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Revista Cult

Edição 188 - Março/2014

Um passo atrás na formação do jornalista


brasileiro
O espírito crítico se aprende e se desenvolve nos bancos universitários, não nos computadores
das redações de jornal

Ciro Marcondes Filho

Claúdio Abramo disse certa vez que para ser jornalista seria preciso uma formação
cultural sólida, científica ou humanística, mas que as escolas eram precárias.
“Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito?”, se perguntava
ele. “Trabalhei quarenta anos em jornal e acho muito difícil definir o que meia dúzia
de atrevidos em Brasília de nem como curso de jornalismo.” Pois bem, em 27 de
setembro passado, o Conselho Nacional de Educação instituiu para todo o país as
novas diretrizes para os cursos de jornalismo, atendendo à demanda de um único
setor de professores universitários dessa área, interessado em desvincular a
formação do jornalista da cultura científica e humanística da área de comunicação.
A proposta, que se lançou como modernizadora do ensino de jornalismo, em
verdade significou um retrocesso em todo um trabalho de décadas, que se
propunha à construção de mentes críticas na imprensa brasileira.

E não era para menos. Todos os membros da Comissão “Marques de Melo”, que
elaborou o projeto, faziam parte do mesmo credo, compunham um mesmo espírito
que hoje grassa na universidade brasileira, de afastamento da Academia, de suas
pesquisas, sua reflexão de base, suas teorias, e aproximação ao mercado, forçando o
curso a uma preparação mais técnica do que intelectual. Isso tem motivos
acadêmicos e políticos, sem contar o trem da alegria em favor de seus propositores.
A perda do vínculo majoritariamente universitário se compensa com as vantagens
para as empresas, rebaixando o ensino a um apêndice das redações de jornal. Nem
precisa mais se chamar universitário. Afonso de Albuquerque já havia apontado, no
debate realizado pela Revista CULT em outubro passado, que a escolas de
jornalismo hoje em dia existem basicamente para dar emprego a jornalistas. Veja-
se, por exemplo, os concursos acadêmicos para preenchimento de vagas de
professor, em que a pontuação majoritária, em lugar de recair sobre estudos,
publicações e pesquisas, é atribuída pelos avaliadores à atuação profissional na
área, como se isso legitimasse a própria capacidade para formação de novos
jornalistas.

Cria-se, então, um pacto de mediocridade em que os academicamente menos


competitivos associam-se a profissionais interessados em substituir seus quadros
fixos e caros por estagiários de jornalismo, que passarão a abundar as portas das
redações, que, em sua origem, nada têm a ver com a pesquisa, a reflexão cuidadosa
e a inovação. A bem da verdade, a questão do estágio foi proposta a partir da
perspectiva dos grandes centros, onde há fartura de empresas de comunicação.
Quem vai sofrer, de fato, são as faculdades do interior e de cidades pequenas, em
que os alunos irão se digladiar para mendigar as mínimas vagas de estágios,
podendo – inversão de valores – até pagar para obter espaço nas precárias
empresas jornalísticas.

A argumentação dos defensores das alterações no ensino do jornalismo chega a ser


até mesmo anedótica. Os membros da Comissão, em seu parecer de fevereiro de
2009, não se vexam em dizer que a teoria, em relação às práticas de comunicação,
por ter se tornado uma disciplina crítica – afinal de contas, sua obrigação –,
acabava por desprestigiar a prática e ridicularizar os valores do jornalismo. Quer
dizer, o princípio do faça-e-não-me-venha-com-muita-reflexão emerge de maneira
escancarada, sem acanhamento. Não bastasse isso, o documento condena a
tendência das teorias da comunicação de se tornarem “crítica geral dos meios”, o
que teria levado os alunos identificados com o pensamento reflexivo, segundo eles,
a ter que “negar a profissão”, ou, se a praticassem, o fazer de maneira “acrítica e
envergonhada”. De fato, se os que não pensam – ou não são estimulados a pensar –
sentem-se envergonhados diante do pensamento crítico, é hora de pô-los para
pensar, investir na autoestima, que só pode vir da formação de uma boa cabeça. Por
mim, o lamento da Comissão é que a prática reflexiva e crítica abalaria a vocação
dos estudantes, destruindo seus ideais e os substituindo pelo cinismo…

Há, em todo esse contexto, um equívoco de origem, se não quisermos atribuir o


qualificativo de má-fé. A vocação dos estudantes que se dirigem ao jornalismo é a
de atuar criticamente, questionar fatos da sociedade, apontar irregularidades,
denunciar manobras perversas de políticos e poderosos em geral. Isso é espírito
crítico e isso se aprende e se desenvolve nos bancos universitários, não nos
computadores das redações de jornal. Esses são efetivamente os ideais de
estudantes de jornalismo. O cinismo vem do lado contrário, quando o estudante vê
que seus sonhos de mexer com a sociedade esbarram na caneta do editor, na
política editorial da casa, na linha de produção da grande imprensa. É aí que ele
abaixa a cabeça e trabalha como um operário, igual a qualquer outro, ou então parte
para um trabalho mais digno.

Não são os profissionais do jornalismo que devem formar novos jornalistas. No


máximo, eles informam como hoje praticam sua profissão, como faz o médico, o
engenheiro, mas quem deve formar é a universidade, que possui abertura de mente
para isso, espaço para experimentação, oportunidade de discussão e espaços de
leitura e pesquisa. Ao contrário, o abandono do espírito universitário e a mudança
de rumo para seguir, de forma produtiva, aquilo que já se faz no mercado, condena
a área de jornalismo a se rotular como não acadêmica, não universitária no stricto
sensu. Um paradoxo, visto que são esses mesmos professores encantados com as
novas diretrizes que pregam a constituição de uma área de saber específica do
jornalismo, algo abstrato e vaporoso como uma “ciência do jornalismo”. Mas as
coisas não são assim. Jornalismo é uma prática, um exercício subordinado e regido
campos epistemológicos consolidados (ciência política, economia, Filosofia), em
verdade, um campo escasso, fugidio, que necessita de outros saberes para ser
estudado. Tal como uma “ciência da publicidade”, “das relações públicas”, “da
editoração”, não passa de uma ficção universitária.

Foi, em verdade, Walter Lippman quem iniciou a grande confusão, iludindo


estudiosos do jornalismo de que este poderia ser um conhecimento “objetivo”, na
medida em que o jornalista aplicasse um “espírito científico” para a apuração dos
fatos. Contrariamente, o modo de proceder do jornalista está mais para o detetive
Sherlock Holmes do que para um Darwin.
Para a implantação das Novas Diretrizes, a Comissão diz que realizou três
audiências públicas (Rio de Janeiro, São Paulo e Recife). Para a Enecos, principal
órgão representante dos estudantes de comunicação do país, essas audiências não
contemplaram sequer 1% das escolas de comunicação do país. Em seu documento
de análise, ressaltam que pesquisa e extensão passam a ser vistas como
complementares e não mais fundamentais para a formação do jornalista. O TCC,
visto como “trabalho prático, de cunho jornalístico”, expurga da cena todas as
propostas voltados à carreira acadêmica ou de pesquisador, até então aceitas de
estudos de final de curso.

Para Pedro Pomar, editor da revista da Adusp, a Comissão teria ignorado as


proposições da Unesco, em sua publicação de 2010, que fazia referência à
preparação dos estudantes para serem críticos em relação ao seu próprio trabalho e
ao de outros jornalistas. Seu protesto é o fato de o documento da Comissão não
fazer qualquer alusão aos monopólios de comunicação.

Sua “proeza” teria sido conseguir falar de jornalismo sem se pronunciar sobre o
sistema empresarial, o oligopólio, “ firmado sobre a propriedade cruzada de
diferentes meios de comunicação” e que dá as cartas hoje na comunicação e no
jornalismo brasileiro. Sintomaticamente, ignorou-se, nas palavras dele, o sistema
responsável pela produção da maior parte do jornalismo brasileiro, diário ou
semanal, seja ele impresso, televisivo, radiofônico ou digital.

Em verdade, as novas diretrizes terão influência discreta nas universidades


públicas, que têm autonomia para administrar seus programas sem interferência do
MEC. Quem, de fato, sofrerá mais prejuízos serão as faculdades particulares, pois
dependem da validação de seus cursos pelo MEC. O que vai acontecer é que se irá
criar uma rendosa indústria da normatização, espécie de negociata entre poder
público e associações, em que “especialistas em novas diretrizes”, validados pelo
MEC, visitarão essas faculdades, apontarão as “de ciências adaptativas” e sugerirão
consultorias de empresas amigas (suas), que se bem pagas irão pôr essas faculdades
nos trilhos. Bom negócio para muita gente esperta. Laboratórios, bibliotecas,
mesmo programas de disciplinas, tudo deverá obedecer à nova ordem acadêmica e
aos fiscais das NDJ. Em detrimento do ensino, da formação e da carreira do
jornalismo. Motivo para comemoração?

Ciro Marcondes Filho é professor titular de jornalismo da ECA-USP e


pesquisador 1A do CNPq. Escreveu A saga dos cães perdidos (Hackers Editores,
2000)
Coisa absurda, senão grave
Separar o Jornalismo da Comunicação constitui caso de contramão ao mesmo tempo
cognitiva e profissional

Muniz Sodré

Vale a pena refletir um tanto sobre duas frases do estadista e jornalista francês
Georges Clemenceau (1841-1929): (1) “O homem absurdo é aquele que nunca
muda”; (2) “a guerra é uma coisa grave demais para ser confiada aos militares”.
Vale igualmente, a título de exercício, deslocar a primeira frase para uma questão
identitária qualquer, pessoal ou coletiva, como a identidade profissional do
jornalista. Quanto à segunda, é oportuno especular sobre a possibilidade de que
aquilo que se vem chamando de comunicação, ou seja, o grande vetor simbólico do
turbocapitalismo, tenha magnitude maior do que a prática tradicionalmente
confiada aos jornalistas.

De fato, parece-nos um absurdo cognitivo enfiar a cabeça na areia, como no


atributo mítico do avestruz, em face da realidade atual das mudanças do jornalismo
e da própria mídia dita “de massa”. Por outro lado, essa realidade é grande demais
para ser instrumentalmente apropriada – e compreendida – por uma única e
específica categoria profissional.

Na segunda metade do século 19, o jornalismo foi fundamental para o


aperfeiçoamento das condições liberais de discussão e persuasão, abrindo caminho
para a democracia das opiniões num espaço público consentâneo com a Revolução
Industrial e com o liberalismo político e econômico. O jornal era uma entidade
republicana. Dentro deste escopo, seria até possível conceber o jornalismo como
um projeto político maior do que o “jornal” em si mesmo. Já em 1920, o educador e
filósofo pragmatista John Dewey dizia que o jornalismo deveria ir além do mero
relato objetivo de acontecimentos (o modelo em que a imprensa “reporta” e o leitor
consome) para se tornar um meio de educação e debate públicos. Favorecendo o
diálogo mais direto entre cidadãos e jornalistas, a atividade jornalística, mais do
que “reportar”, teria em seu âmago a promoção da “conversa” pública,
incrementando os dogmas da “soberania do povo”.

Na segunda metade do século 20, os mass media (imprensa, rádio e televisão)


buscaram a estandardização de bens e de opiniões, ampliando tecnicamente o
espaço público. Este tinha sido simultaneamente político e cultural. Com os
desdobramentos tecnológicos da mídia massiva, deu-se um alargamento da esfera
pública, mas apenas em suas dimensões materiais ou funcionais, sem real
correspondência histórica com o que antes significavam política e cultura para a
consolidação da república burguesa. O funcionamento do que se chamou “indústria
cultural” não exigia mais do que a eficácia dos fluxos informacionais e a
mobilização da atenção pública pela retórica diversificada do entretenimento. Os
grandes críticos da cultura, Adorno à frente, sustentavam que essa realidade prática
prescindiria de maiores horizontes intelectuais.

