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FRANCISCO RODRIGUES LOBO

CORTE NA ALDEIA

Introdução, Notas e Fixação do texto de

José Adriano de Carvalho

EDITORIA L

PRESENÇ A

N A

NOITE S

CORT E

ALDEÃ .

D E

INVERN O

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FRANCISC O

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OFl-ERECIDO

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SENHOR

DOM

DVAKTE

Em Li sboa.porPcdi-o Cra^bcccJcAnnoiói?

Facsimile do rosto da l.* edição.

LICENÇAS

Vi este livro intitulado. Corte na Aldeia, e Noites de Inverno, composto por o Licenciado Francisco Rodrigues Lobo, e não contem cousa que encon- tre ,nossa Santa Fé, e bons custumes; antes me parece que será de grande entretenimento para os curiosos dos estilos da Corte, por onde se lhe pode dar licença para se imprimir. Em S. Domingos de Lisboa, em 1 de Setembro de 617.

Fr. Tomás de S. Domingos.

Visto a informação pode imprimir-se este livro, e depois de impresso tome a este Conselho para se conferir com o original, e se dar licença para poder correr, e sem ela não correrá. Lisboa, a 6 de Setembro de 617.

António Dias Cardoso. Fr. Manuel Coelho. Gaspar Pereira. Bragança.

Pode-se imprimir, e impresso tome para se ver. Aos 7 de Fevereiro de

618.

Damião Viegas.

Que

se possa imprimir este livro, vista a licença

do Santo Oficio, e

Ordinário;

a 8 de Fevereiro de 618.

e depois de impresso torne para se taixar, e sem isto não correrá;

Gama.

Moniz.

Está conforme este livro com o seu original, e se lhe pode dar licença para correr. Em S. Domingos de Lisboa a 8 de Abril de 619.

Fr. Tomás de S. Domingos.

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Taxão

este livro intitulado, Corte na Aldeia em noites de Inverno, em

cento e oitenta reis em papel: a 23 de Maio de 619.

Fr. Pinto. Gama.

Livros que são impressos do autor:

A

Primavera

O

Pastor Peregrino

O

Denganado

As

Églogas

Os Romances

O Condestabre

As Elegias de devação

A Corte na Aldeia

SO

AO

SR. D . DUARTE,

MARQUÊS D E FRECHILHA

E D E MALAGÃO'

Depois que faltou a Portugal a corte dos Sereníssimos Reis, ascendentes

de V . Excelência (da qual as nações estrangeiras tinham tão grande satisfação

e as vezinhas tão igual inveja), retirados os títulos polas vilas e lugares do

Reino e os fidalgos e cortesãos por suas quintas e casais, vieram a fazer corte nas aldeias, renovando as saudades da passada com lembranças devidas àquela dourada idade dos portugueses. E até V . Excelência, que, na Espanha, podia aventajar de todos sua grandeza, escolheu para morada essa cidade de Évora, que já el-rei D . João, com o ifante D . Duarte, avô de V . Excelência,

e os mais príncipes, seus irmãos, habitaram , cujos caídos muros e edifícios,

desamparados paços e incultos jardins parece que, agradecidos à assistência

' A própria dedicatória de F. Rodrigues Lobo contém elementos para a identificação

familiar desta personagem: descendente dos reis portugueses

, irmão de D.Teodósio I I (7," desse título) a quem F. Rodrigues Lobo dedicara (1609)

O Condestabre. Nascido em 2LIX.1569 e falecido em 28.V.1627, dentro dos condicionalismos sociais do tempo que enquadravam os não primogénitos da grande e média nobreza, uma personagem com algum relevo na vida cortesã do primeiro quartel do século xvii peninsular.

A sua situação hierárquica pessoal derivada das suas origens realengas (relíquia do sangue real

deste reino, o diz R, Lobo) e às honrarias (marquês de Hechilla) e às benesses (senhorio da

Vila de Ramiel) com que o

os seus casamentos na

corte castelhana, primeiro com a herdeira dos condes de Oropesa (1596) e depois com a

marquesa de Malagón, como outras honras que foi disfrutando sob os Filipes — Alferez-

-Mayor de la Caballeria de Alcântara

São estes aspectos bem documentados nos relatos sobre a vida social da corte nos últimos

tempos de Filipe II I e dos começos de Filipe IV. Vejam-se, por exemplo, as Canas

dades de esta corte y avisos recibidos de otras partes

, Mendoza para os anos de 162Í-1623, em que se assinala a sua participação nas festas de

entrada de Filipe IV em Madrid (p. 31); nas da entrada do conde Astorga nessa corte (p. 56);

a entrega da chave do palácio real sin asistencia de servir pero para poder entrar a hablar

a su Magestad en cualquier momento; dicen le dieron cinco mil ducados da renta en Portugal:

do infante D. Duarte

, facilmente o reconheceremos como um membro da Casa de Bragança,

,

bisneto de D . João III

neto

cumulou Filipe II , haverá que juntar tanto

,

comendador de Castel-Novo

,

Grande de Espanha

Nove-

Madrid, 1886, de A. Almansa y

51

e favores

antiguos, a que faltava aquela grandeza que os enobrecia, se reedificaram à sua sombra, mas ainda, encostados ao amparo dela, se fabricaram outros de

novo, com maior perfeição.

Com a mesma confiança busca a V . Excelência esta Corte na Aldeia, composta dos riscos e sombras que ficaram dos cortesãos antiguos e tradi-

ções suas, para que V . Excelência a ampare com o protector da língua

portuguesa, honre como relíquia do sangue real deste Reino e a acredite como espelho e exemplo da virtude e partes soberanas dos príncipes passa- dos. Aqui ofereço a V . Excelência uma conversação de amigos bem acos- tumados, uas noites de Inverno melhor gastadas que as que se passam em outros exercícios prejudiciais à vida e consciência; fmalmente ua corte que, com o bonina do mato, a que falta o cheiro e a brandura das dos jardins, ainda que na aparência e cores a queira contrafazer, é contudo diferente. Se os ditos destes aldeãos cheirarem a corte, acreditarão o tímio do livro, e se souberem ao monte, também nele se confessa por corte de aldeia, e, com muito maior razão, o será quando chegar à vista de V . Excelência em que se podem refor-

de V . Excelência, ressuscitam agora ^. E nã o somente os mosteiros

e nação

ha sido merced bien merecida, porque dejando a parte sus merecimientos. es en efecto biznieto

mar de polícia as que são na Espanha mais apuradas. V . Excelência a ampare com a sua humanidade, lembrando-se que, com o nã o pode haver corte sem príncipe, que esta o nã o podia parecer sem que tivesse por si a V . Excelência,

este livro sem a

luz e graça que espera comunicar de sua clareça. E se alguém me julgar por

atrevido em tratar de cousas de corte nascendo em idade em que j á a de Portugal era acabada ^ sabendo que na de V . Excelência fui muitas vezes fa- vorecido de mercês suas e honrado com elas na do Excelentíssim o Senhor Duque D . Teodósio", irmão de V . Excelência, não condenará minha ousadia com justa razão e achará alguas com que dê a estes diálogos merecimento,

que posto que lhes faltem muitos para serem

ofertas digna de tã o grande

Príncipe, neste pouco que pode dar por fruito o meu engenho pago com a

vontade o em que para outras obras faltaram a natureza, a arte e a ventura.

E ante quem, em tudo, é tão grande, nada o pode parecer senão esta con-

fiança, fundada na benignidade com que V . Excelência sempre autorizou mi - nhas obras, que me assegura que assim aceitará agora este piqueno serviço, pois nã o é menor grandeza obrigar-se dos humildes que fazer a todos grandes

mercês. Nosso Senhor guarde a V . Excelência muitos anos.

e que, como em noites de Inverno, ficará muito à s escuras

De

Lenia, o

1 de Dezembro de 1618.

dei Rey D. Manuel de Portugal y pariente en 4." grado dei rey nuestro senor

(p. 142); por

FRANCISCO RODRIGUES

LOBO

fim recorda-sea sua luzida partÍcipaç5o

em alguma cerimónia religiosa {p. 229).

F.

Rodrigues Lobo já exaltara em O

Condestabre (canto XI ) a sua prosápia,

os seus casa-

mentos e a sua descendência, alargando-se agora nesta dedicatória na celebração do seu papel

na reanimação da vida cortesã e cultural do seu tempo em Portugal. Tal papel poderia, de certo

modo, ver-se confumado pelas múltiplas obras que, de um lado e doutro da fronteira, buscando

o seu patrocínio, lhe foram dedicadas, como por exemplo o Breve tratado de las virtudes de

D. Juan Garcia Alvarez de Toledo y Monroy y Deleitosa. V." Conde de Oropesa (Madrid, 1621), de Fr. Bartolome de Molina. O. F. M.; a Plaza Universal de Todas Ciências y Artes. isto é, a tradução da Piazza Universale di tutte le Professioni dei Mondo (Veneza, 1585), de T. Garzoni por Cristobal Suarez de Figueroa (Madrid. 1615); e na Laura de An/riso (Lisboa 1627), Manuel Veiga Tagarro dedica-lhe, como membro dessa Casa de Bragança que tào presente está nessa obra. a IV Écloga (Sileno). De qualquer modo, estas referências como que justificam, para além dos tópicos, os tradicionais elogios que ao amor às letras, por parte da Casa de Bragança, se iam tecendo desde os fins do século xvi (conf,. por exemplo, a dedi- catória de Fr, Heitor Pinto da Imagem da Vida Cristã [1563. 1572] ao duque D. Teodósio

= Não é fácil datar com precisão este renascimento (1618/1619?) de todos os modos

fugaz, da vida áulica em Évora à volta da corte do marquês de Flechilla — facto igualmente recordado na I V Écloga. Sileno, de M . Veiga Tagarro — , mas é possível confirmar «literaria- mente» o abandono a que os cortesãos, depois de 1580, votaram a cidade e a consequente ruína que invadiu as suas casas e palácios. Com efeito, o P. Francisco de Mendonça, s. j . em 1626,

num sermão pregado em Évora, considerava:

corte antigamente de Portugal e perguntai por aqueles tão lustrosos cortesãos e senhores que com tanto gosto a esta cidade vinham. Que é de tantos príncipes? Que é de tantos infantes?

Que é de tantas pessoas titulares, cujas casas vemos hoje meias arruinadas, mais para

memória triste do passado que para consolação do presente?

mões

Recolhei-vos a esta cidade de Évora, segunda

{Primeira Parte dos Ser-

,

Lisboa, Mathias Rodrigues, 1632, p. 199).

52

' Esta é a última das múltiplas notas traduzindo a nostalgia da antiga corte portuguesa que

percorrem, desde o começo a Dedicatória e que, depois, virão elaboradas em diferentes momentos dos Diálogos. Dentre os inúmeros testemunhos desse sentimento, escolhemos, de novo, pela sua sintonia com F. Rodrigues Lobo, as palavras de Francisco de Mendonça, s. j. , num sermão da Anun- ciação pregado no Colégio da Companhia de Jesus em Évora em 1615: Pergunto: a formosura da corte donde nasce senão do rei. que nela reside? Bem no viste antigamente nesta vossa cidade de Évora. Quando rujquele bom tempo, que Deus quis que acabasse (tudo acaba nesta vida), quaruio naquele bom tempo os reis de Portugal tinham sua corte em Évora. oh.', que

fermosura! Que casas tão nobres! Que paços tão reais! Que famílias tão ilustres! Que cida- dãos ião ricos! Que serãos tão alegres! Que festas tão solenes! Que jogos tão aparatosos! Que provimento do necessário tão abundante! Fermosura real! Tudo vinha do Rei. que aqui resi-

dia

(Segunda Parte dos Sermões

,

Lisboa, Lourenço de Anvers, 1649, p. 51).

E sobre a presença do autor da Corte na Aldeia na órbita da Casa de Bragança (Vila

serão sempre de consultar Ricardo Jorge, Francisco Rodrigues Lobo.

Viçosa

,

Évora

)

Estudo Biográfico e Crítico, Coimbra. Imprensa da Universidade. 1920 (pp. 79-103); Luís de Matos, A Corte Literária dos Duques de Bragança no Renascimento, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1956. * Para a verificação e alcance desta referência poderão consultar-se o registo das Mercês de D. Teodósio //. Duque de Bragança, Lisboa; Fundação da Casa de Bragança. 1967 (p, 181. refs. aos anos de 1597 e 1610). A mercê de 1610 deverá ser atença com que D. Teodósio recompensou o poeta pelo seu Condestabre (1609) conf. Carlos Alberto Ferreira, Francisco Rodrigues Lobo. Fontes Inéditas para o Estudo da Sua Obra, Coimbra, 1943. pp. 33-34.

53

I

DIÁLOGO I

Argumento de toda a obra

Perto da cidade principal da Lusitânia está ua graciosa aldeia' que, com igual distância, fica situada à vista do mar Oceano, fresca no Verão, com muitos favores da natureza, e rica no Estio e Inverno com os fruitos e comodidades que ajudam a passar a vida saborosamente, porque, com a vizinhança dos portos do mar, por ua parte, e, da outra, com a comunicação de ua ribeira que enche os seus vales e outeiros de arvoredos e verdura, tem em todos os tempos do ano o que em diferentes lugares costuma buscar a necessidade dos homens. E por este respeito foi sempre o sítio escolhido para desvio da corte e voluntário desterro do tráfego dela, dos cortesãos que ali tinham quintas, amigos ou heranças, que costumam ser valhacouto dos ex- cessivos gastos da cidade. Um Inverno em que a aldeia estava feita corte com homens de tanto preço que a podiam fazer em qualquer parte, se juntava a maior deles em casa de um antiguo morador daquele lugar, que também o fora em outra idade da casa dos reis, donde, com a mudança e experiência dos anos, fez eleição dos montes para passar neles os que lhe ficavam da vida. Grande

' A localização da «aldeia» obedece às coordenadas dum locus amoenus

,

grato para

atrair, por diferentes razões, moradores e, assim, criar o fundo paisagístico do quadro

dialógico. No entanto, a tentação de identificar essa «aldeia»

mou, pela primeira vez (que saibamos), nas páginas de R. Jorge, Francisco Rodrigues Lobo ,

ed. cit., p. 325, que, prudentemente, aí insinua a sua identificação com Sintra

questão, através da introdução que A. Lopes Vieira apôs à mais divulgada das edições de Corte

na Aldeia (Lisboa, Clássicos Sá da Costa, s. d.), passou a certeza

Ramada Curto, O Discurso do Poder Político em Portugal, 1600-1650, Lisboa, Projecto Universidade Aberta, 1988, p. 46. obra, aliás, de esclarecida erudição ao serviço de uma aliciante interpretação).

das cercanias de Lisboa, assu-

Depois, tal

(conf, por exemplo, Diogo

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acerto de quem colhe este fruito maduro entre desenganos. Ali, ora em conversação aprazível, ora em moderado e quieto jogo se passava o tempo, se gozavam as noites, se sentiam menos as importunas chuvas e ventos de Novembro e se amparavam contra os frios rigorosos de Janeiro. Entre outros homens que naquela companhia se achavam eram nela mais

custumados, em anoitecendo, um Letrado que ali tinha um casal e que fá tivera hom-ados cargos de governo da justiça na cidade, homem prudente, concertado na vida, doutor na sua profissão e lido nas histórias da humani- dade; um fidalgo mancebo, inclinado ao exercício da caça e muito afeiçoado às coisas da pátria, em cujas histórias estava bem visto; um estudante de bom engenho, que, entre os seus estudos, se empregava alguas vezes nos da poesia; um velho não muito rico, que tinha servido a um dos Grandes da corte, em cujo galardão se reparara naquele lugar, homem de boa criação, e, além de bem entendido, notavehnente engraçado no que dizia e muito natu- ral, de ua murmuração que ficasse entre o couro e a came, sem dar ferida j)e- netrante. Ao senhor da casa chamavam Leonardo, ao doutor, Lívio, ao fidal-

Fora estes havia outros

de quem em seus lugares se fará menção, que, assim como os mais, não eram

para

go, D . Júlio, ao estudante, Píndaro, ao velho, Solino.

enjeitar

em ua conversação de poucas perfias.

Ua noite de Novembro ^ em a qual j á o frio não dava lugar a que a frescura do tempo convidasse ao sereno, estancjo ainda Leonardo à mesa, porém no fim das iguarias, bateram à porta Píndaro e Solino, aos quais o velho mandou abrir com grande alvoroço e festa, porque a de o buscarem era a que mais estimava por sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento e cortesia. Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da casa:

— Pesa-me que não viésseis mais cedo, que me pudéreis acompanhar neste trabalho tão necessário da velhice. Mas se ainda virdes na mesa algua cousa de vosso gosto, lançai mã o dela. que de mistura achareis a minha boa vontade.

^ Para além da alusão ao tempo-estaçào (Inverno), notado através de outros sinais — o

há, ainda, um tempo-simação referido ao dia-a-dia: os trabalhos

fogo que reúne e aconchega

do campo que Leonardo acompanha, os convites que reciprocamente se fazem os amigos para

São apontamentos que traduzem, literariamente, subli-

,

jantar

,

para caçar

,

as refeições

nhando-a. essa adaptação da vida quotidiana ao lempor^stação do ano. Os diálogos — estes

diálogos — começam precisamente uma noite depois da ceia

momentos e ambiente em que, com outra sumptuosidade, também se iniciam os Asolani (1504)

de P. Bembo ou o colóquio

É o tempo de sobremesa

,

que. depois, se tomaram um momento tópico ideal para enquadrar o diálogo Pedro Mexia, assinalava a D . Parafán de Ribera, marquês de Tarifa, que os

seus Colóquios (Sevilha, 1'547-) que lhe dedicava eram fruto dei tiempo en las largas noches

dei Invierno posado

escrita em castelhano, (Noches Claras. (Divinas e Humanas Flores], Madrid. 1624)repete que esse meditado exercício dei palestra há-de ter lugar en estas diUaadas noches dei brumozo Deziembre (Palestra I, ed. Lisboa. 1674, p. 10).

e. M:i1^aria e Sousa, numa obra injustamente esquecida, talvez, porque

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— Eu sei (disse Píndaro) a que tendes de me fazer mercê, mas venho

ceado e também Solino, a quem tive hóspede, cuja conversação me dobrou

o

^st o

das iguarias.

Eram elas tão boas (respondeu Solino) que a mim me davam graça.

Porém, o serdes vó s tão miúdo nas cortesias me deu muita pena. E j á que

sois tã o discreto, e tão meu amigo, daqui adiante emendai-vos nas cerimó- nias da mesa e adverti ao vosso moço que não acompanhe com os olhos os bocados dos hóspedes té o estâmago, porque apostarei que me con- tou todos os da ceia, e anda tão destro no apartar das brigas que ainda bem não desvio um prato do outro quando me dá xaque em ambos e me deixa em casa branca. E não vos pareça que é isto dizer que venho fa- minto, que, se assim fora, pode ser que o comprimento do senhor Leonardo não ficara solto e hvre. Antes é fazer-vos lembrança que, pois dais tão bem de comer, não tenhais um moço harpia, que descomponha o sabor dos manjares.

— Bem sei (respondeu Píndaro) que, ainda farto, não haveis de dei-

xar de roer. O meu moço é de ua destas aldeias vezinhas. Há pouco que me

serve; por isso, e por ser criado de estudante, lhe devíeis perdoar o erro e a mim o remoque. Porém, a vossa condição não se sujeita a respeito, nem a disculpas.

— É tão saborosa a murmuração de Solino (disse Leonardo) que também

na mesa se pode estimar como boa iguaria \. se a eu tivera muitas vezes, dera vida ao apetite que para as outras me falta. Se o ela fora (tomou Solino) em mais ocasiões me valera das em que a vós podeis desejar. Mas, não tratando de vo-la oferecer, nem de a disculpar com meu amigo, como ceastes hoje tão tarde e não vieram mais cedo o Doutor e D. Júlio? — Antes (disse o velho) me mandaram já recado e não devem tardar. Eu o" fiz com a ceia, porque os homens de serviço me não deram lugar senão a esta hora; mas ouço que batem à porta e devem ser eles.

' Há aqui, de certo modo, a enunciação de um tema — os limiles e modos da con-

versação entre amigos bem acostumados que percorre toda a Corte na Aldeia

(conf. pp. 52,

180, 182). Conf. Cervantes, Colóquio que pasó entre «Cipiòn^ y «Berganza», perros dei

hospital de la Resurrección

de Valladolid: Por haber oido decir que dijo un gran poeta de

los antiguos que era difícil cosa el no escribir sátiras, consentirá que murmures un poco de luz y no de sangre; quiero decir que senales y no hieras ni des mate a ninguno en cosa sehalada; que no es buena la murmuración. aunque haga reir a muchos, si mata a uno; y si puedes agradar sin ella. te tendré por muy discreto {Obras Completas, Madrid, Aguilar, pág. 1000b). R. Lobo, mais tarde. {Diálogo VIU, p. 179) ocupar-se-á mais precisamente desta mur- muração engraçada.

* O pronome refere-se a tarde e a tardar (eu tardei com a ceia, isto é, «ceei tarde» porque os homens de serviço não deram lugar senão a esta hora).

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A este tempo mandou juntamente alçar a mesa e levar a luz à escada.

Subiram o Doutor e D. Júlio; saudaram-se com muita alegria e, sentados perto do fogo. disse o velho:

— Muito deveis ambos a Solino, porque, vindo a esta casa com Píndaro,

de quem foi convidado na ceia, e tendo a minha em estado que se podia aproveitar de algua coisa dela, vos achou menos e preguntou a causa da tardança. Sinal é este de amor e da pouca razão com que o temos por deso- brigado de toda a afeição dos amigos.

— Não é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço (tomou D. Júlio)

que se esqueça de mim e de quanto sentirei perder horas suas. E polo inte- resse das da conversação do Doutor o tivera em menos conta se as não de-

sejara. E, além disto, posso afirmar que está pago da lembrança que teve com

a dihgência que fizemos polo trazer connosco, que voltámos pola sua porta

e eu tirei ua pedra à janela, donde me disseram que ceava com Píndaro; e cada um dos dous me fez inveja.

— Ah! senhor D. Júlio (respondeu ele) tão grande trovoada de cumpri-

mentos secos não podia deixar de lançar pedra. Eu tenho feita a conta e sei que não posso pagar o que vos devo, além dessa honra e mercê, senão com

a humildade com que a todas reconheço por vpssas. Dai-vos por satisfeito de meus desejos e de pôr aqui ponto nos comprimentos, porque não tenho pólvora mais que para a primeira salva.

— Já eu me quisera meter em meio (disse o Doutor) porque, se vos atear-

des em cortesias, não haverá quem as pagues e nã o for Píndaro, que tem

ua corrente tão arrebatada que não dá vau a nenhuma retórica do mundo.

— Agora (arguiu Leonardo) levastes três de um tiro. Não me dou por

seguro neste lugar, inda que é de minha casa. Porém, não tendes razão contra

Píndaro, que, cada vez que o ouço, me parece um livro de cavalarias

Se ele

^ Aplacar, abrandar.

* Inicia-se aqui um longo debate sobre «livros de cavalaria», cujos principais tftulos são

lembrados por Leonardo — o anónimo Amadis de Gaula

,

o Palmeirim de Inglaterra (Évora,

1567), de Francisco de Morais, e a Crónica do Imperador Clarimundo (Lisboa, 1520), de João de Barros. Poderia ler recordado ainda o Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda (Coimbra, 1567J de Jorge Ferreira de Vasconcelos. O debate, já muiio antigo — pensemos no que dele traduzem as críticas que se faz o chanceler Pero Lopez de Ayada en su Rimado de Palácio (163) — teve momentos álgidos em tempos humanísticos que, em nome da moral e

da inverosimilhança, condenaram as suas «altas» aventuras e os seus amores

coincidiam humanistas, pregadores e

México, F. C. E., 1966, pp. 615-616, e José Adriano de F. Carvalho, Gertrudes de Helfia e Espana, Porto, INIC, 1980, pp. 333-334). A seu modo, e com uma amplidão c alcance que ultrapassam, obviamente, essas tomadas de posição «por princípio», La Vida dei Ingenioso Hidalgo D. Quijote de la Mancha (!. ' p., Madrid, 1605, 2." p., Madrid, 1615), de Miguel de Cervantes, prolonga e como que compendia todo esse debate. Haverá, contudo, que fazer notar que nestas páginas de R. Lobo tal debate não se inscreve de um modo preciso nessa longa tradição crítica — nelas, de verdade, nã o surgem explícitas referências aos múltiplos proble-

, (conf. M . Bataillon, Erasmo y Espana,

ponto em que

moralistas

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tivera encantamentos escuros, castelos rocheiros\s namorados, gigantes soberbos, escudeiros discretos e donzelas vagabundas, como tem palavras sonoras, razões concertadas, trocados galantes e períodos que levam

mas morais que a sua leitura, então, suscitava, sem que tais críticas se revelassem capazes de eficazmenie deter a procura desse íipo (nem de outro) de novela. Com efeito, Rodrigues Lobo coloca-se perante a realidade de um «género literário», para, fazendo o seu elogio mesmo à

custa de levantar alguns ecos dos argumentos dos seus críticos, determinar as suas leis e, logo, propor literariamente a sua legitimidade e roborar esse seu elogio. Num primeiro momento, em que situa, com precisão, o seu ponto de vista sobre a base de legitimidade do género — a cria- ção poética e a sua boa linguagem — contrapõe alguns argumentos da crítica que nada têm a

ver com a defesa que estabelece: a qualidade da ficção (patranhas

,trapa-

históriasfingidas

ças

)

ou o comportamento de quem a escreve ou de quem a lê (ociosos). E, desde este ponto

de

vista, não deixa de ser curioso que seja um Doutor em Direito o seu mais severo crítico

A

conclusão deste primeiro momento é, obviamente, uma enunciação das ciências e discipli-

nas necessárias para criar uma novela de cavalaria que, no fundo, mais não é de que uma glosa

dum passo de Genealogia Deorum (XIV , 7), de G. Boccaccio (conf. também Vila di Dante,

Firenze, 1576, segundo reimpressão anastática de J. V. de Pina Martins, Lisboa, O Mundo do

, — questão que preocupou, igualmente, muita da tratadística de retórica e poética ao longo dos

séculos xv-xvi (conf., por exemplo, A. Leonardi, Dialoghi dela Invenzione Poética [1554], in

B. Weinberg, Trattati de Poética e Retórica dei 500. Bari Laterza, 1970, II, pp. 213-392, esp.

pp. 228-229, 252. 288) como fundamento da imitado e, logo, da fictio. Por outro lado, deve notar-se que. desde uma perspectiva social, tal enunciado de ciências e disciplinas visava apresentar, promovendo-o. o poeta como um homem culto, empenho que perseguiam, igual- mente, os artistas. Conf. R. e M. Wittkower, Nati solto Saturno. La figura deli'Artista delVAu- tiçhità alia Rivoluzione Francesa. Torino, G. Einaudi Ed., s. a., (1%8), pp. 11, 19. 25.

Livro, 1965, pp. 50-56) sobre a ciência necessária ao Poeta

isto é, sobre as fontes da inventio

O segundo momento que, por sugestão apaziguadora de D. Júlio, se debruçara sobre os

livros que mais contentam (a cada um) e das razões que tem para os aprovar, arrancando, naturalmente, das conclusões anteriores, coloca, através do confronto sempre polémico da «história fingida» e da «história verdadeira», a clássica questão da Poesia e da História — das suas relações e de legitimidade da primeira. O assunto preocupou, com matizes e incidências diversas, todos os que se ocuparam do que pode dizer-se a questão da verdade poética e que, desde que a Poético arisiotélica foi «descoberta» nos fins do século XV, não deixou de assumar aos tratados que desta matéria se foram organizando. F . Rodrigues Lobo, vindo depois de Tas,so c, na Península Ibérica, de Lopez Pinciano, Philosophia Aniigua Poética — (Madrid, 1596) e de A. de Carballo — (Cisne de Apolo. Medina dei Campo. 1602) não podia deixar de ter presente o célebre texto de Aristóteles (Poética. 145!a-36-38; 1451 b-1-11). cuja solução teórica perfilha (no livro fingido contam-se as coisas como era bem que fosse e não como sucederam e, assim, são mais aperfeiçoadas, p. 62), apenas matizando, precisão óbvia, que não tenha excessos. Só obedecendo a este princípio será bem fingido e, logo, literariamente legítimo. De passo, através dos elogios que da história verdadeira vão fazendo os opositores de Leonardo e de Solino, de um Solino leitor de Ariosto (conf. M . Chevalier, Arioste en Espagne 11530-1660). Bordeaux, 1966, pp. 191-192. 309) não deixa F. Rodrigues Lobo de lançar como que as bases do que poderia dizer-se a orientação geral de uma «biblioteca selecla», digna de cortesãos, como esses que. dialogando na Corte na Aldeia, podiam ser

espelhos para outros,

constituir, para muitos, os fundamentos da educação da nobreza.

E sem esquecer que a História (registadora da Glória e da Fama) devia

' Rocheiro. Fr. Domingos Vieira (Thesouro da Língua Portuguesa, Porto, 1874 sub voce)

regista rocheiro como o mesmo que roqueiro (castelo roqueiro - castelo fundado em monte, rocha).

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todo o fôlego, pudera pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo e ainda o mais pintado de todos os que nesta matéria escreveram. E já estive em o persuadir que se metesse em ua empresa semelhante, porém receio que se me ensoberbeça com a altiveza de seu estilo e despreze aos amigos.

— Não merecia eu, senhor Leonardo, a vós , nem ao Doutor (disse

Píndaro) que tomásseis meus defeitos por matéria de vossa galantaria. Falo como sei, e cada um se estende conforme a roupa com que se cobre. Nã o sou tão filósofo como o Doutor, tão cortesão como vós. nem tão engraçado como Solino, nem tenho maiores penas que a gaiola. Porém, se abrisse as asas para compor livros, nã o houveram de ser de patranhas. Por isso, fiai mais de meus pensamentos.

— Nunca o tive de vos ofender (respondeu o Velho) nem me parece com

razão a vossa desconfiança, nem podeis fazer tão pouca conta dos livros de

cavalarias e dos famosos autores que os escreveram e que mostraram neles

a sua boa linguagem com toda a perfeição: a graça de tecer e historiar as

aventuras, o decoro de tratar as pessoas, a agudeza e galantaria das tenções,

o pintar as armas, o betar as cores, o encaminhar e desencontrar os sucessos,

o encarecer a pureza de uns amores, a pena de uns ciúmes, a firmeza em ua ausência, e outras muitas coisas que recreiam o ânimo e afeiçoam e apuram

o entendimento. Se vó s tendes por desprezo compor livros de

vos desengano que pertencem mais cousas ao bom autor deles que a um dos letrados, filósofos ou juristas com que desejais de vos parecer, porquf'lhe

do mundo, para encaminhar

por elas a sua história; ter notícia dos nomes e coisas que usam naquelas partes donde faz naturais os cavaleiros; saber estilo de corte para as mesuras, gasalhados e cortesias, conforme as pessoas introduzidas; conhecer da jus-

tiça, do torneio e do serão, a ordem, as leis e as gentilezas; entender da bas- tarda e da gineta o que convém para pintar o encontro, a queda, o acerto, o desar, o brio ou descuido de um cavaleiro, debuxar o cavalo nas cores, concertá-lo nas rédeas, no pisar, no arremesso, na fúria, na destreza, nas car- reiras, chaças ^ e rodeios; e, sobre o conhecimento de todas as ciências e disciplinas, também há-de ter algua notícia dos nigromantes antigos para os encantamentos que servem de bordão e valhacouto aos historiadores.

— Tenho por mal empregado (disse então o Doutor) tanto cabedal em

de voto que o autor, que tiver as

cousa de tão pouco interesse e nã o sou

importa saber a geografia dos reinos e províncias

cavalarias, eu

partes que vó s dizeis que são necessárias para essa composição, se ocupe nela. De que servem livros de cavalarias fingidas? E se há ociosos que os leiam, porque há-de haver algum que os escreva, ou que espera algum fruito de trabalho tão vão?

* Aqui, como se vê pelo contexto, termo de manejo do cavalo e não do jogo da péla. Píndaro (Diálogo V, p. 134) utilizará a palavra em sentido figurado.

59

— Mas que certeza tão grande (tomou Leonardo) que cada um aprova

o que segue, sendo assim que ninguém se contenta do que tem. Desejáveis agora que todos os livros e todos os homens tratassem somente da vossa profissão e fossem juristas e filósofos? Pois, ainda que eu sou bacharel em linguagem, me atrevo a contradizer essa opinião adquerida em latim: porque para recreação, polícia e bom estilo se não deve menor lugar a estes que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que chamais conselhos, que o dão às vezes bem ruim a quem se fia de sua leitura.

era de parecer (disse D . Júlio) que poupássemos esta matéria

para gastar a noite, pondo-a em maneira de disputa. E, se a todos parece assim, cada um diga a sua opinião nos livros que mais lhe contentam e das razões que tem para os aprovar; e deste modo, ou afeiçoados ou convencidos, saberemos os que são de maior gosto e utilidade.

— A isto (respondeu Solino) atègora estive calado contra minha natu-

reza, porque me houve por incapaz de fazer terço com o Doutor e Leonardo;

mas, pois o voto é que se jogue com Ioda a baralha, digo que é esta a melhor

E j á pode ser que algum

dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo memória de seu engenho, saiba nesta ocasião o em que o pode empregar melhor.

— Polo que a mim toca (disse o Doutor) comecemos logo. E a vós,

senhor D . Júlio, é bem que demos a mão a troco do alvitre; e, não tratando dos Livros Divinos, nem dos necessários ^, dos de recreação nos podeis dizer quais e por que razões vos contentam.

— A minha inclinação em matéria de livros (disse ele), de todos os que

estão presentes é bem conhecida; somente poderei dar agora de novo a razão dela. Sou particularmente afeiçoado a livros de história verda-

— (a) Eu

matéria que se podia escolher para passar o tempo.

(a) Da escolha dos livros de recreação.

' Será de algum interesse anotar não só os géneros e lemas que ficam excluídos pelo Doutor Lívio, mas também o que laís limites ajudam a precisar acerca da orientação geral da

conversação e leituras da sociedade cortesã peninsular nos fíns do século xvi e nos começos do século XVII . Com efeito, além de tal intervenção ser de bom auxílio para caracterizar o seu «autor» (Lívio), a exclusão diz respeito aos Livros Divinos — a Bíblia e, certamente, todos os

, mas imperioso, que bem poderá indicar os utilizados no estudo e na prática profissional, como um pouco adiante, precisa o mesmo Doutor — das artes liberais e mecânicas, das ciências e

disciplinas necessárias, das profissões particulares

explícita preocupada pelo decoro de uma conversação informal entre amigos e de extracto

social diverso, só haverá a tratar dos de recreação não só os de ficção, mas ainda os de História

, sugerido sobre tais obras como base de educação da nobreza iv, D. Júlio), coloca algumas questões sobre a orientação geral da leitura neste século xvii. A sugestão, aceite sem reticên- cias, de excluir os Livros Diviruys. não devera remeter apenas a precisos condicionamentos

ideológicos do tempo, mas também ser. como sugerimos, um princípio desse decoro de conversação informal, recebido, ahls, de // lÀbro dei Cortegiano. de B. Castiglione.

Deste modo, e por uma indicação

que dela directamente dependam como glosa ou comentário — e os necessários

termo vago,

Note-se, então, que entre estes se incluem o que mais do que fazer realçar o que ficou

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deira (a), e, mais que às outras, às do Reino em que vivo e da terra onde nasci; dos reis e princípes que leve; das mudanças que nele fez o tempo e a fortuna; das guerras, batalhas e ocasiões que nele houve; dos homens insi- gnes, que, polo discurso dos anos, floreceram; das nobrezas e brasões que por armas, letras, ou privança se adqueriram. O que me inclinou à escolha desta lição foi que tive algua de um homem muito douto em o que o deve desejar de ser e parecer que é bem nascido; ao qual ele dizia que o que mais convinha que soubesse era o apelido que tinha, donde lhe veio, quem foram seus passados, que armas lhe deixaram, a significação e fundamento da figura delas, como se adqueriram ou acrecentaram, os reis que reinaram na sua pátria, as crónicas deles, os princípios, as conquistas, as empresas e o esforço de seus naturais; porque, falando deles nas terras estranhas ou na sua com estrangeiros, saiba dar verdadeira informação de suas cousas. E, alcan- çadas estas, lhe estará bem tudo o que mais puder saber das alheias. E, na verdade, nenhua lição pode haver que mais recreie e aproveite que a que sei que é verdadeira, e, por natural, ao desejo dos homens deleitosa.

minha opinião (disse Solino) porque contra o gosto me

assombram muito cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de gente morta. E, no que toca à verdade, certo que à conta dos enterrados se escre- vem alguas vezes tão grandes mentiras que lhes não levam ventagem os fingimentos de histórias imaginadas. E havendo um homem de ler o que não é, ou o que sai tão caldeado e tão batido da forja dos autores que mudado traz o metal, a cor e a natureza, estou melhor com os livros de cavalarias e

histórias fingidas (b), que, se não são verdadeiros, não os vendem por esses;

e são tão bem inventados que levam após si os olhos e os desejos dos que

os lêem. E não estima um autor matar mais dous mil homens com a pena para fazer valente o seu cavaleiro com a espada, sem estar receando os ditos das testemunhas que ficaram da batalha, que por iguais respeitos pende cada

ua para seu cabo. Pois, se é caso em que um historiador queira passar adiante, como Ariosto, não matou mais gente a peste grande em Lisboa que Roda- monte nos muros de Paris.

— Essa é ua das razões por que eu os reprovo, (tomou o Doutor), por-

que a fábula é úa cousa falsa, que podia, contudo, ser verdadeira e aconte- cer assim como se fingiu. Porém, a isto não dão lugar os livros de cavalarias com esses excessos e outros encantamentos, fazendo casas e torres de cristal, edifícios, lagos e colunas impossíveis, pirâmides de alabastro e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer a Fortuna. E em nossos tempos, na índia Oriental, sabemos que o rei Mogor andou muitos anos fabricando ua casa de esmeraldas, por cujo respeito se passavam deste Reino à nossa índia

— Nã o é essa a

(a) Dos livros de históna verdadeira, (bj Dos livros de cavalarias fingidos.

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da Ocidental. E, enfim, morreu sem a acabar. E não há livro de cavalarias em que quaiquer cavaleiro de um castelo não acabe cousas maiores. E, dei-

as

a imitação de um cavaleiro fmgido, foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes que dele se escreveram. Muitas donzelas guardaram extremos de fir-

xando isto, é graça e galantaria comparar histórias verdadeiras com patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem nelas se ocupa, quando

meza e fidelidade costumadas a ler outros semelhantes nos livros de cavala- rias. Na milícia da índia, tendo um Capitão nosso cercado úa cidade de ini-

as

outras servem de exemplo para imitar, de lembrança para engrandecer e

migos, certos soldados camaradas, que alvergavam juntos, traziam entre as

de

recreação para divertir. A quem não anima ler as histórias de seus passa-

armas um livro de cavalarias, com

que passavam o tempo. U m deles, que

dos? A quem não move o desejo de igualar a fama que lê de suas obras?

O governo da paz, a ordem da guerra, o trato dos homens, o comércio das

províncias, donde se conserva, alcança e sabe senão polas histórias verdadei- ras? Porque nelas sabe cada um felicemente poios sucessos alheios o que deve seguir. Donde Marco Túlio chamou à História mestra da vida.

— Vós, senhor Doutor (disse Solino) achareis isso nos vossos cartapá-

cios, mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas histórias a que cha- mam verdadeiras, cada um mente segundo lhe convém, ou a quem o infor- mou, ou favoreceu para mentir; porque se não forem estas tintas, é tudo tão mesturado que não h á pano sem nódoa, nem légua sem mau caminho. No livro fmgido contam-se as cousas como era bem que fossem e não sucede- ram, e, assim, são mais aperfeiçoadas. Descreve-se o cavaleiro como era bem que os houvesse, as damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, os extremos quão grandes, as leis, as cortesias, o trato tão con- forme com a razão. E, assim, não lereis livro em o qual se não destruam soberbos, favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzelas, se cum- ' pram palavras, guardem juramentos e satisfaçam boas obras. Vereis que as damas andam polas estradas sem haver quem as ofenda, seguras na sua virtude própria e na cortesia dos cavaleiros andantes. E, quanto ao retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um bom entendimento traçou e seguiu com muito tempo de estudo que no sucesso que, às vezes, se alcan- çou por mã o da ventura, sem a diligência e engenho meterem nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham excessos desatinados que não sejam semelhantes à verdade, nem os encantamentos tão escuros e disconformes que não tenham algua maneira de enganar o juízo. Porém, os livros bem fingidos, como verdadeiros obrigam. Um curioso em Itália (segundo um autor de crédito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto sentimento que lhe acudiu a vizi- nhança a saber o que era. E, no que toca ao exemplo, um capitão vaieroso houve em Portugal que o não teve melhor o Império Romano, que, com

Este «capitão vaieroso» é, seguramente. D. Nuno Alvares Pereira, antepassado da Casa de Bragança e, logo, de D. Duarte de Bragança a quem o livro é dedicado. Rodrigues L^bo que o já em O Condestabre (Lisboa. 1610) tinha escrito; Ua neste exercício cosíumadol Húa história na língua portuguesa/ Do casto Dom Galaaz claro esforçado/ Honra e valor da antigua corte inglesa/ Vitorioso sempre e celebrado/ Polias prerogativas da pureza/ Tanto à virtude santa mais se inclina/ Que até à morte ser casto determina (11, p. 25 v), saberia que

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sabia menos que os mais daquela leitura, tinha tudo o que ouvia ler por verdadeiro (e assim há alguns inocentes que cuidam que se não pode mentir em letra redonda); os outros, ajudando a sua simpreza, lhe diziam que assim era. Veio ocasião de um assalto em que o bom soldado, invejoso e animado do que ouvia ler, lhe pareceu ensejo de mostrar seu valor e fazer ua cavala- ria de que ficasse memória; e, assim, se meteu entre os contrários com tanta fúria e os começou a ferir tão rijamente com a espada que em pouco espaço se empenhou de sorte que, com muito trabalho e perigo dos companheiros e de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida, recolhendo-o com muita

honra e não poucas feridas. E reprendendo-o os amigos daquela temeridade,

respondeu: Ah ! deixai-me, que não fiz a metade do que cada noite ledes de qualquer cavaleiro do nosso livro. E ele dali adiante o foi mui vaieroso ".

Muito festejaram

todos o conto, e logo prosseguiu o Doutor:

— Tão bem fingidas podem ser as histórias que merecem mais louvor que as verdadeiras; mas há poucas que o sejam; que a fábula bem escrita (como diz Santo Ambrósio), ainda que não tenha força de verdade, tem ua ordem de razão, em que se podem manifestar as cousas verdadeiras. Xeno- fonte, querendo pintar ua república perfeita e regimento político, por modo de história, fingiu o govemo de Ciro, rei dos persas; D. António de Guevara, em nome de um emperador romano, escreveu o que ele queria dizer em Espanha; e outros que ainda em modo mais estranho ensinaram aos homens, como Esopo nas suas fábulas e Lúcio Apuleio no seu Asno de Ouro; e todos os livros que em seu género são bons se podem chamar perfeitos. Resta agora que o que escreve história seja verdadeiro e não terá Solino de que o repren- der nela. O que compõe fábulas seja verosímil, e não terei eu razão de o reprovar. O que trata de ciência, alegue razões. O que faia de artes, experiên- cia. E o que quer ensinar princípios, mostre autoridade. E posto que eu tinha

-•.

^

na Crónica do Condestabre~{i,isboà, 1526) se escreve que Nuno Álvares Pereira havia grã sabor e usava muito de ouvir e ler livros de cavalarias, especialmente usava mais ler a história

de Galaaz. em que se continha a soma da Távola Redonda "

ponderado, mais resumidamente, em o Condestabre (1610): A que honrado não move hUa lembrança/ Dos valerosos feitos dos passados?/ Que não conceba em si nova esperançai De os seus serem no mundo celebrados/ A quem não envergonha e faz mudança/ inveja honrosa a vellos recontados/ Se inda hua história váa, mas bem fingida/ Move hum animo illusíre à

santa vida. (U, pág. 26 r.)

(ob. cit., cap. IV. s. p.).

Tudo o que Solino diz aqui em defesa dos livros de cavalarias tinha já R. Lobo

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muitas que alegar em favor da vossa opinião, senhor D . Júlio, vós estais no caso, e todos os mais, que a história verdadeira apascenta os doutos, adelgaça os grosseiros, encaminha os moços, insina os mancebos, recreia os velhos, anima aos baixos, sustenta os bons, castiga os maus, ressuscita aos mortos, e a todos dá fruito a sua lição. E por que esta nã o seja mais comprida, diga Píndaro agora a sua opinião.

— (a) Apostarei eu (disse Solino), que, se a Píndaro lhe armarem com

poesia levantada sobre os bons conceitos e versos, que, com serem amorosos, sejam arrogantes, que o tomarão como pássaro emr-visco.

— Para isso (disse o Doutor) arredar-lhe as ocasiões, e vá com declara- ção que não tratamos de poesia.

— Essa condição (acudiu Píndaro) logo ao princípio ficou declarada;

que, como exceptuastes Livros Divinos, nesse número devem estar os dos poetas que mereceram este nome '^; e o que eles antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os latinos, assim o deixa entender. E Platão, quando deles escreve, lhes chama divinos intérpretes dos deuses, possuídos de espíritos celestes, donde Marco Túlio tirou os louvores com que os trata. Ongenes afuma que a poesia é úa virtude espiritual, que inspira em os poetas e lhes enche o ânimo e o entendimento de úa divina força. Santo Augostinho lhes chama teólogos para cantarem os louvores divmos. Diziam os filósofos antigos que, se os deuses falassem, seria em verso, trazendo exemplo do orá- culo de Apolo e das Sibilas. Cassiodoro diz que a poesia tomou princípio da Divina Escritura. De mancha que, por autoridade de tão grandes varões, nunca os livros de poesia podem vir em competência com os de que atègora tratastes, que doutro modo j á estivera concluída a diferença.

(a) Dos livros de poesia.

Píndaro, segundo Leonardo já o definira, é poeta e de corrente tão arrebatada que não

dá vau a nenhuma retórica do mundo

inéditas, mas conhecidas, pelo menos, de Leonardo), palavras sonoras, razões concertadas, trocados galantes e períodos que levam lodo o fôlego (pp. 57-58) teça. desde já, este elogio

da Poesia, cuja fonte erudita (teoria e citações) é a Piazza Universale di tutte le Professioni

dei Mondo (Veneza, 1585). Disc. ClIIl. De' Poeti in Generale

tarde {Diálogo V), alto protagonismo na valorização dos encarecimentos poéticos, isto é, de um dos aspectos da linguagem poética que, então, se abordará.

Nada admira, por isso, que quem usa (nas suas «obras»

ed. cit. p. 921, e tenha, mais

Note-se, desde agora, que, apesar de R. Lobo não tratar dos livros dos poetas (livros

divinos, segundo Píndaro). a Corte na Aldeia, embora em tom menor, contém precisas obser- vações sobre «ane poética» — veja-se, por exemplo, a concepção de poesia que enunciara,

perspectivada por uma concepção cortesã da poesia,

arte «nobilíssima», tida em alta opinião pelos principais senhores de Espanha {Diálogo XVl). Independentemente de tal realidade e de Ia! afirmação. R. Lobo elabora, aplicando-a também

à Península Ibérica, através de T, Garzoni, {Piazza Universale

ed. cit. p. 215), uma consUtaçâo que já F. Petrarca fizera (Fam., XIII. 6) acerca

Disc. XXVI — De Filosofi

pouco antes, Solino

— , naturalmente

in genere

do interesse com que os «antigos senhores do mundo» cultivaram a Poesia por entre as pesa- díssimas cargas da governação.

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— O que eu vejo (tomou D . Júlio) que, ainda que o Doutor vos cerrava

a porta, que metido de ilharga dissestes tudo o que cumpria ao vosso intento

por junto, e, quanto para mim. estais declarado; e com o desejo de ouvir a

opinião do Doutor, não digo o mais que me parece.

— Ora, (respondeu ele) não quero que a essa conta fique o meu voto às

escuras; e digo, não falando em poesia, que não escolho lição de historiado- res verdadeiros, nem tenho por melhor a dos fingidos, porque uns servem de conservar a memória, os outros, de enganar o entendimento. E serão melho- res os livros.que deleitem a memória e a vontade e apurem e levantem o entendimento, como os de recreação que, com algua engenhosa novidade, tratam de matérias políticas e engraçadas: de corte, de aldeia e de qualquer sujeito aprazível. Há destes muitos bem recebidos, aprovados e proveitosos na república, cuja variedade e doutrina é para mim úa lição mui saborosa

— Não estou mal com essa opinião (disse o Doutor) e quasi que vós e

eu estamos em um mesmo pensamento, senão que deixastes de declarar

o que agora me fica para dizer: porque atèqui falámos do modo de compor

e escrever livros e não das matérias que, escritas, serão agradáveis. E, dei- xando em dúvida o vosso parecer para se conferir com atenção, o meu é que

o melhor modo de escrever são os diálogos (a) escritos em prosa, com figuras

introduzidas que disputem e tratem matérias proveitosas, políticas, engraça- das e cheias de galantaria, sendo a primeira figura da obra o autor dela; e esse que vá guiando e introduzindo as mais, que sejam apropriadas àquelas ma- térias de que hão-de tratar entre si. E , além de ser este estilo mais claro, mais mais vulgar, mais excelente, inclui em si a lição de todos os ouU^os modos de escrever, como o são os da história verdadeira e fingida, das artes liberais

e mecânicas, das ciências e disciplmas necessárias, das profissões particula-

res, da razão, do govemo da vida política ou privada. E quando este modo de escrever não tivera por si mais que a autoridade dos que nele escreveram, como foi Platão, Xenofonte, Túlio e outros infinitos, essa bastara para acre- ditar os diálogos. Além disto, eu tenho para mim que aquela é melhor escri- tura que, com mais perfeição e viveza, imita a prática e conversação dos

homens, porque assim como a melhor pintura é a que mais se parece com a obra da natureza a que quer contrafazer, assim a melhor escritura é a que

(a) Dos diálogos historiados.

" A resposta é ainda uma réplica explicitadora que Píndaro, a quem quis atalhar D. Júlio,

dá sobre as suas preferências (assuntos) de leitura e conversação e, curiosamente, apresentando

uma rápida síntese da própria obra em que intervém e ajuda a criar {Corte na Aldeia) e os

princípios (conversação e leitura) que lhes devem presidir: aprazível

, de / / Cortegiano. Note-se j á que, explicitando, por sua vez, tais princípios, o que o Doutor Lívio pondera a seguir, apenas perfila, jutificandr as eruditamente, as leis formais do Diálogo como género literário cortesão.

variedade

, doutrina toda uma tradição humanística que se prolonga, entre outros, através

com graça

65

retrata com mais semelhança a fala e conversação dentre os amigos '^ Nos

poemas tinham os poetas antigos que o mais levantado era a tragédia por a imitação natural da prática com introdução de figuras, junto com a gravidade, peso e tristeza dos sucessos trágicos. E, porque também a variedade é a que mais costuma entreter e deleitar o ânimo dos homens e esta é mais certa e mais própria nos diálogos, me parece que no gosto deles serão melhor rece- bidos.

— Pois, asim é (disse D . Júlio) que a principal razão por que aprovais

os diálogos é, porque mais familiarmente se parecem com a prática, desejo saber qual é mais nobre cousa: se a prática, se a escritura (a), porque a mim me parece que à escritura se deve o melhor lugar, e que antes merecia a prática por se parecer com ela, o que agora encontra a vossa opinião.

— Nenhua dúvida há (respondeu o Doutor) que a prática seja mais nobre,

mais antigua e mais excelente, porque, além de o falar ser operação natural dos homens, e acto em que eles fazem ventagem e diferença a todos os animais ' ^ a escritura.não é mais que ú a escrava e servente das palavras, e

(a) Da excelência da prática e da escritura.

Reafirmando o grau e o âmbito de «imitação» a que obedece e por que se deve aferir

a Coríe na Aldeia — uma conversação de amigos bem acostumados (p. 52), princípio estru-

turador da obra inclusivamente ao nível do seu estilo e linguagem — o Doutor Lívio levanta, como logo percebe Solino, uma das mais complexas questões de todo o livro e que esteve na base de tanta bibliografia que nos séculos xvi e xvii se ocupou das «questões da língua». No fundo, porém, esse seu desejo Ide] saber qual é a mais nobre cousa: se a prática, se a

escritura, não é senão a aplicação dos princípios e limites da imitatio à oposição prática/es- crita, ou seja, oralidade/escrita. Leonardo, louvando a galantaria e agudeza com que o Doutor

e D. Júlio trataram tão espinhoso assunto, acabou não só por declarar duvidosa a melhoria, mas

por fazer uma bela síntese dos princípios em confronto. Para além do mais, R. Lobo, que alude

ao princípio, de amplas consequências, tão valorizado pelo Humanismo, de que a fala é o que separa aferitas da humanitas, pode ler recebido sugestões para o modo e lugar de abordagem do assunto (e não propriamente para a opção valorativa da língua falada como modelo da escrita), de B. Castiglione (// Libro dei Cortegiano, l, 29).

" Independentemente da solução final, será interessante notar que as duas posições — a de Doutor Lívio, letrado, sobre as excelências da prática e a de D. Júlio, fidalgo cortesão, sobre as «vantagens» da escrita'—, não só remetem para teorias discutidas em pleno Renas- cimento (através de B. Castiglione, poderão ressoar nestas páginas da Coríe na Aldeia alguns ecos do debate a que Platão, Fedro, 275b-276d, submete o problema), mas também traem a formação e situação social de cada um. o que é, para além do mais, um resultado do modo

r preciso como R. Lobo observa o decorum das suas personagens. Se, com efeito, é importante ver que Lívio, um Doutor em Direito, baseia a sua argumentação sobre a excelência da fala,

porque é ela o que distingue a feritas da humanitas nismo renascimental), não deixa de ser curioso ver

D . Júlio, um fidalgo, insistir nos méritos

, sabendo nós acabará por aceitar que a prática e escrita sejam postas no mesmo pé de igual-

dade, solução que Leonardo deixa, de momento, no ar

conhecido, terá encontrado algum apoio para a elaboração destas páginas na obra de Pedro Albrel, Diálogos de la Diferencia dei Hablar al Escrivir (Tolosa, I. Colomerio. ca. 1560).

Sob este ponto, R. Lobo, se a tiver

da «arte», da escrita

mesmo

(princípio, como se sabe. basilar do Huma-

,

isto é, do mais artificial e igualmente mais conservador

66

o escrever não é outra cousa mais que suprir com um instmmento, por meio da arte e das mãos, o que com a voz nã o se pode exprim h e alcançar com os ouvidos, ou por distância de lugar, como quem escreve aos ausentes, ou por discurso de tempo, como quem escreve para os vindouros. E, porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora a quem serve enquanto escrava, nem o que substitui em lugar doutrem se lhe pode preferir no mesmo lugar, assim nunca a escritura pode igualar a nobreza e perfeição da prática.

— O contrário me parece a mi , (replicou o Fidalgo) porque nem por a

prática ser mais antigua e primeira que a escritura, é mais perfeita, antes ela

foi a perfeição da prática. E, posto que seja própria operação do homem o falar, não é nele menos nobre o acidente de escrever, antes me parece mais digno o que ele alcançou por arte que o que adquúiu por uso. E quase que ousaria a dizer que é operação sua o falar, dada a respeito de haver de escre- ver, pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando no entendimento dos presentes e na lembrança dos futuros a memória das cousas passadas. Assim que nem por a primeira razão merece a prática melhor lugar, nem a escritura, por servente e ministra sua, é menos nobre. Porque o sol serve de mostrar as cousas criadas, que lhe são muito mferiores e de dar luz e nutrimento a outras de menor calidade, e nem por isso elas se lhe podem antepor. E quanto a substituir a escritura em lugar da voz, ela o faz por tão excelente maneira que lhe tem muita ventagem, pois o que a voz não pode exprimir juntamente em diferentes lugares e a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escritura com grande perfeição, podendo muitas pessoas, em diferentes lugares, ler em um mesmo tempo a própria cousa. Polo que me parece que, ainda que a vossa escolha fosse boa, não fundastes bem a razão dela.

