibilidade ampla à Justiça, reputa-se juridicamente possível a
citação editalícia no rito sumaríssimo, na medida em que a lei consolidada não tem o
poder de excluir da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito ou bem da
vida do trabalhador:

A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a


direito7.

Ademais, a inteligência consubstanciada no princípio constitucional da


ampla acessibilidade à Justiça sublima outros dois princípios processuais também
balizadores do procedimento sumaríssimo — a saber: o da efetividade e celeridade
processuais —, já que a citação ou notificação editalícia nele agitada, sob o manto do
princípio da acessibilidade, sugere um percurso temporal menos odioso do que aquele
reservado à absurda hipótese de decretação da extinção do processo, sem resolução de
mérito, porquanto, a configurar-se, implicará ajuizamento de nova queixa trabalhista,
agora sob a rubrica do rito ordinário, rito esse que, conforme a empiria revelada nos
pretórios trabalhistas, quedará sujeito às conhecidas delongas de uma audiência
fracionada.
É nesse contexto que diatribe que ora enceta à pretensa impossibilidade de
citação editalícia no rito sumaríssimo justifica a presente tese. Mas, registre-se, não por
mero capricho de um pragmatismo ou realismo ou ativismo jurídico, e sim pelo
comprometimento jurídico-filosófico pós-positivista consubstanciado na permanente e
vigilância panóptica dos cânones constitucionais fundamentais garantidores da
cidadania sublimada pelo fluxo da acessibilidade ampla ao Poder Judiciário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

BRASIL. Código de Processo Civil. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/. Acesso em 27.02.2018.
_________. Código de Processo Civil. Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/. Acesso em 26.02.2018.

7
Inteligência do inciso XXXV, do art. 5º, da Constituição Federal.

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4

________. Consolidação das Leis do Trabalho: Decreto-lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943. Disponível
em: https://. www.planalto.gov.br/. Acesso em 26.02.2018.
________. Consolidação das Leis do Trabalho: Lei n. 13.467 de 13 de julho de 2017. Disponível em:
http:.//www.planalto.gov.br/. Acesso: 26.02.2018
_________. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: https:
//. Acesso em 01.03.2018.
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA QUINTA REGIÃO: Jurisprudência – Acórdão.
Disponível em: http://www.trt5.jus.br/. Acesso em 01.03.2018.

AUTORES: GEOVANE DE ASSIS BATISTA E SORAYA GESTEIRA DE


AZEVEDO LIMA MARQUES
RESPONSÁVEL PELA DEFESA: GEOVANE DE ASSIS BATISTA
ENDEREÇOS ELETRÔNICOS: