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FAE/UFMG – SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO - LICENCIATURA

ÉMILE DURKHEIM
(1858-1917)

Jean-Claude Filloux

Émile Durkheim “pensou” a educação no âmbito do projeto de construção do que queria


que fosse uma verdadeira ciência social. O próprio projeto inseria-se num contexto
múltiplo: o meio no qual Durkheim passou sua infância, a situação histórica da França
após a guerra contra a Alemanha e a derrota de 1870, o longo período de conflitos
sociais e políticos por que passava seu país.

Nascido em 1852, filho de um rabino, em Épinal, no leste da França, ele preferiu, desde
a adolescência, abandonar a religião judaica e decidiu qual seria sua futura profissão:
professor de filosofia. Entre 1879 e 1882, frequentou a prestigiosa Escola Normal
Superior (ENS), em Paris. A tragédia da Comuna (de março a maio de 1871), uma
espécie de guerra civil após a derrota, marcou-o quando ainda muito jovem. Persuadiu-
se, então, de que, se um dia devesse ensinar, sua missão seria a de ajudar seus
compatriotas a trilhar o caminho rumo a uma sociedade que, unida e solidária, pudesse
superar seus próprios conflitos – e contribuir para estimular as mudanças sociais que
permitiriam a seus concidadãos viver o que ele chamou de “bem por excelência”, ou
seja, a comunhão com os outros.

De fato, era uma época de perturbações sociais e de crise profunda na França.


Politicamente, a Terceira República consegue nascer em 1875, após acirradas lutas entre
republicanos e monarquistas.

Economicamente, a expansão do capitalismo industrial choca-se com uma tomada de


consciência cada vez mais aguda das classes operárias, que se organizam, em especial,
sob a influência das teses socialistas e do marxismo. A isso, vem se acrescentar a
emergência progressiva do espírito “laico”, que procura se opor à dominação da Igreja
sobre a educação. Na época, as ciências físicas e naturais realizam imensos progressos,
reforçando a confiança no poder do espírito científico. O jovem Émile sente que tem um
papel a desempenhar no futuro de sua sociedade e que, decidindo ser professor, poderá
contribuir, através da educação, para esse futuro. Porém, ensinar o grupo, mostrar aos
homens o que pode ser uma “boa sociedade”, pressupõe uma reflexão fundamental e
científica sobre o que é uma sociedade. Antes mesmo de ingressar na ENS, Durkheim já
colocava a questão-chave das relações do homem e do grupo, do fundamento das
sociedades e acreditava que, para edificar uma sociologia científica, era urgente
ultrapassar as ideologias políticas e sociais. No que se refere a esse ponto, sua estada na
ENS foi determinante: com efeito, ali se atam os fios desse projeto de uma ação, ao
mesmo tempo política e pedagógica, mas, uma ação, em primeiro lugar, fundada em um
desvio científico de conhecimento, no caso, a introdução de uma variável nova no
processo de mudança social: a tomada de consciência sociológica na representação que
a sociedade tem de si mesma.

Em 1882, sua decisão está tomada. É o começo de uma carreira, na qual o labor do
sociólogo reforça o do missionário (ou mesmo, do profeta), preocupado com definir as
condições de existência de uma sociedade que respeita a pessoa e elaborar os modelos
da escola e da pedagogia que tornam possível a realização dessas condições. A questão
inicial que toma por base era a mesma que se colocava para as doutrinas políticas e
sociais da época: deve-se privilegiar o bem do indivíduo ou o bem da sociedade? Deve-
se ser “individualista”, como o queriam os liberais e os economistas, ou “socialista”, no
sentido em que o entendiam Proudhon e Marx? Desde sua saída da ENS, Durkheim
nunca desistirá de mostrar que a integração de uma sociedade moderna, resultante da
expansão do capitalismo, é condicionada por uma nova definição do individualismo e
do socialismo, definição esta que só poderia ser dada pela ciência social.

Após alguns anos ensinando filosofia no ensino secundário, Durkheim é nomeado, em


1887, para a Faculdade de Letras de Bordeaux, onde é encarregado de ministrar um
curso de “ciência social e pedagogia”, antes de ir para Paris, em 1902, assumir, na
Sorbonne, a cátedra de “ciência da educação”, transformada em “ciência da educação e
sociologia”, que irá ocupar até sua morte, em 1917.

Institucionalmente, a constituição de uma ciência da educação é, portanto, inseparável


da formalização durkheimiana da própria sociologia. O “pai” da sociologia francesa
será, assim, o primeiro sociólogo da educação, na mesma época em que, entre 1882 e
1886, o ministro Jules Ferry lança as bases de uma escola laica, obrigatória e igualitária.
Situada no âmbito da elaboração de uma ciência social destinada, segundo ele, a
desempenhar um papel eminente no futuro das sociedades, o “pensamento”
durkheimiano sobre a educação deve estar, por consequência, articulado ao modelo de
análise dos fatos sociais construído por Durkheim – modelo este que deve permitir
pensar a educação, tanto em sua natureza, como em sua evolução.

FILLOUX, Jean-Claude. Émile Durkheim. Tradução: Celso do Prado Ferraz de Carvalho,


Miguel Henrique Russo. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 148 p.
(Coleção Educadores)

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