— Certo (disse Leonardo) que de ambas as partes destes tão boas razões

que fica duvidosa a melhoria. Porém, concedendo à prática a excelência, a acção, o modo e a graça de falar, que é úa viveza a que se não iguala outra nenhua semelhança, a escritura tem tantas grandezas que parece igualmente necessária para a vida, pois ficava o mundo às escuras sem a luz da lição escrita, e só na tradição dos homens se salvaria a memória das cousas, e, nas principais, dominaria a ignorância com mero império. Porém, deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria e agudeza está tocado o que baste, quero que passemos adiante e, por me fazerdes mercê, que me ensineis se na prática, em voz, e na escritura considerada, tem bom lugar a nossa língua portuguesa, porque ouço de má vontade a alguns naturais que tratam mal dela e a condenam por grosseira e limitada

Em pleno tempo de tirar consequências quer de outra tradição humanística (o interesse por de vulgari eloquentia) à volta das «questões de língua» quer de uma situação concreta da língua portuguesa politicamente (e não só culturalmente como até 1580) envolvida pelo império do castelhano, R. Lobo, na esteira, dentre outros, do Diálogo em louvor da Nossa

67

— U a cousa vos confessarei eu. senhor Leonardo, (disse a isto D . JúHo)

que os portugueses sã o homens de roim h'ngua e que também o

em dizerem mal da sua, que, assim na suavidade da pronunciação como na gravidade e composição das palavras, é língua excelente (a). Mas há alguns néscios que nã o basta que a falam mal, senão que se querem mostrar discre- tos dizendo mal dela. E o que me vinga de sua ignorância é que eles acre- ditam a sua opinião, e os que falem bem desacreditam a ela e a eles.

Doutor) polas

cousas da nossa pátria, e tem razão, que é dívida que os nobres devem pagar com maior pontualidade à terra que os criou. E verdadeiramente que nã o tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa. Antes é branda para deleitar, grave para

engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e

mostram

— Bravamente é apaixonado o senhor D . Júlio (acudiu o

(a) Dos louvores da língua ponuguesa.

Linguagem (Lisboa, 1540), de João de Barros, e do Diálogo em Defensão da Língua Portu- guesa (Lisboa, 1574), de P. Magalhães Gândavo, empreende, por sua vez, a «defesa e ilustra-

ção» da língua nacional. Partindo, em tom crítico, dessa constatação de que alguns ruiturais

] [

Eitfrosina — 1555. ed. E. Ansensio Madrid, C. S. 1. C , 1951. p. 7) e P. Magalhães Gândavo. este até pela boca de um castelhano, tinham verificado e de que, por isso, jogo de palavras à parte, os portugueses são homens de ruim língua (opinião que Fr. Luís de Sousa tam-

tratam mal dela e a condenam por grosseira que j á J. Ferreira de Vasconcelos {Comédia

bém insinuará nos Aruiis de D. João III, \, 4), R. Lobo, resumindo posições, visa directamente a alguns néscios que não hasta que a falem mal, senão que se querem mostrar discretos dizendo mal dela. E o que me vinga de sua ignorância é que eles acreditam a sua opinião e

os que falam bem desacreditam a ela e a eles

empreendido, para os italianos. P. Bembo (Prose delia Volgar

(Diálogo delle Lingue — Dialoghi, Venesa — 1542, ed. Lanciano, 1912, pp. 42-43) e para os castelhanos, B. Alderete. (Del Origen y Principio de la Lengua Castellana — Roma. 1606, 1, 1) e A. de Morales (Discurso sobre la Lengua Castellarm, Córdoba, 1586), talvez haja de

Ora, tal crítica que, entre outros, já tinham

Língua. I , 5) e S. Speroni

colocar-se. como seu vector linguístico, no quadro mais amplo desse amor á pátria a que se

alude (apaixonado

pelas cousas da nossa pátria) logo depois em Corte rui Aldeia e que,

como fenómeno do «individualismo» nacional, se irá transformando no «Moderno» sentimento

de patriotismo. Para um rastreio mais preciso deste «nacionalismo linguístico» (e não só) seria interessante ter em conta um texio do De Educatione. de António de Ferraris, dito Galateo (E. Garin, UEducaiione Umanistica in Itália, Bari, Laierza, 1959. pp. 170-171) e reler, como ponto de chegada, tanto o Discurso de B. Feijoo — Paralelo de las lenguas castelhana y francesa (Obras escogidas. Madrid, BAE. 1952, pp. 45-49) como os comentários ao tema. de

A. J. Maravall em. Estado Moderno y Mentalidad Social, Madrid. Revista Occidente, 1972, I ,

pp. 479, 491).

" A expressão (ruim língua) e as considerações subjacentes encontram-se já no Diálogo

em Defensão da Língua Portuguesa de que P. Magalhães Gândavo fez seguir as suas Regras que ensinavam a maneira de escrever e a Ortografia da Língua Portuguesa. Lisboa, 1574, no momento em que o ponugués Peirónio à pergunta se terão os portugueses tào ruim língua e tão grosseira como dizem recebe por resposta do castelhano Falencio que los mismos portu- gueses siendo ella suya la desdenan, y por sua boca confiessan ser ella la más tosca y bárbara dei mundo.

68

acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um modo senhoril, para cantar é suave com um certo senti- mento que favorece a música, para pregar é sustanciosa, com úa gravidade que autoriza as razões e as sentenças, para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite, para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pro- nunciação nã o obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da latina, a origem da grega, a familiaridade da castelhana, a brandura da francesa, a elegância da italiana. Tem mais adajos e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade. E se à língua hebreia, pola honestidade das palavras, chamaram santa, certo que nã o sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, polo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte ' ^

" A este merecidamente conhecido «louvor» da língua portuguesa poderão buscar-se facilmente antecedentes e, possivelmente, fontes: as páginas do Diálogo em Louvor da Nossa

Linguagem, j á citado, em que J. de Barros repassa a majestade, a musicalidade, a gravidade,

a humildade e honestidade, o deleite e a cópia verhorum da língua portuguesa, e o Diálogo em Defensão da Língua Portuguesa (Lisboa. 1574) de Pero Magalhães Gândavo. Em qualquer

caso, essa «ilustração» — desde a sua fonética e das suas virtualidades expressivas (retóricas

e estilísticas) até à sua cópia verborum et sentenliarum — procura não só reforçar, por

comparação explícita com outras línguas, a venente do «nacionalismo linguístico» já referido,

mas ainda exaltar a sua propriedade e equilibrada abundância para todos os géneros literários

e para todos os modos e circunstâncias da conversação e escrita, E de uns e de outros, agora

dentro dos limites impostos da conversação e da escrita por c para cortesãos, ocupa-se preci- samente a Corte na Aldeia. Dentro desta ordem de ideias, R. Lx)bo não deixa de lembrar um ideal que obsidiará muitos — se não todos — os que abordam, do Renascimento às Luzes.^ a «questão da língua»: escreve-se da maneira que se lê e assim se fala. J. de Valdês, teólogo

e gramático, no seu Diálogo de la Lengua, anterior a 1541 (ca, 1535), mas só publicado em

1737 (ed. de A. Quilis Morales, Plaza y Janes, pp. 126, 140) e L. A. Vemey no Verdadeiro

Método de Estudar (1746), Carta l (ed. A. Salgado Júnior. Lisboa. Sá da Costa. I , p. 45) poderão demonstrar esse ideal e a sua permanência. •

Quanto, porém, à escrita — entendamos por ela também a literatura — coerentemente,

R. lx>bo, se alude ã acomodação da língua portuguesa às matérias mais importantes da prática

e da escrita, só aborda com alguma especificidade, talvez, porque «géneros» mais marcada- mente conesãos , a Epistolografia e a História. Curiosamente, nem R . Lobo nem J. de Banos se detêm na verificação dessas qualidades, na Poesia, a menos que nela se inclua a alusão de Barros ao «Cómico» Gil Vicente. R, l^bo, porém, aludirá, obliquamente é certo, ao assunto na sua Primavera (Floresta V) lugar onde. afirmando-se afeiçoado à nossa língua portuguesa, reivindica ter sido o primeiro que nela (cantou) romances. De qualquer modo, parece dever- -se a um castelhano, Lope de Vega (La Dorotéa, Madrid. 1632) o mais rasgado elogio da língua portuguesa como língua essencialmente poética: Ella (a língua portuguesa) es dulcíssi-

ma y para los versos la más suave (conf. La Dorotéa, ed. E. S. Morby, Madrid, Castália, 1968,

p. 141).

69

— Folguei estranhamente de vos ouvir (disse Solino) por não ficar tão

covarde, como atègora estava, em ouvindo murmurar da língua portuguesa. E não ousava ou não sabia dizer a minha opinião, a qual cuidava que me nascia do amor que lhe tenho, e que cada um tem às suas cousas como o corvo aos filhos, e Píndaro às suas trovas. Porém, quando u m homem tã o bem fundado na razão como o Doutor e tão autorizado em seu parecer, sustenta esta parte, nenhua haverá já tão rija que me tire o atrevimento.

— Nem a língua (disse Píndaro), pois não há amizade que vos faça per- der o costume.

— Perdoai-me (tomou ele) que vos feri por não perder o golpe. E, tor-

nando ao que aqui se tratou para recordar o que começamos, averiguou o Doutor que a melhor maneira de escrever eram os diálogos (ficando meu direito reservado nos livros de cavalarias), locaram-se louvores da prática e escrituras com muito engenho, declarou-se como a língua portuguesa não

desmerece lugar entre as melhores para nela se escreverem matérias levan- tadas, aprazíveis, proveitosas e necessárias. Que falta entre vós para que destas noites bem gastadas, destas dúvidas bem movidas e destas razões melhor praticadas, se faça um ou muitos diálogos que, sem vergonha do mundo, possam aparecer nas praças dele à vista dos curiosos e ainda dos murmuradores?^"

— Tem Solino muita razão (disse D . Júlio) e se assim forem os diálogos

como se podem formar com a prática de alguns que estão presentes, bem se autorizará a opinião do Doutor, posto que a minha fique de vencida, com a ventagem que aqui tem a prática das escrituras alheias. E, pois, se aproveitam tão bem as noites neste lugar, razão é que por meio deles se comuniquem a quem se aproveite da doutrina e interesse delas.

— Se eu não dormira tão poucas horas da passada (disse o Doutor) ainda

houvera de prosseguir adiante e responder a isso, mas, com vossa licença, me vou recolher e amanhã acudirei mais cedo.

Fora do comum; maravilhosamente. É um advérbio muito do gosto de Solino que o voltará a utilizar {Diálogo V, p. 132). Conf. ainda p. 245.

™ Depois de ter enumerado os assuntos mais próprios do diálogo cortesão, anuncia agora

R. Lobo a «moldura» da sua própria obra e do que poderia dizer-se a sua dinâmica. Logo

abaixo sugere como esse género dialógico será um instrumento da própria aceitação e divul- gação da obra. Martim Afonso de Miranda, também ele autor de uma obra de diálogos — e que merecia um pouco mais de atenção do que à que se lhe tem prestado —, Tempo de Agora

(Lisboa, 1622, 1 .* p.), antes de caracterizar o género como grave e o seu estilo como levantado

e cortesão, recorre igualmente ao mesmo tipo de justificação

aponto satisfarei a vossa proposta: é a primeira ser este género de escrever agradável e gos- toso, pela variedade dos que falam, claro e proveitoso pelas dúvidas que se levantam e pela solução que .^e lhes dá (pág. VI). Para os antecedentes género dialógico em Portugal, v. Jorge.

A. Osório, o Diálogo no Humanismo Português, in o Humanismo Português — 1500-1600,

Lisboa, Academia das Ciências, 1988, pp. 383-412.

:

com as duas (razões) que

70

— Acompanhemos ao Doutor (disse o Fidalgo). E levantando-se ele, se despediram todos com muita cortesia, deixando ao senhor da casa magoado de se acabar tão depressa a conversação que quem sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento das horas que'dela perde. ^'

Quase todos os 16 diálogos da Corte na Aldeia terminam, tal como algumas das obras

pastoris do seu autor, por uma espécie de «sentença», que, além de transmitir como que a

gravidade moral do capítulo que encerra, prepara, de certo modo. o diálogo seguinte

momento, porém, a «sentença» tem um alcance mais vasto, pois não só justifica toda a obra

- uma arte de conversação entre amigos - , mas. cumprindo mais particularmente a sua

função, anuncia, depois de uma anierior alusão ao tema (p. 69) o diálogo sobre a carta missiva

Neste

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(pp. sy, yo).

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"'" ^ ^ '^^ conversação entre ausentes

71

I

DIÁLOGO

n

Da polícia e estilo das cartas missivas

Ficaram os amigos tão afeiçoados à conversação daquela noite, que, por

fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a se ajuntar logo depois de

se pô r o Sol, porém, cada um com pejo de ser o primeiro. Passeavam em dois postos, o Doutor com D . Júlio, e Píndaro com Solino, à vista da casa de

Leonardo, até que ele chegou à janela e, mostrando o mesmo desejo que os quatro traziam, facilitou o receio e aprovou as horas. Subiram todos, e disse

o Doutor:

— Pareceu-me este dia tã o comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores que devem já o jornal.

— E a mim (tomou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, tão

importuna como quem espera a manhã para cousa de seu gosto. E, assim, não

é muito que vós viésseis tão cedo e que a mim me pareça que já era tarde.

— Todas as cousas que se desejam muito (tomou D. Júlio), por pouco

que se dilatem, tardam mais.

— E as que se temem, (prosseguiu Solino) por muito que tardem, parece

que se antecipam. Donde um disse maravilhosamente que o que queria que

a Quaresma lhe parecesse breve, devesse pagamentos para a Páscoa. Enfim,

chegou mais cedo este prazo que todos desejávamos. E se o senhor da casa

dormiu pouco, eu apostarei que há algum na companhia que se desvelou mais.

— Não era ocasião para descuidos (disse o Doutor) e nos mancebos era

demasiada desconfiança entrar nesta batalha desapercebidos. — Os apercebimentos (tomou o Fidalgo) podem fundir muito pouco, porque como atègora é incerta a matéria de que se deve tratar, serão sem fruito as diligências. — É engano (replicou Solino) que nunca falta ua carta em que prender; como um homem tem as suas apuradas e há cousas que se levam a rastro

72

como corpo morto, e, quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E se não, digam-no as olheiras com que esta manhã v i a meu amigo Píndaro.

— Já sei (disse Píndaro) que vedes mal, mas contra mim ainda é pior a

vossa tenção, que à vista não me pagais bem o que vos mereço, mas é na

moeda que tendes.

—E na que corre, (tomou ele) que o rifão de agora diz que fazer e dizer mal

nunca se perde. Nã o vos escandalizeis, que

eu partir, porque desejava muito

alçar por elas. E, pois o Doutor falou ontem em cartas missivas, e aprovou para elas a língua portuguesa, nos há-de declarar o que há-de ter Úa carta para

ser cortesã e bem escrita.

— Esse cargo (tomou o Doutor) convém mais ao senhor da casa, porque

ainda que a carta consta de letras, não é profissão de letrados o fazê-las cortesãs e quem sabe tanto do estilo da corte ', como Leonardo, pode dar lei para elas.

— Vós (respondeu ele) sois doutor em tudo, e meu superior em todas as

matérias, e como tal me podeis dar o grau de cortesão ^. Eu o quisera parecer

tudo há nos homens e nas cartas.

— Essas (disse, então, D . Júlio) hei-de

' Apesar do esúlo da corte, aplicado à epistolografia, ser a preocupação que desencadeia

e organiza este diálogo, não será, porém, o único sobre que se ditarão regras ao longo deste

(e do seguinte) diálogo que, no seu conjunto, constituem um dos raros tratados portugueses sobre epistolografia nos séculos xvi e xvii, época em que predomina, largamenie, a pre- ceptíslica italiana. Amedeo Quondam e seus colaboradores em Le «Cane Messaggiere». Retórica e Modeli di Comunicazione Epistolarei per un índice dei Libri di Leltere dei Cinque- cento, Roma, Bulzoni, 1981, não só elancaram e estudaram a tratadística italiana, mas apon- tando-lhe pautas ilustres nacionais e estrangeiras — entre elas o De Conscribendis Epistolis Opus de Erasmo — , chamaram a atenção para as transformações a que eram submetidos os textos epistolográficos ao serem compendiados e publicados, quer do ponto de vista da relação

do autor/destinatário, quer do assunto, quer ainda de regras a cumprir. Para a Península Ibérica

o Manual de Escribientes, de António de Torquemada (anterior a 1562 e quase inédito até

1970), tão devedor de Erasmo e, modelo entre modelos cortesãos, as Epistolas Familiares (Valladolid, 1542), de Fr. António de Guevara, O. F. M., poderiam exemplificar as duas vertentes a que R. Lobo com estes diálogos e com a sua colecção de Cartas dos Grandes do Mundo (ed. de R. Jorge Coimbra, 1934) deu igualmente grande atenção. Domingo Yndurán, Las cartas en Prosa (in Literatura en la Época dei Emperador, ed. de V. Garcia de la Concha, Salamanca, 1988, pp. 53-79) e J. N. H. Lawrance, Nuevos lectores y nuevos géneros: apuntes y observacionei sobre la epistolografia en el primer Renascimento espanol (in Literatura en la Época dei Emperador, ed. cit., pp. 81-99) permitem, agora, melhor situar peninsularmenie estas páginas.

^ Como Lívio era doutor não só em Leis, mas, como gentilmente dizia Leonardo, em tudo, podia conferir esse grau de cortesão ao senhor da casa. E, curiosamente, este acena logo

a duas características que, em geral, não são tidas em conta à hora de lhe definir o tipo: a

confiança e a obediência, não tanto para com os hierárquica ou socialmente «superiores», mas para com os que se situam no mesmo nível e, dentre estes, os amigos. Será de notar que um eixo que organiza toda a obra é, precisamente, a amizade, questão a que, aliás, R. Lobo dedicará alguma atenção, já que só entre amigos pode ter lugar a «verdadeira» conversação, quer dizer, diálogo.

73

na confiança e em obedecer ao gosto destes amigos, mas para eu prosseguir com autoridade é bem que vós comeceis a principar a matéria, dizendo que nome é carta e o seu princípio, pois me dais o cargo antes de estar aperce- bido para ele. — Bem sei (lhe respondeu o Doutor) que por me hotu^ardes a mim tomais tudo à vossa conta. Folgarei de a dar boa do que me encomendais. Este nome, carta (a), é genérico, e teve origem de ua cidade do mesmo nome,

donde foi natural a rainha Dido, que, por o amor que tinha à sua pátria, pôs

à que edificou por nome Cartago \, porque em Carta se inventou primei-

ramente a matéria em que se escrevia (ou fosse papel, ou outra cousa seme-

lhante a ele), tomou dela o nome, como de Pérgamo o pergaminho. E para saber que nos primeiros tempos, quando se inventaram as letras, escreviam os homens nas folhas das árvores, como ainda hoje nas de palmeiras escre- vem os gentios de alguas partes do Oriente. As Sibilas nelas escreveram suas profecias, e, assim, se chamaram a seus escritos folhas sibilinas e ainda na linguagem portuguesa se conserva algua cousa desta antiguidade, pois dize- mos folhas de papel sem o papel ter folhas, mas é em lembrança das primei- ras que se usaram na escritura. Depois se escreveu em ua casca tenra de árvores que é o entreforro da cortiça. E, porque a esta chamavam livro, con- servam ainda agora eles o nome; e a divisão que agora fazem os escritores de livro primeiro, segundo, e daí adiante, é o número por que então deviam contar aquelas cascas. Também se escreveu em o miolo de úa maneira de juncos a que chamaram papiros, donde aos latinos ficou o nome para o papel. Depois se escreveu em tábuas, nas quais, sobre cera, com um instru- mento de ferro ou de latão, a que chamavam estilo, se assinavam as letras,

e do ferro com que se escreveram se veio a derivar o que agora dizemos hom

ou mau, humilde ou altivo estilo de escrever, passando-se por translação a perfeição do instrumento ao concerto e polícia das palavras. Deste próprio modo se usa o nome de carta, que alcança em género a todo o nome de papel escrito e ainda pintado. Os portugueses fazemos este nome particular to- mando carta missiva por a principal de todas, e, assim, basta dizermos carta,

(a)

Donde naceu o nome de carta e a maneira em que os antigos escreviam.