Agora, não se trata de uma coisa nem de outra: a mídia eletrônica (internet e suas
derivações), biombo ideológico do capitalismo financeiro, institui-se em arquivo
mundial do saber, com foco cultural na sincronização dos afetos em escala global. A
palavra de ordem é velocidade, e não espírito republicano. Desde a década final do
século passado, a tecnologia digital passou a impulsionar e consolidar a
fragmentação dos públicos da mídia anterior sob as formas de individualidades
comunicantes ou interativas. A antiga interação, regida pelo modelo de uma
“massa” anônima e heterogênea, dá lugar à interatividade, que implica um processo
gradativo de apropriação da tecnologia da comunicação pelos usuários. O fundo
coletivista do modelo de massa anônima transforma-se no de um individualismo de
massa. O que conta aqui não é a opinião argumentada, mas a opinião emocional ou
afetual.

Aos desavisados, isto bem que poderia parecer apenas mais uma construção teórica
para dar conta das novas relações sociais que espelham a lógica ou a ideoestrutura
visível e consciente do mercado de bens e serviços. Elas sempre estiveram
implícitas na dimensão industrial do jornalismo, mas ganharam um vulto ampliado
no âmbito da financeirização e da tecnologização do mundo.

E o fato é que hoje tais relações constituem-se como objeto prioritário dos estudos
de mídia, especialmente nos Estados Unidos, conforme especificou o professor
Ronald Yates, da Universidade de Illinois, ao justificar a substituição de
meras communications por media na designação do seu college: “O que nós
realmente fazemos é estudar e ensinar ‘comunicação midiatizada’ [mediated
communications] (…). Nós estudamos e ensinamos mídia – mídia velha, mídia
nova, mídia emergente, mídia futura. Em resumo, o College of Communications é
sobre mídia. O mais importante de tudo isso (…) não é encontrar uma
nomenclatura precisa, mas dar conta das mudanças que estão ocorrendo (…)
Essas mudanças nas formas de distribuição [de informação e entretenimento] e na
maneira como as pessoas pensam a respeito da mídia provocaram mudanças no
escopo das comunicações como disciplina.” (LIMA, Venício A. “História, fronteiras
conceituais e diferenças”. In: Observatório da Imprensa, nº 749, 4/6/2013).

No campo da formação profissional universitária, noticiou-se no final de 2010 que


“a Universidade do Colorado estuda fechar seu curso de graduação em Jornalismo
para criar um programa que combine preceitos jornalísticos e de ciência da
computação”. O novo curso seria algo próximo de uma “graduação em mídias”.
Segundo a mesma fonte, ao menos outras trinta escolas, entre elas Wisconsin,
Cornell, Rutgers e Berkeley, consideram modificar os cursos para que se adequem
às novas tendências do mercado de trabalho. O foco teórico e profissional é
acomunicação midiatizada por ferramentas tecnológicas (mediated
communications).

Assim, o jornalismo, foco bicentenário da liberdade de expressão consagrada pela


Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e ratificada pela Primeira Emenda
da Constituição dos Estados Unidos, tende a ser desconsiderado como
um conteúdo democrático em benefício da ideia de um serviço ao consumidor, o
que dá ensejo a algo como um jornalismo de dados.

Isto não equivale a dizer que tudo leva aos caminhos teóricos da comunicação, às
ditas teorias da comunicação. Já Wilbur Schramm, um dos principais nomes do
marketing acadêmico da comunicação (aliás, um esperto do auto-marketing…),
após a Segunda Grande Guerra, chamou a atenção para o fato de que a Journalism
Quaterly, a mais antiga revista acadêmica da área (fundada em 1924 com o nome
de Journalism Bulletin), não publicou, durante os seus primeiros 21 anos, “um
único artigo sobre teoria da comunicação”.

Mas equivale a dizer, sim, que a difusão do conceito de comunicação ligado ao


jornalismo deve-se principalmente aos americanos, assim como lhes é devida a
difusão de inovações técnicas neste setor para o resto do mundo. Ainda hoje,
Calhoun, presidente do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais dos Estados
Unidos desde 1999, vê na comunicação “o campo mais importante para o estudo de
muitas dimensões-chave das mudanças sociais”, com uma notável diversidade de
linhas de pesquisa, mas que “ainda não desenvolveu maneiras fortes o suficiente
para integrar e se beneficiar dessa sua diversidade”.

