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Escola Secundária de Santa Maria do Olival −TOMAR

Ano Lectivo 2018/2019

Disciplina: Português Ano/Turma 12º F

Questionário interpretativo: 08/03/2019 Duração: 50 minutos

Leia atentamente o poema que se segue e, depois, responda às questões colocadas.

Ressurreição

Porque a forma das coisas lhe fugia,


O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão lhe apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.

5 Cada fruto maduro apodrecia;


Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia Outono.

Só a razão da vida via mais:


10 Terra, sementes, caules, animais,
Descansavam apenas um momento.

E o vencido poeta despertou


Vivo como a certeza de um rebento
Na seiva do poema que sonhou.

Miguel Torga, Libertação (Coimbra, 1944), in Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 179.

1. Apresente, com base nas duas quadras, quatro razões que justifiquem o sono do poeta.

2. Estabeleça uma relação entre o primeiro terceto e o «despertar» do poeta.

3. Analise a expressividade da metáfora final do poema, relacionando-a com o título.


B
Leia o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Depois, o sol desanda para trás da casa. Começa a acercar-se a tardinha. Batola, que acaba de
dormir a sesta, já pode vir sentar-se, cá fora, no banco que corre ao longo da parede. A seus pés,
passa o velho caminho que vem de Ourique e continua para o sul. Por cima, cruzam os fios da
eletricidade que vão para Valmurado, uma tomada de corrente cai dos fios e entra, junto das
5 telhas, para dentro da venda.
E o Batola por mais que não queira, tem de olhar todos os dias o mesmo: aí umas quinze
casinhas desgarradas e nuas; algumas só mostram o telhado escuro, de sumidas que estão no
fundo dos córregos. Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos, estende-se a solidão dos
campos. E o silêncio. Um silêncio que caiu, estiraçado por vales e cabeços, e que dorme
10 profundamente. Oh, que despropósito de plainos sem fim, todos de roda da aldeia, e desertos!
Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem de longe, cansada, tomba tão
vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela magoada penumbra.
Lá vêm figurinhas dobradas pelos atalhos, direito às casas tresmalhadas da aldeia. Nenhuma virá
até à venda falar um bocado, desviar a atenção daquele poente dolorido. São ceifeiros, exaustos da
15 faina, que recolhem. Breve, a aldeia ficará adormecida, afundada nas trevas. E António
Barrasquinho, o Batola, não tem ninguém para conversar, não tem nada que fazer. Está preso e
apagado no silêncio que o cerca.
Ergue-se pesadamente do banco. Olha uma última vez para a noite derramada. Leva as mãos à
cara, esfrega-a, amachucando o nariz, os olhos. Fecha os punhos, começa a esticar os braços. E
20 abre a boca num bocejo tão fundo, o corpo torcido numa tal ansiedade, que parece que todo ele
se vai despegar aos bocados. Um suspiro estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa até se
alongar, como um uivo de animal solitário.
Quando consegue dominar-se, entra na venda, arrastando os pés. E, sem pressentir que aquela
noite é a véspera de um extraordinário acontecimento, lá se vai deitar o Batola, derrotado por mais
25 um dia.
“Sempre é uma companhia”, in Manuel da Fonseca, O fogo e as cinzas, Lisboa, Editorial Caminho, 2011, pp. 150-151

1. Descreva o espaço físico e social em que se desenrola a ação, tal como é perspetivado por Batola.

2. Identifique o recurso expressivo presente na expressão “Carregado de tristeza, o entardecer demora


anos” (l. 11), comentado o seu valor expressivo.

1a5 Total
20 pontos cada 100 pontos x 2 = 200 pontos
Sugestão de cenários de resposta

1. O poeta «deitou-se e teve sono» porque nada motivava ou inspirava a sua arte poética: não tinha
sentimentos amorosos («nenhum coração era seu dono»), estava incapaz de viver ilusões («Mais
nenhuma ilusão lhe apetecia»); tudo nele e à sua volta era decadência e abandono («Cada fruto
maduro apodrecia; / Cada ninho morria de abandono»). Tudo aponta para o desaparecimento e morte
do poeta.

2. No primeiro terceto, fica claro que o adormecimento do poeta, referido anteriormente, se integra na
«razão da vida» porque só esta é capaz de perspetivar a organização cíclica, o ritmo das estações do
ano. Assim, se no inverno a natureza descansa, na primavera a natureza acorda e os seus rebentos
brotam. O mesmo acontece ao poeta que, após ter «adormecido», «hibernado», «desperta» do seu
sono capaz de deitar os seus rebentos: o poema.

3. A metáfora associa o ofício do poeta à Natureza. O poeta, após ter «adormecido» (no período do
inverno), acorda com a energia da Natureza em plena primavera: a sua seiva, cheia de vitalidade, está
pronta para gerar nova vida. Da mesma forma, a «seiva do poema» está pronta para dar vida a nova
arte poética que significará a ressurreição do poeta que se anuncia no título.

4. A acção desenrola-se num espaço semidesértico, num lugarejo muito pobre («casinhas desgarradas e
nuas»); os campos áridos não trazem mais-valias em termos sociais, «plainos sem fim» e «desertos».
Além disso, a vida é um constante marasmo, influenciado também pela ausência de perspetivas («Um
silêncio que caiu, estiraçado por vales e cabeços, e que dorme profundamente»).

5. A personificação do tempo, apresentado como uma personagem, ajuda a caracterizar a vida «triste»
dos ceifeiros; a morosidade da passagem do tempo evidencia o estado psicológico e a monotonia que
envolve o dia a dia lento, repetitivo e rotineiro destas pessoas.

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