' A fonte mais imediata de todas as generalidades em cadeia que o Doutor traz sobre o nome e os princípios da cana, isto é, sobre a sua etimologia e formas primitivas, é, segura- mente a Si7va de Varia Lección (Sevilha, 1540), mas com numerosas reedições de Pedro Mexia (conf. Terc. Parte, cap. II), informação que preferiu à que um pouco mais elaboradamente fornece T. Garzoni {Piazza Universale, Disc. XXVlll — De'Scrilori, o Scrivani e Cartari ed. cit., p. 239). No entanto, como será fácil de supor, trata-se de um lugar comum obrigatório em todos os que escrevem e publicam cartas ou ditam regras de ratione conscribendi epistolas. S, Jerónimo no século IV {Carias, ed. bilingue, Madrid, B. A. C , VI, 2 e VIII) e Fr. António de Guevara, nos meados do século xv[ {Epistolas Familiares, II , 16) poderiam ser dois grandes exemplos dessa aplicação u^dicional.

74

sem mais declaração, para se entender que é esta. Porém, nas espécies delas usam o nome com seus atributos. E nos instrumentos judiciais, que tístimu- nham antiguidade, se diz carta precatória, demissória, citatória, de liberdade e de venda, e outras muitas, e ainda as de jogar, sem terem letras, se chamam comqmmente cartas. E a gente aldeã, conservando algua cousa da antigui- dade, a qualquer estampa ou pintura em papel chamam carta. Os latinos puseram nome às cartas missivas epístola, do verbo grego que quer dizer mandar e letras, porque a carta consta delas. Os italianos deram singular e plurar'' a este nome segundo. E na nossa língua, a que chamam limitada, não faltou nenhua destas diferenças, antes houve maior perfeição, porque a úas chamaram cartas mandadeira.s; às que tinham menos de papel, escritos; e às cartas de Itália letras, que são as de Roma e às de câmbio, porque deviam ter o mesmo princípio; porque logo nos de Portugal mandavam os Reis dele, por letras, copiosas doações à Sé Apostólica do que conquistavam. De maneira que o nome de carta, quanto à sua origem, é geral e comum e, entre nós, particular das cartas missivas. E, pois, lhe descobri o nome, é necessário, senhor Leonardo, que lhe deis agora o ser.

— Parece-me (respondeu ele) que estou j á no meio da minha obrigação (conforme ao dito do poeta): que quem começou, também tem feita a maior parte. E passando do nome da carta aos exteriores dela' , digo que há-de ter (a): cortesia comua, regras direitas, letras juntas, razões apartadas, papel limpo, dobras iguais, chancela sutil e selo claro. E com estas condições será carta de homem de corte*.

(a) Das cortesias das cartas.

* Plurar, forma utilizada no século xvi para Plural: «

E ao número de um chamam os

gramáticos singular; e aos muitos plurar

ed. de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, Publics. da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa,

»

(J. de Barros, Gramática da Língua Portuguesa,

1971, p. 309.

' Leonardo vai ocupar-se dos exteriores, aspectos «físicos» e formais importantíssimos,

da cana cortesã em que tudo, da direcção (Sobrescrito) à data e assinatura estava regulado não só por normas mais ou menos consuetudinárias apoiadas na hierarquização social, mas ainda,

no caso das fórmulas de tratamento, em disposições legais que, dela relevando, a confumavam. Deverá, porém, notar-se que Leonardo apenas assinalará regras para a carta cortesã e não para a epístola de tom humanístico e, multo menos, para a correspondência de chancelarias, isto é, oficial. Em linhas gerais, anotando exageros e dislates, o velho cortesão ocupa-se da carta familiar cujo modelo, reforçado pela aura do Humanismo (Erasmus dixit) eram os «bilhetes» de Cícero. De toda a exposição de Leonardo parece resultar evidente que não quer ditar regras para um breve manual de «escreventes» ou secretários, mas, sim, para o cortesão que escrevia ou ditava as suas próprias cartas.

' Os preceitos para os exteriores propõem-se, sobre tudo, lograr a clareza, a ordem, a lim-

peza e a facilidade de leitura pela legibilidade da caligrafia. A este último aspecto é R. Lobo muito sensível, como se prova pelo facto de. logo depois, Solino se rir de uma letra tão miúda

e embaraçada

que por nenhuma via (pôde) ver o que dizia, e de mais adiante (p. 82)

75

— E , falando da cortesia, (disse Solino) que entendeis

nela?

— A cortesia, (lhe respondeu ele) não falando na leitura da carta, é o

sobrescrito, o apartado da cruz té à primeira regra, e do primeiro do papel té

o começo de todas; e o sinal e nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E, porque nisto há diferentes custumes e erros, me parece bem fazer de tudo lembrança.

— Nos sobrescritos (a) temos pouco que tratar (tomou Solino)

que, depois que com a premática os cercearam, não há prezados, magníficos, honrados e ilustríssimos, nem os senhores^. Ainda fica-

(a) Dos sobrescritos.

Leonardo criticar os cortesãos que por afermoserarem a letra e facilitarem melhor os rasgos

da pena, vão encadeando as leiras polas cabeças como sardinhas de Galiza e de maneira con-

fundem a escritura que não há tirar dela o sentido verdadeiro do seu dono

Refere-se,

obviamente, a um tipo de caligrafia

conhecido, tecnicamente, por «Letra encadeada».

' Independentemente das disposições legais [Pragmática) a que se refere Solino. convirá

aludir a toda uma tradição literária que, com alguma implicação social, vai reagindo contra estes «abusos» nas fórmulas de tratamento. Petrarca, como de tantos outros temas, poderia bem dela ser a matriz quando no De Remediis Utriusque Foriunae (cit. pela trad. de Francisco de Madrid, Sevilha, 1516), criticando todo aquele que acredita nos que o publicam por sábio, explicita: mas, ya te entiendo; en los sobrescritos de las cartas hazes tu fundamento, que en ninguna cosa se usa de más libertad. En los quales no basta hazer sábios los que no lo son,

mas nobles. insignes, reverendos, sereníssimos y aun iliustres, tanto que el título de sábio assi

senzillo es ya ávido por vergongozo

»

(I. Diálogo XII). E no Cancioneiro Geral (Lisboa,

1516) de Garcia de Resende, Duarte da Gama nas Trovas aas desordSes que aguora se cos-

tuma em Portugal, além de criticar outras «novidades» no uso de títulos, lembra A maneyra descrever! que costumam nos ditados! he chamarem já preçadosi a myl homeens sem o ser.1

E quando na baixa jenle! o costume for jerall hade vyr a principal, a excelente (ed. A. Costa

Pimpão e Aida F. Dias, Coimbra, 1973, II , n.° 542). E, por fim, recorde-se a diatribe do

«Entendimento» na Rôpica Pnefma (Lisboa. 1542) contra o modo da corte no falar e no

a ponto de que se achariam enleados Demóstenes e Túlio, se lhe dessem ua carta

, copiosas que a língua grega e latina fossem (não), achariam vocábulos conformes a sua

calidade

•se taixa à porta dos alfaiates, inventores dos tais ditados, apreçando logo que por Ha Ilustre

Senhoria levassem tanto. Manífica singela, sem soberba de vassalos, e Revenderíssima. com tauxia mourisca, fossem ambas de um preço, Estimada e prezada Mercê levando nove lições,

com sua ladainha e ofícios inteiros, que lhe tirassem um dozao da Senhoria

(está) por determinar, té que o saiba ElRei

53). Páginas severas dedica A. de Torquemada a tais fórmulas e cortesias na Segunda Parte

dei Colóquio de la Honra que trata de las salutaciones antiguas y de los títulos y cortesias

{Colóquios Satíricos, Mondonedo, 1553; conf. M. Menendez

Pelayo, Origens de la Novela, N. B. A. E., 1931, II, pp. 649-654). Daí, essa Pragmática en que se dá la orden y forma de que se ha de tener en los iralamienios y cortesias de palabra e. por escrito y en traer coroneles y ponellos en qualquier parte y lugares, decretada por Filipe I I em S. Lorenzo de El Escoriai em 8.X.1586 e nesse ano também impressa por Manuel de Lyra (Lisboa). Tal lei em que vêm apontadas, de maneira pormenorizada, todas as regras a obser- var, foi, porém, sempre eludida, pois como explicavam, entre outros, M. Leitão de Andrade

que se usaban en el escribir

de um homem destes 'especiais' da corte

escrever

pois, quando viesse ao sobrescrito, por mais

Mas segundo contou um correo do Tempo que poucos dias há veo da corte, punha-

(ed. I . S. Révah,

Tal negócio

Lisboa, I . A. C . 1955, pp. 51.

76

^.0

ram * alguns de rodeio que são muito para ver, e assim o dizem eles, a cujo propósito vos hei-de contar íia história. Eu, como todos sabeis, vejo com óculos e, conforme a opinião de alguns, com eles muito menos. Os dias atrás, sendo eu ainda inocente deste custume, me deram íia carta de um amigo que dizia: Para ver o senhor Solino. Aberta ela, era a letra tal, tão mitída e embaraçada que desmentia o sobrescrito e por nenhua via pude ver o que dizia. Mas respondi noutra letra muito peor e pus no sobrescrito: Para cegar o senhor Fuão, ao que ele depois me respondeu que estava polo custume dos presentes.

— Nem todos se hão-de seguir (disse o Doutor) que, como escreve o filó- sofo Favorino, cada um deve usar de palavras presentes e custumes antigos

na sua Miscelânea (Lisboa, 1629, pp. 93. 94) e M . Faria e Sousa na Europa Portuguesa

(Lisboa , 1678-1680, 11, 1 . 2 , p . 114) houve necessidade, e m

ameaças de procedimento Judicial, de publicar, com alguma adição, essa Pragmática (de novo

1594. com nova severidade e

em 1598. 1600, 1610) e, em 1597. de uma Provisam de como se ha-de falar e escrever

anos depois (1612) de um Alvará para se publicar de novo e executar as penas da Lei da

Pragmática sobre cortesias e modo de falar e escrever.

e,

A própria lei, como todas, admitiu esclarecimentos e derrogações, como esse Alvará para

se poder falar por excelência ao Duque de Aveiro dado em Madrid em 30.VI.I606

Alvará por que el Rey (Filipe IV) concede que ao barão de Alvito se lhe possa falar por Senhoria (Lisboa, 28.X.1609).

Para uma época um pouco anterior terá interesse verificar o que praticavam os infantes (filhos de D. João I) quando escreviam ao duque de Bragança e o que observava o duque de Bragança quaruio escrevia (in D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real, IV , 1, pp. 282-283). mas também a premência de tal questão na cone de D. João III , tanio nas páginas que nos Anais (I, 14) lhe dedica Fr, Luís de Sousa, como naquelas em que P. Al - cáçova Carneiro (Relações, ed. E. Campos de Andrade, Lisboa. Imp. Nacional, 1937, pp. 259- -261) recorda a vinda para Lisboa do Senhor D. Duane, filho natural do rei Piedoso. Sobre o assunto, pode consultar-se, A. Heredia Herrera, La Pragmática de los tratamien- íos y cortesias: fonte legal para el estúdio de la diplomática moderna, ARCH. Hisp., LVII

(1974) e A. Dominguez Oniz, La Sociedade Espanola en el 1963, pp. 42-44.

e o

Sigla XVII, Madrid. C. S. I . C ,

* A edição original (1619) traz aqui novamente (tornou Solino), indicação que, a estar o texto completo, será um descuido ou erro tipográfico. E em qualquer caso, hoje, é notação es- cusada, pois, como se vê pela continuação, é Solino que segue falando.

' É a tradução de uma sentença — verhis praesentibus utendum et moríhus praeteritis

vivendum — atribuída por Aulo Gélio a Favorino numa página (Noct. Attic. liv. II, 7) contra

afectação do uso de arcaísmos e gozou de variadíssima transcrição e de amplíssima divulga- ção. Para além dos autores que, com maior ou menor precisão, citam a página de A. Gélio, tal sentença era acessível através da Praefatio dessa notável enciclopédia de vária erudição que

é

o Catalogus Gloriae Mundi de Barthélemy de Chasseneux (B. Chasseneus), no lugar em que

o

autor justifica o seu estilo. Entre nós, além de R. Lobo, Duarte Nunes do Lião (Origem da

Língua Portuguesa, Lisboa, 1606, Cap. XXVI), André Rodrigues de Évora (Setentia et Exem- pla Ex Probatissimis quibusque Scriptoribus colleta et per locos communes digesta, Coimbra,

1554,

[I] Diálogo da Justiça, cap. VII) podem atestar alguns dos diversos modos dessa divulgação

e aplicação.

1567

sub voce «Sermo»), Fr. Heitor Pinto, Imagem da Vida Cristã (Coimbra, 1563.

77

E, mais quando o uso é abusão, que no primeiro, por ser tal, o defenderam as leis, e no segundo o repreendem os mesmos que o usam. Contudo, Leo- nardo dirá o que lhe parece.

— A mim (respondeu ele) que a lei é boa e a cautela, escusada. Porém,

o sobrescrito tem mais partes de cortesia que essa que dissestes, ainda que

à primeira vista pareça cousa tão limitada. E, para que comecemos em

ordem, sobrescrito é ua notícia vulgar da pessoa a quem se escreve e do lugar aonde lhe mandam a carta, expremindo-se nele o nome e a dinidade por onde é mais conhecida, e o do lugar aonde naquele tempo assiste. Nesta regra geral há ua limitação, e é que às pessoas de grande título e cargo se pode calar ou usar de outro modo diferente esta segunda notícia, porque, além dos cargos declararem muitas vezes a assistência das pessoas, parece cortesia que às que são mui conhecidas por seu título e dignidade, basta essa e o nome para se- rem buscadas. O primeiro modo é como se escrevêssemos: a N., Viso-rei da índia; a N., General de Portugal. O segundo, como: a A'., Embaixador de El- -Rei de Espanha em a corte de Roma. E, posto que estes assistam a tal tempo em vilas ou cidades particulares, não é necessária outra leitura no sobrescrito. Não trato aqui das cartas enviadas aos reis, de seus vassalos, porque nã o entram nesta regra as que vêm dirigidas a seus conselhos particulares.

— Bem podereis (disse o Doutor) meter nesse lugar a história de um le-

trado da minha profissão, que, mandando ua informação à Mesa do Paço, pôs no sobrescrito: A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da Ribeira, junto de Luís César

— Doutro soldado ouvi eu contar (disse Solino) que escreveu à índia:

A. N. Viso-Rei da índia,

— Para gente tão néscia (disse Leonardo) não servem preceitos, mas em

outra vejo muitas vezes sobrescritos tão miúdos e sobejos que pessoas mui

nos Paços de Goa, defronte de um lanceiro torto

Conselheiro de Estado, procurador-geral das Armadas de Portugal e personagem mar-

canie do reinado do cardeal D. Heruique e do de Filipe I de Portugal, como.assinala P. Roiz

Soares no seu Memorial (ed. M . Lopes de

" O anedotário acerca dos sobrescritos mal ouridiculamenteendereçados é frequente nas colecções de ditos, apotegmas, factos memoráveis em que abundou certo tipo de erudição dos séculos XVI e xvn, consagrada peninsularmenie em «florestas» (M . de Santa Cruz, Floresta EspaHola de Apoftegmas, Zaragoza, 1574; J. Rufo, Las Seiscientas Apotegmas, Toledo, 1596) e em «colecções» (Pedro J, Supico de Morais, Colecção Moral de Vários Apoftegmas. Lisboa. 1720). Tal erudição teve ecos nos manuais da cortesania desde os grandes tratados (B. Cas-

tiglione), até à obra de G. delia Casa e, naturalmente, às suas adaptações na Península (Lucas

Gracián Danlisco) e descendências (R. Lobo

vastíssima colecção que são os Ditos Portugueses Dignos de Memória (ms. do século xvi, ed. por J. H . Saraiva, Lisboa, Public. Europa-América, S. A., p. 104, n." 249): Trazendo-lhe [ao Conde de Redondo] urrui carta com o sobrescrito «para o Vizo-Rei» e em baixo, ao pé «De São Sabastião de Pagim«, porque isto eram sempre cartas de importunações, disse: — «Ele é o S. Sebastião, e eu sou o asseteado.»

Almeida, Coimbra, 1967, p. 167).

).

Um exemplo mais pode ser o que vem nessa

78

1

particulares se podiam dar por afrontadas deles, como é: a Fuão, em tal terra,

em tal ma, detrás de tal parte, defronte de tal casa e junto a N . E, às vezes,

é a pessoa tal que deve ser mais conhecida por si que polas confrontações.

— Dos sobejos (atalhou Solino) não posso eu calar um, que vi há poucos

dias, de um frade que escreveu ao seu provincial, que tinha cinco Padres- -Nossos como conta benta e dizia: Ao muito Reverendo Padre nosso, o nosso Padre N., nosso Padre Provincial, no Convento de nosso Padre S. N., Padre nosso.

— Por isso digo (prosseguiu Leonardo) que a notícia deve ser vulgar, que nem afronte, nem lisonjeie, nem sobeje, nem falte.

se peque nos sobrescritos por

demasia que por falta, porque todos dizem o nome da pessoa e a terra para que escrevem.

— Não já um (respondeu Píndaro) que escreveu: A meu fUho, o Lecen-

ceado em Salamanca, que Deus guarde, parecendo-lhe que bastava o grau

em lugar do nome. Mas que lugar dareis vó s

aos títulos dos sobrescritos? Que

há alguns mais compridos que as cartas, que rezam o nome, o título, o senho-

rio, o cargo, a comenda e ainda as pretensões da pessoa a quem se escreve.

— A mim me parece (tomou Leonardo) que os títulos é cousa conve-

— Mais provável é (disse D . Júlio) que

niente e necessária, usados, porém, com moderação conforme ao que tenho

dito. que notícia vulgar é ser um homem conhecido por o senhorio e cargo que tem. E, assim, se há-de escrever de cada um o cargo que tem, e por onde

é mais conhecido Do senhorio como: A. N., senhor de tal vila. E estando

em ela: A. N., na sua vila N. O que também se usa nos lugares e quintas em que cada um assiste. Do cargo: A Fuão, do Conselho de El-Rei e seu Pre- sidente da Fazenda, da Consciência, etc. A Fuão Desembargador de El-Rei nosso Senhor e seu Ouvidor dos Agravos, etc. Tudo isto com a brevidade necessária, porque o sobrescrito, como dixe ' ^ serve de notícia e não já de adulação. E, na carta, não se permite no sobrescrito o que se não consente no interior. Como se algum escrevesse a este fidalgo e lhe quisesse pôr os títulos, que ele merece, no sobrescrito, convém a saber: A D. Júlio, coluna da nobreza de seus passados e glória das esperanças de sua pátria. Ou: Ao Doutor Lívio, honra e luz do Direito Civil, exemplo da filosofia e tesouro da humanidade. Cousas eram estas que deles se podiam dizer, porém, não j á no lugar do sobrescrito.