A palavra “campo” não tem aí como referentes a produção e o consumo de


jornalismo, e sim o espaço acadêmico de reflexão e constituição de um saber
positivo sobre a comunicação. Apesar de sua importância social, o jornalismo é tão
só uma parte desse campo, que recobre uma variedade de outras práticas, além dos
problemas atinentes ao laço coesivo das sociedades humanas. Restringir-se ao
jornalismo oitocentista – que permanece colado ao sistema de produção e
distribuição de informações – é reduzir esse escopo teórico.

Em outras palavras, a questão corporativa vem toldando durante muito tempo o


problema conceitual desse campo de conhecimento. E isto não é exclusivo da
comunicação. Mais de umscholar estrangeiro da sociologia pôde observar que a
excessiva concentração de esforços na formação profissional (com vistas à
realização de pesquisas de opinião, surveys empresariais etc.) tem conseqüências
danosas para a reflexão de longo alcance sobre o campo disciplinar, portanto, para
a produção da própria sociologia enquanto forma histórica de intervenção
intelectual na sociedade.

Reinterpretado como “território livre” da cidadania contemporânea, o consumo


expande-se hoje no quadro confortável (sem conflitos, ao contrário do que costuma
ocorrer no plano dos direitos reais ou daqueles ligados ao trabalho) da inserção dos
indivíduos no mercado, neutralizando ou pasteurizando a dinâmica tensional
inerente ao jogo democrático da cidadania ativa, portanto abrindo o caminho
sociopolítico para a pasteurização do jornalismo. É bom lembrar que, ao redigirem
a Constituição dos Estados Unidos, os fundadores daquela nação garantiram já na
Primeira Emenda (Amendment I), os direitos de liberdade de expressão e liberdade
de imprensa, ao lado de quatro outros, por reconhecerem a tensão comunitária da
diferença entre sociedade e Estado. Tensão, aliás, que vem se exasperando nas ruas
do Brasil desde junho passado, inclusive com o ensaio de meios próprios de
comunicação.

Mas, além do economês, o que esperar de um paquiderme burocrático como o


Ministério da Educação solto na solidão do planalto? Nem sequer os doutos do
Supremo Tribunal Federal parecem ter entendido alguma coisa do fenômeno
comunicacional. As recentes diretrizes curriculares do MEC que separam o
jornalismo da Comunicação, isolando-o ao modo de uma ilha sem pontes,
constituem um caso exemplar de contramão ao mesmo tempo cognitiva e
profissional.

A metáfora geográfica comparece aqui para sugerir como oportuna a leitura de um


famoso poema sobre um análogo de “ilha”, o Monte Lu, composto por Su Shi, tido
como um dos poetas e ensaístas chineses mais influentes durante a Dinastia Song,
no século 11. “Nós não conhecemos a verdadeira face do Monte Lu porque estamos
todos dentro”, diz um dos versos.

O acidente geográfico metaforiza a especificidade dos locais em que acontecem os


fatos históricos. O poema chinês pretende indicar que a mera descrição do Monte
Lu é insuficiente para compreendê-lo, sendo imperioso abrir-se para os diferentes
ângulos, para a aceitação de diferentes perspectivas. Mas principalmente abrir-se
para uma exterioridade, de onde possam provir vozes críticas, não meramente
descritivas. Pode-se ampliar a alusão até “regiões” do conhecimento cujos discursos
sobre suas práticas específicas, por motivos de reprodução burocrática de sua
história, não conseguem ultrapassar a autorreferência interna.

O jornalismo é um desses lugares. Historicamente autolegitimada pelo ideário


liberal e hoje pelo discurso da competência técnica, a corporação jornalística – cada
vez mais concentrada por estratégias empresariais e fechadas em modelos de
negócios – dificilmente se abre para a crítica do “senso comum” profissional,
daquilo que o francês Pierre Bourdieu chama de “enorme depósito de pré-
construções naturalizadas, portanto, ignoradas como tal, que funcionam como
instrumentos inconscientes de construção”.