Sobre a dificuldade de precisar tais circunstâncias e cargos à hora de intitular os sobrescritos, poderão ver-se as Trovas dos da chancelaria para saberem como o aviam de intitolar enviadas a Anrique de Almeida que, comendador de Cristo, servia de Vedor ao Duque de Viseu D. Diogo (G. de Resende, Cancioneiro Geral. ed. cit., II , n." 6(X)).

" Mantivemos esta conservadora grafia por fidelidade à edição de 1619, embora cons-

cientes de que se pronunciava (ou deveria pronunciar-se) disse, como se pode ver no Diálogo

IX (p. 190) em que dixe é, precisamente, apontado como um arcaísmo a desterrar.

79

E passando deles adiante, (a) a segunda cortesia é no papel, da cruz té à primeira regra, que há alguns que lhe põem os olhos muito junto com as sobrancelhas, outros, que lhe deixam polo meio ua estrada de coches. E, pola desconformidade que há entre uns e outros, veio a ser a regra entre os iguais que fique em branco a quarta parte do papel, que vem a ser no alto a pri- meira dobra, e na ilharga um espaço razoado que dá lugar à mão para ter a carta sem cobrir as letras, e para se cortar ou passar chancela sem as ofender.

— E de que nasce (perguntou Píndaro) que muitos deixam mais de meio

papel em branco da ilharga e vão cerzir a letra com a cortadura da tesoura?

— Esse erro e outros muitos (respondeu ele) nascem de mudarem alguns

os serviços às cousas, porque a invenção nã o estava mal no seu lugar, se a não fizeram servir nos alheios. Em cartas de negócios, feitas a pessoas ocupadas, que se fazem por capímlos e apartados, ou perguntas sobre maté- rias dos mesmos negócios, se deixa igual parte do papel para responder à margem em ordem a cada ua das cousas, e assim fica servindo para duas ua mesma carta. Mas estas nã o guardam a regra, nem a cortesia das missivas.

O mesmo erro há no que Solino primeiro apontou dos sobrescritos: Para ver

o senhor Fuão, que nasceu de alguns papéis emaçados que se passavam de menistro a menistro com somente aquele sobrescrito sem outra carta e sem terem mais de carta que o irem cerrados e selados deram ocasião aos que usam o mesmo termo nos sobrescritos delas.

— Muitos erros há (disse D. Júlio) nascidos da mesma ocasião. E posto

que seja sair um pouco fora do propósito, é tão grande bugia da virtude e da honra a vaidade, que, somente por a seguir em as aparências, tropeça a cada

em desatinos. Este escreveu: Para ver, porque N. , menistro, ou pri-

vado, escreveu assim; e veste de tal pano, porque N. , de maior calidade, o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu frio) faz outro à imitação

e se abrasa de quennira. À Espanha se passou o uso de vestir dos soldados

de Flandres per bizarria, e razão tinham de imitare m outras cousas aos práticos que militam em ua praça tão enobrecida das nações da Europa, mas

passo

(a) Da cortesia no apartado do papel.

D. Júlio assinala aqui um princfpio fundamental da cortesania: a imitação, sobretudo,

- a

do rei, baseando (e limitando), porém, tal princípio na discrição

cdm alguns casos ridículos que constam de uma larga tradição anedotária, pondo, ao mesmo tempo, a questão da moda como resultado do mesmo princípio. Mais tarde {Diálogo X/V), desde uma perspectiva de Poder e Política, acenwará que o que entra nesta pretensão (de ser valido), que é a dos que andam mais perto do serviço do príncipe, o primeiro que estuda é

sua natureza, inclinação, costume, para se ajustar ou avezinhar com seu gosto e se fingir aquele que lhe convém ser para o contentar (p. 262). Note-se, aliás, que j á André de Resende na Vida do Infante D. Duane (1515-1540). pôs a questão da moda-imitação em relação a uma cortesania sem fumo de vaidade e sem pendão de hipocresia (conf. Obras Portuguesas, ed. J. Pereira Tavares, Lisboa, Sá da Costa. S. A., pp. 84-92).

Demonstra-o, pela negativa,

80

o que eles faziam obrigados do clima e sítio da terra, usavam os cortesãos por gala, levados do engano da vaidade. Os chapéus de aba grande contra a neve, os ferragoulos, abotoados e com descansos, para o frio, as meias de escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas por detrás para não resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre as armas, tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela necessidade, se passaram à galantaria. Deixo as cores de Rei e da Ifante, e a história do mercador com el-rei D . João o Terceiro, que lhe pediu que se quisesse vestir de um pano que tinha muito rico, o qual lhe daria de graça: que, com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu ele à mor valia úa quantidade de peças daquela cor que lhe haviam entrado nua partida.

— Não é isso somente nas cartas e nos trajos (disse o Doutor), que ainda

passa adiante o engano. Em corte do emperador Carlos V , andando ele

indis-

posto, lhe mandavam os médicos comer borragens, por ser erva medicinal para a sua infirmidade e porque os fidalgos e titulares a viam de ordmário na mesa imperial, sem advertirem a ocasião por que se fazia, veio a valer entre eles muito e a fazerem mi l iguarias daquela erva. de sorte que se sa- meavam tantas nas terras aonde a corte assistia que nã o havia agros doutro fruito. Usam-se, enfim, as cousas mal, e às vezes são nascidas de bom custume.

— Assim é (disse Solino) que até óculos que se inventaram para reme-

diar defeitos da natureza, v i eu já trazer a alguns por galantaria.

— Dessa maneira (seguiu D. Júlio) se devia mudar para as cartas o estilo

dos papéis, que o não eram, por imitarem aos validos. E, tomando à cortesia, que cousas tem mais de que tratar?

— A terceira (tomou ele), é o nome e sinal (a) do que escreveu a carta,

que nem há-de estar tão junto das letras que pareça sôfrego delas, nem no meio do papel como quem escolheu o melhor lugar, nem tão apartado que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim que pareça que se amuou àquele canto; mas com um meio ordinário, como é assinar-se um pouco abaixo das regras, mais inclinado à parte dereita que à esquerda, que é úa certa modéstia e humildade de quem escreve.

— E que dizeis (preguntou o Doutor) do acompanhamento do sinal?

Porque há uns que se nomeiam servidor de vossa mercê N., outros, vassalos; outros, cativo; outros, seu N., e há rusto muita variedade e ignorância.

— Primeiramente (continuou Leonardo) servidor j á se passou das cartas

para os retretes; servo, para os matos, e cativo, para os comprimentos refi- nados em a prática; criado, era termo bem criado, e seu é descortesia: e por fugir desta, e de alguns extremos, o mais seguro é escrever cada um o seu nome sem mais leitura.

(a) Da firma e sinal das cartas.

81

— Não sejais tão estreito nas licenças (disse Solino) que deitais a perder

cartas que só poios encarecimentos do sinal merecem fama. U m homem, es- crevendo a sua própria mulher, se assmou vosso servo N. , e ela o fazia tal na mesma ausência. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos si- nais o menor criado de vossa mercê N., escrevendo a sua mulher se assinou o menor marido vosso N., e a senhora devia de ter mais varões que a Samaritana.

— De ua gentil dama sei eu (disse Píndaro) que, escrevendo a um seu

galante, se assinou sua N., e ele, lendo a carta, voltou para um amigo com

que estava, e disse: Sempre temi esta nova; e perguntando-lhe o outro que eral, respondeu: Sua N., e é principio de Verão. Outro, em Coimbra, que-

aos pé s de um amigo a que escrevia, se assinou

Antípoda de vossa mercê N.

rendo-se humilhar muito

— Quanto mais galantes são essas histórias (tomou Leonardo) tanto mais

de estimar é a moderação e bom termo de não sah daquele limite da cortesia comíía. E, passando dela, há-de ter a carta regras direitas, que há alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa; letras juntas e razões apartadas, com a distinção dos pontos, vírgulas e acentos necessários, para fazerem perfeito sentido das razões, porque há cortesãos que, por afermosearem a letra e facilitarem melhor os rasgos da pena, vão encadeando as letras polas cabeças como sardinhas de Galiza e de maneira confundem a escritura que não h á tirar dela o sentido verdadeiro de seu dono. E h á cartas bem notadas que, por mal escritas, perdem reputação. O papel seja limpo para nele em- pregar sem fastio a vista o que há-de ler, e porque pareçam melhor as letras bem ordenadas; a chancela, sutil, porque ao abrir da carta a não ofenda, que alguns a fazem parecer a carta rota antes de lida; dobras iguais, porque o concerto autoriza as cousas e as faz parecer melhor; o selo, claro, assim para lustro da carta como para guarda dela, pois é o cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.

— Não corrais com tanta pressa (disse D . Júlio) por essas particularida- des e meudezas, que em alguas delas tmha preguntas que fazer, mas conten- tar-me-ei com as que se me oferecem de novo sobre a matéria das armas e tenções " com que se costumam selar as cartas. E, assim, estimarei que nos digais disto algúa cousa.

" Leonardo aflora, em apertada síntese (pois, como dirá, é discurso mui comprido [que]

não tem lugar em noite tão breve) as complexas teorias e práticas da «Empresa». Matéria emi- nentemente cavaleiresca e cortesã, como, na sequência de B. Croce, mostrou um dos seus mais notáveis estudiosos, M. Praz, ao intitular de La Filosofia dei Cavaliere um dos capítulos dos seus Studi sul Concettismo, Florença. 1946 (a tradução inglesa — Studies in Seventheenth- century Imaginery, Roma, 1964, contém em apêndice, uma completíssima bibliografia da

literatura emblemática europeia), recebeu em Itália a sua mais acabada elaboração numa vasU

tratadística de

Diálogo delle Imprese Mildari e Amorose, Roma, 1555 e, depois no Ragionamento sulle

que um dos maiores, se nã o

o maior, representante é Paolo Giovio. No seu

82

— (a) As armas (prosseguiu ele) é a insígnia que cada um tem de sua nobreza, conforme ao apelido com que se nomeia. E com o sinete delas sela

as cartas de importância, ou com elmo e folhagens sobre o paquife do escudo, ou com ele em tarja, como tenção, que estas, como são pensamentos

e

dessenho particular, se abrem às vezes em redondo, ovado ou quadrângulo,

e

outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal é cousa muito an-

tigua nos príncipes trazerem tenções e empresas (b) com letras, e ainda as usavam mesturadas nas armas reais, que, posto que naquele tempo não esta- vam tão apuradas como agora, nem eram sujeitas à arte que delas e para elas fizeram os modernos, não lhes faltava entendimento e galantaria. El-rei D, João, o Primeiro, trazia na oria das armas ua letra que dizia: Por bem

(a)

Dos sinetes e escudos de armas.

(b)

Tenções dos reis e príncipes portugueses.

Imprese overo Dialogo sopra motli e disegni d'arme e d'amore che comunemente chiamano Imprese, Veneza, 1556, define empresa como um conjunto harmonioso formado por um dese-

nho (corpo) e um lema (alma) que i grartdi signori e nobilissimi Cavalieri a nostri tempi sogliono portare nella soprovesti, arme e bandiere per significare parte de'loro generosi pen-

siere

empresa (facto histórico, transitório e efémero) com a «insignia-ienção» (empresa) que a perpetua, posição que era, em certa medida, a que defendia G. Ruscelli no Discorso intorno air Inventioni delle Imprese. delle Insegne. de' Motti e delle Libree, Milão, 1559 e, mais tarde, no seu Le Imprese Illusiri, Veneza. 1566. Apesar de Leonardo coincidir aqui e em outros pon-

tos da mesma matéria a que alude mais adiante, com G. Ruscelli e. por vezes, à letra, com um seu discípulo, ainda que critico, S. Guazzo (Dialoghi Piacevoli, Veneza. 1580. Diálogo II — Delle Imprese). a sua fonte mais directa é, para este como para os outros aspectos de re aulica,

a Piazza Universale de T. Garzoni (Disc. IV — De' Professori d'lmprese). Obviamente, não cabe aqui aludir sequer à evolução do conceito da "Empresa" cavalei- resca até à sua fusão e confusão, nem sempre pacífica, com o Emblema consagrado por A. Alciato.

De todos os modos, é importante anotar que Leonardo parece fundir ou identificar a

Leonardo, a propósito de tenções e empresas de carácter heráldico, tal como, adiante,

acerca das armas dereinos e cidades, aproveita, como quase sempre, para apresentar a

nacional do assunto com base na História de Portugal. É aliás, uma valorização do passado histórico bem comum a esse filão importante do Humanismorenascimentala que já fizemos referência. Por outro lado, Leonardo não parece encarar as leiras (empresas) que senhores e

vertente

cavaleiros tomavam em circunstâncias de justa e torneio e de que podiarecordar,entre outras,

as que traz O. Resende no Cancioneiro Geral (ed. cit., n." 614), usadas por D. João II e outros fidalgos intervenientes nas juntas reais celebradas aquando do casamento do príncipe D. Afonso com D. Isabel de Castela (1490) ou as Letras y Çimeras que sacaron ciertos justadores en la qual justa el rey nuestro senor jurtô y sacó una sede de carcel que decia

in Brian Dutton, El Cancionero dei Siglo XV. C. 1360-1520, Salamanca, Universidad de Sa-

lamanca, 1990, I, pp. 222-227. Sobre as divisas, em francês, dos príncipes de Avis pode consultar-se D . Carolina Michàelis de Vasconcelos na sua Introdução a Tragedia de la Insigne Reyna Dona Isabel do condesiável D. Pedro de Portugal (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1922, p. 58, n." 1); e para uma perspectiva generosamente integradora dessas empresas na visão séria que da sua missão histórica teve a Geração de Avis, podem ler-se as páginas (14-16) que Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, 1891, dedica ao assunto.

83

E a rainha D. Filipa de Alencastre, sua mulher, outra que respondia a esta em

ingrês que

ua capela de hera com seus cachinhos, e no meio dela a Cmz de Avis, de cuja Cavalaria era Mestre. O ifante D . Pedro, ua capela de carvalho com suas bolotas, e no meio uas balanças, e nas armas reais, no banco de pinchar, em

dizia: Me contenta. O ifante D . Fernando, seu filho, o Santo, trazia

cada pé, de alto abaixo, três mãos, e por cima uas letras escritas muitas vezes, que diziam: Desir, e entre cada palavra destas um ramo de carvalho com bolotas. O ifante D. João, que foi Mestre de Santiago, casado com a neta do condestabre D. Nuno Alvares Pereira, trazia ua capela de ramos de silva com cachos de amoras, com as bolsas de Santiago no meio e três concheias, em cada ua com ua letra em ingrês, que dizia; Com muita razão. O ifante D. Henrique, Mestre de Christus, trazia as armas do Mestrado, e as antigas de Portugal, e ao redor um cinto largo de correia que abrochava no cabo de

baixo, e ua fivela que

fazia volta com a correia, e em ingrês a letra dos

cavaleiros da Garroteia, que ele também era, e dezia: Contra si faz quem mal

cuida; e ua capela de carrasco, e no banco de pinchar três flores de lírio em cada pé. El-rei D. Afonso, o Quinto, trazia pintado um mundo com esta letra:

Conheço que não

rodízio com esta letra: Sete e, e na outra, trazia um pelicano ferindo o peito, e dezia a letra: Pola lei e pola grei. A rainha D . Leonor, sua mulher, trazia ua rede de pescar, a que chamam rastro. El-rei D. Manuel, ua esfera com ua

cmz. A Excelente Senhora uns alforges, e nas cevadeiras pintadas

arm^ de Castela com esta letra: Memoria de mi derecho. O marquês de Valença, neto do conde D . Nuno Álvares, trazia dous guindastes, que levan-

tavam um título de pedra, com quatro letras, cada ua por parte. E, além destas, há memória de outras muitas que dão testemunho do uso que delas

havia neste Reino. — Por certo (disse D . Júlio), que estou assas contente do fmito que colhi da minha pergunta, por saber coriosidade tão notável dos nossos príncipes antiguos, que para a minha natural inclinação é a cousa de maior gosto e

te conheài. El-rei D . João, o Segundo, seu filho, trazia um

as

mteresse. E não fora menor, pois falamos de armas e tenções, e vós sois visto nelas, fazer que saibamos mais algúa cousa atrás desta matéria, principal- mente donde nasceu e teve princípio o uso dos escudos de armas e das tenções. — Quanto à minha opinião, (respondeu Leonardo) é que armas e empre-

sas ou tençõe s nã o tivera m no seu princípi o a diferença que agora lhes assi-

" Título por que era oficialmente conhecida a princesa Joana de Castela (filha de D. Hen- rique IV e de Joana de Portugal) depois que, apesar do apoio de muita da alta nobreza

trono castelhano

pelos Reis Católicos, foi destituída de todos os seus títulos e privilégios e obrigada a professar no convento de Santa Clara de Santarém. Viveu depois em Paço de Alcáçova do Castelo de

Lisboa e faleceu em 1530.

castelhana e de D . Afonso V de Portugal, derrotada nas suas pretensões ao

84

nam os que delas escrevem, de letras e corpos, e corpos sem letras, com limitações e regras mui apertadas. Antes me parece que as armas eram as msígnias que os reis e emperadores davam aos seus para ser conhecida sua nobreza, conformando-se na figura delas com a qualidade dos sucessos por onde as mereceram ou com a antiguidade do sangue donde descendiam os a que as davam, e as que os mesmos reis tomavam para si em memória de semelhantes feitos, ou derivadas dos seus antecessores. Empresas ou tenções são as que os mesmos reis, príncipes ou particulares tomam, conformando as figuras e letras com o desenho e pensamento que cada um tem para empreen- der cousas altas. E daqui adiante entram as regras que depois lhe acrçcenta- ram, que, por ser um discurso mui comprido, nã o tem lugar em noite tão breve. Além destas, há outras armas dos reinos, províncias, repúblicas e cida- des, que se devem chamar divisas, que tiveram princípio ou das cousas de que são mais abundantes ou da maneu'a em que foram povoadas ou adque- ridas. E no que toca ao princípio das armas (a), Hérculos foi o primeiro que trouxe por armas a pele do leão que matou na selva Nemeia despois da vitória que dele teve, e antes desta vitória trazia a mesma insígnia do porco de Erimanto que matou em Arcádia. Jason trouxe por armas o Velocino de ouro que conquistou, Teseu, o Minotauro, Ulisses o Paladion, e Eneias o escudo que ganhou de Ulisses na guerra de Tróia. Estas eram verdadeiras armas, em memória de valerosos feitos. E, quanto ao princípio das empresas, escreve Pausânias que Agamenon trazia no escudo a cabeça de um leão de ouro, com ua letra que dizia: Este é terror dos homens e o que o traz é Agamenon. Antíoco trazia por armas outro leão. Hector, dous leões de ouro em campo vermelho. Seleuco, um touro. Alexandre, um rei de ouro em seu trono em campo azul. Alcibíades, um Cupido. Lúcio Papírio, o Pégaso. César ua águia preta. Pompeio, um leão com ua espada empunhada. Judas Maca- beu, um drago vermelho em campo de prata. Átila, um açor coroado. E cada um destes, posto que pudera tomar a figura das armas em significação de feitos celebrados e vitórias adquiridas, só quiseram dar-Ihe as figuras con- forme ao seu pensamento; e César, ao agouro que da águia teve. E, descendo às armas particulares dos reis (b), que sabemos: as do Emperador é úa águia preta de duas cabeças em campo de ouro, em memória da de Júlio César e da união do Império Oriental e Ocideptal. Armas de el-rei de França são três flores de lírio de ouro em campo azul, que foram milagrosamente dadas a el- -rei Clodoveu. Armas de el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul ehi cruz, em sinal do vencimento que o primeiro rei D . Afonso teve dos cinco reis mouros no campo de Ourique, e neles e com eles, os trinta dinheiros de prata, por que Nosso Senhor fo i vendido, em memória da sua Paixão e do apare-

(a)

As primeiras armas.

(b)

Armas dos reis cristãos.

85

cimenlo que o mesmo rei viu antes da batalha; por orla das armas sete castelos de ouro em campo vermelho, e, por timbre, um drago coroado. Armas de el-rei de Inglaterra: três leopardos de ouro em campo vermelho, posto que dantes tinha el-rei Artur por armas três coroas de ouro em campo azul. Armas de el-rei de Espanha: os castelos e leões, tão conhecidos no mundo. Armas de el-rei de Frízia: um escudo de prata, riscado de linhas vermelhas e atravessado com ua banda azul. Armas de el-rei de Jemsalém:

ua cmz de ouro nos extremos com cruzetas do mesmo metal, e outras poios vãos dos ângulos. Armas de el-rei de Polónia: duas águias de prata e um homem em cima de um cavalo do mesmo metal. Armas de el-rei de Irlanda:

ua harpa e ua mão que a está tocando. Armas do Preste João da índia: um crucifixo negro, com dous azorragues em campo de ouro. Deixo outros mui- tos, como as bastões de Aragão, as cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de ouro e vermelho de Marlhorca, e outras que querer contar fora infinito. Têm do mesmo modo as províncias (a) suas armas. Primeiramente, as quatro partes em que o mundo se divide: Ásia, três serpentes; África, um elefante; Europa, um cavalo; América, um crocodilo; Itália tinha por armas antigamente o cavalo; Trácia, um Marte; Pérsia, um arco; Scítia, um raio; Arménia, um bode; Fenícia, um Hérculos; Cicflia, ua cabeça armada; Albâ- nia, um cágado; Frízia, ua porca; Espanha, um castelo; Lusitânia, ua cidade. As Repúblicas (b) têm também suas armas particulares: a de Veneza, um leão com um livro nas unhas; a de Sena, úa loba; a de Génova, um S. Jorge; a de Florença um leão com um livro de ouro. As cidades (c), da mesma maneira:

Atenas, a comja; Roma, a águia; Lisboa, úa nau com os corvos, em memória do corpo do glorioso mártir S. Vicente, seu padroeiro; Coimbra, o drago e a donzela coroada; Évora, as cabeças das vigias; o Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres; Leiria, ua torre entre dois púiheiros e neles dous corvos. E assim todas as outras. Porém, isto é j á muito tarde, e gastámos nesta matéria mais tempo do que convinha à das cartas, em que começá- mos (d). E por que nas armas e tenções nã o nos fique por saber alguas signi- ficações e figuras de armas dos particulares senhores e fidalgos de Portugal, que todas foram merecidas com louvor de gloriosos feitos, deixando os animais significadores de força, braveza e velocidade e os planetas de poder, antiguidade e clareza, e outras figuras semelhantes: banda significa postura de tábua; escada, o engenho por onde se cometeu algúa obra de valor ou dificultosa entrada, com risco da vida; faxa ou barra representa vitória de batalha singular de cavaleiro a cavaleiro, e quantas forem tantos diremos que

(a)

Annas das províncias.

(b)

Armas das repúblicas.

(c)

Armas das cidades.

(d)

Significação das figuras das anuas.

86

são os vencimentos com que se ganharam as armas; parte de muro, torre ou castelo significa ser ganhado, entrado ou socorrido com esforço e perigo da vida; escadas, hásteas ou pedaços de lanças denotam subida trabalH6sa ou defensão arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos ou

formas que vedes nas armas, todas nasceram de ilustres façanhas e valerosos

feitos. E todas as das

mento de seus donos; e com úas e outras se devem selar as cartas, de maneira que se divisem as figuras e letras delas, como tenho dito.

— Vejo (disse Solino) que temos a carta cerrada, selada e com sobres- crito, sem ainda sabermos nada do principal dela.

empresas e

tenções dã o sinal claro do ânimo e pensa-

— Não vos enfadeis (respondeu ele) que na noite de amanhã a abriremos

e leremos muito devagar a estes senhores, se não ficarem de agora cansados

do sobrescrito.

— Antes (disseram eles) que só o dia seguinte lhes parecia comprido e vagaroso.

E dando fim à conversação daquele noite, deram o que dela ficava ao repouso, que, com a moderada recreação de horas bem gastadas, é mais aprazível.

87

DIÁLOGO II I

Da maneira de escrever e da diferença das cartas missivas

Mui satisfeito ficou D. Júlio de ouvir a Leonardo aquela noite na matéria

das armas e quasi a escolhera antes que a das cartas. Por alguns particulares, que desejava saber, quis com mã o alheia, por não parecer importuno pergun- tar alguas cousas a Solino, que achou junto à sua porta e, depois de o saudar, lhe disse:

— Como estais depois da noite de ontem?

— Como o dado (respondeu ele), que está de qualquer ilharga.

— Devíeis de ficar do azar, (tomou D. Júlio) pois tendes tão poucos

pontos que faltais aos da cortesia.

— Fiquei (tomou ele) tão cansado das da carta de Leonardo que lhe

tomei aborrecimento, e nem estou para vos servir, nem para o dizer, e per-

doai-me.

Logo (disse o Fidalgo) não quereis continuar na conversação desta

noite?

Se a carta (lhe tomou Solino) há-de ser tão comprida como o sobres-

crito, assim o imagino.

— Pois a minha tenção (prosseguiu ele) era pedir-vos que na matéria das

armas, que ele tocou, fizésseis alguas perguntas à minha conta sobre alguns

particulares das famílias deste Reino.

— Vós deveis buscar armas para me matar, (disse Solino) porque das de

ontem saí eu tão escalavrado que determinava fugir delas; e sei que tem Leo- nardo tantos livros de armas e gerações que, se o tirar a terreiro, havemos mister todo o Inverno para o ouvir.

saber que ele tem os livros,

e, assi, vos escuso do trabalho, porque neles lerei alguns feitos particulares dos portugueses merecedores dos brazões que seus sucessores possuem.

— Eu me contento (respondeu D . Júlio) com

88

— Bom seria (disse Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses

feitos, e para isso vos irei acompanhando té a casa de Leonardo, posto que tinha outra determinação.

Por que vós não falteis (respondeu D. Júlio) quero ir mais cedo.

E

com esta prática, e outras que ocorriam, foram passeando e entretendo

o que ficava do dia, té que a sombra da noite e úa chuva meúda os fez

recolher a casa de Leonardo, aonde os amigos esperavam já que eles chegas- sem. E, com' Píndaro, outro estudante seu companheiro por nome Feliciano, que vindo-o a visitar, se aproveitou da ocasião em sua companhia. Festeja- ram todos a Solino e ele, vendo o hóspede, de novo se lhe inclinou com mais

autoridade, e disse para os outros:

— Tenho inveja à dita do senhor Lecenceado, que veio ao abrir da carta que cerrámos sem ele e com não pequeno trabalho.

— Não o tivera eu por tal, (respondeu o Estudante) antes por grande

ventura, se do passado me coubera algúa parte; e esta, que alcanço agora com

o consentimento destes senhores por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor e mercê de todos.

— Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças do

vosso entendimento e bem sei eu que o de Píndaro sabe fazer esta eleição dos amigos também' como em tudo o mais é discreto e acertado. E, para que entendais o lugar em que vos fico, sabei que eu sou o mais certo criado que ele tem entre os senhores presentes.

A esta cortesia respondeu Píndaro, e o Estudante com as suas, té que o

Doutor os despartiu, e disse a Leonardo:

— Bem gastado era o tempo em comprimentos tão cortesãos, e tão

devidos, se o desejo que temos de continuar a matéria da noite passada o não quisera poupar todo para ela. E, assim, vos peço que me façais mercê, e a

todos, de ir por diante.

— Tendes razão (tomou ele) de me aliviardes mais depressa do cuidado

em que me metestes. E, tomando atrás, por me aproveitar dos vossos prin- cípios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome, os primeiros modos de escrever e o como entre nós se conservou; tratei do sobrescrito, da cortesia, das letras, do sinal, das dobras e selo da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados que saudosos. Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é carta missiva ou mandadeira, e o

para que foi inventada (a), que pola definição de Marco Túlio, a quem todos seguem, é ua mensageira fiel que interpreta o nosso ânimo aos ausentes, em

(a) Definição da carta.

' Também ou tão bem? Todas as edições trazem também, mas desde 1619 a pwntuação

da frase não é de molde a clarificar precisamente o sentido. Pensamos, apesar de também poder

ser aceitável, «tào bem» estaria mais de acordo com o carácter do cumprimento de Solino a Píndaro.

89

que lhes manifesta o que queremos que eles saibam de nossas cousas, ou das que a eles lhes relevam (a). Três géneros de cartas missivas assina o mesmo Túlio, aos quais alguns costumam reduzir muitas espécies delas. O primeiro é das cartas de negócio e das cousas que tocam à vida, fazenda e estado de cada um, que é o que para as cartas primeiro foram inventadas, que, por tra- tarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas dentre amigos uns aos outros, de novas e cumprimentos de galantarias, que servem de recreação para o entendimento e de alívio e consolação para a vida. O ter- ceiro, de matérias mais graves e de peso, como são de govemo da Repú- blica e de matérias divinas, de advertências a príncipes e senhores e outras semelhantes. O primeiro género se divide em cartas domésticas, civis e mer- cantis, O segundo, em carta^ de novas, de recomendação, de agradecimen- to, de queixumes, de desculpa e de graça. O terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reais em matérias de Estado, cartas públicas, invec- tivas, consolatórias, laudativas, persuasórias e outras, que se pegam a cada I ua das que nomeei em todos os três géneros.

— E aonde deixais (disse D. Júlio) as cartas amatórias ou

namoradas?

que se na vossa idade não têm lugar, parece que o mereciam neste discurso.

— Bem sei eu (tomou Solino) quem as tomara no primeiro, mas o senhor

Leonardo j á não joga com essas cartas.

— Não me esquecia de todo delas (tomou ele), mas deixo-as para que no

fim das mais sejam melhor recebidas, e para prosseguh a matéria quem agora as puder apurar.

— As do primeiro género (disse o Doutor) me parecem cartas muito se-

cas, que é matéria estéril para que empregueis nela sem fmito o vosso enten-

dimento. Antes (disse Leonardo), como essas foram as primeiras, e delas nas- ceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo deste género tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer por os lugares de cada úa. E, assim, me parece que, como a carta que escrevemos ao amigo so- bre seu negócio, ao criado sobre as cousas da casa, e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia, é um aviso e ua relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de úa carta, devemos usar nela o que na prática costumamos ^ que é brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios e propriedade sem metáforas nem translações (b).

(a)

Três géneros de cartas missivas.

(b)

Brevidade, clareza e propriedade do escrever nas cartas.

^ Leonardo enuncia aqui a regra de oiro da ars dictaminis cortesã e que será largamente desenvolvida, sob outros pontos de vista, ao longo da obra, sobretudo aquando dos diálogos dedicados à arte da comum e civil conversação dos cortesãos (Diál. XVI, p. 291-292), A base

de tal regra — usar nela (escrita) o que na prática costumamos

90

devemos escrever comofa-

— E quando (disse o Doutor) seremos breves em úa carta?

— Quando (respondeu ele) de tal maneira, e com tal artifício a escrever- mos, que se entendam dela mais cousas do que tem de palavras.

— E como pode ser? (tomou ele).

— Por meio dos relativos e subsequentes (disse Leonardo) que, sem

nomear as palavras, as repetem; e por ordem das sentenças e adajos, que, sem entender as cousas, as declaram; e nisto se adiantam muito as cartas da prá- tica familiar \e se escrevem de cuidado, e têm mais tempo de se furtarem

palavras para se subentenderem razões.

— E que cousa é enfeite ou afeitação? (perguntou Solino).

— E (disse ele) o cuidado sobejo de enfeitar as palavras por elegância,

ou por via de epítetos, ou de escolha de lugar para as sílabas fazerem melhor som aos ouvidos. E, em favor desta opinião, dezia um homem insigne deste Reino e que teve nele os melhores lugares da república eclesiástica e secular, que a carta e a mulher muito enfeitadas, em certo modo eram desonestas; e eu antes seguira este voto que o de alguns retóricos que deram à carta missiva cinco partes de oração, convém a saber: saudação, exórdio, narra-

ção, petição e conclusão; e, se houvéssemos de seguir o seu estilo, muda- ríamos de todo o das cartas ^

íamos

nardo, pelas excelências da prática sobre a escrita

de muito Humanismo. Juan de Valdês ( t 1541) no Diálogo de la Lengua, obra escrita em anos

italianos do seu autor (Roma, Nápoles), mas que, em princípio, R. Lobo não deveria ter conhe- cido, pois, só será publicada, recordemo-lo, em 1737, tinha já ditado a lei — escriba como

hablo (ed.

afectação na escrita, pois será também rejeitada para a «prática», aparta-se, conirariando-os, quer do que defende B. Castiglione (// Cortegiano, I . 29) quer de P. Bembo {Prose delia Vulgare Lingua, I , 16-19). Este último, apesar de algum matiz, parece defender limin^ente. quase como conclusão de um cuidadoso exame da questão, que, porque migliore e piu lodato

è il parlare nelle scriture de passaii uomini. che quello che è o in bocca o nelle scriture de'

vivi, se deve con lo stile delle passate stagione scrivere {Prose, I, in Opere in Volgare, Firenze, Sansoni, S. A., p. 302). A imitação dos grandes autores é, logo, a pauta do classicismo

— se decorre, em extensa medida, da opção, então decididamente assumida por Leo-

é também uma consequência da opinião

cit., p . 189). Tal posição que, por sua vez,

pretende afastar qualquer sombra de

E mesmo um autor tão equilibrado como Stefano Guazzo em La Civil

Conversatione (Brescia, 1574), obra que R. Lobo seguramente conheceria, não deixava de

insistir que se deve scrivere como si dee e di parlare come si suole

p. 148). Ora este tipo de imitação clássica não estava na mira da Corte na Aldeia que não pretendia formar nem um gramático, nem um «literato», nem um secretário, mas, sim, um cortesão que sabendo supejar a prática familiar, saiba igualmente evitar os escolhos, antes de mais, da afectação.

linguístico e literário

(ed. Veneza, 1628,

' Se Leonardo defende que na carta devemos usar o que na prática costumamos, tal não

significa que nela se use a prática familiar, que, dentre outros recursos, se serve, como expli-

, voltará a afirmar mais adiante, acrescentando, então, o dever de fugir do laiinismo e do estran- geirismo. * Leonardo manifesta-se contrário à aplicação da ars dictaminis medieval à carta missiva cortesã, cujo modelo poderiam ser as «epístolas» familiares de Cícero. De qualquer modo, será

cará depois, de «metáforas e translações» humildes, populares ou inovadas

princípio que

91

— Nunca retóricos (disse o Estudante) souberam escrever cartas, se as sujeitaram às leis da oração. Mas parece que o senhor Leonardo dá a enten- der que na carta se não devem usar epítetos ou adjectivos por evitar o enfeite e sobeja elegância dela, e eu tenho que sem eles se não pode escrever. — Os epítetos (a) (prosseguiu Leonardo) ou servem para descrição e de- claração das cousas, ou para propriedade, ou para omamento e enfeite delas.

Os primeiros sã o necessários nas cartas como em

tudo; os segundos, menos;

os terceiros, escusados. Para dizer ou escrever um homem douto, ua mulher fermosa, um cavalo ligeiro, úa árvore alta, um caminho comprido, um peito forte, são atributos necessários para declarar o que queremos dizer; porque há homem que não é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como ferro frio, relva verde, sol claro, calma ardente, areia seca, pedra dura, estes são pouco necessários nas cartas e somente por comparação ou em adajos se devem usar nelas, como dizendo, é duro como pedra, ou é dar em pedra dura ou é malhar em ferro frio. Os de elegância e omamento tenho eu que se hão-de degradar das cartas missivas para fora do termo delas, como agora firme sofrimento, incansável deligênda. solícito desejo, cuidadoso receio, importuna lembrança, desusada brandura e outros que têm juiz de seu foro. Assim que nã o digo que faltem nas cartas epítetos necessários, mas que se escusem os sobejos, nem se andem granjeando as palavras para faze- rem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade, sem enfeite ou afeitação.

— Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos

regras e que não estava a cousa nos epítetos serem próprios ou necessários.

— Ua carta (prosseguiu ele) pode ser breve e levar escritas muitas

páginas de papel, porque pode tratar de tantos negóceos ou cousas que as ocupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida e a carta breve.

— O segundo ponto (perguntou Píndaro), que é clareza (b) sem rodeios,

me parece a mim que fica declarado nessa primeira parte, pois sendo breve

a carta, e nã o tendo enfeite nas palavras, será clara e sem rodeios?

— Não estais no caso (tomou ele), que posto que a clareza é parte da

brevidade, a clareza é das razões e a brevidade das palavras. E, assim, pode

a carta ser breve, mas confusa, e clara sendo comprida, que muitos, para

(a) Dos epítetos e enfeite da carta. (b) Da clareza das cartas.

interessante anotar que, pelos mesmos anos, Luís Afonso de Carballo em Cisne de Apolo (Diál.

m, ed. cit., p. 51) acentuava a importância de tais princípios retóricos para as canas que os

,, roniano, com figuras e sentencias graves como faz Ovídio. Do contraste das duas posições (que não se situam ao mesmo nível) resulta sublinhada a superação equilibrada da Retórica como meio de lograr o que poderia dizer-se uma «retórica cortesã».

poetas usam na comédia e nas histórias

adomando-as ainda, contrariamente ao modelo cice-

92

dizerem cousas que têm estrada coimbrã' e caminho direito, buscam rodeios

e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem dizer. Em ua minha

doença me escr^eu um amigo e dizia: Disseram-me que a saúde de vossa mercê corria perigo na inconveniência de médicos discrepantes no remédio dos males dessa doença. E fez estas trocas aonde podia dizer: Soube que os médicos não se conformavam na cura dos vosso males, que na dúvida deles corria risco a vossa saúde. Outro me escreveu há muitos dias: Se vossa mercê não está ausente das lembranças que suas promessas me assegura- vam de haver de ter muitas deste seu cativo. Havendo de dizer: Se vos não esquece que me prometestes de ter lembrança de mim. E, porque ainda temos lugar de tomar aos particulares das disposições das razões, passando ao terceiro ponto, que é propriedade (a) sem metáforas ou translações.

— A propriedade (disse o Doutor) era matéria da noite passada quando

falastes das letras e razões em seu lugar, .sem barbaria nem impropriedade no escrever, e, como isto é parte do exterior da carta, já hoje não tem dia.