A esse senso comum se pode aplicar a metáfora do Monte Lu. Assim,


uma exterioridade, a exemplo de uma ciência social específica deste campo
produtivo e cognitivo, revela-se inaceitável por parte de uma certa parte de
jornalistas e outros entes, já que estes produzem um discurso supostamente
consciente do sentido de suas práticas, mais adequado à gestãologotécnica daquilo
que julgam ser o social. Não é jornalismo reinventado como micro-história do
cotidiano, isto é, um jornalismo que reinvente analiticamente o amanhã em seu
relato do ontem ou do instante. É uma produção apedêutica, apolítica – absurda,
para se retomar o dito de Clemenceau.

E a questão, como a da guerra, é também grave.

Muniz Sodré é jornalista, sociólogo, professor da Escola de Comunicação da


UFRJ, pesquisador da comunicação e do jornalismo e autor de Comunicação do
grotesco (Vozes, 1973) e Monopólio da fala (Vozes, 1977)
Nem liberdade,nem democracia
A crítica ao monopólio e às suas relações promíscuas com os agentes públicos deveria ser um
eixo central de qualquer proposta minimamente séria

José Arbex Jr.

A proposta de Novas Diretrizes Curriculares em Jornalismo, aprovada pelo MEC


em 27 setembro de 2013 e com implantação prevista a partir de janeiro de 2015,
tem o indiscutível mérito de apontar a especificidade do ensino do Jornalismo
como um campo do conhecimento que não deve e não pode ser diluído na geléia
geral da Comunicação Social. Em contrapartida, reduz o ensino do Jornalismo a um
conjunto de práticas adequadas às necessidades das grandes empresas e ao
“mercado” em geral, esvaziando qualquer possibilidade de reflexão crítica. As NDCJ
foram propostas com base num relatório produzido por uma Comissão de
Especialistas (CE) instituída pelo MEC em 12 de fevereiro de 2009 (Portaria nº
203), e cujas considerações foram submetidas a apenas três audiências públicas
(em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife). As NDCJ refletem, portanto, somente as
convicções de um reduzido grupo que sustenta uma determinada perspectiva: os
professores José Marques de Melo (presidente), Alfredo Vizeu, Carlos Chaparro,
Eduardo Meditsch, Luiz Gonzaga Motta, Lucia Araújo, Sergio Mattos e Sonia
Virgínia Moreira.

Essa não é, obviamente, a avaliação feita pela própria CE, para quem o Relatório é o
resultado de um processo democrático: (v. a íntegra do Relatório
em: www.portal.mec.gov.br/dmdocuments/documento_-
nal_cursos_jornalismo.pdf):

“Assim sendo, foram realizadas 3 audiências públicas, abertas à participação de


todos os agentes dos processos jornalísticos: no Rio de Janeiro, professores,
estudantes, pesquisadores, dirigentes de escolas, cursos, departamentos de ensino e
pesquisa expressaram suas aspirações, representando a comunidade acadêmica; no
Recife, foi a vez da comunidade profissional, representada pelas organizações
sindicais ou corporativas: empresas, setor público e terceiro setor; em São Paulo
manifestaram-se lideranças e representantes da sociedade civil organizada:
advogados, psicólogos, educadores, religiosos, ecologistas, bem como outros
segmentos comunitários. Da mesma forma, os cidadãos interessados na questão
tiveram oportunidade de encaminhar recomendações. Isso foi possível por meio de
uma consulta pública, realizada pelo portal do MEC, na internet, o que permitiu o
recebimento de uma centena de sugestões de todos os quadrantes do território
nacional. Além disso, o presidente e alguns membros da comissão ouviram as
propostas específicas de empresários, profissionais renomados, líderes estudantis,
docentes e pesquisadores, acolhendo todos os subsídios possíveis.”