— A propriedade que vós dizeis (acudiu Leonardo) é exterior, mas muito

diferente a de que eu trato e não pouco importante ao falar e escrever, que

é a propriedade das palavras na sua própria significação, sem serem empres-

tadas por via de translações para outros lugares, que é termo que argúi pobreza de linguagem. E, por que fique mais declarado, sabei que dizemos em português, falando propriamente dos nomes: Bando de aves, cardume de peixes, rebanho de ovelhas, fato de cabras, vara de porcos, alcateia de lobos, tropel de cavalos, cáfila de camelos, recua de cavalgaduras, manga de arcabuzeiros, mó ou roda de homens; e se, trocando isto, disséramos: Um cardume de aves. ou ua alcateia de ovelhas, ou um fato de porcos, seria impropriedade e desconcerto. Dizemos também nos verbos: Chiar de aves,

balar de gado, grunhir de porcos, ladrar de cães, rinchar de cavalos, bramir de leões, empolar de mares, encapelar de ondas, assoprar de ventos, etc.

E se disséssemos chiar de porcos, rinchar de leões e grunhir de cavalos, se-

ria o mesmo erro. E. porque há metáforas e ffanslações tão usadas e próprias que parecem nascidas com a mesma língua, que como adajos andam pegadas

a ela, se devem trazer, quando forem tais, nas cartas missivas do mesmo

modo que na prática se costumam. Dizemos dos nomes: folha de espada, lume de espelho, veia de água, braço de mar, língua de fogo, lanço de muro, faixa de ferro, e outras semelhantes; e nos verbos: lançar o cavalo, fazer á capa, quebrar a palavra, cospir o pelouro, arrepiar a carreira, e outras

muitas. E, além destas, tão usadas e naturais que servem de propriedade à

(a) Da propriedade das palavras no escrever.

* Caminho comum, fácil (Conf. Martin Afonso de Miranda, Tempo de Agora. Lisboa.

1622 (1.° P); 1624 (2.° P); Oh intemperança, largueza, devassidão, mãy de tudos os vicios e

estrada coimbrã para o inferno

(cit. ed. 1785, tU, p. 159).

93

língua portuguesa, há outras nascidas de provérbios ou adajos, que têm o mesmo lugar e antiguidade, como são furtar o corpo, ir vento em popa,

nadar contra a água, ficar em seco, repicar em salvo, tirar barro à parede, etc. E quanto a carta tiver mais destas, será mais breve e cortesã, pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta mais cousas do que tem escrito de palavras. Pelo contrário usando, em lugar destas, outras humildes, populares ou inovadas, será vício na propriedade da carta; como se nos nomes disséssemos (a): um feixe de cuidados, um mar de encomendas, um moio de queixumes, um golpe de razões; e nos verbos, como: enfeitar o de- sejo, tropeçar em cuidados, navegar em desconfiança, e outras muitas. Esta é a propriedade de que trato e a que me parece que se deve usar no escrever das cartas missivas, porque nã o sofre o estilo delas o que em a prática, ou em outro género de escritura, não somente se permite, mas muitas vezes se deseja.

— Espero (disse D. Júlio) que deis algua limitação, ou declareis a lingua-

gem que se deve usar neste estilo das cartas; porque encontro muitas muito

mal escritas, cujos erros, a meu ver, nascem de os homens se cansarem muito em quererem parecer singulares.

— Posto que isso pertence primeiro ao falar que ao escrever (respondeu

Leonardo), pois,

lavras da carta hão-de ser vulgares, e não já populares (b), nem esquisitas:

vulgares de modo que todos as entendam, e, ao menos, que a quem se escre- vem não sejam perigrinas; e não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas que a cortesia não recebe, e que tão pouco, em lugar dos adajos e sentenças, tenham anexins. Também se deve fugir ao termo esqui- sito de palavras alatinadas, ou acarretadas de outras línguas estranhas, que sempre têm o sabor da sua origem.

como j á disse, devemos escrever como praticamos, as pa-

— Assim na linguagem, como em tudo (acudiu Feliciano), ficávamos satisfeitos se de aqueles três géneros, em que o senhor Leonardo dividiu as cartas, dera alguns exemplos que nos alumiaram; porque nem as regras sem eles ensinam de todo, nem se pode perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira se foram dos vinte géneros de cartas em que um retórico as dividiu ^, que, por querer dar leis e partes a cada úa, as confundiu todas.

(a)

Modos de falar errados.

(b)

Nomes populares.

* Determinar dentre o grande número de tratadistas, sobretudo italianos, o «retórico» a que alude Feliciano, não parece tarefa fácil. Lembremos, a título de simples exemplos que caberiam na crítica do estudante, esquecido já, talvez, das quinze divisões que Leonardo deu

dos géneros «clássicos» das cartas, que Erasmo, no De Conscribendis Epistolis Opus, ao tratar dos ires omnium generum fontes aponta 4 géneros com as respectivas subdivisões — só para

o género suasório apresenta onze — que, somadas, bem pxxleriam chegar a vinte

de Espinosa na Arte Retórica (Madrid. 1578) apresenta irês géneros e vinte e uma subdivisões;

;

Rodrigo

94

— Em tudo (tomou ele) vos quisera satisfazer. Porém, cartas mais se hão-de escrever em ocasião do que trazerem-se por exemplo', que é o porque eu lhe não dera regra certa, nem das muitas que há bem escritas se pode tirar; que esse autor que vós dizeis, lhe assinou vinte géneros, achará fora deles infinitas cartas bem melhor escritas que as com que os ele quer autorizar. Porém, com o pressuposto de não dar preceitos: as cartas do primeiro género, familiares, domésticas, civis e mercantis, respeitam tanto a brevidade que não podem os retóricos dividi-las em partes, se não forem nas da oração. E bastava para exemplo aquela de Cícero a Cornélio, que dizia somente:

(a) «Alegrai-vos

de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento

de saber que estais bem.»*

E muito é mais para notar úa carta de Octávio Emperador para Caio Dru- so, seu sobrinho, que contém bem mais cousas e avisos que palavras, e dezia:

que vos

mandou o Senado, que sois moço, meu sobrinho e cidadão

E estas, e outras semelhantes, nem têm regra, nem deixam de ser cartas. Mas, por que nã o só nos ajudemos das antiguas, mas também com as nossas, façamos postoleta. Esta é breve e doméstica, que um cortesão escreveu a seu amigo a quem nua ausência deixara sua casa, e diz:

e tão seguro no que de vosso

ânimo tenho conhecido, que me não dá cuidado a família

(b) «Pois

estais no Ilírico,

lembrai-vos que sois dos Césares,

romano.»

(c) «Estou tão confiado no que vos mereço,

que deixei ã vossa

(a)

Carta de Cícero a Cornélio.

(b)

Carta de Octávio a Druso.

(c)

Carta moderna a um amigo.

F. Sansovino no Del Secretário (Veneza, 1564), obra divulgadíssima, apresenta dezanove; Bartolomeu Zucchi em L'idea dei Secretario (Veneza, 1600), sem preocupação de géneros, classifica dezassete espécies; recordemos que também T. Garzoni na Piazza Universale (Disc. XXVIIÍ — De 'Scriiori. o Scrivani e Cartari, ed. cit. p. 241 apresenta vinte e um géneros ^ Leonardo procura fundamentar, resumindo e ordenando práticas retóricas em vulgar de base ciceroniana, os três principais géneros (L" Cartas familiares, domésticas, civis e mercan- tis; 2." Cartas de novas; 3.° cartas de Estado e de Govemo) em que a carta deve manifesiar- -se «cortesã», fornecendo, ao mesmo tempo uma série de orientações (não preceitos, como era corrente na tralatística epistolográfica) e de exemplos para tal fim. De lodos os modos, Leo- nardo, mesmo que, tudo ponderado, acabe também por elaborar um «formulário», ficará sem- pre longe da rigidez de que se revestiam os que. atravessando a Idade Média, logo foram con- sagrados e divulgados pela imprensa. Para os tempos de Rodrigues Lobo recordemos quer a Arte de Escribir Cartas ~Familiares (Madrid, 1589) de Tomás Gracián Danlisco (irmão do adaptador de // Galateo ao castelhano), quer o difundidíssimo Formulário y Estilo Curioso de Escribir Cartas Missivas segun el Orden que al presente se guarda (Madrid, 1599. mas com 16 edições, pelo menos, até 1627) de Juan Vicente Pelligero, quer ainda o Formulário de Cartas Familiares, segun el govierno de Prelados y Senores temporales (Madrid. 1600) de ^

Geronimo Paulo Manzanares. * A maioria dos exemplos do primeiro género «cortesão» que se caracteriza, antes de mais. pela brevidade, está muito próxima, quando não seja mesmo idêntica, dos Concetti (Veneza, 1552) de G. Garimberto.

95

conta, senão o trabalho que vos dará o sustentá-la; não procuro saber dela

mais que novas de vossa saúde; sobressalto a minha vida.

que. em quanto a tiverdes, estará

sem

A qual o amigo respondeu com brevidade, e dezia desta maneira:

(a) «Nesta casa só vós fazeis falta, mas como sois o tudo dela, ainda que

sobeja a minha diligência, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos satis-

faço,

senão

o meu desejo, que é igual ás obrigações

que vos tenho. Vivei

seguro e gozai saúde, que, em quanto a tiver, porei por vossas cousas a vida.»

— Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar

se a vossa memória é arquivo delas, ou se as ides fingindo de repente (ainda que isto é menos curiosidade que tenção), hei-de pedir por parte destes senhores que de algua nos deis semelhantes exemplos.

— Não quero (disse ele) que acrediteis tanto o meu entendimento com

mostrardes desconfiança da memória, mas a troco do louvor vos hei-de obe- decer nas que me lembrarem. E, prosseguindo nas da segunda espécie deste

género, me parece carta civil e breve esta que um amigo escreveu a outro que mudava sua casa para a terra aonde ele vivia; e diz:

(b) «Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para

que com vossa companhia viva nela contente e vós desenganado de quão

pouco em si tem que me possa alegrar, senão depois que vos

possuir.»

A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dezia:,

(c) «Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode

haver tão estéril que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vóis sois a quem

busco; é força

fazem a cidade, senão os homens, nem as comodidades da vida a sustentam,

que me contente a parte onde vos achar, que as pedras não

senão os

e acodem

mais a eles

muitas tão bem escritas que podem ter lugar entre as melhores. E ainda

que não é delas ua que eu v i há poucos dias, a direi por ser tã o breve, e era esta:

que ao bom termo dos comprimentos, não deixa de haver

amigos.»

As mercantis, posto que são segundo os tratos e negócios

(d) «Há nova de cossários

no mar, e, por esse respeito, grande risco nas

fazendas dessa terra. Porém, a valia delas será muito aventajada se chega- rem a este porto a salvamento. Se a cobiça do interesse vence o perigo das encomendas, ponde-as em ventura, que eu a terei para mim por muito boa o vosso bom sucesso.»

(aj Reposta.

(b) Carta a um amigo.

{O Reposta.

(d) Carta mercantil.

96

1

E assim não me desagradou outra, que dezia desta maneira:

(a) «Com

os tempos contrários

à navegação

o foram as ocasiões

ao

nosso trato, que, como as mercadorias não foram requestadas de estrangei- ros, estão ao presente abatidas. Enviai-me menos delas para que, faltando, mais as procurem os mercadores da terra. E nessa vos não descuideis de fazer emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas.»

— Não me pareceu (disse o Doutor) que tirásseis tão boa doutrina de

matéria tão limitada, porque esse primeiro género de cartas tinha eu que não saía de uns termos e princípios que andam escritos no pano da serpe, como são: À feitura desta. Esta não é para mais. Ua de v. m. me deram. Pola de V. m. de tantos do passado. Depois de me encomendar em v. m. E daqui correndo por seus capítulos de quanto a isto e quanto a estoutro, até topar no a quem Deus guarde.

— Esses princípios, (disse Solino) estão j á mui bolorentos, mas ainda

para cartas de mais ponto tenho outros granjeados de alguas secretarias velhas como impressão de Fortes ^, de que me valho nas pressas de ua boa

nota, que não são tão corriqueiros.

— Não me atreverei eu sem esses (disse Leonardo) a ir pror diante, polo que vos hei por notificado.

— Pois assim é, (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande

valhacouto em os descobrir, porque sabei que é comer feito para os ronceiros desta mecânica e o mor trabalho dela é desencalhar a pena com a primeira palavra. E são quatro (b): Como quer que. Tanto que. Depois que, e Antes que. E sabei que não há propósito que saia das unhas destes bilhafres. E nos capítulos de quando isto, etc, se mete em lugar do quanto, no que toca a tal, e no que toca a qual, que, a meu ver, era melhor o item, que tínhamos to- mado aos latinos. Mas os notadores de espada solta esgrimem j á agora sem estes bordões maravilhosamente.

— Bons estão os princípios (disse

D . Júlio), porém haveis de

meter a

letra em todos eles, para que nos não passem por alto.

— Antes por muito rasteiros (respondeu ele) vos ficarão entre os peis.

Porém, tende tento, e vereis que são princípios de perafuso e que se encai-

xam e viram para todas as partes como grimpa:

«Como quer que os meus serviços tade por minha seja de menos preço,

montem ante vós tão pouco, e a von- etc.

(a)

Carta mercantil,

(b)

Termos de escrever antigos reprovados.

' Assim, com mailiscula, na primeira edição; em outras, como, por exemplo, na de 1774

(Lisboa, J, Rodrigues) vem Torres. Em qualquer caso, e na suposição de que o nome está correctamente grafado, não parece fácil determinar se Solino se refere a um impressor ou a um lugar de impressão, mas é possível perceber que alude a algo ou a alguém antigo e de rotineira e incorrecta «impressão», como os bordões com que exemplifica depois.

97

«Como quer o ânimo, com que sou vosso, me não deixa perder

ocasião

em que vos sirva. etc. «Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empresa, etc. «Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu atrevimento, etc. «Depois que me apartei de vós. não soube mais de mi que para sentir saudades vossas, etc. «Depois que meus males me deram lugar para tomar esta pena na mão, a empreguei em procurar novas vossas., etc.

«Antes

que me disculpe de meus descuidos, etc.

«Antes que vos dê larga conta dos meus sucessos, etc.» De modo que são como matéria-prima em que moldareis tudo o que quiserdes. Porém, não quero ir adiante e tomar o tempo ao senhor Leonardo, que o vejo entrar já por ouu-as cartas missivas. — Antes (lhe disse ele) tomei fôlego enquanto vos ouvia falar nessas. E tratando das do segundo género, que são cartas de novas, a que chamam narrativas, de comprimento, que se dividem em cartas de agradecimento, recomendação, disculpa, queixume, e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas, como chamam os latinos. Para as narrativas nos podia servir de exemplo aquela em que o emperador Tibério César dava novas de Itália a seu umão Germânico, que dezia:

(a) «Os templos se guardam: os deuses se servem; o senado está pací-

fico; a república, próspera; Roma, sã; a Fortuna, mansa; o ano, fértil: e isto, que há aqui em Itália, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia.»

Deixo a que César escreveu a Roma das novas de Pérsia, que continha

só três palavras: Cheguei, vi. venci. E a de Gneo Silvio, escrevendo as novas da Farsália, que dezia:

(b) «César venceu; Pompeio morreu; Rufo fugiu; Catão se matou; aca-

bou a ditadura e perdeu-se a liberdade.» E, chegando a algua que com menos aperto faça sua relação, me nã o

pareceu enjeitar a que Marcelo escreveu ao Senado Romano, dando-lhe novas da derrota de Fúlvio, que dezia:

(c) «Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fúlvio Pro-

cônsul, com treze mil homens, foi desbaratado e ferido. Porém, não vos cause temor este sucesso, que eu sou o mesmo que. depois da batalha de Canas, mortifiquei a soberba de Aníbal, vencedor dela. Contra ele caminho brevemente com o meu exército para lhe fazer mais breve a alegria deste triunfo, e em vós desejo muito o mesmo ânimo que levo.»

(a)

Cana de Tibério César a Germânico.

(b)

Carta de Gneo Sílvio.

(c)

Carta de Marcelo ao ^Senado.

98

— Ua carta (acudiu o Doutor) me escreveu os dias atrás um amigo, de

novas de Lisboa, que certo, pola brevidade, me pareceu digna desta alem-

brança, e dezia:

(a) «Esta cidade está abastada, mas descontente; o mar, cheio de cossá-

rios; os portos, de receios; o Paço, de requerentes, e eles, de queixumes:

para os validos tudo é pouco: aos desemparados não cabe nada, do remédio

de tantos males não há boas novas; e as minhas são que entre todos eles me

falta a vossa

companhia.»

— Essa (disse Leonardo) se pode ajuntar por exemplo às antiguas que

relatei. E por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a Io- dos ouvi-las e a mim recitá-las, passo às de recomendação de algua pessoa ou de algum negóceo em as quais tem mais lugar a disposição e omamento dos retóricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a importância da causa que encomendais, facilitando-a na condição e vontade a quem a pedis, concluindo com a petição e oferecimento de vossa parte. E todas estas, e amda um exórdio de sentença que hei por escusado, se vêem em úa carta que há pouco li. que um rei de Portugal antiguo escreveu ao de França, encomen- dando-Ihe um fidalgo que ia estudar a Paris E dezia, tirada de latim, em

que estava num livro estrangeiro:

(b) «Entre as virtudes e excelência dos príncipes me pareceu muito dina

de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassalos benemé- ritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem. E por esta razão me pareceu que devia encomendar a Vossa Majestade D. Pedro de Almeida, que por ocasião de seus estudos vai a essa corte de Paris, posto que claramente conheço eu, sem recomendação minha, vai assas encomen- dado pola liberalidade e brandura com que Vossa Majestade honra e recebe os homens tão ilustres como ele é. Além do que, tem ele tantas partes e entendimentos que não achará melhor terceiro que a si mesmo. Deixo seu pai. D. João de Almeida, conde de Abrantes, que, com suas singulares vir- tudes e claros feitos, adquiriu e conservou até à morte muito estreita privan- ça e amizade com meus antecessores e comigo; de sorte que ponho em dúvida se importe mais a seu filho a minha carta, se a fama e lembrança de seu pai. De qualquer modo o encomendo muito a Vossa Majestade. E de

(a)

Carta moderna.

(b)

Carta de el-rei de Portugal ao de França.

"* Este exemplo, o seguinte e o da carta de Beda a Carlos Martelo, rei de França, que Leonardo citará, foram transcritos de uma colecção de epístolas do terceiro género (cartas de Reis, de Estado e de Govemo) que o próprio R. Lobo organizou: Carias dos Grandes do Mundo, ms. da British Libraiy de que Ricardo Jorge, eminente estudioso do autor da Corte na Aldeia, publicou a primeira parte — Carias de reis, senhores e homens insignes por estes expedidas ou recebidas (F. Rodrigues Lobo, Cartas dos Grandes do Mundo. Coimbra, Impren- sa da Universidade, 1934).

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minhas cousas não ofereço de novo nada. pois, pola irmandade de meus

antepassados e minha, em toda a ocasião deve Vossa Majestade usar delas como se foram comuas a amhos.»^^

Outra achei, no mesmo lugar, del-rei D . Manuel, mais breve