Deixando de lado a curiosa cartografia segundo a qual cada capital se qualifica


como o melhor local para ouvir determinados segmentos, o leitor tem a impressão
de que se tratou de um processo democrático, aberto e plural. Infelizmente, o relato
contrasta com o que dizem, por exemplo, os estudantes de Jornalismo, por meio da
Enecos – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (íntegra
em: www.enecos.org/enecos-e-a-ndj): “A constituição de três audiências públicas
(Rio de Janeiro, São Paulo e Recife) para a formulação pública da proposta de NDJ
não contempla nem 1% das escolas de comunicação existentes no Brasil. Inclusive
nas três audiências tiveram representações estudantis, porém a ENECOS não
recebeu nenhum convite oficial para a participação nas audiências. É necessário
garantir o debate político sobre o tema abordado para que professores, estudantes,
técnicos e comunicadores sociais possam refletir, debater e propor políticas; sem
debate político, não há proposta política.”

Mas, mais significativo ainda, a maneira como foi produzido o Relatório foi um
retrocesso, quando comparada a um evento também realizado em 2009: a Iª
Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), preparada por audiências
públicas realizadas em 27 unidades da federação, envolvendo diretamente 30 mil
pessoas. Como observa o grupo Intervozes, conhecido por sua militância em defesa
da democratização da comunicação (www.intervozes.org.br/conferencia-nacional-
de-comunicacao-um-marco-para-a-democracia-no-brasil:

“Pela primeira vez, o Estado brasileiro instituiu um mecanismo formal de consulta


à toda sociedade sobre os rumos que deve tomar a comunicação. Pela primeira vez,
deixou de ser prerrogativa de alguns especialistas do campo progressista e,
principalmente, de lobistas do setor privado e seus representantes no poder público
a possibilidade de apontar quais devem ser as ações governamentais e o novo
marco regulatório de uma área estratégica para o desenvolvimento social e
fundamental para a democracia brasileira. (…)

“Centrais sindicais, movimento de mulheres, movimento negro, redes de jovens,


crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, pesquisadores, movimento de
lésbicas, gays, e transexuais, movimento estudantil e empresários debateram temas
como o sistema público de comunicação, as concessões de rádio e TV,
universalização da banda larga, o controle social, entre centenas de outros temas
até então restritos aos espaços dos ‘entendidos’ ou ‘diretamente interessados’ no
assunto.”

A um processo democrático, ainda que necessariamente limitado (por incluir a


participação dos empresários da comunicação), correspondeu um corpo de quase
700 propostas aprovadas (cerca de 600 delas por consenso ou com mais de 80% de
votos favoráveis) que contemplam as demandas da sociedade. Intervozes destaca
algumas das principais:

• Afirmação da comunicação como direito humano, e o pleito para que esse direito
seja incluído na Constituição Federal;
• Criação de um Conselho Nacional de Comunicação que possa ter caráter de
formulação e monitoramento de políticas públicas;

• Combate à concentração no setor, com a determinação de limites à propriedade


horizontal, vertical e cruzada;

• Garantia de espaço para produção regional e independente;

• Regulamentação dos sistemas público, privado e estatal de comunicação, que são


citados na Constituição Federal mas carecem de definição legal, com reserva de
espaço no espectro para cada um destes;

• Fortalecimento do financiamento do sistema público de comunicação, inclusive


por meio de cobrança de contribuição sobre o faturamento comercial das emissoras
privadas;

• Descriminalização da radiodifusão comunitária e a abertura de mais espaço para


esse tipo de serviço, hoje confinado a 1/40 avos do espectro;

• Definição de regras mais democráticas e transparentes para concessões e


renovações de outorgas, visando à ampliação da pluralidade e diversidade de
conteúdo;

• Definição do acesso à internet banda larga como direito fundamental e o


estabelecimento desse serviço em regime público, que garantiria sua
universalização, continuidade e controle de preços;

• Implementação de instrumentos para avaliar e combater violações de direitos


humanos nas comunicações;

• Combate à discriminação de gênero, orientação sexual, etnia, raça, geração e de


credo religioso nos meios de comunicação;

• Garantia da laicidade na exploração dos serviços de radiodifusão;

• Proibição de outorgas para políticos em exercício de mandato eletivo.

O retrocesso assinalado anteriormente consiste no fato de que o MEC resolveu


encarregar “alguns especialistas” da tarefa de conceber as NDCJ, sem levar em
conta as recomendações da Confecom. Em nenhum momento o Relatório se refere
ao monopólio da comunicação exercido por meia dúzia de famílias ou às relações
promíscuas entre os “donos da mídia”, os políticos e os grandes proprietários de
terras, indústrias e sistema financeiro. O Relatório prefere se manter no nível das
generalidades teóricas que nada falam do mundo real, especialmente do Brasil; por
exemplo, ao citar uma a firmação de Manuel Castells segundo a qual na “era da
Informação (…) os meios de comunicação não são os detentores do poder”.

Qualquer cidadão que conheça minimamente como funciona a esfera política


brasileira terá que qualificar muito cuidadosamente essa afirmação.

Não se trata, é claro, de ignorar o fato de que o ensino do Jornalismo exige


conhecimentos especializados que não podem ser supridos por um conjunto de
resoluções. Não se discute, portanto, a necessidade de composição de um grupo de
especialistas para dar forma nal a uma proposta dessa natureza. Mas é óbvio que a
CE deveria, no mínimo, levar em conta as resoluções da Confecom, já que o ensino
do Jornalismo não ocorre em qualquer época e numa localidade abstrata, mas no
início do século 21 e num país chamado Brasil.

O Relatório acerta ao afirmar a especificidade do curso de Jornalismo, rejeitando a


sua diluição no campo geral da “Comunicação Social”:

“O Jornalismo é uma pro ssão reconhecida internacionalmente, regulamentada e


descrita como tal no Código Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho. A
Comunicação Social não é uma profissão em nenhum país do mundo, mas sim um
campo que reúne várias diferentes profissões. (…) Ocorre que, no contexto da
ditadura militar, o Brasil adota, como obrigatório, o modelo de ensino da
Comunicação Social proposto então pela Unesco para o Terceiro Mundo, com a
intenção de substituir todas as profissões do campo da Comunicação
historicamente existentes (Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Editoração
etc.) por uma ‘profissão de novo tipo’, a de ‘Comunicador Polivalente’. O
aniquilamento das profissões consolidadas no campo era então justificado com o
argumento do Terceiro Mundo ‘não necessitar do jornalismo tal qual o existente
nas sociedades desenvolvidas’, mas sim de uma outra forma de Comunicação
Social, voltada ao desenvolvimento econômico e educacional. (…) Tal formulação
teórica foi evidentemente forjada no contexto da Guerra Fria, quando a maior parte
das nações ao Sul do Equador se encontrava sob controle ditatorial e não podia
admitir a existência de uma prática profissional da Comunicação baseada na
liberdade de expressão, no direito à informação e na fiscalização do poder.”

Precisamente porque o que se deseja é “uma prática profissional da Comunicação


baseada na liberdade de expressão, no direito à informação e na fiscalização do
poder”, a crítica ao monopólio e às suas relações promíscuas com os agentes
públicos deveria ser um eixo central de orientação de qualquer proposta
minimamente séria de NDCJ. Se o Relatório afirma, corretamente, que já não
estamos na Guerra Fria, nem debaixo das botas dos generais, os seus proponentes
limitam-se a “matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”.

As NDCJ, para fazer frente aos desafios postos para o Jornalismo contemporâneo,
deveriam apontar propostas capazes de oferecer uma perspectiva democrática à
integração do Jornalismo na vida das comunidades, incluindo midiativismo,
construção e desenvolvimento de redes sociais capazes de proporcionar canais de
cooperação comunitária, adequação de linguagens às especificidades culturais
regionais, utilização das tecnologias de informação para promover valores
identitários condizentes com os direitos humanos. E, claro, preparar os estudantes
também para atuar em veículos da “grande mídia”. Os estudantes, enfim, deveriam
ter a opção de traçar o seu próprio caminho, de acordo com as suas convicções
pessoais. Na liberdade de escolha reside a real democracia; as NDCJ rejeitam
ambas.

José Arbex Jr. foi editor internacional da Folha de S. Paulo, editor chefe do
Brasil de Fato e é atualmente editor da Caros Amigos. É chefe
do departamento de jornalismo da PUC-SP